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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE


DEPARTAMENTO DE NUTRIÇÃO
NUTRIÇÃO E DIETÉTICA III

Prof.ª Me. Mayara Santa Rosa

2018.1
Lactação
Estágio de vida no qual a criança dependerá do leite

materno para crescer e se desenvolver.

 Necessidades nutricionais da nutriz (lactante) são maiores do que as da


gestante.

 Volume médio de leite produzido diariamente:

 Nos primeiros 4 a 6 meses de vida: 750 a 800 mL/dia;


 No segundo semestre: 550 mL/dia.
 Variação inter e intrapessoal;
 Principal determinante - demanda da criança;
 Depende da hidratação da mãe.
Estado nutricional e produção láctea
 Dieta materna: o consumo de macronutrientes não interfere em sua concentração

no leite materno. Já o de micronutrientes pode afetar a composição do leite.
 Mulheres lactantes subnutridas crônicas e com baixo peso apresentam adequada
produção de leite humano e concentração de proteínas (MONTEIRO, CAMELO
JR., 2007).

 Alguns fatores que provocam diminuição da produção láctea:


 Anticoncepcionais (estrogênio e progesterona): inibem a prolactina;
 Cigarro e bebidas alcoólicas em excesso:
 Álcool – a partir do consumo de 1g/kg/dia – transferido para leite materno;
 Diminui a concentração de vitamina A, lactose e a produção leite e aumenta síntese lipídios na
glândula mamária.
Álcool - Efeitos na criança:
Diminuição da sucção;
Alteração do sono;
Deficiências psicomotoras.
Avaliação do estado nutricional
 Indicadores antropométricos, dietéticos, bioquímicos, clínicos. (limitação – ausência

de padrões de referência para lactantes);

 A retenção do peso ganho na gestação (retenção de peso pós-parto) é um dos


principais fatores de risco para a obesidade em mulheres;

 A perda de peso é maior nos três primeiros meses pós-parto e para as lactantes que
amamentam exclusivamente;

 A recomendação da perda de peso após o parto será de acordo com o estado


nutricional da lactante (utilizar o peso atual).
Avaliação do estado nutricional

IMC atual 
Meta Perda de peso
recomendada
 Perda de peso recomendada após o parto (IMC segundo WHO, 2002)
‹ 18 Alcance de um IMC saudável (eutrofia) 0,1 kg/mês (aceitável)
Baixo peso

≥ 18,5 e ‹ 25 Manutenção do peso dentro da faixa de eutrofia 0,8 kg/mês


Eutrofia
≥ 25 e ‹ 30 Perda de peso até atingir o IMC dentro da faixa 0,5 a 1 kg/mês
Sobrepeso de eutrofia
≥ 30 Perda de peso até atingir o IMC dentro da faixa 0,5 a 2 kg/mês
Obesidade de eutrofia

ACCIOLY; SAUNDERS; LACERDA, 2009



FAO/WHO (2004)
Necessidades energéticas (Adicional)


 Nos primeiros 6 meses: Produção de leite – média de 807 mL/dia;

Acréscimo de 675 kcal/dia

 Após 6 meses de lactação: Produção média de leite – 550 mL/dia

Acréscimo de 460 kcal/dia

(FAO/WHO, 2004)
Necessidades energéticas (Dedução)

 Dedução de energia para perda de peso



 Reserva de gordura acumulada durante a gestação:

- A reserva de energia acumulada durante a gestação pode cobrir parte das


necessidades de energia nos primeiros meses de lactação: 6.500 kcal/kg, logo:

6.500 kcal/kg x quantidade de kg/mês a perder = kcal/mês, dividido por 30 (dias/mês) =


total em kcal/dia para reduzir da energia total

Perda de peso deve ser programada até atingir o IMC dentro da faixa de eutrofia
ou próximo a ela.

Para mulheres de baixo peso, essa dedução não é necessária.


(FAO/WHO, 2004)
Necessidades energéticas


VET = GE + adicional energético para lactação – energia para a
perda de peso

GE = TMB x NAF

(FAO/WHO, 2004)
Necessidades energéticas


Necessidades de energia (TMB), segundo a idade – mulher adulta

Idade (anos) Mulheres


18 – 30 14,818 x P(kg) + 486,6
30 – 60 8,126 x P(kg) + 845,6

P = peso atual

(FAO/WHO, 2004)
Nível de atividade física - adulta


Estilo de vida sedentário ou atividade leve = 1,53 (1,40 – 1,69)
Indivíduos que não caminham longas distâncias, geralmente usam veículo para transporte, não praticam
exercício ou esportes regularmente e gastam a maior parte do tempo de lazer sentados ou parados, com
pouco deslocamento.

Estilo de vida ativo ou moderadamente ativo = 1,76 (1,70 – 1,99)


Indivíduos com ocupação que envolve mais gasto energético que os descritos para estilos sedentários.
Pessoas com atividade ocupacional sedentária e que praticam regularmente atividades físicas moderadas
a vigorosas, durante parte da rotina diária. Por exemplo, indivíduos que praticam diariamente 1 h de
exercício moderado, tais como corrida, ciclismo ou atividade aeróbia.

Estilo de vida vigoroso ou moderadamente vigoroso = 2,25 (2,00 – 2,40)


Indivíduos que realizam trabalhos intensos ou atividades de lazer intensas por várias horas. Mulheres
com ocupação não-sedentária que dançam ou nadam uma média de 2 h por dia, ou trabalhadores rurais
que usam equipamentos manuais por várias horas ao dia e caminham longas distâncias, muitas vezes
carregando peso.
FAO/WHO (2004)
VET - eutrofia
 F.C.S. tem 27 anos, pesa 62 kg e mede 1,60 m. Pariu há 4 meses e está

amamentando exclusivamente. É advogada, faz 1,5 hora de treino
funcional 3x/semana e 1 hora de corrida 2x/semana. Deseja voltar ao
peso pré-gestacional (58 kg).

IMC atual = 62 / 2,56 = 24,2 km/m2 – Eutrofia

IMC com peso desejado = 58 / 2,56 = 22,7 – Eutrofia

62 kg (atual) – 58 kg (peso desejável) = 4 kg

(FAO/WHO, 2004)
VET - eutrofia

TMB 18 – 30anos = 14,818 x P + 486,6
14,818 x 62 + 486,6
918,716 + 486,6 = 1405,32 kcal

1405,32 kcal x 1,76 (NAF moderadamente ativo)


= 2473,36 kcal

+ 675 kcal (adicional) = 3148,36 kcal

(FAO/WHO, 2004)
VET - eutrofia
 Dedução de energia para a perda de peso – 0,8kg/mês – lactante eutrófica:

6.500 kcal/kg x 0,8 kg/mês = 5200 kcal/mês

5200 kcal/30 dias = 173,33 kcal/dia deverão ser reduzidas para a perda de peso

3148,36 kcal - 173,33 kcal

VET = 2975 kcal/dia

Atenção: quando a criança entrar em alimentação complementar (a partir do 6º mês) ou deixar de ser
amamentada, os cálculos devem ser refeitos conforme a situação da mulher no momento.
(FAO/WHO, 2004)
VET - sobrepeso
 F.C.S. tem 27 anos, pesa 68 kg e mede 1,60 m. Pariu há 4 meses e está

amamentando exclusivamente. É advogada, faz 1,5 hora de treino
funcional 3x/semana e 1 hora de corrida 2x/semana. Deseja voltar ao
peso pré-gestacional (58 kg).

IMC atual = 68/2,56 = 26,6 – Sobrepeso

IMC com peso desejável = 58/2,56 = 22,7 – Eutrofia

68 kg (atual) – 58 kg (peso desejável) = 10 kg

(FAO/WHO, 2004)
VET - sobrepeso

TMB 18 – 30anos = 14,818 x P + 486,6
14,818 x 68 + 486,6
1007,62 + 486,6 = 1494,22 kcal

1494,22 kcal x 1,76 (NAF moderadamente ativo) = 2630 kcal

+ adicional de 675 kcal =


3305 kcal/dia

(FAO/WHO, 2004)
VET - sobrepeso
Dedução de energia para a perda de peso – 1 kg/mês – lactante com
sobrepeso: 
6500 kcal x 1 kg/mês = 6.500 kcal/mês

6.500 kcal/30 dias = 216,67 kcal/dia deverão ser reduzidas para a perda
de peso

3305 kcal – 216,67 kcal

VET = 3088 kcal/dia


Atenção: quando a criança entrar em alimentação complementar (a partir do 6º mês) ou deixar de ser amamentada, os
cálculos devem ser refeitos conforme a situação da mulher no momento.
(FAO/WHO, 2004)

IOM (2002/2005)
Necessidades energéticas
DRI

EER nutriz = EER (pré-gestacional) + energia necessária para a produção de
leite – energia para a perda de peso

Primeiros 6 meses de lactação =


EER (pré-gestacional) + 500 – 170 → + 330

Após 6 meses de lactação =


EER (pré-gestacional) + 400 – 0 → + 400

(IOM, 2002/2005)
Necessidades energéticas
DRI
 EER pré-gestacional 
 Adulta (19 anos a 50 anos) – peso pré-gestacional

EER = 354 – (6,91 x idade [anos]) + PA* x (9,36 x peso [kg] + 726 x estatura [m])

* PA é o coeficiente de atividade física:


 PA = 1.00 (sedentarismo – atividades diárias normais)
 PA = 1.12 (pouco ativa – 30 a 60 minutos de atividade física moderada)
 PA = 1.27 (ativa – 60 minutos ou mais de atividade física moderada)
 PA = 1.45 (muito ativa – 120 ou mais de atividade física, 60 moderada e 60 intensa)

(IOM, 2002/2005)
EER - eutrofia
F.C.S. tem 27 anos, pesa 62 kg e mede 1,60 m. Pariu há 4 meses e está


amamentando exclusivamente. É advogada, faz 1,5 hora de treino
funcional 3x/semana e 1 hora de corrida 2x/semana. Deseja voltar ao
peso pré-gestacional (58 kg).

EER = 354 – (6,91 x idade) + PA x (9,36 x peso + 726 x estatura)


EER = 354 – (6,91 x 26) + 1,27 (9,36 x 58 + 726 x 1,60)
EER = 354 – 186,57+ 1,27 (542,88 + 1161,6)
EER = 354 – 186,57 + 1,27 (1704,48)
EER = 354 – 186,57 + 2164,69
EER = 2518,69 – 186,57
(IOM, 2002/2005)
EER = 2332 kcal
EER - eutrofia

Até 6 meses de lactação = EER (pré-gestacional) + 500 - 170

EER = 2332 kcal + 330 Kcal

EER = 2662 kcal/dia


Atenção: quando a criança entrar em alimentação complementar (a partir do 6º mês) ou deixar de ser amamentada, os cálculos
devem ser refeitos conforme a situação da mulher no momento.

(IOM, 2002/2005)
Necessidades energéticas
Para nutrizes com sobrepeso ou obesas, deve-se calcular o gasto

energético total sem considerar o adicional da lactação,
orientando a mesma no consumo de alimentos de sua preferência.

Não pode haver prejuízo na amamentação. Evitar dietas


restritivas!

 A redução de até 500 kcal do VET habitual parece não promover


prejuízo na amamentação. Apenas monitorar cálcio e vitamina D.

(VITOLO, 2015)
Necessidades energéticas


Na prática clínica, o cálculo de dieta deverá ser individualizado,
em razão do momento da lactação e da perda de peso desejada.

O profissional deve monitorar o peso da nutriz e,


individualmente, prescrever o valor energético verificando a
condição nutricional.
Recomendações de proteínas
 Utilizar 1,1g/kg/dia – recomendável que seja o peso desejável + adicional
para lactação

Adicional proteico lactação:
1° Semestre: + 19 g/dia
2° Semestre: + 12,5 g/dia
(WHO, 2007, apud ACCIOLY; SAUNDERS; LACERDA 2009)

Proteínas (10 a 35% do VET)


(IOM, 2005)
Determinação proteica
 
F.C.S. tem 27 anos, pesa 62 kg e mede 1,60 m. Pariu há 4 meses e está
amamentando exclusivamente. É advogada, faz 1,5 hora de treino
funcional 3x/semana e 1 hora de corrida 2x/semana. Deseja voltar ao
peso pré-gestacional (58 kg).

Proteína = 1,1g/kg (peso desejável) + 19g adicional

1,1 x 58 = 63,8g + 19 = 82,8 g de proteína/dia

82,8g x 4 kcal = 331,2 kcal 2662 kcal – 100%


331 kcal – X
x = 12% do VET
Recomendações de lipídios


Gorduras (20 a 35% VET), sendo menos de 10% do VET de
gorduras saturadas; 6 a 10% do VET de gorduras poli-
insaturadas. Completar com monoinsaturadas.

(IOM, 2005)
Recomendações de carboidratos
Carboidratos totais (45 a 65% do VET), sendo provenientes de

carboidratos complexos, e menos de 10% do VET de açúcares
simples;

Fibras (AI): 29g/dia (lactantes de 14 a 50 anos)

(IOM, 2005)
Vitaminas e Minerais


 As necessidades da maioria dos micronutrientes estão aumentadas e são
determinadas a partir das DRI.

 Atenção para vitaminas A, D, K, C, B2, B6, B9, B12; Ca e F;

 A suplementação deve ser evitada e discutida para os programas nacionais de


suplementação:

Mulheres no pós-parto recebem 40 mg de


ferro elementar todos os dias até o 3º mês
pós-parto.
Práticas Alimentares: Contaminação no LH

Medicamentos

- Muitos medicamentos são transferidos para o LH, podendo causar
efeitos adversos no desenvolvimento da criança (SNC);

- Se necessário, deverá ser avaliado o custo-benefício para a mãe e a


criança;

- Evitar o uso de suplementos dietéticos de forma indiscriminada, sem


supervisão médica e/ou de um nutricionista.
Práticas Alimentares:
Alimentos e agentes ambientais
 Alguns alimentos e substâncias químicas devem ser observados:

Aspartame: quando a mãe ou criança tem fenilcetonúria;

Café, chocolate, chás mate e preto: cafeína excessiva poderá causar


irritabilidade, insônia e atividade intestinal exacerbada na criança
(café: não exceder 2X/dia).

Chumbo e mercúrio: neurotoxicidade.


Elaboração do plano alimentar


 O plano alimentar deve atender às necessidades
adicionais de energia, macro e micronutrientes;

 Ter sempre como meta de ingestão a RDA ou a AI dos


nutrientes e não ultrapassar o UL;

 Estimular a ingestão de diversos tipos de alimentos,


não somente pelos fatores nutricionais para a lactante
e o bebê, mas também por veicularem o sabor dos
alimentos ao leite materno.
Elaboração do plano alimentar


 A alimentação deve conter todos os grupos de
alimentos, levando-se em conta sempre os hábitos
alimentares e a situação econômica da mulher;

 Fracionamento em 6 refeições. A sugestão é que haja


uma programação das refeições entre as mamadas;

 Aumentar a ingestão hídrica – 3,8 L, sendo 3,1 de


água e bebidas (IOM, 2004). Atenção às bebidas
açucaradas!
Elaboração do plano alimentar


 Estimular o consumo de alimentos fontes de vitaminas A,
C e dos minerais Ca e Fe;

 Baixo consumo de leite deve ser compensado por outras


fontes de cálcio;

 Desestimular o uso de edulcorantes;

 Desencorajar dietas com valor calórico <1800 kcal: evitar


dietas líquidas e medicamentos para emagrecimento;

 Investigar tabus e práticas alimentares adotadas para


aumentar a produção de leite.
Elaboração do plano alimentar


 Mulheres vegetarianas: talvez precisem receber
suplementação de vitamina B12;

 Estimular o consumo de peixes 3x/semana: ômega


3;

 Até o momento, não se tem evidências que


indiquem restrições de alimentos da dieta materna
para prevenção de alergias alimentares no lactente.
Elaboração do plano alimentar


 Obesidade: observação desde a gestação para ganho de
peso adequado – orientar quanto à amamentação;

 Estimular a atividade física: compatível com o período


(geralmente após 30 ou 40 dias do parto);

 Desencorajar o tabagismo – efeito maléfico para a mãe e o


filho e possível diminuição da produção de leite.

 Uso de bebidas alcoólicas: altera o odor e diminui os


reflexos da sucção. O consumo esporádico deve ser
mínimo e dar intervalos de 2 horas para amamentar.
Alimentação da mãe e cólicas no bebê

 Adaptação fisiológica do recém nascido;

 Início na segunda semana de vida e desaparecimento por volta de 3-4


meses;

 Origem: multifatorial - aspectos ligados à mãe, ao lactente e ao


ambiente.
Alimentação da mãe e cólicas no bebê


 Alimentos que podem predispor a cólicas (não
comprovado cientificamente): chocolate,
amendoim, café, refrigerante, frutas cítricas,
leite que a mãe ingere, embutidos, cebola, alho,
repolho, couve flor, entre outros.

 Prova terapêutica: retirar o alimento suspeito


por um tempo e reintroduzi-lo, observando
atentamente a reação da criança.
Referências

 ACCIOLY, Elizabeth; SAUNDERS, Cláudia; LACERDA, Elisa Maria de Aquino. Nutrição em
obstetrícia e pediatria. 2.ed. Rio de Janeiro: Cultura Médica: Guanabara Koogan. 2009, cap. 13.

 MONTEIRO, Jacqueline Pontes; CAMELO JUNIOR, José Simon. Nutrição e Metabolismo:


Caminhos da nutrição e terapia nutricional da concepção a adolescência. Rio de Janeiro:
Guanabara Koogan. 2007.

 VITOLLO, Márcia Regina. Nutrição da gestação ao envelhecimento. Rio de Janeiro: Rubio, 2015.

 www.saude.gov.br