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1ª edição neste formato


Versão 1.1
2013

Coordenação Editorial: Marcos De Benedicto


Editoração: Vinícius Mendes e Marcos De Benedicto
Revisão: Adriana Seratto
Design Developer: Fábio Fernandes
Capa e Projeto Gráfico: Enio Scheffel
Imagens da Capa: © Andrey Ivanov, Samarttiw | Fotolia

Os textos bíblicos citados neste livro são da versão Almeida Revista e Atualizada, salvo outra
indicação.

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio,
sem prévia autorização escrita do autor e da Editora.
14285/28727
Aceitar tudo é um esforço, entender tudo é uma tensão.
G. K. Chesterton 1

Todo cristão concordaria que a palavra “conversão” evoca o início de sua


real experiência com Deus. Afinal, tornou-se comum ouvir o cristão afirmar
que a conversão foi uma experiência de transformação. Ou, fazendo alusão ao
significado da palavra no texto grego original, uma completa “mudança de
rumo”.
Para mim, a conversão também significou mudança. Abriu caminho para
um período em que, aparentemente, eu tinha encontrado a trilha definitiva
para a alegria e o contentamento na vida espiritual. O propósito de Deus
parecia estar se cumprindo satisfatoriamente em mim.
Algumas coisas ainda me impressionam quando penso nas mudanças que
minha conversão produziu. Por exemplo: apesar de minha mãe ter me levado
para a igreja desde pequeno, eu detestava ouvir sermões ou participar de
estudos bíblicos. Era como enfrentar um pequeno suplício. Só de saber que
ficaria quase duas horas “preso” dentro da igreja, obrigado a assistir ao culto
e tudo o mais, já era o suficiente para detonar uma dor de barriga. Porém,
depois da conversão, fazia uso do púlpito da igreja desembaraçadamente,
pregando para um auditório de quinhentas pessoas. Nos bastidores,
coordenava estudos bíblicos para jovens da minha idade. Passava mais tempo
na igreja do que em casa. A conversão realmente mudou as coisas.
Todavia, o que experimentei naquele tempo não permaneceu durante os
anos seguintes. Como uma estação de chuvas que vai chegando ao fim,
minha espiritualidade deixou de demonstrar o frescor de antes.
No começo, eu achava que era apenas fraqueza espiritual passageira,
possivelmente provocada pela ausência de oração. Procurava cumprir
fielmente meus votos a Deus. Entretanto, definitivamente, alguma coisa havia
se perdido. Ouvi então um pregador dizer que a conversão colocava o cristão
na experiência conhecida como “primeiro amor”. Contudo, ele também
afirmou que esse período não durava para sempre. Minha cabeça ficou
confusa. O primeiro amor tinha passado para mim? O que viria depois?
Desde então, encontro cristãos que me contam – alguns o fazem com
lágrimas – sobre o mesmo sentimento de nostalgia do período imediato à
conversão. Falam da alegria contagiante daqueles dias, do desejo incontido
de falar de Jesus para outras pessoas, da satisfação que sentiam ao participar
de um culto na igreja, da facilidade de enxergar o lado bom nas pessoas;
enfim, da experiência gostosa e palpitante que infelizmente se dissipou.
Muitas dessas pessoas têm algo em comum: o fim do primeiro amor trouxe
consigo um período de crise espiritual. A partir desse ponto, algo como um
novo ciclo teve início. Um ciclo em que as crises vêm e vão.
Lendo sobre o assunto, descobri que o problema não afeta apenas os
cristãos contemporâneos. Ao longo dos últimos dois mil anos, pessoas que
professaram a fé no Salvador como Agostinho, Blaise Pascal, Martinho
Lutero e Madre Teresa também não esconderam as duras lutas no exercício
diário da espiritualidade. Alguns relataram suas dificuldades sem usar meias
palavras. Veja como Juliana de Norwich expressou seu drama:

Ele me mostrou um grande prazer espiritual sentido na alma, e nEle eu


estava repleta de eterna certeza, firmemente sustentada, sem nenhum
terror doloroso. Esse sentimento era tão positivo e espiritual que eu estava
inteiramente em paz, em calma e em repouso, de modo que nada na Terra
poderia me perturbar.
Isso durou pouco tempo. Depois, fui transformada e abandonada à
depressão, cansada da vida e aborrecida comigo mesma, de forma que foi
só a duras penas que preservei a paciência para continuar vivendo. Eu não
tinha nenhum conforto, nenhuma calma exceto a fé, a esperança e a
caridade, e essas eu tinha de fato, embora muito pouco as sentisse. 2

Ao me deparar com experiência semelhante, fui levado inevitavelmente a


certos questionamentos: O que posso esperar da experiência cristã depois que
passa o período do primeiro amor (conversão)? Por que, depois de ir da
dúvida para a fé, voltei para a dúvida? O que devo fazer quando olho para
minha espiritualidade atual e me sinto fracassado?
Foram essas inquietações que me estimularam a escrever este livro.
Inquietações que ainda não se resolveram de todo, devo confessar. No
entanto, quero me adiantar e deixar bem claro que não é meu objetivo
apresentar uma série de respostas supostamente satisfatórias para o problema,
nem demonstrar que a Bíblia tem explicação para tudo. Escrevo como um
exercício, como parte de minha peregrinação espiritual. Uma espécie de
viagem cujo objetivo é tirar o máximo proveito da paisagem – seja ela bela
ou não – e depois contar para os amigos as coisas novas que foram
descobertas.
*****

Tenho usado o púlpito de diversas igrejas para tentar apresentar respostas às


crises espirituais. É difícil dizer se o que prego é realmente aquilo que as
pessoas querem ou necessitam ouvir. O que me deixa incomodado,
entretanto, é a percepção de que as respostas que apresento nem sempre
tornam a experiência de fé das pessoas mais satisfatória. Não é raro visitar
um membro de minha igreja em crise espiritual e perceber que as dúvidas e o
desânimo continuam ali, mesmo depois de ele ter ouvido um sermão sobre a
“Vitória em Cristo” no último culto.
Isso me chateia, mas não tanto quanto no começo de meu ministério
pastoral. Naquela época, não entendia o que acontecia na vida de alguns
cristãos que não demonstravam reação ao estímulo espiritual que, eu
supunha, meus sermões deixavam. Sentia vontade de abordar determinada
pessoa e perguntar: “Ei, qual é o seu problema? Jesus é vida! Jesus é alegria!
Sorria!”
Hoje, por mais doloroso que seja reconhecer, padeço por vezes dos mesmos
sintomas. Há momentos em que Deus parece tão distante, que me sinto
cercado pela incerteza e pela tentação do desânimo. Até imagino o que eu
ouviria se contasse isso para um membro de minha igreja. Seriam as mesmas
palavras de advertência que tantas vezes eu mesmo usei (e às vezes ainda
uso) no púlpito? Ou, quem sabe, uma reprimenda educada de um líder cristão
mais experiente?
Bem, reconhecer que tenho duras lutas na vida cristã não significa que tenha
desistido. Afinal, na vida do cristão, todo dia é dia de aprender e amadurecer.
Os desafios da espiritualidade trazem algo como uma espécie de experiência
necessária. Como afirmou Thomas Merton: “Deus às vezes Se entrega a nós
onde Ele parece mais distante.” 3

*****

A verdade é que a vida cristã é um imenso desafio. Para começar, existe o


problema do pecado. É difícil aceitar que, mesmo quando nos entregamos a
Jesus sem reservas, nossa natureza pecaminosa não desaparece. Sempre tive
dificuldades com aquelas frases repetidas à exaustão por alguns cristãos: “O
pecado não reinará em seu coração se Jesus estiver lá!” Ou então: “Você
necessita orar mais para vencer o pecado.” Embora tentasse, sentia-me como
que tolhido de alcançar a realidade de tais afirmações. Não demorou muito
para perceber que, quando meu foco principal era o desejo de não pecar, eu
pensava mais no pecado, e mais desanimado eu ficava. Afinal, o pecado
simplesmente não ia embora. E, mesmo quando acontecia, eu continuava
pensando nele, em como reagiria se ele voltasse. A coisa toda se torna uma
estressante e incômoda obsessão. No ponto mais extremo, pode-se chegar a
pequenos atos de loucura, como a notícia que li no jornal de um rapaz
evangélico que não aguentava mais ceder à masturbação e realizou uma
autoemasculação.
De fato, a natureza pecaminosa é um grande fardo. Mas o que realmente é
difícil de aceitar é a dor que surge de onde menos se deveria esperar: da
igreja. É difícil passar uma semana sem encontrar alguém que se sente
decepcionado com a igreja. Não estou me referindo às pessoas que
enfrentaram problemas de relacionamento com outros cristãos, mas sim
àqueles que não encontraram na igreja o consolo ou motivação para enfrentar
as dúvidas e crises espirituais. Não que a igreja seja realmente culpada, mas,
em alguns lugares, o púlpito é usado mais para chamar a atenção dos pecados
dos membros (não estou dizendo que não seja necessário) do que para
enfatizar a graça de Deus. Certa senhora que fui visitar me afirmou que
desistiu de frequentar a igreja porque estava exausta de ouvir os pregadores
dizerem como ela deveria agir, falar, vestir-se, alimentar-se, etc.
Obviamente, estou citando dificuldades que não atingem a totalidade dos
crentes. A experiência com Deus pode ser tão diferente de uma pessoa para
outra que já aprendi a não sugerir generalizações. Contudo, o que a maioria
das pessoas com quem tenho tido contato afirma é que a maior batalha
consiste em manter uma comunhão diária e substancial com Deus. Ele é real
no dia a dia?
O filósofo humanista e escritor de best-sellers Luc Ferry afirmou
recentemente que, apesar do aumento do número de pessoas indo à igreja nos
últimos anos, nenhuma dessas pessoas morreria pelo Deus que professam.
Ele afirmou ainda:
Hoje, no Ocidente, ninguém mais aceita morrer por um deus, um país,
um ideal. Há, sim, religiosos extremistas no Islã. Há gente na Chechênia
ou na Ossétia disposta a morrer pela nação. Mas garanto que não há
cidadãos com tais intenções na Alemanha, na França ou nos Estados
Unidos. [...] Mais do que nunca, vivemos num mundo no qual a religião
não é suficiente para dar ao homem as respostas que ele procura. 4

Pergunto-me se Ferry disse isso como uma provocação aos cristãos, ou se o


problema esbarra na dificuldade cada vez maior dos cristãos contemporâneos
de demonstrar o quanto a fé é essencial e inegociável. Parece que muitos
crentes não conseguem levar adiante uma vida religiosa significativa.
O problema da comunhão com Deus e as demais dificuldades que
mencionei serão abordados com mais profundidade na primeira metade do
livro. Apresentarei casos reais de pessoas em crise espiritual com as quais
lidei bem de perto. Talvez o leitor se identifique imediatamente com esses
exemplos. Talvez não. Contudo, eles serão como pequenos pontos de luz que
nos levarão até a trilha da insubstituível graça de Deus. A graça e a esperança
serão os temas da metade final do livro.
Enquanto escrevia, pensando sempre em como ajudar àqueles que
enfrentam crises espirituais, uma frase de C. S. Lewis sempre me voltava à
mente. Ele afirmou:

Em certo sentido, médico nenhum tem a capacidade de curar, e os


próprios médicos seriam os primeiros a admiti-lo. A mágica não está na
medicina, mas no corpo do paciente – na vis madicatrix naturae, a energia
curadora ou autocorretiva da natureza. O que o tratamento faz é estimular
as funções naturais ou remover o que as prejudica. 5

Não tenho a pretensão de curar as crises espirituais de quem quer que seja.
Também não creio que as lucubrações e especulações humanas podem
resolver todos os anseios do coração de uma pessoa. Porém, como cristão,
aceito pela fé que Jesus Cristo é o grande Médico, e que, enfermo pelo
pecado, estou em tratamento. Ao recebê-Lo cada dia no coração, creio que a
tal “mágica” apontada por Lewis acontece: Ele estimula a funções da
natureza espiritual que me concedeu e remove aquelas que causam prejuízo.
*****

Convivendo com cristãos, tenho notado que nada é tão prejudicial à vida
religiosa de alguém do que sentir que a religião não faz efeito. Na vida de
muitos, inicia-se o processo espiritual com grandes certezas e expectativas,
mas, à medida que o tempo passa, a dúvida e a frustração inundam a alma
como uma goteira constante. As promessas bíblicas parecem infundadas, e o
silêncio de Deus torna-se desagradavelmente agudo. Nesse ponto, muitos
desistem completamente; outros perguntam o que se pode fazer a respeito.
“No mundo, passais por aflições”, 6 afirmou Jesus. Não creio que Ele estava
falando apenas das perseguições religiosas contra Seus súditos ao longo dos
séculos, ou da luta de muitos para colocar o pão dentro de casa. Certamente
Se referia também às aflições espirituais. O que se passa no coração nos afeta
mais que qualquer coisa. Se, como cristão, eu não me sinto bem
espiritualmente, de alguma maneira isso vai atingir minhas decisões e
escolhas diárias. Também estou convicto de que apenas quando estou seguro
com Deus é que me sentirei bem comigo mesmo. Enquanto escrevo, oro ao
Pai para que, até o fim do livro, Ele nos ajude a encontrar pontos de apoio
que farão alguma diferença nos dias em que o chão parecer não tão firme. Por
hora, lembre-se disto: “Podemos não sentir hoje a paz e o gozo que sentíamos
ontem; mas devemos pela fé agarrar a mão de Cristo e confiar nEle tão
completamente nas trevas como na luz.” 7

1
G. K. Chesterton, Ortodoxia (São Paulo: Mundo Cristão, 2008), p. 31.
2
James Stuart Bell e Anthony Palmer Dawson, A Biblioteca de C. S. Lewis (São Paulo: Mundo
Cristão, 2006), p. 17.
3
Thomas Merton, Homem Algum É uma Ilha (Campinas: Verus, 2003), p. 126.
4
Luc Ferry, em entrevista a Gabriela Carelli, “A família virou sagrada”, Veja, 22 de outubro de
2008, p. 17.
5
C. S. Lewis, Milagres (São Paulo: Vida, 2006), p. 212.
6
João 16:33.
7
Ellen G White, Santificação (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1988), p. 100.
Não tenho dúvidas quanto a que a religião cristã é, no final das contas,
algo que nos proporciona uma satisfação indizível. Mas ela não começa
pelo conforto; começa pelo desconforto.
C. S. Lewis 1

Quando alguém decide ser batizado em minha igreja, eu sei que vou ter que
visitá-lo. Primeiro, ofereço os parabéns ao novo crente pela decisão ao lado
de Jesus. Depois, falo do significado do batismo e reforço o que já foi
aprendido. Então, na última parte, eu comento sobre o que esperar da vida
cristã e da comunhão com a igreja. Nesse momento, a maioria das pessoas
costuma ter a mesma reação: acenam positivamente com a cabeça e sorriem.
Algumas até dão pequenas contribuições, falando do assunto como se
realmente o compreendessem. E aí está o problema – elas não têm a mínima
ideia do que lhes espera nessa nova jornada espiritual. Houve uma vez que
um senhor chegou a me fazer um pequeno “sermão” sobre como ele ajudaria
a resolver os problemas da igreja. Alguns meses depois, ele já não estava
junto à congregação. Quando o encontrei, sua frase principal foi: “É mais
complicado do que pensei.”
Eu falo com as pessoas sobre seu futuro espiritual porque creio que, de
alguma maneira, isso vai ajudá-las. Contudo, lá no fundo, sei (pela
experiência ao longo de anos) que minhas palavras farão pouca diferença
quando as primeiras dificuldades aparecerem. Concordo com a afirmação de
G. K. Chesterton: “Portanto, toda convicção completa está envolvida numa
espécie de desamparo.” Não demora muito, e algumas dessas pessoas
2

voltam a me procurar, relatando suas frustrações. Fico com o coração aflito.


Mas o que me causa especial desconforto é encontrar nelas uma espécie de
eco de minhas labutas espirituais. E mais: percebo em tais experiências a luta
constante e por vezes ferrenha que a vida cristã parece exigir. E não é nada
fácil lidar com isso.
Constantemente, enquanto estou ouvindo alguém de minha igreja contar
sobre suas batalhas dentro da espiritualidade, busco na memória as cenas de
seu batismo – aquele momento de emoção e alegria em que os olhos brilham
e o coração dispara. Para onde foi o sorriso?
Certa vez, depois de um culto de domingo à noite, uma moça de minha
igreja me procurou para conversar. Os jovens costumam juntar-se em
pequenas rodas de conversa depois das reuniões. Contam anedotas e sorriem
gostosamente. Ela fazia parte do grupo; mas, naquele dia, parecia distante de
todos. Com o olhar fixo no chão, entre lágrimas, ela me disse que estava em
crise espiritual: “Não consigo mais orar e ler a Bíblia. Sinto-me fracassada e
sem forças.” Enquanto ela balbuciava algumas palavras, fiquei pensando em
como responderia à sua inquietação. O que ela necessitava ouvir? Afinal, eu
também tenho momentos de frustração e sei que nem sempre as explicações
teológicas satisfazem um coração angustiado e em descompasso espiritual.
Diante da minha indecisão, ela disse algo que me deixou ainda mais arrasado:
“Eu não sinto mais o que sentia na época em que fui batizada. Gostaria de
voltar a sorrir com o coração, como fazia antes.”
“Às vezes, os cristãos se sentem como Sísifo”, afirmou R. C. Sproul. “O
progresso parece tão lento na vida cristã que parece que estamos andando no
mesmo lugar, girando nossas rodas, dobrando nossos esforços e perdendo
terreno.” A menção de Sproul ao herói da mitologia grega nos força a
3

pensar nos desajustes da vida cristã. Sísifo foi condenado ao inferno eterno
por ter ofendido os deuses. Como castigo, teria de empurrar uma gigantesca
pedra até o cume da montanha. Quando finalmente chegasse ao topo, a pedra
rolava de volta ao ponto de início. Lá se ia o herói descer toda a montanha
para empurrar a pedra de novo. A missão nunca terminava.
Quando a vida espiritual não vai bem, muitas perguntas surgem no
horizonte. Começamos a questionar nossas escolhas e ações. A experiência
da conversão parece uma luz que ficou para trás, não aquecendo mais o
coração. Então, o desânimo pode nos levar a um distanciamento ainda maior,
fazendo-nos ficar tão longe de Deus que, quando nos damos conta, um
pequeno abismo se abriu e parece impossível retornar.
“Meu esplendor já se foi, bem como tudo o que eu esperava do Senhor?”, 4

afirmou o profeta Jeremias em certo momento de sua vida. Quantos cristãos


frustrados não se identificam com suas palavras? Como na história de Sísifo,
parece, às vezes, que nossa experiência com Deus se resume a uma rotina
monótona e desgastante, onde a oração e o estudo da Bíblia convivem com
períodos de aridez espiritual completa. Quando uma pessoa enfrenta uma
crise espiritual e, por fim, resolve desistir, quem teria condições de condená-
la?
*****

Durante o período em que cursava o ensino médio, eu não era um aluno


devidamente, digamos, esforçado (ou deveria dizer motivado?). Trabalhava
durante o dia e estudava à noite. Refiz uma mesma série durante três anos
seguidos no início da década de 1990. Eu iniciava os estudos em fevereiro,
torcendo para que o ano acabasse o mais rápido possível; mas, quando
chegava por volta de agosto ou setembro, eu desistia e não aparecia mais na
escola. Diante dos veementes protestos de meus pais e de minha consciência
pesada, eu procurava me justificar com pensamentos do tipo: “Eu estou muito
mal nas matérias, não vou passar de ano de qualquer jeito!” Ou então: “Posso
viver a vida sem completar os meus estudos!” Eu não contava para ninguém
que, no fundo, não aguentava mais toda aquela coisa sobre equações
matemáticas, tabela periódica e verbos transitivos indiretos. Entretanto,
inexplicavelmente, quando o novo ano letivo iniciava, lá estava eu, de volta à
sala de aula.
Quando recordo aquele período de estudante, vem à mente a minha jornada
espiritual. Muitas vezes, iniciei um novo ciclo de espiritualidade, sentindo-
me feliz e vitorioso, para logo depois acabar desanimado e perplexo. Se, em
algum momento, a espiritualidade do cristão atinge um estágio enjoativo
semelhante ao que sentia naquela época na escola, por que simplesmente não
desistir?
Mas a decisão de desistir ou prosseguir não acontece sem antes sermos
levados a questionar as próprias motivações, como bem expressou Dietrich
Bonhoeffer:

Quem sou eu? Este ou o outro? Sou as duas ao mesmo tempo, hipócrita
diante das demais. E, diante de mim mesmo, um fracote desprezível e
miserável? Ou existe ainda algo dentro de mim, como um exército
derrotado, fugindo desordenado da vitória já alcançada?
Quem sou eu? Minhas perguntas solitárias zombam de mim. 5

Quando a religião parece sem efeito, temos a impressão de que as perguntas


“zombam” de nós. Desistir pode ser o próximo passo. Porém, e se essas
perguntas nos levassem a encontrar o caminho perdido? “Não há prazer
nenhum no comer e beber, se o incômodo da fome e da sede não o
precede”, 6 afirmou Agostinho.
Quando penso nos motivos que me faziam voltar à sala de aula no ensino
médio, o medo de sentir remorso no futuro pesava mais do qualquer outro
fator. Ou seja, eu temia que um dia tivesse de fazer a pergunta: “Por que não
tentei?” Ver meus amigos avançando na vida profissional, ganhando dinheiro
e comprando o que sonhavam, enquanto eu estivesse patinando num emprego
de baixa renda, levou-me a reavaliar minhas prioridades. A vida seria
trabalhosa de qualquer maneira, e eu deveria aproveitar o tempo para me
preparar melhor para enfrentá-la. Eu tinha que voltar para a escola.
Como um cristão em luta, reconheço que os caminhos que levam ao
desânimo espiritual são (aparentemente) bem mais numerosos do que os que
nos conduzem ao contentamento. Quando Deus parece distante, começo a
pensar em como os heróis bíblicos lidavam com esse problema. Alguém com
uma visão mais romântica diria que eles não tinham tempo para distúrbios
espirituais. Mas tenho dificuldade em acreditar que, dentre os servos de Deus
do passado, não tenha havido muitos que sentiram frustrações na experiência
com Jeová. Pergunto-me, por exemplo, que pensamentos inundavam a cabeça
de Moisés depois de uma semana em que Deus não tinha dado sinal de vida,
e o povo o criticava duramente como a causa de seus problemas no deserto?
Como ficava o coração de Davi depois de uma madrugada inteira deitado na
trincheira, junto a seu exército, esperando um sinal do Céu para avançar
contra o inimigo ou fugir dele? E o apóstolo Paulo? Diante da oposição de
seu próprio povo, mais o incômodo de ter duas naturezas lutando pela posse
de sua vida (como ele mesmo confessou aos romanos), como seriam suas
noites de sono?
Minhas sugestões quanto às desventuras espirituais dos personagens
bíblicos não visam, de maneira nenhuma, levar alguém a duvidar da grandeza
desses indivíduos. Meu intento é não deixar passar a oportunidade de sugerir
um problema que – creio eu – atinge os filhos de Deus desde que o pecado
entrou na história humana. O próprio autor de Hebreus, ao celebrar a famosa
galeria dos heróis da fé, afirma que todos eles “da fraqueza tiraram forças”.
7

Não resta dúvida de que ninguém é forte o tempo todo. Qual é o problema de
reconhecer que nem sempre as coisas funcionam direito no relacionamento
com Deus? Como todo cristão maduro sabe, há dias em que a crise espiritual
aparece sem pedir licença. Por outro lado, em alguns casos, a fraqueza pode
estimular o cristão a buscar uma fé que não suspeitava possuir. “Quando sou
fraco, então, é que sou forte”, afirmou o apóstolo Paulo.
8

Quantos cristãos podem afirmar que nunca tiveram dias de desânimo? O


escritor Philip Yancey relata em um de seus livros o que resolveu dizer para
Deus quando enfrentava um tempo de crise espiritual:

Às vezes, te trato como uma substância, um narcótico como o álcool ou


o Valium, quando preciso de uma dose a fim de abrandar a dureza da
realidade ou acabar com ela. Outras vezes, fujo deste mundo caindo num
mundo invisível imaginário; e na maior parte das vezes realmente creio
que ele existe, tão real quanto este mundo de oxigênio, plantas e água.
Mas como fazer o inverso e deixar que a realidade do teu mundo, ou tu,
entre e transforme a mesmice entorpecedora de minha vida diária, do meu
eu diário? [...] Às vezes, transporto-me para teu mundo e te amo. Também
aprendi a conviver bem com este mundo. Mas como posso conciliar os
dois mundos? Esta é minha oração, eu acho: crer na possibilidade de
mudar. Vivendo voltado para mim mesmo, fica difícil divisar a mudança.
Com muita frequência, parece que se trata de comportamento aprendido,
de adaptações ao meio ambiente, como dizem os cientistas. O que devo
fazer para te deixar mudar a minha essência, minha natureza, para que eu
fique mais parecido contigo? Será que isso é mesmo possível? 9

John Donne afirmava que seus acessos de fé chegavam e evaporavam como


uma tremenda febre. A ideia de doença me vem à mente sempre que penso
em meus desvios espirituais. Tal como uma enfermidade crônica, há
momentos em que a melhora é considerável, e há momentos em que a coisa
piora novamente. Nunca existiu um dia em que consegui dizer que estava
completamente são.
Constantemente me pergunto se esse desconforto não é de alguma maneira
providencial. Como pecador, tenho a necessidade diária de me voltar para
Deus. De que maneira eu perceberia isso se não existisse um espinho a me
incomodar? Talvez o poeta Donne experimentasse algo parecido, pois
afirmou que se sentia melhor quando tremia de medo. 10

*****

Nós, os pregadores, costumamos afirmar que Jesus é o único que pode


preencher o vazio do coração humano, fazendo eco a uma famosa frase de
Blaise Pascal. E, de fato, é assim que cremos. Contudo, não aceito facilmente
a ideia de que, quando alguém passa pela experiência da conversão, o vazio
do coração nunca mais volta. Se isso fosse verdade, bastaria a conversão, e
tudo estaria resolvido; o Céu seria aqui. Porém, não encontrei até hoje um
único cristão que me revelasse ser a conversão uma solução para tudo. É
como se a vida neste mundo de pecado sempre encontrasse um pequeno
orifício para o buraco negro. Quando ele começa a aumentar, querendo me
puxar para dentro, é hora de ir a Jesus e clamar por socorro.
Jesus Cristo é o único que pode dar sentido à nossa vida, e eu sei disso
porque experimentei por mim mesmo. Mas a vida cristã não é feita apenas de
êxtase e alegria. Os espinhos existem e por diversas vezes machucam muito.
Quando a crise espiritual chega e a fé torna-se vacilante, tentamos encontrar
uma saída e nem sempre ela aparece na hora e do jeito que esperamos.
Em nenhum momento, no entanto, deveríamos nos esquecer de que o amor
de Deus por nós continua tão forte quanto antes. Não é porque a fé anda mal
das pernas que a misericórdia divina vai nos abandonar. “Eis que Eu estou
convosco todos os dias”, foi a promessa de Jesus.
11

Minha filha de oito anos, a Jéssica, costuma ter momentos de destemor e,


por vezes, irritante independência. É comum eu pedir algo a ela e ouvir em
seguida a pergunta: “Por quê?” Nos dias em que estou meio sem vontade de
dar as devidas explicações, peço que ela confie em mim. Há dias em que isso
surte efeito. Outros não. Fico decepcionado quando ela parece não confiar.
Mas, como sinto um amor imenso por ela, sua desconfiança me faz sentir o
desejo de abraçá-la e dizer que a amo, e que nunca permitiria que algo a
magoasse.
Hoje sei que Deus me trata de maneira semelhante. Se a vida me leva a
certos questionamentos acerca da fé, Deus estará lá esperando para me fazer
compreender o mais importante – Seu amor por mim.
“Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor Se compadece
dos que O temem.” Ellen White confirma: “O coração de Deus ama Seus
12
filhos terrestres com amor mais forte do que a própria morte.” Como você 13

pode perceber, somos filhos queridos do Pai, e nossos tropeços não mudam
essa verdade confortadora.

1
C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples (São Paulo: ABU, 1997), p. 18.
2
G. K. Chesterton, Ortodoxia (São Paulo: Mundo Cristão, 2008), p. 139.
3
R. C. Sproul, Como Viver e Agradar a Deus (São Paulo: Cultura Cristã 1998), p. 16.
4
Lamentações 3:18.
5
Dietrich Bonhoeffer, citado por Calvin Miller, Nas Profundezas de Deus (São Paulo: Vida, 2000),
p. 89.
6
Santo Agostinho, Confissões (São Paulo: Nova Cultural, 2004), p. 207.
7
Hebreus 11:34.
8
2 Coríntios 12:10.
9
Philip Yancey, O Deus (In)visível (São Paulo: Vida, 2001), p. 16.
10
John Donne, Sonetos de Meditação (Rio de Janeiro: Philobiblion, 1985), p. 71.
11
Mateus 28:20.
12
Salmo 103:13.
13
Ellen G. White, Caminho a Cristo (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1996), p. 21.
O grande paradoxo de nosso tempo é que muitos de nós estamos
ocupados e entediados ao mesmo tempo.
Henry Nouwen 1

Enquanto me preparava para escrever este livro, li diversas obras de autores


cristãos, procurando algum relato sobre crentes frustrados com sua
espiritualidade. Quem sabe alguém que descrevesse suas lutas e decepções ao
longo do caminho. No entanto, para minha surpresa, não encontrei muita
coisa. Fiquei me perguntando: Será que estou querendo escrever sobre um
problema que a maioria dos cristãos não possui? Ou será que muitos cristãos
são tentados (estimulados) a esconder suas frustrações debaixo do tapete?
Bem, talvez eu tenha esperado demais; afinal, ninguém gosta de falar de
seus fracassos. Mas os poucos que se aventuraram por esse caminho
deixaram claro que as crises existem sim, e que elas muitas vezes são mais
numerosas do que se gostaria de admitir. O escritor Calvin Miller afirmou:
“Quase todos nós vestimos a fé cristã com um discipulado que não nos
assenta bem no corpo, como um terno barato que nos deixa desconfortáveis
durante a maior parte da vida.”2

No início de minha jornada cristã, ninguém me contou o quanto a luta da fé


poderia ser desafiadora e estimulante. Isso me levou a achar que teria de ser
perfeito como os heróis cristãos do passado. Ficava encantado com as
histórias que Deus realizava por eles e como sempre venciam. Bom, era isso
que eu lia nas rápidas biografias de homens como Francisco de Assis, John
Wesley, David Livingstone, Charles Spurgeon ou Dwight Moody. Pessoas
que hoje achamos extraordinárias e que, de alguma maneira, mudaram o
mundo a seu redor. Contudo, depois de um tempo, eu me achava péssimo,
pois não encontrava eco daquelas vidas em minha própria experiência. Queria
desesperadamente ser como eles, mas a realidade de meu dia a dia deixava
claro quão longe eu estava do suposto ideal. Resultou que eu não sentia mais
tanto prazer em ler sobre a vida de tais “homens santos”.
É claro que os grandes cristãos do passado também tinham suas lutas
espirituais. Mas o que de fato me consolou foi ouvir relatos de amigos que
contavam as próprias frustrações. Ao ouvir uma dessas histórias da vida
contemporânea, eu ia dormir sentindo a cabeça atordoada. Ao mesmo tempo
em que sentia tristeza pela pessoa, minha mente parecia dizer: “Olha só, você
não é o único que luta contra as crises espirituais.” Então, por mais estranho
que pareça, eu dormia melhor.
*****

Agostinho costumava pedir a Deus que examinasse suas fraquezas com


olhar de compaixão. Encontro-me constantemente pedindo a mesma coisa.
Durante alguns anos, acreditei que tinha de me aperfeiçoar, de me tornar
melhor. Depois de muito correr sem sair do lugar, percebi que sou um rebelde
que precisa desesperadamente de redenção. Quando as coisas não vão bem,
minha real necessidade é me entregar novamente a Cristo e dEle receber
perdão e poder.
Na verdade, a luta maior reside exatamente em render-se, submeter-se.
Nossa natureza não é voltada para essas coisas. Quando sinto necessidade de
Deus, torna-se difícil não notar como sou egoísta e orgulhoso. É como se, ao
me aproximar da luz, a mancha do pecado se revelasse em sua totalidade.
Isso, muitas vezes, leva-me a Jesus em busca de purificação. Porém, há
momentos em que simplesmente deixo a situação como está, e o dia seguinte
será um incômodo maior do que o anterior. Saber o caminho certo e não
andar por ele é um drama da natureza humana.
“O caminho dos seguidores é apertado”, afirmou Bonhoeffer. “Facilmente
fica despercebido, é fácil não atinar com ele; facilmente o perdemos mesmo
já estando nele. É difícil encontrá-lo.” Demorou um tempo, depois de minha
3

conversão, para que eu aceitasse que a vida da fé pode vicejar num dia e
esmorecer no outro. Embora vivesse o problema, na minha mente eu não
podia crer que o cristão enfrentasse o tédio e a frustração. Era como se o
simples pensamento sobre o assunto fosse pecado. Então, de forma insistente,
uma pergunta martelou minha cabeça durante meses: Esses sentimentos são
normais na vida do cristão?
*****

Houve um momento, depois de minha conversão, que criei uma imagem em


minha mente de como deveria ser o cristão perfeito. O cristão ideal, eu
pensava, sorria o tempo todo, não cedia às tentações, conhecia a Bíblia muito
bem e sempre influenciava alguém para o evangelho. O problema é que,
quanto mais eu imaginava ser o cristão ideal, mais eu ficava frustrado. O
cristão perfeito de minha cabeça sempre era melhor do que eu. A princípio,
eu dizia para mim mesmo que o problema era minha falta de experiência nas
coisas com Deus. Como o tempo foi passando e não atingi o estado de
perfeição, eu me perguntava: O que está faltando? Sem respostas, fiquei com
raiva do supercristão de minha mente. Foi uma crise espiritual profunda para
mim. O que mais me intriga quando me lembro disso é que em nenhum
momento orei contando o problema para Deus.
A esta altura, alguém poderia dizer que eu não passo de um esquizofrênico
espiritual. Porém, veja o que aconteceu algumas semanas depois: estudando
com mais cuidado a Bíblia (falaremos do fator “Bíblia” mais adiante), percebi
que não tinha de ser um supercristão. Deus não espera de mim uma perfeição
que como pecador nunca poderei alcançar. Ele não me pede para voar a uma
altura que não posso atingir. Isso me tranquilizou bastante, e a crise espiritual
que me perseguia há tanto tempo se desfez.
Brennan Manning afirmou: “Transpiramos debaixo de diversos exercícios
espirituais como se eles fossem concedidos para produzir um Mister
Universo cristão.” Bem, por vezes, eu me sentia exatamente assim: um
4

atleta da fé que tinha de criar músculos maiores do que o normal. Trabalhei


duro para chegar lá, e a única coisa que ganhei foi uma dolorosa lesão.
Conheço alguns cristãos que lutam com sua espiritualidade, esforçando-se
para alcançar um padrão inalcançável. Não sei bem de onde vem essa
tendência de achar que temos que ser mais do que podemos. Mas uma coisa
eu sei: não vem da Bíblia. Cada vez que termino de lê-la, tenho a nítida
impressão de que Deus nos trata da única maneira que realmente vai fazer
diferença: não como um espectador ou torcedor que deseja que cheguemos à
linha final a qualquer custo; mas como um amigo que corre conosco, gritando
palavras de estímulo e jogando um copo de água quando estamos com sede.
“Corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta”, apela o
5

autor de Hebreus. Chegar ao fim da corrida espiritual é o sonho de qualquer


cristão. Mas por que muitos param de correr? O que esperar quando somos
tentados a desistir? Henry Nouwen coloca a questão da seguinte maneira:

Ao crer que nossas lutas e dores se conectam com homens e mulheres,


nossos semelhantes, nos incluindo, assim, na luta humana comum por um
futuro melhor, estamos prontos a aceitar uma situação difícil. Mas quando
nos vemos como passivos espectadores, sem contribuições a dar à história
da vida, nossas dores não são mais dores crescentes e nossas lutas não
mais oferecem nova vida, porque passamos a ter a sensação de que nossas
vidas se extinguiram atrás de nós e não nos levarão a lugar algum.
6

Sinceramente, ser um mero espectador é muito mais fácil do que suar a


camisa correndo. Quando assisto à famosa corrida paulistana de São Silvestre
pela televisão, parece-me fácil afirmar que um corredor na parte detrás do
pelotão está fazendo pouco esforço. Não sou eu que estou lá. Não são meus
músculos que estão queimando. Não é o meu pé que está inchado. Sendo
apenas um torcedor, nunca vou entender corretamente por que todo o
empenho do atleta vale a pena, assim como não vou experimentar a glória da
chegada.
Mas o que acontece quando você está correndo sem vontade de correr?
Estaríamos ocupados e, pior, entediados ao mesmo tempo? Não são poucos
os cristãos que se encaixam em tal descrição. A vida cristã começa venturosa
e, depois de um tempo, as coisas espirituais perdem seu encanto. Podemos
continuar na igreja ou fazendo nossas preces diárias, mas logo notamos que
alguma coisa não vai bem.
*****

Não raro, pessoas me procuram depois de um culto dizendo sobre como


foram à igreja sedentas de ouvir uma palavra de ânimo. Agradecem por terem
recebido o que estavam buscando. Porém, de vez em quando, alguém mais
corajoso afirma que a teoria se apresenta muito distante da prática. Nessas
horas, não sei bem o que responder. Em muitas ocasiões, tenho a impressão
de que minhas explicações não fazem muita diferença.
Tempos atrás, encontrei uma senhora que frequentou uma igreja que eu
havia pastoreado. Algumas vezes, estive em seu lar, orando com ela, o esposo
e a filha. Já tínhamos conversado sobre os espinhos que se apresentam no
caminho do cristão. Naquele dia, ela disse:
– Não estou mais indo à igreja.
– O que aconteceu? – perguntei.
Ela suspirou e disse:
– Bem, não sei exatamente o que lhe dizer, mas acho que cansei.
– Cansou? Como assim?
– Cansei das pessoas da igreja, dos mesmos sermões de sempre, da
monotonia do louvor, enfim, fiquei entediada com tudo.
A franqueza dela me pegou de surpresa. Fiquei pasmo, não tanto pelo
conteúdo de seu comentário, mas pela coragem de expor o que sentia. Então,
após uma longa pausa, perguntei:
– E Jesus? Cansou-se dEle também?
Ela ficou pensativa e depois afirmou:
– Eu amo meu Salvador, mas... as coisas são... tão complicadas.
Suas contundentes palavras, mais a entonação da voz e o olhar distante,
foram suficientes para que eu desconfiasse do problema. Ela era mais uma na
lista de frustrados espirituais. O que eu deveria dizer para ela?
Infelizmente, tenho me deparado com muitas pessoas que, a exemplo
daquela senhora, têm dito: “Cansei!” Os mais conservadores poderiam
afirmar que se trata de um problema de falta de fé. Não tenho essa certeza.
Julgar a fé alheia parece ser uma atitude muito temerosa, ainda que em alguns
casos a fé possa ter realmente se extinguido. O que nenhum cristão maduro
pode deixar de reconhecer, entretanto, é o fato de ser igualmente tentado a
desistir. Quem de nós já não se imaginou, mesmo que por alguns minutos,
abandonando tudo?
Para o crente chegar ao ponto de abandonar a trilha espiritual, é porque algo
inegavelmente se perdeu pelo caminho. Em determinado momento de sua
vida, C. S. Lewis destacou que a alegria tem uma grande característica:
“Qualquer pessoa que a vivenciou vai querer novamente senti-la.” A 7

experiência da conversão, tão marcante na vida de quem a experimenta, nem


sempre se estende pelo tempo que gostaríamos. “Como faço para voltar a ter
a vida que tinha na época que conheci o evangelho?”, alguém me perguntou.
Quando o melhor momento da experiência de vida fica como que
encaixotado em uma pequena gaveta do passado, a saudade pode levar para
longe o frescor da caminhada no presente. Se o cristão passa de um momento
de plenitude e alegria para outro de aridez e fracasso, o que ele faz? Jerônimo
escreveu:

Ninguém é mais feliz do que o cristão, pois a ele está prometido o reino
dos céus; nada é mais desgastante, pois todos os dias ele corre o risco de
perder a vida. Ninguém é mais forte que ele, pois ele triunfa sobre o diabo;
ninguém é mais fraco, pois é derrotado pela carne. [...] O caminho que se
trilha é escorregadio, e a glória do sucesso é menor que a desgraça do
fracasso. 8

Quando visito um cristão que me diz que está pensando em desistir, lembro-
me do relato do apóstolo João, no sexto capítulo de seu evangelho. Ali
encontramos o famoso sermão de Jesus que foi o divisor de águas de Seu
ministério. Antes de pregar aquela mensagem, as pessoas que O seguiam
estavam eufóricas. Jesus tinha realizado muitos milagres, entre eles, a incrível
multiplicação dos pães e peixes, que alimentou uma multidão de mais de 5
mil pessoas. O povo entrou em estado de comoção, crendo que o tão sonhado
dia da libertação havia chegado. Aquele que andou sobre o mar e mandou a
tempestade se acalmar deveria ser coroado o novo rei.
Quando Jesus percebeu que estavam por arrebatá-Lo como novo rei, Ele Se
afastou sem muitas explicações. Foi orar no monte. Estava triste. “Seguia-O
numerosa multidão”, escreveu João no início do capítulo. Por que O
seguiam? “Porque tinham visto os sinais que Ele fazia na cura dos enfermos”
(verso 2). Chega a ser trágico o fato de que os milagres que Jesus realizava,
de alguma maneira, impediam que as pessoas enxergassem Seu caráter e Sua
missão. Eis o motivo que levou Jesus a pregar uma mensagem contundente e
clara, que, infelizmente, doeu aos ouvidos do povo.
Ele disse coisas como “Eu sou o pão da vida”; “Trabalhai, não pela comida
que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna”; “Quem comer a Minha
carne e beber o Meu sangue tem a vida eterna”. Jesus estava deixando claro
que tipo de alimento realmente deixa alguém vivo. Depois que Ele encerrou a
mensagem, o resultado foi relatado com espantosa seriedade por João: “À
vista disso, muitos dos Seus discípulos O abandonaram e já não andavam
com Ele. Então, perguntou Jesus aos doze: Porventura, quereis também vós
outros retirar-vos?”
A resposta de Pedro à pergunta do Mestre foi: “Senhor, para quem
iremos?” Chesterton conseguiu captar a importância do “para quem” sem
9

perder de vista o “onde”. Ele afirmou:

Exatamente como eu procuraria, no deserto, água limpa, ou trabalharia


no polo norte para fazer uma fogueira, assim hei de sondar a vastidão e o
vazio da visão da Terra até descobrir alguma coisa fresca como a água e
reconfortante como o fogo; até descobrir algum lugar na eternidade onde
eu esteja literalmente em casa. E existe apenas um lugar assim a
descobrir. 10

Se a vida espiritual por vezes se revela difícil ou entediante, convém


lembrar que Jesus ainda é o “Pão da vida”. Se o corpo físico necessita de
alimento, de igual modo o corpo espiritual. Possivelmente minhas lutas e
frustrações indiquem que as energias estão se esgotando e que necessito
urgente do alimento. Mesmo quando perco a fome por estar enfermo, tenho
de me submeter à ordem de me alimentar. Apenas dessa maneira sentirei
alguma melhora. Disse Jesus: “Eu Sou o pão vivo que desceu do Céu; se
alguém dele comer, viverá eternamente.” 11

1
Henry Nouwen, Tudo Se Fez Novo (Brasília: Editora Palavra, 2007), p. 33.
2
Calvin Miller, Nas Profundezas de Deus (São Paulo: Vida, 2000), p. 20.
3
Dietrich Bonhoeffer, Discipulado (São Leopoldo: Sinodal, 2004), p. 119.
4
Brennan Manning, O Evangelho Maltrapilho (São Paulo: Mundo Cristão, 2005), p. 17.
5
Hebreus 12:1.
6
Henry Nouwen, Tudo Se Fez Novo (Brasília: Editora Palavra, 2007), p. 37.
7
C. S. Lewis, Surpreendido Pela Alegria (São Paulo: Mundo Cristão, 1998), p. 25.
8
Jerônimo, citado por Philip Yancey, O Deus (In)visível (São Paulo: Vida, 2001), p. 179.
9
João 6:2, 27, 48, 54, 66-68.
10
G. K. Chesterton, Ortodoxia (São Paulo: Mundo Cristão, 2008), p. 252.
11
João 6:51.
Jesus nos ama como somos e não como deveríamos ser, já que nenhum
de nós é como deveria ser.
Brennan Manning 1

“Por que as coisas espirituais são tão complicadas?”, perguntou-me certa


vez um jovem de minha igreja. Tratava-se de alguém que todos admiravam
por sua consagração. Naquele dia, ficou bem claro para mim que não importa
o nível espiritual adquirido por alguém. Todos parecem ter dias ruins.
“Por que as coisas espirituais são tão complicadas?” Hoje, acho mais difícil
responder a essa pergunta do que quando iniciei meu ministério pastoral,
alguns anos atrás. Tento imaginar o que exatamente se passa naquele coração.
Seria uma mágoa contra Deus? Alguma decepção pessoal? Uma questão sem
solução? Uma dúvida teológica? Philip Yancey escreveu que a peregrinação
da fé:

[...] inclui erros de cálculo, grandes emoções e dificuldades, longos


períodos de espera, e uma caminhada cansativa. Por mais que esteja
preparado e se tomem as precauções, nunca se consegue eliminar todos os
riscos. Sempre há momentos de tempestade em que não se consegue
enxergar nada e em que as avalanches ressoam por todo lado. 2

Creio que qualquer pessoa que esteja na estrada cristã há uns bons anos
concordará com Yancey. O problema é que, diante das tempestades, uns
reconhecem suas dificuldades enquanto há aqueles que tentam camuflar o
problema. Eugene H. Peterson foi bastante corajoso quando afirmou:

De fato, viver é uma tarefa muito acima de nossa capacidade. Essa


história de andar em consciente dependência de Deus, em atencioso amor
pelos que nos cercam e em comedida apreciação do mundo que nos
rodeia, por exceder nossas capacidades, é muito complicada. Não somos
aptos o suficiente, não dispomos da energia necessária e tampouco
conseguimos nos concentrar nisso adequadamente. Somos seres apáticos,
desleixados e relapsos. Temos explosões ocasionais de amor, apaixonados
ímpetos de fé passional e impressionantes momentos de defesa corajosa.
Mas, em seguida, logo retornamos à costumeira indolência ou ganância.
Voltamos ao velho padrão, à conhecida conversa fiada que faz os outros
pensarem que somos melhores do que realmente somos. Algumas vezes
enganamos até a nós mesmos acreditando que, na verdade, somos
excelentes pessoas. 3

Para quem enfrenta um momento de frustração espiritual, as palavras de


Peterson podem parecer enfáticas demais, até mesmo duras. Mas,
sinceramente, por que não reconhecer que ele está certo? Agimos por vezes
de forma desconexa, pois nossa natureza é voltada para o erro. “Eu nasci na
iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe”, afirmou Davi. É sempre
4

bom lembrar que Deus não nos culpa por termos nascidos com a natureza
pecaminosa. “O filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai a iniquidade
do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá
sobre ele”, escreveu o profeta Ezequiel. A responsabilidade começa quando
5

entendemos o que é o pecado e como reagimos a ele.


Um dos problemas com o pecado é que ele suga nossas energias e pode nos
levar a um afastamento ainda maior de Deus. Definitivamente, o cristão
dedicado não quer pecar, mas, mesmo assim, peca.
*****

Quando alguém passa pela experiência da conversão, uma das maiores


expectativas gira em torno da vitória contra o pecado. Em geral, o recém-
converso carrega consigo uma convicção de que sua jornada espiritual o
levará a ficar livre dos pecados que o atormentavam antes de aceitar a Cristo.
Qualquer cristão sabe que, ao seguir a Jesus, certos vícios e costumes errantes
são removidos pelo poder de Deus. Mas outros não desaparecem tão
facilmente. “Não tenho dúvida quanto ao perdão”, escreveu Tim Stafford.
“Sei que Deus tirará o pecado e me renovará. Mas me pergunto se algum dia
escaparei da tentação. Quando se trata de encará-la, será que tenho forças
para resistir? Posso me enxergar caindo de novo, de novo e de novo.” 6
Lembro-me de uma historinha infantil sobre um escorpião que desejava
atravessar o rio, mas não sabia nadar. Depois de convencer uma rã a levá-lo
nas costas, acabou por ferroar a pobrezinha. Enquanto ambos afundavam, o
escorpião disse: “Sinto muito, não pude evitar. É a minha natureza.”
*****

Certa vez, depois de um culto, uma moça me entregou um pedaço de papel.


Ao chegar à minha casa, fui verificar o conteúdo:

Ore em favor das minhas decisões, para que sejam de acordo com a
vontade de nosso Deus. O mundo tem me oferecido muitas propostas
tentadoras, que em muitos momentos me envolvem de tal forma que com
minhas forças não consigo me soltar. Às vezes, não me lembro de que
Deus está ali, do meu lado, apenas esperando que eu peça ajuda. Isso me
faz afundar mais ainda em meus problemas. Ser jovem é tão difícil... pelo
menos para mim. Os conceitos distorcidos deste mundo nos confundem,
criam dúvidas na mente onde antes havia certeza. O pecado nos ilude e
acabamos no caminho do mal. Ore por mim para que Deus me dê forças
para buscá-Lo, para conseguir vencer as tentações que me cercam, para
fortalecer meus princípios e convicções. Que Deus ilumine nossos passos!

Quando terminei de ler a carta, lembrei-me de algumas palavras escritas


pelo apóstolo Paulo sobre sua luta contra o pecado:

Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não
faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero,
consinto com a lei que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas
o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha
vida, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não,
porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não
quero, esse faço. Mas se eu faço o que não quero, já não sou em quem o
faz, e sim o pecado que habita em mim.
Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim.
Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas
vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra lei da minha
mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros.
Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? 7
Sempre que me deparo com as confissões aflitas de Paulo, noto nelas a
mesma angústia que eu (ou a moça que me deu a carta) enfrento de tempos
em tempos. Ceder à tentação, depois de saber o quanto o pecado é ofensivo
ao coração de Deus, machuca bastante nossa espiritualidade. Tenho
acompanhado muitas pessoas que, depois de enfrentar diversas crises nessa
questão, abandonam a fé e a igreja. Quando os pecados não vão embora, o
sentimento de fracasso aparece com força duplicada. No caso da moça do
bilhete, soube que se casou e abandonou a igreja.
A Bíblia fala sobre a “nova natureza” dentro de alguém que se entrega a
Deus. Depois de um tempo de vida cristã, muita gente se pergunta se
realmente nasceu de novo, tendo em vista que a natureza pecaminosa
continua lá, nos puxando todo dia para a escuridão. “Ai de ti, torrente de
hábitos humanos!”, escreveu Agostinho. “Quem te resistirá? Até quando hás
de correr, sem te secar?”
8

Não me recordo quando tive minha primeira crise espiritual, depois da


minha conversão. Mas não esqueço o motivo. Estava relacionado às tentações
não resistidas. Muitas vezes, eu começava o dia animado e confiante, mas
terminava frustrado e chateado. “Senhor, já me entreguei a Ti hoje. Por que
não deixo de pecar?”, eu costumava perguntar para Deus. Lutei com o
problema por um bom tempo. Até que me deparei com um texto revelador da
carta aos Romanos: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça.” 9

Durante os dias seguintes, fiquei pensando no que Paulo quis dizer


exatamente. Estudei os demais capítulos de sua epístola para compreender a
questão. Em oração, pedi ao Senhor que me ajudasse. Então, aos poucos,
percebi algo maravilhoso. O que encontrei foi bem descrito por C. S. Lewis:

Até mesmo o melhor cristão do mundo não age com suas próprias
forças; apenas nutre ou protege uma vida que nunca poderia ter adquirido
com seus próprios esforços. E isso tem consequências práticas. Havendo
vida natural no corpo, essa vida tudo fará para repará-lo. Se ferido, até
certo ponto o corpo vivo se recupera, o que não acontece com um corpo
morto. O corpo vivo não é um corpo que nunca adoece, mas um corpo que
pode, até certo limite, recuperar-se a si mesmo. Do mesmo modo, o cristão
não é alguém que nunca peca, mas alguém capaz de arrepender-se e
reabilitar-se, começando de novo depois de cada queda, porque a vida de
Cristo está em seu interior, refazendo-o sempre, habilitando-o sempre,
habilitando-o a repetir (em certo grau) a espécie de morte voluntária que
Cristo suportou [...]. O cristão atribui à vida de Cristo em seu interior toda
a boa obra que faz. Não pensa que Deus nos amará porque somos bons,
mas que nos fará bons porque nos ama; é como o telhado de uma estufa
que não atrai o sol por ser brilhante, mas que é brilhante porque o sol
brilha nela.10

Para mim, foi incrível encontrar uma parte prática da mensagem da


justificação pela fé que não tinha ainda experimentado. Não importa quantas
vezes eu caia em pecado, Jesus sempre estará com Sua mão estendida para
me levantar. Hoje compreendo que minha vontade de não pecar por vezes me
desviava a atenção do amor sublime de Deus por mim. Hoje também, quando
uma pessoa me procura para pedir orientação espiritual sobre a luta contra o
pecado, faço a seguinte pergunta: “Você ainda crê que Deus o ama?”
Na verdade, é exatamente quando tentamos fazer a vontade de Deus,
guardando a Sua lei, que descobrimos nossa incapacidade de fazê-lo. Essa
incapacidade nos fornece a noção correta de que nunca seremos (por nós
mesmos) perfeitamente bons, mesmo tentando vez após vez. Caso essa noção
me conduza a Jesus em busca de socorro e misericórdia, encontrarei o que
estou necessitando. Todo o meu esforço tem de se concentrar em reconhecer
que não consigo ir adiante sozinho, mas que Cristo faz a obra quando a Ele
me entrego. Ellen White colocou a questão da seguinte maneira:

Cada qual tem uma luta intensa para vencer o pecado no próprio
coração. Às vezes essa obra é muito penosa e desanimadora; pois, ao
vermos os nossos defeitos de caráter, passamos a considerá-los, em vez de
olhar para Jesus e revestir-nos das vestes de Sua justiça. Todo aquele que
entrar na cidade de Deus pelas portas de pérola o fará como vencedor, e
sua maior conquista terá sido a do próprio “eu”. 11

Não é incomum encontrar pessoas que, apesar de sua entrega diária a Deus,
acalentam ideias errôneas acerca de como Deus trata o pecador. Quantas
vezes somos levados a pensar que nossas iniquidades fazem Deus franzir a
testa para nós, e a preparar imediatamente um castigo que nos faça contorcer
de dor. Isso acontece porque cremos equivocadamente que a espiritualidade
sadia é aquela que deriva de um bom comportamento. Embora seja verdade
que as boas obras revelam o compromisso da fé, a vida espiritual tem sua
base no relacionamento com Cristo. Não são as coisas erradas que fazemos
que nos separam de Deus, mas é a nossa separação de Deus que nos leva a
ceder às tentações.
O drama para alguém que entende essa questão é conseguir a explicação
para a seguinte pergunta: “De onde derivam os pecados enquanto estou em
relacionamento com Cristo?” Encontrei uma possível resposta para isso em
algumas palavras esclarecedoras do apóstolo João: “Todo aquele que é
nascido de Deus não vive na prática do pecado, pois o que permanece é a
divina semente.” Em outras palavras, eu posso cair de vez em quando, mas
12

não deliberadamente e sem limites. Afinal, seria uma imensa utopia querer
não pecar possuindo uma natureza pecaminosa. Além disso, como afirmou
Lewis: “Ninguém sabe o quanto é mau até ter procurado muito ser bom.” 13

O que nenhum cristão deveria esquecer é que tentar ser bom por esforço
próprio termina sempre num beco sem saída. “Poderíeis fazer o bem, estando
acostumados a fazer o mal”, disse o profeta Jeremias, mas isso seria tão
14

impossível como um “leopardo mudar sozinho suas manchas”. Lewis


complementa:

Ora, não podemos neste sentido descobrir que somos incapazes de


guardar a lei de Deus, se não tentarmos cumpri-la com bastante esforço
(sem conseguirmos). A menos que experimentemos, restará sempre, num
canto da mente, a ideia de que, se tentássemos de novo, conseguiríamos
ser perfeitamente bons. Assim, a estrada de volta para Deus é, num certo
sentido, uma estrada de esforço moral, cada vez mais difícil em cada nova
tentativa. Mas, num outro sentido, não é este esforço que nos leva ao
nosso destino. Todo este esforço conduz ao momento vital em que nos
voltamos para Deus e dizemos: “Tu tens de fazer isto. Eu não consigo.” 15

Passado algum tempo, compreendi que, mesmo sendo um cristão dedicado,


volta e meia vou cair no pecado. Nessa hora, faz pouca diferença o fato de eu
ser um suposto gigante espiritual ou um fracote na fé. Não vai importar se
sou uma figura famosa ou um simples anônimo. O caminho para a
restauração é ir a Jesus em busca de perdão e salvação. E, caso tenha que ir a
Ele várias vezes no mesmo dia, assim o farei. Talvez, nesse ponto,
entendamos que a luta não é simplesmente contra o pecado, mas sim contra a
tentação de não buscar a Deus a cada passo do caminho.
Hoje, quando a tentação bate à porta da minha alma para entrar e devastar
minha espiritualidade, sei que Deus não fica esperando para ver se eu cedo ao
pecado, tirando em seguida do bolso um castigo e lançando sobre minha
cabeça. Pelo contrário, penso em Deus Se inclinando para mim com olhar de
compaixão, dizendo: “Filho, Eu estou aqui, fica perto de Mim.” Somente
Jesus pode conduzir-me do pecado para a justiça. Afirmou Ellen White:

A única maneira em que [o pecador] pode alcançar a justiça é pela fé.


Pela fé pode ele apresentar a Deus os méritos de Cristo, e o Senhor lança a
obediência de Seu Filho a crédito do pecador. A justiça de Cristo é aceita
em lugar do fracasso do homem, e Deus recebe, perdoa, justifica a alma
arrependida e crente, trata-a como se fosse justa, e ama-a tal qual ama Seu
Filho. Assim é que a fé é imputada como justiça; e a alma perdoada
avança de graça em graça, de uma luz para a luz maior. 16

*****

Sem dúvida alguma, o pecado nos machuca. Ele é a causa principal de


nossas aflições neste mundo. Podemos passar por dias de desânimo, ou
chorar pelas nossas insuportáveis fraquezas. Mas não devemos permitir que
as sombras da vida nos impeçam de contemplar a misericórdia de Deus.
Muitas vezes, nas horas mais difíceis de nossa batalha, Deus promete colocar
sobre nós “uma coroa em vez de cinzas, óleo de alegria em vez de pranto,
veste de louvor, em vez de espírito de angústia; a fim de que se chamem
carvalhos de justiça, plantados pelo Senhor para a Sua glória”.
17

Pode ser que um dia olhemos para trás e descubramos que nossa vida com
Deus percorreu uma trilha que era a única que podia ser percorrida, e que,
mesmo pisando em pedras e espinhos, enfrentando bolhas nos pés, sentindo
cãibras e dores nas articulações, passando frio ou calor, alcançamos o que
buscávamos porque Alguém caminhou conosco. Alguém que provavelmente
nos carregou no colo quando adormecíamos pelo cansaço. Parece que
Malcolm Muggeridge experimentou algo parecido, pois escreveu:

Ao contrário do que se imagina, eu olho para trás e vejo com especial


satisfação as experiências que, à época, pareciam notadamente
desoladoras e dolorosas. De fato, posso afirmar com total sinceridade que
tudo o que aprendi em meus 75 anos de permanência neste mundo, tudo o
que verdadeiramente fortaleceu e iluminou minha existência, veio por
intermédio da aflição e não da alegria perseguida ou alcançada. Em outras
palavras, se fosse possível eliminar a aflição de nossa vida terrena, seja
por meio de alguma droga seja pela medicina alternativa, o resultado não
seria uma vida melhor, mas sim uma vida insuportavelmente banal e
vulgar. Este, é claro, é o significado da cruz. E foi a cruz, mais do que
qualquer outra coisa, que me levou, de forma inexorável, a Jesus Cristo. 18

“Desde os tempos antigos”, escreveu o profeta Isaías, “ninguém ouviu,


nenhum ouvido percebeu, e olho nenhum viu outro Deus, além de Ti, que
trabalha para aqueles que nEle esperam.” 19

1
Brennan Manning, A Assinatura de Jesus (São Paulo: Mundo Cristão, 2005), p. 145.
2
Philip Yancey, O Deus (In)visível (São Paulo: Vida, 2001), p. 44.
3
Eugene Peterson, Ânimo! (São Paulo: Mundo Cristão, 2008), p. 46.
4
Salmo 51:5.
5
Ezequiel 18:20.
6
Philip Yancey e Tim Stafford, Desventuras da Vida Cristã (São Paulo: Mundo Cristão, 2005), p.
25.
7
Romanos 7:15-24.
8
Santo Agostinho, Confissões (São Paulo: Nova Cultural, 2004), p. 54.
9
Romanos 5:20.
10
C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples (São Paulo: ABU, 1997), p. 35-36.
11
Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2006), v. 9, p.
182, 183.
12
1 João 3:9.
13
C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples (São Paulo: ABU, 1997), p. 81.
14
Jeremias 13:23.
15
C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples (São Paulo: ABU, 1997), p. 84.
16
Ellen G. White, Mensagens Escolhidas (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1985), v. 1, p. 367.
17
Isaías 61:3.
18
Malcolm Muggeridge, citado por Eugene Peterson, Ânimo!, p. 77.
19
Isaías 64:4.
Não consegui chegar a ser coisa alguma, nem sequer mau; nem mau
nem bom, nem canalha nem homem de bem, nem herói nem inseto.
Fiodor Dostoievski 1

A conversão, segundo nos ensinou Jesus, é obra sobrenatural do Espírito


Santo. Traz uma mudança de atitude em relação a Deus. Aquele que fugia
dEle, agora, de maneira inexplicável, se volta para Ele. Inicia-se o desejo de
conhecer melhor a Deus. Descobre-se que a oração e o estudo da Bíblia têm
um grande valor. Enfim, uma experiência totalmente nova e regozijante é o
resultado.
Quanto tempo isso perdura? E o que fazer quando tudo se desmancha numa
realidade de frustração e tédio? Lembro-me do dia em que um grande amigo
me procurou. Éramos muito jovens. Ele queria me contar algo e não sabia
como. Apesar de ter apenas vinte e poucos anos, era um líder da igreja.
Sempre sorridente e brincalhão, nunca poderia esperar aquilo que me revelou.
Ao final de um culto de domingo, ele me puxou num canto e disse
nervosamente:
– Estou desistindo de tudo!
– Como é? – perguntei um tanto desatento.
– Você sabe... da religião. Estou desistindo da religião e da igreja.
– Por quê? O que aconteceu?
– Estou cansado. Parece que sempre que tento viver a vida cristã com
dedicação, tudo se torna mais difícil. Mas, quando me desligo por um tempo,
tudo dá certo, e os problemas vão embora.
O episódio me veio à mente porque ele era um cristão comprometido e
dedicado. Como alguém que experimentara a conversão poderia chegar
àquele ponto? Suas palavras me assustaram porque, na época, eu mesmo era
um recém-convertido, e não imaginava que cristãos convertidos pudessem
enfrentar crises daquele porte. Naquela noite, as palavras de meu amigo
ficaram rodando na minha cabeça enquanto o sono me fugia.
Às vezes, sinto saudades do período pós-conversão. Alguns o chamam de
tempo do “primeiro amor”. Examinando esse período hoje, pergunto a mim
mesmo o que de fato o tornava especial. A resposta vem da doce lembrança
de um saudável êxtase, de uma alegria incontida, de um desejo incontrolado
de falar e cantar de Jesus e de Seu imenso amor.
Também tento entender por que, depois de anos de cristianismo, as pessoas
de repente desistem de continuar seu relacionamento com Deus. De forma
contundente, Brennan Manning descreveu o que acontece na experiência de
muitos de nós:

Mais cedo ou mais tarde somos confrontados com a dolorosa verdade da


nossa inadequação e da nossa insuficiência. Nossa segurança é esmagada e
nossos cadarços, cortados. Uma vez que o fervor passa, a fraqueza e a
infidelidade aparecem. Descobrimos nossa incapacidade de acrescentar
uma polegada que seja à nossa estatura espiritual. Começa então um longo
inverno de descontentamento que, eventualmente, floresce em depressão,
pessimismo e um desespero sutil: sutil porque permanece não
diagnosticado e não percebido, e, portanto, não confrontado. 2

Por vezes, penso nessa “dolorosa verdade da nossa inadequação e


insuficiência”, descrita por Manning. Quando aceitamos viver a religião de
Cristo, trazemos conosco aquela mania de querer atingir um ideal maior do
que somos capazes, seja porque somos perfeccionistas ou simplesmente
porque sonhar alto faz parte de nossa natureza. Entenda, por favor, que não
julgo isso um defeito. Desejar atingir a “estatura de Cristo” é um imperativo
bíblico. O problema todo se manifesta quando nos damos conta de nossas
incapacidades e fracassos. Como lidar com isso? “Ainda estou inclinado a
chicotear o falso eu”, afirmou Manning, “surrá-lo sem misericórdia por ser
autocentrado, ficar abatido, desencorajado, e deliberar que minha pretensa
vida espiritual seja simplesmente autoengano e fantasia.”
Certa vez, fui visitar um jovem que deixara de ir à igreja havia algum
tempo. Vou chamá-lo de Carlos. Era um rapaz alto, esguio, tinha por volta de
25 anos. Conheceu o evangelho quando morava no centro-oeste do país.
Antes de deixar a família para trabalhar no interior de São Paulo, já era
admirado como um bom orador nos cultos de sua igreja.
Naquele dia, eu o encontrei no local onde ele morava e trabalhava: uma bela
fazenda, um antigo haras, que, apesar de desativado, continuava sendo
cuidado por muitos empregados, dos quais Carlos era um deles. Tive sorte,
pois Carlos estava de folga naquele dia.
Quando ele me viu, demonstrou certo nervosismo. Sentamos na pequena
sala de um casebre, junto à entrada da fazenda. Em nenhum momento ele
sorriu. Algo incomum, pois a imagem que sempre me vinha à mente quando
pensava nele era aquela que tantas vezes presenciara: um jovem elegante e
eloquente, sorrindo e brincando com as pessoas que o cercavam depois de
cada culto.
Após conversarmos um pouco sobre a fazenda e o belo riacho que cruzava
o lugar, perguntei como andava sua vida espiritual. Ora olhando para o chão,
ora olhando pela janela, Carlos desconversou, dando-me a impressão de que
desejava que eu não me demorasse na visita. Depois de um período de
silêncio, eu disse:
– Vim aqui para orar por você. Se você estiver enfrentando alguma crise
espiritual e não quiser falar nada, vou entender.
Carlos deu um longo suspiro e fitou a janela. Então falou:
– Eu tenho um pecado em minha vida que não me deixa em paz. Já tentei
vencê-lo de todos os jeitos, mas não consigo. Eu sempre pensei que sendo um
cristão dedicado a Deus eu venceria meus erros.
Carlos tirou os óculos e esfregou os olhos com uma das mãos. Parecia
cansado, mas o que mais me chamou a atenção era o tom de desânimo em sua
voz. Ele continuou:
– Já pedi para Deus me livrar desse pecado muitas vezes. Até jejuei alguns
dias, mas nada mudou. Assim que peco, sinto-me sujo, chego a sentir nojo de
mim mesmo. E o pior vem depois, pois, passado algum tempo, vejo-me
querendo o pecado de novo.
Olhei fixamente para Carlos, enquanto suas palavras saíam pausadamente.
Ele continuava olhando pela janela, claramente envergonhado de ter contado
suas dificuldades para mim.
Identifiquei-me rapidamente com o drama espiritual de Carlos; afinal, eu
também tinha minha batalha espiritual. Fiquei indeciso sobre o que lhe dizer.
Então pensei que não era hora de lhe fazer um “sermão”. Contei-lhe em
rápidas palavras como eu também enfrentava lutas semelhantes e como meu
relacionamento com Jesus me fortalecia. Mas notei que, enquanto eu falava,
Carlos parecia distante. Depois de ler um trecho da Bíblia, orei por ele e fui
embora. No caminho de volta, a imagem de Carlos olhando fixamente pela
janela não me saía da cabeça. Fiquei ansioso para vê-lo na igreja nas semanas
seguintes, mas isso nunca aconteceu. Na verdade, nunca mais o vi. Soube
depois que voltou para a casa dos familiares, localizada em outro estado.
A experiência de Carlos me ensinou que, infelizmente, as frustrações da
caminhada cristã podem resultar num afastamento doloroso e, às vezes, sem
volta. “Por que esperar, se já não tenho forças?”, perguntou Jó certa vez.
3

Muitas pessoas têm me perguntado algo semelhante.


Minha tendência como ser humano é fugir diante da dificuldade, um
mecanismo primário de defesa. Tim Stafford afirma, porém, que o cristão
sincero e fiel não vai conseguir deixar o problema de lado:

Você preferiria deixar de lado o cuidado com o corte. Mas a dor não
permitirá que você o faça.
Sua consciência é feita para responder do mesmo modo ao seu pecado.
Se algo está obviamente errado em sua vida, você tem de lidar com isto.
Sentimentos de culpa o forçam a voltar a atenção para o ponto específico
da ferida, levando-o a largar tudo o mais até que lide com ele.
4

Portanto, quando enfrento uma crise espiritual, seja ela causada pela culpa
ou por qualquer outra coisa, o que tem me mantido nos trilhos é uma espécie
de senso de necessidade, de voltar ao início de tudo. Este retorno ao “marco
zero” da vida cristã significa reencontrar a cruz do Calvário. Então, deparo-
me novamente com o plano da salvação. De joelhos, clamo ao Salvador. Ali
encontro o que tanto necessito: perdão e poder. “Haverá qualquer coisa que
me restitua a esperança, a não ser a vossa conhecida misericórdia, que
principiou a obra da minha conversão?”, perguntou Agostinho.
5

Todavia, antes de chegar de novo ao Calvário, muitas vezes nos desviamos


pelo caminho, e aí está o grande perigo. Tenho notado que alguns cristãos
acabam se distanciando de Deus, pois, diante dos próprios fracassos, acham
que não são capazes de agradá-Lo ou simplesmente pensam que Ele os
abandonou. No fundo, quando alguém chega a esse ponto, é porque perdeu a
confiança em Deus e em si mesmo. Creio que foi isso que aconteceu com
Carlos.
Na verdade, sujeitar tudo à vontade de Deus – inclusive derrotas e
frustrações – constitui o maior desafio da vida cristã. É notório o esforço de
Satanás para que as pessoas creiam que precisam primeiro deixar de pecar
para poder agradar a Deus. Enquanto lutarmos sozinhos contra o pecado e a
culpa, não permitindo que a graça divina nos restaure, nunca alcançaremos a
paz e alegria que nos são prometidas por Cristo.
Quando votos e promessas não são cumpridos, confiamos em nossa própria
sinceridade. Contudo, a Bíblia afirma que Deus conhece muito bem nossas
limitações e que Sua mão poderosa está constantemente estendida para o
pecador. Penso que Calvino estava certo quando afirmou que as limitações
deveriam nos aproximar ainda mais de Deus:

Assim, os nossos sentimentos de ignorância, vaidade, carência, fraqueza,


em suma, depravação e corrupção nos fazem lembrar que no Senhor, e
somente nEle, reside a verdadeira luz de sabedoria, virtude sólida,
bondade exuberante. Nós somos, por consequência, impelidos pelas
nossas próprias maldades a considerar as coisas boas de Deus; e, de fato,
não podemos chegar a Ele de verdade se não começarmos a ficar
insatisfeitos com nós mesmos. 6

Por muito tempo eu me perguntei se poderia agradar a Deus depois de uma


longa lista de pecados cometidos a cada dia. Então percebi que não bastava
aceitar o perdão divino; eu necessitava crer que estava perdoado. A partir daí,
não pensava mais nos meus erros com aquela autocomiseração corrosiva. Se,
depois de meu arrependimento, Deus faz toda a lama do pecado ficar no
fundo do mar – como afirma o profeta Miqueias –, eu não tenho que descer lá
para verificar. Deverei, sim, celebrar a graça divina e continuar a caminhada
de cabeça erguida.
“Não abandoneis, portanto, a vossa confiança; ela tem grande galardão”, 7

instou o autor da epístola aos Hebreus. Ele estava certo. Pode até ser que em
certas ocasiões minha confiança na direção de Deus esteja falhando, como
um interruptor em curto. Porém, não posso abandonar tudo aquilo que foi
construído ao longo de meses ou anos em meu relacionamento com Deus. Há
uma clara diferença entre o fracasso momentâneo e o fracasso total. Posso
falhar em determinadas situações, mas em algum momento, depois de
exercitar minha confiança em Deus, a recompensa virá.
Pense em Pedro, o discípulo que gostava de falar o que lhe vinha à mente.
Mesmo convivendo com Jesus todos os dias, volta e meia ele deixava escapar
aquele seu lado “Pedro” de ser, demonstrando total fraqueza e inadequação.
Em muitas ocasiões, Jesus teve de chamar sua atenção, mesmo em público,
corrigindo seus erros. No momento mais crítico de seu discipulado, quando
sua fé se deparou com a frustração e a desesperança, Pedro chegou a
confessar publicamente que Jesus lhe era um completo desconhecido. O
canto do galo foi o som mais dolorido que seus ouvidos ouviram na vida.
Entretanto, antes de Pedro ter desistido de tudo e voltado para as redes de
pesca, a graça de Cristo lhe foi manifestada de uma maneira surpreendente.
Seu pecado foi perdoado. Então, a fé em Deus retornou com toda a força.
Algumas semanas depois, as pessoas viram um Pedro mais maduro e
confiante, cujas palavras indicavam ter ele estado com Jesus.
De alguma maneira, a experiência de cada cristão se assemelha com a de
Pedro. Quantas vezes teremos de chorar por nossos erros, por termos negado
a Jesus com palavras e atos? Porém, em nenhum momento a misericórdia de
Deus nos abandonará. Agostinho afirmou:

Louvor e glória a Vós, ó fonte de misericórdias! Eu a tornar-me mais


desgraçado, e Vós, cada vez mais pertinho de mim! Sem eu saber, a Vossa
mão direita, que havia de arrancar-me da lama e lavar-me, estava mesmo
junto de mim. [...] Ó caminhos tortuosos! Ai da alma audaciosa que se
afastou de Vós. [...] Só Vós sois o descanso. Só Vós nos assistis e libertais
de erros deploráveis, metendo-nos no Vosso Caminho, consolando-nos e
dizendo: “Correi; Eu guiar-vos-ei, conduzindo-vos até ao fim, e aí vos hei
de manter”. 8

Deus tem uma obra a ser realizada na vida de cada crente. A justificação
acontece instantaneamente, mas a santificação pode levar uma vida toda.
Tropeços e frustrações fazem parte do processo. Nosso caso seria sem
solução se o perdão e a graça de Cristo não existissem. Tendo o Salvador
como Advogado, a esperança nunca morrerá.
1
Fiodor Dostoievski, Notas do Subterrâneo (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006), p. 11.
2
Brennan Manning, O Evangelho Maltrapilho (São Paulo: Mundo Cristão, 2005), p. 17.
3
Jó 6:11.
4
Philip Yancey e Tim Stafford, Desventuras da Vida Cristã (São Paulo: Mundo Cristão, 2005), p.
53.
5
Santo Agostinho, Confissões (São Paulo: Nova Cultural, 2004), p. 298.
6
Citado por James Stuart Bell e Anthony Palmer Dawson, A Biblioteca de C. S. Lewis (São Paulo:
Mundo Cristão, 2006), p. 125.
7
Hebreus 10:35.
8
Confissões, p. 166-167.
Duas são as maneiras pelas quais a máquina humana funciona mal.
Uma é quando uns se afastam dos outros, ou quando colidem entre si,
prejudicando-se mutuamente, ao brigarem ou enganarem-se. A outra é
quando as coisas não vão bem dentro do próprio indivíduo.
C. S. Lewis 1

A igreja que eu frequentava quando criança era enorme. Pelo menos era
assim que ela me parecia. Com três longas fileiras de bancos, um teto a
muitos metros acima das imensas janelas e uma comprida escada exterior
para chegar ao banheiro, era um mundo à parte para mim. Quando ficava
lotada, eu tentava olhar por cima da multidão. Contemplava tantas cabeças
que me perguntava se uma pequena parte dos habitantes da cidade não estaria
ali.
Os dois andares inferiores da igreja possuíam salas que, durante a semana,
serviam de escola para as primeiras séries do ensino fundamental (naquela
época chamava-se 1º grau). Estudei ali durante oito anos; ou seja, não havia
nenhum dia da semana em que eu não estivesse na igreja. Passava mais
tempo lá do que em minha casa.
Desde cedo me ocorreu que a igreja era um lugar singular para gerar
emoções diversas. Num dia de culto, podia ver alguém chorando perto de
mim, enquanto outra pessoa sorria. Mais adiante, um senhor orava ajoelhado,
balbuciando algo em completa concentração. Logo à frente, o cantor fechava
os olhos e levantava as mãos, aparentando grande alegria. No saguão de
entrada, uma diaconisa se enfurecia com alguns meninos correndo pelos
corredores. Um idoso que sentava sempre no último banco aproveitava para
relaxar, às vezes se assustando com o próprio ronco.
Depois de frequentar a igreja por algum tempo, qualquer um percebe que ali
existe um paradoxo curioso. Algumas pessoas encontram na igreja
companheirismo e amor desinteressado, sendo batizadas e gozando de paz em
sua comunhão; outras se deparam com a crítica e a decepção, sentindo-se
pouco estimuladas a voltar. De alguma maneira, a igreja pode remover ou
aprofundar a crise espiritual de uma pessoa.
Para mim, enquanto garoto, havia momentos em que estar na igreja parecia
um passeio no parque. Em outros, o tédio era tanto que eu sonhava em voltar
para o futebol com os amigos. Curiosamente, nunca percebi que muitas
pessoas iniciavam sua comunhão com a igreja e depois desapareciam. Porém,
quando um amigo chegado não apareceu mais, eu me perguntei por qual
razão aquilo havia acontecido.
Somente após o término da faculdade de teologia, criei coragem para
perguntar para algumas pessoas: “Por que você abandonou a igreja?” Desde
então, ouço toda sorte de histórias. Algumas dessas pessoas, depois de oração
e reflexão, retornam à igreja e tentam conviver em paz com os outros. Mas há
aqueles que nunca voltam.
Uma senhora me disse que, em meio a uma crise espiritual, foi diversas
vezes à igreja para encontrar conforto e ânimo. Mas, cada vez que contava
seus problemas para alguém, ouvia frases do tipo:
“Você precisa ter mais fé!”
“Considere a possibilidade de Deus estar irado por algum pecado que você
cometeu.”
“Talvez você precise ser exorcizada!”
Ela logo notou que todo mundo apresentava uma versão para o problema,
mas ninguém de fato a ajudou, visitando-a e orando com ela. Por fim, a
mulher afastou-se da igreja e nunca mais voltou.
Infelizmente, o drama daquela senhora não é um caso isolado. Já presenciei
muitas histórias semelhantes. Fico entristecido e preocupado. São muitas as
pessoas que sinceramente amam a Deus, mas não vão mais à igreja, pois esta
(segundo elas) deixou de satisfazer suas expectativas. Osmar Ludovico
colocou a questão da seguinte maneira:

Há um grande contingente de pessoas feridas por abuso espiritual,


divisões iradas, escândalos e um cansaço crônico diante da mesmice e da
superficialidade de muitas igrejas. São pessoas que querem continuar no
caminho do discipulado cristão, mas sem compromisso com a igreja
local.2

Quando um cristão enfrenta um período de crise espiritual, de que maneira a


igreja deveria reagir?
*****

Dizem que a igreja é como uma família. E isso é verdade. Quando sinto
uma dor de estômago, não consigo sofrer sozinho; preciso compartilhar com
alguém meu problema. Evidentemente, no meu caso, a primeira pessoa que
procuro é a minha esposa. Mas não conto a ela sobre a dor apenas pela
necessidade emocional. Sei que, por me amar, ela me ajudará a encontrar
uma solução.
Inevitavelmente, quando não nos sentimos bem, buscamos apoio daqueles
com quem convivemos. Ninguém espera ser mal recebido em sua própria
família quando dela mais necessita. A igreja, sendo a família de Deus, acaba
gerando grande expectativa naqueles que nela buscam conforto e cura para
alguma dor.
Como o cristianismo só funciona dentro de uma comunidade, a comunhão
com Deus significa também comunhão com os filhos de Deus. Isso faz com
que a existência da igreja seja uma necessidade real e evidente. Mas, por
outro lado, como toda comunidade significa um agrupamento de pessoas, a
possibilidade de desgaste nos relacionamentos é tão real quanto o
amadurecimento de uma fruta no verão. Se alguém grita por socorro dentro
da igreja e não é ouvido, o problema muitas vezes se encontra na
superficialidade da comunhão entre os cristãos, agravado em certa medida
por um medo de enfrentar desentendimentos (ou porque ele já aconteceu).
De fato, o amadurecimento de uma igreja pode ser visto no bálsamo que ela
oferece às pessoas feridas pelo pecado. Quem vai para a igreja certamente
deseja que sua fé seja fortalecida. Todo cuidado deve ser tomado para que tal
pessoa não vá embora sem receber o devido medicamento espiritual. Mas,
apesar do esforço da igreja em ajudar, ela não pode curar alguém em crise
espiritual. A igreja é composta de seres humanos que possuem falhas e
limitações. Isso significa que todos nós estamos, mais ou menos, na mesma
situação. O bálsamo para nossas feridas é Jesus. Antes de esperar que a igreja
realize algo por mim, tenho de ir a Cristo do jeito que me encontro e
reconhecer diante dEle minha impotência. De forma enfática, Thomas
Merton explica a questão:
Este encontro de Cristo jamais é sincero se não for mais que uma fuga
para fora de nós. Muito ao contrário, ele não pode ser uma evasão. Deve
ser uma consumação. Não posso descobrir Deus em mim nem a mim em
Deus, se não tenho a coragem de enfrentar-me exatamente como sou, com
todas as minhas limitações, e de aceitar os outros como são, com todas as
suas limitações. A solução religiosa não é religiosa se não é plenamente
real.
3

Para quem enfrenta uma crise espiritual, é comum a tentação de fazer uma
avaliação superficial da igreja. Ela possui inúmeras limitações, é verdade.
Mas, na maioria das vezes, esperamos receber da igreja mais do que ela
realmente pode nos oferecer.
A visão que um cristão possui da igreja pode mudar de acordo com sua
condição como membro dessa igreja. Quando sou apenas um espectador
dentro da congregação, posso me acostumar a receber os benefícios de um
belo louvor, de uma pregação inspiradora e da visita do pastor em minha
casa. Com o tempo, há o risco de me tornar tão exigente que passo a crer que
cada departamento da igreja existe para me agradar. Qualquer falha por parte
daqueles que têm a missão de cuidar de mim será considerada como
indiferença ou incompetência.
Em contraponto, quando me torno participante e responsável por aquilo que
a igreja oferece às pessoas, noto o quanto isso custa. O esforço de servir aos
outros exige dedicação, paciência e oração. Percebo como pode ser difícil
agradar os demais. Posso ser o alvo das críticas, mesmo dando o melhor de
mim.
Volta e meia, penso no tempo em que era apenas um espectador na igreja.
Minhas opiniões, reivindicações e críticas acerca da igreja ainda estão frescas
em minha memória. Para mim, tudo tinha de funcionar da maneira que
achava ser a correta, até o dia em que passei a liderar a igreja. Então, tudo
mudou. Como disse alguém, deixei de ser pedra para me tornar vidraça.
Hoje, as reclamações e críticas que ouço me fazem relembrar meu tempo de
espectador. Algumas são pertinentes, principalmente quando partem de
cristãos decepcionados ou em crise. Quando sou confrontado com uma dessas
críticas, procuro imediatamente a fonte de tal descontentamento. Vejo-me
então com o desafio de ajudar a curar uma ferida que, embora a igreja possa
ser culpada de abri-la, não será fechada sem que a própria igreja ministre o
remédio em nome de Jesus.
Mesmo assim, a ajuda que a igreja pode oferecer para alguém em crise
espiritual nem sempre acontece como o esperado. Muitas vezes, quando me
achego ali querendo que alguém me socorra, sou pego pelo braço e colocado
ao lado de uma pessoa que está em pior condição do que eu. Então, alguém
me diz: “Ajude-nos a cuidar dele, e depois veremos o seu caso.” Pode parecer
cruel a princípio. Mas, depois de um tempo dedicando-me a socorrer o outro,
descubro que meu ferimento foi temporariamente curado. “É, pois, de
suprema importância consentirmos em viver não para nós, mas para os
outros”, afirma Merton. “Quando praticamos isso, o primeiro efeito é que
seremos capazes de encarar e aceitar nossas próprias limitações.” 4

Aprendi a encarar a igreja não como um lugar aonde vou simplesmente para
encontrar solução para minhas necessidades. Existe algo mais. Em primeiro
lugar, vou à igreja porque necessito adorar o Criador. Deus é digno de minha
adoração e sinto-me bem em um lugar preparado para isso. Em segundo
lugar, quero me sentir útil, ministrando para que outros também adorem com
verdadeira paixão. No fim das contas, toda crise espiritual tem a ver com
adoração interrompida. A igreja (com suas contundentes limitações) trabalha
para que nos liguemos novamente a Deus.
Enfim, parece-me impossível encarar qualquer crise de fé sem o suporte do
corpo de Cristo. Como parte desse corpo, dependo da atuação da Cabeça e do
restante dos membros. Somente assim terei esperança de alcançar uma
melhora significativa.
Sendo membro do corpo, necessito mais dar do que receber. Trata-se de um
imperativo do cristianismo. E essa verdade nunca mudará.

1
C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples (São Paulo: ABU, 1997), p. 39.
2
Osmar Ludovico, Meditatio (São Paulo: Mundo Cristão, 2007), p. 149.
3
Thomas Merton, Homem Algum É uma Ilha (Campinas: Verus, 2003), p. 13.
4
Ibid., p. 17.
O evangelho tem pouco a oferecer às pessoas que não admitem ter
necessidades.
Philip Yancey 1

Teresa de Ávila costumava dizer em suas orações: “Das devoções tolas e


dos santos de cara fechada, poupa-nos, ó Senhor.” Para muitos, essa frase
2

resume bem o que eles pensam da igreja. Cansados, magoados ou feridos,


muitos não voltam mais. O que fazer quando a igreja é a causa de uma crise
espiritual?
Em certa ocasião, visitei uma senhora que me pediu para orar por seu filho
que estava afastado da igreja. Queria que eu falasse com ele. Garantiu que o
rapaz estava aberto ao diálogo. Esforcei-me então para encontrá-lo, mas sem
sucesso. Ele trabalhava o dia inteiro e estudava à noite. Até que um dia deu
certo, pois ele havia entrado no período de férias.
Após rápida conversa com a mãe, pedi a ela que chamasse o rapaz. Nunca
tínhamos nos encontrado, e, quando ele me viu, parecia intrigado, como que
se perguntando sobre o que seria o bate-papo.
Falamos um pouco sobre seu trabalho, e ele comentou sobre a faculdade
que fazia e lutava para pagar. Com seus vinte e poucos anos, era bem
articulado, do tipo que expõe suas convicções com extrema facilidade. Então
lhe fiz uma pergunta:
– Por que parou de ir à igreja?
Ele olhou para o chão e fez uma pausa longa. Tão longa que quase me
arrependi da abordagem.
– Não sei se quero falar sobre isso.
Eu disse que estava ali para orar por ele. Então, depois de outra pausa, ele
resolveu falar do problema.
Explicou que havia parado de frequentar a igreja simplesmente porque não
aguentava mais as formalidades e a falta de união dos membros. De tanto
ouvir sempre a mesma liturgia, as mesmas pessoas pregando, as mesmas
cobranças e frases repetidas à exaustão, cansou-se e decidiu, dali em diante,
fazer o culto em casa mesmo. Perguntei se a distância da igreja tinha tornado
as coisas melhores para sua espiritualidade. Sem pressa, ele disse
furtivamente: “Não preciso ir à igreja!” De fato, mesmo depois de meu
convite, ele nunca apareceu por lá.
Malcolm Smith relata uma conversa que teve com uma senhora igualmente
frustrada com a igreja. Ela lhe disse:

Às vezes eu me pergunto a respeito da vida cristã. Enfim, a vida cristã é


isso? Nada mais além disso? Não me compreenda mal... é muito melhor
do que tudo quanto tínhamos até então. Deus é real para mim, mas,
falando honestamente, Malcolm, o que chamamos de igreja não é muito
mais do que um clube religioso – e acho que está bem assim.
Às vezes fico tão frustrada! Será que Jesus morreu e ressuscitou a fim de
ser o fundador de um clube em que todos procuramos ser como Ele é...
cantar no coro, levar nossos filhos às reuniões, [...] ouvir as palestras
animadoras de todos os domingos, dizer “amém” nos momentos certos e
participar de algum programa social nas noites de terça-feira com os
irmãos da igreja? Malcolm, se isso é tudo a respeito de Jesus, ele é bem
maçante! 3

Depois de ouvir as palavras contundentes daquela mulher, Smith fez a


constrangedora constatação de que muitos crentes modernos enfrentam
situação semelhante. “O problema está aí para não ir embora. Na verdade,
vai-se tornando epidêmico”, ele afirma.
A exemplo daquele jovem que visitei, muitas pessoas entram em crise
espiritual por causa da igreja, acabando por abandoná-la. Outras, também em
crise, simplesmente permanecem fingindo que estão bem. Por que elas
suportam a própria hipocrisia na igreja? Tim Stafford explica:

Mais do que qualquer outra coisa, as pessoas fingem conhecer a Deus


intimamente. Por quê? Porque conhecer a Deus é algo tão valioso que elas
desejam que outras pessoas pensem que elas O conhecem. De certo modo,
a presença dos hipócritas demonstra quanto o verdadeiro cristianismo é
desejável.
Há algumas gerações, as pessoas faziam parte da igreja porque isso era o
que todos os indivíduos decentes faziam. Hoje, você não perde o respeito
se não for à igreja ou não se declarar cristão. A única razão para ser um
cristão hipócrita é você achar que conhecer a Deus é valioso.4

Quando alguém me diz que sua crise espiritual começou dentro da igreja,
sei que algo grave está acontecendo e que o resultado pode ser desastroso se
nada for feito. Afinal, aonde mais o cristão deve ir quando enfrenta decepções
e amarguras, senão à igreja? Ela não deveria oferecer paz e esperança?
Perguntei a muitas pessoas de que maneira a igreja tem causado ou
aprofundado sua crise espiritual, e a resposta de quase todas envolvia
basicamente a dificuldade de lidar com a monotonia, a formalidade e a falta
de união. John Burke ponderou:

Não importa quanto a música seja dançante, o pastor engraçado e o


clima pós-moderno, se uma pessoa chegar à igreja semana após semana,
sentar-se sozinha e sentir-se isolada ou como um “forasteiro”, ela não
voltará. Isso é especialmente verdade em relação aos que estão buscando a
espiritualidade.5

Quando alguém me conta que ficou enjoado com as constantes limitações


da igreja, penso no risco que Jesus correu quando fundou a igreja com aquele
pequeno grupo de discípulos, em sua maioria rudes e iletrados. Não estaria
Deus correndo o mesmo risco de vê-los fracassar, como aconteceu com o
Israel do Antigo Testamento? Qual era a garantia de que aquela gente se
sairia melhor que seus antepassados?
Penso também na insistência de Deus em colocar a humanidade em tão alto
grau, mesmo conhecendo nossas imperfeições tão de perto. Não consigo
encontrar sentido nisso a não ser no poder do amor. De fato, Deus nos ama
muito, a ponto de querer viver em vasos de barro. E tem mais: De que outra
maneira o mundo enxergaria a graça de Deus e teria a oportunidade de
receber essa mesma graça, senão pela igreja?
*****
A jornada da igreja cristã nos últimos dois mil anos causa espanto, mas me
enche de esperança. Ao longo de sua história, ao tentar levar a graça divina
adiante, a igreja triunfou em muitos momentos e fracassou em outros.
Curiosamente, foi quando os cristãos estiveram mais perto da aniquilação que
a graça mais se manifestou.
Mas é fácil perder de vista o fato de que a graça de Deus nasce no coração
de cada crente individualmente, e não de forma coletiva. Cada vez que penso
na igreja como uma simples organização, sou tentado a esquecer de que ela é
composta de pessoas. Em certo sentido, a igreja sou eu. E, se a igreja somos
nós, ela reflete inevitavelmente a condição mental, moral e espiritual de seus
membros. A meu ver, a maneira como o crente encara sua função no corpo de
Cristo tem muito mais relevância do que a maneira como deseja que a igreja
o trate.
Como seria a igreja se os cristãos decidissem apenas receber afagos e
palavras carinhosas o tempo todo? Certamente, ficaríamos olhando um para o
outro, e nada mais. Entretanto, o que aconteceria se todos recordassem e
vivessem as palavras do próprio Senhor Jesus: “Mais bem-aventurado é dar
do que receber?” 6

Os discípulos tiveram de aprender essa lição do jeito mais difícil. Jesus


constantemente confrontava a segurança religiosa que eles tinham (por serem
descendentes de Israel) com a necessidade de tornarem-se servos. O método
funcionou, pois, quando leio os relatos dos primeiros anos da igreja cristã,
noto que nada parecia mais importante àquelas pessoas do que servir à igreja
e alcançar o mundo com a mensagem do evangelho. Daquele tempo para cá,
muita coisa mudou, menos uma: enquanto a igreja estende as mãos para
servir o mundo, ela se mantém saudável e vibrante. Mas, quando cruza os
braços, olhando apenas para si mesma, a enfermidade a paralisa, causando
desconforto e inércia.
Quando alguém diz que as formalidades e a desunião da igreja afetam sua
espiritualidade, há duas escolhas possíveis: abandonar a igreja ou procurar
fazer a diferença dentro dela. Se a casa está em desordem, quem mais pode
resolver o problema senão aquele que nela vive? Isso significa que, apesar de
alguém culpar a igreja por sua crise espiritual, a mesma igreja pode oferecer a
solução. Mas entenda: quando digo igreja, estou falando primeiramente de
mim mesmo, como membro do corpo de Cristo. Se eu tomar a decisão de
mudar, a igreja pode começar a mudar.
Osmar Ludovico afirmou que permanecer na igreja “é um exercício de
humildade, abnegação e serviço. Perseverar na comunidade é continuar
crendo que Jesus Cristo é o Senhor do Seu povo”. É verdade que existem
7

razões para alguém não voltar à igreja. Reconheço seus defeitos. Aliás, esses
defeitos estão mais patentes para mim do que para qualquer outra pessoa.
Afinal, passo mais tempo na igreja do que a maioria, e, além disso, ouço
semanalmente as reclamações dos descontentes. No entanto, nessas horas,
sempre me vem à mente uma pergunta: “Se eu abandonar a igreja, para onde
vou?”
Conheci uma senhora que se decepcionou com sua igreja e decidiu
abandoná-la. “Eu estava convicta de que não precisava mais ir àquele lugar.
Eles me feriram e nada me faria voltar atrás”, ela me disse. No começo,
parecia que a igreja não fazia falta alguma. Mas, depois de um tempo, sentiu
saudades dos hinos de louvor, da pregação e das preces em grupo. O mais
difícil, porém, era não ter a quem contar os problemas e pedir uma oração.
Um dia, passando de carro na frente da igreja, viu as pessoas saindo do culto.
Ela se lembrou dos defeitos da igreja, mas isso parecia não afetar aquelas
pessoas, pois todas estavam sorridentes. A imagem do sorriso delas na porta
da igreja a incomodou a ponto de perder o sono. “Meu Deus, o que estou
fazendo aqui?”, ela ponderou. “A igreja é o lugar onde devo estar!” Desde
então, nunca mais deixou de ir. “Aprendi que os defeitos da igreja são
exatamente os meus defeitos. Deus ama Sua igreja, e isso significa que estou
incluída nesse amor. Devo levar essa mensagem adiante. A igreja precisa de
mim tanto quanto eu dela.”
A experiência daquela senhora e de tantos outros me fez refletir em quão
importante é entender a igreja à luz da Bíblia. Ela é de fato o corpo de Cristo,
e não se encontra segurança e espiritualidade completa estando fora dela. Se,
de vez em quando, seja por negligência ou por um zelo exagerado, eu não me
sentir bem dentro da igreja, é hora de lembrar que ela não é perfeita. E como
poderia ser? A igreja é composta de seres humanos pecadores, que carecem
da glória de Deus. Não esqueçamos que o grande Pastor da igreja é Jesus
Cristo. Ele, sim, é perfeito e pode aperfeiçoar Sua igreja. Ele pode aperfeiçoar
a mim e a você.
“Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns”, conclamou
8

o autor de Hebreus. Para os que creem que a crise que enfrentam é culpa da
igreja, voltar lá pode representar uma atitude inconsciente. Mas não vale a
pena tentar? Que essa tentativa seja feita por amor a Cristo. Afinal, olhando
para o Supremo Pastor, tudo passa a ser mais suportável.

1
Philip Yancey, Igreja: Por que me Importar? (São Paulo: Editora Sepal, 2000), p. 60.
2
Teresa de Ávila, citada por Philip Yancey, Maravilhosa Graça (São Paulo: Vida, 1999), p. 215.
3
Malcolm Smith, Esgotamento Espiritual (São Paulo: Vida, 2006), p. 14.
4
Philip Yancey e Tim Stafford, Desventuras da Vida Cristã (São Paulo: Mundo Cristão, 2005), p.
151.
5
John Burke, Proibida a Entrada de Pessoas Perfeitas (São Paulo: Vida, 2006), p. 339.
6
Atos 20:35.
7
Osmar Ludovico, Meditatio (São Paulo: Mundo Cristão, 2007), p. 150.
8
Hebreus 10:25.
É estranho, mas as coisas boas e os dias agradáveis são narrados
depressa, e não há muito que ouvir sobre eles, enquanto as coisas
desconfortáveis, palpitantes e até mesmo horríveis podem dar uma boa
história e levar um bom tempo para contar.
J. R. R. Tolkien1

Meu pai foi o tipo de pessoa que sempre teve um relacionamento instável e
conflituoso com a igreja. Na infância, viveu numa cidadezinha pequena no
interior do Paraná, frequentando a igreja com a mãe e os irmãos. Na
adolescência, não via na igreja nenhuma atração, a exemplo da maioria de
seus amigos, mas mesmo assim a frequentava. Durante a juventude, já
morando na cidade de São Paulo, ele ia à igreja apenas para paquerar as
garotas, ou, de vez em quando, para acompanhar minha avó. Filho caçula de
seis irmãos, foi o último a sair de casa. Casou-se no início da década de 70,
com trinta e poucos anos, um tanto tarde para os padrões daquela época da
Jovem Guarda e da ditadura militar.
Pouco tempo depois, abandonou a igreja por completo. Minha mãe não o
acompanhou em sua decisão, e ela trabalhou para que nunca o fizéssemos
também. Apesar de sua apostasia, meu pai não criou nenhum tipo de
empecilho à nossa frequência à igreja. Nos dias de culto, seu Volkswagen
Variant 1978 nos levava até o templo.
No entanto, pelo caminho, muitas vezes ele resolvia falar algo da igreja que
frequentávamos. Era como um ritual. Primeiro, reclamava que a igreja era
longe demais de onde morávamos; depois, era a vez de criticar as pessoas que
congregavam conosco. Falava da falsidade do Sr. José, que não o
cumprimentava quando o via no centro da cidade, mas o abraçava
calorosamente quando estava em frente da igreja. Comentava sobre a
demagogia da dona Maria, que gostava de falar de sua própria fé e piedade,
mas vivia devendo dinheiro aos outros. Sobrava até para o pastor, que,
segundo meu pai, não tinha competência suficiente para resolver os
crescentes problemas da igreja (como se ele soubesse quais eram). Por fim,
reclamava dos pregadores, que nunca terminavam o sermão no horário
devido. Até hoje, suspeito de que meu pai foi o típico caso de alguém que
colocava a culpa na igreja para ocultar as próprias frustrações espirituais e
morais.
Então, um dia, para surpresa de toda a família e dos amigos, ele voltou a
frequentar a igreja, afirmando a todos que experimentara uma genuína
conversão. Nessa época, eu já era adolescente, e tive dúvidas quanto à sua
sinceridade. Claro que ficamos felizes a princípio, mas era difícil de acreditar
depois de tantos anos ouvindo-o criticar a igreja. Aqueles que conheciam
meu pai há mais tempo também pareciam um tanto incrédulos. Apesar disso,
algumas mudanças foram visíveis. Parou de beber a caipirinha nos fins de
semana, já não falava tantos palavrões dentro de casa e procurava (quase
nunca conseguindo) não falar mal de alguém da igreja. Sem contar que virou
um estudioso das profecias bíblicas.
Bem, isso durou não mais que um ano e meio. Depois, a coisa foi esfriando.
As críticas à igreja retornaram. A frequência aos cultos diminuiu. Quando nos
demos conta, meu pai estava fora da igreja novamente. Lembrávamos a
contragosto do famoso clichê: “Era bom demais para ser verdade!”
Após alguns meses, quando todos nós achávamos que meu pai nunca mais
seria visto na igreja, ele resolveu voltar. Parecia a mesma experiência
anterior, mas menos intensa. Será que ficaria desta vez?
Na verdade, iniciou-se um ciclo, em que meu pai acabaria saindo e
retornando à igreja umas quatro ou cinco vezes. Bastava sentir-se magoado
com alguém ou fraquejar espiritualmente que ele desaparecia. Depois de
alguns meses, retornava. Nesse meio-tempo, eu tive a minha experiência de
conversão, e foi então que as idas e vindas de meu pai começaram realmente
a me incomodar. Por que ele agia daquele jeito? Estranhamente, passaram-se
anos até que eu conseguisse fazer essa pergunta para ele.
Hoje, quando me lembro da experiência de meu pai, meus sentimentos são
diferentes. Percebo que sua peregrinação espiritual não difere tanto da
peregrinação de milhares de cristãos ao redor do planeta. Para ser sincero,
minha jornada nos últimos anos, em escala menor, lembra-me a dele. Entre
momentos de fé aguçada ou estagnação espiritual, quem pode nos
compreender e nos ajudar?
*****

As crises na vida espiritual vão e vêm, e nossa experiência com a igreja


também segue mais ou menos o mesmo padrão. Em geral, quando estou com
minha fé vacilante, minha relação com a igreja é diretamente afetada.
Sempre que ouço alguém falar de como a igreja afeta negativamente sua
espiritualidade, penso no desafio chamado “igreja”. Como repartir um espaço
comunitário com pessoas tão parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes?
Como lidar com tanta gente, cada pessoa com um tipo de temperamento,
carregando sua bagagem de anseios e complexos?
Para mim, fez muita diferença entender o que Deus tinha em mente quando
estabeleceu a igreja. Antigamente, eu imaginava Deus nos olhando “lá de
cima” e a igreja olhando para Ele “aqui de baixo”. Hoje creio na igreja como
uma união sobrenatural entre Jesus, “a Cabeça”, e os cristãos, “o corpo”.
Quando me lembro daquele tempo, percebo como é fácil enganar-se quanto
ao que a igreja representa. Veja o exemplo de C. S. Lewis. Ele foi um dos
maiores escritores cristãos do último século, e em sua autobiografia conta
como iniciou sua história com a igreja:

Assim que me tornei teísta, comecei a frequentar a igreja do meu bairro


aos domingos, e a capela da faculdade nos dias de semana; não por
acreditar no cristianismo, não por julgar pequena a diferença entre o
cristianismo e o teísmo, mas por achar que devemos “desfraldar a nossa
bandeira” com algum sinal visível e inequívoco. Eu agia em obediência a
um (talvez equivocado) senso de honra.
A ideia de participar de uma igreja era para mim totalmente sem
atrativos. Eu não era nem um pouco anticlerical, mas sem dúvida
profundamente antieclesiástico. Achava incrível que diáconos e curadores
devessem existir. 2

No caso do meu pai, eu percebi finalmente, depois de alguns anos, o motivo


de seu retorno à igreja (na primeira vez). Naquela época, sua vida profissional
e financeira estava em frangalhos, afetando a autoestima e o casamento. Ele
precisava de uma solução. Então, acreditou que indo à igreja tudo mudaria.
Afinal, não era esse o sonho que minha mãe acalentara durante anos? Ele
pensou que frequentar a igreja garantiria a aprovação de Deus, e tudo
funcionaria perfeitamente dali para frente. Como os problemas não se foram,
ele se afastou novamente, bastante decepcionado.
Dificilmente um cristão deixa de experimentar dúvidas quanto aos motivos
que o fazem estar na igreja. Mas é ali que ele encontrará as devidas respostas.
Concordo com Ed René Kivitz, quando afirma:

A convocação de Jesus Cristo para o discipulado encerra o mais


fascinante projeto de vida, pois se inicia na história, dando sentido à
peregrinação existencial, e se consuma na eternidade, na plena realização
de todo o universo criado, finalmente devolvido às justas e amorosas mãos
de seu Criador. No coração deste propósito eterno do Reino de Deus está a
igreja, e mais precisamente a comunidade cristã local. A resposta cristã
para a necessidade de um projeto existencial é a vida em comunidade – a
comunidade cristã que o Novo Testamento apresenta como “comunidade
da cruz”, pois é em resposta à obra da cruz, aos benefícios da cruz e aos
imperativos da cruz que a igreja existe.3

Por que o cristão deveria estar na igreja? Para começar, ele está lá porque
Jesus a fundou com Seu sangue. A igreja é uma reunião de pecadores
perdoados e purificados do pecado. Cristo colocou sobre o pecador Suas
vestes de justiça e o elevou a uma atmosfera de paz e alegria. O cristão está
na igreja porque deseja que o mundo saiba que sua união a um corpo de fiéis
o leva a seguir e exaltar a Palavra de Deus. O crente quer apresentar ao
mundo a imagem da suficiência de Cristo e a representação do mundo eterno,
onde as leis e as aspirações são mais elevadas que as da Terra. Ele deseja,
com a igreja, levar ao mundo o conhecimento do evangelho da graça, para
que os raios do Sol da Justiça irradiem em todos os corações. Enfim, o cristão
torna-se o sal da Terra e a luz do mundo.
“Bem-aventurados, Senhor, os que habitam em Tua casa”, disse o
4

salmista. Abandonar a igreja, mesmo sendo ela a suposta causa de uma crise
de fé, assemelha-se à atitude de pular de um navio no meio do oceano
simplesmente porque fiquei enjoado da comida, ou porque um tripulante não
me cumprimentou, ou ainda porque o convés está enferrujado. Você pode se
livrar de um pequeno incômodo, mas vai acabar se dando conta de que teria
sido bem melhor ficar na embarcação.
Quando deixo de ir a um culto em minha igreja, sempre me ocorre a
seguinte pergunta: “Quais bênçãos deixei de receber em minha vida espiritual
hoje?” Mesmo que eu tente racionalizar minha ausência, lá no fundo, sinto
que perdi algo que dificilmente será recuperado.
Na maioria das vezes, os principais motivos que levam alguém a entrar em
uma fase de fraqueza no relacionamento com a igreja têm que ver com a
desilusão no convívio com outras pessoas. Quando visito cristãos afastados
da igreja e pergunto o porquê da sua distância, ouço frases do tipo: “fulano
me magoou muito”; “o pastor me tratou com descortesia”; “ninguém me
cumprimenta”; “o diácono chamou a atenção do meu filho”.
Embora eu reconheça que tais reclamações são pertinentes, pergunto-me se
é possível que seja diferente, tendo em vista a natureza dos seres humanos.
Chesterton afirmava que, na medida em que era homem, era a cabeça da
criação. Mas, sendo um homem, ele teve de reconhecer: “Sou o primeiro dos
pecadores”. 5

A igreja é um lugar de pessoas imperfeitas, niveladas pela natureza


pecaminosa que carregam. “Pois todos pecaram e carecem da glória de
Deus”, afirmou o apóstolo. É muito fácil nos esquecermos desse fato,
6

pensando que os defeitos dos outros crentes, a negligência dos líderes e a fé


nonsense dos pregadores sejam mais que suficientes para nos afastar da
igreja. Thomas More chamou a atenção para este problema:

Gostaria que todos os homens soubessem que existia apenas um homem


em todo o mundo e que esse homem era cada um deles. Gostaria que eles,
cientes disso, procurassem corrigir aquele homem, e assim todos ficariam
bem. Conseguiríamos isso em pouco tempo, se sempre virássemos a
carteira de que lhes falei e jogássemos sobre as costas a sacola contendo as
falhas das pessoas, e se carregássemos as nossas próprias falhas sempre
diante de nós sobre o peito. Seria uma coisa boa olhar por um tempo para
as próprias falhas. Quero dizer que os outros e também nós melhoraríamos
muito, se estivéssemos tão prontos a orar uns pelos outros como estamos
dispostos a procurar uns nos outros motivos de censura e reprovação. 7

É saudável para qualquer cristão reconhecer que a igreja possui problemas,


alguns quase insuportáveis. Entretanto, mais salutar é compreender e aceitar a
realidade de que necessitamos dela. Se na igreja a graça de Deus é vista
algumas vezes de forma inócua e fragmentada, pelo menos sabemos que essa
graça ainda está lá. A questão é que dificilmente encontraremos a graça em
outro lugar.
Algumas perguntas interessantes: E se eu decidisse, pelo poder de Deus,
tornar-me um transmissor da graça divina dentro da igreja? E se eu vivesse
um relacionamento integral com Jesus a ponto de as pessoas serem
contagiadas pelo amor? E se eu trabalhasse mais pelas pessoas do que elas
por mim?
Tenho procurado fazer essas perguntas a mim mesmo, como forma de
motivação e também como uma lembrança do que Deus deseja para alguém
que necessita crescer espiritualmente. Na igreja, posso fazer uma diferença
relevante na vida de alguém que enfrenta uma crise de fé, talvez mais aguda
do que a minha. Posso me entregar a Deus e permitir que Sua graça
transborde do meu coração para o coração de outra pessoa. E pode ser que aí
se encontre a possível cura para muitas crises espirituais dentro da igreja.
Cada passo do cristão ao encontro de seu semelhante (e não há nada mais
desconcertante do que encontrar pessoas muito parecidas conosco), desejando
ser-lhe uma bênção, poderá resultar em uma nova experiência, provavelmente
aquela que estava faltando. Como bem expressou Jonathan Edwards:

Em certo sentido, a pessoa mais benevolente e generosa do mundo busca


sua própria felicidade ao fazer o bem aos outros, porque põe sua felicidade
no bem deles. Sua mente dilata-se para, por assim dizer, recebê-los dentro
de si mesma. Por isso, quando eles estão felizes, ela sente o mesmo;
participa com eles e é feliz na felicidade deles. Isso está tão longe de ser
incoerente com a liberdade da beneficência que, pelo contrário, a
benevolência e a bondade fazem parte dela. 8

A igreja foi estabelecida por Deus para ser uma bênção na vida daquele que
crê em Seu poder. Necessitamos desesperadamente dEle, mas também
precisamos uns dos outros. Quando um intérprete da Lei abordou Jesus
perguntando qual era o grande mandamento, o Mestre disse: “Amarás o
Senhor, teu Deus, de todo o coração, de toda a tua alma e de todo o teu
entendimento. [...] Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Em que outro
9

lugar encontraremos força e motivação para cumprir o propósito de Deus


senão na igreja, a coluna e o baluarte da verdade?
Se existe uma diferença clara entre a igreja e o restante do mundo, ela se
encontra no ideal de seus membros de viverem mais para Deus e menos para
si mesmos. Tal ideia pode ser representada pelo carregar “cada um a sua
cruz”, como ensinou o próprio Jesus. Para alguns, esse ideal parece absurdo
demais. Contudo, nenhum cristão deveria esquecer que Cristo, em nenhum
momento, pediu alguma coisa sem apresentar a contrapartida de Seu auxílio e
poder. Primeiro, Ele roga que entremos em um relacionamento com Ele, e
depois nos ajuda em nossa peregrinação. A jornada de cada cristão envolve
inevitavelmente a vida em comunidade.
Sempre que volto à igreja onde cresci, geralmente uma vez por ano, sinto
uma forte sensação de gratidão e reverência. Foi naquela igreja que Jesus
ganhou meu obstinado coração. Fui batizado ali em uma agradável noite
primaveril. Foi como membro do corpo de Cristo que ouvi o chamado divino
para servir no ministério cristão.
Um dia desses, entrei nessa igreja quando ela estava vazia. Sentei no último
banco e, motivado pelo silêncio inclemente, puxei da memória as cenas que
vivi naquele lugar. Rostos de amigos queridos me vieram à mente. Muitos
deles trabalharam por mim e pela minha conversão. Lembrei-me também de
outras pessoas, muitas das quais tiveram um encontro com Deus dentro
daquelas paredes.
Alguém depois me disse que aquela igreja será demolida para a construção
de um templo maior e mais moderno. Confesso que senti um aperto no
coração por isso. Logo, não verei mais a igreja como ela era na minha
infância e adolescência. Quantas emoções ficarão apenas na lembrança?
Porém, senti-me confortado com a certeza de que, mesmo com a troca de
tijolos e vidros, a minha igreja continuará lá. Quando uma crise espiritual
deixar minha fé vacilante, ainda será possível adentrar o templo e dizer como
o salmista: “Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor.” 10

1
J. R. R. Tolkien, O Hobbit (São Paulo: Martins Fontes, 2002), p. 50.
2
C. S. Lewis, Surpreendido Pela Alegria (São Paulo: Mundo Cristão, 1998), p. 238.
3
Ed René Kivitz, Outra Espiritualidade (São Paulo: Mundo Cristão, 2006), p. 36.
4
Salmo 84:4.
5
G. K. Chesterton, Os Paradoxos do Cristianismo (São Paulo: Quadrante, 1993), p. 41.
6
Romanos 3:23.
7
Citado por James Stuart Bell e Anthony Palmer Dawson, A Biblioteca de C. S. Lewis (São Paulo:
Mundo Cristão, 2006), p. 100.
8
Citado por John Piper, Teologia da Alegria (São Paulo: Shedd, 2001), p. 90.
9
Mateus 22:37, 38.
10
Salmo 122:1.
Quão alto sois nas alturas e quão profundo nos profundos abismos!
Nunca Vos apartai de nós, e, contudo, com que dificuldade nos
voltamos para Vós!
Agostinho 1

Não são poucos os que entram na jornada cristã esperando que as


dificuldades da vida sejam menores após a conversão. Quando tento explicar
aos novos cristãos que a luta pode ser mais aflitiva do que antes, muitos
olham para mim com espanto e consternação. Não faço isso para desanimar
quem quer que seja. Pelo contrário, meu intento é preparar o novo crente para
a batalha “contra os principados e potestades, contra os dominadores deste
mundo”. 2 Sempre faço questão de afirmar que a fé em Cristo pode nos
tornar “mais que vencedores”. 3
Porém, tenho notado que raramente minhas palavras de advertência surtem
algum efeito. É como se cada pessoa tivesse de ter a experiência de acordar
em meio a uma guerra e aprender sozinha a maneira certa de lutar e vencer.
Não que isso seja de todo ruim, mas, quando se deparam com a batalha,
muitos se sentem desesperados e não conseguem ir adiante. Alguns
abandonam a luta para sempre.
Se o cristão, quando aceita Jesus, lança-se em uma batalha espiritual, o que
pode esperar dela? Dietrich Bonhoeffer escreveu:

O chamado ao discipulado de Jesus, o batismo em nome de Jesus Cristo


é morte e vida. O chamado de Cristo, o batismo coloca o cristão em uma
luta diária contra o pecado e o diabo. Assim, cada dia, com suas tentações
da carne e do mundo, traz consigo novos sofrimentos de Jesus Cristo para
o discípulo. Os ferimentos aí infligidos, as cicatrizes que o cristão leva
desta luta, são sinais vivos da comunhão na cruz de Jesus. 4
Sempre que leio esse trecho do famoso mártir, medito na guerra inevitável
que o cristão tem de participar. Uma guerra onde as armas são espirituais, e a
vitória (ou a derrota) advém diretamente do nível de fé que se exercita. Como
o cristão pode lidar com essa luta diária? Bonhoeffer parece que tinha a
mesma pergunta em mente. Sua resposta foi: “Discipulado é autonegação e
comprometimento total com Jesus.” 5
As crises espirituais não surgem da noite para o dia na vida do crente.
Quando as pessoas me contam de sua fé enfraquecida, costumo escutar um
roteiro bastante comum (não incluo aqui os enlutados ou aqueles que têm
dúvidas quanto às doutrinas bíblicas). Em algum momento, a Bíblia deixou
de ser estudada, a vida de oração tornou-se quase inexistente, e o testemunho
pessoal desapareceu. Mesmo assim, muitos se perguntam: O que está
acontecendo comigo?
Não existe vida cristã real sem algum sacrifício. Da mesma forma que
preciso me esforçar para acordar cedo e trabalhar, pois disso depende minha
sobrevivência material, também necessito de esforço para levar adiante minha
espiritualidade. Assim como tenho que fazer sacrifícios para terminar a
faculdade, o mesmo sacrifício é requerido para ler a Bíblia, ir à igreja e
testemunhar do amor de Deus. 6 Concordo quando alguém diz que orar, por
exemplo, é uma atitude natural para alguém que nasceu em Cristo. Isso não
quer dizer, porém, que a natureza pecaminosa não continue lá, em algum
lugar dentro de nós, sugando parte de nossa energia espiritual.
Muitas pessoas me afirmaram que a primeira crise na vida cristã aconteceu
quando terminou o período do primeiro amor. Quando a euforia da conversão
passou, iniciou-se uma espécie de rotina, onde o vigor para as coisas de Deus
já não é o mesmo. Outros dizem que a igreja é a culpada do marasmo que
vivem, pois ela deixou de promover o devido estímulo para uma vida de fé
mais abundante.
Poucos, entretanto, são os cristãos que reconhecem que o problema maior
se encontra neles mesmos. Certa vez, visitei um líder de minha igreja cuja
frequência aos cultos estava um tanto irregular. Como ele sempre me pareceu
um indivíduo decidido, eu me perguntava o que teria acontecido. Depois de
alguns minutos de conversa, falei de sua ausência na igreja. Ele parecia ter a
resposta na ponta da língua:
– A culpa é minha, e só minha!
– Como assim? – Fiz-me de desentendido.
– O senhor sabe, é a minha vida espiritual. Estou com a fé fraquejando e a
culpa é só minha. Eu deixei que ela chegasse ao ponto em que está.
Nos minutos seguintes, ele me contou como foi permitindo que a devoção a
Deus esfriasse lentamente. Costumava acordar mais cedo para ler a Bíblia e
orar, mas, depois de um tempo, começou a levantar em cima da hora para ir
ao trabalho. No fim do dia, em vez de dar atenção à família e realizar um
pequeno culto com eles, como costumava fazer, passou a ficar em frente da
televisão até o sono vencê-lo. Nos fins de semana, cansado e sem motivação,
dificilmente ia à igreja. Tudo aconteceu rapidamente, e, quando ele se deu
conta, estava em crise espiritual, arrastando consigo a esposa e o filho.
Aquele homem era um cristão maduro e sabia que o verdadeiro cristianismo
se baseia no relacionamento e não na conduta. Reconheceu que deixara de
manter-se ligado a Deus, permitindo assim que sua espiritualidade esfriasse.
Quando terminamos a conversa, ele disse algo que me deixou um pouco mais
animado: “Eu preciso buscar a presença de Deus novamente.”
“Buscar-Me-eis e Me achareis quando Me buscardes de todo o vosso
coração”, foi a promessa divina por intermédio do profeta Jeremias. “Serei
achado de vós, diz o Senhor, e farei mudar a vossa sorte.” Em meio a uma
7

crise espiritual, a negligência em buscar a Deus diariamente pesa mais do que


qualquer outro fator. Depois de tantos anos como cristão, aprendi que minha
atitude diante da batalha da fé vai fazer toda a diferença. Eu tenho que ir à
presença de Deus mesmo quando não estou muito desejoso de fazê-lo, porque
disso depende a condição da minha fé no dia seguinte. Como bem expressou
Ed René Kivitz:

Há os que pensam que todos os favores de Deus são experimentados em


termos definitivos, isto é, aquele que recebeu uma graça fica com ela para
sempre. Perguntam-se, atônitos: “Mas não entreguei minha vida a Deus?
Então por que não tenho alegria?” [...]
Existem também os que esperam uma vida espiritual instantânea, que os
conduza definitivamente a um status permanente de plena satisfação e
realização. São pessoas que creem que, se oraram hoje e Deus lhes
apaziguou o coração a respeito do pai hospitalizado, não precisarão orar
amanhã, pois já receberam a paz que excede todo o entendimento. Na
manhã seguinte, ao se perceberem novamente perturbados, questionam
onde está o seu erro. Estaria Deus falhando em cumprir Sua promessa, ou
a fé com que buscaram a Deus era fraca? Ou, pior, Deus os estaria
punindo por um pecado ou outro que desconheciam (ou, pior ainda, que
conheciam)? Falta-lhes o esclarecimento de que a experiência espiritual
cristã é dinâmica. Jesus não prometeu um copo de água que mataria
definitivamente a sede. O que Jesus prometeu foi que, do interior de quem
crê, brotará uma fonte a jorrar para a vida eterna, e isso sugere que a essa
fonte devemos recorrer sempre, e novamente, e de novo, para que, toda
vez, quando nosso espírito se perturbar ou for perturbado, encontremos
descanso e provisão. 8

De fato, é fácil esquecermos a necessidade de beber da Água da Vida todos


os dias. Não raro, parece-me mais fácil fazer qualquer outra coisa do que
reservar um tempo para me relacionar com Deus. Tenho notado até mesmo
que, na vida de muitos cristãos com quem converso, a negligência espiritual
conduz a um estado semelhante ao de uma doença silenciosa que, quando
finalmente resolve se manifestar, já se encontra em estado avançado.
Jesus, com toda certeza, não fundou o cristianismo para que Seus
seguidores se sentissem exauridos e fracassados. Ele oferece vida completa,
“vida em abundância”, o que de fato milhares de pessoas experimentaram
desde então. Mas, conhecedor de nossa natureza, Cristo preparou Seus
discípulos para a batalha de cada dia e ofereceu um antídoto contra o
desmazelo espiritual: “Permanecei em Mim, e Eu permanecerei em vós.
Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na
videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em Mim.” 9
Eu descobri em minha experiência que permanecer em Cristo exige algo de
mim. Não basta orar uma vez por dia ou ir uma vez por semana à igreja. Se
fosse apenas isso seria muito fácil, e os cristãos modernos nunca enfrentariam
problemas em sua espiritualidade. Mas não é assim. Permanecer em Jesus
significa se relacionar com Ele, e todo relacionamento traz consigo alguma
espécie de sacrifício.
Sempre que penso nesse assunto, lembro-me da minha família. Minha
esposa e minhas filhas são tão importantes para mim que daria minha vida
por elas. Bem, dizer que morreria por elas pode parecer bastante romântico,
mas, no fundo, o digo com certo embaraço. Entregar minha vida pelas
pessoas que mais amo não significa necessariamente um ato heroico daqueles
que acabam passando no noticiário da televisão. Entrega de verdade é aquela
que faço diariamente, quando me envolvo completamente no relacionamento
com elas. Entenda agora por que falo que relacionamento exige sacrifícios.
Quando, depois de uma semana de trabalho intenso, minha esposa decide ir a
um restaurante para conversarmos – e eu quero apenas deitar na cama e ler
um bom livro –, a minha escolha vai ditar o quão profundo será meu
relacionamento com ela. Optando pelo livro, vou agradar minha natureza
egoísta, e nenhum sacrifício será feito. Mas, se eu escolher atender minha
esposa, terei de tomar um banho, trocar de roupa, tirar o carro da garagem,
esperar ela se aprontar (se minhas filhas forem também, imagine quanto terei
de esperar!), e ainda reservar o dinheiro que deixarei no caixa do restaurante.
Houve momentos em que minha opção foi garantir que minha preguiça
hedonista permanecesse intocada. Mas, toda vez que escolho investir na
família, algo magnífico acontece. Em meio a lágrimas e sorrisos, nós nos
tornamos mais íntimos e unidos. Por fim, percebo que o sacrifício, que em
certos momentos passou a ser um prazer, sempre valerá a pena.
Por vezes, permito que meu relacionamento com Cristo se torne rasteiro e
desconcentrado. Então, não demora muito e se abre uma brecha para a
atuação maligna e funesta da natureza humana que, impulsionada pelas
influências satânicas, tenta me afastar de Deus. Nessas horas, percebo
claramente que todo esforço para permanecer nEle deve ser feito, e que o
resultado disso vai significar vida verdadeira.
“Muito do que realmente vale a pena só acontecerá através do confronto”, 10

escreveu Henry Nouwen. Não existe confronto mais necessário na vida do


cristão do que aquele contra o próprio “eu”. Essa é a luta pela tal autonegação
a que se referiu Bonhoeffer. E ela não pode ser ganha sem a ajuda de Deus.
No fim das contas, eu preciso ir a Jesus constantemente, porque esta é a parte
que me cabe. Entregando-me a Ele, o restante do processo fica a cargo da
graça salvadora e transformadora de Deus.
*****

No início de minha jornada cristã, eu me debatia sozinho contra minha


natureza, na ânsia de não decepcionar a Deus. Por algum motivo, eu achava
que o cristão tinha de apresentar a Deus um coração puro e um caráter bem
arrumado, caso quisesse algo dEle. Então, eu seguia por esse caminho, mas
sempre fracassava miseravelmente. Um dia, lendo a Bíblia, notei que aqueles
que mais se beneficiaram de um encontro com Jesus foram os que estavam
sujos de pecado e com a vida em frangalhos. Então, senti como se as
seguintes palavras de Jesus tivessem sido ditas diretamente para mim:
“Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido.” Se eu tenho 11

condições, por mínimas que sejam, de me apresentar santificado por meus


esforços, então não foi a mim que Jesus veio salvar, pensei.
Hoje, meu esforço não consiste mais em lutar arduamente contra minha
natureza. Sei que nunca a vencerei. Mas Cristo vencerá por mim. Concentro-
me agora em minha entrega diária a Jesus. Uma entrega sem reservas. E, à
medida que me entrego a Ele, noto um processo maravilhoso acontecendo:
alcanço vitórias onde antes havia apenas fracasso.
A vida cristã é um desafio, não há dúvidas. Um desafio por vezes
desgastante e intimidador. Mas as promessas de Deus quanto a nos ajudar e
nos fortalecer são abundantes. Para cada espinho no caminho que possa nos
machucar, há um bálsamo para aliviar e curar. Mesmo quando as coisas não
vão bem, ainda é possível confiar em Cristo. Afinal, quem neste mundo seria
mais digno de confiança que Ele?

1
Santo Agostinho, Confissões (São Paulo: Nova Cultural, 2004), p. 207.
2
Efésios 6:12.
3
Romanos 8:37.
4
Dietrich Bonhoeffer, Discipulado (São Leopoldo: Sinodal, 2004), p. 47.
5
Ibid., p. 77.
6
Conheço muitas pessoas que sabem dos sacrifícios exigidos pela espiritualidade, mas tais
exigências não são maiores que o prazer real que advém do relacionamento com Cristo.
7
Jeremias 29:13, 14.
8
Ed René Kivitz, Vivendo com Propósitos (São Paulo: Mundo Cristão, 2003), p. 19.
9
João 15:4.
10
Henry Nouwen, Transforma Meu Pranto em Dança (Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2007), p.
24.
11
Lucas 19:10.
Ninguém pode esvaziar-se do próprio “eu”. Somente Cristo pode
realizar essa obra.
Morris Venden 1

Depois de ganhar o Oscar de melhor ator em Sobre Meninos e Lobos, filme


de Clint Eastwood, o ator Sean Penn dirigiu uma obra contemplativa sobre a
jornada de um jovem em busca de si mesmo. Natureza Selvagem conta a
história real de Chris McCandless, estudante promissor prestes a entrar em
Harvard que, de repente, abandona tudo e parte para uma viagem ao Alasca.
O personagem, interpretado pelo jovem ator Emile Hirsch, cansa-se de
presenciar as violentas brigas dos pais e de sofrer pressão sobre seu futuro.
Põe-se então na estrada. Não tem documentos nem dinheiro, apenas o desejo
intenso de viver livremente. Logo ele percebe que necessita constantemente
da ajuda das pessoas e vive uma amizade atrás da outra, mas nunca
comprometido com ninguém. Em um dos momentos mais emocionantes do
filme, Alexander Supertramp (era como McCandless se fazia conhecido)
conhece um viúvo veterano de guerra, que havia muitos anos perdera a
família. Vendo em Supertramp o filho que a vida lhe tirara, o velho homem
se oferece, em meio às lágrimas, para adotá-lo como filho.
O garoto hesita por alguns instantes, como que se estivesse pensando nos
últimos dois anos desde que abandonara a família. Ele olha no fundo dos
olhos azuis do personagem interpretado por Hal Holbrook e diz que sente
muito, mas precisa ir embora.
A experiência de McCandless me fez pensar na jornada do cristão em crise
espiritual. Quando a fé se torna vacilante, somos tentados a largar mão do
compromisso com Deus e com a igreja. Saímos para a vida desejosos de não
ter que enfrentar as contradições interiores, nem de lidar com as limitações de
nossos semelhantes. Queremos paz e liberdade. Mas até onde podemos ir?
Certa vez, conversei com um homem que havia muito tempo tinha
abandonado a fé e a igreja. Ele tinha pouco mais de 40 anos e trabalhava
dirigindo um caminhão. Almoçávamos na casa de seus pais. Quando o tema
da religião se tornou mais profundo durante o bate-papo, percebi sua
inquietação. Depois de um tempo, perguntei se ele desejava voltar para a
igreja, e isso foi o suficiente para desencadear uma pequena metamorfose em
seu rosto. Com os olhos arregalados, ele lançou para fora tudo o que
represara no coração durante anos. Falou rudemente sobre a igreja e acusou
os membros de hipocrisia e arrogância. Sobrou até para um pobre pastor que
tinha passado por lá anos antes.
Depois de ouvi-lo, eu não disse nada. Olhei em sua direção, e o que me
chamou a atenção foi sua fisionomia. Após respirar fundo e beber uma
grande porção de suco, a expressão de raiva deu lugar a um rosto triste, um
olhar melancólico. Fiquei me perguntando onde sua caminhada o levaria.
No caso de McCandless, a jornada pessoal o levou a experimentar apenas
fome e solidão. Já no Alasca, abrigado em um ônibus abandonado, ele
desejou voltar, mas foi impedido pela cheia de um rio que o cercara.
Desesperado e sem alimento, acabou morrendo por inanição. A sua suposta
liberdade cobrara um alto preço.
Três anos depois de visitar aquele homem revoltado em meio ao almoço,
houve uma mudança em sua vida. Ele voltou a frequentar a igreja. Sua mãe
me contou como o filho estava mudado. Ela citou um episódio que
comprovava isso. Quando ele soube que um sobrinho estava pensando em
abandonar o caminho da fé, ele lhe disse: “Não abandone a fé e a igreja. Eu
fiz isso e garanto que não vale a pena.” Fiquei feliz e agradecido a Deus
porque sempre temos um novo começo em Jesus Cristo.
Quantos cristãos já desistiram de sua jornada com Deus? Faço essa
pergunta constantemente e, a cada nova história que acompanho de alguém
em crise espiritual, outra pergunta me detém: Quantos crentes ainda
desistirão? Uma questão leva a outra, até que surge a pergunta mais difícil:
Será que um dia eu também vou desistir?
“A fé bíblica é uma atitude adquirida gradualmente, ao longo de muitas
crises e provações”, 2 afirmou Brennan Manning. Para mim, nunca foi fácil
aceitar que a luta do cristão é diária e constante. Mas, cada dia que passa,
percebo que não tenho como fugir de uma batalha espiritual, pelo menos não
enquanto viver neste mundo de pecado. Ela é real e acontecerá
inevitavelmente.
Muitos temem o desamparo em meio ao fogo cruzado. Entretanto, essa é
uma situação em que o cristão não permanecerá por muito tempo, não
enquanto exercer a fé em Cristo. “E esta é a vitória que vence o mundo, a
nossa fé”, afirmou o apóstolo João.
3

Depois da conversão, demorei um bom tempo para perceber onde a


verdadeira batalha é travada. Só depois de algum tempo, entendi como a
vitória realmente acontece. Como afirmei antes, no início da minha jornada
cristã, eu me debatia ferozmente contra as tentações, e, não raro, sentia-me
esgotado e fracassado. Então, folheando a Bíblia certo dia, deparei-me com as
palavras de Paulo aos cristãos de Éfeso: “Porque nossa luta não é contra o
sangue e a carne, e, sim, contra os principados e potestades, contra os
dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas
regiões celestes.” Li e reli o texto, buscando os resquícios de uma possível
4

solução exegética. De repente, tudo ficou claro. Eu estava lutando sozinho e


de maneira errada. Primeiro, eu enfrentava algo maior e bem mais poderoso
do que eu – o pecado. Segundo, o inimigo conhecia meu ponto fraco e
sempre estava um passo adiante. Terceiro, minhas armas nunca funcionavam.
O que fazer?
Voltei-me para a Bíblia e encontrei outro texto revelador do mesmo
apóstolo: “Porque as armas de nossa milícia não são carnais, e, sim,
poderosas em Deus, para destruir fortalezas.” Agora, sim, eu estava
5

compreendendo que só Deus tinha condições de vencer a minha batalha. A


força é dEle, as armas são dEle e o meu “eu” deveria ser dEle. Foi então que
percebi a importância de uma pequena palavra na vida do cristão –
submissão. Em minha vida com Deus, minha maior necessidade era me
submeter a Ele, para que Sua graça fizesse a obra de me moldar, vencendo as
batalhas por mim. Isso não é nada fácil, pois submissão significa renunciar
alguma coisa. E o que é mais difícil para um pecador renunciar? Podemos
pensar nas inúmeras tentações da carne, daquilo que os olhos e o coração
desejam, mas não é disto que estou falando. Verdadeira submissão envolve
renúncia própria. É a renúncia do “eu”.
E como se renuncia ao “eu”? A resposta para tal pergunta revelou-se como
um verdadeiro bálsamo para minha vida espiritual. A justiça divina é um dom
que Deus bondosamente nos oferece. Devo ir a Jesus em contrição e
certamente a receberei. De igual modo, a fé é um dom. Vou a Cristo e a
vitória vem a mim como um presente. E a submissão completa também é
obra de Jesus em meu coração. Ao me entregar a Ele, Jesus efetua em mim
“tanto o querer como o realizar, segundo a Sua boa vontade”.6

Tempos atrás, quando expliquei esse assunto para um grupo de jovens da


igreja, um deles perguntou-me onde ficava a liberdade de escolha, já que
temos de nos submeter totalmente a Jesus. É uma pergunta que também me
fiz um dia. Mas não precisei ir muito longe para descobrir a resposta.
Olhando para mim mesmo, para a natureza pecadora que possuo, logo
percebi que nunca fui realmente livre. “Éreis escravos do pecado”, afirmou
7

Paulo aos romanos. Ao me entregar a Cristo a cada dia, percebo o que Ele
quis dizer com Suas contundentes palavras: “Se, pois, o Filho vos libertar,
verdadeiramente sereis livres.”
8

Falar sobre a submissão do “eu” não é algo novo, obviamente. No entanto,


tenho notado que muitos cristãos ainda se esforçam sozinhos em sua luta
contra o pecado. Deus participa muito pouco do processo. Como afirmou
Manning:

Muitos cristãos vivem como se fossem apenas a sua disciplina pessoal e


sua autonegação que deverão moldar o perfeito “eu”. A ênfase é no que eu
estou fazendo em vez de no que Deus está fazendo. Neste processo
curioso, Deus é um espectador velhinho e benigno que está ali para torcer
quando compareço para minha meditação matinal. 9

Ao contrário do que alguém possa acreditar, Deus não quer ser um mero
espectador de minha batalha na fé. Aliás, nem espectador nem mesmo
coadjuvante. Segundo a Bíblia, Ele anseia conduzir cada aspecto da minha
existência.
O processo de fé e submissão levou-me a ter a convicção de que Deus não
quer tornar as pessoas “boas”, mas sim “novas criaturas”. É isso o que faz o
cristianismo ser único. Muitas das grandes religiões do mundo desejam levar
o ser humano a uma espécie de processo de melhora, de aperfeiçoamento.
“Você pode ser bom”, dizem elas. Para ajudar, pode-se escolher a meditação,
a sublimação ou até a autoflagelação. Contudo, Cristo não quer que eu seja
um homem melhorado, mas um novo homem.
Hoje entendo melhor por que “os dominadores deste mundo tenebroso”
trabalham incansavelmente para me manter afastado de Jesus. Afinal, quando
vou a Ele, os dons de Sua graça são derramados sobre mim abundantemente.
Passo a experimentar o sorriso que só a verdadeira liberdade torna possível.
Na verdade, conforme eu já disse, ir a Jesus em submissão é a parte que me
cabe. Não há nada, além disso, que eu possa realizar pela minha salvação e
saúde espiritual. O supremo convite de Jesus continua sendo: “Vinde a
Mim”. Basta aceitar o convite uma única vez? Não. A necessidade de
10

entregar a mente e o coração aos Seus cuidados é diária. Em algum momento,


ter um encontro com Jesus vai ser uma escolha quase natural, mesmo que se
experimente certa indisposição vez ou outra. Minha luta será permanecer no
caminho que me conduz à presença divina. Creio que foi isso que Paulo quis
dizer a Timóteo com a ideia de combater o “bom combate da fé”. 11

John Donne, mesmo entre suas famosas crises de fé, sabia que a entrega de
si mesmo a Cristo era o único caminho optável. Ele escreveu em um de seus
famosos sonetos:

Qual cidade usurpada e de outros dependente,


Luto por admitir-vos, mas, oh!, sem resultado;
A razão, Deus em mim, a que amparar-me é dado,
Ela é uma cativa, e, além de fraca, mente.
Eu vos amo e, feliz, também seria amado,
Mas o vosso inimigo une-me um fatal laço;
Livrai-me desse nó, que seja desmanchado,
Tomai-me para vós, prendei-me no regaço,
Pois livre só serei se vós me escravizardes,
E casto só serei se me violentardes. 12

Sem dúvida alguma, submeter-se a Cristo é a única opção.

1
Morris L. Venden, Como Conhecer a Deus (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1990), p. 48.
2
Brennan Manning, A Assinatura de Jesus (São Paulo: Mundo Cristão, 2005), p.
3
1 João 5:4.
4
Efésios 6:12.
5
2 Coríntios 10:4.
6
Filipenses 2:13.
7
Romanos 6:20.
8
João 8:36.
9
Brennan Manning, O Evangelho Maltrapilho (São Paulo: Mundo Cristão, 2005), p. 17.
10
Mateus 11:28.
11
1 Timóteo 6:12.
12
John Donne, Sonetos de Meditação (Rio de Janeiro: Philobiblion, 1985), p. 61.
A fé é a mãe de todas as energias mundiais e os seus inimigos são os
pais de toda a confusão mundial.
G. K. Chesterton1

Já ouvi muita gente dizer que o cristão deve permanecer na presença de


Deus para ser vitorioso. Por anos a fio, achei isso um mistério além da
compreensão. Francamente, não me lembro de um único dia em que me
mantive na presença de Deus de forma constante e inequívoca. Até pode ter
acontecido, mas sempre me pergunto: Como poderia constatar tal coisa em
meio ao trânsito na hora do rush ou preso na irritante fila do banco ou
atendendo uma chamada do celular?
Não me entenda mal: eu também anseio a presença divina mais do que tudo.
Mas a verdade é que, embora saiba tudo que Deus representa, eu continuo
sendo o mesmo. Por exemplo: amo minha família, mas não penso nela 24
horas por dia. Para falar a verdade, dependendo do dia e da situação, passo
horas sem pensar neles. No meu relacionamento com Deus, acontece algo
parecido.
Certa vez, uma pessoa me disse que tinha a necessidade de orar três vezes
ao dia, caso contrário não seria abençoada. Falou e abaixou a cabeça,
convicta de que aquilo que acabara de me dizer era uma verdade absoluta.
Fiquei olhando para ela e, percebendo sua sinceridade, avaliei se era
necessário dizer algo. Por que achamos que nosso relacionamento com Deus
tem que ter uma espécie de moldura pré-estabelecida?
Por vezes, tento imaginar como Deus encara nossas tentativas de conhecê-
Lo mais. Quando minha segunda filha, a Evelyn, era recém-nascida, eu fazia
gestos com as mãos e falava coisinhas bobas para chamar sua atenção. Quase
sempre, ela parecia ignorar minhas tentativas de travar contato. Mesmo
sabendo que ela era apenas um bebê, sempre esperava algo mais
significativo. Então, quando finalmente ela me encarava com aqueles
olhinhos miúdos, eu ficava como que hipnotizado por sua fragilidade. De
algum lugar dentro de mim, saía o desejo incontrolável de dizer: “Filhinha,
papai te ama!” Ingenuamente, eu esperava um gesto recíproco. Por fim,
sentia-me confortado com o fato de tê-la a meu lado, envolvendo-a nos
braços. Será que Deus age assim em relação a nós?
Entrar nesse terreno me leva a outros questionamentos: Como Deus avalia
meus sentimentos? Que espécie de contato Deus espera de um pecador como
eu? Muitas vezes não encontro respostas. Então sou levado a pensar nas
palavras de Jesus: “Vinde a mim”. 2 Trata-se de um convite do único Ser que
pode revelar o caráter do Pai celestial. Chego à conclusão de que Deus leva
muito em conta nossas limitações ao se relacionar conosco e não cria
expectativas exageradas a nosso respeito, pois sempre considera o fato de que
a natureza maculada nos limita muito em nosso relacionamento com Ele.
Mesmo assim, continua nos convidando a voltar a Ele.
Hoje entendo que, quando enfrento uma crise espiritual, rogando a Deus por
socorro, estou agindo apenas como naturalmente se esperaria que um ser
humano agisse. É mais ou menos parecido com o que uma criança recém-
nascida faz quando quer que suas necessidades sejam supridas. Seu choro é
um pedido de ajuda, e os pais não hesitarão em correr em seu socorro. O que
pode parecer um simples cuidado com um bebê é, na verdade, o início de
uma relação que durará décadas. E, como me faz lembrar minha outra filha,
com seus oito anos (e também com suas necessidades), nosso relacionamento
é construído com os sorrisos e as lágrimas de cada dia.
Portanto, ir a Jesus, aceitando Seu convite (e não iríamos se Ele não nos
atraísse), talvez se equivalha àquilo que eu costumava ouvir sobre “estar na
presença de Deus”. Teremos uma experiência mais profunda e, talvez,
inédita. Como bem expressou C. S. Lewis:

Não há outro caminho que nos conduza à felicidade para a qual fomos
feitos. Tanto coisas boas como más, você sabe, são contagiantes. Quem
quer se aquecer, que fique perto do fogo; quem quer se molhar, que entre
na água. Se você quer alegria, poder, paz, vida eterna, aproxime-se ou
mesmo seja absorvido pelo que as contêm. Tais coisas não são assim
como prêmios que Deus pudesse dar, se quisesse, a qualquer pessoa. São
uma grande fonte de energia e beleza que jorra no verdadeiro centro da
realidade. Se você estiver perto dessa fonte, a névoa úmida vai atingi-lo e
o molhará; senão você permanecerá bem seco. Uma vez que alguém se
una a Deus, como deixará de viver para sempre? Uma vez que alguém se
separe de Deus, que pode acontecer senão secar e morrer? [...]
O Filho veio a este mundo e tornou-Se homem a fim de dar aos outros
homens o tipo de vida que Ele mesmo possui, mediante o que chamo de “o
bom contágio”. 3

Qual tentação pode ser mais perigosa do que aquela que procura nos
impedir de aceitar diariamente o convite do Mestre, ou seja, ir a Ele como me
encontro? Se as maneiras mais primárias pelas quais o cristão se aproxima de
Deus – oração, estudo da Bíblia, frequência à igreja, testemunho – forem
anuladas, o contágio da graça não fará efeito. De fato, eis a luta maior na vida
espiritual: ir ou não em busca de Jesus. É difícil porque, muitas vezes, parece
mais fácil fazer qualquer outra coisa do que investir nesse relacionamento.
*****

Todos nós enfrentamos uma batalha diária para realizar aquilo que sabemos
ser prioridade na vida. Veja um exemplo: tenho duas filhas que clamam por
atenção constantemente. Atividades como o meu trabalho com as igrejas, as
visitas para fazer, livros para ler e textos para escrever consomem muito o
meu tempo; quando vejo, acabou o dia e, esgotado, reservo apenas um beijo
desejando boa noite para elas. No fundo, sei que as horas do dia não seriam
suficientes para “esgotá-las” com suas brincadeiras. Será que um dia vou
deixar de estar em dívida com minhas meninas? Pergunto-me
semelhantemente quando penso no tempo que dedico na busca por Deus.
Estou falhando? Quanto? Deus está franzindo a testa por causa de minha
negligência?
Estou certo de que cristão algum está satisfeito com o tempo que reserva
para Deus. E, por mais estranho que pareça, já conheci pessoas que O
abandonaram por isso. Pessoas que se sentem culpadas por não conseguir
recompensar a Deus com seu tempo e esforços. Mas, será que realmente
Deus nos cobra com tanto afinco? Será que Ele deseja que carreguemos mais
essa frustração? Não creio nisso. Ele sabe muito bem o quanto somos
limitados e sujeitos a vacilar.
Na Bíblia, encontramos muitos exemplos de pessoas que desejavam não
falhar com Deus, mas falharam. Pense em Moisés, o homem mais manso da
Terra. Ele aceitou o chamado de Deus para enfrentar o monarca mais
poderoso de seu tempo, o Faraó. Com fé e coragem, libertou uma multidão de
escravos. No deserto, falava com Deus face a face e chegou a impedir (pela
fé) que Deus destruísse o povo rebelde, mesmo depois de quase ser
apedrejado por eles. Contudo, foi o povo que ele defendeu que o irritou a
ponto de fazê-lo perder a paciência, junto à fonte na rocha. Tal atitude
impossibilitou sua entrada na Terra da promessa.
Pense em Davi, o homem segundo o coração de Deus. Em sua fé de menino
(sendo apenas um pastor de ovelhas), avançou diante do gigante (quatro
vezes maior do que ele) tendo somente uma funda com algumas pedrinhas.
Com o poder da oração, venceu Golias e fez história. Foi coroado rei com a
promessa divina de longevidade e glória. No entanto, julgou-se tão poderoso
que considerou tomar a mulher de um de seus soldados algo insignificante.
Uma escolha que resultou em sofrimento e vergonha pública.
Pense em Pedro, um discípulo a quem Jesus chamou de “rocha”. Na
presença do Mestre galileu, não pensou duas vezes; deixou as redes e o
comércio de peixes. Escolhido como um dos três mais íntimos de Jesus,
Pedro testemunhou incríveis milagres (a cura de sua sogra foi um deles) e
participou ativamente de outros. Na transfiguração de Cristo, ele não se
aguentava de tanta emoção. Foi fortalecido em público por Jesus em várias
ocasiões, o que não o impediu de dormir no momento de crise. O sono
precedeu sua inesperada negação dAquele por quem jurou morrer.
Deus abandonou Pedro por causa de sua instabilidade espiritual?
Abandonou Abraão, Moisés ou Davi? Abandonou Adão, Jacó, Elias, Marta
ou Paulo? Não! Penso constantemente que, apesar de Deus pedir que eu
exercite minha fé nEle, Ele tem a noção exata de minhas fragilidades e sabe
quando vou vacilar. Foi a Paulo que Deus fez uma afirmação que deve estar
gravada no coração de todo cristão: “A Minha graça te basta, porque o poder
se aperfeiçoa na fraqueza.”
4

A Bíblia me dá a certeza de que, mesmo que eu venha a enfrentar uma crise


espiritual, Deus não me abandonará. O conselho bíblico também diz que não
devo desistir. Não são as coisas que faço ou deixo de fazer que mais
preocupam a Deus (não estou dizendo que não são importantes). O que
realmente importa é o quanto procuro depender mais dEle e menos de mim
mesmo.
Depender inteiramente de Deus provavelmente seja o maior desafio da vida
cristã. Reconhecer nossa impotência em vencer o pecado e nos entregarmos
todos os dias nas mãos divinas. Esse é o ponto em que deveríamos concentrar
as energias. “Ora, como recebestes a Cristo Jesus, o Senhor, assim andai
nEle”, conclamou o apóstolo Paulo. Em outras palavras, no momento da
5

nossa conversão a Jesus – experiência que aponta para o início da jornada do


cristão –, nós nos rendemos sem reservas, recebendo Sua graça e perdão
plenamente. Uma experiência que deveria se repetir, em menor escala talvez,
sempre que nos levantamos para um novo dia.
Mas, para minha perplexidade, o que geralmente acontece é o contrário.
Acordo e a mente parece pronta para me dizer: “Agora é com você; prepare-
se para tomar o controle!” Inicio as atividades do dia como se tudo
dependesse apenas de mim, da minha força e da minha inteligência. É
comum terminar o dia, quando as energias estão quase exauridas, e lembrar
que, infelizmente, não me entreguei naquele dia para Deus, não roguei Seu
auxílio, não usufruí da promessa de Sua agradável presença a meu lado.
Nessas horas, sinto-me envergonhado diante de minha negligência.
Recordo-me da oração feita por Thomas Traherne, poeta inglês do século 17:
“Ah! Deixa-me olhar demoradamente para Ti, até me transformar em Ti.
Olha para mim, até Te formares em mim, para que eu seja um espelho do Teu
brilho, uma morada do Teu amor e um templo da Tua glória.” 6 Então surge a
pergunta: Por que não fiz uma oração semelhante no início do dia, antes de
sair para a labuta? Já estive à beira de algumas crises espirituais exatamente
por me achar incapaz de manter um relacionamento significativo com Deus.
Tenho encontrado pessoas que relatam a mesma dificuldade. Um jovem me
confessou que só se lembrava de buscar a presença de Deus quando olhava
para a Bíblia em cima da mesa. Ao longo da semana, as correspondências e a
papelada do trabalho se acumulavam por sobre o Livro e apenas quando a
faxina era feita no fim de semana ele se dava conta de que havia se esquecido
completamente da vida espiritual.
Podemos nos sentir culpados quando falhamos na conexão com Deus. Mas
não creio que Deus espera impassivelmente nosso esforço. A escolha pela
aproximação vem primeiro dEle: “Não fostes vós que Me escolhestes a Mim;
pelo contrário, Eu vos escolhi a vós outros.” Mesmo quando não O
7

buscamos, Deus ainda trabalha em nosso favor. Sua onipresença nos


acompanha onde estivermos. Na verdade, o próprio desejo de buscá-Lo, que
se manifesta vez ou outra, vem da atuação incansável do Santo Espírito em
nossa vida.
*****

Parece incrível, mas tenho notado que muitos cristãos sentem o desejo de se
aproximar de Deus, de se relacionar com Ele, mas, no fundo, não sabem
muito bem o que isso significa. Quando utilizo o púlpito para desafiar os
membros a um relacionamento mais substancial com Jesus, não raro encontro
pessoas que me confessam o quanto têm se esforçado para guardar Seus
mandamentos e orientações, pois creem que assim fazendo estão mais
próximas de Deus.
Submeter-me a Deus exige esforço? Claro que sim! E esse esforço deve se
concentrar em buscar uma comunhão maior com Ele. Dessa comunhão virá o
poder para obedecer aos mandamentos ou qualquer outra coisa que nos for
requerida. Não existe mágica ou atalhos para uma vida espiritual saudável.
“Permanecei em Mim”, disse Jesus, a Videira verdadeira. “Como o ramo não
pode produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim, nem
vós o podeis dar, se não permanecerdes em Mim.” Depois do esforço vem o
8

real prazer.
“Muito bem”, você poderá dizer, “permanecer em Deus significa se
relacionar com Ele. Mas é muito difícil se relacionar com alguém que não
pode sentar no meu sofá, olhar em meus olhos e rir ou chorar com meus
dramas pessoais.” Concordo plenamente e creio que essa é uma das razões
mais agudas para muitas das crises espirituais que os cristãos enfrentam. No
entanto, que outra opção nós temos senão exercer a fé e continuarmos a
jornada? Vale a pena desistir? Claro que não!
Por vezes, o esforço para andar com Deus encontra um paralelo com a
própria luta pela sobrevivência. Quantas vezes o relógio nos desperta para
mais um dia de trabalho, e nosso desejo é apenas permanecer com o corpo
estirado na cama? O que de fato nos faz levantar e enfrentar a labuta do dia?
Bem, nós temos necessidades a serem supridas, não é mesmo? Precisamos de
alimento, de roupas, de combustível para o carro, de pagar as contas, de
cuidar dos filhos. São essas necessidades que nos fazem acordar cedo, mesmo
que a contragosto. Não temos a opção de despertar e dizer: “Chega, não
quero mais trabalhar. Estou cheio disso tudo!” A não ser que tenhamos uma
conta recheada no banco.
Quando permitimos que nosso relacionamento com Deus seja interrompido,
podemos não sentir muita diferença há curto prazo. No entanto, chega o dia
em que o coração clama por aquilo para o qual foi originalmente criado – ser
a morada do Espírito Santo. Então, a famosa frase de Agostinho vai se
cumprir: “Porque nos criastes para Vós e o nosso coração vive inquieto,
enquanto não repousa em Vós.” 9
O esforço de ir a Jesus realmente vale a pena? Que privilégio maior pode
ser dado ao pecador do que ser recebido pelo Rei do Universo? Quanto mais
tempo dedicarmos a conhecê-Lo, mais confiança teremos em Sua graça e
misericórdia. Assim, poderemos responder positivamente ao apelo do autor
de Hebreus:

Não abandoneis, portanto a vossa confiança; ela tem grande galardão.


Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que, havendo feito a
vontade de Deus, alcanceis a promessa. Porque, ainda dentro de pouco
tempo, Aquele que vem virá e não tardará; todavia, o Meu justo viverá
pela fé; e: Se retroceder, nele não se compraz a Minha alma. Nós, porém,
não somos dos que retrocedem para a perdição; somos, entretanto, da fé,
para a conservação da alma. 10

1
G. K. Chesterton, Ortodoxia (São Paulo: Mundo Cristão, 2008), p. 182.
2
Mateus 11:27, 28.
3
C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples (São Paulo: ABU, 1997), p. 100.
4
2 Coríntios 12:9.
5
Colossenses 2:6.
6
Citado por James Stuart Bell e Anthony Palmer Dawson, A Biblioteca de C. S. Lewis (São Paulo:
Mundo Cristão, 2006), p. 76.
7
João 15:16.
8
João 15:4.
9
Santo Agostinho, Confissões (São Paulo: Nova Cultural, 2004), p. 37.
10
Hebreus 10:35-39.
Para mim não é tão impressionante que Deus Se recuse a atender a
alguns de nossos pedidos. O impressionante é que sejamos ouvidos.
Philip Yancey 1

Muitos daqueles que me contam sobre sua crise espiritual acabam revelando
também como a oração extinguiu-se em sua vida. Não conseguem mais orar,
mesmo sabendo que deveriam fazê-lo. Sinto uma rápida empatia por essas
pessoas. Apesar do prazer que encontro na oração, sei que a vigilância tem de
ser constante. Mas o que dizer então quando minha espiritualidade anda mal
das pernas? Afinal, não é a oração que mantém o cristão nos trilhos da
vitória?
Como eu cresci num ambiente religioso, sempre acreditei naquilo que
outros cristãos falavam sobre oração. Salvo raras exceções, o discurso era
muito parecido: se o crente orar constantemente, será vitorioso em todos os
aspectos; se não orar, nunca terá nada além de uma fé inócua. Livros e
seminários me ensinavam que, se eu seguisse as regras corretas da vida
devocional, tudo funcionaria muito bem. Passado o tempo, essas afirmações,
tal qual comida enlatada vencida, causaram-me enjoo. Concordo com as
palavras de Philip Yancey:

Eu nunca soube, por exemplo, que prateleiras cheias de livros sobre


“como salvar seu casamento” tenham produzido algum efeito notável nos
indicadores de divórcio. Se um relacionamento com outra pessoa se
mostra tão avesso a fórmulas, com muito mais razão isso acontece num
relacionamento com Deus. O segredo de ficar na companhia de Deus
provavelmente não será encontrado num novo conjunto de fitas, em mais
um livro, nas palavras de outro pregador, num seminário de fim de
semana. 2
Posso afirmar que, depois da conversão, a oração tornou-se para mim uma
espécie de desafio. Tal como um monge da Idade Média, eu acreditava que
era necessário ajoelhar em algum momento do dia, e ali ficar balbuciando
algo para Deus. Quando seguia esse roteiro, ficava feliz por ter cumprido
uma meta espiritual. Mas, quando falhava, e na maioria das vezes era assim,
sentia-me um fracassado. Um dia, um tanto esgotado desse jogo, fiz uma
pergunta a mim mesmo: “Por que eu devo orar?”
Então resolvi prestar mais atenção às minhas preces. Notei que minha
motivação se resumia em encontrar uma espécie de recompensa. Eu orava e
desejava ser premiado espiritualmente. Afinal, se estava gastando tempo e
energia em buscar a Deus, eu esperava que Ele me premiasse com uma fé
mais robusta e atendesse a meus pedidos. O resultado foi desastroso.
Demorou até que eu experimentasse aquilo que mais se parece com uma
oração de verdade – um clamor do coração, visando conhecer melhor a Deus.
Não é difícil a oração tornar-se o oposto disso. Nos tempos de Jesus, os
líderes espirituais de Sua nação oravam com o objetivo de demonstrar poder
e ostentação. Costumeiramente, eles faziam suas preces “em pé nas sinagogas
e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens”. Alguns até mesmo
3

tocavam uma espécie de sino no momento de orar, com o claro objetivo de


chamar o máximo de atenção. Jesus condenou aqueles que oravam usando
“vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo muito falar
serão ouvidos”. Contrastando tais atitudes, Jesus pediu a Seus seguidores
4

que orassem em um lugar particular e sem perturbação.


Mas a oração satisfaz? “Por que a oração atinge patamares tão elevados
quando se pergunta sobre sua importância teórica e tão baixos quando o
assunto é satisfação real?”, pergunta Yancey. Ele conta sobre uma conversa
5

que um turista teve com um devoto judeu em frente ao Muro das


Lamentações, em Jerusalém.

O judeu oscila para frente e para trás, de olhos fechados, batendo no


peito e às vezes erguendo as mãos. Quando ele termina, o turista lhe
pergunta:
– Pelo que o senhor ora?
O judeu responde:
– Oro pela justiça. Oro pela saúde de minha família. Oro pela paz no
mundo, especialmente em Jerusalém.
– E essas orações funcionam? – quis saber o turista.
– É como falar com uma parede. 6

Quantos cristãos sinceros se identificariam imediatamente com as palavras


daquele judeu?
*****

Por um bom tempo, a oração significou para mim mais decepção do que
realização. Um dia, descobri onde eu estava errando. Toda vez que orava, eu
queria que as coisas funcionassem do meu jeito. No fundo, a oração não
passava de um mecanismo de pedidos e respostas. Quando os resultados não
eram como eu havia planejado, ficava desanimado.
Todo crente que lida com a oração como eu fazia acabará igualmente
decepcionado. Orar a Deus não é como ligar para o SAC (Serviço de
Atendimento ao Consumidor); nem como acionar uma máquina de lavar
roupas, onde aperto um botão de lavagem programada e depois de algum
tempo tudo sairá limpo e cheiroso. A oração tem de ir além.
Minhas dificuldades com a oração ainda não foram resolvidas de todo.
Mesmo assim, alguma coisa me faz sentir a necessidade de orar. Em alguns
momentos, olho para o céu estrelado (sentindo-me pequeno e impotente) e
sussurro algo como: “Senhor, estou aqui!” Noutro dia, ao acordar para uma
linda manhã de sol, oro: “Deus, que dia fantástico! Eu me entrego a Ti.” O
que me motivou a dizer coisas assim? Surge na mente uma única resposta: no
meu íntimo, desejo que Deus faça parte da minha vida.
Mas não seria Deus o maior interessado? Quero dizer, não estaria Deus
constantemente me lembrando de Sua presença e atuação em meu dia a dia?
Não é o trabalho incansável do Espírito Santo que me direciona a um
relacionamento com a Divindade? Creio que a resposta é afirmativa em todos
os casos. Chego à conclusão de que a oração, acima de tudo, revela minha
incompetência em levar as coisas do meu jeito. George MacDonald colocou a
questão da seguinte maneira:

Se eu achar que minha condição, minha consciência, é aquela de alguém


longe de casa, não a de alguém detido em alguma espécie de prisão; se eu
achar que não posso dominar nem o mundo em que vivo, nem meus
pensamentos ou desejos; que não posso acalmar minhas paixões, ordenar
minhas preferências, determinar meus objetivos, querer meu crescimento,
esquecer quando gostaria de esquecer, ou lembrar-me do que esqueço; que
não posso amar o que gostaria de amar, ou odiar o que gostaria de odiar;
que não sou o rei de mim mesmo; que não posso suprir minhas
necessidades, nem sequer sempre sei quais das minhas aparentes
necessidades devem ser supridas e quais tratadas como impostoras; se,
numa palavra, o meu ser, em todos os sentidos, é uma carga pesada
demais para mim, se não posso entendê-lo, sem sentir-me satisfeito com
ele, nem melhorá-lo, isso não vai provocar uma pausa – a pausa que
termina em oração? 7

Quando penso na minha necessidade de oração, também penso em quanto


Deus, segundo nos revela a Bíblia, deseja travar um relacionamento conosco.
Em Sua presença, o que posso oferecer são minhas vestes sujas de pecado.
Ele não só deseja me purificar, como também me levar ao conhecimento de
Seu caráter. “E a vida eterna é esta: que Te conheçam a Ti, o único Deus
verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” Se Deus deseja ser
8

conhecido, significa então que Ele vai estar próximo de nós. “Perto está o
Senhor de todos os que O invocam.” Na verdade, no cerne da oração está o
9

desejo de intimidade, tanto de nossa parte como da parte de Deus. Cada vez
que elevo meus pensamentos numa prece, posso ter a certeza de que Deus vai
estar a meu lado. E mais: naquele momento, estou me relacionando com Ele
num nível bastante substancial.
Era pela oração que Jesus mantinha contato com o Pai. A Bíblia nos diz que
em várias ocasiões Ele permaneceu orando e jejuando. Muitas de Suas
madrugadas foram reservadas para longas vigílias de oração, mesmo
extremamente cansado após um dia de atividades. Particularmente, visualizo
nesses relatos da vida de oração de Jesus uma certeza que me inspira, mas
que ao mesmo tempo me desafia. Jesus encontrava na oração a energia
espiritual que necessitava para cumprir Sua missão, algo que, segundo leio
nos evangelhos, parecia mais importante do que o alimento físico. Penso, às
vezes, que Jesus orava com a certeza de que, se não o fizesse, nunca
alcançaria o propósito de Sua vinda a este planeta. Bem, essa é a parte que
me inspira. O desafio está relacionado com a minha incapacidade de seguir
Seu exemplo. Para ser sincero, em algumas ocasiões (mas não em todas), não
encontro aquele prazer na oração como imagino que Jesus encontrava.
Quanto a natureza pecaminosa interfere na comunhão com Deus? Jesus
entende nossas limitações? Eis a resposta do apóstolo Paulo: “Não sabemos
orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós.” Outro fator a
10

ponderar é o seguinte: em vários trechos do evangelho onde Jesus explica aos


discípulos alguma coisa acerca da oração, parece clara a orientação de orar de
maneira constante e prática. Ou seja, mesmo quando não estou muito
disposto a orar, Ele diz que devo insistir na oração. Quando Jesus contou a
parábola do amigo inoportuno, no capítulo 11 do Evangelho de Lucas, sobre
o vizinho que pede pão emprestado tarde da noite, Sua conclusão não poderia
ser mais pragmática: “Por isso, vos digo: Pedi [...] buscai [...] batei”.
11

Em minha experiência atual, os ensinos de Jesus sobre oração ganharam


contornos mais realistas. Sei que orar significa relacionamento com Deus.
Mesmo assim, há momentos em que a oração não traz tanto prazer; pode ser
por causa do cansaço do dia ou por algum problema qualquer. Mas eu insisto,
pois ao orar sei que minha fé estará sendo exercitada e que meu dia será mais
completo.
Jesus sabia o quanto a oração era importante, e elevou-a a um novo
patamar. Tanto em suas vigílias noturnas quanto nas preces feitas
publicamente, Ele demonstrou que orar significa dependência do Pai. Orar é
entrar nos recônditos da fé.
Um dia, uma pessoa me perguntou se existia um jeito de se comunicar com
Deus sem ter que recorrer à oração. Eu disse que não conhecia outra maneira.
Pensativa, ela retrucou:
– Às vezes, eu sinto vontade de subir uma montanha e de lá gritar com Deus
com todas as forças.
– Bem, você poderia fazer exatamente isso – eu disse. – Mas creio que
naquele momento seu grito seria uma espécie de oração.
Para muitos cristãos, a oração virou sinônimo de desencanto. Mas não
existe outra forma de falarmos com Deus. A oração é o método. Afinal, Deus
não pode aparecer a nós em carne e osso, pois nossa natureza pecaminosa não
resistiria à Sua presença. Ele escolheu então a Bíblia e a oração como meios
de travar um relacionamento conosco.
“Isso não pode dar certo”, disse-me certa vez um cético. “Seria o
equivalente ao namoro de dois jovens apenas por carta e telefone.” Para quem
enfrenta uma crise espiritual onde a oração não cumpre o papel esperado, a
reclamação faz algum sentido. Por outro lado, a Bíblia diz que um dia aquilo
que nos parece hoje um imenso ruído de comunicação será totalmente
removido: “Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então,
veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como
também sou conhecido.” 12

A oração é um canal aberto por Deus para nossa comunicação com Ele. O
Senhor criou esse processo por amor a nós. Podemos ir à Sua presença, com
fé, em qualquer dia, a qualquer hora. Ele prometeu que vai nos ouvir, e de
alguma maneira vai Se comunicar conosco. A convicção do amor de Deus
por nós pode conduzir-nos à certeza de que, por uma forma sobrenatural e
maravilhosa, sou tratado por Ele com exclusividade. C. S. Lewis afirmou
categoricamente:

Deus tem uma atenção infinita para dispensar a cada um de nós. Não tem
de lidar conosco em conjunto. Você está tão a sós com Deus como se
fosse o único ser que Ele criou. Quando morreu, morreu por nós,
individualmente, como se cada um de nós fosse a única pessoa neste
mundo. 13

Ao longo dos últimos anos, constatei que, acima de tudo, a oração sempre
me traz paz. Exercito a fé no amor de Deus, e sou fortalecido pela certeza de
sua graça abundante. Orar me faz bem quando não me sinto muito bem. A
oração me tranquiliza, dando-me confiança. Já que o principal interessado em
que eu me mantenha longe da oração é Satanás, meu empenho no
relacionamento com Deus deve ser o principal esforço de minha vida cristã.
Mesmo quando parece mais fácil ou prazeroso gastar tempo com qualquer
outra coisa, a escolha de ir a Jesus deve ser feita com coragem e ânimo, pois
o resultado sempre será benéfico.
Por vezes, o cristão pede a Deus que sua fé seja aumentada. Sem perceber, a
própria atitude de orar – seja pedindo mais fé ou outra coisa – oferece uma
oportunidade diária de ver a fé crescer; afinal, todo aquele que se aproxima
de Deus deve crer que Ele existe “e que se torna galardoador dos que O
buscam”. 14

1 Philip Tim
Yancey e Stafford, Desventuras da Vida Cristã (São Paulo: Mundo Cristão, 2005), p.
136.
2
Philip Yancey, Oração: Ela Faz Alguma Diferença? (São Paulo: Vida, 2007), p. 198.
3
Mateus 6:5.
4
Mateus 6:7.
5
Yancey, Oração, p. 15.
6
Ibid., p. 141.
7
James Stuart Bell e Anthony Palmer Dawson, A Biblioteca de C. S. Lewis (São Paulo: Mundo
Cristão, 2006), p. 114.
8
João 17:3.
9
Salmo 145:18.
10
Romanos 8:26.
11
Lucas 11:9.
12
1 Coríntios 13:12.
13
C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples (São Paulo: ABU, 1997), p. 96.
14
Hebreus 11:6.
O bom é que Deus sempre está mais disposto a revelar do que nós
estamos interessados em conhecer.
Marcos De Benedicto 1

Algumas páginas atrás, afirmei que manter comunhão com Deus exige
empenho pessoal. O mesmo esforço precisa ser empregado quando nos
relacionamos com as pessoas. Afinal, a maneira como me relaciono com meu
próximo revela muito sobre meu relacionamento com Deus.
Isso me faz lembrar do dia em que conheci minha esposa. Ambos tínhamos
acabado de sair da faculdade e vínhamos de relacionamentos fracassados.
Apesar de nossa cautela inicial, um mês e meio depois de nos conhecermos,
iniciamos o namoro. No começo, tudo parecia emoção e felicidade. É incrível
como nessa fase nós fazemos de tudo para agradar. Mas, à medida que o
tempo foi passando, as virtudes de ambos, até ali tão patentes, já não
escondiam os defeitos, que se manifestavam sorrateiramente.
Enquanto esses defeitos vinham à tona, o amor de um para com o outro já
havia se solidificado, fazendo-nos pensar em casamento. Resolvemos então
marcar a data do noivado. A partir dali, o esforço requerido pelo
relacionamento se tornou mais nítido tanto para mim quanto para ela.
Como morávamos em cidades diferentes, os encontros aconteciam nos fins
de semana. A viagem de ônibus durava três horas. Depois de um tempo, essas
viagens começaram a me incomodar. Quando estava chegando perto do
casamento, entrar no ônibus virou um suplício. Mas, mesmo assim, eu fazia a
viagem. Por quê? Meu relacionamento com a Lauren revelou duas certezas
incontestáveis – primeiro, eu devia me esforçar para estar a seu lado;
segundo, eu me esforçava por amor.
Depois do casamento, o empenho realizado por ambos cresceu
sensivelmente. Hoje, as virtudes de cada um ainda estão lá, bem como os
defeitos. Em meio a cada crise relacional, deparamo-nos com aquela
encruzilhada enfrentada por todo casal: por um lado, o desejo de desistir; do
outro, a vontade de abraçar e perdoar. Com diligência e confiança em Deus, o
amor tem vencido até aqui.
Minha relação conjugal me mantém alerta para o devido esforço que devo
realizar para ser feliz. Na vida cristã, não é diferente. Mesmo com a natureza
espiritual que nos é concedida por Cristo, mediante a conversão, ainda
vivemos num mundo de pecado, em que tudo que é bom e amável custa o
preço da escolha. Obter uma espiritualidade sadia e vibrante exigirá uma boa
dose de esforço. A verdade é que, ao nos entregarmos a Cristo, Ele nos
coloca numa jornada de busca incessante, como bem explicou R. C. Sproul:

Jesus disse que devemos buscar. Buscar algo requer esforço. Envolve
uma busca diligente. É como a mulher que perdeu uma moeda e varreu
cada canto e fenda da casa para encontrá-la. A busca não é realizada
tirando uma soneca. Ela requer trabalho. Trabalho persistente. Não
podemos nos sentar e esperar que Deus a lance em nosso colo. 2

Isso vai contra o que muitos cristãos creem sobre a vida espiritual. Afinal,
as coisas não deveriam ser mais fáceis quando estamos com Jesus? Não
devemos confundir facilidade com inércia. Não podemos ficar esperando que
Deus resolva tudo para nós. Definitivamente, Ele não é um velhinho de barba
branca e roupa vermelha. Como afirmou Sproul, há um trabalho a realizar. E
não podemos esquecer um detalhe: Deus já fez o mais difícil, enviando Seu
Filho para morrer em nosso lugar. Portanto, se a vida parece difícil com
Deus, como seria sem Ele? O cristão em batalha espiritual encontrará
respostas e conforto na Palavra de Deus. As promessas divinas são
abundantes para aquele que tem se mantido ao lado de Cristo, a despeito dos
espinhos à beira do caminho. “Porque, quanto ao Senhor, Seus olhos passam
por toda a Terra, para mostrar-se forte para com aqueles cujo coração é
totalmente dEle”, afirma a Bíblia.
3

Quem de nós não se lembra de pelo menos uma situação em que Deus Se
mostrou “forte”, que realizou algo marcante em nossa vida? Não é por acaso
que o testemunho pessoal é tão indispensável para o cristão. Contar acerca
das bênçãos de Deus reforçará ainda mais o desejo de seguir adiante na
comunhão com Ele. Tal qual meu relacionamento com minha esposa, os bons
momentos de minha relação com Deus merecem ser mencionados, e são eles
que, de fato, fazem tudo valer a pena. Acredito sinceramente nas
contundentes palavras de Chesterton:

A massa humana tem sido forçada a sentir-se alegre acerca de coisas


pequenas, mas a entristecer-se acerca de coisas grandes. Apesar disso
(apresento o meu último dogma como uma provocação), não é natural
para o homem ser assim. O homem se identifica mais consigo mesmo, é
mais parecido com o homem quando a alegria é a coisa fundamental
dentro dele e a dor superficial. A melancolia deveria ser um inocente
interlúdio, um estado de espírito dedicado e fugaz; a pulsação permanente
da alma deveria ser o louvor. O pessimismo é, na melhor das hipóteses,
um meio-feriado nacional; a alegria é a ruidosa labuta pela qual vivem
todas as coisas.
4

Sem dúvida, todas as questões existenciais que nos afetam ao longo da vida
envolvem a presença ou a ausência de Deus. O cristão sincero sabe de sua
necessidade da graça divina. Deseja aproximar-se do Senhor, mas nem
sempre encontra motivação para levar adiante o hábito de conhecê-Lo mais.
Eu digo hábito, pois o relacionamento com Deus, como já enfatizei, exige
disciplina. Não se trata de disciplina para fazer o que Deus já fez por nós,
mas sim para escolher ser dEle. Se a motivação para isso não se mostrar tão
forte, buscarei a presença divina mesmo assim, na certeza que o tempo
investido na comunhão com o Pai sempre resultará em ricas bênçãos.
Lembro-me de uma visita que fiz a um jovem membro de minha igreja, cuja
espiritualidade encontrava-se enfraquecida. Mesmo tendo certa intimidade
com ele, minha presença parecia incomodá-lo. Quando perguntei como
estavam as coisas, ele disse:
– Não vão muito bem, não. Não tenho ido à igreja.
– É, eu sei. Por isso, estou aqui. Para orar por você – afirmei.
– Eu preciso mesmo de oração – ele disse, olhando para o chão. – Estou
desanimado, sem vontade nem de orar.
Durante os minutos seguintes, ele falou sobre como seu relacionamento
com Deus esfriara, a ponto de pensar que a sua fé não passava de uma grande
bobagem. Antes de orar com ele, pedi que fizesse a experiência de, mesmo
sem vontade, ler pelo menos um verso da Bíblia nos próximos dias, fazer
uma oração simples, e ir à igreja nos próximos cultos. Passado um mês,
encontrei-o na igreja, e ele me disse depois que minha “estratégia” tinha dado
certo. Ele estava animado novamente.
Fiquei feliz por aquele jovem. Todavia, nem todos os crentes em crise
espiritual que aconselho apresentam o mesmo resultado. Há crises que duram
anos. Por experiência própria, sei que os altos e baixos são uma realidade
inegável quando travamos um relacionamento com Deus. Por outro lado, sei
também que, no fim das contas, estamos em meio a um processo chamado
santificação. Para esses, Andrew Murray, um ministro sul-africano falecido
em 1917, escreveu:

Cristão, não tema reivindicar as promessas de Deus de fazer você santo.


Não dê ouvidos à sugestão de que a corrupção de sua velha natureza
impossibilitaria a santidade. Na sua carne nada mora de bom, e aquela
carne, embora crucificada com Cristo, ainda não está morta, mas procurará
constantemente insurgir-se e conduzir você para o mal. Mas o Pai é o
agricultor. Ele enxertou a vida de Cristo na sua vida. A vida santa é mais
poderosa do que a vida má; sob o olhar vigilante do agricultor, a nova vida
má está ali, com sua tendência inalterada para insurgir-se e manifestar-se.
Mas a nova natureza também está ali – o Cordeiro vivo, a sua santificação,
está ali –, e por meio dEle todos os seus poderes são santificados à medida
que vão ganhando vida e são levados a frutificar para a glória do Pai.
E agora, se você quiser levar uma vida santa, permaneça em Cristo, a sua
santificação. Olhe para Ele como o Santo de Deus, feito homem para
comunicar-nos a santidade de Deus. Ouça quando a Escritura ensina que
há em você uma natureza nova, um homem novo, criado em Cristo Jesus
em justiça e verdadeira santidade. Lembre-se de que essa natureza santa
que está em você é singularmente adequada para conduzir uma vida santa
e praticar todos os santos deveres, na mesma medida que a natureza antiga
é adequada para praticar o mal. 5

A santificação é uma jornada de entrega diária, e não o esforço solitário


para vencer os pecados da vida. Trata-se de um trabalho do Espírito Santo em
nosso coração, moldando-nos à semelhança de Jesus Cristo. Ele afirmou que
veio ao mundo para salvar os doentes, não os sãos. Somos doentes espirituais.
O que um doente mais necessita é de remédio e tratamento. Devemos crer nas
promessas do grande Médico e seguir Suas receitas.
*****

No fim de um culto de domingo, ao cumprimentar um rapaz que tinha sido


batizado havia pouco tempo, perguntei se a esposa dele estava bem (ela não
tinha tomado a mesma decisão do marido, e apareceu na igreja poucas vezes).
Ele aproveitou minha pergunta para desabafar a frustração com a resistência
dela. Falou do empenho em ensinar-lhe os princípios bíblicos da salvação,
mas notava que ela não reagia. Perguntei se ele identificava algum ponto em
especial que a fazia permanecer cética. Ele suspirou e disse: “Ela diz que não
sente nada de diferente quando lhe falam de religião.”
Na vida com Cristo, não é o místico nem o sentimental que conta. É a fé
naquilo que Deus afirmou que faz a diferença. Por exemplo, se eu desejo o
perdão de Deus e peço isso a Ele, não será um arroubo de alegria ou um
aceleramento de coração que comprovará que estou perdoado. A certeza do
perdão virá depois que eu confessar meu erro, e crer que Ele cumpriu a
promessa de me perdoar. É exatamente isso que nos afirma o apóstolo João:
“Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os
pecados e nos purificar de toda injustiça.” Seguindo a orientação da palavra
6

de Deus, não preciso perguntar se fui mesmo perdoado. A exemplo do


paralítico de Betesda, cuja história se encontra no quinto capítulo do
Evangelho de João, eu me erguerei não porque sinta os músculos da perna
remexendo depois de 38 anos de paralisia, mas sim porque Deus diz para que
eu fique em pé.
Em minha infância, quando minha mãe me dizia que Deus perdoava meus
pecados, eu costumava perguntar: “Quantas vezes Deus vai me perdoar?” A
resposta sempre pronta dela me intrigava ainda mais: “Quantas vezes forem
necessárias.” Foi somente depois dos vinte e poucos anos de idade que
compreendi que minha mãe estava certa. De lá para cá, caí em pecado muitas
vezes e, pela fé, creio que Deus ainda me perdoa.
Quando falo da importância da razão, bem como da fé, não o faço em
detrimento dos sentimentos do coração. Diz a Bíblia que Deus “pôs a
eternidade no coração do homem”. Do desejo de conhecer a Deus, vem o
7

uso inequívoco da razão e a atividade indispensável da fé. A vida espiritual


não existe sem a presença desses três elementos – sentimento, razão e fé.
Somente quando eles estão unidos, a experiência com Deus pode ser bem-
sucedida e atingir novos patamares. A vida cristã não é apenas uma teoria,
mas é, também, uma experiência.
A preocupação principal do cristão deve ser a manutenção de sua
experiência com Cristo. Nunca é suficiente apenas iniciar esse
relacionamento. Ele deve crescer, amadurecer e frutificar. Paulo relatou aos
cristãos de Filipos o quanto significava seu relacionamento com Jesus: “Sim,
deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do
conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as
coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo e ser achado nEle”. 8

São palavras impressionantes de alguém que, antes de cair do cavalo e ficar


cego pela manifestação divina, procurava agradar a Deus com a força de suas
ações, entre elas, arrastar os cristãos para a prisão.
Mas há algo na afirmação de Paulo que deve ser destacado: conhecimento
de Cristo Jesus. Que espécie de conhecimento de Cristo você possui? É obvio
que a medida do conhecimento que temos de alguém revelará o nível de
nosso relacionamento com essa pessoa. Ninguém espera conhecer alguém de
forma substancial da noite para o dia, ou em poucas horas. O próprio Jesus
revelou, por uma parábola, em quanto tempo chegaremos ao conhecimento
dEle:

O reino de Deus é assim como se um homem lançasse a semente à terra;


depois dormisse e se levantasse, de noite e de dia, e a semente germinasse
e crescesse, não sabendo ele como. A terra por si mesma frutifica;
primeiro a erva, depois a espiga, e, por fim, o grão cheio na espiga.9

Nessas palavras de Jesus, encontramos a razão de a santificação ser uma


obra da vida toda. Entre o lançamento da semente e a colheita final, um longo
caminho deverá ser percorrido. Isso é exemplificado em O Peregrino, obra-
prima de John Bunyan, livro em que o personagem principal enfrenta toda
sorte de situações pelas quais sua fé e esperança são provadas. E, ao contrário
do que alguém possa afirmar, saber isso antecipadamente não deve nos
desencorajar. A recompensa é mais saborosa depois da batalha travada e
vencida.
“A comunhão com Deus é a única necessidade da alma acima de todas as
outras necessidades”, escreveu George MacDonald. “Nossas carências
existem para que entremos em comunhão com Deus, nossa carência
eterna.” Penso nas palavras de MacDonald sempre que sou levado a uma
10
nova crise espiritual. Deus trabalha incansavelmente pela nossa salvação. Se
nossa parte no processo todo é especialmente escolher estar ao lado dEle,
então todo nosso empenho deve se concentrar nessa escolha.
A busca pela espiritualidade pode se tornar um hábito muito agradável,
mais do que qualquer outro na vida do cristão. Ao levantar-nos pela manhã, o
coração poderá ser tomado pela alegria da vida, pois nos entregaremos a
Deus, cujo cuidado por nós é certo. Ao longo do dia, seja em casa, no
trabalho, no trânsito ou na padaria, poderemos ainda nos lembrar de que
estamos nas mãos do Pai. Teremos a cada instante a oportunidade de elevar
os pensamentos a Ele. Confiaremos que, quando o dia terminar e o corpo
cansado esparramar-se na cama, nossas decisões terão sido tomadas em meio
a uma entrega plena e constante. Um texto clássico de Ellen White aconselha:

Consagre-se a Deus pela manhã. Faça disso sua primeira atividade. E


ore: “Toma-me, Senhor, para ser Teu inteiramente. Aos Teus pés deponho
todos os meus projetos. Usa-me hoje em Teu serviço. Permanece comigo,
e permite que toda a minha obra se faça em Ti.” Essa é uma questão
diária. Cada manhã consagre-se a Deus para esse dia. Peça-lhe que
examine todos os seus planos, para que eles sejam levados avante ou não,
conforme a indicação de sua providência. Assim, dia a dia poderá entregar
nas mãos de Deus a sua vida, e ela se tornará cada vez mais semelhante ao
modelo de Jesus. 11

Perseverar em nossa entrega diária a Deus resultará em crescimento,


amadurecimento e frutos para nossa felicidade. Mesmo que em determinados
dias não estejamos com muita disposição para investir tempo no
relacionamento com Deus, vale a pena insistir. A medida de nossa dedicação
ditará a qualidade de nosso sorriso e a força de nossa esperança.
Hoje é o dia para que as palavras de Paulo aos atenienses, ditas há dois
milênios, ecoem pelo coração: “Pois nEle vivemos, e nos movemos, e
existimos.” 12

1
Marcos De Benedicto, O Brilho da Vida (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2008), p. 21.
2
R. C. Sproul, Como Viver e Agradar a Deus (São Paulo: Cultura Cristã 1998), p. 25.
3
2 Crônicas 16:9.
4
G. K. Chesterton, Ortodoxia (São Paulo: Mundo Cristão, 2008), p. 261.
5
James Stuart Bell e Anthony Palmer Dawson, A Biblioteca de C. S. Lewis (São Paulo: Mundo
Cristão, 2006), p. 227.
6
1 João 1:9.
7
Eclesiastes 3:11.
8
Filipenses 3:8, 9.
9
Marcos 4:26-28.
10
James Stuart Bell e Anthony Palmer Dawson, A Biblioteca de C. S. Lewis (São Paulo: Mundo
Cristão, 2006), p. 194.
11
Ellen G. White, Caminho a Cristo (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1996), p. 70.
12
Atos 17:28.
A simplicidade da fé que subsiste em Cristo toma a promessa pura e
simples de Deus, a palavra nua, e nela descansa.
Richard Hooker 1

Foi logo após a minha conversão, aos 18 anos, que iniciei um estudo
particular sobre um tema que me parecia muito importante: a justificação pela
fé. Orbitando ainda na esfera do primeiro amor, peguei minha Bíblia e anotei
todos os textos que pude encontrar sobre o tema da salvação.
A cada verso que lia, eu montava uma espécie de quebra-cabeça teológico.
As peças tinham a ver com a natureza criadora e santa de Deus; a natureza
pecaminosa da humanidade pós-Adão; o sacrifício de Cristo na cruz em
nosso lugar; a confissão e entrega do pecador; a justiça imputada; a graça
antes das obras e o início da santificação. À medida que me aprofundava no
estudo, pude perceber que vivenciava exatamente o que a Bíblia procurava
ensinar. Foram momentos de enlevo espiritual. Então, depois de um tempo,
enfrentei minha primeira crise espiritual. Não tinha tanto que ver com a
Teologia, mas sim com o que eu estava experimentando em minha recém-
adquirida espiritualidade. Mesmo depois da conversão, eu cria que a vitória
na vida cristã seria uma realidade diária. Mas não aconteceu. Não como eu
esperava.
Novamente, abri a Bíblia à procura de respostas. Desta vez, decidi ouvir
também o que autores cristãos tinham a dizer sobre o assunto. Tudo isso
durou uns dois ou três anos. Quando já estava na faculdade de Teologia
(ainda tentando entender o assunto), deparei-me com o capítulo 15 do
Evangelho de João. Ali, Jesus faz uso de uma parábola para tocar o coração
de seus discípulos:

Eu sou a videira verdadeira, e Meu Pai é o agricultor. Todo ramo que,


estando em Mim, não der fruto, Ele o corta; e todo o que dá fruto limpa,
para que produza mais fruto ainda. Vós já estais limpos pela palavra que
vos tenho falado; permanecei em Mim, e Eu permanecerei em vós. Como
não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na
videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em Mim. Eu
sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em Mim, e Eu, nele, esse
dá muito fruto; porque sem Mim nada podeis fazer. Se alguém não
permanecer em Mim, será lançado fora, à semelhança do ramo e secará; e
o apanham, lançam no fogo e o queimam. Se permanecerdes em Mim, e as
Minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos
será feito. Nisto é glorificado Meu Pai, em que deis muito fruto; e assim
vos tornareis Meus discípulos. Como o Pai Me amou, também Eu vos
amei; permanecei no meu amor. Se guardardes os Meus mandamentos,
permanecereis no Meu amor; assim como também Eu tenho guardado os
mandamentos de Meu Pai e no Seu amor permaneço. Tenho-vos dito estas
coisas para que o Meu gozo esteja em vós, e o vosso gozo seja completo. 2

Já havia passado por essa passagem antes, mas nunca algo em especial tinha
me chamado a atenção. Daquela vez, uma palavra saltou do texto:
permanência.
Curiosamente, nessa época, eu estava trabalhando durante meio período em
uma plantação de uvas pertencente à faculdade. O funcionário responsável
nos entregava uma espécie de tesoura para podarmos os ramos que estavam
crescendo irregularmente. Na verdade, os ramos cortados eram aqueles que
não estavam produzindo fruto.
Depois da poda dos ramos irregulares, eu olhava para os ramos saudáveis,
muitos deles com os devidos frutos em desenvolvimento, e pensava nas
palavras de Jesus. Se nós somos como ramos na Videira verdadeira que é
Cristo, temos apenas que crescer e produzir os frutos. Era exatamente aí que
minha dúvida estacionava. Se eu tinha me submetido a Jesus, por que muitas
vezes não crescia e produzia frutos como o esperado? Foi a palavra
“permanência” que acabou por me mostrar que existia algo mais. Eu
realmente permanecia nEle?
Pude perceber que permanecer na Videira não significava permanecer na
igreja, frequentando-a regularmente, muito menos permanecer em outros
ramos, dependendo da companhia e das orações de outros crentes mais
maduros que eu. Permanecer na Videira não tem que ver com o desejo de ser
melhor. Não se trata de uma mera profissão de fé religiosa. A real
permanência acontece quando existe um relacionamento pessoal.
Então investi mais tempo em meu relacionamento com Cristo. A vida
espiritual tornou-se mais vigorosa. Mas ainda tinha algo errado. Não me
sentia vitorioso. Li novamente a parábola da videira. Então encontrei a peça
que faltava no quebra-cabeça. Apenas uma pequena frase elucidou tudo:
“Sem Mim”, disse Jesus, “nada podeis fazer”.
Naquele dia, eu compreendi que não bastava me relacionar com Deus. Há
inúmeras pessoas que se relacionam umas com as outras e não raro se
separam. Eu necessitava de um relacionamento baseado na dependência. O
que quero dizer com isso? Era mais ou menos assim: eu queria viver com
Deus e me entregar a Ele. Queria que Ele realizasse uma obra em minha vida.
Então ansiava por contemplar os frutos de meu relacionamento com Ele.
Quando os frutos aparecessem, eu queria mostrar os frutos para todo mundo e
dizer: “Não são bonitos?” Em outras palavras, eu desejava que a obra de
Deus em minha vida fosse vista por todos como resultado do meu empenho
ao Seu lado. Estava tentando produzir fruto à parte da Videira. Eu não
percebia o quanto minha dependência era apenas de mim mesmo.
Obviamente, nunca deu certo. Na vida cristã, ou dependemos totalmente de
Jesus ou não. Eu não tenho que me sentir realizado porque meu esforço em
fazer as coisas certas foi recompensado. A realização baseia-se em aceitar
que Cristo faz aquilo que nunca conseguirei por minha conta, ou seja, ter uma
vida santificada.
Hoje, não tenho dúvida de que, enquanto eu me entregar a Cristo,
procurando um relacionamento de dependência com Ele, estarei crescendo
como ramo saudável e produzindo fruto. Provavelmente, nem sempre notarei
esse crescimento, pois os pecados me trazem de volta à realidade da minha
incapacidade. Mas, enquanto o coração se entregar a Ele, a obra divina não
cessará.
Meu estudo sobre a justificação pela fé já perdura por anos, e acho que
ainda não terminou. O que me faz ser grato a Deus todo dia é o fato de a
doutrina da salvação não ser apenas conceitual, mas vivencial. O que a Bíblia
ensina na teoria tem-se cumprido na prática na vida de muitos cristãos ao
longo do tempo. A salvação em Cristo é dinâmica, e, enquanto a vida
permitir, a experiência do cristão atingirá novos horizontes. “Aquele que
aguarda o melhor, envelhece na decepção, e o que espera sempre o pior, mais
depressa se gasta, porém aquele que crê mantém eterna mocidade”, afirmou
3

Sorën Kierkegaard.
Isso não significa que não exista o perigo de tudo o que Deus realizou em
nossa vida se desfazer em fumaça. Os perigos estão por aí, e os inimigos não
são poucos. A nova natureza em Cristo não extinguiu a velha. A natureza
pecaminosa pode ser subjugada, mas sempre estará disposta a retornar
quando uma oportunidade lhe for apresentada. R. C. Sproul comentou o
seguinte sobre isso:

A nossa antiga natureza grita como louca. Cria um tumulto, como


nenhuma outra coisa morta seria capaz de fazer. Em suma, o velho homem
continua a nos incitar ao pecado. É por isso que a vida cristã exige viagens
diárias ao trono da graça para uma nova e vital experiência de perdão. 4

Permanecer em Cristo significa ausência de pecado? “Todo aquele que


permanece nEle não vive pecando”, afirmou o apóstolo João. À primeira
5

vista, pode parecer que João está falando da vida sem nenhum pecado, desde
que se permaneça em Jesus. Mas a questão, em minha opinião, envolve
aquele que peca deliberadamente. Quem permanece nEle não vive na prática
constante do pecado, apesar de cair vez ou outra.
Pedro nos oferece um bom exemplo do que representa pecar mesmo
estando com Cristo. Ele, como os demais discípulos, participou do milagre de
alimentar mais de cinco mil pessoas. De noite, já dentro do barco e indo em
direção ao outro lado do lago, ele comemorou sua união com o Mestre.
Subitamente, irrompeu a tempestade, tão forte que ele e os outros não
conseguiram manter a embarcação a salvo. Jesus, depois de uma vigília de
oração em terra, apareceu andando sobre a água. Pedro, atônito, fez um
pedido: “Senhor, manda-me ir ter contigo, por sobre as águas. E Ele disse:
Vem!” 6

Pedro iniciou a caminhada sobre o mar indo em direção a Cristo, olhando


fixamente para Ele. Porém, seu olhar desviou-se para as ondas. Quem sabe
para conferir se os demais discípulos notavam sua coragem. Então,
imediatamente ele começou a afundar.
Pedro não queria soçobrar, assim como o crente em franco relacionamento
com Jesus não deseja pecar. A questão é que existem momentos em que nos
descuidamos da nossa dependência dEle, e passamos a depender dos próprios
esforços. O resultado sempre será desastroso.
*****

Reconheço que toda essa história de permanecer em dependência absoluta


de Deus pode parecer complicada demais. Pode até passar a ideia de que não
temos muita liberdade de escolha. Talvez agora você entenda melhor o que
eu quis dizer, num capítulo anterior, com a ênfase de que devemos nos
empenhar no relacionamento com Cristo. Manter o olhar fixo em Jesus pode
parecer tão difícil como deixar de pecar, mas é a única maneira de o cristão
não afundar nas ondas revoltas do pecado.
Contudo, não devemos esquecer que a promessa de Jesus é que Ele vai
permanecer em nós se buscarmos permanecer nEle. E qual é a maneira de Ele
permanecer em nós? “E nisto conhecemos que Ele permanece em nós, pelo
Espírito que nos deu.” Jesus enviou o Consolador para que Sua presença
7

fosse para nós hoje tão marcante quanto o foi para os discípulos naquela
época. É o trabalho incansável do Espírito Santo que apazigua a alma em
momentos de forte pressão, dando-nos energia espiritual para prosseguir.
Sem a Sua incrível atuação, sucumbiríamos antes mesmo de começar.
A essa altura, você já notou que eu não acredito em um “segredo mágico”
para o sucesso espiritual. Não basta saber que temos de permanecer em
Cristo. Se algo pode fazer alguma diferença, motivando-nos a não desistir, é a
certeza do amor de Deus. A convicção de que somos amados e aceitos, a
despeito de nossos erros, faz-nos fortes para superar as limitações. Não
podemos esquecer que, antes de falar da permanência na Videira, Jesus fez
um convite de amor. Não um convite para os sãos, mas para os doentes. Ele
anseia receber o errante e oferecer Sua graça abundantemente. De fato, o
amor de Cristo nos constrange.
“Confiar que o amor de Deus tem a resposta para o pecado não é uma
espécie de passaporte para a permissividade?”, perguntou-me alguém certa
vez. Sinceramente, não creio nisso. E me amparo na seguinte declaração de
Jesus: “Se guardardes os Meus mandamentos, permanecereis no meu amor.” 8

Deus não pede nada ao pecador que não seja em resposta ao Seu amor. Ou
seja, somente um relacionamento baseado inteiramente no amor levará à
fidelidade.
A certeza do amor de Deus tem posto um fim em minha irritante mania de
querer exercitar os músculos da minha fé diante dos outros. Não tenho mais a
ilusão de achar que o pecado desaparecerá só porque faço isso ou aquilo.
Procuro hoje concentrar minha atenção em conhecer mais profundamente o
caráter amável de Deus. Quanto mais O contemplo, mais patente se torna
minha pecaminosidade. Então corro imediatamente em busca da Sua infinita
graça. Enquanto esse ciclo se repetir, o propósito de Deus se concretizará em
mim.
“Deus é a minha fortaleza e a minha força e Ele perfeitamente desembaraça
o meu caminho”, afirmou Davi. Sentir-se vitorioso na vida espiritual é ter
9

plena convicção de que Jesus vai à nossa frente, abrindo caminho para que os
tropeços sejam cada vez mais raros. Enquanto o olhar estiver voltado para
Ele, buscando não perdê-Lo de vista, alcançaremos novas e ilimitadas
experiências espirituais.

1
James Stuart Bell e Anthony Palmer Dawson, A Biblioteca de C. S. Lewis (São Paulo: Mundo
Cristão, 2006), p. 155.
2
João 15:1-11.
3
Sorën Kierkegaard, Temor e Tremor (Rio de Janeiro: Ediouro, s/d), p. 38.
4
R. C. Sproul, Como Viver e Agradar a Deus (São Paulo: Cultura Cristã, 1998), p. 142.
5
1 João 3:6.
6
Mateus 14:28, 29.
7
1 João 3:24.
8
João 15:10.
9
2 Samuel 22:33.
A santidade não consiste apenas em fazer a vontade de Deus. Ela está
em querer a vontade de Deus.
Thomas Merton 1

É interessante notar que a bênção maior que Deus nos deixou – a Sua
infinita graça – não seria uma realidade para nós se não fôssemos pecadores.
Quem poderia pensar que aquilo que mais nos afasta de Deus (o pecado)
acabou por causar a maior demonstração de amor do Universo? O sacrifício
de Jesus no Calvário revelou até onde Deus foi capaz de ir para nos redimir.
“Como antes, o cristianismo entrou em cena”, escreveu Chesterton. “Entrou
de maneira alarmante com uma espada e separou uma coisa da outra. Separou
crime do criminoso.” O fato de ter Deus feito o que fez em prol de cada um
2

de nós, parece grande demais para ser verdade. Lembro-me de que minha
dentista me contou sobre o desejo de ver o esposo aceitando Jesus e sendo
batizado.
– Ele crê que Deus existe e que a Bíblia é a Palavra de Deus? – perguntei.
– Sim, ele não tem dúvidas quanto a isso – ela afirmou.
– Então, o que ele alega para adiar sua decisão?
– Ele diz que não entende toda aquela história de Cristo ter morrido na cruz.
Como alguém se dispõe a morrer em lugar do outro sem pedir nada em troca?
Com certeza Deus vai cobrar pelo que fez. Meu marido não sabe se está
preparado para o que Deus vai pedir em troca de tão grande favor.
Infelizmente, ideias como essa não são incomuns. Por que é tão difícil
aceitar a graça divina? Por que achamos que precisamos fazer algum tipo de
“favor” a Deus pelo que recebemos dEle? Por que parece mais fácil crer que
o pecado será purgado só depois que experimentamos algum tipo de esforço
pessoal para pagar pelo erro que cometemos?
A graça de Deus não cobra preço do pecador (ao contrário do pecado) e, por
isso, ela é maravilhosamente perfeita para nós. Todavia, existe uma verdade
bíblica acerca da graça divina que nenhum cristão deveria esquecer: a graça
por si só não é suficiente para levar alguém à salvação. Na verdade, a graça
divina é o maior dom que alguém poderia receber, mas não tem efeito algum
sem a operação da fé. “Pela graça sois salvos, mediante a fé”, afirmou Paulo
3

aos Efésios. É a fé que me faz aceitar que meu pecado foi perdoado, depois
que busquei a Jesus em arrependimento. Afinal, a graça divina não fará efeito
algum sem que a pessoa a aceite. E ninguém aceitará a graça sem ter fé
nAquele que a oferece.
Tenho pensado muito sobre a graça de Deus. Cheguei à conclusão de que
não é fácil lidar com ela. Obviamente, o problema não está na graça, mas,
sim, em mim. É muito fácil ir para uma das extremidades. De um lado, posso
querer sacrificar a mim mesmo, cumprir algum favor em troca da aceitação e
perdão de Deus. Do outro, posso afundar no pecado, cometendo os mesmos
erros sem preocupação, crendo que, no fim, Deus dará um jeito de me salvar.
Em ambos os casos, e graça é miseravelmente deixada de lado.
A graça de Deus deve levar o cristão a duas realidades: primeira, não temos
pelas próprias forças como atingir o ideal de Deus, pois necessitamos de Sua
ajuda constante; segunda, devo batalhar com todas as forças para estar unido
a Ele. Uma situação paradoxal? Somente à primeira vista. O que estou
tentando afirmar é que a minha salvação depende totalmente de Deus me
aceitar como sou. Mas a salvação não acontecerá se eu não aceitá-la.
Portanto, a salvação acontece da união da graça de Deus com o exercício da
fé do pecador. Uma via de mão dupla. Lembrando que tanto a graça como a
fé são dons de Deus. Quando penso nisso tudo, vem-me à mente a seguinte
pergunta: Que mais Deus poderia fazer para nos salvar?
Em seu famoso livro Discipulado, Dietrich Bonhoefer apresenta sua visão
sobre o que a graça deve representar para o cristão. “A graça preciosa é o
evangelho que se deve procurar sempre de novo”, ele afirmou, “o dom pelo
qual se tem que orar, a porta à qual se tem que bater.” O empenho de
4

procurar, orar ou bater à porta é nada mais do que o exercício da fé. Quanto
mais se busca a Jesus com fé, mais a graça manifestará sua beleza ao pecador.
Bonhoefer enfatizou aquilo que ele cria ser o resultado de aceitar a graça pela
fé:
Felizes aqueles que, no singelo discipulado de Jesus, encontram-se
possuídos por essa graça, podendo, humildes em espírito, louvar a graça
de Cristo que tudo opera! Felizes aqueles que, no conhecimento desta
graça, podem viver no mundo sem para ele se perderem, e para os quais,
no discipulado de Cristo, a pátria celestial é uma certeza tal que estão
verdadeiramente livres para a vida neste mundo! Felizes aqueles para os
quais o discipulado de Jesus Cristo nada mais é senão o discipulado!
Felizes aqueles que, neste sentido, se tornaram cristãos para os quais a
mensagem da graça foi misericórdia. 5

Bonhoefer celebrava a graça de Deus com entusiasmo, mas nunca perdia de


vista o risco que ela traz consigo. Para aqueles que tratam a graça de Deus
como “graça barata”, sua mensagem foi contundente:

A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo


sem a disciplina comunitária, é a ceia do Senhor sem confissão dos
pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça
sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo,
encarnado. 6

O cristão em amadurecimento sabe muito bem que Deus conhece sua


sinceridade. Não importa se alguém aceita a graça de Deus ou a desdenha,
nosso íntimo não é segredo para o Criador. Ele é capaz de reconhecer se o
arrependimento é de fato genuíno. Qualquer movimento que eu fizer com o
objetivo de agradar a Deus será reconhecido imediatamente por Ele como
produto imediato da fé ou não.
Também é evidente, a meu ver, que nenhum cristão sincero tentará pregar
uma mentira para si mesmo. Se Deus conhece todas as coisas, até aquelas que
se encontram escondidas no recôndito do coração, ser sincero com Deus (e
consigo mesmo) é uma opção inegociável. Podemos dizer: “Sou pecador e só
a graça de Deus pode me ajudar”, e estaremos falando a pura verdade.
Quanto mais encontros eu tenho com a graça de Deus, mais forte fica a
certeza de que alguma mudança está ocorrendo em mim. Uma mudança para
melhor, é claro. A graça, sem me cobrar pelos erros ou dizer que sou um
fracasso, sempre me estimula a continuar lutando. É mais ou menos como
aquele pregador novato. Depois de seus primeiros sermões, ele ouve dois
tipos de críticas. Alguns dizem: “Olha, vai ter que melhorar!” Outros
afirmam: “Não desista, logo você chegará lá!” Sem dúvidas, o segundo
comentário é muito mais incitante. Na vida cristã, quando em meio a uma
crise espiritual, a certeza da graça se apresenta como um estímulo poderoso.
Como conselheiro espiritual, posso falar da importância que a mensagem da
graça de Deus tem para o crente, e de como é fácil perdê-la de vista. Afinal,
vivemos num mundo onde a graça não viceja senão em pequenas brechas.
Não é raro sermos contagiados com a falta de graça que nos rodeia e
esquecermos que em Jesus existem perdão e paz. Na verdade, toda manhã é
uma oportunidade de recomeçar.
Lembro-me de uma entrevista com um casal de idosos do sertão nordestino
a que assisti num programa de televisão. A repórter tinha sido levada a eles
por uma situação impensável: eles estavam casados havia 40 anos e, nessas
quatro décadas de convivência, nenhuma palavra foi dita de um para o outro.
Tudo começou quando, logo após o casamento, alguém procurou o marido e
contou-lhe que a esposa estava, supostamente, traindo-o com outro homem
da cidade. Nada ficou provado, mas o orgulho ferido contabilizou quatro
décadas de total silêncio em represália à esposa.
A falta da graça na vida daquele casal do Nordeste contrastou com outra
história televisiva a que assisti um tempo depois. Após uma briga com o pai,
um jovem disse: “Eu te odeio!” O pai, por sua vez, afirmou: “Eu nunca vou te
perdoar!” O filho foi embora, e nunca mais voltou. Depois de duas décadas,
uma equipe de reportagem colocou-os frente a frente:
– Por que você nunca voltou? – perguntou o pai emocionado.
– Você disse que nunca me perdoaria.
– Eu perdoei você no dia seguinte à sua partida.
– Se eu soubesse, teria voltado no mesmo instante!
Pai e filho se abraçaram, aos prantos, na frente das câmeras de TV. Durante
anos estiveram separados, mas a certeza do perdão e aceitação os uniu
novamente. No caso do casal nordestino, estão juntos há anos, mas a falta de
perdão os mantém tragicamente distantes um do outro.
Lembro-me dessas histórias e penso nos desafios da vida espiritual. Cada
vez que caímos em pecado, somos tentados a achar que Deus nos rejeitará. Se
acreditarmos nessa suspeita, permaneceremos longe de Sua presença.
Podemos fugir e nunca mais voltar. Entretanto, existe o caminho inverso,
solidificado na promessa de Jesus: “O que vem a Mim, de modo nenhum o
lançarei fora”. Podemos ir a Jesus com a certeza de Sua graça, encontrando
7

nEle perdão e motivação para permanecer ao Seu lado.


Nenhum cristão deveria perder de vista que a graça nada mais é do que a
mão estendida de Deus àquele que necessita se levantar a cada nova queda. A
graça faz parte do plano de Deus para nos resgatar e regenerar. Se esse
trabalho dependesse da nossa atuação, certamente estaríamos em maus
lençóis. Como bem colocou Morris Venden:

Na vida espiritual, igualmente, a vitória é sempre ganha por olhar a Jesus


e depender de Seu poder. Nunca é conseguida por tentar combater o
pecado e o diabo. Nunca é conseguida por tentar “ajudar” a Deus,
permitindo-Lhe fazer parte do trabalho, enquanto nós ficamos de lado,
dando estocadas no inimigo. Vitória é um setor de Deus. Pode-se apenas
cooperar mediante a busca de um relacionamento dia a dia com Ele,
permitindo-Lhe assim combater o inimigo por nós. 8

O progresso do cristão inclui momentos de crise espiritual? Infelizmente,


sim. Enquanto estivermos neste mundo maculado pelo pecado, estaremos
sujeitos a isso. Algumas vezes, a crise se manifestará de forma aguda; outras,
superficialmente. Em ambos os casos, Jesus nos oferece Sua graça para que
em nenhum momento o cristão fique só. Se o descompasso espiritual nos
colocar de joelhos a chorar, será nessa mesma posição, em oração e entrega,
que poderemos encontrar forças para nos levantar novamente.
“Cristo conhece a máquina ruim que você tenta dirigir”, escreveu C. S.
Lewis. “Prossiga. Faça o que puder. Um dia [...], ele jogará essa máquina no
ferro-velho e lhe dará uma outra.” De fato, há momentos em que ficamos
9

cansados de correr “a carreira que nos está proposta”; mas, por outro lado,
com a imensa ajuda que Cristo nos oferece, deixar de avançar seria uma
escolha temerária e imprudente. Como escreveu John Donne:

Mas tenta-me o inimigo nosso e, por mais que o tente,


Nem por um só instante venço-lhes as manhas e a arte;
Que a Tua graça me arme com asas, e não mais erro;
Como um ímã, suspende meu coração de ferro. 10

Depois do turbilhão provocado por uma crise espiritual, a graça de Deus


pode nos fazer “repousar em pastos verdejantes”, e levar-nos às “águas de
descanso”. Só precisamos crer e confiar.
11

1
Thomas Merton, Homem Algum É uma Ilha (Campinas: Verus, 2003) p. 61.
2
G. K. Chesterton, Ortodoxia (São Paulo: Mundo Cristão, 2008), p. 159.
3
Efésios 2:8.
4
Dietrich Bonhoeffer, Discipulado (São Leopoldo: Sinodal, 2004), p. 10.
5
Ibid., p. 19.
6
Ibid., p. 10.
7
João 6:37.
8
Morris Venden, 95 Teses Sobre Justificação Pela Fé (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1992),
p. 18.
9
C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples (São Paulo: ABU, 1997), p. 122.
10
John Donne, Sonetos de Meditação (Rio de Janeiro: Philobiblion, 1985), p. 35.
11
Salmo 23:2.
A escolha que se nos apresenta hoje é simplesmente a mesma de
sempre: saber se devemos ser deste ou de outro mundo; se devemos
viver num egoísmo sem amor ou viver para amar a Deus.
Joy Davidman 1

Certa vez, visitei um membro de minha igreja em crise espiritual. Era um


senhor de quase 60 anos. Depois de me contar sobre o desânimo que lhe
tomara conta, apelei para que não desistisse, pois a Bíblia afirma que muito
em breve o pecado não mais existirá, e seremos transformados para uma vida
eterna com Deus. A reação dele não foi nada animadora:
– Não sei se posso crer nisso.
– Como assim? – perguntei.
– Veja bem, sou cristão desde criança e sempre ouvi dizer que um dia Deus
acabará definitivamente com o pecado e as tragédias. Mas, depois de tantos
anos, não creio que acontecerá tão cedo.
– Bem, você sabe, Deus nunca deixou de cumprir Suas promessas – eu
insisti.
– Não duvido das promessas de Deus, apenas acho que não viverei o
suficiente para ver a promessa se cumprir. Minha mãe já falava da redenção
eterna em seus dias e, antes dela, minha avó. Olha só, já entrei na velhice, e
nada de Deus pôr um fim à história do pecado.
Fiquei olhando para aquele homem, ponderando em suas afirmações,
enquanto ele mantinha o olhar distante. Quando voltei para casa, suas
palavras ainda me incomodavam, não tanto porque revelavam a ansiedade
espiritual dele, mas porque continham uma verdade que eu mesmo tinha de
reconhecer. Eu também cresci em um ambiente religioso e, desde pequeno,
ouvi minha mãe e os pregadores da igreja enfatizarem que o reino do pecado
estava com os dias contados. Na minha adolescência, à medida que a década
de 1980 ficava para trás, a mensagem a respeito do fim, em minha igreja, foi
alçada à condição de “a mais importante para o momento”! Em meados dos
anos 90, ainda recém-converso, eu não tinha a menor dúvida que tudo estaria
acabado até o ano 2000. Pois bem, a virada do século passou, as pessoas
continuam vivendo sua vida, e até agora nada. Por quanto tempo ainda vamos
esperar?
“A vida (segundo a fé) se parece muito com a história de um seriado de
revista”, afirmou Chesterton. “Ela termina com a promessa (ou a ameaça) de
‘continuar no número seguinte’.” E quando a coisa começa a demorar
2

demais, quando os indícios de que a jornada está chegando ao fim não


aparecem, quando um dia leva ao outro e ambos são exatamente iguais, o
desânimo inevitavelmente bate à porta da alma.
Por outro lado, parece que nós, seres humanos, temos um sério problema
quando o assunto é “aguardar” o momento certo de as coisas acontecerem.
Por exemplo, temos dificuldade em aguardar o sermão terminar, o sinal do
fim da aula tocar, o expediente do trabalho cessar. Será que temos relutância
também em aguardar o tempo de Deus?
Nessas horas, lembro-me dos discípulos de Jesus. Depois de três anos com
o Mestre, eles não aguentavam mais esperar. Ele era o Rei que a nação
aguardava e necessitava, pensavam. Com os poderes que possuía, Jesus não
encontraria dificuldades em levar Seu povo de volta ao apogeu. Isso ocupou
de tal forma os pensamentos dos discípulos que começaram a discutir para
ver quem seria o maior na administração real de Jesus.
A morte de Jesus destruiu mais do que os sonhos daqueles homens.
Colocou abaixo toda e qualquer aspiração de que o reino de Deus poderia ter
alguma coisa que ver com a ambição e o orgulho humano. Na verdade, a
crise gerada pela crucificação de Jesus deveria frutificar para uma nova
jornada, em busca do verdadeiro reino.
De fato, depois da Sua morte, Jesus apareceu ressurreto para encaminhar os
discípulos a um novo começo. Finalmente, eles visualizaram, sem névoas à
sua frente, o propósito maior de Deus para Seus filhos. A curta passagem
neste mundo de pecado não deve aparentar ser totalmente sem significado ou
objetivo. Deus utiliza os anos de nossa vida para nos moldar e nos preparar
para um mundo melhor. Como afirmou C. S. Lewis: “Este mundo é o ateliê
de um grande escultor. Nós somos as estátuas, e corre o boato pelo ateliê que
alguns de nós, um dia, vamos receber vida.” 3

Ao preparar os discípulos para o futuro, tudo indicava um fracasso; mas o


fato é que Jesus fez um ótimo trabalho. Entre pescadores rudes (alguns eram
como “filhos do trovão”), ambiciosos coletores de impostos e camponeses
sonhadores, saiu um grupo que abalou o mundo à sua volta com a mensagem
do reino de Deus. Mesmo tendo se desgastado na proclamação do evangelho,
enfrentado perseguições, a esperança na recompensa celestial marcou os
escritos de muitos deles. Seria difícil alguém imaginar o antes instável Pedro
afirmando coisas como:

Não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a


provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse
acontecendo. Pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois
coparticipantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação
de Sua glória, vos alegreis exultando.
Não retarda o Senhor a Sua promessa, como alguns a julgam demorada;
pelo contrário, Ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum
se perca, senão que todos cheguem ao arrependimento. 4

Reconheço que entregar-se a Deus em total submissão não é tão fácil


quanto alguns fazem parecer. Muito menos aceitar a ideia de que a vida, com
suas dores e decepções, pode fazer parte de um plano maior de Deus. Mas é
exatamente isso que a Bíblia nos ensina. Cito o exemplo dos discípulos
porque eles, no início da caminhada com Cristo, eram pessoas comuns que
esperavam coisas incomuns dentro de um plano humano, fadado ao fracasso.
Jesus mostrou a eles outro caminho. Uma estrada incomum para pessoas
comuns dentro de um plano divino, que inevitavelmente se concretizará. O
que os discípulos tinham que fazer era caminhar por ele. E foi o que
aconteceu. Resta-nos seguir o exemplo deles.
*****

Ainda estamos neste mundo, enfrentando diariamente o mal e suas


consequências; todavia, Jesus nos conclama a nunca nos esquecermos do
mundo porvir. Manter o olhar no horizonte, aguardando o sol de um eterno
amanhecer, com certeza nos manterá firmes em meio às crises da vida. Como
bem expressou Lewis:
Um olhar sempre voltado para a eternidade não é (como algumas
pessoas pensam atualmente) uma forma de fuga ou ilusão, mas é uma das
obrigações do cristão. Isso não quer dizer que devamos deixar este mundo
como está. Se consultarmos a História, veremos que os cristãos que mais
fizeram por este mundo foram justamente os que mais pensaram no outro
mundo. Os próprios apóstolos, que empreenderam a conversão do Império
Romano, os grandes homens que construíram a Idade Média, os
evangélicos ingleses que aboliram o mercado de escravos, todos deixaram
sua marca na terra precisamente porque sua mente estava ocupada com as
coisas do Céu. Desde que os cristãos pararam de pensar na outra vida é
que começaram a falhar nesta. Quem almejar o Céu, terá a Terra como
acréscimo; quem almejar a Terra, não terá nem uma nem outra coisa. 5

Num passado recente, cada vez que eu lia sobre a galeria bíblica de heróis
de fé, no capítulo 11 da carta aos Hebreus, eu tinha a sensação de estar diante
de pessoas que tiveram uma experiência espiritual que eu nunca poderia
atingir. Afinal, tratava-se de indivíduos que, por meio da fé, “subjugaram
reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas, fecharam a boca dos leões,
extinguiram a violência do fogo”, entre outras coisas. Hoje, sinceramente,
não penso mais assim. Creio que eles eram pecadores como nós, pois
enfrentavam crises espirituais como qualquer cristão. Contudo, um detalhe
sobressaía na vida deles, o qual foi percebido pelo autor de Hebreus: eles
aspiravam a “uma pátria superior, isto é, celestial”. Não permitiram que sua
visão da promessa de um mundo melhor fosse obliterada em momento
algum.
O cristão em amadurecimento sabe que Deus nunca começa alguma coisa e
a deixa por terminar. O apóstolo Paulo afirmou que “Aquele que começou
boa obra em vós há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus”. Às vezes,
6

sentimos uma forte sensação de que as coisas não se encaixam como o


esperado, mas isso não significa que Deus não continue exercendo Seu
amoroso trabalho em nosso favor. Ele prometeu que jamais nos abandonaria.
Fico imensamente triste quando me deparo com uma pessoa que decide não
levar adiante sua fé, seu compromisso com Deus. Não pretendo julgar quem
quer que seja, mas penso constantemente nas situações que levam alguém a
tomar a decisão de interromper a caminhada com Cristo, de abandonar a
esperança de um mundo novo. O que faltou? Existe alguma outra opção? São
perguntas que me vêm à mente. Algumas dessas situações eu conheço muito
bem, pois também estou movimentando minhas pernas para o lar. Contudo,
ainda não me deparei com um problema em que a fé em Cristo deixe de
oferecer o suporte para lidar com situações adversas. Cada vez que exercito a
fé, mais ela me leva a crer que o prêmio final vai valer a pena.
Portanto, eis a verdade que deve ser guardada no coração: com Cristo à
nossa frente, venceremos todas as batalhas. E, depois da batalha final,
receberemos uma coroa dourada que representará a concretização do sonho
de Deus para Seus filhos, isto é, vida eterna e felicidade sem fim.
“O otimismo cristão baseia-se no fato de NÃO nos encaixarmos no
mundo”, disse Chesterton. E ele complementa:

O filósofo moderno me dissera muitas e muitas vezes que eu estava no


lugar certo, e eu ainda me sentia deprimido mesmo aceitando isso. Mas eu
ouvira que estava no lugar ERRADO, e minha alma exultou de alegria,
cantando como um pássaro na primavera. O conhecimento revelou e
iluminou aposentos esquecidos da casa escura da infância. Agora eu sabia
por que a relva sempre me parecia estranha como a barba verde de um
gigante, e por que eu podia sentir saudades de casa estando em casa.7

Um dia desses, eu estava lendo uma porção da Bíblia para minha filha mais
velha, exatamente onde fala do início do pecado.
– Por que Adão e Eva foram expulsos do jardim, papai?
– O mal nos separa das coisas mais importantes da vida, filha – eu disse,
filosofando em hora inadequada.
– Eles nunca voltaram para casa?
– Não!
– Quando eles vão voltar? – ela perguntou com um olhar de expectativa.
– Em breve... em breve – foi o que pude dizer.
O mundo é o espaço onde nossa peregrinação acontece. Como em toda
jornada, existem momentos de alegria e outros de tristeza. Por vezes, o sol
ilumina o caminho; em outras ocasiões, a escuridão baixa, provocando temor.
De qualquer maneira, não devemos abandonar a caminhada. Assim como os
dias avançam inexoravelmente, a vida segue adiante. Chegar ao verdadeiro e
glorioso lar deve ser o que nos mantém avançando.
Suspeito que, quando atravessarmos os portões do lar eterno, ele se revelará
mais colorido e maravilhoso do que imaginávamos.

1
James Stuart Bell e Anthony Palmer Dawson, A Biblioteca de C. S. Lewis (São Paulo: Mundo
Cristão, 2006), p. 21.
2
G. K. Chesterton, Ortodoxia (São Paulo: Mundo Cristão, 2008), p. 225.
3
C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples (São Paulo: ABU, 1997), p. 90.
4
1 Pedro 4:12, 13; 2 Pedro 3:9.
5
C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples (São Paulo: ABU, 1997), p. 76.
6
Filipenses 1:6.
7
G. K. Chesterton, Ortodoxia (São Paulo: Mundo Cristão, 2008), p. 133.

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