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VOCÁBULO FORMAL E VOCÁBULO FONOLÓGICO

A descrição do vocábulo formal nos remete ao conceito de vocábulo


fonológico. Este vocábulo é definido a partir da presença do acento. No português, o
acento tem uma dupla função: uma distintiva e uma demarcativa. A função distintiva é a
que serve para distinguir palavras como fábrica (subs.) e fabrica (verbo); exército
(subs.) e exercito (verbo) jaca (fruta) jacá (tipo de cesto), funcionando, assim, como um
processo gramatical para distinguir padrões morfológicos. A função demarcativa é a que
serve para marcar a existência de um vocábulo fonológico. No português do Brasil, há
uma pauta acentual para cada vocábulo. As sílabas classificam-se de acordo com a
posição do acento em tônicas e átonas, sendo essas subclassificadas em pretônicas e
postônicas. De acordo com Câmara Júnior, as tônicas são marcadas com tonicidade 3,
as pretônicas, com 1 e as postônicas, com 0. Isoladamente, os vocábulos apresentam
essa pauta acentual. Tomemos como exemplo, os vocábulos (:) cadernos, novos e cinco

a) Ca / der / nos
1 3 0

b) no / vos
3 0

c) cin / co
3 0

Constituindo esses vocábulos um grupo de força, ou seja, uma seqüência de


vocábulos sem pausa, conceito apresentado por Paul Passy (apud Câmara Júnior, 1975
p. 63), a pauta acentual desses vocábulos modifica-se, permanecendo apenas com
tonicidade 3 o último vocábulo do grupo, passando as demais sílabas tônicas dos
vocábulos precedentes à tonicidade 2.
Veja:
cin / co ca / der / nos no vos
2 0 1 2 0 3 0

três gran / des ho / mens


2 2 0 3 0

Faz-se necessário destacar que não existe coincidência absoluta entre o


vocábulo fonológico e o vocábulo formal. Nas chamadas palavras compostas por
justaposição, como por exemplo, em guarda-chuva, porco-espinho e passatempo, há
dois vocábulos fonológicos e um só vocábulo formal. Há dois acentos em cada palavra,
um acento de tonicidade 2 e outro de tonicidade 3, conforme podemos constatar na
descrição abaixo.

guarda – chuva porco – espinho passatempo


2 0 3 0 2 0 1 3 0 2 0 3 0
Já nas formas verbais com pronome proclítico ou enclítico em que a forma
dependente se junta a uma forma livre, como em se fala (fala-se) ou se comenta
(comenta-se) por exemplo, tem-se um só vocábulo fonológico e dois vocábulos formais.
Vejamos, a seguir, os conceitos de forma livre, forma presa e forma dependente.

FORMA LIVRE, FORMA PRESA E FORMA DEPENDENTE

Segundo Camara Júnior (1975, p.69), os vocábulos formais de uma língua


classificam-se em formas livres, formas presas e formas dependentes. De acordo com
esse lingüista, o vocábulo formal é a unidade a que se chega quando não é possível nova
divisão em duas ou mais formas livres.
São formas livres as que podem funcionar isoladamente como comunicação
suficiente, conforme o advérbio bem no exemplo: Como você está? Bem. A forma livre
tem autonomia formal e autonomia fonológica, constituindo-se, assim, um vocábulo
fonológico. As formas presas são as que só funcionam agregadas a outras formas
lingüísticas. São exemplos de formas presas os morfemas flexionais e derivacionais
como os destacados em: certeza, desleal, cantamos, estudava. As formas presas, ao
contrário das formas livres, não possuem nem autonomia formal nem autonomia
fonológica, não constituindo, assim, um vocábulo formal nem vocábulo fonológico. As
formas dependentes, por sua vez, são definidas como as que não são livres, porque não
podem funcionar isoladamente como comunicação suficiente, mas também não são
presas, uma vez que entre esta e a forma livre com a qual ela constitui o vocábulo
fonológico podem-se intercalar novas formas, é o que se pode constatar no exemplo:
encontrar um livro, em que se pode intercalar entre a forma dependente um e a forma
livre livro outras formas livres, como por exemplo, em: um bom e excelente livro. As
formas dependentes apresentam autonomia formal, mas diferentemente da livre, não
apresenta autonomia fonológica, não constituindo assim um vocábulo fonológico. Veja
exemplos de formas livres, formas presas e de formas dependentes, na estrofe a seguir:

“E as vinte palavras recolhidas


nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.”

(João Cabral de Melo Neto. Auto do Frade)

São exemplos de formas livres: palavras, recolhidas, águas, salgadas, poetas,


servirá, máquina e útil; de formas presas: -s, que marca o plural dos nomes substantivos
e adjetivos (morfema de plural nos nomes), e -a, vogal temática nominal nos nomes:
poeta e máquina; e de formas dependentes: e, as, de, que, se, o.

QUADRO-RESUMO

Forma livre: + autonomia formal + autonomia fonológica = vocábulo


fonológico
Forma dependente: + autonomia formal – autonomia fonológica = não voc.
fonológico
Forma presa: – autonomia formal – autonomia fonológica = não voc.
fonológico

Resta ainda observar que as formas livres, assim como as formas dependentes,
podem ser constituídas de um só elemento mórfico, sendo por isso indivisíveis (mar,
sol, fé) ou de mais de elemento mórfico (leal-dade, in-fiel, calm-a-ment-e), sendo,
portanto, passíveis de uma divisão em unidades significativas, ou seja, em morfemas.
Os vocábulos formais da língua (formas livres, formas presas e formas
dependentes) se distribuem em dois subsistemas: o sistema aberto e o sistema fechado.

SISTEMA ABERTO E SISTEMA FECHADO

Como vimos, os vocábulos formais, de que se constitui um idioma se


distribuem em dois grupos, o sistema aberto e o sistema fechado.
O sistema aberto é assim definido pelo fato de seu número de palavras ser
ilimitado, podendo ser ampliado ao longo do tempo. A esse sistema pertencem as
classes dos nomes (substantivo, adjetivo e advérbio) e dos verbos, em outras palavras, a
classe dos lexemas, para Pottier ou dos semantemas para Vandryes. Esse sistema
representa a quase totalidade do saber lingüístico, sendo impossível sua assimilação
total e seu conhecimento dispensável para a identificação dos sintagmas em que
ocorrem. São exemplos de palavras que pertencem ao sistema aberto as destacadas nos
versos abaixo. Veja.

Eu não tinha este rosto de hoje,


assim calmo, assim triste, assim magro
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

(MEIRELES, Cecília. Retrato, In: ___. Os melhores poemas de Cecília Meireles.


Seleção de Maria Fernanda. 11 ed. São Paulo: Global, 1999, p.13).

O sistema fechado é assim denominado por ter limitado seu número de


palavras, não podendo, assim, ser ampliado. Pertencem a esse sistema as classes dos
pronomes, dos numerais, dos artigos, das preposições e das conjunções. São, na
terminologia de Pottier, os gramemas, e na de Vandryes, os morfemas. É possível sua
assimilação, uma vez que o número de palavras é relativamente pequeno, uma série de
curtas listas de unidades da língua, cuja ocorrência se dá com maior repetição no texto.
O conhecimento prévio das palavras desse sistema é indispensável para a identificação
dos sintagmas em que ocorrem. São exemplos de palavras que pertencem ao sistema
fechado as destacadas nos versos abaixo. Veja.

Eu não tinha estas mãos sem força,


Tão paradas e frias e mortas
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
(MEIRELES, Cecília. Retrato, In: ___. Os melhores poemas de Cecília Meireles.
Seleção de Maria Fernanda. 11 ed. São Paulo: Global, 1999, p.13).