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Contribuindo para o mês das visibilidade lésbica quero trazer algumas inquietações sobre feminilidade,

afetividade, erotismo e padronizações. Assumir uma identidade não- feminina, me coloca em um uma zona
extremamente
árida e limitante em minha expressão erótica.
Quando eu não era uma caminhão orgulhosa, eu me
relacionava com qualquer mulher e lésbica que tivesse um interesse mútuo. Os motivos que
nos aproximava eram sempre por afinidades intelectuais, emocionais e metafísica, era sempre
uma atração energética que conduzia todo o processo, como o ritmo é para a musica. Hoje
algo tem me entristecido, e muitas vezes sinto vergonha, por ser parte de um tabu, porque parece que não existe
espaço
para falar sobre uma plenitude erótica dentro da comunidade lésbica, fora de padrões brancos, hetero centrados.
E as coisas já são tão naturalizadas que parece ser a norma. Ser uma caminhão preta, não
significa que me atraio exclusivamente por ladies, femmes, nem que tenho interesse de fazer
O jogo da dominadora, essa dinâmicas ativa x passiva, mais uma vez reforça uma
categoria sexual heteronormativa, que nem as mulheres hétero empoderadas, toleram mais.
A distopia de gênero,
o corpo excêntrico,
de gostos exóticos,
fetiche,
ora objeto de desejo
ora de repulsa,
O ser não amado.
Todo mundo fala sobre como nós pessoas dissidentes precisamos se autocuidar, se auto amar, mas como
podemos nutrir nosso amor próprio quando vivemos em um mundo deserto de afeto?
Assim como muitas das recusas afetiva que recebo tem a ver com ideias pré- concebidas
acerca da minha aparência atrelado a minha performance e personalidade esteriotipada de
que eu seja
agressiva,
grosseira,
sexista,
pouco afetiva... Sempre penso no quanto essas definições alheias tem a ver com a desumanização das nossas
identidades,
Com o racismo e a lesbofobia,
No mais, sinto o masculino e o feminino
enquanto duas energias que co-existem e precisam está em perfeita harmonia para que tudo
funcione bem, independente de como vc se apresenta no mundo, eu aprecio e cultivo minhas energias que são
fios de uma única trança com muito amor e muita gratidão.
Love IS love, right?!
“Dahomey”, de Audre Lorde, foi publicado pela primeira vez na terceira edição da revista literária
de arte por e para lésbicas, Sinister Wisdom. Mais tarde, o poema seria republicado no livro The
Black Unicorn (1978, W.W. Norton & Company).

Sinister Wisdom é uma das revistas mais antigas do segmento e apresenta, principalmente, o
trabalho de lésbicas — escritas, arte ou fotografia — que reflete a diversidade de experiências:
lésbicas de cor, judias, árabes, velhas, jovens, da classe trabalhadora, pobres, deficientes etc.
DAOMÉ

Foi em Abomei que senti


o sangue das guerras de meu pai
e onde encontrei minha mãe
Seboulisa
em pé, com as palmas das mãos estendidas
um dos peitos devorados por vermes de mágoas
pedras mágicas que descansam em seus dedos
secas como uma tosse.

No terreiro dos trabalhadores de latão


quatro mulheres unidas tingindo seus panos
zombam o tremor do ferro de Exu
ereto e ardentemente familiarizado
no seu terreiro
mudo como um porco-espinho em uma floresta de chumbo
No pátio dos trabalhadores de pano
outros irmãos e sobrinhos
estão costurando tapeçarias brilhantes
em contos de sangue.

Trovão é uma mulher com cabelos trançados


Soletrando as escritas sagradas de Xangô
adormecida entre pítons sagrados
que não podem ler
nem comer as oferendas rituais
de Asein.

Minha garganta no covil da pantera


é sem resistência.

Levando dois tambores em minha


cabeça eu falo
seja qual for o idioma necessário
para afiar as facas de minha língua
a cobra está consciente, embora
dormindo
sob meu sangue
como sou uma mulher de qualquer forma
você está contra mim.
Irei trançar meu cabelo
mesmo
nas épocas de chuva.

§ § § Audre Lorde