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UBIRAY MARIA NOGUEIRA DE REZENDE

FONÉTICA E FONOLOGIA DA LÍNGUA ENAWENE-NAWE (ARUAK):


UMA PRIMEIRA ABORDAGEM

FL
Rio de Janeiro
2003
ii

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO


FACULDADE DE LETRAS

FONÉTICA E FONOLOGIA DA LÍNGUA ENAWENE-NAWE (ARUAK):


UMA PRIMEIRA ABORDAGEM

Ubiray M. N. de Rezende

Dissertação apresentada ao
Departamento de Lingüística da
Faculdade de Letras da Universidade
Federal do Rio de Janeiro como
requisito parcial para a obtenção do
título de mestre em lingüística.

Rio de janeiro, 2003


iii

FONÉTICA E FONOLOGIA DA LÍNGUA ENAWENE-NAWE (ARUAK):


UMA PRIMEIRA ABORDAGEM

Esta dissertação foi julgada adequada para a obtenção do grau de Mestre em


Letras/Lingüística e aprovada em sua forma final pelo Programa de Pós-graduação em
Lingüística da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Aprovada por:

__________________________________________
Orientadora: Profª Drª Bruna Franchetto (UFRJ/MN)

__________________________________________
Profª Drª Marília Facó Soares (UFRJ/MN)

__________________________________________
Profª Drª Yonne de Freitas Leite (UFRJ/MN)

Suplentes:

__________________________________________
Profª Drª Myrian Azevedo de Freitas (UFRJ/FL)

__________________________________________
Profª Drª Luciana Raccanello Storto (USP)

Rio de Janeiro, 2003


iv

Rezende, Ubiray M. N. de.


Fonética e Fonologia da Língua Enawene-Nawe (Aruak):
Uma Primeira Abordagem / Ubiray Maria Nogueira de Rezende.
Rio de Janeiro: UFRJ / Faculdade de Letras, 2003.
xv, 157p.
Orientadora: Bruna Franchetto
Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio de
Janeiro, Faculdade de Letras, 2003.
1. Línguas Indígenas 2.Aruak 3. Língua Enawene-Nawe
4. Fonologia 5. Fonética - I. Fonética e Fonologia da Língua
Enawene-Nawe (Aruak): Uma Primeira Abordagem
II. Dissertação (Mestrado - UFRJ / Faculdade de Letras)
v

Aos Enawene-Nawe,
pelo conhecimento compartilhado:
Awe kaxata dixo nawe,
Awe kaxata kadiani!

Aos meus pais,


Joaquim e Petronília,
e
aos meus irmãos,
pelo apoio e carinho de sempre
que transpõe qualquer distância.
vi

Agradecimentos

São tantos os caminhos e descaminhos na direção de algo que almejamos. Um


desafio pode parecer intransponível, se não houver muita perseverança. E a perseverança
é resultado não só de nosso esforço próprio, mas do apoio e carinho da família e dos
amigos.

Muitas vezes, entretida no trabalho, paro e relembro muito da solidariedade dos


companheiros de estudos lingüísticos do Museu Nacional e dos amigos do Alojamento da
UFRJ.

Quero aproveitar a oportunidade para agradecer, por exemplo, a dedicação na


ocasião em que estive hospitalizada em Petrópolis no final da Conferência Internacional
de Lingüística, quando Bruna, Luciana, Denny, Maria Helena, Rosana, Andres, Amélia,
Leonardo, Marilene, Nadja, Luís e Mara cuidaram para minha recuperação.

Aos amigos de luta e de festa, compartilhadores de vida sobretudo, muito


obrigado pelo carinho: Nadja, Luís, Leonardo, Saulo, Jaqueline, Maria, Edite, Mara,
Lucilene e Ana que me deram muita força quando do meu regresso ao Rio de Janeiro.

Ana Tonini, grande guerreira, sua personalidade firme foi-me muitas vezes fonte
de inspiração e força.

Muito devo à minha orientadora, Bruna Franchetto, cuja dedicação ultrapassou de


longe os limites do dever. O ambiente aconchegante e familiar de seu escritório
recuperou-me o ânimo. Seus comentários foram indispensáveis para clarear o
encadeamento de minhas idéias. Contudo, adianto, desde já, que os possíveis equívocos
cometidos neste trabalho são inteiramente meus.

Especial reconhecimento dedico, também, aos professores do Curso de


Especialização em Lingüística do Museu Nacional pela disponibilidade incansável no
exercício de sua profissão, orientando e apoiando os alunos de uma maneira que vai
muito além de seus deveres: Marcus Maia, Márcia Dámaso, Marília Facó e Bruna
vii

Franchetto. Mírian Lemle, sempre com suas conjecturações instigantes para enriquecer as
nossas discussões sobre as novas teorias lingüísticas, é admirável.

É importante mencionar os cursos oferecidos pelo Setor de Lingüística do Museu


Nacional, os quais implicam diretamente na concepção desta dissertação: “Especialização
em Línguas Indígenas Brasileiras” (apoiado pela CAPES) e “Gramática Gerativa e
Cognição”, neste último destaco, mais especificamente, a disciplina de fonética e
fonologia ministrada por Marília Facó Soares. Foi bastante enriquecedor, também, o
curso sobre línguas indígenas proporcionado pelo Programa de Pós-Graduação em
Antropologia Social do Museu Nacional.

Os preciosos comentários dos membros da banca examinadora de minha


dissertação, Drª Yonne Leite e Drª Marília Facó, em muito contribuíram para a revisão do
presente trabalho. Marília Facó enviou-me, inclusive, comentários detalhados por escrito
que, além possibilitar a conscientização de vários aspectos teóricos tratados neste
trabalho, permitiu também o encadeamento de reflexões que serão de fundamental
importância para a continuidade de nossa pesquisa.

Sinto-me grata, também, a Didier Demolin e Luciana Storto por terem me


proporcionado a oportunidade de acompanhar o trabalho experimental minucioso por eles
desenvolvido sobre os segmentos da língua Karitiana, o que ampliou minha percepção de
vários processos articulatórios e acústicos, facilitando a leitura de Ladefoged e
Maddieson (1996) e inspirando-me futuros estudos.

Expresso meus agradecimentos à FUNAI de Cuiabá por disponibilizar uma cópia


do mapa do território Enawene-Nawe, utilizado no Anexo-I desta dissertação. A
digitalização e adaptação desse mapa e do mapa de Mato Grosso, ao formato do presente
trabalho, devo à minha dedicada amiga Edite Maria da Silva, programadora visual do
NUTES (Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde) - UFRJ.

Agradeço a CAPES e ao Departamento de Pós-Graduação em Lingüística da


Faculdade de Letras da UFRJ pela bolsa de estudos concedida e pelo auxílio financeiro
viii

nas primeiras viagens a campo. Quero, também, expressar meu reconhecimento ao


trabalho desenvolvido pela coordenadora do Setor de Pós-Graduação em Lingüística da
UFRJ, Cristina Costa, ao técnico em assuntos educacionais José Pellizon e à Elza Marília
Barroso, funcionária da Seção de Ensino, pelo incentivo à pesquisa e por agilizarem o
andamento dos serviços administrativos, apesar das limitações estruturais, financeiras e
burocráticas pelas quais sempre sofreu a universidade pública.

À OPAN (Operação Amazônia Nativa), agradeço pela oportunidade de conviver


com os Enawene-Nawe durante um ano e meio. Particularmente, Andrea Jakubazko,
Pedro Henrique Passos, Fabrício Moura e família “Buscapé”, pessoas que primeiro me
receberam ao chegar em Brasnorte para minha primeira viagem a Matokodakwa (aldeia
atual dos Enawene-Nawe). Estimada companheira Elizabeth, sempre solidária nos
trabalhos do dia-a-dia em área. Querida família a de Gilberto e Nena, pessoas com quem
sempre pude contar e confiar durante minha estadia em Brasnorte. Não esqueço, de forma
alguma, meu caro amigo Floriano Júnior, artesão de amizades raras. Adu e Gilton
revelaram-se presenças amenas em dias difíceis.

Aos Enawene-Nawe, agradeço a hospitalidade e paciência em ensinar-me sua


língua, em dividir comigo suas gostosas risadas. É muito difícil especificar nomes,
porque encontrei muita satisfação em várias pessoas no ensino de sua língua e cultura,
muitos foram aqueles que me transportaram em seus barcos com toda segurança. Uma
lista de nomes seria enfadonhamente extensa. Contudo, cito aqui Lolawenakwaene pela
acolhida em sua casa; Laliroseatokwe pelas longas conversas que tivemos; Kolalo pela
cumplicidade de simples, mas importantes, momentos do dia-a-dia; Atolorineto sotaloti
kadiani (‘curandeira’ de verdade) pelo cuidado quando estive adoentada em Cuiabá;
Kamameene pelo apoio nos momentos complicados.

Penso este trabalho como sendo uma forma de retribuir o investimento que os
Enawene dedicaram ao compartilharem comigo o seu conhecimento. É uma forma de
retribuição, no sentido de que tal conhecimento seja repassado a outras pessoas
interessadas, que possam inclusive complementá-lo teoricamente e utilizá-lo mais
ix

diretamente nos trabalhos desenvolvidos com esta sociedade. Este pensamento


acompanhou-me durante as atividades que lá desenvolvi e no decorrer do processo de
redação desta dissertação.

Não esqueci as palavras proferidas por Tiholoseene Kalainaloene. Ele disse que os
Enawene-Nawe começam a ensinar a sua língua para cada pessoa que lá chega para
trabalhar, mas que, quando estavam de certa forma preparadas, as pessoas iam embora e
eles teriam que retomar todo o trabalho com a próxima pessoa substituta. Tinham a
impressão de que viviam uma eterna repetição, sem condições de avançarem no seu
ensino e na sua aprendizagem. Chegamos a um acordo quando lhes disse, a ele e outros
presentes, que uma forma de não jogar fora o trabalho deles e das outras pessoas também,
era que esses conhecimentos pudessem ser registrados através da escrita para que outras
pessoas tivessem acesso a ele, corrigindo-o, incluindo novas informações e retirando
outras que possam ter sido mal interpretadas. Deveríamos, sobretudo, intercambiar
conhecimentos, informações. Não poderíamos ‘jogar ao vento’ nossos investimentos.

Então, caso este trabalho venha a contribuir nesta direção, sentirei que seu
objetivo fora alcançado.
“Les gens ont des étoiles qui ne sont pas les mêmes.
Pour les uns, qui voyagent, les étoiles sont des guides.
Pour d’autres elles ne sont rien que de petites lumières.
Pour d’autres, qui sont savants, elles sont des problèmes.
Pour mon businessman elles étaient de l’or.
Mais toutes ces étoiles se taisent.
Toi, tu auras des étoiles comme personne n’en a...”1

(Le Petit Prince por Antoine de Saint-Exupéry, 1943)


.

1
“As pessoas possuem estrelas que não são as mesmas.
Para uns, que são viajantes, elas são guias.
Para outros, elas não são nada mais que pequenas luzes.
Para outros, que são cientistas, elas são problemas.
Para o homem de negócios, elas eram ouro.
Mas todas as estrelas se calam.
Você, você possuirá estrelas como nenhuma outra pessoa as possui.”
(Tradução de Ubiray Rezende)
x

FONÉTICA E FONOLOGIA DA LÍNGUA ENAWENE-NAWE (ARUAK):


UMA PRIMEIRA ABORDAGEM

Resumo

O presente trabalho realiza uma descrição preliminar da fonética e da fonologia da


língua Enawene-Nawe (Aruak/Maipure). A língua Enawene-Nawe conta com
aproximadamente 360 falantes que vivem em uma única aldeia à margem esquerda do
Rio Iquê, tributário da Bacia do Juruena, em Mato Grosso/Brasil. O primeiro capítulo
introduz a forma de organização da dissertação e informações sobre o povo Enawene-
Nawe e o sistema de escrita de sua língua. No segundo capítulo, fornecemos um
inventário dos segmentos fonéticos e uma lista de dados transcritos foneticamente. No
terceiro capítulo, apresentamos o inventário fonêmico, comentando as principais
alternâncias fonéticas. Neste mesmo capítulo, tratamos também dos processos
fonológicos mais freqüentes que atestamos no presente estudo. Nossa abordagem é
baseada no Modelo de Geometria de Traços de Clements e Hume (1995). O quarto
capítulo constitui-se em uma primeira abordagem à estrutura silábica, acento e entonação.
O quinto capítulo reúne as informações obtidas no decorrer deste primeiro estudo e
pontua alguns temas que merecem investigações mais aprofundadas.

Palavras-chave: Línguas Indígenas – Aruak – Língua Enawene-Nawe


Fonologia - Fonética
Autora: Ubiray Maria Nogueira de Rezende
Orientadora: Prª Drª Bruna Francheto
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
xi

PHONETIC AND PHONOLOGY OF THE ENAWENE-NAWE LANGUAGE


(ARAWAK): A FIRST APPROACH

Abstract

The present work provides a preliminary description of the phonetics and


phonology of the Enawene-Nawe language (Maipure/Arawak). The Enawene-Nawe
language has approximately 360 speakers who live in a single village on the left bank of
the Iquê River, a tributary of the Juruena Basin, in the state of Mato Grosso/Brazil. The
first chapter presents how the dissertation is organized and introduces basic information
about the Enawene-Nawe people and the orthographic system of their language. In the
second chapter, we provide an inventory of the phonetic segments and a list of
phonetically transcribed data. Then, in the third chapter, we present the phonemic
inventory, commenting on the main kinds of phonetic alternations. In this same chapter,
we are also concerned with the most frequent phonological processes we have attested in
the present study. Our approach is based on the Feature Geometry Model proposed by
Clements and Hume (1995). The fourth chapter conveys a tentative first approximation to
syllable template, accent and intonation. The fifth chapter groups together the general
findings gathered during this first study and points to some themes that deserve further
investigations.

Key words: Indigenous Languages - Arawak – Enawene-Nawe Language


Phonology – Phonetics
Author: Ubiray Maria Nogueira de Rezende
Advisor: Dr. Bruna Franchetto
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ / Brazil
xii

LISTA DE ABREVIAÇÕES E NOTAÇÕES CONVENCIONAIS

IPA International Phonetic Alphabet (Alfabeto Fonético Internacional)


(//) barras inclinadas = representação fonêmica
([]) colchetes = representação fonética
(~) til entre representações fonéticas = alternância
(*) asterisco = formas agramaticais ou não-atestadas
(») sinal usado do lado superior esquerdo da sílaba que carrega o acento primário

(«) sinal usado do lado inferior esquerdo da sílaba que carrega o acento secundário

(.) ponto = fronteira silábica


(-) hífen = fronteira de morfemas

Utilizamos alguns dos diacríticos sugeridos por Ladefoged e Maddieson (1996, p.15).
Esses diacríticos aparecem subscritos nos símbolos fonéticos consonantais (veja Anexo
2):
a) 5 laminal denti-alveolar

b) 6 laminal alveolar

c) = laminal pós-alveolar

As glosas são utilizadas somente quando é necessário explicitar a segmentação dos


morfemas. Neste caso, apresentamos o dado transcrito foneticamente na primeira linha, as
glosas na segunda linha e a tradução livre na terceira linha. As glosas são fornecidas de
acordo com as abreviações abaixo:
1 primeira pessoa do singular
2 segunda pessoa do singular
3 terceira pessoa do singular
1pl primeira pessoa do plural
O morfema zero

fem feminino
xiii

masc masculino
pos possessivo
posp posposição
prog aspecto progressivo

(σ) sílaba
A = Ataque silábico (onset)
R = Rima
N = Núcleo
C = Coda
( r ) = raiz
CO = Cavidade Oral
sont = soante
xiv

ÍNDICE

1- INTRODUÇÃO...........................................................................................................16
1.1- Quem são os Enawene-Nawe?.................................................................................18
1.2- A Grafia Enawene-Nawe.........................................................................................22

2- INVENTÁRIO FONÉTICO PRELIMINAR...........................................................27


2.1- Segmentos Vocálicos................................................................................................28
2.1.1- Vogais Orais...........................................................................................................28
2.1.2- Vogais Nasais.........................................................................................................35
2.1.3- Ditongos..................................................................................................................38
2.1.4- Vogais Longas ou Seqüências de Vogais?...........................................................40
2.1.5- Semivogais..............................................................................................................42
2.2- Segmentos Consonânticos........................................................................................44
2.2.1- Plosivas...................................................................................................................44
2.2.2- Nasais......................................................................................................................48
2.2.3- Tepe.........................................................................................................................50
2.2.4- Fricativas................................................................................................................51
2.2.5- Aproximante Lateral.............................................................................................53
2.3- Quadros Fonéticos das Vogais e Consoantes.........................................................55

3- INVENTÁRIO FONOLÓGICO PRELIMINAR....................................................61


3.1- Fundamentos Teóricos............................................................................................61
3.1.1- Procedimentos de descoberta..............................................................................62
3.1.2- Geometria de Traços ( Modelo de Clements e Hume 1995).............................63
3.2- Os Traços Distintivos..............................................................................................69
3.2.1- Sistema Vocálico..................................................................................................70
3.2.2- Sistema Consonantal...........................................................................................83
3.3- Alguns Processos Fonológicos do Enawene-Nawe à Luz da Fonologia de
Geometria de Traços.....................................................................................................93
xv

3.3.1 - Fundamentos Teóricos.......................................................................................93


3.3.2 - Palatalização e Coronalização.........................................................................100
3.3.3 – Labialização......................................................................................................111
3.3.4 - Nasalização........................................................................................................116
3.3.5 - Síncope e formação de segmento de contorno................................................120
3.3.6- Harmonia Vocálica.............................................................................................123

4- OBSERVAÇÕES SOBRE ESTRUTURA SILÁBICA, ACENTUAÇÃO,


ENTOAÇÃO ................................................................................................................129

5- CODA........................................................................................................................143

6- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................147

7- ANEXOS....................................................................................................................151
Anexo 1- Mapa do Estado de Mato Grosso
Anexo 1.a- Entorno da Área Enawene-nawe
Anexo 1.b- Mapa da Área Enawene-Nawe
Anexo 2- Figuras: Articuladores Ativos e Região Alvo
xvi

1- INTRODUÇÃO

O presente trabalho realiza uma descrição preliminar da fonética e da fonologia da


língua Enawene-Nawe (Aruak/Maipure).
Esta dissertação está organizada em 5 capítulos. Neste primeiro capítulo,
apresentaremos breves informações sobre o povo Enawene-Nawe e o sistema de escrita
de sua língua.
O segundo capítulo dedica-se à apresentação do inventário fonético preliminar,
fornecendo uma lista de dados transcritos foneticamente. A terminologia utilizada para
descrever os segmentos é, a princípio, tradicional. Contudo, na seção final, onde
agruparemos em um quadro os segmentos fonéticos anteriormente identificados,
apresentamos as definições de traços propostas Clements e Hume (1995). Essas
definições fornecerão os subsídios necessários à compreensão dos traços e da forma
como serão avaliados na Geometria de Clements e Hume nos capítulos seguintes.
Teceremos, ainda, algumas considerações sobre as variações dialetais observadas nos
dados coletados.
No terceiro capítulo, inventariamos os segmentos fonológicos, organizando os
dados a partir dos recorrentes procedimentos de descoberta: oposição, variação livre,
distribuição complementar. Para avançarmos nas nossas investigações, nos valeremos do
modelo Auto-segmental da Geometria de Traços proposto por Clements e Hume (1995).
Através deste modelo, poderemos avaliar a estrutura interna dos segmentos e as múltiplas
relações estabelecidas por cada um de seus traços, individualmente ou juntos, como
membros de uma classe natural. Ainda neste capítulo, trataremos dos processos
fonológicos da língua Enawene-Nawe sob a perspectiva da Geometria de Clements e
Hume. A fundamentação teórica que orienta o presente trabalho será apresentada,
também, no decorrer deste capítulo.
No quarto capítulo, teceremos observações sobre a estrutura silábica, a entoação e
os problemas relativos à atuação do padrão acentual na língua Enawene-Nawe.
17

O quinto e último capítulo, intitulado "Coda", reúne as informações obtidas ao


longo do desenvolvimento desta primeira fase de estudo. Nesta ocasião, indicamos
também temas relevantes para futuros estudos.
Antes de darmos início às outras seções deste capítulo, comentaremos
informações básicas sobre a tipologia morfo-sintática da língua Enawene-Nawe
adquiridas no decorrer de nossa pesquisa. Precisamos pontuar, também, alguns aspectos
sobre os dados e as transcrições utilizadas neste trabalho.
De acordo com uma caracterização geral, a língua Enawene-Nawe é uma língua
de núcleo final. Assim, a ordem básica dos constituintes na sentença é OV, conjugada
com as sequências Verbo – Auxiliar, Genitivo – Nome e Nome – Posposição. A
morfologia da língua é polissintética, mostrando-se tipicamente Aruak com uma rica
variedade de classificadores sufixados a nomes e verbos. Os pronomes pessoais ocorrem
como formas livres ou afixos. São prefixos com nomes, posposições e quando sujeito
verbal. Apenas a 3a pessoa objeto ocorre sufixada ao verbo. O verbo apresenta também
sufixos aspectuais, mas não contém marcas de tempo. Quanto a estas características
gerais, a Língua Enawene Nawe é bastante semelhante à língua Haliti (conhecida como
Paresi), também pertencente à família Aruak. Porém, maiores especificações referentes à
natureza destas semelhanças e das possíveis diferenças entre estas línguas e delas com as
demais línguas da família Aruak ainda não podem ser feitas, devido ao parco material
existente sobre a língua Haliti e da incipiência da documentação da língua Enawene-
Nawe. Estas investigações visam preencher tais lacunas.
Os dados utilizados nesta dissertação foram coletados e transcritos na aldeia
Matokodakwa, dentre o período de outubro de 2000 e março de 2002. Alguns dados
foram também gravados durante estadias intermitentes na cidade de Brasnorte, neste
mesmo período.
Nas nossas transcrições utilizamos, principalmente, os símbolos do IPA (Alfabeto
Fonético Internacional). Quanto ao uso de alguns diacríticos, preferimos usar alguns
daqueles sugeridos por Ladefoged e Maddieson (1996), pois eles indicam
simultaneamente o articulador e o alvo na produção de um determinado som (cf. Anexo
2). As traduções foram feitas, muitas vezes, a partir do contexto de comunicação. Outras
18

vezes, comparamos nossas traduções com aquelas presentes no vocabulário


Enawene/Português - Português/Enawene, corrigindo e/ou complementando ora uma, ora
outra. Tendo adquirido um grau razoável de fluência na língua Enawene-Nawe,
possibilitou-me acompanhar os diálogos espontâneos entre os falantes nativos e, também,
considerar as definições fornecidas pelos nossos próprios consultores, quando não
conseguíamos uma tradução específica para determinado item. Alertamos com relação às
traduções da palavra verbal, pois deve-se considerar que a língua Enawene-Nawe não
marca o tempo no verbo como estamos acostumados para o português.
As próximas seções reportam informações sobre o povo e o sistema de escrita de
sua língua. Cabe observar que optamos por apresentar o sistema de escrita antes da
descrição fonética e fonológica da língua Enawene-Nawe devido ao fato de que o mesmo
não é resultado do estudo desenvolvido nesta dissertação, muito embora esse estudo
tenha nos auxiliado na interpretação da grafia existente, uma vez que não tivemos acesso
aos estudos lingüísticos que a fundamentaram. Como se verá na seção 1.2, mais adiante, a
grafia Enawene-Nawe foi elaborada por indigenistas que trabalhavam junto aos
Enawene-Nawe, assessorados por um profissional da área da lingüística e da
antropologia.

1.1 Quem são os Enawene-Nawe?


“Os Enawene são da companhia,
do movimento,
da alegria!”
Do pouco que conheço dos Enawene-Nawe.
Ubiray Rezende

O povo Enawene-Nawe conta, hoje, com uma população de aproximadamente


360 pessoas, habitando uma única aldeia por eles nomeada de Matokodakwa, situada nas
proximidades do Rio Iquê, tributário da Bacia do Juruena.
Os Enawene-Nawe são conhecidos por seus vizinhos, e também na literatura, com
o nome de Salumã, muito embora advirtam quanto ao equívoco desta última
19

denominação que remonta aos primeiros contatos com não-índios (iñoti) por volta de
1974 ( LISBÔA: 1985).
Tendo como objetivo impedir os tipos de contatos desastrosos causados pelas
frentes de expansão, os missionários indigenistas Vicente Cañas (chamado de kiwxi pelos
Myky) e Thomaz Lisbôa, acompanhados por representantes indígenas Haliti e Rikbaktsa,
estabeleceram os primeiros contatos com os Enawene-Nawe que, nessa época, eram um
grupo de 97 pessoas. A partir daí, Cañas passou a trabalhar intensamente junto à
sociedade Enawene-Nawe, priorizando as áreas de saúde e defesa do território e evitando
ao máximo interferências em sua cultura.

O processo de demarcação e defesa da terra dos Enawene-Nawe foi bastante


conflituoso e implicou, inclusive, no cruel assassinato de Vicente Cañas em 1987, a
mando de fazendeiros da região. A homologação do território Enawene-Nawe
concretizou-se somente em 1997, após quase duas décadas de luta por sua demarcação.

O território Enawene-Nawe ocupa aproximadamente 750.000 hectares em uma


região de transição entre o cerrado e a floresta tropical no noroeste de Mato Grosso. No
limite centro-sul divisa-se com o município de Sapezal. A sudoeste fica o município de
Comodoro, chegando às proximidades da rodovia MT-319 que liga o município de
Vilhena, no estado de Rondônia, ao município de Juína em Mato Grosso. A cidade de
Juína encontra-se a noroeste do território Enawene-Nawe e a cidade de Brasnorte
localiza-se no seu extremo nordeste (cf. Mapas / Anexo 1).

As atividades de intensa exploração econômica desenvolvidas no entorno da terra


Enawene apresentam-se como fatores de risco à integridade de sua biodiversidade. Nos
últimos anos, têm ocorrido sucessivas invasões de garimpeiros na porção conhecida como
Garimpo 180, próxima à Juína. Outras atividades que estão sendo intensificadas
rapidamente nas proximidades da área Enawene-Nawe são a exploração madeireira, a
pecuária e a monocultura da soja.
20

No Vale do Juruena existem outras nações indígenas com as quais os Enawene


vêm mantendo contato no percurso de sua história. Eles contam que ao fugir dos ataques
dos Cinta Larga (Tupi Mondé), se instalaram em terras dos Nambikwara (Família
Nambikwara) após expulsá-los. Destes últimos, conseguiram o primeiro machado
através de pilhagem, estabelecendo com eles, posteriormente, relações de troca. Com os
Rikbaktsa ( Tronco Macro-Jê ), as relações também foram conflituosas, passando depois
a relações amistosas que propiciaram muitas trocas de castanhas do Pará, araras e
materiais industrializados diversos. Os Myky, seus vizinhos ‘pacatos’, recebiam peixes
em troca de mandioca quando os Enawene por lá passavam em direção às barragens de
pesca. Mesmo hoje, os Enawene procuram auxílio dos Myky para carona até Brasnorte
ou para comunicação via rádio quando se encontram nas expedições de coleta de mel ou
de pesca nas barragens. Às vezes, a memória dos antigos conflitos ainda traz de volta
períodos de suspeitas mútuas. Com o povo Manoke (mais conhecido como Irantxe),
parentes próximos dos Myky e falantes de uma língua isolada, os Enawene também
mantêm contatos esporádicos. Sobre os Haliti (Aruak – Maipure), os Enawene relatam
que eles são seus parentes distantes e que ‘saíram juntos da pedra’ (Mito de Origem),
porém os Haliti se dispersaram para uma outra região. Explicam que os Haliti já falavam
um pouco diferente e tinham o hábito de comer carne de caça antes mesmo de tomarem
outros rumos2.

Os Enawene-Nawe são basicamente monolíngues. Nos últimos anos, todavia,


palavras e frases em português começaram a circular na aldeia; a presença da ‘língua
nacional’ está se fazendo cada vez mais forte.

2
Detalhes sobre a História de contato entre os Enawene-Nawe e os povos vizinhos podem ser encontrados
em Arruda, R. 1992 Os Rikbaktsa: Mudança e Tradição.; Dal Poz, J. 1992 No país dos Cinta Larga –
Uma etnografia do ritual. e Costa, R. M. 1985 Cultura e Contato – Um estudo da sociedade Paresi no
contexto das relações interétnicas.
21

Anteriormente a meados de 1998, os Enawene-Nawe praticamente viviam


isolados, quase sem nenhum contato com a sociedade nacional. Saíam para Juína,
Brasnorte ou Cuiabá apenas em caso de doenças graves acompanhados pelos indigenistas
que com eles trabalhavam. Por esta época, houve a abertura ilegal de uma estrada que
partiria de Sapezal, cortando ao meio o território Enawene na direção de Rondônia,
visando o escoamento da produção de soja. Os Enawene receberam dos sojicultores oito
barcos de alumínio e motores de popa como pagamento pela concessão da construção da
estrada. A construção da estrada foi embargada pela justiça federal e aos Enawene foi
garantida a posse dos bens antecipadamente lhes ofertado. Contudo, esta invasão desviou
a atenção do povo de sua dinâmica cotidiana, provocando uma desestruturação na ordem
econômica e social do grupo. Os Enawene não mediram esforços para recuperar o
prejuízo deixado.

A partir deste acontecimento, as demandas dos Enawene-Nawe quanto às


informações sobre o exterior aumentaram, alegando ser uma forma de evitar que fossem
ludibriados futuramente. Passaram a buscar o aprendizado da língua portuguesa e a
compreensão dos sistemas financeiro, político e sociais da sociedade envolvente,
enquanto conhecimentos úteis não só na negociação de bens materiais, mas também para
intercâmbio de idéias e criação de relações de amizade.

Atualmente, mesmo com a intensificação do contato nos últimos cinco anos, o


povo Enawene-Nawe mantem seu próprio sistema social e cultural, cumprindo com
orgulho e grande satisfação todo o ciclo de seus rituais.

Segundo Mendes dos Santos (2001, p. 64) as cerimônias rituais articulam todas
as atividades sociais, econômicas e religiosas. Estas cerimônias rituais são interpretadas
pelo autor como estações em sintonia com os fenômenos naturais, organizando
acontecimentos no tempo e no espaço. Assim, pode-se distinguir duas estações rituais
como parte do calendário Enawene-Nawe: uma estação voltada para os espíritos
subterrâneos com dois momentos , o Yãkwa e o Lerohi; e outra dedicada aos espíritos
22

celestes, também constituída de dois momentos, o Salomã e o Kateokõ. Todas as


atividades de produção e consumo só terão sentido se visualizadas no contexto sócio-
cosmológico, ou seja, nas relações de parentesco dos Enawene-Nawe entre si e deles
com os seres sobrenaturais.

1.2. A grafia Enawene-Nawe

Nesta seção, apresentaremos o alfabeto do sistema de escrita da língua Enawene-


Nawe, ainda em processo de apropriação pelos Enawene-Nawe. Contextualizaremos,
brevemente, alguns fatos sobre sua elaboração.
A elaboração de uma grafia provisória da escrita Enawene-Nawe sucedeu-se
dentre os anos de 1989 e 1991, tendo como base o levantamento do vocabulário básico
realizado por membros da equipe indigenista do Projeto Enawene-Nawe (OPAN3 -
Operação Amazônia Nativa), assessorados pelo antropólogo e lingüista Márcio Ferreira
da Silva .
A princípio, esse sistema de escrita fora criado como instrumento de trabalho
para uso da equipe indigenista, no desenvolvimento de atividades concernentes às áreas
de saúde e economia ( ZORTHÊA, 1997, p.184).
Segundo relatos de membros da equipe indigenista do Projeto Enawene-Nawe, a
participação do povo Enawene-Nawe no processo de criação da escrita provisória
culminou com a efetivação do processo de alfabetização4 em língua materna a partir de
1995.

3
A OPAN é uma instituição filântrópica, fundada em 1969, que desenvolve projetos de trabalho junto a
comunidades indígenas nas regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil.

4
Zorthêa (1997 ), em seu artigo intitulado “Os Enawene-Nawe e a Escrita”, relata alguns fatos
interessantes
sobre as primeiras experiências com relação à introdução da escrita e ao processo de alfabetização em
língua materna entre os Enawene-Nawe.
23

Segue, abaixo, um quadro ilustrativo dos símbolos gráficos utilizados na escrita


Enawene-Nawe com base em uma versão teste do “Vocabulário Enawene-
Português/Português-Enawene” organizado por Zorthêa (1998):

Símbolo Exemplo Representação Fonética / Fonológica5


a halata [«ha.la.»ta] /halata/

d dete [de.»te] /dete/

e ekase [«e.ka.»se] /ekase/

yayare/li [«ij.jaj.»ja.l=I] ~ [«ij.jaj.»ja.RI] /ijajali/

h atahõ [«a.ta.»ho)] /ataho/

i xixi [Si.»Si] /SiSi/

k kolote [«ko.lo.»te] /kolote/

kw makwa [ma»kWwa] /makwa/

l dalataiti [da.«la.taj.»ti] /dalaiti/

m mamalo [ma.»ma.lU] /mamalo/

n nato [na.»to] /nato/

ñ mañawe [«må).¯aw.»we] /ma¯awe/

o odairi [«o.daj.»l=i] ~ [o.«daj»Ri] /odaili/

kotahono [«ku.ta.»hu).nU] /kotahono/

r mairo [maj.»Ru] /maiRo/

s sori [»so˘.l=i] ~ [»so˘RI] ~ [«so˘»Re] /soli/

t tekwa [te.»kWwa] /tekwa/

w olawa [«o.law.»wa] /olawa/

y yaya [jaj.»ja] /jaja/

5
As representações fonética e fonológica estão fundamentadas nos dados coletados no presente trabalho. A
fronteira entre sílabas é indicada por um ponto.
24

Através do quadro acima, pode-se verificar que o alfabeto provisório Enawene-


Nawe compõe o total de 18 letras: a, d, e, h, i, k, kw, l, m, n, ñ, o, r, s, t, w, x, y. Nesta
amostra, selecionamos exemplos simples do uso da grafia a título de introdução sem nos
determos em suas complicações técnico-práticas que extrapolariam o escopo do presente
trabalho.
Quanto às variantes alofônicas [l] e [R], Zorthêa (op. cit. p.191) diz que, a

princípio, convencionou-se o uso do grafema r para representá-las. Porém, como os


Enawene-Nawe utilizavam-se ora de r ora de l, a decisão entre o uso de um ou outro foi
delegada ao autor, já que tal alternância não acarretava prejuízo à decodificação da
mensagem pelos seus usuários.
Verificamos que a alternância com relação ao uso de outros grafemas, também
ocorre, obedecendo a variações fonéticas: w /m , d / l e t / d.
Outro caso de alternância, diz respeito à representação escrita do ditongo [aj]

através das formas ai e ay como na palavra daraiti / darayti (escrita). Observa-se,


ultimamente, uma tendência majoritária a favor do uso de ai em casos semelhantes,
apesar de que continua havendo um parco uso de ay com algumas palavras.
Busatto (1995) apresenta “Notas sobre a grafia Enawene-Nawe”, onde são
contadas 21 letras, dentre elas: t, k, ky, kw, b, d, h, s, x, m, n, ñ, l, r, w, y, i, e, a, u, o.
Devemos ter em mente que as diferenças apresentadas entre este inventário alfabético e
aquele listado no quadro anterior justificam-se em parte, pelo menos, pelos seguintes
motivos:
ƒ Essa grafia, em seu estágio inicial, destinava-se como instrumento facilitador do
trabalho de profissionais de diversas áreas, os quais reuniram artigos relacionados à
antropologia, economia, política indigenista e biologia no relatório sobre projeto
desenvolvido junto aos Enawene-Nawe entre os anos de 1993 e 1994. O inventário
alfabético apresentado em Busatto (ibid.) dirigia-se propriamente às expressões e
termos da língua Enawene-Nawe registrados naquele trabalho.
25

ƒ O desenvolvimento da escrita Enawene-Nawe encontrava-se, então, em um estágio


anterior à tentativa de sua estabilização proposta na organização do vocabulário em
1998, quando já havia começado o processo de alfabetização. O processo de
alfabetização constituiu-se em uma oportunidade de contato prático dos Enawene-
Nawe com a escrita, o que sem dúvida exigiu a modificação do sistema gráfico e a
tentativa de sua estabilização de modo a adaptá-lo o mais condizente possível ao
sistema fonético e fonológico da língua. As decisões foram pontuadas, inclusive, por
debates políticos no momento de representar as variações dialetais.

Observamos que no vocabulário organizado por Zorthêa, não se mantém o uso


dos seguintes grafemas: u, b e ky. O grafema b só é mantido para a interjeição ba, que
expressa espanto. Já o que se pressupõe ter sido inicialmente interpretado como um
encontro consonantal (consoante + consoante), ky, é substituído pelo uso de ki: aikyuna
Æ aikiona (pesca com ictiotóxicos) - [aj»kJu)nå], /aikona/ . A letra e foi selecionada

para representar os fones [e] e [I]. Porém, o uso da letra i, que representaria apenas a

vogal coronal [-aberta], ou seja, [i] tem revelado na prática ser preferencial para grafar

também a vogal frouxa [I]. Optou-se apenas pela letra o para representar graficamente os

fones [u, o, U], sendo a letra u abolida.

Têm-se verificado o uso esporádico da letra u para representar os fones [u, U] ,

por parte de jovens Enawene-Nawe já alfabetizados em língua materna, que começaram a


estudar a língua portuguesa oral e escrita.
Os Enawene-Nawe já alfabetizados e mesmo aqueles não-alfabetizados, mas que
acompanham as discussões a respeito do sistema de escrita, demonstram ser muito
cuidadosos quando se trata da escrita da língua Enawen-Nawe. Alguns deles explicitaram
o desejo de discutir sobre as possibilidades de se aprimorar a grafia da língua, propondo
modificações e fazendo correções no pouco material escrito existente.
No contato diário, os Enawene-Nawe são muito compreensivos com nossa falta de
conhecimento a respeito de sua língua, chegam até mesmo a simplificá-la para facilitar a
comunicação. Expressam muita alegria ao constatar qualquer pequeno avanço que
26

realizamos na aprendizagem, nos incentivando a saber sempre mais: “Halani! Haita


sotenexi nema.”( Eles dizem: “Olha só! Já sabe um pouquinho”). Os nossos erros são
perdoados: “Tasa, maihia enawenewala” – (“Deixa prá lá, não é enawene mesmo”).
Contudo, quando se trata da escrita, eles são meticulosos e expressam preocupação e até
mesmo, uma certa decepção em não entender o que escrevemos: “Deketa? Maihia
ehekoko. Wawetene” – (O que é isso? Não está certo. Vamos corrigí-lo).
Zorthêa (1997, p.191), também, reportou sobre essa preocupação dos Enawene-
Nawe com a formalização da escrita de sua língua:
“Neste mesmo contexto, os Enawene-Nawe questionam também a nossa limitação
lingüística. Como falantes do português temos dificuldade em evocar determinados sons
da língua Enawene-Nawe. Quando se evidenciava tal dificuldade, eles diziam que o que
havíamos escrito não fazia sentido, pois entendiam que “falar certo era necessário para
escrever certo”.
Cremos que para fazer jus à essa generosidade dos Enawene-Nawe em
compartilhar o saber de sua língua conosco e estabelecer com eles um diálogo
metalingüístico mais proveitoso, seja de substancial importância que avancemos no
estudo da gramática da língua Enawene-Nawe, logicamente integrando-o às outras áreas
de conhecimento.
27

2- INVENTÁRIO FONÉTICO PRELIMINAR

Este capítulo dedicar-se-á a identificar e descrever, ainda que em uma primeira


versão, as propriedades fonéticas e a distribuição seqüencial dos segmentos da língua
Enawene-Nawe.
Os símbolos utilizados em nossa transcrição devem ser entendidos como
representantes de um complexo de traços hierarquizados, que guardam determinada
independência um do outro, mas que também compõem juntos as chamadas 'classes
naturais'.
A princípio, estaremos utilizando um vocabulário mais tradicional na
apresentação dos segmentos fonéticos. Ao final, a partir das definições propostas por
Clements e Hume (1995), estaremos indicando como esse vocabulário deve ser
interpretado dentro da perspectiva que adotamos no presente trabalho. Além disso, na
seção final deste capítulo, apresentaremos um quadro fonético, reunindo todos os
segmentos consonantais e vocálicos encontrados no corpus que segue abaixo.
Comentaremos, também, alguns detalhes sobre variação dialetal.
Nesta seção, a medida em que formos descortinando os dados da língua,
comentaremos conceitos articulatórios e acústicos básicos desenvolvidos ao longo da
evolução da Lingüística na descrição dos sons das línguas do mundo. Vamos começar
pela tradição descritiva, classificando os segmentos em consoantes e vogais.
Ladefoged e Maddieson (1996) versam, no livro The Sounds of the World’s
Language, sobre o papel da intuição para captar os traços mínimos que separam os
segmentos em dois grandes grupos. Eles nos lembram, por exemplo, que as vogais
podem ser pronunciadas sozinhas enquanto que as consoantes são pronunciadas apenas
na companhia de uma vogal. Acrescentam, ainda, que em muitas línguas existem
palavras formadas apenas por vogais, mas as consoantes compõem palavras somente em
conjunto com uma vogal.
Do ponto de vista articulatório, Schane (1973) define as vogais como sendo
estágios de abertura por onde o ar passa livremente, ou seja, não há obstrução no trato
28

vocal. Já as consoantes apresentam variados graus de obstrução, podendo a passagem de


ar ser parcial ou completamente impedida. Em termos acústicos, as vogais são mais
auditivamente perceptíveis que as consoantes. As vogais são os sons mais musicais, pois
carregam os traços de entoação, tonicidade e timbre.
Em The Sound Pattern of English, Chomsky & Halle (1968) explicam os
segmentos vocálicos usando o sistema de traços binários, analisando-os como [+ silábico]
por ocuparem o núcleo da sílaba e, [- consonantal] por não produzirem obstrução no trato
vocal ao serem articulados. Eles são, portanto, sempre [+ soante]. Quanto às consoantes,
existem algumas delas que dividem certas características com as vogais e chegam até a
ocupar o ápice silábico em algumas línguas, sendo por isso consideradas como [+
silábica, - consonantal] neste caso. Porém, a grande maioria das consoantes funciona
como [- silábicas, + consonantais], preenchendo a periferia da sílaba. Especificaremos,
mais propriamente, as propriedades de tais consoantes na seção a elas dedicada,
considerando apenas os pontos concernentes à língua Enawene-Nawe.
Ao incitarmos o assunto sobre a posição dos segmentos na sílaba e sobre traços
de entoação e tonicidade, não podemos deixar de observar a importância fundamental do
estudo da estrutura silábica e da prosódia para melhor compreendermos o comportamento
dos segmentos em relação a estes domínios. Faremos uma abordagem introdutória destes
tópicos no capítulo 5.
Passemos, então, à descrição dos segmentos vocálicos e consonantais do
Enawene-Nawe:

2.1. Segmentos Vocálicos

2.1.1. Vogais Orais

Dentre as vogais orais, trataremos primeiramente do grupo conhecido como


padrão trivocálico básico: i, a e u. Essas vogais diferem muito uma das outras, havendo
uma oposição máxima entre elas de forma que limitam o espaço perceptual ocupado
pelas demais vogais. Como diz Schane (1973, p.50), esse grupo vocálico básico é
29

encontrado praticamente em todas as línguas do mundo. Então, não é nenhuma surpresa


encontrá-las fazendo parte do inventário fonético da língua Enawene-Nawe. Observemos
os dados abaixo:

[a] Central baixa não-arredondada

(1) [aw»we] ‘bom’

(2) [aw»wa] ‘não’ ( proibitivo / imperativo )

(3) [«ajja»ka] ‘futuro distante’

(4) [«ataw»wa] ‘ele/a procura’

(5) [«ata˘»ma] ‘embira’

(6) [«ata»na] ~ [«a/da»na] ‘trovão’

(7) [»danå] ~ [»/danå] ‘jenipapo’

(8) [ma»ta] ~ [ma»/da] ‘tipo de árvore; armadilha de pesca’

(9) [wa˘»ta] ‘quente, calor’

(10) [ma»˙a] ‘mel’

(11) [ma»la] ‘refresco feito com água e mel’

(12) [wa»˙a] ‘alto’

(13) [ma»ka] ‘frio; apagado; curado, sarado’

(14) [ta»sa] ‘pode’ (permissão) ‘deixa pra lá; dane-se’

(15) [ha»˙al=i] ~ [ha»˙aRI] ‘papai’

(16) [«hala»ta] ‘pente; jogar fora’

(17) [ka«˙a˘»ka] ~ [ka»˙a˘ka] ‘ontem’

(18) [«aka«kawwe»ta] ‘sentir saudade’

(19) [ « Sawwe»kWwa] ‘bolo de mandioca’

(20) [«ao)»la] ‘leve’


30

(21) [la»tWwa] ~ [da»tWwa] ‘amanhã’

(22) [«amaj»jo] ‘batata doce’

(23) [tJij»ja] ‘chorar’

(24) [tJi»a] ‘amargo’

(25) [«ijjo»da] ‘tinta vermelha’

(26) [tå)»miRU] ~ [ta»miRU] ‘sobrinha’

[i] Anterior alta não-arredondada

(27) [ij«jo˘»ta] ‘sim’

(28) [ij«ja»ka] ‘picar’

(29) [«edaj»ti] ‘esperma’

(30) [«it=a«mase»Ra] ‘costas’

(31) [«ikJa»l=i] ~ [«ikJa»Ri)] ‘igual’

(32) [saj»l=i] ~ [saj»Ri] ‘pedra’

(33) [i«kJaSi»Si] ~ [«ciSi»Si] ‘pouco; pequeno’

(34) [mi)»kJa] ‘noite, escuro’

(35) [«ciRi»kJa˘l=i] ~ [«ciRi»kJa˘RI] ~ [«ciRi»kJwa˘l=I] ‘zangado, mau-humorado’

(36) [kJi»a] ~ [ci»a] ‘cor preta’

(37) [Si»Si] ‘tipo de beiju’

(38) [«iSi»ni] ~ [«iSi»ni)] ‘onça’

(39) [«hit5i»Ri] ‘cabaça’

(40) [ni»t5i] ‘minha rede’

(41) [wi»t=a] ‘nossa rede’

(42) [no»kWwi] ‘estou chamando, estou falando’


31

[u] Posterior alta arredondada

(43) [hi)»Su] ‘você; seu, sua’

(44) [«hi)Su»ma] ‘você faz’

(45) [hi)«Suwwe»ne] ‘você o faz / fez’

(46) [ij»ju] ‘seco’

(47) [maj»Ru] ‘caju’

(48) [maj«Ruwwe»te] ‘grupo clânico’

(49) [«uwwi»Ru] ~ [«uhi»Ru] ~ [u»hiRU] ‘mulher’

(50) [«huSi»Ru] ~ [«huSi»Ru)] ~ [ hu»SiRU] ‘colar de tucum’

(51) [«i)¯u»t5i] ~ [i)»¯ut5i] ‘não-índio’

(52) [«i)¯u«t5ine»Ro] ~ [i)«¯ut5ine»Ro] ‘mulher não-índia’

(53) [«i)¯u«t5ine»Re] ~ [i)«¯ut5ine»Re] ‘homem não-índio’

(54) [« Sula»se] ‘espécie de papagaio’

(55) [«lula»t5e] ‘tipo de cesto’

(56) [«lula»se] ‘pulseira infantil feminina’

(57) [«daku»t5i] ~ [«dakuJ»t5i] ‘assombração’

(58) [«kutå»˙u)nU] ‘espécie de formiga’

(59) [«kulåka»lalU] ~ [ku«laka»lalU] ‘idosa, velha’

(60) [huw«weRa»kWwa] ‘dia’

(61) [»ujJ] ~ [»uj] ‘cobra’

Um dos sistemas vocálicos mais freqüentes é constituído por estas três vogais
básicas somadas a duas outras que ocupam uma posição intermediária entre a vogal mais
alta e a mais baixa da sequência básica apresentada. São elas: o e e ( Schane: 1973, p.27
). Vejamos como elas ocorrem em Enawene Nawe:
32

[e] Média anterior não-arredondada

(62) [e«˙eko˘»ko] ‘certo; está certo’

(63) [e»se] ‘semente’

(64) [do«kWajt5i»se] ~ [lo«kWajti»se] ‘pilha de lanterna’

(65) [a«˙ete»se] ‘semente de urucum’

(66) [«eta»ta] ‘pele, couro; casca’

(67) [«edaj»ti] ‘esperma’

(68) [e»sWwe] ‘fruto do buriti’

(69) [e«sokWa»te] ‘palha de buriti; buritizeiro’

(70) [«edo»se] ~ [«eRo»se] ‘olho dele/a’

(71) [«kode»to] ~ [«koRe»to] ‘milho’

(72) [«tode»ma] ‘está certo, concordo’

(73) [de»te] ‘fedor; fedido’

(74) [dew»we‚ ] ~[de)w)»we‚ ] ~ [de»me‚ ] ~ [de)»me‚ ] ‘anta’

(75) [ke»te] ‘mandioca; pé de mandioca’

(76) [«kete»kWwa] ‘roça de mandioca’

(77) [«kene»ke‚ ] ‘polvilho de mandioca’

(78) [ato»kWe] avô’

(79) [ka»me] ‘sol’

(80) [me»nej] ‘formiga tocandira’

(81) [«kame»te] ‘cesta, onde se guarda sal vegetal em pedra’

(82) [e»ne] ‘vocativo – como a esposa chama o marido;

(83) [e«neRa»ni] ~ [e»neRå‚»ni] ‘marido (dela)’

(84) [e»n5eta«n=i] ~ [e«n5eta»n=i‚ ] ‘filho (dele/a)’


33

(85) [no«towe»ne] ‘eu o faço’

(86) [ha»˙aRe] ~ [ha»˙aRI] ~ [ha»˙al=i] ‘papai’

(87) [e«kana«seo»ko] ~ [e«kå‚na«seU»ko] ‘boca dele/a’

(88) [«ijje«Rowwa»kWwa] ‘roça de milho distante da aldeia’

[o] Média posterior arredondada

(89) [ « SoSo«kWwaU»ko] ~ [ So«Sokow«wao»ko] ‘espécie de macaco’

(90) [ko«kote»Re] ‘espécie de gavião’

(91) [ko»kWwi] ‘espécie de gavião’

(92) [ko»ko] ‘vocativo – titio’

(93) [«tolo»ko] ‘buraco’

(94) [na»to] ‘eu; meu’

(95) [«noto»kWwa] ‘eu sento; eu vou sentar’

(96) [«oko»l=i] ~ [«oko»RI] ~ [«oko»Re] ‘flecha’

(97) [«ete«nedow»wa] ~ [«ete«nedUw»wa] ~ [«ete«neRUw»wa] ‘ouvido’

(98) [o»taj] ‘morro’

(99) [«olaw»wa] ‘tucum’

(100) [«ijjo»ta] ‘sim’

(101) [ma»lo] ‘vocativo – filha (tratamento

carinhoso)
(102) [ma»do] ~ [ma»lo] ‘molhado ; molhar’

(103) [ma«dose»Ro] ‘espécie de mandioca usada para

fazer beiju’
34

[I] Alta anterior não-tensa

(104) [me»nå‚nI] ‘pronto, acabado’

(105) [ko»kol=I] ~ [ko»koRI] ‘tio materno, sogro’

(106) [aw»wa˘l=I] ~ [aw»wa˘RI] ‘bonito’ (masculino e neutro)

(107) [jaj»jal=I] ~ [jaj»jaRI] ‘irmão mais velho’

(108) [a»tol=I] ~ [a»toRI] ‘avô, cunhado’

(109) [to»nol=I] ~ [to»noRI] ‘pium’

(110) [»eRI] ~ [»eRe] ‘ele/a; este/a; isto’

(111) [«oko«li=o»ko] ~ [«oko«Rio»ko] ‘arco’

(112) [ma«nal=I»se] ~ [må‚«naRI»se] ‘peneira’

(113) [«awwI»t5i] ‘caminho, estrada’


(114) [«hawwI»t5i] ‘mutum’

(115) [«waSa»l=i] ~ [«waSa»Ri] ‘nosso quarto’

(116) [»hanI] ~ [ »hå‚nI] ‘hoje; dar, entregar; pegue’

[U] Alta posterior não-tensa

(117) [aw»wa˘lU] ‘bonita’ (feminino)

(118) [ma»malU] ‘mamãe’

(119) [jaj»jalU] ‘irmã mais velha’

(120) [tå)»miRU] ‘sobrinha’

(121) [«salU»må)] ‘ritual; grupo clânico extinto’

As vogais [I] e [U] aparecem normalmente em sílabas não-acentuadas finais ou

mediais, como podemos observar nos exemplos acima listados.


35

2.1.2. Vogais Nasais

Os dados abaixo mostram que muitas das vogais nasais aparecem contíguas a
consoantes nasais ou adjacentes à fricativa glotal laríngea [h]. Elas podem ocorrer,

também, ao lado da aproximante velar labial arredondada [w], a qual apresenta tendência

a alternar-se em determinados contextos com a nasal bilabial [m]. Além disso, a

nasalidade manifesta-se como uma alternativa muito freqüente em sílabas finais.

[ å) ]

(122) [«nako»˙å)] ‘eu tomo banho’

(123) [«wato»˙å)] ~ [«bato»˙å)] ‘quebra/quebrou’

(124) [ko»˙å)se] ~ [«ko)˙å)»se] ‘peixe’

(125) [a»˙å)] ‘vez’

(126) [»hå)nI] ‘hoje; toma, pega’

(127) [hu»wå)] ‘fala você’

(128) [«salu»må)] ‘ritual; grupo clânico já extinto’

(129) [ijjå»kWwa] ~ [ij »jå)w kWwa] ‘ritual’

(130) [tå)»mijjI] ~ [ta»mijjI] ‘sobrinho’

(131) [e»kano] ~ [e»kå)no] ‘braço dele/a’

(132) [»lå)nI] ~ [»då)nI] ~ [ij»jå)nI] ‘ele/a foi’

(133) [di« Suna»˙å)] ‘vocês’


36

[ i) ]

(134) [i)»˙alU] ‘concha de caramujo’

(135) [hi)»kJwa] ‘nascer’

(136) [ka»˙i)t=a] ~ [ka»Si)t=a] ‘único, só’

(137) [«maj˙i)»¯a] ~ [«må)j)˙i)»¯a] ‘não declarativo’

(138) [«no˙ij)»je] ~ [«no˙i)j»ji] ‘para mim, em mim’

(139) [o«lowwi)»¯a] ‘Rio Juruena’

(140) [ti)«¯olajti] ‘sangue’

(141) [ma«laJti»˙i)] ‘farinha de cor escura’

(142) [ma«kalaJ»˙i)] ‘espécie de farinha de mandioca

usada para fazer oloniti), bebida

fermentada’
(143) [ta«l=imaJ»hi)] ‘tipo de panela de barro’

(144) [o«lon=i»ti] ~ [o«lo)j» ti] ‘refresco fermentado feito com

makalaihi’
(145) [ti)»maRI] ~ [ti)w) »waRI] ~ [ti)w)»wal=I] ‘ralo feito de tucum usado para ralar

mandioca e milho’
(146) [«neta»ni)] ~ [«neta»n=i)] ‘meu filho’

(147) [«ikJa»li] ~ [«ikJa»Ri)] ‘igual; como (comparativo), assim,

deste jeito’
(148) [aw«wini»Si] ~ [aw«wini»Si)] ‘daqui a pouco, agorinha’

[ u) ]
(149) [ka«teo»ko] ~ [ka«teo»ku)] ‘ritual realizado pelas mulheres’

(150) [ka«teo»ku) «i)kJa»Ri)] ‘igual/como o kateoko’


37

(151) [to«ku)w)waj»ti] ~ [to«ku)maj»ti] ‘furúnculo’

(152) [ini»˙u)] ~ [ini»˙J)u)] ‘pena do rabo’

(153) [u)»˙aSa] ‘tipo de árvore, cujo caule quando

incinerado, produz uma cinza usada


para fazer cerâmica’
(154) [«na˙u)w)»wa] ?

(156) [«teu)»kWwa] ‘dormir, ele/a dorme’

[ o) ]
(157) [«teo)«kujta»˙i)] ‘elezinho/a está dormindo’

(158) [«ma˙o«)kWani»Ri] ‘feio/a , ruim’ ( refere-se à forma

grande)
(159) [he)»˙o)] ‘seu jirau’

(160) [«ata»˙o)] ‘borduna’

(161) [e»˙o)nU] ‘alergia na pele’

(162) [»o)ne] ~ [»o)nI] ‘água’

(163) [«ao)»na] ‘afogar’

(164) [«nao))»kWwa] ‘eu guardo, eu vou guardar’

(165) [ho)»kWwa] ‘rede de dormir’

(166) [«ene»to] ~ [«ene»to)] ? [«ene«Rå)ne»to)] ‘esposa dele’

[ e) ]
(167) [»e)na] ‘homem’

(168) [tew»we)˘na] ~ [te»me)˘na] ‘pesado’

(169) [de»we)] ~ [de»me)] ‘anta’

(170) [«kene»ke)] ‘polvilho’


38

(171) [«kono»˙e)] ~ [«kono»˙i)] ‘algodão’

(172) [ko«Reto»˙e)] ~ [ko«Reto»˙i)] ‘farinha de milho’

(173) [e«sewwe»˙e)] ~ [e«sewwe»˙i)] ‘sal vegetal’

(174) [he)»˙e)] ‘papai’

(175) [ke)»˙e)] ~ [ke»˙i)] ‘gostoso’

(176) [»/e)/e)] ~ [»he)/e)] ~ [he)e]) ‘sim, certo’(resposta a pergunta de

sim ou não)

2.1.3. Ditongos

Os ditongos constituem a combinação de uma vogal e um glide (ditongo


decrescente) ou de um glide e uma vogal (ditongo crescente). Estes segmentos, enquanto
ditongos, devem ocupar uma mesma sílaba, apresentando uma mudança contínua e
gradual da posição da língua a partir da articulação do primeiro elemento vocálico em
direção à articulação do segundo. O elemento com acentuação proeminente, que ocupa o
pico silábico corresponde à vogal. O segmento assilábico é o glide. Assim, são
segmentos tautossilábicos, cujas articulações se direcionam para dois alvos diferentes.
Como as propriedades das vogais que ocorrem nos ditongos são equivalentes às
propriedades das vogais anteriormente descritas, com suas articulações buscando os
mesmos alvos, apresentaremos os exemplos não repetindo características já abordadas.

[ aj ]
(177) [waj»t5i] ‘ barragem de pesca’

(178) [«waRaj»ti] ~ [«baRaj»ti] ‘remédio’’

(179) [waj»Ra] ‘remédio’

(180) [«ataj»Ra] ‘pau, planta, árvore’

(181) [«nowaj»ni] ‘para mim’


39

(182) [«nokWaj»l=i] ‘meu nariz’

(183) [daj«ti)¯a»se] ‘final de tarde, 18 horas’

(184) [no»daj] ‘meu sobrinho, minha sobrinha’

(185) [aj«kJul=i»t5i] ‘dente’

[ ej ]
(186) [a«mejRata˘»˙å)] ‘ele pesca’

(187) [me»nej] ‘formiga tocandira’

[ oj ]
(188) [oj»ta] ‘capivara’

(189 [doj»t5i] ~ [loj»t5i] ‘luz, vela; resina colhida em árvore do

mesmo nome’
(190) [«tokoj»t5i] ‘tear com o qual se faz os adornos de

algodão para os braços e pernas’


[ uj ]
(191) [«hokuj»t=a] ‘curva’

(192) [«hokuj«t=akuj»˙i)] ~ [«hokuj«t=akuj»se] ‘curva; nome para o tipo de letra

cursiva’
(193) [ha«tuJi»t=a] ‘igual, o mesmo’

(194) [e»tuJ l=i] ~ [e»tul=i] ‘troca, preço’

(195) [huj»Ra] ‘azul; verde’

(196) [«hujna»nå)] ‘folha usada para o banho’

(197) [a»nuj] ~ [å)»nuj] ‘tipo de abelha’


40

[ aw ]
(198) [a«tawta»se] ‘facão’

(199) [«ataw«tase»Si] ‘faca’

[ wa ]
(200) [no«majRi»kJwa˘lU] ~ [«nomaj«RikJwa˘»lo˘] ‘eu estou feliz’

(201) [»di)¯wa] ‘criança’

(202) [a«nolo»kWwa] ‘engatinhar’

(203) [a»twa] ‘tipo de peneira’

2.1.4. Vogais longas ou seqüência de duas vogais ?

Através dos dados abaixo, notamos que as vogais longas tendem a ser bastante
produtivas em caso de ênfase. Elas, na maioria das vezes, fazem parte da penúltima
sílaba. Às vezes, precedem o acento primário quando este recai na última sílaba e, outras
vezes, dividem o tempo com o acento primário dentro da penúltima sílaba.
Normalmente, aparecem em fronteiras de morfemas de gênero, ênfase e aspecto nos
nomes e verbos.

[ a˘ ]
(204) [wa˘»ta] ‘calor, quente’

(205) [tasa˘»ta] ‘pode sim; dane-se mesmo’

(206) [kaSa˘»ta] ‘muito’(marca intensidade; usa-se depois de

verbo, advérbio ou adjetivo / não quantifica


nomes)1
(207) [a»wa˘RI] ~ [a»wa˘Re] ~ [a»wa˘l=i] ‘bonito’ (masculino e neutro)
41

(208) [«hal=i»ka˘l=i] ~ [«haRI»ka˘RI] ~ [«haRI»ka˘Re] ‘anfitrião’

(209) [no«jaja˘»lo] ‘estou com vergonha, estou envergonhada’

(210) [no«majRi«kJwa˘»lo] ‘estou feliz’

(211) [no«majRi»kJwa˘lU] ‘estou feliz’ (fem.)

(212) [ta«kwa˘»nå)] ‘ele/a está chegando’

[ i˘ ]
(213) [«an=i˘»n=i] ~ [«å¯i˘»¯i] ‘comida; comer’

(214) [«i˙i˘»t=a] ~ [«i˙i)˘»t=a] ~ [«i)˙i)˘»ta] ‘como, porque’ (retórica)

(215) [«ka˙i)˘»t=a] ‘único, só’

(216) [«olo»kWwi˘R] ‘taquara usada para cortar o cordão

umbilical’

[ o˘ ]
(217) [do˘»ta] ‘vermelho’

(218) [to˘»ta] ‘acabou’

(219) [so˘»l6i] ~ [so˘»Re] ‘espera’(imperativo)

(220) [so˘»Re˘ ne˘»ma] ‘ele/a disse: espera’

(221) [no«˙ono«alU»e‚˘na] ‘estou menstruada’

(222) [a«ko»te] ~ [a«go»te] ‘muito’ (ocorre antes de nome, de verbo e de

advérbio de intensidade)
(223) [ako˘»te˘] ‘muito’ (com ênfase)

(224) [ho˘»l=i] ~ [ho˘»RI] ~ [ho˘»Re] ‘então’ (conjunção)

[ e˘ ]
(225) [«to˙e˘»ta] ‘ele/a volta’
42

(226) [«node˘»ta] ‘eu vou/volto’

(227) [de˘»ta »eRI] ‘quem é ele/a?’

(228) [de˘na˙a»ta »eRI] ‘quem são?’

(229) [de˘«kakWwa»ta] ‘com quem?’

(230) [haj»ta de˘»ta] ‘ele/a já foi’

(231) [hi«jaja»Re˘n] ~ [hi«jaja»Re)˘n] ‘você está envergonhado’

(232) [«notJi»je˘n] ‘estou chorando’

(233) [«nome»Re˘n] ~ [«nome»Re)˘n] ‘estou com medo, tenho medo’

2.1.5. Semivogais

[w] Aproximante velar arredondada

(234) [wa˘»ta] ‘quente, calor’

(235) [aw»we] ‘bom’

(236) [aw»wa] ‘não’(proibitivo ou conselho)’

(237) [«wete»ko] ~ [«bete»ko] ‘do lado de fora de casa’

(238) [waj»ti] ~ [maj»ti] ‘barragem de pesca’

(239) [«Sawwe»kWwa] ‘tipo de bolo feito de mandioca ralada

que é defumado em forma de bola e


estocado sobre o jirau para fazer beiju
(xixi).
(240) [wi»Su] ~ [bi»Su] ‘nós, nosso’

(241) [ko«lowajl6i] ~ [ko«lowaj»Ri] ~ [ko«lowa»Ri] ‘pequi’

(242) [ij«jalaw»wi] ‘araruta’


43

Como podemos observar esta semivogal é freqüente em ambiente intervocálico e


diante de vogais orais em onset silábico, tanto nas sílabas iniciais como nas mediais e
finais. Precede, muito raramente, a vogal média posterior [o] e parece não ocorrer diante

da vogal alta posterior [u].

[j] Aproximante palatal

(243) [e«doj»ja] ~ [e«/doj»ja] ‘umbigo’

(244) [ij«jo»ma] ‘cor branca’

(245) [ij»ju] ‘seco; secar’

(246) [ij»ji] ~ [i∆»∆i] ‘taquara usada para cortar cabelo e

raspar sobrancelhas’
(247) [ij«jake»Ra] ‘lembrar’

(248) [no«jaja˘»lo] ‘estou com vergonha/ estou

envergonhada’
(249) [a«maj»jo] ‘batata doce’

(250) [«ijjå)»kWwa] ‘ritual’

(251) [ja»jalU] ‘irmã mais velha’

(252) [wij«jujt=i»n=i] ‘nossa vela, nossa resina’

Os dados mostram que a aproximante palatal pode aparecer diante de todas as


vogais orais em sílabas iniciais, mediais e finais. Ocorre, também, diante da vogal nasal
[å)].Os segmentos acima, a aproximante velar labial [w] e a palatal [j] muito comum nas

línguas do mundo (Ladefoged & Maddieson, 1996), são bastante produtivos na língua
Enawene Nawe. Tradicionalmente são classificados como semivogais, uma vez que
(como o nome indica) são parecidos com vogais, mas podem se comportar como
consoantes. A característica vocálica das semivogais é o fato de não apresentarem
obstrução no trato vocal e o seu comportamento consonantal refere-se ao fato de não
44

ocuparem o ápice silábico. Neste caso, como tais segmentos podem ser classificados na
língua Enawene Nawe? Poderiam ser realizações alofônicas das vogais altas?
Adiantamos que nos ambientes nos quais aparecem, nos dados acima arrolados,
demonstram comportamento de consoante. Contudo, estaremos nos remetendo com mais
detalhes às perguntas aqui incitadas, ao tratarmos dos aspectos fonológicos no próximo
capítulo.

2.2. Segmentos consonânticos

2.2.1. Plosivas

[ b] Bilabial sonora

(253) [«baSa»lako] ~ [«waSa»lako] ‘quarto’ (repartição pertencente ao

grupo familiar)
(254) [«bala»ko] ~ [«wala»ko] ‘piau’ (peixe da espécie)

(255) [«baRaj»ti] ~ [«waRaj»ti] ‘remédio’

(256) [be»Ra] ~ [we»Ra] ‘jirau; coçar/coceira’

(257) [bi»Su] ~ [wi»Su] ‘nós’ (1ª pessoa do plural)

[ t5 ] Laminal denti-alveolar surda

(258) [me˘»t5a] ‘difícil’

(259) [«kaSa˘»t5a] ‘muito’(intensidade)

(260) [t5o»t5o] ‘peito, leite’

(261) [hi)«t5ot5o»ne] ~ [hi)«toto»ni] ~ [hi«toto»ni] ‘peito de você’

(262) [di«toto»ni] ~ [di«toto»ne] ‘seus peitos’

(263) [e«t5ene»˙e)] ‘orelha dele/a’


45

(264) [«halo«t5ao»t55a] ‘você cuspe/cuspa’

(265) [t5uj»ja] ‘colher de pau comprida usada para

mexer mingau’
(266) [«et5a»ko] ~ [«eRa»ko] ‘aqui / ali’

(267) [ta˘»ka] ‘ali’

(268) [«hala»ta] ‘pente; jogar fora’

[ t6 ] Laminal alveolar surda

(269) [hi)«t6ot6o»n6i] ~ [hi)«t6oto»ne] ‘peito de você’

(270) [«not5a»ko] ‘minha barriga’

(271) [noj»t6i] ‘minha unha’

(272) [«dit6o»ko] ‘barrigas de vocês’

[ t= ] Laminal pós-alveolar surda

(273) [»awwi»t=a] ‘não’(proibitivo enfático)

(274) [haj»t=a] ‘já’

(275) [hi)«t=akoJ»l=i] ‘sua barriga’

(276) [now«wese«koi»t=a] ‘minha mão mesmo’(enfático)

A plosiva laminal alveolar surda é realizada quando encontra-se diante da vogal


alta palatal [i]. Parece que a lâmina da língua se dirige em direção à região pós-alveolar

quando logo após o [t] vem a vogal baixa central [a]. Quando a vogal seguinte for a

média posterior [o], a lâmina da língua tende a movimentar-se na direção dos alvéolos.

[k] Velar surda

(277) [e»kå)nU] ‘braço dele/a’


46

(278) [no»kå)nU] ‘meu braço’

(279) [now«wese»ko] ‘minha mão’

(280) [«doku»wi] ‘personagem mítico’

(281) [«kade»ne] 'verbo: decidir; conjunção: e'

(282) [»kal=i] ~ [»kaRI] ‘também’

(283) [ko»kWi] ‘espécie de gavião’

[g] Velar sonora

(284) [ago»te] ~ [ako»te] ‘muito’

(285) [a«goti»Ri] ~ [a«koti»Ri] ‘vários; grande; gordo/a’

(286) [a«gose»ti] ~ [a«kose»ti] ‘órgão genital feminino’

(287) [«awwe«nego»ta] ~ [«awwe«neko»ta] ~ [«ame«nego»ta] ‘pensar’

Ocorre alternância entre as velares surda [k] e sonora [g] entre vogais do tipo a e

o / e e o.

[ kJ ] Velar palatalizada

(286) [wi«kJolo»˙e)] ‘nosso queixo’

(287) [hi)«kJolo»˙e)] ~ [hi)«kJolo»˙i)] ‘queixo de você’

(288) [«ma˙i)«kJol6i»se] ‘afta’

(289) [di»kJanU] ~ [di»kJå)nU] ‘seus braços’

(290) [wi«kJana«seo»ko] ‘nossas bocas’

(291) [aj»kJunå] ~ [aj»kJu)nå] ‘pesca usando ictiotóxicos’

(292) [«ajkJu»l=i] ‘jabuti’

(293) [«ekaj»kJo] ‘pus’

(294) [haj«kJaciw»wa] ‘madrugada’


47

(295) [«ikJa˘»ta˘] ‘é assim mesmo’

(296) [i«kJawa»la] ~ [i«kJama»la] ‘não é assim não’

[ c ] Palatal surda
(297) [e»cinJU] ‘função ritual’
(298) [«ci)¯a»ta] ‘forte’

(299) [«ciSi»Si] ~ [i«kJaSi»Si] ‘pequeno’

(300) [«cijju«waka»ta] ‘trabalhar’

(301) [e«kacuJ»l=i] ‘bochecha dele/a’

[ cW ] Palatal labializada

(302) [hi‚ »cWwa] ~ [hi‚ »kJwa] ‘nascer’

[ kW ] Velar labializada

A plosiva velar surda labializada ocorre em ambiente de vogais arredondadas:

(303) [no»kWå)nU] ‘meu braço’

(304) [o»kWwa] ‘ele falou’

(305) [no»kWwa] ~ [no»kWwi] ‘eu falo; chamo’

(306) [e«sokWa»te] ~ [e«soka»te] ‘palha de buriti;buritizeiro’

(307) [«eka»kWwa] ‘com ele/a, com isto’

(308) [u˘»wa˘ hi)»Su kWa»dne] ‘ué/uai você é quem sabe, você decide’

(309) [wi»Su »kWal=i] ‘nós também’

(310) [«ijjå‚»kWwa] ‘ritual’

(311) [ta«lokWe»ne] 'mordeu-o’

(312) [no«kWana«seo»ko] ‘minha boca’


48

[d] Apical alveolar

(313) [dow»wa] ‘aranha’

(314) [«dajl6i«kajn=i»ti] ~ [«dajl6i«kJajni»ti] ‘ peido’

(315) [daw«weRaj»ti] ‘cocar’

(316) [«dodo»kWa] ‘diarréia’

(317) [ma»da] ‘tipo de armadilha de pesca’

(318) [do«lokWa»te] ~ [lo«lokWa»te] ‘palha de açaí’

(319) [«dalow«walo»kWa] ~ [«lalow«walo»kWa] ‘nome próprio’

[d] pode alternar-se com [l] quando diante de [a] ou [o] em início de palavra.

[ d5 ] Lâmino denti-alveolar sonora


Diante de vogal alta anterior pode ocorrer a plosiva sonora realizada com a ponta
da língua tocando nos dentes e, em conseqüência da proximidade, a lâmina da língua
alcança os alvéolos.
(320) [«d5 i‚¯wa« t5iRi»˙i)] ‘dedo mindinho’

[ /d ] Apical alveolar pré-glotalizada

(321) [» /dana] ~ [»dana] ‘jenipapo’

(322) [«e/dU»ja] ~ [«e/do»ja] ~ [«edo»ja] ‘umbigo’

(323) [«no/do»je] ~ [«nodo»je] ‘meu umbigo’

(324) [«a/da»na] ~ [«ada»na] ~ [«adå)»na] ‘trovão’

2.2.2. Nasais
49

[n] Apical alveolar

(325) [na»to] ‘eu, meu’

(326) [e»nå)nU] ‘linha; linha de anzol’

(327) [naw»we] ‘gente, povo; marca de coletivo’

(328) [»o)ni] ~ [»o)nI] ‘água’

[ n= ] Laminal pós-alveolar (alvéolo-palatal)

(329) [«noaJ»n=i] ~ [«noa»n=i] ‘para mim’

(330) [«nowaj»n=i] ~ [«nomaj»n=i] ~ [«noma˘»n=i] ‘eu vou morrer/eu morro’

(331) [«daJl=i«kJajn=i»t=i] ‘peido’

(332) [«an=i˘»n=i] ~ [«å)¯i˘»¯i] ‘ele come/comeu’

[m] Bilabial

(333) [ma»malU] ‘mamãe’

(334) [ma»do] ~ [ma»lo] ‘molhado;molha/molhou’

(335) [maJ»l=i] ~ [ma˘»di] ‘sovina’

(336) [«noto»ma] ‘eu faço’

(337) [«nomaj»n=i] ~ [«nowaj»ni] ‘eu morro/eu vou morrer’

(338) [«nomaj»Ra] ‘estou com medo/tenho medo’

(339) [«nome»Re˘na] ~ [«nome»Re)˘na] ‘estou com medo’(com marca

de aspecto continuativo)
(340) [«mame«neko»ta] ~ [«wawe«neko»ta] ‘nós pensamos/vamos pensar’

(341) [ka«mate»Ra] ‘instrumento de metal;

aparelho’
(342) [no«ma¯a»we] ~ [no«må)¯a»we] ‘estou com preguiça’

(341) [mi)»kJa] ~ [mi»kJa] ‘escuro, noite’


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(342) [«maj˙i)»a] ~ [«maj˙i)»¯a] ~ [«må‚j‚˙i)»¯a] ‘não’

(343) [«salU»må)] ‘ritual; grupo clânico já

extinto’
(344) [me»nå)nI] ‘pronto, acabado’

(345) [ka»me] ‘sol’

[¯] Palatal

(346) [«ma¯a»we] ~ [«må)¯a»we] ‘preguiçoso/a’

(347) [»di‚w)a] ~ [»di)ma] ~ [»di)¯wa] ‘criança’

(348) [i»Si‚w‚a] ~ [i»Si‚ma] ~ [i»Si‚˜wa] ‘fumaça’

(349) [«ki‚¯a»ta] [«ci‚¯a»ta] ‘forte’

(350) [«å)¯i˘»¯i] ~ [«å)n=i˘»n=i] ‘ele come’

(351) [hi«Si‚¯aka˘»˙å‚] ‘você conversa, você fala;

fale’
(352) [no«ti‚¯akuj»l=i] ~ [no«ti‚¯aku˘»l=i] ‘meu brinco de concha’

(353) [no«ki‚¯a«sa˘lU»Ri] ~ [no«kWi‚¯a«sa˘lo»Ri] ~ [no«kWi‚¯a«sa˘lU»l=i] ‘estou

cansada'
(354) [«i‚¯o˘»la] ‘bravo/a’

(355) [ti‚«¯olaj»ti] ‘sangue’

(356) [me« ¯aka»lo] ~ [me‚«¯aka»lo] ‘virgem’ (fem.)

2.2.3. Tepe

[R] Apical alveolar

(357) [»eRe] ~ [»eRI] ‘ele/a; este/a, isto’


51

(358) [i»Ri] ‘fruto’

(359) [e«Rikej»ti] ‘fogo’

(360) [«u˙i»Ru] ‘mulher’

(361) [we»Ra] ~ [be»Ra] ‘jirau’

(362) [«huSi»Ru] ‘colar de tucum’

(363) [«neRe«koto»wi] ‘eu me cortei’

(364) [haj»Ra] ‘bola; jogo de bola em que se

usa a cabeça para arremessá-


la’
(365) [«kiRi«kJwaRIt5i»aRI] ~ [«kiRi«kJwal=itJi»al=i] ‘pessoa (masc.) mau-

humorada’
(366) [no«majli»Ri] ‘eu não sou sovina’

(367) [ho˘»Re] ~ [ho˘»l=i] ‘então’(conjunção) ?

(368) [ha»haRe] ~ [ha»haRI] ~ [ha»hal=i] ‘papai’

(369) [»kaRe] ~ [»kaRI] ~ [»kal=i] ‘também’

(370) [«kaRi»wa] ~ [«kal=i»wa] ‘talvez’

(371) [«edo»se] ~ [«eRo»se] ‘olho dele/a’

(372) [e«Roti»ni] ~ [e«RUJti»ni] ~ [e«dojti»ni] ‘resina dele/a’

(373) [«neRo»wa] ~ [«neRu»wa] ~ [«nedo»wa] ‘eu caio/caí’

2.2.4. Fricativas

[ s ] Alveolar surda
Surge diante de todas as vogais orais, exceto [i].

(374) [e«tako»se] ~ [e«Rako»se] ~ [e«Rako»Si] ~ [e«Rako»Si‚] ‘bem ali; pertinho’

(375) [e»se] ‘semente’


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(376) [«mase»Ra] ‘mentira; mentir’

(377) [«ase»ma] ‘entender’

(378) [«kase»we] ‘cheio’

(379) [e«kana«seo»ko] ‘boca dele/a’

(380) [saj»l=i] ~ [saj»Ri] ‘pedra’

(381) [«salU»må)] ‘ritual’

(382) [ta»sa] ‘pode; dane-se’

(383) [so˘»l=i] ~ [so˘»Re] ~ [so˘»Ri] ‘espera/espere’

(384) [no«sote»ne] ‘eu sei isso’

[S] Palato-alveolar

(385) [Si»Si] ‘beiju’

(386) [«SiRe»se] ‘periquito; cabaça’

(387) [Si«¯aka»˙å)] ~ [Si)«¯aka»˙å)] ‘língua, fala;ele/a conversa’

(388) [«di)¯wa»Si] ‘criancinha’

(389) [ «Sawwi»jal=i] ~ [« Sawwi»jaRI] ~ [« Sami»jalI] ~ [«Så)mi»jal=i] ‘porco do

mato’
(390) [»ha˘ ˙u»wå) »Sa˘] ‘responda , estou chamando’

(391) [»ha˘ «Sano»kWwi] ~ [»ha˘ «Sano»kWwa] ‘responda, estou chamando’

(392) [So»Sola] ‘tesoura’

(393) [So«Soko«wao»ko] ~ [«SoSo«kWwao»ko] ‘espécie de macaco’

(394) [«Sula»se] ‘espécie de papagaio’

(395) [di«Suna»˙å)] ‘vocês’

[h] Glotal fricativa

(396) [«hajkJu»l=i] ‘seu dente’


53

(397) [«hakaj»l=i] ‘cará branco’

(398) [he«nene»˙e)] ~ [he«ne)ne»˙e)] ‘sua língua’

(399) [«hiti»Ri] ‘cabaça’

(400) [ho»ta] ‘sua unha’

(401) [ho)»kWwa] ‘rede’

(402) [huj»Ra] ‘azul/verde’

A glotal fricativa [h] ocorre diante de todas as vogais orais e nasais como onset de

sílabas iniciais. Enquanto as fricativas [s] e [S] produzem uma corrente de ar turbulenta

no trato vocal, a glotal surda, como o próprio nome diz é produzida a partir de uma leve
turbulência da corrente de ar na glote. Por isso, é chamada também de glide laríngeo. Ao
ser produzido, a cavidade nasal não é fechada, permitindo o espraiamento da nasalização
quando a mesma ocorrer em ambiente adjacente.

[˙] Glotal murmurada

(403) [«nako»˙å)] ‘eu tomo banho’

(404) [na«tona»˙å)] ‘eu vou embora’

(405) [he«nene»˙e)] ~ [he«ne)ne»˙e)] ‘sua língua’

(406) [no»˙i)¯U] ‘meu pescoço’

(407) [«o)nI»˙i)] ‘cinza; argila; creme dental’

(408) [«e˙o»ta] ‘tatuagem’

Como se pode observar nos dados acima, a glotal murmurada [˙] ocorre em

ambiente intervocálico. Também faz parte do grupo de glides laríngeos (j, w, h, ˙, /)

estabelecido por Chomsky & Halle (1968). Normalmente, ela é confundida como sendo
sonora, ao invés de murmurada, devido à sua disposição no quadro do IPA e ao fato de
ser produzida entre segmentos sonoros.
54

2.2.5. Aproximante lateral

[ l= ] Laminal pós-alveolar

(409) [a«˙aka»˙al=i] ~ [a«˙aka»˙aRI] ‘aquele que se apossa

dos bens dos outros’


(410) [«daJ l=i»˙i)] ~ [«laRe»˙i)] ‘lacraia’

(411) [«lalo«kWal=i»se] ~ [«dalo«kWal=i»se] ~ [«dalo«kWaRi»se] ‘nome próprio’

* [«dado«kWaRi»se] ~ * [«lado«kWal=i»se]

(412) [aj»l=i] ~ [aj»Ri] ‘aqui’

(413) [«lol=i»se] ~ [«loRi»se] ~ [«dol=i»se] ~ [«doRi»se] ‘estrela’

(414) [«meRi»kal=i] ~ [«meRi»kaRI] ‘relâmpago’

[l] Apical alveolar

(415) [a«laka»Si] ‘verme’

(416) [so«talU»t6i] ~ [so«talUJ»t=i] ‘pajé’(feminino)

(417) [loJ»t=i] ~ [doJ»t=i] ‘espécie de árvore do cerrado que

produz resina; a resina da árvore;


vela’
(418) [ma«lula»se] ‘espécie de tatu’

(419) [lo«lokWa»te] ~ [do«lokWa»te] ‘palha de açaí; açaízeiro’

* [do«dokWa»te] * [lo«dokWa»te]

A aproximante laminal pós-alveolar tende a ocorrer diante de vogal palatal alta,


ao passo que a apical alveolar [l] aparece no onset silábico das demais vogais.
55

Normalmente na literatura tradicional os diversos sons de l e r são agrupados


como sendo líquidos. Schane (1975), por exemplo, segue esta classificação e sua
subdivisão é em líquidas laterais e não laterais.
Já, Ladefoged e Maddieson (1996, p. 215), reconhecem que as rhotics (como
nomeia as consoantes do tipo r) possuem certas propriedades fonéticas e fonológicas
semelhantes às laterais, apesar de apresentá-las em grupos separados. Estas consoantes
fazem parte do grupo das soantes orais mais melodiosas. Em línguas onde encontramos
sílabas com seqüências consonantais complexas, usualmente, são esses segmentos os
selecionados pela sua fonotática.
Em Enawene-Nawe não existe o que a gramática tradicional chama de encontro
consonantal. Então, os segmentos acima citados não fazem parte de agrupamentos
consonantais complexos, mas funcionam como alofones de um mesmo fonema líquido
quando diante de [ i ]. Essa possibilidade de variação entre uma lateral e uma rhotic é
atestada em muitas outras línguas do mundo, como informam Ladefoged e Maddieson
(op. cit. p. 243).
A primeira impressão que podemos ter, ao ouvirmos as fitas gravadas e ao
participarmos das conversas do dia-a-dia com moças e rapazes, mulheres e homens numa
fase adulta avançada, é que existiriam duas variantes geracionais: de um lado, o dialeto
dos jovens, de outro, o dialeto dos idosos. A princípio, parece que o uso da aproximante
lateral diante de [i] é realizado por crianças, adolescentes e jovens adultos, enquanto que

o uso do tepe [R] acontece entre os adultos mais velhos e os idosos. Trata-se de uma

observação preliminar que necessitaria, para ser confirmada, de uma investigação mais
aprofundada.

Na próxima seção, apresentaremos os quadros fonéticos das consoantes e vogais


identificados nos dados acima, utilizando uma terminologia tradicional. Em seguida,
pontuaremos algumas observações sobre variação dialetal. Ao final, forneceremos as
definições dos traços propostas para o modelo de Clements e Hume (1995) que serão
aplicadas na descrição fonológica realizada no próximo capítulo.
56

2.3. Quadros Fonéticos das Vogais e Consoantes

Nos quadros abaixo, reunimos os segmentos vocálicos e consonantais encontrados


no corpus coletado.

Segmentos Vocálicos: orais / nasais


vogais breves vogais longas
anterior central posterior anterior central
posterior

alta i / i) u / u) i˘ / i)˘ u˘ / u)˘


I / I) U / U)
média e / e) o / o) e˘ / e)˘ o˘

å) å)˘
baixa a a˘

Segmentos Consonantais

Bilabial Denti-alv. Alveolar Pós-alv. Palatal Velar

Glotal
n
Plosiva b t5 d5 t tJ /d d t= c cW k kJ kW g gW /

Nasal m n dn n= ¯

Tepe R

Fricativa s S h

Aproximante æ w

Aprox. lateral l l=
57
58

Obs:
ƒ A oclusão glotal [/] apenas foi encontrada na interjeição que significa uma

resposta ou afirmação positiva:


(420) [«he)»/e)] ~ [«/e)»/e)] ‘sim; certo’

ƒ Normalmente, as consoantes em posições adjacentes à vogal coronal [-aberto


2] compartilham com ela o traço [+distribuído], realizando-se a partir de um
movimento da lâmina da língua na direção da região alveolar ou pós-alveolar,
como preparação para a articulação de tal vogal que segue a consoante ou
como extensão das articulações já utilizadas na produção desta vogal em
posição antecedente. Assim, além dos segmentos consonantais exibidos no
quadro acima, temos as seguintes possibilidades de ocorrência: [d6 ], [ t6 ], [ t=],

[ l6 ], [ l=], [n6] e [n=].

Parece-nos que essas realizações tendem a ocorrer no dialeto daqueles que


usam a variante [l] antes da vogal coronal [-aberto 2]. No dialeto em que se

usa a variante [R], as coronais obstruintes quando adjacentes à vogal coronal [-

aberto 2] são produzidas com a ponta da língua nos dentes e a sua lâmina
aproximando-se dos alvéolos simultaneamente. Nesse caso, teremos uma
laminal denti-alveolar: [t5], [d5], [n5].

ƒ A região pós-alveolar parece ser alvo do movimento da lâmina da língua na


produção de uma consoante obstruinte, quando esta é antecedida pela vogal
[i] ou pelo glide [j] e seguida pela vogal [+ aberto-1]:

(421) a) [«awwi» t=a] ‘não’ (proibição, conselho)

b) [haj»t=a] ‘já’

Esta tendência mostra-se recorrente nos dois dialetos.

É importante considerarmos que as divisões limítrofes entre órgãos articuladores


(cf.Anexo 2) como ponta e lâmina da língua e entre os possíveis alvos da região palato-
59

alveolar são muito tênues, dificultando a identificação precisa dos detalhes envolvidos na
produção de determinados sons através apenas da percepção, sem o auxílio de recursos
experimentais. Sendo assim, as variações arroladas anteriormente necessitam de
averiguações adequadas. Porém, na medida em que essas variações constituem-se
somente em acomodações fonéticas na articulação dos segmentos, não apresentando
caráter distintivo, acreditamos que os nossos possíveis equívocos de percepção, com
relação a esses aspectos não poderão nos levar a maiores distorções descritivas.

Passemos, pois, à definição dos traços, os quais serão retomados no capítulo


dedicado à fonologia em uma representação arbórea dos segmentos (cf. cap.3 adiante,
sub-seção 3.1.2) proposta por Clements e Hume (1995). Conforme esta representação, os
traços das classes maiores são binários no que se referem às consoantes e os traços de
ponto de articulação são privativos, tanto para elas quanto para as vogais.
Classe de traços maiores:
ƒ [+/- soante]: Soantes são os sons produzidos com a configuração do trato
vocal suficientemente aberta, permitindo que a pressão do ar fora e dentro da
boca permaneça aproximadamente igual. Sons não-soantes são aqueles
produzidos com uma constrição do trato vocal suficiente para aumentar a
pressão do ar dentro da boca significativamente acima daquela do ar ambiente.
Como [+ soantes] temos, então, as nasais, as líquidas e os vocóides. As
oclusivas e fricativas são [- soantes].
ƒ [+/- aproximante]: Para Clements (1990, p.293 apud D’ANGELIS 1998,
p.101) aproximante é “qualquer som produzido com uma constrição no trato
vocal suficientemente aberta de tal modo que a corrente de ar através dele
somente seja turbulenta se ele for surdo”. Clements e Hume (op. cit. p.269)
apresenta as líquidas e todos os vocóides como [+ aproximantes]. As nasais e
as obstruintes são interpretadas como [- aproximantes].
ƒ [+/- vocóide ]: Vocóides são sons produzidos sem apresentar constrição no
trato oral como, por exemplo, as vogais e os glides. Os sons produzidos a
60

partir de uma constrição no trato oral são [- vocóides], ou seja, são as


consoantes obstruintes, nasais e líquidas.

2. Traços laríngeos:
ƒ [+/- vozeada ]: Sons vozeados são aqueles produzidos com uma configuração
laríngea que permite a vibração periódica das cordas vocais. Os sons [-
vozeados não apresentam tal vibração periódica.
ƒ [glote constrita ]: Os sons produzidos com as cordas vocais unidas de modo
que as mesmas não apresentem vibração são as ejectivas, as implosivas e as
consoantes, vogais e glides glotalizados ou laringalizados.
ƒ [ glote não-constrita ]: Os sons produzidos a partir de uma configuração glotal
não-constrita (spread), ou seja, com as cordas vocais separadas de maneira a
resultar um sinal acústico não-periódico são as consoantes aspiradas, as
murmuradas, as vogais e os glides surdos.

3. Traços de ponto de articulação: Os traços de lugar são redefinidos por


Clements e Hume (Ibid. p.277) com base na constrição do trato oral durante a
produção dos segmentos e não, no movimento dos articuladores.
ƒ [ coronal ]: envolve uma constrição formada pela parte anterior da língua –
consoantes coronais e vocóides anteriores (i.e., sons produzidos com a ponta
ou a lâmina da língua).
ƒ [+/- anterior ]: Os sons [+ anteriores] são produzidos com uma constrição
primária em frente aos alvéolos, enquanto nos sons [-anteriores] a constrição
primária ocorre atrás dos alvéolos.
ƒ [+/- distribuída ]: Sons distribuídos apresentam uma constrição que se estende
a uma distância considerável ao longo da região médio-sagital do trato oral,
enquanto naqueles [- distribuídos] a constrição se estende por uma curta
distância. Os sons [+ distribuídos] são produzidos com a lâmina da língua e os
[- distribuídos] são produzidos com a ponta da língua.
61

ƒ [ labial ]: envolve uma constrição formada pelo lábio inferior – consoantes


labiais, vocóides labializados ou arredondados.
ƒ [ dorsal ]: envolve uma constrição formada pela parte posterior da língua –
consoantes dorsais e vocóides posteriores.

4. Traços de abertura: Usados para caracterizar a altura das vogais (veja cap.3,
seção 3.2/ subseção 3.2.1).

5.Traços de modo de articulação:


ƒ [+/- nasal ]: A atividade do véu palatino dita a nasalidade dos segmentos. Os
sons produzidos com o véu palatino abaixado, permitindo a passagem do ar
através do nariz são nasais. Com o véu palatino levantado, a passagem de ar
pelo nariz fica bloqueada e, então, têm-se sons orais ou [- nasal ]. Os sons
nasais são as oclusivas nasais e as consoantes, vogais e glides nasalizados.
ƒ [+/- contínua ]: Para os sons [+ contínuo] o fluxo de ar no trato vocal não é
bloqueado, ao passo que para a produção dos sons [- contínuo]a constrição
primária
se dá com o trato vocal estreitado a ponto de impedir a passagem do fluxo de
ar pela boca.
Para melhor compreensão dos fundamentos fonético-articulatórios das definições
acima elencadas, disponibilizamos no Anexo 2 desta dissertação, figuras adaptadas de
Ladefoged e Maddieson (1996, p.12-15) com a demonstração dos articuladores ativos e
seus respectivos alvos envolvidos na produção dos segmentos.

No próximo capítulo, trataremos do inventário fonológico preliminar e dos


recorrentes processos fonológicos observados na língua Enawene-Nawe até o momento.
62

3. INVENTÁRIO FONOLÓGICO PRELIMINAR

Tendo inventariado os segmentos fonéticos, passemos para a tarefa de identificar


dentre eles os fonemas e seus respectivos alofones. Na verdade, estaremos rastreando os
traços distintivos hierarquicamente organizados que compõem os fonemas. Em um
primeiro momento, como um recurso auxiliar na sistematização dos dados, disporemos
dos critérios formais tradicionais utilizados por lingüistas desde a Fonêmica Clássica, os
chamados procedimentos de descoberta – discovery procedures. Sintetizaremos os
principais conceitos que comportam esses procedimentos na subseção 3.1.1.
Reuniremos, ao final, os segmentos distintivos consonantais e vocálicos da lígua
Enawene-Nawe, nomeando-os de acordo com a terminologia do Modelo Auto-Segmental
da Geometria de Traços, mais especificamente, o modelo proposto por Clements e Hume
(1995) que nos orienta no presente trabalho. Os fundamentos teóricos necessários para tal
abordagem serão fornecidos na subseção 3.1.2.
Além disso, na última seção deste capítulo, trataremos de alguns processos
fonológicos identificados na língua Enawene-Nawe, também a partir da perspectiva
multi-linear da Geometria de Traços.

3.1. Fundamentos Teóricos

Nas subseções seguintes, esboçaremos os fundamentos teóricos que norteam


nossa descrição. Não advogamos defesa ao modelo teórico aqui utilizado, apenas
tentaremos nos servir dos seus aparatos técnicos que nos permita o máximo de coerência
descritiva. Reconhecemos, inclusive, muitas das incongruências e limitações apontadas
por vários lingüistas quanto ao Modelo de Geometria de Traços por nós adotado,
principalmente, com relação ao seu caráter universal que o torna extremamente poderoso.

Uma crítica mais específica ao modelo representacional proposto por Clements e


Hume (op. cit.) abordada em D’Angelis (1998, vol. I p.102-105), por exemplo, diz
63

respeito à definição da alocação dos traços de modo na representação geométrica e à


relação hierárquica que estabelecem nos sistemas fonológicos das línguas. Segundo o
autor, os traços “[lateral], [estridente] e [nasal] permanecem no ‘limbo’ da geometria de
traços para Clements e Hume” (ibid. p.103).
Embora não seja nosso objetivo aprofundar discussões de ordem teórica,
consideramos estratégico que tenhamos consciência dos problemas que o modelo
apresenta, de modo a avaliar as perdas e os ganhos que pode proporcionar em termos de
adequação descritiva e explicativa.

3.1.1. Os Procedimentos de Descoberta

Como dissemos anteriormente, a organização dos dados na seção 3.3, onde


rastrearemos os traços distintivos dos segmentos da língua Enawene-Nawe, será realizada
a partir de procedimentos de descoberta típicos para a identificação dos fonemas e seus
alofones na descrição de uma dada língua. Trata-se dos procedimentos propostos por Pike
(1947) e muito utilizados pelos lingüistas estruturalistas Pós-Bloomfieldianos. Estes
procedimentos baseiam-se em critérios de contraste, distribuição complementar,
similaridade fonética e variação para a seleção e sistematização dos pares suspeitos que
possam apresentar oposições ou ser apenas variações (Durand 1990, p.7-9).
Vejamos o que significa cada um desses critérios:
- Oposição: Possivelmente, teremos fonemas distintos se dois fones apresentarem
contraste em ambientes idênticos ou análogos, ou seja, acarretarem mudança de
significado quando substituídos um pelo outro no mesmo ambiente ou em ambiente
semelhante. Esta operação de identificação de contraste exige a observância de pares
mínimos – duas palavras devem ser idênticas, exceto com relação a apenas um traço.
Tradicionalmente e até mesmo intuitivamente, quando estamos aprendendo uma língua,
por exemplo, saímos em busca destes pares mínimos contrastivos como se eles fossem
unidade indivisíveis. Contudo, quando paramos para observar e analisar o que acontece
na ocorrência dos contrastes, podemos verificar que muitas vezes com a alteração de
64

apenas um grupo de traços ou de um único traço do segmento já dispomos de outro


segmento.
- Distribuição complementar: Caso dois fones assumam formas diferentes
dependendo do contexto em que aparecem, eles podem ser tentativamente analisados
como alofones de um mesmo fonema.
- Similaridade fonética: A similaridade fonética impõe uma limitação ao critério
de distribuição complementar, evitando o surgimento de grupos absurdos. Durand (op.
cit., p.8) afirma que esta noção é muito vaga, mas pode tornar-se mais precisa quando
relacionada a traços distintivos.
- Variação livre: Se dois fones podem ser substituídos um pelo outro no mesmo
ambiente sem provocar mudança de significado, eles são candidatos a alofones de um
mesmo fonema.
Do ponto de vista aqui adotado, tais procedimentos não são suficientes para a
descrição de uma língua e, muito menos, adequados para a sua análise. Porém, eles
podem funcionar como uma primeira visualização do corpus coletado. Nesse sentido,
cremos que esses procedimentos não sejam totalmente destituídos de valor.
É necessário evidenciar que os pressupostos teóricos que conduzirão a aplicação
desses conceitos na nossa investigação referem-se à Fonologia Gerativa Não-Linear, mais
especificamente, ao Modelo Auto-segmental da Geometria de Traços. Assim,
focalizaremos os traços enquanto unidades fonológicas mínimas, organizados
hierarquicamente em nós de classes que compõem a geometria do segmento.

3.1.2. Geometria de Traços (Modelo de Clements e Hume 1995)

A Geometria de traços surgiu da necessidade de uma formalização que


expressasse a independência fonológica de traços individuais que compõem os segmentos
e que podem funcionar isoladamente ou em conjunto nos processos fonológicos de
assimilação, dissimilação, epêntese, apagamento e propagação harmônica. Podem,
também, funcionar como um bloqueio, impedindo processos de espraiamento.
65

A principal evidência para a organização dos traços em uma estrutura hierárquica


é, então, a operação de regras fonológicas que atuam em determinados grupos de traços
em detrimento de outros. Dessa maneira, cada grupo de traços reúne traços que sofrem
juntos processos fonológicos e não, quaisquer traços aleatoriamente. Um grupo de traço
assim organizado forma um constituinte na hierarquia e pode ser manipulado
separadamente como uma unidade, sem afetar os outros constituintes do segmento.
A geometria de traços opera a partir de princípios básicos que impõem restrições à
forma e funcionamento das regras fonológicas:
- O mais geral desses princípios determina que as regras fonológicas constituem
uma única operação.
- O Princípio do Não-Cruzamento de Linhas (No-Crossing Constraint – NCC)
pode funcionar como uma Condição de Boa-Formação, impedindo o cruzamento entre
as linhas de associação que ligam um elemento a outro.
- O Princípio do Contorno Obrigatório - PCO (Obligatory Contour Principle –
OCP) proíbe elementos adjacentes idênticos. Estes elementos tanto podem ser segmentos
inteiros como, também, traços terminais ou nós de classe.
Além desses princípios, Clements e Hume (op. cit., p.250) argumentam que a
organização dos traços é universal, pois se a organização dos traços pudesse variar
livremente, não seria possível fazer previsões interlingüísticas. Eles afirmam que, dentre
as muitas razões que comprovam esse princípio universal, está o fato de que o mesmo
grupo de traços é recorrente em várias línguas. Como já mencionamos anteriormente, o
princípio de universalidade da Geometria proposta pelos dois autores representa um dos
pontos mais contestados por vários lingüistas.
De acordo com Clements e Hume (ibid., 292), que têm apresentado várias
tentativas experimentais na área das Geometrias já há alguns anos, a configuração
geométrica de traços que apresenta os mais bem estabelecidos nós de classe e sua
organização em consoantes e vogais é ilustrada na seguinte figura:
66

(A) 1) Consoantes 2) Vogais


+- soante + soante
raiz +- aproximante raiz + aproximante
- vocóide + vocóide
laríngeo laríngeo
[ nasal ] [ nasal ]

[gl. não-const ] [gl. não-constrita ]


[gl. constrita ]
[ vozeado ] [gl. constrita ]
cavidade oral cavidade
oral
[ vozeado ]
[ contínua]
[contínua ]

Ponto-de-C Ponto-de-C

vocálico
abertura
Ponto-de-V
[ aberto
]
[ labial ] [ labial ]
[ coronal ] [coronal ]
[ dorsal ] [
dorsal ]
[ anterior ] [ - anterior ]
[ distribuído ] [
distribuído ]
67

Através das figuras, reproduzidas acima, podemos perceber que este modelo
propõe um único conjunto de traços articulatórios para consoantes e vogais, tornando
possível explicar a interação entre as duas. Os autores reforçam, ainda, que as consoantes
com articulações secundárias incluem um nódulo vocálico embaixo do nódulo Ponto-de-
C (cf. o segmento complexo [kJ] em (C) no final desta sub- seção). Os traços [- voz ], [+

cont] e [-ant] são não contrastivos nos vocóides.


Quanto à natureza dos traços distintivos, mais particularmente com relação à
valência que apresentam, esse modelo considera todos os nós de classe como
monovalentes. Os traços de ponto de articulação, tanto para vogais como para
consoantes, também são unitários. A maioria dos traços terminais apresenta valor
unitário. Os valores unitários são representados em termos de presença, enquanto a
valência binária é expressa em termos de presença, com a marca positiva versos ausência,
com a marca negativa. Para as vogais, todos os traços da raiz são marcados
positivamente. Para as consoantes, o traço vocóide é inerentemente negativo e os outros
traços de sua raiz são bivalentes. O traço vocálico [aberto] é multiário.
A questão relativa à valência de alguns traços, por exemplo, [nasal] e [sonoro]
dentre outros, não é tão simples como a apresentamos aqui. Ao contrário, revela-se
bastante complexa, e as possíveis soluções postuladas para o caso não encontram
consenso entre os lingüistas. Tecemos breves comentários a esse respeito na sub-seção
3.4.5, que trata da formação de segmentos de contorno.
Nessas figuras geométricas, as linhas de associação conectam um nó ao outro ou
a um traço terminal. Elas também podem indicar a atuação de processos fonológicos,
como veremos na seção a estes dedicada mais à frente.
Enquanto os traços terminais representam somente um elemento, ou seja, o
próprio traço, o nó raiz domina todos os traços e representa o segmento como uma
unidade fonológica. O nó de raiz apresenta um status especial no modelo, pois é
constituído por traços de classes maiores que atuam em conjunto para definir as classes
maiores de sonoridade, a saber, obstruintes, nasais, líquidas e vocóides. Como os traços
[soante], [aproximante] e [vocóide] que compõem a raiz possuem uma ação conjunta,
68

eles jamais podem espraiar-se ou desligar-se individualmente. Clements e Hume (id.,


269) fornecem uma escala de sonoridade em função dos valores positivos desses traços:
69

(B) [soante] [aproximante] [vocóide] escala de sonoridade


obstruinte - - - 0
nasal + - - 1
líquidas + + - 2
vocóide + + - 3

Algumas implicações podem ser inferidas diretamente da própria representação


hierárquica, que pressupõe relações de dependência. Por exemplo, se uma regra de
apagamento afetar o nó de raiz, que domina todos os outros que estão abaixo dele,
obviamente, todos esses nós serão deletados simultaneamente. Se um segmento apresenta
o traço [anterior], que é dependente do traço de ponto de articulação [coronal], infere-se
que este último esteja necessariamente presente. Entretanto, Clements e Hume (op. cit.,
p.267) advertem que nem todas as relações implicacionais podem ser definidas somente
dessa maneira. Os autores exemplificam, apontando que o traço [+ consonantal] requer
um nó de lugar de articulação e, ainda assim, o seu nó de lugar encontra-se abaixo dele na
hierarquia, tendo em vista que o mesmo pode espraiar-se independentemente do traço
[consonantal].
Outras inferências podem ser realizadas com base em Condições de Boa-
Formação, não apresentando relação com a organização hierárquica em si mesma. Com
isso, admiti-se que todos os segmentos [- consonantal ] são [- lateral ] e [+ soante
], todas as obstruintes
[- contínuas] são [- nasal], e todas as vogais [+baixa, -posterior] são [- arredondadas].
A contenção de aplicação de regras de espraiamento também pode ser prevista,
pelo menos em parte, a partir da própria configuração estrutural dos segmentos. Nesse
ponto, estamos nos referindo aos efeitos de transparência e opacidade que, além de
resultar dos limites impostos pela representação interna dos segmentos, também são
regulados pelo Princípio do Não-Cruzamento de Linhas. Isto significa que o
espraiamento de um determinado traço ou nó será bloqueado na direção de segmentos já
caracterizados para esse mesmo traço.
70

Em consonância com a formalização hierárquica dos traços, dispostos em


diferentes camadas, ligadas por linhas de associação e rendendo-se à terminologia
proposta em Sagey (1986 apud CLEMENTS e HUME ibid., p.253), nossos autores
distinguem três diferentes tipos de segmentos:
1. Segmentos simples: apresentam um nó de raiz caracterizado por, no
máximo, um traço de articulação oral.
2. Segmentos complexos: consistem em um nó de raiz caracterizado por, no
mínimo, dois traços diferentes de articulação oral, ou seja, apresentam duas ou mais
constrições no trato oral.
3. Segmentos de contorno: apresentam seqüências ou contornos de
diferentes traços. A motivação para o surgimento de tais segmentos é a existência de
“efeitos fonológicos de borda” (phonological edge effects), conforme o qual um
segmento pode comportar-se com o valor (+) de um traço, em relação ao segmento
vizinho de uma borda, e com o valor (-) do mesmo traço, em relação ao segmento vizinho
da outra borda (ANDERSON 1976 apud CLEMENTS e HUME op. cit., p.254).
Normalmente, as africadas e as pré e pós-nasalizadas são consideradas representantes
desse tipo de segmento.
Abaixo, demonstraremos na prática como podemos formalizar esses tipos de
segmentos, com base em exemplos da língua Enawene-Nawe ( a estrutura irrelevante está
omitida):
71

d
(C) k kJ n

X X X

r r r r
[- nasal ] [+ nasal ]

Ponto-de-C Ponto-de-C CO

[dorsal] [dorsal] Ponto-de-C


Vocálico

Ponto-de-V [coronal]

[coronal]

[+ anterior] [+ distribuído]

As estruturas em ( C ) correspondem, respectivamente, a representações de


segmentos do tipo simples, complexo e de contorno. Eles serão abordados novamente,
com maiores detalhes, na seção 3.3.
Continuaremos a abordagem dos aspectos teóricos do modelo geométrico em
questão, mais adiante, na seção em que trataremos dos processos fonológicos. Por ora,
após a síntese dos pressupostos básicos que norteiam a Geometria de Clements e Hume
(1995), seguiremos com a descrição dos traços distintivos na próxima seção.

3.2. Os Traços Distintivos

Nesta seção, descreveremos as propriedades fonéticas e as evidências fonológicas


que nos guiará na elaboração de um inventário fonêmico preliminar da língua Enawene-
nawe.
72

Primeiramente, inventariaremos o sistema vocálico. Depois, descreveremos o


sistema consonantal.

3.2.1. Sistema Vocálico

Como vimos no capítulo 3, no inventário fonético preliminar da língua Enawene-


Nawe verificou-se 8 segmentos: [ i, u, I, U, o, e, å, a ]. Esses segmentos podem

apresentar alongamento e nasalidade. Abaixo, avaliaremos as evidências de contraste


entre eles através de pares mínimos e de pares análogos. Primeiro, vamos observar o
comportamento das vogais orais breves.

Vogais Orais Breves:

(422) a. / i / [aw«wi»ta] ‘não’ (proibição ou conselho)

b. / e / [aw«we»ta] ‘bom sim’

[hi«˙i˙o»ko] ‘seu quarto’

[he«˙eko»ko] ‘você está certo’

[«ikJa»l=i] ‘igual; assim’

[«ekaj»l=i] ‘nariz dele/a’

(423) a. / e / [aw»we] ‘bom’

b. / a / [aw»wa] ‘não’ (proibição ou conselho)

(424) a. / e / [e»ko] ‘pronto, cozido’ (referindo-se à

comida)
b. / o / [oko] ‘forma redonda, orifício arredondado’

[«ene»te] ‘carne dele/a’

[«ene»to] ‘mãe dele/a’


73

(425) a. / a / [a»˙å)] ‘vez’

b. / o / [o»˙å)] ‘espécie de gramínea’ (indica o

começo da estação de pesca ritual / Yãkwa)

(426) a. / i / [i»t=a] ‘rede dele/a’

b. / o / [o»t5a] ‘unha dele/a’

[ij»j i] ‘taquara usada p/ corar cabelo’

[ij»ju] ‘seco’

(427) a. / i / [d5i»t=a] ‘vossas redes’

b. / a / [d5o»t5a] ‘vossas unhas’

[haj»t5i] ‘casa de Yãkwa’

[haj»t=a] ‘já’

Os pares de segmentos vocálicos, acima, demonstram contraste em ambientes


idênticos e análogos, o que comprova a existência dos seguintes fonemas na língua
Enawene-Nawe: / i, e, o, a /.

As vogais labiais [o, u, U] não contrastam entre si. Enquanto a vogal frouxa [U]

tende a aparecer em ambientes átonos, [o] e [u] concorrem nos demais ambientes:

(428) / o / [o] ~ [u] ~ [U]

a. [«kono»˙e)] ‘algodão’

[So»Sola] ‘tesoura’

[na»to] ‘pronome livre de 1a pessoa’

[«eto»ko] ‘tear’
74

b. [«kuta»˙u)nU] ‘espécie de formiga comestível’

[ku»lalU] ‘nome próprio’

[«Sula»se] ‘espécie de papagaio’

[hi)»Su] ‘pronome livre de 2a pessoa’

c. [aw»wa˘lU] ~ [aw«wa˘»lo˘] ‘bonita’

[«to)nUta»˙å)] ‘cavadeira feita de madeira’

[e»˙o)nU] ‘erupção na pele, alergia’

Outra vogal que, também, aparece em ambientes átonos é a vogal [I]. Ela ocorre,

opcionalmente, em posição átona como alofone de / i, e /:

(429) a. [aw»wa˘l=I] ~ [aw«wa˘»l=I˘] ‘bonito’

b. [«awwe»Ra˘RI] ‘divertido, bom, gostoso’

c. [«haRI»kaRI] ~ [«hal=I»kal=I] ‘anfitrião’

Pode-se encontrar também em posição átona, a vogal [å] como alofone da vogal

baixa [a]. Em caso de nasalização, essa qualidade vocálica torna a se desenvolver em

detrimento de [a]. Vamos ver alguns dados:

(430) a. [»e)nå] ‘homem’

b. [tew»we)nå] ~ [te»me)nå] ~ [tew«we)˘»na˘] ‘pesado’

c. [i«t55ajti»5˙å)¯å] ‘suporte (feito de cerâmica) para adorno de

borracha’
75

Passemos, agora, ao exame da configuração interna dos segmentos vocálicos


reportados acima, rastreando suas qualidades nucleares, isto é, seus traços distintivos.
O modelo de Clements e Hume (1995, p.282-83) propõe um nódulo de Abertura
como constituinte independente que agrega os traços de altura das vogais. O grau de
abertura é caracterizado por um único traço [+/- aberto]. O traço [aberto] pode ser
subdividido em várias escalas de valores, ordenadas em camadas (tiers). Assim,
identificamos 03 graus de abertura no sistema vocálico Enawene-Nawe. Segundo os
autores, esse sistema é bastante familiar nas línguas do mundo.
Tomamos os dois registros primários de altura, a saber, um relativamente alto [-
aberto] e outro relativamente baixo [+ aberto] e dispomos na camada mais alta, a qual
designaremos aberto 1. Depois, abriremos outra camada, aberto 2, subdividindo o registro
primário mais alto em dois registros secundários. Então, teremos (valores redundantes
estão incluídos):

(D) i e, o a
nó de abertura

aberto 1 - - +

aberto 2 - + +

A partir dessa geometria, classificamos a vogal / a / como [+ aberto 1], o que

implica [+ aberto 2] na camada 2. A vogal / i/ é interpretada como [- aberto 2]. As vogais

/ e / e / o / são ambas [- aberto 1, + aberto 2]. Nesse caso, o contraste entre elas se dá

pelo ponto de articulação, já que / e / é [ coronal ] e / o / é [labial]. Como a única vogal

labial no sistema é / o /, podemos captar a seguinte regra de redundância:

[+ vocóide, labial ] [ - aberto1, + aberto 2]

A vogal [å] apresenta os traços [+ aberto 1, - aberto 2], que como já vimos só se

realizarão no output fonético. As vogais [I] e [U] são derivadas, também, a partir de

regras paramétricas da língua, que as posiciona em ambiente átono ao lado de segmentos


76

coronais. Poderemos caracterizá-las com o traço [- tenso], diferenciando-as das vogais


tensas. [I] surge nesse ambiente átono, neutralizando o contraste entre / i / e / e / em favor

da superficialização do traço [- aberto 2]. Como [o] e [u] não contrastam entre si, a

realização de [U] é uma neutralização da distribuição posicional das duas, favorecendo

também ao traço [- aberto 2].


Como se pode ver no diagrama arbóreo proposto em (A.1), o nódulo de Abertura
e o nódulo Ponto-de-V são dependentes do nódulo Vocálico, permitindo que ambos
funcionem juntos nos processos fonológicos, ao mesmo tempo, em que mantêm
independência um do outro. Observemos, pois, os traços contidos no nódulo Ponto-de-V.
As vogais que não apresentaram contraste quanto ao grau de abertura podem distinguir
entre si com relação ao lugar de articulação:

(E) [coronal] i, e, I

[labial] o, u, U

[dorsal] o, u, U, a, å

O contraste entre as vogais / e / e / o /, que possuem o mesmo grau de abertura

[- aberto 1, + aberto 2], é indicado pelo ponto de articulação, como já nos referimos
anteriormente. Novamente, outra regra de redundância pode ser inferida:
[- aberto 1, + aberto 2, dorsal] [ labial ]
Para distinguir [i] de [I] podemos usar o traço [+ tenso] para o primeiro segmento,

e o traço [- tenso] para o segundo. Isto, porque ambos apresentam o mesmo grau de
abertura [- aberto 2] e são [+ anterior], ou seja, dispõem também do mesmo ponto de
articulação [coronal]. Estamos nos referindo ao reconhecimento desses segmentos na
superfície, pois eles não apresentam distinção subjacentemente. Dispomos do traço
[tenso], também, para distinguir [u] de [U], como já mencionado em parágrafo mais

acima.
77

Como se pode notar, a Geometria de Clements e Hume (op. cit., p.283) abandona
o traço ATR (Advanced Tongue Root – Raiz da Língua Avançada) em favor do traço de
abertura vocálica, correspondente à altura vocálica neste sistema. Utilizamos o traço
[tenso] para distinguir foneticamente [i] e [I] / [u] e [U]. Porém, como pontuado por

Marília Facó (comunicação pessoal), poderíamos dispor do traço [abertura] para este fim
já que o modelo de Clements e Hume (1995) prevê a possibilidade de uma série de
registros e sub-registros para a expressão de variados graus de abertura.

Ditongos

O tema “ditongos” remonta muitas complicações de descrição e análise em várias


línguas. Em Enawene-Nawe não nos parece diferente, embora neste primeiro momento,
não seja possível um tratamento aprofundado a respeito.
Os dados nos mostram que podemos distinguir em Enawene-Nawe ditongos
verdadeiros de ditongos falsos. Os ditongos verdadeiros apresentam contraste com as
vogais breves e não podem ser reduzidos. Os ditongos falsos podem variar livremente
com vogais breves.
Observe-se, abaixo, ditongos em contraste com vogais breves:

(431) a. / a / [ha»t5a] ‘outro/a’

b. / aj / [haj»t=a] ‘já’

[o»t5a] ‘unha dele/a’

[o»t5aj] ‘morro, serra’

(432) a. / e / [e»se] ‘semente’

b. / we / [e»swe] ‘buriti’ (fruto)

(433) a. / o / [o»t5a] ‘unha dele/a’

b. / oj / [oj»t=a] ‘capivara’

[a»˙u)] ~ [a»˙o)] ‘caminho’


78

[a»˙u)j)] ‘amargo, sabor de cica’

(434) a. / a / [i»Sa] ‘canoa’

b. / wa / [i»Swa] ‘entrar; derramar; mergulhar’

[e»da] ‘líquido’

[e»dwa] ‘abertura, porta; ele/a caiu’

(435) a. / ej / [me»nej]

Calculamos que exista na língua Enawene-Nawe processos do tipo pré-


vocalização e formação de glide, pois a ocorrência de falsos ditongos revela-se
freqüente. Muitas vezes, esses ditongos apresentam-se mais curtos que os ditongos
verdadeiros. Outras vezes, chegam a assemelhar-se plenamente aos ditongos tidos como
verdadeiros. Seguem alguns exemplos, onde ditongos variam livremente (pelo menos à
primeira vista) com vogais breves:
(436) a. [doj»t5i] ~ [do»t5i] ~ [loj»t5i] ~ [lo»t5i] ‘resina; vela; espécie de

árvore’
b. [ij jå)w)kWwa] ~ [ijjkWwa] ‘ritual’

c. [e«oloJ»l=i] ~ [e«olo»l=i] ‘ilha’

As propriedades dos glides, [j] e [w] que compõem esses ditongos, são idênticas

àquelas apresentadas pelas vogais [- aberto 2] correspondentes, [i] e [w]. Como já foi

dito, eles podem ser realizados com duração mais breve. Estamos avaliando esses glides
como desempenhando um papel vocálico, ao comporem a Rima silábica em conjunto
com outras vogais. Acrescentamos que nem todos os ditongos fonéticos são ditongos na
forma básica, mas se superficializam como tais a partir de regras que atuam sobre a
derivação. Porém, neste primeiro estudo não nos deteremos nessa questão. Mais à frente,
79

trataremos de uma outra função exercida por esses glides quando em posição
intervocálica, i.e., função consonantal.

Nasalidade

A maioria da nasalidade vocálica que identificamos se dá em vogais contíguas a


consoantes nasais e ao glide laríngeo / h /. Isto nos leva a interpretar que essas vogais

adquiram o traço nasal via espraiamento, engatilhado pela nasalidade da consoante


vizinha (veja seção 3.3, subseção 3.3.4 ).
Encontramos alguns raros exemplos de pares mínimos e análogos que sugerem
contraste em termos de nasalidade para vogais breves:

(437) [ o) ] / [o ] a. [ho)»kWwa] ‘rede’

b. [ho»kWwa] ‘você fala’

(438) [ å) ] / [ a ] a. [a»˙å)] ‘vez’

b. [wa»˙a] ‘alto/a, comprido/a’

c. [ijja»ka] ‘picar, ferroar; matar, flechar’

d. [ijjå)w»kWwa] ‘ritual’

(439) [ i) ] / [ i ] a. [«mi)kJia»kWwa] ‘noite; escuridão’

b. [«wikJa»kWwa] ‘conosco’

c. [hi»t=a] ‘rede’

d. [«ka˙i)»t=a] ~ [«kaSi)»t=a] ‘único, só’

(440) [ e) ] / [ e ] a. [«a˙e»t5e] ‘urucum’


80

b. [de»˙e)] ‘pai de vocês’

Observamos que as vogais adjacentes ao glide laríngeo, podem ser, às vezes,


opcionalmente nasalizadas. Contudo, os dados demonstram que existem casos em que
elas se apresentam, obrigatoriamente, ou não-nasais ou nasais:

(441) a. [hi)«t5ot5o»ne] ~ [hi«t5ot5o»ne] ‘seu peito’

b. [«hi)t=ako] ~ [«hit=a»ko] ‘sua barriga’

(442) a. [ha»˙al=I] ~ [ha»˙aRI] ‘papai’

* [hå˙)å)l=I]

b. [ha»ta] ‘outro/a’

* [hå)»t5a]

c. [he»t5o] ‘sua mãe’

* [he)»t5o]

(443) a. [he) »˙e)] ‘papai’ (vocativo)

* [he»˙e]

b. [o»˙å)] ‘espécie de gramínea’

* [o»˙a]

Em final de palavra, são muitos os exemplos de vogais nasalizadas próximas a / h

/:

(444) a. [«o)nI»˙i)] ‘cinza; barro’

b. [«kono»˙e)] ~ [«kono˙i)] ‘algodão’

c. [«wato»˙å)] ~ [«bato»˙å)] ‘quebrou’


81

d. [«ata»˙o)] ‘borduna’

Aliás, em final de palavra as vogais, mesmo em contextos orais, podem se realizar


com o traço nasal. Este fato ocorre, principalmente, nas citações de lista de palavras e no
final de um enunciado, implicando ênfase.

(445) a. [«ikJa»l=i] ~ [«ikJa»Ri#] ~ [«ikJa»l=i)] ‘igual; assim’

b. [«huSi»Ru)] ‘colar de tucum’

c. [«kala«mani«t5io»ko)] ‘bracelete de pena’

d. [ma«˙esi»t5i)] ‘banco’

Vogais nasais, também, foram identificadas em contextos orais, ou seja, em


contextos onde não estão presentes consoantes nasais ou o glide laríngeo:

(446) a. [a»o)lo] ‘líder; chefe’ (fem.)

b. [e»o)l=i] ‘pele’

Cremos que os dados e motivos expostos acima, não sejam suficientes para
concluirmos, no momento, quanto à existência de vogais nasais breves na forma básica
subjacente.
Identificamos vogais longas nasais, mas, no momento, não sabemos detalhes
quanto à sua natureza e funcionamento no sistema. Encontramos algumas delas no
ambiente fronteiriço entre a base verbal e o morfema aspectual, como por exemplo:

(447) a. [«no- me»Re) -e)nå]


1- medo -prog
‘estou sentindo medo’

b. [huw«weRaw»wå) -å)nå]
82

dia -prog
‘está amanhecendo’

c. [«no- kaj«ta -l=i«kanå»se) -e)nå] ~ [«nokaj«tal=i«kanå«se)˘»na˘]


1- raiz -masc - boca -prog
‘estou gargalhando’

Nos exemplos acima, essas vogais nasais aparecem contíguas à uma consoante
nasal e a nasalidade é opcional. Além disso, parece que ocorre uma sequência de vogais,
uma pertencente à base do verbo e a outra, ao morfema de aspecto progressivo. As
palavras [«i˙i)˘»t=a] e [«ka˙i)˘»t=a], geralmente pronunciadas com ênfase, são também

exemplos de ocorrência de vogais que, talvez, tenham status apenas fonético de vogal
longa nasal.

Duração

Como avaliaremos o caso da duração vocálica na língua Enawene-Nawe: são


vogais longas ou sequência de duas vogais idênticas? Encontramos alguns poucos pares
mínimos que corroborariam à existência de alongamento contrastivo. Precisamos checá-
los com nossos consultores novamente.

Vogais longas em contraste?


/ a˘ / e / a /

(448) a. [wa˘»ta] ‘quente, calor’

b. [wa»ta] ‘nossa unha’

c. [ma»/da] ~ [ma»ta] ‘armadilha de pesca’

(449) a. [wa»la] ‘nossa comida’


83

b. [ma»la] ‘refresco feito de mel e água’

c. [wa˘»la] ~ [ma˘»la] (partícula usada na negação de uma

declaração anterior)

(450) a. [wata»la] ‘corimba’ (espécie de peixe)

b. [wa˘»ta »la] ‘está quente?’ (entoação para pergunta de sim ou não)

(451) a. [a«/da˘»ma] ~ [a«ta˘»ma] ‘embira’

b. [a«ta»wa] ‘ele/a procura’

/ o˘ / e / o /

(452) a. [do˘»ta] ‘vermelho’

b. [do»ta] ‘suas unhas’

(453) a. [he«˙eko˘»ko] ‘você está certo/a’

b. [hi«˙iko»ko] ‘seu quarto’

(454) a. [to»l=i] ‘cachoeira’

b. [do˘»l=i] ~ [do˘»RI] ‘tucano’

/ e˘ / e / e/

(455) a. [me˘»ta] ‘difícil’

b.[me»/da] ‘cócegas’

(456) a. [de»ta] ‘o que; qual; quem’

b. [de˘»ta] ‘ele/a foi’


84

/ i˘ / e / i /

(457) a. [hi»t=a] ‘sua rede’

b. [ihi˘»ta] ~ [ihi)˘»t=a] ‘ por que?’

Ao observar outros exemplos, notamos que, em várias ocorrências, o


alongamento carrega um valor expressivo de ênfase:

(458) a. [e«˙eko˘»ko] ‘ele/a; isto está certo’

b. [he«˙e˘ko˘»ko] ‘você está certo’ (com ênfase)

c. [he«˙e˘ko˘»ko˘] ‘você está certo’ (com forte ênfase)

(459) a. [aw»wa˘lU] ‘bonita’

b. [aw«wa˘»lo˘] ‘bonita’ (com ênfase)

c. . [aw«wa˘»lu)˘] ‘bonita’ (com ênfase)

Nos dados acima, o alongamento de ênfase é acompanhado por uma entonação


ascendente para cada sílaba com vogal alongada. Pode, também, haver uma alternância
acentual.
Às vezes, podemos estar lidando com duas vogais idênticas e uma fronteira
silábica entre elas, ou seja, um hiato. De acordo com Ladefoged & Maddieson (1996,
p.321), devemos levar em conta que duas vogais breves em hiato são muito mais longas
do que apenas uma vogal longa. Contudo, não acreditamos que esse seja o caso dos
dados, aqui, tratados. Os exemplos em (445) parecem nos apontar um caso de vogais
tautossilábicas, mas que fazem parte de morfemas distintos. Observe-se, abaixo, outros
exemplos:

(460) a. [«haj t=a -»la O- «menå)»ne) -e)n]


já -int 3- pronto -prog
‘já está pronto/ já está acabando?’
85

b. [na«tona»˙å) -å)nå]
1- ir -prog
‘estou indo embora’

Nesses exemplos, podemos encontrar duas vogais idênticas, uma seguida pela
outra, que apesar de demonstrarem uma aparência tautossilábica, pertencem a morfemas
distintos: uma faz parte da base verbal e a outra pertence ao morfema de aspecto
progressivo.

Para obtermos uma resposta apropriada para a questão do alongamento vocálico,


julgamos ser essencial avaliarmos a interação entre fonologia e morfologia. Uma
compreensão maior do comportamento dessas vogais longas pode ser alcançada com a
abordagem de planos superiores como os padrões silábico, acentual e entoacional.

Essas observações são, ainda, bastante iniciais e não nos fornece evidências
satisfatórias de que o alongamento vocálico funcione contrastivamente no sistema da
língua Enawene-Nawe.

3.2.2. Sistema Consonantal

Nesta seção, passaremos à investigação dos traços subjacentes das consoantes


Enawene-Nawe. Começaremos pela organização em pares mínimos ou análogos dos
segmentos fonéticos elencados em matrizes no capítulo 3/subseção 3.3.2. Na sequência,
descreveremos os tipos de variações que são pertinentes para cada caso e que fornecem
evidências ao inventário fonêmico consonantal apresentado no final desta seção.
Os dados abaixo reúnem pares mínimos ou análogos que evidenciam contrastes
entre as consoantes, justificando as unidades fonológicas segmentais que selecionamos
para compor o seu inventário fonêmico:
86

(461) / d / e / t /

a. [do»ta] 'suas unhas (unha de vocês)'

b. [to»ta] 'acabou'

c. [ho»de] 'fedorento'

d. [ho»te] 'maduro'

e. [do»kWwa] 'vocês'

f. [to»kWwa] 'sentar'

(462) / d / e / k /

a. [ke»te] 'mandioca'

b. [de»te] 'fedido'

(463) / d / e / h /

a. [do»kWwa] 'vocês falam'

b. [ho»kWwa] 'você fala'

(464) / h / e / k /

a. [«het5aj»t5i] 'primeiro'

b. [«ket5aj»t5i] 'veneno vegetal'

(465) / h / e / l /
a. [»hå)nI] 'hoje; toma/pega'

b. [»lå)nI] ~ [då)nI] ~ [»Rå)nI] éle/a foi'

(466) / k / e / t /

a. [ko»l=i] ~ [ko»Ri] 'pintado' (espécie de peixe)


87

b. [to»l=i] ~ [to»Ri] 'cachoeira'

(467) / t / e / R /

a. [haj»t=a] 'já'

b. [haj»Ra] 'bola / jogo de cabeça' (esporte)

(468) / t / e / s /

a. [«ene»te] 'carne dele/a'

b. [«ene»se] 'ovo dele/a' (da ave, do animal)

(469) / s / e / n /
a. [e»se] 'semente'

d. [e»ne] 'marido (vocativo); pai dele/a'

(470) / s / e / R /

a. [«esa»ni] 'ele/a deseja'

b. [«eRa»nI] 'marido'

(471) / n / e / d /

a. [ne»to] 'esposa (vocativo); mãe dele/a'

b. [de»to] 'mãe de vocês'

(472) / n / e / l /

a. [«ao) »la] 'leve' (adjetivo)


88

b. [«ao) »na] 'afogar'

(473) / n / e / m /

a. [«ata»na] ~ [«a/då)»na] 'trovão'

b. [«ata˘»ma] 'embira'

(474) / n / e / ¯ /

a. [naw»we] 'povo/grupo (partícula que expressa coletivo /

plural)
b. [«må)¯aw»we] 'preguiçoso/a'

(475) / m / e / t /

a. [ijjo»ta] ‘sim’

b. [ij jo»ma] ‘branco’

(476) / m / e / w /

a. [ma»se] ‘macio, mole’

b. [wa»se] ‘amendoim’

c. [ka»me] ‘sol’

d. [kaw»we] ‘dor’

(477) / t / e / l /

a. [ma»ta] ~ [ma»/da] ~ [ma»da] ‘armadilha de pesca’

b. [ma»la] ‘refresco feito com mel e água’


89

(478) / j / e / ¯ /

a. [«cija»da] ‘água suja’

b. [«ci#¯a»t55a] ‘forte’

(479) / j / e / S /

a. [ij»ju] ‘seco’

b. [wiSu] ‘primeira pessoa do plural’

(480) / j / e / R /

a. [ij»ji] ‘taquara’

b. [i»Ri] ‘fruto’

(481) / s / e / S /

a. [a«soso»kWwa] ‘furar, aplicar injeção’

b. [So« Sokow«wao»ko] ‘macaco prego’

Consideremos agora a complexidade de alternâncias apresentadas pelos fonemas


listados acima litados:
• [t] ~ [d] ~ [/d] ~ [/t]

Verificamos que o traço [vozeado] serve para contrastar os fonemas / t / e / d /,

apresentando-se como um traço pertinente dentro do sistema. Este traço pode, também,
ter a sua natureza contrastiva neutralizada e, assim, em determinados ambientes / t / e / d /
passam a se comportar como alofones um do outro. Trata-se de um caso de variação
livre, pois observamos que o mesmo falante utilizá-os alternadamente. Além das
realizações [ t ] e [d ], esses fonemas parecem superficializar-se com uma pré-
90

glotalização. Acreditamos que possa estar havendo uma fase de transição. Vejamos os
dados:

(482) a. [«ata»na] ~ [«ada»na] ~ [«a/da»na] ~ [«a/ta»na] ‘trovão’

b. [«ata˘»ma] ~ [«ada˘»ma] ~ [«ada˘»ma] ‘embira’

c. [»tå‚nå] ~ [»då‚nå] ‘jenipapo’

d. [«eduj»ja] ~ [«e/duj»ja] ‘umbigo’

e. [me»da] ~ [me/da] ‘cócegas’

f. [«tonU«ta»˙å‚] ~ [«tonU«/ta»˙å‚] ‘cavadeira feita de madeira’

Como se pode ver nos exemplos em (482), possibilidade de variação entre / t / e /


d / ocorre em contexto de vogais dorsais [+aberto 2] e [+ aberto 2, - aberto 1] e de vogal
coronal de abertura igual a esta última. Essa variação acontece tanto no início, quanto no
meio da palavra. Quando os fonemas / t / e / d / encontram-se adjacentes à vogal coronal
[- aberto2], não atestamos tal variação.

• /k/ [k] ~ [g] ~ [kW] ~ [gW] ~ [c] ~ [cW] ~ [kJ]

Na abordagem dessas variações, vamos considerar cada caso em separado, pois


cada um deles apresenta sua característica idiossincrática específica.
Temos nos dados abaixo, por exemplo, outro tipo de variação que envolve o traço
[vozeado], [k] ~ [g] :

(483) a. [a«kosi»t5i] ~ [a«gosi»t5i] ‘órgão genital feminino’

b. [a«kot5i»Ri] ~ a«got5i»Ri] ‘vários’

c. [«nawwe«neko»ta] ~ [«nawwe«nego»ta] ‘eu penso’

Nesses exemplos verifica-se, novamente, a variação do traço vozeado no contexto


das vogais dorsais [+ aberto 1] e [ + aberto 2, - aberto 1] e da vogal coronal, também, [+
91

aberto 2, - aberto 1]. Desta vez, o traço vozeado comporta-se em variação livre, não
acionando nenhum contraste.
Pode acontecer alternância entre os segmentos complexos dorso-labiais, i.e., [kW]

e [gW], também, representantes do mesmo fonema / k /. Eles se superficializam

labializados, porque possuem o nódulo Ponto-de-V preenchido via espraiamento de uma


vogal labial adjacente. Voltaremos a falar do espraiamento do traço labial na seção 3.3/
subseção 3.3.3. Mais uma vez o traço vozeado não apresenta contraste:

(484) a. [hi)»Su « ka»dne] ~ [hi)»Su «ga»dne] 'você decide' ou 'e você?'

b. [hi)»Su «kWa»dne] ~ [hi)»Su «gWa»dne] 'você decide' ou 'e você?'

O fonema / k /, também apresenta realizações do tipo [kJ] , [c] e [cW], as quais

serão representadas em um diagrama arbóreo na seção 3.3/subseção 3.3.2 dedicada ao


processo de palatalização e coronalização. No momento, adiantamos que tais variações
são engatilhadas pelo traço coronal de um glide ou de uma vogal [- aberto 2] adjacente.
No caso de [cW], há um ordenamento de regras: o traço [coronal] da vogal [- aberto 2]

precisa ser promovido para o Ponto-de-C, liberando espaço no seu Ponto-de-V para a
alocação do traço labial advindo de uma vogal labial contígua. Seguem-se alguns
exemplos:

(485) a. [mi)»kJia] 'noite'

b. [kJi»a] ~ [ci»a] 'preto'

c. [haj«kJaciw»wa] 'madrugada'

d. [hi)»kJwa] ~ [hi)»cWwa] 'nascer'

Em termos fonológicos, o sistema consonantal apresenta uma assimetria com


relação à relevância do comportamento do traço vozeado, na realização de distinção entre
as obstruintes orais / t /, / d / e / k / e seus respectivos alofones.
92

• /t/ e /d/ [t] ~ [R] e [d] ~ [R]

Observamos nos dados que os fonemas coronais / t / e / d / podem apresentar-se


como [R] no output fonético. O ambiente identificado para tal alternância é intervocálico.

As vogais adjacentes são, normalmente, a coronal [+ aberto 2, - aberto 1] e as dorsais [+


aberto 2, - aberto 1] e [+ aberto1]. Além disso, os segmentos / t / e / d / estão,
freqüentemente, no onset de uma sílaba que não leva acento culminativo. Observe-se
alguns exemplos:

(486) a. [«ete«nedow»wa] ~ [«ete«neRUw»wa] 'ouvido'

b. [«edo»se] ~ [«eRo»se] 'olho dele/a'

c. [«kode»to] ~ [«koRI»to] 'milho'

d. [«eta»ko] ~ [«eRa»ko] 'ali; por aqui'

A regra fonotática da língua Enawene-Nawe não permite a ocorrência do fonema


/R/ no início de palavra. Porém, enquanto realização fonética de / d / e de acordo com a

velocidade da fala, pode-se encontrar a líquida [R] no início de palavra:

(487) a. [haj»t=a de˘»ta] ~ [haj»t=a Re˘»ta] 'ele/a já foi'

b. [»då)nI] ~ [»lå)nI] ~ [»Rå)nI] 'ele/a vai'

• A alternância entre [l] e [R] diante das vogais coronais [- aberto 2], já foi

mencionada anteriormente, quando informamos que se trata de uma variação geracional:


os idosos e os adultos em idade mais avançada (kolakalali/o) tendem ao uso da variante
[R] e as crianças, adolescentes e jovens adultos realizam a variante [l] diante de vogal

coronal. Não se trata de uma variação livre, pois a mesma pessoa que usa uma variante,
nesse contexto, não usa a outra. Contudo, julgamos necessário mais investigações quanto
a este aspecto. Exemplos:
93

(488) a. [hi« t=akoJ»l=i] ~ [hi« t=ako»Ri] ~ [hi« t==ako»Re] 'sua barriga'

b. [«awwi«t=al=i»t5i] ~ [«awwi« t=aRi»t5i] 'moço, jovem/ adolescente'

c. [«maj˙i)»¯a na«sema»l=i] ~ [«maj˙i)»¯a na«sema»Ri] 'não entendi'

• [d] ~ [l]

Esta parece ser uma variação livre que ocorre no começo de palavra em sílabas,
cuja Rima apresenta as vogais dorsais [+ aberto 1] e [+ aberto 2] como seu núcleo.

(489) a. [da»twa] ~ [la»twa] 'amanhã'

b. [«donI»se] ~ [«lonI»se] 'nome próprio'

c. [do«lokWa»te] ~ [lo«lokWa»te] 'palha de açaí '

d. [«dalo«kWal=i»se] ~ [«lalo«kWal=i»se] 'nome próprio'

• /h/ [h] ~ [˙]

Pelo fato de ser especificado somente quanto ao nódulo laríngeo, o glide / h / terá

sua forma final no output fonético conforme a qualidade dos segmentos que o
acompanham (KEATING 1988 apud LADEFOGED E MADDIESON 1996, p.325).
Assim, no início de palavra esse glide tende a realizar-se como [- vozeado]. Às vezes,
mesmo em início de palavra, pode tomar a forma / ˙ / quando seguido por vogal nasal.

Entre vogais, também assumirá essa última configuração com o traço [+ vozeado].

(490) a. [o»˙å)] 'espécie de gramínea' (indica o início da estação de pesca

ritual)
b. [he)»˙o)] ~ [˙e)»˙o#] 'seu jirau'

c. [ha»˙a] 'papai' (vocativo)


94

• [w] ~ [b] ~ [m]

A alternância entre [w] e [b] ocorre no início de palavra, quando esses

segmentos são seguidos por qualquer uma das vogais da língua. Poderíamos avaliar que
nesse ambiente há possibilidade do glide labial ter a sua dorsalidade desassociada,
realizando-se como labial [-contínua]. A alternância com a labial nasal não é restrita ao
início de palavra.
(491) a. [«wijji»t=a] ~ [«bijji»t=a] ~ [«mijji»t=a] 'vamos'

b. [we»Ra] ~ [be»Ra] 'jirau'

c. [to«ku‚w‚aj»t5i] ~ [to«ku)maj»t5i] 'furúnculo'

Com o objetivo de apresentar uma conclusão da descrição fonêmica, ou seja, o


inventário dos segmentos distintivos, reunimos nos quadros abaixo os segmentos
vocálicos e consonantais da língua Enawene-Nawe:

(A) 13 segmentos consonantais

labial coronal dorsal laringal


obstruinte t d s S k

nasal m n ¯

líquida l R

vocóide w j h

(B) 4 segmentos vocálicos


coronal labial dorsal
/i/ /e/ /o/ /a/

[aberto 1] - - +
[aberto 2] - + +
95

OBS: Concedemos à vogal [labial] - / o / - um status, apenas provisório, de


representante fonológico dos fones [o], [u] e [U]. Precisamos de evidências baseadas na

interface fonologia/morfologia para chegarmos a uma decisão definitiva.

Nas seções seguintes, nos ocuparemos do tema “processos fonológicos” a partir do


esquema auto-segmental da geometria de traços.

3.3. Alguns Processos Fonológicos do Enawene-Nawe à Luz da


Fonologia de Geometria de Traços

Antes de nos determos na descrição dos processos fonológicos que ocorrem na


língua Enawene-Nawe, esboçaremos as concepções teóricas do modelo auto-segmental
que nos orienta nesta empreita. Por vezes, faremos um contraponto com a abordagem
conferida aos processos fonológicos dentro de outros modelos de análise, como uma
maneira de não confundirmos os tratamentos diferenciados dados, muitas vezes, aos
mesmos fatos e à mesma terminologia por cada um deles. Isto significa que estes
contrapontos nos possibilitarão um melhor entendimento do modelo aqui utilizado.
Contudo, apesar de não ser nosso intuito justificar nossa opção de cunho teórico, a partir
destes contrapontos, pode-se inferir os motivos pelos quais preferimos a Teoria da
Geometria de Traços como fundamentação de nossa descrição.

3.3.1. Fundamentos Teóricos

Assumimos, de acordo com a perspectiva da representação hieráquica dos traços,


que existe uma classe elementar de processos fonológicos que mapeam as representações
subjacentes em representações de superfície.
96

Para Clements e Hume (1995, p.257), através deste modelo representacional, é


possível demonstrar a projeção de um pequeno número de regras elementares e princípios
organizacionais incidindo em uma grande classe de regras ‘naturais’ nas diferentes
línguas do mundo.
Passemos, pois, à apreciação dos processos fonológicos mais comuns nas línguas
do mundo, considerados por Clements e Hume dentro dos padrões estabelecidos pela
Geometria de Traços: assimilação, dissimilação e neutralização.

Assimilação

Os autores informam que a assimilação seja, talvez, um dos tipos mais recorrentes
de regra fonológica nas línguas naturais. O processo de assimilação é uma das fortes
evidências para a organização hierárquica dos traços em nós de classes e camadas
independentes.
Na Fonologia Gerativa Padrão, a assimilação é caracterizada pela mudança de
valores na matriz de traços de um segmento, tornando-o mais parecido com o segmento
adjacente. Neste sentido, as regras de assimilação são formuladas como cópia ou troca de
traços. Um dos problemas com este tipo de caracterização identificado por Sagey (1986
apud D’ANGELIS, 1998, p.64) é o fato de que, a partir dela, o modelo não tem como
restringir ocorrências arbitrárias, nas quais um segmento alvo assimila taços que não
estão presentes no segmento disparador.
No modelo de Geometria de Traços de Clements e Hume (op. cit., p.258), a
assimilação é tratada como espraiamento ou associação de um traço ou nó de traços de
um segmento A para um segmento B próximo. Esta caracterização do processo de
assimilação é ilustrada pelos autores no diagrama abaixo, onde as linhas tracejadas
indicam as linhas de associação adicionadas através da regra:
97

A B ou B A

F F

obs: F = feature ou feature node, traduzidos como traço ou nó de traços, respectivamente.

Os autores reconhecem a existência de diferentes tipos de assimilação. De acordo


com a natureza do segmento afetado no processo, i.e. o alvo, a assimilação pode
funcionar como preenchimento ou como mudança de traço. Se a regra espraia apenas o(s)
traço(s) ainda não especificado(s) no alvo, então ocorre o preenchimento da posição
vazia. Quando a regra se aplica a um alvo já especificado para os traços que espraia,
substituindo seus valores originais, ocorre a mudança de traços. Neste caso, Clements e
Hume alegam que os traços originais são apagados por convenção. O tipo de assimilação
por preenchimento é considerado não-marcado ou default.
Outra distinção entre os tipos de assimilação depende da identidade do grupo de
traços que se espraiam:
- Quando há o espraiamento do nó de raiz, temos uma assimilação total. Assim, o
alvo adquire todos os traços do gatilho.
- Quando um nó de classe é espraiado, trata-se de assimilação parcial.
- O espraiamento de apenas um nó terminal, ou seja, de um único traço é chamado
de assimilação simples ou assimilação de um único traço (single-feature assimilation).

Dissimilação

O processo de dissimilação é importante, porque ele funciona como uma forma de


evitar a violação do PCO, i.e. Princípio do Contorno Obrigatório (Obligatory Contour
Principle), já comentado por nós no Cap. I (seção 1.4 ), quando delineamos os princípios
básicos da Fonologia de Geometria de Traços.
De fato, além da dissimilação, existem várias regras atuando em todos os níveis
de representação para que o PCO não seja violado. Outros recursos também são
98

utilizados, como a assimilação de nódulos idênticos (já reportada nos parágrafos


anteriores), a inserção de segmentos e o bloqueio de regras de síncope que possam
resultar em uma violação do princípio.
Tradicionalmente, a dissimilação é descrita como uma regra de mudança de
traços, na qual segmentos iguais ou parecidos se diferenciam mais uns dos outros. Esta
regra tem sido formalizada do seguinte modo: [X] Æ [-F] / ___ [+F]. Lê-se: um traço ou
grupo de traços é eliminado de um segmento X no ambiente de outro segmento que
possua os mesmos traços. Esta regra segue o modelo de SPE, cujos traços são binários.
No modelo aqui adotado, a regra acima não pode ser aplicada, porque os traços
([coronal] [dorsal] [labial], etc), que normalmente sofrem dissimilação, são
monovalorados. Assim, a dissimilação é considerada um efeito de desligamento, ou seja,
quando um traço ou nódulo é desligado de um segmento. Por convenção, tal traço ou
nódulo é apagado. Depois uma outra regra insere o valor oposto, normalmente um traço
default. Cada nódulo apagado deve ocorrer em uma camada própria, independente.
99

Para entendermos, na prática, uma das possibilidades de atuação da regra de dissimilação,


observemos um exemplo da língua Tikuna – língua tonal isolada (cf. SOARES 1995,
p.234):
σ σ

N O
X X X
r r
Supra Supra
Ponto-de-C Ponto-de-C
Vocálico Vocálico

Abertura º
Ponto-de-V
[- aberto 1] [coronal]
[- aberto 2]
[dorsal] [dorsal]
ë ü
Exemplo: ...B¨@≈ìka( ... ‘caçar’

Na representação de Soares (op. cit.), como ela mesma argumenta, podemos notar
que o núcleo vocálico longo foi palatalizado com a inserção de [ì]. O elemento inserido
por dissimilação é coronal, já que a consoante seguinte [k] é dorsal. Em Tikuna, como
condição de boa formação, uma sílaba não pode conter dois segmentos de igual abertura.
Então, a palatalização por dissimilação funciona como uma forma de evitar a violação do
PCO. Além disso, o fato de cada segmento no interior do núcleo passar a ocupar uma
unidade de tempo no esqueleto, deve-se à manifestação de um princípio universal que
não admite um desequilíbrio duracional no núcleo silábico. Temos, então várias regras
em jogo, a dissimilação é apenas uma delas (SOARES id, p.232-33). Observe-se que,
neste modelo, a raiz ramifica-se binariamente nos nódulos Laríngeo e Supra-Laríngeo.
100

Neutralização

Clements e Hume (op. cit., p.263) utilizam-se da definição de Trubetzkoy (1939)


para apresentar o processo de neutralização: ‘processo que elimina contrastes entre dois
ou mais traços fonológicos em certos contextos’. Isto significa que não se trata de regras
de assimilação nem de dissimilação. As regras de neutralização eliminam valores
marcados e favorecem valores não-marcados.
O processo de neutralização, também, pode ser caracterizado em termos de
desligamento assim como a dissimilação. Os autores citam como exemplos deste
processo, as regras de debucalização que eliminam contrastes entre traços do trato vocal;
as regras de desvozeamento, desaspiração e deglotalização, que eliminam contrastes entre
traços laríngeos; a redução de abertura vocálica que reduz ou elimina contrastes de altura
ou [ATR] (Avanço da Raiz da Língua / Advanced Tongue Root).
Vamos observar o tratamento dado por Clements (1985) à debucalização, quando
a representação arbórea dos traços encontrava-se, ainda, nos primórdios de sua
formalização:

+ aberta
nódulo laríngeo: - vozeado

nódulo raiz:

=
nódulo supra-laríngeo:

A representação acima, baseada na análise de Thráinsson (1978 apud


CLEMENTS 1985, p.233-34), expressa uma neutralização de contraste entre traços do
trato oral, através do desligamento do nódulo supra-laríngeo do primeiro membro das
oclusivas geminadas subjacentes /pHpH, tHtH, kHkH/ presentes na língua Islandesa. A linha

de associação espraia os traços do nódulo supra-laríngeo da vogal precedente para o


101

primeiro elemento das geminadas. Então, emergem as realizações pré-aspiradas [ hp, ht,

hk].

Aplicação de regras e restrições

Para a descrição de todos esses processos, de acordo com a organização


hierárquica dos traços de Clements e Hume (op. cit., p.265), são necessárias regras
simples como as de associação, desligamento e inserção default. Além delas, os autores
listam outras: desligamento e apagamento automático; regras de mudança de traço e de
inserção de traços não-default para a introdução de traços marcados; fusão ou ‘merger’ e
regras de fissão. Dentre estas, Clements e Hume consideram o espraiamento e o
desligamento como as regras menos marcadas. Elas funcionam reorganizando os padrões
de associação entre os nódulos existentes.
A teoria fonológica considera importante delimitar o domínio no qual as regras se
aplicam. Isto, porque as regras podem afetar não somente segmentos adjacentes, mas
também segmentos a uma certa distância. Os limites de abrangência de uma regra
dependem, em parte, da própria estrutura dos segmentos envolvidos. Regras de
assimilação, por exemplo, não se aplicam a segmentos opacos, ou seja, aqueles já
especificados para o traço ou nó de traço que se espraia.
Para resolver este problema de delimitação da aplicação das regras, existe uma
restrição básica chamada restrição de não-cruzamento de linhas de associação ( NCC, i.e.
No-Crossing Constraint). Como já dissemos anteriormente, este princípio regula o não-
cruzamento de linhas que ligam segmentos em camadas adjacentes. Esta restrição pode
operar desde as representações subjacentes até representações derivadas, bloqueando
qualquer regra que possa violá-la.
Nas sub-seções que se seguem, dentre os processos fonológicos acima elencados,
descrevemos aqueles por nós identificados na língua Enawene-Nawe até o presente
momento. Continuaremos a comentar pontos teóricos que nos pareçam favorecer o
entendimento da abordagem utilizada.
102

3.3.2. Palatalização e Coronalização

A palatalização e a coronalização, processos muito comuns nas línguas do mundo,


apresentam grande produtividade na língua Enawene-Nawe.
Na literatura tradicional e mesmo na fonologia gerativa padrão, o que chamamos
de coronalização é descrito como um processo de palatalização. Comumente, tem sido
avaliado como uma assimilação do ponto de articulação da vogal anterior alta [i] por

uma consoante adjacente (que a segue ou que a precede).


Um exemplo recorrente é dado pela língua portuguesa. Trata-se da palatalização,
que muitos lingüistas consideram determinante da alofonia das oclusivas alveolares / t / e

/d/ como africadas alveolopalatais [tS] e [dZ], respectivamente, quando ocorrem antes de

[i]. Cristófaro (2000, p. 57-58) comenta sobre este fenômeno nos dialetos de Belo

Horizonte e de Curitiba e no dialeto carioca, em seu estudo da fonética e fonologia do


português dentro da ótica da Fonêmica Clássica. Cristófaro (ibid, p.146-147) formaliza a
alofonia de palatalização de oclusivas alveolares a partir da análise de distribuição
complementar. Ela considera [tS] e [dZ] alofones posicionais de / t / e / d /, quando

ocorrem diante da vogal alta [ i ] e suas variantes [ I, i) ]. Nos demais ambientes, ocorrem

os alofones livres dentais [ t5 , d5 ] ou alveolares [ t, d ].

Lopez (1979 apud MONARETTO et alii 1996, p.234 ) apresenta a formalização


de uma regra fonológica de transformação para explicar o processo de palatalização em
português, adotando os padrões estabelecidos no modelo de SPE6.

6
Os traços utilizados por Lopez nesta regra, dentre outros, são propostos por Chomsky & Halle (1968,
cap. 7) em The Sound Pattern of English. As propriedades destes traços são definidas a partir da configuração do
103

C C V
+ anterior - anterior + alta
+ coronal + alta G
- contínua + met. Ret. - posterior
<+ son> (<+cont>)

A regra acima diz que a oclusiva dental sonora torna-se africada ou contínua,
diante de uma vogal [+ alta] ou de um glide [- posterior]. De acordo com Monaretto et

trato vocal antes da produção da fala, configuração esta que é chamada pelos autores de ‘posição neutra’ (cf.
p.300). Eles explicam que a configuração do trato oral em uma posição neutra difere de sua configuração durante
a respiração normal. Na respiração normal, o véu palatino está abaixado, permitindo que a corrente de ar passe
livremente pelo nariz, e o corpo da língua repousa na parte inferior da boca. As cordas vocais ficam separadas e
praticamente nenhum som é emitido. Ao contrário, na posição neutra, o véu palatino está levantado, fechando a
passagem da corrente de ar pelo nariz, enquanto o corpo da língua é levantado mais ou menos no nível que ocupa
na articulação da vogal inglesa [e] da palavra bed. Já a lâmina da língua permanece mais ou menos na mesma
posição da respiração normal. Como a fala é produzida na expiração, a pressão do ar nos pulmões deve ser maior
que a pressão atmosférica. Assim, a glote é estreitada, posicionando as cordas vocais para vibrarem
espontaneamente em resposta ao fluxo de ar normal desimpedido. Então, embora Chomsky & Halle (ibid., p.299)
considerem importantes as correlações acústicas e perceptuais na definição dos traços distintivos, podemos
perceber que o modelo de SPE é de base articulatória. Parafraseando SPE, podemos entender os traços usados na
regra de Lopez da seguinte maneira:
CORONAL / NÃO-CORONAL: Os sons coronais são produzidos com a lâmina da língua levantada
acima de sua posição neutra, ao passo que sons não-coronais são produzidos sem este gesto. Deste modo, os
autores consideram coronais as consoantes dentais, alveolares, palato-alveolares e vogais retroflexas, e citam as
consoantes labiais, os glides [j] e [w] e as vogais não-retroflexas como sendo não-coronais.
ANTERIOR / NÃO-ANTERIOR: Os sons anteriores são produzidos com uma obstrução localizada na
frente da região palato-alveolar. Os sons não-anteriores não apresentam obstrução neste local. As consoantes
labiais, dentais e alveolares são anteriores. Consoantes tradicionalmente conhecidas como palato-alveolares,
retroflexas, palatais, velares, uvulares ou faringais são não-anteriores. As vogais, também, são todas
caracterizadas como não-anteriores com a justificativa de que não apresentam constrição na cavidade oral.
Através da paráfrase acima, diferentemente da concepção de Clements e Hume (1995), podemos
perceber que SPE considera todas as vogais [- ant] e [- cor], ou seja, todas as vogais são dorsais até mesmo as
frontais. Em Clements e Hume (1995), as vogais podem ser classificadas também como coronais, mas o traço
terminal [-ant] é visto como universalmente não-contrastivo para todas elas.
104

alii (ibid., p.234-35), Lopez (1979) não consegue explicar o caráter assimilatório da
palatalização nesta regra, porque C e V não compartilham traços semelhantes, o que é
imprescindível para a ocorrência da assimilação. Apenas a adjacência fica evidenciada. A
autora não considera a mudança de coronalidade como conseqüência do processo de
assimilação, uma vez que no modelo de SPE as vogais e consoantes possuem traços
distintos quanto às propriedades Anterior e Coronal.
Cagliari (1997, p.53-67), no entanto, ao analisar estes fatos à luz da Geometria de
Traços, oferece uma outra interpretação que nos parece mais plausível. Na verdade, o
autor comenta algumas possibilidades de análise do fenômeno de palatalização dentro de
diferentes versões do modelo de Clements. Demonstraremos aqui apenas uma delas.
Cagliari (ibid) interpreta a distribuição complementar entre [t] [d] e [tS] [dZ] como

um espraiamento do traço [coronal] do ponto de articulação da vogal para o nó Ponto-de-


V da consoante, engatilhando em seguida o processo de africativização. Ele salienta que a
palatalização é apenas um dos fatos, assim nomeado na descrição tradicional, devido à
atribuição da propriedade palatal à vogal anterior alta e à fricativa palatoalveolar. Porém,
a Geometria de Traços não trabalha com o traço palatal. Desse modo, a propriedade
palatal dos segmentos deve ser inferida a partir do comportamento de outros traços.
Baseando-se no modelo de Clements (1993), Cagliari (id, p.63) utiliza uma representação
arbórea7 para expressar a aplicação das seguintes regras:
- regra de espraiamento do traço coronal da vogal para a consoante;
- regra de fissão que ramifica a Raiz da consoante e insere nós e traços a partir da
Cavidade Oral com as características de uma fricativa palatoalveolar;
- regra de homorganicidade que especifica o lugar de articulação do primeiro
segmento igual ao do segundo segmento, gerando a africada.

7
Reproduzimos o diagrama arbóreo feito por Cagliari (op. cit.., p.63) com fidelidade, apenas o
adaptamos com as abreviaturas notacionais por nós utilizadas neste trabalho. De acordo com o modelo de
Clements (1993) utilizado por Cagliari, as vogais coronais podem apresentar o traço [+ant] ou [-ant]. Então, a
vogal [i] que participa do processo de africativização descrito por Cagliari é interpretada como coronal [+ant] e

[+dist].
105
106

Observe-se, abaixo, o diagrama por ele formalizado:


C V

r r

CO CO CO
[-cont] [+cont]

Ponto-de-C Vocálico
[cor] Abertura
[+ant] > [-ant]
Ponto-de-V Ponto-de-V [-aberto]
[cor] [cor] [-lab]

Através desta representação, podemos identificar a ocorrência de um tipo de


segmento denominado segmento de contorno na fonologia auto-segmental. Como se pode
ver, um segmento de contorno é um único segmento dividido em duas Raízes alocadas
em uma única posição no Esqueleto. Percebe-se a sequência ordenada de valores
diferentes de um mesmo traço, i.e. [- cont ] e [+ cont ].
Para a análise de processos como os acima citados, adotaremos na abordagem da
língua Enawene-Nawe uma perspectiva semelhante à de Cagliari. Porém, utilizaremos o
modelo de Geometria de Traços de Clements e Hume (1995) que é uma versão atualizada
do modelo de Clements (1993).

Em Enawene-Nawe, verificamos que é muito comum uma obstruinte tornar-se um


segmento complexo, ou seja, adquirir uma articulação secundária engatilhada pelo
espraiamento do traço de lugar de uma vogal adjacente. Quando se trata de um vocóide
[ anterior ] [ - aberto ], a consoante pode ter o seu nó Ponto-de-V preenchido pelo traço
coronal e, então, será uma consoante palatalizada. Quando a vogal adjacente for [ labial ],
107

o Ponto-de-V da consoante será preenchido com o traço labial, passando a ser uma
consoante labializada.
De acordo com Clements e Hume (1995, p.253), o segmento complexo possui
apenas um nó Raiz, mas apresenta duas ou mais contrições simultâneas no trato oral.
Sagey (1986,1989 apud CLEMENTS e HUME 1995,p.285) propõe uma definição de
base fonológica para estas constrições simultâneas. Ela reporta tais constrições em termos
de major and minor articulations, i.e. articulações principais e articulações menores. As
articulações principais possuem função distintiva, enquanto as articulações menores são
previsíveis.
Em um modelo com base na constrição, como é o modelo de Clements e Hume
(1995), a articulação principal de segmentos complexos é interpretada através dos valores
dos traços principais ([ continuante ] [ aproximante ] [ sonorante ]) alocados no nó
superior da hierarquia, ou seja, diretamente no nó Raiz. O grau de estritura da articulação
menor é assinalado a partir de princípios e regras fonéticas, que se manifestam nos nós de
classes inferiores e nos traços terminais dentro da estrutura hierárquica segmental.
Assim, para Clements e Hume (ibid, p.295) existe uma pequena diferença entre
palatalização e coronalização. O processo de palatalização se dá com o espraiamento do
Ponto-de-V da vogal para o Ponto-de-V da consoante. Já no processo de coronalização, o
traço coronal da vogal vai diretamente para o Ponto-de-C da consoante, ou é promovido
para este lugar da consoante depois de ter se espraiado em seu Ponto-de-V. No caso da
promoção do Ponto-de-V da consoante para o seu próprio Ponto-de-C, o processo de
palatalização é um estágio intermediário do processo de coronalização.
Nos exemplos da língua Enawene-Nawe abaixo, verificamos que o Ponto-de-V do
vocóide [anterior] [- aberto] espraia-se para o Ponto-de-V da obstruinte ao seu lado. A
assimilação progressiva, i.e. da esquerda para a direita, é mais produtiva. Caso a
ocorrência da vogal [- aberto] se dê apenas após a obstruinte, pode haver uma assimilação
de ordem regressiva.
Espraiamento progressivo:
(492) [i«kJaSi»Si] ~ [«ciSi»Si] ‘pouco, pequeno’

(493) [«ikJa˘»ta] ‘é assim mesmo’


108

(494) [«ekaj»kJo] ‘pus‘

(495) [no«maJRi:kJwalU] ~ [no«maJl=i»kJwalU] ‘eu sou/estou feliz’ (fem.)

Podemos representar o processo de espraiamento progressivo para a palatalização,


nas estruturas8 abaixo:

(A) X X
r [i, j] r [k]

CO CO
[+cont] [-cont]
Ponto-de-C Ponto-de-C
[dorsal]
Vocálico Vocálico
Abertura
Ponto-de-V Ponto-de-V
[-aberto]
[coronal]
[+ant] [+dist]

8
Entendemos que seja teoricamente elegante e, principalmente, econômico explicitar nesses
diagramas arbóreos somente as estruturas relevantes para a formulação do processo fonológico. Porém,
informamos que utilizamos representações maximamente expandidas com objetivos puramente didáticos.
Além disso, o resultado de um processo fonológico é captado no momento exato de sua ocorrência
enquanto ‘processo’, sendo uma única formulação necessária para expressá-lo. Ainda assim, pensamos em
facilitar a sua compreensão para possíveis pessoas interessadas, que não sejam da área de lingüística ou que
estejam sendo introduzidas ao tema.
109

Como resultado da regra de espraiamento, temos um segmento complexo com o


Ponto-de-C especificado para [dorsal] e o Ponto-de-V preenchido pelo traço [coronal],
advindo do vocóide à sua esquerda:

(A.1) X
r [kJ]

CO
[-cont]
Ponto-de-C
[dorsal]
Vocálico
Ponto-de-V
[coronal]
[-ant] [+dist]

Olhemos agora o exemplo abaixo, onde ocorrem tanto coronalização como


labialização:

(496) [hi‚ »kJwa] ~ [hi‚ »cWwa] ‘nascer’

Neste caso, poderíamos avaliar o processo de palatalização como intermediário ao


processo de coronalização, onde ocorre a promoção do traço coronal do nódulo de Ponto-
de-V da consoante para o seu Ponto-de-C (CLEMENTS, 1989a apud CLEMENTS e
HUME, op. cit., p.295 ). A articulação menor ou secundária adquire o status de
articulação principal:
110

(B) X X
r [i, j] r [k] [c]

CO CO
[+cont] [-cont]
Ponto-de-C Ponto-de-C
[dorsal]
Vocálico (Vocálico)
Abertura
Ponto-de-V (Ponto-de-V)
[-aberto]
[coronal]
[+ant] [+dist]

Então, a articulação menor da consoante foi desligada e copiada sob o seu Ponto-
de-C, substituindo sua articulação principal.
Outra forma de avaliar este processo seria considerar que o traço coronal do
vocóide frontal [-aberto] espraiou-se diretamente para o nódulo Ponto-de-C da obstruinte,
substituindo seu traço original (HUME, 1989 apud CLEMENTS e HUME, 1995, p.295):

(B.1) X X
r r
Ponto-de-C Ponto-de-C
[dorsal]
Vocálico
Abertura
[- aberto] Ponto-de-V

[coronal]
[+ant] [+dist]
111

O resultado tanto de (B.1) quanto de (B.2) é [c], cuja propriedade palatal é


inferida a partir do seu traço coronal na Geometria de Traços:

(B) X
r [c]
CO
[-cont]
Ponto-de-C
[coronal]
[-ant] [+dist]

Sendo assim, verificamos que a coronal palatal não está especificada quanto ao
Ponto-de-V e pode até adquirir uma articulação secundária. E é o que acontece através do
espraiamento regressivo do traço labial do vocóide seguinte (cf. dado (496) acima).
Observemos no diagrama abaixo:

(C) X X
r [cW] r [w]

Ponto-de-C Ponto-de-C
[coronal]
[-ant] [+dist] Vocálico Vocálico
Ponto-de-V
Ponto-de-V Abertura
[ labial ] [- aberto]

O processo de palatalização ocorre também em fronteira entre palavras:

(497) a. [»kal=i] ‘também’

b. [ma«˙aSaj»t6i »kJal=i] ‘lenha também’


112

(498) a. [«ekaj»l=i] ‘nariz’

b. [no«toto»n6i kJaj»l=i] ‘nariz do meu peito / meu mamilo’

(498) a. [«nako»˙å)] ‘eu tomo banho / vou tomar banho’

b. [aw«win=i»Si‚ « ¯ako»˙å‚ ] ‘daqui a pouco, vou tomar banho’

Bem como em fronteira entre morfemas:


(499) a. [«kone»te] ~ [ko»nte] ‘saia’ (vestuário feminino)

b. [«wi- kJo«note -»Ra] ‘nossa saia’


1pl- saia –pos

(500) a. [no- «mal=i»kJwa -l=I] ~ [no- «maRi»kJwa -RI] ‘estou / sou feliz’ (masc.)
1- feliz -masc
b. [mi‚- « ¯ad6 i»kJwa -RI] ~ [mi‚-« ¯al=i»kJwa -l=I]"nós somos / estamos
felizes’
1pl- feliz -masc

Vamos ver como fica a representação na Geometria de Traços, quando a vogal


frontal [-aberto] espraia o seu Ponto-de-V para o Ponto-de-V das nasais [n] e [m],
palatalizando-as:
113

(D) σ σ

N A
X X
r [i,i)] r <[n]> <[m]>

([+nasal]) [+nasal]
CO CO
[+cont] [-cont]
Ponto-de-C Ponto-de-C
<[coronal]>
[-ant] [-dist]
<[labial] [cor]>
Vocálico Vocálico
Abertura
[-aberto] Ponto-de-V Ponto-de-V

[coronal
[+ant] [+dist]

Os símbolos < > indicam que só pode ocorrer um Ponto-de-C por vez, pois
utilizamos um único diagrama para representar dois alvos do processo de palatalização (
os Pontos-de-C das nasais [coronal] e [labial]).
Quando o Ponto-de-V da consoante nasal é preenchido, ocorrem reajustes
automáticos em seu de Ponto-de-C como resultado de regras de redundância. Caso seja
uma coronal, ela passa a ser mais distribuída; caso seja uma labial, ela será reajustada
para coronal. Então, temos [¯] que é interpretada, de acordo com nosso diagrama, como

um segmento complexo: o traço coronal está presente no Ponto-de-C e no Ponto-de-V.


Foneticamente, a descrevemos (cf. cap.3) como apresentando os pontos de articulação
coronal e dorsal, porém fonologicamente esta nasal se comporta como coronal. Não
114

devemos confundir a descrição fonética com o funcionamento fonológico dos sons. A


classificação dos segmentos em coronais ou dorsais depende da participação deles nos
processos fonológicos (Soares, comunicação pessoal).
No caso comentado acima, estamos assumindo uma interpretação da nasal palatal
semelhante aos modelos mais recentes de Clements, onde [¯] é um segmento com dupla

articulação coronal (Cagliari 1997, p.40).


Nos diagramas acima, podemos observar que a articulação secundária das
obstruintes é derivada do traço coronal da vogal precedente, como indicado pela linha de
associação tracejada. O preenchimento do Ponto-de-V da consoante é, então,
perfeitamente previsível. A alta produtividade da derivação de traços não-especificados a
partir de um segmento à esquerda é considerado por Clements e Sezer (1982 apud
WETZELS, 1995, p.145) como um efeito da ‘Cláusula de Precedência à Esquerda’.

Seguem, abaixo, exemplos de espraiamento regressivo, ou seja, quando processo


ocorre da direita para a esquerda:

(500) [kJi»a] ~ [kJi»ja] ~ [ci»a] ‘preto’

(501) [tJi»a] ‘amargo’

(502) [tJi˘»ja] ‘triste; chorar’

(503) [«an=i˘»n=i] ~ [«a¯i˘»¯i] ‘comida;comer’

3.3.3. Labialização

A labialização é, também, um processo bastante recorrente em Enawene-Nawe.


Demolin (comunicação pessoal) já havia nos informado a respeito da grande
produtividade nas línguas do mundo de consoantes labializadas diante de vogais
arredondadas. Ladefoged e Maddieson (1996, p.355) reportam a labialização como sendo
a articulação secundária consonantal mais comum dentre as outras que existem nas
línguas do mundo. Segundo estes foneticistas, a produtividade da labialização refere-se
115

tanto ao número dos diferentes tipos de segmentos com os quais ocorre, como ao número
das diferentes línguas em que é encontrada.
Na língua Enawene-Nawe, em alguns casos dependendo do falante, verificamos
que a labialização é opcional. Parece-nos que quando se trata de jovens falantes, a
ocorrência da labialização é opcional. Para os idosos, parece ser uma questão de uso
correto da língua. Já presenciamos um idoso corrigindo a pronúncia de um jovem quando
o consultávamos. Pode estar havendo uma tendência à deslabialização, ou pelo menos à
não-obrigatoriedade do seu uso em algumas palavras:

(504) [e«sokWa»te] ~ [e«soka»te] ‘palha de buriti’

(505) [do«lokWa»te] ~ [do«loka»te] ‘palha de açaí’

(506) [«takWo»ko] ~ [«tako»ko] ‘ goteira’

Avaliamos a labialização como um processo de assimilação, no qual há o


espraiamento do Ponto-de-V de um vocóide labial para o Ponto-de-C de uma obstruinte,
dando origem a um segmento complexo. Vejamos mais exemplos:

(507) a. [e»kå‚no] ~ *[e»kWå)nU] ‘braço; braço dele/a’

b. [no»kå‚no] ~ [no»kWå‚no] ‘meu braço’

(508) a. [e«kacuJ»l=i] ‘bochecha (dele/a)’

b. [no«kacuJ»l=i] ~ [no«kWacuJ»l=i] ‘minha bochecha’

(509) a. [»kal=i] ‘também’

b. [»eRI »kal=i] ‘ele/a também’

c. [na»to »kWal=i] ‘eu também’

d. [e»ko »kWal=i] ‘pronto também’

(510) a. [»eRI «kade»ne] ~ [»eRI ka»dne] ‘ele que sabe/ decide’ ou ‘e você?’

b. [ha»ta «kade»ne] ‘e o outro’


116

c. [hi‚ »Su kWa»dne] ‘você que sabe/ decide’ ou ‘e

você?’
O processo de labialização pode ser expresso da seguinte maneira:

(E) N A
X X
R [o,u,U,w] R [k] [kW]

CO CO
[+cont] [-cont]
Ponto-de-C Ponto-de-C

[dorsal]
Vocálico Vocálico

Abertura
[-aberto ] Ponto-de-V Ponto-de-V

[labial]

Esta representação mostra o espraiamento progressivo do traço labial do vocóide


para o Ponto-de-V da consoante, constituindo um segmento complexo, cujas articulações
principal e menor são respectivamente, [dorsal] e [labial]. Podemos perceber que o
segmento [kW], enquanto segmento complexo, envolve uma articulação secundária e sua

representação tem a mesma configuração que a usada para o segmento [kJ], mudando-se

apenas os traços articulatórios (comparar o diagrama (A) da seção anterior com (E) logo
acima). Então, seguindo as evidências anteriormente atestadas, podemos afirmar que [k],

[kW], [kJ], [c] e [cW] são realizações de um mesmo fonema / k/.

No dado, abaixo, o espraiamento do traço labial se dá após a síncope da vogal


inicial da palavra ekaili. Esta vogal poderia representar um bloqueio para a regra de
117

assimilação devido ao Princípio de Não-Cruzamento de Linhas, porém com o


desligamento do seu nódulo Raiz o caminho fica liberado para a aplicação da regra:

(511) a. [«ekaj»l=i] ‘nariz’

b. [ku»lalU kWaj»l=i] ‘nariz de Kolalo’

Continuando com o estudo dos processos de labialização, demonstramos, em


seguida, outros casos de espraiamento, nos quais o gatilho do traço labial pode ser a
nasal labial ou o glide velar labial (ocupando posição de ataque na sílaba, ou seja, com
performance de consoante) e o alvo é a vogal frontal fechada [i]. Nota-se que o gatilho

[m] e a vogal afetada [i] são tautossilábicos em (501), onde ocorre um espraiamento

progressivo, enquanto que no exemplo (502), o gatilho [w] e a vogal afetada [i] são

heterossilábicos e o espraiamento é regresssivo:

(512) [wi»ja] ~ [mi»ja] ~ [mu»ja] ‘vamos’

(513) [«ka l=i»wa] ~ [«ka l=U»wa] ~ [ka»l=a] ‘talvez’

Em (513), verificamos que uma sílaba inteira pode sofrer apagamento, ao tratar-se
de sílaba átona em posição medial no vocábulo.
Logo abaixo, representamos geometricamente o processo exemplificado em (512).
Podemos ver que ocorre o espraiamento do traço terminal labial da consoante nasal para
o Ponto-de-V da vogal seguinte. A dorsalidade de [u] é inferida por uma regra de
redundância, já que uma labial [-aberto] é dorsal.
118

(F) σ
A N
X X
r [m] r [u]

[nasal]
CO CO
[-cont] [+cont]
Ponto-de-C Ponto-de-C
Vocálico
[Abertura]
[labial] [-aberto]
Ponto-de-V

Então, o diagrama acima expressa o espraiamento de um único traço, o [labial]. O


nódulo de abertura da vogal não é afetado pelo processo, pois ele está em outro nódulo
que é independente.
A configuração geométrica do espraiamento do traço labial no exemplo (513) é
apresentada em (G). Nela, observamos que o traço terminal de ponto de articulação da
vogal [i] precisa ser desligado para dar espaço ao novo traço, que está vindo do Ponto-de-
V do segmento complexo à sua direita.
119

σ σ
(G)
N A
X X
r [i] [u,U] r [w]

Ponto-de-C Ponto-de-C
[dorsal]
Vocálico Vocálico
Abertura
Ponto-de-V Ponto-de-V
[-aberto]
[coronal] [labial]
[-ant] [+dist]

3.3.4. Nasalização

O processo de nasalização, pelo qual as consoantes nasais espraiam o seu traço


nasal para as vogais a elas contíguas, revela-se muito producente na língua Enawene-
Nawe.
Nos dados abaixo, a consoante nasal espraia o traço [+nasal] para a vogal a ela contígua:

(514) [no«ma¯a»we] ~ [no«må)¯a»we] ‘estou com preguiça’

(515) [ma«nal6i»se] ~ [må)«nal6i»se] ~ [må)«naRi»se] ‘peneira’

(516) [i«n6it6i»n6i] ~ [i«n6it6i»n6i)] ‘embalagem, pacote’

(517) [i«ciSi«t6i˘t6i»n6i] ~ [i«ciSi«t6i˘t6i»n6i)] ‘calçado’

(518) [waj»n6i] ~ [maj»n6i] ~ [må)»n6i] ‘morreu’

(519) [«å)n6i˘»n6i] ~ [«å)¯i˘»¯i] ‘comida, ele/a come’


120

(520) [e»nå)nU] ‘linha, fio, cordão’

(521) [e»kå)nU] ‘braço dele/a’

(522) [e»˙o)nU] ‘tipo de alergia que forma bolhas na pele ou na

boca’
(523) [»lå)nå] ~ [«då)nå] ‘jenipapo’

O glide labial, parte de um ditongo crescente, pode realizar-se como uma nasal
labial ao compartilhar do traço nasal de uma consoante nasal antecedente. Após o
espraiamento do traço nasal, a raiz da consoante nasal sofre processo de desligamento e
conseqüente apagamento. Assim, uma sílaba pesada, composta por uma consoante nasal
na posição de Ataque e um ditongo crescente (sequência de glide labial e vogal) na
posição de Rima, será ressilabificada. Teremos, então, uma sílaba leve em que o Ataque é
uma nasal labial e o Núcleo da Rima é apenas uma vogal. Vejamos os exemplos abaixo:

(524) [i»Si‚ ¯wa] ~ [i»Si‚ ma] ‘fumaça’

(525) [»d6i‚¯wa] ~ [»d6i‚ma] ‘criança’


121

Podemos representar este caso de nasalização da seguinte maneira:


(H)
A R
N
X X X

r [¯] r [w] r [a]

[nasal]
CO CO
[-cont] [+cont] [-cont]
Ponto-de-C Ponto-de-C
[coronal] [dorsal] [labial]
Vocálico Vocálico
Abertura
Ponto-de-V Ponto-de-V [-aberto]
[coronal] [labial]
[-ant] [+dist]

O ordenamento das regras é o seguinte:


- espraiamento do traço nasal para a raiz do segmento labial, o qual através de
regras de redundância passa a consoante nasal labial [m] com o desligamento
do nódulo vocálico;
- desligamento e apagamento da raiz da consoante nasal;
- desligamento da Raiz da nasal labial da posição de Rima;
- ligação da Raiz da nasal labial ao esqueleto na posição de Ataque da sílaba.
122

Como resultado temos: σ


(I)
A R
N
X X
r [m] r [a]

Reiteramos que em posição de Ataque, o glide labial apresenta uma tendência


automática a alternar-se com a nasal labial. Porém, caso ele se encontre na Rima silábica
como parte de um ditongo crescente, há necessidade da presença de um gatilho (uma
consoante nasal) em posição de Ataque que desencadeie o processo de nasalização deste
glide.
As vogais nasais também podem espraiar seu traço [+nasal] para os segmentos
adjacentes ou, até mesmo, para segmentos a uma certa distância se não houver nenhum
obstáculo ao espraiamento da nasalidade.
Nos exemplos abaixo, o traço [+nasal] da vogal se espraia para a esquerda,
contaminando a aproximante velar labial:

(526) [te»we)˘na] ~ [te»me)˘na] ‘pesado’

(527) [de»we)] ~ [de»me)] ~ [de)»me)] ‘anta’

A nasalização pode continuar se espraiando para a vogal da sílaba anterior como


vemos em (527).
Normalmente, vogais que formam sílabas com a fricativa glotal surda /h/

realizam-se com o traço [+nasal]. Este traço pode continuar se espraiando para a vogal da
sílaba à sua esquerda, pois consoantes laríngeas não bloqueiam o espraiamento da
nasalização:
(528) [ko»˙å)se] ~ [ko)»˙å)se] ‘peixe’

(529) [maj«˙i)»a] ~ [må)j)«˙i)»a] ~ [må)j)«˙i)»¯a] ‘não’ (declaração negativa)


123

3.3.5. Síncope e formação de segmento de contorno

Vamos começar observando os dados que se seguem:

(530) [«to)nU«ta»˙å)] ~ [«to)nta»˙å)] ‘cavadeira feita de madeira, usada


para planta e colher mandioca’
(531) [«kone»te] ~ [ko»nte] ‘saia’ (vestuário feminino)

(532) [«kone«teta»˙å)] ~ [ko«nteta»˙å)] ‘tipo de objeto de madeira usado para


tecer saia’
(533) [«nå)ne«tene»ne] ~ [nå)«ntene»ne] ‘eu o quero’

(534) a. [«kade»ne] ~ [ka»dne]

b. [hi)»Su «kWade»ne] ~ [hi)»Su kWa»dne] ‘você decide, você que sabe’


ou
‘e você?’

Reparamos que vogais que não carregam o acento primário podem sofrer síncope.
Então, a consoante que está na posição de Ataque, sendo homorgânica da consoante do
Ataque da sílaba seguinte, forma com esta última um segmento de contorno. Entendemos
que os segmentos [nt] e [dn] ligam-se, cada um, a apenas uma unidade temporal do

Esqueleto. Após a síncope da vogal, [n] e [d] não podem fazer parte da sílaba anterior,

pois nela fariam parte da Coda e o padrão silábico da língua Enawene-Nawe não prevê
sílaba travada, ou seja, sílaba do tipo CVC. Elas passam a compor o Ataque da sílaba
seguinte, mas não um Ataque complexo formado por uma sequência de segmentos do
tipo CC, e sim, um Ataque simples do tipo C composto por um segmento de contorno.
Vejamos bem: [nt] e [dn], respectivamente, compõem-se a partir de raízes

distintas que possuem o mesmo ponto de articulação, ou seja, são igualmente coronais.
Neste caso, acontece que o Ponto-de-C de [n] funde-se ao Ponto-de-C da oclusiva [t]

nos exemplos (530-533) e o Ponto-de-C da oclusiva [d] é fundido ao Ponto-de-C da nasal

[n] em (534). Com a síncope da vogal, o PCO atua fundindo os dois elementos com
124

Ponto-de-C idênticos, o que resulta em economia no uso das articulações e da cadeia


temporal. Os segmentos de contorno [nt] e [dn] emergem por um mecanismo de fusão

dependente da condição de boa-formação, pois a Rima silábica não admite consoantes em


sua Coda e o Ataque não pode ser formado por mais de uma consoante. O Princípio de
Não-Cruzamento de Linhas também não é violado, visto que a vogal interveniente foi
sincopada, não havendo nenhum bloqueio que impeça a associação de linhas.
Em suma, há um ordenamento de regras: primeiro ocorre síncope da vogal do
Núcleo silábico, depois há a assimilação entre os Pontos-de-C das consoantes
heterossilábicas, que passam a compor um único segmento com duas raízes ligadas a uma
mesma unidade Esqueletal. O PCO atua simultaneamente à regra de silabificação.
A diagramação geométrica seguinte demonstra a esquematização das regras
envolvidas na formação dos segmentos de contorno acima exemplificados:
(J)
σ σ
A R A R
N N
X X X X

r <[n],[d]> r <[U], [e]> r <[t], [n]> r <[a], [e]>

<[+nasal], [-nasal]> <[-nasal], [+nasal]>


CO
[-cont]
Ponto-de-C
[coronal]
125

O resultado é um segmento de contorno na posição de Ataque da sílaba seguinte à aquela


em que a vogal nuclear sofreu síncope:
(L)
σ

<[nt], [dn]> A R
<[a],[e]>

N
X X

<[+sont], [-sont]> r r <[-sont], [+sont]> r


<[+nasal ] <[-nasal], [+nasal]>
[-nasal]>
CO
Ponto-de-C
[coronal]

Como se pode perceber através do diagrama acima, assumimos a representação do


contorno por meio de duas raízes, considerando uma restrição universal que proíbe
qualquer ramificação sob o nódulo Raiz (CLEMENTS E HUME 1995, p.255). Deste
modo, estamos tomando uma posição contrária à de Sagey (1986 apud D’ANGELIS
1998, vol. I: p.71-72), segundo a qual só pode haver ramificações para os nódulos
terminais, o que implica que ramificações de nódulos de classe não são permitidas.
Quanto ao nível onde se dá a ramificação dos segmentos de contorno, também não
existe uma unanimidade entre os vários lingüistas que trabalham com fonologia auto-
segmental. D’Ángelis (1998, vol. II: p.246), por exemplo, considera arbitrária a decisão
a respeito de onde ocorre esta ramificação.
Ao tratarmos do traço nasal, tocamos em outro ponto de discordância quanto à sua
alocação dentro da estrutura hierárquica segmental. Porém, assumimos que ele esteja
126

ligado diretamente ao nódulo Raiz, acatando o modelo teórico de Clements e Hume


(1995) que aqui nos orienta.
No diagrama acima, o traço [+/- nasal] aparece sequenciado, ou seja, é
interpretado como binário. Se o tomássemos como um traço privativo, como propõe
Steriade (1991 apud D’ANGELIS 1998, vol. II: p.258), teríamos que avaliar o contorno
em termos da biposicionalidade das raízes do segmento, já que o traço privativo não pode
criar contorno. Steriade (op. cit.) sustenta que apenas as plosivas (oclusivas e africadas)
podem apresentar contorno nasal, pois em sua análise elas são interpretadas como
sequências de dois “nódulos de abertura”. Os “nódulos de abertura” do modelo proposto
por Steriade correspondem aos nódulos de raíz do modelo fonológico de traços (cf.
CLEMENTS e HUME 1995, p.255).
No caso específico da língua Enawene-Nawe, exemplificado nesta seção,
entendemos que ocorreu um intercâmbio entre as regras de organização segmental e as
restrições que regulam o padrão silábico. Assim, os segmentos de contorno [nt] e [dn] só

aparecem na superfície. Subjacentemente, as raízes que os compõem são heterossilábicas.

3.3.6. Harmonia Vocálica

Nesta seção, abordaremos os processos morfofonológicos de harmonia vocálica


encontrados nos paradigmas prefixais de pessoa em nomes, verbos e pós-posições e nos
sufixos de posse em nomes.
A partir da harmonia vocálica podemos prever a vogal que será parte do prefixo
de pessoa e do sufixo de posse das raízes às quais se juntam. A harmonia vocálica nos
fornece uma possibilidade de interpretação da alomorfia desses afixos na língua
Enawene-Nawe.
As vogais que compartilham traços não se encontram adjacentes, entre elas está
uma consoante. Porém, a consoante interposta não se constitui em um obstáculo ao
espraiamento do ponto de articulação vocálico e/ou do grau de abertura, porque ela não
possui o nódulo vocálico preenchido. Assim, o Princípio de Não-Cruzamento de Linhas
não é violado.
127

Diferentemente do modelo de Sagey (1986), no modelo de Clements e Hume


(op.cit., p.283-84) todas as consoantes são transparentes aos processos de assimilação,
pelo menos aquelas que não apresentam articulação secundária.
Observando os dados abaixo, notamos que a primeira vogal da raiz lexical indica
as pistas dos possíveis traços da vogal do prefixo de pessoa, caracterizada através da
assimilação regressiva total ou parcial:

Itens inalienavelmente possuídos

(535) [we«se»ko] ‘mão’ (536) [«edo«Siwa«nao»ko] ‘sobrancelha’

[«no- wese»ko] [«no- do«Siwa«na -o»ko]


1- mão 1- sobrancelha -cavidade
arredondada ‘minha mão’ ‘minha sobrancelha’

[«he- wese»ko]
2- mão
‘sua mão’

(537) [«ekana«seo»ko] ‘boca’

[«no- kWana«se -o»ko]


1- boca -cavidade de forma redonda
minha boca’

Em (535), a vogal do prefixo de 1ª pessoa compartilha com a primeira vogal da


raiz o traço [ - aberto 1, + aberto 2 ]. Já a vogal do prefixo de 2ª pessoa compartilha o nó
vocálico inteiro com a vogal da raiz, ou seja, adquire dela por espraiamento o traço de
abertura e o ponto de articulação [coronal]. Temos, respectivamente, uma assimilação
parcial e uma assimilação total.
No exemplo (536), o espraiamento regressivo do traço [labial] deixa as duas
vogais, [e] e [o] envolvidas no processo, inteiramente idênticas pois seus demais traços já
eram semelhantes.
O exemplo (537) apresenta o espraiamento do traço dorsal da vogal [a] da raiz
para ka vogal [e] do prefixo, dando origem à labial [o] através de regras de redundância.
128

O segmento complexo [kW] possui a articulação secundária via espraiamento do traço

labial do Ponto-de-V da vogal antecedente. No ordenamento das regras, a labialização de


[k] só é possível depois de concretizada a harmonia vocálica. Dessa maneira, não há
bloqueio que impeça a aplicação das regras de espraiamento de traços de uma vogal para
outra.

Itens alienavelmente possuídos

(538) a. [«kolo»te] ‘bolsa’

b. [«no- ko«loti -»ni)] c.[«hi)- kJo«lote -»ne]


1- bolsa -pos 2- bolsa -pos
‘minha bolsa’ ‘sua bolsa’

(539) a.[doj»t6i] ‘resina, vela; espécie de árvore que produz resina’

b.[«no- dojt6i -»ni]


1- resina -pos
‘minha resina’

Nesses exemplos, também se verifica assimilação total entre os traços das vogais
do prefixo de 1ª pessoa e da raiz. A vogal do sufixo de posse assimila os traços do nódulo
vocálico da última vogal da raiz e pode ser nasalizada pela consoante nasal tautossilábica.
Nomes alienavelmente possuídos apresentam as seguintes realizações de um
mesmo sufixo de posse: -ni ~ -ni) ~ -ne. Essa alomorfia pode ser interpretada como

resultado de uma assimilação total ou parcial progressiva, segundo a qual a última vogal
da raiz espraia os seu traços para a vogal do sufixo possessivo. Vejamos outros exemplos
com termos de parentesco:

(540) a.[tå)»miRU] ‘sobrinha’

b. [«no- ta«ma -Su -»ni] ~ [«no- ta«ma -Su -»ni)]


1- sobrinh -fem -pos
‘minha sobrinha’

(541) a.[tå)»mijjI] ‘sobrinho’


129

b.[«no- ta«ma -Si -»ni]


1- sobrinh -masc -pos
‘minha sobrinha’

(542) a. [ij«jowa»lo] ‘irmã mais nova’

b. [«no- jo«ma -lU -»ni]


1- irmã –fem –pos
‘minha irmã mais nova’

c. [«wi- jo«ma -lo -»ne]


1pl- irmã –fem -pos
‘nossa irmã mais nova’

Nos exemplos (540) e (542), a vogal de sufixo de gênero compartilha apenas o


grau de abertura com a vogal do sufixo de posse. Em (468), as vogais dos sufixos de
gênero e de posse comungam de todos os traços do nódulo vocálico.
Voltando a falar nos prefixos de pessoa, atentamos que comportamento
alomórfico destes nas raízes verbais é idêntico ao comportamento que apresentam com
relação aos nomes. Seguem-se alguns exemplos:

(543) a [O- te»kWwa] (544) a.[O- te»Ra]


3- partir 3- beber
‘ele/a foge; vai embora’ ‘ele/a bebe’

b. [«no- te»kWwa] b. [«no- te»Ra]


1- fugir/partir 1- beber
‘eu fujo’ ‘eu bebo’

c. [«he- se»kWwa] c. [«he- se»Ra]


2- fugir/partir 2- beber
‘você foge; saia’ ‘beba’

Esses dados nos mostram uma assimilação parcial do grau de abertura da vogal da
raiz pela vogal prefixal de 1ª pessoa e uma assimilação total por parte da vogal do prefixo
de 2ª pessoa. Pode-se notar, também, que a obstruinte coronal descontínua [t] pode
130

mudar sua propriedade acústica quando entre vogais coronais [ - aberto 1, + aberto 2],
passando à consoante contínua [s].

Os dados seguintes demonstram que, em muitos casos, a primeira vogal da raiz


verbal está praticamente cotada para ser a vogal do prefixo de pessoa, quando se encontra
em uma sílaba com a posição de Ataque vazia:
(545) a. [O- «edo»wa]
3- cair
‘ele/a caiu’

b.[«ne- do»wa] ~ [«ne- RU»wa]


1- cair
‘eu caí’

(546) a. [O- «aka«kawe»ta]


3- sentir saudade
‘ele/a sente saudade’

b. [«wa- ka«kawe»ta]
1pl- sentir saudade
‘nós sentimos saudade’

Tendo em vista o caráter inicial do nosso estudo, não esgotamos o tratamento de


todos os processos fonológicos e morfofonológicos que a língua Enawene-Nawe
apresenta. Contudo, reunimos nesta seção processos assimilatórios de ocorrência muito
freqüente, como os fenômenos de labialização, palatalização, coronalização e
nasalização. Os gatilhos fundamentais para desencadear esses processos são,
respectivamente, os vocóides labiais, os vocóides coronais com o traço [- aberto 2] e as
consoantes nasais. Os alvos são, principalmente, as obstruintes adjacentes. Com relação à
nasalização, os segmentos afetados são as vogais vizinhas das consoantes nasais.
Podemos ver que os segmentos de contorno, como [dn] e [nt], surgem somente em
output fonético, devido à síncope de uma vogal átona no interior da palavra que ativa
regras de fonotática em conjunto com regras de ressilabificação, adequando o novo
segmento às estruturas permitidas pela gramática da língua.
131

A atuação da harmonia vocálica, enquanto processo morfofonológico, determina


as propriedades da vogal dos prefixos de pessoa e dos sufixos de posse em consonância
com os traços da vogal da raiz às quais se associam.
Passemos, pois, ao próximo capítulo onde abordaremos em caráter preliminar os
domínios prosódicos: sílaba, acento e entoação.
132

4. OBSERVAÇÕES SOBRE ESTRUTURA SILÁBICA,


ACENTUAÇÃO E ENTOAÇÃO

Neste capítulo, nos dedicaremos a delinear a estrutura silábica, os problemas


relativos à atuação do padrão acentual e informações básicas sobre entoação na língua
Enawene-Nawe.
As representações das sílabas por nós utilizadas nesse estudo são baseadas no
modelo de “Ramificação binária com Rima”9 que considera a estrutura interna da sílaba
ramificada binariamente nos constituintes Ataque e Rima, e este último ramificado em
Núcleo e Coda. Os elementos terminais da sílaba são unidades temporais (X) não-
especificadas, que formam a camada Esqueleto. Estas unidades de tempo dominam os
nódulos de raiz e estabelecem com estes uma relação não-bijectiva. Esse modelo de
representação, ao permitir ligações múltiplas, favorece à análise ambissilábica dos glides
intervocálicos que são muito freqüentes na língua Enawene-Nawe.
Trabalharemos, também, com a Teoria Métrica da sílaba, cuja unidade de
medida é designada mora (m) e serve como indicadora do peso silábico. Neste caso,
estamos tratando com duas estruturas intermediárias de natureza distinta, passíveis de
ocorrerem entre a camada silábica e a camada segmental: a camada Esqueleto,
representada pela unidade abstrata (X) e a camada moráica, representada pela unidade de
peso (m)10.
De acordo com a proposta da estrutura moráica, as propriedades da Rima silábica
determinam o peso da sílaba. O onset é irrelevante na contagem de moras. Sílabas que
possuem Rima ramificada consistem em sílabas pesadas. Os ditongos, as vogais longas e
as seqüências de vogal Nuclear e consoante na posição de Coda contam 2 moras, e

9
Evidências para a organização interna da sílaba de acordo com o modelo de “Ramificação binária com
Rima” (Binary branching with Rime) podem ser encontradas em Blevins, 1995, p.212-216.

10
Broselow, 1995, p.176-205 desenvolve uma interessante discussão, considerando os argumentos
favoráveis e desfavoráveis à posição esqueletal e à camada moráica e estabelecendo uma relação entre
estas e a sílaba.
133

compõem por isso, uma sílaba pesada. Já uma sílaba leve apresenta somente uma posição
da Rima ocupada por vogal breve, à qual é atribuída uma mora.
Uma das diferenças entre a representação baseada na contagem de moras e aquela
que envolve a camada temporal diz respeito ao fato de que, nesta última, todos os
segmentos são considerados, mesmo aqueles que se encontram na posição de Ataque.
A representação da sílaba através de moras difere de sua representação em termos
de constituintes rotulados, porém não são necessariamente excludentes. Assim, não
estamos sendo contraditórios ao considerarmos a distribuição dos segmentos na sílaba,
buscando estabelecer uma relação de complementariedade entre as duas. Além disso, em
um primeiro estudo como este que estamos desenvolvendo, procuramos não descartar
nenhuma possibilidade antes de a avaliarmos. Através da Teoria da Mora, podemos
trabalhar com a noção de palavra mínima e especular a relação entre o peso silábico e a
atribuição de acento.

Estrutura Silábica

A estrutura silábica da língua Enawene-Nawe é relativamente simples: não há


sílaba com onset complexo, i.e., sílaba com a posição de Ataque preenchida por grupos
consonantais, e não existe Rima silábica ramificada para Coda. Identificamos, então, a
possibilidade de ocorrência dos seguintes tipos de sílaba: V, VV, CV e CVV. O Núcleo
silábico em CVV pode ser constituído por vogais longas, quando foneticamente
idênticas, ou por ditongos (orais ou nasais) enquanto sequência de vogais tautossilábicas
diferentes uma da outra.
Expomos abaixo alguns exemplos, onde os pontos indicam fronteiras silábicas:

(547) V
a) [«a. ko.»la] ‘escorpião’ e) [«no. a.»ka] ‘aqui’

b) [o.»lo] ‘dinheiro’ f) [e.«o.loj.»l=i] ‘ilha’

c) [e. »o).l=i] ‘pele’ g)[«e.ha.«ta.l=i.»ti] ‘idoso’


134

d) [i.«Si.Sa.»se] ‘cuia, copo’ h) [«ha. nu.» i)] ‘namorada’

(548) VV
a) [»uj] ~ [»ujJ] ‘cobra’

b) [«aj.n6a.»˙å)] ‘eles/as estão chegando’

c) [aj.«Raw.wa.»ke˘.na] ‘ele/a fala durante o sono’

d) [oj.»t=a] ‘capivara’

(549) CV
a) [hi).« Si.Sa.»se] ‘sua cuiazinha, seu copinho’

b) [«ha.ma.«ka.te.»ne] ‘esfrie-o; apague-o’

c) [ma.«lo.li.»ci] ~ [wa.«lo.li.»ci] ~ [ba.«lo.li.»ci] ‘bacaba’

d) [do.«to.kWa.»se] ~ [do.«to.ka.»se] ‘motorista’

(550) CVV
a) [«a. n=i˘.»n=i] ‘ele/a comeu’

b) [de.»ta] ‘o que?; qual?’

c) [a.»hu)j)] ‘amargo, não cozido’

d) [kaj.«ta.li.«ka.na.»se] ‘pessoa brincalhona, alegre’

A grande maioria dos ditongos é decrescente, mas observamos também a


possibilidade de ocorrência de ditongos crescentes, onde o Núcleo da Rima é ramificado
para o glide labial [w] na primeira posição e para as vogais [e] ou [a] na segunda

posição:

(551) a) [e.»sWwe] ‘buriti’

b) [»di).¯wa] ~ [»di).ma] ‘criança


135

c) [ma»kWwa] ‘menarca’

d) [«kete»kWwa] ‘roça de mandioca’

e) [ho«tajcit5i»kJwa] ‘aldeia, cidade’

As sílabas destacadas nos exemplos acima são do tipo CVV. Na posição de C,


tem-se consoantes que apresentam o nódulo vocálico preenchido devido ao espraiamento
progressivo dos traços da vogal antecedente ou da semivogal seguinte. Processos de
assimilação desse tipo já foram tratados anteriormente (cf. Cap.3, seção 3.3). O caso de
labialização regressiva e ressilabificação, no dado (478.c), foi representado no diagrama
(H), também, no Cap.3 – seção 3.3.4.
Não encontramos exemplos que evidenciem a existência de ditongo crescente do
tipo glide palatal + vogal. Casos como as sílabas negritadas em [mi)»kJa] e

[haj«kJaci»wa], foram interpretados como uma sílaba CV, formada por uma consoante

complexa e uma vogal.


A abolição do Princípio de Bijectividade pela Teoria Auto-segmental e,
consequentemente pela Geometria de Traços, nos permite avaliar o comportamento dos
glides orais intervocálicos e sua relação com a camada silábica, utilizando o conceito de
ambissilabicidade.
O conceito de ambissilabicidade expressa o fato de um único segmento estar
associado a duas ou mais sílabas. Vamos ver como fica a representação ambissilábica dos
glides, labial e palatal, em dados do tipo [aw»we] e [ij»ji], transcritos fonologicamente

como / a»we / e / i»ji /:


136

(M) σ σ

R R

N A N

X X X X
< a w e >

< i j i >

Percebe-se que uma única aproximante, labial ou palatal, associa-se a duas


unidades temporais que pertencem à sílabas distintas: uma delas é parte da ramificação
nuclear da primeira sílaba e a outra liga-se ao Ataque da segunda sílaba. Casos como
esses são bastante recorrentes na língua Enawene-Nawe, tanto em palavras de duas
sílabas, iguais às exemplificadas acima, quanto em palavras polissílabas.
As sílabas constituídas apenas por Rima com Núcleo ramificado, sem o
preenchimento da posição de Ataque, ou seja, sílabas do tipo VV não permitem ditongos
crescentes como jV wV. Dessa maneira, admitimos que os glides intervocálicos sejam
consoantes. Temos, então, uma sequência VCV. Como a língua Enawene-Nawe não
parametriza sílabas travadas, invocamos uma generalização universal de silabificação
aplicado a seqüência VCV, silabificando-as como V.CV (BLEVINS, 1995, p.230).
As observações acima nos levam a constatar que os glides apresentam alternância
em seu comportamento dentro da estrutura silábica:
ƒ Em sílabas do tipo CVV ou VV, os glides funcionam como vogais periféricas de um
ditongo;
ƒ Em posição intervocálica, comportam-se como consoantes e ocupam o Ataque da
sílaba à direita.
O glide labial intervocálico ou em início de palavra pode, inclusive, realizar-se
como uma bilabial nasal [m] ou uma bilabial sonora [b]:
137

(552) /wa.So.ne˘.na/ ‘nós espirramos’

[«wa.Su.»ne˘.na] ~ [«ma.Su.»ne˘.na] ~ [«ba.Su.»ne˘.na]

(553) /wa.ke.ke.se/ ‘cabaça usada para guardar urucum ou outras


sementes’
[wa.«ke.ke.»se] ~ [ma.«ke.ke.»se] ~ [ba.«ke.ke.»se]

(554) /wa.we.ne.ko.ta/ ‘nós pensamos’

[«wa.we.«ne.ko.»ta] ~ [«ma.me.«ne.go.»ta]

O glide palatal emerge na fronteira entre morfemas em substituição a consoantes,


devido a atuação de processos de assimilação morfofonológicos:

(555) /doi.ti/ [doj.»t6i] ~ [loj.»t6i] ‘resina, vela; árvore que produz resina’

[hi.«juJ.t6i.»n6i] ‘sua resina’

[wi.«juJ.t6i.»n6i] ‘nossa resina’

(556) /no.di.¯oa.ti.Ro.li/ ‘minha esposa’

[no.«d6i).¯wa.«t6i.RU.»l=i] ‘minha esposa’

[hi.« ji).¯wa.«t6i.RU.»la] ‘sua esposa’

O fato de que os glides podem ser substituídos por alofones consonantais ou


podem surgir entre vogais [- aberto] substituindo consoantes, constitui-se em forte
evidência que corrobora para a interpretação dos glides intervocálicos, como sendo
consoantes.
As considerações acima indicam que a sílaba máxima na língua é composta por
uma consoante em posição de Ataque e por um ditongo ou uma vogal longa, como
constituintes do Núcleo ramificado. A sílaba mínima constitui-se em uma Rima não-
ramificada. Podemos representá-las através das estruturas abaixo:
138

(N) σ (O) σ
A R R

N N
X X X X
C V V V

Conforme o molde silábico (cf. COLLISCHONN, 1996, p.102), a análise das


sílabas em uma língua é feita, preferencialmente, a partir de palavras monossílabas. Em
Enawene-Nawe, até o presente estudo, identificamos apenas três monossílabos: a
partícula interrogativa [»la] ~ [»Ra], a partícula que indica ênfase [»Sa] ~ [»Sa˘] e a palavra

[»uj], (cobra) apresentada no exemplo (476.a). A partícula [»la] é mono-moráica e emerge

cliticizando-se à palavra anterior. Com relação à partícula enfatizadora [»Sa], ao

apresentar apenas uma mora, cliticiza-se à palavra seguinte e, quando não-cliticizada, sua
Rima passa a ser ramificada por alongamento, tornando-se bimoráica, i.e., [»Sa˘].

Parece-nos, assim, que a palavra mínima na língua Enawene-Nawe deve


apresentar duas moras, se levarmos em conta a Teoria da Mora. Vejamos a representação
dos monossílabos [uj] e [Sa˘] dentro da estrutura moráica abaixo:
139

(P) a) VV b) CVV
[uj] [Sa˘]

σ σ

m m m m

u j S a

Acento

Delimitamos o escopo de nossa investigação, utilizando o termo acento como


referência apenas ao acento da palavra, isto é, referimo-nos tão somente à proeminência
de uma sílaba que carrega o acento primário ao nível da palavra fonológica.
Não identificamos exemplos de pares mínimos com contraste acentual.
Encontramos um exemplo, no qual o contraste através do acento é evidenciado apenas
superficialmente, ou seja, no output fonético. Ainda, assim, o contraste também é
indicado pela presença do glide palatal. Trata-se dos seguintes exemplos ( o espaço em
branco indica fronteira entre palavras):

(557) [ku»lalU »kWal=i] ‘Kolalo também’

/ kolalo kali /

(558) [ku»lalU kWaj»l=i] ‘nariz de Kolalo’

/ kolalo ekaili /

Observa-se que o contraste entre as palavras kali e ekaili é reduzido, após a


atuação em suas fronteiras de processos fonológicos como a síncope e a assimilação,
restando apenas a distinção na posição do acento e a presença versos ausência do glide
palatal.
O fato de não havermos identificado pares mínimos para contraste acentual,
poderia assegurar a interpretação de que o acento seja apenas uma característica fonética
140

da língua estudada. Contudo, na verdade, encontramos algumas poucas palavras


aparentemente idênticas na pronúncia e com significados distintos que ora nos parecem
contrastar em acento, ora aparentam contraste quanto ao alongamento de suas vogais.
Talvez, ainda, tais palavras sejam absolutamente iguais perceptualmente e seus
significados devam ser inferidos contextualmente. Assim sendo, este é um aspecto para
ser averiguado futuramente, cujos resultados poderão iluminar as possibilidades de
análise do comportamento do acento na língua Enawene-Nawe.
O problema acima levantado não nos impede de continuarmos a examinar os
dados disponíveis, buscando pistas que nos permitam realizar algumas previsões
plausíveis a cerca do padrão acentual.
Podemos afirmar que a distribuição do acento primário exibe uma alternância de
ocorrência entre a penúltima e a última sílaba. Vejamos alguns exemplos com palavras
dissilábicas. Em algumas delas, o acento primário recai na penúltima sílaba (559) e, em
outras, na última sílaba (560):

(559) a) [»ka.l=i] ‘também’

b) [»di).¯wa] ‘criança’

d) [»e.RI] ‘ele/ela’

c) [»o).nI] ‘água’

(560) a) [ha.»l=i] ‘vocativo p/ chamar o filho’

b) [o.»taj] ‘morro’ f) [o.»˙å)] ‘ tipo de gramínea’

c) [oj.»ta] ‘capivara’ g) [mi).»kJa] ‘escuro, noite’

d) [i.»Ri] ‘fruto’ h) [hi).»Su] ‘você’

e) [te.»kWwa] ‘partir; fugir’ i) [ta˘.»ka] ‘ali’

Aikhenvald (1999, p.79), ao tecer generalizações sobre a família lingüística


Aruak, pontua que vogais longas ou nasalizadas são freqüentemente acentuadas na
141

maioria das línguas pertencentes a esta família e acrescenta que a atribuição de acento
pode depender do peso silábico. Os exemplos da língua Enawene-Nawe, acima listados e
outros que trataremos em seguida, parecem favorecer apenas parcialmente à aplicação
dessa generalização.
Ao compararmos a atribuição do acento em [»ka.l=i] e [ha.»l=i], palavras idênticas

quanto à distribuição do peso silábico por apresentarem uma mora em cada uma de suas
duas sílabas, mas que diferem com relação à posição do acento, notamos que não seja o
caso de postularmos a medida moráica como critério indicador da posição do acento.
Temos, também, as palavras em (560.c., i) com Rimas ramificadas em ditongo
decrescente e vogal longa, respectivamente, posicionadas em uma primeira sílaba não
acentuada. O acento encontra-se na última sílaba, que é leve. Novamente, o peso silábico
não foi responsável pela atribuição do acento.
Por outro lado, como no dado (560.e), a sílaba pesada do tipo que apresenta uma
obstruinte em posição de onset seguida pela Rima ramificada em ditongo crescente, i.e.,
kwa é, senão sempre, freqüentemente acentuada em final de palavra. Em muitos casos,

ela corresponde ao sufixo locativo.


Nos exemplos (559.b, c) e (560.f), a nasalidade pode ser o fator que atrai o acento
para a penúltima e última sílaba, respectivamente. Porém, existem dados como (560.g, h)
nos quais a nasalidade não influencia na posição do acento.
Observe-se a seguir alguns exemplos com palavras trissilábicas:

(561) a) [ko.»˙å.)se] ~ [«ko.˙å).»se] ‘peixe’

b) [u.»˙i.RU] ~ [«u.˙i.»Ru] ‘mulher’

c) [ij.»jå)W.kWwa] ~ [«ij.jå).»kWwa] ‘ritual’

d) [aj.»ja.ka] ~ [«aj.ja.»ka] ‘futuro distante’

e) [aw.»wa˘.lU] ~ [aw.«wa˘.»lo] ‘bonita’


142

Talvez, a variação acentual nessas palavras seja resultado da atuação de contornos


entoacionais, que carregam marcação enfática. Essas variações podem ser encontradas,
muitas vezes, na pronúncia de uma mesma pessoa.
Algumas palavras trissilábicas apresentam o acento invariavelmente na última
sílaba e outras, na penúltima:

(562) a) [«sa.lU.»må)] ‘ritual; grupo clânico extinto’

b) [«ka.de.»˙i)] ‘espécie de cogumelo comestível’

c) [«to.de.»ma] ‘está bom, concordo’

d) [«ko.lo.»te] ‘bolsa’

e) [«a.maj.»jo] ‘tipo de batata’

(563) a) [tå).»mi.RU] ‘sobrinha’

b) [e.»˙o).nU] ‘erupção na pele’

c) [ti).»wa.l=i] ‘ralo feito de tucum’

e) [ka.»la.lU] ‘espécie de mandioca’

Os exemplos de alternância acentual em palavras trissilábicas seguem o mesmo


padrão de possibilidades apresentadas nas palavras dissilábicas:
• Acento primário na última ou na penúltima sílaba
• Nem sempre o acento recai na sílaba nasalizada
• Nem sempre o acento parece ser atraído pelo peso silábico
Porém, não descartamos a hipótese de a posição do acento ser influenciada pelo
peso silábico, devido ao fato de nossas investigações encontrarem-se ainda em fase
inicial, deixando lacunas quanto à caracterização de aspectos, como a duração vocálica,
entre outros, essenciais para uma abordagem acurada do acento em termos de medida
moráica. Além disso, os dados não são totalmente desfavoráveis à pertinência do peso
silábico na atribuição do acento.
143

Outro fato notório quanto à distribuição do acento refere-se à mudança na sua


posição, como resultado da adição de formas presas sufixais à base da palavra fonológica
(os morfemas estão indicados na transcrição fonológica):
(564) a) / awini / [«aw.wi.»ni] ‘futuro próximo’

b) / awini -se / [aw.«wi.ni.»se] ~ [aw.«wi.ni.»Si] ‘daqui a pouco’

(565) a) / O- teo)koa/ [te.«u).» kWwa] ‘ele/a dorme’

b) / no- teo)koa / [«no.te.«u).»kWwa] ‘eu durmo’

c) / O- teo)koi -ta / [te.«o).kuj.»t=a] ‘ele/a dorme’

d) / O- teo)koi -ta -hi / [te.«o).kuj.« t=a.»˙i)] ‘elezinho/a dorme’

(566) a) / O- ekano / [e.»kå).nU] ‘braço dele/a’

b) / no- kano / [no.»kWå).nU] ‘meu braço’

c) / no- kano -hi / [no.«kWå).nU.»˙i] ‘meu bracinho (fino)’

(567) a) / kolote / [«ko.lo.»te] ‘bolsa’

b) /no- koloti -ni / [«no.ko.«lo.ti.»ni] ‘minha bolsa’

Podemos ver, através dos exemplos, que a adição de sufixos, tanto em formas
nominais quanto verbais, muda a posição do acento. Já os prefixos marcadores de pessoa
não interferem na distribuição do acento, como mostram os dados (565.a, b) e (566.a, b).
Assim, até o momento, temos somente as seguintes generalizações sobre acento
na língua Enawene-Nawe:
• O acento primário somente pode cair em uma das duas últimas sílabas da
palavra;
• A sufixação em nomes e verbos interfere na posição do acento;
• A prefixação de marcadores de pessoa não modifica a posição do acento;
• Não foram identificados pares mínimos com contraste acentual;
144

• A margem direita é relevante para a atribuição do acento.

Há muito o que ser investigado a respeito do acento. Uma próxima abordagem a


partir da estrutura métrica dos pés é imprescindível para a continuidade dos estudos nesse
domínio.

Entoação

Por enquanto, a afirmação mais geral que podemos fazer a respeito da entoação na
língua Enawene-Nawe concerne à sua natureza contrastiva. Declarar que a entoação é
contrastiva significa dizer que ela pode ser usada como o único elemento distintivo da
força elocucionária de um enunciado.
Basicamente, dois padrões entoacionais identificados são: a Entoação Afirmativa
Não- Marcada e a Entoação Interrogativa.
Em Perguntas de Sim-ou-Não na língua Enawene-Nawe pode-se usar dois
elementos em conjunto para evidenciar a estrutura interrogativa: a entoação e a partícula
[»la], que também pode realizar-se como [»Ra]. O uso da partícula interrogativa é

opcional, porém a entoação é fundamental para distinguir uma cláusula afirmativa de


outra interrogativa de sim-ou-não.
Seguem abaixo, ilustrações esquemáticas de um mesmo enunciado, pronunciado
nas formas afirmativa e interrogativa:
a) Entoação afirmativa não-marcada: a altura de voz começa alta e decresce em
direção ao final da sentença.

(568) [haj»ta O- me»nå)nI] (569) [haj»ta]


já 3- pronto já
‘Já está pronto.’ ‘Pronto.’
145

b) Entoação interrogativa:
Para a cláusula interrogativa de sim-ou-não, os seguintes exemplos demonstram a
opcionalidade do uso da partícula [»la]:

(570) [haj«ta -»la O- me»nå)nI] (571) [haj»ta O- me»nå)nI]


já -int 3- pronto já -int 3- pronto
‘Já está pronto?’ ‘Já está pronto?’

(572) [haj«ta -»la] (573) [haj»ta]


já -int já
‘Pronto?’ ‘Pronto?’

Nesses exemplos, a altura de voz começa baixa e vai se elevando até um ponto
intermediário antes do primeiro acento culminativo, a partir de onde decai.
Dentre os contornos entoacionais existentes, ilustramos somente aqueles menos
marcados com o objetivo de demonstrar a manifestação contrastiva da entoação. Outras
nuances entoacionais que sinalizam variadas informações pragmáticas são merecedoras
de investigações mais aprofundadas.

Estas considerações iniciais sobre sílaba, acento e entoação pretendem direcionar


futuros estudos, no sentido de averiguá-las e complementá-las, abordando os seus
aspectos mais problemáticos e a interação que estabelecem entre si e a estrutura rítmica.
146

5. CODA11

Reunimos, neste último capítulo, um resumo das informações advindas no


decorrer deste nosso primeiro estudo, não enquanto resultado, mas como uma indicação
para futuras investigações.
O sistema segmental Enawene-Nawe é composto por 13 fonemas consonantais, os
quais listamos abaixo com seus respectivos alofones e dispostos no quadro que indica o
ponto e modo de articulação de cada um deles:
(A)
/ t / - [t] [d] [/d] [/t] [R] [tJ] [nt]

/ d / - [d] [/d] [t] [R] [l]

/ k / - [k] [kJ] [kW] [c] [cW] [g] [gW]

/ m / - [m] [w]

/ n / - [n] [¯] [dn]

/ ¯ / - [¯] [n]

/ w / - [w] [b] [m]


/ j / - [j] [¯]

/ h / - [h] [˙]

/s/

/S/

/R/

/l/

Os fonemas líquidos apresentam uma variação em distribuição complementar.


Pressupomos que existam duas variantes geracionais que devem ser averiguadas: jovens
apresentam tendência ao uso da variante [ l] e os idosos tendem a usar a variante [R]

11
O título deste último capítulo foi inspirado em Ladefoged e Maddieson (1996), onde o décimo primeiro e
último capítulo também é intitulado “Coda”. Consideramos que este título expressa melhor o caráter
147

diante das vogais coronais [- aberto 2], i.e., [i] e [I]. A labialização em algumas palavras

para os jovens é opcional, enquanto que para os idosos é obrigatoriedade imposta pelo
uso correto da língua. Como se pode perceber, a dialetologia revela-se tema
interessantíssimo diante da complexidade de alternâncias que os fonemas apresentam.

(B) Fonemas consonantais


labial coronal dorsal laringal
obstruinte tdsS k
nasal m n ¯
líquida l R
vocóide w j h

De acordo com a perspectiva do modelo de geometria de Clements e Hume


(1995), o sistema vocálico do Enawene-Nawe apresenta três graus de abertura que podem
ser caracterizados com dois traços binários [aberto]. Elas podem ser classificadas,
também, pelos mesmos traços de ponto de articulação usados para as consoantes. O
quadro abaixo sintetiza esses traços para as vogais:

(C) coronal labial dorsal


/i/ /e/ /o/ /a/

[aberto 1] - - +
[aberto 2] - + +

Utilizamos, apenas provisoriamente, a vogal [labial, -aberto 1, +aberto 2], ou seja,


/o/ para representar fonologicamente os fones [u], [U] e [o], pois ainda não dispomos de

argumentos convincentes para uma decisão segura nesse sentido. Faz-se necessário
investigar a interface fonologia/morfologia para atingir uma resposta satisfatória.
Nossos dados comprovam a existência de alongamento vocálico e de vogais
nasais breves, porém não nos arriscamos, por enquanto, em considerá-las como parte do

preliminar e não-conclusivo de nosso trabalho, que se encontra em processo de apresentar as primeiras


descobertas.
148

inventário fonológico da língua. Identificamos, também, vogais nasais longas, mas


acreditamos que não possuam caráter contrastivo.
Mais uma vez, sentimos necessidade de buscar informações nas relações
estabelecidas entre a fonologia e a morfologia para compreender a natureza do
alongamento vocálico e, também, para aprofundar os estudos sobre os ditongos,
apresentados apenas superficialmente neste primeiro trabalho.
A nasalidade vocálica pode ser opcional quando contígua a consoantes nasais, das
quais adquirem o traço nasal por espraiamento. Além disso, na língua Enawene-Nawe,
assim como em outras línguas Aruak, é muito comum as vogais apresentarem o traço
nasal no ambiente próximo a um glide laríngeo, principalmente ao comporem a última
sílaba da palavra.
O modelo de geometria utilizado possibilitou-nos a expressão dos processos de
labialização, coronalização, palatalização e nasalização que se revelaram muito
freqüentes na língua Enawene-Nawe. Através desse modelo, interpretamos os segmentos
[kW] e [kJ] como segmentos complexos por apresentarem o nódulo de Ponto-de-V

preenchido com os traços labial e coronal, respectivamente, advindos de uma vogal


adjacente. A nasal palatal / ¯ / foi, também, considerada como um segmento complexo,

representando duas constrições coronais simultâneas. Os glides / w / e / j / desempenham


dupla função no sistema fonológico, dependendo da posição que ocupam na estrutura
silábica: quando encontram-se na Rima silábica fazem parte de um ditongo e quando,
entre vogais, funcionam como consoantes e ocupam o Ataque da sílaba à direita. Os
segmentos de contorno [nt] e [dn] aparecem apenas na superfície, subjacentemente
compõem o Ataque de sílabas distintas.
Como processo morfofonológico, abordamos a harmonia vocálica que oferece a
possibilidade de prevermos as propriedades das vogais que ocupam os prefixos de
pessoa em verbos, nomes e pós-posições e os sufixos de posse nos nomes.
A estrutura silábica básica é V, VV, CV e CVV. Não existe onset complexo e nem
Rima ramificada para Coda. A sílaba VV pode ser composta por ditongos decrescentes,
jamais por ditongos crescentes. Também não identificamos vogais longas formando
sílaba do tipo VV. Contudo, as vogais longas e os ditongos, tanto crescentes quanto
149

decrescentes, podem constituir o núcleo silábico na estrutura CVV. Considerando a


Teoria da Mora, nossos dados nos levam a postular que a palavra mínima em Enawene-
Nawe apresenta estrutura bimoráica.
A entoação apresenta natureza contrastiva. Por exemplo, uma cláusla interrogativa
de sim-ou-não pode ser distinguida de uma cláusula afirmativa semelhante, apenas
através do contorno entoacional. Mas não é só isso, variados contornos entoacionais
existentes instigam estudos mais aprofundados.
Não evoluímos muito na nossa investigação sobre o acento. Não identificamos
pares mínimos com contraste acentual. Alcançamos somente as seguintes
generalizações:
• O acento primário somente é atribuído à penúltima ou à última sílaba;
• A sufixação em nomes e verbos interfere na posição do acento;
• A prefixação de marcadores de pessoa não modifica a posição do acento;
• A margem direita é relevante para a atribuição do acento.
Acreditamos que a abordagem do acento a partir da estrutura métrica dos pés
poderá nos conduzir, futuramente, a uma maior compreensão do seu comportamento em
relação aos domínios segmental e silábico, além de delinear a estrutura rítmica da língua.
Essas observações representam parte das nossas reflexões desenvolvidas ao longo
da fase inicial de um trabalho, que se encontra ainda em processo.

E como toda coda pressupõe um novo onset:


MAIHIA MENANE.
SOLI, HATAHA...KALIWA...
ETAOLOXI KAHITA ALITA12.

12
E como toda coda pressupõe um novo onset:
Não está pronto.
Aguardem...Talvez...
Fica apenas um pedacinho.
150
151

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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155

7. ANEXOS
Anexo 1- Mapa do Estado de Mato Grosso
Anexo 1.a - Entorno da Área Enawene-Nawe
Anexo 1.b - Mapa da Área Enawene-Nawe
Anexo 2- Figuras: Articuladores Ativos e Região Alvo
156

Anexo 2

As figuras 1 e 2 na página anterior foram adaptadas de Ladefoged e Maddieson


(1996, p.12-15) para auxiliar na visualização dos gestos articulatórios envolvidos na
produção dos sons das línguas do mundo, dentre os quais, aqueles referidos nesta
dissertação.
A figura 1 mostra os cinco grupos de estruturas móveis que formam os
articuladores ativos no trato vocal. São eles: os lábios, a ponta e a lâmina da língua, o
corpo da língua, a raiz da língua e a glote. Mostra, também, nove regiões do trato vocal
como possíveis alvos para os articuladores móveis: região labial, dental, alveolar, pós-
alveolar, palatal, velar, uvular, faringal e epiglotal. A região glotal apresenta o n.o17 na
figura.
A figura 2 concentra-se nos detalhes da parte anterior do trato vocal, mostrando
articulações que envolvem a ponta e a lâmina da língua.
As linhas numeradas em ambas as figuras expressam 17 gestos articulatórios,
nomeados conforme a terminologia que reproduzimos a seguir:

Ponto de articulação Região Alvo Articulador ativo Símbolo


1. Bilabial Labial Lábio inferior p b m

2. Lábio-dental Dental Lábio inferior op db M

3. Línguo-labial Labial Lâmina da língua t0 d0 n0

4. Interdental Dental Lâmina da língua t™ d™ n™

5. Ápico-dental Dental Ponta da língua t∞ d∞ n∞

6. Laminal denti-alveolar Dental e alveolar Lâmina da língua t5 d5 n5

7. Ápico-alveolar Alveolar Ponta da língua t d n

8. Lâmino-alveolar Alveolar Lâmina da língua t6 d6 n6

9. Retroflexa apical Pós-alveolar Ponta da língua t¢ d¢ n¢

10. Laminal alvéolo-palatal Pós-alveolar Lâmina da língua t= d= n=


157

11. Sub-apical (retroflexa) Palatal Lâmina inferior da língua ˇ Í ˜

12. Palatal Palatal Parte anterior da língua c Ô ¯

13. Velar Velar Parte posterior da língua kg N

14. Uvular Uvular Parte posterior da língua q G ≤

15. Faringal Faringal Raiz da língua  ÷

16. Epiglotal Epiglotal Epiglote ? K ¿

17. Glotal Glotal Cordas vocais /

Segundo Ladefoged e Maddieson (op. cit., p.15), essas 17 possibilidades


articulatórias, acima listadas, indicam os principais movimentos de parte do trato vocal a
partir de uma posição neutra na direção do centro de cada alvo.