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O Rio Tietê e o Saneamento Básico de São Paulo

Marcelo Teixeira
Arquiteto e Urbanista graduado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (1999).
Mestre e Doutorando em Ciências pelo Programa de Historia Social pela Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo - FFLCH-USP.
Docente do SENAC - Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial.

Endereço: Rua Professor Rodolpho de Freitas, 355 - Vila Império – São Paulo - SP - CEP:
04406-000 - Brasil - Tel: (11) 5034-2666 – marcelo@dau.com.br

Introdução

São Paulo fincou suas bases entre rios e, entre eles o Tietê, grande rio, no nome de
origem tupi, na extensão e na importância.
Seu nome, oriundo do Tupi tem o significado de verdadeiro, no sentido mais amplo da
palavra nos levando a entender seu importante papel na história da cidade, sempre
esquecido ou tratado de forma secundária nas questões urbanas da cidade.
Esse artigo procura iniciar um debate sobre o futuro desse rio, a partir da sua história e
da história do Saneamento Público, e, quem sabe, traçar as potencialidades dele na São
Paulo do século XXI.

Breve História de um Rio.

Mesmo nos primórdios de sua fundação, quando se implantava num triangulo entre o
córrego Anhagabaú, o rio Tamanduateí a atual Praça João Mendes e se encontrar
relativamente afastado desse rio, sua relação com ele sempre foi intensa.
Como transporte, teve fundamental papel para a expansão da colonização levando as
bandeiras em direção ao interior, facilitando o comércio e a comunicação com os novos
povoados. “De longa data as crônicas municipais, estão de volta e meia, a falar no Rio
Grande, no Anhembi e no Tietê. Caminho mais curto para Paranaíba, Carapicuíba, Ó,
Guarulhos, Uruaí e Mogi, o rio ligava esses núcleos povoadores, facilitando o comércio
e a vigilância das autoridades”. 1

1
Nóbrega, Humberto de Mello, História do Rio Tietê, 2 ed. São Paulo, 1978 p. 199.
Segundo Caio Prado Junior, São Paulo era um “centro natural do sistema hidrográfico
da região”, formado pelo rio-tronco do sistema, o Tietê, acessível pelo Tamanduateí, e
pelos afluentes: Pinheiros, Cotia e Piracicaba2.
Mais tarde, quando São Paulo de Piratininga se aproximou de suas margens, o rio se
tornou o local onde se escondiam negros fugidos em suas matas, chamado por Nóbrega
de coiteiro3, lavavam-se roupas, tomavam-se banhos e os enamorados se encontravam
apaixonados. “Para as paulistanas que viviam numa época em que os sacis eram
considerados uma realidade temerária, as assombrações e os homens sem roupa eram
alguns dos perigos existentes nos rios e em suas margens... Por vezes, os dois casos
eram apenas um: homem sem roupa, coberto com um lençol. Entre pilhéria e o temor,
alguns rios foram motivo de críticas. Melhor evitá-los, sobretudo quando se era mulher
jovem e de boa família. Mas, visto de outro ângulo, os rios podiam, também, servir
como abrigo aos homens sem roupa ou sem lei” 4. Tornando-se, inclusive, muitos anos
depois, local de prática de esportes, natação e regatas.
Não obstante, enquanto, em todo o mundo, a higiene pessoal através do banho, as
necessidades fisiológicas e o destino dos dejetos eram questões tratadas separadamente
em termos de hora e lugar, ainda no Brasil, a higiene pessoal era resolvida nas casas de
banho e, para a maioria da população, especialmente os escravos e pobres, mas não
somente, nos banhos de rio. No mato, resolviam-se as necessidades fisiológicas. As
mulheres utilizavam os urinóis e os pequenos cômodos das latrinas, construída, muitas
vezes, sobre buracos que de tempos e tempos eram esvaziados, levando-se os resíduos
para bem longe – nas várzeas do Tamanduateí e Tietê.5
Os rios e a natureza, inclusive, nunca foram vistos como bens valiosos, necessários e
dignos de serem cuidados. Apesar das normas existentes e das pesadas multas aplicadas
a quem as desrespeitava, a população se desfazia de seus dejetos mesmo sendo eles os
principais meios de se obter água. Segundo Afonso A. de Freitas, 80% dos recursos
hídricos utilizados pela população eram oriundos diretamente, em 1860, dos rios, e não
dos chafarizes, e vendidas pelos aguadeiros, que percorriam a cidade com carroças

2
Prado Júnior, C. Evolução política do Brasil e outros estudos, 4 ed. São Paulo, 1963, p. 105.
3
Nóbrega, Humberto de Mello, op.citada, p. 137.
4
Sant`Anna, Denise Bernuzzi de, Cidade das Águas – Uos de rios, córregos e bicas em São Paulo
(18822-1901), Ed. Senac, São Paulo, 2007.
5
Bueno, Laura Machado de Mello, O saneamento na urbanização de São Paulo. FFLCH-USP, São
Paulo, 1994.
repletas de pipas cheias de água6 e mesmo assim nunca se foi dada à devida atenção a
esse recurso.
A relação da cidade com seus rios sempre foi conflituosa. O Tietê, por exemplo, sempre
implacável, inundava toda a várzea, incomodando a população e as autoridades. Sua
pequena declividade e sua sinuosidade acabavam por dificultar o fluxo das águas e,
conseqüentemente, na estação chuvosa provocar seu transbordamento.
Tais infortúnios ocuparam grande parte dos séculos XIX e XX as pautas das autoridades
em busca de uma solução para as cheias, mas, sempre em segundo plano os problemas
de saneamento público. À medida que a cidade cresce, saindo de cerca dos poucos 21
mil habitantes em 1837 para cerca de 240 mil, os problemas também.
A partir de 1870, a capital paulista deixa de se tornar uma simples cidade comercial da
colônia para se tornar uma importante capital do café. Conseqüentemente a expansão
para as várzeas, atrás das indústrias, também ocorre, e junto com ela os esgotos que
começam, principalmente no inicio do século XX, a serem depositados no Rio Tietê.
Junta-se ao problema das enchentes a necessidade de se constituir um amplo sistema de
abastecimento de água para a capital. O primeiro sempre esteve presente de forma direta
na administração por interferir diretamente com a ocupação territorial da população. Em
1841, procedia-se o primeiro planejamento racional de obras visando o “encanamento”
do Tamanduateí, e, assim, se sucederam diversos estudos e providências, sempre
incompletos.
Em 1903, o Fiscal dos Rios José Joaquim de Freitas dirigira ao Secretário-Geral da
Prefeitura de São Paulo, um extenso memorial criticando o estado sanitário do rio Tietê
ressaltando a importância de acabar com “os espessos depósitos de lodo em
fermentação, exalando mau cheiro e cobertos de moscas e pernilongos que daí eram
atirados para o centro da cidade ou para os diversos arrebaldes, conforme a direção dos
ventos reinantes”.7
Somente em 1922 o assunto da retificação do Rio voltou de forma consistente quando o
então prefeito de São Paulo Dr. Firmino Pinto entrou em acordo com o Governador do
Estado que forneceu diversos estudos de intervenção. Em 1923 se inicia novos estudos
sob a tutela do Doutor Saturnino Brito, renomado engenheiro de saneamento público.
Brito apresentou em dezembro de 1925 seu projeto. A retificação do rio entre Guarulhos
e Osasco, sinuosíssimo, com cerca de 46 quilômetros, se reduziria a 26; a declividade

6
Freitas, Afonso A. de, Tradições e reminiscências paulistanas. Edusp – Itatiaia, São Paulo, 1985, p. 33
7
Nóbrega, Humberto de Mello, ap. cit., p. 205
media, de 13 centímetros por mil metros, passaria a ser 25 da Penha à Ponte Grande8,
atual das Bandeiras.
Tal comissão se restabeleceu em 1927, quando alterou algumas bases e dirigido por
Saturnino definiu quatro pontos capitais: defesa contra as inundações periódicas e
aproveitamento das áreas alagadiças; navegação mais rápida e fácil entre os pontos
extremos da cidade; afastamento, para jusante das descargas dos esgotos, feitos em
locais de grande densidade demográfica sem depuração. A maior enchente de até então,
em 1929 deu novas informações ao novo diretor da comissão Dr. João Florence de
Ulhoa Cintra que acabou por modificar o plano de Brito. Previram-se novas pontes,
aumentaram a área de intervenção chegando à retificação até a jusante da grande curva
que o rio faz em Osasco, suprimiram as comportas, e inseriram duas grandes avenidas,
as marginais tudo financiado pelo loteamento das áreas remanescente.
A crise de 29 e a Revolução de 30 impediram a imediata execução e o plano de Cintra
só teve sua execução iniciada em 1938 pelas mãos do urbanista então prefeito Prestes
Maia sob coordenação do Engenheiro Lysandro Pereira da Silva.
Apesar da retificação, as enchentes continuam sendo problema para a cidade e sua
população e o Rio Tietê passou cada vez mais a se tornar apenas um esgoto a céu
aberto.
Essas questões referentes às enchentes foram tratadas separadamente do Saneamento
Público, havendo sua retificação ocorrida de forma alheia a esses problemas.

Breve História do Saneamento Básico de São Paulo

Até meados do século XIX, o abastecimento de água era feito ou através dos
aguadeiros, já citados, ou dos chafarizes que distribuía as suas águas aos escravos que a
buscavam para seus senhores.
O crescimento urbano, o surgimento dos primeiros bondes por tração animal (1872), a
substituição dos lampiões de querosene por gás (1872) e logo depois em 1888, a
instalação da primeira luz elétrica são alguns dos sinais de transformação da cidade. O
saneamento, por sua vez, também ensaiava suas transformações. As nascentes ao redor
do núcleo urbano já não abasteciam as necessidades dos paulistas bem como os rios
locais, como o Tietê, com suas águas insalubres, já poluídas.

8
Nóbrega, Humberto de Mello, Op. Cit., p. 205.
Nesse cenário, já se iniciavam diversas discussões sobre o futuro da água em São Paulo.
Trazer água dos mananciais próximos, como a Cantareira, mais caro, ou filtrar e utilizar
o próprio Tietê, com maiores cuidados técnicos e sanitários, como propunha o
Secretário da Agricultura, Dr. Luiz Piza, em 1904.
Em 1877, nasce a Companhia Cantareira & Esgotos, para dotar São Paulo de água e
esgotos. Fundada por Clemente Falcão Souza Filho, Raphael Paes Barros e Antonio
Prost Rodovalho já inicia suas atividades sob suspeitas levantada pela imprensa. Mesmo
assim em 27 de novembro de 1878, as obras de construção do reservatório de água da
Consolação, abastecida pela Serra da Cantareira.
Já em 1882, tem se notícia do controle de incêndio no Hotel Espanha pelo recém
formado Departamento de Bombeiros que utilizaram como fonte de água os hidrantes
instalados pela companhia.
Em 1883, o Bairro da Luz se torna o primeiro bairro a se beneficiar do primeiro distrito
dos esgotos bem como do fornecimento de água com a ligação de 71 prédios. Esses
primeiros sistemas (alguns em funcionamento até hoje) eram mistos, coletando tanto as
águas pluviais quanto os esgotos.
Com o objetivo de forçar os munícipes a aderirem ao sistema da Companhia Cantareira,
esta mandou demolir os chafarizes que havia construído e mais os do Rosário e do
Carmo, construídos pelo Poder Público. Tais ações motivaram a população a se rebelar,
controlada apenas pela polícia, e, mais tarde, com forte oposição da imprensa que
denunciava constante falta de água, o Governo Estadual rescindiu o contrato de
concessão fundando em 1893 a RAE - Repartição de Água e Esgoto. A Cantareira não
cumpriu o firmado enquanto “O Estado em 2 anos estendeu a rede à metade do número
total de prédios servidos anteriormente pela rede da Cia Cantareira, que levou 10 anos
para ser constituída”.9 Saneamento não se mostrou lucrativo para o setor privado.
A RAE, em contrapartida da morosidade da antiga Cia. Cantareira e do rápido
crescimento urbano da cidade, ampliou as aduções e as ligações de água e esgotos
buscando outros mananciais como fonte. A partir de 1843, houve a expropriação de
542,8 hectares, isto é, quase toda a bacia hidrográfica das nascentes do ribeirão
Ipiranga, represando as águas na Água Funda, idéia essa abandonada logo depois devido
a crescente ocupação urbana do entorno.

9
Oseki, Jorge Hajime, Pensar e Viver A construção da Cidade: canteiros e desenhos de pavimentação,
drenagem de águas pluviais e de rede de esgotos em São Paulo, Doutorado, FAU-USP, São Paulo, 1991,
p. 13.
Em 1898 foram executadas obras emergenciais para a captação de água do Rio Tietê na
altura do Belenzinho, sendo recalcadas para a zona baixa do Brás passando por galerias
filtrantes. Essa se colocava como primeira proposta sem a utilização dos mananciais, o
que provou grande manifestação da classe médica por considerar as águas do Rio Tietê
insalubres e responsáveis pela ocorrência do grande número de doenças no Brás.
“O Brás, por exemplo, era um bairro que apresentava a maior porcentagem de óbitos na
faixa etária de 0 a 5 anos, óbitos causados por moléstias ligadas ao aparelho digestivo:
gastroenterite, enterite e diarréia. As águas não tratadas do rio Tietê não podiam ser
inocentadas de contribuírem para isso”10. Sendo esse o primeiro conflito, senão um dos
únicos, segundo Ribeiro, entre a saúde pública e a engenharia sanitária, sugerindo
também o início de uma longa interferência do poder econômico das empreiteiras e da
Light no saneamento de São Paulo.
Nesse ano, a RAE passa a ser dirigida pelo Engenheiro Theodoro Sampaio, sendo
desvinculada, inclusive do setor de obras públicas que no ano seguinte, em relatório ao
Secretário de Agricultura, Alfredo Guedes afirma as impossibilidades de atender regiões
como Perdizes, Lapa, Água Branca, Cerqueira César e Vila Mariana devido ao
crescimento desordenado da cidade.
Tal relatório apenas adiantou uma crise que se instalaria em 1903, período de grande
estiagem que, junto com o acelerado crescimento urbano, levaria o Governo Estadual e
Municipal à diversas ações, entre as quais, a criação da Comissão de Obras Novas de
Abastecimento de Água da Capital .
Em 1907 foram barrados os ribeirões Cabuçu e Barrocada, que abasteciam a parte baixa
da cidade e em 1914 a implantação da primeira fase de adução do rio Cotia, a oeste de
Itapecerica, cujas águas eram levadas aos reservatórios do Jaguaré e Araçá que juntos
com o da Consolação e da Avenida 13 de Maio compunha o sistema de armazenamento
e com as adutoras de Cantareira, Guaraú, Cabuçu e, agora, o Cotia, fechavam o sistema
de abastecimento de água de São Paulo.
Nova crise assola a cidade, atingindo também as indústrias, em 1925 e a Comissão de
Obras Novas de Abastecimento da Capital, chefiada pelo Eng. Henrique Novaes
responde com a implantação da Adução de Rio Claro, gigantesca e polêmica obra que
consistia na construção de barragens, estações elevatórias, uma adutora de 80 km, 3
subdutoras que cortavam a cidade mais 4 reservatórios, o principal, Mooca e outros 3,

10
Ribeiro, Maria Alice Rosa, História sem fim... Inventário da Saúde Pública, Ed. UNESP, São Paulo,
1983.
Lapa, Penha e Pompéia. Segundo Novaes tal empreendimento seria o suficiente para
atender a população até 1942, quando São Paulo teria 1,5 milhão de habitantes. Tal
incumbência ficou dividida entre a Comissão de Saneamento da Capital, encabeçada
pelo Prof. Theodoro Ramos responsáveis pelas obras da Adutora e a RAE pela
distribuição.
Outra discussão polêmica e demorada, também acalorada pela crise de 25, foi a inclusão
do reservatório de Guarapiranga nos sistema paulista de abastecimento. A Light,
empresa inglesa responsável pelo fornecimento de luz a São Paulo, apresentou o
“Projeto Serra”, concebido pelo Engenheiro Billings, no qual se mostrava a construção
da Represa do Rio Grande (Billings) com objetivo de regularizar a vazão da usina
hidrelétrica de Parnaíba (Edgar Souza).
Saturnino de Brito elaborou parecer favorável a adução do reservatório da Guarapiranga
encaminhado por Ramos a LIGHT como pedido de fornecimento de água de seu
reservatório, com resposta positiva e a imediata construção da adutora em direção a
Santo Amaro.
Em 1928, a LIGHT tem se “Projeto Serra” aprovado por decreto, lhe concedendo o
direito de “canalizar, alargar, retificar e aprofundar o rio Pinheiros e os afluentes Grande
e Guarapiranga, drenando, beneficiando e saneando os terrenos localizados nas
respectivas zonas inundáveis”11.
O Sistema de Abastecimento Guarapiranga, inaugurado em 1929, consistia em captação
e recalque até a Estação de Tratamento do Alto da Boa Vista, adução até a Elevatória da
Rua França Pinto, no sopé da Avenida Paulista. O investimento desse sistema foi, de
acordo com Savelli, de 9000 contos, pequeno próximo ao do Rio Claro, de mais de
130000 contos.12
Com Guarapiranga, o sistema de captação se mantém até os anos 60, ampliando-se
apenas as redes de adução e reservatórios.
A Revolução de 30 federalizou as decisões e os investimentos. A política cafeeira
paulista perdeu espaço e poder o que acabou afetando a política de saneamento local.
Em 1936, através de ato municipal a área urbana de São Paulo é definida e em 1941 se
definem a mesma como seu campo de atuação.

11
Decreto 4487, de 9 de Novembro de 1928.
12
Savelli, Mario, Histórico do Aproveitamento das Águas da Região Paulistana, Palestra ministrada no
Instituto de Engenharia publicada na Rev. DAE, ano 25, nº 53, São Paulo, Junho de 1964.
Em 1942, o engenheiro Plínio Withaker, então diretor da ERA, apresenta o Plano Geral
de Distribuição de Água e o Plano Geral de Coleta e Tratamento Depurador de Esgotos
para a Capital tornando-se uma marca a introdução de programas de longo prazo.
Withaker acreditava que se teria, com as devidas obras financiadas de forma racional
pela futura arrecadação, em até 10 anos um sistema de abastecimento digno de uma
capital como São Paulo, porém este plano se manteve inalterado até o fim da segunda
guerra.
Dependente tecnologicamente, de materiais e fornecedores internacionais, durante esse
período, a RAE só executou 3 sub-adutoras.
Mesmo com o fim da guerra, logo em 1945, a RAE abriu concorrências para novas
obras, mas não obteve sucesso, pois nem as empresas norte-americanas se apresentaram,
por greves, nem as francesas, ainda não reestruturadas.
Em 1948, as obras para a ampliação da Guarapiranga , a 2º etapa que incluía a ETA –
Estação de tratamento de água Alto da Boa Vista e um grande sistema, incluindo
interligações com outros sistemas, adutoras, reservatórios e elevatórios, começou a ser
utilizado em 1954, a partir de quando a maioria das obras dos planos de Withaker serão
executados.
Em 1954, a RAE é transformada em autarquia com a criação do DAE – Departamento
de Águas e Esgotos. Apesar do resultado da autarquia não ser o esperado, como nas
demais criadas, DER´s e DNER, o DAE conseguiu passar dos 1942 quilômetros em
1953 para mais de 5000 quilômetros em 1964.
Em 1958, a continuidade das obras permitiu às águas vencerem o espigão da Paulista,
podendo então abastecer a região norte da cidade, cruzando o Tietê.
A crise se agrava na década de 60. Novas propostas de aduções para o abastecimento da
região metropolitana fora da bacia hidrográfica do Tietê começam a se fortalecer
paralelamente a proposta de construção do chamado sistema Alto Tietê constituído da
somatória de propostas já apresentadas no decorrer dos anos 30 e 40 pelo RAE, DAE e
por outras diversas comissões de obras novas criadas no decorrer da história do
saneamento paulista quando se propõe a utilização dos afluentes da margem esquerda
do Tietê, a jusante de São Paulo, através do represamento dos Rios Ponte Nova,
Birittiba, Itapanhaú, Jundiaí, Itatinga e Taiaçupeba, porém agora com uma visão de uso
múltiplo dessas águas. Os reservatórios seriam utilizados para controle de enchentes,
abastecimento de água e irrigação.
A década de 60, principalmente após o golpe de 64, foi marcado pelos grandes planos e
projetos cuja decisão era muito centralizada, porém com uma política gestora do setor
mais eficiente.
Em 1973, o Governador Laudo Natel promulgou a Lei 119 criando, como coroação
dessa política setorial focada na centralização do controle da execução de obras,
operação técnica e gerenciamento financeiro dos recursos de saneamento, a SABESP,
que funde diversos órgãos até então responsáveis, o COMASP, DAE, SANESP, SAEC,
SBS, SANEVALE e FSB13, presidida pelo Gen. Phelippe Galvão Bueno da Cunha.
A SABESP iniciou em 1975 atuando através de concessão em 3 municípios herdados do
DAE, sendo a Capital, Cotia e Embu, e atualmente atinge 366, atendendo 26,1 milhões
de habitantes.
Em 1975 assume Klaus Reinach que conseguiu, nos primeiros anos da SABESP, um
significativo aumento da rede de distribuição alavancado por programas de ligações
gratuitas que elevou de 3000 para 25000 pontos ligados à rede. Tal ação, contrária a
prática até então vigente pelas empresas anteriores que aguardavam os pedidos devido a
insuficiência de rede de distribuição e água para ser fornecida, teve como resultado,
além da ampliação do acesso à água, uma melhora significativa na imagem da empresa.
Outra ação, extremamente importante para a consolidação da SABESP, foi promovida
pelo então prefeito e ex-presidente da empresa, Reynaldo de Barros, que levou água as
Favelas através de convênio entre a Prefeitura e a SABESP.
A significativa ampliação da rede de distribuição colaborou diretamente na melhoria de
saúde da população diminuindo significativamente a mortalidade infantil na região
metropolitana de 94,38 (1973), 54,98 (1981) e 32,25 (1989)14, bem como a queda
continua de ocorrência de doenças infecciosas e parasitárias.
A SABESP procurou nos primeiros anos a ampliar ao máximo a rede captação e de
distribuição da água e posteriormente, principalmente na década de 80 até meados de 90
com a coleta e tratamento de esgotos atingindo atualmente 79% de esgoto coletado e
63% tratados.

13
COMASP – Comissão de Abastecimento e Saneamento de São Paulo, DAE – Departamento de Águas
e Esgoto, SANESP – Saneamento do Estado de São Paulo, SAEC - Superintendência de Água e Esgotos
da Capital, SANESB - Companhia Metropolitana de Saneamento de São Paulo, Fesb – Fomento Estadual
de Saneamento Básico, SBS - Saneamento da Baixada Santista, Sanevale - Saneamento do Vale do
Ribeira.
14
Bueno, Laura Machado, Op. Cit., p. 165
Para aumentar esses índices e atingir suas metas de coleta e tratamento de esgotos, não
se viu outra alternativa que não passasse pelo Rio Tietê, o que levou ao lançamento do
Projeto Tietê .

Potencialidades do Rio Tietê no século XXI

O governo estadual lançou o Plano de Despoluição do Rio Tietê, chamado, como dito,
de Projeto Tietê. Em convênio com o BID, o projeto prevê:
• Plano Diretor de Esgotos da RMSP - uma programação de obras para coleta e
tratamento de esgotos.
• Plano de Controle dos efluentes industriais.
• A execução do rebaixamento da calha do Tietê entre a foz do Rio Pinheiros e a
Barragem Edgar de Souza.
• A Canalização do Rio Cabuçu e a construção das Barragens do Alto Tietê.

Apesar das diversas críticas que tal projeto sofre como sendo apenas “maquiagem”, ou
o falso alarde ecológico de despoluição do Rio, diversos estudos o apontam como um
rio “morto”, enfim, críticas comuns à obras grandiosas e polêmicas, como afirma
Bueno, “O projeto Tietê apresenta-se como uma colcha de retalhos – velhos projetos
engavetados – que tornam-se coerentes à luz do discurso ambientalista no Urbano. As
obras de drenagem e de esgoto, obras tipicamente de saneamento básico e urbanas, são
apresentadas à opinião pública como ação voltada ao renascimento do Rio Tietê.
Entretanto a meta incluída para as obras de esgotamento e tratamento é insuficiente para
mudar as características da sua água para a vida aquática”15, é importante relevar que
tais intervenções trouxeram a tona novas discussões mudando a percepção da população
para o problema bem como sua reação, trazendo-a mais próxima e de forma mais
engajada a questões do saneamento.
A paisagem urbana das margens dos rios Tietê e Pinheiros vem sofrendo mudanças
gritantes, mais visíveis no segundo devido a sua ocupação diferenciada, e de forma
paulatina no primeiro em virtude das obras do próprio Projeto Tietê, do Rodoanel e do
Metrô que terão seu impacto mais visível somente a longo prazo. Tais mudanças

15
Bueno, Laura Machado de Mello, Op. Cit., p. 183.
acabam por interferir na maneira do paulistano enxergar sua cidade e, até mesmo,
respeitá-la.

Conclusão

Há, nos meios políticos, a máxima que obra enterrada não rende votos o que torna o
saneamento básico uma área pouco interessante ao poder público.
Porém, quando se interfere num símbolo como o Rio Tietê, há uma mudança gritante
em todas as referências da população, como se o poder público ressaltasse e avalizasse
sua importância, mostrasse de fato o interesse em mudar o panorama da cidade e que
está investindo e trabalhando para isso.
Em alguns casos, sabe-se notoriamente que não há mudança por parte da população se
não houver sinais claros de que algo já está acontecendo, e não só se baseando no
“vamos mudar”, no “vai acontecer”.
Assim sendo, o projeto do Rio Tietê, apesar das criticas inquestionáveis, ao meu ver, do
apelo político, da ineficiência técnica em relação ao saneamento e as enchentes, tais
mudanças já sinalizam uma luz no fim do túnel para ambas questões como para o
próprio rio e para o saneamento paulista.

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