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A bizarra história real do pai das

teorias da conspiração modernas


De Ol' Dirty Bastard a Donald Trump, as ideias
insanas de William Cooper deixaram uma marca
profunda.
Por Seth Ferranti; ilustrado por Lia Kantrowitz; Traduzido por Marina
Schnoor
31 Outubro 2018, 6:00am
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FOTO DE WILLIAM COOPER E DESENHO DE ALIENÍGENA VIA


THE HOUR OF THE TIME PHOTO COLLECTION. FOTO DE OL'
DIRTY BASTARD POR SCOTT GRIES/GETTY IMAGES. FOTO DE
ALEX JONES VIA WIKIMEDIA COMMONS. COLAGEM POR LIA
KANTROWITZ.
Na visão da maioria dos teóricos da conspiração, sempre vai ter um
Osama Bin Laden, um Timothy McVeigh ou um Lee Harvey Oswald,
alguém para levar a culpa por crimes espetaculares ou injustiças
enquanto forças mais nefastas continuam nas sombras. Mas nos últimos
anos, uma nova onda de teorias da conspiração – e gente que acredita
nelas – tem ganhado tração na internet. De Alex Jones manchando o
nome das famílias das vítimas de Sandy Hook a mentiras sobre atores
de crise de Parkland, a conversa renovada
sobre reptilianos secretamente comandando o mundo e quase tragédias
como o PizzaGate e, mais recentemente, referências a QAnon
aparecendo em comícios do Trump, este momento é perfeito para novas
paranoias. Mesmo que o jeito como narrativas falsas e tóxicas tomam
forma e se espalham esteja mudando, todas devem alguma coisa ao
antepassado dos teóricos da conspiração modernos, William Milton
Cooper.

Entre outras coisas, ele escreveu Behold a Pale Horse [Eis Um Cavalo
Amarelo], um livro estranho que era considerado leitura obrigatória
quando estive pela primeira vez nas entranhas da besta – ou seja, numa
prisão federal americana – para cumprir uma sentença de 25 anos por
tráfico de LSD em 1993.
Em seu novo livro, Pale Horse Rider: William Cooper, the Rise of
Conspiracy, and the Fall of Trust in America, Mark Jacobson – que
escreveu uma matéria para a New York sobre o chefão do tráfico do
Harlem Frank Lucas, que se tornou o filme O Gângster com Denzel
Washington – explora a vida de Cooper e seu legado na cultura
americana. Cooper aborda todo tipo de teoria da conspiração
envolvendo o assassinato de JFK, a ideia de que a AIDS é uma criação
do governo, e que os Illuminati ajudaram o governo americano a lidar
com alienígenas. Na prisão, Cooper era visto como um herói que queria
despertar os oprimidos e deu a eles o 4-1-1. Ele acabou morto num
tiroteio com a polícia – ele baleou um xerife na cabeça – em Apache
County, Arizona, logo depois do 11 de Setembro.

A VICE se encontrou com Jacobson para falar sobre por que o livro de
Cooper é tão popular nas subculturas carcerárias e do rap, se o
programa de rádio de Cooper abriu caminho para personagens como
Alex Jones, e quanto o discurso desvariado de hoje pode realmente ser
atribuído a um homem.

VICE: O que te atraiu para William Cooper?


Mark Jacobson: Sempre me interessei por pessoas que pouca gente
conhece. Na cadeia e no Harlem, as pessoas sabem quem é William
Cooper, mas a maioria nunca ouviu falar nele. Pessoas assim são sempre
interessantes para mim. Descobri sobre ele por acaso. Um amigo estava
morrendo no hospital. O filho dele me disse: “Tem algo que eu gostaria
de te mostrar”.

Achei que era algo sobre o pai dele. Acontece que ele tinha encontrado
um VHS de William Cooper falando sobre o assassinato de Kennedy e
como foi o motorista quem baleou Kennedy. E assistindo aquilo... se
fumar maconha suficiente, você vê algo ali. Nunca me esqueci daquela
experiência estranha. E um dia eu estava andando pelo meu bairro e vi o
ODB, Ol'Dirty Bastard, o cara do Wu-Tang Clan. A mãe dele mora no
meu bairro. Era o começo da carreira deles, logo depois de 36
Chambers.

Ele estava lendo o livro de William Cooper, Behold a Pale Horse. E eu


disse “Oi, cara”, mas ele nem tirou os olhos do livro. Quando essas
coisas acontecem, se você é o tipo de jornalista que eu sou, elas não
saem da sua cabeça. Eu não saio por aí cobrindo notícias, só penso nas
coisas e vejo o que acontece. Por volta de 2013, senti que William
Cooper era importante. Comecei a pesquisar sobre ele e sua história só
ficava mais interessante. Aí aconteceu Trump e tudo mais, e achei que
era a hora certa.
Depois de pesquisar e escrever o livro, parece que você
decidiu que ele estava mesmo apoiando muitas coisas loucas,
falsas, perigosas e prejudiciais, mas também que ele era mais
que apenas um vendedor de teorias da conspiração. Como
pode?
Ele estava realmente procurando o sentido de algumas coisas.

Todo mundo fala sobre a palavra “liberdade”. Mas o que isso significa
exatamente? O que significa ser livre? Ele era obcecado por essa ideia,
mas não se sentia livre. Ele se sentia preso mesmo não estando na
cadeia, o que, acho, é a razão para ele ter se tornado tão popular entre
detentos. Ele tinha essa sensação real de estar preso – essa ideia de que
as pessoas estão te observando e tentando te impedir de ser uma pessoa
livre.

Muitas pessoas chamariam isso de paranoia num sentido clínico, mas


era uma paranoia global e muitas pessoas sentiam o mesmo. E você
sente isso fortemente quando está numa situação de confinamento real.
Cooper estava procurando pela razão para ele se sentir confinado
mesmo morando nos EUA, que deveria ser um bastião da liberdade. E
isso se tornou a busca dele. Não estou querendo dizer que ele era
honesto em suas narrativas, porque ele pegava atalhos e dizia coisas que
não eram verdade.

Ele sentia que “liberdade é a coisa mais importante que busco, então por
que não me sinto livre?” Era nisso que ele se concentrava. Acho que
todas essas coisas de Illuminati, discos voadores e tudo mais eram
razões para ele não ser livre, o motivo para ele não se sentir um ser
humano livre. Se ele fosse só um charlatão, falando qualquer merda e
tentando empurrar suas ideias para as pessoas, ele não seria
interessante o suficiente para ter atraído tanta atenção.

Como o passado de Cooper influenciou sua habilidade para se


tornar tipo um padrinho dos teóricos da conspiração
modernos?
Ele era um apaixonado por armas de uma família de militares, mas
quando foi para o Vietnã, ele começou a ter essa ideia de que tudo era
uma farsa. Aquelas pessoas estavam lutando por sua liberdade e os
americanos estavam lá para impedi-los de conseguir o que queriam. Era
uma situação muito mais complicada que isso, claro, mas para ele,
parecia tipo “Não sei se estou do lado certo aqui”. Aí ele foi para a
Inteligência Naval e muito do que eles falavam era o contrário do que os
documentos de inteligência que ele estava lendo diziam.
Ele começou a pensar “Uau. Esse é um problema real”. Do Vietnã ele
saiu com um caso sério de Transtorno de Estresse Pós-Traumático e
passou pela Administração de Veteranos duas vezes. Isso meio que
armou a personalidade dele para procurar pela pessoa que estava
dizendo uma coisa, mas que não estava te dizendo a verdade. Parece que
hoje tudo é assim. Mas não era isso que as pessoas pensavam nos anos
1960. As pessoas acreditavam no que o governo dizia, por mais estranho
que pareça. Sempre houve teóricos da conspiração, mas para os teóricos
modernos, Cooper é o pai. Você sempre ouve as pessoas falando sobre a
Reserva Federal e os Illuminati – foi ele que inventou tudo isso.

Li o livro de Cooper na prisão e não diria que é uma leitura


fácil. Por que você acha que o livro é tão importante na prisão
e no hip hop?
Esses caras lendo o livro na cadeia são o começou da coisa da
conspiração moderna. Essa coisa “Eles querem me pegar. Eles estão me
observando. Eles estão atrás de mim. Todo mundo pode ver meu
histórico de ligações”. Todo mundo acha que suas informações estão
sendo vasculhadas [hoje em dia]. Há essa sensação de “Estão me
fodendo e tem gente atrás de mim, quem são essas pessoas?” E as
pessoas não gostam de dizer “Bom, na verdade sou eu. Eu fodi com a
minha vida”. As pessoas não gostam de pensar assim. Então culpam
outros.

Não é todo mundo, mas muita gente faz isso. E acho que, digamos, se
você é um homem negro nos EUA, você tem toda a razão do mundo para
ser paranoico, certo? Você tem toda a razão para ser paranoico porque
eles estão atrás de você. Quando as pessoas leem aquele primeiro
capítulo, Armas Silenciosas para Guerras Silenciosas –, e aí vem outro
chamado O Governo Secreto – Cooper estava procurando uma razão
para as pessoas serem oprimidas e por que ele se sentia um prisioneiro
apesar de estar tentando fazer suas próprias coisas, e os rappers [e
detentos] sacavam esse tipo de coisa. Da maneira deles, eles estão
procurando a mesma coisa pela qual William Cooper procurava.

Quase dez anos depois [de ver ODB com o livro], entrevistei ele alguns
meses antes dele morrer. Ele supostamente estava terminando o disco
que ele nunca terminou. Lembrei da vez que o vi lendo o livro, e ele
disse “Ah, sim. William Cooper, certo”. E eu disse “Bom, o que tem de
interessante em William Cooper?” E ele disse “Bom, todo mundo na
Terra está se fodendo. O que William Cooper faz é te dizer quem está te
fodendo. Quando você é alguém como eu, essa é uma coisa muito
significativa”.
Prodigy [do Mobb Deep] também leu Behold a Pale Horse. Ele aparece
como convidado num clipe de LL Cool J chamado “I Shot Ya”. Ele entra
e diz “Os Illuminati querem minha mente, alma e corpo”, e “A sociedade
secreta está de olho em mim”. Isso tudo ele aprendeu no livro de
William Cooper. Também o entrevistei antes dele morrer, e ele disse que
a primeira vez que viu a palavra Illuminati foi em Behold a Pale Horse.
Em 1996, Jay-Z citou a frase de Prodigy. Mas quando Jay-Z disse isso,
você já ouvia a mesma coisa na rádio 24 horas por dia, certo? Essas
coisas já se infiltraram por toda a cultura.

Mas no lado mais sombrio da nossa cultura, você acha que é


justo dizer que o programa de rádio de Cooper The Hour of
the Time abriu caminho para Alex Jones?
Alex Jones cresceu no Texas ouvindo William Cooper no rádio. Muitas
pessoas só conhecem o livro, nunca ouviram o programa dele. Quando
ele tinha o programa, era difícil superá-lo. Ele tinha uma narrativa
incrível, uma voz muito boa, e nas vezes que ele tomava uns drinques ele
podia ser fantástico. Você ficava enfeitiçado. Quando Alex Jones fez seu
programa, ele recebeu William Cooper algumas vezes, e Cooper era um
paranoico total. Ele era contra todo mundo que tinha um programa de
rádio, não importando se era bom ou ruim. Ele não gostava de Alex
Jones.

Tem uma longa lista de programas no site The Hour of the Time, e um
deles se chama “Alex Jones, Mentiroso”, onde ele fala sobre Jones. Isso
foi há 17 anos, e ele chamava Alex Jones de mentiroso. Isso quando ele
sabia que era o herói de Alex Jones. Sim, Jones tirou muita coisa dele,
mas não acho que ele segue a ética de Cooper, por assim dizer. Passando
pelos programas dele, você vê que ele fala mal de William Cooper
algumas vezes. Mas fica bem claro que, na verdade, ele admira Cooper.

É justo dizer que Cooper também facilitou a ascensão de


Trump?
Trump é um produto de uma narrativa que saiu de sentimentos de
conspiração e religiosos. A ideia de que Hillary Clinton é dos Illuminati,
como Bill Cooper sempre disse, pode ser falha, mas carrega muita força.
A conspiração está sempre em guerra com o establishment. Essa é uma
das melhores partes da conspiração, que pode muito bem ser chamada
de parapolítica. É difícil encontrar alguém que pareça mais
establishment que a Hillary. Então faz sentido para alguém que vê os
Clinton como elite votar contra eles. A coisa louca aqui é que muita
gente vê Trump, um bilionário, como alguém que não é parte da elite.
As razões religiosas para votar nele parecem mais interessantes para
mim. A ideia de que ele é um escolhido mandado por Deus, na forma de
um magnata dos imóveis galanteador, acompanha a noção do pecador
renascido que recebeu outra chance pela graça de Jesus. Isso não faz
sentido para quem é secular, mas é uma ideia muito atraente para os
crentes. O que resta decidir é se esse tipo de pensamento religioso cai na
mesma categoria que teorias da conspiração.

Como uma situação como Sandy Hook e os negacionistas nos


EUA – que insistem que a tragédia não aconteceu do modo
como sabemos – se encaixa na teoria da conspiração moderna
de Cooper e no impacto de seu legado?

Um dos parágrafos mais citados de Behold a Pale Horse prevê a


ascensão dos atentados em escolas por gente exatamente como Adam
Lanza, o atirador de Sandy Hook. O que Cooper dizia era que a
prescrição excessiva de drogas como a Ritalina para crianças
inevitavelmente criaria esses incidentes. Esse era um argumento
legítimo contra a indústria farmacêutica e escolas indiferentes, coisas
que Cooper atacava. Quanto à fase seguinte da conspiração, os atores de
crise, etc., as coisas que fizeram Alex Jones se encrencar, nem em um
milhão de anos consigo imaginar Cooper dizendo algo assim. Para mim,
a coisa de negar Sandy Hook vem de pura crueldade. E mesmo que
Cooper tenha dito muitas coisas pesadas, ele adorava crianças (mesmo
aquelas que ele abandonou) e venerava a família. Ele pode ter apoiado
Jones no assunto da Primeira Emenda, mas ele teria denunciado a
irresponsabilidade dessas afirmações. Cooper era um cara da
conspiração, um homem desesperado em busca de uma versão
deformada da verdade, mas ele não era um psicopata. Ele nunca
prejudicou alguém intencionalmente para fazer dinheiro.

E o QAnon? O que Cooper acharia dos eventos cercando a


ascensão dele?
Cooper no geral odiava toda e qualquer competição. Ele odiava Art
Belle. Odiava Rush Limbaugh. Ele odiava qualquer outro apresentador
patriota e pessoas envolvidas com OVNIs. Dizer que ele não se dava
bem com os outros é pouco. Então, ele provavelmente teria visto QAnon
como competição e odiado essa história. Para mim, QAnon tem pouco a
ver com conspiração ou estado profundo: A mensagem de Q é
basicamente sobre o novo Éden que a grande figura de Trump vai
liderar quando o Armagedom contra os liberais acabar. Provavelmente
algo muito mais louco que qualquer coisa que Bill Cooper e Donald
Trump já disseram, mas é isso que passar anos trabalhando nesse
material faz com você.

Cooper morreu num tiroteio com a polícia no Arizona. Foi


uma coisa dele partindo nas chamas da glória, ou só algo
romantizado?
Para mim, esse é um dos casos mais complicados de suicídio pela polícia
que já vimos, porque ele realmente queria que os federais aparecessem e
o matassem para ele poder se tornar um mártir. Quando os federais não
apareceram, nem a polícia local, ele ficou lá esperando para se envolver
em qualquer troca de tiros com a polícia. Acho isso triste. Mas quando
aconteceu, as coisas saíram como ele queria.

Saiba mais sobre o livro de Jacobson aqui.

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