Você está na página 1de 119

Introdução

Realismo, Impressionismo, Naturalismo, Parnasianismo, Simbolismo e


Romantismo são alguns períodos literários. Esses Períodos foram dados ao
decorrer dos séculos, com base em obras literárias de poemas e seus autores.
Onde conseguimos definir os períodos, e é possível discutir suas
características e suas utilidades para a literatura.

Realismo

Para se compreender o Realismo, suas obras e suas caracteriticas, é


necessário entender o que aconteceria na Europa, em especialmente na
França, no decorrer do século XIX, pois as mudanças estruturais,
principalmente sociais, que ocorreram no continente influenciaram as
produções literárias brasileiras.

Naquela época, a França era vista como modelo cultural e de costumes no


Brasil, um território independente e cuja literatura bebia diretamente da fonte
francesa.

As Respigadeiras (1857), de Jean-Françoise Millet

Contexto histórico na Europa

O Realismo teve início na Europa, mais especificamente na França, como


resposta ao artificialismo do Neoclassicismo e ao sentimentalismo exacerbado
do Romantismo, em um momento conturbado da história do continente, repleto
de revoltas sociais e de insatisfação política que foram traduzidas para a sua
literatura.
Over London Rail (1870), de Gustave Doré

A partir de 1830, após a abdicação do monarca Carlos X, as lutas em


decorrência da insatisfação de setores da sociedade se tornaram intensas e
foram fortemente influenciadas pelas teorias sociais, como o socialismo e o
nacionalismo.

A Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra, trouxe suas consequências,


acentuando a divisão de classes e promovendo a condição precária dos
operários, ao passo que favorecia o enriquecimento da burguesia industrial.
Aos poucos, as revoltas se espalharam por toda a Europa.

Em geral, os operários eram camponeses pobres e iletrados que foram para as


cidades em busca de trabalho. Acabaram encontrando jornadas de trabalho
exaustivas, condições de vida precárias e um salário miserável. No entanto,
aos poucos, esses operários foram tomando consciência da situação e se
organizando para lutar pelos seus direitos.

Nesse contexto, diversos pensadores europeus começaram a refletir sobre os


problemas e a elaborar teorias que tentassem resolver as injustiças sociais.
Surgiu então uma doutrina social denominada socialismo, que influenciou
profundamente os movimentos operários.

Segundo os teóricos do socialismo, as terras e os meios de produção


(máquinas, fábricas, etc.) deveriam ser de propriedade comum, organizados
pelo governo, para que os redimentos fossem distribuídos por todos.

A ciência e as teorias sociais


Com as mudanças trazidas pela Revolução Francesa e pela Revolução
Industrial, o pensamento científico também estava transformando a Europa.

A necessidade de conhecer mais sobre o mundo natural fez com que,


progressivamente, as explicações religiosas fossem substituídas pelos estudos
sistemáticos e objetivos. No entanto, esse modelo de estudo não ficou restrito
ao mundo físico, sendo extendido também às chamadas “ciências sociais”, na
tentativa de estudar as sociedades de modo científico.

Karl Marx, em fotografia de 1875

Com relação às mudanças no pensamento social, é fundamental entender


quais são os quatro principais teóricos sociais, pois eles foram responsáveis
por pensar sobre os acontecimentos do mundo moderno e oferecer ideias e
soluções que mudariam significativamente os rumos do mundo ocidental
moderno. Além disso, estabeleceram a sociologia como uma ciência. São eles:

Augusto Comte foi o primeiro teórico a utilizar a palavra “sociologia” em 1838.


Ele acreditava que as sociedades deveriam ser analisadas pelo viés da razão e
da ciência. Comte queria criar uma “ciência da sociedade”, da mesma maneira
como a “ciência natural” explicava o mundo físico de maneira positiva, isto é,
produzindo conhecimento com base em evidências empíricas por meio da
observação, da comparação e da experimentação.

Karl Marx foi um pensador alemão que, expulso de seu país de origem, morou
na França e na Inglaterra, onde pôde acompanhar as mudanças da Revolução
Industrial e a situação dos operários. Publicou, juntamente com Friedrich
Engels, “O Manifesto Comunista” e “O Capital”, obras importantes sobre o
socialismo. O socialismo visa à propriedade coletiva dos meios de produção e
ao fim da propriedade privada, o que, no entendimento dos autores, eram os
fatores responsáveis pelas desigualdades sociais, onde poucas pessoas
enriqueciam às custas das camadas de operários. Com o socialismo, as
sociedades gradativamente alcançariam a igualdade, atingindo o comunismo
(embora socialismo e comunismo sejam utilizados frequentemente como
sinônimos, eles têm conceitos diferentes). Marx também acreditava que a
história e as mudanças sociais eram fruto das forças econômicas da
sociedade, não do acaso ou simplesmente do “poder das ideias”. Esse modo
de interpretação da história recebeu o nome de materialismo histórico e mudou
alguns paradigmas de compreensão não apenas da história, mas também de
disciplinas como economia e geografia.

Émile Durkheim - assim como Auguste Comte - defendia a importância da


sociologia como ciência empírica. Além disso, a sociologia deveria se dedicar a
estudar os fatos sociais, isto é, os aspectos da vida em sociedade que moldam
as nossas ações e comportamentos como indivíduos. O teórico defendia que,
mesmo as ações mais íntimas e pessoais dos indivíduos sofrem influência e
são moldadas por aspectos da sociedade. Assim, Durkheim legitimaria a
sociologia como uma disciplina, tendo os fatos sociais como seu objeto de
estudo.

Max Weber, um dos fundadores da sociologia, foi responsável por promover


estudos relacionando sociologia e religião. Em sua obra principal, “A ética
protestante e o espírito do capitalismo”, Weber analisa como algumas
características do protestantismo, no qual a ideia de gerar riqueza é positiva,
levaram ao desenvolvimento do capitalismo e como as religiões influenciaram
as sociedades, principalmente o protestantismo e o catolicismo. O teórico foi
responsável por incorporar diversos conceitos aos estudos da sociologia, como
a burocracia, a ética protestante, a racionalização, a ação ideal e o tipo ideal.
Cronologia dos acontecimentos na Europa no século XIX

Charles Louis Napoléon Bonaparte, o Napoleão III, imperador francês


responsável pela Guerra Franco-Prussiana em 1870

Ano Acontecimentos

1830 Na França, Carlos X (contrário às mudanças da Revolução Francesa, de


1789) abdica e ocorre a Revolução de Julho, colocando a burguesia no poder,
representada por Luís Filipe de Orléans. A revolução é um dos eventos mais
importantes da história moderna desde a Revolução Francesa.

Início do movimento social cartista na Inglaterra, representado pela Associação


Geral dos Operários de Londres. O movimento foi organizado por
trabalhadores que, vendo a impossibilidade de terem seus direitos trabalhistas
assegurados pela legislação, exigiam o sufrágio universal (isto é, o voto
universal) para todos os homens, para que pudessem escolher legisladores
que estivessem ao lado dos trabalhadores.

1836 Fundação do jornal La Presse, na França, que barateou seus custos


com a publicação de anúncios. Muitos escritores começaram a publicar seus
romances no La Presse em forma de folhetim. Em breve, o gênero estaria
popularizado em toda a Europa e suas colônias.

1845 Ocorre uma grave crise agrícola e financeira na Europa que mata
milhares de pessoas em decorrência da fome. Diversos grupos de oposição
começam a se organizar e a protestar na França. Segundo Marx, as causas da
fome estavam diretamente ligadas ao sistema capitalista, que focava na
produção para gerar lucro para beneficiar uma parte pequena da população,
enquanto as grandes massas passavam fome.
1848 A fome que assolava diversos países da Europa levou a diversas
rebeliões populares. Na França, grupos insatisfeitos com a administração de
Luís Filipe de Orléans organizaram barricadas em conflito com o governo. O rei
abdica e tem início a Segunda República, provisória, também conhecida como
República Social.

Ano de publicação de “O Manifesto Comunista”, de Karl Marx e Friedrich


Engels.

1852 Segundo Império, implantado por Napoleão III (sobrinho de Napoleão


Bonaparte) por meio de um golpe de estado. O imperador foi responsável por
atritos com a Prússia que, em 1870, deram início à Guerra Franco-Prussiana
(cujas consequências serviram como motivos para que ocorressem, na
primeira metade do século XX, as duas grandes Guerras Mundiais).

1856 Publicação de “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert (em forma de


folhetim). O romance é considerado o inaugurador do Realismo na literatura.

1857 Charles Darwin publica “A Origem das Espécies”, mudando paradigmas


no pensamento científico.

1870 Com a derrota da França na Guerra Franco-Prussiana na batalha de


Sedan, Napoleão III é preso e é inaugurada a Terceira República (que durou
até 1940), com Louis Adolphe Thiers como presidente. Ocorre também a
assinatura do Tratado de Frankfurt.

1871 Restabelecimento da Comuna de Paris, primeiro governo formado por


operários, de caráter socialista, que durou apenas dois meses (de março a
maio). Ocorreu em decorrência da insurreição popular de 18 de março e em
meio à Guerra Franco-Prussiana.

A Literatura Realista

As produções do movimento realista enfocam determinados aspectos da


sociedade por meio de uma linguagem objetiva e com precisão de detalhes.
Como se os fatos cotidianos estivessem debaixo da lupa do escritor, que faz
um estudo sistemático de seus personagens, desenvolvendo minuciosamente
tanto suas características físicas quanto seu caráter.

Há uma preocupação por parte dos autores em retratar as camadas mais


baixas da sociedade, seus dramas e suas condições precárias, como forma de
denúncia social. Com relação à burguesia e às camadas mais altas da
sociedade, os escritores se preocuparam em criticar instituições como a Igreja,
sistemas como a escravidão e a evidenciar os vícios, os jogos de poder e as
traições dentro da família patriarcal.

A câmara mortuária de Madame Bovary(1912), de Albert-Auguste Fourié


O romance realista também foi o responsável pela primazia da literatura em
prosa. Pela primeira vez na história, a prosa era mais importante do que a
poesia.

Publicado em forma de folhetim em 1856, Madame Bovary, de Gustave


Flaubert, é considerado o romance precursor do Realismo, inaugurando a
narrativa realista moderna.
Gustave Flaubert (1821-1880)

Madame Bovary conta a história de Emma Bovary, esposa do médico Charles


Bovary, que se envolve em casos extraconjugais e arruína a fortuna do marido
na tentativa de escapar do tédio que é a sua vida na província. Afundada em
dívidas e desiludida pelo seu grande amor (um de seus amantes), Emma
comete suicídio. A agonia dos últimos momentos de Emma é descrita com
precisão e objetividade, diferentemente das descrições apaixonadas nos
romances do Romantismo. Flaubert se considerava um perfeccionista e,
influenciado pelo cientificismo e pelo positivismo, buscou sempre “le mot juste”,
isto é, a palavra certa e precisa para descrever as cenas e dar vida aos seus
personagens.

Apesar do preciosismo, da análise psicológica e da beleza de Madame Bovary,


o livro chocou a sociedade francesa na época de sua publicação e foi
considerado obsceno. Flaubert foi processado e acusado de imoralidade.
Absolvido, em 1857, quando questionado sobre quem seria a pessoa por trás
da personagem Emma, Flaubert respondeu apenas “Madame Bovary c’est
moi”, isto é, “Madame Bovary sou eu”.

Além de “Madame Bovary”, Flaubert também escreveu “A Educação


Sentimental” e “Salammbô”.

Além de Flaubert, outras obras e escritores se destacam no movimento: A


Comédia Humana, de Balzac e O Vermelho e o Negro, de Stendhal, na França;
Oliver Twist, de Charles Dickens e a peça de teatro Casa de Bonecas, do
norueguês Henrik Ibsen, na Inglaterra; O Primo Basílio, de Eça de Queirós, em
Portugal; Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski e Guerra e Paz, de Tolstói, na
Rússia e, é claro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis,
no Brasil, inspirado, principalmente, pelos romances franceses e portugueses.

Honoré de Balzac

Honoré de Balzac (1799-1850) foi um prolífico escritor, considerado um divisor


de águas do romance. A partir de Balzac, as histórias medievais extraordinárias
e romanescas deram lugar à noção moderna de romance: fatos corriqueiros,
cotidianos, dramas familiares.

O escritor se dedicou profundamente à observação da sociedade e “A Comédia


Humana”, como se chama o conjunto de toda a sua obra, é composta por 95
romances, novelas e contos.

Conservador, retratou a sociedade urbana de sua época. Em seus romances, o


amor e as paixões não são os elementos principais. Eles existem, mas se
misturam aos dramas financeiros das famílias retratadas. Se no Romantismo
os romances terminavam no casamento, os romances de Balzac iniciam no
casamento, para criticar a hipocrisia daquela instituição na burguesia francesa.

Honoré de Balzac
Agora, ambição e dinheiro são mais importantes, dando espaço para um
mundo de proprietários, advogados, industriais, comerciantes e aristocratas
decadentes. Além disso, seus personagens são considerados “tipos sociais”,
representando categorias inteiras da sociedade.

Um de seus romances mais populares é “A mulher de Trinta Anos”, em que


conta a história de Julie d’Aiglemont e a sua vida de infelicidades. Por causa
deste romance, a expressão “balzaquiana” é utilizada quando alguém se refere
a uma mulher de 30 anos.

Charles Dickens

Charles Dickens foi um dos escritores mais importantes da chamada era


vitoriana, na Inglaterra do século XIX.

Pertencente à classe média baixa, o autor se dedicou a retratar as condições


dos trabalhadores e dos habitantes das classes mais baixas de Londres. Sua
crítica social residia, principalmente, no fato de a sociedade vitoriana permitir
as condições extremas de pobreza de sua população operária.

Dickens foi um escritor popular que publicava seus romances em folhetim. Sua
popularidade deu-se graças ao desenvolvimento dos personagens, que
ganhavam a admiração dos leitores ingleses, aos diversos episódios
humorísticos que formavam seus romances e às cenas em que descreve a
cidade de Londres.

Além disso, seus romances, apesar de realistas, têm um viés melodramático e


Dickens valorizou a infância, já que, na Inglaterra, era muito comum que as
crianças trabalhassem nas fábricas (e o próprio Dickens começou a trabalhar
desde muito jovem na indústria).
Charles Dickens (1812-1870

Seus livros mais importantes são Oliver Twist, As Aventuras de Pickwick, Um


Conto de Natal, Grandes Esperanças e David Copperfield (considerado uma
autobiografia).

O Realismo no Brasil

No Brasil, as últimas produções da terceira geração romântica, na segunda


metade do século XIX, já indicavam a mudança que estava por vir.

Castro Alves, Sousândrade e Tobias Barreto atentavam para a realidade social


do país em suas obras.

Na prosa, a obra de Manuel Antônio de Almeida também dava indícios de


novas abordagens no romance.
O Violeiro (1899), de Almeida Junior

O contexto histórico brasileiro

O Brasil, na segunda metade do século XIX, assim como a Europa, vivia um


momento bastante conturbado. O cientificismo, o positivismo e as teorias
sociais vindas da Europa, juntamente com o abolicionismo, a Guerra do
Paraguai, a assinatura da Lei Áurea, a substituição da mão de obra escrava
pela assalariada (principalmente dos imigrantes que chegaram ao Brasil), o
ideal republicano e a crise da monarquia caracterizavam a segunda metade do
século XIX.

Esse período representou o declínio da sociedade aristocrático-escravista e


uma gradual ascensão do capitalismo industrial. Em São Paulo, as máquinas e
as indústrias começaram a surgir, e os cafeicultores, com a mão de obra
assalariada, passaram de latifundiários a empresários agrícolas.

Proclamação da República (1893), de Benedito Calixto


O realismo no Brasil estreou em 1881 com a publicação de Memórias
Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
Principais características

As características do movimento estão intimamente ligadas com o contexto


histórico brasileiro e com as novas teorias vindas da Europa, principalmente no
que diz respeito ao positivismo, ao socialismo e ao evolucionismo.

Desenvolveu-se, assim, uma postura objetiva na maneira de tratar a ficção. No


entanto, havia a busca pelos detalhes mais precisos e “realistas” possíveis,
sem abrir mão da crítica social. Com isso, o subjetivismo e sentimentalismo do
movimento romântico abriram espaço para o universalismo e o materialismo do
momento presente.

Os escritores do período podem ser considerados antimonárquicos, pois


criticam a monarquia e defendem o republicanismo; antiburgueses, pois
denunciam a hipocrisia da família patriarcal burguesa como célula da
sociedade, e anticlericais, pois defendem a separação entre Estado e religião.

Autores e obras

Os principais autores realistas brasileiros são Machado de Assis e Raul


Pompeia. Este último pode ser considerado um escritor de transição entre o
Realismo e o Naturalismo, pois seu romance principal, O Ateneu, possui
características de ambos os períodos. No entanto, consideraremos o romance
de Pompeia como pertencente ao Realismo.

Autores do Realismo

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no dia 21 de junho de 1839 no Morro


do Livramento (RJ). É considerado nacional e internacionalmente um dos
maiores nomes das Letras brasileiras.

Era filho do brasileiro Francisco José de Assis, um pintor de paredes mulato, e


da açoriana Maria Leopoldina Machado de Assis, uma lavadeira. Após a morte
da mãe, seu pai casou-se com Maria Inês da Silva, com quem o escritor
continuou morando após o falecimento do pai.
Machado de Assis estudou por pouco tempo em uma escola pública, onde
aprendeu as primeiras letras. Começou sua vida literária bastante cedo e, aos
16 anos publicou o poema “Ela” no jornal Marmota Fluminense (de Francisco
de Paula Brito).

Machado de Assis

No ano seguinte, passou a trabalhar como tipógrafo na Imprensa Nacional,


então sob a direção de Manuel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um
Sargento de Milícias. Em 1858 iniciou aulas de francês com o Padre Antônio
José da Silveira Sarmento e, no mesmo ano, tornou-se revisor de provas
tipográficas na livraria de Paula Brito. No ano seguinte trabalhou como crítico
teatral, colaborando para inúmeros jornais.

Em 1863 Machado publicou suas primeiras peças de teatro: O Protocolo e O


Caminho da Porta, além de publicar diversos contos no Jornal das Famílias.
Seu primeiro livro publicado foi uma coletânea de versos intitulada Crisálidas.

A partir de então, a produção literária de Machado de Assis tornou-se bastante


prolífica e o autor escreveu críticas, crônicas, contos, poemas, ensaios e teve
publicado seu primeiro romance, Ressurreição (que ainda continha resquícios
da prosa romântica)
Carolina Augusta Xavier de Morais, o grande amor de Machado de Assis
Machado de Assis casou-se com Carolina Augusta Xavier de Morais, o grande
amor da sua vida, sua companheira por quase 35 anos e a quem dedicara seu
soneto mais famoso, A Carolina.

Em 1873 Machado foi nomeado para um cargo público como primeiro-oficial da


Secretaria do Estado do Ministério da Agricultura, sendo mais adiante
promovido a chefe da seção da Secretaria da Agricultura, o que lhe garantira
estabilidade financeira. Dedicando-se cada vez mais à literatura, publicou os
livros Histórias da Meia-Noite (1873), A Mão e a Luva (1874), Americanas
(1875), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878).

Inspirado no novo estilo de romance que estava se desenvolvendo na Europa


e, principalmente, por Eça de Queirós (que havia publicado O Primo Basílio em
1878), Machado inicia, em 1879, a publicação seriada de Memórias Póstumas
de Brás Cubas na Revista Brasileira e, no mesmo ano, inicia a publicação
seriada de Quincas Borba na revista A Estação. Os dois romances foram
publicados em forma de livro em 1881 e 1891, respectivamente. A partir de
1882, publicou os livros Papéis Avulsos, Histórias sem Data e Várias Histórias.

Em 1896 dirigiu a primeira sessão preparatória da fundação da Academia


Brasileira de Letras e, no ano seguinte, participou da sua inauguração, sendo
eleito o primeiro presidente, cargo que assumiu por dez anos. Em 1899
publicou outro de seus romances mais importantes, Dom Casmurro. A partir de
então, publica Páginas Recolhidas, Poesias Completas e Esaú e Jacó.
Carolina faleceu em 1904. Em 1908 Machado publicou o controverso Memorial
de Aires. Faleceu no mesmo ano, no Rio de Janeiro, em decorrência de uma
úlcera canceriosa. Assim como o personagem de seu romance mais famoso,
Machado de Assis não deixou filhos para a posteridade.

Principais obras de Machado de Assis

As obras de Machado de Assis são divididas em duas fases: a fase romântica


(ou de amadurecimento) e a fase realista (ou de maturidade).

Na primeira fase, o escritor ainda apresenta características do período


romântico; na segunda, considera-se dentro do novo movimento literário
realista.

Com relação à poesia, na primeira fase, seus poemas de temática amorosa


não apresentam preocupações formais, mas uma linguagem bastante
trabalhada. Há também a poesia de temática nacionalista, inspirada por
Gonçalves Dias, principalmente as contidas no livro América.

Na segunda fase, sua poesia é considerada parnasianista. A poesia produzida


no período realista é enquadrada no Parnasianismo, isto é, há uma
preocupação tanto com a forma quanto com a linguagem utilizada.

Com relação à prosa, Machado de Assis não apenas inaugura o Realismo no


Brasil, mas também sua segunda fase literária com Memórias Póstumas de
Brás Cubas. A partir de então, seus escritos são permeados por análises
psicológicas dos personagens, análise da sociedade e crítica aos ideais
românticos.

Além disso, há uma mudança formal, com frases e capítulos curtos, e a


utilização do recurso de diálogo com o leitor. Antes disso, seus trabalhos em
prosa da primeira fase foram considerados (pelo próprio escritor) ingênuos e
romanescos.

Estudaremos a seguir um pouco mais sobre alguns de seus romances mais


importantes:
Principais obras de Machado de Assis
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)

A grande inovação que este romance traz não apenas à literatura brasileira,
mas à literatura universal reside no fato de que o seu narrador encontra-se
morto.

O defunto-narrador Brás Cubas narra sua autobiografia em primeira pessoa. O


personagem é um filho da elite carioca do final do século XIX que, apesar de
suas ambições, chega à conclusão de que não realizou nada digno de nota
durante a sua vida.

Outro ponto interessante do livro é que, em geral, os escritores dedicam suas


obras a pessoas ou escrevem uma epígrafe para indicar o tom ou a temática
do romance. No caso de Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador, ainda
antes do romance, faz a sua dedicatória fúnebre: “Ao verme que primeiro roeu
as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas
memórias póstumas.

Capa de Memórias Póstumas de Brás Cubas, com desenhos de Portinari


O romance propriamente dito inicia com o velório de Brás Cubas, quando o
narrador faz um relato do que aconteceu no momento em que faleceu de
pneumonia e fala dos que estiveram presente em seu velório. É no capítulo IX,
intitulado “Transição”, que iniciam os fatos: Brás Cubas relembra de sua vida
desde a mais tenra idade e conta ao leitor sobre sua infância endiabrada e a
paixão por Marcela, uma prostituta, na adolescência (fato que levou sua família
a enviá-lo para estudar em Coimbra).

Após seu retorno ao Rio de Janeiro, ocorre a morte do pai, a discussão de sua
herança com a irmã e o cunhado, e o plano de casamento com uma moça
chamada Virgília. No entanto, Virgília prefere casar-se com um aspirante a
político. Mesmo assim, os dois tornam-se amantes, encontrando-se às
escondidas na casa da costureira Dona Plácida.

Na mesma época, Brás Cubas encontra, por acaso, pelas ruas do Rio de
Janeiro, seu amigo de infância Quincas Borba. Borba afirma, em seu delírio,
ser o criador de uma nova filosofia - o Humanitismo - que justificaria
determinados atos de guerra na busca pela sobrevivência de um dos lados.
Quincas Borba, então, um mendigo, surrupia o relógio de Brás Cubas quando
os dois se despedem.

Virgília e o marido mudam-se para o norte e Sabrina, irmã de Brás, arranja uma
noiva para ele. No entanto, a moça morre de febre amarela. Brás Cubas torna-
se deputado e, ao se candidatar a ministro, acaba fracassando. Após diversos
fracassos e tristezas, o personagem resolve fazer uma última tentativa de
sucesso: criar um remédio, o “Emplastro Brás Cubas” que, segundo seu autor,
curaria todas as doenças. Ironicamente, Cubas falece de uma pneumonia
quando estava trabalhando no remédio.

Desolado, só resta ao defunto pensar sobre a sua vida e chegar à conclusão,


negativa, de que pouco realizou. Uma das passagens mais famosas da nossa
literatura é, justamente, a do final do romance, quando Brás Cubas informa
que:
“Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do
emplastro, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é
que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com
o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a
semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer
pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e, conseguintemente que
saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do
mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste
capítulo de negativas: – Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o
legado da nossa miséria.”

Quincas Borba (1891)

O personagem que dá nome ao romance é o mesmo que aparece em


Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ao mesmo tempo em que se encontrava
miserável no Rio de Janeiro, o filósofo era dono de uma imensa riqueza.

No romance Quincas Borba, Rubião, um humilde professor do interior de Minas


Gerais e enfermeiro de Quincas Borba, recebe a herança do tresloucado
criador da filosofia chamada Humanitismo, com a condição de que cuidasse do
cachorro do filósofo, também chamado Quincas Borba.

Capa da primeira edição de Quincas Borba, publicada em 1891

A mudança na vida de Rubião passou então a chamar a atenção da sociedade,


que começou a visitá-lo, aproveitando-se da sua ingenuidade. Ao viajar para o
Rio de Janeiro, Rubião conheceu um casal, Cristiano e Sofia, que, ao se verem
frente a um provinciano ingênuo, armaram um plano para se aproveitar da
fortuna de Rubião. Sofia se insinuou a Rubião, mas quando este declarou seu
amor, ela o recusou. No entanto, o casal não cortou laços com o herdeiro de
Quincas Borba por ainda nutrir interesse na sua herança. Por fim, em função
do amor não correspondido por Sofia, Rubião acabou enlouquecendo.

A trajetória de ascensão e derrocada de Rubião comprovam a tese do


Humanitismo. Rubião não sabia como lidar contra aqueles que se esforçaram
ao máximo para tirar-lhe “as batatas”, isto é, a riqueza que herdara do criador
da filosofia do Humanitismo. Rubião morre louco pensando ser Napoleão III.
Até nisso Rubião demonstrava sua mediocridade face à sociedade de sua
época.

Dom Casmurro (1899)

Considerado o último romance da “trilogia realista” de Machado de Assis, Dom


Casmurro conta a hitória de amor entre Bentinho e Capitu, dois vizinhos e
amigos de infância, o casamento entre eles e a suspeita de traição (após
Bentinho perceber que seu filho com Capitu é parecido com Escobar, um
amigo do casal).

As crises de ciúme de Bentinho levam à separação do casal e tanto Capitu


quanto o filho Ezequiel acabam morrendo: a primeira, na Europa; o segundo,
de tifoide em uma viagem ao Oriente Médio.

Muito já se discutiu e ainda se discute acerca do assunto. No romance, que é


narrado em primeira pessoa, Bentinho tem certeza de que Capitu o traiu. No
entanto, como temos apenas a visão (e a voz) do narrador-personagem, não
sabemos se sua suposição estava correta.

Ao passo que Bentinho é, desde pequeno, um garoto mimado, teimoso e


rabugento, que recebe o apelido de “Dom Casmurro”, Capitu é uma menina
cheia de vida, aventureira, comunicativa e sedutora.

Além do enredo original e das discussões levantadas, Machado, neste


romance, faz um perfil psicológico dos personagens e uma análise
comportamental dos indivíduos da sociedade de sua época.

Memorial de Aires (1908)

Último livro de Machado de Assis, não possui um enredo linear. É composto


por uma série de entradas de diário, contando diferentes episódios do
comendador (semelhante à forma de composição de Memórias Póstumas de
Brás Cubas) entre os anos de 1888 e 1889.

O narrador-personagem já havia aparecido no romance anterior Esaú e Jacó.


Em Memorial de Aires, o romance gira em torno do casal de velhinhos Aguiar e
Carmo, sua rotina e suas tristezas (como o fato de não terem tido filhos).

Há quem diga ainda que o comendador é um alter ego de Machado de Assis e


D. Carmo, de Carolina, sua esposa. O livro é objeto de controvérsia por ser
pessimista com relação à velhice e ao mundo e por mostrar um narrador alheio
à sociedade carioca da época, que fervilhava com a abolição da escravatura
(1888) e com a Proclamação da República (1889), dois acontecimentos muito
importantes da história do país.
A polêmica em torno do livro deve-se ao fato de que Machado, neste romance,
demonstra indiferença com os ideais abolicionistas da época. O fato de o
enredo acontecer em um ambiente doméstico da elite carioca ligada à
monarquia foi entendido como descaso com os acontecimentos sociais tão
importantes da sua sociedade, por meio de um narrador de visão limitada e
parcial.

Raul Pompeia

Nasceu em Angra dos Reis (RJ) em 1863 e faleceu no Rio de Janeiro em 1895.
Raul Pompeia é outro escritor importante da segunda metade do século XIX.
Sua obra transita entre o Realismo e o Naturalismo.

No entanto, para fins didáticos, estudaremos sua obra como pertencente ao


Realismo. Pompeia publicou quatro romances ao longo da vida, dos quais O
Ateneu: crônica de saudades é o que recebe maior importância para o estudo
da literatura brasileira.

Além da discussão acerca do movimento ao qual Raul Pompeia pertenceria,


alguns críticos consideram O Ateneu como um romance à parte na literatura
brasileira, sendo o único representante do "impressionismo" no Brasil.

Raul Pompeia

O Ateneu (1888)
Este romance, publicado em 1888, é um livro de memórias, narrado em
primeira pessoa por Sérgio, que conta suas experiências no inernato Ateneu.

O romance é autobiográfico, revelando aspectos e críticas da infância do autor


no Colégio Abílio. A crítica do narrador está, justamente, na estrutura
educacional da instituição: arrancados da proteção da família, os garotos são
jogados à própria sorte nas mãos de Aristarco, um diretor rígido, egocêntrico e
ganancioso.

O colégio se torna um microcosmo cujas leis próprias colidem com as “leis da


sobrevivência” daqueles meninos confinados sob o teto de uma educação
rígida. O único consolo das crianças é sonhar com a bela D. Ema, esposa do
Dr. Aristarco, que além de personificar a figura materna, é combustível para os
pensamentos sexuais deles. Ao final do romance, um incêndio, causado pelo
filho do diretor, põe fim ao colégio Ateneu.

Ilustração presente em O Ateneu, feita pelo próprio Raul Pompeia


O romance revela características naturalistas ao subjugar o personagem às
regras “do meio” que frustra, intimida e coloca os internos em contato com a
homossexualidade. Além disso, o colégio Ateneu pode ser entendido como
uma alegoria à moral falida do sistema político e econômico da época: a
monarquia decadente. O romance foi publicado às vésperas da Proclamação
da República.
A Academia Brasileira de Letras (ABL)

Fachada do Petit Trianon, sede da Academia desde 1923


No final do século XIX, Afonso Celso Junior e Medeiros e Albuquerque -
homens de letras - acreditavam que o Brasil deveria ter uma Academia de
Letras, nos mesmos moldes da existente na França, com o intuito de cultivar e
promover a língua e a literatura portuguesa. Somada a alguns escritores de
renome, a ideia surge como uma instituição privada e independente do Estado.

As sessões preparatórias que precederam a fundação da Academia ocorreram


na redação da Revista Brasileira, no Rio de Janeiro, contando com a presença
de vários escritores, incluindo Machado de Assis, que aceitou a presidência
desde o início. Junto dele, outros 39 escritores e homens de letras se juntaram
naquela que foi a primeira formação da Academia Brasileira de Letras. A
sessão inaugural ocorreu em 20 de julho de 1879.

Cada um dos 40 imortais escolheu um “patrono”, um escritor já falecido, para


dar nome à cadeira. Esta poderá ser ocupada por qualquer cidadão brasileiro
com obras publicadas e cujo valor literário será analisado e votado pelos
membros da ABL. Uma vez agraciado com o título, o escritor passa a ser um
imortal da ABL, significando que sua posição na Academia é vitalícia.

Poemas

Poesia de Machado de Assis

A poesia de Machado de Assis, embora não seja a responsável pela fama do


escritor, existe e merece ser apreciada pelo grande público.
Machado de Assis poeta?

Certamente você nunca (ou pouco) ouviu falar sobre essa faceta do maior
escritor de nossa literatura brasileira, não é mesmo? Quando pensamos em
Machado de Assis, imediatamente associamos seu nome aos clássicos
“Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Dom Casmurro”, “A mão e a luva”, entre
outros romances que são leitura obrigatória para os amantes de nossas letras.
Machado também foi contista incomparável, é dele os clássicos “Missa do
galo”, “A cartomante”, “Teoria do Medalhão”, “O alienista”, entre outras pérolas
que apenas confirmam sua genialidade.

Você pode até não saber, mas Machado também escreveu versos. É verdade
que o poeta não chega aos pés do prosador, mas a poesia de Machado de
Assis existe e merece sua atenção. Como poeta, publicou os livros Crisálidas,
de 1864, Falenas, de 1870, Americanas, de 1875, e Poesias completas, de
1901, todas em domínio público, portanto, conhecê-las depende apenas de seu
interesse. A produção poética de Machado de Assis ainda carece de leitores e
deve sim ser redescoberta, afinal de contas, trata-se do fenomenal “Bruxo do
Cosme Velho”, e nada do que ele escreveu deve ser negligenciado. Para você
conhecer o lado poeta do maior escritor da literatura brasileira, o Mundo
Educação selecionou cinco poemas de Machado de Assis para você conhecer
e apreciar. Boa leitura!

Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro

Em que descansas dessa longa vida,

Aqui venho e virei, pobre querida,

Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro


Que, a despeito de toda a humana lida,

Fez a nossa existência apetecida

E num recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores - restos arrancados

Da terra que nos viu passar unidos

E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos

Pensamentos de vida formulados,

São pensamentos idos e vividos.

A uma senhora que me pediu versos

Pensa em ti mesma, acharás

Melhor poesia,

Viveza, graça, alegria,

Doçura e paz.

Se já dei flores um dia,

Quando rapaz,

As que ora dou têm assaz

Melancolia.
Uma só das horas tuas

Valem um mês

Das almas já ressequidas.

Os sóis e as luas

Creio bem que Deus os fez

Para outras vidas.

Em destaque, na fotografia, o escritor Machado de Assis. Fotografia do acervo


da Biblioteca Nacional
Livros e flores

Teus olhos são meus livros.


Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

Flores me são teus lábios.


Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?
No alto

O poeta chegara ao alto da montanha,


E quando ia a descer a vertente do oeste,
Viu uma cousa estranha,
Uma figura má.

Então, volvendo o olhar ao subtil, ao celeste,


Ao gracioso Ariel, que de baixo o acompanha,
Num tom medroso e agreste
Pergunta o que será.

Como se perde no ar um som festivo e doce,


Ou bem como se fosse
Um pensamento vão,

Ariel se desfez sem lhe dar mais resposta.


Para descer a encosta
O outro lhe deu a mão.
Círculo vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:


"Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,


Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela"
Mas a lua, fitando o sol com azedume:

"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela


Claridade imortal, que toda a luz resume"!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

Pesa-me esta brilhante auréola de nume...


Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vagalume?"

Além de romancista, cronista e contista, Machado de Assis também foi poeta. É


esse o seu lado menos conhecido do grande público.

Impressionismo

O impressionismo foi uma tendência artística francesa com ênfase na pintura


que ocorreu no momento da chamada "Belle Époque" (1871-1914).
Essa vertente teve um papel muito importante para a renovação da arte do
século XX, sendo a grande propulsora das chamadas vanguardas europeias.
O termo "Impressionismo" é fruto da crítica a uma obra de Claude Monet,
"Impressão, nascer do sol", de 1872.
Impressão, nascer do sol (1872), de Claude Monet
Os pintores impressionistas costumavam produzir suas telas ao ar livre. A
intenção era capturar as tonalidades que os objetos refletiam segundo a
iluminação solar em determinados momentos do dia.
Esse movimento foi um divisor de águas para a pintura. Seus artistas não se
prendiam aos ensinamentos do realismo acadêmico.
No entanto, foram influenciados pelas correntes positivistas da segunda
metade do século XIX, as quais primavam pela precisão e o realismo.
Esse novo estilo artístico concorria com produções acadêmicas. Para isso,
havia locais fora dos circuitos tradicionais da arte, como era o caso dos Salons,
onde os pintores impressionistas realizavam exposições exibindo suas telas.
Vale citar que as orientações estéticas impressionistas estão presentes nas
produções gráficas, na propaganda e noutras formas de comunicação de
massa. Até os dias atuais elas seguem influenciando novas estéticas.

Características do Impressionismo
registro das tonalidades das cores que a luz do sol produz em determinados
momentos;
figuras sem contornos nítidos;
sombras luminosas e coloridas;
misturas das tintas diretamente na tela, com pequenas pinceladas.
Mulher com sombrinha no jardim (1875)

de Renoir, é uma obra impressionista


Os pintores impressionistas buscaram reproduzir as sombras de modo
luminoso e colorido. O ponto de partida era a composição de efeitos visuais
para a fixação do instante, tal qual a impressão visual que nos causam.
Portanto, a tonalidade preta é evitada em obras impressionistas plenas. De
modo semelhante, a presença dos contrastes e de transparências luminosas
auxiliam no desvanecimento da forma, percebida agora sem contornos.
Os impressionistas aboliram as temáticas históricas e mitológicas, bem como
as religiosas, buscando momentos cotidianos fugazes.
Ademais, procuravam uma expressão artística que estivesse focada nas
impressões da realidade em detrimento da razão e da emoção.
Como perceberam a fonte das cores nos raios solares, buscaram captar a
mudança no ângulo dos mesmos e na implicação disso na alteração de cores.
Procuravam também realizar as misturas cromáticas na própria tela, fixando as
tintas em pequenas manchas de cor.
Isso porque a luz para os impressionistas construía a forma, captava a mesma
paisagem nos diversos momentos do dia e nas várias estações do ano.
Principais artistas do Impressionismo
No grupo original dos artistas impressionistas estavam:
Édouard Manet (1832-1883)
Alfred Sisley (1839-1899)
Camille Pissarro (1830-1903)
Edgar Degas (1834-1917)
Auguste Renoir (1841-1919)
Claude Monet (1840-1926)
Vale lembrar que o artista Manet é considerado também um pintor do chamado
Realismo.
Mulheres Impressionistas
Apesar de pouco se falar sobre as mulheres na história da arte, algumas
estavam também expressando-se artisticamente. No impressionismo, houve a
presença feminina não apenas como modelos, mas também como pintoras.
Podemos citar alguns nomes, como:
Berthe Morisot (1841-1895)
Mary Cassatt (1844-1926)
Eva Gonzalès (1849- 1883)
Lilla Cabot Perry (1848-1933)
Impressionismo no Brasil

Roupa estendida (1944), de Eliseu Visconti

Após se consagrar no exterior, o Impressionismo chega ao Brasil. Nesse


momento, o nacionalismo está a constituir uma “Escola Brasileira de Artes", daí
não ter surtido muito impacto a princípio.
No Brasil, podemos citar como representante mais importante do
impressionismo o italiano Eliseu Visconti (1866-1944), radicado no Brasil.
Atualmente, há também o pintor Washington Maguetas (1942).
Também notamos tendências impressionistas nos trabalhos de Almeida Júnior
(1850-1899), Anita Malfatti (1889-1964), Georgina de Albuquerque (1885-1962)
e João Timóteo da Costa (1879-1932).

Música Impressionista

A música de Claude Debussy é considerada impressionista


A música impressionista é caracterizada por atmosferas melódicas sensuais e
etéreas, que buscam retratar imagens, especialmente paisagens naturais.
Surge como oposição à música romântica e explorava o recurso da
dissonância e escalas hexafônicas, além de composições mais curtas.
Podemos citar como compositores impressionistas os franceses Claude
Debussy (1862-1918), Maurice Ravel (1875-1937), entre outros.

Literatura Impressionista

O francês Marcel Proust foi um escritor impressionista


A literatura impressionista focou na descrição de impressões e aspectos
psicológicos das personagens. Assim, se acrescenta detalhes para constituir as
impressões sensoriais de um incidente ou cena.
Tem como características a valorização das emoções e sensações, a
importância da memória, com a busca por um tempo que não existe mais e o
enfoque em sentimentos individuais.
Destacam-se como escritores impressionistas o francês Marcel Proust (1871-
1922) e os brasileiros Graça Aranha (1868-1931) e Raul Pompeia (1863-1985).

Impressionismo e Fotografia

À esquerda, fotografia de Degas, (1896). À direita, Dançarina com leque


(1879), também de Degas
O advento da fotografia permitiu aos pintores se libertarem da função figurativa
da imagem.
Assim, passaram a experimentar novas técnicas, levando em conta os efeitos
ópticos descobertos sobre a composição de cores e a formação de imagens na
retina do observador.
Isso permitiu a exploração de novos parâmetros estéticos, dando ênfase na luz
e no movimento. Além disso, os pintores também influenciaram-se pela
linguagem fotográfica no que diz respeito ao enquadramento e à
espontaneidade.
E ainda havia alguns pintores que estavam experimentando também as
técnicas fotográficas, como era o caso de Edgar Degas.
A primeira exposição foi organizada em 1874 no ateliê do fotógrafo Maurice
Nadar para expor as obras experimentais de jovens pintores.

Impressionismo e Pós-Impressionismo

Tarde de domingo na Ilha da Grande Jatte (1884-1886), de Seurat. A tela exibe


a técnica do pontilhismo

O pós-impressionismo é uma tendência artística que surgiu em finais do século


XIX, mais precisamente a partir de 1886 - quando ocorreu a última exposição
impressionista - até o surgimento do cubismo.
Nessa exposição, participaram dois pintores - Georges Seurat (1859-1891) e
Paul Signac (1863-1935) - com obras que apresentavam um novo tipo de
pincelada. Essa maneira inovadora de pintar ficou conhecida como
Pontilhismo, na qual a tinta é depositada na tela em pequenos pontos,
fragmentando totalmente a imagem.
Ainda que tenha se inspirado no impressionismo, a arte pós-impressionista
revela preocupações com a subjetividade humana. Ou seja, as obras desse
período expressam as emoções e sentimentos. Essa arte é diferente da a arte
impressionista, a qual é marcada pelo aspecto “superficial” de reprodução da
realidade, deixando de lado olhares mais densos sobre a existência humana.
Além disso, os pós-impressionistas buscavam outras maneiras de trabalhar a
cor, a luz e os conceitos de tridimensionalidade.
Na arte pós-impressionista merecem destaque os artistas: Cézanne, Gauguin,
Van Gogh, Seurat, Signac e Toulouse-Lautrec.
Manet

Édouard Manet (1832-1883) foi um polêmico pintor francês. Apesar de ser o


maior representante do impressionismo, foi alvo de muitas críticas e teve
muitas obras recusadas para participar no Salão Oficial de Paris, o qual recebia
as obras de arte após serem selecionadas por um júri da Academia.

Retrato de Édouard Manet


Foi o que aconteceu pela primeira vez em 1859 com a pintura O Bebedor de
Absinto, que foi recusada em virtude da sua ousadia. Isso porque Manet havia
rompido com a tradição e dado mostras da sua modernidade.
Assim, Manet não é só o pioneiro do impressionismo, mas da pintura moderna.
Somente dois anos depois, em 1861, o pintor conseguiu que uma obra sua
fosse exposta na exposição anual de obras de arte realizada em Paris. Nesse
ano, na verdade, o Salão contou com duas obras de Manet, O Cantor Espanhol
e Retrato de Sr. e Sra. Auguste Manet.
Importa referir que esse artista trazia também traços do movimento conhecido
na arte como Realismo.
Em 1863, Almoço na Relva desagradou os juízes da exposição em decorrência
do erotismo presente na obra. Por isso, foi exposto no Salão dos Recusados,
que era a exposição para onde iam as obras que não eram aceitas no Salão
Oficial.
Em 1865 foi a vez de Olympia ser recusada por razões semelhantes. O
Tocador de Pífano, em 1866, também foi recusada.
Depois de tantas recusas, Manet decide organizar ele próprio uma exposição,
tendo dela surgido uma pintura considerada uma obra-prima, Execução de
Maximiliano.
Somente a partir de 1881 todas as suas obras puderam ser exibidas no Salão
Oficial de Paris.
Manet nasceu numa família burguesa, onde era o primogênito, no dia 23 de
janeiro de 1832 em Paris. Portador de sífilis, morreu também em Paris no dia
30 de abril de 1883. Tinha 51 anos.
Principais Obras
O Bebedor de Absinto (1859)
O Cantor Espanhol (1860)
Retrato de Sr. e Sra. Auguste Manet (1860)
A Ninfa Surpresa (1861)
Lola de Valência (1862)
Música nas Tulheiras (1862)
O Almoço na Relva (1863)
Olympia (1863)
O Homem Morto (1864)
O Tocador de Pífano (1866)
A Execução de Maximiliano (1868)
Retrato de Émile Zola (1868)
Autorretrato com Paleta (1879)
A Primavera (1881)
O Bebedor de Absinto
Características das Obras
Manet era impressionista, mas as suas obras carregam algumas características
do Realismo.
Utilizava cores fortes e nas suas obras contemplava o efeito das sombras.
No que respeita aos temas, Manet retrata a vida da sua época de forma pouco
convencional.

Vida e obra de Renoir

Renoir foi um artista francês muito importante do final do século XIX. Teve
grande destaque na pintura e, junto com outros artistas, deu continuidade a
uma nova maneira de pincelar, que ficou conhecida como impressionismo.
Apreciava a beleza da vida e levou otimismo, harmonia e tranquilidade para
suas telas ao pintar muitas cenas ao ar livre. Chegou a dizer, certa vez:
Para mim, um quadro deve ser algo amável, alegre e belo, sim, belo. Já
existem muitas coisas desagradáveis na vida. Pra que inventarmos mais?
Biografia de Renoir
Fotografia de Renoir e autorretrato, ambos datados de 1910
Pierre-Auguste Renoir nasceu em 1841 em Limoges, na França. Quando tinha
quatro anos, mudou-se para Paris com os pais e os seis irmãos. Sua mãe,
Marguerite Merlet, era costureira e seu pai, Léonard Renoir, alfaiate.
No colégio, destacou-se por sua facilidade para o canto e habilidade ao
desenhar.
Para ajudar a família financeiramente, aos treze anos inicia como aprendiz em
um ateliê de pintura em porcelana na oficina dos Levy. Lá permaneceu até os
dezessete anos. Depois, dedicou-se ainda a pintar tecidos e leques.
Em 1861, Renoir conhece Charles Gleyre, que viria a ser seu mestre na pintura
no ano seguinte. É quando também ingressa na Escola de Belas Artes de
Paris.
Nessa época tornou-se amigo de Claude Monet (1840-1926), Alfred Sisley
(1839-1899) e Frédéric Bazille (1841-1870), que também viriam a ser
importantes pintores.
Juntos, eles exploraram as cores e luminosidades em tardes de pintura ao ar
livre no bosque de Fontainebleau.
Suas inspirações na arte eram Eugéne Delacroix (1798-1863) e Édouard Manet
(1832-1883), que já causavam alvoroço na cena artística.
Em 1864, conhece Lise Tréhot, uma das primeiras modelos do pintor e
posteriormente sua amante.
A obra Lise com sombrinha (1867) foi uma das telas produzidas quando o
artista ainda estava concluindo os estudos na Escola de Belas Artes. Assim,
como o quadro A estalagem de "Mère" Anthony (1866).
À esquerda, Lise com sombrinha (1867). À direita, A estalagem de "Mère"
Anthony (1866)
Em 1869, Renoir e Monet consolidam seus estilos de pintura, mais fluidos, com
personagens pinceladas em esboços e valorizando a luz solar. Essa forma de
pintar ficou conhecida mais tarde como impressionismo.
Com o início da Guerra Franco-Prussiana, Renoir foi convocado a servir o
exército. Lá, ficou doente e não chegou a participar de combates. Entretanto,
ficou demasiado perturbado pelo desaparecimento de seu amigo Bazille, morto
aos 29 anos.
Em 1871, com a Comuna de Paris, o artista decide se isentar da cena política,
não assumindo um posicionamento e "flutuar na maré dos acontecimentos".
Renoir e outros artistas independentes criam em 1873 um projeto de
exposições. A inauguração se deu em abril de 1874, contando com mais de 30
participantes, entre pintores, escultores e gravadores.
Foi nessa exposição que a tela Impressão, nascer do sol, de Monet, foi exibida,
batizando o nome do movimento impressionista. Outras exposições do grupo
ocorreram também em 1876, 1877 e 1879.
Casou-se em 1880 com a modelo Aline Charigot e teve três filhos com ela.
Nesse período, já com 40 anos, o artista vai em busca de novos estímulos e
inspirações e viaja para a Espanha, onde entra em contato com o trabalho de
Diego Velásquez.
De 1883 a 1887, o pintor sofre uma crise criativa e apresenta alguns episódios
depressivos. Mas logo adiante vive uma fase boa de reconhecimento
profissional, chegando a ter uma de suas telas vendida para o Governo francês
em 1892.
Renoir sofreu por bastante tempo com as dores causadas pelo reumatismo. A
primeira crise grave foi em 1888, que o deixou com paralisia facial. A partir de
então, a artrite o acompanhará até o fim de seus dias.
Tanto que, em 1897, o artista começou a apresentar dificuldades de mobilidade
e em 1910 precisava amarrar os pincéis em sua mãos para continuar pintando.
Nessa época, já era bastante reconhecido e ganha uma sala especial na Bienal
de Veneza.
Nos últimos anos de vida permanece ativo, apesar da doença e das dores.
Começou a se aventurar na escultura, com o auxílio dos jovens artistas Richard
Gieino e Louis Morel, que trabalhavam seguindo as instruções de Renoir.
Pintou um ramalhete de flores no dia de sua morte, em 3 de dezembro de
1919, em Cages-sur Mer, na França.

Principais obras de Renoir


A seguir, algumas das telas mais importantes de Pierre-Auguste Renoir,
apresentadas em ordem cronológica, onde se pode ver o processo criativo e
transformações na maneira de pintar do artista.
1. No Verão (1868)

No Verão, de Renoir. À direita,


detalhe do rosto da modelo, com o olhar perdido num dia quente de verão
Técnica: óleo sobre tela;
Dimensão: 85 x 59 cm;
Localização: Galeria Nacional, em Berlim, Alemanha.
2. La Grenouillère (1869)

La Grenouillère, de
Renoir. Jogo de reflexos em que o elemento humano e a natureza se misturam
Técnica: óleo sobre tela;
Dimensão: 66 x 81 cm;
Localização: Museu Nacional de Belas-Artes da Suécia.
3. A Parisiense (1874)

A parisiense, de Renoir é o
retrato da famosa atriz Madame Henriot
Técnica: óleo sobre tela;
Dimensão: 160 x 160 cm;
Localização: Museu Nacional Cardiff, País de Gales.
4. Nu feminino à luz do sol (1875)

Nu feminino à luz do sol, de Renoir. Detalhe das joias realistas em meio à


natureza que envolve a cena
Técnica: óleo sobre tela;
Dimensão: 81 x 65 cm;
Localização: Museu de Orsay, Paris, França.
5. Le Moulin de la Galette (1876)

Le Moulin de la Galette, de Renoir, é uma das obras mais célebres do pintor


Técnica: óleo sobre tela;
Dimensão: 131 x 175 cm
Localização: Museu de Orsay, Paris, França.
6. Menina com regador (1876)

Menina com regador, de Renoir, retrata a inocência e singeleza da infância


Técnica: óleo sobre tela;
Dimensão: 100 x 73 cm
Localização: Galeria Nacional de Arte, Washington, EUA.
7. O almoço dos remadores (1880-81)

O almoço dos remadores, de Renoir, é um dos quadros mais importantes do


impressionismo
Técnica: óleo sobre tela;
Dimensão: 130 x 173 cm
Localização: Galeria Nacional de Arte, Washington, EUA.
Naturalismo

Frequentemente o Realismo e o Naturalismo são estudados juntos, pois suas


origens e suas características são muito semelhantes.

Pode-se dizer que o Naturalismo é uma ramificação do Realismo, pois os dois


movimentos se desenvolveram ao mesmo tempo na Europa e encontraram no
Brasil escritores que souberam desenvolver o romance, dadas as condições
sociais de um país às vésperas da abolição da escravatura, da Proclamação da
República e que estava vendo os latifundios serem gradativamente invadidos
por estrangeiros e máquinas.

O vagão de terceira classe (1864), do artista francês Honoré Daumier

Na Europa, o movimento iniciou com o escritor francês Émile Zola que,


influenciado pelas teorias científicas da época e pelos romances do seu
contemporâneo Honoré de Balzac, tentou transpor o rigor da análise científica
para a ficção.

Seus dois romances principais, Nana (1880) e Germinal (1881) tratam,


respectivamente, da prostituição de luxo e das condições dos mineiros. Para
escrever Germinal, Zola trabalhou durante alguns meses em uma mina de
carvão a fim de ficar próximo de seu “objeto de estudo” e escrever uma obra
que fosse o mais fiel à realidade possível.

Zola pegou pesado no trabalho e acompanhou de perto a rotina, as condições


precárias e a greve que os mineiros organizaram.
Características

As principais características do período incluem: uma análise social bastante


acurada de grupos marginalizados, isto é, que não costumavam aparecer até
então na literatura no Romatismo. Há, por meio dos escritores, uma valorização
dos ambientes coletivos, como aglomerados e habitações.

Inspirados pelo cientificismo do século XIX, muitos escritores escreveram


"romances de tese", isto é, romances que pretendiam provar algum aspecto da
natureza dos seres humanos em sociedade. No caso dos escritores do
Naturalismo, a principal delas era o determinismo, isto é, a prova de que os
seres humanos são influenciados por seu meio, pelo momento em que vivem e
pela sua raça.

Os Bêbados (1908), do artista português José Malhoa

Assim, muitos romances priorizam aquilo que é instintivo e primitivo no ser


humano, em detrimento da razão, como a agressividade e o erotismo, além de
contarem com narradores objetivos e oniscientes, que assistem às cenas como
espectadores-cientistas que dissecam seus personagens, com o intuito de
confirmar suas teses.

Para os dias de hoje, muitas dessas "teses" não são mais válidas. No entanto,
os romances têm seu valor histórico para a literatura. Com relação aos
enredos, a grande maioria dos romances naturalistas possui finais trágicos,
quase sempre ressaltando a supremacia dos personagens da elite (em geral,
brancos, europeus ou seus descendentes) em detrimento dos personagens das
classes mais pobres e operárias.
Características que para o leitor contemporâneo não são incomuns, na época
do Naturalismo causaram uma reação negativa perante a crítica literária, tais
como: uso da linguagem oral e popular nos diálogos, cenas de sexo, incesto e
amor homossexual.

Naturalismo no Brasil

Aluísio Azevedo (1857-1935)

O naturalismo iniciou no Brasil com a publicação do romance O Mulato, de


Aluísio Azevedo, no ano de 1881. O autor, abolicionista, trata do preconceito
racial e da corrupção do clero vividos na sociedade maranhense do fim do
século XIX.

Em seu romance, conta a história de Raimundo, um mulato, filho de um


português com uma ex-escrava do pai, que estuda na Europa e regressa ao
Brasil para rever sua família. Quando aqui chega, apaixona-se pela sua prima
Ana Rosa, e tem seu amor correspondido. No entanto, o casal enfrenta
diversos obstáculos da sociedade maranhense, que não admite ver a moça
casada com um mulato.

Entre eles, estão os pais de Ana Rosa e o Cônego Diogo (sendo que este fora
o assassino do pai de Raimundo). Ao final, mesmo sendo amado por Ana
Rosa, Raimundo acaba morto pelo Cônego. O livro recebeu inúmeras críticas
de seus conterrâneos, mas conseguiu se consagrar no Rio de Janeiro (então
capital do Brasil).

Aluísio Azevedo nasceu em São Luís (MA) no ano de 1857 e faleceu em


Buenos Aires (Argentina) em 1913.
Além de O Mulato, Aluísio Azevedo também publicou diversos romances,
dentre eles, O Cortiço (1890), sua obra-prima, que iria reforçar o lugar do autor
no Naturalismo brasileiro. Neste romance, cujo principal “personagem” é um
cortiço do Rio de Janeiro, o escritor delineia uma série de tipos sociais
degradados, moradores do cortiço, precursor do que conhecemos hoje como
favelas.

Assim como em vários romances do realismo e do naturalismo, O Cortiço não


possui um enredo único, mas uma série de histórias envolvendo seus principais
tipos sociais: o português ganancioso, os escravos, a mulata, o operário, o
malandro e os burgueses, transformando-os em estereótipos.

No entanto, um dos personagens que mais tem peso no romance é João


Romão, o português dono do cortiço e responsável, em parte, pela situação
degradante de seus moradores.

No romance O Cortiço, Aluísio Azevedo trabalha com o determinismo: o cortiço


é o meio responsável por determinar as ações dos personagens. Além disso,
dentro daquela esfera de degradação, seus moradores lidam com
características naturais dos humanos, como o instinto, o primitivismo e a
promiscuidade. Assim, em muitos aspectos, seus personagens são
“animalizados”, isto é, são comparados a animais por causa de seus
comportamentos.

Ao final do romance, quando o cortiço pega fogo, João Romão constrói um


novo cortiço, no entanto, não mais destinado às classes pobres da sociedade,
mas sim, à nova classe média que começava a aparecer no Brasil.

O que é um estereótipo?

Fala-se em estereótipo quando alguém ou uma instituição tem uma visão


reduzida ou generalizada de um grupo de pessoas e atribui determinadas
características a ele. Dizer, por exemplo, que os alemães são pessoas frias e
arrogantes e que o brasileiro é um povo acolhedor é criar estereótipos, pois se
sabe que nem todos os alemães são pessoas frias e arrogantes, e que nem
todos os brasileiros são acolhedores.

A Carne (1888), de Júlio Ribeiro

Capa de uma edição antiga de A Carne. Os romances naturalistas eram


frequentemente considerados pornográficos e suas edições recebiam
ilustrações ao gosto do público leitor.

O escritor, que ficou bastante conhecido por ter criado a bandeira do Estado de
São Paulo, é autor do romance A Carne, dedicado ao escritor francês Émile
Zola. Foi considerado obsceno pela sociedade da época por tratar de temas
como o divórcio e o amor livre entre a protagonista, uma mulher solteira e um
homem divorciado. O moralismo na recepção do livro deve-se a uma sociedade
em que o papel da mulher era de submissão ao homem e à sua família.

A protagonista do romance Helena Matoso, a Lenita, é uma mulher inteligente,


rica e independente que tem fortes desejos sexuais, e quer tê-los satisfeitos.
Naquela época, a mulher era vista como um ser submisso à vontade do
homem e praticamente assexuada. A protagonista, órfã de mãe, é criada pelo
pai, responsável pela sua educação acima da média. Com a morte do pai,
abalada, Lenita decide ir para o interior de São Paulo, na fazenda de um amigo
da família. Lá, se apaixona por Manuel Barbosa, filho do dono da fazenda.
Porém, Manuel era divorciado, condição que não era aceita pela sociedade. A
paixão entre os dois aumenta cada vez mais e eles acabam se entregando
“aos prazeres da carne”. No entanto, em função de um mal-entendido, Lenita
rompe o romance com Manuel para se casar com outro homem, mesmo
estando grávida de três meses. Manuel não suporta a dor e se suicida.

O Bom-Crioulo (1895), de Adolfo Caminha

À esquerda, capa da edição brasileira de Bom-Crioulo (ed. Ática). À direita,


capa da edição norte-americana, publicada pela editora Gay Sunshine.

O romance foi duramente criticado na época de seu lançamento, por tratar de


homossexualidade e amor inter-racial. Bom-Crioulo conta a história de Amaro,
um escravo fugitivo que é aceito como marinheiro na Marinha de Guerra. Lá,
Amaro se destaca pelo físico imponente, e, por causa de sua personalidade,
recebe o apelido de “bom-crioulo”. Ainda na Marinha, conhece o grumete
Aleixo, um jovem muito branco e de olhos azuis, por quem Amaro se apaixona.
A partir dessa paixão, Amaro passa a agir irracionalmente, a beber e a ter
crises de ciúmes para defender seu amor.

Ao mesmo tempo, Aleixo se envolve com D. Carolina, dona da pensão onde os


dois vivem em terra. A personagem redescobre no rapaz o amor carnal que há
muito tempo havia perdido, além de tratá-lo praticamente como um filho, já que
ela nunca tivera a possibilidade de gerar um. No entanto, como Amaro se
entrega à bebida, em razão do descontrole perante os ciúmes de Aleixo, acaba
sendo castigado diversas vezes e vem a ser preso em um hospital-prisão. Ao
saber que seu grande amor o havia traído com D. Carolina, Amaro foge da
prisão e o mata a navalhadas.

Poemas Aluísio Azevedo

Amor

Amemos! Quero de amor


Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!

Quero em teus lábio beber


Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!

Vem, anjo, minha donzela,


Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!
Álvares de Azevedo
LEMBRANÇAS DE MORRER

Eu deixo a vida como deixa o tédio


Do deserto, o poento caminheiro,
- Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,


Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade - é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade - é dessas sombras


Que eu sentia velar nas noites minhas.
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,


Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei. que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores.
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,


Verei cristalizar-se o sonho amigo.
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário


Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.
Álvares de Azevedo

Parnasianismo
Este movimento se originou juntamente com o Realismo e o Naturalismo a partir da
segunda metade do século XIX. Na realidade, o Parnasianismo é considerado o
"Realismo em poesia".

No entanto, didaticamente, as produções poéticas do Realismo estão organizadas como


um movimento à parte.

Diferentemente do Realismo, que usava a ficção como teses científicas para a


sociedade, mostrando o pior dela, o Parnasianismo pouco se interessou por tais
questões.

A influência do cientificismo e do positivismo esteve atrelada à estética da poesia. A


busca pela formalidade da linguagem e a rigidez das formas foram as principais
características do período. Assim, o movimento ficou conhecido por buscar a “arte pela
arte”, com inspiração nos ideais poéticos clássicos, sem sofrer influência de aspectos
das teorias sociais, tão em voga no momento.
Capa da revista modernista Klaxon número 7, satirizando a poesia parnasiana
brasileira.

Esta imagem acima é uma brincadeira feita pela revista Klaxon, uma das mais
importantes divulgadoras das ideias e da literatura modernista no início do século XX.
A imagem foi escolhida para introduzir o movimento parnasiano, no sentido de ilustrar
como os autores e as poesias do período eram vistos: "forjadores" de poemas e
artificiais, respectivamente.

Iniciado na França, o movimento teve como principais autores Téophille Gautier,


Leconte de Lisle e Théodore de Banville. No Brasil, os maiores expoentes da poesia
parnasiana são Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac. Lembrando que
Machado de Assis, na chamada “segunda fase” de sua obra, dedicou-se à poesia, sendo
esta considerada parnasiana.

O modelo de poesia parnasiana foi duramente combatido pelos ideais modernistas do


início do século XX. Alegava-se que ela era artificial, vazia (de conteúdo) e que se
encontrava “presa” dentro de uma forma rígida. A seguir, estudaremos as principais
características do Parnasianismo.

Principais características
Da mesma forma como o Arcadismo (Neoclassicismo), o nome “Parnasianismo” vem
de um local da mitologia clássica: o Monte Parnaso, reservado ao deus Apolo e às suas
musas.

Contrários ao sentimentalismo, ao subjetivismo e à falta de rigor da poesia romântica,


os parnasianos dedicaram-se a uma poesia empenhada na objetividade, na
impessoalidade, no racionalismo e na rigidez da forma, cuja temática principal girava,
basicamente, em torno de alguns fatos históricos e de objetos, como vasos e estátuas,
remetendo a elementos da cultura clássica. Um dos poemas mais famosos do período é
“Vaso Grego”, de Alberto de Oliveira, que se tornou um símbolo da poesia parnasiana.

Nesse movimento, os poemas (em geral, sonetos) possuem formas fixas, compostas de
versos alexandrinos (12 sílabas poéticas) ou decassílabos (10 sílabas poéticas), sempre
com a chamada rima rica. Impera também a intensa descrição visual e o preciosismo
sobre o elemento-tema do poema. Os poetas do Parnasianismo são frequentemente
comparados aos ourives, pois trabalham minuciosamente em materiais nobres como o
ouro.

Santo Elói (588-660) foi um ourives conhecido pela sua habilidade em trabalhar com o
ouro, um material nobre.

Saiba mais

Rima rica: considera-se rica aquela rima que atende a dois critérios: conter variação da
classe gramatical das duas palavras que rimam e apresentar a rima ainda antes da sílaba
tônica.

Autores
Os três principais escritores do Parnasianismo são Alberto de Oliveira, Raimundo
Correia e Olavo Bilac. Suas obras priorizavam a estrutura formal, a linguagem erudita e
a temática clássica, uma espécie de retorno à poesia neoclássica, na contramão das
questões sociais, abordadas pelos principais escritores que se dedicaram à prosa.
Autores da chamada "tríade parnasiana": Alberto Oliveira, Raimundo Correia e Olavo
Bilac.

Alberto de Oliveira
Nasceu em Palmital de Saquarema (RJ) em 1857 e faleceu em 1937, na cidade de
Niterói. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

Era farmacêutico, mas se dedicou à poesia, juntamente com os amigos Raimundo


Correia e Olavo Bilac, inspirados no movimento parnasiano francês.

Por causa da importância que deram à forma e ao trabalho minucioso da linguagem, os


três ficaram conhecidos como “os príncipes poetas”.

Alberto de Oliveira é considerado o maior poeta parnasiano, e sua obra segue os rígidos
preceitos do movimento. Sua poesia gira em torno da natureza e da descrição de objetos,
sempre exaltando suas formas por meio de uma métrica rígida e de uma linguagem
trabalhada e rebuscada. Leia, a seguir, Vaso Grego um de seus poemas mais conhecidos
e estudados.

Vaso Grego

Esta de áureos relevos, trabalhada


De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada,
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.

Era o poeta de Teos que a suspendia


Então e, ora repleta ora, esvazada,
A taça amiga aos dedos seus tinia
Toda de roxas pétalas colmada.

Depois... Mas o lavor da taça admira,


Toca-a, e, do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,

Ignota voz, qual se da antiga lira


Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa voz de Anacreonte fosse.

Raimundo Correia
Nasceu em 1859, em São Luís (MA) e faceleu em 1911, em Paris.

Sinfonias, seu primeiro livro parnasiano, recebeu prefácio de Machado de Assis e segue,
como os demais parnasianos, a moda da época.

Sua temática gira em torno da natureza, de elementos da cultura clássica e da descrição


de objetos. A diferença é que sua poesia recebe um forte traço pessimista e de desilusão,
por vezes, impressionista.

Há uma polêmica em torno de Correia, pois muitos escritores e críticos levantaram a


hipótese de seu poema mais conhecido “As Pombas”, ser uma tradução, ou um plágio
de um poema de Théophile Gautier. Confira abaixo o poema na íntegra.

As Pombas

Vai-se a primeira pomba despertada...


Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
Das pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais, de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam


Os sonhos, um a um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,


Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...

Olavo Bilac
Olavo Bilac nasceu no Rio de Janeiro em 1865 e faleceu na mesma cidade em 1918.

Ao contrário dos poetas anteriores, que iniciaram sua vida literária ainda com produções
românticas, Olavo Bilac já iniciou sua carreira seguindo os preceitos do Parnasianismo.

Influenciado por seu pai, militar que esteve na Guerra do Paraguai, desde cedo Bilac se
interessou pelos ideais da República, sendo um dos autores do Hino à Bandeira.

Sua poesia é marcada pelo rigor com que trabalhou a linguagem e a forma de seus
poemas. Assim como os demais parnasianos, mesmo sendo republicano, ignorou os
acontecimentos sociais importantes de sua época, como a abolição da escravatura e a
Primeira Guerra Mundial.

Apesar de figurar entre os poetas impassíveis do Parnasianismo, Bilac declarou certa


vez:

Aos chamados poetas parnasianos também se deu outro nome: “impassíveis”. Quem pode
conceber um poeta que não seja suscetível de padecimento? Ninguém e nada é impassível:
nem sei se as pedras podem viver sem alma. Uma estátua, quando é verdadeiramente bela,
tem sangue e nervos.

Assim, Bilac justifica sua poesia rigorosa, porém, com ares sentimentalistas
pertencentes ao livro “Via Láctea”. O Soneto XIII é um dos poemas mais famosos da
literatura brasileira. Quem poderia pensar que um verdadeiro escultor e ourives da
palavra seria o autor de um soneto tão sensível? Ou será que o que encontramos no
soneto é um sentimentalismo artificial, fabricado e não genuíno?

Soneto XIII

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo


Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto


A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!


Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!


Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Contexto histórico, autores e obras do Parnasianismo


O Parnasianismo surge no final da década de 1870, em paralelo ao Realismo, porém com uma
ideologia diferente e pautada numa postura antirromântica. Esse movimento inicia-se no Brasil
com a publicação da obra “Fanfarras”, de Teófilo Dias. Sob forte influência francesa, tanto na
poesia quanto no estilo de vida dos poetas, que buscavam imitar os costumes franceses
vivendo num falso luxo, e deixando à margem a realidade brasileira. Esse momento tem como
característica: A Arte pela Arte; Esteticismo ou Culto à forma, Racionalismo e a Cultura Greco-
latina.

Simbolismo

Precedentes

A partir de 1880, na França, ocorreu uma reação contra os pontos de vista


cientificas da elite intelectual da época, representadas na literatura pelo
fatalismo naturalista e pelo rigor parnasiano.

Nesse sentido, o simbolismo surgiu


como uma recusa a todos os valores ideológicos e existenciais da burguesia, e
não apenas como uma estética oposta a literatura, objetiva, descritiva e
plástica, mais especificamente a poesia lírica.

Nasce então uma nova arte europeia por meio da marginalidade de Verlaine,
do amoralismo de Rimbaud e da destruição de linguagem por Mallarme, em
oposição a Belle Époque (Bela época), do capitalismo financeiro e industrial
que se apoderava ate então de boa parte do mundo.

Nesse momento, o artista passa a experimentar, à maneira dos românticos, um


intenso incomodo na realidade e na cultura, partindo do mundo escolhido pelo
racionalismo burguês e desvendando um universo estranho de associações de
ideias,imagens oníricas e lembranças sem significado definido. Essa realidade
era formada por um universo etéreo, de sensações evanescentes e o poeta
teria que produzir tais sensações na escrita.

Deste modo, o simbolismo tem por definição o anti-intelectualismo, propondo


como ideal a lírica pura,não racional, que usa imagens, e não conceitos. As
poesias simbólicas são consideradas difíceis, misteriosas e herméticas. Cada
poema se apresenta como uma forma de enigma, com inúmeros significados.
Por esta razão, muitos críticos enxergam nas obras simbolistas os
fundamentos da arte moderna, principalmente os da arte surrealita.

Surgimento

Os primeiros indicativos do movimento apontam para Baudelire, através da


publicação de As Flores do Mal (1857) apoiando certa perspectivas simbólicas.
Obra do escritor francês Charles Baudelaire - As Flores do Mal (1857)

No ano de 1884, Verlaine publicou sua obra intitulada de Arte poética, onde os
princípios da escola simbolista eram evidentes. Em 1886, Jean Moréas usou
um manifesto para formar teoricamente o Simbolismo. Veja o que diz um trecho
desse manifesto:

Como todas as artes, a literatura evolui: evolução cíclica com todas as voltas
estritamente determinadas que se compilam com as diversas modificações
trazidas pela marcha dos tempos e pelas revoluções dos meios. Seria
supérfluo observar que cada nova fase evolutiva da arte corresponde
exatamente à decrepitude senil, […] da escola imediatamente anterior.

Assim o Romantismo, após soar todos os tumultuosos alarmas da revolta, após


haver tido seus dias de glória e de batalha, abdicou de suas audácias heroicas
[…]; na honrosa e mesquinha tentativa dos parnasianos, ele esperou falaciosos
renovadores; depois finalmente, tal como um monarca deposto na infância,
deixou-se depor pelo Naturalismo, ao qual não se pode conceder seriamente
senão um valor de protesto legítimo, mas imprudente. Uma nova manifestação
de arte era, portanto, esperada, necessária, inevitável. […] Já propusemos a
denominação de Simbolismo como a única capaz de designar razoavelmente a
tendência atual do espírito criador em arte. (TELLES, 2002, p. 62).”

Contexto histórico

Ao final de 1880, o mundo ocidental passava por transformações culturais,


sociais e políticas. A França, como centro transmissor de cultura, é derrotada
na guerra contra a Alemanha. A derrota compromete um universo de ideias e
concepções. As proposições científicas e o predomínio da razão sobre os
sentimentos passam por uma revisão.
Como resultado, a arte tende ao abandono da objetividade e retoma as
posições de ordem subjetiva do Romantismo. Os anseios, as aspirações
individuais e coletivas, difundidas através de várias gerações.

Na Europa, o Simbolismo representou a oposição à valorização do material, ao


imperialismo econômico, que até então triunfava, voltando-se ao mundo
interior. No Brasil, a mudança ocorreu entre os anos de 1893 e 1895, quando o
país passava por guerras civis (Revolta Armada 1893 e Revolta Federalista
1893-95) e enfrentava um ambiente de mudanças econômicas e sociais com o
processo de República instaurado no país.
Contexto cultural no Brasil

O Simbolismo no Brasil é um movimento que acontece à margem do sistema


cultural dominante. Seu desenvolvimento ocorre no Rio Grande do Sul, em
Santa Catarina e no Paraná.

Os poetas brasileiros que a princípio adotaram as ideias de Baudelaire,


Verlaine e Mallarmé tornaram-se alvos de zombarias e de desprezo, passando
a ser chamados de decadentes ou nefelibatas, pois a maioria dos críticos não
os compreendia e o leitor mostrava-se indiferente e hostil diante daquela
linguagem poética complicada e pretensiosa. Após o manifesto de Jean
Moréas, em 1886, o termo Simbolismo foi consagrado para designar a nova
escola.

Publicação no jornal francês Le Figaro do manifesto de Jean Moréas

Os primeiros registros foram feitos por Medeiros e Albuquerque a partir de


1890. No entanto, os textos que realmente dão início ao Simbolismo no Brasil
pertencem a Cruz e Sousa, com as publicações de Missal (poemas em prosa)
e Broquéis (poemas em versos) no ano de 1893.
Missal e Broquéis

Características do Simbolismo

Subjetivismo, individualismo e imaginação

Valorizava o mundo interior do indivíduo. Apresentava poesia “difícil”, que


versava sobre o “eu” profundo e as “emoções”, manifestando os desejos
íntimos e a visão pessoal e sombria do mundo.

Usava expressões como: “toda alma num cárcere anda presa”, “os miseráveis,
os rotos são as flores dos esgotos” ou ainda “esta profunda e intérmina
esperança”.

Conteúdo irracional: poemas vagos e complexos, imprecisos e, alguns,


indecifráveis. Em razão disso, os poetas da época foram chamados de
“nefelibatas”, ou seja, sonhadores quanto aos seus ideais, nebulosos quanto ao
conteúdo e inatingíveis quanto à linguagem. Veja:

“Nos Santos óleos do luar floria

teu corpo ideal, com resplendor da Helade...

E em toda a etérea, branda claridade

como que erravam fluidos de harmonia.”

(Cruz e Sousa - Em Sonhos...)

“Desta torre desfraldam-se altaneiras,


por sóis de céus imensos broqueladas,

bandeiras reais, do azul das madrugadas

e do íris flamejante das poncheiras.”

(Cruz e Sousa - Torre de Ouro)

Diante dos registros simbolistas, é fundamental que o leitor sinta a


musicalidade e a sugestão, ao invés de preocupar-se em compreender a
mensagem, algo que nem sempre é possível.

Musicalidade e figuras de linguagem

O objetivo da musicalidade nos versos era o de criar uma atmosfera de mistério


e sugestão. Para os poetas, as palavras deveriam sugerir, evocar e não
descrever e definir.

As palavras eram escolhidas pela sonoridade, valendo-se do uso repetido de


um mesmo fonema para sugerir um som que aproximasse a linguagem do
conteúdo (aliterações), assonâncias (repetindo as mesmas vogais tônicas em
palavras diferentes) e, também, fazendo uso de rimas e ecos. Observe:

“Quando os sons dos violões vão soluçando,

Quando os sons dos violões nas cordas gemem,

E vão dilacerando e deliciando,

Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Vozes veladas, veludosas vozes

Volúpias dos violões, vozes veladas,

Vagam nos velhos vórtices velozes

Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.”

(Cruz e Sousa - Violões que Choram)

Misticismo e espiritualismo
Denotava a fuga da realidade, conduzindo o poeta simbolista ao mundo
espiritual. Realizava uma viagem ao mundo invisível e imaterial do ser humano
e utilizava-se de vocabulários litúrgicos, tais como: antífona, missal, ladainha,
hinos, breviários, turíbulos, aras, incensos. Observe:

“O ventre em pinchos, empinava todo

como réptil objeto o lodo

espolinhando e retorcido em fúria.

Era a dança macabra e multiforma de um

verme estranho, colossal enorme

do demônio sangrento em luxúria.”

(Cruz e Sousa - Dança do Ventre)

Sinestesia

Na poesia simbolista os poetas iam além dos significados usuais das palavras,
atribuindo qualidade às sensações, ou seja, utilizavam a sinestesia, que
possibilitava a expressão de estados do inconsciente, onde as imagens se
associavam em planos nem sempre lógicos; a partir de uma ideia era possível
despertar várias sensações.

São algumas construções sinestésicas: som vermelho, dor amarela, doçura


quente, silêncio côncavo. Veja:

“Tarde de olhos azuis e de seios morenos.

Ó tarde linda, ó tarde doce que se admira,

Como uma torre de pérolas e safira.

Ó tarde como quem tocasse um violino.

Tarde como Endimion, quando ele era menino

Tarde em que a terra está mole de tanto beijo,


Porém querendo mais, nervosa de desejo...”

(Emiliano Perneta)

Autores do Simbolismo

João da Cruz e Sousa (Dante Negro ou Cisne Negro)

Nasceu em 24 de novembro de 1861 na cidade de Desterro, atual Florianópolis


(SC).

Era filho de escravos que foram alforriados por seu senhor, o coronel (depois
marechal) Guilherme Xavier de Sousa, de quem João da Cruz recebeu o último
sobrenome e a proteção.

Ao ser vítima de racismo mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou


como arquivista na Estrada de Ferro Central do Brasil, contribuindo também
com o jornal Folha Popular.

Cruz e Sousa (Florianópolis, 1861-1898)

Em fevereiro de 1893 publicou Missal (prosa poética) e, em agosto, Broquéis


(poesia), dando início ao Simbolismo no Brasil - que se estendeu até 1922. Em
novembro desse mesmo ano casou-se com Gavita Gonçalves, também negra,
com quem teve quatro filhos, todos mortos prematuramente por tuberculose.
Sua poesia, inicialmente, foi influenciada pelo Romantismo de origem
contestadora de Castro Alves e pela ideia realista baseada na crítica social,
carregada de impulsos pessoais e dos sofrimentos causados pela miséria,
desprezo e condição social. No entanto, essas influências foram dando lugar à
visão simbolista mais voltada à poetização de verdades existenciais subjetivas.

Suas obras são marcadas pela musicalidade (uso de aliterações), pelo


individualismo, pelo sensualismo, ora pelo desespero, ora pelo apaziguamento,
além de uma obsessão pela cor branca - manifestada por sua condição racial e
a tentativa de superá-la.

Há três fases na poesia de Cruz e Sousa - o “Cisne Negro" ou "Dante Negro”:

A primeira fase corresponde aos livros Missal e Broquéis (1893), onde o poeta
demonstra a dor e o sofrimento de ser negro, e os conflitos entre o
transcendental e os apelos sensuais.

Percebe-se a utilização de recursos simbolistas pelo autor, tais como


repetições, aliterações e sinestesias, buscando obter um efeito melodioso.
Empregava também letras maiúsculas para expressar o absoluto (Mistério, Luz,
Morte, Dor) e o vocabulário litúrgico para criar uma aura mística, misteriosa.

Publicações: Missal e Broquéis

Observe este fragmento do poema Antífona:

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras


De luares, de neves, de neblinas!...

Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...

Incensos dos turíbulos das aras...

Formas do Amor, constelarmente puras,

De Virgens e de Santas vaporosas...

Brilhos errantes, mádidas frescuras

E dolências de lírios e de rosas...

Indefiníveis músicas supremas,

Harmonias da Cor e do Perfume...

Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,

Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,

Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...

Dormências de volúpicos venenos

Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...

Infinitos espíritos dispersos,

Inefáveis, edênicos, aéreos,

Fecundai o Mistério destes versos

Com a chama ideal de todos os mistérios.

(...)

A segunda fase do poeta corresponde à publicação de Faróis (1900), onde é


revelada a angústia e a melancolia. Seus poemas trazem como tema principal
a morte, o tédio, a revolta e o desespero interior.
Primeira edição de Faróis

Podemos observar esses elementos no trecho de Violões que Choram:

Quando os sons dos violões vão soluçando,

Quando os sons dos violões nas cordas gemem,

E vão dilacerando e deliciando,

Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,

Dedos nervosos e ágeis que percorrem

Cordas e um mundo de dolências geram

Gemidos, prantos, que no espaço morrem...

E sons soturnos, suspiradas mágoas,

Mágoas amargas e melancolias,

No sussurro monótono das águas,

Noturnamente, entre ramagens frias.

Vozes veladas, veludosas vozes,

Volúpias dos violões, vozes veladas,


Vagam nos velhos vórtices velozes

Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

(...)

A terceira fase de Cruz e Sousa é revelada nos versos de Últimos Sonetos,


publicados em 1905. É considerado o período que reflete a resignação e a fé
conquistadas pelo poeta.

Últimos Sonetos

Podemos comprovar a mudança de fase pelos poemas:

Crê!

Vê como a Dor te transcendentaliza!

Mas no fundo da Dor crê nobremente,

Transfigura o teu ser na força crente

Que tudo torna belo e diviniza.

(...)

Caminho da Glória

Este caminho é cor de rosa e é de ouro,

Estranhos roseirais nele florescem,


Folhas augustas, nobres reverdecem

De acanto, mirto e sempiterno louro.

Neste caminho encontra-se o tesouro

Pelo qual tantas almas estremecem;

É por aqui que tantas almas descem

Ao divino e fremente sorvedouro.

É por aqui que passam meditando,

Que cruzam, descem, trêmulos, sonhando,

Neste celeste, límpido caminho.

Os seres virginais que vêm da Terra

Ensanguentados da tremenda guerra,

Embebedados do sinistro vinho.

Sorriso Interior

O ser que é ser e que jamais vacila

Nas guerras imortais entra sem susto,

Leva consigo esse brasão augusto

Do grande amor, da nobre fé tranquila.

Os abismos carnais da triste argila

Ele os vence sem ânsias e sem custo...

Fica sereno, num sorriso justo,

Enquanto tudo em derredor oscila.

Ondas interiores de grandeza

Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,


Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.

O ser que é ser transforma tudo em flores...

E para ironizar as próprias dores

Canta por entre as águas do Dilúvio!

Principais obras de Cruz e Sousa

Broquéis (1893)

Missal (1893)

Evocações (1899)

Faróis (1900)

Últimos Sonetos (1905)

Cruz e Sousa morreu em 19 de março de 1898 em Minas Gerais, na localidade


de Curral Novo, vítima de tuberculose.

Autores do Simbolismo

Alphonsus de Guimaraens

Nasceu na cidade de Ouro Preto (MG) no dia 24 de julho de 1870, filho de


comerciante português e de uma sobrinha do escritor romântico Bernardo
Guimaraens.

Estudou na cidade natal e depois cursou Direito em São Paulo. Alimentou uma
paixão platônica pela filha do autor de A Escrava Isaura, Constança, que
morreria de tuberculose antes de completar dezoito anos e, para quem
escreveu muitos de seus versos. Ao retornar para Minas Gerais, desempenhou
a função de juiz em Conceição do Serro e, posteriormente, em Mariana.
Alphonsus de Guimaraens

Casou-se com Zenaide, uma jovem de dezessete anos com quem teve
quatorze filhos. Exceto pelo abalo sentimental que sofreu com a morte de sua
amada, teve uma vida tranquila, que reflete em sua obra. Seus poemas são
suaves, apesar de expressarem melancolia. Suas obras caracterizam-se pela
musicalidade e vocabulário expressivo. Denotam uma busca constante pela
espiritualização e giram em torno dos seguintes temas:

A morte da mulher amada

A religiosidade litúrgica, com poemas dedicados à Virgem Maria

A Morte da Mulher Amada

A morte da mulher amada representa um tema dominante em sua obra. Seus


poemas demonstram a impossibilidade de esquecê-la e apresentam ideias
fúnebres, destacando-se a melancolia e a musicalidade. Podemos observar
essa forte carga de emoção no soneto Hão de chorar por ela os cinamomos:

Hão de chorar por ela os cinamomos

Murchando as flores ao tombar do dia

Dos laranjais hão de cair os pomos

Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão: - "Ai, nada somos,

Pois ela se morreu silente e fria..."


E pondo os olhos nela como pomos,

Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua que lhe foi mãe carinhosa

Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la

Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...

E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,

Pensando em mim: - "Por que não vieram juntos?"

Vocabulário

Silente: silencioso, secreto

Também podemos observar o sofrimento do poeta na obra Ismália, onde a


solidão, a loucura e a morte se fundem.

Quando Ismália enlouqueceu,

Pôs-se na torre a sonhar...

Viu uma lua no céu,

Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu

Banhou-se toda em luar...

Queria subir ao céu,

Queria descer ao mar...

E, no desvario seu

Na torre pôs-se a cantar...

Estava perto do céu,


Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu

As asas para voar...

Queria a lua do céu,

Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu

Ruflaram de par em par...

Sua alma subiu ao céu,

Seu corpo desceu ao mar.

A Religiosidade Litúrgica

A morte precoce de sua amada associada ao clima místico das cidades


barrocas mineiras serviram de inspiração para Alphonsus de Guimaraens. Ao
contrário de Cruz e Sousa, que apresenta uma espiritualização filosófica e
repleta de angústias, a de Alphonsus traz elementos mais voltados ao emotivo,
baseando-se em preces e crenças simples. Demonstra que a divinização de
Nossa Senhora corresponde à sublimação do amor pela mulher amada morta,
sugerindo a troca de uma paixão concreta por uma devoção católica.

Tal tendência pode ser observada em seu poema A catedral:

Entre brumas ao longe surge a aurora.

O hialino orvalho aos poucos se evapora,

Agoniza o arrebol.

A catedral ebúrnea do meu sonho

Aparece na paz do céu risonho

Toda branca de sol.

E o sino canta em lúgubres responsos:


Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus! (...)

Por entre lírios e lilases desce

A tarde esquiva: amargurada prece

Põe-se a lua a rezar.

A catedral ebúrnea do meu sonho

Aparece na paz do céu tristonho

Toda branca de luar.

E o sino dobra em lúgubres responsos:

Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!

O céu é todo trevas: o vento uiva.

Do relâmpago a cabeleira ruiva

Vem açoitar o rosto meu.

E a catedral ebúrnea do meu sonho

Afunda-se no caos do céu medonho

Como um astro que já morreu.

E o sino geme em lúgubres responsos:

Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!

Vocabulário

Hialino: transparente

Arrebol: vermelhidão do nascer ou do pôr do sol.

Ebúrnea: de marfim

Responsos: versículos rezados ou cantados

Principais Obras de Alphonsus de Guimaraens


Manuscrito de um soneto de Alphonsus de Guimaraens

Setenário das Dores de Nossa Senhora (1899)

Dona Mística (1889)

Câmara Ardente (1899)

Kyriale (1902)

Afonso Henrique da Costa Guimarães (seu nome civil) morreu na cidade de


Mariana (MG) no dia 15 de julho de 1921, praticamente na obscuridade, às
vésperas da Semana de Arte Moderna.
Romantismo

Precedentes: Período de Transição (1808-1836)

Simultaneamente ao final das últimas produções do movimento árcade, ocorreu


a vinda da Família Real portuguesa para o Brasil. Esse acontecimento, no ano
de 1808, significou, o início do processo de Independencia da Colônia.

O período compreendido entre 1808 e 1836 é considerado de transição na


literatura brasileira, devido à transferência do poder de Portugal para as terras
brasileiras, que trouxe consigo, além da corte e da realeza, as novidades e
modelos literários do Velho Continente nos moldes franceses e ingleses.

Houve também a mudança de foco artístico e cultural, da Bahia para o Rio de


Janeiro, capital da colônia desde o ano de 1763. Segundo o crítico literário
Antônio Cândido, no livro Noções de Análise Histórico-literária:

"No Brasil não havia universidades, nem tipografias, nem periódicos. Além da
primária, a instrução se limitava à formação de clérigos e ao nível que hoje
chamamos secundário, as bibliotecas eram poucas e limitadas aos conventos,
o teatro era paupérrimo, e muito fraco o intercâmbio entre os núcles povoados
do país, sendo dificílima a entrada de livros."

O que explica o desenvolvimento literário incipiente, se comparado com o


mesmo período na metrópole. Os autores vistos até então eram produto da
educação europeia e/ou religiosa que receberam.

Com a vinda da Família Real, os livros puderam ser impressos no território, em


função da Imprensa Régia, derrubando a medida que proibia sua impressão e
difusão sem a autorização prévia de Portugal, dando início não apenas ao
desenvolvimento da literatura mas, também, a um sentimento de nacionalidade
no território, uma das principais características do período romântico brasileiro.

Contexto histórico na Europa

O final do século XVIII presenciou a ascensão da tipografia, inventada pelo


alemão Johannes Gutenberg, que possibilitou o desenvolvimento da impressão
em grandes quantidades de jornais e romances.
No início, os romances eram publicados diariamente nos jornais de forma
fragmentada, assim, a cada dia um novo capítulo da história era revelada. Esse
esquema, importado para a colônia, ficou conhecido como "folhetim" ou
"romance de folhetim" e deu origem às telenovelas que conhecemos nos dias
de hoje.

A Liberdade Guiando o Povo (1830), de Eugène Delacroix

Assim, com a Revolução da Imprensa, uma das principais características do


período Moderno, houve também a ascensão dos romances impressos,
popularizando o artefato (o livro não era mais considerado um artigo de luxo,
inacessível) e proporcionando um largo alcance da literatura às camadas
inferiores da sociedade e também às mulheres, que raramente tinham acesso
às letras e, quando muito, eram alfabetizadas.

Considera-se o marco inicial do romantismo na Europa a publicação do


romance Os sofrimentos do jovem Werther, do escritor alemão Johann
Wolfgang von Goethe no ano de 1774. Historicamente, um dos marcos
principais do movimento foi a Revolução Francesa, responsável pela difusão
dos pensamentos Iluministras na Europa e nas suas colônias, que tanto
inspirou os poetas árcades brasileiros.

Com o processo de industrialização dos grandes centros, houve um


delineamento das classes sociais: a burguesia, com riquezas provenientes do
comércio, e os operários das indústrias. Logo, a literatura do período foi
produzida pela classe dominante e para a classe dominante, deixando claro
qual a ideologia defendida por seus autores.
Saiba mais:

Ideologia: conjunto de ideias ou pensamentos de um indivíduo ou grupo e que


pode estar ligado a ações políticas, econômicas e sociais.

Contexto histórico no Brasil

Considera-se que o período romântico no Brasil inicia em 1836, com a


publicação da obra Suspiros Poéticos e Saudades, do poeta Gonçalves de
Magalhães e vai até o ano de 1881, com a publicação do romance realista
Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis.

Como dito anteriormente, o desenvolvimento da literatura brasileira


propriamente dita aconteceu a partir da vinda da Família Real para o Rio de
Janeiro que gerou um forte desenvolvimento artístico e cultural na colônia,
agora afinado com a produção literária europeia.

Chegada da Família Real Portuguesa a Bahia (1952), de Candido Portinari

Porém, a insatisfação das classes dominantes com o Império fez com que
surgissem tentativas de independência da metrópole, produzindo um
sentimento de nacionalismo que culminaria com a Declaração da
Independência, em 1822, por Dom Pedro I.

Outro aspecto importante é com relação à escravidão dos negros: o Brasil era
uma das poucas colônias americanas que ainda sustentava o sistema
econômico baseado do trabalho escravo, o que gerou opiniões controversas
por parte dos autores daquela época. Temos expressões literárias
abolicionistas (p. ex.: o poeta Gonçalves de Magalhães) e outras que tratavam
do tema superficialmente (p. ex.: o romancista Bernardo Guimarães) ou sequer
tocavam na questão.

A independência das colônias latino-americanas impulsionou um sentimento de


nacionalidade diretamente refletida pela literatura. A formação dessas
literaturas esteve a cargo de autores que projetavam os ideais de uma nação
em crescimento e desenvolvimento e que até hoje são considerados
constitutivos da história da nação.

No entanto, essa literatura fundacional e canônica da América Latina é revista


por muitos professores, críticos literários e historiadores pois apresentam
apenas uma visão referente à formação das nações latino-americanas. Como
assinala o professor e crítico literário Eduardo F. Coutinho:

"Na América Latina, durante o século XIX, o sujeito encunciador do discurso


fundador do estado-nação tomou como base um projeto patriarcal e elistista,
que excluiu não só a mulher, mas índios, negros, analfabetos e, em muitos
casos, aqueles que não possuíam nenhum tipo de propriedade. A preocupação
dominante era marcar a diferença da nova nação com relação à matriz
colonizadora, mas o modelo era obvia e paradoxalmente a metrópole; daí a
necessidade de forjar-se uma homogeneidade que excluísse todas as
diferenças."

O que causa uma sensação de estranhamento é o paradoxo observado no


período: ao mesmo tempo em que ideias sobre o sentimento de nacionalidade
aflorava nos corações dos brasileiros (e demais latino-americanos), parte da
população permanecia na miséria e/ou em situações de escravidão, sem
acesso à emancipação e aos direitos humanos básicos.

Principais características do período romântico

"Em cada país o romantismo produziu uma nova literatura exuberante com
imensas variações entre seus autores porém, em todos eles, persistem
algumas características em comum: opulência e liberdade, devoção ao
individualismo, confiança na bondade da natureza e no homem "natural" e na
fé permanente nas fontes ilimitadas do espírito e da imaginação humanos."

- Bradley, Beatty e Long


O romantismo floresceu na Alemanha (Goethe e Schlegel), na França
(Madame de Stäel e Chateaubriand) e na Inglaterra (Coleridge e Wordsworth),
como resposta aos modelos pretendidos pelos Iluministas, que privilegiavam o
racional e o objetivo, em detrimento do emocional e da subjetividade.

Houve, no período, o desenvolvimento da chamada poesia ultra-romântica, dos


romances (novels) e dos romances históricos (romances). Tanto a prosa
quanto a poesia foram amplamente difundidos no período. Porém, com a
ascenção da imprensa e da burguesia comercial, os romances e os periódicos
foram ganhando cada vez mais espaço e se popularizaram a ponto de atingir
um novo público leitor que até então não tinha acesso à literatura.

Há uma diferença significativa com relação aos padrões poéticos vistos até
então no Arcadismo, que se assemelhavam à estrutura camoniana e eram
inspirados nas obras greco-romanas. O verso clássico deu espaço ao verso
livre, aquele sem métrica e sem entonação, e ao verso branco, sem rima, que
possibilitou uma maior liberdade de criação do poeta romântico, agora livre
para expressar sua individualidade.

A carroça de feno (1821), de John Constable

Os temas principais da poesia romântica giram em torno do sentimento de


nacionalidade surgido a partir novo do contexto histórico e cultural. A nova
pátria, com a declaração da independência, manifestava-se através da
exaltação da natureza do país, no retorno ao passado histórico e na criação
dos heróis nacionais.
A hipervalorização dos sentimentos e das emoções pessoais (angústias,
tristezas, paixões, felicidades etc.) também é característica do movimento, que
pressupunha uma olhada para o interior do artista e de suas emoções, em
detrimento do racional e do objetivo iluminista. Esse sentimentalismo
exagerado está refletido nos enredos que, em sua maoria, consistem em
histórias de amor ou, quando este não é o mote principal, em histórias em que
o amor e a paixão prevalecem.

A individualidade como refúgio proporciona também a evasão para mundos


distantes como forma de escapar a sua realidade. Essa característica está
associada, principalmente, aos autores da chamada Geração Mal-do-Século -
autores acometidos pela tuberculose (a doença considerada o mal do século
XIX) - que almejavam uma vida de prazeres em países e territórios distantes
para escapar à dor e à morte.

O culto à natureza ganha traços diferenciados no romantismo pois, a partir de


agora, passa a funcionar não apenas como pano de fundo para as histórias
mas também, passa a exercer profundo fascínio pelos artistas. Além disso, a
natureza passa a entrar em contato com o eu romântico, refletindo seus
estados de espírito e sentimentos.

Nos romances góticos, surgidos no final do século XVII e desenvolvidos


durante o século XIX, a natureza tem um papel muitas vezes hostil e
ameaçador na trama, responsável por momentos de tensão. Com o passar do
tempo, essa natureza transformou-se em um clichê para histórias de terror na
forma de cenários assustadores: noite, névoa, pântanos, neve, árvores
retorcidas etc.

Conceitos importantes

a) Subjetivismo e Individualismo - glorificação do que é particular e íntimo, dos


sentimentos. Segundo o professor Sergius Gonzaga, em seu livro Manual de
Literatura Brasileira (Mercado Aberto, 1989):

Com frequência, o destino da grandeza individual é a "maldição", ou seja,


distanciamento pessoal da vida em sociedade, através da solidão voluntária, da
orgia, da ofensa aos valores comuns, da recusa em aceitar os princípios da
comunidade. Isto ocorre em um segundo momento, quando os artistas se dão
conta da impossibilidade de uma nova experiência napoleônica e da
mediocridade da burguesia pós-revolucionária, voltada apenas para a
acumulação de capital.

b) Patriarcalismo - o século XIX também é conhecido por refletir em sua


literatura canônica uma sociedade conservadora e patriarcalista. Neste modelo,
a família (homem, mulher e filhos) é o núcleo da sociedade burguesa, cujo
poder está centrado na figura do pai. Os enredo giram basicamente em torno
dela, de suas relações, seus costumes e seus desejos.

Embora no Brasil o modelo de sociedade patriarcal sempre esteve presente


desde o início da colonização, no Romantismo que uma explicitação desse
modelo, pois ele fazia parte do projeto nacional presente no século XIX, isto é,
aparecia na literatura como reflexo da ideologia dominante e para estabelecer
os costumes esperados na sociedade e destinados principalmente às mulheres

Com o advento do Realismo (movimento literário seguinte) muitos autores


dedicam-se a criticar este modelo e a retratar (da forma mais realista possível)
as mazelas que se encontravam por trás da família burguesa, como a
submissão das mulheres, a violência praticada contra esposas e filhas e a
própria condição dessas personagens, moedas de troca a fim de garantir a
situação financeira das famílias.

c) Eurocentrismo - com a expansão mercantilista, a europa se transformou na


grande potência mundial expandindo seus mercados para além do continente,
espalhando sua visão de mundo e acreditando na soberania dos países e no
modo de pensar europeu. As consequencias causadas pelo choque cultural
dos europeus com outras sociedades (principalmente africanas, asiáticas e
americanas) criou uma série de estereótipos a respeito desses povos
"bárbaros" e a ideia de que o pensamento europeu seria civilizatório moldou as
colônias e que foi refletida através da história principalmente na literatura do
século XIX.

d) Nacionalismo - com o desenvolvimento de uma burguesia mercantil, os


reinos europeus foram se dissolvendo e desenvolvendo, inicialmente, uma
ideia de organização política e cultural autônoma. Nas colônias, o sentimento
de nacionalidade surgiu como reação à política mercantil restritiva das
metrópoles e do desejo de liberdade econômica e política. No Brasil, os
escritores produziram obras importantes motivadas pelo ideal nacionalista no
sentido de delinear uma literatura que fosse considerada brasileira e não mais
submissa à colônia.

Poesia no Romantismo

Primeira metade do século XIX

As primeiras manifestações do período romântico aconteceram em forma de


poesia. Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves de Magalhães inaugura o
movimento romântico no Brasil, no ano de 1836.

Além disso, diversos outros autores desenvolveram suas temáticas por meio da
poesia, o que permitiu aos críticos agruparem as manifestações literárias do
gênero em três principais gerações.

Primeira geração romântica: nacionalista ou indianista

Nessa geração, os temas principais giram em torno da nova pátria, com


menções ao passado histórico do país. Também estão presentes temas como
a exaltação do índio, considerado o herói nacional por excelência, que deu
nome à geração.

O mito do bom selvagem, do filósofo Rousseau é aqui traduzido na figura do


índio que, além de valente e defensor da sua terra, é livre e incorruptível. Seus
principais autores são:

Gonçalves de Magalhães Araújo Porto-Alegre.


Gonçalves Dias
Autores da primeira geração romântica

Gonçalves de Magalhães

Gonçalves de Magalhães nasceu em Niterói (RJ) em 1811 e faleceu em Roma,


onde exercia cargos diplomáticos, no ano de 1882.

Estudou Medicina e viajou para a Europa, onde exerce a função de diplomata e


passa a ter contato com a produção literária do velho continente e funda, em
Paris, a revista literária Niterói, revista brasiliense, um dos marcos iniciais do
movimento romântico no país.

Suspiros poéticos e saudades (1836) inaugura o movimento com uma literatura


ufamista, celebrando a nacionalidade e também com temas religiosos,
repudiando a estética clássica e a temática da mitologia pagã (bastante
expressiva no período anterior).

Gonçalves de Magalhães

Além da poesia lírica voltada para o sentimentalismo, nacionalismo e


religiosidade, Magalhães escreveu a Confederação dos Tamoios (1856),
poema em dez cantos, inspirado nos poemas épicos, em que versa sobre a
rebelião dos indígenas contra os colonizadores portugueses ocorrida entre os
anos de 1554 e 1567.

Nele, o poeta defende os índios como bravos guerreiros empenhados na


defesa de sua terra, o que denotaria um forte sentimento nacionalista embora,
é claro, ainda não houvesse oficialmente um país. Logo, os índios seriam os
primeiros heróis nacionais.

Veja um trecho do poema:


Redobrando de força, qual redobra

A rapidez do corpo gravitante,

Vai discorrendo, e achando em seu arcanos

Novas respostas às razões ouvidas.

Mas a noilte declina, e branda aragem

Começa a refrescar. Do céu os lumes

Perdem a nitidez desfalecendo.

Assim já frouxo o Pensamento do índio,

Entre a vigília e o sono vagueando,

Pouco a pouco se olvida, e dorme, sonha,

Como imóvel na casa entorpecida,

Clausurada a crisálida recobra

Outra vida em silêncio, e desenvolve

Essas ligeiras asas com que um dia

Esvoaçará nos ares perfumados,

Onde enquanto reptil não se elevara;

Assim a alma, no sono concentrada,

Nesse mistério que chamamos sonho,

Preludiando a vista do futuro,

A póstuma visão preliba às vezes!

Faculdade divina, inexplicável

A quem só da matéria as leis conhece.


Ele sonha... Alto moço se lhe antolha

De belo e santo aspecto, parecido

Com uma imagem que vira atada a um tronco,

E de setas o corpo traspassado,

Num altar desse templo, onde estivera,

E que tanto na mente lhe ficara,

— "Vem!" lhe diz ele e ambos vão pelos ares.

Mais rápidos que o raio luminoso

Vibrado pelo sol no veloz giro,

E vão pousar no alcantilado monte,

Que curvado domina a Guanabara.

O último tamoio (1883), de Rodolfo Amoedo

O escritor José de Alencar escreve, sob o pseudônimo Ig (referência à índia


Iguassú), uma série de críticas acerca do poema, de sua temática e da sua
composição:

Se me perguntarem o que falta, de certo não saberei responder; falta um quer


que seja, essa riqueza de imagens, esse luxo da fantasia que forma na pintura,
como na poesia, o colorido do pensamento, os raios e as sombras, os claros e
escuros do quadro.

Alencar dizia também que o gênero épico não era compatível com a literatura
das Américas, principalmente do Brasil, uma nação ainda em nascimento. Essa
série de críticas resultou na publicação Cartas sobre a Confederação dos
Tamoios, em 1856, que deu projeção literária ao então jornalista José de
Alencar e contribuiu para que ele escrevesse seus principais romances
indianistas.

Autores da primeira geração romântica

Gonçalves Dias

Gonçalves Dias nasceu em Caxias (MA) em 1823 e morreu em 1864, vítima do


naufrágio do navio Ville de Boulogne, quando retornava da Europa para o
Brasil.

Com quinze anos, vai a Coimbra estudar Direito. Longe do Brasil, toma contato
com poetas portugueses que cultivavam a Idade Média. É considerado o
primeiro poeta de fato brasileiro por dar vazão aos sentimentos de um povo
com relação à pátria.

Em 1843 escreve seu famoso poema Canção do Exílio, onde se percebe


algumas das principais características do Romantismo: saudosismo,
nacionalismo, exaltação da natureza, visão idealizada da pátria e religiosidade.

Gonçalves Dias
Veja um trecho do poema:

Canção do Exílio

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossas flores têm mais vida,

Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar - sozinho, à noite -

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores


Que não encontro por cá;

Sem qu'inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Também fazem parte de seu trabalho a poesia indianista, representada pelo


conhecido I-Juca Pirama, e a poesia lírica, pelo poema Se se morre de amor!

O poema I-Juca Pirama é dividido em dez cantos e conta a história de um


guerreiro tupi capturado pela tribo inimiga, os Timbiras. Como seu pai estava
velho e doente, o guerreiro chora e pede clemência à tribo para que sua vida
seja poupada e ele possa voltar à companhia do velho. Ao saber disso, o pai,
decepcionado, alega que seu filho é fraco e covarde por não ter aceitado seu
destino de morrer lutando como um verdadeiro guerreiro nas mãos da tribo
inimiga.

Veja abaixo um trecho do poema indianista:

No meio das tabas de amenos verdores,

Cercadas de troncos — cobertos de flores,

Alteiam-se os tetos d’altiva nação;

São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,

Temíveis na guerra, que em densas coortes

Assombram das matas a imensa extensão.

São rudos, severos, sedentos de glória,

Já prélios incitam, já cantam vitória,

Já meigos atendem à voz do cantor:

São todos Timbiras, guerreiros valentes!

Seu nome lá voa na boca das gentes,

Condão de prodígios, de glória e terror!


(...)

Da tribo pujante,

Que agora anda errante

Por fado inconstante,

Guerreiros, nasci;

Sou bravo, sou forte,

Sou filho do Norte;

Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi.

(...)

Eu era o seu guia

Na noite sombria,

A só alegria

Que Deus lhe deixou:

Em mim se apoiava,

Em mim se firmava,

Em mim descansava,

Que filho lhe sou.

(...)

"Tu choraste em presença da morte?

Na presença de estranhos choraste?

Não descende o cobarde do forte;

Pois choraste, meu filho não és!


Possas tu, descendente maldito

De uma tribo de nobres guerreiros,

Implorando cruéis forasteiros,

Seres presa de vis Aimorés.

(...)

"Um amigo não tenhas piedoso

Que o teu corpo na terra embalsame,

Pondo em vaso d’argila cuidoso

Arco e frecha e tacape a teus pés!

Sê maldito, e sozinho na terra;

Pois que a tanta vileza chegaste,

Que em presença da morte choraste,

Tu, cobarde, meu filho não és."

O ritmo do poema lembra o som de tambores, denotando o aspecto guerreiro


das tribos indígenas e criando um clima de tensão no enredo, acompanhando
os acontecimentos da relação entre o pai e o filho.

Autores da primeira geração romântica

Araújo Porto-Alegre

Um dos principais autores da primeira geração romântica, Manuel de Araújo


Porto-Alegre acompanhou Gonçalves de Magalhães na Niterói, revista
brasiliense, publicando poemas desvelando um forte sentimento nacionalista.
Porto-Alegre também era um conhecido pintor e cartunista, fazendo caricaturas
e desenhos satíricos sobre o Brasil.

Homem das artes e das Letras, deixou aproximadamente 150 obras entre
poesias, peças de teatro e traduções. Dentre elas, as mais famosas são: o livro
de poesias Brasilianas (1863), o poema épico Colombo (1866), e a peça de
teatro Angélica e Firmino (1845).

Imagem: Araújo Porto-Alegre (1848), por Ferdinand Krumholz. O autor nasceu


em 1806, em Rio Pardo e faleceu em Lisboa no ano de 1879.

Selva Brasileira, pintura de Araújo Porto-Alegre, representante da literatura e


da pintura romântica brasileira .

Veja um trecho do poema Colombo:

(...)

De um salto juvenil pisa Colombo

A nova terra, e com seguro braço,

A bandeira real no solo planta.

Beija a plaga almejada, ledo e chora:

Foi geral a emoção! Disse o silêncio

Na mudez respeitosa mais que a língua.


Ao céu erguendo os lacrimosos olhos,

Na mão sustendo o Crucifixo disse:

“Deus eterno, Senhor onipotente,

A cujo verbo criador o espaço

Fecundado soltou o firmamento,

O sol, e a terra, e os ventos do oceano,

Bendito sejas, Santo, Santo, Santo!

Sempre bendito em toda parte sejas.

Que se exalte tua alta majestade

Por haver concedido ao servo humilde

O teu nome louvar nestas distâncias.

Permite, ó meu Senhor, que agora mesmo,

Como primícias deste santo empenho,

A teu Filho Divino humilde of’reça

Esta terra, e que o mundo sempre a chame

Terra de Vera-cruz! E que assim seja”.

Ergue-se e o laço do estandarte afrouxa:

Sopra o vento, desdobra-o, resplandecem

De um lado a imagem do Cordeiro, e do outro

As armas espanholas. Como assenso

Da divina mansão, esparge a brisa

Um chuveiro de flores sobre a imagem,

Flores não vistas da européia gente!


Segunda geração romântica: mal do século

Inspirados nas obras dos poetas Lord Byron, Goethe, Chateaubriand e Alfred
de Musset, os autores dessa geração também são conhecidos como
"byronianos".

As principais características da geração são: o individualismo, egocentrismo,


negativismo, dúvida, desilusão, tédio e sentimentos relacionados à fuga da
realidade, que caracterizam o chamado ultrarromantismo.

São temas recorrentes nas obra dos autores da segunda geração: a


idealização da infância, a representação das mulheres virgens sonhadas e a
exaltação da morte. Seus principais poetas são Álvares de Azevedo, Casimiro
de Abreu, Junqueira Freire e Fagundes Varela.

Autores da segunda geração romântica

Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo em 1831 e faleceu, vítima da


tuberculose, em 1852.

Poeta romântico por excelência, Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo e


estudou na Faculdade de Direito, porém, não chegou a concluir o curso.

Faleceu jovem, aos 21 anos, vítima da tuberculose e da infecção resultante de


um acidente de cavalo. A partir de então, desenvolveu verdadeira fixação com
a própria morte, escrevendo a respeito da passagem do tempo, do sentido da
vida e do amor - esse último, jamais realizado.

Seu livro de poesias, Lira dos Vinte Anos (publicada postumamente em 1853),
carrega consigo a melancolia de um poeta empenhado em expressar seus
sentimentos mais profundos. O conjunto de poesias também evidencia um
poeta sensível, imaginativo e harmonioso.
Álvares de Azevedo

Pode-se dizer que sua obra possui características góticas, pois retratam
paisagens sombrias, donzelas em perigo, personagens misteriosas, envoltas
em vultos e véus entre outros.

Romance gótico: subgênero originado na Inglaterra ao final do século XVIII. As


principais características desse romance dizem respeito à atmosfera de terror,
aos enredos assustadores e aos personagens. Neles, é comum encontrar
cenários medievais, donzelas, cavaleiros, vilões e personagens do meio
religioso e mistérios envolvendo as linhagens das famílias aristocráticas.

A frustração presente em sua obra é amenizada apenas através da lembrança


da mãe e da irmã. Além disso, a perspectiva da morte, apesar de assustadora,
traz conforto por saber que cessará a dor física causada pela doença e pelos
sofrimentos amorosos do poeta. Veja no poema abaixo:

Se eu morresse amanhã!

Se eu morresse amanhã,viria ao menos

Fechar meus olhos minha triste irmã;

Minha mãe de saudades morreria

Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!

Que aurora de porvir e que amanhã!

Eu pendera chorando essas coroas


Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que dove n'alma

Acorda a natureza mais loucã!

Não me batera tanto amor no peito,

Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora

A ânsia de glória, o dolorido afã...

A dor no peito emudecera ao menos

Se eu morresse amanhã!

Além de poeta, Álvares de Azevedo produziu a peça de teatro Macário (1852),


escrita após haver sonhado com o diabo. A peça conta a história de um
personagem que, em uma viagem de estudos, faz amizade com um
desconhecido e desobre ser ninguém mais, ninguém menos que o próprio satã.
Não há menções sobre o nome da cidade em que eles se encontram, porém,
há referências diretas à cidade de São Paulo. Assim, o poeta aproveita para
fazer uma crítica à devassidão na qual a cidade estava imersa.

Azevedo também escreveu um romance chamado Noite na Taverna (publicada


postumamente em 1855), uma narrativa composta por cinco histórias paralelas
sobre cinco homens que relatam, em um bar, histórias de terror vivenciadas
pelos mesmos. São eles: Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hermann e
Johann. Os nomes são claramente europeus e fazem referência aos romances
românticos produzidos naquele continente (especialmente os italianos e os
alemães), bem como sua temática macabra, inspirada nos romances góticos.

Casimiro de Abreu

Casimiro de Abreu nasceu em Capivary (RJ) em 1839. Faleceu na cidade de


Nova Friburgo no ano de 1860.
Nasceu em Capivary (RJ) e aos quatorze anos embarcou com o pai para
Portugal, onde escreveu a maior parte de sua obra, em que denota a saudade
da família e da terra nativa.

Poeta da segunda geração romântica, Casimiro escreveu poemas onde o


sentimento nativista e a busca pela inocência da infância estão presentes.

Pertenceu, graças à amizade com Machado de Assis, à então recém fundada


Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de número seis. Vítima da
tuberculose, faleceu na cidade de Nova Friburgo (RJ).

Casimiro de Abreu

Os aspectos formais de sua obra são considerados fracos, porém, sua temática
revela grande importância no desenvolvimento da poesia romântica para as
letras brasileiras. Sua linguagem simples, acompanhada por um ritmo fácil,
rima pobre e repetitiva revelam um poeta empenhado na expressão dos
sentimentos saudosistas com relação à pátria e à infância.

Essa última, em tom de profunda nostalgia, revela um tempo em que a vida era
mais prazerosa, junto à natureza e longe dos afazeres e das responsabilidades
da vida adulta.

Sua produção poética está reunida no volume As primaveras (1859) cujo


poema mais conhecido é Meus oito anos, em que o poeta canta a saudade da
infância vivida:

Meus oito anos

Oh que saudades que tenho


Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras,

A sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais.

Como são belos os dias

Do despontar da existência

Respira a alma inocência,

Como perfume a flor;

O mar é lago sereno,

O céu um manto azulado,

O mundo um sonho dourado,

A vida um hino de amor!

(...)

O poema Meus oito anos é um dos mais populares da literatura brasileira,


sendo parodiado por diversos autores, principalmente pelos poetas do período
conhecido como Modernismo.

Terceira geração romântica: condoreira

A terceira geração romântica é caracterizada pela poesia libertária influenciada,


principalmente, pela obra político-social do escritor e poeta francês Victor
Hugo, que originou a expressão "geração hugoana".
Além disso, a ave símbolo da geração é o condor, que habita o alto das
cordilheiras dos Andes e representa a liberdade. Daí o nome da geração ser
condoreira.

A poesia dessa geração é combativa e prima pela denúncia das condições dos
escravos, decorrência do sistema econômico brasileiro, baseado no trabalho
escravo. Os poetas dessa geração também clamam por uma poesia social em
que a humanidade trabalhe por igualdade, justiça e liberdade.

Seus principais autores são Castro Alves e Sousândrade.

Castro Alves e Sousândrade

"Castro Alves do Brasil, hoje que o teu livro puro

torna a nascer para a terra livre,

deixa a mim, poeta da nossa América,

coroar a tua cabeça com os louros do povo.

Tua voz uniu-se à eterna e alta voz dos homens.

Cantaste bem. Cantaste como se deve cantar."

Pablo Neruda

Autores da terceira geração romântica

Castro Alves
Castro Alves (1847 - 1871) nasceu em Curralinho e faleceu em Salvador
(ambas na Bahia) em decorrência da tuberculose e de uma infecção no pé
causada por acidente em uma caçada.

Considerado um dos poetas brasileiros mais brilhantes, Castro Alves tem sua
obra dividida em duas grandes temáticas: poesia lírico-amorosa e a poesia
social e das causas humanas.

Começou a escrever cedo e aos dezessete anos já tinha seus primeiros


poemas e peças declamados e encenados. Aos vinte e um já havia conseguido
a consagração entre os maiores escritores daquele tempo, como José de
Alencar e Machado de Assis. É o patrono número sete da Academia Brasileira
de Letras.

Castro Alves

Uma das principais características de sua obra é a eloquência, a utilização de


hipérboles, de antíteses, de metáforas, comparações grandiosas e diversas
figuras de linguagem, além da sugestão de imagens e do apelo auditivo. O
poeta também faz referência a diversos fatos históricos ocorridos no país, tais
como a Independência da Bahia, a Inconfidência Mineira (presente na peça O
Gonzaga ou a Revolução de Minas),

Diferentemente dos poetas da primeira geração, individualistas e preocupados


com a expressão dos próprios sentimentos, Castro Alves demonstra
preocupação com os problema sociais presentes na sua época. Demonstra
também um certo questionamento aos ideais de nacionalidade, pois, de que
adiantava louvar um país cuja economia estava baseada na exploração de sua
população (mais especificamente dos índios e dos negros)?
A visão do poeta demonstra paixão e fulgor pela vida, diferentemente dos
poetas ultrarromânticos da geração precedente.

Seus trabalhos mais importantes são:

a) poesia lírico-amorosa: a poesia lírico-amorosa está associada ao período em


que o poeta esteve envolvido com a atriz portuguesa Eugênia Câmara. Assim,
a virgem idealizada dá lugar a uma mulher de carne e osso e sensualizada. No
entanto, o poeta ainda é um jovem inocente e terno em face a sua amada
corporificada e cheia de desejo.

Seus poemas mais famosos dessa fase estão presentes em sua primeira
publicação, Espumas Flutuantes (1870), conjunto de 53 poemas que versam
sobre a transitoriedade da vida frente à morte, sobre o amor no plano espiritual
e físico, que apela para o sentimental e para o sensual e sensorial. Além disso,
o romance com a atriz portuguesa acendeu no poeta o desejo de escrever
sobre esperança e desespero.

Veja um trecho:

Boa-Noite

Boa-noite, Maria! Eu vou-me embora.

A lua nas janelas bate em cheio.

Boa-noite, Maria! É tarde... é tarde...

Não me apertes assim contra teu seio.

Boa-noite!... E tu dizes — Boa-noite.

Mas não digas assim por entre beijos...

Mas não mo digas descobrindo o peito

— Mar de amor onde vagam meus desejos.

(...)

Lambe voluptuosa os teus contornos...


Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos

Ao doudo afago de meus lábios mornos.

Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos

Treme tua alma, como a lira ao vento,

Das teclas de teu seio que harmonias,

Que escalas de suspiros, bebo atento!

Ai! Canta a cavatina do delírio,

Ri, suspira, soluça, anseia e chora...

Marion! Marion!... É noite ainda.

Que importa os raios de uma nova aurora?!...

Como um negro e sombrio firmamento,

Sobre mim desenrola teu cabelo...

E deixa-me dormir balbuciando:

— Boa-noite!, formosa Consuelo!...

Neste poema, o poeta, apaixonado, não se contenta com apenas uma amante,
e mostra envolvimento com diferentes mulheres (Maria, Marion, Consuelo...),
todas belas e sensuais, se oferecendo para que o poeta, meigo e inocente, não
vá embora.

Outro poema famoso deste conjunto é O Livro e a América, em que o poeta


incentiva a leitura e a produção literária no país:

(...)

Por isso na impaciência

Desta sede de saber,

Como as aves do deserto --


As almas buscam beber...

Oh! Bendito o que semeia

Livros... livros à mão cheia...

E manda o povo pensar!

O livro caindo n'alma

É germe -- que faz a palma,

É chuva -- que faz o mar.

(...)

b) poesia social: poeta da liberdade, Castro denuncia as desigualdades sociais


e a situação da escravidão no país, além de solidarizar-se com os negros, que
eram trazidos de modo precário dentro dos navios negreiros. Castro clamava à
natureza e às entidades divinas para que vissem a injustiça cometida pelos
homens sobre os homens e intervissem para que a viagem rumo ao Brasil
fosse interrompida.

Graças a sua obra empenhada na denúncia das condições dos negros, ficou
conhecido como "o poeta dos escravos", por solidarizar-se com a situação dos
que aqui vinham e eram submetidos a todo tipo de trabalho em condições
desumanas.

As obras mais importantes dessa fase são:

Vozes D'África: Navio Negreiro (1869)

A Cachoeira de Paulo Afonso (1876)

Os Escravos (1883)

Veja trecho de Navio Negreiro:

Canto VI

Existe um povo que a bandeira empresta


P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!...

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,

Que impudente na gávea tripudia?

Silêncio. Musa... chora, e chora tanto

Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e balança,

Estandarte que a luz do sol encerra

E as promessas divinas da esperança...

Tu que, da liberdade após a guerra,

Foste hasteado dos heróis na lança

Antes te houvessem roto na batalha,

Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!

Extingue nesta hora o brigue imundo

O trilho que Colombo abriu nas vagas,

Como um íris no pélago profundo!

Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!

Andrada! arranca esse pendão dos ares!

Colombo! fecha a porta dos teus mares!


Didivido em seis cantos, segundo a divisão clássica da epopeia:

1º canto: descrição do cenário;

2º canto: elogio aos marinheiros;

3º canto: horror - visão do navio negreiro em oposição ao belo cenário;

4º canto: descrição do navio e do sofrimento dos escravos;

5º canto: imagem do povo livre em suas terras, em oposião ao sofrimento no


navio;

6º canto: o poeta discorre sobre a África que é, ao mesmo tempo tempo, um


país livre, acaba por se beneficiar economicamente da escravidão.

O poema épico é eloquente e verborrágico. Embora o último navio negreiro que


tenha chegado ao país date de 1855, a escravidão ainda era parte do sistema
econômico brasileiro.

Sousândrade

Joaquim de Sousa Andrade (1833 - 1902), mais conhecido como Sousândrade,


nasceu e faleceu no Maranhão, porém, viveu grande parte da sua vida entre o
Brasil, a Europa e os Estados Unidos.

Autor de vasta obra, seu trabalho mais importante é fruto de suas viagens,
responsáveis pelo contato com realidades diferentes ao redor do mundo. O
aspecto que mais o diferencia dos outros poetas brasileiros é a originalidade da
sua poesia, principalmente com relação à ousadia de vocabulário com o uso de
palavras em inglês e neologismos, bem como de palavras indígenas.

Além disso, a sonoridade dos poemas também rompe com a métrica e com o
ritmo tradicionais, o que despertou a atenção da crítica literária do século XX.
Sousândrade

Seu trabalho, então esquecido, foi resgatado na década de 1960 pela crítica
literária, principalmente pelos poetas Haroldo e Augusto de Campos,
responsáveis pela análise de sua obra.

Seu poema mais famoso é o Guesa Errante, escrito entre 1858 e 1888,
composto por treze cantos e inspirado em uma lenda andina na qual um
adolescente, o Guesa, seria sacrificado em oferecimento aos deuses.

O índio, porém, consegue fugir e passa a morar em uma das maiores ruas de
Nova York, a Wall Street. Os sacerdotes que o perseguiam estão agora
transformados em capitalistas da grande cidade de Nova Iork e ainda querem o
sangue do Guesa, que vê o capitalismo consollidado como uma doença.

Dotada de pinceladas autobiográficas, o Guesa Errante denuncia o drama dos


povos indígenas à exploração dos povos europeus.

Veja um trecho do poema:

(...)

"Nos áureos tempos, nos jardins da América

Infante adoração dobrando a crença

Ante o belo sinal, nuvem ibérica

Em sua noite a envolveu ruidosa e densa.

"Cândidos Incas! Quando já campeiam


Os heróis vencedores do inocente

Índio nu; quando os templos s'incendeiam,

Já sem virgens, sem ouro reluzente,

"Sem as sombras dos reis filhos de Manco,

Viu-se... (que tinham feito? e pouco havia

A fazer-se...) num leito puro e branco

A corrupção, que os braços estendia!

"E da existência meiga, afortunada,

O róseo fio nesse albor ameno

Foi destruído. Como ensanguentada

A terra fez sorrir ao céu sereno!

Prosa no Romantismo

Segunda metade do século XIX

O desenvolvimento da prosa no período romântico coincide com o


desenvolvimento do romance como um gênero novo que, no Brasil, chegou
graças à influência dos romances europeus e do surgimento dos jornais - que
publicavam, diariamente, os folhetins, isto é, capítulos de histórias que
compunham um romance.

As primeiras manifestações no gênero estavam empenhadas na descrição dos


costumes da classe dominante na cidade do Rio de Janeiro, que agora vivia
um grande período de urbanização, e de algumas amenidades da vida no
campo. Ou então, apresentavam personagens selvagens, concebidos pela
ideologia e imaginação do período romântico como idealização do herói
nacional por excelência: o índio.
Cronologicamente, o primeiro romance romântico publicado no Brasil foi O filho
do pescador (1843), de Teixeira de Souza. Porém, como o romance apresenta
enredo confuso e foi considerado pelo público como "sentimentaloide", A
Moreninha (1844), de Joaquim Manoel Macedo, viria a ser considerado o
primeiro romance efetivamente brasileiro por receber uma maior aceitação do
público e por definir as linhas dos romance brasileiro.

A Moreninha, de Joaquim Manoel Macedo

Os principais autores do período são:

- Joaquim Manoel de Macedo

- José de Alencar

- Martins Pena (constituindo o teatro nacional)

A partir de agora estudaremos cada um deles.

Autores do Romantismo (prosa)

Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo (1820 - 1882) nasceu e faleceu na cidade do Rio


de Janeiro. Formado em medicina, exerceu a carreira por pouco tempo
dedicando-se posteriormente à vida literária e ao ensino.

É o patrono da cadeira de número vinte da Academia Brasileira de Letras. É


considerado um dos romancistas mais importantes do período por ter
inaugurado o romance romântico brasileiro, em termos de temática, estrutura e
desenvolvimento de enredo.
Este último se desenvolve da seguinte maneira, com o seguinte movimento:
descrição do ambiente, surgimento de um conflito, resolução do mistério e
restabelecimento do ambiente pacífico inicial.

Joaquim Manuel de Macedo

Seu principal romance é A Moreninha (1844), em que estão representados os


costumes da elite carioca da década de 1840, bem como suas festas e
tradições (viajar para o litoral era um costume das famílias pertencentes à
elite), e hábitos da juventude burguesa do Rio de Janeiro.

Ainda, segundo o professor Roger Rouffiax, "a fidelidade com que o romancista
descreveu os ambientes e costumes serviu como um documentário sobre a
vida urbana na capital do Império."

Outras obras do autor são O Moço Loiro (1845) e A Luneta Mágica (1869).

A Moreninha
Em uma viagem ao litoral, Augusto, Filipe e outros dois amigos, todos
estudantes de medicina, fazem uma aposta: Augusto não se apaixonaria por
nenhuma moça durante o período em que eles permaneceriam de férias no
litoral. Caso o estudante perdesse a aposta, deveria escrever um romance
contando a sua história de amor.

Na praia, mais especificamente na casa da avó de Filipe, em Paquetá, Augusto


acaba se apaixonando por Carolina, irmã de Filipe. Os dois passam a se
conhecer melhor e o jovem recorda que, quando criança, havia jurado amor a
uma menina naquela praia e cujo nome desconhecia. Recorda também que
havia dado a ela um camafeu, isto é, um broche adornado com pedras, como
símbolo do verdadeiro amor.

Carolina então revela a Augusto que possui um camafeu igual ao descrito pelo
moço, o qual havia ganhado de um menino por quem havia se apaixonado e
jurado amor quando criança.

A coincidência faz com que os dois relembrem da infância e descubram que


eram os amantes prometidos. Augusto, então, revive a paixão pela menina e
pede Carolina em casamento. Perdida a aposta, Augusto escreve um romance.
O título do livro foi dado pelo protagonista fazendo referência aos aspectos
físicos de Carolina, e seu apelido carinhoso dado pelas pessoas mais
próximas, "a moreninha".

(1) A Moreninha é um exemplo de Metalinguagem, pois é um romance


supostamente escrito por um de seus personagens. A metalinguagem é
caracterizada pela propriedade que a língua tem de falar sobre si mesma e de
mesclar o que existe na ficção com a realidade.

José de Alencar

José de Alencar (1829 - 1877) nasceu em Messejana, no Ceará, e faleceu no


Rio de Janeiro.

Advogado, jornalista e romancista, teve papel fundamental para o


desenvolvimento do romance e do pensamento intelectual no Brasil do século
XIX. É patrono número vinte e três da Academia Brasileira de Letras por
escolha de Machado de Assis.

Primeiro escritor romântico a desenvolver o romance com temas mais variados


e abrangentes do que seus sucessores. Alencar empenhou-se em retratar
diversas esferas e incluir o maior número de tipos de personagens até então
vistos na literatura brasileira.

José de Alencar

Alencar não se contentou somente com a sociedade burguesa carioca de seu


tempo mas, também, empenhou-se nos tipos brasileiros como o gaúcho e o
sertanejo. Sua intenção era de retratar um painel geral do país, de norte a sul,
além de tentar estabelecer uma linguagem brasileira.

Segundo o crítico José de Nicola em seu Literatura Brasileira: das origens aos
nossos dias (ed. Scipione, 2001), a obra de José de Alencar é um retrato de
suas condições políticas e sociais: grande proprietário de terras, político e
conservador, monarquista, nacionalista exagerado e escravocrata. O
romancista transparece essas posições em sua obra, como se pode perceber
na maneira como retrata os índios e a sexualidade feminina em seus
romances.

Obras

Os críticos costumam dividir em quatro as fases principais da produção de José


de Alencar:
a) urbana ou social: Cinco Minutos (1856), A viuvinha (1860), Lucíola (1862),
Diva (1864), A pata da gazela (1870), Sonhos d'ouro (1872), Senhora (1875),
Encarnação (1893);

b) indianista: O Guarani (1857), Iracema (1865), Ubirajara (1874);

c) histórico: As Minas de Prata (1865), Guerra dos Mascates (1873);

d) regionalista: O gaúcho (1870), O Tronco do Ipê (1871), Til (1872), O


Sertanejo (1875);

O Romantismo: século XIX

Resumo

Contexto histórico

- Revolução da Imprensa e ascenção do romance;

- Vinda da Família Real para o Brasil (em 1808);

- Independência do Brasil (em 1822).

Características

- Individualismo;

- Subjetivismo;

- Verso livre e verso branco;

- Sentimento de nacionalidade;

- Culto à natureza.

Principais autores

Poesia

1ª Geração Romântica: Nacionalista ou Indianista

- Gonçalves de Magalhães

- Gonçalves Dias
- Araújo Porto-Alegre

2ª Geração Romântica: Mal do Século

- Álvares de Azevedo

- Casimiro de Abreu

- Junqueira Freire

- Fagundes Varela

3ª Geração Romântica: Condoreira

- Castro Alves

- Sousândrade

Prosa
Referencias
https://www.soliteratura.com.br/realismo/naturalismo01.php
https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/literatura/poesia-machado-assis.htm
https://www.todamateria.com.br/impressionismo/
https://www.todamateria.com.br/manet/
https://www.todamateria.com.br/vida-e-obra-de-renoir/
https://www.soliteratura.com.br/realismo/naturalismo01.php
https://www.pensador.com/poemas_aloisio_azevedo/
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/julio_ribeiro.ht
ml
http://contodemestre.blogspot.com/2015/11/adolfo-caminha-5-poemas.html
https://www.soliteratura.com.br/parnasianismo/
https://www.soliteratura.com.br/simbolismo/
GONZAGA, Sergius. Curso de literatura brasileira.1.ed.Porto Alegre: Leitura
XXI, 2004.
OLIVEIRA, Ana Tereza Pinto de. Literatura Brasileira: teoria e prática.1.ed.São
Paulo: Rideel, 2006.
TELLES, G.M. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. 17.ed.
Petrópolis: Vozes, 1997.
https://www.soliteratura.com.br/romantismo/
GONZAGA, Sergius. Curso de literatura brasileira.1.ed.Porto Alegre: Leitura
XXI, 2004.
OLIVEIRA, Ana Tereza Pinto de. Literatura Brasileira: teoria e prática.1.ed.São
Paulo: Rideel, 2006.
TELLES, G.M. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. 17.ed.
Petrópolis: Vozes, 1997.
https://www.soliteratura.com.br/romantismo/
CÂNDIDO, Antônio. Noções de Análise Histórico-literária. São Paulo:
Associação Editorial Humanitas, 2005.
COUTINHO, Eduardo F. Mutações do comparatismo no universo latino-
americano: a questão da historiografia literária. In: SCHMIDT, Rita T. Sob o
signo do presente: intervenções comparatistas. Porto Alegre: UFRGS Editora,
2010.