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A crítica comporta um juízo estético.

Tal juízo consiste em uma valoração


individual da obra arquitetônica que o crítico realiza a partir da complexidade da
bagagem de conhecimentos de que dispõe, da metodologia que usa, de sua
capacidade analítica e sintética, e também de sua sensibilidade, intuição e gosto.
Ao mesmo tempo parte de um compromisso ético: a melhoria da sociedade, o
enriquecimento do gosto artístico, a defesa da adequação da arquitetura aos
seus fins. (7)

A atividade do crítico se dirige a compreender a obra para poder explicar ao


público o seu conteúdo. Isto não implica que o crítico possa interpretar
completamente tudo o que compõe a complexidade da obra arquitetônica, nem
que possa esgotar as raízes da capacidade criativa do arquiteto.

O crítico recorre sempre a história e a teoria. (9)

O ensaio como técnica da crítica.

o ensaio entendido como indagação livre e criativa, não exaustiva nem


especializada, sem um caráter rigorosamente sistemático, é a mais genuína
ferramenta da crítica. Todo ensaio deve tentar combinar raciocínios e
comparações inéditas, até certo ponto heterodoxas, com elementos subjetivos.
(...) entrecruzando referências de muitos campos da cultura: pintura, escultura,
arquitetura, literatura, poesia, música, antropologia, religião e ciência.

O ensaio deve ser aberto em sua estrutura, de forma provisória, revogável,


aperfeiçoável. É um teste, uma tentativa, uma aproximação. Sugere, aponta,
esboça, demarca, propõe.

Ensaio como esboço que segue múltiplas rotas, direções e possibilidades. (...)
que nunca pretende esgotar o tema. (10)

Matéria e técnica da crítica

A missão da crítica (...) está impregnada de problemas metodológicos e


contradições. É uma atividade constituída com o mais amplo sentido cultural.
Sua missão é de interpretar e contextualizar, e pode se entender como uma
hermenêutica (interpretação) que revela origens, relações, significados e
essências. A dificuldade da emissão de tal juízo estético aumenta em períodos
de incertezas e perplexidades, como o nosso tempo.

Só existe crítica quando existe uma teoria. Toda atividade crítica necessita como
base uma teoria a partir da qual se possa extrair ou deduzir juízos que sustentam
as interpretações. Ao mesmo tempo, toda teoria necessita da experiência de se
colocar à prova e exercitar-se na crítica. Quer dizer, toda critica é a colocação
de uma teoria em prática, isso é o que conforma este o valor amplamente
cultural da crítica. No caso da crítica de arquitetura, ela deve se relacionar
necessariamente com as teorias que procedem do mundo do pensamento, da
ciência e da arte. (11)

Os espaços da critica
O exercício de cada tipo de crítica mantém uma estreita reação com o espaço
desde o qual ela se exerce. (12)

Diferentemente da crítica literária, cinematográfica ou de arte (...)


A atividade do crítico de arquitetura é nômade. O lugar onde exerce seu juízo é
no interior da mesma obra arquitetônica, recorrendo seus espaços e valorando
sua realidade material dentro do entorno e da cidade. Muito dificilmente a
valoração de uma obra arquitetônica pode se realizar sem visitá-la, estudando
somente através de fotografias. Falta aí a experiência sensorial de perceber as
articulações dos espaços, de ver sua escala e sua luz, de apalpar suas
TEXTURAS, de analisar seus detalhes construtivos, de comprovar seu
funcionamento, de verificar sua situação na paisagem.

O olhar para a arquitetura é dinâmico, exige um passeio (rolê) pelas fachadas e


pelos espaços.

A autêntica crítica de arte e arquitetura deve se desenvolver, portanto, em


presença do original, no seu próprio lugar. (13)

Os objetivos básicos da crítica

O trabalho da crítica consiste em desvelar as raízes e antecedentes, as teorias,


métodos e posições que estão implícitas no objeto.

As características espaciais, a relação entre lógica estrutural e composição, as


questões funcionais, os itinerários e as percepções, as linguagens e materiais
utilizados, devem ser o carro chefe essencial do juízo.

Deve entrar completamente na substância mesma do objeto que vai ser criticado,
recebendo estímulos sensíveis de suas melhores qualidades, de suas próprias
contradições e dos problemas não resolvidos, que permanecem escondidos na
obra. Uma obra é uma criatura viva e vivida; uma peça que cada geração verá e
interpretará de maneira distinta.

A melhor crítica, portanto, é a que concilia as considerações sobre sobre o


conteúdo com as considerações sobre a forma. (19)

Todo objeto deve ser valorado nas direções e esperanças dos projetos coletivos,
dentro de um sentido ético e das linhas de força da história. A crítica deve aclarar
que obras respondem à motores mais especulativos e de dominação, e quais
surgem como expressão das necessidades coletivas. Não se deve esquecer que
toda construção surge em um contexto social, político e econômico, e que toda
grande obra é o resultado de decisões políticas e da força dos interesses
privados e públicos, dos diversos grupos e operadores urbanos. Cada obra de
arquitetura possui uma missão ideológica. A crítica, portanto, deve desconfiar
dos argumentos do poder, deve mostrar os mecanismos de gestão e deve
relembrar que os pactos entre os setores que decidem, impuseram uma
realidade inapelável que transformou muitas possibilidades em heterodoxias ou
utopias não realizadas. Definitivamente, a mesma cidade é o banco de provas e
comparações mais eficaz: a obra arquitetônica interpretada em seu contexto
urbano dá a medida de seu impacto social, de seu valor em relação com outras
obras arquitetônicas e com a memória da cidade. (20)

A crítica é um trabalho tanto mais profundo quanto mais consciente é de suas


limitações

Crítica e obra de criação

Na relação da crítica com obras de criação, reside também a sua possibilidade


de chegar a ser, também, habitada por um valor criativo, artístico, seja por suas
próprias virtudes literárias ou pela influência que sua nova visão de arte tenha
podido dar sobre futuras criações. Como a poesia, a critica pode recorrer a
metáfora e pode descobrir sintonias e comparações que a filosofia, a história ou
a ciência dificilmente ousariam indicar. (21)

Teoria e crítica

Não existe crítica sem teoria, mas também não tem sentido a teoria sem a crítica
da obra. (22)

E não somente crítica, história e teoria se comunicam, como também o campo


da crítica de arquitetura não é, em absoluto, autônomo. Ao que a arquitetura se
situa entre a arte e a técnica, sua linguagem e interpretação estão sempre
relacionados com as linguagens e interpretações da arte, da ciência, e do
pensamento. Definitivamente, a missão da crítica de arquitetura deveria consistir
em estabelecer pontes em dois sentidos entre o mundo das ideias e dos
conceitos, procedentes do campo da filosofia e da teoria, e o mundo das formas,
dos objetos, e das criações artísticas, dos edifícios. Portanto a missão da critica
não consistirá somente em teorizar nem somente em analisar a obra, mas
também reconduzir esses fluxos contínuos entre teoria e criação, dos mundos
que não podem ser entendidos separadamente. (23)