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Universidade de São Paulo

2019

FICHAMENTO

Aluna: Giulia Louise de Melo Nº USP: 11285340


Curso: Ciências Sociais Disciplina: Ciência Política Professor: André Singer e Cícero
Araujo

Texto: WEBER, Max – A Política Como Vocação, 1919.

Págs. 55 - 74

• PARTE I – Proposição e significação de conceitos fundamentais


(§ 1-6)

a) Weber esclarece seu objetivo (§ 1):

O autor inicia o texto direcionando a expectativa dos leitores no sentido


de discutir o que é a vocação política e os direcionamentos que ela
incorpora, excluindo de sua análise problemas hodiernos e sugestões de
que políticas devem ser aplicadas a eles.

b) O autor expõe as definições de política e Estado imprescindíveis


para sua argumentação (§ 2-4):

b1) Weber prefere não adotar um conceito excessivamente abrangente e


se limita a compreender política como “a direção do agrupamento político
hoje denominado Estado ou a influência que se exerce em tal sentido”
(pág. 55).

b2) Para o autor, a concepção de Estado não pode ser determinada por
seus fins, uma vez que praticamente não existem funções das quais
agrupamentos políticos nunca tenham se apropriado. Isto posto, Weber
afirma que, sociologicamente, o Estado (e os agrupamentos políticos no
geral) deve ser definido por seu meio que lhe é característico e particular:
o uso da coação física.

O sociólogo constata que se a violência física está ausente na estrutura


social, o conceito de Estado se extingue. Ainda que a violência não seja
o mecanismo exclusivo do Estado, ela é seu instrumento específico. Os
agrupamentos políticos, para Weber, têm (em qualquer período histórico)
a coação física como instrumento natural de poder. Sendo assim, em
nosso contexto histórico, o Estado contemporâneo deve ser
compreendido como um agrupamento político humano que delimita um
território (a percepção de finitude do espaço de autoridade é de suma
importância) no qual reivindicará o “monopólio do uso legítimo da
violência física”.

b3) Após a elucidação do conceito de Estado, Weber retoma a definição


de política, sendo essa concebida como empreitadas com a intenção de
participar ou influenciar o poder e sua divisão intra-estatal ou interestatal.

c) Weber indica as intenções dos que se dedicam à política (§ 5):

Neste parágrafo, o autor se atenta para o caráter das decisões tomadas


pelos funcionários do poder, acentuando que “todo homem, que se
entrega à política, aspira o poder” (pág. 57), podendo ter como
justificativa o uso de tal poder para alcançar outros fins (ideológicos ou
individuais) ou para desfrutar do prestígio que ele proporciona.

• PARTE II – A legitimidade como conceito primordial para


existência do Estado (§ 6-11)

a) Weber salienta a centralidade da relação entre dominadores e


dominados para existência do Estado (§ 6):

O autor sublinha o Estado como agente de dominação do homem sobre


o homem, cujo alicerce é a violência considerada legítima. Tendo isso em
vista, o Estado só pode perdurar caso os homens dominados se
subjuguem à autoridade incessantemente reivindicada por aqueles que
os dominam. Uma vez que o poder só pode ser exercido caso seja
considerado legítimo pelos dominados, devem existir fundamentos da
legitimidade para que esses aceitem a dominação.

b) Os três fundamentos da legitimidade (§ 7):

b1) Weber denomina o primeiro fundamento como “poder tradicional”. Tal


fundamento diz respeito à autoridade que se impõe pelo passado, pelo
costume e pelo hábito que está arraigado no indivíduo. Um exemplo
desse tipo de fundamentação dominativa seria a exercida pelo senhor de
terras e pelo patriarca.

b2) O segundo fundamento descrito pelo autor é titulado como “poder


carismático”. Essa forma de fundamentação tem suas bases firmadas
nos dons pessoais e admiráveis de um líder que gera devoção e ganha
a confiança dos por ele dominados. Exemplos da manifestação desse
fundamento são o poder exercido pelo profeta, pelo dirigente de um
partido político, por um demagogo ou por uma autoridade escolhida
através do voto popular.
b3) O último fundamento pode ser nomeado como “poder racional-legal”.
Esse se sustenta na legalidade de sua autoridade, definida pela
confiança em um “estatuto legal” racionalmente estabelecido. Exemplo
dessa fundamentação são os atuais servidores do Estado.

c) O autor acentua a multiplicidade dos fatores que levam os


dominados à obediência (§ 8-9):

Weber aponta a complexidade do processo de legitimação da


autoridade, destacando que a obediência dos dominados está
embasada em razões diversas e coercitivas (sejam elas derivadas do
medo ou da esperança). Ainda assim, ao questionar-se os
fundamentos que legitimam a obediência dos dominados, encontra-se
sempre, de alguma forma, ao menos um desses três tipos indicados.
O autor ainda esclarece que na realidade concreta infrequentemente
encontramos esses tipos puros e que existem autoridades legitimadas
na interseção entre tais fundamentos.

d) Weber focaliza o “poder carismático”, identificando nele a fonte


dos chamados políticos por vocação (§ 10-11):

d1) Neste fragmento, o sociólogo estabelece o poder carismático como


a fonte das características que apontam para a vocação política.
Weber afirma que quando as pessoas se submetem à uma autoridade,
não por costume ou por imposição da lei, é indicação que se deposita
fé nela. Para o autor, estes indivíduos que conquistam sua autoridade
através do carisma podem ser vistos como intrinsicamente cotados
para o papel de liderança, ou seja, políticos por vocação.

d2) Em seguida, Weber distingue duas típicas figuras carismáticas que


surgem historicamente: de um lado o mágico e o profeta, de outro os
chefes de guerra e de grupo. Uma figura particular do Ocidente é a do
“livre demagogo” que aparece primeiramente nas pólis e se apresenta
atualmente (nos Estados constitucionais) como os chefes de partidos
parlamentares.

d3) O autor complementa que esse tipo de indivíduo que é político por
vocação não representa a única figura decisiva no processo de luta
pelo poder, sendo determinante a essência dos meios que os “homens
políticos” portam para afirmar sua autoridade.
• PARTE III – O estado-maior administrativo e os meios
materiais de gestão (§ 12-17)

a) Weber fixa dois fatores primordiais para que uma organização de


dominação política possa existir (§ 12-14):

a1) O primeiro elemento fundamental para a constituição de uma


gestão organizada de dominação é o estado-maior administrativo. Tal
fator diz respeito aos recursos humanos necessários para o
funcionamento do Estado. O estado-maior administrativo não se submete
à obediência somente pelos fundamentos da legitimidade supracitados. A
submissão ao detentor de poder tem duas bases elementares: retribuição
material e prestígio social. Segundo o autor, o receio de perder tais
privilégios é fundamental para a cooperação do estado-maior com os
detentores de poder.

a2) O segundo elemento que torna a administração organizada possível


são os materiais de gestão. Analisando esse aspecto, Weber categoriza
as administrações em dois tipos:

a2.1) Administrações nas quais os indivíduos que compõem o estado-


maior são, eles mesmos, os donos dos instrumentos de gestão (recursos
financeiros, aparato de guerra, cavalos etc.)

a2.2) Administrações nas quais os membros o estado-maior são


expropriados dos meios de gestão. O autor compara esse caso com o
sistema capitalista que, por sua vez, expropria o proletariado dos meios
de produção.

b) O autor discorre sobre a ambição do soberano de unificar os


meios de gestão sob seu controle e atualiza a definição de Estado
(§ 15-17):

b1) Weber denomina “agrupamento organizado segundo o princípio das


ordens” os agrupamentos políticos cujo estado-maior administrativo é
dono dos meios materiais de administração. O sociólogo cita como
exemplo desse tipo de agrupamento a sociedade feudal, na qual o
vassalo arcava com os custos administrativos (inclusive em caso de
guerras). Desse modo, o poder era instituído unicamente no juramento
de fidelidade e legitimidade da posse do feudo derivada do suserano. Em
contrapartida, nos casos em que os custos dos meios de administração
são bancados exclusivamente pelo chefe detentor do poder, cria-se um
contingente dependente unicamente de sua autoridade pessoal.

Em agrupamentos organizados segundo o princípio da ordem, o chefe


somente consegue governar se possuir o apoio de uma aristocracia
independente que governa com ele, exercendo importante influência. Por
outro lado, quando as despesas dos meios materiais de administração
são pagas pelo próprio detentor do poder, esse procura apoio nas
classes sociais mais baixas e diretamente dependentes dele. Nesse
caso, as classes mais modestas não possuem nenhum outro poder no
qual se apoiar que contraponha o chefe soberano. De acordo com o
autor, o poder patriarcal, patrimonial e o Estado burocrático pertencem a
essa ordem.

b2) Para Weber, o Estado moderno possui como característica


percursora o desejo do soberano de expropriar os donos dos meios de
gestão, recursos financeiros, instrumentos militares ou de quaisquer
outros bens que sejam capazes de dar-lhes algum tipo de poder que
rivalize com o do chefe. O autor associa esse processo ao avanço da
empresa capitalista que, progressivamente, domina o produtor
independente.

Weber ainda constata que o Estado moderno tende a unir sob um único
comando (o do chefe soberano) a somatória de todos os meios políticos
de gestão. Assim sendo, o autor consuma que o Estado moderno priva
os trabalhadores burocráticos dos meios de gestão.

b3) O autor atualiza a definição de Estado feita previamente, adicionando


o conceito de expropriação dos meios materiais de gestão desenvolvido
acima. Assim, Weber remodela o conceito de Estado, concebendo-o
como um agrupamento político que, com sucesso, monopoliza o uso da
coação física legitimada e agrega os meios materiais de gestão sob o
domínio exclusivo dos dirigentes dentro dos limites de um determinado
território.

• PARTE IV – Os políticos profissionais e os modos de fazer


política (§ 18-22)

a) Weber analisa os “homens políticos profissionais” (§ 18-19):

O autor inicia este bloco abordando o surgimento dos “políticos


profissionais” e a relação desses com o processo de expropriação política.
Para Weber, tais indivíduos são aqueles que fazem da atividade política
seu meio de subsistência e acham nela a essência moral de suas vidas.
Esses foram, no passado, os principais instrumentos do soberano no
processo de expropriação política.

Weber exemplifica os tipos possíveis de dedicação política, sendo eles


dedicação de maneira ocasional, como profissão secundária ou como
profissão principal. No antigo regime, era comum que aqueles que eram
proprietários dos meios dos meios materiais de gestão exercessem
política como profissão secundária apenas para manutenção de seus
privilégios pessoais, sem finalidade econômica de subsistência ou
conteúdo moral. No entanto, assistentes que só se dedicavam a política
de maneira casual não eram suficientes para o soberano, o que fez com
que esse formasse um contingente de pessoas exclusivamente
dedicadas à política, tendo-a como ocupação principal. Assim surgem os
políticos profissionais. O autor complementa que a nova estrutura da
organização política dependerá de que classes sociais forem recrutadas
para preencher tais postos.

b) O autor assinala as duas maneiras de se fazer política (§ 20-22):

b1) De acordo com Weber, viver “para” política é fazer dela a finalidade
de sua vida, seja por desfrutar do poder que ela confere ou por encontrar
significado e depositar valores pessoais nela, defendendo uma causa.

b2) Por outro lado, viver “da” política significa entende-la como uma
permanente fonte de renda.

b3) Weber esclarece que as duas maneiras de se fazer política não são
mutuamente exclusivas e que, comumente, as duas são praticadas
simultaneamente.

b4) O autor afirma que o indivíduo que vive exclusivamente “para” política
deve ser economicamente autônomo dos benefícios que a política pode
lhe oferecer, tendo riquezas individuais que lhe assegurem rendimentos
que supram suas necessidades. Ademais, o homem político deve ser
“disponível”, ou seja, que necessite trabalhar em outra função (investindo
seu tempo) constantemente para obter seus bens. Nem o operário, nem
o homem moderno de negócios, nem os profissionais liberais estão
disponíveis em tal sentido. Dessa forma, recrutar para classe política
indivíduos que vivam exclusivamente “para” política implicaria na
formação de uma plutocracia.

b5)A distinção feita entre esses dois tipos de vivencia política não significa
dizer que a direção plutocrática não almeje obter benefícios do poder com
a finalidade de viver também “da” política. A clivagem feita por Weber tem
a intenção apenas de sublinhar que muitos homens políticos não
necessariamente cogitam o pagamento pelo serviço político, enquanto os
indivíduos das camadas mais pobres devem, obrigatoriamente,
considerar tal aspecto.

Além disso, o autor esclarece que os homens políticos desprovidos de


fortuna não têm sempre as vantagens econômicas como objetivo
principal. Segundo Weber, o idealismo político incorruptível é de domínio
quase exclusivo dos indivíduos que, devido a pobreza, estão exclusos das
camadas sociais interessadas em perpetuar a ordem econômica
existente. Sendo assim, salienta-se que a formação institucional de uma
classe política de critérios não plutocráticos necessita de uma
organização que propicie meios de subsistência e remuneração regular.

b6)Weber ainda se atenta à importância da distribuição de cargos para a


ordem política existente. O autor afirma que as lutas partidárias não são
apenas pela concretização de metas objetivas, mas também, para
comandar a distribuição de empregos e que os partidos costumam
lamentar muito mais derrotas que dizem respeito ao direito de distribuição
de cargos do que derrotas relativas ao desvio de seus programas. Dessa
forma, o aumento do número de postos administrativos (resultante da
burocratização) se transformou em um meio de se garantir segurança
para os indivíduos que, por sua vez, utilizam-se dos partidos como ponte
para obter tal garantia.

• PARTE V – O indispensável contingente de trabalhadores


intelectuais especializados (§ 23-28)

a) Weber indica a necessidade de se possuir funcionários


especializados e expõe o conflito de interesses entre três forças:
funcionários especializados, soberano e parlamento (§ 23-26):

a1) O autor constata que, hodiernamente, a função pública necessita de


um corpo de trabalhadores intelectuais extremamente qualificados para
exercer os ofícios públicos, cujos princípios incluem o sentimento de
honra corporativa. Para Weber, tal sentimento é imprescindível para que
não sejamos ameaçados pela corrupção generalizada. Somado a isso, o
aparato técnico estatal (de extrema relevância econômica) estaria em
risco se não fosse por esse sentimento.

Weber ainda esboça exemplos da ascensão dos “funcionários de carreira”


(trabalhadores especializados de todo tipo). O sociólogo afirma que,
simultaneamente ao fortalecimento da autoridade absoluta do príncipe
(em relação às ordens), deu-se a renúncia de certos aspectos da gestão
em favor dos funcionários especializados pois foram esses, com suas
habilidades profissionais, que auxiliaram o soberano a alcançar e manter
tal status.

a2)Concomitantemente à ascensão dos funcionários especializados,


formaram-se os “Conselhos”. Esses órgãos eram unidos sob a
presidência pessoal do soberano, sendo ele, supostamente, o único a
tomar decisões. Tal sistema principiou os conceitos de propostas e
contrapropostas, voto segundo o princípio da maioria etc. Segundo
Weber, o príncipe se colocava como um diletante e pensava poder
dispensar a necessidade de funcionários qualificados, concentrando todo
poder em si. Há, dessa forma, uma luta entre os funcionários
especializados e a autocracia do soberano.

a3) A transformação da conjuntura supracitada acontece quando surgem


os parlamentos. Nesse momento, os interesses do príncipe se alinham
com os dos funcionários, contra as ambições do Parlamento. O monarca
designava os cargos ministeriais para pessoas fiéis a ele. Por sua vez, os
funcionários especializados tinham a aspiração de ascender à cargos do
executivo que poderiam ser concedidos pelo monarca. Ambos tinham o
interesse de manter a unidade de direção política e barrar o desejo do
Parlamento de ascender ao poder.

Porém, afim de burlar tal impedimento, o Parlamento se unificou sob um


líder único, tornando-se espécie de comissão que se sustentava apenas
em seu próprio poder. Esse líder era escolhido pelo partido que detinha,
na ocasião, maioria no Parlamento. Isto posto, os colegiados deixaram de
ser de domínio do poder hegemônico, passando tal domínio aos partidos.
As exceções existentes dizem respeito aos Estados Unidos e às
democracias sugestionadas por eles, onde o representante do partido
político eleito por voto popular é colocado à frente de funcionários por ele
nomeados, necessitando do Parlamento unicamente para legislar e
aprovar orçamentos.

b) O autor distingue duas categorias de funcionários e faz um


paralelo entre o funcionamento da estrutura política e uma
empresa privada (§ 27-28):

b1) A primeira categoria de funcionários exposta por Weber é a dos


funcionários políticos. Esses podem ser caracterizados por poderem ser
deslocados à vontade. São aqueles que na Inglaterra, por exemplo,
abandonam seus cargos quando há uma mudança de maioria
parlamentar e são substituídos.

b2) A segunda categoria é relativa aos funcionários de carreira


(magistrados). Esses são “inamovíveis” e representam a constelação
política instaurada no poder dominante.

b3) Weber termina o bloco traçando um paralelo entre a política e o


funcionamento de uma empresa privada. De acordo com o autor, em uma
empresa privada, a assembleia de acionistas (análoga ao soberano) não
possui influência sob a gestão dos negócios, assim como um povo guiado
por funcionários especializados. Dessa forma, não é de se surpreender,
para Weber, que o Estado enxergue os funcionários especializados
apenas como executivos e entregue a direção administrativa para
diletantes.