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03/10/2019 Saindo da Matrix: ARQUÉTIPOS

ARQUÉTIPOS
seg, 3 de setembro, 2007

Quando falamos em Arquétipos, pensamos logo em símbolos, algo mais próximo do que podemos
conceituar. Só que esse termo já está bem definido e conceituado, e não é nada disso do que
costumamos pensar.

O termo "Arquétipo" foi usado por filósofos neoplatônicos, como Plotino, para designar as idéias
como modelos de todas as coisas existentes, segundo a concepção de Platão. Nas filosofias teístas, o
termo indica as idéias presentes na mente de Deus. Pela confluência entre neoplatonismo e
cristianismo, o Arquétipo foi incorporado à filosofia cristã, por Agostinho, até vir a ser usado
academicamente por Carl Gustav Jung, na psicologia analítica, para designar a forma imaterial à
qual os fenômenos psíquicos tendem a se moldar. Ou seja, os modelos inatos que servem de matriz
para o desenvolvimento da psique.

É nesta aplicação psicológica que costumamos encontrar as distorções. Portanto, vejamos este texto
de Lázaro Freire, que trata de desfazer alguns enganos:

Não existem "Arquétipos do Tarot", nem o "Arquétipo de Ísis", nem o "Arquétipo do Leão", nem
outros absurdos esquisotéricos que ouvimos por aí. Arquétipos estão numa camada muito mais
profunda e amorfa. Senão, não são mais Arquétipos, e sim mitos criados para que possamos lidar
com eles dentro de uma referência cultural ou simbólica.

Se falam do conceito original, formulado por Jung (mas estuprado e distorcido por todos que
quiseram dar um certo ar "científico" aos seus credos), o Arquétipo é quem cria os deuses. É como o
buraco da forma de gelo. Não há, portanto, Arquétipo de Maria, nem de Pacha Mamma, nem de
Ísis, nem de Lakshimi, nem da Deusa, nem da Imperatriz do tarot. Mas há um Arquétipo
UNIVERSAL da Grande Mãe, algo sem forma, sem mito, que está presente no inconsciente coletivo
da humanidade, e que fará qualquer povo de qualquer lugar, mesmo se isolado numa ilha ou
planeta, daqui há algum tempo arrumar alguma deusa ou figura similar para preencher o buraco
psíquico deixado por este arquétipo.

Um dos mais conhecidos é o do Herói, e explica - dentre mil outras coisas - o gosto de muitos por
filmes de ação, o acompanhamento de olimpíadas e torneios, e até mesmo porque muito sujeito
aparentemente normal e pacífico é possuído por um misto de curiosidade, hipnose e sangue na
boca quando vê, num telão desses, algum vale-tudo, jiu jitsu ou luta de boxe.

Se Deus criou tudo, quem criou Deus?

Resposta junguiana óbvia: O Arquétipo.

A "encarnação" de um Arquétipo, seja em um deus, seja em uma carta de tarot, seja na parte do
Todo que atribuimos a um signo zodiacal, a um personagem de uma saga de ficção, a um dos tipos
do eneagrama, a um santo do catolicismo, não são mais ARQUÉTIPOS. São "mitos". No melhor do
sentido da palavra, que não tem nem um pouco de ficcional (embora esteja presente na ficção).

Note também que Arquétipos são COLETIVOS. Necessariamente! A somatória de situações


pessoais na lida, por exemplo, com o Arquétipo ou simbolismo do "Pai", do "Poder", são chamadas
de Complexos.

Ou seja, PAI tem função simbólica que nos remete a regras, a herança, expectativa, falo, masculino,
algum poder. Já o GRANDE PAI é um Arquétipo, algo que faz projetarmos um "pai" coletivo na
figura de um grande Deus masculino que tudo vê, como é comum na religião ocidental (note que
nao tem nada a ver com o Todo do Tao e de Bhraman). Cada pessoa pode ter uma relação diferente
com essas idéias. Como, por exemplo, com o "PODER": Criado resistindo a uma ditadura militar
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em regime corrupto capitalista, numa noção de ética dos 70 e 80 que faria Delúbio, Valério e cia
parecerem fichinha, minha geração certamente não reage ao conceito de "PODER" do mesmo
modo que norte-americanos, que consideram a palavra positiva. Aqui, poderoso é pejorativo. Lá,
vende mais o livro que usa "The Power Of..."

Isso são COMPLEXOS, ou seja, amontoados de experiências que permeiam nossos conceitos. Note
que o termo não é negativo ou necessariamente patológico como no uso popular (complexado).
Quando lidamos com o feminino, por exemplo, apenas em parte estamos lidando com a mulher
ÚNICA de carne-osso-alma-sentimentos que temos à nossa frente. De certo modo, fazemos ela
vestir o nosso complexo de feminino, de mãe, de Anima (este sim um arquétipo), de outros
relacionamentos... E repetimos padrões sem perceber.

Mas não é certo dizer que estou projetando o meu Arquétipo de mãe, e muito menos o da Grande
Mãe. Entretanto, a somatória coletiva de todos os Complexos, e dos conceitos inconscientes que o
originaram, foram, aí sim, um grande Arquétipo inconsciente e coletivo universal. Ou, em efeito
Tostines, por ele foi formado.

Voltando aos Arquétipos: Se deixarem de acreditar em um Deus, ele desaparece? Provavelmente


sim. Mas o Arquétipo que o originou fará que sua função seja ocupada, em outra mitologia, por
algum outro conceito substituto.

Aliás, vários termos hoje populares vêm da linguagem junguiana: Introvertido, Extrovertido,
Complexos, Arquétipos, Inconsciente coletivo, Anima. Nem preciso dizer que quase todos são
usados de forma equivocada, e não raro distorcidos para fins esquisotéricos e/ou comerciais. Pobre
Jung, logo ele, tão acadêmico e preocupado com fundamentação...

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