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SINOPSE

Eu a roubei a noite. Enjaulei-a porque não posso viver sem ela. Ela é
meu amor, meu vício, minha obsessão.

Eu farei qualquer coisa para manter Sara minha.


PARTE I
1

Peter

“Eles estão se aproximando”, diz Ilya, enquanto o zumbido das


sirenes e o rugido das hélices dos helicópteros ficam mais altos. A luz dos
carros do outro lado da estrada reflete em sua cabeça raspada, criando a
ilusão de que suas tatuagens no crânio estão dançando enquanto ele
olha no espelho retrovisor com uma expressão preocupada.

“Certo.” Ignorando a adrenalina em minhas veias, aperto meu braço


em torno de Sara, impedindo que sua cabeça escorregue do meu ombro
enquanto Ilya se aproxima de um carro mais lento. Eu esperava a
perseguição, é claro − não se rouba uma mulher protegida pelo FBI sem
consequências −, mas agora que isso está acontecendo, fico preocupado.

Meus três colegas e eu podemos cuidar de uma perseguição em alta


velocidade, mas não posso colocar Sara em perigo.

Chegando a uma decisão, digo a Ilya: “Diminua a velocidade. Deixe


que eles nos alcancem.”

Anton se contorce no banco do passageiro da frente, seu rosto


barbudo incrédulo enquanto ele agarra sua M16. “Você está louco?”

“Nós não podemos levá-los ao aeroporto”, Yan, gêmeo de Ilya,


aponta. Ele está sentado do outro lado de Sara, e deve ter percebido o meu
plano, porque já está vasculhando a grande mochila que guardamos no
banco de trás do nosso SUV.

“Você acha que o FBI sabe que a pegamos?” Anton olha para a
mulher inconsciente pressionada para o meu lado, e eu sinto um lampejo
irracional de ciúmes quando seu olhar negro percorre o rosto de Sara,
demorando mais tempo do que o necessário em seus lábios macios rosados.

“Eles sabem. Os caras que estavam seguindo eram estúpidos, mas


não completamente incompetentes”, diz Yan, endireitando-se com um
lançador de granadas nas mãos. Ao contrário de seu irmão gêmeo, ele
prefere um penteado conservador e roupas de negócios bem arrumadas −
seu disfarce de banqueiro, como Ilya o chama. Em geral, Yan parece com
alguém que não sabe como lidar com uma chave, muito menos com uma
arma, mas é um dos indivíduos mais letais que eu conheço, assim como o
resto da minha equipe.

Nossos clientes nos pagam milhões por uma razão, e isso não tem
nada a ver com nossas escolhas de moda.

“Espero que você esteja certo”, diz Ilya, apertando ainda mais o
volante enquanto olha no espelho retrovisor novamente. Dois SUVs pretos
do governo e três carros da polícia estão agora a quatro carros atrás de nós,
luzes azuis e vermelhas piscando enquanto passam os veículos mais
lentos. “A polícia americana é mole. Eles não correrão o risco de atirar se
souberem que a temos.”

“Nem vão abrir fogo no meio de uma estrada”, diz Yan, apertando um
botão para abrir a janela. ”Muitos civis ao redor.”

“Espere um momento”, digo quando ele se aproxima da janela, com o


lançador de granadas na mão. “Queremos o helicóptero o mais perto
possível acima de nós. Ilya desacelere um pouco mais e entre na faixa da
direita. Vamos pegar a próxima saída.”

Ilya faz o que eu digo, e nós mudamos para a pista mais lenta, a
nossa velocidade fica abaixo do limite estabelecido. Um Toyota Camry
cinzento passa por nós à esquerda e eu pressiono Sara mais perto de mim,
dizendo a Yan que se prepare. O barulho do helicóptero é ensurdecedor −
está pairando quase diretamente acima agora − mas eu espero.

Alguns momentos depois, eu vejo.

O sinal para a saída, chegando a uns 400 metros.

“Agora”, grito, Yan entra em ação, impulsionando a cabeça e o tronco


para fora da janela, o lançador de granadas em suas mãos.

Bomm! Parece que a mãe de todos os fogos de artifício acabou de


explodir sobre nós. Sons de freadas por toda parte, mas já estamos na
saída, Ilya sai da estrada assim que aquilo vira um inferno, carros colidindo
nas duas pistas com barulho de metal amassando quando o helicóptero
explode em uma bola de fogo.

“Pooorra”, Anton respira, olhando para a bagunça que deixamos para


trás. Com os pedaços do helicóptero caindo em chamas, um caminhão
gigante do Walmart está capotando, e nada menos do que uma dúzia de
carros já colidiram, com mais impacto na pilha a cada segundo. Os SUVs
do governo estão entre as vítimas e os policiais estão presos atrás deles. Não
há como nossos perseguidores conseguirem nos seguir agora, embora eu
não esteja feliz com os civis feridos, sei que é assim que vamos escapar.

Quando eles se reagruparem e enviarem mais policiais atrás de nós,


já teremos ido embora.

Ninguém levará Sara para longe de mim.

Ela me escolheu e ficará comigo.

Chegamos à passagem subterrânea onde deixamos nosso outro


veículo, e assim que trocamos de carro, todos respiramos um pouco mais
aliviados. Não tenho dúvida de que os agentes federais nos localizarão, mas
quando chegarem estaremos em segurança no ar.

Estamos quase no aeroporto quando Sara solta um pequeno gemido,


suas pálpebras abrindo enquanto ela se agita ao meu lado.

A droga que eu dei a ela se esgotou.

“Shhh”, eu a acalmo, beijando sua testa enquanto ela tenta se


esquivar do cobertor que a cobre do pescoço para baixo. “Você está bem,
ptichka1. Estou aqui e tudo está bem. Aqui, beba isso.” Com minha mão
livre, abro uma garrafa cheia de água e pressiono contra seus lábios,
deixando-a sugar um pouco de líquido.

“O que... onde eu estou?” Ela sussurra com voz rouca quando tiro
a garrafa, e aperto meu braço ao redor de seus ombros, impedindo-a de
desenrolar o cobertor expondo sua nudez. “O que aconteceu?”

“Nada de ruim”, asseguro-lhe, colocando a garrafa no chão, para tirar


uma mecha de cabelo do seu rosto. “Vamos somente fazer uma pequena
viagem.”

Do outro lado de Sara, Yan bufa e murmura algo em russo sobre


grandes eufemismos.

O olhar de Sara se dirige para Yan, depois por todo o carro, e eu vejo
o momento exato em que ela percebe o que está acontecendo.

1
Ptichka – passarinho em Russo.
“Por favor, me diga que você não...” Sua voz se eleva um tom. “Peter,
me diga que você não...”

“Shhh.” Virando-a completamente para mim, pressiono dois dedos


contra seus lábios macios. “Eu não podia ficar e não podia deixar você para
trás, ptichka. Você sabe disso. Vai ficar tudo bem. Nada de ruim vai
acontecer com você. Eu vou manter você segura.”

Ela olha para mim, seus olhos cor de avelã, cheios de choque e
horror, e apesar da minha certeza de que fiz a coisa certa, meu peito aperta
desagradavelmente.

Sara me avisou sobre o FBI, sabendo que eu provavelmente a levaria


comigo, mas ela certamente não esperava que fosse assim. E talvez
houvesse outro jeito, algo que eu poderia ter feito, que não envolvesse
drogá-la e roubá-la no meio da noite.

Não. Desprezando a insegurança, concentro-me no que importa:


tranquilizar Sara e fazê-la aceitar a situação.

“Ouça-me, Ptichka.” Curvo minha palma ao redor de sua mandíbula


delicada. “Eu sei que você está preocupada com seus pais, mas assim que
estivermos no ar, você pode ligar para eles e...”

“Avião? Então ainda estamos em...? Oh, graças a Deus.” Ela fecha os
olhos e sinto um tremor percorrê-la antes que ela abra os olhos para
encontrar o meu olhar. ”Peter...” Sua voz fica suave, tentando me persuadir.
“Peter, por favor. Você não precisa fazer isso. Você pode me deixar aqui. Vai
ser muito mais seguro para você... muito mais fácil fugir se eles não
estiverem procurando por mim. Você poderia simplesmente desaparecer,
e eles nunca vão te pegar, e então...”

“Eles nunca vão me pegar, de qualquer maneira.” Meu tom é cortado,


mas não posso evitar o surto de raiva quando abro minha mão. Sara teve a
chance de se livrar de mim e não aproveitou. Ao me avisar, selou seu
destino, e é tarde demais para desistir agora. Sim, eu droguei e a peguei
sem perguntar, mas ela deveria saber que não a deixaria para trás. Eu disse
o quanto a amava, e embora ela não tenha dito as palavras de volta, sei que
ela não é indiferente a mim. Talvez isso não seja precisamente o que ela
queria, mas ela me escolheu, e agora implorar para deixá-la para trás,
tentar me manipular com seus grandes olhos e sua voz doce... Dói, essa
rejeição dela, embora eu mereça.

Eu matei seu marido e forcei minha entrada na vida dela.


“Estamos aqui”, diz Anton em russo enquanto o carro desacelera, e
viro minha cabeça para ver nosso avião a cerca de vinte metros à frente.

“Peter, por favor.” Sara começa a lutar dentro do cobertor, sua voz
aumentando em volume quando o carro para completamente e meus
homens saltam para fora. ”Por favor, não faça isso. Está errado. Você sabe
que isso está errado. Minha vida inteira está aqui. Tenho minha família e
meus pacientes e meus amigos...” Ela está chorando agora, sua luta se
intensificando enquanto me inclino para agarrar suas pernas embrulhadas
no cobertor e puxá-la para fora do carro. ”Por favor, você disse que não faria
isso se eu cooperasse, e eu fiz. Fiz tudo o que você queria. Por favor, Peter,
pare! Deixe-me aqui! Por favor!”

Ela está histérica agora, torcendo-se e esbarrando nos limites do


cobertor quando saio do carro, segurando-a contra o meu peito, e Anton me
lança um olhar desconfortável enquanto ajuda os gêmeos a pegar as armas
debaixo do banco de trás. Embora meu amigo tivesse sugerido em mais de
uma ocasião que simplesmente pegasse Sara se a quisesse, a realidade deve
ser mais cruel do que ele imaginava.

Outras pessoas podem nos considerar monstros, mas


nós podemos sentir − e seria necessário um coração de aço para não sentir
algo, já que Sara continua pedindo e implorando , lutando dentro do casulo
enquanto a carrego para o avião.

“Eu sinto muito”, digo a ela quando a trago para a cabine de


passageiros e a coloco cuidadosamente em um dos assentos de couro na
frente. Sua angústia é como uma lâmina com veneno no meu lado, mas a
ideia de deixá-la para trás é ainda mais angustiante. Não posso imaginar
minha vida sem Sara, e sou implacável o suficiente − e egoísta o suficiente −
para garantir que não precisarei.

Ela pode estar pensando duas vezes sobre sua decisão, mas vai dar a
volta e aceitar a situação, assim como ela estava começando a aceitar o
nosso relacionamento. E então ela ficará feliz de novo − mais feliz
ainda. Nós vamos construir uma vida juntos, e vai ser uma que ela vai
gostar também.

Tenho que acreditar nisso, porque esta é a única maneira que eu


posso tê-la.

Essa é a única maneira de eu conhecer o amor novamente.


2

Sara

Lágrimas de pânico e amarga frustração rolam pelo meu rosto


enquanto as rodas do jato saem da pista, e as luzes do pequeno aeroporto
desaparecem na escuridão. Ao longe, vejo os aglomerados de luzes de
Chicago e seus subúrbios, mas em pouco tempo eles também desaparecem,
deixando-me com o conhecimento esmagador de que minha antiga vida se
foi.

Perdi minha família, meus amigos, minha carreira e minha liberdade.

Meu estômago ronca de náusea quando pedaços de vidro perfuram


minhas têmporas, minha dor de cabeça agravada por qualquer coisa que
Peter injetou para me derrubar. O pior de tudo, porém, é a sensação
sufocante no meu peito, a terrível sensação de que não consigo ar
suficiente. Tomo respirações profundas para combatê-la, mas ela só
piora. O cobertor é como uma camisa de força, mantendo meus braços
presos aos meus lados, e não consigo obter oxigênio suficiente em meus
pulmões.

Meu torturador cumpriu sua ameaça.

Ele me sequestrou e talvez nunca mais volte para casa.

Ele não está perto de mim agora − assim que decolamos, levantou e
desapareceu na parte de trás da cabine de passageiros, onde dois de seus
homens estão sentados − e eu estou feliz. Não suporto olhar para ele, saber
que fui estúpida o suficiente para avisá-lo quando ele já sabia de tudo.

Quando ele tinha aquela agulha pronta e estava brincando comigo.

Como ele sabia? Havia câmeras e aparelhos de escuta dentro do


vestiário do hospital onde Karen me confrontou? Ou os homens que Peter
designou para me seguir identificaram a posição do FBI e disseram a ele?
Ou talvez ele tenha algumas conexões no FBI, assim como aquele contato
dele tinha na CIA? Isso é possível? De qualquer maneira, isso não importa
agora; o ponto é que ele sabia.
Ele sabia, mas fingiu que não, para brincar com minhas emoções
enquanto esperou que eu quebrasse.

Deus, como pude ser tão idiota? Como fui avisá-lo, sabendo que algo
assim poderia acontecer? Como pude voltar para casa quando suspeitei −
não, quando soube − o que meu perseguidor provavelmente faria se
soubesse do perigo iminente? Devia ter contado tudo a Karen quando tive a
chance, deixar que ela mandasse os agentes para minha casa enquanto o
FBI me levava em custódia protetora. Sim, Peter poderia ainda ter
escapado, mas ele não teria me levado junto − não nesse ponto, pelo
menos. Eu teria mais tempo para planejar, descobrir a melhor maneira para
que meus pais e eu ficássemos em segurança. Ele provavelmente teria
retornado para mim, mas havia pelo menos uma chance que o FBI poderia
ter nos protegido.

Em vez disso, entrei direto na armadilha de Peter. Fui para casa e


deixei-o mentir para mim. Deixe que me enganasse e acreditei que havia
algo humano − algo bom − dentro dele. “Eu te amo”, ele disse, e me
apaixonei por isso, comprando a ilusão de que tínhamos algo genuíno, que
sua ternura significava que realmente se importava comigo.

Deixei meu apego irracional ao assassino do meu marido me cegar


para a realidade do que ele é, e perdi tudo.

A tensão no meu peito cresce meus pulmões se contraem até que


cada respiração é uma luta. Raiva e desespero se misturam, me fazendo
querer gritar, mas tudo o que posso fazer é um chiado dolorido, o cobertor
em volta do meu corpo é tão sufocante quanto um laço no meu
pescoço. Estou muito quente, muito amarrada; minha cabeça está latejando
e meu coração batendo rápido demais. Sinto como se estivesse sufocando,
morrendo, quero agarrar minha garganta e rasgá-la para que possa
respirar.

“Pronto, está tudo bem.” Peter está agachado na minha frente,


embora não o tenha visto retornar. Suas mãos fortes estão soltando o
cobertor, alisando meu cabelo para trás do meu rosto molhado de suor.
Estou tremendo e ofegante, no meio de um ataque de pânico, e seu toque é
estranhamente reconfortante, retirando o pior da sensação sufocante.

“Respire Ptichka”, ele insiste, e eu faço meus pulmões o obedecendo,


do jeito que eles se recusam a me obedecer. Meu peito se expande com uma
respiração completa, depois outra, e então estou respirando quase
normalmente, minha garganta se abre para deixar entrar o oxigênio
precioso. Ainda estou suando, ainda tremendo, mas meu pulso está
diminuindo, o medo de sufocar desaparecendo enquanto Peter libera meus
braços do cobertor e me entrega a camiseta preta de um homem.

“Sinto muito. Não tive chance de pegar nenhuma de suas roupas”, ele
diz, ajudando a colocar uma enorme camiseta por cima da minha cabeça.
“Felizmente, Anton escondeu uma muda de roupa. Aqui, você pode colocar
essas calças também.” Ele guia meus pés trêmulos em um jeans preto
masculino, me ajuda a colocar uma meia preta e remove o cobertor
completamente, jogando-o na mesa ao nosso lado.

Como a camiseta, o jeans fica enorme em mim, mas há um cinto


dentro dos laços, e Peter aperta-o em torno dos meus quadris, amarrando
na frente como uma gravata antes de enrolar as pernas da calça.

“Pronto”, diz ele, olhando sua obra com satisfação. “Isso deve ser
suficiente para o voo, e então vou te dar um guarda-roupa novo.”

Fecho meus olhos, ignorando-o. Não suporto olhar para suas feições
exóticas e bonitas, não posso tolerar a ternura daqueles olhos cinzentos
como o aço. É tudo uma mentira, uma ilusão. Ele não se importa comigo,
não realmente. Obsessão não é amor, e é isso que ele sente por mim: uma
obsessão terrível e sombria que só destrói.

Isso já destruiu minha vida de muitas maneiras.

Ouço suspirar antes de suas grandes mãos envolverem minhas


palmas frias.

“Sara...” Sua voz profunda e suavemente acentuada parece uma


carícia sobre a minha pele. ”Nós vamos fazer isso funcionar, Ptichka, eu
prometo. Não será tão ruim quanto você está imaginando. Agora me diga...
você quer ligar para seus pais, explicar tudo para eles?”

Meus pais? Surpreendida, abro os olhos e fico boquiaberta para


ele. Então percebo que ele mencionou isso antes, só que não registrei. “Você
vai me deixar ligar para meus pais?”

Meu captor assente, um pequeno sorriso curvando seus lábios


esculpidos enquanto ele permanece agachado na minha frente, suas mãos
gentilmente apertando as minhas. “Claro. Sei que você não quer que eles se
preocupem, com o coração do seu pai e tudo mais.”

Oh Deus. O coração do meu pai. Minha dor de cabeça se intensifica


no lembrete. Aos oitenta e sete anos, meu pai é notavelmente saudável para
a sua idade, mas fez uma cirurgia de bypass tríplice há alguns anos e
precisa evitar o estresse. E não posso imaginar nada mais estressante do
que isso. “Você acha que o FBI já falou com eles?” Suspiro em horror
repentino. “Eles disseram aos meus pais que fui sequestrada?”

“Eu duvido que eles tiveram tempo.” Peter aperta minhas mãos
tranquilizadoramente, então as libera e se levanta. Enfiando a mão no
bolso, ele pega um smartphone e entrega para mim. “Ligue para eles, então
você pode dar a eles a sua versão da história primeiro.”

“Minha versão da história? E qual versão é essa?” O telefone parece


um tijolo na minha mão, o peso ampliado pelo conhecimento de que, se eu
disser a coisa errada, poderia literalmente matar meu pai. “O que eu posso
dizer a eles que vai fazer isso de alguma forma ficar bem?”

Meu tom é cáustico, mas minha pergunta é genuína. Não posso


imaginar o que posso dizer para diminuir o pânico dos meus pais com
relação ao meu desaparecimento, como posso explicar o que o FBI está
prestes a lhes dizer − especialmente porque não sei quanto os agentes vão
revelar.

O avião escolhe aquele momento para bater em um bolsão de


turbulência, e Peter se senta ao meu lado. “Diga a eles que você conheceu
um homem... um homem por quem você se apaixonou.” Ele cobre meu
joelho com sua palma quente, seu olhar metálico hipnotizante em sua
intensidade. “Diga a eles que pela primeira vez em sua vida, você decidiu
fazer algo louco e irresponsável. Que você está bem, mas nas próximas
semanas, viajará pelo mundo com seu amante.”

“As próximas semanas?” Uma esperança selvagem floresce dentro de


mim. “Você está dizendo que...”

“Não. Você não voltará em algumas semanas. Mas eles não precisam
saber disso ainda.”

A esperança murcha e morre o desespero esmagador


voltando. “Nunca vou vê-los novamente, vou?”

“Você vai.” Sua mão aperta meu joelho. “Em algum momento, quando
for seguro.”

“E quando será isso?”

“Não sei, mas nós vamos descobrir.”


“Nós?” Uma risada amarga escapa da minha garganta. “Você tem a
impressão de que isso é algum tipo de parceria? Que nos sequestraram
juntos?”

O olhar de Peter endurece. “Pode ser uma parceria, Sara. Se você


quiser que seja.”

“Oh, realmente?” Empurro sua mão do meu joelho. “Então vire este
maldito avião de volta, parceiro. Quero ir para casa.”

“Isso é impossível, e você sabe disso.” Sua mandíbula escurecida pela


barba curta flexiona.

“É mesmo? Por quê? Porque você gosta de me transar comigo? Ou


porque você me ama, porra?” Minha voz se eleva quando pulo ficando em
pé, as mãos fechadas ao meu lado. Posso ver seus homens nos assentos
atrás de nós, seus rostos de pedra enquanto olham pela janela,
fingindo não ouvir, mas eu não me importo. Eu já passei vergonha,
vergonha no passado; e tudo que sinto é raiva.

Nunca quis ferir uma pessoa, como quanto quero machucar Peter
neste momento.

O olhar de meu torturador é sombrio, sua expressão dura, enquanto


ele levanta. “Sente-se, Sara”, diz ele duramente, alcançando-me quando o
avião sacode novamente e agarro a parede da janela para me
equilibrar. “Não é seguro.” Ele pega meu braço para me forçar a voltar para
o assento, e minha outra mão age por conta própria.

Com o telefone ainda em minhas mãos, dou-lhe um soco e não sinto,


porque naquele momento o avião mergulha de novo, desequilibrando-
nos. Com um baque audível, o telefone bate no rosto de Peter, o impacto do
golpe atingindo seus ossos e estalando a cabeça para o lado.

Não sei quem está mais chocado que consegui dar um golpe, eu ou os
homens de Peter.

Posso ver seus olhares incrédulos enquanto Peter lentamente, e


muito deliberadamente, libera meu braço e limpa o sangue escorrendo pela
sua bochecha. A capa de metal do telefone deve ter cortado sua pele; isso,
ou a turbulência inesperada deu impulso ao meu golpe, intensificando a
força por trás dele.

Seus olhos encontram os meus, e meu coração pula na minha


garganta com a raiva gelada brilhando nas profundezas prateadas. Com
cautela, recuo, o telefone escorregando dos meus dedos dormentes para
bater no chão com um ruído metálico.

Não esqueci o que Peter é capaz, o que ele fez comigo quando nos
conhecemos.

Só posso dar dois passos antes de minhas costas pressionarem


contra a parede da cabine do piloto, me fazendo parar. Não tenho para onde
correr neste avião, nenhum lugar para me esconder, e o medo aperta meu
estômago quando ele se aproxima seu olhar furioso segurando o meu,
enquanto ele segura as palmas das mãos na parede de ambos os lados de
mim, enjaulando-me entre seus braços musculosos.

“Eu...” Deveria dizer que sinto muito, que não quis fazer aquilo, mas
não posso mentir então aperto meus lábios antes que possa piorar dizendo
a ele o quanto o odeio.

“Você o quê?” Sua voz é baixa e dura. Inclinando-se, ele inclina a


cabeça até seus lábios pousam no topo da minha orelha. “Você o que,
Sara?”

Tremo com o calor úmido de sua respiração, meus joelhos ficando


fracos e meu pulso acelerando ainda mais. Só que desta vez, não é
inteiramente de medo. Apesar de tudo, sua proximidade causa estragos em
meus sentidos, meu corpo estremecendo em antecipação ao seu
toque. Apenas algumas horas atrás, ele estava dentro de mim, e ainda sinto
as consequências de sua posse, a dor interior do ritmo duro de seus
impulsos. Ao mesmo tempo, estou dolorosamente ciente dos meus mamilos
endurecidos cutucando através da camiseta emprestada e do calor quente
que se acumula entre minhas pernas.

Mesmo vestida, sinto-me nua em seus braços.

Ele levanta a cabeça, olhando para mim, e sei que ele também sente o
calor magnético, a conexão escura que vibra o ar ao nosso redor,
intensificando cada momento até que milissegundos parecem horas. Os
homens de Peter estão a menos de três metros de distância, observando-
nos, mas parece que estamos sozinhos, envoltos em uma bolha de
necessidade sensual e tensão instável. Minha boca está seca, meu corpo
pulsando com consciência, e é tudo que posso fazer para não balançar na
direção dele, ficar imóvel em vez de pressioná-lo e ceder ao desejo que me
queima por dentro.
“Ptichka...” A voz de Peter suaviza, assumindo uma íntima vantagem
quando o gelo em seu olhar se derrete. Sua mão deixa a parede para o meu
rosto, o toque áspero de seu polegar acariciando meus lábios e fazendo
minha respiração parar na minha garganta. Ao mesmo tempo, sua outra
mão aperta meu cotovelo, seu aperto suave, mas inescapável. ”Venha,
vamos sentar”, ele pede, puxando-me para longe da parede. “Não é seguro
estar em pé assim.”

Atordoada, deixo me levar de volta ao assento. Sei que devo continuar


lutando, ou pelo menos colocar alguma resistência, mas a raiva que me
encheu desapareceu, deixando dormência e desespero em seu rastro.

Mesmo depois do que ele fez, anseio por ele. O quero tanto quanto o
odeio.

Meus pés mesmo de meias estão gelados de andar no chão frio, e fico
grata quando Peter pega o cobertor da mesa e o coloca ao redor das minhas
pernas antes de se sentar ao meu lado. Ele puxa o cinto de segurança em
cima de mim, afivelando-me, e fecho meus olhos, não querendo ver o calor
que agora enche seu olhar. Por mais assustador que seja o lado mais
sombrio de Peter, o homem que está fazendo isso − o amante terno e
carinhoso − é quem mais me apavora.

Posso resistir ao monstro, mas o homem é uma história diferente.

Dedos quentes roçam minha mão e metal frio pressiona minha


palma. Assustada, abro os olhos e olho para o telefone que Peter acabou de
me entregar.

Ele deve ter pegado de onde deixei cair.

“Se você quiser ligar para seus pais, talvez queira fazê-lo agora”, diz
suavemente. ”Antes que eles ouçam qualquer coisa por conta própria.”

Engulo, olhando para o telefone na minha mão. Peter está certo; Não
há tempo a perder. Não sei o que vou dizer aos meus pais, mas qualquer
coisa é melhor do que os agentes do FBI provavelmente dirão.

“Como eu ligo?” Olho para Peter. “Existe algum código especial ou


qualquer coisa que precise usar?”

“Não. Todas as minhas chamadas são automaticamente


codificadas. Basta colocar o número deles como de costume.”

Respiro fundo e disco o número da minha mãe. Ela é mais propensa


a entrar em pânico ao receber uma ligação no meio da noite, mas é nove
anos mais nova que o meu pai e não tem problemas cardíacos
conhecidos. Segurando o telefone no meu ouvido, me afasto de Peter e olho
o céu noturno pela janela enquanto espero a ligação.

Ele toca uma dúzia de vezes antes de ir para o correio de voz.

Mamãe deve estar dormindo profundamente para ouvi-lo, ou então o


telefone fica desligado durante a noite.

Frustrada, tento de novo.

“Olá?” A voz de mamãe está sonolenta e descontente. ”Quem é?”

Exalo de alívio. Não parece que o FBI chegou até eles ainda; se
tivessem mamãe não estaria dormindo tão profundamente.

“Oi mãe. Sou eu, Sara.”

“Sara?” Mamãe instantaneamente soa mais alerta. “O que há de


errado? De onde você está ligando? Aconteceu alguma coisa?”

“Não, não. Está tudo bem. Estou perfeitamente bem.” Eu respiro,


minha mente correndo enquanto tento inventar a história menos
preocupante. Algum momento em breve, o FBI entrará em contato com
meus pais e minha história será exposta por uma mentira. No entanto, o
próprio fato de eu ter ligado e contado tal história deveria tranquilizar meus
pais de que, no momento da ligação, pelo menos, estava viva e bem,
diminuindo o impacto de qualquer coisa que os agentes lhes dissessem.

Firmando minha voz, digo: “Desculpe ligar tão tarde, mãe, mas estou
indo em uma viagem de última hora, e queria que você soubesse, e não se
preocupasse.”

“Uma viagem?” Mamãe parece confusa. ”Onde? Por quê?”

“Bem...” hesito e então decido ir com a sugestão de Peter. Dessa


forma, quando meus pais souberem do sequestro, eles podem pensar que
fui com Peter por vontade própria. O que o FBI vai pensar é outra questão,
mas vou guardar essa preocupação para outro dia. “Eu conheci alguém. Um
homem.”

“Um homem?”

“Sim, tenho visto ele há algumas semanas. Não queria dizer


nada porque não sabia muito sobre ele, e não tinha certeza do quão sério
era.” Posso sentir que mamãe está prestes a entrar em um interrogatório,
então rapidamente digo: “De qualquer forma, ele teve que sair do país
inesperadamente, e me convidou para ir junto. Sei que é completamente
louco, mas eu precisava fugir − você sabe de tudo − e isso parecia uma
oportunidade tão boa quanto qualquer outra. Vamos viajar pelo mundo
juntos por algumas semanas, então...”

“O quê?” A voz de mamãe se eleva em tom. ”Sara, isso é...”

“Insano? Eu sei.” Faço uma careta, grata por ela não poder ver minha
expressão de dor. Entre mentir para ela e a dor de cabeça continuada,
sinto-me uma merda absoluta. “Me desculpe mamãe. Não queria que você
se preocupasse, mas é algo que eu tinha que fazer. Espero que você e papai
entendam.”

“Espere um minuto. Quem é esse homem? Qual é o nome dele? O que


ele faz? Onde você conheceu?” Ela dispara cada pergunta como uma bala.

Viro-me para olhar para Peter, e ele me dá um pequeno aceno de


cabeça, seu rosto impassível. Não sei se ele consegue ouvir minha conversa,
mas interpreto esse aceno para dizer que posso contar aos meus pais mais
alguns detalhes.

“O nome dele é Peter”, digo, decidindo ficar o mais perto possível da


verdade. “Ele é um empreiteiro, trabalha principalmente no exterior. Nós
nos conhecemos quando ele estava na região de Chicago, e estamos nos
vendo desde então. Eu queria falar sobre ele no nosso almoço de sushi, mas
não parecia o momento certo.”

“Ok, mas… mas e o seu trabalho? E a clínica?”

Aperto a ponte do meu nariz. “Eu vou resolver tudo, não se


preocupe.” Não vou, é claro − esse tipo de besteira não vai desaparecer com
a minha prática no hospital, mesmo que Peter me deixe chamá-los, mas não
posso dizer a minha mãe sem fazer com que se preocupe
prematuramente. Ela vai ter um ataque de pânico em breve, quando os
agentes aparecerem em sua porta. Até então, ela e papai poderiam pensar
que fiquei louca.

Uma filha agindo tardiamente é infinitamente melhor do que uma


filha raptada pelo assassino do marido.

“Sara querida...” Mamãe parecia preocupada


independentemente. “Você tem certeza disso? Quer dizer, você mesmo disse
que não sabe muito sobre esse homem e agora está deixando o país com
ele? Isto não soa como você. Nem me disse para onde está indo. Está
voando ou dirigindo? E de quem é esse número você está ligando? Está
aparecendo como bloqueado, e a recepção é toda estranha, como se você
estivesse...”

“Mãe.” Esfrego minha testa, minha dor de cabeça piorando. Não


posso responder mais a suas perguntas, então digo: “Escute, tenho que
ir. Nosso avião está prestes a decolar. Eu só queria te dar uma atualização
rápida para você não se preocupar, ok? Vou ligar de novo assim que puder.”

“Mas, Sara...”

“Tchau mãe. Falo com você em breve!”

Desligo antes que ela possa dizer qualquer outra coisa, e Peter pega o
telefone de mim, sua boca curvada em um sorriso de aprovação.

“Bom trabalho. Você tem um talento real para isso.”

“Por mentir para meus pais sobre ser sequestrada? Sim, um


verdadeiro talento, com certeza.” A amargura escorre das minhas palavras,
e não me incomodo em diminuir isso. Estou farta de ser agradável.

Nós não estamos mais jogando esse jogo.

Peter não parece incomodado. “Você disse a eles algo que vai
amenizar o pior de sua preocupação. Não sei o quanto os agentes federais
vão revelar, mas isso deve tranquilizar seus pais que você está viva e bem a
partir de hoje. Espero que seja suficiente até que você entre em contato
novamente.”

Esse foi o meu modo de pensamento também, e me incomoda que


estamos na mesma sintonia. É uma coisa pequena, raciocinar de forma
semelhante nesse momento, mas parece uma ladeira escorregadia, como
um passo em direção àquela parceria que Peter mencionou. Em direção à
ilusão de que existe um ‘nós’, que nosso relacionamento é de alguma forma
genuíno.

Não posso, não vou cair nessa mentira novamente. Não sou parceira
de Peter, sua namorada ou sua amante.

Sou cativa dele, a viúva de um homem que ele matou para vingar sua
família, e não posso esquecer esse fato.

Lutando para manter a minha voz ainda, pergunto: “Então, vou ter a
chance de contatá-los novamente?” Na afirmação de Peter, eu pressiono:
“Quando?”
Seus olhos cinzentos brilham. ”Uma vez que eles conversarem com o
FBI e tiverem a chance de digerir tudo. Então, em outras palavras, em
breve.”

“Como você vai saber se eles ouvem de...? Oh, não importa. Você está
vigiando meus pais também, não é?”

“Sim, estou monitorando a casa deles.” Ele não parece nem um pouco
envergonhado. “Então, vamos saber o que os agentes dizem e
quando. Então vamos descobrir o que você deve dizer e como contatá-los
novamente.”

Pressiono meus lábios. Há aquele ‘nós’ insidioso de novo. Como se


fosse um projeto conjunto, como decoração de interiores ou escolha de uma
garrafa de vinho para uma reunião de família. Ele espera que seja grata por
isso? Que agradeça por ser tão simpático e atencioso com a logística do
meu sequestro?

Será que ele acha que, se me permitir aliviar a preocupação dos meus
pais, esquecerei que ele roubou minha vida?

Rangendo os dentes, me viro para olhar pela janela, depois percebo


que ainda não sei a resposta para uma das perguntas da minha mãe.

Voltando-me para encarar meu sequestrador, encontro seu olhar


divertido. “Onde estamos indo?” Pergunto, obrigando-me a falar com
calma. “De onde exatamente vamos descobrir tudo isso?”

Peter sorri, revelando dentes brancos que estão ligeiramente tortos no


fundo. Entre isso e a pequena cicatriz no lábio inferior, seu sorriso deveria
ter sido desanimador, mas as imperfeições só destacam seu apelo
perigosamente sensual.

“Nós vamos descobrir isso do Japão, Ptichka”, ele fala e pega a minha
mão sobre a mesa. “A Terra do Sol Nascente é a nossa nova casa.”
3

Sara

Não falo com Peter pelo resto do voo. Em vez disso, desmaio, meu
cérebro se desliga para fugir da realidade. Sou grata por isso. A dor de
cabeça é implacável, há tambores batendo dentro do meu crânio toda vez
que tento abrir meus olhos, e é só quando começamos nossa descida que
acordo o suficiente para me arrastar para o banheiro.

Quando volto, encontro Peter no banco ao lado do meu, trabalhando


em um laptop. Acho que ele pode ter estado lá durante todo o voo, mas não
tenho certeza. Me lembro de adormecer enquanto ele segurava minha mão,
seus dedos fortes massageando minha palma, e me lembro dele colocando o
cobertor em volta de mim em algum momento, quando a cabine ficou mais
fria.

“Como você está se sentindo?”, Ele pergunta, olhando por cima do


laptop, enquanto passo ao redor dele e sento no meu assento de couro
macio. Agora que o choque inicial do rapto passou, percebo que o jato é
bastante luxuoso, embora não muito grande. Na parte de trás do avião, há
mais duas fileiras de assentos além do nosso, cada um deles grande e
reclinado, e no meio há um sofá de couro bege com duas mesas
de apoio presas a ele.

“Sara”, Peter diz quando não respondo, e dou de ombros em resposta,


não fornecendo nada para acalmar sua consciência, admitindo que me sinto
melhor depois do meu longo cochilo. Os efeitos da droga devem ter
desaparecido completamente, porque a náusea e a dor de cabeça que me
atormentaram desapareceram.

Estou com fome e sede, porém, assim que pego uma garrafa de água e
a tigela de amendoins que está na pequena mesa entre nossos lugares.
“Nós vamos ter uma refeição de verdade em breve”, diz Peter,
empurrando a tigela para mim. “Não estávamos esperando deixar o país tão
de repente, e isso é tudo que tínhamos a bordo.”

“Uh-huh.” Não sustentando seus olhos, engulo metade da garrafa de


água, como um punhado de amendoins, e lavo-as com o resto da água. Não
me surpreende ouvir falar da falta de comida no avião; a maravilha é que
ele tinha um avião em espera, ponto final. Sei que ele e sua equipe recebem
quantias ridículas de dinheiro para assassinar os senhores do crime e tal,
mas o custo deste jato de tamanho médio deve estar em oito dígitos.

Incapaz de conter minha curiosidade olho para o meu captor. “Isso é


seu?” Aceno uma mão para indicar o nosso entorno. “Você comprou?”

“Não.” Ele fecha o laptop e sorri. “Recebi como pagamento de um dos


nossos clientes.”

“Sei.” Olho para longe, focando no céu escuro do lado de fora da


janela, em vez daquele sorriso magnético. Agora que estou me sentindo
melhor, estou ainda mais amargamente ciente do que Peter fez e da minha
situação.

Se estivesse à mercê do meu torturador em casa, onde temia o que


poderia acontecer se fosse às autoridades, agora estou perdida. Peter
Sokolov pode fazer qualquer coisa comigo, manter-me em cativeiro até eu
morrer se ele estiver inclinado. Seus homens não vão me ajudar, e estou
prestes a entrar em um país onde não falo a língua e não conheço nada
nem ninguém.

Amo sushi, mas é até onde minha familiaridade com o Japão se


estende.

“Sara?” A voz profunda de Peter corta meus pensamentos, e


instintivamente me viro para olhar para ele.

“Coloque o cinto.” Ele acena em direção ao cinto de segurança deitado


desabotoado ao meu lado. ”Nós pousaremos em breve.”

Puxo o cinto de segurança sobre o meu colo antes de voltar minha


atenção para a janela. Não posso ver muito na escuridão − nós devemos ter
voado o suficiente para que seja noite no Japão apesar da diferença de
tempo − mantenho meus olhos no céu lá fora, tanto na esperança de ver
algo, quanto me manter longe para evitar conversar com Peter.
Não vou agir como realmente fazem os amantes quando viajam,
fingindo que estou bem com isso de qualquer forma. A influência que ele
tinha sobre mim − sua ameaça de me roubar se não jogasse junto com sua
fantasia de felicidade doméstica − se foi, e eu não tenho nenhuma intenção
de ser sua vítima complacente novamente. Eu estava começando a ceder, a
cair sob seu feitiço retorcido, mas agora tudo acabou. Peter Sokolov me
torturou e matou meu marido, e agora ele me sequestrou. Não há nada
entre nós, exceto um passado fodido e um futuro ainda mais fodido.

Ele pode me ter, mas não vai gostar disso.

Vou me certificar disso.


4

Peter

Minha bochecha ainda estava dolorida do golpe que Sara me deu


quando aterrissamos em um aeroporto particular, perto de Matsumoto e
nos mudamos para o helicóptero que esperava por nós. Terei um olho roxo
amanhã, uma ideia que acho divertida agora que o choque inicial da raiva
já passou. A dor que Sara infligiu é pequena − eu sofri muito mais no
treinamento de rotina −, mas o inesperado ataque da minha linda médica é
o que me afetou.

Era como estar sendo arranhado por um gatinho, que você só quer
abraçar e proteger.

Ela ainda está com raiva de mim. É óbvio em sua postura rígida, na
maneira como ela não fala comigo ou sequer olha para mim quando o
helicóptero decola. Embora ainda esteja escuro, vejo-a olhando para as
vistas abaixo, e sei que ela está tentando memorizar para onde estamos
indo.

Ela tentará escapar na primeira oportunidade, eu posso dizer.

Anton pilota o helicóptero, e Ilya senta atrás comigo e Sara enquanto


Yan está na frente. Não estamos esperando nenhum problema, mas
estamos armados, então fico de olho em Sara para ter certeza de que ela
não faça nada tolo, como tentar pegar uma arma de mim ou de Ilya.

Dado o humor que ela está não colocaria nada em sua frente.

Nossa casa Japonesa que é segura está localizada na montanhosa


província de Nagano, povoado escassamente, em um topo de uma
montanha íngreme e densamente arborizada, com vista para um pequeno
lago. Em um dia claro, a vista é de tirar o fôlego, mas a principal razão pela
qual eu adquiri a propriedade é que essa montanha particular só é acessível
por via aérea. Havia uma estrada de terra na encosta oeste, foi assim que
um rico empresário de Tóquio construiu sua casa de verão lá nos anos 90,
mas um deslizamento causado por um terremoto transformou a encosta em
um penhasco, cortando todo o acesso à propriedade. E destruindo seu
valor.

Os filhos do empresário ficaram muito gratos quando uma de


minhas empresas-fantasmas comprou a casa no ano passado, poupando-os
do ônus de pagar impostos em um lugar que não queriam e nem tinham
meios para visitar regularmente.

“Então, por que o Japão?”

O tom de Sara é calmo e desinteressado enquanto ela olha pela janela


do helicóptero, mas sei que ela deve estar morrendo de curiosidade para
quebrar o silêncio de uma hora e realmente falar comigo.

É isso, ou ela está pescando informações que poderiam ajudá-la a


fugir.

“Porque este é o último lugar que alguém pensaria em procurar por


nós”, respondo, imaginando que não há mal em dizer a verdade. ”Nada me
liga com esse país. Rússia, Europa, Oriente Médio, África, Américas,
Tailândia, Hong Kong, Filipinas − em um momento ou outro, eu entrei no
radar das autoridades em todos esses lugares, mas nunca aqui.”

“Além disso, é um agradável esconderijo”, diz Ilya em inglês, falando


com Sara pela primeira vez. “Muito melhor do que se esconder em alguma
caverna no Daguestão ou suar nossas bolas na Índia.”

Sara lhe dá um olhar indecifrável, depois volta à atenção para a vista


lá fora. Não a culpo. O céu está clareando com os primeiros sinais do
amanhecer, e é possível distinguir as encostas das montanhas e as florestas
abaixo. Quando chegarmos ao nosso retiro no topo da montanha, ela terá o
impacto total da visão e perceberá que pode desistir da esperança de
escapar. Porque essa é outra razão para minha escolha do Japão: A
localização remota desta casa específica.

A nova gaiola do meu passarinho será bonita e impossível de fugir.

Nós pousamos quarenta minutos depois em um pequeno heliporto ao


lado da casa, e vejo o rosto de Sara enquanto ela observa a nossa nova
casa, uma construção moderna de madeira e vidro que se mistura
perfeitamente com a natureza intocada em torno dela.
“Você gosta?” Pergunto, pegando o olhar dela enquanto a ajudo a sair
do helicóptero, e ela olha para longe, puxando a mão para fora do meu
alcance assim que seus pés vestidos de meias são plantados no chão.

“Isso importa? Se eu dissesse não, você me levaria de volta?” Ela se


vira e começa a andar em direção à borda do heliporto, onde a encosta da
montanha forma um desfiladeiro que desce até o lago abaixo.

“Não, mas se você odeia isso aqui, podemos considerar algumas das
nossas outras casas seguras.” Seguindo ela, pego seu pulso antes que ela
chegue à borda do bloco. Não acho que ela está chateada o suficiente para
pular de um penhasco, mas não vou arriscar.

“Onde? No Daguestão ou na Índia”? Ela finalmente olha para mim, os


olhos apertados. Embora seja o final da primavera, é frio de inverno a essa
altitude, o vento frio da manhã chicoteando suas ondas castanhas ao redor
do rosto e moldando a camiseta preta solta contra o torso delgado. Eu posso
senti-la tremendo, seu pulso fino e frágil ao meu alcance, mas
sua mandíbula delicada é definida em uma linha teimosa enquanto ela
segura meu olhar.

Ela é tão vulnerável, minha Sara, mas tão forte também. Uma
sobrevivente, como eu, embora ela provavelmente não apreciasse a
comparação.

“O Daguestão e a Índia são duas das possibilidades, sim”, digo,


deixando-a ouvir a diversão na minha voz. Ela está tentando me
antagonizar, fazer com que me arrependa de trazê-la comigo, mas nenhum
sarcasmo ou tratamento silencioso fará isso.

Eu preciso de Sara como preciso de ar e água, e nunca vou me


arrepender de tê-la mantido.

Sua boca macia comprime e ela torce o braço, tentando quebrar meu
aperto em seu pulso. ”Deixe-me ir”, ela sussurra quando não a liberto
imediatamente. “Tire a porra de sua mão de mim...”

Apesar da minha vontade de não ser afetado, uma pontada de raiva


me atinge. Sara me escolheu não exatamente isso, e não estou disposto a
aceitar que ela me trate como um leproso.

Em vez de soltar seu pulso, aperto mais e a puxo para mim, longe da
borda do heliporto. Quando ela está suficientemente longe da queda, me
inclino e a pego, ignorando seu grito de protesto assustado.
“Não”, digo severamente, pressionando-a contra o meu peito. “Eu não
vou deixar você ir.”

E ignorando suas tentativas de sair do meu abraço, carrego a mulher


que amo para nosso novo lar.
5

Sara

Peter não me solta até que estejamos dentro de casa, e mesmo assim,
quando ele me coloca de pé, mantém seus dedos de aço em volta do meu
pulso, me acorrentando ao seu lado enquanto olho minha linda nova
prisão.

E isso é lindo. Mesmo com a raiva e a frustração sufocando-me por


dentro, posso apreciar as linhas limpas e modernas da planta aberta e as
belas vistas de cartão postal das montanhas e do lago visíveis através das
enormes janelas do chão ao teto. No meio do espaço, ao lado de uma
cozinha ultramoderna, um conjunto de espirais de madeira no estilo de
tábuas no segundo andar, e é lá que Peter me conduz, com a mão ainda
possessivamente segurando meu pulso.

“Um empresário japonês construiu isto vinte anos atrás, mas a


reformei quando a comprei no ano passado”, diz Peter enquanto subimos as
escadas. “Não sabia que viríamos aqui tão cedo, mas achei que seria melhor
estar pronto.”

Não respondo, porque se eu tentar falar posso quebrar e


chorar. Neste exato momento, o FBI poderia estar dizendo aos meus pais
sobre o meu desaparecimento, e sem dúvida tenho dezenas de ligações e
mensagens perdidas do meu trabalho, bem como a clínica onde sou
voluntária. Uma das minhas pacientes deve entrar em trabalho de parto
esta semana e tenho uma cesariana marcada para amanhã. Ou é hoje? É
de manhã cedo no Japão; isso significa que é noite em casa? Não sei qual é
a diferença de tempo, mas não consigo imaginar que seja menos de dez
horas. Se assim for, já devo ter perdido um dia inteiro e as pessoas estão
me procurando. Talvez até checando com meus pais para descobrir onde
estou e porque não estou respondendo a nenhuma de suas ligações ou
mensagens.

Meus pobres pais devem estar doentes de preocupação.


“Posso ligar para eles?” Pergunto enquanto Peter me leva a um quarto
espaçoso. Uma das paredes é feita inteiramente de vidro, revelando uma
vista de tirar o fôlego das montanhas cobertas de neve ao longe e o lago se
espalhando abaixo. Ou pelo menos a vista seria de tirar o fôlego se eu
pudesse me concentrar nela, em vez do nó sufocante na garganta.

Por favor, deixe meu pai ficar bem.

“Ainda não”, diz Peter, sua expressão suavizando quando ele libera
meu pulso. Se não soubesse melhor, acho que ele compartilha da minha
preocupação com meus pais. ”Precisamos rever as imagens da câmera para
ver o que está acontecendo e, em seguida, encontrar uma maneira de
alcançar sua família sem alertar ninguém sobre o nosso paradeiro.”

Engulo e me afasto antes que ele possa ver as lágrimas enchendo


meus olhos. Isso é tudo minha culpa. Se não tivesse voltado para casa, se
tivesse confiado em Karen naquele vestiário, tudo teria sido diferente. Sim,
meus pais e eu teríamos que entrar em custódia protetora e, provavelmente,
nos mudar, mas isso ainda seria preferível a esse pesadelo. Não sei o que
estava pensando quando voltei para casa do hospital ontem à
noite. Imaginei que, se aparecesse em casa normalmente, Peter não saberia
que o FBI tinha falado comigo? Que os agentes federais poderiam não
perceber que o homem que eles estão caçando tinha vivido comigo e
continuaríamos como antes?

Que se eu alertasse meu torturador sobre o perigo iminente, ele me


agradeceria e, silenciosamente, seguiria seu caminho alegremente?

“Não, Sara.” Ele pisa na minha frente, forçando-me a olhar para cima
para encontrar seu olhar. Sua mandíbula está apertada, os olhos brilhando
sombriamente quando ele diz em voz baixa e dura: “Não finja que não
queria isso. Eu sei que você está com medo e está tendo dúvidas, mas você
me escolheu; você nos escolheu. É por isso que me disse que eles estavam
vindo por mim, por que você veio para casa em vez de deixá-los levar você
para longe. Eu esperei por você. Sabia que eles estavam perto, e ainda
esperei, porque precisava ver se você realmente me odiava... se você me
queria longe da sua vida. Mas você não fez, não é?” Ele segura meu queixo,
seu polegar roçando minha bochecha. “Fez, ptichka?”

“Eu fiz.” Minha voz treme, e para minha vergonha, lágrimas quentes
escorrem pelo meu rosto. Não quero mostrar fraqueza, mas não posso evitar
que o caldeirão tóxico borbulhe no meu peito. “Estava exausta e com dor de
cabeça. Não estava pensando direito. Em qualquer outro dia...”
“Oh, realmente?” Sua boca se contorce com cruel diversão quando ele
deixa cair à mão. “É essa mentira que você está dizendo a si mesma? Que te
levei contra sua vontade... que você não queria nada disso”?

“Eu não fiz isso!” Recuo, olhando para ele incrédula. Ele não pode
acreditar seriamente no que está dizendo. “Nunca concordaria com
isso. Meus pais, meus pacientes, meus amigos, minha vida inteira − está
tudo lá atrás. Você me sequestrou, Peter. Não há equivoco aqui. Você enfiou
uma agulha no meu pescoço e me levou embora enquanto eu estava
drogada e inconsciente. Como você pode pensar que eu viria
voluntariamente? Você perdeu a parte em que gritei e implorei para você me
deixar para trás quando acordei? Você ficou surdo quando chorei e implorei
para você não fazer isso?” Estou além de furiosa, mas as lágrimas não
param de fluir, e as seco com as costas da minha mão, tremendo de raiva
da cabeça aos pés.

Os lábios de Peter se achatam em uma linha dura e perigosa, e


vislumbro novamente o estranho aterrorizante que invadiu minha casa e me
torturou. Só que desta vez estou com muita raiva para sentir medo. Se ele
quiser me punir por isso, que faça.

Irei apenas odiá-lo mais.

Ele não faz nenhum movimento em minha direção, mas sua voz é
dura quando ele diz: “Então, por que você fez isso? Por que me avisou,
Sara? Você sabia que eu não te deixaria para trás. E não me venha com
essa besteira de não pensar direito. Você sabia muito bem que tipo de risco
estava tomando. Por que você não queria ficar comigo?”

Arrasto em uma respiração trêmula e me afasto determinada a


controlar as lágrimas que continuam escorrendo pelo meu rosto. A raiva
que me encheu está se dissipando, deixando-me cansada até os ossos e
vazia de desespero. Quero me manter firme, negar o que ele está dizendo,
mas não posso. Talvez o meu pensamento não fosse tão claro como deveria
ter sido, mas eu sabia o que estava fazendo.

Não fiquei surpresa quando a agulha espetou meu pescoço.

Sinto Peter atrás de mim, embora não tenha ouvido ele se


mexer. “Diga-me, ptichka.” Sua voz é suave novamente, seu toque suave
enquanto ele aperta meus ombros, me puxando contra seu corpo
duro. ”Diga-me por que.” Sua barba grossa na minha bochecha quando ele
inclina a cabeça para beijar minha têmpora, e fico tensa, lutando contra o
desejo de me inclinar contra ele e deixá-lo abraçar e acariciar-me até que eu
esqueça que perdi tudo.

Até que não me importo mais que ele tenha tirado minha vida.

Erguendo a cabeça, Peter me vira para encará-lo, seus olhos cinza me


observando atentamente, e sei que ele não vai deixar o assunto cair. Ele não
descansará até eu admitir minha fraqueza, aquele impulso irracional e
insano que me fez sabotar minha chance de liberdade.

Umedeço meus lábios, saboreando o sal das minhas lágrimas. ”Eu...”


Engulo em seco. “Não queria ver você morto.” Mesmo agora, as imagens
horripilantes não me deixam, meu cérebro visualizando como tudo poderia
ter acontecido em detalhes terríveis. Eu quase posso sentir o cheiro
acobreado de sangue enquanto as balas da equipe da SWAT rasgam o corpo
musculoso de Peter, quase posso ver os agentes vestidos com armaduras
atravessando a porta do quarto e arrastando-o para fora da minha cama.

Quase posso sentir a solidão gritante e esmagadora que teria sido


minha vida sem meu torturador.

Não, não, não, não. Sacudo o pensamento, empurro-o para longe


como a loucura que é. Eu não queria isso. Só porque senti falta de Peter
quando ele estava em uma de suas missões de assassinato não significa
que eu não teria seguido em frente. E não foi nem dele que senti falta. Foi
do conforto enganoso que ele forneceu a ilusão de amor e carinho. O que eu
sinto por ele não é real, e nem o que ele acha que sente por mim. Uma
mentira doentia é tudo o que existe entre nós, uma obsessão patológica nele
e uma necessidade igualmente perversa em mim.

Os olhos de Peter estreitam, suas mãos apertam meus


ombros enquanto ele processa o que eu disse. “Então você me avisou pela
bondade do seu coração? Você estava sendo uma boa samaritana?”

Aceno, piscando rapidamente para conter uma nova onda de


lágrimas. Essa não foi à única razão para o meu lapso de julgamento, mas é
a única que estou disposta a admitir.

O rosto do meu captor endurece e ele deixa cair às mãos,


recuando. “Entendo.”

Se eu não o conhecesse, teria pensado que o machuquei.

No instante seguinte, no entanto, ele continua como se nada tivesse


acontecido. “Este é o nosso quarto.” Sua voz é fria e calma, totalmente sem
emoção. “O banheiro é ali.” Ele aponta para uma porta no fundo do
quarto. “Você pode se lavar e descansar enquanto desempacotamos alguns
suprimentos e preparamos o café da manhã. Vou trazer roupas para você
amanhã, mas, enquanto isso deve haver um roupão no banheiro e algumas
roupas no armário.” Ele acena para um conjunto de portas no lado oposto
da sala. “Se você precisar de alguma coisa estarei lá embaixo. O café da
manhã estará pronto em meia hora.”

Mordo meu lábio. “Ok, obrigada.”

Ele sai da sala e ando até a janela, meu peito doendo de tristeza por
tudo que perdi e pelo que acabei de vislumbrar nos olhos de Peter.

Dor.

Eu o machuquei e, por alguma razão, isso me machuca.


6

Peter

“Ela não está feliz, não é?” Anton diz baixinho em russo enquanto
pego uma enorme caixa de ovos que ele acabou de guardar na geladeira,
coloco no balcão ao lado do fogão, e procuro uma frigideira.

“Não.” Mal me contenho de bater na porta do armário quando não


encontro a frigideira lá. “Mas vai se acostumar com isso.”

“E se não acontecer?”

Finalmente localizo a frigideira em uma das gavetas do fogão. “Então


ela vai ficar fodidamente miserável.” Agarrando a panela, bato a gaveta
fechada, então me amaldiçoo quando vejo uma rachadura aparecer na
madeira branca brilhante. Renovar a casa com uma carga de helicóptero de
cada vez era uma droga, e não posso me dar ao luxo de desabafar minha
raiva nos balcões da cozinha. O rosto de Anton no treino mais tarde, será
um alvo muito melhor.

“Você sabia que isso iria acontecer certo?” Meu amigo continua, como
se inconsciente da raiva fervendo no meu intestino. “Essa besteira
suburbana não poderia continuar para sempre. Foi um milagre eles não nos
matarem mais cedo. Se você quer essa garota fique um longo tempo
com você – e você quer certo? − esse é o único jeito.”

Aperto meu queixo com tanta força que meus molares doem. ”Largue
isso, Anton. Isso não é da sua conta.”

“Tudo bem, apenas lembrando os fatos. Eu sei que é uma porcaria


que ela está chateada e tudo, mas...” ele para, aparentemente percebendo
que estou a meio segundo de chutar seus dentes. Pegando seu canivete
suíço, ele corta um saco de laranjas e coloca a fruta em uma grande tigela
de madeira no balcão. Então, olhando para a caixa de ovos com interesse,
ele pergunta: “O que há para o café da manhã?”
“Para você? Não há nada.” Quebro cinco ovos em uma tigela, despejo
um pouco de leite e acrescento o tempero antes de mexer. ”Você e os
gêmeos podem se virar sozinhos.”

“Isso é duro, cara”, diz Yan, entrando na cozinha. Ele carrega uma
enorme caixa cheia de mais frutas e verduras, assim como pão e carne
congelada, suprimentos de comida que nosso contato local carregou no
helicóptero antes de enviá-lo para nós.

“Ilya e eu estamos morrendo de fome e você gosta de cozinhar”, Yan


continua quando não respondo. “Quão difícil é fazer um pouco
mais? Prometo, eu irei manter a minha boca fechada, sobre sua médica
bonita.”

Lutando contra o desejo de me agarrar a ele, abro mais uma dúzia


de ovos na tigela. Eu não costumo cozinhar para os caras, mas Yan está
certo: seria mesquinho privar minha equipe de um bom café da manhã
depois de uma viagem tão longa.

Só preciso que eles calem a boca sobre Sara, porque, se ouvir mais
uma palavra sobre o assunto vou arrancar suas malditas cabeças.

Sabiamente, tanto Yan quanto Anton permanece em silêncio,


desembalando o resto da comida enquanto eu cozinho a omelete, e
quando Ilya entra, estou quase calmo – não contando com o impulso
esporádico que tenho de socar a bancada de quartzo branco.

Ilya se senta em uma das banquetas de aço inoxidável e abre seu


laptop, lembrando-me de que temos problemas além de Sara para nos
preocuparmos.

“O que os hackers disseram?” Pergunto quando o vejo franzindo a


testa para a tela. ”Alguma pista sobre esse ublyudok ?”

“Não.” O rosto de Ilya está sombrio quando ele olha para


cima. “Nenhuma transação com cartão de crédito, nenhuma tentativa de
contatar amigos ou parentes, nada. O filho da puta é bom.”

Minha mão aperta a alça da frigideira, minha fúria retornando. O


último nome da minha lista, Walton Henderson III, também conhecido como
Wally, de Asheville, Carolina do Norte, é o general encarregado da operação
da OTAN que foi para o lado e resultou na morte de minha esposa e meu
filho. Foi ele quem deu a ordem de agir sem verificar a validade da suposta
liderança do grupo terrorista, e foi ele quem autorizou os soldados a usar
qualquer força que fosse necessária para conter ‘os terroristas’.
Já matei todos os soldados e agentes de inteligência envolvidos no
massacre de Daryevo, mas Henderson − aquele que tem mais a responder −
ainda está foragido, desapareceu com sua esposa e filhos assim que os
rumores da minha lista de alvos atingiram a comunidade de inteligência.

“Diga aos hackers para fazer um mergulho profundo em todos seus


amigos e parentes, não importa o quão distante a conexão”, digo quando
Yan caminha para sentar na banqueta ao lado de seu irmão. “Eles devem
procurar qualquer coisa fora do normal, como grande retirada em
dinheiro, compras de telefones extras, viagens para fora da cidade,
aquisições de propriedades ou aluguel para férias, tudo e qualquer coisa
que possa indicar que eles estão em parceira com aquele bastardo. Alguém
tem que saber onde Henderson foi minha aposta é em algum parente
qualquer. Se em alguns meses, ainda não houver nada, talvez precisemos
visitar pessoalmente as conexões de Henderson, expondo-o dessa
maneira, se necessário.”

“Entendido”, diz Ilya, seus dedos grossos voando sobre o teclado com
surpreendente agilidade e graça. “Vai nos custar, mas acho que você está
certo. As pessoas têm dificuldade em romper completamente os laços.”

“Yan, nós temos essas gravações de câmera?” Pergunto quando o


outro gêmeo abre seu próprio laptop. ”Os da casa dos pais da
Sara? Precisamos ver se os federais já falaram com eles.”

“Baixando agora”, ele responde sem levantar os olhos da tela. “Esta


conexão de satélite é lenta para caralho. Diz que vai levar quarenta minutos
para tirar os arquivos da nuvem.”

“Tudo bem, então vamos comer primeiro”, digo, desligando o


fogão. “Anton, você pode arrumar a mesa para nós cinco? Vou pegar Sara.”

Meus homens ficam em silêncio enquanto me dirijo para as escadas,


mas quando estou na metade do caminho, vejo Yan inclinado em direção a
Ilya, sussurrando algo em seu ouvido.

Sara está saindo do banheiro quando entro no quarto, seu corpo


magro enrolado em uma toalha branca grande e seu cabelo molhado preso
em um coque torto em cima de sua cabeça. Sua pele pálida está corada,
provavelmente pelo calor da água, e seus grandes olhos cor de avelã estão
vermelhos e inchados de tanto chorar.
Ela deveria parecer patética, mas em vez disso parece muito bonita,
como uma princesa da Disney. Talvez a da Bela e a Fera, embora eu não
tenha certeza se me qualifico como a Fera naquele conto.

Bela não odiava seu captor tanto quanto Sara parece me odiar.

“O café da manhã está pronto”, digo friamente, tentando não pensar


em sua revelação anterior. Saber que Sara me alertou para salvar minha
vida não deveria me incomodar, afinal, isso é a confirmação de que ela não
me queria morto, mas suas palavras pareciam um ferro em brasa rasgando
meu peito. Acho que é porque me convenci de que ela queria ir junto, que
quando ela me implorou para deixá-la ir, eram apenas palavras
desesperadas.

Doeu porque me iludi acreditando que um dia ela também me


amaria.

“Obrigada. Eu vou descer.” Ela não olha para mim quando diz isso,
apenas entra no armário e emerge um minuto depois segurando uma das
minhas camisas de flanela de mangas compridas e um par de calças de
moletom.

“Você se importa?” Ela diz, colocando as roupas na cama, e cruzo


meus braços sobre o peito, percebendo que ela quer que eu me afaste
enquanto ela está mudando.

“Não, não mesmo. Vá em frente.”

Ela olha para mim. ”Eu quis dizer que...”

“Eu sei o que você quis dizer.” Mantenho meu rosto impassível,
mesmo quando a raiva continua a roçar minhas entranhas. Se ela acha que
vou deixar ela me tratar como um estranho, ela está muito enganada. Ela
pode não me amar, mas ela é minha, e eu não vou fingir que nunca senti
seu orgasmo no meu pau. Se há uma coisa que sempre tivemos, é essa
conexão da carne, um desejo mútuo tão intenso que suplanta a luxúria
simples. Quero Sara como nunca quis outra mulher e sei que ela não é
indiferente a mim.

Ela me quer e eu não vou deixar que ela negue.

O rubor em seu rosto se aprofunda, os nós dos dedos ficam brancos


quando ela pega as calças. “Bem.” Olhando para mim, ela cai na cama e
puxa as calças com movimentos bruscos, mantendo a toalha atada ao redor
do peito até que ela está com as calças puxadas até a cintura e as pernas
da calça enroladas. Então ela se levanta e deixa cair à toalha. Pego um
vislumbre de lindos seios cor de rosa enquanto ela puxa a camisa com
movimentos irritados, e meu pau endurece em resposta, meu corpo
reagindo à visão de sua nudez com rapidez previsível.

“Feliz agora?” Ela puxa o cordão no cós da calça, amarrando-o


firmemente para evitar que caiam até os tornozelos, e apesar do meu humor
sombrio, não posso deixar de pensar em como ela é adorável em minhas
roupas.

Se o jeans e a camiseta de Anton eram grandes, as calças de moletom


e a camisa de flanela eram enormes. Sou alguns centímetros mais altos e
mais largo do que o meu amigo, e essas roupas devem estar soltos em
mim. Minha jovem médica parece uma criança experimentando roupas de
adultos − uma impressão ainda mais realçada por seus pequenos pés
descalços e cabelos bagunçados.

Incapaz de me ajudar, eu dou um passo rápido para frente, aperto


seu pulso, e a puxo contra mim, ignorando a rigidez raivosa em seu corpo
enquanto moldo seus quadris contra os meus. Com a mão livre, pego seu
coque molhado, inclinando para trás, depois puxo sua cabeça e a beijo.

Sua boca é doce e levemente mentolada, como se tivesse escovado os


dentes. Seus lábios entram em um suspiro assustado, e inalo seu hálito
quente, possuindo seu ar como se eu quisesse possuir tudo sobre
ela. Quero seu corpo e sua mente, sua fúria e sua alegria. E acima de tudo,
quero o amor dela, a única coisa que ela nunca pode me dar.

Minha língua invade sua boca, acariciando a profundeza úmida e


suave, e seus dedos cavam em meus lados sob o casaco, suas unhas
afiadas através da camada de algodão da minha camisa. A minúscula
pontada de dor sacode minhas terminações nervosas, enviando mais
sangue para meu pau, e minhas bolas se apertam o desejo de fodê-la tão
intenso que quase a atiro na cama e puxo aquelas calças de moletom
ridiculamente folgadas. Apenas o conhecimento que meus homens
estão esperando no andar de baixo me impede de fazê-lo.

Eu a quero demais para uma rapidinha de dois minutos.

Com um esforço sobre-humano, a solto e dou um passo para trás,


respirando com dificuldade. Sara parece da mesma maneira, os olhos dela
com as pálpebras pesadas e o rosto corado enquanto engole o ar.
“Desça antes que os ovos fiquem frios”, digo com uma voz tensa,
abrindo meu jeans para ajustar a pressão dolorosa na minha calça. “Estarei
lá em um minuto.”

Ela se vira e foge antes de eu terminar de falar, e fecho os olhos,


respirando fundo e pensando nos invernos siberianos para diminuir minha
excitação.
7

Sara

Quando chego ao andar de baixo, os colegas de equipe de Peter já


estão sentados à mesa de madeira retangular, os olhos fixos na grande
frigideira que fica no meio. Um deles, vestido todo de preto, com cabelos
na altura dos ombros e uma barba grossa e escura, olha para cima quando
me aproximo.

“Onde está Peter?” Ele pergunta franzindo a testa. Seu sotaque russo
é apenas ligeiramente mais pronunciado que o de Peter. “A comida está
esfriando.”

“Ele está vindo”, digo, o calor em minhas bochechas se intensifica


quando a sobrancelhas do homem de barba se levantam. Ele provavelmente
sabe o que aconteceu no andar de cima, com meus lábios inchados ou o
meu abalável estado interior. Meus joelhos estavam literalmente tremendo
enquanto descia as escadas, e fico grata que a camisa de Peter esteja solta e
grossa, escondendo os pontos duros dos meus mamilos.

Se meu sequestrador tivesse escolhido me foder, eu nunca


conseguiria dizer não, e o conhecimento me enche de vergonha.

“Anton, você está sendo rude”, diz um homem alto de cabelos


castanhos com um sorriso suave. Ao contrário de seu colega barbudo, que
poderia ter saído direto de um filme de ação sobre assassinos, esse cara não
ficaria deslocado em um escritório de advocacia. Seu cabelo castanho curto
está elegantemente cortado, seu rosto está barbeado, e eu aposto cem
dólares que sua camisa de botão listrada sutilmente e calça cinza são feitas
sob encomenda. Apenas seus frios olhos verdes refletem a bela imagem
corporativa; eles são duros e sem emoção, intocados pelo sorriso que curva
seus lábios.

“Você esqueceu de se apresentar”, continua o homem bem vestido,


falando com Anton com um leve sotaque. Virando-se para mim, ele
gesticula para seu amigo barbudo e diz: “Sara, conheça Anton Rezov. Ele
pilotava qualquer coisa com um motor no nosso antigo emprego, e ele ainda
é ocasionalmente útil agora. E eu sou Yan Ivanov. Ah, e este é meu irmão,
Ilya.”

Volto minha atenção para o terceiro cara, irmão de Yan, e percebo


que foi ele quem falou comigo mais cedo, explicando por que esse lugar era
um bom esconderijo. Ele parece o mais assustador de todos, com um tórax
grosso como um fisiculturista, um crânio raspado coberto por tatuagens e
uma mandíbula enorme que me faz pensar em um gorila. Mas quando ele
sorri para mim, os cantos de seus olhos verdes se enrugam, suavizando a
dureza de suas feições.

“Prazer em conhecê-la, Dra. Cobakis”, diz ele com um sotaque


ligeiramente mais forte e se levanta para puxar uma cadeira para mim.

“Obrigada. É bom conhecer você também”, digo, sentando na


cadeira. Eu deveria odiar cada um desses homens. Afinal, eles foram
acessórios para o meu sequestro e o assassinato do meu marido, mas algo
sobre o sorriso genuíno do russo e a maneira respeitosa como ele se dirigiu
a mim torna impossível virar minha raiva nele.

Vou reservar tudo para o homem que está descendo as escadas neste
exato momento, seu belo rosto escuro e fechado.

“Finalmente”, Anton diz com satisfação quando Peter chega à mesa e


se senta ao meu lado. Alcançando a frigideira no centro da mesa, Anton
corta um pedaço da omelete e a coloca em seu prato. “Estou pronto para
comer.”

“Sirva-se.” A voz de Peter está cheia de sarcasmo que parece passar


por cima da cabeça de Anton. Os irmãos Ivanov demonstram boas maneiras
à mesa, esperando até que Peter coloque uma porção no meu prato e depois
no seu antes de dividir o restante.

Nós comemos em silêncio, demolindo a omelete em questão de


minutos, e então Peter se levanta e descasca algumas
laranjas. ”Sobremesa?” Ele pergunta, e os caras avidamente pegam a
oferta. Eu não digo nada, mas Peter me traz uma tigela com uma laranja
cortada de qualquer maneira.

“Obrigada”, digo baixinho. Mesmo nessa situação fodida, as regras de


educação que me acompanham desde a infância são difíceis de
romper. Alcançando a tigela, pego uma fatia de laranja e a mordo,
saboreando o suco doce e refrescante. Acho que tinha pouco açúcar no
sangue, porque agora que eu comi, estou me sentindo um pouquinho
melhor, a sensação oca de desespero está se dissipando o suficiente para
me deixar pensar.

Sim, à primeira vista, minha situação não é das melhores. Quando


estávamos voando, não vi nada parecido com civilização nas imediações
desta montanha, apenas falésias e florestas densas, com neve ainda
cobrindo alguns dos topos das montanhas próximas. Mesmo que consiga
escapar dos quatro assassinos, sair daqui não será fácil. Eu fui acampar
somente uma vez na minha vida, e estou longe de ser uma especialista em
deserto. Sem mencionar que, se eu chegar a alguma fazenda ou vila nas
proximidades, ainda enfrentarei o desafio da comunicação, e talvez as
pessoas não falem uma palavra de inglês.

No entanto, não é tão desesperador quanto poderia ser. Parece


que Peter pretende me deixar entrar em contato com meus pais em breve, e
há uma chance de conseguir passar minha localização para eles − e,
portanto, para o FBI. Além disso, não estou amarrada ou contida de outra
forma. Pelo que pude perceber, tenho a liberdade de andar pela casa, o que
aumenta minhas chances de fuga. Se eu for esperta e cuidadosa, posso até
conseguir roubar um pouco de água e suprimentos, caso minha caminhada
na montanha leve alguns dias.

Nem tudo está perdido. De um jeito ou de outro, vou consertar meu


erro e voltar para casa.

Enquanto isso preciso me certificar de que não pioro as coisas


fazendo algo estúpido... como me apaixonar pelo meu sequestrador.

Depois do café da manhã, vou até o quarto e adormeço prontamente,


a mudança de horário combinado com um coma alimentar, me deixa
sonolenta, apesar do meu longo cochilo no avião. Acordo quando ouço o
helicóptero partir e, através da janela gigante, vejo a decolagem do heliporto
ao lado da casa.

Uma busca de suprimentos? Uma missão de trabalho? Eu não tenho


ideia, mas se Peter foi embora com o helicóptero, isso só pode ser uma coisa
boa.

Infelizmente, o vejo lá embaixo quando desço alguns minutos mais


tarde, depois de ter jogado um pouco de água no rosto
para acordar completamente. Ele está sentado em uma banqueta atrás do
balcão da cozinha, franzindo a testa para algo na tela de um
laptop. Quando me aproximo, vejo fones de ouvido em seus ouvidos.

Ele está ouvindo algo no computador.

Percebendo minha presença, ele tira os fones de ouvido e pressiona


um botão no teclado, provavelmente para pausar o que estava ouvindo.

“É a câmera implantada na casa dos meus pais?” Pergunto, e meu


coração dispara quando Peter concorda.

“Sim. O FBI os visitou.” Sua expressão é cuidadosamente neutra.

“E?” Me sento em uma banqueta ao lado dele, meus ombros


tensos. ”O que eles disseram a eles?”

“É... interessante.” Os olhos de Peter brilham quando ele se vira para


mim. “Parece que a história que demos aos seus pais, consistente com as
suspeitas dos federais.”

Olho para ele, meu pulso acelerando ainda mais. “Eles acham que fui
voluntariamente com você?”

Ele fecha o laptop. “Essa parece ser a suposição deles, especialmente


agora que seus pais falaram sobre o seu telefonema. Mas acho que Ryson
suspeitou de seu envolvimento comigo antes disso, provavelmente porque
você não contou a Karen sobre mim no vestiário.”

Minhas mãos se juntam no meu colo. Isso é bom e ruim. Não quero
que o FBI pense que estou em parceria com um dos seus assassinos mais
procurados, mas, ao mesmo tempo, sinto-me aliviada. Isso é infinitamente
melhor do que minha família acreditando que fui sequestrada. “Então, como
meus pais reagiram? Eles estavam preocupados? Chateados? Meu pai foi...”

“Eles aceitaram bem.” A linha dura da mandíbula de Peter suaviza


um pouco. “Eles estão obviamente chocados e perturbados por você estar
envolvida com alguém desagradável, mas Ryson estava muito próximo de
dizer quem eu sou e por que eles estão atrás de mim. Acho que ele está
preocupado com a história vazando para a mídia.”

Isso faz sentido. O FBI, ou a CIA, ou quem quer que tenha inventado
a mentira sobre a máfia estar atrás do meu marido, eles não gostariam de
expor o que realmente aconteceu em Daryevo. Se Peter está certo sobre o
erro que levou ao massacre de sua família, as partes envolvidas lutariam
com unhas e dentes para impedir que a verdade escapasse.
O público tende a desaprovar o massacre de civis inocentes.

“Então meu pai está bem?” Pressiono, afastando a memória das


imagens horríveis no telefone de Peter. “Ele não parecia doente ou algo
assim?”

“Ambos pareciam bem, perfeitamente saudáveis.” A expressão de


Peter aquece ainda mais quando as suas mãos cobrem as minhas
firmemente apertadas. “Eles vão ficar bem, ptichka. Eles são fortes como
você. E poderá entrar em contato com eles em breve. Anton e Yan acabaram
de sair para buscar suprimentos, e quando eles voltarem, terá o que
precisamos para estabelecer uma conexão segura. Você vai falar com seus
pais, tranquilizá-los, e eles vão ficar bem.” Ele aperta minhas mãos
suavemente. “Tudo vai ficar bem.”

Puxo minhas mãos para longe, meus olhos se arrepiando com um


súbito ataque de emoção. Isso, aqui mesmo, é o que torna as coisas tão
confusas. Um homem que me raptou não deveria se importar com a minha
família, muito menos se importar com os meus sentimentos. O que Peter fez
comigo − tudo o que ele faz comigo − são as ações de um monstro cruel e
egoísta, mas quando ele está comigo, olhando para mim assim, é
fácil acreditar que ele me ama, em seu próprio modo estranho e
avassalador. De qualquer maneira, ele quer me fazer feliz.

Empurrando o pensamento perigoso para longe, mantenho minhas


emoções controladas e me concentro no tópico em questão. “Mas o que
exatamente o FBI disse? E como meus pais reagiram ao que eles
disseram? Eles devem ter uma tonelada de perguntas...”

“Eles fizeram, mas tudo o que Ryson disse a eles é que estão
procurando pelo homem que está com você, e eles não podem revelar o
porquê. Na maior parte do tempo, ele e os outros agentes interrogaram seus
pais, detalhando-os sobre as especificidades do seu telefonema, se você fez
ou disse algo incomum nos últimos meses, porque parou a venda da casa, e
assim por diante.”

“Certo.” Porque agora eles suspeitam de mim. Eles acham que estou
tendo um caso com o assassino do meu marido que, de certa forma, eu
estou. Um caso sem vontade, claro, mas isso não muda os fatos. Eu poderia
ter ido ao FBI a qualquer momento, explicado a situação e pedido por sua
proteção, mas em vez disso, me convenci de que seria mais seguro para
meus pais se eu segurasse meu perseguidor letal sozinho. E quem
sabe? Talvez eu estivesse certa. Dada a incapacidade das autoridades de
proteger os outros na lista de Peter, ele poderia ter encontrado eu e meus
pais, se tivéssemos tentado desaparecer. E então mais pessoas poderiam ter
se machucado − se não minha família, então os agentes designados para
nos proteger.

Os três guardas que vigiavam George acabaram com balas na cabeça.

“Posso assistir o vídeo eu mesma?” Pergunto, afastando a terrível


lembrança, e Peter concorda.

“Se você quiser. Vou configurar para você na TV mais tarde.” Ele
acena para a grande tela plana pendurada na sala de estar. ”Enquanto isso
tenho que recuperar um pouco o trabalho, então se sinta à vontade para
passear e explorar.”

Pisco incapaz de acreditar que possa ser tão fácil. ”Ok, eu vou”, digo,
tentando esconder minha emoção.

Se tiver permissão para explorar por conta própria, posso escapar


ainda hoje.

Relembrando meus pés descalços, olho para baixo e mexo os dedos


dos pés. “Você acha que eu posso pedir alguns sapatos?” Pergunto o mais
casualmente possível.

“Yan está comprando tudo para você hoje, mas você pode tentar usar
meus tênis por enquanto. Se você os amarrar com força suficiente, eles não
devem cair.”

“Tudo bem, eu vou tentar isso, obrigada.” Escorrego da banqueta e


corro para as escadas, ansiosa para continuar com a minha exploração.

“Oh, e Sara?” Peter chama quando estou quase na escada. Quando


me viro para olhar para ele, diz: “Se você for para fora, leve Ilya com
você. Você não conhece a área e há penhascos por toda parte. Você não
quer cair.”

E alheio à minha excitação desanimada, ele abre o laptop, sua


atenção na tela mais uma vez.
8

Sara

Vestindo o moletom grosso de Peter que desce até meus joelhos, e


com meus pés deslizando dentro de seus tênis gigantes, passo
cuidadosamente pela floresta, com Ilya ao meu lado. Ele está falando
comigo, me contando algo sobre a vegetação local, mas só ouço a
metade, concentrando-me em memorizar o caminho para a trilha que vi no
oeste. É largo o suficiente para deixar um veículo passar e parece descer a
montanha.

“... mas foi bloqueada pelo deslizamento de terra”, Ilya fala, e tomo
atenção, percebendo que ele está me dizendo algo útil.

“Um deslizamento de terra?”

Sua cabeça raspada balança. “Sim, do terremoto. Isso teve um grande


impacto aqui, mudou completamente esta montanha.”

“Mudou como?” Pergunto, abraçando-me para puxar o moletom para


mais perto do meu corpo. É menos ventoso aqui entre as árvores do que na
casa, mas ainda está frio devido à alta elevação. Andamos em círculos
largos pela casa por quase uma hora e estou pronta para voltar para
dentro, onde está quente.

Com o assassino russo perseguindo meus calcanhares, não


escaparei hoje de qualquer maneira, e quando o fizer, terei que me certificar
de que estou vestida adequadamente.

“Além de bloquear a estrada, você quer dizer?” Ilya pergunta, e eu


aceno, franzindo a testa. Espero que não signifique a trilha que acabei de
ver. Até agora, é a única coisa que notei que se assemelha a uma
estrada. Se estiver bloqueada, vou ter que caminhar pela floresta, uma
proposta muito mais fraca.

Ilya para e aponta para um penhasco no lado oposto do lago abaixo


de nós. “Veja isso? Foi uma inclinação gradual antes. E há muitos como
esses nesta montanha também. Muito perigoso. A floresta vai até a borda de
alguns desses penhascos, então se você não olhar para onde está indo...”

“Certo. Perigoso. Entendi.” Isso só reforça minha convicção de que


preciso estar bem preparada antes de tentar fugir. A última coisa que quero
é cair de um penhasco. Vou ter que levar alguns dias para conhecer a área,
explorá-la um pouco mais para poder saber onde estou indo. Talvez
descubra mais sobre essa região e saiba qual é o assentamento mais
próximo ou o local que me permitiria chamar a embaixada dos EUA.

De qualquer maneira, tenho que ser inteligente sobre a minha fuga,


para que eu não perca a pouca liberdade que possuo.

No momento em que voltamos para casa, estou tremendo e as pontas


das minhas orelhas parecem gelo. Peter está longe de ser visto, então subo e
arrumo um banho quente, imaginando que isso deverá me aquecer.

A banheira branca alta tem uma forma incomum: quadrada e


estreita, mas profunda, com um degrau embutido no interior. Eu não posso
deitar nela como em minha banheira oval em casa, mas posso sentar no
degrau e ter a água me cobrindo até o meu pescoço. Na verdade, é mais
confortável assim, decido, fecho os olhos enquanto o calor da água penetra
em mim, afugentando o frio e a tensão em meus músculos. Não iria tão
longe a ponto de descrever meu estado atual como relaxado, mas estou
definitivamente me sentindo melhor.

Se eu não estivesse aqui contra a minha vontade, quase consideraria


isso um período de férias.

“Você gosta da banheira japonesa?” Uma voz profunda e familiar


murmura atrás de mim, e meus olhos se abrem quando mãos fortes descem
sobre meus ombros, massageando minha pele
escorregadia. Instantaneamente, meu pulso acelera a sensação de
relaxamento dá lugar a uma confusa mistura de raiva, desejo e medo que
sempre sinto na presença de Peter.

Virando-me, envolvo meus braços ao redor do meu peito enquanto


saio de seu alcance. Ele me viu nua uma centena de vezes, mas ainda estou
em conflito sobre essa intimidade entre nós, ainda muito consciente do
grande erro de tudo isso. Porque se nosso relacionamento já era distorcido,
é duplamente agora que meu perseguidor − o homem que me afogou em
nosso primeiro encontro − é meu sequestrador.

Estou completamente em seu poder, e nós dois sabemos disso.


Ele fica perto da banheira alta, suas grandes mãos bronzeadas do sol
descansando na borda de porcelana. As mangas de sua camisa térmica
estão enroladas, expondo as tatuagens que decoram seu braço esquerdo. A
tatuagem vai do pulso até o ombro, os intrincados desenhos se flexionam
com cada ondulação de seus músculos bem definidos. Seus cabelos escuros
e grossos estão despenteados, como se ele apenas passou os dedos por ele,
e seu queixo duro estava sombreado por uma pitada de barba por fazer.

Ele parece ser todo perigoso, e tão austeramente masculino que


minhas entranhas se apertam. Sexy é uma palavra muito fraca para
descrever Peter Sokolov; O que ele possui é puro magnetismo animal, um
apelo cru e masculino que fala de algo perturbadoramente primitivo dentro
de mim.

Com esforço, fecho a porta mental desse pensamento e volto até onde
a banheira permite. “Por favor, vá embora. Estou tomando banho.”

“Eu posso ver isso.” Seu olhar percorre meu corpo antes de retornar
ao meu rosto, seus olhos metálicos escuros de fome. ”E daí?”

“Então me deixe em paz.” Faço o possível para segurar seu olhar sem
vacilar. “A menos que privacidade não seja permitida aos seus
prisioneiros?”

Seus olhos estreitaram seus dedos apertando na borda da


banheira. “Silkily”, ele diz: “A meus prisioneiros não são permitidas muitas
coisas, banhos incluídos. Minha mulher , no entanto, pode fazer o que
quiser desde que entenda um fato simples.”

“E o que seria isso?”

“Que ela é minha.” Ele recua, e antes que eu possa responder, ele
puxa a camisa sobre a cabeça e a deixa cair no chão antes de tirar as
meias. Então ele solta o cinto e abre o zíper da calça jeans.

Respiro fundo, apertando meus braços em volta dos meus seios. “O


que você está fazendo?”

“O que parece?” Ele empurra para baixo seu jeans e sai deles, em
seguida, faz a mesma coisa com sua cueca, revelando um pau grosso e duro
que se curva até o seu abdômen sulcado. A visão me inunda de adrenalina
mesmo quando o calor indesejável se acumula entre as minhas pernas.

Não posso fazer isso com ele. De novo não.


“Não vou fazer sexo com você.” A água cai sobre a borda da banheira
quando fico em pé, não me importando mais que ele me veja vendo nua.

Eu tenho que sair fugir.

Peter pega meu braço antes que eu possa balançar minha perna
sobre a borda, e então ele entra na banheira, seu grande corpo enchendo no
pequeno espaço quadrado enquanto ele me puxa de volta para a água. Mais
água cai sobre a borda, deslocada pelo seu peso, e eu ofego quando me
encontro no colo de Peter, minhas costas pressionadas contra o peito dele e
sua ereção aninhada entre as bochechas da minha bunda. Em pânico,
começo a lutar, e ele passa um braço ao redor do meu peito, me segurando
no lugar.

“Oh, ptichka...” Sua voz é gentilmente zombeteira no meu


ouvido. “Quem disse alguma coisa sobre sexo?”

Seus dentes raspam sobre o lóbulo da minha orelha, e sua mão livre
cobre meu seio, seu polegar acaricia possessivamente o meu duro e dolorido
mamilo. Congelo, agarrando seu braço musculoso, enquanto meu coração
bate contra minhas costelas. Não tenho medo dele tanto quanto tenho medo
da minha própria reação, da maneira como meu corpo se derrete e suaviza
ao seu toque. E isso é muito mais que toque. O pênis de Peter é como um
pau de aço entre minha bunda, suas bolas estão pressionando contra o
meu sexo, e seu polegar está torturando meu mamilo enquanto sua língua
invade minha orelha, fazendo-me tremer de prazer impotente.

Podemos não estar fazendo sexo pela definição estrita da palavra,


mas o efeito líquido é tão devastador quanto.

“Peter, por favor...” Recomeço lutando, desesperada para fugir antes


que eu perca de vista o que importa. A água torna nossos corpos
escorregadios, aumentando a sensação erótica de esfregar a pele contra a
pele enquanto eu puxo inutilmente seu braço. ”Por favor, pare.”

“Pare com o quê?” Sua respiração aquece meu pescoço enquanto sua
mão deixa meu peito e viaja mais baixo, para onde meus músculos estão
tensos, minha carne pulsando e doendo por seu toque. “Isso?”− Ele lambe o
exterior do meu ouvido, enviando arrepios pelas costas, abaixo, − “ou isso?”
Seus dedos ásperos de calos abrem minhas dobras e pressionam contra o
meu clitóris, enquanto seu dedo médio mergulha em mim. Minhas unhas
cravam em seu antebraço, meus músculos internos se apertam avidamente
na intrusão superficial, e ele ri quando um leve gemido escapa dos meus
lábios. Eu quero dizer a ele para parar tudo isso, mas minha mente fica em
branco quando seus dedos se movem mais para trás, além do meu
sexo. Oh, Deus, com certeza ele não esta...

Seu dedo encontra o apertado anel de músculos entre minhas


bochechas e pressiona a pequena abertura. ”Ah, sim”, ele murmura, sua
voz escura e sinistramente macia enquanto eu fico tensa com o ardor do
toque. “Talvez seja isso que você quer que eu pare. Estou certo, ptichka?” A
pressão no meu ânus diminui quando o dedo esfrega a carne firmemente
apertada, como se acalmasse a tentativa de violação. “Você é virgem aqui,
meu amor?”

O carinho me confunde quase tanto quanto as sensações estranhas


se espalhando pelo meu corpo. Algo quase como a simpatia aquece sua voz
profunda e sussurrante, mas eu também posso ouvir a luxúria, uma fome
tingida de possessividade sombria. Ele gosta disso, a possibilidade de que
ele seria o meu primeiro nisso, e o conhecimento intensifica essa sensação
que me tortura, o calor traiçoeiro que vibra baixo no meu núcleo. Eu não
deveria achar isso intrigante, não deveria querer de qualquer forma, mas
não posso negar certa curiosidade perversa. Em um ponto, quando George
e eu ainda estávamos namorando, eu levantei a ideia do sexo anal, mas
George pareceu desinteressado e nunca mais falamos sobre isso.

Sou virgem a esse respeito, mas se eu admitir que para meu


sequestrador, provavelmente não serei por muito tempo.

Reunindo as peças em ruínas da minha força de vontade, puxo sua


mão atormentadora com todas as minhas forças. ”Apenas pare.”

Para minha surpresa, Peter obedece, retirando a mão e levantando o


outro braço. ”Vá então.” Sua voz é apertada. ”Saia.”

Saio da banheira, minhas pernas tremendo. Meus pés molhados


deslizam sobre o azulejo frio enquanto saio correndo do banheiro, mal
parando para pegar uma toalha no caminho, e somente quando estou de pé
no quarto, totalmente vestida e com a toalha enrolada em volta do meu
cabelo molhado, que meu coração diminui seu ritmo frenético.

Ele me deixou ir. Deveria estar feliz pelo alívio, mas me sinto
estranhamente perturbada, frustrada em mais de uma maneira. Mais uma
vez, meu torturador está fingindo que tenho uma escolha, como se fosse um
relacionamento normal em que posso dizer não. E talvez eu possa, por
enquanto, pelo menos. Até agora, ele nunca me forçou fisicamente. Mas não
me iludo. Ele pode fazer o que quiser comigo, e, eventualmente, acabarei
em sua cama, seja através de formas mais sutis de coerção ou a minha
própria falta de força de vontade.

Eu quase preferia que ele me obrigasse, porque então eu poderia


fingir também.

Poderia imaginar que sou normal e saudável, uma mulher que odeia
o homem que arruinou sua vida, em vez de ansiar por ele.
9

Peter

Sara me evita até a hora do almoço, o que é bom. Meu autocontrole


está se desgastando, a escuridão se agarra à superfície. Quero transar com
ela e, ao mesmo tempo, quero subjugá-la e puni-la, fazê-la entender que ela
é minha.

Quero levá-la ao limite e trazê-la, não importa o que possa fazer com
ela.

“Não faça isso, cara”, Ilya diz baixinho enquanto termino de arrumar
o sanduíche de Sara. Ele está fazendo seu próprio sanduíche ao meu
lado. “O que quer que esteja pensando, você vai se arrepender.”

Eu mostro meus dentes em um sorriso sem humor. “Mesmo? Você é


uma porra de um vidente agora?”

“Não, mas não acho que você esteja pensando direito. Ela não merece
isso.” Ele mergulha uma faca de manteiga em um pote de maionese. “O
mínimo que você pode fazer é dar-lhe um pouco de tempo.”

Imagino pegar a faca e esmagar a traqueia de Ilya com ela. É muito


chata para cortar sua garganta, mas faria um ótimo trabalho de sufocá-lo
até a morte. Felizmente para o meu companheiro de equipe, ele não diz
mais nada e saio da cozinha com o prato de Sara.

Eu a encontro no andar de cima, verificando uma cômoda em um dos


quartos de hóspedes vazios. Silenciosamente, paro na porta e a observo,
fascinado com a visão de seu corpo ágil e gracioso se curvando e se
contorcendo enquanto ela puxa para fora e fecha as gavetas uma a
uma. Não há nada nessa cômoda, mas Sara não para até ver todas as
gavetas.

Só então ela se vira e salta com um suspiro assustado.

“Peter.” Ela pressiona a mão contra o peito, como se seu coração


estivesse em perigo de explodir. ”Eu não vi você aí.” Sua voz é ofegante,
mesmo quando ela faz uma tentativa visível de se recompor. “O que você
está...”

“Trouxe o almoço para você.” Entro na sala, segurando o


prato. “Pensei que você poderia estar com fome.” Meu tom é calmo, ao
contrário do fogo em meu sangue. Só de vê-la assim, ainda vestida com
minhas roupas excessivamente grandes, me faz querer prendê-la contra a
parede e fodê-la com tanta força que ambos acabariam esfolados e
sangrando.

Com cuidado, ela pega o prato de mim e recua como se sentisse a


violência fervendo dentro de mim. Enquanto faz isso, ela nervosamente
morde o lábio inferior, e me imagino fazendo o mesmo, rasgando a carne
tenra e rosada com meus dentes enquanto reclamo aquela boca suave,
saboreando-a, consumindo-a até satisfazer a luxúria me queimando vivo.

“Você não vai comer?” Ela pergunta com cautela, colocando o prato
na cômoda, e balanço minha cabeça, meus olhos seguindo cada movimento
dela. Provavelmente estou assustando-a com a intensidade do meu olhar,
mas não posso evitar. Sinto-me como um predador no limite, a fome dentro
de mim é tão selvagem e escura que mal se parece com algo tão básico
quanto um desejo sexual. É mais uma necessidade compulsiva de possuí-
la, de dobrá-la à minha vontade e fazê-la minha tão completamente, que ela
nunca pensaria em procurar coisas para ajudá-la em sua fuga.

“Eu já comi”, respondo, e embora minha voz seja um pouco áspera,


isso não reflete nem uma fração do que estou sentindo. Racionalmente, sei
que Ilya está certo, que tenho que dar a Sara tempo para se ajustar e
aceitar sua nova vida comigo, mas tudo dentro de mim exige que eu a pegue
e faça admitir que ela precisa de mim... que apesar de tudo, ela me ama
também.

Empurro o pensamento para longe, mas não antes de ficar cheio de


desejo agonizante. Porque isso é tudo que se resume, o que eu mais quero
dela. Além da frustração da luxúria não satisfeita, além da dor de sua
rejeição, é esse desejo agudo e irracional que me rasga por dentro e incita o
monstro dentro de mim.

Quero que ela me ame e não sei como fazer isso acontecer.

“OK, obrigada.” Seu olhar oscila de mim para o prato e depois de


volta para o meu rosto. “Eu só vou sair quando terminar ok?”
Essa é a minha deixa para sair, mas foda-se. Ela está
desconfortável comigo depois do que aconteceu na banheira e, de repente,
estou feliz com isso. Alguma parte sádica de mim quer que ela se contorça,
se perguntando se vou finalmente cruzar essa linha e reivindicá-la por
causa de suas falsas objeções.

“Está tudo bem.” Meu tom é exageradamente agradável quando eu


ando até a cama no meio da sala e sento na beirada, cruzando as pernas
nos tornozelos. “Posso esperar.”

Sara pisca, então parece se controlar. ”Mesmo? Você só vai se sentar


aí? Você não tem algo melhor para fazer, como torturar alguns inocentes?”

“Isto está na programação para o final da tarde.” Eu dou-lhe um


sorriso afiado. “Por enquanto, é só você.”

O rosto dela enrijece, mas ela pega o prato e o


sanduíche. Morde, mastiga e engole rápido demais, depois arranca outro
grande pedaço com os dentes brancos e retos.

“Não engasgue”, aconselho levemente quando ela acelera ainda mais


o ritmo na terceira mordida. “Nós não temos um médico na mão, você
sabe. Bem, exceto por você, mas isso não ajudaria muito se você é quem
que fica roxa.”

Os olhos de Sara se estreitam, mas ela não diminui a velocidade. Ela


destrói o resto do sanduíche no mesmo ritmo furioso, então pega o prato
vazio e empurra na minha direção. “Aqui. Terminei.”

“Bom. Agora traga aqui.” Bato na cama ao meu lado.

Sua mandíbula aperta; então um sorriso inesperadamente doce


aparece em seus lábios. ”Oh, você quer este prato aí?”

Seus olhos mostram a sua intenção meio segundo antes de seu braço
balançar para trás, e eu me abaixo quando o prato bate na parede
diretamente atrás de mim, quebrando em mil pedaços. Fragmentos de
chuva de cerâmica caem na cama ao meu redor, misturando-se com
migalhas de pão.

Como se percebendo o que ela fez, Sara avança para a esquerda, em


direção à porta, seus olhos fixos em mim com a mesma expressão cautelosa
que ela usou depois que ela me deu o tapa. Perdoei, porque sabia que ela
estava chocada e sobrecarregada, mas não vou aguentar mais isso.

Se Sara quer me transformar em um vilão, fico feliz em obedecer.


“Você vai limpar isso.” Minha voz é dura como gelo quando me
levanto, tirando pedaços de pratos quebrados das minhas mangas. “Esta
sala vai estar perfeitamente limpa de novo, você me entendeu?”

Ela olha para mim, desafio lutando com autopreservação em seu


olhar. O bom senso diz a ela para recuar e fazer o que digo, mas ela não
quer ceder com muita facilidade. Com certeza, ela levanta o queixo. “Ou o
que? Você vai me afogar? Ameaçar-me com uma faca? Raptar-me? Ah,
espere, você já fez tudo isso.”

Apesar da bravura de suas palavras, suas mãos tremem visivelmente


quando ela as coloca no bolso da frente de sua camiseta. Se eu fosse um
homem melhor, recuaria neste ponto, deixaria que ela tivesse essa pequena
vitória. Mas ela não é a única com raiva hoje; a raiva dentro de mim parece
uma fera viva, sombria e potente, alimentada por sua rejeição e pelo
conhecimento de que eu nunca conseguirei o que realmente quero dela.

Se eu não puder ter o amor dela, vou me contentar com o ódio dela.

“Oh, ptichka...” Eu venho para ela, apreciando o brilho de medo em


seus olhos enquanto ela instintivamente se move em direção à porta. Antes
que ela possa dar mais do que um passo, paro na frente dela, impedindo de
sair. Levantando minha mão, coloco o cabelo dela para trás e me inclino,
inalando seu perfume doce enquanto abaixo minha cabeça e murmuro em
seu ouvido: “Você não aprendeu a não jogar esses jogos comigo?”

Ouço-a engolir, e quando levanto a cabeça para olhar para ela, vejo
que seu peito está subindo e descendo em um ritmo acelerado. Está com
medo, minha Sara, e por um bom motivo.

Mesmo eu não tenho certeza o quão longe vou hoje.

Seus lábios se separam, quando ela vai contestar, mas eu abaixo


minha cabeça novamente e possuo aquela boca suave e trêmula com toda a
fome violenta que ela desperta em mim. Minhas mãos deslizam em seu
cabelo, segurando a cabeça dela ainda, e engulo seu suspiro de protesto
quando seus braços sobem seus dedos delgados enrolando em torno de
meus pulsos em um esforço inútil para puxá-los para longe.

Como de costume, ela é deliciosa, o interior de sua boca como seda


quente e úmida. Seu corpo esguio se arqueia contra mim enquanto a apoio
contra a cômoda, esfregando minha ereção contra sua barriga lisa, e seus
peitos macios pressionam contra mim, seus mamilos apertados em
pequenos picos duros. Posso ouvir sua respiração acelerando, e sei que se
eu deslizasse minha mão em suas calças, sentiria ela molhada, me
desejando.

Seu corpo, pelo menos, é atraído por mim.

É preciso toda a minha força de vontade para levantar a cabeça e dar


um passo para trás, para libertá-la em vez de devorá-la no local. Mas eu
faço, porque precisamos resolver isso de uma vez por todas.

“Você quer saber o que mais posso fazer com você, ptichka?” Minhas
palavras saem baixas e roucas, revestidas com a luxúria e raiva incinerando
minhas entranhas. “Você quer saber o que vai acontecer se você me
empurrar longe demais?”

Os olhos de Sara estão arregalados, seu peito arfando enquanto tenta


recuperar o fôlego, eu me aproximo novamente, capturando seu rosto
delicado entre as palmas das mãos enquanto olho para ela. ”Você quer que
eu explique a realidade da sua situação?” Continuo.

Ela engole de novo, e sinto o tremor em suas mãos enquanto ela


agarra meus antebraços. ”S...sim.” Sua voz é quase um sussurro, mas
ainda há uma sugestão de desafio em seu olhar castanho. ”Sim eu quero.”

Meus lábios se curvam, e até posso sentir a escuridão naquele


sorriso. ”Oh, ptichka, por onde devo começar”?
10

Sara

Apanhada. Presa.

Mesmo quando seguro o olhar de Peter, resistindo à vontade de


desviar o olhar das profundezas hipnóticas de prata, posso sentir minha
força se desgastando, minha resolução de luta se esgotando. Nunca me
senti mais prisioneira dele do que neste momento, nunca fui tão consciente
da minha vulnerabilidade. Ele não está me machucando, suas grandes
mãos segurando meu rosto com gentileza requintada, mas aqueles olhos
metálicos contam uma história diferente.

Estou à mercê do meu sequestrador e ele não demonstra nenhuma


compaixão.

“Vamos começar com o básico”, ele murmura, e fecho meus olhos


quando ele abaixa a cabeça, roçando os lábios na minha testa antes de
levantar a cabeça para olhar para mim novamente. Em circunstâncias
normais, o beijo iria me desarmar, mas meus nervos vibram como um
diapasão bem afinado enquanto ele baixa as mãos para os meus ombros e
diz baixinho: “Sua antiga vida se foi, Sara. Eu deixei você viver o máximo
que pude, mas acabou agora. Você vai ter que aceitar isso. E a transição
pode ser fácil para você… ou difícil. Você decide.”

Meu pulso salta violentamente. “O que você quer dizer?”

“O telefonema desta noite para seus pais, por exemplo.” Suas mãos
são gentis em meus ombros, mesmo quando seus olhos brilham
sombriamente. “Isso não precisa acontecer, você sabe. Nem qualquer outro
contato com alguém da sua antiga vida. Você poderia simplesmente
desaparecer, fazer uma ruptura. Isso pode ser melhor em alguns
aspectos. Você se adaptaria mais rápido se não tivesse lembranças
constantes do que perdeu e...”

“Não.” A palavra sai de dentro de mim quando meu estômago revira


em pânico, o sanduíche que acabo de comer ameaçando voltar quando o
imploro agarrando sua camisa. “Por favor, Peter, não faça isso. Eu tenho
que falar com meus pais. Tenho que tranquilizá-los. Eles são velhos demais
para se preocupar assim. O coração do meu pai não aguenta, você sabe
disso.”

Ele inclina a cabeça para o lado. “Eu sei? Deixei você falar com eles
no avião, e talvez isso tenha sido um erro. Você insiste que eu te sequestrei,
que te levei contra sua vontade. Se for esse o caso, − se você é minha
prisioneira e nada mais, − por que eu deveria assumir o risco de deixar você
entrar em contato com alguém? Se você é apenas minha prisioneira, por
que eu iria ter o trabalho e à despesa de tranquilizar sua família?”

Olho para ele, respirando superficialmente enquanto minhas mãos


caem ao meu lado. Entendo o que ele quer agora − o que ele sempre quis de
mim − e sei que, mais uma vez, não tenho escolha a não ser obedecer.

“Você disse...” Minha voz se quebra enquanto lágrimas ácidas


queimam a parte de trás dos meus olhos. ”Você disse que sou sua mulher,
que você me ama. Então não sou apenas sua prisioneira, certo?”

A expressão de Peter não muda. ”Eu não sei, Sara. Isso é com você.”
Ele solta meus ombros e dá um passo para trás. ”Vou deixar você pensar
sobre isso enquanto limpa esta bagunça. O aspirador e os suprimentos de
limpeza estão na despensa do térreo.”

E virando, ele sai do quarto.

O quarto de hóspedes fica imaculado no momento em que eu termino


a cama perfeitamente arrumada e livre dos menores pedaços de migalhas e
cerâmica quebrada. O trabalho doméstico não é algo que eu goste, em parte
porque demoro devido às minhas tendências perfeccionistas, mas o
resultado final geralmente é bom.

Em outra vida, teria sido uma dona de casa decente.

Quando estou satisfeita com a limpeza do quarto, trago os produtos


para baixo e procuro por Peter. É estranho, mas me sinto um pouco mais
calma depois do ultimato dele. Voltamos para onde estávamos quando a
ameaça dele de me sequestrar estava pairando sobre minha cabeça, exceto
que agora é ainda mais simples.

Não importa o que Peter diga, sou sua prisioneira e só tenho uma
escolha.

Jogue junto e dê a ele o que quer até que eu possa escapar.


Encontro meu captor lá fora, lutando com Ilya em uma pequena
clareira perto da casa. Apesar do tempo frio, os dois homens estão sem
camisa, com seus corpos musculosos brilhando de suor enquanto circulam
ao redor da clareira, ocasionalmente atacando um ao outro com um golpe
rápido como um raio. Seus movimentos me fazem lembrar de artes
marciais, embora eu não consiga identificar um estilo específico. Seja o que
for, é incrivelmente belo, paro hipnotizada e vejo quando Peter se esquiva do
punho de Ilya e lança um contra-ataque furioso, movendo-se tão rápido que
mal posso seguir com meus olhos.

Eles devem ter se aquecido antes, porque o que segue é um borrão de


ação ininterrupta. Tenho certeza que Peter acerta um chute duro nas
costelas de Ilya, e pego Peter usando seu antebraço para bloquear um golpe
de Ilya que poderia ter derrubado um urso. Fora isso, a luta progride a um
ritmo tão furioso que não consigo discernir cada movimento individual,
muito menos descobrir quem está ganhando ou perdendo. Tudo o que vejo
são dois poderosos machos, seus músculos se enrolando e ondulando
enquanto a violência aquece o ar ao redor deles.

Depois de um minuto, eles param e se afastam, ofegando enquanto se


circulam, e vejo o sangue escorrendo pela maçã do rosto de Ilya. Não
consigo ver sangue em Peter, então acho que isso faz dele o vencedor dessa
rodada insana. Não estou surpresa. Mesmo que Ilya seja construído como
um tanque, ele não tem a graça letal de Peter, aquela certa coisa que faz
meu sequestrador tão mortal. Não tenho dúvidas de que o russo careca
pode matar tão bem quanto qualquer um, apenas um ataque bem colocado
daquele punho enorme provavelmente o faria, mas Peter parece mais
perigoso, mais implacável.

Em uma luta até a morte, meu dinheiro seria em Peter em qualquer


dia da semana.

Penso em dizer algo para alertar os homens da minha presença, mas


antes que eu possa fazer isso, Peter olha na minha direção e para seus
movimentos. “Sara?”

“Hum, sim.” Respiro para acalmar meu batimento cardíaco


acelerado. “Desculpe interromper, mas só queria saber se você poderia
colocar os vídeos dos meus pais na TV para mim. Quando você terminar
aqui, quero dizer, sem pressa.”

Estou sendo muito educada para compensar minha explosão


anterior. A verdade é que estou louca para assistir esses vídeos e garantir
que meus pais estejam bem, mas não vou ganhar nada fazendo
exigências. Se há alguma coisa que aprendi naquele quarto de hóspedes, é
que Peter Sokolov ainda detém todo o poder neste nosso relacionamento
fodido. Mesmo quando penso que não tenho mais nada a perder, meu
torturador encontra uma fraqueza, uma maneira de me manipular sem me
ferir − pelo menos fisicamente.

Emocionalmente, ele me destruiu dez vezes.

“Está tudo bem”, diz Ilya e dá um largo sorriso que expõe sangue em
seus dentes. “Eu acho que terminamos por hoje, de qualquer maneira.”

Peter nem sequer olha para ele; todo o seu foco está em mim. “Você
limpou o quarto?” Ele pergunta, enxugando o cabelo molhado de suor. Seus
músculos flexionam quando ele abaixa o braço, e eu me pego olhando para
a gota de suor escorrendo pelo seu abdômen liso e sulcado.

Pare com isso, Sara. Não deseje o seu sequestrador.

Com esforço, trago meu olhar de volta para o rosto de Peter. “Tudo
feito.” Mantenho minha voz calma, apesar da clara provocação em suas
palavras. ”Você pode verificar se quiser.”

Ele olha para mim por um segundo, depois acena com a


cabeça. ”Tudo bem então. Vamos lá.”

Ele vem na minha direção e eu coro enquanto Ilya sorri do jeito


possessivo que Peter segura meu braço. É irracional, mas o que Peter e eu
compartilhamos parece privado, como algum tipo de segredo entre nós
dois. Obviamente, os homens de Peter estão plenamente conscientes da
natureza distorcida do meu relacionamento com seu chefe, eles o ajudaram
a me perseguir e sequestrar, afinal de contas, mas uma parte de mim ainda
se encolhe com o conhecimento de que estão me vendo assim. Talvez seja a
minha aversão em lavar a roupa suja em público, mas preferia que eles
achassem que eu era a namorada de Peter, aqui de livre e espontânea
vontade.

Ignorando o seu parceiro de treino, Peter me conduz para a casa,


mantendo a sua mão no meu braço. Ele ainda está com raiva de mim,
posso sentir isso e estou aliviada por ele estar cumprindo sua promessa
sobre os vídeos.

Com alguma sorte, no momento em que o resto de seus homens


retornarem com os suprimentos, ele vai esfriar o suficiente para me deixar
falar com meus pais.
Quando chegamos à sala, ele solta meu braço e vai direto para o
laptop. Dois minutos depois, os vídeos estão na grande tela da minha
frente.

“Aproveite”, diz ele secamente e desaparece pelas escadas.

No momento em que ele retorna, estou no meio da gravação. É


exatamente como Peter me disse: Na maior parte, os agentes do FBI
interrogaram meus pais, que evitaram responder suas perguntas em
troca. Posso dizer que tanto minha mãe quanto meu pai, estavam
estressados e chateados, mas nenhum deles parecia fisicamente doente,
pelo menos no vídeo desfocado.

“Diga-me novamente como Sara explicou sobre parar com a venda da


casa”, O agente Ryson diz para minha mãe, enquanto Peter se senta no sofá
ao meu lado, vestindo um jeans novo e uma camisa de mangas
compridas. Ele deve ter tomado banho depois de seu treino brutal, porque
sinto um leve toque de sabonete quando ele chega do outro lado do sofá e
pega minha mão, entrelaçando seus dedos com os meus.

É preciso que eu não reaja a essa pequena intimidade e mantenha


meu foco no vídeo. Parcialmente, é porque nem sei como reagir. Eu deveria
estar feliz que ele parece ter perdoado minha infração no quarto de
hóspedes? Ou deveria estar chateada que o gesto, tão simples como é, faz o
meu peito doer com a mesma sensação perigosamente quente que me
aterrou nesta situação?

“Então ela nunca lhe disse que a venda realmente parou?” Ryson
pressiona depois que minha mãe relata nossa conversa no almoço quase
palavra por palavra. “Ela nunca explicou como foi que conseguiu ficar em
sua casa depois que uma empresa-fantasma da África do Sul comprou a
casa dos compradores originais pelo dobro do preço de mercado?”

Meus pais se lançam em negações frenéticas misturadas com


perguntas e explicações possíveis, e eu assisto com uma sensação doentia
no estômago enquanto o rosto do meu pai fica roxo antes que minha mãe o
obrigue a se sentar e se acalmar.

“Ele vai ficar bem”, diz Peter, sua voz profunda reconfortante, e
percebo que estou apertando sua mão com tanta força que meus dedos
estão dormentes. Eu devo estar machucando ele também, mas ele não tira a
mão. A expressão dura que ele usou a tarde toda se foi, seus olhos
cinzentos me olham com uma luz quente enquanto ele acrescenta
calmamente: “Eu vi o resto deste vídeo, e prometo a você, ele está bem.”
Concordo com a cabeça, pateticamente grata pela segurança, e volto
minha atenção para o vídeo, onde os agentes voltaram ao assunto do meu
telefonema, falando com a minha mãe sobre as palavras exatas que eu usei
para contar sobre a minha viagem. É claro que eles suspeitam que menti
para o FBI o tempo todo, mas eu não tenha ideia se eles consideram
simplesmente lavagem cerebral ou cúmplice de Peter desde o início.

“Quão ruim é isso?” Pergunto, virando-me para o meu captor quando


o vídeo termina com o meu pai consolando minha mãe chorando na cozinha
depois que os agentes do FBI saem. Parece que agulhas em chamas estão
presas no meu coração, mesmo que, como Peter disse, meus pais estejam
bem, relativamente falando.

Ele não finge entender mal a minha pergunta. ”Não é bom. Agora que
eles sabem onde procurar, descobriram mais evidências de nosso
relacionamento, começando com nosso encontro na boate. E, claro, há o
fato de que você estava morando na casa que eu possuo e não disse nada
para o FBI quando eles disseram que eu tinha sido flagrado. Entre isso e o
telefonema para seus pais, eles tem fortes razões para acreditar que
estamos envolvidos. Há também...” Ele para.

“Há também o que?” Puxo minha mão para segura-la firmemente no


meu colo. “Diga-me.”

Peter suspira. “Eles examinaram seu armário e encontraram seus


papéis de divórcio, assinados por você, mas não por seu marido, datado do
dia anterior ao acidente do seu marido.”

“O quê?” Pisco para ele, um fio de medo serpenteando pela minha


espinha. “O que isso tem a ver com alguma coisa?”

Peter pousa uma mão reconfortante no meu joelho. “Não é a teoria


principal na qual eles estão trabalhando”, diz ele gentilmente, “mas
eles estão considerando a possibilidade de você ter tido algum envolvimento
com a morte do seu marido, que nosso relacionamento pode ter antecedido
ao nosso encontro inicial em sua cozinha.”

“O que? Isso é ridículo!” Pulo, minha garganta apertando com o


choque. “Eles não podem acreditar nisso. Eles sabem que você me torturou
e me drogou, e me ameaçou com uma faca. Eles sabem disso; eles viram o
resultado. Ou eles acham que eu inventei as drogas no meu sistema e a
faca que cortou meu pescoço? E as contusões que cobriam minhas costas
por semanas? Como eles podem...”
“É apenas um ângulo que eles estão considerando, ptichka.” Peter se
levanta e captura minhas mãos geladas em suas grandes e quentes
palmas. Há algo quase como remorso em seu rosto duramente bonito. Pelo
que ele fez comigo em nosso primeiro encontro, talvez? No momento
seguinte, suas características suavizam e ele diz: “Não se estresse sobre
isso. Depois que investigarem mais, eles devem perceber a verdade. Seu
trabalho é considerar todas as possibilidades, não importa o quão
improvável, e o fato de que você estava prestes a se divorciar de seu marido
morto é algo que eles têm que agarrar. Você nunca viu uma investigação
policial? O cônjuge é sempre o principal suspeito, especialmente se há
motivos para acreditar que houve discórdia conjugal?”

“Discórdia conjugal?” Uma risada histérica escapa da minha


garganta. “Você esta brincando certo? Este não é um maldito mistério de
assassinato.” Puxo minhas mãos para fora do alcance de Peter e dou um
passo para trás, meu peito arfando. “Você matou George. Você invadiu
minha casa, me torturou e me drogou para conseguir a localização dele, e
então você explodiu seus miolos, o que ele havia deixado deles depois do
acidente, de qualquer maneira. Ou acham que causei aquele acidente e
depois contratei você para terminar o trabalho?” Minha voz pula uma oitava
acima. “Quero dizer, esse acidente foi minha culpa, de certa forma, e você
mata pessoas por contrato, então talvez elas estejam pensando que, talvez
estivéssemos secretamente em parceira o tempo todo e...”

“Pare com isso, Sara.” Peter se aproxima de mim e pega meu pulso,
me puxando para ele. Não até que ele me envolva em seus braços
poderosos, me puxando contra seu peito, que percebo que estou com tanto
frio que estou tremendo da cabeça aos pés. Raiva e choque estão me
batendo como ondas em um furacão, e fecho meus olhos contra a dor das
lágrimas quando Peter murmura no meu cabelo, “Vai ficar tudo bem,
ptichka. Isso tudo vai acabar. Os agentes não são burros; eles descobrirão a
verdade em breve. Apenas dê tempo a eles.”

“Que verdade?” Coloco minhas mãos entre nossos corpos e empurro


seu peito, abrindo meus olhos para encontrar seu olhar. Sinto que estou
desmoronando por dentro, a raiva e o choque se transformando em amargo
desespero. “Aquela em que dormi com o assassino do meu marido durante
semanas e ele depois me raptou, pois o avisei que o FBI estava vindo? Ou a
que eu menti para os meus pais para que eles achassem que estou
apaixonada pelo dito assassino?”
O rosto de Peter escurece. “Sim, essa verdade, Sara. Onde você é
minha vítima. Isso é o que você quer ser, não é?” Liberando-me, ele recua, e
meu corpo chora a perda de seu calor e o conforto que seu abraço mortal
proporciona.

Com esforço, me recomponho. Não podemos voltar a esse


argumento, não quando ainda tenho que convencê-lo a deixar que eu ligue
para meus pais. ”Não”, digo, balançando a cabeça. “Isso não foi o que eu
quis dizer. Na verdade...” paro então me forço a dizer isso. “Você estava
certo. Mais cedo, quando disse que eu estava mentindo para mim mesma,
você estava certo. Eu sabia o que estava fazendo quando o avisei, e não era
só porque não queria vê-lo morto.”

Sua mandíbula flexiona e as pontas dos dedos se contraem, como se


ele estivesse prestes a me alcançar. ”O que você está dizendo, Sara?”

“Eu estou dizendo...” Tomo fôlego e envolvo meus braços em volta de


mim, sentindo que estou prestes a voar para longe. Mesmo que esteja
fazendo isso para manipulá-lo, tudo o que estou dizendo é a verdade, e a
admissão está me rasgando. “Estou dizendo que os agentes não estão
exatamente errados sobre onde estão culpando.”

Os olhos de Peter se estreitam. ”Do que você está falando? Você não
teve nada a ver com a morte daquele bastardo.”

“Não, mas tenho dormido com você, com o assassino dele.” Minha voz
treme enquanto lágrimas picam meus olhos novamente. “E não contei ao
FBI sobre você. Não pedi a proteção deles, mesmo quando tive a
chance. Então aqui estamos nós, nessa situação fodida, e é tudo culpa
minha. Então acho que de certa forma, eu devo ter desejado isso,
certo? Perder minha liberdade e estar com você, não importa o custo? Eu
tive uma escolha e fiz à errada. Fiz todas as escolhas erradas, e é por isso
que estou aqui em vez de estar em custódia do FBI, por que estou com você
em vez de levar uma vida normal.”

Enquanto falo, a prata do olhar de Peter se escurece, e então ele me


alcança um braço em volta das minhas costas, enquanto a outra mão
desliza no meu cabelo, me arqueando contra ele. “Oh, ptichka”, ele
murmura, e meu interior aperta com a fome selvagem em seu rosto. “Você
não poderia estar mais errada. Você acha que teve uma escolha? Acha que
havia uma chance no inferno que eu deixaria você ir?”
Minha garganta incha com algo indefinível, as lágrimas nos meus
olhos ameaçam transbordar enquanto minhas mãos sobem para
agarrar seus lados. ”Você não teria?”

“Não.” Seus olhos brilham sombriamente enquanto seus dedos


apertam meu cabelo. “Teria ido atrás de você. Não há lugar na Terra que
eles poderiam esconder você de mim. Você é minha, Sara, e você vai ser
minha, não importa o que for preciso. Não importa o que eu tenha que fazer
para te manter.” Ele inclina a cabeça, e eu sinto o calor de sua respiração
em meus lábios enquanto ele sussurra; “Não importa quem eu tenha que
matar para te recuperar.”

Estremeço em suas mãos, minhas pálpebras se fechando enquanto


seus lábios tocam os meus. O que ele está dizendo é horripilante, psicótico,
mas meu corpo dói com sua proximidade, meu sexo se enche de calor
líquido enquanto seu pau duro pressiona contra o meu estômago. É como
se alguma parte perversa de mim quisesse isso dele, como se isso revelasse
nas profundezas de sua obsessão.

Assim como, em algum nível, me senti aliviada quando a agulha


espetou meu pescoço.

Peter aprofunda o beijo, sua língua invadindo minha boca e eu


deixo. Deixo porque o fogo dentro de mim é forte demais para lutar. Digo a
mim mesma que estou cedendo porque preciso, porque o telefonema para
meus pais está em jogo, mas no fundo, sei a verdade.

Estou cedendo porque eu quero.

Porque, de certa forma, minha doença é tão profunda quanto à dele.


11

Sara

Peter me leva para cima, e escondo meu rosto contra o ombro dele
enquanto Ilya entra na cozinha abaixo. Não quero saber o que o colega de
Peter pensa sobre essa loucura, não quero pensar em nada. Mostrei minha
alma ao meu captor porque eu queria que ele me perdoasse, mas agora que
o fiz me sinto despedaçada e magoada, uma confusão de vergonha e
necessidade, raiva e desejo. Odeio-me pelo que estou sentindo e, ao mesmo
tempo, não consigo me impedir de me agarrar a ele, de o querer tanto
quanto ele me quer.

Quando chegamos ao quarto, ele me deita na cama e começa a se


despir, e o observo através das pálpebras semicerradas. Sinto-me
estranhamente fora disso, como se ainda estivesse drogada, mas sei que é
apenas a necessidade que ele desperta em mim, o desejo obscuro e potente
que ele evoca em meu corpo. Meu anseio por ele é tudo que consome,
roubando toda razão e bom senso. Eu quero que ele me abrace e me toque,
me leve e me possua. Quero sua escuridão e seu amor distorcido, e acima
de tudo, eu o quero.

Quero tudo dele, não importa o quanto isso me apavore.

Ele está coagindo você para isso. É uma minúscula voz de sanidade
sussurrando em minha mente, lembrando-me que estou fazendo isso para
que Peter não me desligue do contato com meus pais, que me abri para ele
pela mesma razão. Meu torturador é muito perspicaz; ele saberia se eu
tivesse mentido para ele ou fingido ter sentimentos que não tenho. A
verdade, em toda a sua complexidade patológica, era a minha melhor
aposta, só que agora não posso fechar a torneira, não posso encobrir sua
fealdade com o véu opaco de negação.

É verdade que não tenho escolha, mas estaria mentindo se dissesse


que não gostei disso.

A camiseta de Peter é a primeira que sai, e observo com a respiração


suspensa enquanto os músculos de seu abdômen se flexionam quando ele
alcança o zíper de seus jeans. Ele tem o corpo de um guerreiro, magro e
duro, com músculos e tatuagens poderosos e claramente definidos cobrindo
o braço esquerdo do ombro ao pulso. Como a pequena cicatriz que corta
sua sobrancelha esquerda, a maioria das cicatrizes em seu torax está
desbotada, mas a do outro lado de seu estômago está fresca; é onde ele foi
esfaqueado há algumas semanas no trabalho no México. Essas cicatrizes
são um lembrete do que ele faz, do que ele é, e meu coração se contrai
quando reflito novamente sobre o fato de que estou dormindo com um
assassino.

O assassino do meu marido.

Ele está te chantageando para isso.

É a verdade, e de alguma forma melhora quando ele sai do jeans e


vem nu em minha direção, seu pau longo e grosso curvando-se até o
umbigo. Estou fodida, mas eu não quero ter uma escolha nisso, não quando
o desejo me incendiando é uma traição de tudo que eu prezo. Assim, posso
dizer a mim mesmo que estou fazendo isso por um motivo... e que não estou
completamente perdida.

“Você é fodidamente linda”, ele sussurra rudemente, inclinando-se


sobre mim, e fecho meus olhos, incapaz de suportar a intensidade em seu
olhar metálico enquanto ele tira minha roupa. A sensação de suas mãos,
tão fortes e gentis, faz meu corpo pulsar de necessidade, mesmo quando
meu coração sangra por tudo que perdi, por tudo que aquelas mãos cruéis
me tiraram. As lágrimas que estava segurando escapam, escorrendo pelas
minhas têmporas, e estremeço quando ele as beija, seus lábios macios e
quentes na minha pele úmida.

Ele beija meus lábios em seguida, depois atrás da minha orelha e a


coluna sensível do meu pescoço. Quando a boca dele passa para meus seios
que eu percebo que já estou nua, minhas roupas removidas enquanto luto
com pensamentos confusos. Seus lábios se fecham sobre o meu mamilo, a
sucção quente e úmida me fazendo arquear para fora da cama, e encontro
minhas mãos enterradas em seu cabelo macio e grosso enquanto meus
quadris deslizam contra ele, buscando alívio da tensão crescendo dentro.

Pare. Por favor, pare.

O grito desesperado ecoa na minha mente, mas eu não expresso


isso. Não posso. Não porque ele não quisesse ouvir, mas porque eu
não suportaria se ele fizesse. Talvez se eu não tivesse cedido antes, seria
mais fácil. Se não soubesse como é tê-lo em mim, poderia ter encontrado a
força de vontade para resistir. Mas eu sei, e meu corpo luta com minha
mente, minando meus esforços para controlar minha resposta, para me
conter, mesmo que eu lhe dê tudo.

“Sim, é isso”, ele respira contra o meu mamilo enquanto seus dedos
separam minhas dobras e me encontram lisa e inchada, tão excitada que
mal consigo aguentar. “Deixe-me ter você, ptichka. Deixe-me dar o que você
precisa.” Seu polegar caloso circula meu clitóris enquanto seu dedo médio
empurra em mim, e eu gemo enquanto meus músculos internos apertam
em torno de seu dedo, meu corpo ansiando mais pela invasão.

Peter força, empurrando um segundo dedo, e o gemido se


transformam em um grito ofegante quando ele continua a chupar meu
mamilo, a dupla estimulação faz minhas costas se curvarem e meu coração
galopar em meu peito. Estou perto de um orgasmo, posso senti-lo, e quando
a tensão finalmente se aproxima, venho com tanta força que deixo de
respirar por alguns segundos que escurecem a visão. Meu corpo inteiro
estremece com o alívio disso, a explosão de prazer ondulando até os dedos
dos pés enquanto os dedos de Peter entram e saem do meu corpo, me
esticando, me preparando para o que está por vir.

Ainda estou no auge dos tremores do meu orgasmo, quando ele se


move para cima, seus joelhos separando minhas coxas enquanto ele coloca
seus dedos nos meus, prendendo minhas mãos ao lado dos meus ombros.

“Olhe para mim”, ele ordena com voz rouca, e eu atordoadamente


obedeço, abrindo os olhos para encontrar o seu olhar ardente. Seu pesado
corpo me pressiona para baixo, seu perfume masculino enchendo minhas
narinas enquanto seu pênis roça contra a parte interna da minha coxa,
dura e maciçamente grosso. Com minhas mãos presas na cama, eu estou
indefesa, completamente à sua mercê, e há algo perversamente excitante
nisso, algo tão escuro quanto à necessidade que ferve no meu núcleo.

“Diga-me que você não quer isso.” Seu tom é duro, sua expressão
quase violenta. ”Minta para mim e eu paro.”

Meu peito se agita convulsivamente enquanto eu seguro seu olhar,


meus pulmões fazendo horas extras. Não sei por que ele está dizendo isso,
mas sei o que quero e não tem nada a ver com poder ligar para meus pais.

“Não pare. Por favor, não pare.”

Não sei se digo as palavras em voz alta, ou se apenas as bato, mas as


narinas de Peter se abrem o rosto incrivelmente belo contorcendo-se de
uma fome feroz. Seus dedos se apertam entre os meus, quase esmagando
em sua força, meus olhos se fecham quando ele inclina a cabeça,
reivindicando meus lábios em um beijo possessivo. Ao mesmo tempo, a
cabeça larga de seu pênis empurra no canto entre minhas pernas,
deslizando entre minhas dobras até encontrar a entrada molhada e dolorida
em meu núcleo.

Ele me penetra com um impulso profundo, seu comprimento espesso


me estende até a borda da dor, e meu suspiro é engolido por seus lábios
enquanto sua língua empurra minha boca, me enchendo, me devorando,
me cercando com seu aroma, gosto e sensação. Sua possessão é áspera,
sua fome mal controlada, e quando ele estabelece um ritmo rígido, a tensão
dentro de mim aumenta novamente, subindo em direção a um novo pico. É
demais, muito esmagadora, e eu envolvo minhas pernas ao redor de seus
quadris, precisando recuperar um pouco de controle, mas não há nada para
se agarrar.

Há apenas Peter e sua necessidade violenta de nos consumir.

Não sei quem vem primeiro, ou se nós chegamos lá juntos. Tudo o


que sei é que quando a sensação passa sobre mim, ele está gemendo meu
nome, sua pélvis contra a minha enquanto seu pênis se agarra dentro de
mim. O prazer parece durar para sempre, chiando através das minhas
terminações nervosas, e quando acaba ele rola de mim, me pegando em
seus braços enquanto eu desmorono e choro, tremendo com a intensidade
de tudo isso... e a culpa que cai em minhas lágrimas.

Mais uma vez, cedi ao homem que destruiu a minha vida.

É só mais tarde, quando minhas lágrimas param e Peter está


acariciando minhas costas vagarosamente, que algo me ocorre, fazendo
meu sangue congelar em minhas veias.

Pela segunda vez, não usamos camisinha.


12

Peter

Sei o momento exato em que Sara percebe a falta de preservativo. Seu


corpo inteiro endurece, e ela levanta a cabeça do seu lugar de descanso no
meu ombro, seus olhos arregalados de horror quando ela encontra o meu
olhar.

“Nós não...”

“Eu sei.”

É a segunda vez − a primeira foi na noite em que a roubei − e embora


não tenha omitido proteção alguma vez, não posso pedir desculpas. A idéia
de ver Sara grávida do meu filho não me assusta nem me repele; na
verdade, enche meu peito com um brilho suave e quente, que eu só conheci
uma vez antes.

Com Pasha, meu filho.

Uma dor familiar perfura meu peito, a dor da perda tão aguda como
sempre. A imagem do corpo de Pasha, sua pequena mão segurando o
carrinho de brinquedo, está gravada em minha mente com a precisão brutal
da lâmina de um assassino. Durante anos, foram à primeira coisa em que
pensei todas as manhãs e as últimas todas as noites. Foi o pesadelo que me
acordou durante a noite e o fantasma que me atormentou durante o
dia. Vingar ele e Tamila, minha esposa que foi morta no mesmo massacre,
foram minha razão de viver, e foi só quando conheci Sara que encontrei um
novo propósito na vida.

Ela.

Meu pequeno pássaro, que agora é o meu tudo.

Na minha confissão sobre o preservativo, Sara parece ainda mais


horrorizada. Agarrando um lenço de papel, ela corre de volta para a cama e
limpa freneticamente entre as pernas antes de apertar o cobertor contra o
peito. Seus olhos cor de avelã são enormes em seu rosto pálido quando ela
diz com a voz embargada: “Você está tentando me engravidar?”

“Não.” Me levanto antes de me sentir tentado a transar com ela


novamente. Mesmo com o meu corpo zumbindo com o relaxamento pós-
orgasmo, a ideia de Sara engravidar está me fazendo endurecer novamente,
e tenho alguns e-mails urgentes para responder antes do jantar. ”Acabou de
acontecer. Não havia muito pensamento envolvido. Mas como eu lhe disse
antes, eu não me importaria não que seja provável nesta época do mês para
você. Certo?”

Sara acena com a cabeça, mas seu aperto de morte no cobertor não
diminui. “Não é provável, mas não impossível também”, diz ela em um tom
ligeiramente mais calmo. “Muitas coisas podem acabar com o ciclo de uma
mulher, então você não pode presumir que é seguro com base apenas no
calendário. Além disso, meu ciclo está no lado mais curto, e meu período
terminou há alguns dias.” Ela respira e diz, abruptamente: “Preciso da
pílula do dia seguinte. Você consegue isso para mim?”

Olho para ela, impressionado com a ideia. ”Talvez”, digo


devagar. “Que tipo de pílula é essa e onde eu conseguiria?”

Sei do que ela está falando, é claro, mas finjo ignorância para me dar
um momento para pensar. Embora não tenha conscientemente pretendido
que isso acontecesse, agora que aconteceu tudo dentro de mim se rebela
com a ideia de reduzir as chances da gravidez de Sara.

É um novo nível de fodido, mas neste momento, percebo que quero


uma criança com ela. Quero amarrá-la a mim em todos os sentidos
possíveis, fazê-la minha tão completamente que ela nunca seria capaz de
sair.

“Existem várias marcas vendidas nos EUA”, diz Sara. “Plano


B , Próxima Escolha , Meu Jeito , Ella… Eu não sei o que está disponível no
Japão, mas tenho certeza que deve haver alguma coisa. Essas pílulas
funcionam impedindo a liberação do óvulo, impedindo a fertilização ou
interrompendo a implantação no útero. Então não é uma pílula abortiva; é
apenas contracepção de emergência. Tenho certeza que se você for a uma
farmácia no Japão e explicar o que você precisa, eles vão dar para você.”

Ela está olhando para mim com uma esperança tão desesperada que
não posso dizer não.
“Tudo bem”, digo, fazendo o Maximo para esconder minha
relutância. “Deixe-me ver se consigo falar com Anton antes que eles
comecem a voltar. Talvez eles possam pegá-la no caminho.”

Todo o semblante de Sara se ilumina. “Sim, por favor. Quanto mais


cedo for tomado, mais eficaz será. Nas primeiras vinte e quatro horas é
melhor, e se eu tomar hoje à noite, ainda estaremos dentro da janela de
setenta e duas horas pela última vez.”

“Entendi”, digo e vou para o banheiro para me lavar. “Eu vou ligar
para eles assim que eu descer.”

Mantenho minha promessa de ligar para Anton, protelando durante o


tempo que levo para responder a um e-mail urgente de nossos hackers. Eles
localizaram um amigo da família Henderson, que recentemente reservou
ingressos para a Croácia e estão pedindo um pagamento para continuar a
liderança. Eu transfiro outros quinhentos mil dólares para uma conta
pactuada nas Ilhas Cayman, e então eu entro em contato com Anton
através do nosso telefone via satélite seguro.

Para meu alívio, eles estão a poucos minutos de distância do nosso


refúgio nas montanhas. “O que você precisa?” Anton pergunta suas
palavras mal discerníveis sobre o rugido do helicóptero no fundo. “O jet lag
está chutando minha bunda, mas se é algo urgente, podemos virar e ir
buscá-lo.”

“Não, tudo bem”, digo, suprimindo um surto indesejado de


culpa. ”Quando você voltar para lá, todas as farmácias estarão fechadas de
qualquer maneira.” Ou pelo menos é o que vou dizer a Sara e espero que
não lhe ocorra que algo tão simples como uma porta trancada não é um
obstáculo, para minha equipe.

Podemos obter qualquer coisa a qualquer momento, bloqueios e


aspectos legais que se danem.

“Tudo bem.” Anton deve estar cansado, porque ele não reage à minha
estranha declaração. “Nos vemos em dez.”

Ele desliga e eu subo as escadas para contar a Sara as más notícias.

Vou pegar aquela pílula, mas não hoje.

Amanhã será em breve o suficiente.


13

Peter

Sara recebe bem as notícias, provavelmente porque eu a informo ao


mesmo tempo em que temos o que precisamos para fazer a ligação segura
para os pais dela. Enquanto Ilya e Yan configuram, eu instruo Sara sobre o
que dizer.

“Nem uma palavra sobre a nossa localização ou quantos de


nós existem”, digo a ela enquanto a conduzo ao andar de baixo. “Nada sobre
quanto tempo levamos para chegar aqui ou como chegamos. E se você
tentar sugerir sushi, montanhas ou helicópteros ou plantar qualquer outra
pista, eu saberei, e esta será a última vez que você contata sua
família. Compreende?”

O rosto de Sara está pálido, mas ela concorda. ”O que posso dizer,
então?”

“Você pode dizer a seus pais que está comigo − os federais sabem
disso. Você pode dizer que está feliz e apaixonada, e que eles não devem se
preocupar com você. Mantenha isso breve; a ideia não é responder às suas
perguntas, mas assegurar-lhes que você está viva e bem. Quanto menos
você disser, melhor para todos os envolvidos.”

“Certo.” Parando ao pé da escada, ela respira e encolhe os


ombros. “Estou pronta.”

O telefonema passa por duas dúzias de retransmissões, saltando de


satélites e torres de celular em todo o mundo antes de aparecer como um
número bloqueado na tela da mãe de Sara. Eu sei que todos os telefones
conectados aos pais de Sara estão grampeados pelo FBI, mas isso não
importa. Não há como eles rastrearem a ligação. O principal perigo é Sara
dizer algo que ela não deveria, mas esperançosamente, ela é esperta o
suficiente para evitar isso.

Eu não faço blefe quando ameaço.


Lorna Weisman, mãe de Sara, é rápida em pegar o telefone. “Olá?”
Sua voz é tensa quando vem através do alto-falante.

“Oi, mamãe”, diz Sara. Ela está sentada no sofá ao meu lado, o
telefone no alto-falante em seu colo para que possa ouvir a conversa. “Sou
eu, Sara.”

“Sara! Oh! Graças a Deus! Onde você está? Você está bem? O que
está acontecendo? O FBI veio e...”

“Estou bem, mãe.” O tom de Sara é calmo e suave, apesar do brilho


excessivo em seus olhos. “Por favor, não se preocupe. Estou com o Peter e
está tudo bem. Sei que as coisas provavelmente estão confusas, mas estou
bem e tudo com a gente é ótimo. Vou lhe contar mais quando chegar em
casa, mas, por enquanto, só queria ligar, porque imaginei que você devia
estar preocupada.”

“Sara, querida, me escute.” Lorna parece prestes a chorar. “O FBI


disse que ele é um criminoso, um dos mais procurados deles. Você tem que
ficar longe dele. Onde você está? Por favor, querida, diga-me e mandaremos
alguém para você. Ele não é um bom homem, Sara. Ele é perigoso; ele pode
te machucar. Você tem que...”

“Mãe, não seja ridícula.” A voz de Sara aguça. ”Estou perfeitamente


bem e Peter é maravilhoso para mim. Olha, eu não posso falar muito, mas
seja o que for que eles estejam dizendo, não acredite neles. Ele é um bom
homem e estamos muito felizes juntos. Ele me ama e eu ... bem, acho que
também posso estar apaixonada por ele.”

Ela olha para mim e eu dou-lhe um aceno de aprovação, ignorando a


dor irracional no meu peito. Ela está apenas agindo como eu disse a ela, e é
inútil desejar que isso fosse real, que ela estivesse realmente apaixonada
por mim.

“Mas, Sara...”

“Mãe, eu tenho que correr. Vou ligar novamente em breve. Enquanto


isso, por favor, não se preocupe comigo e diga ao papai para não se
preocupar também.” Sua voz engrossa, como se ela estivesse prestes a
chorar também. “Eu amo vocês dois, e vou falar com você em breve, ok?”

“Espere, Sara”

Mas ela desliga, seus ombros tremendo com os soluços quando ela
pula de pé e sobe correndo, deixando-me para trás com o telefone.
14

Sara

Não sei quanto tempo choro, antes da cama ao meu lado afundar e
Peter me pegar em seus braços, colocando-me em seu colo como se eu fosse
uma criança desesperada. Sua mão grande acaricia minhas costas
enquanto envolvo meus braços em volta do seu pescoço, escondendo meu
rosto molhado contra seu ombro, e isso é bom, seu toque, seu calor. Parece
necessário, mesmo que eu o odeie agora... mesmo que a dor na voz da
minha mãe esteja insuportavelmente fresca em minha mente.

“Eles vão ficar bem, ptichka”, diz ele suavemente quando meus
soluços se acalmam. “Estamos de olho neles e eles estão lidando bem com
tudo. E agora que você ligou, eles sabem que você está bem também.”

“Bem? Eles acham que fiquei louca, desaparecendo assim com um


criminoso procurado.” Minha voz treme minha visão borrada de lágrimas
quando eu empurro seus ombros, levantando minha cabeça para encontrar
seu olhar. “E com o FBI procurando por nós...”

“Eu sei.” Seus olhos cinzentos são quentes enquanto ele gentilmente
limpa a umidade das minhas bochechas. “Não é o ideal, mas é o melhor que
podemos fazer por agora.”

“Certo.” Finalmente encontro forças para me empurrar para fora do


seu colo e me levantar. Meus olhos parecem duros depois de todo o choro e
tenho uma dor de cabeça estridente, mas estou determinada a recuperar o
controle. Não posso continuar buscando conforto no homem que tirou tudo
de mim, não posso continuar chorando e me agarrando ao meu
sequestrador.

Eu sou mais forte que isso.

Eu tenho que ser.

“Você está com fome?” Peter pergunta, levantando-se também. “Estou


prestes a fazer o jantar para nós.”
Eu limpo os restos de lágrimas com as costas da minha mão e aceno.
“Eu poderia comer.”

“Bom.” Seu sorriso é tão brilhante que é quase ofuscante. “Eu vou
preparar tudo lá embaixo em uma hora.”

Esperava que os homens de Peter se juntassem a nós para o jantar,


como faziam no café da manhã, mas estão estranhamente
ausentes. Quando pergunto a Peter sobre isso, ele explica que eles estão
treinando lá fora e vão comer mais tarde.

“Por que você não se juntou a eles?” Pergunto, pegando um pedaço de


salmão. Temos comida japonesa hoje, peixe e arroz branco, com legumes
em conserva á parte. “Vocês não treinam juntos?”

Peter sorri. “Normalmente treinamos, mas eu queria passar mais


tempo com você hoje à noite.”

“Porque eu tenho sido uma ótima companhia hoje?”

Seu sorriso se alarga. ”Nós tivemos nossos momentos.”

Luto para não corar, sabendo que ele está se referindo ao sexo mais
cedo. Eu tenho feito de tudo para não pensar nisso, embora meu corpo
ainda se sinta sensível por sua posse rude. É estúpido sentir-se
envergonhada quando dormimos juntos pelas últimas semanas, mas não
posso evitar. Essa coisa entre nós é muito confusa, muito fodida. E então a
coisa sem camisinha...

Não, não consigo pensar nisso. Peter prometeu-me uma pílula


amanhã, e tenho que acreditar que ele cumprirá essa promessa. Mesmo
que, por alguma razão bizarra, ele não se importe de me engravidar, ele tem
que perceber que um bebê, dadas as circunstâncias, seria um desastre para
todos os envolvidos. Ele é um homem procurado, um assassino em
fuga. Que tipo de vida seria para uma criança? Peter é esperto demais para
não entender isso.

Ele também é obcecado por você.

Suprimo aquele sussurro assustador e cavo em minha comida. Não


há nenhum ponto em se preocupar com isso hoje à noite; amanhã, se Peter
não obter a pílula, será em breve. De qualquer modo, estou tão cansada que
mal posso levantar meu garfo, muito menos ficar estressada por uma
possível gravidez. Já deve ser de manhã em casa e, apesar do meu cochilo
matinal, estou sentindo os efeitos do jet lag, combinados com as
consequências do estresse extremo. Quando terminar de comer, vou
desmaiar e espero que minha cabeça fique mais clara amanhã.

Preciso que seja, para que eu possa planejar minha fuga.

“Esqueci de te dizer”, diz Peter quando estou terminando meu


salmão. ”Yan conseguiu um monte de roupas para você. Elas estão ali.” Ele
acena para a entrada, onde, pela primeira vez, noto várias sacolas de
compras.

“Oh, obrigada.” Suprimindo um bocejo, empurro meu prato vazio e


me levanto. Não tenho intenção de estar aqui o tempo suficiente para
precisar de muitas roupas, mas eu preciso de sapatos e um básico quente
para escapar. ”Vou dar uma olhada agora.”

Peter se levanta e começa a limpar a mesa enquanto separo as


compras de Yan. Todas as etiquetas mostram tamanhos maiores do que os
que estou acostumada, mas as roupas parecem caber em mim, então devo
ser um médio ou um grande entre as mulheres pequenas do Japão. Os
sapatos também são do tamanho certo. Eu experimento imediatamente,
animada para encontrar um par de tênis confortáveis e botas quentes, além
de sandálias menos práticas e botas de salto alto.

“O seu colega acha que eu vou sair para dançar?” Pergunto a Peter
quando passo pelo resto das sacolas e descubro alguns vestidos igualmente
pouco práticos, além de roupas causais, como calças de yoga, jeans,
suéteres e camisetas. Há também roupas íntimas, a maior parte rendada e
bonita, e algumas camisolas de seda justas, a ideia de um homem do que
uma mulher usaria para dormir.

“Yan é bom com roupas, então disse a ele para pegar o que ele achava
melhor”, diz Peter, sorrindo enquanto eu segurei uma blusa decotada que
não pareceria fora de lugar em uma festa na praia de verão. “Eu acho que
ele foi um pouco ao mar com alguns itens.”

“Uh-huh.” Coloco tudo de volta nas sacolas e pego algumas, prestes a


carregá-las para o armário no andar de cima, quando Peter vem até mim e
as arranca de minhas mãos.

“Eu levo isso”, diz ele, pegando o resto, e eu assisto admirada,


enquanto ele carrega todas as sacolas para o andar de cima.

Este, é mais um exemplo de sua extrema solicitude, percebo quando


o sigo pelos degraus. Em casa, Peter não só me livraria de todas as tarefas
quando estivesse cansada, mas também não me deixaria carregar nada
mais pesado do que um prato de comida quando estivesse por perto. Eu
não sei se ele acha que eu sou incapaz de levantar uma sacola de compras,
ou se alguém lhe ensinou a sempre levar coisas para as mulheres, mas isso
definitivamente aumenta a sensação de que ele está me mimando.

Quando ele não está drogando, sequestrando ou me ameaçando, é


isso.

“Isso era parte da sua educação no orfanato?” Eu pergunto,


seguindo-o até o closet do quarto, onde ele coloca as sacolas e começa a
pendurar minhas roupas ao lado das dele. “Quando você era menino,
alguém te ensinou sobre como ser um cavalheiro ou algo assim”?

Peter para e olha para mim, as sobrancelhas levantadas. “Tá


brincando né?”

Eu franzo a testa e pego uma das sacolas, tirando um suéter para


dobrar. ”Não por quê?”

Ele ri sombriamente. ”Ptichka, você tem alguma ideia de como são os


orfanatos na Rússia”?

Eu mordo meu lábio quando coloco o suéter na prateleira ao meu


lado. “Não, não realmente. Estou supondo que não é tão bom?”

Ele recomeça a pendurar as roupas. “Vamos apenas dizer que o


comportamento cavalheiresco não estava no topo da minha lista de
prioridades quando eu era criança.”

“Eu sei.” Deveria estar ajudando Peter, mas tudo o que posso fazer é
olhar para ele, impressionado com o quão pouco eu ainda sei sobre o
homem que assumiu a minha vida tão completamente. Sei que ele foi criado
em um orfanato − ele me disse que acabou em um campo de prisioneiros
juvenil depois que matou o diretor do orfanato −, mas isso é o mais longe
que eu cheguei e, de repente, não é o suficiente.

Eu quero saber mais sobre Peter Sokolov.

Eu quero entendê-lo.

“O que aconteceu com a sua família?” Eu pergunto encostada no


batente da porta do armário. ”Você já conheceu seus pais?”

“Não.” Ele não faz uma pausa em sua metódica retirada das
sacolas. “Fui deixado na porta do orfanato quando recém-nascido. Eles
acham que eu tinha três ou quatro dias de idade na época. Seu melhor
palpite é que minha mãe veio de uma das aldeias vizinhas. Ela pode ter sido
uma colegial que brincou e engravidou ou algo assim. Eu não mostrei
nenhum sinal de síndrome alcoólica fetal, e eu o teste foi negativo para
drogas, por isso excluíram prostitutas e tal.”

“E ninguém nunca se apresentou para reivindicá-lo?” Pergunto,


tentando ignorar o doloroso aperto no meu peito. Não sei por que, mas
imaginar esse homem perigoso como um recém-nascido abandonado me faz
querer chorar.

Peter abaixa o cabide que está segurando e me dá um olhar


levemente surpreso. “Me reivindicar? Não, claro que não. Ninguém
reivindica as crianças nesses lugares, é por isso que eles são chamados de
orfanatos. Bem, hoje em dia, estrangeiros ricos gostam de aparecer e adotar
um bebê ou dois se não puderem ter filhos, mas esse não era o caso quando
eu estava crescendo.”

Eu engulo, a dor no meu peito se intensifica. “Você já tentou


descobrir sobre sua mãe? Para encontrar ela ou seu pai? Quero dizer, você
tem os recursos agora...”

A mandíbula de Peter se flexiona e ele se vira completamente para


mim. “Por que eu iria perder meu tempo procurando por alguém que me
abandonou?” Seus olhos brilham com uma luz dura e escura. “Há apenas
uma coisa que eu gostaria de fazer se eu a encontrar, e eu seguiria pela
linha de matricídio.”

Ele se vira, e continua a dobrar e pendurar minhas roupas eu me


forço a acompanhá-lo na tarefa, apesar de minhas mãos trêmulas e do nó
no estômago. Suas revelações me aterrorizam e me enchem
de piedade esmagadora. É óbvio para mim agora que a raiva que vislumbrei
em Peter é mais profunda do que a tragédia que atingiu sua esposa e seu
filho, que ele foi moldado por forças que mal posso compreender.

Que seu foco na família e sua obsessão comigo, pode ter raízes que
vão até a escuridão de sua infância.
15

Sara

Adormeço no abraço de Peter assim que me deito, e acordo algum


tempo depois com a sensação dele deslizando para dentro de mim por trás,
seu braço musculoso em volta das minhas costelas para me segurar mesmo
assim. Eu não estou molhada o suficiente, e os primeiros impulsos
queimam, mas então sua mão se move para baixo para o meu sexo,
encontrando meu clitóris, e meu corpo suaviza, derretendo para ele
enquanto o fogo acende em mim novamente.

Leva apenas alguns minutos para eu vir, e ele está bem atrás de mim,
seu pênis grosso dentro de mim quando ele atinge seu auge com um gemido
abafado. Ele me segura então, não se incomodando em sair, e eu caio no
sono assim, com ele ainda enterrado no meu corpo. Nos meus sonhos, ele
beija minha têmpora e me diz o quanto ele me ama, mas quando acordo de
manhã, estou sozinha na cama, com a luz brilhante fluindo através das
janelas do chão ao teto.

Enquanto tomo banho, encontro traços de sêmen seco em minhas


coxas prova de que não usamos proteção novamente. Eu lavo rapidamente,
tentando não ceder ao pânico borbulhando dentro de mim, para ir
procurar por Peter.

Ele tem que me pegar aquela pílula.

Ele tem que manter sua promessa.

Para minha surpresa, ele não pode ser encontrado no andar de


baixo. Nenhum dos seus homens também.

Meu pulso salta e depois se instala em um ritmo rápido. Poderia


ser? Eles poderiam ter me deixado sozinha e ido cuidar de alguns
negócios? Antes de ficar muito animada, pego minhas botas e saio para
verificar se eles podem estar treinando lá.

Nada.
Todos se foram e o mesmo acontece com o helicóptero.

“Eles estarão de volta esta tarde”, a voz de um homem diz atrás de


mim, e eu pulo com um grito de surpresa.

Girando ao redor, eu encaro Ilya, que está saindo da casa atrás de


mim. Ele devia estar em um dos quartos de hóspedes no andar de cima, os
únicos lugares que eu ainda não chequei.

Respirando para acalmar meu pulso acelerado, pergunto: “Peter


também foi”?

O grande russo acena com a cabeça, seu crânio tatuado brilhando na


luz do sol enquanto se inclina contra a porta. “Ele deixou o café da manhã
no fogão para você.”

“Oh, tudo bem. Obrigado.”

Ele entra e o sigo de volta para casa, tremendo de frio. Eu


definitivamente vou ter que me vestir roupas mais quentes quando fugir,
com varias camadas e tudo mais. Eu poderia ter a chance mais cedo do que
esperava.

Com alguma sorte, Ilya não vai me ver muito de perto hoje.

Com certeza, ele não se junta a mim no café da manhã. Em vez disso,
ele desaparece em seu quarto no andar de cima enquanto como a aveia que
Peter deixou para mim e depois limpo tudo. Quando Ilya não volta alguns
minutos depois, subo as escadas em silêncio, coloco duas blusas e uma
parka, pego um chapéu e desço silenciosamente as escadas. Ainda não
conheço a área, mas não posso deixar passar esse tipo de
oportunidade. Descendo pela cozinha, rapidamente pego uma garrafa de
água, um pacote de amendoim e uma maçã, e enfio tudo em uma sacola
plástica que fecho na minha parka.

Minhas botas estão na porta da frente, então as coloco e saio da casa,


tomando cuidado para não fazer nenhum barulho quando fecho a porta
atrás de mim.

Não tomo fôlego até que a casa esteja fora de vista e eu encontre a
trilha que vi no lado oeste ontem. Mantenho-me ao lado, pronto para
mergulhar mais fundo na floresta ao primeiro sinal de perseguição, mas
nenhum parece estar por vir.

Talvez a minha sorte se mantenha e Ilya não perceba minha ausência


durante algum tempo.
O ar está frio e claro enquanto caminho apressadamente. Não estou
em boa forma cardíaca para manter esse ritmo por muito tempo, mas meu
objetivo é chegar tão longe na montanha como posso antes que alguém
descubra que estou ausente. Não me iludo de que posso evitar uma equipe
de ex-soldados do Spetsnaz sem uma vantagem inicial significativa, mas
vale à pena tentar.

Talvez eu possa pelo menos chegar a um telefone antes deles me


pegarem.

Esforço-me durante toda a manhã, parando apenas para uma pausa


de cinco minutos no banheiro e uma bebida por volta do meio-dia. Então
retomo meu ritmo apressado, ignorando a queimação nos músculos das
minhas pernas e nos meus pulmões. No momento em que o sol está no
começo da tarde, no céu, sou forçada a ir devagar e manter uma
caminhada. É uma sorte que esteja descendo a montanha, ou eu não teria
durado tanto tempo. Embora a trilha seja larga o suficiente para um carro,
parece não ter sido usada nos últimos anos, e está cheia de obstáculos que
eu tenho que percorrer, desde troncos de árvores caídas até buracos
enormes e valas cheias de água. Deve ser por causa daquele deslizamento
que Ilya mencionou. Vou ter que percorrer a floresta quando chegar a esse
ponto, mas, por enquanto, a trilha é mais fácil, mesmo com todos os
obstáculos.

Só mais um pouquinho, digo a mim mesma enquanto subo em outra


árvore caída e escalo uma parte íngreme da trilha, quase tropeçando em
uma pedra enquanto luto para permanecer em pé. Em breve, vou parar
para beber novamente e comer um lanche, mas ainda não.

Eu tenho que ir mais longe antes de começarem a procurar por mim.

Forço-me a continuar por mais uma hora, quando me afundo no


chão, exausta. Nos últimos vinte minutos, tive a sensação perturbadora de
estar sendo seguida, mas tenho certeza de que estou apenas sendo
paranóica.

Meus captores não se incomodariam em me seguir; eles simplesmente


me pegariam e me levariam de volta.

Mesmo assim, cuidadosamente inspeciono meus arredores, pronta


para pular e correr a qualquer momento. Como eu suspeitava, porém, tudo
está quieto, os gigantes cedros balançando levemente na brisa
fria. Relaxando, abro o zíper da minha parka e tiro a sacola plástica que
coloquei lá. Abro a garrafa de água, e engulo o restante, em seguida, como o
amendoim e a maçã que trouxe comigo.

Não é muito, mas será suficiente.

Sentindo-me ligeiramente melhor, levanto-me e, pela segunda vez


hoje, pulo com um grito de surpresa.

Um macaco cinzento, de cara rosada está olhando para mim das


árvores.

Ou mais precisamente, ele está olhando para mim e para o caroço de


maçã que deixei no chão, seu olhar correndo entre mim e a comida em
potencial.

Eu comecei a rir, tanto pela expressão no rosto do macaco quanto


pela minha própria reação. Minha pele está formigando da onda de
adrenalina e meu coração está batendo como se eu tivesse sido atacado por
um urso, mas estou tão aliviada que eu poderia beijar aquele rostinho rosa.

Um macaco da montanha me perseguiu, não um mercenário russo.

“Pode ficar com ele”, digo ao macaco, apontando para os restos de


maçã quando finalmente consigo parar de rir. ”É todo seu.”

“Quanta generosidade, ptichka”, uma voz familiar fala por trás, e eu


congelo meu pulso disparando novamente.

Estava errada em não confiar em meus instintos.

Com um sentimento de afundamento, me viro e enfrento o homem de


quem fugi.

Peter Sokolov está encostado a uma árvore, seus lábios sensuais se


curvaram em um sorriso sarcástico.
16

Peter

Ilya me mandou uma mensagem assim que Sara saiu de casa, e eu


disse a ele para segui-la. Não porque estava preocupada que a perderíamos,
Yan adicionou chips de rastreamento em todos os sapatos que ele comprou
para ela, mas porque não queria que ela caminhasse sozinha. Minha
pequena médica está acostumada com ambientes suburbanos, não a
florestas de montanha, e não queria arriscar que ela se machucasse. Já
estava no caminho de volta, então assim que Anton me deixou, segui o sinal
de GPS das botas de Sara. Levei apenas uma hora para alcançar Ilya e
depois assumi o trabalho de rastrear Sara, meu passatempo favorito nos
últimos meses.

“Como você me encontrou?” Ela pergunta se recuperando do choque


de me ver. Sua voz está tensa e um pouco ofegante, mas ela mantém o
queixo alto, encarando-me sem vacilar. ”Quanto tempo você estava me
seguindo?”

“Desde o final da manhã”, digo, me endireitando na árvore. “Você tem


mais resistência do que eu pensava. Teria esperado que você fizesse uma
pausa muito antes dessa agora.”

Seus olhos castanhos se estreitam. “É por isso que você me deixou


chegar tão longe? Para me mostrar o quanto sou fraca e com que rapidez
você pode me pegar?”

“Não, ptichka.” Eu venho para ela. “Para mostrar-lhe outra coisa.”

Ela dá um passo para trás, então fica em pé, provavelmente


imaginando que é inútil fugir. E isso é. Eu a pegaria em um piscar de
olhos. E então iria puni-la, como o monstro dentro de mim exige.

Garantiria que ela nunca mais corresse de mim.

É preciso toda a minha força de vontade para suprimir esse desejo,


para evitar ceder a esse desejo sombrio. Faz todo sentido para Sara tentar
escapar, para tentar voltar à vida que ela sempre conheceu. Ela não seria
quem ela é, se não tentasse, e eu sei disso. Aceito isso, racionalmente, pelo
menos.

Em um nível mais visceral, quero subjugá-la e fazê-la me amar,


cortar suas asas para que ela nunca saia.

“Venha”, digo, estendendo a mão para pegar sua mão fria e trêmula
quando paro na frente dela. “É apenas um pouco mais longe.”

Reprimindo a raiva latente dentro de mim, eu a conduzo pela trilha.


17

Sara

A expressão de Peter é ilegível enquanto caminhamos juntos pela


trilha, mas posso sentir a raiva dentro dele, a instabilidade letal que é tão
parte dele, quanto àqueles olhos cinza-aço. Apesar disso, seu aperto na
minha mão é suave, sua grande mão protegendo a minha do ar frio, mesmo
que isso evite minha fuga.

“Como você me achou tão rápido?” Pergunto, escondendo minha


ansiedade. Neste ponto, tenho quase certeza de que Peter não me
machucaria fisicamente, mas isso ainda deixa uma série de maneiras pelas
quais ele pode me fazer pagar.

“Ilya seguiu você”, diz ele, olhando para mim. A brisa gelada
avermelhava suas maçãs do rosto altas e a ponta do nariz, e com a parka
esportiva que ele está usando, ele parece um daqueles atletas hardcore que
escalam o Monte Everest para se divertir. ”Você achou que ele não saberia
que você saiu de casa?”

Claro. Eu deveria saber que era muito fácil.

“Por que ele não me parou então? Por que apenas me seguiu?”

“Porque eu disse a ele.”

Eu travo meus pés, forçando-o a parar. ”Por quê? Você está tentando
me ensinar uma lição? É isso?”

“Não, Sara, embora seja um bônus.” Um vislumbre de diversão


aparece em seus olhos.

“O que, então?” Exijo. ”Por que me deixar chegar tão longe?”

“Então posso te mostrar isso”, diz ele, e apertando ainda mais a


minha mão, ele me leva a um pequeno trecho de árvores um pouco mais
abaixo na trilha.
Ando cautelosamente esse tempo todo, mas mesmo assim sinto o
repentino desaparecimento do solo sob nossos pés. Se não fosse por Peter
me segurar para parar, eu poderia ter caído.

Ofegante, recuo, segurando a mão de Peter com todas as minhas


forças enquanto fico boquiaberta com a queda abaixo de nós. Por algum
acaso da natureza, as árvores vão até a beira do penhasco, algumas raízes
se estendendo até além dele. Dá a ilusão de que existe um terreno sólido
onde não tem nenhum, e lembro-me de Ilya falando sobre esse fenômeno
ontem, quando mencionou o deslizamento de terra.

“Isso é do terremoto?” Pergunto quando supero o meu choque.

“Sim.” Peter me puxa de volta, longe da borda do penhasco. Quando


estamos suficientemente longe, ele solta minha mão e diz: “Isso é o que
queria que você visse. Sei que Ilya disse a você ontem que esta montanha é
um penhasco, mas você não deve ter acreditado nele, então queria que visse
com seus próprios olhos. Este é o único declive que foi gradual o suficiente
para andar ou dirigir antes do terremoto, e não é mais utilizável. A única
maneira de sair desta montanha é com o helicóptero, ptichka.” Ele sorri,
seus olhos brilhando como prata polida.

Olho para ele, meu estômago gelado. Devo ter desligado quando Ilya
estava falando sobre isso, porque não me lembro dele mencionar isso. Não é
de admirar que meus captores estejam tão despreocupados com minha
fuga; eles sabiam que eu não tinha para onde ir.

“Esta montanha inteira é cercada por penhascos? Por todos os


lados?”

Devo parecer tão esmagada quanto me sinto, porque a expressão de


Peter inexplicavelmente suaviza. ”Sim meu amor. Você não entendeu isso
ontem?”

Eu balancei minha cabeça desanimadamente. “Não devo ter prestado


muita atenção.”

Ele não diz nada, apenas pega minha mão de novo e nós caminhamos
juntos pela trilha, de volta para a casa. Meus passos são lentos, a exaustão
da minha caminhada matinal me atingindo como uma bola de demolição. E
não é apenas cansaço físico. Emocionalmente, estou torcida, tão cansada
que me sinto entorpecida por dentro.

Não sei por que coloquei tais esperanças nesta fuga. Mesmo
quando estava em casa, com a minha família e com o FBI a apenas um
telefonema de distância, sabia que não havia nenhum lugar onde eu
pudesse correr para evitar o alcance de Peter. Eu era sua prisioneira então,
assim como sou agora, e não sei o que me fez pensar que escapar dessa
montanha iria melhorar as coisas.

Por que eu imaginei que poderia ser livre se conseguisse.

Peter teria vindo atrás de mim. Mesmo que, por algum milagre, eu
tivesse escapado e conseguido a suposta segurança da proteção do FBI, eu
nunca estaria realmente segura. Teria que olhar por cima do meu ombro
toda hora, todos os dias e, eventualmente, ele estaria lá, com aquele sorriso
cruel em seu rosto bonito.

Não há como escapar e, em meu pânico, esqueci isso.

O desespero é uma força esmagadora no meu peito, comprimindo


minha respiração e colorindo o mundo ao meu redor de cinza. Eu sei que
preciso me concentrar, para criar um novo plano, mas o desânimo da
minha situação é excessivo, absoluto demais. Minhas pernas parecem
chumbo a cada passo que dou, e o gelo dentro de mim está se espalhando,
o frio se enrolando como correntes ao redor do meu coração.

Não há saída.

“Não tem que ser assim, Sara”, Peter diz baixinho, e olho para cima
para encontrá-lo me observando, seu olhar estranhamente simpático. É
como se ele entendesse, como se ele tivesse empatia de alguma
forma. Exceto se ele sentisse, ele não faria isso.

Ele não destruiria minha vida para satisfazer sua obsessão.

“Não tem que ser assim?” Pergunto, parando na frente de uma árvore
caída. Precisamos ultrapassá-la e não tenho energia para isso. “Como
então? Como você imagina isso funcionando”?

Seus lábios torcem quando ele solta minha mão e se vira para
mim. “Você pode simplesmente desistir, ptichka. Aceite o que há entre nós.”

“E o que é isso”?

“Isso.” Ele levanta a mão para acariciar minha bochecha, e eu me


encontro inclinada em seu toque, buscando o calor magnético de seus
dedos.

Sentindo a necessidade perversa pulsando no meu núcleo.


Deveria me afastar, sair do alcance dele, mas estou cansada demais
para me mexer. Muito cansada para protestar enquanto ele inclina a cabeça
e pressiona seus lábios nos meus, seu beijo suave e gentil, tão terno que me
faz querer chorar.

Ele me beija como se eu fosse algo precioso, algo raro e lindo. Como
ele me quer mais que a própria vida. Meus olhos se fecham e minhas mãos
sobem, agarrando seus ombros enquanto ele aprofunda o beijo, inalando
meu ar e alimentando minha necessidade.

E se você desistir?

Não parece tão errado neste momento. Não quando estou tão cansada
e perdida, tão completamente desprovida de esperança. Ele é a causa do
meu desespero, mas tudo fica mais quente e mais brilhante com o seu
toque, mais suportável com o seu carinho.

E se você aceitar isso?

A questão circula pela minha mente, me provocando, brincando com


as possibilidades. Como seria se eu parasse de lutar? Se eu deixasse minha
antiga vida e abraçasse a minha nova? Porque neste momento, não parece
tão louco que ele pudesse me amar, que pudéssemos compartilhar algo
significativo e real.

Que se eu me deixar esquecer as coisas que ele fez, talvez possa amá-
lo também.

“Sara”, ele respira, levantando a cabeça, e em seu olhar aquecido,


vejo o futuro que poderíamos ter. Aquele em que não somos inimigos, onde
o passado não pinta nosso presente em tons de preto.

Eu vejo e quero, e é isso que mais me apavora.

“Deixe-me ir.” Em algum lugar, encontro a força para me afastar,


para rejeitar a atração sombria de sua afeição. ”Por favor, Peter, pare.”

Seu olhar esfria e endurece a prata derretida, se transformando em


aço frio. Sem outra palavra, ele pega minha mão e continua me levando até
a montanha, de volta à minha prisão.

De volta à nossa nova casa.

Subimos a trilha por mais uma hora e meia antes de começar a


tropeçar em cada raiz e pedra, minhas pernas tão pesadas de exaustão que
literalmente não consigo levantar meus pés. Subir é dez vezes mais difícil do
que descer, e depois de me empurrar para os limites hoje cedo, não
aguento mais.

Engolindo o ar gelado, eu me sento em uma pedra grande. “Eu


preciso... uma pausa”, eu chio, me curvando. Há uma cãibra aguda no meu
lado e meus pulmões queimam como se eu tivesse corrido dezesseis
quilômetros. “Apenas... alguns minutos.”

“Aqui, beba.” Peter se senta ao meu lado, parecendo tão calmo e bem
disposto como se estivéssemos passeando vagarosamente todo esse
tempo. Desabotoando sua jaqueta, ele me entrega uma nova garrafa de
água e diz: “Eu sei que você está cansada, mas não podemos
desacelerar. Espera-se uma tempestade esta noite e precisamos estar em
casa antes disso.”

Engulo a maior parte da água antes de devolver a garrafa. “Uma


tempestade?”

“Chuva e granizo, misturado com neve em altitudes elevadas.” Ele


termina a água e coloca a garrafa vazia de volta dentro de sua jaqueta. “Não
queremos ser pegos nisso.”

“Ok.” Ainda não recuperei o fôlego, mas me forço a ficar de


pé. “Vamos lá.”

Peter se levanta, estudando-me com uma carranca fraca. Então ele se


vira e diz: “Suba nas minhas costas.”

Uma risada incrédula borbulha na minha garganta. “O que?”

“Eu disse: 'Suba nas minhas costas'. Eu vou te carregar.”

Sacudo minha cabeça. “Não seja ridículo. Você não pode me levar
essa distância. Ainda temos umas três horas de caminhada, talvez quatro
ou cinco, já que estamos indo morro acima.”

“Pare de discutir e suba nas minhas costas.” Ele me dá um olhar


duro por cima do ombro. “Você está cansada demais para andar, e essa é a
maneira mais fácil de carregar você.”

Hesito, então decido fazer o que ele diz. Se ele quer se exaurir me
carregando de cavalinho, quem sou eu para discutir? “Ok.” Com a última
das minhas forças, subi na rocha e de lá em suas costas largas, segurando
seus ombros enquanto eu circulava sua cintura com minhas pernas.
“Segure firme”, diz ele, e enlaçando os braços sob os meus joelhos, ele
começa a andar, cobrindo o chão com passos longos e firmes.
18

Peter

Estabeleci um ritmo rápido, determinado a voltar para a casa


rapidamente. O céu já está escurecendo no horizonte, o ar esfriando e
engrossando. A tempestade está chegando mais rápido do que o
previsto; temos talvez umas duas horas antes de chegar, e não posso fazer
sinal para os caras nos pegarem. Depois de me deixar, Anton pegou o
helicóptero para buscar alguns suprimentos em Tóquio, e ele não voltaria
nesse tempo.

Eu deveria ter escolhido outro dia para esta demonstração.

Ah bem. Não adianta se preocupar com isso agora. Quando chegamos


a uma parte mais plana da trilha, eu aumento o ritmo ainda mais, e Sara
mantém seu aperto em mim, envolvendo seus braços em volta do meu
pescoço enquanto ela se inclina para frente.

“Está tudo bem?” Ela murmura no meu ouvido, e eu aceno.

“Tudo bem. Só não me sufoque” digo a ela.

“Você tem certeza que não quer me soltar? Porque eu descansei agora
e posso andar...”

“Você vai nos atrasar.”

Meu tom é brusco, mas não estou inclinado a perder o fôlego ao


falar. Não porque meu passarinho seja pesado, −com apenas cinquenta
quilos, − ela pesa menos do que as mochilas com as quais corro quando
treino, mas porque não posso me dar ao luxo de ir mais devagar. O vento
está soprando um frio gelado, e apesar de estarmos ambos bem vestidos,
quero Sara dentro casa antes que o tempo piore.

As primeiras gotas de chuva caem quando estamos a menos de meia


hora da casa. “Deixe-me descer”, Sara pede, e desta vez, escuto. Carrego-
a há mais de três horas e agora ela está suficientemente descansada. Nós
vamos nos mover mais rápido se ela caminhar.
Segurando sua mão, começo a correr, rebocando-a atrás de mim
enquanto o céu se abre e o vento começa a empurrar água gelada em
nossos rostos.

“Oh, graças a Deus”, Sara ofega quando a casa aparece. O granizo


está agora misturado com neve, e o vento parece estar cortando nossos
ossos. Meus jeans estão encharcados, minhas pernas estão dormentes de
frio e não consigo mais sentir meu rosto. Eu só posso imaginar o quão
miserável Sara deve estar. Ao contrário de mim, ela nunca foi treinada para
sentir dor e desconforto, nunca soube o que é se concentrar apenas na
sobrevivência. Se eu pudesse protegê-la dessa tempestade com meu corpo,
eu faria, mas o mais importante agora é levá-la para dentro, onde está
quente e seco.

Mais uma hora disso e corríamos o risco de hipotermia.

Quando estamos a menos de trinta metros da casa, Sara tropeça em


um galho e eu a pego, carregando contra meu peito enquanto cubro a
distância restante. Chegando à porta, bato com minha bota e, assim que
Yan abre a porta, carrego meu fardo semi congelado direto para o nosso
banheiro no andar de cima.

Coloco-a no chão, ligo o chuveiro, certifico-me de que a água está


quente, mas não muito quente, e então tiro nossas roupas molhadas e
geladas antes de conduzi-la sob o jato. Os lábios de Sara estão azuis, e ela
está tremendo tanto que mal consegue ficar de pé. Não estou em muito
melhor forma, então envolvo meus braços ao redor dela em um abraço de
corpo inteiro, e por alguns minutos, nós apenas ficamos embaixo da água,
tremendo quando seu calor encharca nossa pele congelada.

“Nós p-poderíamos ter morrido.” Os dentes de Sara ainda estão


batendo enquanto ela se afasta e encontra o meu olhar. Seus olhos cor de
avelã são quase pretos em seu rosto branco, seus cílios escuros cheios de
umidade. ”P-Peter, nós poderíamos ter morrido lá fora.”

“Sim.” Aperto meus braços em torno dela novamente, pressionando-a


contra mim até que possa sentir cada respiração superficial que ela
toma. ”Sim, ptichka, poderíamos ter.”

Mais uma hora ou duas naquela tempestade, ela não teria


conseguido. Não me deixei pensar sobre isso antes, não deixei meu foco
vacilar da tarefa de levá-la para casa, mas agora que estamos aqui − agora
que ela está segura − a percepção de que ela poderia ter morrido, faz que
meu estômago e meu coração se tornem gelo. Eu só conheci o medo assim
uma vez antes, quando a vi sendo ameaçada com facas. Naquela época, eu
poderia eliminar a ameaça e o fiz, mas não consegui protegê-la dessa
tempestade.

Se tivéssemos chegado duas horas depois, eu poderia tê-la perdido.

O pensamento é aterrorizante e insuportável. Quando perdi Pasha e


Tamila, parecia que meu mundo tinha acabado, como se eu nunca
conhecesse nada além de raiva e agonia novamente. A fúria que me levou
foi absoluta, porque essa era a única maneira pela qual eu poderia passar
cada dia, a única maneira de comer, respirar e funcionar.

A única maneira que eu poderia viver o suficiente para encontrar os


responsáveis e fazê-los pagar.

Não até conhecer Sara que comecei a me sentir vivo novamente, a


querer algo mais do que uma vingança brutal. Ela se tornou meu novo foco,
minha nova razão para existir.

Eu não posso perdê-la.

Eu não vou perdê-la.

“Você nunca vai fazer isso de novo.” Minha voz é baixa e dura quando
aperto seus ombros e puxo para trás para encontrar seu olhar assustado, o
medo dentro de mim inundado por uma determinação feroz. “Você não vai
fugir de mim, Sara. Nunca. Não há ninguém lá fora que possa te ajudar,
nenhum lugar que você possa se esconder de mim. E se tentar essa inútil
proeza de novo, vai se arrepender eu te dou minha palavra sobre isso. Você
acha que sabe do que sou capaz, mas nem sequer arranhou a
superfície. Você não tem ideia até onde posso ir, ptichka, nenhum indício do
que estou disposto a fazer para ter você. Você é minha, e continuará sendo
agora e enquanto estivermos vivos.”

Posso sentir seus músculos tensos enquanto falo, e sei que estou
assustando-a. Não é o que quero, mas tenho que impedir essas tentativas
de fuga.

Tenho que mantê-la segura.

“Peter, por favor...” Seus olhos castanhos suaves se enchem de


lágrimas, as palmas das mãos subindo para pressionar contra o meu
peito. “Não faça isso. Isso não é amor. Até você deve perceber isso. Sinto
muito por tudo que você perdeu pelo que George fez com sua família. E eu
sei...” Ela engole, segurando meu olhar. “Eu sei que há algo entre nós, algo
que não deveria ter... algo que não faz qualquer sentido. Você sente e eu
também sinto. Mas não torna isso certo. Você não pode perseguir alguém
para te amar, não pode intimidá-la para isso. Enquanto você estiver me
mantendo aqui, eu sendo sua cativa, não importa o que você me diga... não
importa o quanto me coage. Quer eu fuja ou não, não sou sua e nunca
serei . Não assim.”

Cada palavra que ela fala é como uma faca perfurando meu
fígado. “Como então?” Minhas palavras saem ásperas e desesperadas,
violentas em sua intensidade. “Diga-me, Sara. Como eu posso ter você? De
que outro modo podemos estar juntos, quando sou um homem procurado?”

Seu olhar espelha meu tormento. “Nós não podemos”, ela sufoca,
suas unhas delicadas raspando sobre a minha pele enquanto suas mãos se
fecham em punhos contra o meu peito. “Isso não é para ser,
Peter. Nós não estamos destinados a ser. Não com o passado que
compartilhamos, não com quem e o que somos.”

“Não.” Minha rejeição é visceral, instintiva. “Não, você está errada.”

Percebendo que estou agarrando seus ombros com força mordaz, a


solto e dou um passo para trás, depois me viro para desligar a água,
usando a pequena tarefa para recuperar algum controle. Agora que não
estou mais congelado, meu corpo está começando a responder à sua nudez,
minha fome por ela aguda e escura, agravada pela bebida volátil da raiva e
desejo frustrado. Se eu não me acalmar, vou levá-la e vou machucá-la.

Vou transar com ela até que ela quebre e admita que ela pertença a
mim.

Ela está chorando quando volto a encará-la, as lágrimas se


misturando com a umidade em suas bochechas. ”Peter, por favor...”
Ela estende a mão para agarrar minha mão, seus dedos esbeltos envolvendo
a palma da minha mão implorando. “Por favor, apenas me deixe ir. Isto não
é o que você quer, não realmente. Eu não posso ser sua família. Não posso
ser a substituta deles. Você não pode ver isso? Não era para ser. O que você
quer não é...”

“Você é o que eu quero.” Puxando minha mão para fora de seu aperto,
envolvo em meu punho seus cabelos e o meu outro braço, passo em torno
de sua cintura, moldando-a contra mim. Ela suga uma respiração afiada,
seus mamilos pontudos roçando meu peito, e meu pênis lateja duro e
pronto contra seu estômago enquanto digo grosso: “Você, Sara, é tudo que
eu quero. Eu não dou a mínima para o passado, ou o que é ou não deveria
ser. Nós fazemos nosso próprio destino, escolhemos nosso próprio destino, e
eu escolhi você. Não me importo se o mundo inteiro pensa que é errado se
tenho que lutar contra um exército para me segurar a você. Eu te encontrei,
peguei você e estou mantendo você e nunca vou libertá-la.”
19

Sara

Espero que Peter me foda então, bem ali no chuveiro, mas ele me
solta e sai, tira uma toalha da prateleira e envolve-a ao meu redor enquanto
o sigo. Ele me seca rapidamente, e então pega uma toalha para si
mesmo. Seus movimentos são ásperos, irregulares, seus olhos brilham
sombriamente quando ele termina de se enxugar e joga nossas toalhas de
volta na prateleira.

Ele está com raiva ou ferido ou uma combinação de ambos, nenhum


deles é um bom presságio para mim.

Segurando meu cotovelo, ele me leva para o quarto, e quando


chegamos à cama, caio sobre ele, minhas pernas se recusando a me apoiar
por um segundo a mais. Uma onda de tontura passa sobre mim,
meu estômago roncando de vazio, e percebo que não como nada desde
aqueles amendoins na trilha.

Peter deve perceber isso também, porque ele para e me olha com uma
carranca escura. ”Você quer jantar?”

Aceno e me forço a sentar, enxugando as lágrimas do meu rosto com


as costas da minha mão. “Por favor.”

“Tudo bem.” Ele caminha até o armário, pega um roupão, e joga para
mim antes de colocar um em si mesmo. ”Vamos comer.”

Enquanto consumimos o refogado que Peter rapidamente fez, luto


contra a sensação desconcertante de que estou esperando a guilhotina
cair. Meu sequestrador não disse uma palavra desde que me ofereceu o
jantar, e não tenho ideia do que está passando pela cabeça dele. Seja o que
for ele está me observando com um olhar duro e atento, e isso me assusta.

O jantar atrasou o que ele ia fazer comigo, mas ele ainda planeja fazer
isso.
É possivelmente o pior momento, mas não posso mais adiar. O relógio
está passando na minha cabeça, a cada hora que passa aumentando minha
ansiedade. ”Peter...” Abaixei meu garfo, tentando não parecer tão nervosa
quanto me sinto. “Você pegou a pílula?”

Sua mandíbula aperta e, por um segundo, estou convencida de que


ele dirá não. Mas ele apenas se levanta e caminha até o balcão, onde um
saco de papel branco está ao lado de um laptop.

Pegando, ele traz para mim, e ansiosamente agarro isso dele. Dentro
está uma pílula rosa em embalagem branca brilhante com escrita
japonesa. Apenas o nome do fabricante está em inglês, mas tenho certeza
de que é a pílula que preciso.

Rasgando a embalagem, pego a pílula e engulo com meio copo de


água. Com alguma sorte, ainda estamos na zona de segurança e a pílula
fará o seu trabalho. Não que isso importe dado o que Peter diz.

Filho ou não, ele nunca me deixará voltar para casa.

O desespero ameaça me sobrecarregar novamente, e é tudo que posso


fazer para dizer a ele em um tom quase normal: “Obrigada.”

Não importa o quanto às coisas estão tensas entre nós, eu tenho que
levar em conta que ele não tem que me dar essa pílula, que ele poderia ter
forçado sua vontade comigo nesse assunto também.

Peter acena com a cabeça e começa a limpar a mesa. Mesmo morta de


cansaço, me levanto e o ajudo assim que Ilya e Yan descem as escadas,
discutindo algo em russo. Yan está rindo, mas Ilya parece chateado, me
fazendo pensar se os dois irmãos estão discutindo.

Peter fala algo para eles, e Yan olha para mim com um sorriso antes
de responder em russo rápido.

Ilya parece que ele está prestes a explodir, mas ele apenas pega uma
maçã da tigela sobre a mesa e pisa de volta pelas escadas.

“Do que você estava falando?” Pergunto, franzindo a testa enquanto o


russo de cabelos castanhos se senta atrás do balcão e abre o laptop
ali. Estive de olho naquele computador durante toda a refeição, imaginando
como colocar as mãos nele, e estou desapontada por ver uma página inicial
protegida por senha antes que Yan afaste a tela para longe de mim.

“Estava dizendo ao meu irmão, que ele precisa encontrar uma garota
legal”, Yan explica em inglês, seu sorriso alargando enquanto Peter fecha a
porta da máquina de lavar louça com força desnecessária. “Você sabe,
como Peter fez com você.”

“Oh, entendi.” Dada à reação de Peter, suspeito que a linguagem que


Yan usou com seu irmão foi um pouco mais salgado, mas não estou prestes
a forçar mais.

Prefiro não saber o que esse pequeno bando de assassinos realmente


pensa de mim.

Yan se ocupa com o computador, e eu limpo a mesa e os balcões


vazios, sentindo a necessidade de fazer alguma coisa, embora esteja pronta
para entrar em colapso. Não sei o que me espera no andar de cima esta
noite, mas me sinto peculiarmente no limite, meus instintos gritando que
estou em perigo. Talvez seja a expressão dura e fechada no rosto de Peter
ou a violência mal controlada em seus movimentos, mas me lembro do
nosso encontro na Starbucks todas aquelas semanas atrás, quando meu
captor não era nada mais do que o estranho letal que me torturou e matou
George.

Quando eu não sabia o quão perigoso ele poderia ser.

Lá fora, a tempestade está furiosa, o vento conduzindo a chuva


gelada em nossas janelas. Estremeço, lembrando-me de como me senti
nisso e amarro o roupão ao redor do meu corpo.

“Frio?” Yan pergunta, e me viro para encontrá-lo olhando para mim


com um meio sorriso. Ao contrário de mim e de Peter, ele está
completamente vestido, elegante, com calça e a camisa de botão, mas muito
formal para relaxar em casa. Tenho a sensação de que ele não se importa,
seja com a adequação de suas roupas ou com qualquer coisa em
geral. Mesmo quando ele está sorrindo ou rindo, há uma qualidade fria e
distante sobre Yan Ivanov, como se ele não sentisse as emoções que ele está
exibindo.

Eu não ficaria surpresa se o irmão de boas maneiras de Ilya fosse um


psicopata, no sentido clínico da palavra.

“Estou bem”, digo e olho para Peter, que terminou de guardar as


sobras e agora está me observando com os olhos apertados, seus braços
poderosos cruzados sobre o peito.

“Você está pronta?” Ele pergunta em uma voz dura, e meu coração
afunda quando percebo que não posso adiar o que está prestes a acontecer
por mais tempo.
Cometi um erro e estou prestes a pagar o preço.
20

Sara

Quando chegamos ao nosso quarto, Peter me leva para a


cama. Parando na frente dela, ele tira seu roupão, deixando-o cair no chão,
e então ele desamarra o meu e o empurra dos meus ombros, deixando-me
nua. Ele parece totalmente no controle, a raiva volátil atada pelo momento,
e apesar do meu nervosismo, minhas coxas apertam em uma onda de calor
enquanto ele esfrega os nós dos dedos sobre a pele sensível dos meus seios
antes de segurar cada montículo e esfregar seus polegares nos meus
mamilos.

“Você parece assustada”, ele observa seu olhar prateado duro e


opaco. “Está com medo que eu vá te machucar?” Seus dedos se fecham em
meus mamilos, beliscando com força surpreendente, e eu suspiro, minhas
mãos voando para agarrar seus pulsos.

“Diga-me, Sara.” Ele aperta meus mamilos com mais força, a pressão
beirando a dor. “Você acha que eu vou te machucar?”

“Eu...” engulo em seco, meu coração martelando enquanto puxo


inutilmente seus pulsos. “Eu não sei.”

“Eu poderia te machucar.” Sua boca esculpida torce quando ele libera
meus mamilos, deixando-os eretos e latejantes enquanto suas mãos
deslizam pelo meu corpo para agarrar meus quadris. “E às vezes eu
quero. Você sabe disso, não sabe, ptichka? Você sentiu isso.” Seu pênis
pressiona contra o meu estômago, duro e insistente, e minha respiração fica
presa na minha garganta, meu núcleo apertando com uma dor ardente,
apesar do frio se espalhando em minhas veias.

“Sim.” Não consigo mentir, mesmo que isso seja mais esperto, poderia
pacificar o monstro olhando para mim através do metal escuro dos olhos de
Peter. ”Sim, eu senti.”

“Oh, ptichka...” Simpatia enche sua voz quando ele me dá um


empurrão duro. “Claro que você sentiu.”
Assustada, caio de costas na cama, mas em vez de subir em cima de
mim, Peter se abaixa e um momento depois aparece com o cinto do meu
roupão na mão. Ansiedade atravessa-me quando percebo suas intenções e
reajo instintivamente, rolando para longe enquanto ele sobe na cama ao
meu lado.

Ele me pega antes que eu possa sair da cama, e me vejo de bruços no


colchão, minha parte inferior do corpo presa pelo seu peso e meus braços
forçados pelas minhas costas enquanto ele amarra o cinto em torno dos
meus pulsos. Seus movimentos são rápidos e seguros, impiedosos em sua
eficiência, e apenas alguns segundos se passam antes que minhas mãos
estejam completamente contidas, o tecido felpudo enrolando em torno de
meus pulsos em um aperto suave, mas inquebrável.

Puxo as restrições, ofegando no colchão, mas não há como desatar o


cinto, não tem como me libertar. “O que você está fazendo?” Meu pânico se
intensifica quando eu o sinto subir em mim. ”Peter, por favor... o que você
está fazendo?”

“Shhh.” Agarrando meu cotovelo, ele me puxa de joelhos e me vira


para encará-lo. Seu rosto está tenso de luxúria, seus olhos brilhando
sombriamente quando ele diz: “Estou dando a você uma amostra do que
significa ser minha cativa. Porque é isso que você quer, não é? Para você
correr e eu pegar você? Para eu fazer isso, então você pode ser livre de
culpa?”

Abro minha boca para negar, mas antes que eu possa pronunciar
uma palavra, Peter se levanta na cama. Envolvendo meu cabelo em sua
mão, ele levanta minha cabeça para trás, puxando meu rosto em direção a
sua virilha, e ofego, puxando minhas restrições de pulso enquanto seu pau
grosso bate contra a minha bochecha. Seu perfume masculino almiscarado
enche minhas narinas, suas bolas esfregando contra o meu queixo, e minha
respiração acelera quando percebo o que ele está prestes a fazer.

“Peter, por favor...” Começo, então aperto meus lábios enquanto a


cabeça de seu pênis pressiona contra a minha boca. Com a mão no meu
cabelo e meus braços amarrados nas minhas costas, não posso virar o rosto
para o outro lado, não consigo me mover nem um centímetro. Nas semanas
desde que Peter invadiu minha vida, ele me levou mais vezes do que eu
posso contar me dando prazer com sua boca e mãos e pau, mas ele nunca
me fez dar prazer á ele antes. E pela primeira vez, percebi que era uma
piedade... uma pequena escolha que ele deixara para mim.
Uma escolha que ele está tirando agora.

“Abra sua boca.” Sua voz palpita com luxúria escura quando ele bate
o pênis contra a minha bochecha novamente. ”Abra a porra da boca, Sara.”

Eu mantenho meus lábios firmemente selados, mesmo quando meu


ritmo cardíaco salta para a zona anaeróbica. É estúpido lutar com um
boquete quando nós fodemos dezenas de vezes, mas eu não posso deixar de
sentir que, ao fazer isso, eu estaria desistindo ainda mais... perdendo o
último pedaço de mim que ainda pertence a George. Não o alcoólatra ou o
espião que mentiu para mim, mas o homem por quem me apaixonei na
faculdade, aquele que foi meu primeiro tudo.

O rosto de Peter aperta, seus olhos se estreitam enquanto ele rosna:


“Você quer fazer do jeito difícil? Tudo bem. Com a mão livre, ele aperta
minhas narinas fechadas, cortando meu ar, e quando abro minha boca
para respirar, ele empurra seu pênis, até a parte de trás da minha
garganta.

Eu sufoco meus olhos lacrimejam, quando um reflexo de vômito entra


em ação, mas ele é impiedoso quando começa a empurrar fodendo minha
boca com um ritmo duro e implacável. Nem tenho a chance de morder; Com
os dedos apertando minhas narinas, tudo em que estou focada é pegar ar
suficiente e tentar não vomitar. Em pânico, instintivamente puxo minhas
amarras, meus olhos se fecham enquanto a saliva escorre pelo meu queixo,
mas seu pau grosso entra e sai, e não há nada que eu possa fazer nenhum
lugar que eu possa escapar.

Não sei quanto tempo ele usa cruelmente minha boca, mas posso
sentir que estou ficando tonta, a falta de ar combinando com a minha
exaustão, e uma letargia varre sobre mim. Eu nunca me senti tão
impotente, tão completamente no poder de meu torturador, e enquanto
Peter continua fodendo minha boca, eu faço a única coisa que posso.

Paro de lutar e me entrego a ele.

Os impulsos de punição não param e ele não solta meu nariz, mas
meu pânico se alivia quando meu corpo fica macio e flexível ao seu
alcance. Sou uma boneca de pano, um brinquedo para ser levado e jogado,
e há paz nisso, um tipo distorcido de aceitação. Minha garganta relaxa,
deixando-o entrar, e o reflexo de vômito diminui quando eu abraço seu
ritmo. Cada vez que ele se retira, engulo em seco, e o ar me sustenta
quando ele empurra profundamente, enchendo minha garganta, me
controlando tão completamente que minha vida está em suas mãos.
“Sim é isso. Isso é tão bom... desse jeito, meu amor...” Seu gemido
encharcado de luxúria vibra através de mim, e abro minhas pálpebras um
pouco, olhando para ele com olhos lacrimejantes. O êxtase selvagem está
contorcendo suas características, os tendões se destacando em seu pescoço
musculoso e, quando seu olhar encontra o meu, sinto algo dentro de mim
mudando, mudando de alguma forma fundamental.

Eu sou sua, meu corpo diz a ele, aceitando tudo o que ele tem para
dar. É uma rendição completa de mim mesmo, mas parece certo, é
reconfortante e pacífico. Neste momento, quero pertencer a ele, ficar
envolvida em sua enorme força.

Desistir e deixar ele me manter.

Todo o medo desaparece, todos os pensamentos sobre o futuro


desaparecem. Sinto que estou flutuando, como se estivesse acima e além de
mim mesma. Se ainda há desconforto, não sinto, mas meus sentidos estão
intensificados, meu sexo molhado e vibrando com a excitação. É a privação
de oxigênio, meu treinamento médico me diz, mas a razão não importa.

Nada importa além de Peter e seu prazer.

Seguro seu olhar enquanto o clímax o leva, mantendo a conexão


enquanto sua semente jorra em minha garganta. Com os olhos ainda
lacrimejando, engulo cada gota salgada, e é só quando os dedos dele
liberam meu cabelo que o estranho desmaio e a realidade entram em ação.

Tremendo, caio de lado, sentindo como se estivesse desmoronando


enquanto ele libera minhas mãos do cinto. Meus olhos estão molhados, mas
não estou mais chorando. Não posso. O mergulho no desespero é repentino,
assustador e profundo. E por baixo está à excitação doentia, uma fome que
queima no meu núcleo.

“Está tudo bem, meu amor”, ele murmura, juntando-me em seu


abraço, e meu tremor se intensifica enquanto sua mão desliza entre as
minhas coxas, dois dedos ásperos empurrando em mim enquanto seu
polegar pressiona meu clitóris. “Você vai ficar bem. Isto é normal. Deixe- me
cuidar de você, ptichka, e você ficará bem.”

Mas eu não ficarei. Eu sei e ele também sabe disso.

Leva apenas alguns segundos para eu chegar, para convulsionar em


seus braços com um prazer devastador. E enquanto ele me abraça,
acariciando meu cabelo, eu sei que é isso.
A gaiola que ele me prometeu está aqui.
PARTE II
21

Sara

As duas primeiras semanas são as mais difíceis. Choro quase todos


os dias, minha raiva e desespero são tão intensos que quero gritar e jogar
coisas. Mas não faço. Em vez disso, ando em torno de Peter, como em
cascas de ovos, determinada a evitar mais castigos e para ter certeza de que
meu captor me deixa manter contato com meus pais.

Ainda não entendi o que aconteceu naquela noite, como aquele


boquete me quebrou tão completamente. Sexo com Peter sempre teve um
elemento de escuridão, mas pensei que poderia lidar com isso, que estava
acostumada com a montanha-russa do medo, vergonha e necessidade. Mas
aquela noite foi algo diferente, algo mais perverso... algo que me abriu e me
torceu por dentro.

Naquela noite, dancei com o monstro interno de Peter e, no processo,


descobri um em mim.

Ele não me tocou assim desde então, embora cada vez que fazemos
sexo, sinto o desejo nele, a necessidade de dominar e atormentar. Está lá,
não importa o que ele faça, não importa quão carinhosamente ele me
trate. É parte dele, essa escuridão, essa vontade de punir e vingar. Ele pode
lutar contra isso, mas está lá porque, independentemente do que Peter diz,
o passado influencia nosso presente.

Ele nunca vai esquecer o papel do meu marido no massacre de sua


família, e nunca vou superar o que ele fez com George.

A boa notícia é que estamos de volta ao uso de preservativos. Eu não


sei se Peter viu a sabedoria em evitar complicações extras nesta fase do
nosso relacionamento fodido, ou se ele está realmente respeitando meus
desejos, mas apesar da quantidade copiosa de sexo que estamos tendo
diariamente, não houve quaisquer outros deslizes. Ainda assim, conto
ansiosamente os dias até a menstruação e, quando chega, duas semanas e
meia depois do meu cativeiro, fico aliviada, pela primeira vez grata pelas
cólicas e desconforto. Peter não parece tão satisfeito, mas quando voltamos
a fazer sexo depois que o pior dos meus sintomas acaba, ele continua a
usar proteção.

Outro ponto positivo é que minha tentativa frustrada de fuga não me


tirou nenhum privilégio de contato externo. Todas as tardes, Peter me deixa
assistir às gravações da casa dos meus pais e, a cada dois dias, ele me
deixa ligar. As ligações são sempre breves, tanto como uma precaução extra
contra o FBI rasteá-los, e porque não há muito que eu possa dizer. No que
diz respeito aos meus pais, estou viajando pelo mundo com meu amante,
alegremente alheia ao perigo que ele representa e às minhas
responsabilidades em casa. Praticamente tudo o que posso fazer nesses
telefonemas é assegurar aos meus pais que estou bem, e perguntar pelo
bem-estar deles, antes de desligar rapidamente para evitar as intermináveis
perguntas e súplicas deles.

“Você sabe, você pode elaborar um pouco sobre o nosso caso de


amor”, diz Peter depois de ouvir as chamadas por cerca de uma
semana. “Dar alguma cor para que pareça mais autêntico.”

“Mesmo? Devo dizer-lhes com que frequência você me fode ou


descrever o tamanho do seu pau?”

Peter sorri com sarcasmo, um pouco de desafio que ele não se


importa de vez em quando. “Se você quiser”, diz ele, recostando-se no
sofá. “Ou você pode dizer que eu faço o café da manhã para você todos os
dias. Não sou especialista em pais, mas isso parece algo que eles
apreciariam mais.”

Mordo outro comentário sarcástico e faço como ele sugere nas


próximas ligações, contando aos meus pais sobre algumas das pequenas
coisas que Peter faz por mim. Não pode ser nada que aponte para a nossa
localização, então fico com coisas mais pessoais, como o fato de que ele é
um ótimo cozinheiro e sua massagem nas costas é incrível. Tampouco é
mentira; agora que estamos instalados no novo lugar, Peter está fazendo
novamente refeições gourmet para mim, e estou além de mimada com
massagens diárias. Acho que é porque ele não consegue tirar as mãos de
mim e, como não podemos fazer sexo vinte e quatro por sete, ele resolve
tocar em mim de outras maneiras, aproveitando todas as oportunidades
para me acariciar e esfregar da cabeça aos pés. Especialmente nos
pés. Estou começando a suspeitar que meu sequestrador possa ter um
pouco de fetiche por pés.
Não digo aos meus pais sobre os problemas nos pés, apesar da minha
pergunta sarcástica, não me sinto à vontade para discutir qualquer coisa
remotamente sexual com eles e também fico quieta sobre as maneiras mais
íntimas que ele cuida de mim, como escovar meu cabelo e me lavar no
chuveiro. É como se eu fosse sua boneca humana, algo entre uma criança e
um brinquedo sexual. Ele fez isso em casa também, mas eu trabalhava
tanto que era uma coisa ocasional. Agora, no entanto, é uma ocorrência
diária, e embora eu provavelmente deva achar esse tipo de atenção
perturbadora, gosto demais para me opor.

Tenho sido auto suficiente e independente por tanto tempo que é bom
deixar Peter me mimar.

Naturalmente, nenhuma quantidade de mimos pode compensar a


perda de minha vida e o trabalho que me definiu. Eu passei de um cenário
em que trabalhava mais de oitenta horas por semana para o total lazer, e
não tenho ideia de como preencher esse tempo extra. Peter pega um pouco
disso, agora que estou sempre ao alcance dele, ele me fode duas ou três
vezes ao dia e com o ar fresco da montanha durmo mais, pelo menos nove
ou dez horas por noite. Eu também compartilho refeições agradáveis com
Peter e seus homens, e, se o tempo permite, eu faço longas caminhadas
com ele ou com qualquer pessoa que ele designar para me proteger.

Não é uma rotina ruim, e nós temos livros e filmes, mas depois de
três semanas estou pronta para escalar paredes.

“Você não se sente enclausurado?” Pergunto a Peter durante uma de


nossas caminhadas matinais. O ar está frio, mas, felizmente, não é nem
chuvoso nem ventoso, como foi o caso nos últimos dias, outro motivo para o
meu agravamento. “Quero dizer, eu sei que você trabalha no seu laptop,
mas ainda assim...”

Peter encolhe os ombros largos. “Estou gostando desse tempo de


inatividade. São raros, então meus rapazes e eu aproveitamos enquanto
podemos. Temos um grande trabalho chegando, então não ficaremos
descansando por muito tempo.”

“Que tipo de trabalho?” Pergunto, impulsionado por uma curiosidade


sombria. “Outro assassinato?”

Ele para e me dá uma olhada. ”Você realmente quer saber?”

Hesito e então aceno. ”Sim. Eu quero.” Não é como que eu ignore o


que Peter é ou o que ele faz. Experimentei suas habilidades letais em
primeira mão na noite em que nos conhecemos. Se algum traficante pagar a
ele e sua equipe uma quantia obscena para eliminar outro criminoso
perigoso, eu também poderia ouvir sobre isso.

No mínimo, pode ser interessante, uma espécie de thriller de terror


com James Bond.

“Há um banqueiro na Nigéria que pisou em alguns calos”, diz Peter,


estendendo a mão para pegar minha mão enquanto ele recomeça a
andar. ”Um desses calos nos contratou para cuidar do problema.”

“Um banqueiro? Isso não parece com alguém que precisa do seu
conjunto de habilidades.” Ou como o cruel lorde do crime que imaginei. Não
que eu me iluda que o trabalho de Peter seja algo nobre. Ainda assim, uma
parte ingênua de mim deve esperar que a maioria de seus alvos sejam pelo
menos um pouco merecedores do que vem pelo caminho deles.

“Esse banqueiro em particular tem um pequeno exército e é dono da


pequena cidade em que ele mora, assim como a maioria das forças policiais
locais”, explica Peter enquanto seguimos em direção a uma trilha estreita
que eu nunca havia notado antes. “Por todas as indicações, ele é um dos
homens mais ricos da Nigéria, e ele não chegou lá fazendo empréstimos de
carro.”

“Oh.” Reajusto minha imagem mental do homem. ”Então ele não é


um cara legal?”

Um sorriso sem humor pisca no rosto de Peter. ”Você poderia dizer


isso. Na última contagem, ele assassinou mais de uma dúzia de seus
oponentes e torturou ou mutilou pelo menos outros cinquenta, sem contar
suas famílias. O homem que nos contratou é primo de uma das
vítimas; sua filha foi estuprada por um grupo para ensinar uma lição à sua
família.”

Horror constringe minha garganta, e de repente estou brutalmente


feliz por Peter ir atrás desse monstro.

Fico feliz e irracionalmente preocupada, porque isso é muito mais


perigoso do que eu pensava.

“Como você vai...?” Paro sem saber como expressá-lo.

“Vou até ele?”

Aceno, olhando para o rosto divertido dele. “Sim.”


“Do modo habitual. Descobriremos tudo o que pudermos sobre sua
segurança, aprenderemos suas rotinas e, quando chegar a hora,
atacaremos.”

Empurro a bolha irracional de medo no meu peito. Peter e seus


homens são altamente treinados e, de qualquer forma, é estúpido me
preocupar com a segurança do assassino que me sequestrou. Em vez disso,
concentro-me no que é mais relevante para minha situação. “Então você vai
ficar fora por um tempo?”

“Não, a menos que algo dê errado. Anton e Yan voarão na próxima


semana para reconhecimento, mas Ilya e eu só nos envolveremos nos
estágios finais da operação. Suponho que seja daqui a uma semana ou
duas, e não deverei ficar ausente por mais de dois dias.”

Mastigo o interior da minha bochecha. “E quanto a mim? Você vai me


deixar aqui enquanto vai para a Nigéria?”

“Yan vai ficar para trás com você”, diz Peter, deslizando pela trilha em
direção a uma clareira enquanto eu tento esconder minha decepção. Apesar
do que ele me disse no dia da tempestade, não desisti completamente da
ideia de fuga. Sim, ele me mostrou aquele penhasco e, durante nossas
caminhadas, vi mais alguns penhascos, mas isso não significa que a
montanha inteira esteja intransitável. Pode haver um caminho que Peter
não quer que eu saiba e, com tempo e liberdade suficientes, eu possa
encontrá-lo. O que eu faria depois, como ficaria longe das garras de Peter,
mesmo que tivesse chegado em casa, é um assunto diferente, mas preciso
me concentrar em um problema de cada vez.

Tenho que ter alguma esperança, ou o desespero vai me engolir por


inteiro.

“Você não precisa de toda a sua equipe?” Pergunto, fazendo o meu


melhor para soar um pouco interessada. “Eu pensei que vocês operassem
como uma unidade.”

“Nós fazemos, mas vamos nos ajustar.” Peter me lança um olhar


sarcástico quando entramos na clareira. “Não se preocupe, ptichka. Não
vamos deixá-la encalhada aqui sozinha.”

Não respondo, porque não tem sentido e porque chegamos ao nosso


destino: um penhasco com uma vista magnífica do lago abaixo.

“Uau.” Exalo, observando o cenário deslumbrante quando paramos a


poucos metros da borda do penhasco. “Que lindo.”
Depois da chuva dos últimos dias, o ar é cristalino e o céu é de um
azul pálido perfeito, sem uma nuvem à vista. Na ausência de vento, o lago
abaixo de nós é tão quieto que parece um espelho gigante, refletindo as
majestosas montanhas que o cercam.

Se não estivesse aqui contra a minha vontade, eu pensaria que é o


lugar mais bonito da Terra.

“Sim, lindo”, Peter concorda, sua voz estranhamente rouca quando


sua mão aperta a minha, e viro para ver seu olhar metálico queimando de
fome. Meu coração salta uma batida enquanto responde a ondas de calor
através do meu corpo, afugentando o frio de alta altitude.

É sempre assim agora. Um olhar, um toque e eu sou um caso


perdido. Mesmo quando estamos apenas de mãos dadas, meu coração bate
um pouco mais rápido, e quando ele olha para mim assim, meus ossos
ficam moles e líquidos, meu corpo acelerado com a excitação.

Ruborizando, puxo minha mão de seu aperto e dou um passo para


trás para evitar o balanço na direção dele. Nós fizemos sexo menos de duas
horas atrás, e ainda estou dolorida. É perturbador quanto eu o quero e o
pouco controle que tenho sobre minha resposta. A química entre nós
sempre foi explosiva, mas desde aquele boquete, há algo diferente no meu
desejo, algo que parece estar enraizado no cenário errado de tudo isso.

Não. Forço o pensamento para longe, recusando-me ceder a ele. Peter


esta errado. Não quero ser sua cativa. Este não é um jogo sexual que
estamos jogando; é minha vida, meu futuro. Tudo pelo que trabalhei se foi,
roubado pelo homem que olha para mim com aqueles ardentes olhos
prateados. Quaisquer que sejam os desejos torcidos que ele despertou em
mim, nunca ficarei bem com esse relacionamento forçado.

Não posso estar.

No entanto, quando ele me alcança, puxando de volta para ele, não


resisto. Não luto quando ele inclina a cabeça e esmaga seus lábios contra os
meus. O fogo que varre minhas veias queima toda a razão, toda a
moralidade e bom senso. Meus dedos emaranham-se em seus cabelos, meu
corpo se molda contra o dele, e quando ele me apóia contra uma árvore, eu
desisto e abraço a escuridão, deixando meu próprio monstro interno vagar
livre.
22

Peter

Enquanto os preparativos para o trabalho na Nigéria aumentam, me


vejo procurando Sara com crescente desespero, minha necessidade dela
está fora de controle. Quando não estou treinando com meus homens ou
trabalhando na logística da missão, estou com ela ou pensando nela. É
como um vício, esse anseio que nunca desaparece, e a pior parte é que, não
importa o que eu faça, não consigo levar Sara a bordo.

Não posso levá-la a aceitar uma vida comigo.

Não é que ela lute fisicamente. Pelo contrário, ela responde sempre
que eu a toco, e em seus olhos, vejo a mesma fome, a necessidade que está
me queimando vivo. Ela pode negar, mas ela gosta quando sou áspero na
cama, até mais do que quando sou gentil. Quando tomo o controle, isso a
liberta, alivia o tormento de sua culpa e desliga seu cérebro
hiperativo. Nossos desejos se complementam, nossa conexão ferve com o
calor escuro, mas mesmo quando seu corpo abraça o meu, sinto o frio de
sua distância mental, as tentativas de me manter longe.

Em algum nível, entendo isso. A tirei de sua vida, de sua família e do


trabalho que ela amava. Incomoda-me, essa última parte, porque sei o
quanto da identidade de Sara foi amarrado em ser uma médica de
sucesso. A música pode ter sido sua paixão e medicina a escolha
pragmática, aprovada pelos pais, mas ela ainda gostava de sua ocupação. A
via toda vez que ela chegava em casa, cansada e ao mesmo tempo alegre
com o desafio de trazer vida a esse mundo e curar os males de seus
pacientes. Agora ela parece perdida, quebrada de alguma forma indefinível,
e eu odeio isso.

Minha ptichka adora ajudar as pessoas, e eu tirei isso dela.

Para animá-la, decidi arranjar alguns instrumentos musicais e um


equipamento de gravação na próxima viagem, então Sara pode gravar a si
mesma cantando junto com algumas de suas canções pop favoritas. Eu
também convoco Ilya para me ajudar a converter uma parte da sala de estar
aberta no andar de baixo em um estúdio de dança, no caso de Sara querer
dançar salsa ou balé novamente.

“O que você está fazendo?” Sara pergunta quando ela nos vê


colocando a parede, e explico minha ideia para ela. Ela não parece muito
animada, mas, por outro lado, ela raramente fica ultimamente.

É como se alguma centelha interna estivesse apagada e não sei como


trazê-la de volta.

“Isso é fodido, cara”, Ilya resmunga quando Sara vai para cima depois
de outra ligação com os pais, os ombros rígidos e os olhos cor de avelã
cheios de lágrimas. “Sério, essa garota não merece isso.”

Atiro-lhe um olhar sombrio e ele se cala, mas sei que ele está certo.

Estou destruindo a mulher que amo e não posso parar.

Não importa o que, não posso deixá-la ir.

No momento em que Anton e Yan voltam de sua missão de


reconhecimento, o estúdio de dança precisa apenas de espelhos, e eu
resolvo pegá-los no vôo de volta da Nigéria, junto com os instrumentos
musicais e o equipamento de gravação. Também baixo milhares de vídeos
de música popular para um iPad com acesso à Internet e dou para Sara,
algo pelo qual ela me agradece, ainda que com entusiasmo silencioso. Está
chegando ao ponto em que quase preferia que ela lutasse ativamente
comigo, como nos primeiros dias depois que a levei.

Não pela primeira vez, penso na pílula do dia seguinte que dei a ela e
nos preservativos que continuamos a usar. Talvez tenha sido um erro
escutar os remanescentes da minha consciência e ceder aos pedidos de
Sara a esse respeito. Quando seu período chegou há duas semanas, senti
como se tivesse perdido alguma coisa, e não importa o quanto eu tente
forçar a ideia de Sara com um filho para fora da minha mente, eu não
consigo parar de pensar nisso.

Não consigo parar de querer isso.

Minha passarinha, grávida. Posso imaginar isso claramente quando


olho para ela, a barriga inchada e os seios cheios e maduros, o brilho da
vida se desenvolvendo dentro dela... seus belos mamilos ficando mais
sensíveis, seu corpo esguio exuberante e macio, e quando a criança nascer,
ela adoraria.
Ela cuidaria do nosso bebê, do jeito que minha mãe biológica nunca
se importou comigo.

É tentador e o desejo me atormenta mais a cada dia. Aqui em cima,


Sara está completamente em meu poder. Se eu deixasse os preservativos
fora, não haveria nada que ela pudesse fazer, nenhuma pílula do dia
seguinte ela poderia conseguir de algum lugar sozinha. Ela teria meu filho e
adoraria, e um dia, ela cresceria para me amar também.

Nós seríamos uma família, e finalmente eu realmente a teria.

Ela seria minha, e ela nunca iria querer sair.

Na noite anterior que Ilya e eu partimos para a Nigéria, faço um


jantar especial para Sara e a equipe, preparando os pratos favoritos de cada
um, junto com algumas receitas japonesas que estava ansioso para
experimentar .

“Por que não comemos assim todos os dias?” Anton


reclama, pegando uma segunda porção de vinegret, − uma salada russa
tradicional à base de beterraba. “Sério, cara, você precisa melhorar. Tudo o
que tivemos ontem foi arroz e peixe.”

Mostro o dedo, e os gêmeos Ivanov riem antes de devorar seu prato


favorito − espetos de cordeiro feito da maneira georgiana, com um molho
picante. Até Sara sorri enquanto carrega seu prato com um pouco de tudo,
incluindo minha tentativa de verduras tempurá.

Enquanto comemos, os rapazes e eu discutimos um pouco da


logística do trabalho, e Sara calmamente escuta como é hábito dela durante
as refeições. A distância que ela mantém de mim se estende aos meus
homens; ela raramente fala com eles, pelo menos quando estou por perto. O
único que ela parece gostar é de Ilya, e mesmo com ele, ela é reservada, sua
maneira educada, mas longe de ser calorosa. Acho que ela se sente
desconfortável com meus colegas de equipe; ou isso, ou ela os odeia por
serem meus cúmplices.

Não me importo com a atitude dela em relação a eles. Na verdade, eu


prefiro isso. Nas últimas seis semanas, peguei todos os três de olho em Sara
com vários graus de interesse, e eu quase não parei de pensar em cortar
suas gargantas. Eu sei que para eles não significa nada olhando, qualquer
macho de sangue vermelho apreciaria a beleza elegante e graciosa de Sara,
mas ainda estou tentado a matá-los.

Ela é minha e eu não compartilho. Nunca.


De qualquer forma, estou feliz que seja Yan quem vai ficar para
trás. Dos quatro de nós, ele tem a cabeça mais legal, e embora eu confie em
todos os meus três companheiros de equipe, eu tenho a maior confiança no
autocontrole de Yan. Ele não tocaria em Sara, não importa a tentação, e é
exatamente disso que preciso.

Tenho que saber que ela está guardada com segurança, para que eu
possa me concentrar no trabalho.

“Então, e as pessoas da cidade?” Yan pergunta enquanto Ilya


descreve nossa rota de fuga após o ataque. Todos nós estamos falando
inglês por respeito a Sara, e para minha surpresa, vejo seu rosto ficar
pálido enquanto explico sobre as bombas que planejamos lançar como
uma distração.

Se não soubesse, pensaria que ela está preocupada conosco.

Passamos pela maior parte da logística dos bombardeios e estamos


no meio de discutir planos de contingência quando Sara se levanta
abruptamente, a cadeira raspando no chão.

“Por favor, desculpe-me”, diz ela em voz trêmula, e antes que possa
impedi-la, ela corre para a escada e desaparece no andar de cima.
23

Sara

Sinto-me doente, literalmente doente de ansiedade. Meu estômago


está doendo e parece que um caminhão passou por cima do meu
peito. Desde que Peter me contou sobre o banqueiro nigeriano, tento não
pensar no perigo, mas hoje à noite, ouvindo os homens falarem sobre a
insana segurança no complexo do banco e o que eles farão no caso de um
deles ferido ou morto, eu não podia mais ignorar isso.

Amanhã, Peter e seus colegas de equipe enfrentarão um monstro em


seu esconderijo fortemente guardado, e não há garantia de que eles sairão
vivos.

Trancando-me no banheiro, corro para a pia e espirro água fria no


rosto, tentando respirar através do aperto sufocante na garganta. Parece
um ataque de pânico, só o medo que estou sentindo não tem nada a ver
com a minha própria situação, uma situação que poderia, de fato, ser
resolvida com morte de Peter.

Uma bala no cérebro ou no coração foi o que ele me disse uma vez
que seria necessário para ele me deixar em paz. E eu sei que é
verdade. Enquanto meu torturador estiver vivo, nunca me
livrarei dele. Mesmo que conseguisse escapar, ele viria atrás de mim. Então,
espero que ele seja morto, baleado ou explodido por uma dessas
bombas. Então seus companheiros de equipe poderia me levar de volta para
casa, e minha antiga vida poderia ser retomada.

Poderia ter tudo de volta se ele estivesse morto.

É o que eu deveria querer, mas em vez disso, pavor e ansiedade me


consomem. O pensamento de Peter ferido de alguma forma é insuportável,
ainda mais hoje do que a noite em que ele me roubou. Nas últimas seis
semanas, fiz tudo que podia para conter minhas emoções, para responder a
ele apenas de maneira física, mas claramente falhei.
Quaisquer sentimentos bagunçados que eu tenha desenvolvido pelo
assassino do meu marido ainda estão lá; pelo contrário, eles cresceram
durante o meu cativeiro.

Sentindo-me cada vez mais doente, pego uma toalha e esfrego no meu
rosto molhado. Meu estômago é um nó gigante, e posso sentir o sangue
pulsando nas minhas têmporas enquanto arraso a respiração rasa em
minhas costelas apertadas. O rosto refletido no espelho do banheiro é
branco como giz, com manchas vermelhas onde esfreguei muito
bruscamente com a toalha.

Amanhã, Peter pode ser morto.

“Sara?” Uma batida na porta me assusta, e deixo cair à toalha,


girando para enfrentar a porta.

“Ptichka, você está bem?” A voz profunda de Peter mantém uma nota
de preocupação.

Meus pulmões ainda não estão funcionando corretamente, mas


consigo engolir em seco e sufoco: “Estou bem. Apenas um segundo.”

Agarrando a toalha do chão com as mãos trêmulas, jogo-a no cesto de


roupa suja no canto e aliso as palmas das mãos sobre o cabelo, tentando
me acalmar. Meus ataques de pânico quase desapareceram nas últimas
semanas, e não quero que Peter saiba que me desvendei apenas de ouvir
sobre os perigos que ele enfrentará.

Respirando fundo várias vezes, ando até a porta e a destranco. Peter


imediatamente entra, uma careta preocupada franzindo a testa enquanto
seu olhar me revira em busca de ferimentos.

“O que aconteceu? Você está bem?”

“Sim, desculpe. Só tenho uma dor de estômago”, digo com uma voz
quase firme. “Estou bem, no entanto.”

A carranca de Peter se aprofunda. ”É aquela época do mês?”

“Não, apenas...” Paro e faço alguns cálculos mentais. Para minha


surpresa, ele está certo. Meu último período foi quase quatro semanas
atrás, o que explica um pouco do que estou sentindo.

“Na verdade, sim”, digo, aliviada por pegar a desculpa. “Eu não
percebi isso, mas sim, deve ser isso.”
Alguma da tensão deixa o rosto de Peter. “Minha pobre
ptichka. Venha aqui.” Estendendo a mão, ele me puxa para o seu abraço, e
envolvo meus braços ao redor de sua cintura, respirando seu perfume
quente enquanto ele acaricia meu cabelo. O pior do meu pânico está
diminuindo, a sensação sólida e musculosa dele diminuindo minha
ansiedade, mas o temor de amanhã se recusa a ir embora.

E se ele for morto?

“Você quer se deitar?” Peter murmura depois de um momento, se


afastando para olhar para mim, e balanço a cabeça. Meu peito ainda está
muito apertado, e meu estômago está doendo de verdade, mas ficar sozinha
com minha preocupação só agravaria a situação.

Saindo de seu aperto, eu consigo um pequeno sorriso. “Estou


bem. Desculpe se arruinei o jantar. Tudo estava delicioso.”

Ainda há traços de preocupação em seu olhar, mas ele concorda,


aceitando minhas palavras sem questionar. “Você quer alguma
sobremesa?”, Ele pergunta. “É torta de maçã. Eu posso trazer aqui para
você, se não está se sentindo...”

“Não, eu vou descer. Tenho que tomar um Advil de qualquer


maneira.”

Respirando fundo, saio do banheiro, determinada a fazer o que for


preciso para me distrair dos pensamentos sobre o amanhã.
24

Peter

Quando chegamos à cozinha, o comportamento de Sara muda


repentinamente, como se alguém tivesse desligado um interruptor, ligando
uma personalidade diferente. Uma espécie de energia frenética parece tomar
conta dela, e depois de engolir dois Advils, ela começa a correr pela cozinha,
guardando as sobras e pegando pratos limpos para a sobremesa com a
velocidade de alguém correndo para pegar um trem.

“Eu pego isso, ptichka. Apenas relaxe”, digo a ela, guiando-a para sua
cadeira quando ela tenta tirar a torta do forno sem luvas. “Você não está se
sentindo bem, então apenas relaxe.”

“Estou bem”, ela protesta, mas a ignoro, cuidadosamente tirando a


torta do forno e levando-a para a mesa enquanto os caras assistem a coisa
toda em confusão.

Sara fica parada por alguns instantes, me deixando cortar a torta em


cinco pedaços, e então ela pula de novo. “Aqui, deixe-me servi-lo”, diz ela,
agarrando o prato de Ilya. Então, aparentemente percebendo que não tem
os utensílios certos, ela corre até a gaveta de utensílios na cozinha e retorna
com uma espátula.

Desta vez, deixei-a fazer o que queria, embora eu não tenha ideia do
que aconteceu com ela. Seus olhos estão muito brilhantes, febris com
alguma excitação reprimida, e seu rosto ainda está pálido demais. Talvez ela
esteja adoecendo? Mas então ela deveria estar cansada, não correndo em
um frenesi.

“Aqui”, diz ela, empurrando a torta na frente de Ilya. ”Você quer mais
alguma coisa? Como chantilly?”

“Hum, não, obrigado.” Meu companheiro de equipe pisca para


Sara. “Estou bem.”

Ela dá a ele um sorriso brilhante e pega o prato de Anton em


seguida. Colocando uma fatia de torta nela, ela entrega o prato para ele, e
depois faz o mesmo para Yan e eu antes de pegar um pedaço de torta para
si mesma.

Sentando-se, ela enfia um garfo na fatia e olha para cima,


examinando nossos rostos confusos.

“Então”, ela diz em uma voz tão alegre que eu mal a reconheço, “vocês
têm torta de maçã na Rússia também, ou isso é mais uma coisa
americana? Vocês sabem tão americano quanto torta de maçã”?

Yan se recupera primeiro. ”Nós temos torta de maçã”, diz ele com um
sorriso divertido. “Não parece exatamente assim, mas fazemos tortas e
pequenos bolos −pirozhki,− recheadas com maçãs e frutas silvestres, além
de carne, batatas, cogumelos, repolho, cebolinha e ovos.”

“Repolho, cebola verde e ovos?” Sara franze o nariz. ”Mesmo?”

“Bem, não juntos”, esclarece Yan. “São ovos e cebolas verdes ou


repolho. Ah, e cogumelos também podem ser com cebola e queijo.”

Sara inclina a cabeça, olhando-o com interesse. “Oh sim? De que


outros tipo de assados os russos gostam.”

“Oh, existem muitos”, diz Anton, entrando na


conversa. Inconscientemente, Sara mencionou a maior fraqueza de meu
amigo, doces e assados e Ilya e eu trocamos olhares exasperados enquanto
ele lança em uma longa lista de seus bolos e doces favoritos, descrevendo
cada um deles em detalhes indutores de baba.

“Uau” Sara diz quando ele faz uma pausa para recuperar o
fôlego. “Peter, você sabe como fazer tudo isso?”

“Alguns”, digo, largando meu garfo. “Se você quiser, posso tentar
minha mão no Napoleon quando voltarmos, essa é a versão russa do mille-
feuille, o creme de múltiplas camadas que Anton estava lhe contando.”

“Sim, por favor”, responde Anton, embora eu não estivesse falando


com ele. “Como os americanos dizem isso? Por favor, com uma cereja no
topo?”

Ilya e Anton riem, mas o rosto de Sara aperta por uma fração de
segundo. No momento seguinte, porém, ela se junta a eles em gargalhadas,
que fico pensando se imaginei. Não que isso importe, seu comportamento é
bastante estranho.
Enquanto comemos sobremesa e bebemos chá − uma tradição russa
que os caras contam a Sara − eu a observo, tentando descobrir o motivo de
sua súbita animação. É como se uma pessoa diferente assumisse o corpo
de Sara. Ela está brincando e rindo com meus homens, como se ela não se
importasse com o mundo. No entanto, debaixo da mesa, ela está se
mexendo na cadeira e segurando o braço em volta do estômago, um sinal
claro das cólicas que a atormentam.

Isso me incomoda, esse quebra-cabeça, e quando a torta de


desaparece, digo aos caras para cuidar da limpeza. Sara salta para ajudá-
los, mas pego seu pulso antes que ela possa começar a correr de novo.

“Venha”, digo. “É hora de dormir.”

Ela não oferece nenhuma objeção, mesmo que seja apenas nove
horas, e quando chegamos ao quarto, ela começa a se despir sem sugerir,
seus olhos ainda brilhando com aquela luz febril.

Minha resposta física é instantânea. Assim que ela tira a blusa e


desabotoa o sutiã, meu pau fica duro como uma rocha e arrepios de calor
percorrem minha pele. E quando ela deixa o sutiã cair no chão antes de sair
da calça jeans, meu coração começa a bater contra as minhas costelas. O
que mais me excita, no entanto, é que ela segura meu olhar por toda parte,
o brilho febril nas profundezas da aveleira se transformando no brilho
sedutor do desejo.

Sua tanga é a última, e então ela vem em minha direção, seus


quadris esbeltos balançando com graça inconsciente.

Impossivelmente, endureço ainda mais, e é preciso tudo que eu tenho


para não agarrá-la quando ela para na minha frente, suas mãos magras
alcançando o botão superior da minha camisa.

“Eu pensei que você não estava se sentindo bem.” Minha voz está
rouca, cheia da luxúria que me atravessa em ondas selvagens. ”Ptichka,
você não precisa...”

“Shhh.” Estendendo a mão, ela pressiona um dedo delicado nos meus


lábios. ”Eu não quero falar.”

Meu batimento cardíaco ruge em meus ouvidos quando ela abaixa a


mão e começa a trabalhar nos botões da minha camisa. É a primeira vez
que Sara inicia o sexo comigo assim, e quando seus dedos roçam minha
pele, o calor dentro de mim se torna vulcânico, o desejo de foder tão forte
que minhas mãos se fecham em punhos. Ela está trabalhando com
requintado concentração, o lábio inferior sexy dobrado entre os dentes e seu
cabelo cai em ondas grossas, brilhantes em torno de seu rosto, e eu
literalmente tremo com a necessidade de alcançá-la, agarrá-la e levá-la,
uma e outra vez.

Ainda não me movo. Não posso. Seu toque voluntário é um presente


que não esperava esta noite, nem sequer ousava esperar. Eu não sei o que
está passando por sua cabeça ou porque ela está fazendo isso, mas não vou
protestar.

Terminando com os botões, Sara tira a camisa dos meus ombros e,


olhando para mim através da franja escura de seus cílios, alcança o zíper
da minha calça jeans.

Seu toque é mais hesitante agora, quase cauteloso, mas isso não
importa. O sangue correndo pelas minhas veias parece lava. Seu corpo nu
está tão perto que eu posso sentir o cheiro dela, senti-la... tudo
menos provar sua doçura na minha língua. Seus mamilos estão apertados e
duros, os globos pálidos de seus seios balançando suavemente enquanto ela
luta com a fivela do meu cinto, e um gemido escapa da minha garganta
enquanto ela libera meu pau latejante e fica em seus joelhos diante de mim.

“Sara...” Mal posso falar enquanto ela embala minhas bolas em sua
palma macia e envolve sua outra mão em torno do meu eixo. Inclinando-se,
ela lambe delicadamente da raiz às pontas, enviando o calor subindo e
descendo pela minha espinha. Minhas bolas se erguem altas e apertadas, e
sei que estou a segundos de distância. Arrastando a respiração, tento
pensar em outra coisa, algo que atrase o explosivo aumento da tensão, mas
ela envolve seus lábios ao meu redor, me levando para sua boca macia e
molhada, e perco todo o controle.

Gemendo, agarro a cabeça dela, enroscando meus dedos em seu


cabelo enquanto empurro todo o caminho, fazendo-a engasgar e sufocar
quando atingi sua garganta. Não é o que eu queria não o que eu pretendia
fazer esta noite, mas o desejo sexual era violento demais potente demais
para resistir. De joelhos, com suas ondas castanhas caindo em suas costas
esbeltas e seus olhos lacrimejantes enquanto eu fodo seu rosto, Sara é a
coisa mais sexy que já vi. E sabendo que ela está lá por sua
própria vontade...

“Foda-se!” O palavrão explode de mim enquanto sua mão aperta


minhas bolas, e o orgasmo ferve, o prazer aumentando fora de
controle. Meus músculos se apertam, minha coluna se curva em êxtase, e
com um grito rouco eu venho, minha semente jorrando direto em sua
garganta.

Ela engole cada gota, chupando meu pau até que amoleça, e o tempo
todo, seus olhos cor de avelã encaram os meus. É como se ela estivesse
bebendo em meu prazer, alimentando-se da minha necessidade por
ela. Isso me lembra da vez em que a castiguei só que esta noite não vejo a
mesma submissão aturdida em seu olhar. Ela está fazendo isso porque ela
quer, não porque eu a quebrei, e quando o último prazer ondulante
desaparece, a puxo para seus pés e a conduzo para a nossa cama,
determinado a fazer as coisas certas.

“Deite-se”, digo a ela, guiando-a para a cama, e ela obedece,


estendendo-se de costas. Seu olhar está sombreado, suas pálpebras meio
abaixadas enquanto ela me observa subir, e eu sei que ela ainda está nas
garras do que quer que a esteja dirigindo esta noite.

O quebra-cabeça me atormenta, mas agora não é hora de persegui-


lo. Ainda estou respirando pesadamente com os tremores do prazer, mas
quero mais. Eu quero prová-la quando ela vier sentir seus braços delgados
em volta de mim. Mais do que uma necessidade sexual, é uma compulsão.

Com Sara, eu nunca consigo o suficiente.

Então me entrego. Com a minha fome mais urgente saciada,


aproveito meu tempo brincando com seu corpo, beijando e acariciando cada
centímetro de sua carne quente e perfumada. Ela é deliciosa, minha Sara,
sua pele pálida, macia e elegante, suas curvas delicadas, mas firmes ao
toque. Seus gemidos, seus suspiros ofegantes, enquanto eu a lambo, eu
daria o mundo para ficar assim para sempre, para continuar ouvindo seus
gritos enquanto ela se desenrolava na minha língua.

Dois orgasmos, três, depois quatro... Perco a conta depois de um


tempo, consumido por ela, viciado em seu prazer. Eu a levo a finalização
com meus dedos e minha boca, e então a tomo gentilmente, consciente
de seu desconforto pré-período. Ela não se opõe, agarrando-se a mim
enquanto balanço cuidadosamente para frente e para trás, e depois que
gozo, caio sobre ela mais uma vez, provando nossa umidade combinada
enquanto chupo seu clitóris. Seus dedos apertando no meu cabelo, sua
respiração ofegante e gemidos implorantes, é como uma droga que eu
exagerei, batendo em seu cheiro e gosto e sensação. E quando ela está
deitada ali, brilhante e exausta, seguro-a em meus braços, sentindo seu
coração bater contra o meu enquanto adormecemos.
25

Sara

Acordo com uma mistura peculiar de bem-estar e mal-estar, e demora


um minuto para lembrar o porquê.

Peter.

Ele partiu para a Nigéria esta manhã depois de fazer amor comigo a
noite toda.

Parece surreal agora, como um sonho do qual estou acordando. Não


posso acreditar que cheguei a ele assim, e então o que se seguiu...
Gemendo, rolo de lado e balanço as pernas para fora da cama. Meu
estômago está se contraindo com força total e, quando chego ao banheiro,
não me surpreendo ao descobrir que meu período está começando. O que
me choca é que novamente nos esquecemos de preservativos na noite
passada, e nenhum alarme tocou em minha mente.

É como se inconscientemente eu desejasse ficar grávida.

Não. Afasto o pensamento horrível. Definitivamente não quero uma


criança assim. Só não estava pensando claramente na noite
passada. Depois de ouvir os homens falarem sobre os perigos que vão
enfrentar, estava tão doente de preocupação, e tão desesperada para me
distrair, praticamente ataquei Peter, seduzindo-o, apesar de que estava me
sentindo uma merda. Tenho certeza que ele teria me deixado sozinha ontem
à noite, ele é sempre atencioso quando me sinto mal, mas precisava de uma
distração, e é exatamente isso que eu tenho. No meu segundo orgasmo,
esqueci tudo sobre a Nigéria e que não me sentia bem, e na quarta, mal
conseguia lembrar meu próprio nome.

Estou precisando desesperadamente de um banho, então ignoro o


desconforto torcido no meu estômago e vou para o banheiro, para lavar da
cabeça aos pés. Me seco, escovo os dentes e volto ao quarto para me
vestir. Para minha surpresa, descubro um copo de água e Advil na cômoda.
Peter deve tê-los deixado lá para mim esta manhã.
Sentindo-me pateticamente grata, engulo o remédio e deito,
esperando o pior do desconforto passar. É estúpido, mas eu já sinto falta do
meu captor... sinto falta de sua atenção e cuidado. Sei que é só porque
estou me sentindo fraca, mas quero ele aqui para que esfregue minha
barriga, para me abraçar e fazer sentir como se eu fosse o centro do mundo
dele.

O quero aqui e não do outro lado do mundo, onde balas voam e


bombas explodem.

Não não não não. Fecho meus olhos, mas é tarde demais. A ansiedade
que pensei ter banido retorna com uma explosão tóxica, o pânico apertando
meu peito e garganta. É estúpido, totalmente irracional, mas não quero ver
meu torturador morto. Não posso nem imaginar isso. Seu impacto na
minha vida é tão absoluto, tão abrangente que não consigo imaginá-la sem
ele.

Não quero imaginar isso.

Meu peito aperta ainda mais, e concentro na minha respiração,


tentando relaxar meus músculos tensos e diminuir meu pulso batendo
descontroladamente. Digo a mim mesmo que Peter ficará bem, que ele pode
lidar com o que vier em sua direção. O perigo é sua zona de conforto,
assassinar é sua profissão escolhida. Não há razão para pensar que algo vai
dar errado, não há razão para imaginar que ele não retornará.

Exceto aquele que ele se machucou trabalhando no México.

Não. Respirando profundamente, afasto o lembrete. É estúpido se


preocupar só por causa de um lapso de uma só vez. Ao longo dos anos,
Peter fez muitos trabalhos perigosos sem se machucar.

Na verdade, ele matou meu marido e seus três guardas sem ter um
arranhão.

Meu estômago se agita, piorando minhas cólicas e minha garganta se


enche de bílis à lembrança. Como eu poderia ter me deixado esquecer,
mesmo que por um instante, que tipo de homem Peter é e o que ele
fez? Aqui em cima desta montanha, minha vida antiga pode parecer menos
real, mas isso não significa que não tenha acontecido.

Isso não significa que o marido eu que amava não existia.

Fechando os olhos, concentro-me em George e nas lembranças felizes


que tivemos juntos. Havia tantas: nossos primeiros encontros, a viagem à
Disney World, os churrascos na casa dos meus pais... meus pais o amavam,
pensavam que eu era o mundo dele, e por anos, eu também. Nós rimos e
choramos juntos, fomos e voltamos. Ele estava lá para a minha formatura
da faculdade, e eu estava lá para a sua. Então as coisas ficaram difíceis:
minha escola de medicina e minha residência, suas viagens intermináveis
no exterior. E ainda assim, estávamos juntos, nosso amor reforçado pelo
conhecimento de que nossas vidas estavam apenas começando, que éramos
jovens e podíamos suportar tudo isso.

Claro, isso foi antes da bebedeira e do humor... antes que seus


segredos destruíssem nosso casamento e trouxessem Peter à nossa porta.

Abro os olhos e olho para o teto, sinto a dor agora familiar da


traição. Eu gostaria de poder esquecer essa parte, fingir que tudo que Peter
me disse é mentira, mas não posso negar os fatos.

O rapaz que conheci na faculdade não era o homem com quem me


casei e, durante anos, não sabia por quê.

Espião, não jornalista. Ainda parece impossível acreditar. Será


que George algum dia iria me contar? Se a tragédia em Daryevo e todas as
coisas que se seguiram não tivessem acontecido, eu saberia sobre o seu
trabalho real? Ou ele teria me mantido no escuro nossas vidas inteiras,
mentindo para mim com um sorriso?

Percebendo que meus pensamentos estão se voltando para a


amargura, tento me concentrar nos momentos felizes, mas é inútil. O que
George e eu tivemos pode ter sido bom uma vez, mas não foi até o fim, e não
posso esquecer isso. Eu não posso apagar a dor e a culpa, a vergonha e o
desespero com que eu lutei quando nosso casamento lentamente
desmoronou esmagado pelo peso de seu vício. Perdi meu marido muito
antes do acidente que quebrou seu crânio, antes de Peter aparecer com
seus planos mortais de vingança.

Eu o perdi, quando Peter perdeu sua família; Eu simplesmente não


sabia disso na época.

Meu estômago ainda está doendo, mas as pílulas estão começando a


fazer efeito, então eu me levanto e começo a me vestir. Não suporto mais
pensar em George, porque até mesmo as lembranças felizes agora estão
maculadas pelo conhecimento de que tudo era mentira, que eu nunca
realmente conheci o homem com quem me casei.

O homem cujo assassino estou preocupada agora.


Desesperada para reprimir um novo surto de ansiedade, pego o iPad
que Peter me deu e ligo um videoclipe, cantando junto com Ariana Grande
enquanto coloco minhas roupas e escovo meu cabelo. A música eleva um
pouco o meu humor, e quando desço, posso cumprimentar Yan, que está
sentado atrás do balcão com um laptop, soando normal digo, “Bom dia.”

“Bom dia”, ele responde, olhando para cima da tela quando começo a
fazer café. Como sempre, o irmão de Ilya está vestido como se trabalhasse
em uma firma de investimentos, seus cabelos castanhos bem arrumados e
seu rosto suavemente raspado. Ele está sorrindo para mim, mas seu olhar
verde permanece frio quando ele diz: “Peter deixou mingau de aveia para
você no fogão.”

“Oh, obrigado.” Meu peito aperta com um calor inquietante quando


eu ando até o fogão e coloco o mingau de aveia em uma tigela. Eu deveria
estar acostumada com isso agora, mas ainda me surpreende como Peter
nunca parece se cansar de cuidar de mim. Esta manhã, de todos os dias,
ele deve ter tido tantas coisas mais importantes em sua mente, mas ele
pensou em mim, deixando-me Advil e agora este café da manhã.

“Alguma novidade?” Pergunto a Yan quando me sento à mesa. “Você


já ouviu alguma coisa deles?”

O russo balança a cabeça. “São mais oito horas antes de eles


pousarem.” Seu tom é leve, mas percebo uma nota de tensão.

De sua própria maneira possivelmente psicopata, ele está


preocupado.

Minha ansiedade aumenta novamente, meu apetite desaparece, mas


eu me forço a comer enquanto Yan volta sua atenção para a tela do
computador. Peter pode ter ido embora por alguns dias ou mais, e eu não
posso passar fome só porque estou preocupada. Também não faz sentido
para mim me preocupar com um homem que deveria odiar, mas estou
desistindo dessa batalha.

Tola ou não, não quero ver Peter ferido ou morto.

Termino minha refeição, subo e me distraio, lendo e assistindo os


vídeos da música que Peter baixou no iPad para mim. Entre isso e algumas
tarefas domésticas leves, mantenho-me ocupada até a hora do almoço,
quando desço novamente.

Não vejo Yan em lugar algum, então ele deve estar em seu quarto ou
treinando em algum lugar fora. Por um segundo, sinto-me tentada a repetir
minha tentativa de fuga, o tempo está muito mais quente agora e, até onde
sei, nenhuma tempestade está chegando, mas decido contra. Eu ainda não
estou familiarizada o suficiente com a topografia desta montanha, e
tropeçar cegamente em penhascos não parece uma ótima ideia,
especialmente quando estou me sentindo uma merda do meu período.

Pelo menos, é o que digo a mim mesma, para explicar por que
empurro todos os pensamentos de fuga para fora da minha mente e abro
outro Advil antes de fazer um sanduíche.

Quando volto para jantar, Yan está lá, terminando uma tigela de
sobras de mingau de aveia e arrumando o que parece um equipamento de
gravação de áudio, com um par de fones de ouvido volumosos sobre as
orelhas com um microfone acoplado que se conecta ao computador.

“Qualquer coisa?” Pergunto, caminhando até a geladeira depois que


eu tomo outro Advil e Yan balança a cabeça.

“Deve ser em breve, no entanto”, diz ele antes de engolir o resto do


seu chá. “Eu aviso você quando eles pousarem.”

“Obrigada”, digo, e me ocupo fazendo vegetais refogados. Eu posso


sentir a tensão se acumulando entre minhas omoplatas, a ansiedade que
lutei durante todo o dia retornando quando corto os vegetais antes de
temperá-los generosamente com molho de soja.

“Você quer um pouco?” Pergunto a Yan quando ele olha para cima
para ver o que estou fazendo, e ele educadamente recusa, colocando os
fones de ouvido para o que parecem ser alguns testes de recepção de
áudio. Ele ainda parece anormalmente tenso, sua expressão severamente
focada enquanto seus dedos voam sobre o teclado do laptop.

Quando termino o refogado, sento-me para comer e observo Yan


secretamente, meu mal-estar crescendo a cada mordida. Pelos meus
cálculos, já faz oito horas desde o café da manhã, e a tensão normalmente
suave que irradia do russo não ajuda.

“Você geralmente mantém contato com eles durante a missão?”


Pergunto quando não aguento mais o silêncio. “Ou você espera que eles
entrem em contato com você?”

Yan olha para cima da tela e remove os fones de ouvido. “Eu


geralmente estou com eles”, diz ele, girando a banqueta para me encarar, e
percebo por que ele parece tão no limite.
Ele está acostumado a estar lá, no meio das coisas, não assistindo do
lado de fora.

“Sinto muito que você teve que cuidar de mim”, digo, empurrando o
meu prato meio comido longe. Eu poderia muito bem tentar conhecer meu
carcereiro remanescente, em vez de ficar obcecado com o destino de
Peter. “Tenho certeza que você deve estar preocupado com o seu irmão.”

Yan encolhe os ombros, uma expressão de diversão legal velando a


tensão em seu rosto. “Ilya pode cuidar de si mesmo.”

“Sim, tenho certeza.” Pegando minha própria xícara de chá, eu


pergunto: “Ele é seu irmão mais novo ou mais velho?”

Sua diversão parece se aprofundar. “Mais velho por três minutos.”

“Oh!’” Eu pisco. “Ele é seu gêmeo?”

Ele concorda. “Um idêntico, se você pode acreditar nisso.”

“Uau. Vocês não são nada parecidos.” Bebendo o chá, estudo suas
feições limpas e vagamente aristocráticas. Agora, que olho mais de perto,
vejo as semelhanças com a estrutura óssea de Ilya, mas também há
algumas diferenças. O nariz de Yan é mais reto, e sua mandíbula
quadrada é mais proporcional, não tão cinzelada quanto a de Peter, mas
ainda forte e bem definida. A maior diferença, porém, é o cabelo.

Yan tem uma cabeça cheia, sem nenhum indício de tatuagens no


crânio à vista.

“Meu irmão teve azar em algumas lutas”, explica ele, percebendo meu
escrutínio. “Teve o nariz quebrado e seu rosto se arrebentou um
pouco. Além disso, ele usou alguns esteróides quando éramos jovens e
estúpidos, queria crescer muito.”

“Entendo.” Esteróides seriam responsáveis por algumas das


diferenças, incluindo o tamanho. Não que o homem sentado diante de mim
seja pequeno de qualquer modo. Ele é mais ou menos da altura de Peter, e
igualmente musculoso. Seu irmão gêmeo, no entanto, é enorme, tão grande
quanto qualquer fisiculturista que eu já vi.

“Ele é seu único irmão?” Pergunto, e Yan acena.

“Sim, somos apenas nós dois.”

Abaixei minha xícara. “Você tem alguma outra família?”


“Não.” Sua expressão não muda; Não há nada que indique nem luto
ou arrependimento. Ele poderia muito bem estar respondendo se ele tem
um par extra de meias.

Quero ir mais fundo nisso, mas há outro tópico que me interessa


mais. “Quando você conheceu Peter?” Pergunto, inclinando-me para frente
nos meus cotovelos. “Vocês trabalharam juntos antes, certo?”

“Sim.” Yan fecha o laptop, girando a banqueta para me encarar


completamente. “Ilya e eu fazíamos parte de sua equipe a três anos antes de
Daryevo.”

A menção da aldeia me faz lembrar as terríveis imagens no telefone de


Peter, e a comida se remexe em meu estômago. “Você os conhecia?”
Pergunto, tentando manter minha voz firme. “Sua esposa e filho, quero
dizer?”

“Não.” Os olhos verdes do russo são tão brilhantes quanto pedras


preciosas e igualmente frios. “Anton é o único que os conheceu. O resto de
nós não sabia que Peter tinha uma família até que eles foram mortos.”

“Oh.” Não sei o que dizer sobre isso. Claramente, Peter não confiava
no homem sentado à minha frente, não o suficiente, pelo menos para
arriscar expor seu mais precioso segredo. No entanto, aqui estão eles,
trabalhando juntos novamente.

“Se eu fosse ele, teria mantido sigilo também”, diz Yan, um sorriso
duro se espalhando em seu rosto, e percebo que ele pegou meu
desconforto. “Nós não fazemos famílias e bebês em nosso mundo.”

“Sério?” Então não era uma questão de confiança, mas um desvio do


estilo de vida aceito por parte de Peter. “Então acredito que nenhum de
vocês já foi casado?”

“Só Peter”, Yan confirma. “E você sabe como isso acabou.”

Engulo o nó na garganta e alcanço meu chá novamente. “Sim. Eu


sei.”

Yan me observa beber o resto do chá antes de dizer baixinho: “Isso


também não vai durar, você sabe.”

Abaixo xícara. “O que você quer dizer?”

“Isso.” Ele acena com a mão, indicando-me e ao nosso redor. “O que


quer que seja não vai durar.”
Olho para ele confusa. “Você quer dizer... ele vai me deixar ir?”

“Não.” O olhar do russo está frio novamente, totalmente ilegível. “Isso


ele não fará. Ele é um homem obsessivo e você é sua obsessão. Ele nunca
vai deixar você ir, Sara. Não a menos que um ou ambos estejam mortos.”

Respiro fundo, mas antes que eu possa responder, algo apita e Yan se
vira, encarando o laptop.

“Eles pousaram”, diz ele, colocando os fones de ouvido. “Agora a


diversão pode começar.”
26

Peter

A primeira parte da operação continua sem problemas. Tão


facilmente, de fato, que fico nervoso. Nunca é um bom sinal quando tudo
acontece conforme o planejado. Sempre há um problema a ser resolvido,
algum tipo de percalço a ser trabalhado. Os obstáculos imprevistos
são esperados, porque nada, é cem por cento previsíveis − e pensar que é,
acreditando que o plano, não importa o quão flexível, responde por todas as
variáveis − é o caminho mais rápido para ser morto.

Então, quando entramos no complexo do banqueiro e silenciosamente


eliminamos o número exato de guardas que planejamos, começo a me sentir
desconfortável. E quando nós nos apoderamos de todas as câmeras,
dando acesso remoto a Yan e seguimos para a suíte do banqueiro sem
encontrar um único membro da equipe se desviando de sua rotina, meu
medidor de perigo fica em alerta máximo, e eu não sou o único.

“Você sente o cheiro, certo?” Anton murmura quando paramos em


frente à porta do quarto.

“Cheiro de que?” Ilya sussurra, cheirando o ar com uma carranca.

“Que a merda está prestes a bater no ventilador”, digo em voz


baixa. “Está muito fácil. Muito parecido com o que planejamos.”

Compreensão ilumina o olhar de Ilya. “Porra.”

Nenhum de nós é supersticioso, mas temos um saudável respeito pela


sorte, e todos nós sabemos que muita sorte pode ser tão fatal quanto um
infortúnio. Um fluxo constante de pequenos obstáculos mantém a mente e
os reflexos agudos, enquanto a navegação suave atrai a pessoa para a
complacência. Não que estejamos sempre relaxados em um trabalho, a
descarga de adrenalina garante que permaneçamos alerta, mas há uma
diferença entre o estado de alerta de batalha regular e uma percepção extra
que acompanha a luta por nossas vidas.
Esse trabalho foi tranquilo até agora, e quando chegamos a um ponto
difícil, o que faremos, − porque a sorte é uma cadela volúvel, − vai ser muito
difícil.

Não há nada que possamos fazer sobre isso, a menos que abortemos
a missão, então gesticulo para Anton se preparar, e Ilya pisa na frente da
porta.

Com um chute duro de seu pé volumoso, a porta voa para fora de


suas dobradiças, caindo no chão. Dentro, há um grito de pânico, e quando
nós três corremos para a sala, vemos nosso alvo no chão, suas dobras
gordas balançando enquanto sua amante nua se debruça atrás da cama.

Os minúsculos olhos de porco do banqueiro são brancos de terror,


seu corpo redondo tremendo enquanto ele se esforça para cobrir seu pênis
flácido com um travesseiro. “Pare! Por favor, posso te pagar. Eu juro, posso
te pagar. Eu vou cobrir o que eles estão te pagando. O que você quer? Cem
mil euros? Meio milhão de dólares? Eu tenho. Tenho o dinheiro, eu juro!”
Vendo que não estamos parando, ele muda do inglês para uma mistura
acentuada de francês e alemão, e depois um dialeto, repetindo
freneticamente a oferta até que Anton o apunhala na garganta para calá-lo.

“O primo de Omuya envia seus cumprimentos”, digo em inglês,


observando o homem se agitar enquanto ele engasga com o sangue jorrando
de seu pescoço. Leva apenas alguns momentos para ele morrer, uma morte
fácil, considerando todas as coisas.

A amante do imbecil interrompe os soluços violentos atrás da


cama. Ignorando o barulho, tiro uma foto do corpo como prova para o
cliente, e depois digo a Ilya em russo: “Amarre-a e vamos embora.”
Normalmente, nós também eliminaríamos a mulher, mas quero uma
testemunha desta vez.

Quero que as autoridades nos procurem na África, longe de Sara e do


Japão.

Arremessando a alça do M16 por cima do ombro, Ilya contorna a


cama e alcança a mulher que chora. Imaginando que ele possa lidar com
isso, vou para a porta, meus instintos de tempestade ainda em alerta
máximo.

De repente, um tiro soa.

Giro ao redor, meus ouvidos soando da explosão, mas é tarde demais.


Ilya está no chão, uma mancha vermelha escura saindo de sua
cabeça.
27

Sara

Ando pelo segundo andar, indo de sala em sala enquanto combato


minha ansiedade. No momento em que a equipe pousou, Yan me disse para
deixá-lo em paz para que ele pudesse se concentrar em fazer sua parte:
monitorar remotamente o complexo do banqueiro em caso de problemas
inesperados. E ele não estava apenas tentando se livrar de mim. Quando
saí da cozinha, vislumbrei várias imagens da câmera de segurança na tela
do computador e o que parecia ser uma visão de um zangão aéreo.

Para me distrair, tentei ler novamente, depois assisti alguns vídeos


musicais, cantando junto com alguns dos meus artistas favoritos. Até fui
ao estúdio de dança inacabado e tentei alguns passos de balé que aprendi
quando criança, junto com alguns alongamentos na barra para aliviar o
aperto induzido pela menstruação na região lombar. Nada disso segurou
minha atenção por mais de quinze minutos, de modo que agora estou
descuidadamente indo de janela em janela, como se, ao olhar para a
escuridão lá fora, eu conseguisse fazer o helicóptero aparecer.

Depois de cerca de duas horas, minhas cólicas pioram e eu sou uma


bagunça de nervos, então eu vou até a cozinha para pegar mais Advil. Yan
ainda está sentado atrás do balcão com o computador, os fones de ouvido
cobrindo as orelhas, mas não há nada legal em sua expressão agora. Ele
está completamente pálido, e linhas de tensão sustentam sua boca fechada
enquanto ele fala com urgência no microfone em russo.

Meu coração para, em seguida, se lança em um pânico galopante.

Algo deu errado.

O medo gelado percorre meu corpo, meu estômago revirando-se com


uma horrível premonição, e mal consigo parar de exigir saber o que
aconteceu. Isso não ajudaria, e eu não quero distrair Yan do que ele está
fazendo. Em vez disso, corro pela cozinha e paro atrás dele, espiando
freneticamente a tela por cima do ombro.
Ele não me dá atenção, todo o seu foco no computador enquanto ele
grita o que soa como instruções. No começo, eu não posso dizer o que está
acontecendo, mas então, em um dos feeds da câmera, eu vejo isso.

Dois corpos estendidos ao lado de uma cama.

Um homem obeso de pele escura, seu corpo nu nadando em uma


piscina vermelha e do outro lado da cama uma mulher nua. Olhando mais
de perto, noto sangue espalhado ao redor dela também.

Ambos estão mortos.

A náusea se eleva em minha garganta e eu coloco minha mão sobre a


boca, tentando permanecer em silêncio. Yan ainda está falando naquele tom
urgente, e em outro feed de câmera, dois homens com equipamentos da
SWAT aparecem em um corredor. Eles estão andando rápido e carregando
um homem grande pelos braços e pernas.

É Peter e Anton carregando Ilya, reconheço com uma mistura de


horror e alívio. A cabeça de Ilya está enfaixada com o que parece ser uma
fronha de travesseiro, mas posso ver o sangue se infiltrando.

O irmão gêmeo de Yan está gravemente ferido, talvez até morto.

Mal ousando respirar, mordo a palma da mão enquanto os vejo em


um corredor. Em mais uma câmera, uma dúzia de homens armados estão
correndo por outro corredor, e eu vejo o alerta furioso em seus rostos
enquanto eles tropeçam em mais corpos. Os outros guardas, talvez? De
qualquer forma, eles se reagrupam rapidamente, continuando pelo corredor
enquanto Yan fala ainda mais urgentemente no microfone.

Peter e Anton desaparecem da visão da câmera, aparece um momento


depois em outro feed, e vejo que estão se aproximando de uma sala de
visitas com uma porta que leva a uma grande garagem. Eles estão todos
correndo, neste momento, o corpo de Ilya balança como uma rede entre
eles, e com um sentimento de estar afundando, percebo o motivo de sua
urgência.

O corredor com os guardas armados leva ao mesmo salão.

É uma corrida com a mais mortal das apostas, e os guardas parecem


estar vencendo.

Devo ter feito um som, porque Yan olha por cima do ombro, sua
mandíbula firmemente apertada enquanto seus olhos se cruzam com os
meus. Ele não diz nada, apenas volta para o computador e continuo
assistindo, incapaz de tirar os olhos do horror que se desdobra a meio
mundo de distância.

No drone feed, duas explosões rasgam uma pequena estrutura ao


lado da casa principal, e os guardas param antes de se separarem em dois
grupos. Um grupo continua em direção à sala de estar, enquanto alguns
guardas correm de volta, em direção às bombas que a equipe deve ter
definido como uma distração.

Ainda assim, o atraso não é suficiente. Os guardas chegam à sala


alguns segundos antes de Peter e sua equipe.

Os russos parecem estar prontos. Ainda correndo, eles balançam Ilya


mais alto, então Peter se agacha, colocando Ilya sobre seu ombro, enquanto
Anton solta o homem inconsciente e agarra seu rifle de assalto. Fazendo
caretas com esforço, Peter se endireita, segurando o imenso volume de Ilya
pendurado em seu ombro, e assisto, aturdida, enquanto ele continua
correndo, firmando o corpo de Ilya com uma mão enquanto ele tira uma
granada do bolso com a outra.

Com todo o som passando pelos fones de ouvido de Yan, não consigo
ouvir a rajada das armas automáticas, mas vejo as balas atravessando as
paredes enquanto os russos entram no salão com os guardas. Dois guardas
são derrubados pelo fogo de Anton, mas o resto se abriga atrás de uma
coluna, e mordo um grito quando Peter tropeça, Ilya quase voando de seu
ombro. No instante seguinte, porém, ele se recupera, agarrando-se a seu
fardo humano, e vejo a resolução selvagem em seu rosto enquanto ele
levanta a granada e rasga o alfinete com os dentes.

Bomm! Um flash brilhante e dois alimentadores de câmera ficam


escuros. Não estou tocando Yan, mas o sinto como se ele tivesse levado um
tiro. Uma corrente de russo desvairado flui de sua boca, enquanto ele bate
no teclado trazendo mais imagens de câmera, e não é até eu ver o
movimento no drone bird’s-eye, que eu respiro fundo e percebo que estou
chorando, as lágrimas deixando uma trilha ardente na minha pele gelada.

Yan deve ter percebido o mesmo movimento, porque ele dá um zoom


no drone, assim que um enorme SUV explode através de uma porta da
garagem que se abre devagar, destruindo um pedaço da porta enquanto ele
se arremessa em direção ao portão de entrada.

Uma respiração soluçante assobia através dos meus dentes e mordo


minha palma novamente.
Pelo menos um deles está vivo e bem o suficiente para dirigir.

Tremendo, vejo o SUV atravessar o portão de ferro em meio a uma


saraivada de balas, depois descendo uma estrada estreita com dois SUVs
em grande perseguição. O drone segue o tempo suficiente para mostrar um
SUV saindo da estrada, como se eles disparassem em seus pneus, mas
depois de mais alguns segundos, os carros desaparecem na distância,
deixando o drone para trás.

Yan murmura o que soa como uma maldição russa e novamente bate
furiosamente no teclado. Uma nova janela aparece, esta com um gráfico de
alimentação de áudio, e percebo que ele deve estar sintonizado em algum
sinal de rádio. Com certeza, um minuto depois, ele continua falando em
russo frenético, e eu exalo uma respiração trêmula.

Alguém nesse SUV deve estar vivo.

É o Peter? Eles estão feridos? Quão longe do avião? Ilya ainda está
vivo? Peter está ferido?

As perguntas ameaçam explodir, mas cubro minhas unhas nas


palmas das minhas mãos e fico em silêncio, sem ousar distrair Yan
enquanto ele pega um mapa e dá instruções rápidas em russo. Sua postura
é tão tensa como sempre, sua atenção totalmente focada na tela, e sei que
ainda estão em perigo.

Isso é, se eles estiverem todos vivos,

Respirando, tento me acalmar, para evitar que as lágrimas


escorreguem pelo meu rosto congelado, mas o medo é forte demais. Estou
doente com isso, envenenada pelo excesso de adrenalina. Nunca conheci
esse tipo de preocupação debilitante por outro. Meu coração bate
violentamente em minhas costelas, cada batida marcando outro segundo de
espera miserável.

Peter tem que estar bem. Ele tem que estar.

Um minuto, dois, três, dez... Olho para o pequeno relógio no canto da


tela enquanto Yan se cala, juntando-me à espera.

Doze minutos.

Quinze.

Dezoito.
Não me movo. Mal respiro.

Vinte.

Vinte e dois.

A postura de Yan muda, assumindo um novo estado de


alerta. Agarrando o microfone, ele fala algumas frases em russo, em
seguida, remove os fones de ouvido e gira para me encarar.

Devastação causada por estresse ainda marcam suas características,


mas a tensão que vi anteriormente se foi. “Acabou”, diz ele. ”Eles estão no
ar, a caminho do Egito. Uma bala atingiu o crânio de Ilya, mas eles pararam
o sangramento e ele já recobrou brevemente a conciência. Com alguma
sorte, ele ficará bem.”

Eu aperto o balcão, me preparando. “E Peter?”

“Ferido e um pouco ensanguentado, mas não corre risco. O mesmo


vale para Anton.”

Eu exalo tonta de alívio, e tiro a umidade do meu rosto com as costas


da minha mão trêmula.

Peter está vivo.

Ferido e sangrando, mas vivo.

Quero afundar no chão, a depressão pós-adrenalina me atingindo


como uma bala, mas me seguro contra o balcão, forçando meu cérebro
sobrecarregado a funcionar. “Então, por que...” Limito minha garganta,
perseguindo a rouquidão da minha voz. “Por que eles estão indo para o
Egito?”

“Ilya ainda precisa de atenção médica, e há uma clínica”, explica


Yan, então fixa seu olhar em mim.

“O quê?” Pergunto meu coração acelerando.

“Você é uma médica”, diz ele, inclinando a cabeça. ”Você não é?”

“Eu… sim.” Ele não sabe disso? “Eu sou licenciada em Obstetrícia e
ginecologia.”

“Você sabe costurar um ferimento?”

Estou começando a ver para onde isso está indo. “Sim, claro. Eu
também fiz turnos na emergência durante a minha residência, mas...”
“Espere ai.” Ele gira para enfrentar o laptop e coloca os fones de
ouvido.

“Espere Yan. Ele precisa de um hospital”, protesto, mas ele já fala no


microfone em russo.

Frustrada, espero que ele termine, e quando ele se vira para mim
novamente, digo-lhe com firmeza: “Esta é uma má ideia. Seu irmão pode ter
uma concussão ou hemorragia interna. Ele precisa de uma tomografia
computadorizada, antibióticos, equipamento médico adequado... Ele...”

“Sobreviveu pior, acredite em mim”, interrompe Yan, com o rosto


decidido. “O que ele precisa é de descanso e recuperação, e não podemos
dar a ele isso na clínica, não com as autoridades prestes a vasculhar o
continente africano atrás de nós. Temos antibióticos e suprimento médico
básicos aqui tem estoque e em todas as nossas casas seguras e agora
também temos um médico.”

Franzo a testa. ”Não, escute. Ainda não é...”

“Você deveria dormir um pouco, Sara”, aconselha Yan, pegando seus


fones de ouvido. “Você parece cansada, e nós precisaremos de você afiada e
descansada quando eles pousarem.”
28

Peter

Sara está de pé ao lado do helicóptero quando pousamos sua figura


esbelta pequena e frágil ao lado da estrutura sólida de Yan. Meu peito
aperta com a visão, meu desejo por ela dolorosamente afiado, e é tudo que
posso fazer para não agarrá-la assim que saímos do helicóptero e nosso pés
tocam o chão. Em vez disso, a primeira coisa que faço ao saltar do
helicóptero é ajudar Ilya a sair. A ferida onde a bala atingiu seu crânio não
está mais sangrando, mas ele ainda está fraco pela perda de sangue e mais
do que um pouco confuso.

Se a amante do banqueiro tivesse usado algo diferente de um revólver


22 com cabo de pérola e tivesse melhor pontaria, estaríamos trazendo-o
para casa em um saco de cadáveres.

Meu ombro sobrecarregado queima e minhas costelas machucadas


doem quando Ilya se apóia em mim, meu colete à prova de balas parou
duas balas durante a nossa fuga, mas não reclamo. Estou com sorte. Porra,
todos nós três somos sortudos. A merda definitivamente atingiu o
ventilador, e foi espetacularmente uma merda. Entre a amante do
banqueiro encontrando o revólver debaixo do colchão e algum guarda
vigilante ouvindo o tiro, nosso caminho para fora do complexo foi tão difícil
quanto o caminho de entrada foi tranquilo.

Em uma escala de um a dez, esse trabalho acabou sendo sete não tão
ruins quantos alguns, mas definitivamente pior que outros.

“Aqui, eu pego ele”, diz Yan, entrando para apoiar Ilya, e vou para o
lado, deixando-o ajudar seu irmão. Anton está saindo do helicóptero atrás
de nós, mas não lhe dou atenção. Ele pegou alguns estilhaços da granada
em seu braço e ombro, mas sei que ele ficará bem. Em vez disso, concentro-
me na única pessoa que não posso viver sem.

Sara

Meu lindo e pequeno passarinho.


O vento está soprando o cabelo castanho ao redor do rosto, o sol
destacando tons de vermelho nas ondas marrons ricas. Seu olhar é solene
enquanto ela olha para mim, seu rosto desprovido de toda expressão. No
entanto, sinto o desejo dela, sinto-o profundamente dentro dos meus ossos.

Ela pode não admitir isso, mas precisa de mim.

Ela sente nossa conexão também.

Cinco longos passos, e a peguei, levantando-a em meus braços


enquanto esmagava minha boca na dela. Atrás de nós, Anton solta um
assobio baixo, mas o afasto. Não dou a mínima para o que os caras pensam
não importa que eles vejam minha fraqueza. Nada importa além do jeito que
seus braços finos se dobram em volta de mim, e a queimadura quente e
doce enquanto provo seus lábios. O sabor mentolado de seu hálito, o
deslizamento escorregadio de sua língua, seu cheiro quente de Sara,
absorvo tudo, preenchendo o vazio dentro de mim, empurrando a escuridão
do meu mundo para longe.

Não a mereço, mas a tenho.

Ela é minha para amar e cuidar, minha para manter.

Não sei quanto tempo a beijo, mas quando levanto a cabeça, os


outros já estão entrando na casa. Relutantemente, coloco Sara de pé, mas
não consigo me soltar dela.

“Você sentiu minha falta, ptichka?” Pergunto baixinho, minhas mãos


descansando em sua cintura flexível. “Você se preocupou quando fui
embora?”

O sol traz as manchas esverdeadas em seus suaves olhos cor de


avelã, destacando o tumulto dentro deles. ”Eu...” Ela lambe os lábios
inchados pelo beijo. ”Não queria ver você morto.”

“Sim, você já disse isso. Mas você sentiu minha falta?”

Ela me dá um olhar torturado, em seguida, empurra meu peito,


saindo do meu abraço. “Tenho que ir”, diz ela com firmeza. “A cabeça de Ilya
não vai se costurar.”

Virando-se, ela corre para a casa e a sigo desapontado e encorajado.

Ela ainda não está pronta para admitir isso, mas mais cedo ou mais
tarde eu vou quebrá-la.
Vou fazê-la me amar, não importa o que for preciso.

Sara segue os gêmeos Ivanov para o quarto de Ilya, e vou para o


nosso quarto tomar um banho antes que desmaie. Eu me lavei no avião,
mas ainda sinto o desejo de apagar toda a violência e a morte.

Não quero que a feiúra do meu mundo manche Sara de qualquer


forma.

Demoro-me mais de vinte minutos para tomar banho e me trocar,


com os efeitos entorpecedores da adrenalina se esgotando, meus músculos
doloridos e costelas machucadas se opõem a cada movimento e quando
chego ao quarto de Ilya, Sara está a meio caminho de seus pontos. Paro na
porta e vejo seu trabalho, apreciando a pequena carranca de concentração
em seu rosto. Eu tinha câmeras instaladas em seu escritório no hospital,
então estou intimamente familiarizado com essa expressão. Ela costumava
usá-lo quando tomava notas sobre seus pacientes ou lia algum novo estudo
que tinha saído em seu campo.

“Passe-me essa gaze”, ela diz a Yan quando termina, e sorrio com seu
tom autoritário. Meu passarinho está em seu elemento e, pela primeira vez
em semanas, vejo uma sugestão de sua faísca anterior. Yan estava certo em
sugerir isso; não apenas ter Sara cuidando da ferida de Ilya ser
infinitamente mais seguro para nós, mas também é bom para o humor dela.

Seus movimentos são rápidos e eficientes enquanto ela enfaixa a


cabeça de Ilya, e meu companheiro de equipe fecha os olhos, parecendo
surpreso quando os analgésicos que lhe demos lhe dão um pontapé inicial.

“Algum outro ferimento?” Sara pergunta, olhando por cima do ombro


para mim e Yan.

“Eu não acho que não, mas vou verificar”, diz Yan. “Eu sei que Anton
pegou um pequeno estilhaço, então você pode querer dar uma
olhada nele. Acho que ele está no quarto dele.”

Ela balança a cabeça e se levanta. “E você, Peter?”

Quero as mãos dela em mim, então dou de ombros e prontamente


estremeço do movimento. “Apenas alguns arranhões e contusões”, digo,
fazendo o meu melhor para parecer impassível, mas com dor.

Yan, que me viu andando com ossos quebrados sem abrir a boca, me
dá um olhar de ‘você está fodidamente brincando?’ Mas é inteligente o
suficiente para não dizer nada, já que Sara franze a testa e se aproxima de
mim.

“Mostre-me”, ela ordena, pegando a minha camisa, mas pego seus


punhos esbeltos antes que ela possa começar um exame ali mesmo.

“Que tal irmos para o nosso quarto para que eu possa me sentar?”
Sugiro, ignorando o olhar aberto de Yan. “Nós estaremos mais confortáveis
lá.”

Sara franze a testa para mim, aparentemente adivinhando minha


agenda. “Eu ainda tenho que examinar Anton. Aqui, sente-se.” Torcendo
seus pulsos para fora do meu aperto, ela pega minha mão e me leva a uma
cadeira no canto enquanto Yan, o bastardo bloqueador de pênis, ri
silenciosamente.

“Deixe-me ver”, diz Sara, habilmente puxando minha camisa para


cima sobre a minha cabeça, e estremeço de verdade quando o movimento
puxa meu ombro dolorido.

Tudo vale à pena, no entanto, porque no momento seguinte, as mãos


frias e gentis de Sara pressionam contra o meu tronco, sentindo cada
costela cuidadosamente em busca de fraturas. Seu toque deve doer, mas
quando seus dedos delicados deslizam sobre meus hematomas, tudo que
sinto é uma onda de calor, misturada com uma tensão dolorida na minha
virilha.

“Isso machuca?” Ela murmura enquanto suas mãos se movem para o


meu ombro, e balanço minha cabeça, hipnotizada pelas estrias verdes em
seus olhos castanhos suaves.

“É apenas” Limpo minha garganta. “Apenas dor muscular, eu acho.”

“Hmm.” Cuidadosamente, ela levanta meu braço e o move em um


movimento circular. “Nenhuma dor mais forte?”

“Não.” Respiro profundamente, inalando seu doce aroma. “Apenas um


pouco de dor.”

“Ok.” Ela gentilmente abaixa meu braço e, para minha decepção, dá


um passo para trás. “Parece que você está certo, são apenas algumas
contusões.”

“Também raspou minhas costas”, digo, virando-me para mostrar a


ela. “Pode ser preciso enfaixar.”
Sara se inclina suas mãos roçando meus ombros antes de descer até
o meio das costas, onde sinto o leve ardor.

“Isso?” Ela pergunta, tocando a área ferida levemente, e eu aceno,


embora a dor seja quase imperceptível.

“Parece que já está cicatrizando, então não precisa de bandagem”,


Sara diz quando volto a encará-la. “Estou supondo que alguém já
limpou isso?”

“Anton fez isso no avião”, admito de má vontade. Pela primeira vez,


gostaria que meu time e eu não estivéssemos tão versados em primeiros
socorros. “Tem certeza de que não precisa enfaixá-lo?”

“Não. Vai curar melhor assim. Algo mais?”

Levanto minhas mãos para mostrar a ela os arranhões no fundo das


minhas mãos, e Yan começa a rir.

“O que você quer que ela faça com isso? Beijá-lo e torná-lo melhor?”
Ele diz em russo, ignorando meu olhar furioso. “Sério, cara, você quer
entrar em brincadeiras médico-paciente, faça isso depois. Deixe-a terminar
de tratar as feridas reais primeiro.”

Sara franze a testa para nós dois antes de perguntar a Yan: “O que
você acabou de dizer?”

“Eu disse a ele que Anton precisa da sua atenção”, Yan responde,
ainda sorrindo. “E que ele não deveria segurá-la com seus jogos sexuais
excêntricos.”

O rosto de Sara se torna rosa, e ela se vira, pegando o kit de


primeiros socorros cheio com gaze e outros suprimentos. “Vou dar uma
olhada em Anton agora”, diz ela rigidamente, e sai correndo da sala sem
olhar em qualquer um de nós.

Levanto e coloco minha camisa. “Eu vou esmagar sua maldita boca
no treinamento amanhã”, digo a Yan severamente. “Assim que eu dormir
um pouco, você vai comer seus próprios dentes.”

O idiota apenas ri enquanto saio da sala, seguindo Sara, e até Ilya


parece ter um sorriso no rosto quando bati a porta ruidosamente atrás de
mim.

É melhor que Anton não aproveite a ajuda de Sara como acabei de


fazer.
Eu matarei esse filho da puta se ele fizer.
29

Sara

Anton tem alguns cortes e feridas superficiais onde o estilhaço da


granada pegou seus braços, mas por outro lado, ele está bem. Mudo as
ataduras dele enquanto Peter olha do outro lado da sala, e então dou a
Anton algumas instruções sobre como cuidar das feridas. Não que o
companheiro de equipe de Peter precise delas; Pelo que posso dizer, esses
homens são profissionais em tratar lesões básicas.

“Obrigado, Dra. Cobakis”, diz ele quando termino, e sorrio para ele.

Até mesmo os assassinos barbudos parecem respeitar a profissão


médica, quando estão feridos, pelo menos.

Peter diz algo afiado em russo e atravessa a sala para ficar ao meu
lado. “Tudo feito?” Ele pergunta irritado, olhando para mim, e igualo sua
carranca com uma das minhas.

“Sim, por enquanto.” Não tenho ideia de qual é o problema dele, mas
ele está agindo como um urso com um espinho em sua pata desde que ele
entrou na sala.

Se não fosse tão ridículo, acharia que ele está com ciúmes da minha
atenção para o amigo ferido.

“Então vamos.” Agarrando minha mão, ele me leva para fora, e meu
pulso salta quando percebo que ele está me levando para o nosso quarto.

“Peter...” Me sinto sem fôlego enquanto tento acompanhar seus


longos passos. “O que você está fazendo? Precisa descansar.”

Ele me lança um olhar de soslaio, mas não para. Sua mandíbula está
bem apertada, seu aperto em mim é tão forte que é quase
doloroso. Rebocando-me, ele entra no nosso quarto e fecha a porta
intencionalmente atrás de nós.

“Peter...” Recuo assim que ele solta a minha mão. “Você está
ferido. Não sei o que você está pensando, mas você precisa...”
Minhas palavras terminam em um suspiro, porque Peter espreita
atrás de mim, fechando a distância entre nós em alguns passos decisivos
antes de me arrebatar contra seu peito. Três segundos depois, eu me vejo
na cama, com duzentos quilos de um homem furioso e excitado deitado em
cima de mim.

“O que você esta...”

Sua boca inclina sobre a minha, dura e com fome, e suas mãos
rasgam minhas roupas, literalmente rasgando minha camisa ao meio. Fico
tensa, assustada com a violência, mas ele não para, trabalhando meu jeans
pelas minhas pernas com movimentos ásperos e bruscos enquanto ele me
devora com seu beijo brutal. Enquanto puxa minha calcinha, penso por um
momento sobre os lençóis e o absorvente ensanguentado que estou
usando, mas seus dedos se apertam com os meus, prendendo minhas mãos
acima da minha cabeça, e esqueço tudo sobre isso, varrida na tempestade
selvagem de sua luxúria.

É impressionante, até mesmo assustador, mas o desejo ainda está lá,


espreitando por baixo do medo. Meus músculos instintivamente se fecham
enquanto a sensação de calor lubrifica meu sexo, a tensão intensificando
minha excitação. Queimo por ele, almejando o perigo e a aspereza, e
enquanto ele mergulha em mim, eu grito do choque, do prazer sombrio e
dor ardente.

Ele faz uma pausa, levantando a cabeça para encontrar o meu olhar,
e lembro-me da nossa primeira vez, do jeito que ele me levou, perdendo todo
o controle. Ele me machucou também, mas ao contrário daquela vez, não
há ódio em meu coração hoje, nem amargura ou vergonha asfixiante. A dor
é boa, afastando os vestígios da minha preocupação, lembro-me de que ele
está vivo.

Lembrando-nos que estamos vivos.

“Sara...” Meu nome é uma expiração rouca em seus lábios, seu olhar
prateado derretido me segurando cativa mesmo quando ele palpita dentro
de mim, seu pau grosso esticando meus tecidos internos, enchendo-me até
a borda até que beira a dor. ”Ptichka, eu preciso tanto de você...”

“E eu preciso de você.” As palavras parecem que vêm do centro do


meu ser, arrancadas de mim pelo fogo impossível que queima em minhas
veias. Não posso mais lutar, não posso fingir que odeio esse homem bonito
e letal. Não é amor entre nós, nem nada que se pareça com amizade, mas
nossa conexão é inegável, a química profunda como osso nos unindo em
espirais de necessidade sombria e atração violenta. Quero isso dele: a
aspereza e a ternura, o medo e o calor que tudo consome.

Ele é tudo que eu nunca soube que precisava, e quando seus olhos
escurecem com a minha admissão, percebo o que isso significa.

Eu sou dele, tão aterrorizante quanto esse pensamento possa ser.

Fechando meus olhos, envolvo minhas pernas em torno de seus


quadris, levando-o ainda mais fundo, e quando ele começa a empurrar, sua
bunda musculosa flexionando contra as minhas panturrilhas, me entrego
ao inevitável.

Eu me dou para ele.


PARTE III
30

Sara

No tempo em que o segundo mês do meu cativeiro transita para o


terceiro, acho que meu ressentimento diminui lentamente, o anseio
desesperado por minha antiga vida se transforma em uma espécie de dor
agridoce. Continuo a procurar oportunidades para escapar, mas alguém
está sempre em casa, me observando, e enquanto os dias escorrem um no
outro, paro de me preocupar com a impossibilidade de fugir e começo a
desfrutar de algumas partes da minha rotina de lazer. O clima quente
ajuda, estamos no mês mais quente do verão agora, e há muito mais a fazer
lá fora e também o fato de que, fora de alguns suprimentos, Peter passou
praticamente todo o tempo comigo.

“Você não tem um trabalho há algum tempo”, comento enquanto nos


dirigimos para um córrego da montanha onde estamos nadando em dias
particularmente quentes. “É por causa do que aconteceu com Ilya da última
vez, ou você simplesmente não recebe clientes com frequência?”

“Somos contatados o tempo todo, mas somos seletivos no trabalho


que fazemos”, diz Peter, levantando um galho baixo para me deixar
passar. “A relação risco-recompensa tem que estar certa, especialmente
agora.”

Ele não diz por que, mas não precisa. Pelo que me disse, e pelo que
consegui de minhas breves conversas com meus pais, as autoridades estão
intensificando sua caça ao homem, jogando todos os seus recursos no
problema que é Peter. Parcialmente, é por causa do meu
desaparecimento; Mesmo com minhas ligações duas vezes por semana,
meus pais estão convencidos de que estou em perigo e passam seus dias
incomodando o FBI por atualizações. Mas a questão principal é o último
alvo na lista de Peter, um ex-general americano que está se mostrando tão
esquivo quanto Peter e sua equipe.

“Wally Henderson está altamente conectado”, Peter me explicou há


algumas semanas. “Ele percebeu o que está acontecendo muito antes de
qualquer outra pessoa na minha lista, e encenou um desaparecimento
digno de Houdini. Até agora, cada informação que nossos hackers seguiram
levou exatamente a lugar nenhum. Até onde podemos dizer, ele não está em
contato com ninguém de sua vida anterior − nem amigos nem colegas de
trabalho nem parentes distantes − ele não fez um único deslize. Nenhuma
aparição na mídia social de seus adolescentes, nenhum uso de cartão de
crédito, nada. Muitos de seus antecedentes são classificados, mas há
rumores de que ele era um agente da CIA em algum momento,
possivelmente um agente de campo trabalhando em segredo. E embora não
tenhamos conseguido descobrir os detalhes de como ele está fazendo isso,
parece que ele está pressionando as autoridades para aumentar a busca de
onde quer que ele esteja escondido.”

“Você acha que ele sabe que é o sobrenome na sua lista?”, perguntei.

“Tenho certeza que sim”, respondeu Peter. “Como eu disse, ele está
conectado, e não apenas em Washington DC. Ele conhece todo mundo na
comunidade internacional de inteligência, e está alavancando isso para me
tornar a maior prioridade que qualquer líder do ISIS.”

Tenho não pensar nas implicações disso, mas é impossível. Não posso
colocar minha preocupação por Peter fora da minha mente. Por todos os
fins, eu deveria torcer pelo general e esperar que as autoridades
encontrem meu captor, liberando-me no processo, mas o pensamento
racional parece estar além de mim nos dias de hoje.

“Por que você não para esses trabalhos completamente?” Pergunto


agora quando nos aproximamos do córrego. “Você já deve ter dinheiro
suficiente.”

Peter me lança um olhar oblíquo. “Não existe dinheiro suficiente


quando você está em fuga”, diz ele e tira sua camiseta, expondo um corpo
musculoso. “Aviões e helicópteros particulares não são baratos.”

Olho para longe para evitar o rubor quando ele sai de sua bermuda,
ele é todo forte por baixo e entra no riacho depois de chutar suas botas. Eu
o vejo nu o tempo todo, mas isso não diminui o impacto de seu corpo
musculoso nos meus sentidos. A natureza abençoou meu sequestrador com
uma estrutura masculina perfeitamente proporcionada, ombros
largos, quadris estreitos, membros longos e de ossos fortes e um intenso
treinamento militar deu a ele um físico que os atletas olímpicos
invejariam. Mas não é sua aparência que enche minhas veias com o calor
líquido; É o conhecimento de que, se eu olhar para ele de uma determinada
maneira, o fogo escuro que sempre brilha entre nós vai sair do controle, e
vou acabar em seus braços, gritando seu nome enquanto ele me leva contra
as rochas escorregadias.

“Você sabe, não precisaria de todos aqueles aviões e helicópteros se


você não se aventurasse tanto”, indico quando ele está coberto com
segurança pela água. Minha voz é mais rouca do que gostaria, mas pelo
menos meu rosto não é vermelho vivo. ”Você estaria mais seguro, e você não
teria que... você sabe.”

“Matar pessoas?”, ele sugere secamente.

“Isso.” Me ocupo tirando a roupa e ficando de biquíni enquanto Peter


se vira para flutuar em suas costas, movendo lentamente os braços para
compensar a corrente. Não gosto de pensar na horrível realidade da
profissão de Peter, não em qualquer tipo de profundidade, pelo
menos. Obviamente, estou ciente de que ele é um assassino, mas enquanto
não me debruçar sobre isso, é mais um conceito abstrato do que algo que
está constantemente na linha da frente da minha mente.

Hoje, porém, não posso tirar isso dos meus pensamentos, e quando
entro na parte mais profunda do córrego ao lado de Peter, eu me pergunto:
“Você gosta disso? É por isso que você faz o que faz?”

Espero que ele negue, reivindique a necessidade ou a educação como


a força motriz por trás de sua escolha de carreira, mas ele se vira para me
encarar, um sorriso sombrio curvando seus lábios enquanto responde:
“Claro que sim, ptichka. Você já imaginou o contrário?”

Olho para ele, minha pele se arrepiando enquanto a correnteza corre


ao meu redor, a água cobre até o meu peito. O riacho que parecia
refrescante um momento atrás agora parece gelo líquido, tão frio quanto
aquela tempestade em que fomos apanhados. “Você gosta de matar?”

Ele balança a cabeça, os olhos brilhantes de prata à luz do


sol. “Morte, como a vida, tem seu próprio fascínio”, diz ele
suavemente, aproxima-se para me puxar contra seu corpo grande e
quente. “É um fascínio sombrio, mas está lá, e todo soldado sabe
disso. Como médica, você deve ter visto isso às vezes: O modo como a dor se
transforma na felicidade do nada, a agonia na paz da inexistência. A morte
acaba com todas as lutas, cura todas as feridas. E lidando com a morte...
não há nada como isso. Você sente: a vulnerabilidade de si mesmo e de
tudo ao seu redor, mas também o poder. O controle. É viciante, uma vez
que você experimente isso... uma vez que você segure a vida de alguém em
suas mãos e a extingue de propósito.”

Suas palavras me inundam como uma onda negra, aterrorizante e


fascinante ao mesmo tempo. Eu já vi um pouco do que ele está falando, até
senti o poder que ele está descrevendo. Só para mim, foi quando eu salvaria
uma vida, não levaria uma. Não consigo imaginar a falta de empatia
necessária para usar esse poder para destruir em vez de curar, para tirar a
própria existência de alguém.

Estava certo em pensar nele como um monstro. Ele é um, mas essa
percepção não me repele como deveria. Sua admissão, por mais horripilante
que seja não diminui o calor crescendo dentro de mim quando ele molda
minha parte inferior do corpo contra a dele, uma mão segurando
meu quadril e a outra alcançando o meu rosto. Ele já está ligado, sua
ereção dura contra o meu estômago, e quando ele se inclina, seus lábios
pressionam avidamente contra os meus, fecho meus olhos e enrolo meus
braços em volta do pescoço musculoso, deixando seu toque queimar o frio
de saber o que ele é.

Estou na cama com o diabo, e neste momento, não há outro lugar


que eu quero estar.

Ao anoitecer, vamos jantar todos os cinco, é como tem sido desde o


trabalho Nigéria, os homens de Peter conversam comigo durante toda a
refeição, dizendo-me um monte de histórias engraçadas sobre a Rússia e
algumas das antigas repúblicas soviéticas. Ainda não estou completamente
à vontade com os mercenários, estou ciente de que eles me matariam ou a
qualquer outra pessoa sem hesitação se Peter pedisse, mas eles têm sido
excessivamente amigáveis desde que tratei os ferimentos de Ilya e Anton. É
durante as refeições como essas que eu aprendo sobre os costumes do país
dos meus captores, eles consideram educado remover os sapatos quando
entram na casa de alguém e até mesmo pegar algumas palavras em russo.

“Vkusno − V-koos-nah” Ilya repete a palavra para mim lentamente,


suavizando o ‘v’, então soa como um ‘f’’. “Isso significa delicioso ou
saboroso. Então, se você quiser dizer a Peter que gosta de algo, pode
apontar para o prato e dizer ‘Vkusno’.”

“Vikusno”, eu tento, apontando para o frango assado que Peter


preparou. ”Fi-koos-nah”
“Não há 'eu' aqui”, diz Yan, parecendo divertido. ”E não enfatize muito
a primeira consoante. Apenas diga rapidamente, sem dividir em três
sílabas. Vkusno . Tente.”

“Vkusno” papagueio com o melhor de minha capacidade, e todos os


caras, incluindo Peter, riem.

“Isso é muito bom, ptichka”, diz ele, cortando mais do frango para
mim. “Eles podem ensinar você falar a russo ainda.”

Sorrio para ele, absurdamente satisfeita, e quando ele me pede para


cantar para eles depois do jantar, como sempre faz sem sucesso, eu
concordo uma vez e canto uma das minhas músicas favoritas de Beyoncé, a
que tenho praticado no estúdio de gravação que ele montou para mim. Os
homens de Peter escutam boquiabertos, e quando termino, eles aplaudem
com tanta força que os pratos chocalham na mesa.

É a melhor noite que tive em meses, e quando Peter me leva para o


andar de cima, eu o abraço voluntariamente, mesmo
ansiosamente. Fazemos amor e depois não penso em George e no fato de
que estou dormindo com seu assassino. Eu nem sequer penso em meus
pais.

Naquela noite, eu pertenço a Peter e a mais ninguém.


31

Sara

Na manhã seguinte, volto a lutar contra meus sentimentos por meu


sequestrador, mas, com o passar dos dias, percebo que estou perdendo a
batalha. Ele está me desgastando, fazendo esquecer por que estou tentando
resistir. Ele não disse que me ama desde que chegamos aqui,
provavelmente porque joguei as palavras na cara dele quando chegamos,
mas não posso negar que, do jeito dele, Peter se importa comigo.

Está lá no jeito que ele olha para mim, o jeito que me toca e me
segura. Mesmo quando o nosso sexo é violento, com a borda mais escura
que ainda me assusta às vezes, ele sempre me acalma depois, me
acariciando até que eu me sinta segura, calorosa, querida e adorada. Seu
poder sobre mim é absoluto, e há algo perversamente reconfortante nisso,
algo que toca em uma parte de mim que eu nunca soube que estava lá.

Não estava insatisfeita com minha vida sexual com George. Ao longo
dos anos, aprendemos sobre o corpo um do outro e sabíamos exatamente o
que fazer para nos conectarmos. Antes de começar a beber, fazíamos sexo
regularmente, pelo menos uma ou duas vezes por semana, e apesar de não
sermos particularmente aventureiros depois do primeiro ano, jogávamos
alguns jogos sensuais de vez em quando, até usávamos alguns
brinquedos. Foi o suficiente, pensei; foi como deveria ser. Eu nunca
imaginei o tipo de química sexual que tenho agora com Peter, nunca pensei
que uma conexão física tão forte pudesse existir.

Ele me fode tanto que estou dolorida na maioria dos dias, seu apetite
por mim nunca desaparece. E eu respondo, embora ele muitas vezes me
esgote com suas demandas sexuais. Eu nunca conheci alguém que tenha
tanta energia. Nas últimas semanas, Peter e seus homens treinam duro
todos os dias, fazendo exercícios por horas com pesos , correndo pela
floresta com mochilas cheias de pedras e praticando combates corpo-a-
corpo que parecem tão mortais quanto suas armas. E ele ainda encontra
forças para fazer caminhadas comigo, nadar quando o tempo permite,
cozinhar para todos e, é claro, fazer sexo comigo duas ou três vezes por dia.
“Você nunca se cansa?” Murmuro enquanto deito sobre o peito dele
uma noite, meu coração ainda está acelerado pela intensidade do orgasmo
que acabei de ter. Normalmente, eu desmaio logo após o nosso sexo à noite,
mas cochilei esta tarde, então, pela primeira vez, posso ficar acordada um
pouco mais.

“Cansar?” Ele se desloca por baixo de mim, posicionando minha


cabeça mais confortavelmente em seu ombro. Seus dedos emaranham
preguiçosamente no meu cabelo, seu batimento cardíaco forte e firme
contra o meu ouvido. “Sobre o que?”

“Apenas fisicamente cansado”, explico. “Você parece inesgotável às


vezes, como um cyborg de algum tipo. Você nunca quer apenas olhar em
volta e não fazer nada? Ou folgar e não treinar com os caras um dia?”

“Estou descansando agora”, ele aponta com diversão. “E eu tenho que


treinar; caso contrário, corremos o risco de sermos mortos.”

Enterro meu nariz contra seu pescoço, respirando seu cheiro quente
e limpo. Estou ficando sonolenta, o leve puxão de seus dedos no meu cabelo
induz um estado de relaxamento quase hipnótico. Suprimindo um bocejo,
murmuro contra o pescoço dele: “Não foi isso que eu quis dizer. Você nunca
se cansa? Como um ser humano normal? Você sabe membros pesados,
músculos doloridos, que não querem se mover?”

Seu peito poderoso arqueia com uma risada. “Claro que sim. Eu só
tenho uma maior tolerância à dor do que a maioria. Não teria sobrevivido à
idade adulta de outra forma.”

Ele diz isso levemente, seu tom ainda divertido, mas meu radar de
revelação sobre Peter fica em alerta máximo. Ele raramente fala sobre sua
juventude, − quase nunca na verdade, − então quando tenho a chance de
aprender algo novo, eu aproveito, mesmo que o que aprendo me horrorize a
maior parte do tempo.

“Como foi?” Pergunto minha sonolência desaparecendo. Levantando a


cabeça de seu ombro, encontro seu olhar na luz fraca que vem da lâmpada
de cabeceira. “Aquela prisão juvenil para a qual você foi enviado, quero
dizer.”

O rosto de Peter aperta, todos os traços de diversão desaparecem


quando ele me tira do peito, virando-se para deitar de lado, de frente para
mim. “Como o inferno”, ele responde sem rodeios quando eu puxo um
travesseiro sob a minha cabeça. “Um inferno frio e sujo, povoado por
demônios em forma humana. Exatamente como você imaginaria um campo
de trabalho na Sibéria.”

Estremeço, lembrando de um livro que li uma vez sobre campos de


prisioneiros durante período soviético, e pego um cobertor para afastar o
frio que se espalha pela minha pele. “Foi como um gulag ?”

Um sorriso sombrio atravessa seu rosto. ”Lá era um gulag em um


ponto, usado para punir, e silenciosamente matar dissidentes e outros
indesejáveis. Quando a União Soviética desmoronou, o local não foi
utilizado por algum tempo, mas aí alguém teve a brilhante ideia de
redirecionar as instalações para um campo de correção
para delinquentes juvenis. E foi assim que Camp Larko nasceu.”

Luto contra o desejo de desviar o olhar da escuridão em seus


olhos. “Quanto tempo você esteve lá?”

“Até os dezessete anos. Então quase seis anos.”

Seis anos a contar de quando ele era apenas uma criança, quase
todos os seus anos de adolescência. Minha mão aperta sob o cobertor,
minhas unhas cortando minha palma. “Por que eles te mandaram para
lá? Não havia outra alternativa?”

Sua boca torce amargamente. “Não na Rússia. Não para um


criminoso órfão como eu.”

“Mas você não tinha nem doze anos.” Não consigo imaginar que
alguém seria tão cruel a ponto de mandar uma criança para o inferno
congelado que eu li naquele livro. “E quanto a escola? Sobre o quê...”

“Oh, eles nos ensinaram.” Seus dentes brilham em outro sorriso sem
alegria. “Nós tivemos exatamente duas horas de instrução por dia. As
outras catorze, no entanto, estavam reservados para o trabalho. Afinal, é
para isso que estávamos lá.”

“Catorze horas? Para alguém que ainda era criança?” Engolindo o nó


na garganta, me forço a perguntar: “Que tipo de trabalho?”

“Mineração, principalmente. Também reparação de estradas e


colocação de tubos. Alguns trabalhos de construção também, mas isso foi
apenas em torno do nosso acampamento, para consertar a merda da era
soviética que estava desmoronando ao nosso redor.”

Olho para ele, sem saber o que dizer. Eu sabia que ele não teve uma
vida fácil, é claro, mas de alguma forma nunca imaginei isso, nunca percebi
que a maior parte de seus anos de formação, uma época em que outros
meninos de sua idade jogavam videogames e desafiavam seus pais no toque
de recolher, era gasta fazendo trabalho duro em condições infernais.

Tentando ignorar a dor nas minhas costelas, me aproximo debaixo do


cobertor e passo meus dedos sobre as tatuagens que cobrem seu braço e
ombro esquerdo. “É onde você conseguiu isso?”

Peter olha para baixo, como se agora lembrasse a tinta que está lá. “A
maioria delas, sim”, diz ele, dobrando o outro braço sob a cabeça. “Algumas
fiz mais tarde, quando entrei na minha unidade.”

“O que todas elas significam?” Pergunto baixinho, traçando os


intrincados desenhos com meus dedos. O que está em seu ombro lembra
uma asa de pássaro e mais alguns parecem caveiras demoníacas, mas o
resto são apenas linhas e formas abstratas.

O olhar de Peter fica opaco. “Nada. Foi algo para fazer, só isso.”

“Isso é muita tinta para fazer por um capricho.”

Ele fica em silêncio por alguns segundos. Então ele diz baixinho: “Eu
tinha um amigo naquele campo. Andrey. Ele gostava dessas coisas, um
artista de verdade, sabe. Depois que ficamos lá por alguns anos, ele ficou
sem espaço em sua própria pele, então deixei ele praticar em mim. Toda vez
que algo nos acontecia, bem ou mal, ele queria comemorar com uma
tatuagem, e porque ele era tão bom, eu dei a ele liberdade total com os
desenhos.”

“Oh.” Intrigada, eu me levanto em meu cotovelo. “O que


aconteceu com esse amigo?”

“Ele morreu.” Peter diz isso casualmente, como se isso não


importasse, mas ouço o eco sombrio da dor por baixo, a raiva que o tempo
não foi capaz de esfriar. O que quer que tenha acontecido com seu amigo,
foi ruim o suficiente deixar uma cicatriz... ruim o suficiente que lembrar
agora, ainda tem o poder de machucá-lo.

“Sinto muito”, murmuro, mas Peter não responde. Em vez disso, ele
se aproxima para desligar a luz, em seguida, me puxa contra ele em nossa
posição habitual de dormir.

Fecho meus olhos e me concentro na minha respiração, tentando me


acalmar o suficiente para adormecer, mas é impossível. Mesmo o calor do
corpo grande de Peter não pode afugentar o frio persistente de suas
revelações. Minha mente vibra como uma colméia devastada, as perguntas
se recusando a me deixar em paz. Há tanta coisa que ainda não sei sobre o
homem que me segura todas as noites, tantas coisas que não entendo sobre
o passado dele. Tudo sobre a sua vida na Rússia é estranho para mim, tão
estranho e misterioso como se ele tivesse vindo de outro planeta.

Finalmente, não aguento mais. Saio dos braços de Peter, acendo a luz
de cabeceira e viro de lado para encará-lo. Como eu suspeitava, ele não
estava dormindo também, seu olhar prateado sombreado com lembranças
enquanto seus olhos se encontravam com os meus.

“Você disse que foi recrutado daquele lugar diretamente para a sua
unidade”, digo, apoiando-me no cotovelo novamente. “Por quê? Eles
normalmente fazem isso na Rússia?”

Ele olha para mim em silêncio, depois se vira de costas, entrelaçando


as mãos sob a cabeça enquanto olha para o teto. “Não”, ele diz depois de
um momento. “Eles geralmente recrutam através do exército. Mas, neste
caso, eles precisavam de alguém com um perfil psicológico específico.”

Sento-me, segurando o cobertor contra o meu peito. “Que tipo de


perfil?”

Seus olhos baixaram para encontrar o meu olhar. “Sem vínculos


familiares ou ligações inconvenientes, sem escrúpulos e com mínima
consciência. Mas também jovens o suficiente para serem treinados e
moldados naquilo de que precisavam.”

“E para que?” Pergunto, embora suspeite que já saiba.

Peter se senta, sua expressão cuidadosamente neutra enquanto ele se


inclina contra a cabeceira da cama. “Uma arma”, ele responde. “Alguém que
não recusaria nada. Veja, os insurgentes estavam ficando mais implacáveis,
mais fanáticos a cada ano. O bombardeio do metrô em Moscou foi a última
gota. O governo russo percebeu que não podia se limitar a métodos
civilizados e aprovados pela ONU de combate ao terrorismo, eles tiveram
que enfrentá-los em seu nível, combatê-los usando todas as ferramentas
disponíveis. Então eles formaram essa unidade de Spetsnaz, e quando não
conseguiram encontrar soldados treinados o suficiente para se adequar ao
perfil desejado, eles decidiram ser criativos e procurar em outro lugar.”

“Em Camp Larko”, digo, e Peter acena com a cabeça, seus olhos
como aço polido.
“Aqueles de nós que permaneceram lá por um período prolongado de
tempo tenderam a serem fortes capazes de lidar com longas horas de
esforço físico sob condições extremas. Fome, sede, frio, poderíamos
suportar tudo isso. E, como você pode imaginar muitos de nós se
encaixavam no perfil que procuravam.”

Um arrepio dança sobre a minha pele, fazendo-me envolver o cobertor


mais apertado em mim. “Então, por que eles escolheram você sobre os
outros?” Pergunto, lutando para manter meu tom firme.

Seus lábios se curvam em um sorriso sombrio. “Porque, logo antes de


eles chegarem, eu matei um guarda”, ele diz suavemente. “Eu o coloquei na
neve e o fiz admitir seus crimes antes de estripá-lo como um coelho na
frente de todo o campo. Meus métodos eram... bem, vamos apenas dizer
que era exatamente o que eles estavam procurando. Então, em vez de
ser punido pela morte do guarda, consegui uma nova carreira, que se
encaixa tanto nas minhas inclinações quanto no meu conjunto de
habilidades.”

Minhas mãos ficam escorregadias onde estou segurando o


cobertor. “Quais foram os crimes do guarda?” Pergunto, embora não tenho
certeza se quero saber.

A escuridão no olhar de Peter se aprofunda e, por um momento,


tenho medo de ter ido longe demais, trazido muitas lembranças ruins. Mas
então ele se inclina contra a cabeceira da cama e diz calmamente: “Ele
gostava de ferver os meninos vivos.”

Paro de respirar quando a bile subiu pela minha garganta. “O que?”


Suspiro quando sou capaz de falar.

“Nos chuveiros, tínhamos água gelada ou escaldante, nada no meio”,


diz Peter, seu rosto se contraindo enquanto seu olhar se distancia. “Os
canos funcionavam constantemente mal, então usávamos baldes para
misturar a água antes de nos lavar. Alguns guardas, no entanto, puniam-
nos, colocando-nos sob a água como estavam geladas por pequenas
infrações, escaldantes quando nos comportávamos mal. Um guarda, em
particular, gostava do remédio de água quente. Ele tinha prazer nisso, eu
acho. Os outros apenas faziam isso por alguns segundos de cada vez, talvez
meio minutos no máximo, dando aos garotos queimaduras superficiais. Mas
este guarda, ele forçava. Um minuto, dois, três, cinco... Quando Andrey
caiu em sua lista negra, ele matou dois garotos de quinze anos de idade,
fervendo a carne dos ossos.”
Gosto de vomito surge em minha garganta. “Andrey... seu amigo
Andrey?” Sussurro através de lábios entorpecidos.

“Sim.” O rosto esculpido de Peter assume um olhar quase demoníaco


de fúria. “Andrey, que nunca deveria ter estado naquele buraco de
merda. Meu amigo, que se recusou a deixar aquele idiota fodê-lo e morreu
em agonia em vez disso.”

“Oh Deus, Peter...” Pressiono meu punho trêmulo para a minha boca,
em seguida, pego sua mão, sentindo seus dedos se contorcerem com uma
raiva mal suprimida enquanto ele luta para se controlar. “Sinto muito.”

Ele aperta minha mão como uma tábua de salvação e fecha os olhos,
respirando profundamente. Quando ele as abre novamente, sua expressão é
calma, mas agora conheço a profundidade da dor e da fúria que se
escondem sob aquela máscara controlada.

Eu estava errada em pensar que as mortes de sua família o


transformaram em um monstro. Ele era um muito antes de Daryevo, o
horror que ele encontrou em sua luta pela sobrevivência eliminou qualquer
capacidade de bondade que ele pudesse possuir. Suas primeiras vítimas
não eram anjos, mas uma vez que ele desceu o caminho escuro da
vingança, ele se tornou como eles, machucando inocentes e culpados.

Cuidadosamente tirando meus dedos do seu aperto, volto para o meio


da cama. “E sobre o diretor?” Eu pergunto, segurando o olhar do meu
captor. Eu já estou doente do estômago, mas eu tenho que saber o quão
profundo o dano vai. “O que ele fez para você matá-lo?”

Peter sorri sombriamente. “Você não teve o suficiente para esta


noite? Não? Tudo bem, se você quer saber, ele gostava de meninos. Quanto
mais jovem melhor. Eu tive sorte, porque aos onze anos já era grande,
quase como um adolescente. Muito velho para ele quando ele começou no
orfanato. Mas os pequeninos... eu ficava ali à noite e os ouvia gritar e
chorar em seus aposentos quando ele ia até eles. Toda noite eu morria um
pouco por dentro, porque não havia nada que eu pudesse fazer, não havia
ninguém que eu pudesse dizer quem iria ouvir − Os professores, a polícia,
eles não se importavam ou não se atreviam a criar caso. Este filho da puta
estava conectado, você vê; ele era de uma família importante. Então
ninguém fez nada, e então um novo garoto foi trazido, tinha dois anos de
idade. Quando eu o ouvi ir para a criança, não aguentei mais. Peguei uma
das facas de cozinha, me esgueirei atrás dele e, enquanto ele
estava ocupado atacando o garoto, cortei sua garganta.”
Claro. Meu cavaleiro das trevas se vingando novamente. Eu fecho
meus olhos contra a ardência das lágrimas, meu coração partido por Peter e
pelo garotinho. Eu suspeitava que fosse algo assim, só que temia que fosse
o próprio Peter quem tinha sido a vítima. Não que isso signifique que ele
não tenha sido. Abrindo meus olhos, encontro seu olhar de aço. “E
você?” Pergunto vacilante. “Você já foi...?”

“Não.” Sua boca achata. “Pelo menos não tanto quanto eu sei. Eu
sempre fui muito bom em me defender, mesmo quando era pequeno. Não
me lembro muito antes dos três anos, então, suponho que seja possível,
eu era uma criança bonita, de acordo com fotos antigas. De qualquer forma,
quando estava no jardim de infância, sabia como usar meus punhos,
dentes, pedras... qualquer tipo de arma em que pudesse colocar minhas
mãos. O único filho da puta que tentou algo comigo quando eu tinha cinco
anos, teve o dedo mordido e depois disso, eu geralmente era deixado em
paz.”

Olho para ele, alívio lutando com pena agonizante. E raiva. Sinto
tanta raiva da crueldade do mundo que o transformou no homem escuro e
atormentado que ele é hoje, neste assassino cruel e amoral que, apesar de
tudo, anseia por amor e família. Ele encontrou descanso de seus demônios
quando ele tinha Tamila e seu filhinho? É por isso que ele aceitou a
gravidez tão facilmente, tornando-se marido e pai quando poderia
simplesmente ir embora? Eles devolveram pedaços de sua alma, apenas
para rasgar tudo com suas mortes brutais?

Se for assim, não é de admirar que a sua perda o tenha feito girar e
que a vingança foi sua resposta padrão.

No meu longo silêncio, o rosto de Peter se aperta ainda mais; então


um sorriso zombeteiro aparece em seus lábios. “Demais para você,
ptichka? Suponho que deveria ter inventado uma história rosada, cheia de
arco-íris, filhotes e piratas.”

“Não, eu só...” Paro minha garganta inchada de emoções. Reunindo


minha compostura, eu tento novamente. “Eu só queria que alguém
estivesse lá para você, do jeito que você esteve para aquele garotinho.”

Ele pisca lentamente e se afasta da cabeceira da cama. “Eu acabei de


dizer a você, eu estava bem. Eu sempre pude cuidar de mim mesmo.”

“Eu sei que você podia”, sussurro quando ele chega para mim,
puxando-me para baixo para deitar ao lado dele enquanto ele se estende na
cama e apaga a luz. “Mas você não deveria, Peter. Nenhuma criança deveria
fazer isso.”

Ele não responde, mas eu sei que ele me ouviu, porque o braço em
volta do meu corpo aperta, me aproximando enquanto nos deitamos juntos
na escuridão, sentindo o calor um do outro e obtendo conforto do bater
constante de nossos corações.
32

Sara

Depois daquela noite, ficou ainda mais difícil resistir aos esforços de
Peter para se infiltrar em minha mente e coração. Não sei se ele acha que
suas revelações me aterrorizaram e está procurando compensar isso, ou se
ele simplesmente sente minha determinação vacilar, mas ele se
torna incrivelmente mais atento a mim, mimando e me satisfazendo além da
crença.

Todos, exceto eu, têm tarefas. Peter faz a maior parte da nossa
comida, e os outros caras tomam conta da lavanderia e mantêm a casa
impecavelmente limpa. Eu ajudo com a lavanderia de qualquer maneira,
então não me sinto como uma lesma total, mas Peter não exige isso de mim,
e além daquela vez em que joguei o prato, não tive que tocar em um
apirador ou fazer qualquer outra coisa que eu não tenha vontade de fazer.

Além disso, tudo o que quero é meu, dentro dos limites do meu
cativeiro, é claro. Se eu mencionar uma preferência por fronhas de seda,
Peter as providencia para mim em poucos dias. Se eu manifestar o desejo
de dar um passeio, ele para o que quer que esteja fazendo e me acompanha,
não confiando mais esse dever a nenhum de seus homens. Mais
importante, porém, ele faz tudo o que pode para garantir que eu não fique
entediada.

Sua ideia de estúdio de dança é um fracasso até agora, − tudo para o


que uso é ioga ocasional e alguns alongamentos −, mas realmente aprecio o
equipamento de gravação que ele adquiriu para mim. É tão sofisticado
quanto qualquer coisa que um profissional possa usar. Posso gravar e
editar qualquer coisa que quiser, e embora inicie com as músicas pop que
amo, logo começo a experimentar variações dessas músicas e até tento
compor algumas músicas minhas, compondo as letras de músicas que eu
crio de diferentes músicas. Dominar o software e o equipamento requer
uma curva de aprendizagem acentuada, mas aceito o desafio. Não é apenas
divertido, mas consome muito do meu tempo livre, e quando estou tentando
encontrar as palavras para expressar a música se formando em minha
mente, não penso em tudo que perdi e no fato de que eu estou em cativeiro
com um assassino.

Eu me concentro apenas na música.

Também comecei a me apresentar para os caras. É um ritual depois


do jantar agora, onde Peter me pede para cantar como uma forma de
entreter todos e eu relutantemente (mas secretamente, muito ansiosamente)
concordo em fazer uma música, já antecipando a cada apresentação com
avisos sobre possivelmente não lembrar as palavras, estar despreparada, e
assim por diante. Naturalmente, é sempre uma música que ensaio com
antecedência, geralmente uma variação de qualquer sucesso popular com o
qual toquei no estúdio de gravação naquele dia. Eu sou muito tímida para
compartilhar minhas próprias músicas, mas os caras estão tão
entusiasmados com minhas interpretações da música pop que prevejo um
dia em que eu poderia tentar tocar uma das minhas próprias peças.

“Você tem uma voz muito boa”, Yan me diz depois da primeira
semana, seus olhos verdes me avaliando com alguma surpresa. “Peter
estava certo sobre isso.”

Eu sorrio para ele, − o elogio do nosso psicopata residente é um


evento extremamente raro − e decido tocar duas músicas da próxima vez.

Se os caras gostam e eu também, por que não?

Entre a música e minhas atividades habituais com Peter, tenho o


suficiente para ocupar meus dias, mas ainda sinto falta do meu antigo
emprego. Sempre que um dos rapazes se machuca, o que acontece com
frequência assustadora durante o treino diário, uso minhas habilidades
médicas, mas isso não é suficiente. Preciso do estímulo intelectual de
minha profissão, todas as coisas que aprendi diariamente tratando uma
grande variedade de pacientes e acompanhando os estudos mais
recentes. Agora me sinto fora do circuito, isolada de novos
desenvolvimentos em meu campo, e quando menciono isso a Peter durante
uma de nossas caminhadas, ele promete fazer algo sobre isso.

Com certeza, ele começa a fazer com que seus hackers me enviem
coletâneas quinzenais de toda a pesquisa médica de ponta que acontece em
todo o mundo. Parte do material é obviamente público, estudos revisados
por pares publicados nos periódicos acadêmicos que costumava assinar,
etc., mas muito disso parece vir diretamente dos arquivos privados das
empresas.
“Peter, isso é loucura”, digo depois de ler sobre uma terapia genética
que mantém a esperança de reverter o câncer de mama em estágio
avançado. “Onde seu pessoal aprendeu sobre isso? Isso é fantástico.”

“É?” Ele sorri enquanto olha para cima de seu laptop.

Aceno vigorosamente. “Se essa terapia for tão eficaz quanto o que as
anotações desses pesquisadores indicam, milhões de mulheres serão
salvas. Como seus hackers se depararam com isso? Eu deveria ter pelo
menos ouvido rumores sobre isso em casa. Este é um trocador de jogo no
tratamento do câncer. Você percebe isso, certo?”

Seu sorriso se amplia. “O que posso dizer? Nossos caras são bons.”

Balanço minha cabeça e me enterro na análise detalhada do estudo.


Deveria sentir culpa por estar essencialmente roubando a propriedade
intelectual de alguma startup, mas estou muito fascinada para parar de
ler. Além disso, não é como se eu fosse usar esse conhecimento para obter
ganhos financeiros ou compartilhá-lo com qualquer pessoa. Meu acesso ao
mundo exterior é estritamente limitado a telefonemas para meus pais.

É a única coisa que Peter não vai ceder, não importa o quanto eu
implore e suplique.

“Vamos lá, que mal faria faria ver as notícias de vez em quando?” Eu
argumento depois que Peter me pega tentando acessar seu laptop, uma
tentativa infrutífera, considerando todas as senhas e segurança que ele tem
no lugar. “Você pode bloquear certos sites, impedir que eu use todos os e-
mails e mídias sociais, se quiser. Há uma tonelada de aplicativos para isso
e...”

“Não, ptichka.” Seu rosto está decidido enquanto ele tira o laptop de
mim. “Não podemos nos arriscar a fazer uma pesquisa que exponha nosso
endereço IP ao FBI, nem a descobrir uma maneira inteligente de entrar em
contato com eles. Cada site tem um lugar para deixar um comentário hoje
em dia, e você é esperta demais para não saber disso.”

Frustrada, desisto de acessar a internet e tento pensar em outros


locais de fuga, mas nenhum vem à mente. A única coisa que eu poderia
tentar algum tipo de mensagem codificada para meus pais durante nossos
breves telefonemas é muito arriscada. Peter está sempre comigo, ouvindo
cada palavra que eu digo, e sei que, se eu sugerir a nossa localização, ele
interromperá o contato com a minha família. Ele disse isso e sei que ele está
falando sério.
Não importa o quanto ele me agrade, nunca esqueço que sua
obsessão tem um lado sombrio, que ele está disposto a fazer
o que for preciso para me manter como dele.
33

Peter

À medida que os dias quentes do verão penetram no outono, com a


floresta explodindo em tons de vermelho e amarelo, fico cada vez mais
convencido de que fiz a coisa certa ao pegar Sara. Apesar do nosso início,
ela está começando a se estabelecer, e tenho certeza de que um dia ela se
ajustará completamente, aceitando e abraçando sua nova vida comigo.

Eu a amo tanto que é como uma dor constante no meu peito, e


embora saiba que ela não sente o mesmo, às vezes vejo um vislumbre de
suavidade em seu olhar, um calor que atravessa meu coração e me dá
esperança. À medida que a raiva dela pelo rapto diminui, nossas discussões
tornam-se menos frequentes e, embora nenhum de nós possa esquecer
como nosso relacionamento começou, o passado começa a parecer mais
distante, o aperto em nosso presente é menos doloroso e agudo.

Ainda penso em Pasha e Tamila, e acordo suando frio quando sonho


com as mortes horríveis. Mas os pesadelos não acontecem com tanta
frequência e, quando acontecem, Sara está sempre presente. Posso alcançá-
la e segurá-la, ouvir sua respiração constante até que a lembrança do
horror desapareça.

Também posso transar com ela. É a única coisa que nunca deixa de
me acalmar, a melhor maneira de aliviar a escuridão que me atormenta por
dentro.

“Por que você gosta de me machucar às vezes?” Ela murmura uma


noite depois de eu acordá-la e levá-la, fodendo-a com tanta força que ambos
acabam doloridos. “Você tem algumas inclinações sádicas?”

Considero isso, então balanço a cabeça, embora ela provavelmente


não possa ver o gesto com as luzes apagadas. “Não no sentido sexual, pelo
menos não até que eu conheci você.” Eu tenho prazer em matar e torturar
meus inimigos, mas foi principalmente cerebral, uma maneira de sentir
esse poder violento e satisfazer o meu senso de justiça. Pelo menos foi
assim com o guarda que cozinhou Andrey nos chuveiros e, em menor
escala, com os terroristas que encontrei para o trabalho. Não senti pena
deles; o sofrimento deles me deu uma alegria viciosa. Mas meu pau nunca
foi de infligir dor, e durante o sexo, sempre fui cuidadoso e gentil com as
mulheres, usando meu conhecimento do corpo humano para o prazer, não
para machucar.

Não foi até Sara que esses impulsos conflitantes, punição e prazer,
violência e ternura, de alguma forma se fundiram. Eu a valorizo amo-a
tanto que sofro com isso, mas às vezes quando a toco, não consigo me
controlar, não posso lutar contra a vontade de puni-la por ser o que ela é.

Por pertencer ao meu inimigo antes que ela roubasse meu coração.

“Então com ela... você nunca?”

A curiosidade mal escondida no sussurro de Sara me faz sorrir,


mesmo quando uma dor familiar constrange meu coração. “Você quer dizer
Tamila?”

“Sim.” Sua mão se espalha sobre o meu peito, como se sentisse a dor
interior. “Você nunca foi rude com ela assim?”

“Não.” Cubro a mão esbelta com a palma da minha mão, apertando-a


com mais força contra a minha pele. “Não foi assim com ela.”

O que eu sentia por Tamila não era nada parecido com a conexão
intensa e quase violenta que tenho com Sara. Com minha esposa, foi uma
mistura agradável de atração física e gosto, até mesmo uma espécie de
amizade. Eu a admirava por ser corajosa, no contexto de sua educação e
por ser uma boa mãe para Pasha. Também não doía que ela fosse linda, e
embora não tivéssemos muito em comum, cresci cuidando dela... talvez até
a amando, pensei. Agora, no entanto, vejo que estava me enganando.

Meu carinho por Tamila era apenas isso, um mero eco das emoções
cruas que Sara evoca em mim.

Sua mão se contorce sob a palma da minha mão e a ouço engolir. “Eu
sei.” Há uma nota estranha na voz de Sara, algo quase como magoa. “Você
deve tê-la amado muito”, ela continua no mesmo tom, e sorrio novamente
quando percebo qual é o problema.

“Você está com ciúmes?” Pergunto baixinho, estendendo a mão para


ligar a lâmpada de cabeceira. Sara pisca com a luz repentina e, do conjunto
apertado de sua linda boca, vejo que estava certa.
Ela entendeu mal a minha confissão, achando que meu tratamento
gentil com Tamila significava que eu cuidava mais da minha esposa do que
dela.

Sara não me responde, apenas puxa a mão, e eu rio, sentindo-me


peculiarmente leve, apesar das memórias sombrias dançando nas margens
da minha mente. Minha ptichka está com ciúmes, de uma mulher morta,
ainda por cima e eu não poderia estar mais satisfeito.

Ao som da minha diversão, a expressão de Sara escurece ainda mais,


suas delicadas sobrancelhas se juntam em uma carranca completa. Com
um huff quase inaudível, ela apaga a luz e se vira, dando-me um gelo bem
literal.

Minha diversão desaparece substituída pelo complexo emaranhado de


emoções que ela sempre provoca em mim. Luxúria e ternura, raiva e
possessividade, tudo faz parte da loucura que é o meu amor por Sara, dessa
obsessão que sei que nunca vou me esquivar.

“Venha aqui, meu amor.” Ignorando sua postura rígida, a puxo contra
mim, curvando meu corpo em torno do dela por trás. Enterrando meu rosto
em seu cabelo, respiro seu doce perfume, minha fragrância favorita de
sempre e a aperto em meu abraço, segurando-a no lugar enquanto ela
se esforça para se afastar.

“Eu quero machucar você às vezes”, murmuro quando sua respiração


é irregular pelo esforço. “Quero fazer coisas com você que nunca sonhei em
fazer com minha esposa. Há noites em que quero devorar você, ptichka,
para te consumir até que não sobre nada... até que esse vício desapareça e
eu possa respirar sem querer você, sem sentir que preciso de você mais do
que a própria vida.”

Sua respiração fica presa. “O que você está dizendo?”

“Estou dizendo que te amo, ptichka… e que te odeio. Porque dói,


sabendo que você ainda o ama, ainda pensa nele quando você está comigo.”
Minha voz encrespa, e a aperto quando ela novamente tenta se afastar. “O
assassino do seu marido é assim que você me vê, é tudo que às vezes você
vê. Se eu pudesse limpá-lo da sua mente, faria isso em um piscar de
olhos. Apagaria todos os registros de sua existência, transformando-o no
nada que ele é. Em um mundo diferente, você teria nascido minha, mas, eu
tive que lutar por você... matar por você.”
Seu corpo inteiro endurece. “Por mim? Do que você está falando? Foi
tudo sobre sua vingança, a lista que você...”

“Sim, foi... até te conhecer. Então se tornou sobre outra coisa.” É uma
verdade que eu não tinha admitido para mim mesmo até aquele momento,
não sabia, exceto dentro dos limites mais selvagens da minha alma.

Quando fiquei de pé ao lado da cama de George Cobakis, hesitei


quando pensei em Sara, mas não porque queria poupá-lo para ela. Porque
o assassinato era tão inútil, seu estado vegetativo, de morto vivo.

Acabei puxando o gatilho não só pela vingança, mas por causa disso.

Porque a queria para sempre livre dele.

Porque, mesmo assim, eu sabia que tinha que faze-la minha.

“Não.” A voz de Sara assume um tremor audível. “Você está


blefando. Você não poderia ter matado George por causa de algum interesse
doentio em mim, isso é além de insano.”

“Talvez.” Estou disposto a admitir isso. “Mas em algumas culturas, o


que eu fiz faz você minha, meu prêmio de guerra, meus despojos de
batalha.”

“Batalha? Ele estava em coma! Você matou um homem indefeso. Ele


não era páreo para você...”

Rio sombriamente. “Você acha que sou algum tipo de herói


nobre? Você acha que me importo com uma luta justa?”

Ela congela sua pele ficando úmida, onde nossos corpos nus se
tocam enquanto continuo. “Não, Sara”, digo a ela. “Não dou a mínima para
justiça, porque ninguém mais dá. O mundo é inerentemente injusto. Se
você quer alguma coisa, você luta por isso... você aceita. E eu queria você,
ptichka. Quis desde o primeiro momento que te segurei, quando você
chorou tão docemente em meus braços. E você me queria também − você
ainda me quer − porque não importa o que você diga isso é real... muito
mais real do que sua miragem de um casamento. Não era um conto de
fadas que você vivia, e Cobakis não era seu príncipe encantado. Ele era um
mentiroso, um fraco que começou a beber porque não conseguia lidar com
a culpa pelo massacre que causou. Mesmo que ele não estivesse na minha
lista, eu o teria matado se te conhecesse, porque teria desejado você. Se
nossos caminhos se cruzassem, eu teria feito você minha.”
Ela está tremendo agora, e sei que fui muito honesto, revelando muito
da besta em mim. No entanto, se há uma coisa que não vou fazer, é mentir
para ela.

Comigo, Sara sempre saberá o que ela está recebendo, não importa o
quão feio isso seja.

Puxando o cobertor sobre nós, acaricio seu braço, quadril e coxa até
que seu tremor pare, e quando ouço sua respiração lenta e profunda, fecho
meus olhos, segurando-a com força.

Isso pode estar errado aos olhos dos outros, mas eu tenho Sara e sou
feliz e farei o que for preciso para fazê-la feliz também.
34

Sara

Enquanto o outono avança e o tempo continua esfriando, minha vida


com Peter começa a me lembrar de uma lua-de-mel prolongada, ainda que
seja uma, onde compartilhamos nosso refúgio nas montanhas com outras
pessoas. Sua atenção não mostra sinais de diminuição de sua obsessão, e
embora eu continue lembrando de que não estou aqui por vontade própria,
não posso ignorar o fato de que Peter está fazendo o melhor para garantir
meu prazer e conforto. Além de sua profissão e da pequena questão de me
manter cativa, Peter Sokolov é tudo que se pode desejar que um marido
seja: completamente caseiro e tão cuidadoso, que me sinto uma princesa na
maioria dos dias.

Toda manhã agora começa com ele trazendo café da manhã na


cama. Como o interrogador habilidoso que ele é, Peter aprendeu tudo o que
eu gosto e não gosto quando se trata de comida, e ele me satisfaz com meus
favoritos diariamente. Crepes ao estilo russo com passas e queijo doce,
omeletes fofos, quiches, travessas de frutas exóticas, recebo tudo, além de
suco de laranja espremido na hora e café. Para almoço e jantar, sou
igualmente mimada, tanto que os caras começaram a me implorar para
reivindicar seus favoritos como meus.

“Você gostou de shashlik daquela vez, certo? Aqueles espetos de


cordeiro que Peter fez antes da Nigéria?” Ilya faz uma tentativa assustadora
de olhos de cachorrinho enquanto ele me encurrala na cozinha.

Ao meu aceno, ele sorri e diz: “Então, por favor, diga a ele para fazê-
los em breve, ok? Apenas insinue que você gosta de cordeiro em molho
picante. Por favor?”

Rio e prometo fazê-lo, como já prometi a Anton uma torta de


maçã. Apesar de seu papel no meu sequestro, estou começando a gostar
dos homens de Peter, e tenho certeza de que eles estão começando a gostar
de mim. Isso é uma coisa boa no que me diz respeito, mas Peter parece ter
uma opinião diferente. Percebi ele olhando para os caras quando eles são
particularmente amigáveis, como se ele temesse que eles pudessem me
roubar.

Sua possessividade é um dos nossos principais problemas nos dias


de hoje, e uma noite, ela foge do controle.

“Mantenha seus olhos fodidos acima do pescoço”, ele ruge para Anton
depois que eu terminei de cantar minha variação do último sucesso de Lady
Gaga. Eu me vesti para essa performance, usando um dos vestidos de festa
decotados que Yan conseguiu para mim, e enquanto Anton e Peter se
levantam, olhando um para o outro, percebo que isso pode ter sido um erro.

“Peter, ele não estava fazendo nada”, digo, desesperada para dissipar
a tensão eriçada. “Eu estava apenas cantando e ele estava ouvindo, isso é
tudo.”

“Ele estava babando, é o que ele estava fazendo.” Peter empurra a


cadeira entre eles de lado. “E não foi à primeira vez também.”

“Foda-se, cara.” A barba escura de Anton treme de raiva quando os


dois homens letais se endireitam, os punhos cerrados e os dentes
arreganhados. “Ninguém está fazendo nada que não deva; você está muito
obcecado para ver direito.”

Peter rosna uma resposta em russo, e Yan diz algo também, seu tom
divertido quando Ilya balança a cabeça, sorrindo. Um momento depois,
Anton corre para fora, com Peter em seus calcanhares.

Frustrada, dou a volta nos gêmeos. “Onde eles estão indo?”


Odeio quando os caras mudam para o russo para esconder algo de mim. “O
que vocês disseram?”

“Peter quer quebrar todos os ossos no rosto de Anton, e eu sugeri que


ele fizesse isso do lado de fora, para que não precisássemos fazer reparos
caros na casa”, diz Yan, rindo tão amplamente quanto seu irmão. “Parece
que eles ouviram.”

“O que? Eles vão lutar?”

Horrorizada, corro para fora e sou prontamente recebido pelo som de


punhos batendo na carne. Peter e Anton estão rolando no chão, braços e
cotovelos balançando enquanto batem um no outro. Flechas de sangue
voam no ar quando Peter acerta um golpe particularmente brutal, e suspiro
quando vislumbro uma fúria selvagem em seu rosto.

Eles não estão brincando; essa luta é pra valer.


“Pare-os, por favor,”, imploro a Yan e Ilya, que veio para ficar ao meu
lado. “Eles vão se matar.”

“Nah.” Yan acena com desdém. “Eles vão quebrar alguns ossos. Nós
não temos um trabalho importante até o próximo mês, então está tudo
bem.”

“Não está bem!” Rangendo os dentes, viro para Ilya. “Se você
quiser shash, ou o que quer que seja você vai parar com isso agora. Se você
não fizer isso, eu vou desenvolver uma alergia ao cordeiro.” Cutuco seu
peito enorme com o meu dedo. “Você está me ouvindo?”

Yan cai na gargalhada, mas Ilya parece preocupado. “Tudo bem, tudo
bem”, ele murmura e começa em direção aos combatentes.

Exalo em alívio quando ele bravamente entra na briga, mas nem Peter
nem Anton respondem bem às suas tentativas de separá-los. Em pouco
tempo, os três homens estão rolando no chão, trocando golpes brutais, e
quando me viro para Yan, ele levanta as mãos, as palmas voltadas para
fora.

“Eu não vou chegar perto”, ele diz, e sei que ele está falando sério.

Estou por conta própria.

Desesperada, considero lavá-los com água fria, mas decido optar por
uma solução mais conveniente.

“Socorro” grito a plenos pulmões e me inclino, como se estivesse com


dor. “Owww! Peter, me ajude!”

Funciona ainda melhor do que eu esperava. Os homens


instantaneamente se afastam, e Peter pula de pé, a fúria em seu rosto
transformando-se em uma preocupação frenética quando ele corre na
minha direção. “O que aconteceu?” Ele exige, segurando minhas mãos
enquanto seus olhos me examinam da cabeça aos pés. “Você está
machucada?”

“Sim, por você agindo como um bárbaro”, digo, tentando me afastar


quando ele começa uma verdadeira revista. “Agora, me deixe ver o quanto
vocês se machucaram.”

Suas sobrancelhas se juntam quando ele faz uma pausa. ”Você não
está ferida? Só queria parar a briga?”
“Claro. Como eu me machucaria?” Ignoro Yan, que está rindo tanto
que ele não consegue ficar em pé, e me dirijo para Anton e Ilya, que
parecem muito piores do que Peter. Ilya tem um lábio cortado e o rosto de
Anton já está inchado, seu nariz sangrando ligeiramente fora do centro.

“Hey.” Peter pega meu pulso antes que eu possa dar mais de dois
passos. “Você vai tratá-los primeiro?” Ele soa tão indignado que estou
tentada a negar, a última coisa que quero é provocar outra briga, mas
algum diabo me faz concordar.

“Eles não se atacaram.” Puxo meu pulso em uma tentativa fútil de me


libertar. “E você não parece tão machucado para mim.”

Se Peter acha que vou recompensar o comportamento do homem das


cavernas com ternos cuidados, ele está muito enganado.

Sua carranca se aprofunda, e ele tem a ousadia de parecer ferido


enquanto libera meu pulso. “Eu estou ferido. Viu”? Ele puxa a camisa para
me mostrar uma mancha vermelha em sua caixa torácica. “E isso.” Ele
mostra as costas da mão direita, onde os nós dos dedos estão realmente
começando a parecer inchados.

Apesar da minha raiva, os instintos curandeiros entram em ação.


“Deixe-me ver.” Com cuidado, sinto em torno de seu torso, vai ser uma
contusão desagradável, mas as costelas parecem bem e depois volto minha
atenção para os nós dos dedos.

“Isso machuca?” Pergunto, pressionando a junta do meio. Peter


sacode a cabeça, olhos prateados brilhando, então examino o resto da sua
mão. Para meu alívio, não sinto nenhum osso quebrado.

“Você vai ficar bem”, digo, em seguida, percebo um sangramento


raspar por sua orelha esquerda. Vou ter que limpá-lo em casa, onde tenho
suprimentos médicos, mas primeiro preciso ver o nariz de Anton e garantir
que Ilya não tenha outra concussão.

Os caras já entraram, então os sigo, ignorando a expressão sombria


de Peter. Não entendo o que deu nele. Sei que ele é possessivo, mas Anton é
amigo de Peter e, até onde eu sei, ele nunca agiu de forma
inapropriada comigo. Nem os outros, embora sejam homens viris e
saudáveis que não têm companhia feminina há meses.

Minha bravura dura até eu entrar na cozinha e ver a extensão dos


danos causados ao rosto de Anton. Peter não estava brincando sobre
quebrar todos os ossos; ele não teve sucesso, mas fez uma tentativa muito
boa. Com a violência aumentando tão repentinamente, não tive a chance
de processar a brutalidade impressionante da luta, mas enquanto trabalho
para colocar o nariz de Anton de volta no lugar, minhas mãos começam a
tremer, o pico de adrenalina me atingiu tão forte como se eu tivesse ido à
luta.

Eu me tornei complacente nas últimas semanas, deixe toda a


domesticidade me fazer esquecer o que Peter e seus homens são. Esta não
foi uma briga de bêbados em um bar, onde alguém pode ter um ou dois
golpes de sorte. Peter é um assassino treinado, e ele foi atrás do amigo com
a intenção de infligir danos sérios. Se eu não tivesse terminado a luta,
alguém poderia ter se machucado gravemente, até mesmo morto.

“Eu sinto muito”, sussurro quando Anton se encolhe com a dor dos
meus cuidados. “Sinto muito sobre isso.”

“Está tudo bem.” Sua voz fica nasal enquanto encho com algodão
suas narinas para parar o sangramento. “Estava fadado a acontecer; o
bastardo é muito louco por você.” Não há rancor em seu tom; ele soa
divertido pela tentativa de seu amigo para aleijá-lo por inveja extraviada.

“Isso mesmo”, Peter rosna, chegando a ficar ao meu lado. “Então não
volte olhar pra ela. Nunca. Entendeu?”

Para meu choque, a boca inchada de Anton se curva em um sorriso


sangrento. “Entendi, seu maluco idiota.”

Paro o que estou fazendo, meu olhar balançando incrédulo de um


homem para o outro. Estou alucinando, ou eles apenas fizeram as pazes?

Com certeza, Peter bate no ombro de seu amigo e se vira para Ilya,
que está empoleirado em uma banqueta ao lado de nós, segurando uma
bolsa de gelo contra seu lábio. “O mesmo vale para você e...” ele dá a Yan,
que acabou de se juntar a nós, um olhar sombrio “você.”

Os dois irmãos concordam e Ilya diz: “Entendi. Ela é toda sua.”

Ignorando essa afirmação natural, termino de consertar o nariz


quebrado de Anton, dou-lhe bolsas de gelo para aplicar em todo o seu rosto
e pego sua camisa para examinar sua caixa torácica.

“Estou bem lá”, ele diz nasalmente, me parando antes que eu possa
levantar a camisa mais de uma polegada. Com um olhar desconfiado para
Peter, ele acrescenta: “Você pode dar uma olhada em Ilya agora, se você
quiser.”
Franzo a testa, mas volto para Ilya, como sugerido. “Deixe-me ver
isso”, digo, movendo o bloco de gelo longe de seu lábio. ”Você foi atingido
em algum outro lugar na cabeça?”

“Não, só isso”, diz Ilya, estremecendo ao me sentir em torno de sua


mandíbula inchada.

“Tudo bem”, digo quando concluo meu exame. ”Você não tem uma
concussão, mas ainda precisa ir com mais calma Golpes na cabeça não são
boa para o cérebro, basta perguntar a todos os jogadores da NFL.”

“Sim, Dra. Cobakis.” Ilya sorri tanto quanto seu lábio dividido
permite. “Eu vou tomar cuidado.”

Sorrio de volta para ele, ignorando um bufo de seu irmão, e então me


volto para Peter, que ainda parece estar com um humor sombrio.

“Deixe-me ver isso”, digo, puxando-o para baixo em outra banqueta


para que eu possa chegar ao topo de sua orelha. “Parece que você perdeu
alguma pele lá fora.”

Peter fica quieto, deixando-me limpar e enfaixar o arranhão antes de


examiná-lo para mais ferimentos leves. Quando termino, minhas mãos
estão firmes novamente, o trabalho familiar diminuindo o choque da
explosão de violência.

Infelizmente, minha calma recém-descoberta não dura muito


tempo. No segundo em que guardo todos os suprimentos médicos, Peter
pula da banqueta e se abaixa para me pegar. Ignorando o meu grito de
surpresa e o uivo de lobisomem dos caras, ele me levanta em seus braços e
reivindica minha boca com um beijo profundo e ferozmente faminto.

Então, segurando-me apertado contra o peito como o prêmio de


guerra que ele acredita que eu seja, e se dirige para as escadas.
35

Peter

Sara se contorce em meus braços enquanto a levo escada acima, seu


rosto pálido corado, presumivelmente com raiva e vergonha. ”Deixe-me
descer”, ela sussurra furiosamente, logo que chegamos ao segundo
andar. ”Peter, me coloque no chão agora.”

Não a coloco no chão até entrarmos no nosso quarto. Ainda estou


com sede de sangue, a adrenalina da luta fazendo meu coração bombear em
um ritmo duro e furioso. Raiva e ciúme se infiltram em minhas entranhas, e
embaixo disso tudo uma fome profunda e exigente, uma necessidade de
pegá-la e reivindicá-la, para fazê-la minha tão completamente, ela nunca
mais sorrirá para outro homem.

Sei que o que estou sentindo é irracional, beirando a patologia, mas


vê-la hoje à noite neste vestido, esse vestido vermelho, apertado e muito
decotado. Fez com que eu perdesse qualquer aparência de racionalidade
que eu possuísse. Nas últimas semanas, enfrentei os olhares ocasionais dos
rapazes em sua direção, com a competição de suas refeições por sua
atenção e seus pedidos de comida não tão secretos. Mas o que eu vi nos
olhos de Anton esta noite foi uma imagem espelhada da minha própria
luxúria por Sara, e que eu não podia deixar escapar.

“Você não deve usar este vestido em público de novo”, digo


duramente, atingindo em torno de sua estrutura esbelta para o zíper nas
costas. ”De agora em diante, é apenas para o nosso quarto.”

Sara olha para mim, as cremes ondas de seus seios superiores,


expostos pela porra do vestido, arfando com sua respiração rápida. ”Você é
louco.” Suas palmas empurram contra minhas costelas. ”Você me deu esse
vestido.”

“Yan comprou.” Puxo o zíper para baixo com força desnecessária, a


raiva ainda bombeando nas minhas veias. ”E se houver outros assim, é
melhor guardá-los apenas para os meus olhos. Da próxima vez que eu
pegar outro homem salivando por você, vou desmembrá-lo. Lentamente.”
Não estou blefando, e Sara deve ver isso, porque parte da cor deixa o
rosto dela. “Você é louco”, ela sussurra, seus olhos castanhos enormes
enquanto ela olha para mim, e sei que ela está certa. Eu sou louco,
completamente louco por ela. Tenho feito o meu melhor para manter a
intensidade da minha necessidade sob controle, mas não posso mais fazer
isso. Não posso fingir que a cada minuto que estamos separados não parece
uma hora, que toda vez que a toco, não quero devorá-la no ato. Meu desejo
é sombrio e violento, mas tenho me forçado a ser civilizado, a me limitar a
agir como um amante quando o que quero é desnudá-la até o osso, para
que eu possa possuí-la inteira.

Tenho lutado uma batalha perdida e estou pronto para desistir da


luta.

Alguns dos meus pensamentos devem mostrar, porque Sara começa a


lutar quando puxo o vestido retirando-o, expondo seus seios sem sutiã
e prendendo seus braços. O contraste da cor vermelha brilhante com sua
pele pálida realça as manchas verdes em seus olhos cor de avelã e faz meu
pau pulsar com uma necessidade selvagem. Eu a quero. Porra, o quanto eu
a quero. É como uma doença, essa luxúria que me atormenta dia e noite.

Caindo de joelhos, envolvo meus braços ao redor dela, mantendo seus


braços presos dentro do vestido enquanto pego um mamilo rosa e ereto na
minha boca. Sara grita, sua luta se intensifica enquanto eu chupo o
mamilo, esmagando-o contra o céu da boca com a minha língua, mas não
paro. Não posso. Ela tem gosto de sexo e doce perfeição, como toda fantasia
minha trazida à vida. Não sei como eu pude ter vivido a maior parte da
minha vida sem ela, porque agora que a tive, preciso de mais a cada vez.

Preciso de tudo dela, e esta noite, eu vou aceitar.

“Peter, por favor...” Ela está ofegando agora, sua barriga lisa treme
quando volto minha atenção para o outro seio. “Eu só, oh Deus, por favor...”

Atormento seus mamilos até que a queimadura dentro de mim atinge


o tom febril, e então puxo o vestido todo para baixo, deixando-o em torno de
seus tornozelos enquanto me levanto e a levo em direção à cama. Ela
tropeça quando a parte de trás de seus joelhos bate na cama, mas a pego e
a coloco de barriga para baixo antes de subir em cima dela, completamente
vestido.

“O que você está...” Ela interrompe em um suspiro quando removo o


meu cinto e capturo seu pulso, torcendo-o atrás das costas e enlaçando o
cinto em torno dele. Então repito o processo com o outro pulso, ignorando
suas tentativas de me afastar dela enquanto amarro suas mãos, prendendo-
as com o cinto atrás das costas.

“O que você vai fazer? Por favor, Peter... o que você vai fazer?” Suas
palavras são abafadas contra o cobertor enquanto pego um travesseiro e o
coloco sob seus quadris. Não é o suficiente, então alcanço outro,
sustentando sua bunda curvada mais alta. Ela está se contorcendo,
obviamente com medo, então, para evitar sua fuga, mantenho a maior parte
do meu peso em suas pernas enquanto alcanço a mesa de cabeceira para
pegar uma garrafa de lubrificante que guardo dentro.

Desabotoando minha calça jeans, libero meu pênis dolorido e me


inclino sobre ela, segurando meu peso em um braço enquanto passo o
lubrificante sobre sua bunda se contorcendo, deixando-o escorrer na
rachadura e escorrendo até suas dobras. Sara ofega, lutando com mais
força, e jogo o lubrificante de lado antes de penetrar sua buceta com o meu
dedo. Ela é quente e lindamente escorregadia por dentro, o lubrificante se
mistura com sua própria umidade quando empurro um segundo dedo,
esticando-a para mim.

Enquanto eu a fodo com meus dedos, rolo meu polegar sobre seu
clitóris, e logo, sou recompensados com pequenos gemidos indefesos, suas
tentativas de fugir se transformando em movimentos se contorcendo para
aumentar seu prazer. Seus quadris começam a subir em minha direção,
seu clitóris ralando contra o meu polegar a cada golpe, e eu sei que ela está
à beira. Não querendo que ela goze ainda, paro e aperto meu pau, guiando-
o para a abertura rosa e trêmula de sua vagina.

O calor úmido me envolve, paredes escorregadias me apertam quando


penetro sua carne inchada. Meu coração bate forte, minhas bolas apertam
enquanto seus músculos internos se flexionam ao meu redor, me
ordenhando, acariciando meu pau. O sentimento é sublime, e todos os
meus sentidos se aguçam, mesmo quando minha consciência do mundo
exterior se desvanece. Ela é tudo em que me concentro: o som que ela faz, o
jeito que seu corpo se estica para me aceitar... Eu posso sentir o cheiro dela
em meus dedos, e eu os levo até sua boca, ordenando com voz rouca:
“Chupe-os.”

Ela obedece, sua pequena língua ágil circulando meus dedos


enquanto os empurro em sua boca, e a fodo com eles enquanto pressiono
mais fundo em sua vagina, arrancando um suspiro sufocado de sua
garganta quando a ponta do meu pau roça seu colo do útero. Ela é pequena
e delicada embaixo de mim, seu corpo esbelto tremendo enquanto suas
mãos amarradas pressionam contra o meu estômago, e o conhecimento de
que ela está completamente à minha mercê intensifica minha luxúria,
minha necessidade de dominá-la e levá-la.

“Diga-me a quem você pertence”, rosno, puxando meus dedos para


fora de sua boca para manchar a umidade pelo queixo e
pescoço. Envolvendo minha mão em torno de sua garganta esbelta, eu
empurrei profundamente, fazendo-a gritar. ”Diga-me, Sara. Quem é seu
dono?”

Ela está respirando tão rápido que posso sentir suas exalações
rápidas onde aperto seu pescoço. ”V-você.” As palavras são quase
inaudíveis quando saem de seus lábios, e não é suficiente. Não é quase o
suficiente.

Soltando sua garganta, alcanço entre suas pernas, sentindo a carne


sedosa se esticando ao redor do meu pau, o deslizamento da lubrificação
misturando com seu creme. O arfar de Sara se intensifica, sua bunda
levanta enquanto seus gemidos ficam mais altos, e meus dedos viajam mais
altos, deslizando entre os montes claros e firmes de suas bochechas.

“Peter… espere. Oh Deus, Peter...” Meu nome soltou um suspiro


quando encontrei o aperto de sua outra abertura e pressionei a ponta do
meu dedo, ignorando a resistência dos músculos cerrados. É preciso todo o
meu autocontrole para ir devagar, para não tomá-la tão violentamente
quanto o meu corpo exige. Não quero rasgá-la, não quero machucá-la
apesar da escuridão roendo minha alma. O lubrificante facilita a passagem
do meu dedo enquanto a penetro mais fundo, mas ela ainda está muito
apertada e quase gozo quando imagino o quão apertada ela estará em volta
do meu pau, como sua bunda vai agarrar e me apertar.

Ela choraminga com o desconforto da minha penetração, mas não


paro até que meu dedo esteja completamente dentro e eu possa sentir meu
pau através da fina parede interna que separa seus orifícios. A sensação é
vertiginosa, surreal em sua intensidade. Isso aguça a fome dentro de mim,
torna-a ainda mais escura e mais feroz.

Minha linda ptichka enjaulada.

Chegou à hora de reivindicá-la totalmente.

Depois desta noite, ela não terá dúvidas de que ela é minha.
36

Sara

Oprimida, aperto meus músculos do assoalho pélvico, sentindo o


perímetro impossível de seu pênis e a ardência queimada daquele dedo
invasor. Mesmo com grandes quantidades de lubrificante, não entrou
facilmente. Sinto-me dolorosamente cheia, violada e ultrapassada, e a
minha respiração entra em tensão quando tento ajustar-me à estranha
sensação de ser penetrada em dois lugares.

Para meu alívio, meu atormentador retira seu dedo, apenas para que
ele retorne unido por outro. Os dedos grossos trabalham lentamente na
minha bunda, esticando o músculo apertado com muito cuidado, mas
ainda dói, meu corpo resiste à intrusão.

“Empurre para fora, ptichka.” Sua voz é um sussurro do diabo,


sedutor e controlado, mesmo quando seu pênis lateja dentro de
mim. ”Relaxe e deixe-me entrar. Você vai gostar.”

Ofegante, tento fazer o que ele diz, lutando contra o impulso


instintivo de apertar mais forte. Minhas mãos amarradas se flexionam atrás
das minhas costas, meus dedos se contraindo enquanto pressionam
minhas palmas. Apesar da dor pungente da invasão, uma parte de mim
está curiosa sobre isso, quase ansiosa de alguma forma distorcida. Algo
sobre o próprio desconforto disso, o modo como minhas entranhas cederam
e queimam a sensação de ser forçada e violada, ressoa com aquela estranha
e submissa tendência dentro de mim, com o desejo de punição que meu
monstro desperta em mim.

Se doer, não é uma traição.

Se não tenho escolha, não estou me apaixonando pelo inimigo.

“Sim, é isso, meu amor... Agora relaxe e respire.” Os dois dedos estão
dentro de mim, agora, grosso e duro, as bordas de suas unhas arrancando
tecidos tenros. São muitas, muito avassaladoras, as sensações além de
qualquer coisa que conheço. Meu coração é como um pássaro esvoaçante
no meu peito, minha respiração tão rápida que parece que estou entrando
em pânico. Apenas a voz dele me mantém presente no momento, aquela voz
escura e carinhosa com seu sutil sotaque.

“É isso, meu amor... relaxe...” Sua mão livre acaricia meu quadril, os
calos na palma da mão raspando minha pele. “Minha bonita ptichka, tão
delicada, tão doce... vai se sentir melhor em um momento prometo a você,
meu amor.” Falando mais carinhos, ele começa a mover seu pênis em
impulsos lentos e rasos, e meu batimento cardíaco aumentando mais,
enquanto o movimento de balanço esfrega meu clitóris contra o monte de
travesseiros.

O prazer se acumula devagar, enlouquecedoramente, a tensão


aumentando no ritmo de uma lesma. A pressão do travesseiro no meu
clitóris é muito leve, seus movimentos rasos são suaves demais. Estou
muito ciente da plenitude dolorida na minha bunda, e gemo no colchão em
frustração, empurrando meu quadril mais alto, precisando que ele vá mais
duro, mais rápido. Eu estava à beira antes, e estou quase lá agora, mas
preciso de mais.

Preciso que ele me leve até o fim e me atire, para me dar mais prazer
e mais dor.

“Peter, por favor,”, imploro, mas o bastardo perverso para e sai


completamente de mim. Apenas seus dedos permanecem na minha bunda,
e no momento seguinte, ele também os retira, deixando-me dolorido e vazio,
no limite e frustrado além da crença.

“Peter” gemo, mas então o sinto chegar ao lado atrás de mim, e mais
lubrificante é esguichado entre as minhas bochechas.

“Shhh”, ele acalma enquanto aperto instintivamente a sensação de


seu pau enorme pressionando contra a abertura. “Vai dar tudo certo, meu
amor, deixe-me entrar...” Ele empurra com mais força, e a pressão na
minha bunda fica mais intensa, a dor pungente piora. Ele é muito maior,
muito mais grosso que os dedos, e não consigo relaxar o suficiente para
deixá-lo entrar.

“Peter.” Ficando em pânico, começo a lutar, puxando o cinto que


amarra meus pulsos nas minhas costas. ”Peter, eu não acho que é...”

O músculo cede com um estalo doloroso, deixando a cabeça larga


dentro de mim, e uma onda de tontura se choca sobre mim quando ele
desliza mais profundamente, a viscosidade do lubrificante facilitando seu
caminho. Parece que fui arrombada, invadida da maneira mais cruel, e
como ele se esgueira para dentro de mim, seu pau grosso me esticando
insuportavelmente, quero gritar para ele parar, acabar com isso. A
plenitude está além de qualquer coisa que imaginava, e meu estômago se
agita com cólicas e náuseas, suor frio escorrendo pelas minhas costas
trêmulas.

Por que eu estava tão curiosa sobre isso?

Como poderia ter desejado isso de alguma forma?

No entanto, porque fiz isso, permaneço em silêncio, sugando as


respirações enquanto espero a dor aliviar. Peter está me acalmando de
novo, acariciando minhas costas e quadris, elogiando-me por alguma coisa,
até e, em breve, a dor diminui, o pior do desconforto desaparecendo. A
plenitude extrema permanece, no entanto, e quando a mão dele desliza
entre as minhas pernas para encontrar meu clitóris, começo a tremer com
um tipo diferente de tensão. É demais, o orgasmo duas vezes frustrado e a
invasão impiedosa, a sensação dele onde nenhum homem esteve antes.

“É isso, ptichka”, ele murmura enquanto grito com a sua mão


beliscando meu clitóris. “Agora você pode ter isto. Agora você pode deixar
ir.”

Ele começa a se mover dentro de mim, com cuidado e suavidade, mas


cada golpe se parece com uma nova invasão, meu corpo aberto toda vez que
ele puxa e empurra para dentro. Dói e queima, mas o ritmo constante faz
alguma coisa, intensificando a pulsante tensão no meu sexo. Começa a
parecer hipnótico, o impulso rítmico e o arrasto dentro de mim, a pressão
dos dedos dele no meu clitóris, e enquanto afundo sob o feitiço das
sensações, a tensão cresce, o prazer se formando profundamente dentro do
meu núcleo.

“Venha para mim, Sara”, ele geme, empurrando profundamente, e


para o meu choque, eu gozo, cada músculo do meu corpo entra em colapso
na liberação. O êxtase é violento, explosivo, a libertação da tensão é tão
forte que grito. Com meus músculos internos se apertando e soltando, o
pênis dentro da minha bunda parece ainda mais invasivo, mas a dor
apenas aguça as sensações, torna o prazer escuro e ardente. Ele geme, e eu
o sinto empurrando dentro de mim, banhando minhas entranhas cruas
com sua semente.

No final, há apenas respiração irregular − a dele e a minha − e então


ele lentamente se retira, retirando o cinto de meus pulsos antes de
desaparecer no banheiro. Eu movo minhas mãos trêmulas para os meus
lados, mas permaneço sobre os travesseiros, muito abalada para me
levantar. Depois de alguns minutos, Peter retorna com uma toalha
molhada. Eu o deixo impar o excesso de lubrificante ao redor da minha
abertura dolorida, e então pego a toalha dele, segurando-a contra mim
mesma enquanto me levanto em pernas instáveis e caminho até o banheiro.

Eu preciso lavar. Urgentemente.

Peter deixa alguns minutos de privacidade e depois se junta a mim no


chuveiro.

“Você está bem?” Ele pergunta suavemente, bloqueando o spray de


água com as costas, e aceno com a cabeça, meu rosto queimando quando
encontro seu olhar. O que acabou de passar entre nós era tão íntimo e cru
que eu senti que estava aberta. Eu não entendo o que é sobre esse homem
que traz esse lado de mim, por que as coisas que deveriam ter me
horrorizado, como as manchas de sangue na toalha que acabei de usar, me
excitam em vez disso.

“Bom”, ele murmura, e no aço escuro de seus olhos, vejo um reflexo


da minha própria confusão, dos desejos conflitantes que não fazem
sentido. Como eu poderia querer me libertar desse homem e me sentir
ansiosa para chegar mais perto? Como ele poderia me amar e querer me
machucar e me punir também?

“Por quê?” Pergunto instavelmente enquanto ele emoldura meu rosto


com suas grandes mãos, seus polegares acariciando gentilmente minhas
bochechas molhadas do chuveiro. Estendo a mão, envolvo meus dedos em
torno de seus pulsos grossos, sentindo a força do tendão e do osso
duro. ”Peter... por que estamos assim?”

Ele não finge entender mal. ”Porque o amor nem sempre é bonito e
simples, ptichka”, diz ele suavemente. ”Nem é com quem você esperaria. Nós
não conseguimos escolher os desejos de nossos corações; só podemos pegá-
los e pervertê-los, moldá-los naquilo que podemos sobreviver.”

“Não” Minha voz racha quando minha garganta aperta. ”Eu não amo
você, Peter. Não posso.”

Para minha surpresa, seus lábios se curvam ligeiramente e ele abaixa


a cabeça, dando um beijo na minha testa antes de me puxar contra ele em
um abraço.
“Você pode”, ele murmura uma mão gentilmente embalando meu
pescoço enquanto o outro acaricia minha espinha. ”Você pode e vai. Algum
dia em breve, você vai parar de lutar e você verá. Porque é tarde demais
para você, ptichka, você está tão profundamente enredada quanto eu.”
PARTE IV
37

Sara

Nas próximas três semanas, faço o melhor que posso para provar que
Peter está errado, para me distanciar dele, mas é um esforço fútil. Toda vez
que eu ergo quaisquer barreiras entre nós, ele as derruba, e a conexão
perversa entre nós cresce, ajudada por uma atração física tão forte que
rasga os últimos fragmentos da minha resistência.

Agora que ele me teve em todos os sentidos, meu captor não conhece
limites com meu corpo, e nosso sexo é mais intenso do que nunca e uso de
preservativo é cada vez mais esporádico. Não entendo como isso acontece,
como meu cérebro simplesmente desliga ao seu toque, me fazendo sentir
falto de algo tão importante. Não quero uma criança com Peter − temo o
mero pensamento −, mas quando ele me pega em seus braços, a gravidez é
a última coisa em minha mente.

Até agora, tive sorte, com meu período chegou na semana passada,
como de costume, mas sei melhor do que ninguém que tudo o que é preciso
é um deslize, um momento de descuidado. E não tenho certeza se Peter está
sendo descuidado, exatamente. Ele ainda usa preservativos quando consigo
lembrá-lo, mas não houve mais pílulas do dia seguinte, não depois disso.

“Eu li toda a literatura médica sobre o tema, e eu não quero que você
fique exposto a esses hormônios”, afirmou ele quando implorei para ele
pegar as pílulas para mim novamente. ”Você é mais sensível − você mesmo
disse isso − e não vou arriscar sua saúde com a chance de ter engravidado.”

E não importa o quanto eu tentei argumentar com ele, apontando que


sou obstetra e posso avaliar os riscos sozinha, ele não se mexeu.

Estou começando a suspeitar que Peter me quer grávida, e que, mais


do que tudo, é o que mais uma vez me faz perder a cabeça.

Desta vez, aguardo meu tempo, planejando cuidadosamente cada


passo. Estou quase certa de que Peter falou a verdade quando disse que a
montanha é cercada por penhascos, mas em nossas caminhadas pela
floresta, eu vi falésias onde as encostas são menos afiadas e as raízes
fornecem alças convenientes. A montanha é definitivamente inacessível de
carro, e subindo seria quase impossível, mas um caminhante que sabe o
que ela está fazendo poderia descer.

Pelo menos eu espero que seja o caso.

Começo decidindo as provisões e examinando suas localizações. Não


posso escondê-los antecipadamente sem ser pega, mas presto muita
atenção a onde tudo está armazenado. Corda, uma faca resistente, uma
mochila, comida não perecível, garrafas de água, mantenho uma lista
mental dos itens essenciais para que, quando chegar a hora, eu possa
reunir tudo em poucos minutos. Ajuda que Peter e seus homens tenham
TOC; tudo na casa tem o seu lugar, então tudo que eu tenho que fazer
é lembrar onde é isso.

Também penso em roubar uma arma. Os homens são cuidadosos ao


meu redor, escondendo suas armas fora de vista, mas tenho certeza que
poderia colocar minhas mãos em algo se eu realmente tentasse. Não tentei,
porque quando soube onde eles as mantinham, conheci cada um dos meus
captores e não posso imaginar machucá-los. O instinto de cura está
profundamente enraizado em mim. Provavelmente poderia puxar o gatilho
em algumas circunstâncias, se minha vida estivesse em perigo, digamos,
mas esses homens não representam uma ameaça mortal para mim. Pelo
contrário, eles são bons para mim, cada um a seu modo. E pegar a arma
para blefar para me deixar ir seria idiota; eles instantaneamente viam
minha ameaça patética e levavam a arma para longe.

Enfrento ex-soldados de elite, não homens comuns, afinal.

Ainda assim, adiciono a arma à minha lista de desejos mentais,


apenas no caso de uma oportunidade para adquirir uma surge antes da
minha fuga. Eu poderia não ser capaz de blefar com Peter e seus homens
para cumprir minhas exigências, mas o mesmo não pode ser dito de um
fazendeiro japonês. Eu tentaria a abordagem civilizada em primeiro lugar, é
claro, mas se estou tendo dificuldade em obter acesso a um telefone, não
me oponho a agitar uma arma ao redor, descarregada, é claro.

Enquanto trabalho nesses preparativos, também começo a ficar de


olho no tempo, pedindo aos caras uma previsão todos os dias. Ainda não
tivemos neve, mas já é outubro e o inverno chega cedo a esta altitude.

A última coisa que quero é ser pega em outra tempestade gelada.


“Não gosto do frio”, reclamo para Peter quando voltamos de um
passeio um dia. ”E especialmente não gosto quando o dia começa a uma
temperatura, e à noite, é vinte graus mais frio.”

“Pobre bebê”, ele canta, tirando meu casaco para esfregar meus
braços. ”Venha, vamos tomar um banho bom e quente.”

Deixo que ele me aqueça com um banho quente e dois orgasmos, e no


dia seguinte, volto a reclamar sobre o tempo, assim, ninguém vai achar
estranho se eu continuar pedindo uma previsão diária.

Como estou fazendo tudo isso, os caras estão envolvidos no


planejamento deles próprios. Depois de uma longa pausa para afastar as
autoridades do cheiro, a equipe concordou em aceitar outro emprego, um
altamente pago e altamente perigoso assassinato de um político na Turquia.

Eu tenho tentado não pensar nisso, porque cada vez que faço, fico tão
ansiosa que não consigo comer nem dormir. Depois do que aconteceu na
Nigéria, apenas ouvir a palavra “emprego” aumenta minha pressão arterial.

“Por que você tem que fazer isso?”, Pergunto a Peter, frustrada, em
meados de outubro − o prazo final do cliente para concluir o trabalho − se
aproxima. ”Você mesmo disse que é especialmente perigoso para você nos
dias de hoje. Você recebeu milhões − milhões − pelo banqueiro
nigeriano. Você não pode ter passado por todo esse dinheiro tão rápido.”

“Claro que não, mas temos que pensar no futuro”, diz Peter. ”Além de
alguns de nossos brinquedos mais caros, nossos hackers custam uma
fortuna e precisamos que eles continuem evadindo as autoridades e
procurando por Henderson.”

Balançando a cabeça, respiro fundo e entro em meu estúdio de


gravação, tanto para me distrair com a música quanto para evitar
outra discussão. Porque se Peter é inflexível sobre a necessidade desses
empregos, ele está absolutamente imutável no tópico de Henderson, o único
homem que ainda permanece em sua lista. A única vez que eu
cautelosamente trouxe a possibilidade de esquecer o general e seguir em
frente, Peter me abateu com tanta severidade que não me senti inclinada a
tentar novamente.

“Ele pessoalmente emitiu a ordem para a operação de Daryevo”, meu


captor rosnou seu belo rosto tão retorcido de raiva que era
irreconhecível. ”Ele fez isso” e empurrou o telefone com fotos do massacre
para mim “e não vou descansar até que ele e qualquer um que o ajudou
estejam apodrecendo com os vermes, assim como os cadáveres de minha
esposa e filho.”

Balancei a cabeça, recuando, porque, por mais que gostaria de fingir


o contrário, entendo a necessidade de vingança de Peter. Não posso
imaginar perder pessoas de quem me importo de uma maneira tão horrível,
e sei que isso deve ter sido ainda pior para ele. De tudo o que ele me disse,
aqueles curtos anos com Pasha e Tamila foram a única vez que ele
experimentou algo parecido com família e amor.

Na semana passada, pela primeira vez, Peter falou um pouco sobre


seu filho. Foi depois que ele acordou de um pesadelo sobre as mortes de
sua família, seu grande corpo tremendo e coberto de suor frio. Ele estendeu
a mão para mim e me fodeu, e no silêncio depois disso, ele admitiu o
quanto sente falta de seu garotinho, quão agudamente ainda sente sua
ausência.

“Pasha era... vida”, ele me disse pesaroso. “Eu nem sei como explicar
isso. Nunca conheci uma criança que se alegrava com o simples ato de
existir. Pássaros, insetos, árvores, o céu e as rochas, tudo era novidade
para ele, tudo era divertido. E ele tinha muita energia. Tamila mal
conseguia acompanhá-lo. Ele a deixou louca. E carros...” Seu peito
poderoso subiu com uma respiração profunda. “Ele amava carros. Ele
queria ser piloto de corridas quando crescesse.”

“Oh, Peter...” Coloquei minha mão sobre a dele. “Ele parecia


maravilhoso.”

“Ele era”, Peter sussurrou, virando a palma da mão para apertar


meus dedos, e a intensidade da dor naquelas palavras me desmontou
rápido.

Apesar de toda a sua obsessão por mim, meu sequestrador ainda está
de luto pela perda de sua família, as pessoas que ele realmente amava.
38

Sara

À medida que meados de outubro se aproxima, os preparativos para o


trabalho na Turquia aumentam, e decido que esta será minha
oportunidade.

Se eles fizerem a mesma coisa da última vez, deixando um homem


para cuidar de mim, posso ser capaz de me esgueirar sem ser vista,
especialmente se meu carcereiro estiver tão ocupado quanto Yan durante o
show na Nigéria.

“Então...” pergunto casualmente a Peter durante uma das nossas


caminhadas, “qual é o plano na próxima semana? Yan vai ficar para trás
novamente?”

Para minha surpresa, Peter balança a cabeça. “Ele não


pode. Nenhum de nós pode desta vez. A segurança em torno do político é
muito multicamadas; Vamos precisar de todos os quatro para chegarmos a
ele.”

Meu batimento cardíaco salta para o território da esperança


repentina. Tentando não parecer muito ansiosa, digo: “Isso faz sentido. Eu
vou ficar bem aqui. Há muita comida e...”

“Não, ptichka.” Peter pega a minha mão, resolvendo-a na dobra do


seu cotovelo. “Eu não vou te deixar aqui sozinha, não se preocupe.”

Engulo minha decepção e tento dar a ele um olhar inocente enquanto


retomamos a caminhada. “Por quê? Eu não posso descer, então...”

“Exatamente.” Peter me lança um olhar sarcástico. ”Você não pode


descer, mas isso não significa que você não ficará tentada a fazer. Além
disso, não quero deixar você presa aqui se algo acontecer a nós.”

“Mas então o que você vai fazer comigo?” Pergunto genuinamente


confusa. “Você vai me levar com você no trabalho?”
“Não, claro que não, embora Yan tenha proposto
isso. O bastardo quer um médico na mão em caso de lesões”, diz Peter com
uma careta. “Estou esperando retorno de alguém, e uma vez que eu tiver,
vou dizer a você qual é o plano.”

“O quê?” Franzo a testa para ele. ”Retorno de quem? Sobre o que?”

“Não se preocupe com isso agora”, diz Peter e segura um ramo para
me deixar passar por baixo. “Se não der certo, há um plano B, mas o Plano
A é muito melhor, confie em mim.”

Aprendo o que o Plano A é, dois dias antes dos homens estarem


prontos para voar.

“Você vai me deixar em Chipre com um negociante de armas ilegal?”


Fico boquiaberta com Peter, tão chocada que esqueço que estou no meio de
tirar meu jeans. “E isso é melhor do que me deixar aqui por que...?”

Peter se senta na cama. “Porque ele e sua esposa me devem um


favor”, explica ele, tirando a camisa. “Então, se alguma coisa acontecer
comigo, eles prometeram voltar para casa. Você estará segura com eles até
que eu consiga recuperá-la, e se, por qualquer motivo, eu não estiver...
Bem, você vai conseguir o que você quer meu amor. Sua antiga vida será
sua novamente.”

Atordoada, termino de me despir e me sento na cama ao lado dele,


vestida apenas com roupa de baixo. “Mas outro criminoso? Como você sabe
que pode confiar nele? E se ele te entregar? Você disse que há um preço em
sua cabeça...”

Peter encolhe os ombros, seus olhos percorrendo meu corpo quase


nu. “Como eu disse, Lucas Kent me deve um favor, e ele não precisa do
dinheiro da recompensa. Ele costumava ser o segundo no comando de
Julian Esguerra, um poderoso traficante de armas, e agora ele é o parceiro
de seu chefe em alguns empreendimentos. O dinheiro da recompensa não
move a agulha para ele, e nem o favor que ele poderia ter com as
autoridades, me entregando.”

“Oh.” Algo incomoda no fundo da minha mente, algum detalhe que


não consigo lembrar. Então vem para mim. ”Espere, esse Kent é o
negociante de armas que você mencionou antes? Aquele que deu sua lista?”

“Não, na verdade, esse era seu chefe, Esguerra”, diz Peter,


alcançando minhas costas. “Ou tecnicamente, a esposa dele, como
Esguerra tinha jurado me matar naquele momento.”
Pego seus pulsos antes que ele tenha a chance de soltar meu
sutiã. “Matar você? Por quê?”

Peter suspira. ”É uma longa história, mas basta dizer que Kent não
compartilha o ódio de Esguerra por mim. Eu o ajudei a sair de alguns
lugares apertados, quando trabalhávamos juntos. Esguerra também foi
meu empregador no passado e depois, quando Kent precisava recuperar
sua esposa. De qualquer forma, tudo que você precisa saber é que Kent me
deve.”

“Mas esse Esguerra − o parceiro de Kent − quer matar você?” Ao


aceno de Peter, pergunto em frustração: “Por que”?

“Porque salvei a vida de Esguerra, mas tive que ir contra minhas


ordens para fazê-lo. Especificamente, tive que pôr em perigo sua esposa, a
mulher que ele me confiou para proteger. Foi a pedido dela, ela negociou
com a minha lista, na verdade. Mas ainda assim, ele ficou satisfeito.”
Saindo do meu abraço com facilidade risível, Peter vai para o meu sutiã
novamente.

Desisto e deixo-o se soltar. “Mas ele e a esposa, estão bem?”

Peter encolhe os ombros novamente, seu olhar aquecido baixando


para os meus seios expostos. “Bem, é um termo relativo, mas, sim, os dois
sobreviveram, e ela manteve sua parte no trato e me forneceu a lista.” Sua
voz é rouca quando ele volta sua atenção para o meu rosto e diz: “Você não
tem que se preocupar com os Esguerras, ptichka. Eles estão na Colômbia,
longe do complexo de Kent em Chipre. Você vai ficar com Kent e sua esposa
por alguns dias, o que nos leva a fazer o trabalho, e então vamos buscá-la
quando estivermos voltando. Chipre está ao lado da Turquia, no caso de
você não estar ciente.” Enquanto ele fala, ele cobre meus seios, apertando e
massageando-os gentilmente.

“É por isso que...” Engulo quando ele sacode meu mamilo com o
polegar, enviando um formigamento de calor direto para o meu núcleo. “É
por isso que você quer me esconder lá? Porque é conveniente?”

“Parcialmente”, Peter responde, olhando para cima para encontrar o


meu olhar. “Mas principalmente porque Lucas Kent vai mantê-la segura
para mim... então quando eu voltar, vou te encontrar lá.”

E segurando meu rosto entre as palmas das mãos, ele me beija


profundamente e me leva até a cama.
39

Peter

Sara está quieta, quase retraída nos dois dias que antecedem a
viagem, e sei que é porque ela está preocupada. Yan me contou como estava
ansiosa durante o nosso trabalho na Nigéria, e enquanto isso me agradou
na época, lamento agora que estou causando tanto estresse a ela. Se ela
quer admitir ou não, meu pequeno pássaro se preocupa comigo.

Ela se importa muito.

Faço o meu melhor para distraí-la da proximidade da viagem,


deixando-a falar com seus pais diariamente, levando-a para passear e
fazendo amor com ela todos os minutos que eu tenho. Infelizmente não
tenho muitos. Há muito a fazer e muitos cenários para planejar. O político −
Deniz Arslan − está acostumado a pessoas que o perseguem, e sua
segurança são de primeira, tão boa quanto qualquer coisa que eu possa ter
configurado para meus clientes de consultoria no passado. Existem apenas
algumas pequenas fraquezas que pudemos descobrir até agora, e até
mesmo aquelas que poderiam ser armadilhas.

Este não vai ser um trabalho fácil, e é por isso que um Oligarca
ucraniano nos paga vinte e cinco milhões de euros para fazê-lo.

Na noite anterior à viagem, faço para todos mais um bom jantar, mas,
dessa vez, proíbo os caras de discutirem qualquer coisa relacionada ao
perigo que se aproxima. Mantemos a conversa leve, relembrando histórias
divertidas de nosso passado, e Anton finalmente consegue tirar Sara de sua
concha dizendo-lhe como nos conhecemos.

“Então, aqui estou eu, um punk do exército de 21 anos recrutado


para essa equipe de elite, pronto para conhecer meu novo comandante”, diz
ele, sorrindo. “Eu imaginei que ele seria um velho cachorro experiente,
cheio de histórias salgadas sobre o Afeganistão e a vida sob o comunismo. E
em vez disso, entra um cara da minha idade, ele balança o garfo na minha
direção, entra e começa a dar ordens. Achei que tinha que ter um mal-
entendido e disse a ele para se foder, só para acabar com a faca na minha
garganta.”

Sara ofega em choque. “Peter ameaçou você?”

“Se quase cortar sua artéria carótida é uma ameaça, então sim.”
Anton ri e balança a cabeça em lembrança. “Foi bom, no entanto. Ajudou-
nos a ter uma ideia do tipo de homem com quem estávamos lidando.”

Sara se vira para mim, seus olhos castanhos arregalados. “Então você
se tornou um líder de equipe quando tinha apenas vinte e um anos?”

Aceno, terminando meu salmão assado. “Naquele momento, eu tinha


quatro anos de experiência rastreando e interrogando pessoas, e era muito
bom no meu trabalho.”

“Posso imaginar”, diz Sara secamente. Olhando para os gêmeos, ela


pergunta: “Todos vocês começaram a trabalhar juntos ao mesmo tempo?”

Yan balança a cabeça. ”Ilya e eu nos juntamos mais tarde, depois que
a equipe ficou no local por alguns anos. Esses dois − ele aponta para Anton
e eu − já eram profissionais, mas conseguimos acompanhar.”

“Oh, por favor.” Anton bufa. “E aquela vez que você ficou preso
naquele poço perto de Grozny? Como nós tivemos que arrastar sua bunda
com um balde de água nos acompanhando?”

Yan encolhe os ombros, sorrindo friamente. “Recebi muita informação


sobre os rebeldes chechenos por estar nesse poço, e mergulhar foi melhor
do que acabar em pedaços com a bomba.”

Sara empalidece com a menção de uma bomba e atiro para Yan com
um olhar sombrio. Nós concordamos em manter as coisas leves hoje à noite,
evitando o que quer que possa lembrar a Sara sobre a próxima viagem e as
bombas definitivamente caem nessa categoria.

Percebendo seu erro, Yan dá uma cotovelada em seu irmão e diz:


“Agora, este teve algum problema. Lembra daquela prostituta que roubou
suas botas?”

Ilya fica vermelho quando Yan se lança no conto entre as gargalhadas


de Anton, e eu pego o joelho de Sara debaixo da mesa, apertando sua perna
coberta de jeans tranquilizadoramente. Ela sorri para mim e sinto aquele
brilho suave e quente no meu peito, o que me faz sentir tão vivo quando
estou com ela. Estamos cercados pelos meus companheiros, mas podemos
estar sozinhos, porque ela é tudo de que conheço tudo que ouço e vejo.
Minha Sara

Eu a amo tanto que dói.

Terminamos o jantar com uma sobremesa luxuosa, e depois levo Sara


para o andar de cima, onde faço amor com ela até estarmos cansados e
doloridos.
40

Sara

Parece estranho caminhar até o helicóptero com Peter e saber que


estou saindo da montanha pela primeira vez em quatro meses e meio. Por
alguma razão, não fiz essa matemática antes, não somei todos os dias e
semanas que passaram, mas agora que percebi, faz um ano desde que Peter
entrou na minha vida... um ano desde que ele invadiu minha casa e me
torturou para chegar a George.

Não vejo minha família há quatro meses e meio e, se não fugir, talvez
nunca mais os veja.

A menos que Peter seja morto, um sussurro insidioso me lembra, e


meu coração falha por um instante. A preocupação com meu sequestrador é
uma constante faixa pesada ao redor dos meus pulmões, inquebrável e
sufocante, e não importa o quanto eu raciocine comigo mesmo, não posso
fazer o medo desaparecer.

Não quero minha liberdade.

Não a esse preço, pelo menos.

Não desisti da ideia da fuga, mas considerando esses novos


desenvolvimentos, meu novo plano é fugir para Chipre. Não sei que tipo de
segurança Lucas Kent tem no lugar, mas há uma chance de ele ser mais
descuidado do que Peter e seus homens, menos investido em me manter
longe da internet e dos telefones. Ele pode até ter dúvidas sobre atuar como
meu carcereiro, embora eu não esteja contando com isso.

Homens no mundo de Peter não parecem se importar com a liberdade


de uma mulher.

Quando o helicóptero decola, observo nosso retiro nas montanhas


ficar menor na janela, mas, em vez de esperança, tudo que sinto é
pavor. Gostaria de receber essa mudança, aproveitar as oportunidades que
ela oferece, mas embora eu pretenda fazer exatamente isso, não posso
deixar de desejar que não estivéssemos indo.
Não posso deixar de temer o que pode acontecer a seguir.

Não durmo no avião desta vez, não posso, e quando chegamos a uma
pista de pouso particular em Chipre, meus olhos ardem de secura e
exaustão. Peter também não dormiu, passando a maior parte do voo de
treze horas percorrendo a logística de última hora com os gêmeos, mas ele
parecia tão descansado quanto no momento em que entramos no avião e
seus homens também.

Se eu não soubesse, pensaria que todos os russos são sobre-


humanos.

É agradavelmente quente quando saímos do avião, a brisa tropical


trazendo uma pitada de sal e mar. Uma limusine preta está nos esperando,
e nos leva em um passeio panorâmico por uma área pouco
povoada. Algumas vezes, até vejo o que parece ser um animal selvagem. O
impulso em si, no entanto, me deixa nervosa. Não apenas o carro trafega do
lado esquerdo da estrada, como no Reino Unido, mas as estradas são
estreitas e sinuosas, ocasionalmente se estendendo ao lado de alguns
penhascos de aparência perigosa.

Finalmente, chegamos a um portão automático e, no final de


uma longa entrada, vejo uma casa de estilo mediterrâneo em uma encosta
com vista para a praia, a casa de Kent, segundo Peter. É grande e bem
cuidada, mas não é tão ostensiva quanto eu esperava de um rico
comerciante de armas.

“Não deixe o tamanho da casa a enganar”, diz Peter quando menciono


isso a ele. “Kent não gosta de ter pessoal, mas é dono de toda a terra até
onde a vista alcança, incluindo a praia abaixo, e ele tem medidas
extraordinárias de segurança. Neste momento, há várias dezenas de
guardas patrulhando a área, e mais de cinquenta drones militar vigiando-
nos. Se Kent pensasse que nós somos de alguma forma uma ameaça, não
chegaríamos a um quilômetro desse lugar sem sermos explodidos em
pedaços.”

“Oh.” Olho para cima, meu estômago apertando. Embora seja apenas
o final da tarde neste fuso horário, o céu está coberto de nuvens, e isso
torna ainda mais ameaçador, o fato de que algo tão mortal está pairando
sobre nós sem ser visto.

“Não se preocupe”, diz Yan, aparentemente adivinhando meus


pensamentos. Ele está andando atrás de mim e de Peter, carregando uma
bolsa pendurada casualmente por cima do ombro. “Se Kent nos quisesse
mortos, nós não estaríamos andando.”

“Cale-se, seu idiota”, seu irmão murmura, lançando um olhar


preocupado para Peter, mas seu chefe não está escutando. Em vez disso,
ele está olhando para o homem alto e de ombros largos que acabou de abrir
a porta da frente e está descendo os degraus em nossa direção.

Olho para ele também, fascinada pela dureza de suas feições e pela
frieza de seus olhos pálidos. Seu cabelo de cor clara é usado curto, quase
raspado, e sua pele é escura e bronzeada. Como Peter, ele parece ter trinta
e poucos anos e, como meu captor, ele também deve ser ex-militar. Eu
posso ver isso na maneira como ele caminha e no aguçado alerta de seu
olhar.

Este é um homem acostumado ao perigo.

Não, percebo quando ele se aproxima que este é um homem


que prospera no perigo.

Não é nada específico que dê essa impressão, ele está vestindo jeans e
uma camiseta, sem armas ou tatuagens à vista, mas tenho certeza da
minha conclusão. Há apenas algo sobre os homens que estão intimamente
familiarizados com a violência, uma espécie de crueldade sem medo que
falta às pessoas civilizadas. Peter e seus companheiros de equipe têm de
sobra, e assim como este homem.

“Lucas”, diz Peter em saudação, parando na frente dele. “É bom te


ver.”

O homem loiro acena com a cabeça, seu sorriso tão duro quanto seu
rosto. “Sokolov.” Seu olhar pálido se aproxima de mim. “E você deve ser
Sara.”

Aceno cautelosamente. “Olá.” Por alguma razão, não esperava um


sotaque americano, mas é exatamente isso que ouço na voz de Lucas Kent
quando ele cumprimenta os companheiros de equipe de Peter.

“Parabéns pelo seu casamento ”, Peter diz enquanto nosso anfitrião


nos leva pelas escadas até a entrada. “Desculpe, não tive a chance de enviar
um presente.”

Kent parece divertido com isso. “Foi provavelmente melhor. Esguerra


mal se conteve como está.”

“Ah.” Peter sorri. ”Então ele ainda tem algo contra sua noiva?”
“Você sabe como ele é”, Kent diz laconicamente, e Peter ri.

“Mais que a maioria, tenho certeza. Onde está sua nova esposa, a
propósito?”

“Na cozinha, preparando o jantar”, diz o traficante de armas, seu tom


aquecendo um pouco pela primeira vez. “Você vai encontrá-la em um
minuto.”

Ouço baixinho enquanto eles continuam falando, mencionando


pessoas e lugares que não conheço. Estou curiosa sobre o que Kent quis
dizer quando disse que seu chefe / parceiro mal se continha. Soava como se
Esguerra não gostasse da nova esposa de Kent e, em caso afirmativo,
gostaria de saber o motivo.

Quando entramos na casa, um aroma saboroso de carne e


especiarias variadas faz meu estômago roncar. Nós comemos sanduíches no
avião, mas isso foi há horas, e estou morrendo de fome novamente. Duvido
que a comida da Sra. Kent chegue perto das deliciosas misturas de Peter,
mas se o jantar desta noite for tão bom quanto cheira, vai chegar perto.

Peter e seus homens vão voar imediatamente após o jantar, eles têm
algum trabalho para fazer esta noite, então Lucas direciona Anton e os
gêmeos para um banheiro na entrada antes de levar Peter e eu para o
quarto onde vou ficar. Enquanto percorremos a espaçosa sala de estar, noto
que o interior da mansão de Kent é moderno, mas surpreendentemente
aconchegante, com sofás macios e acabamentos em madeira quente que
suavizam as linhas nítidas de móveis de inspiração escandinava. Janelas do
chão ao teto deixam entrar uma quantidade tremenda de luz e exibem
vistas deslumbrantes do Mar Mediterrâneo abaixo, enquanto as paredes são
cobertas com fotos de um casal sorridente, nosso anfitrião e uma linda
jovem loira que deve ser sua esposa. Um adolescente ocasionalmente
aparece nessas fotos também, sua semelhança com a Sra. Kent leva-me a
pensar que ele é seu irmão.

A mulher linda nessas fotos não parece ter idade suficiente para ter
um filho adolescente.

“Aqui estamos”, diz Kent, quando entramos em um quarto com um


banheiro ao lado e outra grande janela com vista para o mar. “As toalhas
estão no banheiro, e os lençóis já estão na cama, se precisar de mais
alguma coisa esta noite, fale com Yulia.”

“Yulia?” Eu pergunto.
“Minha esposa”, Kent esclarece quando Peter caminha para ficar
perto da janela. “Ela sabe onde está as coisas, eu não.”

“Entendi”, digo, fazendo o melhor para esconder minha repentina


diversão. No Japão, me acostumei tanto com Peter e os caras lidando com
todas as tarefas domésticas que esqueci que a maioria dos homens não é
assim. Meu pai ainda pergunta a minha mãe onde ele pode encontrar o
sorvete scooper, e George não sabia como fazer qualquer coisa, exceto
sanduíches de churrasco e queijo.

Com a lembrança inesperada, meu peito aperta, meu humor escurece


quando percebo que mais uma vez comparo meu marido morto ao seu
assassino. É algo que eu me peguei fazendo mais vezes ultimamente, e a
cada vez me sinto envergonhada e zangada comigo mesmo. As comparações
raramente são lisonjeiras para George, e isso não é justo. O que George e eu
tínhamos foi um relacionamento regular, com gosto, respeito e
um tipo normal de atração. Meu marido não era obcecado por mim, e eu
não sentia por ele nem mesmo uma fração das emoções contraditórias que
Peter desperta em mim.

E isso foi uma coisa boa, digo a mim mesmo enquanto vou ao
banheiro para me refrescar. O que tenho com Peter é muito intenso, muito
esmagador. O que ele está disposto a fazer para me ter é aterrorizante,
assim como minha incapacidade de resistir a ele, apesar das coisas terríveis
que ele faz. A própria ideia de nós juntos é errada em todos os níveis
possíveis. E se eu precisasse de mais provas disso, aquelas fotos nas
paredes hoje forneciam isso. Até mesmo nosso anfitrião, o negociante ilegal
de armas, parece ter um casamento feliz, algo que nunca vou ter com Peter.

Duvido que Lucas Kent tenha sido cruel o suficiente para manter sua
linda esposa em cativeiro, e muito menos matar seu marido.

Quando saio do banheiro, Kent se foi e Peter está sentado na cama,


esperando por mim. “O jantar está quase pronto”, diz ele, levantando-se
quando me aproximo. ”Lucas disse para ir assim que você se trocar.”

“Ok.” Eu pego a bolsa que Peter arrumou para mim e troco minhas
roupas usadas enquanto Peter desaparece no banheiro. No momento em
que ele volta, estou vestida com um dos meus melhores vestidos de verão e
até consegui passar um gloss, uma recente compra de Yan que eu me
lembrei de colocar na sacola.
“Estou pronta”, digo quando Peter vem em minha direção, seu olhar
metálico estranhamente concentrado. “Devemos ir, então eles não são...
oh!”

Antes que eu possa fazer mais do que suspiro, me vejo curvada sobre
a cama, minha saia levantada, expondo minha calcinha. Um puxão forte do
punho de Peter, e o frágil pedaço de tecido rasga, deixando-me nua até a
cintura. Meu batimento cardíaco salta, meu interior aperta com uma
mistura de medo e antecipação, e então Peter está em mim, curvando-se
sobre mim enquanto seu pênis pressiona contra minhas dobras.

Sua entrada é áspera, violenta. Uma grande mão aperta minha


garganta, forçando-me a arquear minhas costas enquanto ele empurra para
dentro de mim, enquanto a outra mergulha por baixo, encontrando meu
clitóris. Eu não estou molhada o suficiente no começo, e os golpes selvagens
queimam seu pau grosso como um aríete dentro de mim. Em pouco tempo,
porém, seus dedos encontram o ritmo certo, e uma tensão familiar começa
a se formar no meu núcleo. Seu aperto na minha garganta restringe minha
respiração, e minhas terminações nervosas pulsam em dor agonizante de
prazer, a falta de oxigênio aumentando todas as sensações. É muito, muito
intenso, e eu arrasto em respirações superficiais, ofegantes, segurando
punhados de cobertor enquanto ele continua a martelar em mim, me
fodendo com tanta força que parece que eu poderia quebrar.

E então eu venho, a tensão crescendo em uma onda crepitante. O


prazer incandescente explode em todos os músculos do meu corpo, fazendo
meu coração sentir como se estivesse explodindo no meu peito. Tremendo,
ofegando por causa do ar, eu caio no colchão assim que Peter solta
minha garganta, e o ouço gemer quando ele pulsa dentro de mim em
liberação.

Por um minuto, não consigo pensar, só posso me enfiar fracamente


no cobertor quando ele se afasta de mim e dá um passo para trás, mas
então o significado da umidade escorrendo pelas minhas coxas desponta em
mim.

Peter não usou camisinha novamente.

Esfregando meus olhos, silenciosamente me amaldiçoo, então Peter, e


depois eu mesma novamente. Toda vez em que escorregamos foi em um
momento minimamente fértil, e é por isso que evitamos as consequências
até agora. No momento, porém, estou quase no meio do ciclo e
provavelmente ovulando.
“Você pode, por favor, me entregar um lenço de papel?” Pergunto
rigidamente, abrindo os olhos, mas não me mexendo, para não estragar o
vestido novo. Só trouxe algumas roupas comigo para esta viagem, e não
posso me dar ao luxo de sujar a primeira noite.

Peter caminha em direção ao criado-mudo ao lado da cama e retorna


com um lenço de papel. “Aqui está”, ele murmura, acariciando a umidade
entre as minhas pernas, e arranco o tecido dele, terminando sozinha antes
de ir ao banheiro novamente. Meu sexo está inchado e dolorido, e minhas
pernas não estão totalmente firmes, mas tudo que posso focar é que eu
posso ter engravidado.

Grávida do filho de Peter.

Lavo-me o máximo que posso, mesmo sabendo que é inútil. Só é


preciso um espermatozóide, não os milhões que ainda estão dentro de
mim. Lutando contra o desejo de chorar, aliso meu cabelo, me certifico de
que meu vestido ainda pareça apresentável e saio do banheiro.

“Sara...” Peter se levanta da cama onde ele estava sentado


novamente. Sua mandíbula está apertada, suas sobrancelhas franzidas
quando ele estende a mão para mim, seus dedos gentilmente envolvendo
meus braços. “Ptichka, você está bem?”

“O que você quer dizer?” Franzo a testa para ele.

“Eu machuquei você?” Ele esclarece seu rosto escurecido com


preocupação. “Eu não queria ser tão rude. Você só parecia tão linda e sexy
que eu...” Ele faz uma careta. “Bem, a verdade é que perdi o controle.”

Meu desespero dá lugar a raiva e um calor furioso sobe pelas minhas


bochechas. Linda e sexy? Essa é a desculpa dele para isso?

“Perdeu o controle?” Saio de seu aperto. “Mesmo? E quanto a todas


as outras vezes que você fez isso? Você também ‘perdeu o controle’?”

Seu olhar prateado se enche de remorso. “Eu te machuquei. Sinto


muito, meu amor. Fui rude e não queria ser... não hoje à noite, pelo
menos.”

“Você não me machucou!” Minhas mãos se enrolam ao meu


lado. “Quero dizer, você fez, mas eu não me importo com isso, eu vim, no
caso de você não saber. Estou falando da coisa sem camisinha.”

Suas feições se suavizaram, sua expressão tornando-se


opaca. “Entendo.”
“Você entende o que?” Olho para ele, me aproximando até que estou
quase pisando em seus dedos. Ele é uma cabeça mais alta que eu e muito,
muito maior, mas estou muito furiosa para me importar. “Basta admitir
isso”, assobio. “Você está tentando me engravidar. Isso não foi um acidente,
e nem todas as outras vezes nos esquecemos.”

Por um momento, tenho certeza de que Peter vai negar, mas ele
captura minha mão na sua e a pressiona contra o peito, seus olhos brilham
como vidro escuro.

“Sim”, ele diz suavemente. “Você está certa, Sara. Eu estou tentando
te engravidar.”
41

Sara

Não registro mais nada sobre a casa de Kent enquanto Peter me leva
à sala de jantar, nem presto atenção aos homens de Peter enquanto eles se
juntam a nós na sala de estar e nos seguem até a mesa. Ainda estou
processando a admissão de Peter, minha raiva rapidamente se
transformando em pânico sufocante.

Isso não é uma surpresa total, é claro. Suspeitava disso, sabia disso
em algum nível. Meu sequestrador já admitiu que não se importaria em ter
uma criança comigo, e um homem como Peter, alguém meticuloso o
suficiente para planejar assassinatos impossíveis e responder por dezenas
de variáveis imprevistas, não deixaria um preservativo fora do
esquecimento. Não repetidamente, pelo menos.

Estava certa em querer fugir. Se eu não fugir logo, talvez nunca


encontre uma saída e devo. Se não fosse por mim, então pelo meu futuro
filho.

Não posso ter um bebê com um criminoso em fuga, um homem cuja


vida está mergulhada em violência e perigo.

“Aí está você. Estava começando a pensar que você decidiu tirar uma
soneca antes do jantar.” A bela loira das fotos − Yulia − nos cumprimenta
com um sorriso deslumbrante quando entramos na sala de
jantar. Pessoalmente, ela é ainda mais impressionante, com pernas
impossivelmente longas, olhos azuis brilhantes e características
perfeitas. Como o marido, ela está vestida casualmente, com uma bermuda
jeans e uma camiseta de cor clara, mas a roupa simples apenas destaca
sua beleza natural. Ela parece ser alguns anos mais nova que eu, entre
vinte e poucos anos. Seu corpo alto e esbelto é curvado em todos os lugares
certos, e sua pele pálida brilha com um tom dourado que contrasta
lindamente com os reflexos loiro-claros em seus cabelos longos e grossos.

Se a encontrasse na rua, teria certeza de que ela era modelo ou atriz.


Percebendo que estou de boca aberta para ela como se fosse uma
celebridade, empurro todos os pensamentos sobre Peter e a gravidez de lado
e lhe dou um sorriso caloroso. “Oi. Eu sou a Sara Você deve ser a Yulia?”

Não tenho ideia se a esposa de Kent sabe da minha situação ou não,


mas se ela não sabe talvez eu possa explicar a minha situação para ela e
recrutá-la para a minha causa. Primeiro, porém, preciso conhecê-la um
pouco, ler sobre como ela é.

“Sim.” Radiante Yulia vem, e me dá um beijo muito europeu na


bochecha. “Prazer em conhecê-la.” Virando-se para Peter e seus homens,
ela sorri para eles. “Olá. Prazer em conhecer todos vocês.”

Enquanto os homens se apresentam, percebo que a esposa de Kent


também fala inglês americano perfeito, sem nenhum sotaque detectável. No
entanto, seu nome me faz pensar que ela é de algum lugar da Europa
Oriental, um palpite confirmado quando Yan diz algo a ela em russo e ela
responde na mesma língua, sorrindo amplamente.

“Yan acabou de perguntar se a comida vai ser tão boa quanto em


seus restaurantes”, Peter traduz para mim. “Yulia tem três deles até agora,
e Yan aparentemente foi para um em Berlim.”

“Oh.” Retiro meu pensamento anterior; talvez a comida tenha o


mesmo sabor que cheira. “Isso é maravilhoso. Parabéns.”

“Obrigada”, diz Yulia, seu sorriso se iluminando ainda mais. “É muito


trabalho, mas eu amo isso.”

“O que você ama?” Kent pergunta, entrando. Indo direto para Yulia,
ele a puxa para ele, colocando um braço possessivo em torno de sua
cintura. Seu rosto duro é inexpressivo, mas seus olhos pálidos brilham
perigosamente enquanto ele examina Peter e seus homens, sua postura
uma advertência silenciosa para manter suas mãos e olhos longe de sua
esposa.

“A correria de meus restaurantes”, explica ela, sorrindo para seu


marido grande, de aparência perigosa, sem um traço de medo. Estendendo
a mão, ela alisa a mão sobre as costas de seu cabelo curto. “Yan aqui
aparentemente foi para a minha filial em Berlim e gostou.”

“E por que ele não deveria?” A expressão de Kent suaviza quando ele
olha para Yulia. “Suas receitas são incríveis, querida.”
Sua cor se intensifica e, por um momento, parecem ignorar nossa
presença. O olhar que passa entre eles é tão terno, tão íntimo que meu
próprio rosto aquece mesmo quando uma dor agridoce perfura meu
coração.

O casamento de Kent é realmente feliz e não posso deixar de invejar


isso.

“Comida?” Anton diz, e todos nós rimos quando Yulia se desembaraça


do aperto do marido e corre para a cozinha. Nosso anfitrião vai atrás dela e
voltam um minuto depois com deliciosos pratos cheirosos que colocam na
mesa. Peter e eu vamos para a cozinha para ajudá-los a trazer o resto, e
alguns minutos depois, estamos sentados para uma refeição gourmet que
supera os pratos mais extravagantes que Peter já fez para mim.

“Será que todos na sua parte do mundo cozinham assim?” Pergunto,


maravilhada. Não há apenas dois tipos diferentes de frango assado e
cordeiro marinado, também tem peixe defumado, cinco tipos diferentes de
saladas, massas folhadas e crepes recheados com uma variedade de
coberturas de dar água na boca, e tantos molhos e acompanhamentos que
só posso esperar ter estômago suficiente para experimentar tudo. E tudo é
organizado tão bem que cada prato se assemelha a uma obra de arte.

“Não, você só teve sorte comigo e todos nós tivemos sorte com Yulia”,
diz Peter, sorrindo. Sua expressão é relaxada, seu olhar de aço quente
quando ele olha para mim. Se ele não me dissesse a cinco minutos que ele
pretende forçar uma criança em mim, teria sido fácil fingir que somos um
casal normal tendo um bom jantar com um grupo de amigos.

Todos comem, elogiando Yulia a cada mordida, e só quando estamos


no meio do caminho é que a discussão se transforma em negócios. Acontece
que Peter sabe bastante sobre o comércio ilegal de armas, incluindo todos
os principais participantes, e eu ouço com fascínio enquanto ele e nosso
anfitrião discutem acordos em que quantias insanas de dinheiro são
negociadas, algumas chegando a bilhões.

Não sabia que o comércio de armas era tão lucrativo, ou que meu
próprio governo às vezes estava envolvido.

“Você já descobriu essa restrição de fabricação com o explosivo


indetectável?” Peter pergunta, pegando uma massa folhada recheada com
uma mistura de shiitake-camembert, um dos pratos mais populares entre
seus homens. “Isso foi bastante procurado, se bem me lembro.”
“Ainda é, e não”, Kent responde enquanto Yulia coloca uma colherada
de salada de caranguejo em seu prato. “O material básico é tão instável que
você precisa ter químicos altamente treinados supervisionando o processo
de fabricação em cada etapa do processo. E mesmo que pudéssemos
aumentar a produção, o Tio Sam não quer isso. Como você pode imaginar,
os americanos estão muito satisfeitos comprando cada lote que produzimos,
sempre que o produzimos”,

“Claro.” Peter pega outra massa para si mesmo antes que os gêmeos
Ivanov possam dizimar o prato inteiro. “Frank ainda está lá com vocês?”

“Ele se aposentou há alguns meses”, Kent diz e estende a mão para


brincar com a mão de Yulia, entrelaçando seus grandes dedos bronzeados
com os finos. “Agora temos um novo contato da CIA − Jeff Traum. Ele é
duro, no entanto. Odeia a coragem de Esguerra e só trabalha conosco sob
pressão.”

“Como assim?” Yan pergunta, parecendo profundamente


interessado. “Vocês fizeram alguma coisa para ele?”

Kent encolhe os ombros. “Não realmente. Nós jogamos aos israelenses


algumas informações umas vezes, então acho que isso desempenhou um
papel. E essa coisa com Novak não ajudou.”

As sobrancelhas de Peter se erguem. “O traficante de armas sérvio?”

“Sim, ele mesmo.” Kent solta à mão de Yulia, sua boca se


contraindo. “Ele está interferindo em nossos negócios e tivemos que
retaliar. Infelizmente, a CIA estava no meio de uma operação militar quando
atacamos e explodimos alguns agentes. Não de propósito, veja bem. Mas
Traum ainda está chateado, porque essa operação era seu bebê.”

“Sabe, eu ouvi algo sobre isso”, diz Peter, pensativo. Virando-se para
Anton, ele diz: “Lembre-me... o show de merda que nossos hackers estavam
falando em agosto − foi em Belgrado?”

“Isso mesmo”, diz Anton, assentindo. ”Dois armazéns cheios de C-4,


quinze caminhões blindados e uma fábrica perto da aldeia. Foi você quem
fez Kent?”

O sorriso do nosso anfitrião ficou aguçado do que uma lâmina. “De


fato. Nós tivemos que impressionar nossa seriedade em Novak. Subornar-
nos nos preços é uma coisa, mas invadir nossas instalações na Indonésia e
matar todo o pessoal? Isso cruzou uma linha.”
Ouvindo fascinada e horrorizada, olho para Yulia para ver como ela
está reagindo a tudo isso. Alguém poderia se acostumar a um jantar
conversando sobre assassinatos de funcionários e explodir de fábricas?

Com certeza, a esposa de Kent está comendo com calma,


aparentemente imperturbável. Ela não tem nenhum problema com os
negócios violentos de seu marido, ou ela é uma excelente atriz. Por alguma
razão, suspeito que seja um pouco dos dois, o que me faz pensar sobre o
passado de Yulia. Ela sempre esteve na indústria de restaurantes e, se não,
o que ela fazia antes? Como ela e o marido se conheceram?

Em geral, como alguém encontra um homem deste mundo se o


marido não tiver a infelicidade de estar na lista de vingança de um
assassino?

Impulsionada pela curiosidade, levanto-me para ajudar quando Yulia


começa a limpar os pratos. Ela tenta negar minha ajuda, mas insisto em
ajudá-la a levar tudo para a cozinha, deixando os homens para discutir o
que aconteceu em Belgrado. É importante que me aproxime da esposa de
Kent, e não apenas porque quero aprender mais sobre ela.

Se eu tiver uma chance de fugir antes que Peter volte, precisarei da


ajuda dela.

“De onde você é originalmente?” Pergunto enquanto ela tira várias


sobremesas de uma geladeira do tamanho de um restaurante. “Você fala
inglês perfeito, mas seu nome…”

“É ucraniano”, explica ela, sorrindo. “Embora pudesse ser facilmente


russo. O nome é comum nos dois países. Se for difícil para você pronunciar,
pode me chamar de Julia, isso seria o equivalente em inglês.”

Sorrio de volta e começo a lavar pratos sujos. “Acho que posso


pronunciar certo. Yu-lee-yah , certo?”

Ela parece satisfeita. ”Você entendeu. Alguns americanos têm


problemas, e é por isso que os deixo fazer a parte da Julia. Sua pronúncia é
muito boa, melhor que a maioria.”

“Obrigada. Deve ser porque tive muita exposição à língua russa


ultimamente”, eu digo, empilhando os pratos lavados na máquina de lavar
louça. Espero que ela pergunte sobre isso, mas Yulia apenas sorri e leva o
primeiro conjunto de sobremesas para a sala de jantar antes de voltar para
a cozinha para mais.
Não tenho a chance de falar com ela novamente, porque ela continua
indo e voltando, levando chá e café para acompanhar a
sobremesa. Frustrada, volto para a mesa, onde os homens estão agora
discutindo a situação na Síria e as contínuas turbulências na Ucrânia. Eu
tento seguir a conversa deles, mas eles podem estar falando russo. Todas as
outras palavras são um lugar ou nome que eu não conheço, juntamente
com iniciais estranhas como UUR. A única coisa que aprendo é que o
negócio de Kent prospera em conflitos de todos os tipos, desde a rivalidade
em pequena escala entre os cartéis de drogas até as guerras entre as
nações.

Todo homem nessa mesa contribui, de uma forma ou de outra, para a


morte e o sofrimento ao redor do mundo.

Até agora, eu deveria estar acostumada com isso, tenho vivido com
uma equipe de assassinos por meses, mas ainda é surpreendente perceber
o quão normal são para eles, e quão completamente despreocupados eles
estão com banalidades como o bem e o mal. De onde venho, as pessoas
sentem vergonha se não reciclam ou doam suas roupas usadas, muito
menos dizem ou fazem qualquer coisa para prejudicar o outro. Os homens
maus do meu mundo traem suas esposas, dirigem bêbados ou se recusam
a ceder seu lugar para uma mulher grávida. Eles não matam por dinheiro
ou vendem armas que podem destruir cidades inteiras.

Esse é outro nível do mal.

No entanto, mesmo quando digo a mim mesmo isso, não posso deixar
de estar ciente da passagem traiçoeira do tempo, de como cada minuto nos
aproxima do final desta refeição e da partida de Peter. Quanto a
isso, deveria ser um alívio tê-lo saindo, mas não posso reprimir a ansiedade
que ferve sob meu medo e raiva.

Não importa o que, não consigo parar de me preocupar com o


monstro que eu deveria odiar.

Brevemente, as sobremesas são consumidas, a maioria delas por


Anton e o chá acabou. Levantando-se, Peter e seus homens agradecem a
Yulia, elogiando a refeição em termos brilhantes, e então Anton e os gêmeos
vão para a saída, acompanhados por nosso anfitrião. Yulia desaparece na
cozinha e me vejo sozinha com Peter pela primeira vez desde sua revelação.

Chegando até mim, ele gentilmente esfrega os nós dos dedos na


minha bochecha. “Eu tenho que ir”, diz ele em voz baixa, e aceno, tentando
ignorar o nó dolorido em expansão na minha garganta.
“Tudo bem”, consigo dizer quase calmamente. “Boa sorte.”

Seja cuidadoso. Volte para mim. Eu preciso de você. A confissão


dolorosa está na ponta da minha língua, mas seguro as palavras de volta,
suprimindo a vontade de entrar em seu abraço e beijá-lo. Ele não é meu
amante saindo para a guerra; ele é meu sequestrador, meu raptor. Quando
ele voltar, posso ter ido embora e, se não for, teremos a maior batalha em
nossas mãos. O que Peter quer − me engravidar contra o meu
consentimento, é pior do que sequestro, mais terrível que a tortura.

Isso me privaria da escolha mais básica de todas e traria uma criança


inocente para a confusão do nosso relacionamento.

Peter segura meu olhar, e posso dizer que ele está esperando. Por
que, eu não sei, mas quando continuo lá parada silenciosamente, o rosto
dele aperta e ele deixa cair à mão.

“Eu vou ver você em breve”, diz ele severamente, se afastando, e vejo
meu coração se partindo em pedaços, quando ele sai da sala.
42

Peter

É pouco antes da meia-noite quando pousamos em uma pista de


pouso privada perto de Istambul, a menos de oito quilômetros da mansão
suburbana de nosso alvo. Nossa tarefa para hoje a noite é examinar a área
pessoalmente, como temos visto por imagens de satélites e drones até
agora.

Se tudo correr bem, atacaremos em alguns dias.

Estamos todos cansados e com jet-lag, já é de manhã no Japão, então


mantemos breve o nosso reconhecimento. Anton e Yan percorrem o
condomínio fechado onde a mansão está localizada, observando marcos
importantes e possíveis rotas de fuga, enquanto Ilya e eu entramos na
comunidade a pé, usando a mudança de turno da guarda para escalar a
cerca de três metros perto do portão principal.

Este nível de segurança é projetado para afastar os criminosos


comuns, não os antigos assassinos de Spetsnaz.

A parte difícil será a segurança na mansão de Arslan. Embora o lugar


se disfarce como apenas mais uma residência nesta comunidade rica, é
protegido com tudo, desde detectores de movimento até um pequeno
exército de guarda-costas. Scanners de retina, sensores de peso, alarmes
silenciosos, geradores de backup − há redundâncias spbre redundâncias na
segurança do local e por um bom motivo.

Quando você cruza o implacável oligarca que o coloca no poder, você


deve se preparar para o pior.

Uma vez que estamos dentro do condomínio fechado, nos dirigimos


para a mansão de Arslan, certificando-nos de manter fora da vista das
câmeras colocadas estrategicamente nos cruzamentos e em frente à maioria
das casas de luxo. Os vizinhos de nosso alvo − outros políticos corruptos e
ricos empresários turcos − têm inimigos também, embora nenhum tão
poderoso quanto o oligarca ucraniano que é nosso cliente.
Não vamos até a propriedade de Arslan, as câmeras ali seriam
impossíveis de evitar, mas não precisamos fazê-lo. Leva apenas alguns
minutos para desativar os alarmes da casa de três andares na extremidade
da rua de Arslan, a residência de um magnata imobiliário que está de férias
na Tailândia. Uma vez que os alarmes estão desligados, nós vamos até o
telhado e montamos uma câmera de longo alcance, para que possamos
observar tudo o que acontece no local do nosso alvo. Em seguida, repetimos
esse processo com uma mansão no lado oposto da rua e, em seguida, duas
residências por um quarteirão, de modo que temos uma visão de 360 graus
da mansão de Arslan.

A maneira mais simples e mais segura de matar o político seria


acertá-lo com um rifle de longo alcance. Infelizmente, as janelas da mansão
são à prova de balas, e sempre que o nosso alvo está ao ar livre, ele é
cercado por guarda-costas. A próxima melhor coisa seria colocar uma
bomba no carro dele, mas ele muda de veículo regularmente e sem qualquer
padrão detectável, além disso, os carros estão sempre fortemente
protegidos, mesmo quando estão estacionados na rua. Cada entrega em sua
casa é cuidadosamente verificada também, assim como cada pessoa que
entra e sai da mansão.

À primeira vista, a segurança de Arslan é impenetrável, mas sabemos


melhor. O lar é sempre onde todos se sentem mais seguros e isso é uma
fraqueza em si.

Deixando as câmeras no lugar, Ilya e eu saímos da comunidade e


para o cruzamento onde Yan e Anton nos buscam. Durante o resto da noite,
vamos a uma casa particular que alugamos sob identidades falsas e
organizamos turnos para assistir às filmagens das câmeras que montamos.

Yan é o primeiro a aparecer, seguido por Anton, então durmo seis


horas seguidas, antes de me levantar para fazer minhas três horas de
monitoramento da câmera. Ilya, o bastardo sortudo, conseguiu o longo
canudo dessa vez, com um total de nove horas de paralisação.

É no meio do meu turno que notamos movimento dentro da


casa. Mesmo com as persianas nas janelas fechadas, vemos as luzes acesas
no quarto principal no segundo andar, seguidas por mais luzes no andar de
baixo.

A casa de Arslan está acordando.

Ele mantém sua equipe doméstica pequena, com apenas duas


empregadas domésticas e um mordomo / guarda-costas vivendo no
local. Seus quartos estão no andar de baixo, o que funciona bem para o
nosso plano. Os outros guardas − todos os vinte e quatro − estão
estacionados em uma guarita nos fundos. Para parecer discreto para os
vizinhos, eles saem em pequenos grupos em intervalos aleatórios para
patrulhar a rua e o jardim paisagístico em torno da mansão.

Observando as câmeras, anotei o tempo e marquei o padrão das luzes


no andar de cima. As pessoas são criaturas de hábitos, mesmo aquelas que
foram instruídas por seus guarda-costas para ser o mais imprevisível
possível.

“Fique de olho na hora de sua partida”, digo a Ilya quando ele vem
para me substituir. “Nós sabemos que ele sai de casa em um horário
diferente todos os dias, mas quero ver quanto tempo passa entre aquelas
luzes se acendendo e sua partida.”

Ilya assente e senta na frente do computador enquanto eu entro em


um dos quartos para tirar uma soneca. Minha cabeça pulsa de dor, devido
à tensão, e preciso descansar para que tenha meu juízo sobre mim
enquanto planejamos esse ataque.

No momento em que fecho os olhos, no entanto, minha mente se volta


para Sara e para nossa separação tensa. Tenho tentado não pensar sobre
isso, me concentrar apenas no trabalho, mas não posso deixar de lembrar o
olhar ferido em seu rosto quando admiti minhas intenções... quando
confirmei que os preservativos esquecidos não foram por acaso.

Não percebi isso até aquele momento, não sabia que tinha cedido aos
meus desejos mais profundos até que ouvi as palavras saindo da minha
boca. No momento em que eu disse isso, porém, sabia que era a
verdade. Pode não ter sido uma decisão consciente de engravidá-la, mas
também não foi um erro descuidado. Em algum nível primitivo,
instintivo, optei por enchê-la com a minha semente, para torná-la minha da
maneira mais visceral possível.

A única vez na minha vida que fui descuidado com a contracepção foi
em Daryevo todos aqueles anos atrás, quando Tamila me seduziu antes de
eu acordar.

Abrindo os olhos, olho para o teto no quarto desconhecido. Apesar da


reação de Sara, me sinto mais leve, como se um peso tivesse sido tirado do
meu peito. É libertador abraçar a pior parte de mim mesmo, deixar de lado
o último dos meus escrúpulos morais. Não sei por que resisti por tanto
tempo, por que tentei tanto lutar pelo amor dela quando ela está
determinada a se agarrar ao ódio.

É óbvio para mim agora que, não importa o que eu faça, Sara não
deixará o passado, e se for esse o caso, ela poderia ter outro motivo para me
odiar.

Resolvido, fecho meus olhos e forço meus músculos tensos a relaxar.

Quando voltar, não haverá mais preservativos. De um jeito ou de


outro, Sara vai ter meu filho.

Se ela não pode me amar, ela vai amar uma parte de mim.
43

Sara

Levo vários minutos para me recompor depois que Peter sai, e quando
entro na cozinha para falar com Yulia novamente, Kent retorna e
educadamente, mas com firmeza, me leva ao meu quarto.

“Você deveria dormir um pouco”, diz ele, e pelo olhar implacável em


seu rosto, posso dizer que ele usará força física para me obrigar a obedecer,
se for preciso.

Ele não tem intenção de me ajudar, disso tenho certeza.

“Obrigado pela sua hospitalidade”, digo uniformemente quando


chegamos ao meu quarto, e ele balança a cabeça, seu olhar pálido
inescrutável.

“Boa noite Sara”, diz ele, e quando ele fecha a porta atrás dele, ouço o
leve clique de uma fechadura giratória.

Espero trinta segundos, depois tento a maçaneta da porta para


confirmar minhas suspeitas.

Com certeza, estou trancada.

Tomando fôlego para me acalmar, caminho até a grande


janela. Parece que a parte inferior deve se abrir deslizando para cima, mas
não importa o quanto eu tente empurrá-la para cima, o vidro grosso não se
move. Está selado ou simplesmente pesado demais para eu levantar. Algum
tipo de vidro à prova de balas, talvez? Isso faria sentido, dada a profissão de
Kent.

De qualquer forma, abrir a janela está fora.

Em seguida, exploro a pequena janela no banheiro. Tem o mesmo


vidro grosso que a janela do quarto, e há dois problemas adicionais: é muito
pequeno para eu rastejar, e não há nenhum mecanismo de abertura, tanto
quanto posso dizer.
Frustrada, deixo as janelas e vou até o armário e a cômoda,
procurando por um telefone esquecido ou um velho tablet. As chances de
encontrar um dispositivo desse tipo aqui são escassas, mas, em casa, as
pessoas deixam seus eletrônicos em toda parte, e é possível que Kent e sua
esposa façam o mesmo. Afinal, esta é a casa deles, não um lugar onde eles
regularmente mantêm prisioneiros.

Pelo menos espero que seja o caso.

Não é novidade que não encontro nada. O armário e a cômoda


seguram o que se espera encontrar em um quarto de hóspedes: roupas de
cama e toalhas extras, além de alguns produtos de higiene pessoais não
abertos.

Sentindo-me cada vez mais drenada e desanimada, decido tomar um


banho e descansar um pouco, como Kent sugeriu.

Com alguma sorte, vou falar com a Yulia amanhã.

Neste ponto, ela é minha melhor, senão minha única esperança.

Para minha decepção, não vejo Yulia no dia seguinte, nem posso sair
do meu quarto. O próprio Kent me traz minhas refeições, uma mistura de
sobras do jantar e novas misturas gourmet, sem dúvida, feitas por sua
esposa e, em seguida, ele leva os pratos uma hora depois. Não sei se ele
está propositalmente tentando me manter longe de Yulia, ou se é apenas
uma coincidência infeliz, mas à noite, vou ficar louca, frustrada com a
minha situação misturando-me à crescente preocupação com Peter. Tudo o
que tenho são alguns livros que Kent me trouxe na hora do almoço, e isso
não é suficiente para me impedir de pensar nos perigos que a equipe de
Peter poderia estar enfrentando naquele exato momento.

“Você já ouviu falar deles? Eles estão bem?” Pergunto a Kent quando
ele me traz o jantar. O negociante de armas de rosto duro me intimida, mas
estou determinado a não mostrá-lo.

Afinal, moro com quatro criminosos igualmente perigosos há meses.

Na minha pergunta, Kent parece divertido. “Você quer saber se eles


estão bem?”

Aceno, embora um rubor aqueça meu rosto. Entendo como isso


parece. Dado o tratamento de Kent até agora, ele obviamente sabe que não
estou aqui por vontade própria. Ainda assim, prefiro que ele acredite que
estou sofrendo da Síndrome de Estocolmo do que continuar no escuro e se
preocupar com Peter a noite toda.

“Eles estão bem”, diz Kent, colocando a bandeja na cômoda. Seu


rosto está inexpressivo de novo, embora um rastro de diversão vislumbre
nas profundezas geladas de seus olhos. “Peter entrou em contato algumas
horas atrás, perguntando por você. Por enquanto, eles estão apenas
reunindo informações para a ação, então duvido que algo aconteça hoje à
noite. Você pode ficar tranquila.”

Exalo de alívio. “Obrigada.”

Ele balança a cabeça e se vira para sair, mas decido empurrar a


minha sorte. ”Espere Lucas… cadê a Yulia? Eu não vi ela o dia todo e
queria agradecer por essas refeições adoráveis.”

Ele me dá um olhar inescrutável. “Vou transmitir seus


agradecimentos a ela.”

Esta é a minha sugestão para ser uma boa cativa e fugir, mas não
vou desistir tão facilmente. “Eu prefiro fazer isso pessoalmente, se você não
se importa”, digo, colando um sorriso ligeiramente envergonhado nos meus
lábios. “Ela está ocupada? Há realmente algo que eu queria perguntar a
ela… sobre alguns itens femininos, você sabe…”

“Ah.” Kent parece divertido novamente. “Yulia falou para lhe dizer que
os tampões e outras necessidades de meninas estão no armário embaixo da
pia.”

“Oh, não é sobre isso”, digo rapidamente, embora isso fosse realmente
o que estava insinuando. ”É outra coisa.”

Suas sobrancelhas levantam. ”Oh? O que é isso?”

Porcaria. Estava contando com ele como a maioria dos homens e


agindo constrangido quando confrontado com a realidade das funções
biológicas das mulheres. Pensando rapidamente, digo: “É apenas um creme
para alguma coisa. Tudo bem, porém; Tenho certeza que vai
embora sozinho.”

Sua expressão não muda. ”Só me diga o que é creme e vou ver se
conseguimos.”

“Monistat ”,digo, olhando diretamente para ele, como eu nomeio um


tratamento popular para infecções fúngicas. “O nome genérico
é miconazol . É para...”
“Fungos. Eu sei.” Ele não parece nem um pouco envergonhado. “Nós
vamos conseguir para você.”

Cerro meus dentes. ”Ok, obrigada.”

Ele está determinado a me manter longe de Yulia, e isso me faz


querer falar com ela ainda mais.

O dia seguinte passa de maneira semelhante, comigo trancada no


meu quarto o dia todo. A única diferença é que, na hora do jantar, Kent
voluntariamente me atualiza sobre Peter.

“Eles estão planejando fazer isso depois de amanhã, pela manhã”, diz
ele, colocando minha bandeja de comida na cômoda. “Vou avisar você se
alguma coisa mudar.”

Olho para o negociante de armas de maneira desleixada. “Ok,


obrigada.”

Parece que um machado, um machado muito lento, está pendurado


na minha cabeça. Temo tanto o fracasso desta operação na Turquia e seu
sucesso. Se algo der errado, eu vou perder Peter e recuperar minha antiga
vida, e se ele voltar ileso, eu serei amarrada a ele para sempre, obrigada a
ter uma criança que ele pretende forçar em mim.

A única saída é escapar antes que Peter volte, e não vejo como isso é
possível quando sou mais prisioneira aqui do que no Japão.

Kent sai e janto no piloto automático, quase sem provar a comida rica
em sabores. Na bandeja, junto com os pratos cobertos, está um tubo do
creme que pedi − algo para o qual não tenho absolutamente nenhuma
utilidade além de explicar minha necessidade de conversar com
Yulia. Agora que já faz dois dias, estou ainda mais convencida de que a bela
loira pode ser simpática à minha situação, se ao menos pudesse explicar
completamente a ela.

Terminando minha refeição, estudo o creme, observando casualmente


que é embalado um pouco diferente do jeito que estou acostumado a ver
nos Estados Unidos. Não é surpreendente, claro. Esta é a Europa. A pílula
do dia seguinte também não se parecia nada com o que eu estava
acostumada.

A pílula do dia seguinte

Sugando uma respiração, pulo, incapaz de conter minha excitação


súbita. Não sei por que isso não me ocorreu antes, mas se Kent estava
disposto a comprar esse creme para mim, há uma chance de ele concordar
em conseguir outra coisa, como a pílula que tanto necessito.

Meu primeiro instinto é correr até a porta e martelar até que meu
carcereiro chegue, para que eu possa programar meu plano
imediatamente. No entanto, isso não seria sensato. Atuando de modo
repentino, poderia levantar suspeitas para Kent, talvez até mesmo fazer com
que ele consulte Peter sobre o assunto.

Tomando uma respiração calmante, me forço a sentar e esperar por


Kent retornar para a bandeja. Para isso ter a melhor chance de sucesso,
tem que ser inteligente.

Tenho que fingir que isso é mais um truque para falar com Yulia.

A espera parece interminável, embora o relógio me diga que faz


apenas uma hora. Finalmente, Kent abre a porta e eu começo meu plano.

“Então”, digo casualmente enquanto ele entra “Yulia ainda está


ocupada? Eu realmente gostaria de falar com ela.”

O negociante de armas me dá um olhar legal. ”Por quê? É sobre outro


item feminino?”

Tento parecer envergonhada. ”Sim, realmente, me desculpe por ter


esquecido de mencionar isso ontem, mas é algo que eu realmente preciso.”

“E isso é?”

“Plano B. ” Dou a ele meu rosto mais inocente. ”Você sabe o que é
isso? Existem outras marcas também, como Next Choice , My Way...”

“Sei. Você terá em breve.”

E rapidamente coletando a bandeja, ele sai pela porta.


44

Sara

Naquela noite, viro de um lado para o outro, torturada pela


preocupação com a próxima operação de Peter e com a percepção de que,
apesar de minha pequena vitória esta noite, a pílula irá, no máximo, atrasar
o inevitável. Toda vez que mergulho em um sono leve, acordo com meu
coração disparado, como se fosse um ataque de pânico. Isso me lembra dos
primeiros dois meses após o ataque de Peter em minha cozinha, quando
pesadelos dele me afogando e homens impiedosos de olhos cinzentos era
minha realidade noturna.

Finalmente, desisto do sono e me levanto para usar o banheiro. Não


faz sentido algum, mas o que mais quero agora é Peter. Quero o calor dele
na escuridão e seus braços fortes ao meu redor, me segurando forte. Quero
que sua voz profunda me chame de ‘ptichka’ e me diga o quanto ele me
ama.

Sinto falta do meu atormentador, sofro por ele com cada fibra do meu
ser, mesmo com medo do retorno dele.

Andando até o balcão do banheiro, acendo a luz, olhando para o meu


rosto pálido no espelho. Meus olhos estão vermelhos e cercados por círculos
escuros, e meu cabelo está uma confusão. Aposto que se Peter me visse
agora, ele não ficaria tão ansioso para me ter.

É claro que isso pressupõe que minha aparência é a razão pela qual
ele está tão obcecado por mim, uma grande suposição e provavelmente
incorreta. Sei que sou atraente, mas não sou nem de longe tão bonita
quanto alguém como Yulia. Não, o que quer que atraia Peter para mim − e
vice-versa − é mais profundo que a atração fisica. Ele sabe disso e eu
também sei. É algo dentro de nós que nos faz encaixar como dois pedaços
de porcelana quebrada... algo escuro e perversamente carente que chama
as falhas um do outro.

Estou prestes a ligar a torneira para lavar meu rosto quando um som
chega aos meus ouvidos.
Eu congelo, escuto atentamente e depois ouço de novo.

O gemido gutural de uma mulher, seguido pelo grunhido abafado de


um homem.

Meu rosto se aquece quando percebo o que estou ouvindo.

Este banheiro deve estar bem embaixo do quarto de Lucas e Yulia,


com a entrada de ar conectando os dois andares.

Sei que devo voltar para a cama e dar privacidade, mas minhas
pernas se recusam a se mover. Se nada mais, isso é mais divertido do que
os thrillers que Kent deixou para eu ler. Corando e me sentindo como uma
pervertida, escuto quando os sons no andar de cima aumentam de volume
antes de culminar em um clímax óbvio.

Quando o silêncio reina novamente, ligo a torneira com as mãos


instáveis e espirro água fria no meu rosto superaquecido. Esta foi uma má
ideia, porque não só violei a privacidade dos meus anfitriões / carcereiros,
mas agora estou tão ligada que definitivamente vou ter problemas para
voltar a dormir. Meus mamilos estão duros e meu sexo está escorregadio
com a necessidade dolorida.

Também sinto falta de Peter mais do que nunca.

Gemendo silenciosamente, volto para a cama. Previsivelmente, não


consigo dormir, então me alcanço debaixo do cobertor e brinco comigo até
gozar, pensando em Peter o tempo todo.

Apesar da minha noite agitada, acordo cedo na manhã seguinte e,


enquanto me preparo para escovar os dentes, ouço passos no andar de
cima, seguidos de vozes tensas.

Parece que os Kents estão discutindo.

Insensatamente curiosa largo a escova de dente e escuto.

A princípio, suas vozes se tornam abafadas, como se estivessem do


outro lado da sala, mas depois chegam mais perto da abertura e meu
batimento cardíaco acelera ao perceber o tópico de seu argumento.

Eu.

“Como você pode ter tanta certeza?” Yulia diz acaloradamente. “Ela é
a viúva de seu inimigo. Ele matou o marido dela e a sequestrou. Como isso
não é maltrato? No mínimo, ele tirou todas as suas escolhas e arruinou sua
carreira. A mulher é uma médica, uma médica, Lucas. Ela não é como você
e eu. Ela nunca fez parte deste mundo...”

“Agora ela é”, Kent interrompe sua voz dura. “Não que seja da nossa
conta. Eu lhe devo um favor e ela é isso.”

“Ela é um ser humano, não um favor. No mínimo, deixe-me falar com


ela, descobrir se ele está maltratando-a...”

“Por quê? Então você poderia fazer o que? Deixá-la ir e acabar na lista
dele? Você sabe que tipo de alvo sua equipe vai depois desses dias. Nós não
precisamos lidar com essa merda em cima da situação de Novak.”

“Não, claro que não.” Yulia parece frustrada. “Mas ela é uma civil
inocente, Lucas, e é uma convidada em nossa casa. Eu preciso ter certeza
de que você está certo e ela o quer, porque eu não posso viver comigo
mesmo. Você entende isso, certo?”

Seu marido fica em silêncio por alguns momentos, e eu mordo meu


polegar, meu coração martelando enquanto ouço sua resposta. Estava certa
em depositar minhas esperanças em Yulia; ela é simpática à minha
situação.

“Entendo”, ele finalmente diz. “Mas ainda não há nada que eu possa
fazer. Não vou colocar sua vida em perigo por essa mulher.”

“Mas...”

“Mas nada. Sokolov me pediu para mantê-la segura para ele, e é


exatamente isso que vou fazer.”

“Lucas...” A voz de Yulia se suaviza, tornando-se mais persuasiva. “Só


me deixe falar com ela. É tudo que peço. Não vou fazer nada sem consultar
você. Não sou burra e não quero ser uma inimiga de Peter também. Só
quero ter certeza de que ela está bem... tranquiliza-la se ela estiver com
medo. Isso não faria mal algum, faria? Apenas uma pequena conversa?”

Não há resposta de Kent, embora eu ouça sons farfalhantes, seguidos


por algo metálico, uma fivela de cinto, talvez?... caindo no chão.

“Yulia...” a voz de Kent engrossa. ”Querida, você não precisa, oh foda-


se. Filho da puta...” Suas palavras terminam em um gemido, e eu coro
quando percebo o que estou ouvindo de novo.

Sentindo-me duplamente como uma pervertida, fico quieta, para ver


se eles me mencionam de novo, digo a mim mesmo, mas quando tudo que
ouço nos próximos dez minutos são sons sexuais, me forço a terminar de
escovar os dentes e voltar para o meu quarto.

Talvez, apenas talvez, a tática de persuasão de Yulia seja bem-


sucedida e eu possa encontrar uma saída para essa situação.

Pelo menos agora tenho uma esperança real.


45

Peter

Passamos o dia antes da ação percorrendo as diferentes versões do


plano, calculando as probabilidades de sucesso e apresentando soluções
para possíveis problemas. Nosso plano é arriscado, mas tem uma boa
chance de funcionar, supondo que acertemos o timing.

À noite, estamos tão prontos quanto possível, e isso é uma coisa boa,
já que nosso cliente, o oligarca ucraniano, está ficando impaciente. Em dois
dias, Arslan deve votar um projeto de lei que vai praticamente dizimar os
negócios de nosso cliente na Turquia, e nós temos que agir antes que isso
aconteça.

Quando fecho meu laptop para pegar algumas horas de sono antes do
meu turno, Anton me chama seu tom incomumente animado.

“Olhe para isso”, diz ele, e a adrenalina inunda minhas veias quando
vejo um novo e-mail de nossos hackers.

Rapidamente, leio através da tela de Anton, e um sorriso selvagem se


espalha pelo meu rosto.

Meu adversário finalmente cometeu um erro.

A esposa de Walter Henderson III, Bonnie, estava em uma vinícola em


Marlborough, Nova Zelândia, algo que soubemos graças a uma foto postada
ingenuamente no Instagram pelo dono da adega. O programa de
reconhecimento de rostos de nossos hackers resolveu pegá-lo horas depois
de aparecer on-line.

“Prepare-se”, digo a Anton e aos gêmeos quando termino de ler o e-


mail. “Depois que terminarmos aqui amanhã, iremos para a Nova Zelândia.”

“E quanto a Sara?”, pergunta Ilya. ”Você vai deixá-la com Kent?”

Hesito e sacudo a cabeça. ”Não.” Não posso suportar ficar separado


dela por mais um dia. “Ela vai com a gente.”
E antes de ir para a cama, ligo para o Lucas para ter notícias dela.
46

Sara

Passei o dia andando de um lado para o outro no meu quarto, minha


ansiedade se intensificando a cada hora que passava. Na hora do jantar,
estou pronta para arrancar meu cabelo.

Em menos de doze horas, a perigosa missão de Peter começará, e


Yulia ainda não veio falar comigo, nem o marido me trouxe a prometida
pílula.

“Eu devo conseguir mais tarde hoje”, ele me disse quando ele
entregou o meu almoço. “Embora possa ser amanhã também.”

Amanhã, seria tarde demais, mas mantive minha boca fechada, não
querendo que meu carcereiro soubesse que eu realmente preciso dessa
pílula. Se nada mais, posso guardá-lo para uso futuro, e rezo para que
minha janela fértil não seja tão fértil este mês.

Uma batida na porta interrompe meu ritmo.

“Sara?”, Pergunta a voz de uma mulher. “Posso entrar?”

Meu pulso salta de alegria. ”Sim! Por favor, entre.”

A porta se abre e Yulia entra no quarto, segurando uma bandeja de


aparência pesada com pratos cobertos.

“Aqui, deixe-me ajudá-la.” Corro em direção a ela, mal contendo


minha excitação enquanto ajudo a colocar a bandeja na cômoda.

Ela sorri para mim. “Obrigada. Como está a sua estadia até agora?”

“É boa”, respondo, sorrindo para ela. “E obviamente, a comida é


maravilhosa. Muito obrigada por isso.”

Os olhos azuis de Yulia brilham de prazer. “Seja bem-vinda. E como é


tudo mais? Você tem tudo que precisa? Lucas disse que você pediu alguns
remédios...”
Aceno, então decido apenas ir em frente. Com Peter potencialmente
voltando amanhã, não tenho tempo a perder, e já sei que Yulia está do meu
lado. “Preciso da pílula do dia seguinte”, digo sem rodeios. “E hoje é o
último dia que posso esperar.”

Sua linda boca gira em surpresa. “Oh. Uau. Lucas não mencionou
nada sobre isso. Ele enviou um dos seus guardas para a cidade hoje para
pegar algumas coisas, mas eu sei que algo surgiu e o cara estava
distraído. Deixe-me verificar se ele conseguiu ok?”

“Espere.” Agarro o braço esbelto de Yulia quando ela se vira para


sair. “Por favor. Preciso da sua ajuda.”

Sua expressão fica cuidadosamente em branco. “O que você quer


dizer?”

Solto minha mão. “Eu tenho que sair. Agora. Esta noite. Antes de
Peter retornar. Por favor, é muito importante. Eu não sou namorada
dele; Sou cativa dele. Ele me sequestrou e agora ele...”

“Espere, Sara. Por favor.” Ela levanta a mão, com a palma para
fora. Embora suas maneiras permaneçam calmas, posso dizer que ela está
aflita. Ela não deve ter esperado que eu pedisse ajuda tão abertamente. “Ele
está abusando de você? Ele te machucou?” Ela pergunta cuidadosamente.

“Ele me cortou com uma faca e me afogou”, digo, e imediatamente


sinto uma pontada de culpa pelo horror no rosto de Yulia. Provavelmente
deveria mencionar que a tortura aconteceu antes do nosso relacionamento,
como é, começou, mas se eu precisar da ajuda dela, não posso me dar ao
luxo de pintar meu cativeiro em uma luz rosada.

Por mais gentil e solidária que Yulia pareça, não posso esquecer que
ela é esposa de um traficante de armas e pode ter uma visão diferente da
moralidade do que a maioria das pessoas.

“Ele também quer me forçar a engravidar”, continuo, pressionando o


meu ponto enquanto ela ainda está em choque. “É por isso que preciso da
pílula do dia seguinte hoje. Em mais duas horas, estarei fora da janela de
trinta e seis horas. Não que a pílula ajudará se eu ainda estiver aqui
quando Peter retornar. Ele fará o que quiser comigo e ninguém o
impedirá. Por favor, Yulia”, seguro o braço dela de novo, “você nem precisa
me deixar ir. Apenas deixe-me fazer uma ligação ou enviar um e-
mail. Ninguém saberia que foi você quem me ajudou. Por favor.”
Ela empalidece mais a cada palavra que falo e quase me sinto
mal. Entendo a posição impossível em que estou colocando ela. Embora ela
pareça disposta a olhar para o outro lado quando se trata dos negócios
mortais do marido, Yulia não é como ele ou pelo menos ela possui empatia
suficiente para se colocar no meu lugar. Ao mesmo tempo, ela sabe o
quanto Peter é perigoso e o que ela estaria arriscando ao cruzá-lo.

“Você está” Ela limpa a garganta. “Você já esteve com ele de bom
grado? Naquela primeira noite, no jantar, pude sentir a tensão entre vocês
dois, mas o jeito que ele olhou para você... e então o jeito que você parecia
quando estava se despedindo... eu estava na cozinha, mas pensei ter visto...
tive a impressão errada? Ele está te machucando? Forçando você toda vez?”

Meu rosto se enche de vergonha com a pergunta particular e solto


sua mão novamente. ”Isso não é, quero dizer, ele me sequestrou. O que você
acha?”

Para minha surpresa, ela parece desconfortável. “Eu acho que é


complicado às vezes”, diz ela depois de um momento. “Nem todo
relacionamento segue o mesmo caminho, e há momentos em que...” Ela
para, como se estivesse pensando melhor.

Franzindo a testa, olho para ela. Há uma história lá, mas seja lá o
que for não posso me dar ao luxo de me concentrar nisso. Eu tenho que
convencê-la a me ajudar antes que seja tarde demais.

“Yulia, por favor,”, digo. “Esta é minha única chance. Você é minha
única chance. Se ele voltar e eu estiver aqui, nunca mais verei meus pais,
nunca terei controle sobre minha própria vida... por favor. Sei que você
entende minha situação. Peter Sokolov matou meu marido e me
torturou. Ele me perseguiu e me sequestrou, tem me mantido em cativeiro
por quase cinco meses. Eu tenho que sair antes que ele volte, e tudo que
você precisa fazer é me deixar ter acesso a um telefone. Só por um
segundo. Eu poderia contatar o FBI e então...”

“E então teremos todas as agências de segurança pública voltadas


para nossa casa”, Kent diz, abrindo a porta sem bater. Sua mandíbula
quadrada está cerrada de fúria, seus olhos pálidos se estreitam em fendas
enquanto ele atravessa a sala e agarra a mão de Yulia em um aperto de
dedos brancos. “Vamos”, ele diz a sua esposa com os dentes cerrados, e
assisto em crescente desespero quando ele a arrasta para fora do quarto.

“Sinto muito”, ela balbucia antes dele bate a porta, me trancando


novamente, e sei que acabou.
Minha única chance de escapar está perdida.

Choro por duas horas antes de finalmente cair no sono e


imediatamente mergulhar em uma série de pesadelos. Não sei por que isso
está acontecendo comigo de novo, mas quando acordo, tremendo e suando
de outro sonho vívido sobre me afogar na pia da minha cozinha, eu sei que
não vou conseguir dormir esta noite.

Tirando o cobertor, balanço minhas pernas sobre a cama para me


levantar quando ouço um barulho na fechadura e a porta se abre
silenciosamente.

Assustada, pego o cobertor para me cobrir, mas ninguém entra no


meu quarto.

Envolvendo o cobertor em volta de mim, corro para a porta e, no final


de um corredor, vejo uma figura alta e esbelta desaparecendo ao virar do
corredor, seus cabelos loiros brilhando como um farol na escuridão da lua.

Yulia.

Ela veio por de mim.

Não tenho ideia de como ela conseguiu fugir do marido, mas não
perco tempo questionando minha boa sorte. Rapidamente arremesso em
um vestido e um par de sandálias baixa, deslizo para o corredor e vou em
direção à cozinha, tomando cuidado para não fazer nenhum barulho.

Preciso encontrar um telefone ou um computador, qualquer coisa que


me permita contatar o mundo exterior.

“Aqui.” Um par de chaves são repentinamente jogado na minha mão,


e suprimo um grito quando Yulia aparece na minha frente, aparentemente
derretendo para fora da parede à minha direita. Com o luar escorrendo
pelas grandes janelas, seu rosto pálido lembra algo de outro mundo. “A
Mercedes está do lado de fora”, ela sussurra com urgência antes que possa
me recuperar do choque. “Desativei os alarmes do perímetro, abri os
portões automáticos e direcionei os drones para a praia. Você tem dez
minutos, entendeu? Há um posto de gasolina a sete quilômetros a
sudoeste. Dirija direto para lá e você encontrará um telefone.”

Aceno meu coração disparado, enquanto agarro as chaves que ela me


deu. “Obrigada. Muito obrigada.”

“Vá.” Jogando um olhar preocupado para trás, Yulia me empurra


para a porta da frente, e não demoro mais um segundo.
Com as chaves na mão corro para fora da casa e pulo no carro.
47

Peter

“Cinco minutos”, sussurro no microfone em meu capacete. ”Prepare-


se.”

Já faz exatamente vinte minutos desde que as luzes apareceram no


segundo andar da mansão de Arslan. Isso significa que nosso alvo sairá de
sua porta da frente e entrará em seu carro à prova de balas entre cinco e
dez minutos a partir de agora. Como esperávamos, ele é uma criatura de
hábitos, sua rotina matinal quase a mesma toda manhã de dia útil. O
tempo que ele deixa a casa varia, assim como o caminho que ele leva para o
trabalho e onde seus guarda-costas deixam seu carro, mas isso,− o tempo
que ele passa em casa, sentindo-se seguro enquanto come seu café da
manhã, − é totalmente previsível.

Em poucos minutos, haverá uma pequena janela quando ele estiver


ao ar livre com seus guarda-costas, e é aí que vamos atacar.

“O RPG está carregado e Ilya tem o carro pronto”, relata Yan na


minha cabeça. Ele está no telhado da casa do outro lado da rua onde Anton
e eu estamos.

“Bom.” Olho para Anton, que está deitado de bruços ao meu lado,
olhando para o alcance do rifle de seu atirador. “Você esta pronto?”

Ele acena sem tirar o olho do alvo. “Estou pronto para atirar na
cabeça no caso deles estarem vestindo coletes.”

“Bom.” Voltando minha atenção para o meu próprio M110, eu ajusto


o meu alcance. Tiros na cabeça são complicados, especialmente quando
seus alvos começam a reagir, mas é a melhor maneira de garantir que um
profissional permaneça morto.

Coletes a prova de balas é muitas vezes escondida sob a roupa nos


dias de hoje.
Os segundos passam cada um se alongando mais que o outro. É fácil
ficar impaciente em um momento como esse, então me concentro em
estabilizar minha respiração e garantir que nada obstrua minha linha de
visão.

Isso é importante demais para foder tudo.

Invisível, pensamentos de Sara roubam minha mente. Pergunto-me o


que ela está fazendo, se ela ainda está dormindo ou se já está acordada. Por
mais excitante que isso seja para mim e é emocionante, não posso mentir,
prefiro estar em casa no Japão, segurando seu corpo quente e nu enquanto
ela acorda. Em apenas alguns meses, meu pequeno passarinho se tornou
mais importante para mim do que qualquer outra coisa no mundo, minha
paixão por ela afastando tudo o que me interessava.

O som de uma porta se abrindo me tira dos meus pensamentos.

“Ele está vindo”, Yan sussurra no fone de ouvido, e eu me forço a


ficar concentrado

Haverá tempo para Sara mais tarde.

Isto é, se nós sobrevivemos hoje.


48

Sara

Dez minutos. Os pneus do carro guincham quando eu acelero pela


longa entrada e corro através dos portões abertos, segurando o volante com
tanta força que meus dedos cravam no couro.

Eu tenho apenas dez minutos.

Isto é, assumindo que a estimativa de Yulia estava correta. Não sei


como ela escapou de seu marido de aparência letal e desativou todas as
medidas de segurança, mas é inteiramente possível que ele já esteja em
meus calcanhares.

Não há luzes ao longo desta estrada de uma pista, sem sinais, nada
para me dizer para onde estou indo. A lua e os faróis do meu carro são as
únicas fontes de iluminação. Não tenho ideia de qual é o sudoeste, então
quando chego a uma estrada de duas pistas, viro à esquerda,
instintivamente.

Se virar no caminho errado, estou ferrada.

Meu coração parece que martela no meu peito, minha respiração alta
em meus ouvidos. O suor se forma nas minhas axilas e escorre pelos meus
lados, e meu joelho treme quando piso o pedal do acelerador. Dirigir no lado
esquerdo da estrada, com a roda no lado esquerdo do carro, é além de
confuso para um americano como eu, mas não ouso diminuir a velocidade.

Oito minutos.

Sete minutos

Eu posso fazer isso.

Eu posso fazer isso.

Os faróis de um carro que se aproxima me cegam aumentando meu


nível de adrenalina. É o Kent? Seus guardas?

O carro passa sem parar, e exalo em alívio, levantando o pé do


acelerador enquanto a estrada curva-se rapidamente na minha frente. A
última coisa que preciso é perder o controle do carro e passar pela retenção
da estrada, como George fez aquela noite terrível. Como está, mesmo com
velocidade reduzida, estou indo a 110 quilômetros por hora. Se o posto de
gasolina estiver a sete quilômetros de distância, devo ir com tempo de
sobra.

Outro minuto passa antes que a estrada se curve novamente, e eu a


vejo.

Mais faróis, desta vez atrás de mim.

Agarrando o volante mais apertado, eu piso o pedal do acelerador


novamente.

O carro atrás de mim também acelera.

Meu estômago sobe na minha garganta. Com o canto do olho,


vislumbro um sinal de limite de velocidade. São 50 quilometros, mais de
sessenta, não, setenta quilômetros a menos que minha velocidade atual. E
se esse carro está me alcançando, está indo ainda mais rápido.

É oficial.

Estou sendo perseguida.

A estrada se acentua de novo, e eu solto um grito quando outro carro


se aproxima, e seus faróis me cegam por um segundo crucial. O lado do
meu carro se choca contra o corrimão, faíscas voando quando o metal
choca contra metal. Ofegando, tiro meu pé do acelerador e me afasto do
trilho, aproximando o carro do meio da estrada sinuosa.

Os faróis de perseguição se aproximam, e como a estrada fica


curva novamente, vejo dois carros atrás de mim, cada um grande e
escuro. Dois SUVs. Minha pulsação agora é um rugido estrondoso em meus
ouvidos, minhas mãos tão suadas que deslizam ao redor do
volante. Lutando contra o meu pânico, aperto o pedal do acelerador de
novo, mas os carros atrás de mim aceleram mais rápidos, e quando a
estrada curva para a direita, um me flanqueia de lado enquanto o outro
atravessa na minha frente.

O desespero me prende com um punho gelado.

Acabou.

Eles me pegaram.
Tremendo, tiro meu pé do acelerador.

Minha única chance de escapar e estraguei tudo.

O SUV na minha frente reduz a velocidade também, e o do meu lado


se move atrás de mim. Eles sabem que não tenho escolha a não ser reduzir.

Está oficialmente terminado.

Perdi.

O SUV na minha frente diminui ainda mais, forçando-me a frear. Meu


velocímetro mostra quarenta quilômetros por hora, depois trinta e cinco...
depois trinta. Estou praticamente arrastando agora e percebo que estão me
fazendo parar.

Eles vão me tirar do carro e me arrastar de volta para a casa de Kent,


onde vou ficar trancada até Peter vir me buscar.

O futuro se estende na minha frente, tão escuro e perigoso quanto


esta estrada sinuosa. Sem esperança de fuga, sem escolhas, serei a
propriedade de Peter, e assim será nosso filho. Nunca mais verei meus
amigos e minha família, nunca ajudarei as mulheres trazerem seus bebês
ao mundo. Com os meus pais envelhecendo, não estarei lá para eles, e
nunca conhecerão seus netos.

Tudo o que vou ter é Peter, e o mais assustador de tudo, é que isso
não parece desagradável.

Posso ver isso com tanta clareza: A maneira como ele vai cuidar de
mim, a ternura em seus olhos quando ele segurar nosso bebê. Ele vai me
amar com uma intensidade que vai queimar minha alma e, eventualmente,
meu próprio amor distorcido vai crescer a partir de suas cinzas. E depois de
um tempo, tudo parecerá normal, da minha falta de liberdade à violência de
sua profissão.

Nós seremos uma família, do jeito que ele quiser, e enquanto vejo o
velocímetro cair abaixo de quinze, sei que não posso deixar isso acontecer.

Não posso ceder à parte mais doente de mim, aquela que quer aquele
futuro distorcido.

Outra curva na estrada, mais faróis vindo em nossa direção. Meu


batimento cardíaco frenético se estabiliza, uma estranha calma se
instalando sobre mim quando alcanço e aperto meu cinto de segurança. Eu
vou ter menos de um segundo para agir, então tenho que fazer valer a pena.
Facilitando o meu pé do freio, agarro o volante o mais forte que
posso, e quando o carro que está vindo se aproxima os seus faróis me
cegam e aos meus perseguidores, puxo o volante todo para a direita, indo
para o lado oposto. O carro se aproxima, passando pelo SUV que me
bloqueava na frente. Praticamente posso ouvir meus perseguidores
praguejarem quando os deixo no pó de novo, meu elegante Mercedes
ganhando velocidade com o rugido rouco de um motor V8. O velocímetro
salta para 100… 110… 120… 130…

Faíscas voam metal raspando contra o metal enquanto empurro o


corrimão novamente, mas desta vez, não diminuo a velocidade. Mantenho
meu pé firme, corrigindo apenas o suficiente para manter o controle.

É um videogame, digo a mim mesmo. Apenas um jogo de corrida onde


eu estou dirigindo do lado errado da estrada.

Tendo recuperado do choque da minha manobra repentina, meus


perseguidores estão no meu encalço novamente, mas não tenho intenção de
facilitar para eles. Cada vez que eles se aproximam, viro para o meio da
estrada, impedindo-os de ir ao meu redor. E mantenho minha velocidade
vertiginosa, mantendo meu pé no acelerador mesmo nas curvas mais
íngremes. Fingir que é um videogame ajuda, sempre fui boa neles quando
criança.

Mais um minuto na estrada.

Dois.

Três.

Eu posso fazer isso.

Eu posso fazer isso.

Ao longe, vejo luzes e meu pulso salta de novo.

É o posto de gasolina. Tem que ser.

Meu plano é simples: guinchar até parar em frente a qualquer loja


que esteja lá, pular e entrar correndo, gritando a plenos pulmões por um
telefone. Com alguma sorte, o pessoal de Kent ficará muito preocupado com
as autoridades para me agarrar em público, mas mesmo que não fique,
alguém, um atendente de posto de gasolina, outros motoristas, verá o que
está acontecendo e chamará a polícia.

Não é lá grande plano, mas é tudo o que tenho.


O posto de gasolina aparece mais perto a cada segundo. Para meu
alívio, apesar das primeiras horas e da sensação do deserto, vejo uma loja
bem iluminada com algumas pessoas lá dentro e alguns carros no
estacionamento.

Minha esperança é que Kent não queira causar problemas tão perto
de sua casa, e com certeza, os SUVs atrás de mim reduzem sua velocidade,
permitindo-me avançar quando nos aproximamos do posto de gasolina.

O triunfo inunda minhas veias enquanto tiro meu pé do acelerador,


preparando-me para executar minha manobra de parar e correr.

Eu estou lá.

Mesmo se eles me pegarem antes de eu chegar a um telefone, minha


captura não passará despercebida.

Estou a menos de 60 metros do posto de gasolina quando isso


acontece.

Um cachorro corre para a estrada à minha frente.

Reajo instintivamente, desviando e pisando no freio, e enquanto meu


carro gira na grade de contenção, eu tenho um último pensamento ilógico.

Espero que Peter e seus homens voltem ilesos de seu trabalho.


49

Peter

“Agora”, grito para o fone de ouvido, e Yan dispara o RPG enquanto os


guarda-costas de Arslan colocam seu chefe no carro.

Boom!

Por um momento, não há nada além do clarão ofuscante do míssil


explodindo e o zumbido nos meus ouvidos, mas então eu vejo.

Os guarda-costas sobreviventes se espalharam como baratas, fugindo


da guarita para enfrentar a ameaça.

“Faça isso” digo a Anton, e ele começa a acertar um a um, com o rifle
semi-automático de atirador disparando com eficiência mortal. Me junto a
ele e, em pouco tempo, uma dúzia de corpos se espalha no chão, com as
cabeças abertas pelas balas.

“Duas horas”, Yan grita no fone de ouvido, e vejo o movimento no


chão. Um guarda está agachado, usando o carro em chamas como
cobertura. Seu braço está ao redor das costas de um homem, protegendo-o.

A fúria surge através de mim quando reconheço o homem.

Deniz Arslan.

Nosso alvo ainda está vivo.

Ele está ensanguentado e coberto de sujeira, mas ele está andando, o


que significa que seus guarda-costas são ainda melhores do que
pensávamos.

“É Arslan”, rosno no fone de ouvido, mudando a minha posição para


o ângulo do meu alcance em torno do bloqueio do carro em chamas.

Tenho que pegar esse filho da puta.

Ele tem que morrer hoje.


Ao longe, sirenes soam e mais guarda-costas correm para o pátio de
Arslan. Temos minutos, senão segundos, para completar nossa tarefa.

Expulsando o barulho e as batidas do meu coração nas minhas


têmporas, me concentro e aperto o gatilho.

O protetor de Arslan cai, seu cérebro explodindo em todo no político


enquanto atiro pela segunda vez.

“Porra!”

Graças ao treinamento ou sorte, meu alvo cai e rola, exatamente no


tempo certo.

Xingando baixinho, atiro de novo, e ouço o rugido da arma de Anton


ao lado da minha.

Com profunda satisfação, vejo duas de nossas balas atravessarem o


crânio de Arslan, explodindo seu cérebro no caminho.

Está feito.

O político corrupto está morto.

“Ataque”, Yan grita, e pulo de pé, ouvindo um helicóptero à distância.

Como esperado, vamos perseguir.

Leva apenas alguns segundos para Anton e eu descermos do telhado


do vizinho e nos juntarmos a Yan na rua. Fica a apenas alguns quarteirões
da cerca da comunidade daqui, e corremos o mais rápido que podemos,
enquanto o lamento das sirenes fica mais alto. O helicóptero está se
aproximando rapidamente também.

“Ilya? Diga-me que você está aí”, ordeno, sem fôlego enquanto corro
pela rua.

“Pronto e esperando”, ele relata. ”É melhor vocês se apressarem. Está


prestes a virar um hospício aqui.”

Apertando os dentes, ganho velocidade, e Yan e Anton fazem o mesmo


quando um veículo guincha na rua a um quarteirão atrás de nós.

Os guarda-costas restantes de Arslan estão se aproximando.

A cerca de três metros se aproxima, com guardas da comunidade


entrando na estrada, armados até os dentes.
“Agora”, grito para Yan, e ele puxa uma granada, arrancando o
alfinete com os dentes sem parar de correr.

Os guardas se espalham enquanto Yan joga a granada, Anton e eu


tiramos nossas armas, disparando indiscriminadamente.

Nós não precisamos matar todos eles, apenas tirá-los do nosso


caminho.

Estamos agora na cerca, então eu pulo, agarrando um galho de


árvore para me levantar. É por isso que treinamos tão duro, porque temos
que ser mais fortes que a maioria dos atletas. Meus músculos gritam
quando balanço uma mão, abaixando o outro braço para puxar Anton, e
quando Anton escala a parte superior da cerca, ele me puxa para cima
antes de estender a mão para Yan enquanto forneço o fogo da cobertura.

Outra granada de Yan explode em um clarão ensurdecedor,


afugentando os guardas enquanto saltamos da cerca, e então saímos
novamente, correndo em alta velocidade.

Precisamos chegar ao nosso ponto de encontro.

Essa é a única maneira de conseguirmos sair.

O rugido do helicóptero se intensifica acima de nós, as sirenes da


polícia gritando cada vez mais alto.

“Agora, Ilya”, grito no fone de ouvido, e seu carro gritam ao redor da


curva, diminuindo o suficiente para nós entrarmos.

Nós nos afastamos da comunidade de Arslan, tomando as estradas


secundárias em direção a um túnel, e quando os sons da perseguição
desaparecem, nós trocamos de veículos e dirigimos diretamente para o
nosso avião.

Conseguimos.

Nosso alvo está morto e ninguém se machucou.

Exultante, ligo para Lucas assim que nosso avião se levanta do chão.

“Acabou”, digo quando ele pega o telefone. “Estamos voltando, por


favor, diga a Sara para se preparar. Vamos pegá-la antes de fazermos um
pequeno desvio para a Nova Zelândia.”

Por um momento, tudo é silêncio. Então Lucas fala.


“Peter...” Seu tom é grave. “Sobre a Sara... houve um acidente.”
50

Peter

Meu coração se transforma em um bloco de gelo, meus pulmões se


calcificam com as palavras de Lucas. Sara, em um acidente, é impossível,
impensável.

É o meu pior pesadelo se tornando realidade.

Lucas está falando, me dizendo algo sobre um carro e um cachorro,


mas não estou processando. Há um rugido surdo nos meus ouvidos, e tudo
em que consigo pensar é a outra vez que alguém me deu notícias por
telefone naquele tom.

O cheiro da morte, os longos cílios de Tamila chamuscados e colados


com sangue, a minúscula mão de Pasha enrolada em torno de um carrinho de
brinquedo... Minha visão escurece toda a consciência desaparece enquanto
a angústia rasga através de mim, dizimando tudo por dentro.

Separando sobre uma pilha de corpos, ouvindo o zumbido das moscas,


sabendo que não estava lá para salvá-los...

Não posso respirar, não posso sentir nada além de um horror


angustiante.

Um acidente de carro. Sara. Seu corpo esmagado em montes de metal


amassados.

A agonia é intensa demais para suportar. Não posso imaginá-la


morta, não consigo imaginar sua centelha vital extinta.

Algo vermelho e quente escorre pelo meu antebraço. Vagamente,


percebo que meus dedos estão cavando o telefone com tanta força que
arranquei uma unha. A dor não se registra, no entanto. Nada registra,
exceto a agonia vazia que se espalha pelo meu peito.

Não posso perder a Sara.

Não vou sobreviver.


“... talvez ela possa ter uma concussão, mas os médicos não acham
que...”

“Uma concussão?” Me agarro à única palavra que não faz


sentido. Meus pensamentos são desconexos e lentos, paralisados pelo
choque e pelo crescente sofrimento. “Do que você está falando?”

“Os médicos não acham que é muito grave”, diz Lucas, sua voz
assumindo uma vantagem exasperada. “Você não está ouvindo? É um corte
desagradável em sua testa, mas eles vão ter certeza de não deixar uma
cicatriz. E, obviamente, cobrirei todas as contas, é o mínimo que posso fazer
nessas circunstâncias.”

“Uma cicatriz?” Ele não clica por um momento, o desespero me


envolvendo muito grosso, muito absoluto, mas então minhas sinapses
começam a disparar. Arrastando em uma respiração muito atrasada, gritei
“Ela está... viva?”

“O quê?” Lucas parece confuso. “Sim, claro. Eu te disse, ela tem um


ombro deslocado e uma possível concussão. Você tem má recepção lá ou
algo assim? Sim, Sara está obviamente viva. O carro dela bateu na
contenção e ela cortou a cabeça e machucou o ombro. Nós a trouxemos
para a clínica na Suíça, a que Esguerra gosta de usar, lembra? Peter, você
está ouvindo?”

Estou, mas não posso dizer isso a ele. Meus músculos da garganta se
trancaram espasmodicamente, assim como todo o meu corpo. O alívio é tão
intenso que me rasga como estilhaços de uma mina, tão doloroso quanto
à angústia que me sufocou antes. Não me lembro de chorar quando perdi
meu filho, mas agora sinto aquela umidade agonizante no meu rosto, as
lágrimas deixando rastros abrasadores no que resta do meu coração.

Não perdi a Sara.

Ela está viva.

Ferida na minha ausência, mas viva.

“Peter? Você pode me ouvir?” A voz de Lucas cresce em


volume. “Porra, cara, você pode me ouvir?”

“Estou a caminho”, digo, e desligando, ordeno que Anton mude de


rumo para a Suíça.
51

Sara

Entro e saio da escuridão flutuante, meus sentidos alternando entre


a percepção grogue e o vazio total. Quando sou coerente o suficiente para
pensar, estou ciente da dor, mas também posso me agarrar a outros
estímulos... como vozes.

“Como você pôde fazer isso? Você não percebe o que ele vai fazer
quando voltar? Nós deveríamos mantê-la segura.” É uma voz masculina,
dura e repreensiva. Conheço o homem a quem a voz pertence, mas a dor
latejante nas minhas têmporas se torna insuportável sempre que tento
pensar no nome.

“Foram seus guardas que a perseguiram. Você poderia tê-la deixado


ir”, uma voz feminina se opõe. A mulher parece chateada. Sei que o nome
dela é algo estrangeiro e exótico, mas estou muito confusa para lembrar o
quem é. “Ele estava abusando dela, Lucas...”

Sim, Lucas, é isso, lembro-me com alívio. Lucas Kent, o traficante de


armas que mora em Chipre.

“Abusando dela? Ele adora o chão que ela pisa porra. Você não viu o
jeito que ele olha para ela?” Kent parece estar prestes a matar alguém. “Eu
te disse, ele ligava para saber dela todos os dias, querendo saber se ela está
comendo, dormindo... se ela está contente porra. Isso soa como um homem
que está torturando uma mulher? E ela tem perguntado sobre ele. Uma
mulher que odeia o sequestrador se preocuparia com a segurança dele?”

“Não, mas...”

“Mas nada! Mesmo que ele a afogue todas as noites, não é da nossa
conta. Eu estava fazendo um favor a ele e agora teremos sorte se não
entrarmos na lista dele.”

“Lucas, por favor.” A mulher de nome exótico, a esposa de Kent, a


bela loira, agora me lembro, parece ainda mais perturbada. “Foi um
acidente estranho, nada mais. Ele vai entender. Deixe-me falar com ele,
explicar o que aconteceu...”
“Não.” A voz de Kent é severamente resoluta. “Não quero que ele saiba
que você estava envolvida de alguma forma. Você vai voar de volta para casa
antes que ele chegue aqui. E vou emprestar algumas dezenas de guardas de
Esguerra até podermos contratar mais nós mesmos.”

“Mas e você?” A esposa de Kent pergunta seu tom preocupado


intensificando a dor nauseante na minha cabeça. Estremecendo, tento me
mover para uma posição mais confortável, e tenho que reprimir um grito
enquanto a agonia explode no meu ombro esquerdo.

“Eu vou ficar aqui até ele pousar”, Kent diz enquanto tomo
respirações rasas para controlar o incêndio da dor. Quero abrir meus olhos,
mas algo está impedindo isso, e não ouso mover meus braços novamente
para descobrir o que é.

“E se ele tentar matar você?”, Argumenta a esposa de Kent. “Se você


está certo, ele não vai ouvir.”

“Eu estou com uma dúzia de guardas comigo, e, além disso, ele vai
ter ela para se preocupar.” Posso sentir sua atenção mudar para mim, e
então Kent diz: “Acho que vi ela se mexer. Os efeitos dos analgésicos devem
estar passando. Chame as enfermeiras aqui, rapidamente.”

Ouço passos rápidos, e um minuto depois, estou flutuando no nada


confuso novamente.

A próxima vez que ressurjo, sinto uma mão feminina suave


acariciando meu cabelo. É bom, especialmente porque minha cabeça parece
um balão cheio de concreto.

“Sinto muito, Sara”, uma mulher murmura, e desta vez, o nome dela
vem para mim. Yulia é assim que a esposa de Kent se chama. “Tenho que
sair agora, mas quero que você saiba como eu sinto muito. Pensei que você
teria mais tempo para fugir, mas Lucas suspeitou que eu pudesse tentar
ajudar você e configurou alguns alarmes de perímetro adicionais. Eu sinto
muito. Nunca pretendi que isso acontecesse. Espero que você acredite em
mim.”

Abro minha boca para agradecê-la, mas acabo tossindo


dolorosamente em vez disso. Minha garganta está seca como um deserto, e
o balão pesado que é minha cabeça lateja com agonia. Também parece
haver algo em meu rosto que está me impedindo de abrir meus olhos. Uma
bandagem grossa na minha testa, talvez?
“Aqui. Você deve estar com sede.” Um copo toca meus lábios e eu me
agarro a ele, sugando avidamente o líquido morno.

“O que aconteceu? Onde estou”? Coaxo quando bebo o copo de


água. Minha voz é fraca e rouca, mas pelo menos posso falar de novo.

“Você está em uma clínica particular na Suíça”, explica Yulia


gentilmente. “Você sofreu um acidente de carro. Você se lembra?”

Aceno e imediatamente me arrependo. “Sim”, suspiro quando a onda


de dor agonizante passa. “Havia um cachorro e...”

“Sim, está certa.” Ela parece aliviada. É porque tenho uma lesão na
cabeça? Eu me pergunto o quão ruim é, e depois nervosa, meus pulmões se
agarram quando me lembro de algo muito mais importante.

Freneticamente, pergunto: “Onde está Peter? Ele está...”

“Temo que sim”, diz Yulia, e meu coração desmorona com o


arrependimento genuíno em sua voz. “Sinto muito”, ela continua no mesmo
tom. “Ele está voltando. Não havia nada que eu pudesse fazer.”

Meus pulmões se expandem em uma respiração trêmula. “Você quer


dizer que ele está... que está tudo bem?” Minha voz está tensa, minhas
extremidades formigando com um pico violento de adrenalina. “Ele não se
machucou?”

Há um momento de silêncio. Então Yulia diz devagar: “Não, ele não se


machucou. Sara... você acabou de me perguntar isso porque está com medo
de que ele não se machuque, ou que ele tenha feito isso?” Na minha
confusa não resposta, ela esclarece: “Você tem sentimentos por esse
homem?”

Umedeco meus lábios rachados, ciente de uma sensação


desagradável de culpa. Não pretendia mentir para Yulia ou tirar proveito de
sua gentileza, mas isso é essencialmente o que fiz quando enfatizei os
aspectos negativos do meu relacionamento complexo com Peter.

Não só não consegui fugir, mas também a envolvi em um mundo de


problemas. A pior parte, no entanto, é que estou secretamente aliviada por
ter fracassado, feliz por não ter conseguido escapar de Peter e do futuro que
tanto quero e temo.

“É... complicado”, finalmente digo, ecoando suas palavras daquele


dia.
Ela inala bruscamente e se levanta. “Entendo.”

“Yulia, espere”, digo quando ouço seus passos, mas é tarde demais.

Ela se foi e, em pouco tempo, as drogas me reivindicam novamente.


52

Peter

Um ombro deslocado e um corte na testa.

Logicamente, sei que nenhum desses ferimentos ameaça a vida, mas


quando olho para Sara na cama do hospital, seu rosto pálido todo
machucado e meio coberto por um curativo, medo e raiva em meu
peito, desafiando todas as tentativas lógicas.

O voo de quatro horas para a Suíça foi um dos mais longos da minha
vida. Uma vez que mudamos de curso, liguei para Lucas novamente,
exigindo mais detalhes e explicações, e embora ele repetidamente me
assegurasse que a condição de Sara é estável e ela está sendo tratada pelos
melhores médicos da Europa, não acreditei nele até a ver.

O destino nunca foi gentil comigo antes.

Sentado na beirada da cama, cuidadosamente fecho sua mão entre as


minhas, sentindo o frágil calor de sua pele e a delicadeza de seus esbeltos
ossos. Minhas mãos estão tremendo, minhas emoções são extremas demais
para serem controladas.

Um cachorro.

Ela quase morreu por causa de um cachorro.

Meu coração parte ao meio novamente, a dor tão intensa quanto


quando a julguei morta. Se a contenção não tivesse sido tão forte, se o carro
não tivesse airbags, se o pedaço de vidro que cortou sua testa tivesse
entrado em seu olho... estremeço, imaginando todas as maneiras cruéis
que ela poderia ter morrido e lesões debilitantes que ela poderia ter sofrido.

E é tudo por minha causa.

Não posso me esconder dessa realidade brutal, não posso afastar a


culpa sufocante.

Eu não estava lá e Sara fugiu.


Ela roubou um carro e correu para a liberdade, tão desesperada para
ficar longe de mim que não se importava se vivesse ou morresse.

A fúria fervendo no meu peito é apenas parcialmente para Lucas. Ele


vai pagar por sua negligência, é claro, mas não posso fingir que ele carrega
a maior parte da culpa.

Isso pertence exclusivamente a mim.

Era minha necessidade egoísta de tê-la, enjaulá-la e possuí-la, o que


levou Sara a correr esse risco. Quase matei a mulher que amo e não sei
como arrumar isso.

Não sei se, mesmo agora, posso deixá-la ir.

Seus lábios inchados se partem em uma suave exalação, e caio de


joelhos no chão, embalando as costas da mão contra a minha bochecha
áspera de barba por fazer quando fecho meus olhos. Sua pele é tão macia,
seus dedos tão pequenos comparados aos meus. Meu peito aperta
agonizantemente. Sinto que estou sufocando, me afogando em saudade e
desespero. Por que ela não pode simplesmente me amar? Por que ela não
pode aceitar que devemos ficar juntos? Houve momentos em que pensei que
ela poderia, quando tinha certeza de que ela estava se aproximando.

E talvez ela estivesse. Talvez ela ainda possa. O monstro dentro de


mim rosna, exigindo que eu a segure, que a mantenha, não importa o que
for preciso... não importa o que ela faça. Com o tempo, ela vai ceder,
entender que estamos destinados a ser.

Que se ela me der uma chance, vou fazê-la feliz... ela e a criança que
tanto anseio.

Um fraco gemido me sacode dos meus pensamentos, e abro meus


olhos para encontrar os lábios de Sara se movendo.

“P-Peter?” Ela sussurra, e uma onda explode no meu peito. Só essa


palavra, e meu mundo é mil graus mais quente, um milhão de watts mais
brilhante. Toda a tristeza e dor se extinguem, a escuridão desaparece em
vez de sugar minha alma.

“Sim, ptichka”, respondo com voz rouca, pressionando a mão contra


os meus lábios. “Estou aqui.”

Seus dedos finos se contraem enquanto beijo um por um. “Você


está... tudo correu bem?” Ela parece grogue dos analgésicos. “Alguém se
machucou?”
Uma pontada de agonia apunhala meu peito. “Não meu
amor. Ninguém além de você.”

“Isso é bom.” Seus lábios se curvam em um sorriso pequeno e


feliz. “Fico feliz.”

Puxo uma respiração ofegante, a culpa e angústia me dominando


novamente. De certa forma, seria mais fácil se Sara me odiasse, se tudo o
que sentisse por mim fosse ódio e medo. Então, eu poderia ir embora, tentar
reduzir minha obsessão para que pudesse deixá-la viver sua vida enquanto
eu voltava para o vazio frio da minha. Mas Sara simplesmente não me
odeia, é mais complexo que isso.

Ela precisa de mim. Ela admitiu isso para mim.

“Por que você fugiu?” Pergunto irregularmente, olhando para as


contusões em sua mandíbula. “É por causa do que eu disse sobre os
preservativos? Você tem tanto medo de ter uma criança comigo?

Tenho que entender o que a levou a fazer isso.

Tenho que saber se há alguma esperança para nós.

Seus dedos seguram os meus. “Eu... sim. Quero dizer não. Não
sei. Não é o que eu quero, mas talvez...” Ela para, ainda com muito
analgésicos.

“Mas talvez?” Indico meu coração batendo dolorosamente no meu


peito.

“Mas talvez em uma vida diferente, eu teria.” Sua voz está


desaparecendo, transformando-se em um sussurro. “Em um mundo
diferente, aquele em que eu nasci sua, seria diferente. Você não seria um
assassino fugitivo... não me teria sequestrado depois de matar George. Seria
meu marido, e eu sua esposa amorosa, e poderíamos ter um cachorro atrás
de uma cerca... nós levaríamos nossos filhos para o parque e celebraríamos
os aniversários de meus pais... haveria amigos e churrascos e música… e
você me amaria, me amaria de verdade… me amaria tanto que não roubaria
minha vida.”

Fecho meus olhos, suas palavras se contorcendo dentro de mim como


a lâmina de um assassino. Não deveria doer, sua admissão drogada; Eu
deveria estar feliz por ela querer tudo isso comigo. Mas tudo o que posso
pensar é que nunca vou realmente tê-la, nunca lhe darei a vida que ela
quer. Mesmo se eu conseguir fazer de nós uma família, mesmo que Sara me
ame mais ao longo dos anos, o passado sempre estará entre nós como um
abismo, o estilo de vida de um fugitivo sempre uma fonte de conflitos e
estresse. Não há churrasqueiras e cercas brancas no futuro, nem cachorros
nem crianças brincando no quintal.

Ela vai amar nosso filho, mas não vai fazê-la feliz.

Eu poderia dar a ela tudo o que tenho, e isso não serão suficientes.

Um monitor emite um bipe suavemente enquanto a respiração de


Sara se estabiliza, e abro meus olhos para encontrá-la dormindo
novamente, os analgésicos a ajudando a descansar e se curar.

Uma respiração superficial me escapa um peso impossível


comprimindo meus pulmões doloridos.

Eu deveria me levantar e atualizar os meus homens e enviá-los atrás


de Henderson, mas não consigo me mexer.

Não posso fazer nada além de me ajoelhar ao lado da cama de Sara,


segurando a mão dela enquanto a escuridão oca entra.
53

Sara

Quando acordo de novo, desta vez sem a grossa faixa nos olhos, Peter
está lá, sentado em uma cadeira ao lado da minha cama com um
computador no colo. Ele parece exausto, mais cansado do que já
vi. Sombras escuras circulam seus olhos injetados, e
suas bochechas cobertas de barba são vazias, como se ele tivesse perdido
algum peso. Ele está trabalhando no laptop, mas no momento em que me
movo, seu olhar se encaixa no meu como metal para um ímã.

“Você está acordada.” Sua voz está rouca enquanto ele deixa seu
laptop de lado e se levanta. “Como está se sentindo, ptichka? Precisa de
alguma coisa? Aqui, beba um pouco de água.” Ele pega um copo com um
canudo da mesa ao lado da minha cama e se inclina sobre
mim, me ajudando a ficar na posição sentada enquanto pressiona o canudo
contra meus lábios.

Ainda estou um pouco tonta das drogas, e tento sugar a maior parte
da água. “Quanto tempo fiquei apagada?” Pergunto quando ele leva o copo
para longe.

Mesmo depois de beber, minha garganta parece ter sido raspada com
uma lixa, minha boca está tão seca que minha língua continua grudando
nas minhas bochechas.

“Três dias”, Peter responde, sentando-se na beira da minha cama. “Os


médicos pensaram que isso aceleraria sua cura.”

Corro minha língua sobre meus lábios rachados, sentindo o inchaço


doloroso de um lado. Agora que estou mais acordada, percebo que ainda há
um curativo na minha testa, posso senti-lo pressionando minhas
sobrancelhas e meu ombro esquerdo está rígido e dolorido. “Quão ruim é
isso?” Pergunto, estremecendo enquanto tento me mover.

A mandíbula de Peter se flexiona. “Um fragmento de vidro fez um


corte profundo na testa e você deslocou o ombro esquerdo. Felizmente,
estava com o cinto de segurança, e o airbag absorveu a maior parte do
impacto do acidente. Ainda assim, você está toda machucada, inclusive na
maior parte do seu rosto.” Sua voz enruga enquanto fala seu próprio rosto
se contraindo de dor.

Piscando contra a repentina picada de lágrimas, cuidadosamente


levanto com a mão direita, sentindo o curativo na minha
testa. Provavelmente deveria me preocupar com como vou ficar com uma
cicatriz feia, mas tudo que posso focar é a angústia no olhar prateado de
Peter.

Eu o machuquei, esse homem letal e indomável.

Eu o machuco quando ele já está tão machucado, quando o


sofrimento é tudo o que ele já conheceu.

“Não vai deixar uma cicatriz”, diz ele com voz rouca, seguindo o
movimento da minha mão. “Eles têm os melhores cirurgiões plásticos aqui,
e eles vão consertar isso. Eu prometo a você, meu amor, vou fazer tudo
certo.”

Olho para ele, meus olhos ardendo com um ataque de


emoções. Talvez seja o resultado dos analgésicos, mas não suporto a dor em
seu olhar, não posso suportar o fato de que eu o machuquei. Porque não
importa o que gostaria de dizer a mim mesma, estou muito feliz em vê-lo,
tão aliviada que ele não foi morto, que eu quero cair de joelhos e chorar.

Se tivesse que escolher entre ele e minha liberdade neste momento,


eu desistiria de tudo para tê-lo em minha vida.

Uma batida na porta é seguida por duas enfermeiras entrando na


sala, e respiro fundo enquanto Peter se levanta.

“Espere!” Ignorando uma onda de dor vertiginosa, eu me sento,


agarrando seu pulso tatuado. “Fique comigo... Por favor, Peter, fique.”

Ele imediatamente se senta, cobrindo minha mão com a palma


grande. “Claro.” Sua voz é profunda e suave, tão quente quanto à chama
escura em seu olhar. “Tudo o que você quiser meu amor.”

Ele fica comigo enquanto as enfermeiras mudam a atadura na minha


cabeça, e quando tentam afugentá-lo, alegando que preciso de descanso,
peço-lhe que fique e me abrace. Sei que não faz sentido, mas já passei por
todas as tentativas de sentido e razão. Não posso desistir de tentar fugir, no
mínimo, devo isso a meu futuro filho e aos meus pais, mas agora preciso de
Peter comigo.

Eu quero rastejar em seus braços e nunca sair.

Ele fica comigo o resto do dia e toda a noite seguinte, me dando um


abraço suave enquanto durmo, e quando acordo na manhã seguinte, afasto
as enfermeiras e ele me ajuda a tomar banho antes de me acomodar no colo
dele e assistir TV.

Agarro-me a ele assim nos dois dias seguintes, incapaz de me soltar,


e ele me deixa, embora deva achar estranho. Há muito não dito entre nós,
muitas coisas ainda não resolvidas, mas tudo o que me importa no
momento é que eu o tenho.

Ele é meu para amar e odiar, não importa o que aconteça.

Para meu aborrecimento, me curo lentamente, o corte na minha testa


exige outra cirurgia para minimizar a cicatriz e meu ombro me doí a cada
movimento. Depois de mais uma semana na clínica, no entanto, me recuso
a ficar no meu quarto o dia todo, e Peter quase mata o médico que me
permite levantar e andar pelo corredor sem supervisão.

Ou pelo menos, sem supervisão dele.

Não sou a única que se comporta irracionalmente após o


acidente. Pelo que os enfermeiros me disseram Peter não me deixou fora de
sua vista por mais de alguns minutos desde que cheguei à clínica. Ele até
tenta me acompanhar ao banheiro, sob o pretexto de que os analgésicos me
deixam tonta. Quando recuso categoricamente, ele insiste que pelo menos
uma das enfermeiras esteja presente, para que ele possa ser informado
imediatamente se algo der errado. Ele tem que saber que esse nível de
preocupação não é totalmente sensato, mas, como eu, ele parece não
conseguir se ajudar.

“Tenho que saber que você está segura. Tenho que te ver te tocar o
tempo todo”, ele explica sombriamente quando asseguro que estou me
sentindo melhor, e não há problema em me deixar por uma hora para uma
reunião de negócios com seus homens.

“Você está perdendo a cabeça”, Anton disse a ele na minha frente


ontem, quando Peter fez uma ligação importante com um cliente em
potencial para que ele pudesse estar lá para a minha mudança de
bandagem. “Sara tem oito enfermeiras cuidando dela e pelo menos quatro
médicos. Você realmente acha que ela precisa de você lá?”
Eu realmente preciso, mas permaneci em silêncio, não querendo
adicionar à nossa loucura mútua. Tenho certeza de que Peter não tem
negligenciado suas responsabilidades para com a equipe, sempre que
acordo, o encontro em seu laptop ou conversando sobre negócios com seus
homens, mas as enfermeiras me disseram que todas as reuniões dos russos
foram realizadas no quarto ao lado do meu enquanto durmo, com Peter me
observando a cada dez minutos.

“Seu marido é tão dedicado a você”, uma jovem enfermeira alemã


jorra quando Peter a deixa para me observar enquanto ele toma banho. ”” u
queria que meu noivo fosse louco por mim assim.”

Sinto-me tentada a corrigi-la, a dizer-lhe que Peter é meu


sequestrador, não meu marido, mas não posso me forçar a estourar sua
bolha. Não adiantaria nada. Os médicos e a equipe de enfermagem desta
clínica devem ser pagos excepcionalmente bem por sua discrição, porque
ninguém com quem falei até agora está disposto a chamar as autoridades
em meu nome. Não que eu tenha tentado tanto convencê-los. Não só sou
patologicamente incapaz de me separar do meu captor, como também me
sinto mal por já ter jogado a Yulia em água quente.

Espero desesperadamente que Peter não a adicione ou Lucas à sua


lista.

Considero falar com ele sobre isso, explicando que eles não são
culpados pelo meu acidente, mas sempre que os homens de Peter trazem
Chipre ou os Kents, ele fica com um olhar tão duro e perigoso em seus
olhos que eu não ouso pressionar o assunto. No momento, Peter parece
focado apenas na minha saúde, e quero continuar desse jeito pelo maior
tempo possível.

Não posso ter meu cavaleiro das trevas em outra agitação, não
quando tudo é minha culpa.

Em geral, não falamos sobre minha tentativa de fuga ou os eventos


que a precederam. Nenhum de nós pode suportar trazê-lo. Não sei se Peter
ainda pretende forçar uma criança em mim, ou se ele mesmo sabe disso. De
qualquer forma, ele não me tocou, não de maneira sexual, pelo menos.

Fiquei feliz no começo, definitivamente não estava em condições de


fazer sexo nos primeiros dias, mas agora que estou me sentindo melhor,
estou começando a me perguntar. Meu captor ainda me quer, posso
sentir sua ereção quando me deito em seus braços. Mas ele não faz nada
sobre isso, nem sequer me beija na boca. Mesmo depois que esclareci isso
com os médicos, ele se abstém, e sei que é porque ele se culpa pelo
acidente. Podemos não ter falado sobre o que aconteceu, mas está entre
nós, meus ferimentos, uma lembrança constante do que ocorreu naquela
noite. Vejo o tormento em seus olhos quando ele olha para as minhas
contusões, a mesma culpa angustiada que me consumiu após o acidente de
George.

O que aconteceu pode ter nos aproximado, mas está despedaçando


Peter dentro.
54

Peter

Quando faz dez dias em que estamos na clínica, Sara insiste em


andar por conta própria, e a deixo, embora Yan invada as câmeras do
corredor para que eu possa vê-la no meu laptop quando ela o faz.

Estou tão consumido por Sara que está eliminando tudo, até mesmo
minha necessidade de vingança. Consegui enviar minha equipe para a Nova
Zelândia algumas horas depois de chegar à clínica, mas, previsivelmente,
quando chegaram lá, Henderson havia descoberto o erro de sua esposa e
desaparecido novamente. Normalmente, isso teria me enfurecido, mas eu
não conseguia desenvolver energia suficiente para isso. Eu ainda não
posso. Até mesmo Lucas, que prudentemente voou para casa assim que
cheguei à clínica, não está atualmente no meu radar por sua negligência
com Sara. Eu ainda pretendo fazê-lo pagar, mas por enquanto, tudo o que
importa é que ela está viva e se curando bem.

Eu assisto ela o tempo todo agora, dia e noite. Chegou ao ponto de eu


mal comer ou dormir. Não sei o que fazer, como desligar esse medo
obsessivo por sua segurança. Toda vez que fecho meus olhos, sonho com
Lucas me dizendo que ela está ferida, só quando chego ao hospital,
descubro que ele mentiu e ela está morrendo.

É o meu novo pesadelo e não consigo parar, assim como não consigo
deixar que ela vá para casa.

É o que devo fazer, sei disso. Manter Sara comigo vai destruí-la. Vejo
agora, tão claramente quanto os pontos em sua testa. Mesmo que houvesse
momentos em que ela parecia contente no Japão, por dentro, ela estava
rasgada e sangrando. A separação de sua família e a perda de sua carreira
são feridas que podem nunca se curar completamente. Já aqui na clínica,
ela está tentando ajudar os médicos com os outros pacientes, quando não
está pedindo que liguem para o FBI, é claro.

Meu passarinho não desistiu de voar e temo que ela nunca vá


desistir.
Os telefonemas com os pais dela não ajudam em nada. Deixei ela
falar com eles todos os dias desta semana, mas isso parece piorar as
coisas. Até agora, Sara está ausente há cinco meses e, apesar de suas
garantias em contrário, sua família está convencida de que está sendo
mantida contra sua vontade.

“Por que você não volta para casa?”, Pergunta a mãe, frustrada,
enquanto ouço uma dessas conversas. “Se você está viajando com esse
homem, não deve ter problemas em voltar para casa para uma visita. Você
sabe que eles já a substituíram no hospital, não é? Seu pai e eu imploramos
para que esperassem, mas eles estavam sobrecarregados. E sua amiga
Marsha, ela está ligando toda semana para perguntar sobre você. Por que
você não ligou para ela ou para alguém do hospital? Todos estão
preocupados com você, querida, e nós também. E o coração do seu
pai...” Ela para, mas não antes de Sara ficar pálida por baixo de suas
contusões.

“E o coração do papai?” Sua voz toma uma nota em pânico. “Por


favor, mamãe, o que há de errado com o coração do papai?”

“Bem, ele não está ficando mais jovem, e nem eu”, diz Lorna
Weisman, e eu ouço Sara soprar uma respiração aliviada quando ela
percebe que sua mãe não quer dizer nada específico. Meus hackers têm
estado de olho nos registros médicos dos Weisman, e eu teria dito a Sara se
houvesse algum alteração. Ainda assim, posso dizer que isso a assustou. É
um dos maiores medos de Sara, que algo possa acontecer a seus pais
enquanto ela não estiver lá... que ela não consiga ajudar as pessoas que ela
mais ama, porque ela é minha prisioneira do outro lado do mundo.

“Por favor, mamãe, nem fale sobre essas coisas”, ela diz, forçando
uma falsa alegria em seu tom. “Estou bem e vou tentar voltar para casa
para uma visita em breve.”

“Quando?” Sua mãe exige. “Dê-nos uma data.”

Sara olha em minha direção. “Eu não posso. Ainda não.”

“Por que não? É porque ele não vai deixar?”

“Não mãe. Eu já expliquei. A coisa toda com o FBI é um grande mal-


entendido, mas até que se esclareça Peter não pode ir...”

“Besteira.” É o pai dela cortando; ele deve ter ouvido o alto-falante o


tempo todo. ”Ele não pode, mas você certamente pode e deveria. Se ele não
está te segurando em cativeiro, então volte para casa. Afaste-se desse
criminoso. Você sabe que eles acham que ele matou pessoas? Eles não nos
dizem nada, é claro, mas nós os ouvimos conversando e...”

“Papai, tenho que ir. Eu sinto muito. Conversamos mais tarde na


semana, ok? Amo vocês!”

Sara desliga antes que seu pai possa dizer outra palavra e, embora
seu rosto esteja completamente vazio, posso dizer que ela está à beira das
lágrimas. Silenciosamente, ando até a cama dela, e tomando cuidado para
não empurrar seu ombro dolorido, a puxo para o meu colo.

Então a seguro enquanto ela chora, meu próprio desespero cresce


quando percebo que algo vai ter que mudar.

Não posso deixá-la ir, mas não posso mantê-la também.

O que torna meu dilema pior é que, desde o acidente, algo mudou
entre nós. Eu sinto isso, e isso esmaga meus impulsos mais nobres sempre
que eles surgem. O que eu sempre quis, era que Sara compartilhasse meus
sentimentos e isto parece estar finalmente ao meu alcance. A maneira como
ela se agarra a mim, o jeito que ela olha para mim nos dias de hoje, tudo
isso aumenta a minha necessidade compulsiva de mantê-la perto, de
segurá-la forte e nunca liberta-la.

Quero mantê-la em uma gaiola dourada para sempre, para que eu


possa ter certeza de que ela esteja sempre segura.

Quero protegê-la de tudo, incluindo minhas próprias necessidades


distorcidas.

“Os médicos disseram que está tudo bem, você sabe”, ela murmura
naquela noite, chegando debaixo do cobertor para envolver sua mão fina em
torno do meu pênis dolorido. “Deixe-me...”

“Não.” Fazendo uma careta em agonia, cuidadosamente guio sua


mão, embora cada célula do meu corpo chore a perda de seu toque
voluntário. “Não esta noite, ptichka. Você ainda não está bem.”

Os médicos podem ter liberado algumas atividades sexuais de baixo


impacto, mas eu me conheço, e a intensidade do meu desejo por Sara me
apavora. Minha necessidade por ela é muito violenta, muito descontrolada.
Não posso arriscar tocá-la até que ela esteja completamente curada, então
me forço a esperar até que ela esteja melhor.

Até que eu possa superar minha indecisão excruciante e descobrir o


que fazer.
No final da segunda semana, os pontos de Sara são retirados, e os
médicos nos dizem que não há razão para permanecermos na
clínica. Alguém até se atreve a ressaltar que em um hospital normal, Sara
teria recebido alta após a primeira noite. Não dou a mínima para as
opiniões deles, é claro, mas a de Sara é diferente.

Ela está cansada de ficar na clínica e está pronta para ir a qualquer


lugar, até mesmo para nossa casa no Japão.

“Por favor, Peter, é o suficiente. Estou perfeitamente bem”, ela insiste,


e finalmente cedo, dizendo a Anton para preparar o avião para amanhã de
manhã.

“Já era sem tempo”, ele murmura sombriamente. “Nós tínhamos


certeza que você decidiu se aposentar e assumir residência neste lugar.”

Luto contra o desejo de rosnar para ele, porque ele está


absolutamente certo. Desde o acidente de Sara, deixei tudo de lado,
ignorando as ofertas de emprego que estão entrando. Nossa fama no
submundo está se espalhando, e devemos capitalizar sobre isso.

Mais alguns trabalhos como o da Turquia, e meus companheiros de


equipe e eu poderemos realmente nos aposentar.

Teremos o suficiente para fugir das autoridades por toda a vida.

É tarde naquela noite quando me levanto para checar meu e-


mail. Como de costume, minha caixa de entrada é inundada com
mensagens de clientes atuais e futuros. Algumas das ofertas que chegam
são risíveis, quinhentos mil dólares para eliminar um mafioso local, um
milhão de euros para livrar alguém de um tio rico, mas muitos valem à
pena considerar.

Estou quase terminando de ler as mensagens quando chega um novo


e-mail. Abro-o e olho em choque a quantia oferecida.

Cem milhões de euros.

Quatro vezes mais do que o pagamento mais lucrativo até hoje.

É de Danilo Novak, o traficante de armas sérvio que está invadindo os


negócios de Kent e Esguerra. E se a quantidade não foi suficiente para me
intrigar, o nome do alvo definitivamente faz.
Novak quer que eu elimine Julian Esguerra, meu antigo empregador,
o homem que prometeu me matar por salvar sua vida enquanto colocava
sua esposa em risco.

Atordoado, releio o e-mail novamente, minha mente correndo com as


implicações. Lendo nas entrelinhas, Novak parece ter alguns ativos em jogo
que reduziriam a dificuldade do acerto de impossível para incrivelmente
perigoso. Independentemente disso, se assumíssemos esse trabalho,
Esguerra seria nosso alvo mais desafiador ainda.

É também o único trabalho que precisamos para estar


financeiramente definidos para a vida toda.

Enquanto sento lá, olhando para a tela do meu laptop, outra ideia
vem a mim, uma tão perigosa e infinitamente mais tentadora.

Se eu lidar com as coisas da maneira certa, esse trabalho poderia de


fato ser a resposta para tudo.

Eu poderia manter Sara... e dar a ela a vida que ela quer.

Fim.

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