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PALAVRAS 11

Teste de avaliação – 11.º ano outubro 2019

Educação Literária

Grupo I (100 pontos)

A (80 pontos)

Lê atentamente o seguinte texto e consulta as notas apresentadas.

Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao
menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem, e não falam. Uma
só cousa pudera desconsolar ao Pregador, que é serem gente os peixes, que se não
há de converter. Mas esta dor é tão ordinária que já pelo costume quase se não
5 sente. Por esta causa não falarei hoje em Céu, nem Inferno; e assim será menos
triste este Sermão, do que os meus parecem aos homens, pelos encaminhar sempre
à lembrança destes dois fins.
Vos estis sal terrae. Haveis de saber, irmãos peixes, que o sal, filho do mar
como vós, tem duas propriedades, as quais em vós mesmos se experimentam:
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conservar o são, e preservá-lo, para que se não corrompa. Estas mesmas
propriedades tinham as pregações do vosso Pregador S. António, como também
as devem ter as de todos os Pregadores. Uma é louvar o bem, outra repreender o
mal: louvar o bem para o conservar, e repreender o mal, para preservar dele. Nem
cuideis, que isto pertence só aos homens, porque também nos peixes tem seu
15 lugar. Assim o diz o grande Doutor da Igreja São Basílio: Non carpere solum,
reprehendereque possumus pisoes, sed sunt in illis, et quae prosequenda sunt
imitatione . Não só há que notar, diz o Santo, e que repreender nos peixes, senão
também que imitar, e louvar. Quando Cristo comparou a sua Igreja à rede de
pescar, Sagenae missae in mare, diz que os pescadores recolheram os peixes
20 bons, e lançaram fora os maus: Colegerunt bonos in vasa, malos autem foras
miserunt. E onde há bons, e maus, há que louvar, e que repreender. Su posto isto,
para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso Sermão em dois
pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas virtudes, no segundo repreender-vos-
ei os vossos vícios. E desta maneira satisfaremos às obrigações do sal, que me -
25 lhor vos está ouvi-las vivos, que experimentá-las depois de mortos.
Começando pois pelos vossos louvores, irmãos peixes, bem vos pudera eu
dizer, que entre todas as criaturas viventes, e sensitivas, vós fostes as primeiras
que Deus criou. ( ... )
Pe. António Vieira, Sermão de Santo António.
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1. Identifica, no excerto transcrito, a crítica e os criticados presentes no primeiro parágrafo.


2. Indica, explicitando, o referente utilizado pelo pregador para atingir os criticados.
3. O pregador apresenta neste excerto a divisão do sermão. Mostra como procedeu a essa
divisão.
4. Tendo em conta a técnica discursiva de Padre António Vieira, retira do segundo parágrafo
um exemplo de uma antítese e explicita o seu valor expressivo.

B (20 pontos)
5. Explicita, num texto de oitenta a cento e trinta palavras, exemplificando, o modo como se
concretiza, no “Sermão de Santo António (aos Peixes)", a alegoria de intuitos críticos.
OU
B (20 pontos)
Lê o seguinte texto.
5.
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Nas naus estar se deixa vagaroso,
Até ver o que o tempo lhe descobre:
Que não se fia já do cobiçoso
Regedor corrompido e pouco nobre.
Veja agora o juízo curioso
Quanto no rico, assim como no pobre,
Pode o vil interesse e sede inimiga
Do dinheiro, que a tudo nos obriga.
(…)
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Este rende munidas fortalezas,
Faz tredores e falsos os amigos:
Este a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capitães aos inimigos;
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra ou fama alguns perigos:
Este deprava às vezes as ciências,
Os juízos cegando e as consciências;
Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto VIII.

5. Identifica o tema deste momento de crítica, fundamentando a resposta com elementos


textuais.
6. Explicita a abrangência da crítica do Poeta.

Grupo II (50 pontos)


Leitura | Gramática

Nas respostas aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta.


Escreve, na folha de respostas, o número do item e a letra que identifica a opção
escolhida.
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No espetáculo Payassu, fazemos uso das tecnologias de manipulação de imagem,


promovendo a interação de figuras projetadas com o discurso de Vieira, o espaço cénico
e as ações do ator, de uma forma absolutamente orgânica. Na gestão dos recursos
narrativos, quer plásticos quer cénicos, evitámos a mera ilustração do sermão e a
5 coincidência de signos, especialmente os concorrentes com as imagens sugeridas pelo
texto, já de si muito rico e profuso. A relação entre a multimédia, o teatro e as artes
plásticas desenvolveu-se pelo processo de identificação, incorporação e fusão de
elementos expressivos, e não pela sua simples combinação sequencial.
Existe, ainda, na abordagem interpretativa do Sermão, uma questão importante: a
10 oratória funciona como discurso direto, objetivo e frontal, procurando convencer o
público, argumentando, provando, lançando reptos e propondo respostas. É um
instrumento moralizador e edificante, no intuito de corrigir/melhorar a humanidade. Esta
característica, que em Vieira ultrapassa os recursos do contador de histórias, é comum a
todos os que têm ofício de sal – políticos, professores, legisladores, religiosos – e
15 concentra a ação dramática do ator (construindo alguma dessas personagens) no
exercício da pregação, na sua profunda e intensa oralidade. Em Payassu, o parateatral
sobrepõe-se ao teatro, na perspetiva do público, que vê um pregador religioso. Mas o
teatro esconde-se na oratória, pois não temos orador, temos ator; não temos sermão,
temos teatro. Para mais, no “Sermão de Santo António (aos Peixes)”, existe outro jogo
20 de metalinguagem, que confunde e complica este juízo de frontalidade: Vieira não prega
aos homens, prega aos peixes para pregar aos homens. Um jogo de ilusão, um
malabarismo dialético, tanto barroco como contemporâneo, um caminho tão válido hoje
como ontem. Evidente é que tudo isso dificulta o trabalho do ator, que tem de percorrer
um labirinto de olhares, insinuações, alternâncias e subtilezas, oscilando entre um
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público real e um mundo aquático virtual.
Payassu, o Verbo do Pai Grande (caderno de criação do espetáculo), Teatro de Formas Animadas
de Vila do Conde (texto adaptado e com supressões).
1. De acordo com a informação do texto, o espetáculo Payassu
(A) oferece uma diversidade de recursos complementares ao discurso vieiriano.
(B) é uma representação teatral em que o ator joga apenas com o discurso de Padre António
Vieira.
(C) apresenta-se como a atualização da mensagem de Padre António Vieira.
(D) reveste-se duma plasticidade surpreendente, de forma a superar a ausência do texto
vieiriano.

2. Tanto no “Sermão de Santo António (aos Peixes)”, de Padre A. Vieira, como em Payassu
(A) a reação do público é imprescindível à atuação.
(B) há pregação religiosa pelo facto de ambos se assumirem como sermões.
(C) há um forte recurso à oralidade.
(D) assiste-se a um jogo de linguagens.

3. Os travessões no segundo parágrafo delimitam


(A) uma justificação.

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(B) uma indicção acessória.


(C) um exemplo.
(D) uma explicação.

4. No “Sermão de Santo António (aos Peixes)”, Vieira recorre a


(A) um jogo de palavras para iludir os ouvintes.
(B) uma estratégia com fim moralizador.
(C) malabarismos datados no tempo.
(D) imagens surpreendentes.

5. O segmento “a interação de figuras projetadas com o discurso de Vieira, o espaço cénico


e as ações do ator” (ll. 2-3) corresponde
(A) ao sujeito.
(B) ao modificador.
(C) ao complemento direto.
(D) ao predicativo do sujeito.

6. Classifica as orações assinaladas em cada alínea.


a) “que vê um pregador religioso” (l.17).
b) “que tudo isso dificulta o trabalho do ator” (l.23).
7. Identifica o antecedente da palavra sublinhada.
a) “no exercício da pregação, na sua profunda e intensa oralidade” (ll.15-16).
b) “Evidente é que tudo isso dificulta o trabalho do ator, que tem de procurar um
labirinto de olhares” (ll.23-24).
8. Identifica o processo de coesão assegurado no segmento” todos os que têm ofício de sal –
políticos, professores, legisladores, religiosos –” (l.14).

Grupo III (50 pontos)


Escrita
Redige um texto, com um mínimo de 180 e um máximo de 250 palavras, em que
apresentes a tua perspetiva sobre o respeito pelos direitos humanos na atualidade.

Para fundamentares o teu ponto de vista, de forma clara e pertinente, recorre a dois
argumentos, ilustrando cada um deles com um exemplo concreto e significativo.

Bom trabalho!