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Sermão de Santo António aos Peixes- Português - 11º Ano

Padre António Vieira :


• Morreu com 89 anos em 1697, lutou pelos direitos humanos índios (e também
judeus) mas defendia a escravização africana. Foi várias vezes preso e incomodado
pela inquisição.
• Defendia a existência de império de paz universal, onde todos os homens se
respeitasse e convivessem, respeitando as ideologias religiosas e politicas de cada
um.
• Era um jesuíta porque pertencia à companhia de Jesus. Antes dos jesuítas, outras
ordens religiosas como os dominicanos ou os Franciscanos, tinham estado no Brasil,
mas não tinham conseguido lutar pelos direitos dos índios como os Jesuítas
conseguiram.
Barroco - Entre os finais do século XVI e meados do século XVIII.
Púlpito - Varanda onde se faziam os sermões.
Sermão - É um discurso oratório, uma pregação com intenções didáticas, morais ou mesmo
políticas, baseado na palavra de Deus que pretende transmitir.

Pregar ao peixes, Fazer ouvidos de mercador, Fazer orelhas moucas, Entrar a cem e sair a
duzentos. -» sinónimo de indiferença por parte do interlucotor; não dar atenção ao que se
diz.

Santo António- Séc. XII Padre António Vieira- Séc. XVIII

Entre Santo António e o Padre António Vieira existem pontos comuns: o nome e a atitude
de não desistirem da doutrina em que acreditam. Ambos partiram do princípio que se os
homens não os querem ouvir, os peixes ouvi-los-ão.

Alegoria – Todo o sermão é uma alegoria, visto que transmite outros sentidos que não o
sentido literal. Diz-se b para significar a.
Estrutura Estrutura Interna
Externa
Capítulo I Introdução/ Apresentação do tema (corrupção na terra/ defesa dos
Exórdio direitos dos indígneas brasileiros) partindo de um conceito
predicável “Vós sois o sal da Terra”
Capítulo II • Referência aos deveres do sal
• Louvores em geral aos peixes: - obediência, atenção,
quietude, ordem;
- afastamento dos
homens
Capítulo III • Louvores em particular aos peixes:
Desenvolvim - O peixe de Tobias (poder curativo);
ento - A Rémora (persistência);
Exposição/ - O Torpedo (poder persuasivo);
Confirmação - O Quatro-Olhos (capacidade de distinção entre o
bem e o mal);
Capítulo IV • Repreensões em geral aos peixes:
-Vícios condenáveis: - itiofagia (comem-se uns aos
outros);
-Cegueira e vaidade que os conduz à perdição;
Capítulo V • Repreensão em particular aos peixes:
-Vícios dos peixes que devem ser censurados:
-Roncador (soberba e arrogância)
-Pegador (parasitismo e oportunismo);
-Voador (ambição e vaidade);
-Polvo (traição);
Capítulo VI Conclusão/ Desfecho forte e persuasivo: -Julgamento dos
Desfecho peixes/homens
- Apelo ao louvor a Deus

Capítulo I

• Quer nos louvores quer nas repreensões que faz aos peixes, o Padre António Vieira
faz sempre analogias com Santo António, para evidenciar as virtudes do Santo e
denunciar os vícios dos homens.
Não esquecer também que neste sermão as virtudes dos peixes são defeitos dos
homens e os defeitos dos peixes são, também, defeitos dos homens. Logo, os homens só
têm defeitos.
O Sal não salga A Terra não se deixa salgar
• Os pregadores não pregam • Os ouvintes, sendo verdadeira a
a verdadeira doutrina ou doutrina que lhes dão não a
querem ouvir
• Os pregadores dizem uma • Os ouvintes preferem fazer o que
coisa e fazem outra os pregadores fazem do que aquilo
que eles dizem
• Os pregadores pregam-se a • Os ouvintes, em vez de servir a
si e não a Cristo Cristo, servem os seus apetites, as
suas vontades

Cristo – Um argumento de autoridade é algo pronunciado por alguém de prestígio que


não pode ser contestado (por exemplo Cristo).
O Conceito Predicável é “Vos sois o Sal da Terra”. A metáfora do sal diz respeito ao facto
de o sal na época ser usado para conservar os alimentos não os deixando deteriorar.
Assim, também os pregadores deveriam conservar as “almas” (terra) e preservá-las da
corrupção. O paralelismo é feito entre as ações do sal e da terra. A intenção é contrapô-
las e apurar a verdadeira causa da tamanha corrupção na terra.
As citações bíblicas servem para conferir autoridade às palavras do pregador, uma vez
que, os seus argumentos são suportados por textos sagrados, neste caso, nas próprias
palavras de cristo. O seu objetivo é dar ainda um carácter mais persuasivo ao discurso.

Capítulo II

Virtudes Gerais dos Peixes: -Obediência; Oposição entre as virtudes dos peixes e a

-Ordem; falta dessas virtudes nos homens; crítica


-Quietação; ao comportamento humano.

-Atenção
O Padre António Vieira elogia a obediência, tranquilidade e a atenção com que os peixes
ouviram Santo António, ao contrário dos homens, que o perseguiram, em vez de o
ouvirem e seguirem. A história de “António” realça a natureza distinta dos homens e dos
peixes. Pode entender-se também que o orador se serve do nome próprio e do relato
que produs como uma narrativa autobiográfica já que também ele é vítima da
incompreensão dos homens-

Aristóteles - Argumento de autoridade que serve para reforçar o argumento do Padre A.V.
A distância face aos homens garante aos peixes a liberdade que os outros animais não têm.
Os exemplos dados comprovam que os animais que vivem perto dos homens são
subjogados por ele.
Capítulo III

Peixe de Tobias Rémora Torpedo Quatro-Olhos


Característica Grande; com um Pequena; com Pequeno, Quatro olhos,
s ar feroz; muita força produz dois virados
entranhas descargas para cima e
sagradas eléticas dois virados
para baixo
Louvor(es) O fel cura a Impede o leme As descargas Consegue
cegueira; O de se mover elétricas defender-se
coração expulsa constituem a dos perigos da
os demónios; sua defesa água e do ar
contra quem os
quer pescar
Exemplo(s) Santo António A língua de A língua de David
Humano(s) Padre António Santo António, Santo António, Padre António
Vieira ou seja a força que levava os Vieira
das suas homens a
palavras mudar de
atitude e o
deixar explorar
o seu
semelhante
Alegoria e Alegoria da Parar significa Converter, levar Sabe distinguir
Crítica Social palavra de Deus moderar ao arrependi- o bem do mal,
quer nas palavras impetos Mento e à ou seja, na
de Santo António humanos, mudança e vida doutrina
quer nas do Padre impedir que os católica, não se
A.V.: -iluminar e homens se esquecer da
afastar os deixem dominar existência do
demónios(vícios)d instintos e maus céu e do
os humanos; costumes inferno
Crítica Social: os
homens não se
deixam doutrinar
nem abandonam
os seus vícios.

Peixe de Tobias
Perante estes louvores, o pregador conclui que é possível aplicá-los também a Santo
António:
-Este possui um coração igualmente puro e bom que pretende afastar s vícios
dos homens, tal como o coração do peixe tinha o poder de afastar os demónios;
-O fel do peixe de Tobias pode ainda ser comprado às palavras de Santo
António que tentavam influenciar a audiência, ou seja, de certo modo curar a cegueira
de valores presente nos homens criticando as suas atitudes;
-A atitude de Tobias perante a investida do peixe pode ainda ser comparada à
atitude do auditório ao ouvir as palavras de Santo António, pois em vez de escutarem
atentamente as críticas sábias de Santo António, percebendo que o Santo só queria
melhorar as suas atitudes, o auditório permanecia inconvertível e assustado com as
verdades que o Santo lhes apresentava.

Perante esta última semelhança, o pregador demonstra o seu descontentamento e


desilusão por não haver nenhum anjo que revela-se no auditório as qualidades que
existem dentro do coração quer de Santo António quer do Padre A.V. Ou seja, o Padre
A.V. lamenta que os homens não tenham a sorte que teve Tobias por ter alguém que o
alerta-se para as virtudes do peixe que tinha nas mãos, pois acredita que se fosse
possível o auditório ver as entranhas do pregador, certamente ia perceber que este
apenas pretendia “alumiar e curar as cegueiras e lançar fora os demónios”, revelando
assim as verdadeiras intenções do seu discurso.

Rémora

• Nau Soberba- representa o excesso de orgulho, a pessoa que gosta de se “armar” e


mostrar mais do que aquilo que é. É altivez, arrogância, vaidade;
Efeitos da língua de Santo António- Leva “as velas” a amainarem a “tempestade”(vaidade)
interior e exterior.

• Nau Vingança- Ofensa, punição. Representa a fúria e a impetuosidade que arrastam


as pessoas que passam a vida a viver em função de se vingarem de alguém.
Efeitos da língua de Santo António- Detém a fúria, acaba com o ódio e com a ira, e faz içar as
bandeiras da paz.

• Nau Cobiça- Representa a ambição, a ânsia, a ganância. Condena os homens que


acumulam demasiados bens materiais.
Efeitos da língua de Santo António- Salva a nau, porque esta vai sobrecarregada e corre o
risco de “afundar-se”.

• Nau Sensualidade- A cegueira e a desorientação representam o que sucede aos que


se deixam levar por todos aqueles que têm grande poder de persuação, e que os
fazem cair em tentação.
Efeitos da língua de Santo António- impede a nau de naufragar, ou seja, os seus ocupantes
readquirem a capacidade de ver e voltam a assumir o rumo certo.
Peixe Torpedo
Simboliza o poder, a importância que as palavras têm para os homens. O efeito
“elétrico” que devia ser aplicado na Terra para que todos oiçam e ajam de forma como
escutaram, servirá para converter e mudar os homens.
Os pecadores representam aqueles que se aproveitam do poder para satisfazerem a
sua ganância.
O Padre António Vieira compara o instrumento de pesca(cana) utilizada para pescar
peixes com o tipo de pesca na Terra, ou seja, os pescadores na Terra “pescam” (roubam)
igualmente e muito, mas “tremem” muito pouco.
Relativamente aos tipos de canas que se usam na Terra para pescar, elas vão relacionar -
se com o poder que está associado a cada grupo social. Por ordem crescente, o Padre
António Vieira vai denunciando os diferentes grupos sociais que abusam do seu poder para
sustentarem a sua ganância. A anáfora “pescam” tem como objetivo reforçar a ideia de que
na Terra se pesca muito (peca muito) e se treme pouco(não há arrependimento).

Quatro-olhos
O peixe quatro-olhos simboliza o olhar que devemos ter na vida se praticarmos a fé e a
razão, o céu espera-nos, ter vaidade enquanto cá andamos leva-nos para o inferno.
Este peixe representa a visão e a iluminação. No Brasil, muitas pessoas viviam em
“cegueira” total, em pecado por só conseguirem avistar o que estava à sua volta(a vaidade).

No final do capítulo III, o Padre António Vieira regressa ao elogio que já tinha feito aos
peixes no capítulo II, mostrando que entre todos os animais, os peixes são os preferidos de
Deus: referência aos dias de abstinência em que se pode comer peixe, ao milagre da
multiplicação dos pães e dos peixes, aos peixes como alimento dos pobres.