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ESBOÇO

PARAUMA
AUTO-ANALISE

Pierre Bourclieu
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A cultura como sistema aberto,
como acto e drama que se expressa no conceito
T,í - na palavra ou imagem -
a eis o horizonte desta colecção,
que englobará as ciências humanas e sociais,
a análise e a interpretação do quotidiano
no mundo actual.
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t. tl n/lts't'Ílnto l)A SAUDE. de Hans-Ceorg Gadamer


2. As tilit,A(,'Cltis tN't'EnNactoNAts DESDE 1945,de Maurice vaisse
l. A("lI)l.l l)llSl(iNllfl(lADO, de Jerome Bruner
4. ('ON('lil lI)Si S()('lol.(X;l('OS FUNDAMENTAIS, de Max Weber
5. I{l1l,A('oliS lN'l lil{NA('IONAIS DE 1918 A1939, de Pierre Milza
6. 'l^li
liMl'oli ('Â'l lVOS: AS ('ltlAN(IAS TV de Liliane Lurçat ESBOÇO
7. lllll{AN('A li lrtll(Jlt() l)A litlltOl'A, tlc Hans-Georg Gadamer
t{. INl'ttot)Ll('À0 A t,st('()t.(xitA s(x'tAl- MoDIIRNA, de Giovanni
(ior:ci, l-aura Occhirri
PARA UMA
9. O PROCI|SSO DA l,DUCIAÇÃO, de Jerome Bruner
I0. QUESTÕES DE RETORICA: LINCUAGEM, RAZÃO E SEDUÇÃO,
AUTO-ANALISE
de Michel Meyer
ll. O PAROXISTA INDIFERENTE, de Jean Baudrillard
12. O MEDICO NA ERA DA TECNICA, de Karl Jaspers
t3. A EVOLUÇÃO pSICOI-OCICA DA CRIANÇA, de Henri Wallon
14. ITEVOLUÇÃO TNOUSTkAL E CRESCTMENTO ECONOMICO NO
SEC. KX, de Chantal Beauchamp
t5. AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS DII I87 I A 1914, de Pierre Milza
16. INTRODUÇÀO A SOCIOLOCIA, de Norbert Elias
17. O NASCIMENTO DO TEMPO, de llya Prigogine
Itl. A FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO. tlc Olivier Reboul
19. AS RELAÇOES INTERNACIONAIS DE 1800 A 187 l, de Benoit
Pellistrandi
]0. PSICANÁLISE E RELICIÀII, dC EriCh FrOMM
2I. A INTERPRETAÇÃO DAS AFASIAS, dC FTCUd
22. PARA UMA SOC]IOLOCIA DA CIÊNCH, de Pierre Bour<Iieu
21. IISBOÇO PARA UMA AUTO-ANÁLISE, de Pierre Bourdieu
Pierre lirurtlit'rr

Título original:
Esquisse pour une Auto-Analyse

O Editions Raisons d'Agir,2004

Tradução: Victor Silva

Capa de José Manuel Reis ESBOÇO


Depósito Legal no 223537105

Impressão, paginação e acabamento:


PARA UMA
MrNuBt- A. P.qcnpco
para AT]TO-ANÁLISE
EDIÇÕES 70, LDA.
Março de 2005

ISBN: 972-44-1239-3

Direitos reservados para lingua poúuguesa


por Edições 70

EDrÇÕES 70, Lda.


llrrir l,uciano Cordeiro, 123 -2" Esq'- 1069-157 Lisboa / Portugal
Telefs.: 213 I 90240 - Fax: 213190249
e-mail: edi.7 O@mail.telepac.pt

www.edicoesT0.pt

l:,1;r olu:r cslii protegida pela lei. Não pode ser reproduzida,
rro torLr orr crtr parte, clualquer que seja o modo utilizado,
rrr, lrrlrl,r lolotírlrirr c xorooópia, sem prévia autorização do Editor.
I )rrrrlrprlr trlnsllr('ssíio li lei dos Direitos de Autor será passível
tle ploccclimento judicial. ediÇões 70
Isto não é uma uuloltio,qrttfitr

Ptgnnlt Boult»tt,t t
Nota do Editor Francês

Análise sociológica quc cxclui a psicologia,


excepto algumas rnanifestações clo rnatu ltunror.
Pierre Bourdieu, Notas Prapurutóriu,t

Este texto de Pierre Bourdieu, redigido entre Outu-


bro e Dezembro de 2001, mas em que traballtüva e
reflectia há vários anos, interuogando-se nomeadamen-
te sobre a forma que conviria dar-lhe, J-oi concebido, a
partir do seu último curso no Colégio de França, como
uma nova versão (desenvolvida, reelaborada) do último
capíttilo de Science de la Science et Refléxivite [Para
uma Sociologia da Ciência, Edições 70, 20041. Para
assinalar bem a continuidade entre os dois textos, deu-
-lhe o mesmo título: "Esboço para uma Áuto-Análise".
Decidiu publicar este livro em primeiro lugar na Alc-
manha() e, embora tenha considerado retornáJo e re/irzt)-
-lo para a edição /rancesa, preferimos publicar u v(tf,
são alemã, acrescentando apenas algumas noÍcts ltiltlht
gráficas às reJ'erências explícitas.

t') Ein SozioloÍli.scher Selhstver.sl;cl, Franklurt, Sttltrl'itrrrp. .)(l(l r ( Nol.t

do Editor francês).
1,.',strt tt.'t t r',4R/1 u MÁ Autr>AuÁusn

litl t'ottto litrhu entrado no Colégio de França (em


lt),\.1) t'otu trttru Liçáo sobre a Lição muito reflexiva,
l'ir'r't-t' lJttrtnlicu Íinha decidido.fàzer o seu último curso
:'trltt111'11'11a11)-se a si mesmo, como num último desafio, ao
t't,t'rtit'io de reJlexividade que constituíra, numa das
t'1. tl)(t,\ ltrcl iminares necessarias à investigação científi-
t'tt. tu) longo de Íoda a sua vida de investigador
lJottrdien sabia que tomar-se a si mesmo por objecto
rt ficitt (orrer o risco não só de ser acusado de compla-
t'tttrt'irt, ma.ç também de fornecer armas a todos os que
(tl)(ild,\ esperavam uma ocasião propícia para negar,
ltrt't'i,sumente em nome da sua posição e do seu percurso, ão tenho a intenção de me dedicar ao género da
tt t'trrúcÍer científico da sua sociologia e que não com- autobiografia, que afirmei bastantes vezes o quan-
l)r«'ndcm que o exercício de reflexividadefoi longamente to era convencional e ilusório. Queria apenas tentar
cltrlxtrurlo como um instrumento de cientificidade. Este reunir e tornar disponíveis alguns elementos para uma
ltrrtjt,r'lo sobremaneira paradoxal não era tanto um auto-socioanálise. Não escondo as minhas apreensões,
.qc,slo de ostenÍação ("convidar o leitor a interrogar-se que vão muito além do temor habitual de ser mal
l)()t'qtte lê isto", diz Pierre Bourdieu nas suas notas de compreendido. Em face, nomeadamente, da amplitude
Iruthulho preparatórias), mas um empreendimento total-
do meu percurso no espaço social e da incompatibilida-
nt(utc inedito de estabelecer a conformidade final do de prática dos universos sociais que aproxima sem
irrvc,sligudor com a sua concepção daverdade cientíJica,
reconciliar, tenho, com efeito, a impressão de que não
tttr sr ju, u vontade de dar uma espécie de garantia última
posso esperar que o leitor encare as experiências que
,lo t'trt'tit'Íer cienÍífico das propostas enunciadas em serei levado a evocar na perspectiva que, na minha
Irttf11,5 s1,s obras, num retorno a si muito controlado
opinião, lhe convirâ, até por não estar seguro de eu
("t'rtlrtco tro serviço do mais subjectivo a análise mais
próprio o poder fazer com os instrumentos da sociolo-
rtltft't'lit,tt", escreve ele ainda, ao comentar e,cte texto).
gia-
l'itr .tt, tltrc tinha razão para temer o mau uso que po-
rlirrrrr fit:t'r' cla,çte texto. Escrevia ele numa das versões an-
It't irtt t',t'; " l,skt não é uma auÍobiografia. O género não me
Ao adoptar o ponto de vista do analista, tcrrlro ;r
obrigação (e concedo-me a liberdade) de reunir krtkrs os
r'ttt't irrlt'rtlikt ttpcnas porque (d)enunciei a ilusão biográ-
elementos que são relevantes do ponto dc vislrr rl;r
lit tt, r'lt' t' nt<' pro/undamente antipático, e a aversão,
rt.\trtr'trttltt ttt) l(tll()ta que me levou a desencorajar vários
sociologia, ou seja, todos os que são necessririos grrrr ir
'l,t,t,rit ,tl,t,s' itt,s:1tit'tt-,;a em razões que creio legítimas." explicação e a compreensão sociológicus. (' irl)('nr',
esses. Mas em vez de querer encerrar tl irssrrrrltl, ('ontrr
Dezembro de 2003 scria de temer, ao impor assim a llirtltlt ittlt'rprr'l:r1lIr,

l0 u
1,.';;ttr x. t t t nn/l I/ MÁ A uro-ANÁLtsz Pttnnti l)rxint»t,;tr

1rrt tcrrrlo IlrcrrIlirr csta cxperiência, enunciada tão hones- muita consideraçáo; talvez por ser bastettttc inribil t'
t,rrrrcnlt' (luiull() pussívcl, à confrontação crítica, como desajeitado nas discussões intelectuais de problt:ttrts
',t' r,t' lr;rlrrssc rlc rlualquer outro objecto. Tenho efectiva- diferentes dos meus (guardo uma recordação ['ritstitrrle
rrrt'rrlt' t'orrsciôncia de que, quando analisados nesta ténue de um encontro com Habermas, na verdade nrttittr
pt'r:;pt't'livir c, como é conveniente, enl conformidade cordial, que Dreyfus e Rabinow organízaram em Paris),
( ()ru () "princípio da caridade", todos os momentos da
tive tendência para continuar em frente, um poLrco
rrrrrrlrr histriria, e em especial as diferentes posições que atabalhoadamente, pelo que foi apenas de forma gra-
prrrlt' lrssrrrnir cm rnatéria de investigação, podem pare- dual, e quase sempre olhando em retrospectiva. quc
( ('r c()nro cluc cntregues à sua necessidade sociológica, comecei, nomeadamente durante estadas no estrangei-
orr st'ju. dcste ponto de vista, justificados, e, em todo ro, a explicitar a minha "diferença" face a autores como
('irs(). conro nruito mais racionais, e mesmo raciocinados Habermas, Foucault ou Derrida, sobre os quais me
c nrzoiivcis, do que foram na realidade, um pouco como questionam hoje com frequência e que estavam muito
sc livrrsscm saído de um projecto consciente de si menos presentes e eram muito menos importantes na
nresnlo clcsde o princípio. Ara, sei bem, nada farei para minha investigação do que Cicourel, Labov, Darnton,
o ocrrltar, que na verdade foi apenas gradualmente que Tilly e muitos outros historiadores, etnólogos ou soció-
rlcst'ol'rri, mesrlo no domínio da investigação, os prin- logos desconhecidos nos meios intelectuais ou mediá-
t'ilrios cluc orientavam a minha prâtica. ticos. Nesta tentativa de me explicar e de me compreen-
SLrn sorom verdadeiramente inconscientes, as mi- der, poderei apoiar-me, no entanto, nos fragmentos de
rrlurs "cscolhas" manif'estavam-se sobretudo em recusas auto-objectivação que deixei dispersos no meu cami-
t' ;rrrl i;lrtias intelectuais, quase sempre insufrcientemen- nho, ao longo de toda a minha investigação, e quo
It' rutit:rrladas, e só muito tardiamente foram expressas tentarei aqui aprofundar e tambem sistematizar.
rlt' rrurrrcira cxplícita (por exemplo, a repulsa bastante
prolirrrrlu clLlc me inspiravam quer o culto de Sade, na
rrrorllr tlurautc algum tempo, quer a perspectiva de
Itrrlrrillr c Klossowski acerca das coisas da sexualidade
:;() ('()n)cÇou a ter expressão num número de Actes
.,,rrsrulnrrlo ao "Comércio dos Corpos", em 1994). Tal-
\'('/ l)()r'cslur clcmasiado empenhado no meu trabalho e
ntr ;,111,r,, t;uc orientava para olhar à minha volta; talvez
l)()r l)('nsiu' tltrc tinha demasiado que fazer para consa-
l,r;u urlrr lxrrtc rkr tompo de que tanto carecia a discutir
ou t rrlr(iu nlesnlo os mais em foco entre os que me
rlrlt';r\ rrrrr. lossc cnt llt'ança, tro estrangeiro, nas ciências
,,r( r,r:, ()u n;l lrlos«rllit, c por quem nem sempre tinha

t2 t3
ompreender é, em primeiro lugar, compreender t'r
campo em que nos fizemos e contra o qual nos
fizemos. E por isso que, correndo embora o risco de
surpreender aqueles leitores que estão à espera de ver-
-me começar pelo princípio, ou seja, pela evocação dos
meus primeiros anos e do universo social da minha
infância, devo, de acordo com o bom método, examinar
antes disso o estado do campo no momento em que nelc
entrei, por volta dos anos 50. Se recordar que era então
aluno de filosofia na Escola Normal Superior, no topo da
pirâmide escolaq numa época em que a filosofia podia
parecer triunfante, terei dito o essencial, parece-me, parir
a explicação e a compreensão da minha trajectória ultc-
rior no campo universitário. Mas para se comprecndcr
por que razáo e como chega alguém a ser "Íilósolir",
palavra cuja ambiguidade contribuía para favorcccr' o
enoÍrne sobreinvestimento que escolhas menos indclcrrrr i-
nadas e mais directamente ajustadas às possibilirlrrles
reais não requeriam, devo também tentar recordur'o csl);r
ço de possibilidades como ele se me afiguravrr errlrio.
bem como os rituais institucionais susceptívcis tlc r'r'i:rr ;r
convicção íntima e a adesão inspirada quc, ncsslr rrllrrur,
eram a condição de entrada no grupo tkrs lllrisolos

15
l'..s t r t tr. t t t'. t R,,r r t 14.4 A ttl't-t-A Ni ttsg Prcnan Bctuaottu

N;ro posso lctomar aqui toda a engrenagem do pro- pedra angular de todo o edifício, uma autocott lirtttl'rt r;ttt'
,t':,s,, tlc c()nsagração que, desde o exame geral da confinava muitas vezes com a atitude incottscicrrlt' rl:r
t lrr;sr' lrrcparattiria ate ao exame da Escola Nonnal, ignorância triunfante. A crença na otnnipotiittcrr
, ontlrrzirr os cloitos (e, em particular, os oblatos mira- da invenção retórica não podia deixar de encotttt'rtt' os
t rrlrrtlos) a cleger a Escola que os elegeu, a reconhecer seus melhores incentivos nas exposições sabiittttcrrle
os critcrios de eleição que fizeram deles uma elite e, em teatralizadas da improvisação filosófica. Refiro-lttc, rt
scgrritll, a orientar-se, com tanto mais zelo, por certo, mestres como Michel Alexandre, discípulo tardio tlc
rlrurrrlrr urais consagrados eram, pata a disciplina rainha. Alain, que acompanhava com poses proféticas as lia-
'lirnriivamo-nos "filósofos" porque tínhamos sido con- quezas de um discurso filosóÍico reduzido aos recursos
srgraclos, e consagrávamo-nos por termos assegurado o de uma reflexão sem apoio histórico, e em Jean Beaufrct,
eslatuto prestigioso de "fiIósofos". A escolha da filoso- que iniciava os seus deslumbrados alunos nos arcanos
lirr cra assim uma manifestação da segurança estatutária do pensamento de um Heidegger ainda não traduzido,
tlrre, rclbrçava a segurança (ou a arrogância) estatutária. com excepção de alguns fragmentos. (O sucesso extra-
lsto acontecia, mais do que nunca, numa época em que ordinário que o filósofo da Floresta Negra teve em
totlo o campo intelectual era dominado pela figura de França só se pode explicar totalmente veriftcando que,
.lorrn-Paul Sartre e onde as khágnes{-t nomeadamente enquanto encarnação exemplar do aristocratismo
corn .lcan Beaufret, destinatário da Carta Sobre o Huma- professoral e da filosofia incontestada, ou seja, da
tri:;nro de Heideggedl) - e o próprio exame da Escola filosofia praticada, sern terem consciência disso, pelos
Nornral - cujo júri era composto, durante algum tempo, professores de Filosofia, ele está mais próximo do quc
por Maurice Merleau-Ponty e Vladimir Jankélévitch -, parece da velha tradição francesa dos Lagneau e dos
e r'anr, ou podiam parecer ser, lugares eminentes da vida Alain, como o prova o facto de tantos "fiIósoÍbs"
irrtclcctual. formados nas khâgnes dos anos 50 terem podido aliar a
A khugne era o lugar onde se gerava a ambição admiração porAlexandre com a devoção por Heidegger.)
irrtcloçtual à francesa na sua forma mais elevada, ou Era assim que se constituía, por um lado, a legitimi-
se'jl, Íilosóllca. O intelectual total, cuja imagem Sartre dade estatutária de uma aristocracia escolar universal-
rrclhava de inventar e impor, era seduzido por um mente reconhecida e, por outro lado, noblesse obligc, o
errsirro clue oferecia um vasto leque de disciplinas - sentimento de superioridade que no "filósofo" digno
lrrkrsoÍia, Literatura, História, línguas antigas e moder- desse nome suscita as maiores ambições intelcoluitis r:
nr:i c quc incentivava, com a aprendtzagem da "dis- lhe proíbe que se desacredite, interessando-se p«rr tlc:lr:t'
st'r.lrrçrio d<, omni re scibili" (na expressão de Durkheim), minadas disciplinas ou determinados objectos, r.ronr('ir
damente por aqueles a que os especialistas das ciôttt'r;ts
sociais se dedicam. (Será necessário, por cxc:rttpkr, o
"'hlt,i.tlrtr'; curso superior do liceu que prepara o concurso de
choque de 1968 para que os filósofos Íirrttutthrs ttit:i
,rrlnn:,ri;i() rrr Lscolir Nornral Sr.rperior, secção de letras. (À'. dr.r I)
'l' l\,1iulrr llcirlcggct', l,t'llra sur l'humanisme, Paris, Aubieq 1964. khâgnes por volta de 1945 se confrontcm cotn it (lllr'slilo

t6 t7
1,,',strt tt, t t r't R/t (J Mr Auro-AttÁttsn Ptsnrc Bounur:t

,l,, potlt'r e tllr política, e ainda assim de um modo dos. (Olhar, nesta perspectiva, o que sc cscrcvcu rlt':;rlc
lr;r,l:rrrlr' srrblirnado. Não há dúvida que Deleuze e os anos 60 é descobrir, por trás do alarido das tlili'rt'rr1'rr:r
lorrt'rrrrlt. c todos os que se lhes seguiram, nâo terianl proclamadas, a homogeneidade profunda ckls prrrlrlt'
porlitlo Íirnrular uma questão tão abertamente excluída mas e dos temas e saber reconhecer, por exonll)lo. rlr
rlo rrrrligo cânone Í'ilosóÍlco como a do poder, se ela não palavra de ordem de Derrida de "desconstrução". ru)o
lrvcssc sido introduzida no centro do meio universitário obstante a transfiguraçà,o implicada pela mudança conr-
pt'lrr contcstação estudantil, que se inspirava em tradi- pleta de contexto teórico, o tema bachelardiano rlir
qt)u; lctiricas completamente ignoradas ou desprezadas ruptura com os preconceitos, que, tornado tolto,s'
pclir orlodoxia académica, como o marxismo. a concep- académico,foi orquestrado também, na mesma altura,
ç'r)o wcbcriana do Estado e a análise sociológica da no outro pólo do campo da filosofia, sobretudo cnr
irrstituição escolar.) Althusser, e nas ciências sociais, na obra Á ProJissão dc
A inlluência dos grupos fortemente integrados, cujo So ci ólogoQ) nomeadamente.)
e x1'rocrrtc (e modelo prático) é a família perfeita, frca a Mas a propriedade mais importante, e também mais
<[:vcr-sc, cm grande parte, ao facto de estarem unidos clifícil de detectar, do universo filosófico deste lugar c
l)()r' unra collnsio na illusio, por uma curnplicidade deste momento - e talvez também de todos os tempos
rr:rlural crn tomo da fantasia colectiva que assegura a e de todos os países - é, por certo, o fechamento esco-
clrtla um dos seus membros a experiência de uma lástico, que, embora característico de outros locais emi-
t xirltaçãcr do eu, princípio de uma solidariedade enraizada nentes da vida academica, como Oxford e Cambridge,
rur uclcsão à imagem do grupo como imagem encantada Yale e Harvard, Heidelberg e Todai, encontra uma das
tlc si. I)c fàcto, é este sentimento socialmente construído suas formas mais paradigmáticas naquele mundo feclra-
rler lcr urna "essência superior" que, a par das solidarie- do, separado, poupado às vicissitudes do mundo real,
rlrrtlcs dc interesses e das afinidades de habitus, tnais em que se formou, cerca dos anos 50, a maior parte dos
t'orrlribui para fundar aquilo que devemos efectivamen- f,lósofos franceses cuja mensagem inspira hoje unr
lc tlcsignar como "espírito de corpo", por estranha que campus radicalism planetário, nomeadamente através
rr c.xprcssão possa parecer quando é aplicada a u.m dos cultural studies. Os efeitos deste fechamento, rclirr-
t'on.jrrrrto dc indivíduos convencidos de que são total- çados pelos da eleição académica e pelo relacionamcnto
rrrcrrtc insubstituíveis. Uma das funções dos rituais de próximo e prolongado de um grupo socialmente nruikr
irrit'rrrçiro c criar uma comunidade de inconscientes que homogéneo, não podem, de facto, senão favoroc:cr' :r
possibilitc os conÍlitos amortecidos entre adversários distância social e mental em relação ao munclo. t;rrt'"
irrlirrros, ls apropriações ocultas de temas ou de ideias paradoxalmente, nunca se evidencia tão bem conr() nrri
rlrrt' t'rrtlrr run sonte ter direito a considerar seus, umayez tentativas, frequentemente pateticas, para rcgrL:ssrl it()
(Ir(' s:l() o protluto de esquemas de invenção muito
l)r(')\lnr()ri tkrs scus, as referências tácitas e as alusões (2)
Le Mélier de sociologue, Paris, Mouton-Borclts, l()(rl{ (torr lr'iur
( ()nrl)rt't'rrsivcis allonas no pequeno círculo dos inicia- -Claude Chamboredon e Jean-Claude Passeron).

l8 t9
l,.,,tirtr tt t,.li.t ttAltr1 Áuro-ÁNrírrsl P t t ttttu lJ r tt i ti t t r r,; t i

rnrrrrlo rclrl. n()nlcilciamente assumindo comprolnissos ou então estranhos à França e às suas trurtlif irt's t':.t t,l,r
-- p.lrtrt'os (cstulirrisnro, maoismo, etc.) cuja utopia irres- res, ligados a instituições universitárias rlc ert't';,1rr,,,
l)()nsir\e I c nrtlicalismo irrealista atestam que são ainda como a Escola dos Altos Estudos ou o ('oltr1,,11r ,;.'
rrrrr;r nuurcira absurda de negar as realidades do mundo França, estes autores rnarginais e temporariarr.rc:rrlr.' rlo
:;.,t'llt l. minados, afastados do olhar comum pela rcpclcussr()
dos dominantes, proporcionavam um recurso il()s (lu('.
l'. cvirlcntc que a personagetn de Sartre exercia, quer por razões diversas, se propunham reagir corrlra u inur
t'nr rrrin'r, qucr em todos os que tinham então alguma gem ao mesmo tempo fascinante e desdenhada tlrr
rclrrçlio coÍn a filosofia, uma fascinação não desprovida intelectual total, presente em todos os combatcs tkr
tlc lrrrt"rivnlêrTcia. tanto no domínio intelectual como no pcnsamento. (Seria necessário acrescentar Éric Wcil, a
tl;r polítioa. Contudo, o domínio sobre este universo por quem ouvi, logo nessa época, os comentários sot-rrc:
lrrrrtt: rlo autor de O Ser e o Nada(3) nunca se exerceu Hegel c a quem conheci melhor mais tarde, quanclo
scrrr [cr quc o partilhaq e os que pretendiam, colrlo eu, fui nomeado para a Faculdade de Lille, no início dos
resislir ao "existencialismo", quer na sua forma munda- anos 60.)
nr (lr.lor na académica, podiam apoiar-se num conjunto Condiscípulo de Sartre e Aron na E,scola Norrnal.
tlc corrcntes dominadas. Em primeiro lugar, numa his- rnas dos quais estava afastado devido à origem popular
lriria da filosofra ligada muito intimamente à história e provinciana, Georges Canguilhern poderá ser reivin-
tlls ciôncias e cujos "protótipos" eram representados dicado, simultaneamente, pelos deferlsores de posiçõcs
lror rlrrirs grandes obras, Diniimica e Metc{ísica Leibnizicr- opostas no campo universitário. Como homo academicus
rrrr,s, do Martial Guéroult(a), antigo aluno da Escola exemplar, servirá de simbolo a professores, como Da-
Nornrrl e professor no Colégio de França, e Física e gognet, que ocupam posições completamente homólogas
Alt'tufí,sir:a Kantianas, de Jules Vuillemin(s), então jo- à sua nas instâncias de reprodução do corpo doccntc.
vcrrr ussistente na Sorbonne e colaborador de Temps Mas como defensor de uma tradição de história clas
rrttttltt'rras. e que, tendo sido também aluno da Escola ciências e de epistemologia qlre, na época do triunÍil clo
Nonrurl, sucederá a Guéroult no Colégio de França. Em existencialismo, representava o refúgio herético tla
st'gurrtkr lugar, numa epistemologia e numa história das seriedade e do rigor, Canguilhem, tal como (iaston
t rtirrcius rcpresentadas por autores como Gaston Bache- Bachelard, será consagrado como maítre à pen,sL,r' por
Lrrrl. (icorgcs Canguilhem e Alexandre Koyré. Sendo f rlósofos algo afastados do centro da tradição acaclórrrit'rr.
rrrrritrrs vczos de origem popular e vindos da província, colllo Althusser, Foucault e alguns outros. Era conro st'
a sua posição simultaneamente central e scctrnrliir.irr rr.
" l(:uf l'iurl Strtrc, l-'Être et le Néanl, Paris, Gallimard, 1943. ârnbito universitário e as disposições tnuikr r:uirs. ()rl
"' l\'l;rrlr:rl (itrr'roult, Dymanique eÍ méÍaphysique leibniziennes, Pa- rreslrro estranhas, que o tinham predisposto rr ot'rrp;i l:r
rr, l,'', llcllts lclllcs. 1935.
o tivessem destinado à função de sín-rbolo lttltlttttt o tlt'
' lrrlr':, Vrrrllt'rrritt, l'hy.sique et métaph.ysique kanÍiennes, Paris, PUF,
|'l', '' todos os que se propunham rompol' cont () tnorlt'lo

20 2l
l,..strt tt.'t t t,,tRz LtMA Auro-ANÁLtst Prcnrc Boun»nt

rlorrrrrurlc c (lLro f'ormavam um "colégio invisível", antiexistencialista da Íilosofia se apoiat'rrrrr. 'li,rl;rr r:r,
:rtlt'rrrrrlo lr() scr.l nome. assim como os dominados dos anos 50 dcixlrvrrrrr. ,;u.'r
( ) rlt'se'jo dc escapar às n-ranifestações mundanas do na sua vida quer na sua obra, inúmeros iuclícios rlrr srr;r
rrrlrrrirrrçlio podia levar tambem a procurar outro antído- submissão ao modelo Í'ilosófico dominante - oxccplrrrrr
Io plrnr as "lzrcilidades" do existencialismo - frequente- do talvez Bachelard, que nos seus escritos disscrrrirrrvrr
rrrcrrlc itlcntificado, sobretudo na sua versão cristã, com observações irónicas a propósito das afirmaçõcs pe
rrrrur cxultação um pouco tola do "vivido" quer na remptórias dos mestres existencialistas, nomeadaurcrrlc
It'ilrrr':r tlc Husserl (traduzido por Paul Riccur(6)e Suzanne em materia de ciência , também os novos dominanlcs
lhchclard(7), filha do filósofo e historiadora das ciên- dos anos 70 não irão com certeza levar até ao Ílnr ir
t'iirs). cluer dos fenomenólogos que mais se inclinavam revolução que empreenderam contra o domínio do Í'il«i-
rr corrc:cber a fenomenologia como ciência rigorosa, sofo total. Os seus trabalhos mais libertos da influência
('or)lo Maurice Merleau-Porrty (que proporcionava tatn- acaclémica têm ainda gravada a marca da hierarquia, por
bcrrr urna abertura para as ciências humanas, a psicolo- um lado, na estrutura objectiva das instituições, conro,
giir inínrrtil - que ensinava na Sorbonne, antes do por exemplo, a oposição entre a grande tese, lugar dos
('olcgio de França - e ainda para Saussure, Weber e desenvolvimentos mais ambiciosos, rnais originais c
Mrrtrss). Neste contexto, a revista Critique, dirigida por nrais "brilhantes", e a pequena tese, anteriomente cs-
( ie:orgcs Bataille e Eric Weil, ao facultar o acesso a urta crita em latim, dedicada aos humildes trabalhos dc
crrltura internacional e transdisciplinar permitia escapar erudição e das ciências do homern, e, por outro lado.
rro cÍcito de fechamento que qualquer escola de elite nas estruturas cognitivas. nos sistemas de classificação
cxcrcc. (Compreende-se que, nesta evocação do espaço incorporados, com a oposição entre o teórico c o
tkrs possíveis ÍilosóÍicos, como se me afiguravam en- enrpírico, o geral e o especializ,ado, a filosofia e as
lllo. sc exprima a admiração, muitas vezes Íorte e ciências sociais.
sL:nrpro presente, dos meus vinte anos, bem como o Na realidade, estes fllósofos demonstraram ainclu
lrorrlo cle vista específico a partir do qual se gerou a mais a sua preocupação em manter e acentuar as clis-
rrrirrha irlagem do campo universitário e da filosofia.) tâncias em relação a estas ciências plebeias, porqur:,
no início dos anos 60, estas col'neçaram a amoaÇur'
Vcnros assim que é possível construir, consoante se a hegemonia da filosofia. Por isso, na sua conlnxrl;r-
rlrre ir.rr. u aparência de continuidade e a de ruptura entre
ção com elas, foram lcvados a imitar a retóricrr tLr
os iuros 50 c 70, considerando, ou não, os dominados cientificidade (nomeadamente coffl o que designo c()nr()
tlos rrros -50 ern que alguns líderes da revolução efeitologia: "gramatologia", "arqueologia", ctc.. c orr
tros dispositivos retóricos, particularrnente nokiri()s n()ri
"'' I rlrrrrrrrtl tltrsscrl, ldées clirer:Íri('e.\ pour une phénoménoktgie, althusserianos) e a apropriar-se discretamcntrr rle rrrrrilol
l',rrr,, ( i:rllrrrurrtl. l()-50.
dos seus problemas e das suas descobertas (scrli nt't'r'ssir
Irltt r. lttt'itltrt' litrmallc el logique Íransc'endanÍale, Paris, PUF,
l',', I rio que um dia alguém tàça o inventário tlas rplrprr:r\'o('i,

22 23
l'.:ti,t,.,t I'lli..l (t Al..t 1'l Ll10-A Nit.tSE P r tittttt lJ r tt r nt tr t,; tt

rll(' ()s Í'ilrisolirs dcsta geraçáo realizaram sem quase sentido contrário, preconizando, numa pole'rnrt'rr lrrrvr,
nun('ir o tlizcrcrn menos por desonestidade do que por fundada numa amálgama paradoxalmentc sot'iolo;,r:,1;r,
rrrrur llrtliçi-ro clo superioridade soberana e para não se o "regresso do sujeito", contra os que, nos lrrros (r( ),
rlcsrrt'r'crlitaror-r1 - à casta inferior dos linguistas, dos tinham anunciado a "morte do sujeito".)
t'lrrologos c até, sobretudo depois de 1968, dos sociólo- A hábil negação do "retorno" à filosofla "dcscsprrr
y,,t»s) lsto oontribui em grande parte para os impedir de tualizada" das ciôncias sociais que os "sobrinhos tlt'
pt'rccbcr que a ruptura com as ingenuidades bem- Zaratustra", corlo Louis Pinto(r0) os designa, praticlvlrrn
perrsurrtos do humanismo personalista que estavam a nos anos 60, sob a égide, evidentemente, de antepassir-
r clrlizal apenas os reconduzia, pelos caminhos desviados dos prestigiosos e semi-heréticos (nomeadamentc rlc
tlrr arrtropologia e da linguística estruturais, à "filosofla Nietzsche), é completamente contrária a uma verdadoira
scrrr suioito" que as ciências sociais defendiam desde o reconciliação. Mesmo para os que se apresentavarn rnuis
irricio do século. (Como tentei mostrar num aftigo escri- "libeftos" do espírito de casta, como o Foucault da teoria
Io corr.r Jcan-Claude Passeron pouco antes de tr63tt|, o pós-68 acerca do poder, a fronteira com as ciências
nrovinrcnto pendular que levou os normalistas dos anos sociais, e muito em especial com a sociologia, continua-
]0 c err especial Sartre e o primeiro Aron, o da va a ser socialmente inultrapassável. Considerada próxi-
Irttnxltrl:ão à FilosoÍia da História(e) - a reagir contra o ma de uma espécie de jornalismo pelos profanos, devido
rlrrrl<lroimismo, considerado algo "totalitário", retomou ao seu objecto, a sociologia é tambérn desvalorizada crr
o scrrticlo contrário, no início dos anos 60, sob a influên- relação à filosofia, por causa do seu aspecto de r.ulgari-
cil rrorncadamente de Claude Lévi-Strauss e da antropo- dade cientista, ou mesmo positivista, o que se veriflca
louia cstrutural, reconduzindo ao que se chamava então, sobretudo quando atinge as crenças mais indiscutidas cJo
tlrr partc da revista Esprit e de Ricoeur, uma "filosofia mundo intelectual, como as que dizem respeito à arto c
srrn suicito". E o movimento imóvel da vida filosófica a literatura, e quando ameaça o'redllzir" (um dos efbitos
rruris não conseguiu do que fazer voltar o jogo ao ponto ou malefícios mais frequentemente atribuídos ao
rlc particla quando, por volta dos anos 80, Ferry e Renaut "sociologismo") os valores sagrados da pessoa o rlu
rrl"roiados na sua má jogada de candidatos pressionados, cultura e, pofianto, o valor da pessoa culta. Pude vcriÍ'i-
t' clrrro. pcla Esprit, mas também pela revista Le Débal car muitas vezes que o iconoclasmo tranquilo de O ,4ttutr'
rk' Nora r: de Gaucher e por todo o grupo dos seguidores à Arte(ttt, que, com as suas estatísticas e o seLl rnorll:lo
rrrctlirilicos de François Furet, com Le Nouvel ObservaÍeur nratemático, se opunha Íiontalmente (e friamcnlc) :ro
ri t'rrbcça tentaram relançar o pêndulo da moda em culto académico da obra de arte, não se opunha rr.rcrros ;is
transgressões academicamente toleradas, sct-tiio ln('snr()
"" 'srxiology uncl Plrilosophy in France since 1945: Death and
l(r",ru( ( lr(frr oÍ lr l)hilosophy without Subject", Social Reseurcr, XXXtV,
(1")
r" I (l'rnr:rvr'r';r tle l()67), 162-212 (corn Jean-Claude Passeron). Lclttis Pinto. Lcs Net,eux de ZuruÍhoustru, l'ittis. St rtrl. l'r't',
ttt) L'Amour de l'or1. Les mu.sées aÍ laur prthlit.l';ui:;. l\lttrrrtl l'tr,t,
"' l{rrynrrrrrl Atou. lrrtxxluciion à la philo.sophie de I'hisÍoire. Essai
\ut lt'\ lutttlt'\ ,1,' l'ttltj«'tit,ilt,, Paris. Callimard, 1938. lcom Alain Darbel e Dominique Schnapper).

24 25
l'.'.sttt tt,'r t t',tR.1 uMÁ Auro-AuÁttst Prcann Bounotut

pr,r1'rururtLrs, (l() antiacadetnismo académico dos adep- também por uma escrita que acumula as obst'ur rrlrrtlr':, ,'
t.:; rlt' l{orrsscl c cle Artaud. (Posso testemunhar que foi as audácias de um Mallarmé com as dc urrr llcrtlt'yi;,,1'1
rrrurlo rruris hcm rocebido e compreendido pelos artistas Mas este é apenas um dos factores quc cxplrt'rrrrr ;r
(lU('. il('ssc lcrnpo, punham em causa, nos Seus trabalhos, afinidade (pelo menos na aparência) entre a psit:lrrrlrst',
r lti rrr lrrtc c o próprio funcionamento da afte, do que colno "cura das almas", e o espiritualismo (()u. nrilrs
pt'los ÍikisoÍbs aparentemente rnais libertos do Í'eiticismo precisamente, o catolicismo). O que é certo ó cluc rr
rulislico. Foi apenas por temer que o seu conteúdo psicanálise esteve, pelo menos ern França, no clccrn'so
rlt'rrrorrstrativo [e crítico] fosse afectado pela desreahzaçáo dos anos 70, ao lado das actividades intelectuais rnais
rrlislica que, por exemplo, não autorizei um artista nobres, mais puras, quer dizer, nos antípodas da sociolo-
t'orrccptrral a utilizar, numa das suas obtas, um quadro gia. Ciência plebeia e vulgannente materialista das coi-
cslutístico que indicava as esperanças rnatemáticas de sas populares, a sociologia é geralmente vista, sobretutlo
irccsso ao Ínuseu segundo o nível de instrução.) nas nações de cultura mais antiga. como estando dedioacla
Não há melhor medida do descrédito estrutural que a análises imperfeitas das dimensões mais vulgarcs,
llirrgc a sociologia, e tudo o que dela participa, no mais comuns, rrais colectivas, da existência humana. c
nrtrrrrlcr ir"rtelectual clo que comparar a 7uz negativa em as suas incursões pela culfura humanista, tomada qucr
tSrc c posta (o mais insignificante aspirante a escritor ou como referência quer por objecto, longe de terem o
rr llkiso[o engrandece-se objectiva e subjectivamente ao efeito de uma capÍatio benevolentiae, foram entencliclas
r:xprcssar todo o desprezo de bom tom que lhe dedica) como usurpações ou intrusões sacrílegas destinadas a
conr o tratamento que é concedido à psicanálise, corn a aumentar a irritação dos verdadeiros crentes.
rlturl compartilha, no entanto, alguns traços importantes, A Universidade francesa, demasiada envolvida nos
('onro a ambição de explicar cientificamente os compor- entusiasmos literários do campo intelectual e demasia-
trrrrrrlr.rtos humanos. Como mostrou Sarah Winter(rl), a do atenta às preocupações e às consagrações jornalísti<.:as.
lrsir:irná lise revestiu-se da universalidade e da grandeza não garante ao investigador o que lhe é assegurado tkr
tr;rrrs-lristór'icas que são tradicionalmente atribuídas aos outro lado do Atlântico por uma universidade autón«rna
tnigicos gregos, habilmente des-historicizados e univer- e auto-suficiente, em especial devido às suas dorsas
srliz:rtlos pela tradição escolar. Ao introduzir a nova redes de especialistas de diferentes disciplinas, :)s srrls
t'icrrr:iu na linhagem da tragédia de Sófocles. um dos lormas de intercâmbio científico ao mesmo tempo íIc
orrurnrr:ntos da Bildung clássica, Freud concedeu-lhe a xíveis e estritas, aos seus seminários, aos seus coltirlrrios
r;rur crrrla clc nobreza academica. Lacan, retornando às informais, etc. Este conjunto congruente de instituiçircs
lorrlt's qrcgárs para propor novas interpretações da tragé- específicas proporciona uma tal gratificaçrio rlrrt'
,lur tlc Stilircles, reactivou esta Íiliação, comprovada desencoraja a busca dos prestígios ocos c rlos lct'orrlrt'
cimentos factícios que se podem encontrar nos nr('r()§
Freud and the Institution of Psychoanalytit não universitários e protege o investigackrr tllrs irrlrrrsrit'r;
Stanlord University Press, 1999. intempestivas da enoÍTne coorte dos cnslrislirs. t'sricr.i

)6 27
l',' :;lrr tt,'r t t'/1 Rr tJ MÁ Auro-ANÁLtst Punns Bounottu

'rrrrposlolt's", con.lo se dizia no século XIX dos maus


boa parte das reacções negativas ou hostis (llr(' \u:,( rl('r
prrrlor('s. (luc, pcrpctuando as ambições desmedidas da e foram cadavez mais, à medida que a aukrrrorrrrrr rLr
I'lr,i.t'.ttr'. vivcnr col'l1o parasitas semiplagiadores dos tra- campo universitário relativamente ao callpo -jonur I ist rt'o
l,rrllros tkrs outros. (Se quisermos ser totalmente verda- tendia a enfraquecer se devem tanto ao corrlr'írrlo
rlt'iros, 1'lodomos conceder que eles têm, apesar de tudo, crítico das minhas conferências e dos meus cscritos
urrr ;xrpcl a longo pÍazo na divulgação dos trabalhos de (que não são inócuos, sobretudo quando abordanr irrtc-
(luc sc sr.lstentam, embora ooultando-os, e aos quais resses intelectuais), como à existência do grupo (lr.rL:
tk'vcnr a aparência de originalidade cl.e que resulta o seu formei e, sobretudo, às suas particularidades. As mctii-
succsso, sobretudo no estrangeiro.) E por isso que não foras usadas para o descrever quando é relembrado crrr
l)osrio corrparar o estilo global do meu trabalho cientí- mexericos ou nos jornais são as de arregimentação
l'ico, c1r.rc, todavia, diverge permanentemente das gran- política (uma pequena notícia do Liberation que hit
tlcs lradições humanistas da França e de alguns outros alguns anos me era consagrada falava de "Albânia",
prríscs curopeus, com o de um investigador americano nem mais nem menos) e filiação sectária. O que não
('()nro Aaron Cicourel, com quem compartilho não ape- vêem nem compreendem, a não ser para se assustar c
rrrs o intcresse por certos objectos privilegiados, como indignar, é a intensa comunhão intelectual e afectivir
o sislcma de ensino, mas tarnbém a intenção de fundar que, em graus diferentes e de modos diversos, consoan-
rrrrlr tcoria rnaterialista do conhecimento, sem descobrir te as épocas, une os membros do grupo, ao participarern
eonr urr pouco de inveja o papel insubstituível que num modo de organizar o trabalho do pensar que ó
rlr,scrnpcnhou, no seu caso, um ambiente cientíÍ'ico que perfeitamente antinómico da concepção literária (e muito
c sinrultaneamente estimulante e exigente. parisiense) da "criação" como acto singular do investi-
l)crgunto-me se, na realidade, muitas das dificulda- gador isolado (concepção que leva tantos investigado-
tlcs c;r-rc o nosso grupo de investigação continuamente res deficientemente formados e mal apetrechados into-
('nc()ntrou fora do campo universitário, mas sobretudo lectualmente a preferir os sofrimentos, as dúvidas c,
ll() scLl interior, nos seus sectores mais heterónomos, muitíssimas vezes, os malogros e a esterilidade do
tlrurrrtlo tcntou introduzir, colno os durkheimianos um trabalho solitário àquilo que julgam ser a alienação
st't'rrlo antcs e deparando com dificuldades análogas, a despersonalizante de um tarefa colectiva).
lriril'l1 rigorosa e modesta do trabalho colectivo e a Como negar que a forte integração intelectual c rno-
rnolrrl cptc a acompanha, não se ficam a dever ao facto ral, propiciadora de um trabalho colectivo ao rrcsnro
rlt' sc tcr tornado num colpo estranho, ameaçador e tempo feliz e altamente produtivo, não se conccbc scnr
lrrt;rriclurrtc para todos os que não podem viver intelec- o esforço permanente de estímulo e união quc corrrpclr'
Irr;rlrrrcrrlc: acima os seus meios senão à custa de um ao director-orientador, uma espécie de chefe tlc orr;rrcs
t,rrluio scn-rirnafioso que proporcione uma firma fictí- tra ou de encenador, ou, talvez, mais modcstlrnclrlt', rlt'
( rir l)rlr r'«rhrir as suas usurpações de identidade, os seus trei-nador, como se diz no desporto, a qucnl () ,llup()
r[':;r'ros rle Íurrtlos culturais e as suas falsificações da galvanizado outorga, em contrapartida, os sclrs ;rork'rt's
t':;r'nlr lrlcuirilt ou Írlosófica. Penso, de facto, que uma "carismáticos" com o reconhecimento aÍr:clrroso tlrt' llrr'

28 29
I ',ti()l () t'.lti I ( | A,t|l,,1 uT'o-A NÁLtsE

(,nt r'tlt'') Scni rrcc:cssário dizer que esta integração é


rrrtlr:r:rot'iiivcl tla urobilizaçào contra detenninados ad-
r,'r:r:iros inlclcctuais e a favor de cefias callsas inscpara-
rt'lrrrerrtc cicntíficas e políticas? Os membros do Cen-
lro' '). sçl11 trsar cstas palavras magniÍ'icentes, agiam cofilo
nrrlillrrrtc:s do universal ou, na expressão de Husserl,
('()nro "lrrncionários da humanidade". conscientes de
r('('r'l)cr nrr,rito da colectividade, nomeadamente sob a
lirr.rrur tlc salários e de informações, e preocupados em
rr't'orrr1-rcnsá-la. E evidente quo a seriedade sem afecta-
1'rro, rnas talvez um pouco grave e tensa de mais, que
srrstcrrtava o grupo e tambem as noflnas estritas que a si
nrcsnro irnpunha em matória de trabalho e de publica- ffi efeito de campo exercc-se,
4u''.-,# de certo modo, cr.rr
rcsultado da confrontação com as tomadas dc
f irtrs rrão eram feitas para ser compreendidas nem aplau- posição de todos, ou de alguns apenas, dos clue tambcrn
tlitlls pur todos os que, no campo da investigação, cstão empenhados nele (.e que são outras tantas
ostcntavarn essa especie de "distanciamento da função" encarnações diferentes e antagónicas da relação entrc
lx)t' rlUc .sc reconhecem ern França os intelectuais emi- um habiíus e um campo): o espaço dos possíveis rcali-
rrcrrtcs. [i por isso que o grupo, devido à sua existência
za-se enr indivíduos que exercem uma "atracção" ou
c :is suas produções, representava urra especie de desa-
tn'na "repulsão" que depende do "peso" que possuclx no
lio cr rrr-r-r questionafl1ento. As lnarcas de escola, quer oampo, quer dizer, da sua visibilidade, e também clu
sciunr rcais colno a afinidade de estilo (ern todos os
rnaior ou menor aflnidade dos habitu"s, que induz a
scrrtitkrs do termo) - quer sejam imaginárias - como o
considerar "simpáticos" ou "antipáticos" o seu pcnsu
rnito do "clã" ou da "seita" , só tàvoreceram, incentiva-
mento e a sua acção. (Ao contrário dos vindouros, clrrc
riu)r or.r, pelo menos, justificaram tentativas de imitação
cstarão limitados às obras, os contemporâneos têm urrrr
t' tlc tlilbrenciação, mas criaram sobretudo resistências,
(luc lxxliírm chegar ate à exclusão de todas as instâncias cxperiência directa, ou quase directa, pelos jornais, pt l:r
ráclio, hoje pela televisão, mas tambérn pelo ruln'ror' ('
t'orrr ;'rodcr sobre a reprodução do cotpo, sem falar das
:ll're(c-cc simbólicas com mexeÍicos e rumorcs, mais ou pela intriga, da pessoa na sua totalidade, do scu corl)().
clas suas atitudes, do seu modo de vestiq da sul voz. rlrr
nr('n()s orqanizados por rivais poderosos (quer da univer-
:;rrlrrrlt' tlucr clo jomalismo), que surgiam de longe em sua pronúncia características de que os r-cllrlos n;ro
Io111,1' 11'ps llcqLlenas notícias e nos artigos dos jornais.
doixam qualquer vestígio, a não ser excepciorrirlnrt'rrlt'
c tarnbém das suas relações, das suas lorrrrrlrrs rlc
'' lr;rlrr st t[r ('r:nlro posição políticas, dos seus amores e das srurs ilrrrrzrrrl.",
cle lnvcstigação da Escola dosAltos Estudos de
( r, r( r,r'r S,r,r;ris, tlrrc I'icrrc Bourdieu dirigiu e/ou dinanrizou desde o ctc.) Estas simpatias e estas antipalias dirigirl;rs. (lu('r ,r
rrrr, r,,,1,r,,rrro:; (r0 (Nolit tlo eclitor Íiancês) l)ossoa, quer às suas obras constituern un) tlos l)r ln( rl)r,',

.t0 1l
l'..strt t<. t t t'.tR.t t tM/1 Auru-AltÁttst Pnnnt llot rnt)tt,l r

prt':;t'rrlt's crn inúrntcras escolhas intelectuais, que per- Nunca me incluirei, no entanto, no camlx) tkrs t1rr,'.
nr:ur('('cnr lolitlntcnte obscuras e são frequentemente hoje, se regozijam com a morte de Sartre c oor)r o ljnr
l,rrsirlcllrlas incxplicáveis, por envolverem os dois dos intelectuais, ou dos que, agindo de manoirir rnrrrs
I r, t I i I r r,s' r'c I cridos.
t subtil, inventam uma dupla Sartre-Aron, qLlc ntr)cl
l)cpois dc ter compartilhado, durante algum tempo, existiu, para atribuir a palma (da razáo e da luciclcz) rr
;r visrl«r do rnundo do "fiIósofo normalista francês dos este último" Na realidade, como é possível não ver cluc
iuros -50" que Sartre encarnava plenamente - poderia entre as duas figuras (que o próprio Aron reconlrccia
rlizcr. atc ao paroxismo - e, em especial, o desprezo não terem termo de comparação) as semelhanças são
('onr rf Lrc cle, sobretudo em O Ser e o Nada, considerava muito maiores clo que as diferenças? Em primeiro lugar,
rrs r:iôrrcias do homem - a psicologia. a psicanálise, sem há o que os torna a meus olhos, e apesar de tudo,
lullr' (nras precisamente, ele não falava) da sociologia -, profundamente simpáticos: refiro-me ao que penso scr
l)()sso dizer que me fiz a mim mesmo, precisamente a ingenuidade, ou mesmo a inocôncia, de gra.ndes ado-
rlrrurclo saí do mundo escolar e para dele me afastar, lescentes burgueses que tiveram êxito em tudo (se não
c:ontra tudo o que representava para mim o projecto posso dar testemunho ern relação a Sartre, conheci bem
surtriano. Do que menos gostava em Sartre era das e - será necessário dizê-lo? - gostci bastante de Rayrnond

coisns que faziam dele não apenas o "intelectual total", Aron para poder afirmar que o analista frio e desencan-
nras ideal, a figura exemplar do intelectual, e em parti- tado do mundo contemporâneo escondia um hornem
c:trlar a sua contribuição ímpar para a mitologia do sensível, ate temo e sentimental, e um intelectual que
irrtclcctual livre, que lhe granjeou o reconhecimento acreditava ingenuamente nos poderes da inteligôncia).
clcrno de todos eles. (A minha simpatia por Karl Kraus Puros produtos de uma instituição acaderntca triunfantc
tlcvc-se ao facto de acrescentar à ideia do intelectual que concedia à sua "elite" um reconhecimento incondi-
conlo Sartre a concebeu e impôs uma virtude essencial, cional, fazendo, por exemplo, de um concurso escolar
:r rcf-lcxividade crítica: há muitos intelectuais que põem de recrutamento (a agregação em filosofia) uma instân-
crn oausa o mundo, há muito poucos intelectuais que cia de consagração intelectual (é necessário ver conro
l"rorrhum em causa o mundo intelectual. E fácil com- Simone de Beauvoir fala de tudo isto nas suas mem(r-
prcr:utlcr esta relutância, se se reconhecer que o intelec- rias)(t:rl, a esta espécie de meninos-prodígio por decrckr
Iurrl rrão pode correr o risco de o fazer sem se expor a eram concedidos, aos vinte anos, os privilégios c us
(luc sc voltem contra si as armas da objectivação, ou, obrigações dos génios. Numa França económica c poli-
lrior rrinda, sem sofrer ataques ad hominere, visando ticamente enfraquecida, mas ainda intelectuahnontc rr Íir'
tk'slnrir n() seu princípio, isto é, na sua pessoa, na sua mativa, eles podiam consagrar-se inocenternentc l) rrrrs
rnlt'grirlirlc, na sua virtude, quem não pode manifestar- são que a Universidade e toda uma tradição unive:r'siíri
st' scruio constituindo-se a si mesmo, com as suas
rrrlt'r.vt'rrçr)cs, cm censura viva, mas não tendo qualquer (r3) Simone de Beauvoir. La F-orcc tle.v r.'host's'. l'rttt:r, ( i,rllttrr,rr,l
rrroIrvo rlc ccttsura.) 1963.

32 JJ
l,.,strr tr.'t t r',,tn.4 ttMA Auro-ANÁttsg Prcnrc Bounotru

n:r ('()nvcllcida da ceÍteza da sua universalidade lhes personagem quase totalmente antitetico, t (it.ol1,.t':,
;rlrrlrrrírr: rrrna cspécie de magistério universal da inteli- Canguilhem, que muito me ajudou a porspc(.lrvrr ir
'lbndo ao seu dispor apenas a inteligência
l,,t'nt'irr. - possibilidade realista de viver a vida intr:lcctrrrrl tlt,
lxrstrr olhar para as suas footnotes para ver que não se modo diferente. É sem dúvida na comparaçiio t'orrr
t'rrrburaçavam nada com conhecimentos positivos -, Sartre que se revela aquilo que, neste homem c na suir
t'lcs podiam enfrentar as tarefas intelectuais mais gigan- obra, pôde inspirar uma tal admiração e tal aÍ'oição rr
lL:sL:as. como a de fundar Íllosoficamente a ciência da toda uma geração de pensadores franceses. Prosscguirr-
socicdade ou a ciência da história, ou augurar peremp- do a obra de Gaston Bachelard, de que fez uma aprcscn-
Ioriamcnte a verdade derradeira dos regimes políticos tação admirável('o), Georges Canguilhem deu uma con-
ou clo futuro da humanidade. Mas a sua confiança tribuição decisiva para a epistemologia histórica, ou,
ilinritada tinha por contrapartida o reconhecimento sem melhor, para a historização da epistemologia, a análisc
concessões das obrigações inerentes à sua dignidade. rigorosa da génese dos conceitos científicos e dos obs-
Não há ninguém que tenha acreditado mais do que táculos históricos à sua emergência, nomeadamentc
Sartre na missão do intelectual e que tenha feito mais do com descrições clínicas das patologias do pensamentt-r
cluc ele para dar a este mito interesseiro a força da cientíhco, das falsas ciências e dos usos políticos da
convicção social. A este mito - e ao próprio Sartre, que, ciência, sobretudo da biologia. Por este motivo, elc
conl a admirável inocência da sua generosidade, é ao representa, sem dúvida nenhuma, o que há de melhor na
nrcsmo tempo o seu produtor e o seu produto, o seu tradição do racionalismo que se pode apelidar francês,
criador e a sua criatura -, creio (devido, sem dúvida, à pois enraíza-se numa tradição política, ou, melhor,
nrcsma inocência generosa) que é necessário defendê- cívica, embora seja, julgo eu, realmente universal (como
-lo, custe o que custar, de todos e contra todos, e talvez o atesta, por exemplo, o seu impacto no outro lado do
sobretudo de uma interpretação sociologista da descri- Atlântico, através de Koyré e de Kuhn).
ção sociológica do mundo intelectual: ainda que seja O que fez de Canguilhem uma figura exemplar, para
rlcrnasiado grande para os maiores intelectuais, o mito rnim e também, creio eu, para muitos outros, foi a sua
tlo intelectual e da sua missão universal é uma destas dissonância) paÍa não dizer a sua resistência: embora
rrslÍrcias da razáo histórica que fazem com que os tcnha ocupado no seio do sistema universitário as p«tsi-
irrtclcctuais mais sensíveis aos benefícios da universali- ções aparentemente mais adequadas, não pertencia to-
tlurlc possam ser levados a contribuir, em nome de talmente a esse mundo, o qual, no entanto, lhe tribulavlr
rrrolivações que podem não ter nada de universal, para todos os sinais de reconhecimento e que ele respr:ilirvrr
() l)r'ogrcsso do universal. inteiramente. Canguilhem cumpria simplesmenlc, scrrr
( )rriro "farol" (a metáfora poderá ser talvez banal, complacência nem afectação, mas também scnt con(.(.s
irl)esur tlc Baudelaire, mas revela bem o que algumas
li1,,ur':rs (luc sc tornaram modelos, ou, pelo menos, refe- (ra)
Georges Canguilhem, Etudes d'histoire el dc pltiltt.rr4,l111, ,!,,1
rt:rrt'rrs. r"erprcscntam para os que chegam de novo), um :'ciences, Paris, Vrin, 1968.

34 35
l,,l,.sttt x,'t t t,ÁttÁ uMÁ Áuro-AwÁusr Ptrnn r: ÍJ r tt t n t tt t,.t t

:,(,(':i. ir stur lirnção dc professor, de professor de Filoso- deixava-o apenas quando a noite courcçlrvir ir (iur
Ir:r. rrrrnt'lr so arvorava em filósofo. Os que referem a sua Surpreendia-me ver que o seu pensarnorrto (' r :iu,r
rrrt'nrriria Íalanr da sua voz áspera e da sua entoação, que palavra não tinham aquelas quebras de terrsão (prc ('riul
o lirzilnr aparentar estar sempre encolerizado, bem para mim tão decepcionantes e que observava cl)l llrrrlo:r
(()r)l() tlo olhar de soslaio, acompanhado de um sorriso outros filósofos que conhecia (alguns muito Íàscinurrtr.'s
irorrico, com que emitia os seus juízos sem indulgência e profr-rndos quando falavam de Kant ou Malebranclrc),
sohrc os costumes academicos. Marcado pela tradição ao passarmos dos assuntos mais tecnicos da filosoÍla ou
rlc unra região e de um meio onde o cotpo está sempre da ciência para as questões triviais da vida. Dizia, corrr
t'onrprclrnetido, envolvido, na palavra, colno disso dão uma Í'elicidade extraordinária de expressão, coisas cprc
lcstcrnunho a vibração da voz e a aspereza do olhar, me pareciam impregnadas duma grande liberdadc c
('lngLrilhem nunca estava disposto a entrar nos jogos dutrra proÍunda sabedoria.
gratuitos clo pensamento irresponsável com que alguns Após um período de ressentimento (frcara bastantc
itlcntificam a filosofia, nem na exaltação místico-literá- melindrado por eu não ter aceite o lugar que me tinlra
ria clo pensamento hôlderlino-heideggeriano que seduz proposto no liceu Pier:re-Fennat, em'Ioulouse, onde elc
os poetas-pensadores. lnesmo tinha começado), retomámos as nossas relaçõcs.
Canguilhem tinha-se afeiçoado a mim por um desses Conversávamos frequentemente durante as Iutas de Maio
inrpulsos de simpatia a si mesma obscura, mas que se de 68, que foram uma provação para si. Fazia partc
ctraíza na afinidade dos habitus. Recordo que, após o daqueles oblatos que tinham dado tudo à Escola e quo
oonourso para professor do ensino secundário, me tinha sentiam como uma traição, inspirada pelo oportunismo o
proposto um lugar no liceu de Toulouse, pensando que a ambição, a simpatia dos seus alunos (da minha gera-
rrrc dava a maior satisfação, enviando-me para a "terra ção) pelo movimento estudantil. Canguilhern contava-
rurtal", e con"lo ficou surpreendido, e talvez algo choca- -rre, porqLre o descobria por certo nessa ocasião, quanto
tkr, zro ver-me recusá-lo (para preferir o liceu de Moulins, tinha sido difícil para si adaptar-se ao mundo da escola
(lr.ro rne aproximava de Clermont-Ferrand e de Jules (por exemplo, quando chegou ao liceu de Castelnaudary,
Vuillcn-rin). Quando pensei nuÍ]a tese, voltei-me para colno aluno interno, não sabia o que eram lavabos).
clc. c não para Jean Hippolyte, por exemplo, como linrbora a capacidade de integração da escola repr-rblica-
outlos lizeram, por uma espécie de identificação que rra o tenha levado a esquecê-lo ou a recalcá-lo, penso (luc
rrrrritos sinais me levam a acreditar que era recíproca lornava consciência, pela primeira vez, daquilo clr.rL: ()
(linlrir-rnt: proporcionado uma carreira universitária e scparava dos seus colegas da Escola Normal, do Surlrc t'
t'icrrtíÍrca cm tudo semelhante à sua). Posteriotmente, Aron (este úrltimo jogava ténis muito bem, encprunlo t'lt
rpr:urtkr ia vê-lo ao seu escritório da rue du Four, iogava râguebi), e qLre estava Íalvez na origcrrr tlt'slrr
r('s('r'vrva-nrc tardes inteiras (retirava da sua biblioteca, cspecie de raiva que sempre tinha, por trás da l1'r:rri:rrt'r;r
l)iur nlc tlur. scparatas de grandes especialistas estran- tlu civilidade mais calorosa, e que se declaravir, lx)r \/('
1,,('u()s. ('()ln() ('annon, muitas delas com dedicatória) e zcs, perante certas formas de incornpetônci:r irnoy,,;rrrlc

36 37
I

1,,'ttrt tt.'t t l'/tR/1 L)MÁ Áuro-ÁNÁttss Ptnnns Bottntttt,;tt

('rrrrguillrcrn doixou a outros o protagonismo. Pude- publicação, e falava-lhes das minhas invcstigrrl.rt':.), ,r
r;rnr rrssirn ologiar a sua modéstia, a sua integridade e o vida científica decorria noutro lado. Para r'ocorrstrlrrrr rr
st'rr rigor'. Iiscreveu em La Depêche de Toulouse (foi espaço de possibilidades com que eu mc clcpxrnrv:r, t'
rrrlri rluc o li, creio eu, pela primeira vez, durante as necessário começar por descrever o estado das ciôrrt'rrrs
nrirrlurs Íérias de Verão), enquanto outros escreviam sociais tal como o via e, em particular, a posiçiro
rros grancles jornais parisienses; opôs-se (não falo ape- relativa das diferentes disciplinas ou especialicladcs. A
rrrs tlo período da Ocupação) a todas as formas de sociologia deste tempo é um mundo fechado, orrrk:
corn;lrornisso com o século. E os que não lhe perdoam todos os lugares estão atribuídos. Em primeiro lugar, l
os scLrs juízos impiedosos, ou tão-só a sua existência, geração dos antigos: Georges Gurvitch, que dirigr: a
porlcm mesmo censurá-lo por ter cumprido até ao fim a Sorbonnne de maneira bastante despótica, Jean Stoetzcl,
srra f-r-rnção de "académico influente" - foi sucessiva- que ensina Psicologia Social na Sorbonne e dirigc o
rrrcnte professor da khôgne, inspector-geral, membro do Centro de Estudos Sociológicos, mas também o IFOB c
.júri dos concursos para professores do ensino secundá- controla o CNRS, e por fim Raymond Aron, recentc-
rio , cm vez de se ter devotado a actividades mais mente nomeado para a Sorbonne, que, na perspectiva
confbrmes com a imagem do filósofo livre. Nunca deu dos da casa, espontaneamente relacional, parece oferc-
cntrevistas, nunca falou na rádio nem na televisão. cer uma abertura inesperada aos que pretendem escapar
(l)urde verificar que se tratava de uma decisão muito à alternativa entre a sociologia teoricista de Gurvitch o
ponsada. Tendo-me dito um amigo comum que, se ele a psicossociologia cientista e americanizada de Stoetzel.
at-rrisse uma excepção, poderia ser a mim, um dia lrm segundo lugaq a geraçáo dos jovens em ascensão,
;rxrpus-lhe fazer-lhe uma entrevista. Depois de ter-me todos com cerca de quarenta anos, que compartilham a
porguntado, com um sorriso de viés, o que desejava investigação e os poderes de acordo com uma divisão
lanto saber, falou-me de imensas coisas de natureza por especialidades, frequentemente definidas segundo
rrruito pessoal, que nunca eu tinha lido nem ouvido, mas conceitos do senso comum e claramente repartidas
lcvc o cuidado de fazê-lo quando estávamos de pé, corrlo outros tantos feudos: a sociologia do trabalho
nurnzl pequena rua da Montagne-de-Sainte-Geneviêve, para Alain Touraine, Jean-Daniel Reynaud e Jean-Rr:nc
islo c. de modo a excluir à partida qualquer possibilida- 'l'réanton, a sociologia da educação para Vivianrr
rlc rlc a registar.) lsambert, a sociologia da religião para François-Antlrc
lsambert, a sociologia rural para Henri Mendrus, rr
lnrhora Georges Canguilhem e outros filósofos, como sociologia urbana para Paul-Henri Chombard dc [,urrwt'.
.lulcrs Vuillemin e, da minha geração, Jean-Claude o lazer para Joffre Dumazedier. Havia conr ccrlcz:r
l'rrlie rrlc, llcnri Joly e Louis Marin, não tivessem deixa- :rlguns outros territórios menores ou margirrais t;rrt'
rlo rle parlioipar na vida científica, pelo menos durante «rn'rito. O espaço é balizado por três ou quatro gnrrrrlt'r;
o lorrgo pcrí«ldo de transição entre a filosofia e as rcvistas de fundação recente, a Revue .fitttrl',ti.s',' ,1,'
trt'rrt'lrs sociais (dava-lhes a ler o que escrevia, antes de ,sttt'iologie, controlada por Stoetzel e algurrs "hiut\t's" rlir

38 39
l,,,,strt x.'r t t,/n/ u MA Auro-ANÁusn PBnn-E Bounorcu

:,,'l,rrrrrlrr gcraçrio (Raymond Batoque irá herdá-la alguns retrospectiva condicionada pela ailtargurâ r.cllrt.rorurrl.r
;rrros tle;rois), os Cahiers inÍernationaux de sociologie, com a crise final, a sua análise apoiaver-sc nr.nnir vr:r;io
t'orrlr.olrrll por Curvitch e (herdada depois por Gcorges parcial e muito mal informada de certos aoontccrrrrcrrtor.
I lr
r r rtl i er ), a rev isÍa Arc h ives eu ro p éen nes de s ocio I o g i e,
Ir r (nomeadamente dos que se relacionavam conr a c,le içiro
Ítrrrrlirrla por Aron e dirigida com muito rigor por Eric de da sua filha, que tinha estudado e trabalhado corrrigo.
l)rrnrpir:rrc, e algumas revistas secundárias, pouco para a Escola dcls Altos Estudos), corno o atr.:slutl rrs
rrlrrcuntcs (um pouco como Georges Friedmann entre alusões ao tratamento que eu, supostantente, 1àzla so-
rrs rricstres antigos): Sociologie du travail e Etudes li'er aos meus discípulos. Eranr acontecimentos dc clrrc
rrrrttles. Tudo o que poderia parecer novo no campo das Aron tinha apenas um conhecimento e uma con'lprcon-
ciôncias sociais encontrava-se então reunidcl na Escola são muito imperfeitos. Poucas pessoas viram tão coclo r-r
l'}r'iitica clos Altos Estudos, dirigida por Fernand Brar:del, tão completamente quanto ele o que eu era e isso tra-
r;r,ro, ernbora criticasse os meus primeiros trabalhos cluzia-se até na crítica que me dirigia frequentementc c
sotrrc a Argélia, por, na sua opinião, atritruírem muito com que expressavâ os seus temores a lneu respcito:
pouca irnportância à história, sempre me apoiou de "Você é como Saftre: ficou demasiado cedo cotrr rrl
lirrnra muito amiga e com muita confiança, tanto na sistema de conceitos". Recol'do-me das longas noitcs
rninha investigação como na minha gestão do Centro cle passadas no seu apartamento do quai de Passy em quc
Sociologia Europeia, o mesmo sucedendo com o in- discutia com grande cordialidade e de igual para igual
ct-rnrparável director-agitador científico que o apoiava os esboços dos meus escritos, de harmonia, cerÍ.amento,
crn tudo (precedendo-o às vezes...), Clemens FIeller. coÍn a fraternidade normalista, Ínas talve'z também pe la
A passagem que Raymond Aron me dedicou nas sLlas r:stima que Canguilhern me dedicava e com quem fàlava
rrrcrnórias era urna recordação muito parcial da mir,ha tlc nrim. (Alguns anos mais tarde, depois da publicação
Ionga relação com ele. Em 1960, na véspera do golpe rlc Os llerdeiros(ts) e pouco antes de 1968, quando as
tlos coronéis, deu-me a possibilidade de regressar a lrossas relações se tornaram mais tensas, essa mcsmll
I'aris dc emergência, ulna dívida para mim inesquecí- íiaternidade levá-lo-á a tratar-me por tu, para mcu
vcl, oÍ'crecendo-me o lugar de seu assistente. (Eu tinha g,rande ernbaraço.)
irriciaclcl contactos com ele, pouco antes, a conselho de Pretendia libertar-me da tese quo me sobrecarrcgavrr
('lcrnonce Ramnoux, professora de FilosoÍ'ia Grega na rrruito e cuja "lógica" me intpunha que a fizessc prccc-
lilcuklade de Argel e que fora sua condiscípula na rlcr do que tinha realmente a dizer acerca de duas parlcs
I',sc«rlu Nonral. Tinha-me aconselhado a solicitar a cn()rmes, meramente académicas, uma sobro a cxl)c
Arrxr clLri: orientasse, para Llma tese, os trabalhos que liôncia original do mundo social, de inspiraçrio li.rro
cll't'lrurva, para outros fins, sobre a Argélia, e ele aco- rrrcnológica, a outra sobre a concepção estrutur:rlisl;r rLr
llrcrr-rrc corn muita cordialidade. Vemos aqui, uma vez
rnris. o papcl cla Escola Normal nos acasos aparentes de
'r') /,d,Í' lleritiers. l,at ttÍudian[s et lo t;ullun:, l)iuis. N4rrrurt 1,,í, I

tprt' ti lL'itu a rninha carreira.) Sendo uma reconstrução íi orrr .lcan-C'laude Passc:ron).

40 4l
Ptsnnl Bottnr;tr;t

lirrgrur c, por transposição, da cultura. (Era dar corpo à materia de política. Permito-me acrescontar'. lorlrrvr;r.
rtlcirr tlc tcoria da prâtica, que, tendo abandonado a que a nossa "ruptura", se é que alguma vcz tcvc luli:rr,
irrlcnçi'ur clo doutoramento, iria constituir o tema de uma pois voltava a vê-lo, de longe em longe, para intcl'rrrrrr:i
orrtnr publicaçáo'. Esboço).t6) Por isso, quando lhe pro- veis discussões, susceptíveis de inquietar os scus lrnri
prrs.iuntar os materiais que serviram de base aos livros gos conservadores, que o haviam "recuperado" upirs
'li'ttlrulho e Trabalhadores na Argéliaot) e O Desenrai- 1968, foi ocasionada não por qualquer desacordo, polí-
:trtnt,nÍo(s), acrescentando-lhes um terceiro conjunto tico ou de outra natuteza, mas, creio eu, por um dosgos-
sobrc a economia doméstica das famílias argelinas, to à medida da afeiçáo, por certo excessiva, quc nrc
bascado num grande inquérito estatístico (que, exausti- tinha tido e que, segundo ele, eu desapontara.)
vamente analisado, está amontoado numa prateleira no A revista L'Homme, fundada e controlada por Lcvi-
('ológio), respondeu-me: o'Isso não seria digno de si", -Strauss, ocupa um lugar completamente à parte, dorni-
aclvertência sincera e profundamente generosa, mas nante: embora dedicada quase exclusivamente à

nruito ambígua também, enquanto forma acabada da ctnologia, exerce uma grande atracçáo sobre uma partc
violência simbólica que se exerce sem o saber, porque rlos iniciados (entre os quais me encontro). Por aqui sc
so experimenta quando e no próprio acto com que se lrode ver a posição eminente da etnologia e a posição
oxerce. Nada mais direi sobre esta minha relação, que tlominada da sociologia. Seria mesmo necessário dizer
ole muito prezava, creio eu, porque, entre outras razões, tluplamente dominada: no campo das ciências duras,
tinha por princípio nunca lhe mentir, acentuando ao onde tem dificuldade em fazer-se aceitar, enquanto a
rÍlesmo tempo, de modo mais ou menos consciente, os e tnologia, através de Lévi-Strauss, se bate para impor o

pontos de acordo, com a intenção, esta quase consciente scu reconhecimento como ciência consumada (fazendo
c sem dúvida um pouco ingénua, de o ajudar, despertan- uso nomeadamente da referência à linguística, então no
clo, por essa via, as veleidades e as virtualidades críticas scu apogeu); e também no campo universitário, onde as
com que se teria aproximado da fracção mais viva da "ciências humanas" continuam a ser consideradas por
inlelligentsia, que era para ele sempre muito fascinante rntritos filósofos ainda muito seguros do seu estatuto c
(rnanifestou-me muitas vezes e de muitos modos a lxrr literatos desejosos de distinção como tendo chegatlo
inrcrrsa admiração que tinha para Sartre), mas sem rrlnrsadas e como arrivistas. Não será surpreendorttc
ru.lncil ocultar os pontos de desacordo, sobretudo em t'rrcontrar nesta disciplina-reÍhgio, muito acolhedora
lrlvcz até demasiado, ou, como muito bem diz Yvcltc
l)e lsaut, "pouco intimidante" -, um pequeno grupo rlt'
'1"t l'):;tlrrisse d'une théorie de la pratique,
précédé de trois études proÍ'cssores da história da disciplina, mas quc pnrlit';r
,l'r'tlrrrttlrryit' kubyle, Genebra, Droz, 1972]! reedição: Paris, Seuil, 2000' l)()uco a investigação, e uma "massa" (de Íuclo rrlo
ttlt 'li (uoil el lruvailleurs en Algérie, Paris-Haia, Mouton, 1963 (com nrrrilo numerosa) de investigadores ligados ao ('NllS r'
Âl;rirr l)urbcl, .lcan-Paul Rivet e Claude Seibel).
;r rrlgurnas outras instituições. Estes últirrros, sirítlos rkrs
't"' l,<' l)trtu'incment. La críse de I'agriculture traditionnelle en
í/r,,:r'r,'. I'rrris. Minuit, 1964 (com Abdelmalek Sayad)-
t':ilrrbolocimentos universitários mais divcrsos (pors :r

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1,.',stit tt. r t t,ttt/ Lttu Auro-ANÁttst P t tnn t lJ t tt i tt t tt t.; t

lrt t'nt'iirlrrnl cn'l sociologia não existia aquando do in- lado, são um pouco desprezados (sabc-sc (luc () l)r(':,tr
l,,r('ss() tlu sogutrda geração), dedicam-se sobretudo a gio das especializações em História aumcntl crrr lurrl'rlo
rrrvt'sliguçt)cs cmpíricas tão poLlco fundamentadas teó- do afastamento no tempo dos períodos estudarkrs) c. por
rit'rr tltnnto cntpiricamente. São outros tantos indícios e outro, como nos regimes soviéticos, são discrctarrrr.rrtt.
lirt'torcs clo uma enorme dispersão (sobretudo no que alvo de suspeita. Por isso, numa boa síntese do scnlitkr
rcspcita ao nível atingido), pouco favorável à instaura- normalista das hierarquias academicas e da adcsiio uos
ç'lo tlc um universo de discussão racional. Não será preconceitos "marxistas", os althusserianos falavarrr tlc
cxccssivo, creio eu, falar de disciplina paria a propósito "ciências ditas sociais". Não há filósofo, escritur ou
tlu sociologia: num meio intelectual que está. não mesmo jornalista, por mais insignificante que seja, quc
obstante, rnuito ocupado e preocupado com a política - não se sinta autorizado a dar lições ao sociólogo, sobrc-
crutrora rnuitos alinhamentos, nomeadamente com o tudo, evidentemente, se se tratar de arte ou de literatura
l'articlo Comunista, sejam ainda uma maneira paradoxal -- com o direito a ignorar os conhecimentos mais clc-
rlc nranter o mundo social à distância , a "desvaloriza- mentares da sociologia, mesmo quando o tema ó o
çL)o"' que aÍ'ecta tudo o que se relaciona com os tenras mundo social e que não esteja profundamente conven-
sociais vem de facto reforçar, oLl fundarnentar, uma cido que, independentemente do problema, é preciso "ir
posiçào dominada no campo universitário. (Lendo alenr da sociologia", oLl "superar a explicaçáo mera-
lrrcdérique Matonti(re), por exemplo, pode ver-se como nrente sociológica", e que tal superação está ao alcancc
os intelectuais comunistas reunidos à volta de La cle qualquer um.
lVorn,elle Critique chegarn a reproduzir nos seus deba-
lcs, aparentemente muito abertos ao universo inteiro, as A minha percepção do campo sociológico fica a
prr:ocupações, as oposições e as l-rierarquias do pequeno tlever-se muito também ao facto de a trajectória social
rrrrrrrclo fbchado das khâgnes e da Escola Normal, onde c escolar que aí me conduziu me particularizar bastantc.
l.ouis Althusser é, sem dúvida, a figura paradigmática.) Além disso, regressando da Argélia coÍl uma experiôn-
O rnr"rndo social, por ser ignorado ou recalcado, está cia de etnólogo que, tendo sido obtida nas condiçõcs
rrrrscnte de um mundo intelectual que pode parecer tlifíceis de uma guena de libertação, tinha constituíclo
obcccado pela política e pelas realidades sociais. En- para mim uma ruptura decisiva com a experiôrrcia
tlrurrrto as intervenções exclusivamente políticas - as académica, cheguei a uma visão bastante crítica rl:r
pctiçircs. os manifestos e as declarações -, mesmo as sociologia e dos sociólogos, ao reforçar-se a pcrspccti-
rrrris avontureiras do ponto de vista intelectual, podem va do filósofo com a do etnólogo, e sobretudo, tulvcz.
Ir.rrzcr prcstígio aos seus autores, os que se dedicam ao rl uma imagem bastante desencantada, ou realislir. rl;rs
conlrccin-ronto directo das realidades sociais, por Llm Irtmadas de posição individuais e colectivas por' prrrlt.
tlos intelectuais, em relação aos quais a questão rrrlit'linrr
tinha constituído, a meus olhos, uma exccpciorurl perlrr
"" lrrLirltrrit;rrc Mittonti, Lcr double illusitttt, La Nouvelle Critique,
tnt tt t'ut ,ltr l'('1", l9ó(t--1980, Paris, La Découverte, 2004. rlo toque.

44 45
lisxtç.:o InRA UMA Áuro-At'tÁusr Prcnnz Boun»nLt

N:io c lácil pensar nem dizer o que foi para mim esta conjunto de histórias do Vietname sobrc pcrig()s()s l('n(r
t'rpcriôrrcia c, em particulaq o desafio intelectual e ristas que apunhalam pelas costas (antes mcsl)l() tlt' prs:rr
lrrnrlrónr pcssoal que Íepresentou esta situaçáo trâgica, o solo da Argélia, eles já tinham adquirido c assinrilrrrlo,
t;uc nllo se deixava enceffar nas alternativas usuais da em contacto com os oficiais subalternos respons;ivt'rs
rrrrrnrl c a política. Tinha recusado fazer a Escola dos pela instrução, todo o vocabulário do racismo vulgur'
( )llciais da Reserva, sem dúvida porque, por um lado, terroristas, .fellaghas, fellouzes, bicots, ratons(*), ctc.
ruio suportava a ideia de me afastar dos simples solda- bem como a visão do mundo que lhe está associacll).
tkrs o, por outro lado, devido à pouca simpatia que tinha Somos designados paraa guarda de um enorÍne depósikr
pckrs candidatos à EOR, frequentemente HEC(.) e juris- de explosivos na planície perto de Orléansville. E longo
tas de quem não gostava muito. Após três meses de e duro. Jovens oficiais arrogantes, apenas com o licou,
aulas bastante duras em Chartres (onde tinha de sair da que foram chamados e depois integrados e promovidos.
llla na parada, à chamada do meu nome, para receber, Um deles participa no concurso de palavras cruzadas tlo
pcrante as tropas reunidas, o jornal L'Express, que se Figaro e pede-me ajuda à vista de todos. Os mcus
tirrlra tornado símbolo de uma política progressista paÍa camaradas não compreendem por que não sou oficial.
a Argélia e de que me ftzera assinante um pouco Tendo dificuldade em dormir, substituo-os frequentc-
ingenuamente), fui ter, em primeiro lugar, ao Serviço de mente no seu furno de guarda. Pedem-me para os ajudar
Psicologia do Exército, em Versailles, seguindo um a escrever à namorada. Faço-lhes cartas com versos dc
pcrcurso normalista deveras privilegiado. Todavia, as pé quebrado. A sua total submissão à hierarquia e a tudo
discussões violentas com oficiais de alta patente que o que ela impõe é uma rude prova ao que resta ainda em
cluoriam converter-me à "Argélia Francesa" Yaleram- mim de populismo, o qual é alimentado com a secreta
-mc ser mobilizado para a Argélia. A força aérea tinha oulpabilidade de participar na ociosidade privilegiada do
lirrmado um regimento, uma espécie de subinfantarra adolescente burguês e que me tinha levado a deixar ir
cncaregada de defender bases aéreas e lugares estraté- llscola Normal, imediatamente após a agregaçáo, para ir
gicos, com todos os iletrados da Mayenne e de toda a cnsinar e ser de alguma forma útil, embora pudesse tcr
Nurrnandia e alguns agitadores (nomeadamente alguns podido beneficiar de um quarto ano.
lrabalhadores comunistas da Renault, lúcidos e simpá-
ticos, que me confessaram como estavam orgulhosos da (.) Fellagha:1. ladrão de estrada na Tunísia e no Sul da Argólirr; ll.
"sua" cclula da Escola Normal).
rcvoltoso da Tunísia e da Argélia contra a administração franccsa pirrir
I)urarnte a viagem de barco, tento em vão doutrinar os obter a independência.
nrcus camaradas, cheios de recordações militares que Fellouz (singular: /táhi): termo de origem árabe do Nortc ilc Álir. rr
llrcs Íoram transmitidas e, em especial, de todo um oorn o significado de pintainhos e frangos.
Bicot'. l. cabrito; 2. designação pejorativa do árabc tkr Norlt' rlt'
Á liica.
't) Alrrno ou diplomado pela Escola dos Altos Estudos Comerciais. Raton: l. ratoneiro; 2. designação pejorativa do írnrbc rkr Norlt' rL'
lN rht'l'.1 A,liíca. (N. do T.)

46 47
l.tst,rrco ruru uru dur Pnnng Brttitttttt,;tt

Comecei interessar*me pela sociedade argelina quan-


a substituir a denominação tradicional da clisciplrrrr pt'lrr
do, nos últimos meses do meu serviço militar, graças à designação inglesa de antropologia e ao associal rr st'rlrr
--
protecção de um coronel bearnês a quem os meus pais alemão Foucault tradvia ncssu lrllrrrr rr
ção do sentido
apelaram por intermédio de membros da sua família que Antropologia de Kant(2r) * à modernidade do scttlirkr
habitavam numa aldeia próxima, pude escapar ao desti- anglo-saxónico.)
no que tinha escolhido e que se tornara muito dificil de Todavia, no próprio exagero do meu empenhamcttto,
suportar. Destacado para o gabinete militar do Governo* havia também uma espécie de vontade quase sacriÍlcial
-Geral, onde ficava sujeito às obrigações e aos horários de repudiar as grandezas enganadoras da filosofia. (lon-
de um escriturário de segunda classe (redacção de cartas, duzido de certo pelas minhas disposições originais, há
contributos para os relatórios, etc.), pude começar a rnuito tempo que procurava afastar-me do que granclc
redigir urn pequeno livro (um "Que sais-je?")(zo) em que parte do que se associava então à fllosofia tinha dc
tentana dizer aos Franceses, sobretudo aos de esquerda, irreal, senão mesmo de ilusório: ia dedicar-me à filoso-
o que se passava realmente num país do qual eles muitas Íla das ciências, à história das ciências, aos filósotos
vezes ignoravam quase tudo, e isso, mais ümavez,para mais enraizados no pensamento científico, como Leibniz,
ser de alguma forma útil e talvez tarnbem para sossegar o apresentei a Georges Canguilhem um tema de tesc
a má consciência de espectador impotente de uma gueffa sobre "As Estruturas Temporais da Vida Afectiva", partt
atroz. Ao fazê-lo * convencido de que estas incursões o qual contava apoiar-me em obras filosóficas como a
iniciais na etnologia e na sociologia se davam apenas a cle Husserl e em trabalhos de biologia e de fisiologia.
título provisório e que, uma vez terminado este trabalho llncontrava na obra de Leibniz, cuja leitura me obrigavtr
de pedagograpolítica, regressaria à filosofia (aliás, du- a aprender matemáúica (cálculo diferencial e integral,
rante o tempo em que redigia a Sociologia da Argelia e topologia) e um pouco de lógica, uma nova oportunida-
efectuava os meus primeiros inquéritos etnológicos, tlc de identificação reactiva. (Recordo-me da minha
continuava a escrever, à noite, acerca da estrutura da irrdignação com um comentário tão inapto quanto ridí-
experiência temporal em Husserl) -, empenhava-me culo, porque mais uma vez em tons grandiosos, quc
completamente, de corpo e alma, não temendo o cansaço I lyppolite frzera a uma passagem das Animadversictnc:;

nem o perigo, num projecto em que o que estava em rlo Leibniz, a propósito de uma "superfície finita clc
causa não era somente de ordem intelectual. §ão há curnprimento infinito", güe o cálculo integral permilc
dúvida de que a transição fora facilitada pelo prestígio r:onhecer, e que ele convertera, devido a um erro gros-
extraordinário que esta disciplina adquirira junto dos sciro de concordâncta gramatrcal na leitura do tcxlo
próprios filósofos, graças à obra de Lévi-Strauss, que latino, em "uma superfície infinita de comprinrcrrrlo
também tinha contribuído para esta dignificação, ao llnito", muitíssimo mais metafísica.)

' ' ,\rtt ittlo,tlit' dc I'Algérie, co1. Que sais-je'/, n" 802, Paris, PUF, ''r) Immanuel Kant, L'Ánthropologie du point tlc wtt' l»rt.tirtt,tír,ltt,
l'),l,i rr'r.rlrt;rrkr errr l(X)1. l'rrr is, Vrin, 1964.

48 49
Ii,s'ttt x,'r t t>/r n/4 {t ttrA Auro-AwÁt.tst Ptr;nnt Br)tiRr tr r,;t r

('onrprocndi assim, retrospectivafitente, que tinha to apenas acerca da sua casa cabila!" Urn c:gi;rlrilol,o
trrllirkr para a sociologia e a etnologia devido, em secretário vitalício da Academia das Ciôncias Morrr,.r r.
purlo, a utna rejeição profunda do ponto de vista Políticas, uma das instituições mais conscrvatlonrs rl:r
e:scoliisl.ico, um princípio de uma amogância e de uma França cultural, e que muito o aprecia -, r:lunurlc rr
tlistância social em qlre nunca pude sentir-me à vontade recepção de reabertura das aulas não o tinha visitlrtkr,
c para a qual a predisposição advém, seín dúvida, da porque estava ausente de Paris -, fazendo alusão iro
rclação corn o mundo associada as certas origens so- número extraordinário (dois sins) que eu obtivcra, rro
ciais. Esta atitude era-me desagradável, e jâ há muito Instituto, na votação para ratihcar a eleição para o
tcmpo, e a recusa da visão do mundo associada à Colégio (procedimento puramente formal, apesar dc
Íllosofia universitária da filosofla contribuin muito, sem alguns "acidentes" inconsequentes do passado associa-
dúrvida, para orientar-me para as ciências sociais e dos aos nomes de Boulez, que, realidade ou fantasia,
sobretudo para certa maneira de as praticar. Mas iria obteve dois votos, e de Merleau-Ponty, três), diz-mr:
descobrir muito rapidamente que a etnologia, ou, pelo cle: "Os meus colegas" - ou confrades, já não me ro-
rnenos, a maneira específica de a conceber encarnada cordo - "não apreciaram muito que tivesse escrito
por Levi-Strauss e que a. sua metáÍbra do "olhar distan- acerca das necrologias dos antigos alunos da Escola
ciado" sintetiza, permite também, de maueira bastante Normal Superior." (Aludia a um artigo sobre "as catc-
paradoxal, manter à distância o mundo social e mesmo gorias do entendimento professoral"(23), em que eu tinha
"denegá-Io", no sentido de Freud, e, deste modo, estetizâ- partido das necrologias publicadas no Bulletin des
-lo. Há duas histórias que, entendidas corno parábolas unciens élàves de l'ENS.) Com estas histórias, podemos
ou fábulas, mostram de maneira muito precisa a grande rnedir bem a distância, que muitas vezes passa despcr-
difêrença que existe entre a etnologia e a sociologia cebida, entre a sociologia, sobretudo quando enfrenta os
(pelo menos como a entendo). Aquando da minha can- russuntos mais candentes do presente (que não residcn-r
didatura ao Colégio de França, durante a visita que frz rrccessariamente onde se crê, quer dizeq no temeno cla
a um historiaclor da arte que me era muito hostil, por política), e a etnologia, que permite ou favorece mesmo,
razões que não eram somente políticas (ele tinha escrito (luer nos autores cluer nos leitores, as atitudes estetas.
na primeira página de Le Monde um artigo muito mal Nunca tendo abandonado completamente a tradição rla
intc:ncionado acerca de Panofsky, na mesrna altura em viagem literária e o culto artístico do exotismo (linlrl-
(luo cu tinha publicado Arquitectttra Gótica e Pensa- gom a que pertenc em Tristes Tropicosrz+) de Lévi-Strarrss,
rtrt,nlo Escolástico)\22', e que, para me desacreditar, rnas também uma grande parte dos textos de Leiris c: tlc
tirrha Í'cito correr o boato de que eu era membro do
)rrr'(itlo Clomutrista diz-me ele: "Que pena não ter escri-
f , (23\
Actes de la recherche en sciences sociales,3 (Maio de 1975), 6ü.
-93 (com Monique de Saint Martin).
("'r lr()(f)icio ao livro de Erwin Panofsky, Architecture gotltique et (24)
Claude Lévi-Strauss, Tristes tropiques, Paris, Plon, 1955 lllfulu
l,t'tt,\'ttt' \( (,I(t.\Iit1uc, Paris, Minuit, I967. Trópicos, Lisboa, Edições 701.

50 51
lisNtço PARA UMA Auro-At'rÁttso Prcnnz Bounutiu

Mclluux, tendo os três estado ligados, na sua juventude, inspiração e de "resultados científicos", urr-r irrslr.rrrrrt.rrIo
rros rnovimentos artísticos de vanguarda), esta ciência ordenador que lhe permitia legitimar unta visiio rh»
scnr problemâtica actual, excepto a meramente teórica, mundo social alicerçada na denegação do social (pirrr rr
potlc, quando muito, remexer o inconsciente social qual também contribui a estetização). Recordo-nrc t1rr.,
(pcnso, por exemplo, no problema da divisão do traba- numa época em que estava envolvido numa aura tlc
lho entre os sexos), mas muito delicadamente, sem progressismo crítico - discutia com Sartre e Maxilnc
nunca maltratar nem traumatizar. Rodinson acerca do marxismo -, distribuiu um toxto rlc
(Embora Levi-Strauss me tenha apoiado sempre com Teilhard de Chardin, no seu seminário da Escola dos
muita generosidade - foi ele quem, com Braudel e Altos Estudos, para estupefacção dos seus seguidorcs
Aron, me fez de entrar na Escola Priúica dos Altos rrais incondicionais. Mas a visão profundamente c«»r-
Estudos, quando era muito jovem e não tinha ainda servadora que sempre esteve na origem do seu pensa-
publicado quase nada, e foi também o primeiro a cha- mento revela-se ou trai-se, sem margem para dúvida,
fflar-me para me falar do Colégio de França - e me cm 0 Olhar Distanciado(2í,), coÍD o elogio da Alemanha
tenha escrito coisas muito agradáveis e muito elogiosas c de Wagner, a apologia da pintura realista e a defesa da
acerca de cada um dos meus livros, penso que nunca cducação autoritária e repressiva. (Escreveu, em 1968,
teve grande simpatia pelas orientações fundamentais do um texto bastante medíocre sobre a "revolta estudantil,'.
meu trabalho nem pelo modo como apresentava o mun- clue interpretava como um conflito de gerações, e na sua
do social nos meus trabalhos de etnologia e, mais ainda, conferência Marc Bloch de Julho de 1983 criticou com
nos de sociologia. Recordo-me que me tinha feito per- o conceito ambíguo e mais político que científico dc
guntas estranhamente ingénuas, nomeadamente acerca "espontaneísmo", quer a subversão dos estudantes ertr
da sociologia da arte.) Por meu lado, embora lhe votasse 1968 que o tinha posto em causa, bem como a Aron,
uma imensa admiraçáo e me tivesse integrado na tradi- llraudel, Canguilhem e muitos outros -, quer a crítica
ção que tinha criado (ou recriado), descobri muito Íoita ao "estruturalismo", para a qual eu próprio contri-
rapidamente nele, para além do objectivismo que criti- lruí, nomeadamente com o Esboço. Não tinha podiclo,
quei explicitamente em Esboço de uma Tboria da Prá- ou querido, compreender esta crítica senão como until
Íi,ca e em O Sentido pro7lr6Qs\, o naturalismo cientista rogressão aquém da visão objectivista que tinha impos-
que estava subjacente à sua visão profundamente des- Io na etnologia, quer dizer, como um regress() il()
-historicizada da realidade social e que se evidenciava sLrbjectivismo, ao sujeito e à sua experiência vivicla. tlos
nas metáforas e nas referências, frequentemente super- tluais pretendera desembaraçar a etnologia, c quc cu,
íicitris, às ciências da natureza - à cladística, por exem- ('orr a noção de habitus, recusava tão radicalnrcrrlt.
pkr que espalhava pelos seus textos. Era como se a tpranto ele.)
t'iôrrcia natural fosse para ele, para além de fonte de
(26)
Claude Lévi-Strauss, Le Regard éloigné, paris, plon,
/,r' ,\i'r,s lttalique, Paris, Minuit, 1980. ()lhar Distanciado, Lisboa, Edições
"'r 701,

52 53
il
l,,l,stt tç't t rtRÁ LIMA A unt-AN,lt-tst; Ptonat B<ttrttt tt t.;t t

'lcnrkr concluíclo o serviço militar, para poder conti- aldeia da Grande Cabília, lugar dos nlL:us l)rnr(.r.i,
nurr as investigações que tinha iniciado e a que me inquéritos sobre a estrutura social e sobrc o rilrrrl l,rrr
tlctlicava cada vez mais aceitei um cargo de assistente Tizi Ouzou, oltve-se o estalido surdo das mctrallurthrr;r:,,
rrl l,'aculdade de Letras de Argel e, sobretudo durante as penetramos no vale, por uma estrada juncada, u totkr o
lúrias escolares, grandes e pequenas, pude de facto comprinrento, de carcaÇas cle automóveis carbonizlrkrs;
conduzir as minhas pesquisas etnológicas, e depois, na subida para a garganta, acima cle uma curva, r.ro cirrro
graças à delegação argelina do INSEE, pesquisas socio- de uma espécier de crertera situada no alinhamcnto tlr
lógicas. Posso dizer que, durante todos os anos que estrada, um homenzinho vestido com um albornoz, tk:
passei na Argélia, não deixei de estar no terreno, se espingarda entre os joelhos. Sayad revela sangue-lr"io: r'
posso expressar-me assim, realizando observações mais como se não tivesse visto nada. Como argelino, arriscir
ou menos sistemáticas (recolhi deste modo, por exem- talvez mais do que eu. Continuamos sem trocar palavrir
plo, várias centenas de descrições de conjuntos e penso apenas que, à noite, teremos de voltar polo
vestimentares com o objectivo de relacionar as diferen- mesrno caminho. No entanto, o desejo de reencontrar o
tcs combinações possíveis de elementos retirados do meu terreno de estudo e verificar um certo número dc
vestuário europeu e do vestuário tradicional - fez, hipót.eses sobre o ritual é tão forte que não penso mais
turbante, sarouel, etc. - com as características sociais nisso.)
dos seus portadores), fotografando, realizando às ocul- Ernpenhamento total e ignorância do perigo eranr
tas registos de conversas nos lugares públicos (tinha rrnra certa forma de heroísmo e enraizavaln-se, creio, na
tido a intenção de estudar as condições da passagem de tristeza e na ansiedade extremas em que vivia e, a pat'
uma língua para outra e continuei a experiência durante do clesejo de decifrar algum enigma do ritual, de rcco-
algum tempo no Béarn, onde isso me era mais fácil), Iher um jogo, de ver tal ou tal objecto (uma lâmpada clc
ontrevistas com informadores, inquéritos por questioná- casamento, Lrma arca antiga ou o interior de uma casa
rio, exame de arquivos (passei noites inteiras a recopiar bem conservada, por exemplo), ou, noutros casos. clo
inquéritos sobre a habitação, fechado, após o recolher sirnples desejo de observar e dar a corrhecer, levavarnr-
obrigatório, na cave do serviço HLM), realizando testes -me a dedicar corpo e alma àquele trabalho alucinado
nas escolas, orientando discussões em centros sociais, (lLre me permitiria corresponder às experiências dc cltrc
ctc. A libido sciendi um pouco excitada que me impelia, ora uma testemunha indigna e desarmada e do r;rrc
c que se enraizava numa espécie de paixão por tudo o clueria dar conta a todo o custo. Não é f;ícil dcscrcvcr'
tltrc cstava relacionado com este país, as suas gentes, as corno vivi situações e acontecimentos aventurirs lirl
srurs paisagens, mas também na secreta e constante vez que me perturbaram profundamente, a polrlo rlt'
st:rrsação de culpa e de revolta perante tanto sofrimento surgirem, por vezes, nos meus sonhos. E niio sc lrrl;t
c lrurtu injustiça, não tinha descanso, não conhecia lpcnas dos casos mais extremos, como t-r rcllrlo r;rrr.
lirrritcs. ( l{ccordo-me, por exemplo, daquele dia bastan- rrlguénr me fazia numa cela totalmente bralrt':r rlt. rrrrr
It' sirrislnr tlo Outono em que subia para Aít Hichem, ntosteiro dos Padres Brancos, desculparrtl()-st. l)()r nr(.

54 55
l
1,,',sttt x,'r t r/n/1 Ll M/1 Áunl-ANÁt.tst Prcnrc l]rttrtttttt,;tt

rrll igir', o Lnr outro, na extremidade do molhe, em Argel,


-
que utilizei muito no meu trabalho, e outro. rruris.jovcrn,
l)lnr (prc ninguém pudesse ouvir-nos, acerca das tortu- ligado ao ALN -, há de repente uma granclc lgilrrl.iro
nrs qr.rc o exército francês lhes tinha infligido. (Em Os soldados franceses (com os quais me idcntillco corn
l).jcrnaa Saharidj, onde ia recolher dados sobre a distri- facilidade, porque, um ano antes, ainda envergálva o ri(.u
lruição da propriedade - o que não tinha podido fazer uniforme) avanÇam em frla indiana, por um canrirrlro
crn Aít Hichem, tendo tido de me dar por satisfeito com cavado, em direcção à montanha. Sei pelo mcu.jovcrrr
o lcvantamento da distribuição das diferentes linhagens arnigo (que o frca a saber. por seu ladà, pelas criarrçirs
no espaço aldeão -, no dia da minha chegada, os Padres que giram à volta dos militares) que vão à procura rkr
Brancos não estavam lâ. (Esquecera-me de que era um esconderijo, que se supõe existir no flanco tlu
domingo e eles estavam na missa.) Avanço ao longo de montanha, onde o ALN tem as suas reuniões e guartlu
um caminho, acima do mosteiro, até a um pequeno os seus arquivos. Acompanho o seu avanço, no rncio
bosque onde encontro um velho cabila de rosto magro, dos homens e das mulheres da aldeia, que, como cu,
nariz aquilino, bigode branco magnífico - que me faz csperam que não consigam atingir o refúgio antes tlc
recordar do meu avô materno -, ocupado a secar figos chegar a noite e que os seus ocupantes possam fugir. lr
em tabuleiros de vime. Começo a falar com ele aceÍca o que se passa, de facto. Mas, no dia seguintc, o
do ritual e de lakhrif, a estação dos figos frescos e dos csconderijo é tomado, como também os papéis que lá sc
combates... De repente, parece-me extremamente ner- cncontravam e que incluem as listas nominativas clc
voso. Um tiro é disparado muito perto e, continuando todos os apoios do ALN no país. O meu amigo, diroc-
cortês, eclipsa-se rapidamente. Venho a saber, alguns lamente ameaçado, pede-me para o levar no meu auto-
dias mais tarde, por um jovem que presta pequenos n-róvel. Pafto, por isso, no dia seguinte, embora o mou
scrviços aos Padres Brancos e com quem falei amiu- trabalho esteja longe de concluído, e ultrapassamos as
dzrdamente, que este bosque é um lugar onde os solda- barragens militares, depois de algumas angústias, sonr
dos do ALN(27) têm o hábito de fazer a sesta e que tlomasiadas difi culdades.)
dispararam para sabermos que era necessário abandonar Conduzir um inquérito sociológico em situação rlc
o local. Alguns dias depois, quando já estou habituado gucÍTa obriga a pensar em tudo, a controlar tuclo tr,
ii aldeia e sou bem aceite e acolhido pelos habitantes - rr«rmeadamente, o que é fundamental na relação cnlr.c
grilças, sem dúvida, à protecção dos meus hóspedes, irrcluiridor e inquirido: a identidade dos inquiriclorcs, l
tkris padres brancos, o padre Dewulder, de elevada pr'(rpria composição da equipa do inquérito - cor)r unr
cslatura e grande barba branca, muito amistoso, de clomento apenas ou com dois, se com dois, urlr lronrcrrr
(lucnr recordo o nome porque é o autor de estudos muito L: Lrrna mulher, um argelino e uma francesa, ctc. (llt.lo
lxrrrs sobre a simbólica das pinturas murais da Cabília, rnci no prefácio da segunda parte do meu livro 'll.,rlt,tllr,t
,' 'l-rabalhadores uma pequena parte das rcllcxiicri (pr(. ;r
rcitlização desta pesquisa me suscitou.) Sohl'clrrrlt» rrlio
"/r lixí'rt'ilo de Libertação Nacional, ramo armado da Frente de
I rlrrrlrrr, iio Nitciottal. rrr, o próprio objectivo do inquérito levantir tlr'rvirl;n rrr,:,

s6 57
Br".
li.strt t<'tt pÁnÁ tJ MÁ Áuro-ANÁttst: Prcann BouttL.»ttitt

irrtluilirlos (não serão polícias ou espiões?). A suspeita indignação que não posso deixar clc scrrlir tlurrr,l,r
c gcral: por vezes, agentes de informação vêrn inquirir, especialistas de sondagens, quer dizer, dc irrtprcrrlo,., ;r
ir scguir aos investigadores, qual a natureza das pergun- distância e por procuração, irritados con-r as rnirrlrrr;
lrrs cltrc frzerant (durante uma determinada fase, quando objecções (meramente científicas) às suas pralicrrs. tlr
lrartia de autornóvel, de manhã, para realizar os meus rigem críticas arrogantes e pueris a inqucritt)s (luc
incluéritos ao bairro de lata de Clos Salembier, era envolvem toda a experiência adquirida, como os corrtlrr
scguido por um automóvel da polícia e um dia fui zidos para A Miseria do Mundo3t).)
corrvocado pelo jovem oficial da SAS(28) responsável Guardo, por isso, uma lembrança muito níticla do tlilr
clcste sector, que queria saber o que eu fazia). em que, num centro de reagrupamento da penínsr-rla rlc
Não podemos sobreviver, no sentido próprio do ter- Collo, o destino do inquérito e talvez também tlos
n1o, em tal situação (que etnologos investigadores dos investigadores dependeu, por instantes, da resposta cluc
dealers de crack, como Philippe Bourgois(2e), ou os gangs iria dar à pergunta feita por aqueles a quem queríar.nos
cle Los Angeles, como Martin Sanchez-Jankowski(30), realizá-lo. Tudo começara em Argel, no Instituto tlc
também conheceram), senão mediante uma reflexividade Estatística da rue Bab Azoun, onde Alain Darbel, adrrri-
permanente e príttica, que é indispensável, nas condi- nistrador do INSEE, fora encarregado de "construir urnir
ções extremas de urgência e risco, para interpretar e amostra" de centros de reagrupamento, o que não tinha
avaliar instantaneamente a situação e mobilizar, mais quase nenhum sentido, dada a inexistência de inÍbnra-
ou menos conscientemente, os conhecimentos e os ções sobre o universo estatístico. Sendo favorávcl li
modos adequados de proceder adquiridos nas primeiras "Argélia Francesa" e, portanto, muito hostil à intrr-rsão
cxperiências. (A atençáo critica que exerci nos meus cle sociólogos no santo dos santos do INSEE, designarl.
trabalhos ulteriores tem, sem dúvida, a sua origem oomo por acaso, duas regiões particularmente "difíccis",
nestas primeiras experiências de investigação, realiza- Matmatas, perto de Orléansville, e a península de Collo.
clas em situações onde nunca nacla é evidente e onde a região mais controlada pelo ALN, gue pondcrou.
tudo e continuamente posto em causa. Daí, portanto, a clurante algum tempo, instalar aí um governo provis(rrio.
c fbi urn dos alvos principais das grandes operaçõ«:s tlc
"pacificação" ditas Challe -
blindados, helicóptoros c
(rt) Secção Adrninistrativa Especializada, estrutura organizada pelas
pára-quedistas -, tão devastadoras colllo inúteis. lirnbonr
irrrtoridades Íiancesas e controlada pelos militares durante a guerra para
livesse consciência do perigo e, de um modo nrais vrrg,o.
llsscgul'ilr funções administrativas, sociais e de controlo junto da popula-
r,iio rtrrttl. tla arbitrariedade da escolha, tendo-o dito a [)arbcl rrrr
r'r)) I)hilippe Bourgois, En quêl.e de respect. Le crack à New York, col. vóspera da partida, decido ir a Collo com unril l)c(pr('nl
l,ilrrrr', l'aris, Seuil, 2001. crluipa: dois estudantes pieds-nçiys(*t "libcruis" n()
""' Martin Sanchez-Jankowski, Islands in the Slreet: Gangs in Urban
,Itttt't it'(ttt ,\rriaI1t, Berkeley-Los Angeles, University of California Press,
l()t)l; "l,cs lr,iurgs et la presse. La production d'un mJ'the national", Actes \tt) La Misàre du monde, Paris, Seuil. l,l,t.'l (,'l ,r/. )

rlr'lrt rr'r'lrcn lrt urst:ient:et;,sociale,t,101-102 (Março de 1994), l0l-117. t-) Pieds rolrs: franceses nascidos na Argclliu. (N tl,' I t

58 59
Essoç:o PÀRA uMÁ Auro-At'tÁusa P rcnnp: I) t t Lr nt tt t,; t t

sentido quo a cxprcss:io tinha ali naquele momento, ou parente, no contexto do tempo, e os cstrrrlirrrlcs rrrlit.lr
seja, grr.r,s,srt ttrotlo. Íitvonivcis i\ intlcpendência da Argé- nos, suspendendo a sua greve, tinham assislitkr t.rrr
liar; Lrrn rlclcs, rlrrc tuio potliit ntitis sr.tpoftar a tensão, massa - e conquanto em total desacordo cont () (luc (.lr
clccirlirá put'tit'ltttlcs tkr rrtícitt tlo ittcltrcrito , um jovem lhes dizia, sem provocações, mas também sont c()nccs
írrlbc, (luc n()s tirtlur tlitrt tlttc csltttlitva direito, mas que sões, sobre a diferença entre os efeitos da silu:rçrio
nuo lirrlur rrcrrlrrrrrr tligrlotrt:r c sc t'cvclitrá um excelente colonial e os da aculturação resultante dos "oolrtat:tos
irrtpririrkrr'" t: S:tyltrl, (lr.rc cril tnctt altttto rta faculdade e entre civilizações", que estava muito na mocla r)lr
t:rrrrbi'nr cstavrr cnvolvitkl t.to t.t-tovitt.tcnto dos "alunos etnologia americana da época, frzeram questão dc rrrc
lihcrais". l.orrgu viagr:m crn autonróvel na minha avisar que precisava de desaparecer e permaneccr cs-
l)trtrplrinc. ('onstantina tcm aspecto de cidade cercada: condido. Para me convencerem de que estavam bcur
Iorl:rs as portas dos cafés têm redes metálicas para informados, perguntaram-me se conhecia Gérard Lebrun.
prcvcrrir atcntados à granada. As quatro horas da tarde, um dos meus amigos, então professor de Filosofia na
.jír não há ninguem nas ruas. A nossa intenção de chegar khâgne de Argel, também ele na lista das pessoas quo
a Collo pela estrada aterroriza um jovem subprefeito{-) cra necessário neutralizar, talvez do mesmo modo quc
antigo aluno da Escola Normal, que dificilmente ousaria Audin(.).) Tomo também conhecimento das más intcn-
atravessar a rua para ir ter com a mãe. É ele que nos ções da autoridade militar em relação a um jovcnr
impõe que partamos de barco, passando porPhilippeville. estudante da Escola Central, que, sendo contrário :i
A viagem entre Philippeville e o pequeno porto de Collo guerra da Argélia e para poder ir observar in loco, tcvc
parece-me excitante: vou, por fitn, ver a cidade de perto. attorizaçáo para acompanhar as estadias organizadas
As montanhas que costeiam o mar estão em fogo. pelo exército cujo objectivo é levar os jovens a aderir ii
O subprefeito de Collo, que anteriormente estivera Argélia francesa. Mandado para Collo, virâ connosco
em Romorantin, manda avisar-me para ter cuidado, para lá.
porque "um falso atentado organizado pelo exército Decido ir a Aín Aghbel, a uma vintena de quilómc-
francês - está para acontecer". O coronel Vaudrey tros de Collo. O capitão da SAS, que não comprccntlc
(creio eu), antigo comandante-em-chefe de Argel, sabe bem (ou compreende demasiado bem) o que vinros
onde estamos e quem somos. (Eu constava, sem dúvida l-azer, pretende alojar-nos no posto militar. Rccuso c:
ncnhuma, da "lista vermelha", desde o meu serviço vamos instalar-nos na antiga escola, fora do pcrílnr-,-
rnilitar. Soube-o na manhã de 13 de Maio de 1958, da tro protegido, mas em terreno neutro (o que mc pirrc
l'roca dos meus estudantes pieds-noirs. Se bem que cc muito importante para poder realizar o inqucrilo)
pcrí'citamente cientes das minhas posições sobre a Ar-
gclia eu tinha dado uma conferência cujo título, (.) Maurice Audin, comunista, professor
"Accrca da Cultura Argelina", era perfeitamente trans- de Matemáticu nir l,irt rrlrlrrrll
tlc Argel. Feito prisioneiro, escapou, segundo a versão ollciirl, rlt. urr lrpr.
t;uc o transportava, em 1957. Não reapareceu. Há suspcillrs rlt. t;rrc lr.rrlrir
" I rrrrciorr/rrio cncarregado da administração de um bairro. (N. do T.) sirlo assassinado pelas forças francesas. (N. do T.)

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1,.',srtt tq't t tAM UMA Auro-ArÁusr Prcnw BotLRltrt,;t,

A rroilc, cnquanto Sayad e eu trabalhamos até altas horas, gência, que, devido à sua situação ambígua c:nlrr., rlrur;
rrrrotarrclo as observações do dia, hâ sombras que se condições, duas civilizações e, ocasionalrlrrntc. rlrrrs
rrrovimcntam em redor. Todas as manhãs, percorremos religiões - os mais cultos prolessavam por vczcs (.r(.rl
rrn'ra dezena de quilometros, na minha pequena Dauphine, ças sincréticas, que colocavam sob a égidr: dc l(crrr-.
[)or uma gaÍganta muito propícia aos atentados, verda- Guenon -, apresentavam sinais evidentes de anor.nrrli-
tlciros ou falsos. (O capitão da SAS será aí atacado pelo clade ou mesfilo de "loucura" (eram designaclos crrr
ALN, pouco depois da nossa partida. Já não me recordo árabe com o termo amahbul, donde vem o ll.arrcês
como o soube. Talvez por Salah Bouhedja, que ali maboul), mas tinham, no entanto, um imenso pre stígio.
r:ncontrei pela primeiravez e que veio depois trabalhar Um deles, que muitas vezes me tinha servido de salvo-
para o nosso Centro, em Paris.) No primeiro dia da -conduto e livre-trânsito nas visitas ao Casbá (rros
nossa estadia no centro de reagrupamento, um grupo de rnomentos mais tensos da batalha de Argel, aprescnta_
homens estava sentado sob grandes oliveiras (possuo va-me com um "podes falar" que afastava instantarrca_
ainda muitas fotografias feitas alguns dias depois). mente a desconfiança), resolveu um dia que, numa horir
Deixamos o carro e avançamos a pé em sua direcção. em que os cafés estavam cheios de estudantes lticd,t_
Dois ou trôs têm uma grande bossa sob o seu albornoz. -noirs favoráveis à Argélia francesa, desceríamos clc
Urn deles, muito moreno, cabeça redonda, com uma braço dado toda a rua que passava à frente da Faculdaclc
pequena barba, Llm gorro cinzento cle astracã na cabeça de Letras. Seguramente para dar à coisa o seu valor clc
que o distingue dos outros (é um dos filhos Bouafer, que prova e de desafio, tinha vestido uma roupa ostentato-
rnais tarde se revelará ser um amahbul, personagem riamente oriental, com sarouel de seda e gibão bordaclo,
iluminado e imprevisível, mas muito ouvido e respeita- o que, com a sua barba preta habilmente cortada, íàzia
do, que tem um irmão harki(.) e o outro no ALN), com que não pudesse passar despercebido. euanto a«r
lcvanta-se e dirige-se à mirn (embora nada me diferen- Ilouafer de Aín Aghbel (não esquecerei tão cedo cstc
cie dos outros, pelo menos aparentemente)^ Pergunta- velho, que diziam ser mais que centenário, e quc,
-rre com certa exaltação o qlle vamos lâ fazer. Respon- rluando mencionava o nome das tribos vizinhas, sc
tlo-lhe que estamos ali para ver e ouvir o que tinham a inflanrava com o entusiasmo do combate, para cair.
tlizcr e para o relatar, e que o exército francês estava a dcpois para o lado, esgotado), gostava de nos acontpl-
vhrios quilómetros, pelo que estávamos à sua mercê, ou nhar nos inquéritos e, frequentemente, após as cntrcvis-
llgo parecido. Convida-nos a sentar e oferece-nos cafe. las a que tinha assistido, partilhava connosco as slr,íls
(liui muritas vezes ajudado nos meus inquéritos, em rcflexões, muito típicas do que eu chamavà o ,sttltirt.l
Algcl c noutros lugares, por personagens desta espécie, cultural e de que darei apenas este exemplo: ..Os llt.rrr
li'crltrcnLcmente autodidactas dotados de grande inteli-
'lirufbut
- nome de uma tribo -, são o quê, c1rlcr rlizcr o
t't IIrrrki. lioldado indígena das milícias utilizadas pelo exército t') Sqhir'. mistura de espanhol, francês,
italiano c iirirlrt. lirl:rrIr I.1,,,,
Irirrrr t':i rro Norlc tlc Álrica. (M do T.) ;rryrciinos (do espanhol ,saber).
(N. do T.)

62 63
I

li,sttttç'o pARÁ uMA Auro-AvÁLtst Prcnnt Boun»tau

tltrô'/" pcrguntava ele. "Beni Toufout? Tu votas. Vêem agrícolas em autogestão, que faziam sonluu' rrllirrrs
tlrrc .iir tínhamos inventado a democracia.") pieds verís\*) arrastados pelo entusiasmo rcvoltrcionrilro,
cairiam nas mãos de uma pequena burguesia argclirrrr tlt'
'fal como o inquérito empírico sobre as classes popu- tecnocratas autoritários e nas do exército, e rncsuro tk'
larcs pôde parecer, por vezes, aos profetas do proleta- grandes potentados de um "neofeudalismo socialistir",
riado, uma manifestação de cepticismo, o método de como dirá mais tarde M'hamed Boukhobza a proptisilo
bclm senso que consiste em ir verif,car o facto podia dos grandes domínios que alguns altos dignitários tl:r
parecer estranho e mesmo suspeito, nestes tempos de Argélia "socialista" tinham construído no Sul do dcpar-
certezas políticas, sobretudo tratando-se de operações tamento de Constantina.(32) (Devo manifestar aqui o
militares como os reagrupamentos de populações. Acon- imenso apoio que as minhas previsões realistas e muitas
teceu que em Paris, nos anos 60, me pediram explica- vezes bastante desencantadas, e, por isso, um pollc()
ções sobre os meus inquéritos de campo, como se o escandalosas, em tempos de arrebatamento colectivo,
facto de ter regressado indemne fosse um pouco suspei- tiveram da parte de amizades argelinas, eue, nascidas,
to. (O meu único livre-trânsito era uma caúa do Institu- sem dúvida, da afinidade dos habihts, me ajudaram a
to de Estatística de Argel que me autorizava a efectuar construir uma imagem que fosse ao mesmo tempo
pesquisas e que me servia de salvo-conduto junto das íntima e distante, atenciosa e, se assim posso dizcr,
autoridades militares, que ficavam sempre surpreendi- afectuosa e calorosa, sem ser ingenua nem idiota. Pcn*
das de me ver em locais tão pouco recomendáveis. so. entre muitos outros, em Leila Belhacêne, Mouloucl
Recordo-me de um dia em que ia sozinho, no meu Feraoun, Rolande Garêse, Moulah Hennine, Mimi
automóvel, para uma aldeia cabila e fui impedido e Bensmaíne, Ahmed Misraoui, Mahfoud Nechem c
f-orçado a voltar paratrâs, após me ter cruzado com uma Abdelmalek Sayad.)
longa coluna de veículos militares.)
Daí todas as situações de desfasamento, por excesso A transformação da visão do mundo que foi con-
ou por defeito, ou melhor, as situações ambíguas em comitante à minha passagem da filosofia para a socio-
que continuamente me encontrava nas minhas relações logia, e de que a minha experiência argelina represcnta,
com o mundo intelectual. Por exemplo, a observação sem dúvida, o momento crítico, não é, como -fá clissc.
tlos reagrupamentos permitia antecipar e anunciar de fácil de descreveq porque é feita da acumulação impcr-
rrra neira completamente contra-intuitiva e intempestiva ceptível de mudanças que as experiências da vida pouco
rpro estes locais, apressadamente descritos como uma a pouco me impuseram e das que efectuei à custa tL, urrr
cspocic de campos de concentração, sobreviveriam, na
srra rn:rioria, à independência (em certos lugares, por
(-) Pessoas idas da Europa solidárias com
aArgélia libertatla, (N rl,t l l
inxria da história, as antigas aldeias de origem torna- (r2)
M'hamed Boukhobza, Strucíures;fàmiliale:s t:I (:hrttt.q(rttt'ttt.t :,t, r,,
r':un-sL: uma espécie de residência secundária para os lconomiques, Argel, Institut national d'etudes et d'arrlrl_ysrs porrr lrr
rrklcrics agrupados na planície) e que as explorações lrlanification, 1982 (com Mohammed Khelladi e Tanrirrry Sirlrr )

64 65
1,,',s' ttt tt,'r t t,rl n/t u,LtA Aunl-ANÁttst Prcnnp: Bo(trrttt,'ti

grande trabalho sobre mim mesmo, inseparável do tra- sário, prudentemente, não reconhecer) pur.lt rrrrrrr
Pr,itrr,r
balho que realizava no mundo social. Para dar uma cientíhca que implica uma visão do mu,rl. sr.Lrrl r;rrr.
icleia aproximada desta aprendizagem, que frequente- é ao mesmo tempo mais distanciada e rrrais r.crrlrsl;r
mente descrevi como ma iniciação (sei que esta lin- Esta reorientação intelectual tinha importantcs irrrplit.rr
guagem irá surpreender aqueles que aderem a uma ções sociais: realizava-se, de facto, mediantc a l)irssir
visão fortemente redutora da sociologia, ritualmente gem da filosofia à etnologia e à sociologia c, rro scio
descrita, nomeadamente no ensino filosófico, como desta, à sociologia rural, situada no nível mais baixo tlrr
redutora e banalmente positivista), vou referir-me à hierarquia social das especializações, e a renúncia cons
investigação sobre o celibato dos primogénitos do Béarn, ciente que esta deslocação negativa na hierarquia sc:rrr
que efectuei em paralelo com a que conduzia na mesma dúvida implicava não teria sido tão fácil, se não tivcsse
altura na Argélia, e que deu lugar a três artigos suces- sido acompanhada do vago sonho de uma reintcgr.uçr)o
sivos, separado cada um do precedente por dez ou no mundo de origem.
ql;rinze anos(33). Talveznão seja completamente desloca- Nos meus inquéritos de campo, na Cabília, rcporlrr,
do, de facto, ver uma espécie de Bildungsroman intelec- va-me frequentemente aos camponeses bearneses panr
tual na história desta investigaçáo, que, tomando por me defender da sociologia espontânea dos ,ri",,s;
objecto os sofrimentos e os dramas relativos às relações informadores. Esta unidade social que aqui charnunr
entre os sexos na sociedade campesina - foi mais ou udhrum e acolá thakharrubth terá mais .,realidade,, cprc
menos o título que dei, muito antes de surgirem os a entidade vagamente definida que no Béarn se ohanrr
gender studies, ao artigo de kmps modernes?a) dedica- lou besiaí, e o conjunto dos vizinhos,lous besis, e a quc
do a este assunto -, constituiu a ocasião e foi o operador alguns etnólogos da Europa, na esteira de um erutlito
de uma verdadeira conversão. O termo não é, de facto, local, conferiram um estatuto cientificamente reconhc-
excessivo para designaÍ a transformação simultanea- cido? Não será necessário realizar o inquérito dircctir_
mente intelectual e afectiva que me conduziu da rnente no Béarn para tornar objectiva a experiênciit clrrc
fenomenologia da vida afectiva (resultante, talvez, tam- rne servia, consciente ou inconscientemente, de polrlo
bém das afecções e das aflições da vida que era neces- de referência? Acabava de descobrir a obra de Sóhritz.
uraças a Raymond Aron, que o tinha conhecicftr. Orrr.
t"' "Clófibat et condition paysanne", Éhrdes rurole.i, 5-6 (Abril- parecia-me interessante, por um lado, questional.. lrrl
St'lcrrrhro dc 1962), 32-1361, "Les stratégies matrimoniales dans le corno o fenomenólogo, a relação familiar com o rrrrrrrl.
sysli'rrrc tlc rcproduction", Annales,4-5 (Julho-Outubro de 19'12), 1105- social, mas de maneira quase experimental, lorrrrur«lo
I l.'/. "lte;rrotluction interdite. La dimension symbolique de la domination por objecto de análise objectiva, ou mesmo ob.jcclivistrr.
,r',,rrorrrit;uc". ijÍudes rurales, 113-ll4 (Janeiro-Junho de 1989), l5-36. uttr mundo que me era familiar (onde todos os :rg,t.nlt.r;
I :il(s lr(is irlligtrs Íbram retomados em Le Bal des celibataires. Cri.se de
ltt \t)t tt lt: ltttt:,\'ttilna en Béarn, PariS, SeUil, 2002.
tinham nomes próprios, onde as maneiras tlt. lrrlrrr,
rLtt "l t's rclutions cntre les sexes dans la société paysanne", Les l)onsar e agir eram para mim completamcnlc cvirlt.rrtr.:, ).
l, rtrl't 171111fi'1 11r'r, l()5 (Agosto de 1962), 307-331. c, por outro lado, objectivar, ao mesmo lcrrrpo, (llr(.r :r
I
66 67
Aurq4!@rsz Pt tnnt; 13t t( tn r »t r. t i
EsnoÇo PÁM :JMA

n)mha rclação de familiaridade com este objecto, quer


implica é o uso intensivo que então 1àço rlo nrrp:r, - rhr
plano, da estatística e da fotografia. 'I'uckr 1'xrss:r lx)r ;u.
ir dil'orença que a separa da relação científica, que,
como a porta esculpida diante da qual passava lorkrs os
collro eu a conduzia na Cabília, se consegue com um
dias, ao regressar da escola, os jogos da fbsta tlu irltlt'ur.
trabalho que disponha de instrumentos de objectivação,
a idade e a marca dos automóveis, e deixo ao lcilor rr
oorno a genealogia e a estatística.
plano anónimo de uma casa familiar ondo brirrr;rrt'i
No primeiro texto ["Celibato e Condição Campe-
durante toda a rninha inÍância. O imenso traballro cxi
sina"], escrito no início dos anos 60, numa época em
gido pela construção estatística de inúmeros cluaclros rlt'
qLle a etnografia das sociedades europeias mal existe e
dupla ou tlipla entrada sobre populações relativarncrrlc
em que a sociologia rural peÍÍnanece afastada do "terre-
irnpoftantes sem o auxílio da calculadora ou do cornpu-
no" a uma distância respeitosa, tento resolver esse
tador, bem corno as inúmeras entrevistas associadas rr
enigma social que constitui o celibato dos primogénitos
observações aprofundadas que realizo então são provas.
nLrma sociedade conhecida pelo seu apego insensato ao
não isentas de perversidade, de uma ascese iniciirtica.
clireito de primogenitura. Ainda muito vinculado a uma
Todavia - e provando que o trajecto heurístico tcrrr
visão ingénua, de que pretendo, no entanto, afastar-me,
tarnbérn algo de percurso iniciático, devido ao cnvol-
lanço-me numa especie de descrição total, algo desen-
fieada, de um mundo social que conheço sem o conhe-
vimento total e à felicidade dos reencontros clLtc ()
acompanham , opera-se ufila reconciliação com coisus
cer, como acontece com todos os universos familiares'
Nada escapa ao frenesi cientista de quem descobre, com
o pessoas de que me tinha afastado insensivelmoltlc
urna espécie assombro , o prazer de objectivar de acordo
tlevido à entrada nurla outra vida e que a posturu
ctrrográfica impõe naturalmente respeitar: os amigos rlc
com o que ensina o Guia Prático do Estudo Directo dos
inflância, os pais, as suas maneiras, as suas rotinas, a srrir
Compoitamentos Culturais1s), de Marcel Maget, formi-
pronúncia. E uma parte de mim mesmo que nto ó
dável antídoto hiperempirista contra a fascinação que
rlcvolvida, a que me ligava a eles e deles me aÍàstava,
cntão exercem as construções estruturalistas de Claude
porque não podia negá-la em mim senão reneganclo-os.
Lévi-Strauss (e de que o meu artigo sobre a casa
com vergonha deles e de mim mesmo. O regrcsso lrs
cabila(36), que escrevi mais ou menos na mesma altuta,
origens é acompanhado de um retorno, embora conlnr
rlii tcstemunho bastante). O sinal mais visível da mu-
lado, do recalcado. Disto tudo, o texto não grrrrtLr
tlança de olhar que a adopção da posição de observador
t;ualquer vestígio. Se as poucas anotações finais, vrltrs
c cxpositivas, sobre a diferença entre a visão inir,irrl c rr
('') Marcel Maget, Guide pratique d'étude des comportements
visão científica podem deixar entrever a inlcrrçrro rlc
t nl lttt'{'1,\,l'aris, CNRS, I 962.
in Jean Pouillon e lcÍlexividade que estava presente desde o prirrcípio rlt'
'r"r "l,l rraison kabyle ou le monde renversé",
f 'rt'rrt' Mitrittrtl a, Echanges et communication. Mélanges offerÍs à Clerude Ioclo o projecto ("fazer uns T\istes Trópit'o:; lro t'orrlr;r
/,iIr,S/r'rrrr,r,r' ir l'ot<'asion de son 60" anniversaire, Paris-Haia, Mouton, rio"), nada, a não ser talvez, a ternura contirllr nrr rk'sr'rr
,)/o. l)l). 7]()-75ti; rctomado em Esquisse d'une théorie de la praÍique,
f

lp r tl pp 6l-t.l2. çlio do baile, evoca a atmosfera emocionlrl crrr rlrrc r,t'

68 69
Esnoço tutM uMÁ Auro-ANÁusn Prcnnr Bouttottu

a relação préúica com o mundo. Esta roapnrprirrl';io rl:r


-
rlcscnrolou o meu inquérito. Volto a pensar, por exem-
verdade da lógica daprâtica irá contribuir. ;ror suir v('/.
plo, no que esteve na origem da investigaçáo, a fotogra-
para tornar possível o acesso à verdade clas priitit'rrs
ii, du (minha) turma, que um dos meus condiscípulos, rituais e matrimoniais, à primeira vista tão ostrarrlrrs. rkr
rrodesto empregado na cidade vizinha, comentava, acen-
estrangeiro cabila, constituído assim em alter <,grt.
tuando impiedosamente "não casável" em relação a
O último texto ["Reprodução Proibida"], qur: pcrrrri-
rnetade doi presentes; penso em todas as entrevistas,
te aceder ao modelo mais geral, mais simples c tanrbórrr
lrequentemente muito dolorosas, que realizei a velhos
mais poderoso. é igualmente o que permite conil)rccn-
celitatários da geração do meu pai, que me acompanha-
der mais directamente o que se evidenciava e, ao nrcs-
va muitas vezes e me ajudava com a sua presença e as
rno tempo, se dissimulava na cena inicial: o pcclr,rcno
suas intervenções discretas a suscitar a confiança e a
baile que eu tinha observado e descrito - e que, oonr ir
confidência; penso neste velho amigo de escola, de
necessidade implacável da expressão "não casável", nrc
quem gostava muito pela sua lisura e delicadeza, e que,
tinha proporcionado a intuição de ter de lidar conl unl
áfastado com a sua mãe numa casa magnificamente
fàcto social altamente significativo - era efectivanrcntc
conservada, tinha escrito a giz, na porta do seu estábulo,
uma realização concreta e sensível do mercado de bcns
as datas em que the tinham nascido as bezerras e os
simbólicos. Ao unificar-se à escala nacional (conro
nomes de rapariga que lhes tinha dado' A reserva
hoje, com efeitos homólogos, à escala mundial), o
objectivista do meu projecto deve-se em parte, sem
mercado matrimonial tinha votado a uma brusca c
dúvida, ao facto de ter a sensação de cometer como que
brutal desvalorização os que estavam relacionados conr
uma traição, o que me levou a recusar, durante muito
tempo, qualquer reedição de textos que a publicação em
o mercado protegido das antigas trocas matrimoniais
controladas pelas famílias: os primogénitos de farnílias
reviitas iientíflcas de pouca divulgação protegia contra
irnportantes, belos partidos convertidos de repentc cnr
as leituras mal-intencionadas e voyeuristas'
camponeses labregos, hucous (homens das florcstas)
O segundo texto ["As Estratégias Matrimoniais no
tlctestáveis e selvagens, excluídos para sempre do dirci-
Sisterna de Reprodução"], sem dúvida porque os pro-
grossos que revela se situam na ordem da reflexividade
to à reprodução. Por conseguinte, tudo estava, Íruln
ccrto sentido, imediatamente presente na descrição irri-
cntcndida como objectivação científica do tema da
ob.icotivação, marca de maneira bastante clara a ruptura
cial, mas de uma tal forma que, como diriam os Í'ikiso
lils. a verdade não se revelava senão ocultando-sc.
.,,,,,, n paiadigma estruturalista mediante a passagem da
(Esta espécie de experimentação sobre o trabullro rlt'
r-cgra z\ cstratêgia, da estrutura ao habitus e do sistema
pela estrutu- rcÍlexividade quc fiz num inquérito sobre o Ró:rrrr. tlrrr'
rr«, agcrttc socializado, ele mesmo habitado
r:rir também, e sobretudo, um inquérito sobrc o irrtlrrrlr'rlo
,,, ,i,:i rr:lações sociais de que é o produto, ou seja,
nuu'('l o nromento decisivo da conversão do olhar que c sobre o inquiridor, mostra que um dos inslrrrrnt'rrlor,
rrrais raros da competência prática que dcíirrc o lr':rlr;rllro
:i(' ()l)cr':r clttitnclo descobrimos, sob as regras de paren-
rltr sociólogo - e de que faz parte, esscrrcialrrrcrrlt'" o rprr'
l.'s,',',, rrs cslratcgias matrimoniais, reconstituindo assim

70 7l
li,stttç'o pÁRl tJMA Au'rr>A Nit.tsti Pt tinnt l] r tt t tt t tt r,.t,

so clrama intuição - é talvez' em última análise, o uso a interessar-me pelos mundos socinis nlris rlilt.r:,,»,
cicntíÍlco de uma experiência social que, tão desprovida Penso que as leituras das minhas intcrnrirlivcis Ít1r irrs rrr.
dc valor social quanto possa ser em si mesma e ainda Verão me despertaram o desejo de pcnctral. cnr nrr.ro:.
clue pudesse ter sido acompanhada de crises (de conver- sociais desconhecidos, que aqueles cuja existôrrciir rt.s
são e de reconversão), pode trzrnsÍbrmar-se de desvan- tringiu a um mundo social quase perfeitantcntc lrorrro
tagem em capital, na condição de ser previamente sujei- géneo sentem talvez menos. Jovem lqtpokhd,qttt,rrr,',
ta à crítica sociológica. Por exemplo, e colno já disse completamente maravilhado com a paris clLrr: [.r'l'rvrr
algures, aquilo que, à época do meu inqurérito sobre o reais as renriniscências literárias, identificava-r-rc irrlir.',
celibato, constituiu o impulsionador das reflexões que nuamente conr Balzac (foi espantoso o primeiro cnL:on
me levaram a abandonar o modelo da regra de parentes- tro com a sua estátua, no cruzamento Vavin!), a potrlo
co em favor do modelo da estratégia foi, sem dúvida, de, durante as minhas saíclas ao domingo, r,árias vczcs
uma observação completamente banal por parte da te'r seguido desconhecidos para descobrir o seu bair.r.o.
rninha mãe "Com os X, eles assumiram muito o papel a sua casa, a sua vizinhança, que tentava adivinhar.
de pais, a partir do momento em que surgiu na família Raros fbrarn os tnomentos em que não cltctucr
alguém da Escola Politécnica" -, e que não eu teria se- várias investigações pessoais ao filesmo tempo. li.c:-
quer ouvido, se não estivesse alerta. Não tcntarei sequer quentemente de assuntos muito difbrentes, sern íhlar.
cornpreender e relatar aqui as transformações profundas das que realizava por procuração, através dos trabalhos
desta relação de parentesco privilegiada que se torna- que dirigia, sernpre de muito perto, ou que inspirava e
ram necessárias para que Llma afirmação que não podia coordenava no âmbito do Centro de Sociologia Europciu.
ser feita senão numa "situação natutral", num contacto Pude assim participar. em pensamento, em rnunckrs
banal da familiaridade familiar, pudesse ser entendida passados e presentes muito afastados clos meus, collo
oomo uma informação susceptível de ser integrada num os da nobreza e da grande banca, dos dançar.inos tlir
n-rodelo explicativo. Direi apenas, de um modo mais Opera e rlos actores do Teatro Francês, clos leiloeiros c
gcral, que só com uma verdadeira conversão epistemoló- dos notários, e, de certo modo, conhecô-los a parlir.rlc
gica, irreclutivel ao que a fenomenologia chama epoche, uma "amostra" da categoria realmente pretenclida. so-
pocle a experiência vivida, em si mesma totalmente corrcndo-me sempre da analogia com posições c cxl)c_
tlcstituída de pertinência, integrar a análise científica.) riências que conhecia bem (as da "nobreza,'escolirr. por
cxernplo, para compreender a nobreza). Tivc gr.urrrlt.s
lioi sem dúvida o gosto de "viver todas as vidas", de pcríodos de paixão investigadora quando cl'cclrurv:r rrs
tlrrc Ílla Flaubert, e de aproveitar todas as ocasiões para lrcsquisas que deram origem ao livro Á l)i,stirtt,.rrrt,
r'rrlrirr na aventura que é sempre a descoberta de novos
rrrrrbicrrtos (ou, muito simplesmente, a excitação de Í.' ll.ypokhôgncrr-r: alur.r. que lrequenta a classc
('()nrcçlll' unla nova investigação) que, juntamente com q.c t)r-r.(.(.(l(. ,r l,lt,r,,,t,
(r'1. nota na página 16). (N. doT.)
ir r('('usr tlir clcÍinição cientista da socioiogia, me levou \'1) l,d Di,clint.tion. CritiErc sociole
tlu jugentt,ttt,l,itr.is. N4rrrrrt l,) /,r

72 73
rl

EsaoÇo PAR,4 uMÁ Au'ro-AtvÁusn P t sRnti B t t( r rtt »r t, t t

(cheguci a larncrrlur' (luc :ls pcssoas não tivessem o novos campos de investigação -, Íoi lalvcz () (pr('
nomc cla strir ptrrlisslio no casilco ou na blusa, como nos conduziu a que tivesse estado presentc nu tolulitlrtlt' rIr
con[lrcss()s. l):u':l l:rcilit:rr' :rs rrrinhas observações) e nas campo das ciências sociais, sem nunca o prclt.rrrlt'r
hrlr:ts plrss:rtllrs lr orrvil convcrs,as, nos cafés, nos cam- explicitamente e sobretudo sem o menor ob-iectivo "irrr
;-ros rlc 1ti'lttttrlrrt'orr tlc lirtchol, rros corrcios, mas tam- perialista".
lrc'rrr rxrs ,,ittit'tit',s" ilits l'cccpçrjcs c nos COnCertOS. POf Não ignoro que o meu projecto pode parccor unn
vczcs, rr:ro porlcrrtkl rklrrrirrar-r.rrc n-tais, arranjava um Íbrma de dar continuidade às ambições dcsnroclidas tkr
prclcrlo lllrnr crrcclur unra convcrsa (ó rluito mais fácil intelectual total, embora de outro modo, mais cxigcntc
rkr rlrrc sc cr'ô) corn alguórr quo clLlcria conhecer melhor c também mais perigoso. Comia, de facto, o risco rlc
r: l)lu-it invcsligar, scr11 o parecer, este ou aquele proble- perder nas duas frentes, parecendo demasiado tctil'ir:o
nlir rluc rnc intcrcssasse. lnterrogava-me se gostava das aos puros empiristas e demasiado empirista aos pr.l'()s
l)ossoas, como acreditei durante muito tempo, ou se lhes teóricos, e deixar, por vezes, programas de investigaçiio
tlcrlicava apenas um interesse profissional que pode om lugar de investigações acabadas (como é o caso cnr
irnpliczrr alguma fonna de afecto (Abdelmalek Savad matéria de sociolinguística). Na realidade, tudo coÍrcor-
tir.rha-se tornado amigo muito íntimo de um médico que ria para que as possibilidades que se me ofereciant nrio
t:ra o especialista da doença raríssima de que era porta- pudessem ser reduzidas às que as posições constituírlas
dor...). no espaço da sociologia me propunham. Não posso, rlc
Mas esta dispersão era também, sem dúvida, uma Íàcto, deixar de relacionar a amplitude dos meus pro.icc-
rnaneira um pouco estranha de contribuir para a unifica- tos intelectuais, indiferentes às fi'onteiras entre dortrí-
ção de uma ciência social ficticiamente fragmentada e rtios sociológicos, com a minha renúncia à Í'ilosolia,
de recusar na préúica a especializaçã.o imposta pelo disciplina prestigiosa onde alguns dos meus colcgls
rnodelo das ciências mais avançadas, que me aparecia pcrmaneceram o que e sem dúvida muito importarrtc
totalmente prematura no caso de uma ciência que come- subjectivarnente -, e com a perda de capital sinrb«ilir:o
ça (recordo-me nomeadamente da minha sensação de que daí resultava "objectivamente". (O facto de Íigurar'
cscândalo, no Congresso Mundial de Sociologia de lqui como sujeito e coillo objecto de análise agrava ur)rir
Varna, com a divisão dos grupos de trabalho em socio- tlificuldade muito frequente da análise socioltigica: o
logia da educação, sociologia da cultura e sociologia perigo de as "intenções objectivas", que a anirlisc cvi
clos intelectuais, o que levava cada uma destas "especia- tlcncia, surgirem como intenções declaradas, cstnrtr-.girrs
lidadcs" a.abandonar a uma diferente os verdadeiros intcncionais, projectos explícitos e, neste caso csltct'ili
princípios explicativos dos seus objectos). O tempera- co, colrro intenção consciente ou quase cínioa tlc srrlr,:r
rrrcnkl "borboleteante" (para falar como Fourier), que uuardar um capital simbólico ameaçado.) Foi ussirrr t;rrt.
rrrc irnpclia constantemente para novas investigações, tlcspertou gradualmente uma disposição oclcctit.;r. nr;r:;
n()vos ol-r.jcctos - ou que, mais exactamente, me levava rnitito selectiva, que me levava a recllsat ()s l)r(.(.()n(.(.1
rr rrprovcitur todas as ocasiões para me assenhorear de Ios destinados a limitar o universo dos rccrrrs,r:i lt.r'r rr n:,

74 75
t

Aurc>ÁuÁusr Pt ttnnti l] t tt t ttt tt t. t,

(conro os qLle são exclusivos dos marxistas) ou as r-rma cópula e o colocou muito alto, na obsr:rrritlrr.l,' .1.'
possibilidades empíricas (como todos os monismos uma abóbada, onde era suposto passar conrlrlcllrrrrt'rrlc
rnotcrdológicos), e da qual podemos dtzet. parece-me. despercebido. Era-me suficiente o reconhccinrerrlo lrr
clLrc, por um lado, é "antitudo" e, por outro lado, "tudo butado por um pequeno "colegio invisível" dc irrvi'slr
inc:lui" (catch all), à semelhança de algr-rns partidos gadores franceses e estrangeiros e não soÍiia clc Íirrrrrrr
políticos. alguma com a minha obscuridade relativa, enr gnrrrrlt'
Todavia, todas estas causas e razões são insuficientes parte procurada, até porque era muito apoiado c inccn
para explicar realmente o meu investimento total, e um tivado pelos testemunhos que recebia, durante onc()n-
pouco insensato, na investigação. Não há dúvida de que tros ocasionais ou por carta, de pessoas que mc cliziirrrr
cste impetus tinha o selt princípio na própria lógica da ter sido prolundamente tocadas e, por vezes, translir-
investigação, geradora de perguntas sempre novas, mas madas ou "libeftadas" pelo que escrevia (nomeadeuncn-
também no pÍazer e nas alegrias extraordinários que o te em A Distinção). Tive rnuita vezes de tranquilizar c
mundo encantado e perfeito da ciência proporciona. O reconfortar jovens investigadores estrangeiros - ncozc-
grupo que constituí, tanto na base da afinidade afectiva landeses, australianos, italianos, dinamarqueses, ctc.
corno da adesão intelectual, desempenhou um papel clue me falavam da sua decepção e despeito por a minhir
cleterminante neste enorme investimento, com a minha obra continuar a ser mal conhecida no seu país, apcsar'
crença a criar a crença adequada para reforçar e assegu- de todos os seus esforços em contrário, nomeadamcnlc
rar a minha crença. Tudo concorreu assim para reforçar .junto das autoridades universitárias. Não me preocupci
uma graude autoconfiança, quer individual quer colec- com estas coisas senão muito tardiamente. talvez clcvi-
tiva, que provocou um profundo desprendirnento em do à idade e, sobretudo, à apreensão afectuosa que clas
relação ao munclo exterior, aos seus juízos e às suas suscitavam em pessoas que me eram caras e junto tlls
sanções. (Tive a oportunidade de viver durante muito quais pretendia fazer boa figura.)
tcmpo com uma indiferença muito grande em relação ao Esta certeza assentava também - como dizê-lo sr:rrr
sucÇsso social e recordo-me de ter pensado muitas pose nem ênfase? na convicção íntima de que a nrinhlr
vczcs que, se me esforçasse para reunir competências e tarefa de sociólogo, que não me parecia ser nem ur)r
intcnções que raramentc sc encotrtratn juntas, nomeada- dom nem uma obrigação, nem, muito rnenos, r.rlur
rncntc as teóricas e técnicas, seria provável e normal "missão" (demasiado grandiloquente), era, sem clÍrvitlir.
(luo pcrmanecesse muito tempo incompreendido e des- rum privilégio, que implicava, por sua vez, unr «lcvcr'.
corrhccido; estava, por conseguinte, totalmente prepara- Mas não posso deixar de dizer que todas estas rrzrlt's
rkr. it 1'ronto de ver com alguma sulpresa o reconheci- são, de certo modo, apenas um substituto e a racion:rli
rrrt:rrlrl rclativo que os metts trabalhos recolhiam, em nçáo de uma razáo ou de uma causa mais pnrlirrrrlr,
1ru tc. scrl dúrvida, devido a alguns equívocos" Via-rne tuma desgraça muito cruel que trouxe o irronrctlilivcl rro
unr lx)r,rco c()rro o escultor da Idade Média que cinzelou paraíso infantil da minha vida e que, desclc o irrít'io rlrs
rrrr i;,,r'e'ilr rlc La Souterraine um capitel que representa lu'ros cinquenta, influenciou cada um dos nrorrtt'rrlos rlrr

76 77
-I

li,snr t<:r t pÁ t?A Lt hLA Áurc»ANÁttst Pnnne Boun»tt;tr

rrrinha oxistência, convertendo, por exemplo, a minha so das ciências sociais. Um pouco por graÇa. t.orrsrrlt.r;r
divcrgôncia inicial face à Escola Normal e às impostu- va-me muitas vezes líder de um movimcnto rlc lilrt.rtrr
ras da arrogância intelectual numa ruptura deliberada ção das ciências sociais contra o imperialisrrro tlu lihr
com a vaidade das realidades universitárias. Isto é, sofia. Todavia, não era mais indulgente com ()s sociolrr
nunca sendo enganadoras, as descrições e as explica- gos que viam na passagem pelos Estados Urridos rrrrr:r
ções que pude dar até aqui continuam a ser inexactas e especie de viagem iniciática do que com os aprcrrtlizt.s
parciais, na medida em que todas as atitudes (por de filósofos que, dez ou quinze anos antes, sc prccipi
exemplo, a minha escolha de Moulins, bem como o meu tavam para os arquivos de um Husserl cujas ohr.lrs
investimento passageiro numa caneira musical ou o essenciais permaneciam ainda, em grande parte, irre'rli-
meu interesse inicial pela vida afectiva e a medicina, tas em francês.
que me conduziu a Canguilhem) eram sobredeterminadas A sociologia americana impunha à ciência sociul.
pela (ou tinham por base a) desolação íntima do luto através da tríade capitolina dos Parsons, Mertorr c
solitário: trabalhar como um louco era também uma Lazarsfeld, todo uma série de mutilações de quc rrrrr
maneira de preencher um enorme vazio e de sair do parecia indispensável libertá-la, nomeadamente conr
desespero, interessando-me pelos outros; o abandono Lrm regresso aos textos de Durkheim e de Max Wobcr.,
das grandezas da filosofia trocando-as pela miséria do apropriados e adulterados por Parsons (devendo a obrir
bairro de lata era também uma espécie de expiação de Weber, para alem disso, ser de novo repensada parir
sacrificial dos meus irrealismos adolescentes; o regres- llbertá-la do revestimento neokantiano com que Aron,
so penoso a uma linguagem desprovida dos tiques e dos que a introduzira em França, a tinha envolvido). Mas
truques da retórica académica era sinal também da para combater esta ortodoxia planetária era necessário
purificação de um novo nascimento. E o que disse antes sobretudo empenharmo-nos em investigações empíricas
sobre as causas ou as razões de cada uma das experiên- teoricamente inspiradas, recusando quer a submissão
cias que recordei, como as minhas aventuras na Argélia pura e simples à concepção dominante da ciência, cprcr.
c os meus arrebatamentos científicos, mascara também a recusa obscurantista de tudo o que pudesse scr ou
a pulsão oculta e a intenção secreta que eram a face parecesse estar associado aos Estados Unidos, a colrL!-
cscondida de uma vida dupla. çar pelos métodos estatísticos.
Se, no início dos anos 60, e apesar das advertôncirrs
A decepção, a que juntava a revolta, que o estado
se scmanais dos procuradores e missionários do rncslr.c.
rlo rnundo intelectual me provocava f,rxou-se sobretudo, rccusei obstinadamente assistir às aulas quc l,rrul
nir lirsc inicial do meu trabalho, na sociologia america- l,azarsfeld dava na Sorbonne perante toda a sociolo;-,,iir
rur. cntão dominante, e também, embora noutro campo, íiancesa reunida, foi porque tudo aquilo mc l)iu.(.(,(.u
nu lllosofia, que, tanto na sua concepção tradicional lnais um ritual colectivo de submissão clo t;rrr. rurr;r
('orn() na sua forma mais ostentatoriamente inovadora, simples acção de formação ou de reciclagcnr cicrrtilrt.ir
rrrr' lxrrccia rcpresentar um grande obstáculo ao progres- lsso não só não me impedia de traballrar-. lrt.rrr pt.lo

78 79
--t

Esso<:o PARÁ L:MA Auro-ANÁLrsE Ptgnnr BoItn»ttt r

contrário, mas, para além disso, a colaboração com os fazer ingressar a ciência do Estado no ciu-npo t.tr.rrtrlrt
tócnicos de estatística do INSEE encorajava-me e pre- ou, mais modestamente, fazer entrar na crrbcq'rr rL»;
'
parava-me para adoptar toda a utensilagem técnica, especialistas do Estado urn certo número clc pr.cot.ulr:r
colno a análise multivariada e as c'lasses latentes, que o ções e de disposições que caracterizam a invcsligrrl.;ro
l?rlecido socialista austríaco -_ convertido em pofta-voz científica mais avançada, como a reflexiviclatlc t;rrt.
do imperialismo científico que agia sob a bandeira da deve incidir sobre os pressupostos tácitos das problt:rrrii
Fundação Ford e do Congresso para a Liberdade da ticas e dos sistemas de classificação rotineiralne:rrtc
Cultura - tinha para oferecer, mas sem adoptar, com aplicados pela instituição.)
esse passo, toda a ernbalagem cientista destinada a A história do meu confronto, aparentementc scrrr
legitimá-la. Esta estratégia era, não há dúvida, demasia- esperança, com Paul Lazarcfeld, de quem é ho-ie dil'icil
do realista, embora não fosse de modo nenhum cínica, imaginar a influência social e científica que cxcrcirr
para poder ser compreendida com facilidade naqueles sobre a sociologia mundial, teve para mim como c;trc,
tempos, em que as tomadas de posição científicas não um desenlace feliz naquele dia do fim dos anos 60 crrr
se distinguiam das tomadas de posição políticas. De que literalmente nos "convocou", a Alain Darbel c u
facto, esta estratégia, procurando, entre outras coisas, mim, ao Hotel dos Embaixadores, onde era costunrc
apropriar-se dos instrumentos do adversário para os pôr aparecer durante as suas missões pela Fundação Ford.
ao serviço de outros fins científicos, opunha-se quer à para nos fazer as suas críticas ao modelo matemático dc
submissão diligente ou resignada dos meros prosélitos, frequência dos museus que acabávamos de publicar oln
ainda demasiado maravilhados por terem "descoberto o O Amor à Arte. Então no apogeu da sua fama, tinhir
ovo de Colombo", quer à revolta fictícia e derrotada à chegado com um exemplar do livro grosseiramcntc
partida dos que pretendiam opor-se à influência dos sublinhado com tinta azul e, com um imponente charulo
conceitos e rnétodos dominantes serl se dotarem das na boca, apontou com brutalidade o que considerava
armas eficazes para combatê-los no próprio terreno da erros imperdoáveis. Em todos estes casos, porém, conto
irrvestigação empírica, como era o caso dos teóricos da qualquer leitor menos convencido do atraso da ciôrrci:r
Ilscola de Frankfurt e dos seus émulos franceses. (A francesa não deixaria de ter reconhecido, eram crros
cstc propósito, devo reÍ-erir outra estratégia científica, grosseiros introduzidos por um revisor tipográfico nriris
intciramente complementar, que, no contexto da época, habituado a outros tipos de subtilezas e que o eclilor sri
tluando qualquer associação com a estatística do Estado nos deixaria corrigir na segunda edição. Conccrlitl:rs
cra suspeita de comprometimento conservador, foi igual- estas correcções, Paul Lazarsfeld declarou cotÍl algrrrrrrr
nrcrrto muito mal compreendida. Consistia ela em cola- solenidade que eles "nunca o tinham feito tão bcnr rros
lrorar com os técnicos de estatística do INSEE para Estados Unidos". No entanto, absteve-se de tcstcrrrrrrrltii
Ir:rrtlt' o quc julguei durante algum tempo ter oonse- -lo por escrito, continuando a dar a sua ilrvcslirlrrrrr
p,rrirkr. nomcadamente quando este Instituto do Estado cspiritual a Raymond Boudon, chefe da Ílliirl li;rrrt't.srr
lt'lorrrorr :r sou modo as classificações de A DistinÇão - da sua multinacional científlrca.

80 8I
EsaoÇo PÁM uMÁ Auro-AwÁttso Prcnnt Bottn»tt,:t

[,r"rtando contra a ortodoxia teórica e metodológica expectativas suscitadas em França c, sobt-clrrtlo. l:rlrt.z.
clrrc dominaya a sociologia mundial c esforçando-Íros nos Estados Unidos pela "revolução" dc l9(rl{, rr,\,olu
por escapar à alternativa reprcsentada pela oposição ção específica que introduziu a contestação polílit.o
cntre os marxistas, bloqueados na recusa de Weber e cla -intelectual no campo universitário (Feycrabcrrrl t.rrr
sociologia empírica, e os simples importadores de mé- Berlim e Kuhn nos Estados Unidos foram tarrrlrtrnr
todos e conceitos americanos expurgados de marca de utilizados para fornecer uma linguagem à contcstrrçrio
origem, não podíamos, de forma alguma, apoiarmo-nos espontânea da ciência). Apesar dos seus ares dc rarlicrr
na filosofia, ainda que fosse na que, parecendo muito lismo, este movimento, todavia, continuava a scr l)r1)-
subversiva, começava a afirrnar-se em Paris. Paradoxal- fundamente ambíguo tanto política como filosollcrr
mente, este movimento contestatário ficava a dever o mente, devido ao facto de a revolta contra a instiluiçi)o
seu dinamismo particular à situação de grande privilé- universitária ser também uma reacção conservarlor.ir
gio da filosofia ern França, em conseqr"rência sobretudo contra a ameaça que a ascensão das ciências socilis,
da presença, quase singular, do ensino da filosofia nos nomeadamente através da linguística e da antropologia
anos finais do secundário e da posição dominante que, "estruturalista", fazia pesar sobre os filósofos, ao nrcs-
nessa altura, a disciplina ocupava nas hierarquias esco- mo tempo fascinados e inquietos. Foi sem dúvida tanr-
lares. (Recordo aqui o modelo que usei para explicar a bém a preocupação de manter e afirmar a sua hegemoniir
Íbrça excepcional do movimento subversor que surgiu cm relação às ciências sociais que os conduziu, parado-
em França, com Manet e os impressionistas, em reacção xalmente. a retomar à sua conta a crítica historicista rll
contra a toda-poderosa instituição académica, e, pelo verdade (e das ciências), radicalizando-a com uma cs-
contrário, a sua ausência numa Inglaterra que desconhe- Iratégia muito semelhante à de Heidegger ao ontologizur.
cia semelhante concentração de poderes sirnbólicos em o historicismo. Proporcionaram assim uma vingançir
rnatéria de arte.) inesperada ao que a tradição logicista, até então doltri-
Devido ao facto de a instituição universitária, que nante, condenava como genetic Jàllacy, incitando a quc
vivia numa crise muito profunda, não poder curnprir as se considerasse obsoleta e mesmo algo reaccionária l
promessas que estavam implícitas na sua trajectória dedicação às verdades formais e universais quarrrkr
oscolar de excepção, relegando quase todos para posi- comparada com a análise de situações histórico-crrllrr-
çõcs marginais, estes filósofos possuíam um humor rais particulares.
crítico muito acerado contra esta instituição particular- A rejeição do que Merleau-ponty chamavir, nunr
rrrcrrtc preparada para impor uma representação da scntido muito diferente do uso comum, ..o intclrrt.lrur
lc:tividade filosófica ao mesmo tempo engrandecedora lismo", e que orientava há muito tempo as rrrinlrrs
e lirrritada (com a agregaçáo, os seus exercícios e os cscolhas intelectuais, enraizava-se eÍl disposiçocs t;rrt,
sous programas trem fianceses...). Também responde- rne predispunham a permanecer afastado ckrs 11r.;rrrrlr.ri
nurr rlc nraneira milagrosamente bem adaptada (sem "movimentos" intelectuais da moda, cotlt() rr Íirrrrrrr
t'virlerrtcurontc o terem de modo nenhum procurado) às cxotérica do "estruturalismo" e a sua liquirlaç:)o jorrrrli:i

82 83
Esnoço t'/tRÁ uMA Auro-ANÁttss Ptrnnr Bounttrr,.t t

tica, dc clttc /,r' Nttrtw'l Olt,s<'t't'ttlt'trr foi, em ambos os mos as disposições anti-institucionais quc rcsrrllrrrrr rlr'
casos. uurit tllts sctlt:s. (A rrtinlla única participação no uma posição semelhante num espaço acatlórrrit'o pro
clcbatc cslnrlut'ulistlt, lxtt'lt :tlcttt tlas análises críticas fundamente transformado, não deixo de mc sur'prct'lrtlt'r
clcslinutllts lt rcvislrts cicrtlílictrs, coll.lo o artigo intitulado quando hoje, graças à allodoxia correlativa tlo rrlirst;r
"O llslrrrÍrrt'ltlisnto r.: lt 'lcorilt tlo ('tlnhecimento dos mento transatlântico, me vejo englobado, por vt.z('s.
( )lr.jcclos"( "'r, liri rrrn lc:xto tttttiltl rrititlamcnte antiestrutu- entre os "pós-modernos", que o renascer dos vcllros
nrlistl lccrclr tlo cltttt;'ro ilttclccttritl, ;lLrbli«:ado no núme- preconceitos dos filosofos contra as ciências socirris
rrr tlc 'li'rrt1t,t trtotlt'r'rrt'.s ttrgattizaclo por Jcan Pouillon conduziu frequentemente rnuito perto do niilisnro.
sobrc r:slu corrcntc( "'), ck: modo quc ó ncccssário ser mal Embora não possa evitá-lo para clareza de anirlisc c
irrlernr:iorrarlo, ott simplcsmcnte estar mal informado, tambem por dever de verdade para com os jovcrrs
punr rnc incluírem entre os "estruturalistas".) Excluía de leitores, susceptíveis de ser iludidos, sobretudo no üs-
lirrnra muito consciente as estratégias de jogar em dois trangeiro, pelas semelhanças aparentes, hesito em clizcr
tabLrlciros e de obter vantagens a dobrar que eram aqui como me posicionava objectiva e subjectivamcnte
postas ern prática por todos os que gostavam de se em relação a Michel Foucault. Como descobri com totlir
aprcsentar como "sociólogo e filósofo" ou "fiIósofo e a evidência quando, na ocasião do seu desaparecirr-rcnto.
historiador". Devo confessar que me eram bastante comecei a escrever para urna revista estrangeira unrir
antipáticas, entre outras razões, porque me pareciam evocação da sua vida e da sua obra(4"), escapanclo li
sintomáticas de falta de rigor ético e científico. Também retórica necrológica, partilhava com ele quase todas as
não participava nos entusiasmos semiológico-literários propriedades relevantes: normalista e com a agregaçiio
que ftzeram furor, durante algum tempo, no campo em filosofia alguns anos antes de mim eu ainda tinlrrr
universitário e na revista kl Quel, nem era mais indul- frequentado os cursos que dera na Escola Normal
gente com os que, acumulando os prestígios da filosofia adoptava posições filosóficas muito próxirnas das nri-
nietzschiana ou heideggeriana e da literatura - com as nhas, e em especial muito próximas de Canguilhorl e
referências obrigatórias a Artaud, Bataille e Blanchot do grupo de Clermont-Ferrand (fora chamado por'
(sem falar de Sade, tema obrigatório de dissertaçáo pata Vuillemin), a que me encontrava ligado. Quasc torlirs.
qualquer intelectual) -, contribuiam pata confundir as excepto duas, mas que tiveram, na minha opinião, trnr
fronteiras entre a filosofia (ou a ciência) e a literatura. peso muito importante na constituição do seu pro.jct'lo
Por isso, embora pudesse ter pontos de acordo com eles intelectual: ele provinha de uma família de boa brrrgut'
que se poderiam designar como políticos, e que se sia da província e era homossexual (poder-so-ia a('r'('s
cxplicam, sem dúvida, em parte, pelo facto de partilhar- centar uma terceira, mas que é, penso eu, ilpcr)rs lnl
cf'eito das precedentes, sendo ao mesmo tcrnrlro rrnr
(r8) "structuralism and Theory of Sociological Knowledge", Social
llcst,arch, XXXV n" 4 (Inverno de 1968), 681-706.
lurr "Çhamp intellectuel et projet créateur", Les Temps modernes
(40)
"Non chiedetemi chi sono. Un proÍilo di Miclrcl | ,'tt,,trrlt
(l'r'olrlôrncs du structuralisme),246 (Novembro de 1966), 895-906. l.'indice, (Roma), I (Outubro de 1984), 4-5.

84 85
EsnoÇo ptru uut Auro-ANÁttso Pmnns BouRpttr:

fnctor explicativo: o facto de ser e se dizer f,lósofo). Daí confere um imenso poder de atracção ii strr virlr t'ri r,rr;r
que possamos, quase sem problemas, fazer praticamen- obra, sobretudo em tradições que, conro l llcrrrri orr lr
te desaparecer as diferenças, ou, pelo contrário, acentuá- americana, põern em confronto, de fornra tollrlrut'rrlc
-las, fazendo notar que, enquanto distinção última, são errada, penso eu, estas duas dimensões da cxislôrrt'irr tkr
particularmente significativas e influentes. intelectual digno deste nome.
As semelhanças, acerca das quais não me irei alor-r- Apesar de uma proxirnidade rnuito granclc, (luc sul
gar, são perceptíveis, quer no domínio da investigação, giu nomeadamente na acção que realizárnos cnr corr jrrrr
quer no da acção. Ignorando a lrierarquia estabelecida to a respeito da Polónia, e da solidariedadc qur: n()ri
entre os objectos e a fronteira sagrada entre a filosofia uniu, desde o início dos anos 80, quer na vida pÍrblicrr,
e as ciências históricas, Michel Foucault nunca deixou quer na vida universiÍária, eu divergia de Michel [iout:uull
de trabalhar paÍa alargar a definição tradicional da por uma série de diferenças de estilo, detectáveis sobrc-
filosofia, a fim de nela fazer caber o mundo tal como é tudo nos temenos da política, da arte e da investigaçlo,
e, desse modo, todas as especics de objectos, desconhe- tendo já recordado de passagem algumas delas, c (luc
cidos ou excluídos - a loucura, o internamento, o poder, me parece decorrer de diferenças profundas nas n()ssirs
etc. , apreendidos selnpre mediante casos precisos, disposições e posições respectivas. Enquanto eu, cnlpc-
situados e datados e colrt dossiês detalhados. Trabalhou nhando-me resolutamente no campo das ciências so-
também para conciliar a autonomia em relação ao ciais, primeiramente na etnologia, depois na sociologil.
mundo social, e em pafticular à política, com o empe- rompia realrnente com as expectativas e as exigências
nhamento, apoiado na ciência, no mundo social, cons- do r-nundo filosófico para me submeter às exigências tlc
tituindo o que chamava "o intelectual específico". En- uma disciplina científ,rca dotada do seu capital espccíl'i-
trar no terreno da política como ele fez, nomeadamente co de problemas, de teorias e de metodos, Michel liorr-
na sua luta sobre as prisões, era pôr-se na situação de cault continuou sempre presente no campo filosóÍlco t:
extrema vulnerabilidade do homossexual que se afirma atento às expectativas do mundo intelectual parisiorrsc.
como tal e que, segundo David Halperin, "se expõe às por grande que fosse a sua distância em relaçiio lo
acusações de patologia, de parcialidade, e concede aos centro da instituição universitária, confirmada pclo scrr
outros um privilégio epistemológico absoluto" sobre si afastanrento, em primeiro lugar, geográfico e, dc;rois,
mesmo (sabemos que certas campanhas dirigidas contra social. Estas diferenças nas situações objectivas cslrlr.
clc. sobretudo nos Estados Unidos, se basearam nas obviamente, numa relação de causalidade circr"rlur r'()nr
particularidades da sua orientação sexual pata enfra- as disposições. No qLle me diz respeito, as clisposil'r'rt's
rlr.rooor e desacreditar um pensamento que põe profun- levavam a empenhar-Íle na sociologia, e nunrít sociolo
tlanrcnte em questão a ordem moral e a ordem política, gia de r-rm tipo particularmente antitetico cttt rt'lrr1';io rir,
rrlrrcsontando-o como relativo e relatlizátvel)' Em suma, cxpectativas do campo intelectual francês, colrto ir irnir
rrirrgtrr-:tn nrais e melhor que ele chegou a realizar esta lise das práticas artísticas e dos mundos irtlclet'lurts l
rt't'oncilirrção do scholarship e do commitment que a investir primordialmente nos projectos t:olt't'lrvnr rh'

86 87

I.
Esooço PÁRÁ UMA Auro-ANÁLrsr Ptzrur I)rtttRttrr,;tt

trm grupo de investigação compronretido com tarefas e mente do grupo de investigação quc crici, o (,t.rrtro rlt.
preocupações muito afastadas do mundo intelectual, Sociologia Europeia) em função das transÍir.r)rr1..r.s rl;r:,
como os inquéritos etnográficos o cstatísticos. Do lado relações de força simbólicas, quer em cacla unr tlt.stt.:,
de Michel Foucault, levavam a compromissos singula- dois campos, quer entre si, e considerar, cnr
;.xrrlit.rrlrrr.
res e, desse modo, mais em conformidade com as a minha trajectória inclividual, tendo em conta o cru.;'rt.
expectativas dos mundos da artc c da literatura e a ter especíÍico da posição do Colégio de Frarrçir, t1rrt..
práticas científicas menos distantes das do erudito tra- como mostrei em Homo acarlemicus(at), era (s.br.ctrrrlry
dicional, como a presença assídua nas grandes bibliote- um lugar de consagração dos hereticos, afaslurkr rlt.
cas (foi apenas no fim da sua viclzr que Foucault pen- todos os poderes temporais que se exerciarn sobr.c rr
sou e eu contribuí para isso - crn criar um grupo de instituição académica. A revolução que se fez, sc tcvt.
investigação). A diferença entrc as duas espécies de êxito no plano simbólico (pelo menos no estrangcinr).
disposições subversivas e as tomadas de posição que na instituição registou um fracasso relativo, o quc sc vi,
favorecem, tanto na investigação, como na intervenção bem no destino do grupo: este não teria sido sujcito. rlc
política é reforçada pelo eÍ'cito que as expectativas fbrma tão continuada, a pressões e a reacções dc clcÍcsa
objectivamente preserrtes nos dois canrpos têm e é colectivas que visavam impedir a sua reprodução ..nor.
tambem ampliada pelo facto de uma mesma acção, em Inal", se, fosse devido à lógica do seu funcionamoltt. ,rr
rnatéria de arte por exemplo (mas tarnbérn de política), ao conteúdo das suas produções científicas, não tivcssc
ao ser atribuída a um sociólogo, poder parecer falta de ameaçado a ordem e as rotinas do campo.
elegância de um beócio, mas se o for a um filósofo,
poder parecer a transgressão audaciosa e refinada de um
esteta. Darei agora por concluída esta referência às
semelhanças e às diferenças que aproximam e separam,
quer na realidade quer nas representações, dois estilos
intelectuais, esperando que ela baste para evitar esta
fbrma específica da allodoxia que, ao conduzir ao
roconhecimento do semelhante no diferente e do dife-
ronte no semelhante, não pode senão prejudicar a circu-
lação e a compreensão adequada dos dois pensamentos
crn causa.)

Soria necessário ainda, de acordo com o bom méto-


rkr. urralisar aqui o estado actual do campo da sociologia
r.' rkr carnpo das ciências sociais para poder
tler rrs trrrjcct(lrias individuais e colectivas "o*p.eãn-
(nomeada- tat) Homct uc'ctderuicu.s,
Paris, Minuit. 198,1.

88 89
ste esboço para uma auto-análise não podc dcixrrr'
de reselar um lugar para falar da fonlação rlus
disposições associadas à posição de origem, pois sabc-
mos que, quando são relacionadas com os espaç()s
sociais em que se tomam efectivas, contribuem parir
determinar as práticas. Não me alongarei a falar clas
propriedades da minha família de origem. O mcu pai.
filho de meeiro, que se tornou carteiro perto dos trintrr
anos, ou seja, mais ou filenos quando eu nasci, c crrr
seguida carteiro responsável pelo posto do corrcio,
exerceu durante toda a vida a sua função de emprcgutkr
numa pequena aldeia do Béam muito atrasada. (l.ltnl-rorrr
muito próxima de Pau, a menos de vinte quilórnolros,
era desconhecida dos meus colegas de liceu, rlr-rL) st.
riam disso.) Penso que a minha experiência inÍirrrtil rlt'
trânsfuga filho de trânsfuga (que julguei reconhcccr rro
Nizan de que Sartre fala no seu preflácio ir .'ltlt'rtt
Arribia\+zt pesoLl muito, sem dúrvida, na Íbrmrtr,,:lo tLrs
minhas disposições em relação ao mundo sociul. Mtrtlo
próximo dos meus colegas da escola prinrária. llllros rh'

'r?) Jean-Paul Sartre. Prefácio a Paul Nizan. .'Í,/,'r lt,rl,t, l'.rrr ,

Maspero. 1960.

9t
Esaoço PÁRÁ uMÁ Auro-ANÁttst Ptgnao Bounotttt

pequenos camponeses, aftesãos ou comerciantes, com vezes, censurava-o um pouco por isso lr rr;rrrlrrr ,,,,
quem tinha mais ou menos tudo e nr comum, excepto os mais pobres a desenvencilhar-se com as pal.lcllrrl:rs r;rrt.
resultados, em que me distinguia um pouco, estava eles lhe confiavam ("Aquets papàs!", diziartr): pe n,.u)t.r
deles afastado por uma especic dc barreira invisível, de guerra ou de invalidez, obrigações, r.nzrrrtlulos. t,lt.
que se manifestava, por vezcs. cnr irrsultos rituais diri- Recordo-me de ter chorado algumas vezcs, 1-rcrrsrrrrrlo
gidos contra lous emplegaÍ,s, os cmprcgados "de mãos que o seu nome, apesar de tanto méritos, nunca vir.irr rro
brancas", tal como o meu pai cstava separado dos dicionário. Não saberei dizer como fui suportantlo rr
camponeses e dos trabalhaclorcs orrtre os quais vivia na culpabilidade evidente que ele tinha, mesmo cm roluçrro
sua condição de pequeno funcionirrio pobre. O meu pai, a camponeses frequentemente mais afortunados. c rlr
residindo com a família num apartamento atribuído qual eu participava, contra a minha vontade, conl lt
devido à função e desprovido clas mais elementares mágoa dos insultos e dos gracejos agressivos de algtrrrs
condições de conforto (durantc rluito tempo, ia-se bus- dos meus colegas de escola. Ensinava-me sem palavr.lrs
car âgua à fonte pública), cstava sujeito a horários e com toda a sua atitude a respeitar os ,.pequenos"
extenuantes, da segunda-fcira clo rnanhã até sábado à entre os quais se incluía - e também, embora nultcit
noite, das seis horas da manhã, hora de passagem da falasse assim, os seus combates. (Fizera-me ouvir «r
viatura postal e da retirada do correio, até ao fecho das canhão dos últimos confrontos da guerra de Espanha c
contas, frequentcmcnte noite dentro, sobretudo por oca- vi-o falarmuitas vezes, numa mistura confusa de bearnôs.
sião dos balanços de firn de mês. Cuidava ele mesmo da espanhol e francês. com os .frente popular, como orllll
sua horta, comprava e seÍrava a lenha e a compra mais chamados, que, vencidos, tinham passado a frontcirir.)
insignificante era uma verdadeira façanha, de que se Votava muito à esquerda, estava inscrito no sindicato. o
falava durante dias e dias, como um quarto de estilo que levantava alguns problemas neste mundo rurll
Lévitan que ele e a minha mãe tinham mandado fazer bastante conservador, nomeadamente durante as grcvcs,
em Nay quando eu tinha oito ou nove anos, e a pequena e alimentava algumas grandes admirações políti«:as
bicicleta de vinte francos que me ofereceram e que uma Robespierre, Jaurês, Léon Blum, Édouard Herriot
amiga a quem a emprestei danificou bastante ao ir encamações do ideal escolar e republicano, quc clucr.irr
contra o muro da igreja, antes mesmo de poder estreá- fazer-me compartilhar.
-la. Estava, por outro lado, longe do seu pai, de quem A minha mãe provinha, por parte da sua mãe, clc tnn:r
gostava muito, e do irmão, que tinham permanecido na "grande família" campesina e tinha tido de contr:rrirrr rr
tcrra arrendada e a quem ia ajudar em todos os grandes vontade dos seus pais para realizar um casamcnkr t.otr
lr:rbalhos, quando tinha férias. Dava sinais de que sofria siderado uma aliança muito desigual e grave (o rncu grirr
corn isso. Nunca estava táo feliz, creio eu, como quando falava sempre com alguma exaltaçáo da sua oxpcl.iôlrr.rr
porlil a.ir"rdar os mais desprotegidos, com os quais se das diferenças sociais tal como se revelavarn no rrrit.ro
st'rrlilr :\ vontade e que confiavam totalmente nele, e era cosmo da aldeia e era sempre bastante advcr.so r. rk.r.;
irrt'rrsrrrrrcrrtc gcntil e paciente - já mais velho, eu, por confiado em relação aos notáveis locais ntr(lt(.ori,

92 93
Essoçtt PAR.4 ul4A Auro-ANÁust Pfi:Rns lJoLltrttt,t t

comandantes da guarda, padre ou rlesmo professores , comunistas, reencontrei na Escola Norrrrirl r.tl;r ,rrrr
o que não tinha ajudado nada nos seus esforços para que "companhia" de emigrados beameses pr.ovr:lricrrlt.s tlt.
eu fosse para o liceu). A minha rnãe morava com os pais Lanneplaà, aldeia de onde eram origi.ários () r)rc, ir\,()
numa pequena casa de dois andarcs, separada da grande e o seu pai. Este estava em paris, durante a (,orrrrrrur.
casa familiar que a sua mãe tinha rocebido como dote de corno empregado do colégio Santa Bárbara o. por. (.on
Í-ilha mais nova e onde eu nasci. Sucessivamente, ou seguinte, na origem do fluxo migratório de oncic pr.r,vi
simultaneamente, serrador de pranchas e transportador nham os nossos 'Justinos" -- nolne da<Jo aos raplazcs rk.
de madeiras, revendedor de teciclos e pequeno campo- serviço, a partir do nome de um deles.) Tinha trirnsrrri.
nês - tinha sempre algumas vacas c alguns pastos, e tido a minha mãe, que lhe era totalmente dedicada. a srrrr
também alguns ares de madeira na suligue(*) , o meu preocupação com a respeitabilidade e o acatamcnto tlirs
avô materno, parente pobre dc unra "grande familia", convenções e conveniências. A minha rnãe, por. st:tr
tinha um enorrne desejo de rcspcitabilidade, tendo eu lado, confrontava-se com o meu pai, de humor lrrais
descoberto mais tarde, quando ajurdei os meus pais a difícil e bastante anárquico, quardo queria impor_rrrc,
transformar a casa (apaguci assim, com uma espécie de sern acreditar muito no seu êxito, um mínimo de conlirr-
felicidade furiosa, quc magoava um pouco a minha avó, rnidade exterior com os costumes locais, nomeadanrcn_
todos os vestígios do passado: pocilga e capoeira, caba- te os religiosos, o qLle eu recusava (sobretudo por(luc
na de madeira que servia de latrina, telheiros atafulhados tinha um verdadeiro pânico com a ideia de atrávcsrur.
de velharias e pequenos objectos absurdos trazidos de toda a igreja, ao domingo, para ir para o banco tlos
todo o lado, etc.), todos os excelentes exemplos de rapazes), ou particularidades cosméticas e de vestuário,
recuperação e manutenção em que ele se tinha empe- como um avental branco, Ltma yez, ou calças contpri_
nhado para dar ao que não passava de urna pequena casa tlas, uma outra vez (sern falar da risca impecáve I clo
térrea de agricultor ou rendeiro - constituída, funda- cabelo que se obstinava em fazer-rne e qLre eu clesfirziir
mentalmente, por uma grande divisão de terra batida mal passava a porta). as quais me revoltavam, porqur:
e um grande "salão", reservado para as grandes oca- rne diferenciavam dos outros e me expunham às sti,,*
siões - a aparência de uma grande casa de dois andares, zombarias. Foi também a veneração que ela tinha por.
sírnbolo por que se reconheciam antigamente as gran- tudo o que se relacionasse conl a memària do pai qric rr
tles famílias. (Entre os rapazes encarregados de servir à levou a coÍTer a prevenir um amigo dele, sern r.
1",,...,-
rncsa os alunos que constituíam o núcleo duro da célula c"upar com o perigo, quando soube pelo meu piri, r;rrr.
comunista onde Althusser gostava de exercer os seus tinha sido alertado pelos seus contactos na Resisrêrrtlirr.
lalcntos de estratega político, nomeadamente para com- (lue os Alemães viriam procurar um chefe clcstlr
tprt.
batr:r as palavras de orclem lançadas por alunos não cstava escondido na sua quinta. (Vi muitas vczcs. rlrr
rante a guerra de libertação da Argélia, acçircs ..;rolitr
t't ,\irrli,qrrt,: rr-:gionalismo que designa a vegetação típica das zonas cas" semelhantes, que também tinham na sulr ori;ir.rrr
irlrrl,.rrrlrrs rLr lio (iavc de Pau, nos Pirinéus Íianceses. (N. do T.) nrotivações muito diÍbrentes das políticas,) ll;i
1,,,,,,.,,

94 95
Esnoço PARA unL4 Auro-ANÁttss Prc,nnu BoLtttttrr,;tt

rindo muito ("Uma medalha, eu, é ridículo!"),


tcr-r-rpo, uma yez, quando, ao sair do liceu, lhc corrtrrvll lun (lor,
contou-me ela que o homem da Resistência que assim meus últimos problemas com a administraçiio (Íirr rr1rt.
havia salvo tinha querido, depois da Libertação, que lhe nas devido à cumplicidade afectuosa do dircctor, tlcrrurrrl
fosse atribuída uma medalha comemorativa. Lamicq - um do raros normalistas bearncscs, sctr;io rr
Pouco a pouco, fui descobrindo, talvez sobretudo único, que orientaram decisivamente a minha "r:lrrrcr
através do olhar dos outros, as particularidades do meu tà" -, que logrei escapar à expulsão, a alguns nrcscs t[,
habitus - como uma certa propensão para o orgulho e a terminar o liceu, devido a um incidente com o tukrr'):
ostentação masculinos, o gosto evidente pelas discus- "Maynat, qu'as cachcrou!", "Meu Íapaz, tens corir-
sões, quase sempre em tom algo brincalhão, a propen- gem!" "(o cachaou e o dente grande, o molar c, l)or
são para me indignar "por pouca coisa" -, que hoje extensão de sentido, algo como a capacidade de criticlr
parecem-me estar relacionadas com as particularidades sem compromissos, de não ceder). Queria, por ccrlo.
culturais da minha região de origem, que vim a perceber saudar assim a virtude da rebeldia que a tradição local
e compreender melhor por analogia com o que lia exalta, a ponto de ver como um bom sinal uma abortla-
acetca do "temperamento" das minorias culturais ou gem diÍícil ou numa aparência exterior agressivarncrrtc
linguísticas, como a dos Irlandeses. De facto, levei defensiva, quer em relação a uma coisa, quer zr unra
muito tempo a compreender duas coisas: por um lado, pessoa: "Arissou arissat, casíagne lusente", "Clilscir
que, se algumas das minhas reacções mais banais eram ouriçada, castanha luzidia". (As contingências das nti-
frequentemente mal interpretadas, era talvez porque a nhas pesquisas sobre as grandes escolas levaram-nro ir
maneira - o tom, a voz, os gestos, as mímicas, etc. - descobrir que Bernard Lamicq, contemporâneo de Sartrc
como, por vezes, as exprimia, numa mistura de timidez e Aron na Escola Normal, era ridicularizado,juntamcrr-
agressiva e brutalidade tonitruante, ou mesmo furiosa, te com Pierre Mlar, o historiador marxista, tambcrrr clc:
podia ser facilmente tida por real, quer dizer, num certo originário dos confins da província do Languedoc, nr-rrrur
sentido, tomada demasiado a sério; e, por outro lado, passagem particularmente cruel de uma das cançõcs
que eu contrastava tanto com a segurança distante dos rituais do caloiro normalista, "O Lamento do Khâgnctt.t"'.
bem-nascidos parisienses que corria o risco de que as Recordo-me que o mesmo Pierre Vilar, que enconlrcri
transgressões reflexas, e, por vezes, meramente rituais, pouco depois da publicação de Os Herdeiro,s, n'lc itrtr-rr.
das convenções e dos lugares comuns da rotina univer- pelou publicamente acerca deste livro, em que viit rrrrrr
sitária ou intelectual parecessem violência descontrola- agressão injustificável contra "a escola libertador':r", o
da e conflituosa. que prova a efrcácia do sistema.)
Voltando a examinar uma fotografia em que cami-
nhava ao lado do meu pai, numa rua de Pau (numa A experiência do internato teve, com ccrlczir, rrrrr
cpoca em que os fotógrafos convidavam os transeuntes papel detenninante na formação das minhls tlisporr
párra um instantâneo), sem dúvida num dia de distribui- ções, principalmente incentivando-me a tor rrrrr;t r,olr
ção clc prémios, voltei a pensar na frase que me dissera cepção realista (flaubertiana) e combativu tLrs rt.lrrl'r\t.:,

96 97
-=I

Esno<'o PAnl uMÁ Áuro-ANÁusr Ptmnu Bouu»tt,.tr

sociais, que, já presente desde a minha educação infan- das pequenas obsessões diárias, uma tlostas l)r't.(x'ul):r
til, contrasta com a concepção irenica, moralizante e ções constantes de que continua a ser intcr«lilo lirlrrr.
neutralizada que a experiência protegida das existôncias embora seja comuns a todos, encerrando catlu rrnr rrr
burguesas incentiva, parece-me (sobretudo quando im- solidão e na vergonha dos acidentes, e quc ocul)iuu rs
pregnadas de religiosidade cristã e moralismo). Isso cabeças das crianças, falsos duros desarnrackrs, uns
aconteceu nomeadamente com a descoberta da desi- teimosos sempre metidos em bulhas e, no crrlurrlo.
gualdade social, agora ao contrário, em relação aos frequentemente desesperados até às lágrimas, scnr rrin-
citadinos "burgueses" e também do fosso existente guém a quem se queixar, ou apenas com quem Íular'.
entre o mundo violento e duro do internato - escola Também havia as retretes à turca, situadas bem no rncio
terrível de realismo social, onde tudo está já presente, do pátio, ou, pelo menos, num lugar em que se podia vô-
devido às necessidades da luta pela vida: o oportunis- -las a partir de qualquer lado, com as suas portas rlc
mo, o servilismo, a delação, atraiçáo, etc. -e omundo madeira sem fecho interior, com o pretexto, penso cu.
da aula, onde reinam valores em tudo opostos e profes- de impedir que alguém se fechasse para fumar i\s
sores, sobretudo mulheres, que convidam a um universo escondidas, e que não ofereciam nenhuma protccção
de descobertas intelectuais e de relações humanas que contra os brincalhões que, ignorando o lenço posto
podemos considerar encantadas. como sinal, as abriam abruptamente.
O velho edifício do século XVII, gigantesco e agres- Neste mundo condenado à rotina e à repetição, quc
te, com os seus imensos corredores, de paredes de cor f,oi quase toda a minha vida entre l94l e 1947, nint
branca em cima e verde sombrio em baixo, e as suas ocorria nenhum acontecimento digno de nota, a não sol
monumentais escadas de pedra, gastas no meio, que aqueles a que dava azo, de acordo com a sua própria
subíamos, em filas de dois, à noite, para chegar ao lógica, como as zaragatas que gostávamos de chanrar
dormitório, não oferecia nada à nossa medida, nem "memoráveis". Dominava todas as nossas existências
consentia nenhum esconderijo, refugio ou trégua às com as suas regularidades monótonas que não dcixa-
nossas solidões. Onde o sentíamos mais era no dormi- vam nenhum vestígio, a não ser laivos de lembranças
tório, alinhamento disciplinar de três andares de camas sem relação, e com o ramerrão das preocupações c tlls
com velhas cobertas todas iguais, que se podiam obser- disputas quotidianas, dos cálculos, de todos os er"rgan()s
var com um único olhar a partir da porta ou da cabina clue era preciso usar constantemente para obter o (pre
do vigia, instalada no centro. No Inverno, empilhávamos nos era devido, para conservar o nosso lugar, plrrrr
sobre a cama toda a nossa roupa, durante a noite, para defender a nossa parte (nomeadamente na granclc rrrcsrr
passarmos um pouco menos frio. Os lavabos eram uma cle oito, às refeições), chegar a tempo, fazer-nos rcspt'i
cspócie de calha ctnzenta com vários metros de compri- tar estávamos sempre prontos para um soc() , ('nr
nrcrrto, onde nos empurrávamos de manhã para obter suma, para sobrevivermos. Pode pensar-sc (lr.rr: pirrlo o
rrrrr lugar c onde, às escondidas, lavava os meus lenços, quadro com cores demasiado negras. De Íàr:to, ('u, (lur'
rluc Íirziam ruído quando estava constipado. Eram uma aqui escrevo, já não sei, ou jânáo sei dizor, lrrrkr o tlrrc

98 99
EsnoÇo PARÁ uMA Auro-AuÁLtss Ptunnt: Bot tttt tt t,.t r

seria necessário para fazer justiça a quem viveu estas as proibições de sair do internato, etivc Irtitis tlc lrt'zr'rr
experiências, aos seus desesperos, às suas fiirias, aos tas, creio eu, durante a minha escolaridaclc), rlizirr rrrrrr
seus desejos de vingança. Todavia, para dar disso uma tas vezes a minha mãe, que me pressionava tlc l)er'1,,111,
ideia, poderia dizer, recorrendo ao Goffman de Asi- tas, para me deixar sossegado, até que me "rcal-rilullss('
los$T, que o internato, no conjunto das "instituições Paradoxalmente, eu estava, de facto, tão berl arlaptrrrhr
totais", não se diferencia cle outras, como a prisão ou o a esse mundo, no entanto tão detestado, quc ora s('nr
hospital psiquiátrico, nem, ainda menos, da colónia prazer que encarava a possibilidade de sair, c acub:rr':r
penitenciária como é recordada por Jean Genet em O por gostar dos domingos passados, numa trancluilitlirtlc
Milagre da Rosa@a), a não ser em termos de grau. Mas completa (apesar dos vigilantes preocupados em ulirs-
serei talvez mais convincente se disser apenas que me tar-me das salas de estudo, onde me refugiava a lcr). rrtr
recordo muito bem de ter revelado a um colega da liceu mais ou menos deserto. As ferias grandes não rnc
khâgne, numa destas confidências algo literárias que se davam nenhuma alegria, uma vez que o isolamcnto
podem dar entre aspirantes a intelectuais, que nunca social em que a frequência do liceu me tinha lançatkr
teria filhos, porque não queria ser responsável por estava na origem do aborrecimento e da solidão dc unrr
condená-los a desditas semelhantes às que eu vivi' existência sem trabalhos nem lazeres susceptíveis tlc
(Estava então no internato do liceu Luís, o Grande - ser partilhados com os meus antigos colegas da escolir
muitíssimo mais liberal do que o que frequentara em local (à parte alguns jogos de futebol, ao domingo.
Pau -, mas onde, decerto devido às minhas disposições numa aldeia vizinha). O relato dos meus problcnras
rebeldes de interno endurecido, ainda tinha tido grandes disciplinares era incompreensível para os meus pais. os
aborrecimentos. Nele, podia distinguir-se os que já quais, sendo eu, segundo eles, um privilegiado (o nrcu
tinham sido alunos internos dos neófitos da província, pai tinha deixado a escola aos catorze anos e a minhir
devido àquela espécie de desencanto que também se mãe, a residir durante algum tempo em casa de uma til
pode encontrar no exército nos que, completamente de Pau, tinha estado no colégio até aos dezasseis). niro
desiludidos, vão passar à "peluda".) podiam deixar de me considerar responsável pelos mcrrs
Mas esta experiência parecia-me, aliás, incomunicá- tormentos, quer dizer, pelo meu mau comportamcrrkr.
vel no momento mesmo em que a vivia. Recordo-me susceptível de ameaçar o êxito do meu projecto, vilal e
clue o meu pai, durante os meus (raros) fins-de-sernana sem esperança, de salvação através da escola.
cm casa (acumulava os trabalhos extraordinários(.) com Perguntei-me muitas vezes se as minhas difictrltlirtlt's
se deviam a mim, àquilo que desde muito ceclo lirrlr:rnr
considerado como o meu "mau cafâcter". Guartkr :rirrtlr
(1r) Erving Goffman, Ásiles,Paris, Minuit, 196l- na memória os incidentes que me valeram, scnr tlirvirllr
r'1'r) .lcnn Gertet, Le Miracle de la rose, Paris, Calliamrd, 1943' nenhuma, ter sido incluído irremediavelmcntlr rur ltslrr
t'\ ('ollc;s, a col.le e um castigo que consiste em obrigar o aluno a vir
dos insubordinados que seria necessário çxrrrit' :ro lrrr
r\ t.st.oltr, lirra tlas horas de aula, para rcalizar exerCícios suplementares.
'l'.1 meiro sinal de zaragata, e que os tutores o os vil,.ilrrtrtt':;
l N. rht

100 101
Prcarc Boun»ttit
EsaoÇo PAM uMÀ Auro-AN,iusn

cito, quando uma revista é anunciadil c rrlgrrtlrrr l;rz


transmitiam uns aos outros. Ficávamos presos, assim,
coffer o boato de que é necessário engraxilr tltntlrrrnr rr:,
numa espécie de círculo: a pr'rnição preventiva, indivi-
solas das botas -, com a cumplicidade dos rnais sulrrrrs
dual ou colectiva, gerava a revolttt c a vingança, zaragatas
sos e dos mais receosos, que faziam circular l'un)()r'(,s ('
organizadas com vários dias dc avanço e golpes baixos
ameaças para obrigar os rebeldes a regressar às Í'ile irrrs.
.ont.u os vigilantes, o que dcscncaclcava novas puni-
como a decepção ou que não se cansavam de lembrar experiêrrciits (lursr,
ções, decretadas como represália, bonl míticas destinadas a inspirar o terror, como, por cxcnt
derivada da cobardia dos quc' aptis tcrem conduzido,
plo, o aparecimento do vigilante geral, sem fazor l'rrírkr.
muitas vezes, à rebelião, fugiam clovido às ameaças de
inesperadamente, à entrada do dormitório, com unur
sanções colectivas e intimavam tl "cabecilha", encerra-
destas frases banais, mas que se tomaram proverbilis c
do no seu orgulho, a denunciar-so' A solidão nunca era
eram mil vezes imitadas - "Com que então! Estamos ir
tão grande como nestes montcntos. (Voltei a ter este
divertir-nos bem!" -, que dizia corn uma voz suilvc c
sentimento no navio que nos lcvava para a Argélia,
como que su{preendida, mandando de uma assentatllr
quando pregava aos outros solclados de segunda classe,
para o seu lugar todos os internos que até há pouco sc
iietrados que vinham de todo o Ocste da França, a
dispersavam por todo o dormitório, soltando grantlcs
revolta contra a "pacit'icação" absurda para que nos
gritos, com o travesseiro nas mãos. Podemos imaginar'
enviavam, e que me diziarn, por mcdo e por submissão,
mais do que por maldado, "vais fàzer com que moffa-
a satisfação que o sadismo destes guardas prisionuis
frustrados podia encontrar no exercício do poder abso-
mos todos" e "vamos matar-te".) Tinha onze ou doze
luto que a instituição lhes concedia e nos servilisnros
anos e ninguém em quem conÍiar e que pudesse sim-
obsequiosos que a sua posição lhes garantia.
plesmente compreender-me. Passava frequentemente
Aterrorizado e insubmisso, indefeso e intratirvcl.
uma parte cla nolte a preparar a minha defesa para o dia
sempre com uma revolta próxima de uma espécic rlc
seguinte.
-O delinquência a que só faltavam as possibilidades c rrs
pessoal superior deste pequeno liceu da província
ocasiões e, no entanto, também sempre disposto rr
recorria em geial às sanções colectivas, ameaçando
confiar e a abandonar a luta e os bastiões dos pontos rlc
tomar "reféns", aparentemente designados ao acaso,
honra para ter flnalmente paz, eu vivia a minha virlir tk.
mas de facto escolhidos de acordo com o seu "registo"
interno numa espécie de furia obstinada. (Foi a est:r
oscolar, parafazer cessar uma desordem, ou anunciando
experiência que fiquei a dever, com certeza, a capucirlrr
as piores sanções, se os autores de uma mâ acçáo grave
de de comunicar, sem ter que me esforçar nacla, upcs;rr
rrão se "denunciassem" ou não fossem "denunciados"
"denuncia-te" çatJ- de diferenças de toda a ordem, esquecendo c a rrrirrlur
lrclos seus camaradas. A imposição idade e o meu estatuto - demasiado, scrn rlírvitl;r, ;r
*r,vir ltorror, sobretudo quando vinha de um cúmplice
ponto de aprovar, como me chamaram a atcnq'ào. r'otr
tlrrt:, litcc às ameaças e ao medo que inspiravam, rene-
pessoal superior esmerava-se dutas normalmente consideradas totalmcntc l't'prr't'rr:;i
1,,rrv:t lotla a ftdelidade. O
veis -, como foi o caso, por exemplo, colrr () lr)\('nr
tlrrrrbcnt u ltttmcntar o medo colectivo - como no exér-

102 t03

,-1, '
Esrto(:o 1,,4R/l ( t M,1 Á Ltlr»ÁuÁttst Pt tinnu IJ o I t ttt t r r,; t t

magrebino, nasciclo ottt I;ritttça, clc A Miseria do Mundo também nas suas maneiras e preocupaçõos. t;rrt' t'ort:'l t

e corn o scll itutigo.('rt) tlttc itttctliatamente compreendi tuíam a prova evidente de um mundo inaccssivel. llt'
no quo tinluttu tler intlclcst)s, pitl'il alcm da aparência de cordo-me de um deles, um "refugiado" col-r't pr'()nun('rir
impcrrclrubilitllrlc lolltl r;ttc tut ll'cnte de outro teriam "esganiçada", que, sempre na primeira Íila c cortrplclrr
scnr tl(rvrtllt tttittttitltt.)('ottttl cscrcvoLl em Memórias de mente alheio a tudo o que o rodeava, escrevia p()cnrirs.
tttrt ltt!tt'o. t'r'cio tlttc lllirttltcrt cstltva perto da verdade Outro, filho de um professor, suscitava persoguiçt)cs
l() pcnsill- (1rc "(lucnl vivctt tt ittlcrnato conhece, aos sem que se saiba ao certo se devido ao factcl clc sct
tlozr: lrrros, tnltis ou lnct'los tutltl etccrca da vida". considerado homossexual ou por se ausentar habittral-
() corrllirstc inrcltso ontrc o t-t'tttnclo clo intemato e o mente, durante os recreios, para tocar violino. A crucl-
rrrrrrrrlo rrormal, por vczes mesmo exaltante, da sala de dade das interacções tomava frequentemente a fornta tlc
arrlu contriburía muito para rnultiplicar a revolta contra uma especie de racismo de classe baseado na aparôrtcil
ls praxos c as perseguições impostas por uns sujeitinhos física ou no nome próprio. Fulano, que se tornou o mou
quo as proprias nonrlas da vida escolar levavam a principal rival nos últirnos anos, filho de uma emprcga-
dcsprezar. De um lado, o estudo, os internos vindos do da dos arredores de Pau, mas muito ligado, atravós do
mundo rural ou das pequenas cidades dos arredores, escutismo, a filhos de professores e médicos da cidaclc,
que, exceptuando alguns originais, facilmente olhados cujas maneiras e sotaque aprimorado imitava, oferrclia-
com a suspeita, neste universo de masculinidade arro- -me frequentemente, pronunciando o meu nome à ma-
gante, de serem homossexuais, liam Miroir-Sprint, Midi neira dos camponeses da região e gracejando conr o
Olympique ou lrei Cuspir nos Vossos Túmulos(.), gosta- nome da minha aldeia, símbolo de todo o atraso rural.
vam de falar de raparigas e de râguebi, copiavam as (Voltei a encontrar, muito mais tarde, na khâgne clo
suas dissertações de francês das dos antigos alunos ou liceu Luís, o Grande, a mesma separação entrc os
de livros de exercícios corrigidos e preparavam "cábulas" internos, provincianos barbudos com batas cinzcntas
para as provas trimestrais de história. Do outro, a aula, apertadas com urn cordão, e os externos parisicttsos,
com os seus "profes" evidentemente, cujas observações que impressionavam muito um certo "prof'de Francôs,
e interpelações mais penosas ir ao quadro, em mate-- de origem modesta, vindo da província e ávido tlc
mática tinham, sobretudo nas mulheres, uma espécie
- reconhecimcnto intelectual, com as elegâncias burguc-
de doçura afectuosa, desconhecida no internato; mas sas do seu comportamento e as pretensões literárias rkrs
também com os alunos externos, uns estranhos algo seus trabalhos escolares, concebidos desde logo cottto
irrcais nas suas vestimentas lustrosas, calças curtas um obra de escritores. Ao voltar a pensar nisto, fico surprccn
pouoo fora de moda, ou calças de golfe bem talhadas, dido com a inÍluônoia que tinharn a aparência Ílsicrt t' o
clrrc contrastavam com as nossas baÍas cinzentas, e vestuário usado, quer junto dos colegas, quor tlos pro
f'essores, como supostos sinais das qr"ralidatlcs ittlt'lt'r'
rr'r "1.'()rdre des choses", in La Mi.sàre du montle. op. cit., pp. 81-99. tuais e morais, e isto tanto na vida de todos os tlirts ( ()nr()
t't .l 'inri trt«'hersur vos lontbes, romance de Boris Yian- (N.do T.) clurante os exames.)

104 t05
Esaoç'o PARA uillÁ Atnt>ANÁttst P tr:ant l] t tt i ti t tt t,.r t

Pensei há pouco tempo que a minha enorme desfasamento muito grande entre unta clcv;rtlrr (.()n:..r
ambivalência relativamente ao mundo escolar se enrai- gração escolar e uma baixa origern sociir l, ()u s(.;;r. r)
zava, talvez, na descoberta de que a exaltação da face habitus clivado, dominado pelas tensõcs c pclrrs t.orrlrrr
diurna e superiormente respeitâvel da escola tinha por dições. Esta especie de "coincidência dos corrlrrrro:r,'
contrapartida a degradação do seu reverso nocturno, contribuiu para estabelecer de forma durávcl rurur r.t.l;r
evidenciada no despeito dos externos pela cultura do ção ambivalente, contraditória, com a instituiçiro cst.o
internato e pelos oriundos das pequenas comunas ru- lar, feita de rebelião e submissão, ruptura e expcclllivrr.
rais. Entre estes tive as minhas melhores amizades, e que está talvez na origem de uma relação corrrigo
alicerçadas nas zaragatas e nos tumultos. Eram filhos de mesmo tambem ela ambivalente e contraditória. corrro
artesãos ou de pequenos comerciantes, que perdi cedo se a certeza acerca de mim mesmo, decorrentc tlc rrrt.
ao longo do curso, e com quem compartilhava, entre sentir consagrado, fosse minada, no seu próprio pr.irrr.í
outras coisas, o desconcerto e a confusão ao enfrentar pio, pela incerteza mais radical acerca da instârrcil rlc
certas realidades da cultura (entendida em todos os seus consagração, uma espécie de mãe má, vã e enganatkrur.
sentidos) desconhecidas nos nossos meios. Preso entre Por um lado, o espírito dócil, ou mesmo o zclo c rr
estes dois mundos e os seus valores inconciliáveis e submissão do bom aluno, sedento de conhecimento c tlc
algo desgostoso com o anti-intelectualismo, reforçado rcconhecimento, que me tinha levado a submetcr-nrc lis
com o machismo lascivo e tagarela, que fazia as delícias regras do jogo, e não apenas às tecnicas mais rotincir.rrs
dos meus compaúeiros de internato, lia, muitas vezes, c mais fáceis da retórica academica. No liceu Luís. tr
durante os recreios, quando não iajogar à pelota basca, (lrande, por exemplo, distinguia-me nos concursos tlc
e sobretudo aos domingos, durante os castigos. Penso preparação para filosofia. Étienne Borne, um dos rcpr.c-
que, se comecei a jogar râguebi com camaradas de scntantes reconhecidos do personalismo cristão, c c()nr
internato, foi apenas para evítar que o meu sucesso qLrcm iria ter depois, frequentemente, oportunidarlc tlc
escolar e a submissão suspeita que supostamente exige nre pegar, atribuía com regularidade o primeiro lugur.r'rs
me levassem a ser excluído da comunidade dita viril da rninhas dissertações. Por outro lado, a disposição rchcl,
equipa desportiva, o único lugar (ao contrário da sala de tlo, nomeadamente em relação ao sistema cscollrr..
aula, que divide hierarqurzando, e do internato, que rrl-r.iecto, talvez. de um excesso de amor. a Alttttr t,(tlt,t.
isola atomizando) onde se podia encontrar uma verda- runbígua suscitava uma violenta e constantc r.cvollrr.
deira solidariedade - actuante na luta em comum pela Írrndada na dívida e na decepção, que se tontav:r rrrrrri
vitória, no apoio mútuo em caso de briga e na admira- lcsta em toda a especie de crises, nomeadarrrct)lc rros
ção concedida sem reservas às proezas rcahzadas -, concursos e nas situações de solenidadc ilcil(lcnil('r,
muito mais sólida e directa que a do universo escolar. rliscursos de distribuição de premios, aulas ir'rrr1f,rr:r:i,
yúr'is de tese, defesa de candidaturas, quc, rlcscnt.rrrlt.rrrr
Esta experiência dualista não podia deixar de contri- «1. o mal-estar suscitado pela expectativu. rlrt.ir;rrrt.rrr.
buir para o efeito duradouro constituído por um rrrrpcrativa, dos sinais de submissão (a t;rrr. l,:;prrro:,,r

106 t07
Essoç:o rrRÁ uMÁ ALtrut-ÁNÁt.rcr P rcattu lJ ot t ri t » r t,. t,

chamava o obsequium, o tespeito puÍo das formas Devo confessar que muitas das minhas est'ollr:tr' 1,r,111'
institucionais que as instituições exigem acima de tudo, determinadas, desde a Escola Normal, p()r' unrir l.rnr,r
e de que se diz, a modo de censura, que "isso não custa de aristocratismo, mais desesperado quo iln()glurlt', por
Írada", mas que me é extremamente custoso), geram o que fundado na vergonha retrospectiva rlc lt'r srtlrr
desejo de dissidência, a tentação de partir a loiça. E apanhado pelo esquema do concurso, na rcacç:io ir "'s('r
como não incluir nesta série a recusa de submissão ao bom aluno", a que tive de me conformar duranlc rrllirrrrr
rito inconcebível da defesa de tese, justificando-a com tempo, e nesta forma de ódio por mim trlosr].ro (lut' ('rir
as palavras de Kafka "Não te apresentes diante de um para mim a aversão pelo arrivismo pequeno-but'grrôs rk'
tribunal cujo veredicto não reconheças"? alguns dos meus colegas, que, por vezes, so torrr:rlrrrrr
De um lado, a modéstia - relacionada, entre outras membros eminentes da hierarquia universithril ('
coisas, com a insegurança - do novo-rico, filho das suas encamações acabadas do homo acctdemicu,r. (('ottrrr
obras, que, como se diz no mundo do râguebi, não tem poderia não me reconhecer em Nietzsche quantlo tliz
de violentar-se para 'ofazer o trabalho pesado" nem para mais ou menos, em Ecce Í{omo, que nunca se clcrlicorr
investir em tarefas obscuras, como a concepção de uma senão a coisas que conhecia proÍundamente, cluc clr'
ficha de programação ou a condução de uma entrevista, mesmo tinha vivido e que, até certo ponto, elc t.t.tcsrno
o mesmo interesse e a mesma atençáo que dedica à tinha sido?)
construção de um modelo teórico. (Julgaria que isto era Mas este habitus clivado, fruto de uma "conciliaçlo
evidente, se não tivesse visto tantos sociólogos de alto dos opostos" que tnduz à "conciliação dos opostos".
nível social ou académico inventarem todas as maneiras nunca se manifesta táo claramente, de facto, conro lr()
possíveis de se furtar às tarefas que eram, a meus olhos, cstilo peculiar da minha investigação, no tipo dc o[-r.;cc
as mais imperativamente exigíveis a um investigador, tos que me interessam e na minha maneira dc os
mas são frequentemente consideradas inferiores, e se abordar. Refiro-me ao facto de ter grandes ambiçõcs
não tivesse ouvido a um jovem principiante, cheio de teóricas no estudo de objectos empíricos que são. Íi'r'-
títulos nacionais e internacionais, declarar publicamen- quentemente, triviais à primeira vista (a questão tl:rs
te que se recusava a conduzir ele mesmo um questioná- cstt-uturas da consciência temporal quando abortkr rr
rio e que manteve esta recusa sem deixaE por isso, e relação dos subproletários com o tempo, ou os pnrhlt'
para alegria de todos, de ensinar "metodologia" numa mas mais importantes da estética, nomeadanrcrrlc rlrr
das mais altas instituições universitárias.) Do outro, a l<antiana, a propósito da fotografia) e, mais cr-r.r gclrrl. rrt,
altivez, a confiança do "miraculado" predisposto a com- rnodo simultaneamente ambicioso e "modesto" tlc lrrzr'r
portar-se como "miraculoso" e dado a desafiar os domi- ciôncia. Talvez, neste caso, o facto de provir rlus "t'l;r:;
nantes no seu próprio terreno (de que vejo um exemplo ses" que alguns gostam de chamar "moclcsllts'" rlt'r.t'rr
no desafio que Heidegger lança aos kantianos quando volva virtudes que os manuais de mctotkrlolii;r n;lrr
destrói uma das bases do racionalismo, ao descobrir a cnsinam: a ausência de qualquer mcnosl)r't'zo pcl;r:,
finitude existencial no âmago da estética transcendental). rninúcias da empiria, a atenção aos ob.icctos lruttttlrlt",

I08 109
Essr.)Ço pÁRA LJMt Atirr>ANÁttst Ptr:nnt RrtuRttu, tt

a recusa das rupturas soantes e das apresentações espec- na nota final do artigo intitulado "l{cprorlrrq'iro l'r,rl,r
taculares, o aristocratismo da discrição que conduz ao da", que nenhum ftlósofo digno dcstc ttotttc l)('nr,;u r,r
desprezo pelo virtuosismo e pelo brilhantismo rocom- não ler. A crítica ao estilo filosófico tle, l)t'rrrrlrr ,
pensados pela instituição escolar e, hoje, pelo meios de remetida para um Pós-escrito de A Distinç'âo c p;u.;r rurrr
comunicação social. passagem elíptica das Meditações Pasculiutrtr,s' '''. So o
Por isso, defendendo o contrário da retórica da im- subtítulo dá, por vezes, uma ideia do desaÍlo lctirit'o rkr:.
portância que é a marça da grandeza filosófica (e que eu livros. Uma tal opção pela discrição relacionu-sc lrrnr
analisei in vivo a propósito do caso limite dos althusse- bém, seguramente, com a perspectiva dupla, clivitlitLr c
rianos(ou), que não é muito diferente, para uma pragmâ- contraditória que tenho do meu projecto intelocttr:rl. l'or
tica sociologica, dos casos Heidegger e Habermas), vezes altivo e mesmo um pouco insolente (scguirrtkr rr
esforcei-me por deixar as contribuições teóricas mais lógica de "compreenda quem puder") e ascctico (:r
importantes em incisos e notas e por conduzir as minhas verdade merece-se e khalepa ta kala "as coisas borri
preocupações mais abstractas para análises hiperempí- tas são difíceis"), é também prudente e modosto (st'r
ricas de objectos socialmente secundários, politicamen- apresento as minhas conclusões e as minhas anrbiçt)es
te insignificantes e intelectualmente desprezados. O escudado numa investigação precisa e circunstanciutlrr)
primeiro esboço de toda a teoria ulterior - a superação E se lhe desagrada, por vezes, a exposição positivisll
da alternativa entre o objectivismo e o subjectivismo e dos dados e ate das provas (não tenho muita paciôncirr
o recurso a conceitos mediadores, como o de disposição para os intermináveis protocolos de experiência rlue
- encontra-se exposto num curto preflício a um livro esmagam tantas investigações pouco inspiradas), rccu-
colectivo sobre um assunto menor, a fotografia@7). A sa as poses do "grande estilo" ou, mais simplcsnrcrrtc,
noção de habitus está presente, com as suas implicações o atrevimento teórico que leva tantos filósofos, c nrcs
críticas em relação ao estruturalismo, no posfácio a um mo tantos sociólogos (os que agradam de imcclialo rros
livro de Panofsky organizado por mim, reunindo dois filósofos), a pensar acima dos seus meios filos(rlicos.
textos que tinham sido publicados separadamente em Ensinando na E,scola dos Altos Estudos e dopois rro
inglês, e onde a palavra habitus não é usada. Uma das Cológio de França, assumi também de imediatr) a rL:cusir
minhas críticas mais elaboradas a Foucault é proposta cleliberada e decidida de todas as ftrrmas de hultltt'ttitr.ti
que se praticavam muito em certos lugares procr.nirrcrrlt's
il6) "Le discours d'importance. do mundo académico, seguindo uns o modclo rll polilicrr
Quelques réÍlexions sociologiques
srrr'(Jrrefques remarques critiques à propos de l,ire le Capital"', in Ce c outros o da literatura. Recordo-me de me ter chcgrrti r ;r,,
tlul' lt(u l(r vaul dire. L'économic des éch.anges lingttisÍiquas, Paris, conhecimento, com alguma satisfação, quc rlois iovcrr:,
tl, ()tt2, pp.
I rry:u I 20'7 -226 ; rccditado ern Ltargage eÍ pout,oir' symbolique, alemães, vindos de bastante longe para assistir il()s s('nu
l';rr rs.Scuil, 2001, pp. 379-398 nários que tinha começado a dar na Flscola rlrs Allo',
"'t llrt ,,lrl m(\)cn, e,r.toi sur le,s u,sege,ssociaur de la photographie,
l';rrrr. N4irrrrit. l9(r5 (com Luc Boltanski. Robert Castel e .lean-Claude
( Ir;rrrrlrort'rlott). (48)
MédiÍations pascaliennes, col. Liber, p.r1r,5.1;il, lt)')/

110 ilt
Esaoç'o t4R4 uMÁ Auro-AwÁt.tst P tnnnt lJ ttt nt t tt t.; t,

Estudos e onde, devido a um grande equívoco , eu atraia ção quer nas minhas tomadas de posiçiio polilrr';r. p,r
uma boa parte dos que aspiravanr pcrtcncer àintelligent,sia, exemplo, sendo ostensivatnente weboriarto orr tlrrr I'lr,'r
nomeadamente, alguns dos futuros líderes e pensadores miano quando era imperativo ser marxista. Nio st'rrrh'
de Maio de 68 -, regressaranr completamente desiludi- comunista quando a maior parte dos intclcclrr:ris () ('r;r,
dos, devido ao carâcter desooloriclo e um pouco terra à nunca me entreguei ao anticomunismo a rprc rrrrrrl;r.'r
terra dos meus objectos - hist(rrias dc assistentes sociais, vezes se dedicaram quando deixaram de o scr, () (lu('nr('
professorcs e empregados do cscritr'lrio - e das minhas vale frequentemente ser chamado e denunciilclo corrro
palestras acerca deles, que não rcsorvâvam praticamente "neo-estalinista" por parte de pessoas que, nâ sua rnlrio
nenhum espaço para autorcs ou conceitos importantes, ria, passaram pelo Partido Comunista ou pelo rnuoisnro
como práxis, hermenêutica ou "acção comunicacional". e que, agindo assim, continuam a exemplificar os r)r()-
Aliás, há muito pouco tcnrpo, aplicando um modelo dos de pensar e de expressar estalinóides que rnc lcvrr-
deliberadamente socrático quc, clo Íirrma muito significa- vam então a opor-me a eles, como o faço ainda lro.ic.
tiva, não reconheceram, cnrpcnlrci-nro a frustrar as ex- O sentimento de ambivalência em relação ao rrtutttkr
pectativas, naturalmcntc "lllos(rÍlcas", de um grupo de intelectual que se enraíza nestas disposições cstir rr:r
normalistas. Tinham-rmc conviclado para inaugurar uma origem de uma dupla distância de que poderia tllr'
série de conferências sobrc "o" político, mas eu pretendia inúmeros exemplos: distância em relação ao grarrtlc
inflecti-la na direcção cle urna rcf'lcxão sobre o que a sua jogo do intelectual à francesa? com as suas pctiçõcs
visão da política ficava a devcr à sua condição de norrna- mundanas, as suas manifestações elegantes e os scrrs
listas, num estádio cspecífico dos campos intelectual e prefácios para catâlogos de attistas, rnas igualmentc crrr
político, comparando-a metodicamente com as relações relação ao grande papel do professor, envolviclo nu
que os normalistas do passado tiveram com a política. circulação circular dos júris de tese e dos concursos. rtos
O mundo intelectual, que se julga muito livre de jogos e nas lutas do poder sobre a reprodução; distârrciir,
conveniências e convenções, sempre me pareceu cheio em matéria de política e de cultura, em relação qucr a()
de grandes conformismos, que agiram sobre mim como elitismo quer ao populismo. A tensão dos contrarios,
forças repulsivas. As próprias disposições renitentes em nunca resolvida numa síntese harmoniosa, é particulat.
relação às arregimentações e aos conformismos, e, por mente notória em rclação à arte, combinação clc rrrrlr
isso, renitentes também aos que, de acordo com as verdadeira paixão, nunca desmentida, pelas vcrdatlcinrs
irrclinações de habitus diferentes do meu, mudavam ao vanguardas (e não pelas transgressões escolastir:utttcttlt'
ritnro das transformações que conduziram este mundo programadas do antiacademismo académico) c()rn unrir
incorrstante dos encantos da falsa revolução para os frieza analítica que se afirmou na elaboração tkr rttclotlo
tlcsorroantos de uma verdadeira revolução conservado- de interpretação apresentado em As Regru,s tltr,'lt'lttt"'','
nr. livcrarn por efeito que me encontrasse quase sempre
crrr scnticlo contrário ou em oposição aos modelos e aos (.1e)
Les Ràgles de I'art (ienà,se tl sÍruclltrc rltt t lttttttl, Irllrtr,ttr, l'trt '

rrrotlos tkrntinantes no campo, quer na minha investiga- Seuil,1992.

t l2 u3
Esnrx'o PARÁ LtMA Áurc»ÁNÁusr Pttnnt Bot iRttu r,
-
que se baseia na convicção de que, embora correndo o perante este tribunal, o único, senr tlúrvitllr rrcrrlrurrrrr. ,l,
risco de afrontar o culto hol derl i no-heideggero-blancho- que aceito o veredicto, é acompanhacla tlc rrrrr st'rrlrrrrt'rr
tiano do sagrado literário e artístico, "a desmontagem to de culpa em relação ao meu pai, quo acablr tlt' lt'r rrrrr;r
ímpia da ficção", de que fala Mallarmé, só pode inten- morte particularmente trágica, como unr pohrc rlrrlro.
sificar o prazer do amor pela arte. tendo eu feito, na loucura dos momentos tlc rlcst's1rt'r,,
Esta tensão talvez nunca me tenha surgido de manei- do início dos anos 50, com que se ligassc ii sua t'rrsrr.
ra táo dramática como na lição inaugural no Colégio de absurdamente situada junto a uma estraclr nuciorr;rl.
França, ou seja, no momento de assumir um papel que incentivando-o e ajudando-o a transformá-la. l:rrrlxrrrr
tinha dificuldade em integrar na ideia que fazia de mim saiba que teria ficado muito orgulhoso e rrrLrito ll'liz"
mesmo. Recusara repetidamente ser candidato e tinha estabeleço uma relação mágica entre a sua morto c cslt'
apresentado as minhas razões, em primeiro lugar a acontecimento, transformado assim em transgr-c:ssljrr
François Jacob e depois aos meus amigos, sobretudo a -traição. Noites de insónia.
André Miquel, que insistia para que eu fosse candidato. Tinha julgado encontrar, por fim, uma saída parir l
A este tinha mesmo tentado convencer que, sendo contradição em que a consagração social me colocirvir e
grandíloquo e profético, aquele que se deveria tornar que colidia com a imagem que tinha de mim: iria torrr;u'
meu concomente desempenharia muito bem a função, e corro tema da rninha lição o facto de aprescnlar rrnrr
de certa forma até melhor que eu. Esta renitência (a lição inaugural, de cumprir um rito institucional, o crilr
palavra é demasiado fraca, mas aversão é demasiado assim uma distância em relação ao papel quando cxcr
forte), vinda do mais fundo de mim mesmo, conduziu- cia o próprio papel. Mas tinha subestimado a violôrrcirr
-me a uma série de actos destinados a cortar as pontes, daquilo que, em vez de ser um mero discurso ritual, sc
- como a assinatura de apoio à candidatura de Coluche tornava numa espécie" de "intervenção" no sentickr tlrrr'
às presidenciais de 1981 e um artigo de Actes de la os artistas dão ao termo. Descrever o rito ao curnprir o
recherche sobre a alta costura(5O), em que, matando dois próprio rito era perpetrar o barbarismo social por cx('c-
coelhos de uma cajadada, citava um artigo sobre Chanel lência, que consiste em suspender a crença ou, 1'rior
assinado por Barthes na revista Elle e uma crónica de ainda, em colocá-la em questão e em perigo no prtiplirr
Clrastel no Le Monde, autêntica publicidade redigida a momento e no próprio lugar em que se trata tlc cclchr;i
fàvor de uma marca de perfume. A preparação desta -la e reforçá-la. Descobri assim, no momento rlc o rt'rr
lição levar-me-á a ter de suportar intensamente todas as lizar, em situação, portanto, que o quc parÍl rrrirrr t'r:r
nrinhas contradições: a consciência de ser perfeitamen- uma solução psicológica constituía um desaÍlo r\ orrlt'rrr
lo indigno, de não ter nada a drzer que mereça ser dito simbólica, um atentado à dignidade cla institrriq'rio. tlrrr'
exige que nos calemos sobre o arbitrário rkr rilo rrrr;lr
Í\r)) !'l,c couturier et sa griffe: contribution tucional que se está a realtzar. A leitura pÍrblit'rr rlt'rlr'
à une théorie de lamagie",
,lr'lt':; tfu lu retherche en sciences sociales, I (Janeiro de 1975),7-36 texto, que, tendo sido escrito fora dc tal silrr;rr,':io, r['\r'
(t onr Yvellc l)clsaul). ser lido tal qual, sem modificação, tliarrlc rlt' lorlor; or,

il4 115
E,:;aoço P/tRÁ UMA Auro-AuÁusr

mestres reunidos, Claude Lévi-Strauss, Georges Dumé-


zil, Michel Foucault, etc., é uma prova terrível; dir-me-
-ão depois que eu tinha uma voz apagada. Esboço um
movimento para me interromper e sair. Jean-Pierre
Vernant anegala-me os olhos, ou assim o creio; vou até
ao fim, melhor ou pior. Depois, sinto um terrível mal-
-estar, relacionado com a consciência de ter cometido
um eÍTo, mais que uma transgressão. Fico apenas com
dois antigos colegas do liceu de Pau, que nunca mais
tinha encontrado nem voltei a ver depois. Falo a torto e
a direito, com o relaxamento que se segue a uma
enonne tensão e com o sentimento de ter sempre de or que escrevi isto e, sobretudo, para clucnr'/ 'lrrl
pagar tudo muito caro. Porquê ser obrigado, para sair vezpaÍa desencorajar as biografias e os bitigrrrlirs.
desta situação difícil, a entrar nesta espécie de facultando ao mesmo tempo, por uma espécic dc 1'tottlo
esquizofrenia semicontrolada em que, tal como o doen- de honra profissional, as informações quc gostiu'rrr tlc
te comenta o que diz ou faz, dizendo que diz ou faz ter encontrado quando tentava compreender os csct'ilo
outra coisa, comento a minha mensagem, o facto de res e os artistas do passado e tentando proltlttgitt' rt
apresentar uma lição, com uma outra mensagem que, no análise reflexiva para além das descobertas clc ot'tlcttt
essencial, a contradiz, ponde de parte tudo o que signi- geral proporcionadas pela própria análise cicnlíl'it'rr.
fica e supõe apresentar uma lição? Não foi esta a única sem, no entanto, ceder com isso à tentação (rnuito Íirrlt')
yez, nà minha vida, em que tive a sensação de ser de desmentir ou contestar as deformações e as cliÍirrnrr
forçado, por uma força superior, a fazer algo que me ções, nem de desiludir ou su4)reender. Não pt'rsso igrro
custava muito e cuja necessidade era sentida apenas por rar as tentativas de objectivação mais ou mcn()s ,\'('/r'1,
mim. gens que, em contrapartida, as minhas análisos sttst'ilrt
ram, sem outra justificação senão a vontadc rnaltkrsrt rlt'
objectivar quem objectiva, de acordo cor-n a lir;,,it rr
infantil de "quem diz é quem é": se é dcnuttt:irttkrt rlrt
glória e das honras, está ávido de glória c tlc ltottrr:r,
fustigador dos meios de comunicação social, (' "ttrt'rlt:i
tico"; crítico do sistetna escolar, está sr,rb.itrgrtrl.r pclrr'
grandezas da Escola; continuando assiltt itttlt'Írtttrlrt
mente. Em todo o caso, se é certo quc nito sott ittstltt:tt,'l
enquanto agente empírico, esforcei-tt-tc cotlslrtttIt'ttrcttIr'
por sê-lo, na medida do possível, t-ttllrtttttltttttr.'ttlt' ( ,trr()

I t6 il7
Esooço PÁRÁ uMl Auro-ANÁtlss [tttinnt.; lJttt rrit,t t, r,

investigador, prcstantlo atcrrção ir minha posição e à sua pensei que cometia um acto de anugirrt'i:t :;;rr,ttlr.1';1 ,1,,
evolução r-ro tcrnl-ro. c()n'r() aqui íiz, para tentar controlar pensar que Flaubert ou Manet erertn l)cssoiri ('()nr(l (,u.
os cfcitos cluc potlcriunr tcr sobrc as rlinhas tomadas de embora com isso não pretendessc corrlilrrlrr nr(' r ont
posição cicnlíllclrs. c lrulo isto, rtão para escapar à eles, como tantos críticos inspirados. Nirtllr rrrt'l(lt niult
rctltrção tkrs rrre,rrs lnrhirllros i\s srns condições sociais, mais feliz do que ter conseguido que algtrrs rhrs rnt.u',
colllo sc lilssc rrrrr irrvcsligirtlor quasc divino ("bour- leitores e leitoras reconhecessem as suas cxlx.r r(.n( rir,,.
tlivirro". c()nl() tlizcrrr llurrns) clLrc aspira ao saber abso- as suas diÍiculdades. as suas interrogaçt)cs. ()s \(.u,i
Irrto, rrurs lllrr';r lirzcr o rttclltor quc posso um trabalho sofrimentos, etc., nos meus e que desta irlcnlrlit':rç'rlo
r:.xlrcrrurnrcrrtc tliÍicil rprc consisto cm organizar o retor- realista, que é completamente distinta de urnu l)r()l(.r'\'il(l
no tlo rcc,ulcarlo c dizcr diantc dc todos o clue ninguém exaltada, todos retirassem meios para fazer c vivr..r urrr
prc:Ícntlc sabcr. pouco melhor tanto aquilo que vivem como acltrilo t;rrt.
Mas cscrcvi também, e talvez sobretudo, pensando fazem.
nos nrnis jovens dos meus leitores, que espero que
possam comprovar com esta evocação das condições
históricas em que se realizou o meu trabalho - e que são
sem dúvida muito diferentes, sob vários aspectos, da-
quelas em que se encontram o que senti todas as vezes
que consegui, ainda que minimamente, "assumir o pon-
to de vista do autor", como dizia Flaubert, ou seja,
colocar-me em pensamento no lugar que ele ocupava no
mundo social, fosse escritor ou pintor, trabalhador ou
empregado de escritório. Trata-se da consciência de
apreender uma obra e uma vida no decurso necessário
da sua realizaçáo e estar assim em condições de me
apropriar delas activamente: simpraxia mais do que
simpatia - dirigida à criação e à acção. Na realidade,
acontece que, paradoxalmente, a historicização, embora
crie distância, fornece também os meios para relacionar
c converter um autor embalsamado e aprisionado nas
ítiixas do comentário académico num verdadeiro alter
(,í!o. (tu, melhor, num companheiro na acepção dos
antigos ofícios, que tem problemas ao mesmo tempo
triviais e vitais, como todos nós (onde publicar um
rrurrruscrito, como convencer um editor, etc.). Nunca

il8 ll9
Naquele que viria a ser o seu último curso
no Colégio de França, Pierre Bourdieu
tomou-se a si mesmo como objecto,
numa reflexão sobre o seu percurso
de vida e o seu posicionamento face
à filosofia e a vários autores franceses.
Num registo singularmente intimista,
o autor percorre todo um trajecto,
elucidando-nos das razões e motivos de
algumas das suas escolhas: académicas,
sociais e políticas.

Figura insigne da
sociologia francesa
contem porâ nea,
PIIRR[ BOURDIIU
Íoi um dos mais
importantes teóricos
da epistemologia
das ciências humanas.

23

T ilr:ítiil*:

vvrYvve , v