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JAMES D.

STEIN

COMO A,
MATEMATICA
EXPLICA
OMUNDO
Opoder dos números no cotidiano

Tradução
Mareio de Paula S. Hack

Revisão Técnica
Marco Moriconi
Instituto de Física, UFF

CAMPUS
Do original: How Math Explains the World
Tradução autorizada do idioma inglês da edição publicada por Smithsonian Books - HarperCollins Publishers
Copyright© 2008 by Jim Stein
© 2008, Elsevier Editora Ltda.

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ISBN 978-85-352-2945-5
Edição original: ISBN 978-0-06-124176-5

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S833c Stein, Jim


Como a matemática explica o mundo : o poder dos
números no cotidiano / Jim Stein ; tradução Mareio de Paula
S. Hack. - Rio de Janeiro : Elsevier, 2008.
Tradução de: How math explains lhe world
ISBN 978-85-352-2945-5
1. Matemática - Filosofia. 2. Matemática - Aspectos
psicológicos. 3. Matemática - Aspectos sociológicos.
4. Número - Conceito. 5. Capacidade matemática - Testes.
1. Título.

08-1437. CDD: 510


CDU: 510
À minha adorável esposa, Linda,
para quem nenhuma dedicatória está à altura.
Prefácio

A declaração de novembro
A primeira visão que tive da Matemática propriamente dita - e não da
Aritmética - 1 aconteceu numa tarde de sábado de fim de outono, quando
eu tinha cerca de 7 anos. Eu queria sair para a rua e brincar de bola com
meu pai. Ele, no entanto, tinha outros planos.
Desde quando consigo me lembrar, meu pai sempre manteve um re-
gistro meticuloso de suas despesas mensais, numa grande folha amarela
que, me parece hoje, era a precursora de uma planilha de Excel. Uma fo-
lha de papel amarelo era suficiente para um mês; no cabeçalho, meu pai
escrevia ano e mês, e o resto da folha era reservado a renda e despesas.
Nesse dia de outono, o balanço não fechava por US$0,36, e meu pai que-
ria encontrar a discrepância.
Perguntei quanto tempo isso levaria, e ele respondeu que não achava
que iria demorar muito, porque erros divisíveis por 9 eram normalmente
resultado de se escreverem os números na ordem incorreta; escrever 84,
em vez de 48; 84 - 48 = 36. Ele disse que isso sempre acontecia; toda vez
que, ao escrever um número de dois dígitos, você reverte os dígitos e dimi-
nui um do outro, o resultado será sempre divisível por 9. 1
Ao perceber que levaria algum tempo até que pudesse brincar com
a bola, peguei um pedaço de papel e comecei a conferir o que meu pai
dissera. Todos os números que tentei funcionavam; 72 - 27 = 45, que
era divisível por 9. Depois de algum tempo, meu pai encontrou o erro;
ou pelo menos decidiu que deveria ir jogar bola comigo. Mas a idéia de
que havia padrões nos números fincou raízes em minha mente; foi a
primeira vez que a Aritmética era mais do que tabuada de adição e
multiplicação.
Ao longo dos anos, aprendi sobre Matemática e sobre os assuntos afins
a partir de quatro fontes . Além de meu pai, que ainda assistia às palestras
sobre Matemática nas manhãs de domingo, aos 70 anos, tive a sorte de
contar com alguns professores extraordinários no ensino médio, na facul-
dade e na pós-graduação. Quando os russos lançaram a Sputnik em 19 5 7,
os colégios correram desesperadamente a fim de preparar estudantes para
carreiras em Ciências e Engenharia; os cursos especiais ganharam mais
importância. Eu estava em um desses primeiros, e fiz um maravilhoso
curso de Cálculo no último ano do ensino médio, com o Dr. Henry Swain.
Um dos meus arrependimentos é nunca ter podido dizer a ele que, em al-
guma medida, eu havia seguido seus passos.
Na faculdade, fiz várias matérias com o professor George Seligman, e
adorei ter podido me comunicar com ele ao longo do processo de escrever
este livro. No entanto, o maior golpe de sorte de minha carreira foi ter o
professor William Bade como meu orientador acadêmico . Ele não apenas
era um professor maravilhoso, tnas um mentor inspirado e imensamente
tolerante, tendo em vista que eu não era o mais dedicado estudante de
doutorado (ponho a culpa disso em meu vício em bridge duplicado). O dia
mais memorável de minha carreira de graduando não foi aquele em que
concluí minha dissertação de fim de curso, mas o dia em que Bill recebeu
um artigo muito interessante e relevante. 2 Encontramo-nos por volta das
duas da tarde e começamos a revisar o artigo, paramos para jantar por vol-
ta das seis e meia e terminamos, com a visão já um pouco anuviada, por
volta da meia-noite. O artigo era uma descoberta revolucionária em seu
campo, mas a experiência de examiná-lo, discutindo a Matemática e es-
peculando sobre como eu poderia usá-lo para desenvolver uma disserta-
ção, me fez perceber que isso era o que eu desejava fazer.
Há uma série de autores cujos livros tiveram grande impacto sobre
mim. São muitos para que eu mencione todos, mas os livros mais memo-
ráveis foram Um, dois, três ... infinito, de George Gamow, Cosmos, de Carl
Sagan, Connections, de James Burke, Paradigms Lost, de John Casti, e O
universo elegante e O tecido do cosmo, de Brian Greene. Apenas dois desses
livros foram publicados na mesma década, o que prova a existência de
uma duradoura tradição de excelência em escritos científicos. Eu me con-
sideraria feliz se este livro fosse mencionado junto com qualquer um dos
que acabei de mencionar.
Tive muitos colegas, ao longo dos anos, com os quais discuti questões
de Matemática e Ciência, mas dois tiveram um destaque especial: os pro-
fessores Robert Mena e Kent Merryfield, da California State University,
em Long Beach. Ambos são matemáticos e educadores excelentes, e pos-
suem um conhecimento e uma compreensão da história da Matemática
muito maiores do que eu, e suas contribuições tornaram a escrita deste li-
vro consideravelmente mais fácil.
Houve uma série de pessoas, de diversas formações técnicas com as quais
tive conversas esclarecedoras. Minha compreensão de algumas das idéias
deste livro foi certamente ajudada por conversas que tive com Charles
Brenner, Pete Clay, Richard Helfant, Carl Stone e David Wilczynski, e sou
grato a todos eles por me ajudarem a entender plenamente alguns dos con-
ceitos e a arquitetar modos diferentes de explicá-los.
Finalmente, gostaria de agradecer à minha agente, Jodie Rhodes, sem
cuja persistência este livro talvez jamais visse a luz do dia, e meu editor, T. J.
Kelleher, sem cujas sugestões tanto a estrutura quanto as discussões deste li-
vro teriam sido bem menos coerentes - T. J. tem o raro dom de conseguir
melhorar um livro, tanto no geral quanto nos detalhes. E, é claro, à minha
mulher, Linda, que não contribuiu absolutamente em nada para o livro, mas
fez contribuições inestimáveis em todos os outros aspectos de minha vida.

NOTAS
1. Qualquer número de dois dígitos pode ser escrito como 1OD + U, onde D é o dígito
da dezena, e U, o dígito da unidade. Reverter os dígitos resulta no número lOU +D,
e subtrair o segundo do primeiro resulta lOD + U - (lOU +D)= 9D- 9 U = 9(D-
U), que é claramente divisível por 9.
2. B. E. Johnson, "Continuity of Homomorphisms of Algebras of Operators", Journal
of the LondonMathematical Society, 1967: pp . 537-541 . Continha apenas quatro pá-
ginas, mas ler pesquisas matemáticas não é a mesma coisa que ler jornal. Embora
não fosse um artigo tecnicamente difícil (não há cálculos complicados, e a presença
deles pode tornar rastejante o ritmo da leitura), apresentava várias idéias engenho-
sas, que nem eu nem Bill conhecíamos. Minha dissertação foi essencialmente basea-
da nesse artigo, já que consegui adaptar algumas das idéias de Johnson ao problema
que eu estava abordando.
Sumário

Prefácio vii
Introdução xiii
Prólogo: Por que nunca consertam seu carro no tempo prometido 1

PARTE 1: DESCREVENDO O UNIVERSO


1: A medida de todas as coisas 13
2: Os testes da realidade 31
3: Todas as coisas, grandes e pequenas 46

PARTE li: A CAIXA DE FERRAMENTAS INCOMPLETA


4: Construções impossíveis 79
5: O Diamante Esperança da Matemática 93
6: E os dois nunca se encontrarão 116
7: Até a lógica tem limites 132
8: Espaço e tempo: Isso é tudo? 152

PARTE Ili: INFORMAÇÃO: O DILEMA DE CACHINHOS DOURADOS


9: A Lei de Murphy 177
10: Universo desorganizado 194
11: Os materiais básicos 213

PARTE IV: A UTOPIA INALCANÇÁVEL


12: Falhas na fundação 235
13: Salas enfumaçadas 255
14: Através de um vidro escuro 271
Introdução

Não é somente uma pedra

Ao resolver problemas, evoluímos, tanto na qualidade de indivíduos


como de espécie. Em geral, a recompensa para a resolução de um proble-
ma aumenta na proporção de sua dificuldade. Parte da atração de resolver
um problema difícil está no desafio intelectual, mas uma recompensa que
muitas vezes acompanha a resolução de tais problemas é o potencial de
realizar grandes proezas. Depois de haver descoberto o princípio da ala-
vanca, Arquimedes afirmou que, se lhe dessem uma alavanca e um lugar
para ficar de pé, ele moveria a Terra. 1
O sentimento de onipotência presente nessa afirmação também pode
ser encontrado no sentimento de onisciência de uma declaração parecida,
feita pelo físico e matemático francês do século XVIII Pierre-Simon de
Laplace. Laplace fez contribuições essenciais à Mecânica Celeste, e afir-
mou que, se soubesse a posição e a velocidade de todas as coisas em deter-
minado momento, conseguiria prever a localização de todas as coisas em
todos o momentos do futuro.
"Dada, por um instante, uma inteligência capaz de compreender to-
das as forças por meio das quais a natureza é animada, e as respectivas po-
sições dos seres que a compõem, e se, além disso, essa inteligência fosse
vasta o suficiente para submeter os dados a uma análise, ela abrangeria na
mesma fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo, bem
como os do átomo mais leve; para ela, nada seria incerto, e o futuro e o
passado estariam presentes a seus olhos. "2
Como é evidente, essas afirmações eram retóricas, mas eram feitas
para enfatizar o potencial de grande alcance inserido na solução do pro-
blema. Um observador casual, vendo Arquimedes usar uma alavanca para
mover uma grande rocha, talvez dissesse: "Tudo bem, isso é útil, mas é
apenas uma pedra~" Arquimedes poderia ter replicado : "Não é apenas essa
pedra- é qualquer um dentre todos os objetos, e posso lhe dizer de que ta-
manho deve ser uma alavanca para mover este objeto, e quanto esforço te-
rei de exercer para mover o objeto até a posição desejada."
Às vezes, ficamos tão impressionados com as mais fascinantes realiza-
ções da Ciência e da Engenharia que nossa incapacidade de resolver pro-
blemas fáceis (ou comparativamente fáceis) parece intrigante. Durante a
década de 1960, era possível escutar o seguinte comentário: se conseguem
levar o homem à Lua, como é possível que não encontrem a cura para a
gripe comum?
Hoje, somos um pouco mais sofisticados do ponto de vista científico,
e a maioria das pessoas está disposta a ser paciente com a ciência em pro-
blemas desse tipo, reconhecendo que a cura da gripe comum é uma ques-
tão mais difícil do que parece à primeira vista. O sentimento geral, porém,
é o de que simplesmente não encontramos a cura do resfriado comum -
ainda. É obviamente um problema difícil, mas, levando em conta a re-
compensa possível, não é de surpreender que pesquisadores médicos este-
jam tentando com dedicação, e praticamente todos nós esperamos que
eles encontrem a cura - mais cedo ou mais tarde. Infelizmente para aque-
les que sofrem de corizas nasais e inflamações de garganta, há uma possi-
bilidade bem real de que uma cura para o resfriado comum jamais seja en-
contrada, não porque nos falte inteligência para isso, mas porque ela tal-
vez não exista. Uma das notáveis descobertas do século XX é um fio co-
mum que se desenrola através da Matemática, das Ciências Naturais e das
Ciências Sociais: o conhecimento de que existem coisas que não podemos
saber ou fazer, e problemas impossíveis de serem solucionados. Nós sabe-
mos, e já há algum tempo, que os humanos não são onipotentes nem onis-
cientes, mas foi só há pouco que descobrimos que a onipotência e a onis-
ciência podem simplesmente não existir.
Quando pensamos nos avanços científicos do século XX, remete-
mo-nos aos gigantescos passos que foram dados, praticamente em todas as
disciplinas, desde a Astronomia até a Zoologia. A estrutura do DNA. A
teoria da relatividade. Placas tectônicas. Engenharia genética. A expansão
do universo. Todos esses importantes progressos contribuíram, de modo
imensurável, para o nosso conhecimento do universo físico, e alguns já cau-
saram um impacto significativo em nossa vida cotidiana. Esse é o grande
encanto da ciência - ela abre caminho para que aprendamos coisas fasci-
nantes e, o que é ainda melhor, para que utilizemos o que aprendemos
para dar à nossa vida uma riqueza que transcende a imaginação.
Entretanto, o século XX também testemunhou três resultados revela-
dores, que demonstraram a existência de limites - limites para o que pode-
mos saber e fazer no universo físico, limites para que verdades podemos
descobrir usando a Lógica Matemática e limites para o que podemos conse-
guir na tentativa de implementar a democracia. O mais conhecido dos três
é o princípio da incerteza de Werner Heisenberg, descoberto em 193 7. O
princípio da incerteza mostra que nem mesmo o indivíduo que tivesse o
dom da onisciência poderia ter dado a Laplace as posições e velocidades de
todos os objetos do universo, porque as posições e velocidades daqueles ob-
jetos não podem ser simultaneamente determinadas. O teorema da incom-
pletude de Kurt Godel, provado uma década mais tarde, revela a insufi-
ciência da lógica para determinar a verdade matemática. Cerca de 15 anos
após Godel haver estabelecido o teorema da incompletude, Kenneth
Arrow demonstrou que não existe um método de tabular votos que possa
satisfatoriamente traduzir as preferências dos eleitores individuais em pre-
ferências da sociedade à qual aqueles eleitores pertencem. A segunda meta-
de do século XX testemunhou uma profusão de resultados em uma série de
áreas, demonstrando que nossas habilidades de conhecer e fazer são limita-
das, mas estes são, inquestionavelmente, os Três Grandes.
Há uma série de elementos comuns entre esses três resultados. O pri-
meiro é que são todos resultados matemáticos, cuja validade foi estabele-
cida por prova matemática.
Certamente não é uma surpresa que o teorema da incompletude de
Godel, que, evidentemente, é um resultado sobre matemática, tenha sido
estabelecido por meio de um argumento matemático. Também não é sur-
presa que o princípio da incerteza de Heisenberg seja resultado da Matemá-
tica - fomos ensinados desde o ensino fundamental que a Matemática é
uma das ferramentas mais importantes da Ciência, e que a Física é uma dis-
ciplina que depende sobremaneira da Matemática. No entanto, quando
pensamos nas Ciências Sociais, normalmente não pensamos em Matemáti-
ca. Não obstante, o teorema de Arrow é completamente matemático, num
certo sentido até mais do que o princípio da incerteza de Heinsenberg, que
é um resultado matemático derivado de hipóteses sobre o mundo físico.
O teorema de Arrow é tão "puro" quanto a "mais pura" das matemáti-
cas - ele lida corri funções, um dos conceitos matemáticos mais importan-
tes. Matemáticos estudam todo tipo de funções, mas as propriedades das
funções estudadas são algumas vezes ditadas por situações específicas. Por
exemplo, um pesquisador pode se interessar pelas propriedades das fun-
ções trigonométricas, e embarcar num estudo dessas funções, ao perceber
que o conhecimento de suas propriedades poderia ajudar com problemas
da atividade de pesquisa. As propriedades das funções discutidas no teo-
rema de Arrow são claramente motivadas pelo problema que Arrow, a
princípio, começou a investigar - como traduzir as preferências de indiví-
duos (expressas por votos) nos resultados de uma eleição.
A utilidade da Matemática se deve, em grande medida, à ampla varie-
dade de situações que são suscetíveis de análise matemática. A seguinte
história tem sido repetida vezes sem conta - algum matemático faz algo
que parece ter apenas interesse técnico, que permanece anos sem exame
(exceto talvez por outros matemáticos) , e então alguém encontra para
aquilo um uso prático totalmente inesperado .
Um exemplo dessa situação, que afeta praticamente todos do mundo ci-
vilizado quase todos os dias, teria surpreendido enormemente G . H. Hardy,
um eminente matemático britânico que viveu na primeira metade do século
XX. Hardy escreveu um livro fascinante (Apologia de um matemático),* no
qual descreve sua paixão pela Estética da Matemática. Hardy sentia que ha-
via dedicado sua vida à busca pela beleza nos padrões dos números, e que de-
via ser estimado como é um pintor ou um poeta, que passa sua vida tentando
criar beleza. Como Hardy afirma: "Um matemático, como um pintor ou um
poeta, é um criador de padrões. Se os padrões do primeiro são mais perma-
nentes do que os do segundo, é porque são feitos de idéias.''3
Hardy fez grandes contribuições à teoria dos números, mas via seu tra-
balho e o de seus colegas como Estética Matemática - guardando beleza
para aqueles capazes de apreciá-la, mas não possuindo qualquer valor prá-

*N ota do Revisor Técnico: A Mathematician 's Apology. Aqui, apologia deve ser entendida
no sentido de defesa .
tico. "Nunca fiz nada de 'útil'. Nenhuma de minhas descobertas fez, e é
improvável que faça, direta ou indiretamente, para o bem ou para o mal, a
menor diferença para as comodidades do mundo", 4 ele declarou, e indubi-
tavelmente se sentia da mesma maneira sobre seus companheiros de tra-
balho na teoria dos números . Hardy não previu que, 15 anos após sua
morte, o mundo dependeria significativamente de um fenômeno que ele
passou boa parte de sua carreira investigando .
Números primos são números inteiros que não têm divisores inteiros,
com a exceção de 1 e do próprio número; 3 e 5 são primos, mas 4 não é
porque é divisível por 2. À medida que se examinam números cada vez
maiores, os primos se tornam relativamente mais infreqüentes; existem
25 primos entre 1 e 100, mas apenas 16 entre 1.000 e 1.100, e somente 9
entre 7.000 e 7.100. Como os números primos se tornam cada vez mais
raros, fica extremamente difícil fatorar números muito grandes que são o
produto de dois primos, no sentido de que leva muito tempo até se encon-
e
trarem os dois primos que são os fatores um experimento recente consu-
miu mais de nove meses, utilizando uma grande rede de computadores).
Nós confiamos nesse fato todos os dias, quando digitamos uma senha ou
pegamos dinheiro em um caixa eletrônico, porque essa dificuldade de fa-
torar números grandes que são o produto de dois primos é a pedra angular
de muitos dos sistemas de segurança computadorizados de hoje .
Assim como a teoria dos números, cada uma das Três Grandes teve um
profundo - embora um pouco atrasado - impacto. Levou algum tempo,
mas o princípio da incerteza - bem como a ciência da Mecânica Quântica
da qual ele é parte - nos trouxe a maior parte da revolução microeletrônica
- computadores, lasers, geradores de imagem de ressonância magnética e
tudo o mais. A importância do teorema de Godel inicialmente não foi per-
cebida por muitos na comunidade matemática, mas aquele resultado en-
gendrou, desde então, não apenas novos ramos da Matemática, mas tam-
bém novos ramos da Filosofia, estendendo tanto a gama de coisas que sabe-
mos quanto a de coisas que não sabemos, e os critérios pelos quais avaha-
mos se podemos ou não saber. Arrow não recebeu um Prêmio Nobel a não
ser vinte anos após a primeira pubhcação de seu teorema, mas esse resulta-
do expandiu significativamente tanto a extensão dos tópicos quanto dos
métodos de estudo daqueles tópicos de Ciência Social, e também teve apli-
cações práticas a problemas tais como a determinação de custos em proble-
mas de redes de comunicação (como transmitir uma mensagem de Balti-
more a Pequim com o menor custo possível).
Finalmente, um elemento comum surpreendente unindo esses três re-
sultados é que eles são - bem, surpreendentes (embora matemáticos prefi-
ram a palavra contra-intuitivos, que impressiona muito mais do que surpreen-
dentes). Cada um desses três resultados foi uma bomba intelectual, explodin-
do preconcepções queridas a muitos dos maiores experts em seus respectivos
campos. O princípio da incerteza de Heisenberg deixaria Laplace perplexo,
assim como muitos outros físicos que compartilhavam da visão determinista
que Laplace tinha do universo. Na mesma conferência de Matemática em que
David Hilbert, o mais importante matemático de sua época, descrevia a uma
platéia arrebatada sua visão de como a verdade matemática poderia um dia
ser automaticamente determinada, num quarto de fundos, longe dos holofo-
tes, Godel demonstrava que existiam algumas verdades cuja validade jamais
poderia ser provada. Cientistas sociais procuravam pelo método ideal de vo-
tação mesmo antes do sucesso das Revoluções Francesa e Americana, mas,
antes mesmo de terminar o doutorado, Arrow foi capaz de demonstrar que
esse era um objetivo inalcançável.

O difícil fazemos hoje, mas o impossível demora uma eternidade


Existe um problema razoavelmente simples que pode ser usado para ilus-
trar que algo é impossível. Suponha que você tem um tabuleiro de xadrez
comum, oito por oito, e um suprimento de ladrilhos. Cada ladrilho é um ·
retângulo cujo comprimento é o dobro do comprimento de um único qua-
drado do tabuleiro, e cuja largura corresponde ao comprimento de um
quadrado do tabuleiro, de forma que cada ladrilho cobre exatamente dois
quadrados adjacentes.
É fácil cobrir o tabuleiro com exatamente 32 ladrilhos, de modo que
todos os quadrados estejam cobertos e nenhum ladrilho saia dos limites
do tabuleiro de xadrez. Dado que cada fileira pode ser coberta por quatro
ladrilhos, de extremidade a extremidade, faça isso em cada uma das oito
fileiras. Agora, suponha que você remova com uma serra os dois quadra-
dos nas extremidades da diagonal grande do tabuleiro; podem ser o qua-
drado da extremidade esquerda da última fileira e o quadrado da extremi-
dade direita da primeira fileira. Isso deixa um tabuleiro que possui apenas
62 casas. Você consegue cobrir esse tabuleiro com exatamente 31 ladri-
lhos, de modo que cada casa fique coberta?
Como você deve estar suspeitando desde que leu a introdução, ou por
já ter experimentado, isso não pode ser feito; há uma razão simples e ele-
gante para tanto. Imagine que o tabuleiro de xadrez seja colorido da ma-
neira usual, alternando quadrados nas cores bege e marrom. Cada ladrilho
cobre precisamente 1 quadrado bege e 1 quadrado marrom, de modo que
os 31 ladrilhos cobrirão 31 quadrados na cor bege e 31 quadrados na cor
marrom. Se você observa um tabuleiro de xadrez, a casa da extremidade
esquerda da última fileira e a casa da extremidade direita da primeira filei-
ra têm, ambas, a mesma cor (suponhamos que seja marrom), então remo-
vê-los deixa o tabuleiro com 32 casas bege e 30 casas marrons - que os 31
ladrilhos não podem cobrir. É uma simples questão de contar; a parte in-
teligente é perceber o que contar.
Uma das razões do poder que a Ciência e a Matemática possuem é
que, uma vez estabelecida uma linha produtiva de raciocínio, há uma cor-
rida para aumentar o alcance dos problemas aos quais a linha de raciocínio
se aplica. O problema acima pode ser classificado como um "padrão ocul-
to" - é evidente que cada ladrilho cobre dois quadrados, mas sem o padrão
colorido normalmente associado com tabuleiros de xadrez, não é um pro-
blema fácil de resolver. Descobrir o padrão oculto é muitas vezes a chave
para descobertas matemáticas e científicas.

Quando não há música


Nós todos conhecemos o conceito de "bloqueio de escritor": a incapacida-
de de um escritor ter uma boa idéia. O mesmo pode acontecer com mate-
máticos e cientistas, mas há outro tipo de bloqueio que existe para o ma-
temático ou o cientista, para o qual não há analogia com o mundo das ar-
tes. Um matemático ou cientista pode trabalhar num problema para o
qual não existe resposta. Um compositor pode conseguir se resignar à
idéia de que, no momento, é incapaz de compor música, mas jamais acei-
taria a idéia de que simplesmente não existe qualquer música a ser com-
posta. Matemáticos e cientistas estão agudamente conscientes de que a
natureza pode frustrar todos os seus esforços. Às vezes, não há música.
A Física percorre atualmente uma jornada iniciada por Albert Einstein,
que dedicou talvez a última metade de sua vida em busca de uma teoria
do campo unificado, que os físicos hoje chamam de TOE (Theory Of
Everything - teoria de tudo) . Nem todos os grandes físicos procuram por
uma TOE-Richard Feynman, certa vez, afirmou que, "se existir uma lei
última e simples que explica tudo, que seja ... Se for como uma cebola
com milhões de camadas, e nós não agüentamos mais ver camadas, então
é assim que a coisa é". 5 Feynman pode não ter procurado por uma TOE,
mas Einstein procurou, e muitos grandes físicos estão procurando.
No entanto, é quase certo que Einstein tivesse consciência de que tal-
vez não exista uma TOE - simples e elegante, complicada e confusa, ou
qualquer coisa entre esses dois extremos. Durante a última parte de suas
carreiras, tanto Einstein quanto Godel estavam no lnstitute for Advanced
Study, em Princeton, New Jersey. Godel, recluso e paranóico, só se digna-
va a conversar com Einstein, e mais ninguém. Dada a prova de Godel, de
que algumas coisas são incognoscíveis, é razoável conjecturar que eles te-
nham discutido a possibilidade de que não houvesse uma teoria de tudo a
ser descoberta, e de que Einstein estivesse perseguindo um cisne negro.
No entanto, Einstein podia dar-se ao luxo de empreender seus esforços
criativos na busca de um mesmerizante cisne negro - pois ele já havia
construído sua reputação.
Pode parecer surpreendente que aqueles que trabalham com a Ciên-
cia e com a Matemática, mesmo sem as credenciais de um Einstein, não
vivam com medo de estar trabalhando num problema possivelmente in-
solúvel. Tais problemas ocorreram com alguma freqüência ao longo da
história- e muitas vezes, mesmo que o cisne negro escape, o resultado não
é o fracasso, mas a descoberta de algo novo, que é quase sempre interes-
sante e, algumas vezes, tem um enorme valor prático. As histórias desses
"fracassos", e dos surpreendentes avanços que ocorreram por causa deles,
formam o tema central deste livro.

De ladrões de banco, matemáticos e cientistas


Quando indagado por que roubava bancos, Willie Sutton respondeu:
"Porque é lá que o dinheiro está." O sonho de todo cientista e de todo ma-
temático é fazer uma descoberta notável- não porque lá esteja o dinheiro
(embora, eventualmente, fama e fortuna de fato esperem aqueles que fa-
zem tais descobertas), mas porque é lá que está o fascínio: ser o primeiro a
observar, ou a criar, ou a entender algo verdadeiramente maravilhoso.
Mesmo que seja o esconderijo dos cisnes negros, nós temos uma ne-
cessidade desesperada de resolver alguns problemas críticos - e um forte
desejo de resolver alguns intrigantes- e o único modo de fazer isso é trei-
nar pessoas altamente competentes, e algumas brilhantes, para atacares-
ses problemas com as ferramentas da Matemática e da Ciência. Por sécu-
los, procuramos uma pedra filosofal que transmutaria metais básicos em
ouro. Fracassamos, mas o desejo de achar a pedra filosofal nos levou à teo-
ria atômica e ao entendimento da Química, que nos permite dar nova for-
ma aos materiais que encontramos no mundo, para usos novos e melho-
res. Não será esse um resultado muito mais desejável para a humanidade
do que transmutar metais básicos em ouro?
Na pior das hipóteses, saber o que não podemos conhecer e o que não
podemos fazer nos poupa de gastar recursos desnecessariamente, numa
busca fútil- hoje, apenas Harry Potter se disporia a procurar a pedra filo-
sofal. Não temos como saber- ainda-se a busca por uma TOE é o equiva-
lente atual de uma busca pela pedra filosofal. Entretanto, se a história ser-
ve como guia, descobriremos de novo que o fracasso na busca por um cis-
ne negro pode nos levar, ainda assim, a um ovo dourado.

O agente literário, o editor e o editor de Stephen Hawking

Na introdução de seu best-seller Uma breve história do tempo, Stephen


Hawking menciona que seu editor afirmara que, para cada equação incluí-
da no livro, o número de leitores em potencial cairia em 50%. Todavia,
Hawking tinha confiança suficiente em seus leitores para incluir a clássica
equação de Einstein, E= mc2.
Eu gostaria de pensar que os leitores deste livro são feitos de matéria
mais resistente. Afinal, é um livro sobre Matemática, e equações repre-
sentam não só grandes verdades, como a que está na equação de Einstein,
como também as linhas que levam a essas verdades. Além do editor de
Hawking, tomei conselhos com meu editor, a quem parece que a Mate-
mática é absolutamente necessária em um livro sobre Matemática, e de
meu agente, que gosta de ler sobre Matemática, mas, decididamente, não
tem a menor vontade de ler Matemática.
Há evidentemente uma linha muito tênue separando esses dois extre-
mos, então tentei escrever o livro de modo que os que desejarem pular uma
seção em que se faz Matemática possam fazê-lo sem perder a essência do que
está sendo dito. Os corajosos que resolverem seguir a Matemática podem fa-
zê-lo apenas com uma base de Matemática do ensino médio (não há cálculo).
Contudo, leitores interessados em pesquisar o assunto com maior profundi-
dade podem encontrar referências nas Notas (e ocasionalmente, também,
um tratamento mais aprofundado das questões). Em muitos casos, existe
material acessível na internet e, para a maioria das pessoas, é mais fácil digitar
uma URL do que procurar alguma coisa na biblioteca (inclusive consideran-
do que a biblioteca mais próxima geralmente não tem livros resumindo a
matemática da teoria de Galois ou da Mecânica Quântica). Por isso, há mui-
tas referências à internet nos apêndices - mas páginas de internet desapare-
cem, e espero que o leitor perdoe uma referência a um site inativo.
Espero que o editor de Hawking esteja errado. Se ele estiver certo e a
população deste mundo for de seis bilhões, a trigésima terceira equação
irá reduzir o número de leitores potenciais deste livro para menos de um
único leitor.

NOTAS
1. "Give me but one firm spot on which to stand, and I will move the Earth." The
Oxford Dictionary of Quotations, 2 ª ed. (London: Oxford U niversity Press, 19 53), p.
14.
2. Pierre- Simon de Laplace, Theoríe Analytique de Probabilites: Introduction, v. II,
Oeuvres (1812-1820).
3. G. H. Hardy, Em defesa de um matemático, (São Paulo: Martins Fontes, 2000). Uma
versão de dominio público (em inglês) está disponível em http://www.math.ual-
berta.ca/-mss/ books/A %20Mathematician%27s %20Apology.pclf. Esta citação é
da Seção 10.
4. Ibid., Seção 29.
5. No Ordinary Genius: The Illustrated Richard Feynman, ed. Christopher Sykes (New
York: Norton, 1995).
Prólogo
Por que nunca consertam
seu carro no tempo prometido

As perguntas de $1 milhão
A cada ano, um pequeno conjunto de eminentes cientistas, economis-
tas, gigantes da literatura e humanitários se reúne em Estocolmo para
outorgar os prestigiosos - e lucrativos - Prêmios Nobel, e não se encon-
tra nenhum matemático entre eles. A questão de por que não há um Prê-
mio Nobel de Matemática é incerta, e permite algumas especulações;
uma fofoca popular, mas provavelmente falsa, diz que, quando os Prê-
mios Nobel foram criados, a esposa de Alfred Nobel estava tendo um
caso com Gustav Mittag-Leffler, um importante matemático sueco.
Sim, a Matemática tem a sua Medalha Fields, concedida a cada quatro
anos, mas somente a matemáticos com menos de 40 anos. Se você a ga-
nha, seu prestígio está garantido pela vida toda, mas ela não o ajudará a
pagar a faculdade de seus filhos . Na virada do milênio, o Clay Mathema-
tics lnstitute selecionou sete problemas fundamentais de Matemática -
e ofereceu inéditos US$ l milhão pela solução de cada um deles. Alguns

Prólogo 1
dos problemas, como, por exemplo a conjectura de Birch e Swinnerton-
Dyer, são altamente técnicos, e mesmo a proposição do problema é
compreensível somente aos especialistas da área. Dois desses proble-
mas, a equação de Navier-Stokes e a teoria de Yang-Mills, são parte do
reino da Física-Matemática. A solução desses problemas permitirá um
melhor entendimento do universo físico, e pode até dar ensejo a signifi-
cativos avanços tecnológicos . Um desses problemas, no entanto, tem re-
lação com uma das mais enigmáticas pequenas chateações da vida: Por
que seu carro nunca fica pronto no prazo prometido?

Colocando um homem na Lua

Quando o presidente John F. Kennedy prometeu que os Estados Unidos


colocariam um homem na Lua, no fim da década de 1960, é quase certo
que ele não tenha previsto grande parte dos inúmeros efeitos colaterais
que a corrida espacial produziria. É claro, a corrida espacial deu um imen-
so impulso à indústria da microeletrôníca, permitindo a invenção das cal-
culadoras e dos computadores pessoais. Dois resultados menores foram o
Tang, uma bebida sabor laranja para os astronautas que logo seria encontra-
da nas prateleiras dos supermercados, e o Teflon, um material superescor-
regadio, que não só passou a ser utilizado como revestimento em vários
utensílios de cozinha, como também entrou na língua inglesa como sinô-
nimo para um político ao qual acusações de corrupção não aderem. Final-
mente, a corrida espacial resultou numa série de insights sobre por que o
mundo parece nunca funcionar tão bem quanto deveria.
Os Estados Unidos haviam previamente se engajado em outro empre-
endimento tecnológico mastodôntico, o Projeto Manhattan, mas desen-
volver a bomba era relativamente simples, em comparação com o proble-
ma de colocar um homem na Lua - pelo menos do ponto de vista da pro-
gramação. Havia três componentes principais do Projeto Manhattan - a
criação e os testes da bomba, a produção de urânio e o treinamento dos
encarregados do uso militar. Os dois primeiros podiam proceder indepen-
dentemente, embora os testes verdadeiros esperassem a chegada de sufi-
ciente material fissionável de fabricas que ficavam em lugares como Han-
ford e Oak Ridge. O treinamento militar começou somente quando ases-
pecificações da arma eram razoavelmente conhecidas e relativamente

2 Como a matemática explica o mundo


simples - contanto que houvesse um avião capaz de carregar a bomba e
uma tripulação que pudesse pilotá-lo.
Do ponto de vista da programação, levar um homem à Lua era uma
tarefa muito mais difícil. Era necessário uma tremenda coordenação entre
o complexo industrial, o ramo científico e o programa de treinamento de
astronautas. Mesmo um problema aparentemente simples, como plane-
jar as responsabilidades individuais da missão dos astronautas lunares, ti-
nha de ser cuidadosamente coreografado. No envio de astronautas à Lua,
várias t arefas deviam ser planejadas com precisão, de modo a fazer um uso
ótimo do tempo disponível, enquanto, simultaneament e, garantisse que
as restrições externas também seriam satisfeitas - como garantir que a
cápsula espacial girasse para que não esquentasse demais. Desse modo,
nasceu o ramo da Matemática conh ecido como programação e, com ele, a
descoberta de como o melhoramento de component es individuais que fa-
zem parte de um conjunto pode gerar resultados contraproducentes - e
contra-intuitivos também.

Então, por que seu carro nunca fica pronto no prazo previsto?
Quer a oficina próxima de você seja em Dallas, em Denver ou Des Moi-
nes, encontra basicamente o mesmo problema. Em um dia qualquer, há
um monte de carros precisando de conserto, e dos mecânicos e equipa-
mentos disponíveis para o conserto. Se apenas um carro vem à oficina,
não há problemas de programação, mas, se vários carros necessitam de re-
paro, é importante fazer as coisas com eficiência. Pode haver apenas um
analista de diagnóstico e somente dois elevadores hidráulicos - idealmen-
te, o m elhor seria planejar a seqüência de ações do conserto, de modo que
tudo esteja operando simultaneamente, já que o tempo ocioso custa di-
nheiro. O mesmo pode ser dito sobre os mecânicos disponíveis; eles rece-
bem por hora trabalhada, então, se ficam sentados num canto enquanto
carros esperam p elo serviço, isso custa dinheiro também.
Um aspecto essencial da programação é um método de arranjar as ta-
refas a serem cumpridas, como elas se relacionam entre si e quanto tem-
po consumirão. Por exemplo, para determinar se um pneu t em um vaza-
m ento, ele deve ser removido antes de ser colocado na b anheira de água.
O modo padrão de arranjar as tarefas, os t empos e suas relações entre si é

Prólogo 3
por meio de um digrafo. Um digrafo é um diagrama com quadrados e se-
tas indicando as tarefas a serem feitas, e o tempo requerido -veja exem-
plo a seguir:

Tl-4 T2-6 T3-5 T6-7

T4-10 TS-2

A Tarefa 1 requer quatro unidades de tempo (horas, dias, meses - o


que for) e as Tarefas 1e2 devem ser completadas antes de a Tarefa 4, que
requer dez unidades de tempo, ser empreendida. Da mesma forma, a Ta-
refa 3 deve ser completada antes que se inicie a Tarefa 5.
Por último, a Tarefa 6 pode ser empreendida a qualquer hora - nada
precisa ser feito antes dela, e ela não é pré-requisito para qualquer outra
tarefa. Além disso, cada tarefa deve ser entregue a um único trabalhador,
e não pode ser dividida em subtarefas- se pudéssemos fazer isso, simples-
mente rotularíamos cada subtarefa como uma tarefa distinta.
Uma pequena terminologia adicional é associada com o digrafo. Uma
tarefa só fica pronta se todos os pré-requisitos para a tarefa estiverem
completos. No diagrama anterior, as Tarefas 1 2, 3 e 6 são feitas de uma
1

vez, enquanto a Tarefa 5 só poderá ser completada quando a Tarefa 3 esti-


ver concluída, e a Tarefa 4 só poderá ficar pronta quando as Tarefas 1 e 2
estiverem cumpridas. Observe que será necessário um mínimo de 16 uni-
dades de tempo para completar todas as tarefas, já que a Tarefa 2, seguida
pela Tarefa 4, juntas, requerem 16 unidades de tempo e formam o cami-
nho essencial - o caminho de duração mais longa.
Grande quantidade de algoritmos foi concebida para a programação
de tarefas; examinaremos apenas um deles, conhecido como a progra-
mação da lista de prioridades. A idéia é simples. Fazemos uma lista das
tarefas em ordem de importância. Quando uma tarefa é concluída, nós a
riscamos da lista. Se alguém está livre para trabalhar numa tarefa, encar-
regamos essa pessoa de trabalhar na tarefa inacabada mais importante,

4 Como a matemática explica o mundo


assim como determinado pela lista de prioridades - se vários mecânicos
estiverem livres, nós os encarregamos em ordem alfabética. O algoritmo
não descreve como a lista de prioridades é construída - por exemplo, se a
esposa do dono da oficina precisa que troquem seu óleo, esse item pode
ser colocado no topo da lista de prioridades, e se alguém coloca $20 no
bolso do dono da garagem por um serviço extra-rápido, esse pode virar o
item número 2. Para ilustrar como todas essas coisas se juntam, supo-
nhamos que os tempos no digrafo acima sejam medidos em horas, e que
nossa lista de prioridades seja Tl , T2, T4, T3, TS, T6. Se A1 é o único
mecânico disponível, na verdade não há programação a ser feita - Al
simplesmente se encarrega de todos os trabalhos na lista d e prioridades,
naquela ordem, e ele leva um total de 32 horas (a soma de todos os tem-
pos) para cumprir todas as tarefas. No entanto, se a oficina contrata Bob,
outro mecânico, usamos a lista de prioridades para construir a seguinte
programação.

Mecânico Tempo de inicio das tarefas

o 4 6 9 11 16 18
Al Tl T3 TS T6 Fim
Bob T2 T4 Ocioso Fim

Já que as Tarefas 1 e 2 estão no topo da lista de prioridades e ambas


são cumpridas no início, agendamos A1 para a Tarefa 1 e Bob para a Tare-
fa 2. Quando A1 concluir a Tarefa 1, ao fim de quatro horas, a próxima
tarefa na lista de prioridades é a Tarefa 4 -mas a Tarefa 4 ainda não pode
ser feita, já que Bob não concluiu a Tarefa 2. Então A1 deve colocar em
espera a Tarefa 4 e começar a trabalhar na Tarefa 3, a próxima da lista de
prioridades. O resto do diagrama é bem simples. Essa programação é tão
boa quanto poderíamos esperar que fosse, dado que há um total de 34
horas que devem ser programadas, e não há maneira de agendar 17 horas
para cada mecânico (a menos que p ermitamos que uma tarefa seja re-
partida entre dois mecânicos, o que n ão é admitido p elas regras). As ta-
refas são concluídas o mais cedo possível, e o tempo ocioso é minimiza-
do, e esses dois critérios são freqüentemente usados na construção de
programas.

Prólogo 5
Quando melhorar as coisas piora a situação
A interação entre o digrafo de tarefas e a lista de prioridades é complicada,
e algumas situações complicadas podem surgir.

T9"9

A lista de prioridades é composta apenas das tarefas em ordem numé-


rica: Tl, T2, T3, ... , T9. A oficina tem três mecânicos: Al, Bob e Chuck. A
programação resultante aparece a seguir.

Mecânico Tempo de início das tarefas


o 2 3 4 8 12
Al T1 T9 Fim
Bob T2 T4 TS T? Fim
Chuck T3 Ocioso T6 T8 Fim

Do ponto de vista da programação, esse é um cenário tipo "tempesta-


de perfeita"* O caminho crítico tem a duração de 12 horas, todas as tare-
fas estão concluídas neste ponto, e nós minimizamos a quantidade de
tempo ocioso, já que existem 34 horas de tarefas a serem feitas e três me-
cânicos disponíveis por 12 horas, o que perfaz um total de 36 horas.
Se a oficina tem muitos serviços, talvez contrate um mecânico extra.
Se os trabalhos a serem feitos forem conformes ao digrafo acima e à mes-
ma lista de prioridades, certamente seria de esperar que houvesse uma
quantidade bem maior de tempo ocioso, mas a programação resultante
nos reserva uma surpresa.

*Nota do Tradutor: O termo "t empestade perfeita" (perfect stonn) se refere à ocorrência si-
multânea de eventos que, tomados individualmente, seriam muito.menos poderosos do
que o resultado de sua combinação.

6 Como a matemática explica o mundo


Mecânico Tempo de início das tarefas
o 2 3 6 7 15
Al T1 T8 Ocioso Fim
Bob T2 TS T9 Fim
Chuck T3 T6 Ocioso Fim
Don T4 T7 Ocioso Fim

Uma autópsia nesse plano de trabalho revela que o problema come-


çou quando Don foi designado para começar pela Tarefa 4. Isso tornou a
Tarefa 8 disponível "cedo demais", de modo que Al pode começar a se de-
dicar a ela, com o resultado de que a Tarefa 9 é iníciada três horas depois
do que era no programa original. Isso é certamente um pouco inesperado,
já que o natural é pensar que ter mais mecânicos disponiveis não resultaria
num tempo total maior.
A oficina tem uma alternativa à contratação de um mecânico extra -
ela pode aperfeiçoar os equipamentos usados para as várias tarefas. Quan-
do age assim, descobre que o tempo para cada tarefa foi reduzido em uma
hora. Certamente esperamos que boas coisas aconteçam depois da me-
lhoria. O digrafo original é agora modificado, e temos o que segue:

Tt-2 T2-1 T4-1

T9-8

e
Quando a mesma lista d e prioridades e, é claro, o algoritmo d e pro-
gramação da lista de prioridades) é usada para os três mecânicos originais,
constrói-se o seguinte plano.
Mecânico Tempo de início das tarefas
o 2 5 8 13
Al T1 TS T8 Ocioso Fim
Bob T2 T4 T6 T9 Fim
Chuck T3 Ocioso T7 Ocioso Fim

Prólogo 7
Esse plano poderia muito bem ser o garoto propaganda do fenômeno
"como-melhorar-tudo-às-vezes-piora-o-todo". Melhorar o equipamento
reduziu o tamanho do caminho crítico, mas tornou o processo mais lento,
em vez de mais rápido~ Sim, há vários outros algoritmos de programação
disponíveis, mas a solução definítiva ainda está por ser encontrada - ne-
nhum algoritmo já estudado foi capaz de gerar programações consistente-
mente ótimas. O que é pior: é possível que tal algoritmo não exista - ou
pelo menos, um que possa ser executado num período de tempo razoável~
No entanto, existe um algoritmo que sempre funciona - construa to-
dos os programas possíveis que satisfaçam o digrafo, e escolha aquele que
otimizar melhor quaisquer critérios que sejam usados. Há um grande pro-
blema com isso: pode haver uma quantidade enorme de planos possíveis,
especialmente se houver muitas tarefas. Examinaremos essa situação com
maior profundidade no Capítulo 9, quando discutirmos aquilo que é co-
nhecido na Matemática como o problema P versus NP.

O cozinheiro de refeições rápidas, dois Georges e moneyball


Quando eu fazia doutorado, de vez em quando ostentava um pouco, saindo
para tomar o café-da-manhã fora de casa. O diner* que eu freqüentava era tí-
pico dos anos 60 - algumas mesas e um balcão de fórmica com assentos de
plástico individuais, cercando um grande gril1 retangular, no qual o cozinhei-
ro de refeições rápidas podia ser visto preparando os pedidos. As garçonetes
prendiam os pedidos em um cilindro de metal e, quando dispunha de algum
tempo livre, o cozinheiro os tirava do cilindro e começava a preparação.
Esse cozinheiro em particular se movia com mais graça do que qual-
quer pessoa que você talvez veja em Dancing wíth the Stars. Quando partes
do grill secavam ou ficavam cobertas com os restos carbonízados de ovos ou
de hashed browns, ** ele os raspava, e derramava então uma fma camada de
óleo. Os ovos eram feitos num quadrante do grill, panquecas efrench toast***
num segundo, as hashed browns num terceiro, e bacon e presunto no quar-
to. Ele parecia nunca se apressar, sempre chegando no tempo exato para vi-
rar um ovo pedido "over easy" (frito dos dois lados mas com a gema ainda
mole), ou para evitar que o bacon ou as hashed browns queimassem. Algu-

*Nota do Tradutor: Espécie de lanchonete típica dos Estados Unidos.


**Nota do Tradutor: Tipo específico de batatas fritas.
***Nota do Tradutor: Variação norte-americana da rabanada.

8 Como a matemática explica o mundo


mas pessoas se fascinam olhando operários de obra trabalharem, mas prefi-
ro ver um cozinheiro de refeições rápidas a um operário.
Há certa poesia na serena integração de uma variedade de tarefas, que é
buscada em praticamente todas as empreitadas que requerem essa integra-
ção - mas qual é a melhor maneira de alcançá-la? Uma arena notável para
tentativas assim são os esportes profissionais, em que a qtúmica do time, a
conjunção de indivíduos competentes numa unidade coesa, é a finalidade úl-
tima. Com freqüência, algoritmos tentados apresentam certamente resulta-
dos mistos. Um desses algoritmos pode ser descrito como "Compre o me-
lhor". Jack Kent Cook contratou George Allen para ser técnico dos W ashing-
ton Redskins, * e disse dele que "Dei a George um orçamento final, e ele gas-
tou mais do que o estipulado". George Steinbrenner, o dono dos New York
Yankees, é um crente fiel da teoria de que, se você gasta bastante dinheiro pa-
gando os melhores profissionais, o resultado é o melhor time. Em 2006, a fo-
lha de pagamento dos New York Yankees excedeu os US$200 milhões - e,
embora o time tenha chegado aos p"lay-ojfs, perdeu para os Detroit Tigers na
primeira rodada, um evento comemorado não só pelos fãs dos Tigers, mas
também pelos inimigos consumados do Yankees, como é meu caso.
No outro lado do espectro dos algoritmos está a crença de que, ao ten-
tar comprar componentes minimizando os dólares-gastos-em resulta-
dos-desejáveis-conseguidos-anteriormente (como, por exemplo, contra-
tar um cleanup hitter** usando dólares por home runs*** conseguidos no
ano anterior), bons resultados podem ser alcançados com um orçamento
limitado. Essa abordagem, conhecida como moneyball, foi desenvolvida
por Billy Beane, o gerente geral dos Oakland Athletics, que construiu uma
série de times notavelmente eficientes gastando bem pouco dinheiro. Um
de seus discípulos foi Paul DePodesta, que assumiu o comando do meu
querido Los Angeles Dodgers (na verdade, sou torcedor dos .Cubs, ****
mas os Dodgers são os amados de minha mulher, e quando a mulher está
feliz o homem fica feliz) - e os arruinou com essa filosofia moneyball. De-
Podesta foi sumariamente demitido e substituído por Nick Colleti, um

*Nota do Revisor Técnico: No que se segue, o autor usa o beisebol como exemplo. Boston
Redskins, New York Yankees etc. são times de beisebol.
**Nota do Tradutor: Uma das posições ocupadas pelos jogadores de um time de beisebol.
***Nota do Tradutor: Nome do ponto no jogo de beisebol; equivalente ao gol no futebol.
****Nota do Revisor Técnico: Referência ao time de beisebol Chicago Cubs .

Prólogo 9
homem de um sólido pedigree no beisebol, e os Dodgers conseguiram
voltar aos play-offs duas vezes nos últimos quatro anos.
Mesmo que os exemplos citados venham dos esportes profissionais,
os objetivos de qualquer organização são semelhantes. Se a fórmula mági-
ca para o sucesso organizacional nos esportes profissionais for descoberta,
você pode apostar todas as suas fichas que os experts em gerência estuda-
rão essa fórmula, de modo a adotá-la em outras empreitadas. Hoje nos
Dodgers; amanhã, na Microsoft.
A menos que seja um matemático profissional, você não tem chance
alguma de chegar a uma solução para a conjectura de Birch-Swinnerton,
mas qualquer pessoa dotada de boa inteligência talvez possa conceber
uma variedade de algoritmos de programação. Quer se arriscar? Um dos
aspectos atraentes de um problema matemático é que os únicos itens ne-
cessários são papel, lápis e tempo - mas saiba que esse problema resistiu
aos melhores esforços de várias gerações de matemáticos.
A Matemática e a Ciência já estiveram anteriormente às portas de grandes
problemas não-solucionados. Por dois milênios, matemáticos trabalharam ar-
duamente para descobrir as soluções de equações polinomiais de quarto ou
menor grau, e no século XVI a solução da quíntica (o polinômio de grau 5 era
o objetivo dos melhores algebristas do mundo.) A comunidade dos físicos esta-
va igualmente reunida na virada do século XX, procurando uma saída para a
catástrofe ultravioleta- a previsão de que um objeto perfeitamente negro, em
equilíbrio térmico, emitiria radiação com uma potência infinita.
Um quebra-cabeça igualmente desafiante confrontava os cientistas
sociais há relativamente pouco tempo. As ditaduras que estrangularam a
Alemanha, a Itália e o Japão haviam sido depostas em conseqüência da Se-
gunda Guerra Mundial. Com democracias emergindo por todo o mundo,
os cientistas sociais da época avidamente continuavam numa jornada ini-
ciada dois séculos antes, a busca pelo método ideal de traduzir os votos
dos indivíduos nos desejos da sociedade.
Todos esses esforços levariam a descobertas dramáticas relacionadas a
eles - de que há algumas coisas que não podemos conhecer, algumas coisas
que não podemos fazer e alguns objetivos que não podemos alcançar. Possi-
velmente, algum matemático conseguirá o grande prêmio do milênio do
Clay Institute descobríndo que não há uma maneira perfeita de criar planos
e teremos de nos conformar ao ouvir que nosso carro não está pronto, quan-
do ligarmos para a oficina, perguntando se já podemos pegá-lo.

10 Como a matemática expl ica o mundo


Parte 1

Descrevendo
o Universo
A medida de todas as coisas

Errou por ESSE tanto


De acordo com Platão, Protágoras foi o primeiro sofista, ou professor de
virtude - um assunto que muito fascinava os filósofos gregos. Seu dito
mais famoso foi: "O homem é a medida de todas as coisas: das que são, en-
quanto são, e das que não são, enquanto não são." 1 A segunda parte da fra-
se faz de Protágoras o primeiro relativista, mas, para mim, é a primeira
parte da frase que é a mais interessante, porque penso que Protágoras er-
rou por apenas duas letras. As coisas têm suas medidas - isso é uma proprie-
dade intrínseca delas. O homem não é a medida de todas as coisas, mas o
medidor de todas as coisas.
A medição é uma das maiores realizações humanas. Embora a lingua-
gem e as ferramentas talvez sejam as invenções que inicialmente permiti-
ram a existência da civilização, sem a medição ela não poderia ter chegado
tão longe. A medição e a contagem, a óbvia predecessora da medição, fo-
ram as primeiras incursões do homem à Matemática e à Ciência. Hoje, a

A medida de todas as coisas 13


afirmação de Protágoras ainda levanta questões de grande interesse: como
medir as coisas que são, e será possível medir as coisas que não são?

O que é esta coisa chamada três?


Professores universitários de Matemática geralmente dão dois tipos de
aula: aulas em que material de nível relativamente alto é ensinado a estu-
dantes que usarão este material em suas carreiras, e aulas em que matéria
de nível relativamente baixo é ensinada a alunos que, se pudessem esco-
lher entre assistir à aula e fazer um tratamento de canal dentário sem anes-
tesia, provavelmente escolheriam a segunda opção. O segundo tipo de
aula inclui os cursos de Matemática requeridos pelas faculdades de busi-
ness - a maioria dos estudantes nessas turmas acredita que um dia serão
CEOs e, na improvável hipótese de precisarem resolver alguma questão
matemática, contratarão algum nerd para fazê-lo. Também inclui Mate-
mática para os estudantes de artes liberais, muitos dos quais acreditam
que a utilidade primária dos números é a de rotular - como em "Eu uso sa-
patos tamanho 43" - e que o mundo funcionaria melhor se diferentes ró-
tulos, tais como celebridades ou cidades, fossem usados. Afinal, deve ser
mais fácil lembrar que você usa calçados Elvis ou calçados Denver do que
lembrar que seu tamanho é 43 . Não ria - a Honda fabrica Accords e Ci-
vics, não Honda modelo 1 e Honda modelo 2.
Felizmente (pois em minha faculdade, todos os professores dão cursos
do nível mais baixo), o segundo tipo de aula de Matemática também in-
clui meu tipo preferido de estudantes - os futuros professores do ensino
fundamental, que cursarão dois semestres de Matemática para professo-
res de ensino fundamental. Tenho o m ais elevado respeito por esses estu-
dantes, que querem ser professores porque amam crianças e querem tor-
nar a vida delas melhor. Eles certamente não estão atrás de dinheiro (não
há muito nessa área) nem querem estar livres de aborrecimentos (com
freqüência, eles t êm de dar aulas em ambientes desagradáveis, com equi-
pamento inadequado, administradores indiferentes, pais hostis, além de
enfrentar todo tipo de críticas, oriundas desde políticos até a imprensa).
A maioria dos estudantes de Matemática para professores de ensino
fundamental se sente ansiosa no primeiro dia de aula - a Matemática ge-
ralmente não era seu ponto forte, e já faz algum tempo desde que tiveram

14 Como a matemática explica o mundo


contato com ela. Creio que os estudantes se saem melhor quando se sen-
tem confortáveis, então normalmente começo citando a famosa frase de
Einstein: "Não se preocupe com suas dificuldades com a Matemática; ga-
ranto a você que as minhas são bem maiores." 2 Então conto que tenho es-
tudado e ensinado Matemática há meio século, e que eles sabem tanto so-
bre o "três" quanto eu - porque nem posso dizer a eles o que o "três" é.
Claro, posso identificar um monte de "três" - três laranjas, três biscoi-
tos etc. - e posso realizar uma série de manipulações com um "três", como
dois mais três igual a cinco. Também conto a eles que uma das razões de a
Matemática ser tão útil é porque podemos usar a afirmação "Dois mais
três é cinco" em muitas situações diferentes, como quando saber que pre-
cisaremos de $5 (ou de um cartão de crédito) quando compramos um
muffin por $2 e umfrappucino por $3. No entanto, "três" é como porno-
grafia - reconhecemos quando está à nossa frente, mas quero ver conse-
guir elaborar uma boa definição para ele.

M ais, menos e o mesmo

Como você ensina a uma criança o que é uma árvore? Você certamente
não começa com a definição de um biólogo do que é uma árvore - você
simplesmente leva a criança a um parque ou floresta, e começa a apontar
para um monte de árvores (os mais urbanos podem usar livros ou compu-
tadores para mostrar imagens de árvores). Da mesma forma ocorre com o
"três" - você mostra conjuntos de três coisas, como três biscoitos, ou três
estrelas. Ao falar sobre árvores, você, sem dúvida, faria referência aos as-
pectos comuns - troncos, galhos e folhas . Quando falamos sobre o três
para crianças, pedimos que elas façam combinações de um em um. De um
lado da página, estão três biscoitos; do outro lado, três estrelas. A criança
desenha linhas conectando cada biscoito a uma estrela diferente; depois
que cada biscoito tiver sido ligado a uma estrela diferente, não há estrelas
que não estejam ligadas, então o número de biscoitos e estrelas é o mes-
mo. Se houvesse mais estrelas do que biscoitos, sobrariam estrelas para ligar.
Se houvesse menos estrelas do que biscoitos, você ficaria sem estrelas an-
tes que pudesse ligar todos os biscoitos.
Combinar de um em um também revela uma propriedade muito im-
portante dos conjuntos finitos: nenhum conjunto finito pode ser combi-

A medida de todas as coisas 15


nado um a um com um subconjunto próprio de si mesmo (um subconjun-
to próprio é composto de algumas, mas não todas, as coisas do conjunto
original). Se você tem 17 biscoitos, não pode combiná-los um a um com
qualquer número inferior de biscoitos.

O conjunto dos números inteiros positivos


Os números inteiros positivos 1, 2, 3 .. . são a fundação da contagem e da
aritmética. Muitas crianças acham o contar um processo interessante em
si mesmo e, cedo ou tarde, esbarram na seguinte questão: existe um nú-
mero maior do que todos? Eles geralmente conseguem responder sozi-
nhos a essa pergunta - se houvesse o maior número de biscoitos do mun-
do, minha mãe poderia assar mais outro. Então, não existe nenhum nú-
mero (inteiro positivo) que descreva quantos números (inteiros positivos)
existem. No entanto, é possível achar alguma maneira de descrever quan-
tos números inteiros positivos existem?
Sim - é uma das grandes descobertas da Matemática do século XIX, e
tem o nome de número cardinal de um conjunto. Quando um conjunto é
finito , é aquela coisa de sempre - o número de itens de um conjunto. O
número cardinal de um conjunto finito apresenta duas propriedades im-
portantes, que discutimos na última seção. Primeiramente, quaisquer
dois conjuntos com o mesmo número cardinal finito podem ser colocados
em correspondência um a um entre si; da mesma forma que uma criança
combina um conjunto de três estrelas com um conjunto de três biscoitos.
Em segundo lugar, um conjunto finito não pode ser combinado um a um
com um conjunto de cardinalidade menor- e, em particular, não pode ser
combinado um a um com um subconjunto próprio dele mesmo. Se uma
criança começa com três biscoitos, e come um, os dois biscoitos queres-
tam não podem ser combinados um a um com os três biscoitos originais.

O hotel de Hilbert
O matemático alemão David Hilbert bolou um meio interessante de
exemplificar que o conjunto de todos os inteiros pode ser combinado um
a um com um subconjunto próprio de si mesmo. Ele imaginou um hotel
com um número infinito de quartos- numerados Ql, Q2, Q3 ... O hotel

16 Como a matemática explica o mundo


estava cheio quando um número infinito de novos hóspedes, numerados
Hl, H2, H3 ... , chegou, pedindo acomodações. Por não estar disposto a
dispensar uma fonte de rendimentos tão lucrativa, e pronto a incomodar
um pouco os hóspedes existentes, o proprietário moveu o hóspede do Q 1
para o Q2, o hóspede do Q2 para o Q4, o hóspede do Q3 para o Q6, e as-
sim por diante- movendo cada hóspede para um novo quarto cujo núme-
ro fosse o dobro do número de seu quarto atual. No fim desse procedi-
mento, todos os quartos de número par estavam ocupados, e todos os
quartos de número ímpar estavam vagos. O proprietário então colocou o
hóspede H 1 no quarto vago Q 1, o hóspede H2 no quarto vago Q3, o hós-
pede H3 no quarto vago QS ... Ao contrário de todas as outras hotelarias
do planeta Terra, o Hotel de Hilbert nunca precisa pendurar a placa de
"Não Há Vagas".
No parágrafo anterior, transferindo o hóspede no quarto N para o
quarto 2N, construímos uma combinação um a um entre os positivos in-
teiros e os pares positivos inteiros. Todo positivo inteiro é combinado com
um par positivo inteiro e, por meio da correspondência N B 2N, todo nú-
mero par inteiro positivo é combinado com um positivo inteiro e diferen-
tes inteiros são combinados com diferentes pares positivos inteiros. Nós
combinamos um conjunto infinito, os inteiros positivos, um a um, com
um subconjunto próprio, os inteiros positivos pares. Ao agir assim, perce-
bemos que conjuntos infinitos diferem de maneira significativa dos con-
juntos finitos-de fato, o que distingue os conjuntos infinitos dos conjun-
tos finitos é que os conjuntos infinitos podem ser combinados um a um
com subconjuntos próprios, mas conjuntos finitos não podem.

Ponzilvânia

Há toda espécie de situações intrigantes que surgem com os conjuntos in-


finitos. Charles Ponzi foi um trapaceiro do início do século XX nos Esta-
dos Unidos, que inventava planos (conhecidos como planos Ponzi) para
persuadir pessoas a investir dinheiro com ele, prometendo um bom retor-
no. Os planos Ponzi são altamente perniciosos (e é por isso que são ilegais)
- periodicamente, o país é inundado com uma nova versão, tal como clu-
bes de investimento em pirâmide. 3 Ponzi pagou os primeiros investidores
com o dinheiro dos fundos de investidores que apostaram depois, criando

A medida de todas as coisas 17


a impressão de que seus investidores haviam prosperado - ao menos, os
primeiros. Os últimos a investir eram deixados segurando a bolsa vazia,
dado que é impossível continuar a pagar lucros aos investidores com esse
método, a menos que novos investidores sejam achados- e, mais cedo ou
mais tarde, os novos investidores acabam. Isso em qualquer lugar, quer di-
zer, com exceção da Ponzilvânia.
A.P. (antes de Ponzi), a Ponzilvânia era um país densamente povoa-
do, que incorrera numa dívida arrasadora. Seus moradores, como os quar-
tos no Hotel de Hilbert, são infinitos - nós os chamaremos MI, M2, M3 ...
Cada décimo morador (MIO, M20 ... ) possui saldo de $I, enquanto todos
os outros têm uma dívida de $1. O ativo total dos de I a IO é, portanto,
menos $9, assim como são os ativos totais dos moradores II até 20, 2 I até
30, e assim por diante. Todos os grupos de dez moradores, sucessivamen-
te numerados, têm ativos totais negativos.
Não há que se preocupar; tudo o que é necessário é um bom modo de
rearranjar os ativos, e aqui entra Charles Ponzi - um criminoso nos Esta-
dos Unidos, mas um herói nacional na Ponzilvânia. Ele coleta$ I do MI O e
$ I do M20, dando essa quantia ao MI, que agora tem um balanço positivo
de $1. Ele, então, coleta $Ido M30 e $I do M40, dando-os ao M2, que
agora também tem um balanço de $ I. Ele, então, coleta$ I do MSO e ou-
tro do M60, dando-os ao M3, que agora também tem um balanço positivo
de $ I. Presumiremos que, quando ele chegar a um habitante como o
MIO, que agora está sem um tostão sequer (ele originalmente possuía $I,
mas este já foi dado ao MI), ele simplesmente transfere $I do próximo
dono de$ I que ainda não foi explorado. Ele continua esse processo até al-
cançar todos os moradores - e, no fim, todos têm $ I ~ Você não se torna
h erói nacional simplesmente dando a todos o rendimento de $ I - então
Ponzi passa ao Estágio 2 de seu brilhante plano financeiro. Já que todos
têm $I, ele coleta os dólares de M2, M4, M6, M8 ... e passa-os para o MI.
MI , agora infinitamente rico, retira-separa sua villa à beira-mar. Esse pro-
cesso deixa M3, MS, M7, M9 ... com $1 cada. O ponto principal aqui é
que ainda existe uma quantidade infinita de moradores, cada qual com
$ I. Ponzi agora coleta os dólares de M3, M 7, MI I, M 15 (número ímpar
sim, número ímpar não) ... e os dá a M2, que também se retira para sua vil-
la na praia. N este ponto, ainda h á um número infinito de moradores que
t êm $I (MS, M9, M13 ... ) , então Ponzi coleta $I de um entre cada dois

18 Como a matemática explica o mundo


dosmoradoresquetêm$I (MS, MI3, M2I, ... ) eosdáaoM3. Ao fim des-
se processo, M3 se recolhe à sua villa na beira-mar, e ainda há um número
infinito de moradores que têm$ I. No fim do Estágio 2, todos estão gozan-
do de suas villas na beira da praia. Não surpreende que tenham rebatizado
o país em sua homenagem.
A solução intelectual desse plano Ponzi, em particular, envolve rear-
ranjos de séries infinitas, um tópico geralmente não-abordado até que um
graduando em Matemática faça um curso de análise real. Basta dizer que
há problemas que vão até a essência de como os processos aritméticos infi-
nitos diferem dos finitos - quando calculamos o capital total do país a par-
tir do capital total dos moradores MI a MIO (menos $8) e adicionando-os
ao capital total dos moradores MI I a M20 (menos $8), e assim por diante,
chegamos a um resultado diferente do que quando totalizamos o capital
somando (MIO+ M20 +MI)+ (M30 + M40 + M2) + (MSO + M60 + M3)
+ ...= (I + I +-I) + (I + I +-I) + ... .= I + I + I + ... Os dois modos diferen-
tes de coletar dinheiro (fazendo a aritmética) gera resultados diferentes.
Ao contrário da contabilidade no mundo real, na qual, não importa como
você rearranja os capitais, o total é sempre o mesmo, um bom contador na
Ponzilvânia pode fabricar ouro a partir de palha.

Georg Cantor (1845-1918)


Até Georg Cantor, os matemáticos nunca haviam conduzido um ataque
efetivo à natureza do infinito. De fato, eles não haviam realmente tentado
- um matemático tão grande quanto Carl Friedrich Gauss declarara, certa
vez, que o infinito, na Matemática, nunca poderia descrever uma quanti-
dade inteira e era apenas uma força de expressão. Gauss quis dizer que o
infinito poderia ser abordado por intermédio de números cada vez maio-
res, mas que não deveria ser visto como uma entidade matemática viável,
por si só.
Talvez o interesse de Cantor pelo infinito pudesse ter sido previsto,
levando em consideração sua criação incomum - ele nasceu judeu, con-
verteu-se ao protestantismo e casou-se com uma católica apostólica ro-
mana. Além disso, existia uma quantidade substancial de talento artísti-
co na família, já que vários de seus parentes tocaram em orquestras de
renome, e o próprio Cantor deixou alguns desenhos que eram prova su-

A medida de todas as coisas 19


ficiente de que também tinha talento artístico. Cantor fez sua graduação
em Matemática com o famoso analista Karl Theodor Wilhelm W eiers-
trass, e os trabalhos iniciais de Cantor seguiram o caminho assinalado
por seu orientador de tese - um traço comum entre matemáticos. Entre-
tanto, o interesse de Cantor pela natureza do infinito o convenceu a es-
tudar intensamente esse tópico. Seu trabalho gerou considerável inte-
resse na comunidade matemática - assim como considerável controvér-
sia. O trabalho de Cantor vinha em oposição direta a Gauss, lidando
com infinitos como quantidades perfeitas, de maneira análoga às quanti-
dades finitas .
Dentre os matemáticos que tiveram muita dificuldade em aceitar esse
ponto de vista estava Leopold Kronecker, um matemático alemão talen-
toso, mas autocrático. Kronecker exerceu influência a partir de sua posi-
ção na prestigiosa Universidade de Berlim, enquanto Cantor foi relegado
às ligas menores na University of Halle. Kronecker era um matemático da
velha guard a, que tomou literalmente as palavras de Gauss no assunto do
infinito fez o melhor que pôde para denegrir os trabalhos de Cantor. Isso
deu combustível ao início de várias crises de depressão e paranóia em
Cantor, que passou boa parte do final de sua vida em instituições para do-
entes mentais. Além disso, não ajudou o fato de Cantor ter declarado que
sua Matemática era uma mensagem de D eus e que seus outros interesses
incluíam tentar convencer o mundo de que Francis Bacon escrevera as
obras de Shakespeare.
Mesmo assim, nos intervalos entre períodos de confinamento, Cantor
produziu obras de um brilhantismo assombroso, resultados que mudaram
os rumos da Matemática. Infelizmente, ele morreu no hospício em que
passara boa parte de sua vida adulta. Assim como a grandiosidade de Mo-
zart e de van Gogh se tornou evidente a nossos olhos depois da morte de
ambos, o mesmo se deu com o trabalho de Cantor. Hilbert descreveu a
aritmética transfinita, uma das contribuições de Cantor, como "o mais
impressionante produto do p ensamento m atemático, uma das mais belas
realizações da atividade humana no dominio do puramente inteligível".4
Hilbert segue d eclarando que "ninguém irá nos expulsar do paraíso que
Cantor criou para nós".5 É possível apenas especular sobre o que teria sido
diferente se Hilbert, em vez de Kronecker, fosse o ocupante da cadeira na
Universidade de Berlim.

20 Como a matemática explica o mundo


Uma nova visita ao Hotel de Hilbert
Uma das grandes descobertas de Cantor foi a de que havia conjuntos infini-
tos cuja cardinalidade era superior à dos positivos inteiros - conjuntos infi-
nitos que não podiam ser combinados um a um com os positivos inteiros.
Um conjunto desses é a coleção de todas as pessoas de nomes infinitamente
grandes. Um nome infinitamente grande é uma seqüência de letras A até Z
e os espaços entre elas - uma letra ou espaço em branco para cada um dos
positivos inteiros. Algumas pessoas, tais como "Georg Cantor", têm nomes
compostos, em sua maioria1 de espaços em branco - a primeira letra é um
G, a segunda letra um E1 •.• 1 a sexta letra um espaço, a décima segunda letra
um R, e as letras décima terceira1 décima quarta ... (os três pontos significam
"e assim por diante1 infinitamente", ou algo nesse sentido) são todos espaços
em branco. Algumas pessoas, como "AAAAAAAAA... "1 têm nomes com-
postos exclusivamente de letras- cada letra de seu nome é um A. É claro1
ela gasta um bom tempo preenchendo a ficha de inscrição no Hotel de Hil-
bert, mas ignoraremos essa questão por ora.
A coleção de todas as pessoas com nomes infinitamente grandes não
pode ser combinada uma por uma com os inteiros. Para perceber que as-
sim é, suponha que essa combinação seja possível. Então, todas as pessoas
com um nome infinitamente grande poderiam ser colocadas nos quartos
do Hotel de Hilbert, e vamos supor que fizemos isso. D emonstraremos
uma contradição apontando para o fato de que existe uma pessoa com um
nome infinitamente grande que não tem um quarto no hotel.
Para fazer isso, construiremos o nome de tal pessoa, que chamaremos
hóspede misterioso, letra por letra. Olhe para o nome da pessoa no quarto
Q 1, e escolha uma letra diferente da primeira letra desse nome. Essa "letra
diferente" é a primeira letra do nome de nosso hóspede misterioso. Então
olhe para o nome da pessoa no quarto Q2, escolha uma letra diferente da
segunda letra desse nome. Essa "letra diferente" é a segunda letra do nome
de nosso hóspede misterioso. Em geral, olhamos a enésima let ra do nome
do hóspede no quarto QN, e escolhemos uma "letra diferente" como a
enésima letra do nome de nosso hósped e misterioso.
Assim construído, nosso hóspede misterioso está mesmo sem quarto.
Ele não está no Q 1, porque a primeira letra de seu nome difere da primei-
ra letra do nome do hóspede do Ql. Nosso hóspede não está no Q2, por-
que a segunda letra de seu nome difere da segunda letra do hóspede no

A medida de todas as coisas 21


Q2. E assim por diante. Nosso hóspede misterioso não se encontra em lu-
gar algum do Hotel de Hilbert e, desse modo, a coleção de pessoas de no-
mes infinitamente grandes não pode ser combinada uma a uma com os in-
teiros positivos.
Os grandes resultados da Matemática têm o nome de seu descobridor
acoplado, como é o caso do teorema de Pitágoras. Objetos matemáticos
dignos de estudo têm o nome de um importante colaborador afixado, tal
como o "conjunto de Cantor". Da mesma forma, técnicas brilhantes de
prova matemática são imortalizadas - a construção anterior é conhecida
como a "prova diagonal de Cantor" (se dispuséssemos os nomes dos hós-
pedes do hotel em uma lista decrescente, com as primeiras letras de cada
nome compondo a primeira coluna, as segundas letras de cada nome com-
pondo a segunda coluna, e assim por diante, a linha conectando a primeira
letra do primeiro nome à segunda letra do segundo nome e daí à terceira
letra do terceiro nome, e assim por diante, formaríamos a diagonal do
quadrado infinito que compõe a lista). Na verdade, Cantor é um dos pou-
cos matemáticos a conseguir o ciclo inteiro, tendo não apenas técnicas de
prova com seu nome, mas teoremas e objetos matemáticos também.

A hipótese do contínuo
É bem fácil perceber que a t écnica de prova anterior mostra que a coleção
de números reais entre O e 1 também possui um número cardinal diferen-
te em relação ao dos positivos inteiros. Os números reais entre O e 1 ( co-
nhecidos como "o contínuo") são, quando escritos em expansão decimal,
simplesmente nomes infinitamente grandes com letras de 1 a 9, em vez de
A a Z, e O em vez de um espaço em branco. Por exemplo, 1/4 =0,25000 .. .
Cantor trabalhou a aritmética dos números cardinais e designou o núme-
ro cardinal dos inteiros positivos como aleph-0, e o número cardinal do
contínuo como e.
Pode-se cortar muito caminho com a prova diagonal. Cantor usou-a
para demonstrar que o conjunto de números racionais tem uma cardinali-
dade aleph-0, assim como o conjunto de números algébricos (todos os nú-
meros que são raízes de polinômios com coeficientes inteiros). Também
pode ser usada para mostrar a analogia infinita do resultado da criança, de
que não existe um maior entre os números (finitos). Cantor conseguiu de-

22 Como a matemática explica o mundo


monstrar que, para qualquer conjunto S, o conjunto de todos os subcon-
juntos de S não poderia ser combinado um a um com o conjunto S, e que,
portanto, tinha um número cardinal maior. Como resultado, não existe
um maior entre os números cardinais.

Preenchendo as lacunas
Leopold Kronecker, quando não estava ocupado tomando infeliz a vida de
Cantor, era um matemático de talento considerável, e também foi autor
de uma das mais famosas citações da Matemática: "Deus fez os inteiros,
todo o resto é obra do homem." 6 Um dos primeiros trabalhos que o homem
teve de fazer foi preencher as lacunas entre os inteiros na linha numérica. A
tarefa de preencher as lacunas retomaria no século XIX, quando os mate-
máticos se depararam com o problema da eventual existência dos números
cardinais entre aleph-0 e e. Como já explicado, esforços no sentido de de-
monstrar que conjuntos óbvios, como o conjunto de números racionais e o
conjunto de números algébricos, possuíam números cardinais diferentes de
aleph-0 e e se mostraram vãos. Cantor hipotetizou que não existia um tal
número cardinal - todo subconjunto do continuo tinha cardinalidade aleph-0
ou e; essa conjectura ficou conhecida como a hipótese do continuo. Provar
ou impugnar a hipótese do contínuo foi uma alta prioridade da comunida-
de matemática. Numa conferência matemática relevante, ocorrida na vira-
da do século, David Hilbert listou a solução desse problema como a primei-
ra de sua famosa lista de 23 problemas que desafiariam os matemáticos no
século XX. A solução de apenas um desses problemas faria a fama e a carrei-
ra de qualquer matemático.

O axioma da escolha
O axioma da escolha é uma presença relativamente nova no cenário mate-
mático - de fato, até Cantor chegar ao cenário da Matemática, ninguém
sequer havia pensado que um axioma desse tipo fosse necessário. O axio-
ma da escolha é de simples exposição; diz que, se temos uma coleção de
conjuntos não-vazios, podemos escolher um membro de cada conjunto.
Na verdade, quando vi pela primeira vez esse axioma, minha reação ini-
cial foi: "Para que precisamos desse axioma? Escolher coisas de conjuntos

A medida de todas as coisas 23


é o mesmo que ir às compras com um cartão de crédito sem limite. Sim-
plesmente entre numa loja [conjunto], e diga, 'Quero isto'" Ainda assim,
o axioma da escolha é altamente controverso - tanto quanto um axioma
pode ser considerado controverso.
A controvérsia gira em torno da palavra escolher. Assim como há juí-
zes ativistas e construcionistas estritos, existem matemáticos liberais e
construcionistas estritos quando o assunto é a palavra escolher. Será a esco-
lha um processo ativo, no qual se devem especificar as escolhas feitas (ou
um procedimento para fazer essas escolhas), ou é meramente uma afir-
mação de existência, no sentido de que escolhas podem ser feitas (isso faz
lembrar um pouco a declaração de Henry Kissinger, de que "erros foram
cometidos em administrações das quais tomei parte".)? 7 Se você é um
construcionista estrito que deseja uma receita para a escolha, não terá
qualquer problema ao fazer isso com uma coleção de conjuntos de intei-
ros positivos - você pode simplesmente escolher o menor inteiro de cada
conjunto. Na verdade, existem muitas coleções de conjuntos em que
construir uma função de escolha (uma função cujo valor para cada con-
Junto é a escolha feita para aquele conjunto) não apresenta problema al-
gum. Entretanto, se levamos em conta a coleção de todos os subconjuntos
não-vazios da linha real, não há uma maneira óbvia de fazer isso - nem há
uma maneira não-óbvia, já que ninguém até agora o fez, e a aposta de mui-
tos lógicos matemáticos é de que isso não pode ser feito.
Há uma diferença significativa entre "conjuntos de inteiros positivos"
e "conjuntos de números reais" - e essa é a existência de um inteiro positi-
vo menor em qualquer conjunto não-vazio de positivos inteiros - , mas
não existe um número real menor que seja óbvio, em qualquer conjunto
não-vazio de números reais. Se houvesse, poderíamos achar uma função
de escolha exatamente da mesma maneira que fizemos com os conjuntos
de inteiros positivos - simplesmente escolheríamos o menor número real
no conjunto não-vazio.
Pode ter ocorrido a você que existem conjuntos de número reais que
claramente não possuem um membro menor, tal como o conjunto de to-
dos os números reais positivos*. Se você imagina ter esse número menor, a
metade dele ainda é um número positivo, mas menor. No entanto, pode

*Nota do Revisor Técnico: O conjunto de números reais positivos não inclui o zero.

24 Como a matemática explica o mundo


haver um modo concebível de arranjar os números reais numa ordem di-
ferente do que a usual, mas em que cada conjunto não-vazio de números
reais tem um membro menor. Se houver, então a função de escolha seria
aquela definida no parágrafo anterior - o menor número em cada conjun-
to. Na verdade, essa idéia é conhecida como o princípio da boa-ordena-
ção, e é logicamente equivalente ao axioma da escolha.
Se procurar uma função de escolha para a coleção de todos os subcon-
juntos de números reais dá dor de cabeça só de pensar, você talvez prefira
a seguinte versão do dilema, de Bertrand Russel - se você tem um número
infinito de pares de sapatos, é fácil escolher um sapato de cada par (você
poderia escolher o sapato esquerdo, por exemplo), mas, se você tem uma
quantidade infinita de pares de meias, não há maneira de distinguir
uma meia de outra, e você não consegue definir explicitamente um m éto-
do para escolher uma de cada par.
A grande maioria dos matemáticos apóia a formulação da existência-
uma escolha existe (possivelmente na abstrata Terra do Nunca, na qual
não podemos especificar como escolher) e uma quantidade incrível de
matemática fascinante resultou da incorporação do axioma da escolha. O
mais intrigante dos resultados é, de longe, o paradoxo Banach-Tarski,s e a
exposição dele geralmente causa nas pessoas um sentimento de que os
matemáticos perderam o juízo. Esse teorema afirma que é possível de-
compor uma esfera tridimensional em um número finito de peças e rear-
ranjá-las por rotações e translações (mover de um ponto a outro do espa-
ço, empurrando ou puxando, mas sem girar) em uma esfera com o dobro
do raio da original. Por mais tentadora que pareça a idéia de comprar uma
pequena esfera de ouro por algumas centenas de dólares, aplicar um Ba-
nach-Tarski nela para dobrar seu raio e rep etir a operação várias vezes até
que você tenha ouro suficiente para se retirar à sua villa à beira-mar, nem
mesmo Charles Ponzi pode ajudá-lo nessa.
Infelizmente, as peças nas qu ais a esfera pode ser decomposta (ob-
serve que não usei a palavra cortada, que é um processo físico real) exis-
tem apenas na abstrata Terra do Nunca, dos chamados "conjuntos não-men-
suráveis" . Ninguém jamais viu um conjunto não-mensurável, e ninguém
jamais verá- se você conseguir, então não é mais não- mensurável, mas,
se você aceita o axiom a da escolha no sentido da existência, então há
uma abundância desses conjuntos naquela Terra do Nunca.

A medida de todas as coisas 25


Conjuntos consistentes de axiomas
Não estou certo de que outros matemáticos concordariam comigo, mas
penso nos matemáticos como pessoas que fazem deduções a partir de
conjuntos de axiomas, e de lógicos matemáticos como aqueles que fazem
deduções sobre conjuntos de axiomas. Em um ponto, contudo, matemáti-
cos e lógicos mat emáticos concordam - um conjunto de axiomas em que
se podem deduzir resultados contraditórios é um mau conjunto de axio-
mas. Um conjunto de axiomas em que não se podem deduzir resultados
contraditórios é denominado consistente. Em geral, matemáticos traba-
lham com conjuntos de axiomas que a comunidade vê como consistentes
(mesmo que isso possa não ter sido provado ainda), enquanto, entre os
objetivos dos lógicos matemáticos, está o de provar que conjuntos de axio-
mas são consist entes.
Assim como existem diferentes geometrias (euclidiana, projetiva, esfé-
rica, hiperbólica - para nomear apenas umas poucas), existem diferentes
teorias do conjunto. Uma das mais amplamente estudadas é o esquema axio-
mático proposto por Ernst Zermelo e Adolf Fraenkel, que conceberam um
sistem a ao qual foi adicionado o axioma da escolha. 9 A versão padrão da teo-
ria dos conjuntos é conhecida por ZFE* - o Z e o F, você sabe o que signifi-
cam, enquanto E se refere ao axioma da escolha. Matemáticos têm um gos-
to desmesurado por abreviações, visto que a estética matemática prescreve
que comu nicar muitos significados em bem poucos símbolos é atraent e e,
desse modo, HC é a abreviação para a hipótese do continuo.
O primeiro progresso significativo sobre o primeiro problema de Hil-
bert foi feito em 1940, por Kurt Godel (sobre quem falaremos mais em
capítulo posterior), que mostrou que, se os axiomas de ZFE eram consis-
tentes, então, ao incluir HC como um axioma adicional para produzir um
sistema maior de axiomas, denotado ZFE + HC, também não resultavam
quaisquer contradições.
Isso trouxe a hipótese do contínuo, que estivera sob o escrutínio de
e
matemáticos que gostariam de ou encontrar um conjunto de números
reais com um número cardinal diferente de aleph-0 ou e, ou de provar que
a existência de um conjunto assim é impossível), para o reino da lógica
matemática. No início da década de 1960, Paul Cohen, da Stanford Uni-

*Nota do Revisor Técnico: Em inglês, ZFC; C de choice (escolha) .

26 Como a matemática explica o mundo


versity, chocou a comunidade matemática com dois resultados épicos.
Ele mostrou que, se ZFE fosse consistente, HC era indecidível dentro da-
quele sistema; ou seja, a verdade de HC não poderia ser determinada
usando a lógica e os axiomas de ZFE. Cohen também mostrou que incluir
a negação de H C (abreviada como "não-H C") em ZFE para produzir o sis-
tema ZFE + não-HC também era consistente. Em conjunção com o resul-
tado anterior de Godel, isso demonstrou que, não importa se HC é consi-
derada verdadeira ou falsa, adicioná-la a um presumidamente consistente
ZFE produz uma teoria que também é consistente. Na linguagem da lógi-
ca matemática, HC era independente de ZFE. Esse teorema foi considera-
do tão importante que Cohen (que faleceu na primavera de 2007) foi pre-
miado com a Medalha Fields em 1966.
O que isso significou? Um modo de entender é voltar a outra situação
em que uma importante hipótese provou ser independente de um conjun-
to de axiomas predominante. Quando a geometria euclidiana foi investiga-
da, percebeu-se que o postulado das p aralelas (através de cada ponto fora
de uma dada linha Z, uma e somente uma linha paralela a l pode ser traçada)
era independente dos outros axiomas. A geometria plana padrão incorpora
o postulado das paralelas, mas existem outras geometrias nas quais o postu-
lado das paralelas é falso - na geometria hiperbólica, existem pelo menos
duas linhas que podem ser traçadas através de qualquer ponto fora da linha
l que são paralelas a l. Lógicos dizem que a geometria plana é um modelo
que incorpora o postulado das paralelas, e a geometria hiperbólica é um
modelo que incorpora a negação do postulado das paralelas.

O contínuo: Em que situação está hoje?


Um dos mais importantes físicos da atualidade, John Archibald Wheeler*
(que encontraremos de novo quando discutirmos a Mecânica Quântica),
pensa que tanto a estrutura discreta dos inteiros quanto a natureza funda-
m ental do continuo são vitais para o trabalho da Física, e combinam com o
ponto de vista de um físico.

*Nota do Revisor Técnico: John Archibald Wheeler, considerado "o último titã", morreu
em 13 de abril de 2008, aos 96 anos. Wheeler foi o orientador de doutorado de Richard Feyn-
man e colaborador de Neils Bohr e Enrico Fermi.

A medida de todas as coisas 27


"Para o exército em marcha da Física, batalhar por muitas décadas
com o calor e o som, campos e partículas, gravitação e geometria do es-
paço-tempo, a cavalaria da Matemática, galopando na dianteira, proveu
o que pensou ser o fundamento lógico para o sistema dos números reais.
O encontro com o quantum nos ensinou, porém, que adquirimos conhe-
cimento em pedacinhos; que o contínuo estará para sempre além do
nosso alcance. Ainda assim, para o trabalho do dia-a-dia, o conceito do
contínuo tem sido e continuará sendo indispensável para a Física, assim
como é para a Matemática. Em qualquer um dos dois campos de ativida-
de, em qualquer empreitada, podemos adotar o contínuo e abrir mão do
rigor lógico absoluto, ou adotar o rigor e abrir mão do contínuo, mas não
podemos usar ambas as abordagens ao mesmo tempo, para a mesma
º
aplicação." 1
Wheelervê um conflito entre a atual visão quântica da realidade (o ri-
gor lógico al;)soluto de Wheeler) e o contínuo, uma idealização matemáti-
ca útil, que jamais pode existir. Matemáticos têm sorte - não t êm a neces-
sidade de decidir se o objeto de sua investigação é útil, nem se é uma boa
d escrição da realidade. Precisam apenas decidir se é interessante.
Dado o resultado de Cohen sobre a indecidibilidade de HC dentro de
ZFE, e dado que HC é independente de ZFE, quais direções a pesquisa
pode tomar? O problema foi basicamente removido do domínio dos ma-
temáticos, muitos dos quais estão satisfeitos com ZFE como estrutura axio-
mática. A maioria dos lógicos se concentra na parte ZFE do problema, e
muito trabalho está sendo dedicado à construção de outros axiomas para
as teorias dos conjuntos em que HC seja verdadeira. Gerações futuras de
matemáticos podem muito bem decidir modificar a formulação padrão, e
abandonar ZFE por algum outro sistema.
Que valor tem isso tudo? Do ponto de vista matemático, embora al-
guns avanços ocorridos no século XX tenham diminuído a importância de
se solucionar o primeiro problema de Hilbert, o contínuo é um dos obje-
tos matem áticos fundamentais - novos conhecimentos sobre sua estrutu-
ra se mostram de suma importância, assim como novos conhecimentos
sobre a estrutura de objetos fundamentais, como vírus ou estrelas, são de
suma importância em suas respectivas ciências. Do ponto de vista do
mundo real, a realidade física usa t anto as estruturas discretas (na mecâni-
ca quântica) quanto o contínuo (em outras áreas) . Ainda não consegui-

28 Como a matemática explica o mundo


mos discernir a natureza última da realidade-possivelmente um conheci-
mento maior do contínuo nos permita dar alguns passos nessa direção.
Além disso, os cálculos com os pressupostos do contínuo são muitas
vezes mais simples. Se o contínuo é abandonado, não há círculos - há ape-
nas um monte de pontos não-conectados, eqüidistantes do centro. Nin-
guém andaria em volta de um lago circular, cumprindo uma distância de
duas vezes n vezes o raio do lago, mas andaria em uma seqüência de seg-
mentos de linha reta, de um ponto a outro ponto adjacente. A computa-
ção do comprimento de tal caminho seria árdua - e acabaria sendo igual a
2nr, até uma quantidade impressionante de casas decimais. O círculo é
uma idealização de contínuo que não existe no mundo real - mas o valor
prático do círculo e os cálculos simplificados que ele impõe têm um valor
grande demais para que seja assim sumariamente abandonado.
Finalmente, a busca por modelos que satisfaçam diferentes sistemas
de axiomas muitas vezes traz conseqüências surpreendentes para nosso
entendimento do mundo real. Algumas tentativas de inferir modelos nos
quais o postulado das paralelas de Euclides não fosse satisfeito levaram ao
desenvolvimento da geometria hiperbólica, que foi íncorporada da teoria
da relatividade de Einstein, a mais precisa que possuímos sobre a estrutu-
ra em larga escala e o comportamento do Universo. Como disse Nikolai
lvanovich Lobachevsky: "Não há nenhum ramo da Matemática, não im-
porta quão abstrato seja, que não possa algum dia ser aplicado a fenôme-
nos do mundo real. "11

NOTAS
l. Essa citação é do Teeteto , de Platão, seção l 52a. Mais sobre Protágoras pode ser en-
contrado em http://en.wikipedia.org/wiki/Protagoras. Mesmo sendo uma enci-
clopédia editada pelo público, minha experiência com a Wikipédia tem sido a de
encontrar dados exatos no tocante à matemática, à física e às suas respectivas his-
tórias - possivelmente porque ninguém ali tem um cavalo no qual aposte dinhei-
ro, talvez porque não haja nem mesmo um cavalo no qual apostar, no caso de as-
suntos como esses.
2. Essa citação é tão famosa que a maioria das fontes se contenta em indicar apenas que
é de Einstein~ A vasta maioria de suas ocorrências parece ser de professores de mate-
mática que, como eu, desejam acalmar os nervos dos estudantes . Muitas pessoas
pensam que Einstein era matemático, e não físico, mas sua única contribuição ma-
temática de que tenho notícia é a "convenção da soma de Einstein", que é essencial-
mente uma notação - como inventar o sinal de mais para denotar adição.

A medida de todas as coisas 29


3. Até mesmo a Securities and Exchange Commission alerta contra eles. Veja
http://www.sec.gov/answers/ponzi.htm.
4. Carl B. Boyer, A History of Mathematics (New York: John Wiley & Sons, 1991), p.
5 70. Edição brasileira: História da Matemática (São Paulo: Editora Edgard Blücher,
1974).
5. Ibid.
6. Ibid.
7. Ver http://archives.cnn.com/ 2002/ WORLD/europe/04/24/uk.kissinger/.
8. L. Wapner, The Pea and the Sun (A MathematicalParadox) (Wellesley, Mass: A. K.
Peters, 2005). Essa é uma exposição realmente completa e legível do teorema de
Banach-Tarski - incluindo um tratamento inteligível da prova-, mas, mesmo as-
sim, você terá de estar disposto a se dar ao trabalho. Mesmo que não esteja, ainda há
muito a ser apreciado no livro.
9. Ver http://mathworld.wolfram.com/Zermelo-FraenkelAxioms.htrnl. Você terá de
abrir caminho pela notação da teoria dos conjuntos padrão (que é explicada no topo
da página) para conseguir entender, mas os axiomas são em si mesmos bem básicos.
Há um link e mais informações para cada axioma. A maioria dos matemáticos nunca
se preocupa realmente com esses axiomas, já que a teoria dos conjuntos que utilizam
parece bastante óbvia; preocupam-se somente em achar uma versão útil do axioma
da escolha (há outros além do princípio da boa ordenação). As duas versões padrão
que penso serem mais úteis são o Lema de Zorn, e a indução transfinita, e acredito
que isso seja verdade para a maioria dos matemáticos.
10. H . Weyl, The Continuum (New York: Dover, 1994), p . xii. H ermann Weyl foi um
dos grandes intelectos da primeira parte do século XX. Ele fez o doutorado em Gi:it-
tingen; seu orientador de tese foi David Hilbert. W eyl foi um dos primeiros defen-
sores da teoria da relatividade de Einstein, e estudou a aplicação da teoria dos gru-
pos à mecânica quântica.
11. Citado em N. Rose, Mathematical Maxims and Minims, (Raleigh N. C.: Rome
Press, 1988) .

30 Como a matemática explica o mundo


Os;testes da realidade

A aposta de Pascal
O matemático e filósofo francês Blaise Pascal provavelmente foi o primeiro
a combinar filosofia e probabilidade. Pascal estava disposto a reconhecer a
possibilidade de que Deus pode não existir, mas argumentou que o indiví-
duo racional deveria acreditar Nele. Seu argumento baseava-se no conceito
probabilístico de expectativa, que é o valor médio de longo prazo de uma
aposta. Se você aposta que Deus existe e ganha, a recompensa é a vida eter-
na - e mesmo que a probabilidade de que Deus existisse fosse pequena, a
recompensa média de se fazer essa aposta apequenava a recompensa média
que você receberia se Deus não existisse. Uma versão disso é: se certa noite
você perder as chaves do carro, deve olhar a parte da rua iluminada pelo
poste - a probabilidade de as chaves estarem justamente lá é pequena, mas
você nunca as encontrará em locais que a luz não alcança.
Enquanto o século XIX chegava ao fim, alguns dos principais pensa-
dores da época perceberam o sucesso da física e da quimica, e tentaram

Os testes da realidade 31
aplicar alguns de seus resultados e idéias às Ciências Sociais. Um desses
indivíduos foi Auguste Comte - um dos criadores da disciplina da Socio-
logia, que é o estudo do comportamento social humano. Seu tratado,
"Plano de Estudos Científicos Necessários à Reorganização da Socieda-
de", delineava sua filosofia acerca do positivismo. Parte dessa filosofia
pode ser expressa em termos da relação entre teoria e observação - como
diz Comte, "se é verdadeiro que toda teoria deve basear-se em fatos obser-
vados, é igualmente verdadeiro que fatos não podem ser observados sem a
orientação de alguma teoria. Sem tal orientação, nossos fatos seriam des-
conexos e infrutíferos; não poderíamos retê-los: na maioria das vezes, não
poderíamos sequer percebê-los". 1
Simon Newcomb fez contribuições significativas à Astronomia e à
Matemática. Ele era um computador- nos dias em que esse termo descre-
via um trabalho, em vez de um dispositivo eletrônico - e supervisionava
um programa que revisava o cálculo das posições dos corpos astronômi-
cos . Ele ajudou Albert Michelson a calcular a velocidade da luz e também
ajudou a refinar o cálculo daquilo que t em o divertido nome de polodia de
Chandler, *uma pequena variação no eixo de rotação da Terra. Newcomb
não se restringiu às Ciências Físicas; sua obra Princípios da economia políti-
ca (1885) foi aclamada pelo famoso economista John Maynard Keynes
como "uma dessas obras originais que uma mentalidade científica arejada,
quando não é pervertida por leituras excessivas das obras ortodoxas, é ca-
paz de produzir de tempos em tempos, sobre um assunto ainda m eio for-
mado, como a economia".2 Um grande elogio, de fato, vindo de um dos
principais economistas do século XX. Como toque final de uma carreira
ilustre, Newcomb foi enterrado no Cemitério Nacional de Arlington, e o
presidente Taft compareceu ao funeral.
Obviamente, esses dois indivíduos estavam entre os maiores intelec-
tuais de suas respectivas épocas - mas ambos são conhecidos por fazer
previsões que entrariam na lista de Top 100 de todos os tempos, com o tí-
tulo "Previsões que Você Gostaria de Não Ter Feito -Ao Menos Não Tão
Publicamente". Comte escreveu um tratado filosófico examinando coisas
que jamais chegariam a ser conhecidas, incluindo em sua lista a composi-
ção química das estrelas. Muitos anos depois, Robert Bunsen e Gustav

*Nota do Revisor Técnico: No original, Chandler Wobble, algo como "Bamboleio de Chandler".

32 Como a matemática explica o mundo


Kirchhoff descobriram a Espectroscopia, e a análise do espectro da luz
emitida pelas estrelas permitiu que su a composição química fosse deduzi-
da. N ewcomb estava int eressado na questão do vôo impulsionado a mo-
tor, m as fez cálculos - mais tarde, soube-se que errôneos - qu e o conven-
ceram de que isso era impossível sem o desenvolvimento de novos méto-
dos de propulsão, e de materiais muito mais resistent es. Alguns anos mais
t arde, Orville e Wilbur Wright alcançaram o feito do vôo a motor com
não muito mais do que uma estrutura de madeira, fios para controle e um
motor de combustão interna.*
Como Niels Bohr tão sarcasticamente observou: "Fazer previsões é di-
fícil - especialmente sobre o futuro." 3 Predizer o que pode ou não pode ser
conhecido na área da Matemática também é difícil, mas, já que a maioria
de tais predições envolve áreas de estudo razoavelmente enigmáticas, elas
usualmente não aparecem na tela do radar do público. No entanto, previ-
sões sobre as limitações do conhecimento e das realizações no mundo físi-
co são muito mais fáceis de serem postas sob escrutínio - e, quando al-
guém prediz que jamais conheceremos a composição química das estre-
las, é necessário um tempo extremamente longo para que a previsão seja
comprovada como correta. Fazer tais previsões parece então uma propos-
ta intelectual destinada à derrota - como tomar o lado errado da Aposta
de Pascal. É sempre possível que se prove que você está errado, e é muito
improvável que se prove que você está certo.

Ser físico é dureza


É impossível não ficar impressionado com o extraordinário sucesso da
Física, um sucesso ao qual a Matemática faz uma contribuição substan-
cial. Lembro de ficar maravilhado, quando criança, ao ler no New York
Times detalhes de um eclipse parcial do Sol que deveria ocorrer naquele
dia. O artigo informava a hora de início, a hora em que o ocultamento
máximo se daria, a hora do fim do processo e um gráfico com o trajeto do
eclipse - em quais partes do país seria possível avistar o fenômeno. Pen-
sar que umas poucas leis propostas por Isaac Newton, combinadas com
alguns cálculos matemáticos, capacitam alguém a prever tal fenômen o

*Nota do Rrevisor Técnico: Devemos mencionar, sem dúvida, o nosso Santos Dum ont.

Os testes da realidade 33
com uma exatidão quase absoluta ainda é fonte de grande deslumbra-
mento e, inquestionavelmente, representa um dos grandes triunfos do
intelecto humano.
A maior parte das grandes teorias da Física representa o método cientí-
fico em seu florescimento mais exuberante. Experimentos são conduzidos,
dados são coletados e uma estrutura matemática que explica os dados é
construída. Previsões são feitas - quando essas previsões dizem respeito a
fenômenos ainda não-observados, cuja existência é mais tarde verificada,
a teoria ganha uma validade ainda maior. A descoberta do planeta Netuno
deu peso adicional à teoria gravitacional de Newton, a precessão do periélio
de Mercúrio ajudou a corroborar a teoria da relatividade de Einstein.
Algumas vezes, pensa-se na Física como se fosse simplesmente um
ramo da Matemática aplicada. Parece-me que isso é uma grande injustiça
com a Física. A diferença entre a Física e a Matemática é semelhante à di-
ferença entre a arte de pintar retratos e o expressionismo abstrato. Se você
é contratado para pintar um retrato, o resultado final deve ser semelhante
à pessoa cujo retrato está sendo pintado. Até onde vai meu limitado co-
nhecimento do expressionismo abstrato, tudo o que você tiver vontade de
colocar na tela satisfaz os requisitos para receber o nome de expressionis-
mo abstrato- contanto que seja tão abstrato que ninguém possa reconhe-
cer o que é. Isso é um pouco injusto com a Matemática, já que parte dela é
altamente prática- mas outra parte é tão esotérica que chega a ser incom-
preensível a todos que não sejam especialistas e mostra-se completamen-
te inútil a qualquer objetivo prático. Minha estima pelo expressionismo
abstrato, assim como minha compreensão dele, é limitada - mas talvez
mereça uma nova olhada, considerando que uma tela de Jackson Pollock
recentemente foi vendida por US$ l 40 milhões . Talvez essa analogia não
seja tão ruim assim, porque áreas altamente abstratas da Matemática aca-
baram mostrando um valor prático significativo- e inesperado; e US$ l 40
milhões é um valor bastante prático.
Os sucessos da Física são extraordinários - mas seus fracassos são ex-
traordinários também.
Uma das primeiras teorias do calor foi a teoria do flogisto. A teoria do
flogisto declara que todas as substâncias inflamáveis contêm flogisto, uma
substância sem cor, cheiro ou peso, que é liberada na queima. Duvido mui-
to que se tenha chegado a produzir uma teoria verdadeiramente axiomática

34 Como a matemática explica o mundo


do flogisto, mas, se alguém o fez, no momento em que Antoine Lavoisier
demonstrou que a combustão requeria oxigênio, a teoria do flogisto foi
morta e enterrada bem fundo. Não seriam escritos mais tratados sobre a
teoria do flogisto, pois ela havia falhado no teste decisivo - não correspon-
dia à realidade observável. Esse é o destino inexorável que espera a bela teo-
ria física que colidir com um feio e contraditório fato. O melhor que se
pode esperar de uma teoria assim é que uma nova a supere, e que a velha
teoria permaneça válida em certas situações. Algumas veneráveis teorias
são tão úteis que, mesmo quando suplantadas, ainda guardam um valor sig-
nificativo. Esse é o caso da lei da gravitação de Newton, que ainda faz o ad-
mirável trabalho de prever a vasta maioria das ocorrências cotidianas,
como, por exemplo, as marés altas e baixas na T erra. Mesmo tendo sido su-
perada pela teoria da relatividade geral de Einstein, felizmente não é neces-
sário usar as ferramentas da relatividade geral para prever marés altas e bai-
xas, já que essas ferramentas são consideravelmente mais difíceis de usar.
A Matemática raramente se preocupa com os testes da realidade. Exis-
tem exceções, como o conto relatado a mim por George Seligman, um de
meus professores de Álgebra na faculdade, cujas aulas me davam grande
prazer. Os números reais - o continuo discutido no capítulo anterior - for-
mam certo tipo de sistema algébrico de dimensão 1. 4 Os não tão conhecidos
números complexos (construídos a partir do número imaginário i = '1 - 1)
formam uma estrutura similar de dimensão 2, os quartenions, uma estrutu-
ra de dimensão 4, e os números Cayley, uma estrutura de dimensão 8. Se-
ligman contou que levara uns dois anos derivando resultados concernentes
à estrutura da dimensão 16, e estava pronto para publicá-los quando al-
guém demonstrou que tal estrutura não existia, e que as quatro estruturas
conhecidas descritas acima eram todas as que existiam. De modo interes-
sante, naquela época, dois manuscritos haviam sido submetidos a pubhca-
ção no prestigioso Annals ofMathematics. Um dos artigos delineava a estru-
tura do objeto de dimensão 16; o outro mostrava que tal objeto não existia.
Para Seligman, foram dois anos de trabalho jogados no lixo, mas, a despeito
desse contratempo, ele teve uma carreira longa e produtiva.
Em sua maior parte, no entanto, a matemática é extremamente resili-
ente a respeito da questão de quantos anjos podem dançar na cabeça de
um alfinete. Enquanto a questão estiver aberta, matemáticos podem es-
crever artigos nos quais deduzem as conseqüências da existência de um

Os t estes da real idade 35


número específico de anjos dançantes ou de estabelecer limites máximos
ou mínimos para o número de anjos. Se a questão for respondida um dia,
até mesmo os resultados errôneos poderão ser vistos como passos em dire-
ção à solução. Mesmo que se demonstre que essa é uma questão que não
pode ser respondida, uma abordagem perfeitamente razoável é adicionar
um axioma concernente à existência ou não-existência de anjos dançantes
e investigar os dois sistemas resultantes - afinal, essa foi a abordagem na
seqüência quando se demonstrou que a hipótese do contínuo era inde-
pendente dos axiomas da teoria dos conjuntos de Zermelo-Fraenkel. O fí-
sico, sempre sabedor de que seus resultados devem estar de acordo com a
realidade, é de fato como o pintor de retratos; enquanto o matemático,
como o expressionista abstrato, pode jogar na tela qualquer padrão de go-
tas de tinta e dizer com orgulho que aquilo é arte - como fez o matemático
inglês G. H. Hardy, com quem nos encontramos na introdução.

A diferença entre as teorias físicas e matemáticas


A palavra teoria significa diferentes coisas na Física e na Matemática. O dicio-
nário faz um bom trabalho ao explicar essa diferença - uma teoria, na Ciên-
cia, é descrita como um grupo coerente de proposições gerais usado como
explicação para uma classe de fenômenos, enquanto uma teoria na Matemá-
tica é um corpo de princípios, teoremas ou afins concernentes a um assunto.
Minha biblioteca contém livros sobre a teoria do eletromagnetismo e sobre a
teoria dos grupos. Embora a teoria dos grupos não seja minha área de compe-
tência, tenho poucas dificuldades em navegar através dela. Por outro lado,
recebi conceito D em Eletromagnetismo na faculdade (para não faltar com a
justiça, foi o primeiro semestre que cursei tendo uma namorada ao mesmo
tempo, então minha atenção ao curso de Eletromagnetismo foi, sem dúvida,
desviada), e um de meus objetivos para minha aposentadoria é ler o livro até
o final. Em minhas horas livres, peguei o livro e comecei a ler - ainda é um
trabalho realmente árduo. N ão é a Matemática que é o problema - é a justa-
posição de Matemática e de um entendimento, ou percepção, dos fenôme-
nos físicos. Uma teoria matemática geralmente começa com uma descrição
dos objetos sob investigação. A geometria euclidiana é um bom exemplo. Ela
começa com os seguintes axiomas, ou postulados:

36 Como a matemática explica o mundo


1. Quaisquer dois pontos podem ser unidos por uma linha reta.
2. Qualquer segmento de reta pode ser prolongado indefinidamente
em uma linha reta.
3 . Dado um segmento de reta qualquer, um círculo pode ser traçado,
tendo o segmento como raio e uma de suas extremidades como
centro.
4. Todos os ângulos retos são congruentes.
5. Através de qualquer ponto fora de uma linha reta, uma e apenas
uma linha reta pode ser traçada em paralelo à linha dada através
desse ponto.

Certos substantivos não são definidos (ponto, linha reta etc.), embora
todos saibamos o que significam. Uma vez que aceitemos esses axiomas,
no sentido de que concordamos em trabalhar com eles, o jogo começa - ex-
traia conclusões lógicas a partir deles. Isso é tudo o que o matemático tem
de fazer.
A teoria do eletromagnetismo começa com a lei de Coulomb, que
declara que a magnitude da força eletrostática entre duas cargas punti-
formes é diretamente proporcional às magnitudes de cada carga e inver-
samente proporcional ao quadrado da distância entre as cargas. Essa lei é
análoga à lei da gravitação universal de Newton, que declara que a mag-
nitude da força gravitacional entre dois pontos materiais é diretamente
proporcional à massa de cada objeto e inversamente proporcional ao
quadrado da distância. O motivo de as duas teorias não serem idênticas é
que a massa é inerentemente positiva, enquanto a carga pode ser tanto
positiva quanto negativa. Nós aceitamos a lei de Coulomb como ponto
de partida porque nenhuma medição jamais a contradisse. O jogo é no-
vamente deduzir conclusões lógicas delas - mas isso está longe de ser
tudo o que o físico tem de fazer. As conclusões lógicas habilitam o físico
a conceber experimentos que testarão não apenas a validade das conclu-
sões - que é tudo o que importa na matemática-, mas também se a con-
clusão é consistente com a realidade observável. As conclusões lógicas
na Física são continuamente submetidas a esse teste de realidade - por-
que a utilidade de uma teoria física é limitada pelo quanto está de acordo
com a realidade observável.

Os testes da realidade 37
Quando duas teorias se sobrepõem
Os físicos desenvolveram duas teorias de grande sucesso: a Relatividade,*
que faz um excelente trabalho ao descrever a força gravitacional, e a Mecâ-
e
nica Quântica, que faz um trabalho ainda melhor ao menos do ponto de
vista da precisão com a qual os experimentos confirmaram ambas as teo-
rias), ao descrever o comportamento mecânico e eletromagnético das par-
tículas nos níveis atômico e subatôrnico. O problema é que a relatividade só
se manifesta no reino dos grandes objetos, enquanto os efeitos da Mecânica
Quântica são significativos apenas no mundo das coisas muito, muito, mui-
to pequenas. Muitos físicos concordam que o mais importante entre todos
os problemas teóricos que confrontam a Física é a construção de uma teoria
eem geral, referida como gravidade quântica) que incorpore ambas essas
teorias. As candidatas de hoje incluem a teoria das cordas e a gravidade
quântica em loop, 5 ** e parte da dificuldade em escolher uma vencedora re-
side em conceber ou descobrir resultados fenomenológicos que ajudem a
distinguir entre as duas. Afinal, se as duas teorias prevêem resultados dife-
rentes no caso da fusão simultânea de quatro buracos negros, podemos ter
de esperar um bom tempo até testemunhar um evento desses.
A junção de teorias na Matemática é, em comparação, perfeitamente
consistente. Provavelmente, o primeiro a conseguir sucesso nessa área foi
Descartes, que escreveu um apêndice a seu Discurso sobre o Método, no
qual lançou os fundamentos da Geometria Analítica. Em termos de utili-
dade, as poucas páginas que Descartes escreveu sobre Geometria Analíti-
ca superam de longe os volumes que escreveu sobre Filosofia, dado que a
Geometria Analítica habilita a aplicação das ferramentas computacionais
precisas da Álgebra aos problemas geométricos. D esde então, os matemá-
ticos têm alegremente cooptado os resultados de uma área e aplicado em
outra. A Topologia6 e a Álgebra são, na superfície, campos de estudo dís-
pares. No entanto, há resultados importantes de Topologia que foram ob-
tidos com o uso de ferramentas algébricas, como, por exemplo, os grupos
de homologia e os grupos de homotopia (a definição precisa de um grupo
será dada no Capítulo 5) para estudar e classificar superfícies, e há resulta-

*Nota do Revisor Técnico: O autor se refere, aqui, à Teoria Geral da Relatividade.


**Nota do Revisor Técnico : Loop Quantum Gravity, também traduzida com Gravidade
Quântica em Laços.

38 Como a matemática explica o mundo


dos igualmente valiosos, obtidos tirando vantagem das características to-
pológicas de certas estruturas algébricas importantes, para deduzir as pro-
priedades algébricas dessas estruturas.
Parte do charme da matemática, ao menos para os matemáticos, é o
fato de que os resultados de uma área podem ser utilizados, de maneira fru-
tífera, em outra área, aparentemente não-relacionada. Minha própria área
de pesquisa, nos últimos anos, foi a teoria dos pontos fixos . Um bom exem-
plo de um ponto fixo é o olho de um furacão; enquanto tudo se alvoroça em
torno do furacão, o olho não apresenta sequer uma brisa suave. Muitos pro-
blemas de pontos fixos são nominalmente colocados no domínio da análise
real, mas, ao mesmo tempo em que eu e um colega submetíamos a solução
de um problema particular que se baseava na Matemática Combinatória -
parte da Matemática que lida com o número e os tipos de arranjos de obje-
tos -, um matemático na Grécia submetia um artigo resolvendo o mesmo
problema, também usando a combinatória, mas de abordagem inteiramen-
te diferente daquela que eu e meu colega empregamos. Não aconteceu ain-
da, mas eu não ficaria surpreso ao ver uma conferência sobre a teoria com-
binatória dos pontos fixos, em algum momento no futuro.

O Modelo Padrão

Quando estudei Física no ensino médio e na faculdade, os átomos eram re-


tratados como formados por um núcleo de prótons e nêutrons, com elétrons
orbitando em volta do núcleo de maneira similar à de um planeta orbitando
uma estrela (embora alguns de meus professores tenham de fato menciona-
do que essa não era uma descrição totalmente precisa). Havia quatro forças -
gravidade, eletromagnetismo, a força fraca (que governava a radioatividade)
e a força forte eque mantinha os núcleos intactos contra a repulsão mútua dos
prótons de carga positiva no núcleo). Havia algumas partículas restantes,
como os neutrinos e os múons, e, embora se entendesse que o eletromagne-
tismo resultava do movimento dos elétrons, as pessoas ainda estavam indeci-
sas sobre a questão de como as outras forças funcionavam.
Meio século mais tarde, muito disso foi incrementado e unificado
como o Modelo Padrão.7 Agora se sabe que há três famílias de partículas
que comportam um sistema de classificação muito atraente, e que as for-
ças se comunicam pelo intercâmbio entre várias partículas. Entretanto,

Os testes da realidade 39
mesmo que Modelo Padrão seja a última palavra, existem ainda inúmeras
questões, como por exemplo: "O que causa a massa?" (atualmente, o con-
corrente na liderança é chamado partícula Higgs, que ainda não foi vista
por ninguém, e que sempre parece estar uma geração de aceleradores de
partículas adiante)* e "Por que o eletromagnetismo é mais forte do que a
gravidade por um fator de 1 seguido de 39 zeros?"
Uma das características sedutoras de uma teoria de gravidade quânti-
ca é que ela, em tese, permitiria uma unificação das quatro forças. Quase
trinta anos atrás, Sheldon G lashow, Steven Weinberg e Abdus Salam ga-
nharam o Prêmio Nobel por conta de uma teorias que unificava a força
eletromagnética e a força fraca na força eletrofraca, que estava presente
somente em temperaturas ultra-elevadas ocorridas imediatamente após o
big bang. Muitos físicos acreditam que há uma teoria na qual todas as for-
ças se fundirão em uma força única, em uma temperatura quase inconce-
bivelmente alta, e então as várias forças individuais se separarão à medida
que a temperatura for decaindo, como quando os vários componentes de
uma mistura se separam da mistura quando ela esfria.
Eu adoraria ver uma teoria assim. Tenho certeza de que eu levaria
anos de estudo até poder ter uma chance em mil de compreendê-la, pois
uma teoria desse tipo seria, sem dúvida alguma, b em diferente de qual-
quer ramo da Matemática que estudei. A maioria das teorias matemáticas
começa com uma estrutura bem geral, que tem um conjunto relativa-
mente pequeno de axiomas e definições- como, por exemplo, a estrutura
conhecida como uma álgebra. Um bom exemplo de uma álgebra é a cole-
ção de todos os polinômios -você pode adicionar e subtrair polinômios, e
multiplicá-los por constantes ou por outros polinômios, e o resultado ain-
da é um polinômio. A divisão, porém, não é uma operação permitida- as-
sim como alguns inteiros divididos por outros inteiros não são números in-
teiros (como 5 dividido por 3), alguns polinômios divididos por outros
polinômios não são polinômios.

*Nota do Revisor Técnico: Espera-se observar o chamado Bóson de Higgs no acelerador de


partículas LH C (Large Hadron Collider - Grande Colisor de Hadrons) no CERN (Orga-
nization Européenne pour la Recherche Nucléaire - Organização Européia para a Pesqui-
sa Nuclear que originalmente era Conseil Européenne pour la Recherche Nucléaire -
Conselho Europeu para a Pesquisa Nuclear) .

40 Como a matemática explica o mundo


O estudo das álgebras procede pela adição de outras hipóteses. Álge-
bras geraram as álgebras de Banach, que geraram álgebras de Banach comu-
tativas, que geraram álgebras de Banach comutativas semi-simples - cada
adjetivo adicional representando uma hipótese adicional (ou hipóteses). A
Física não parece seguir esse esquema - os axiomas de uma teoria estão
constantemente sujeitos a revisões. Na verdade, o Modelo Padrão consiste
não tanto nas deduções, mas é o próprio Modelo - as deduções disponíveis a
partir das hipóteses são geralmente usadas não como meio de construir
uma geladeira mais eficiente, mas como um teste de validade do Modelo.

As limitações da Física
Foi, de modo geral, no século passado que a Física acertou as contas com
as próprias limitações. Embora o Modelo Padrão fale sobre partículas e
forças, uma das idéias mais modernas na Física é a de que informação é um
conceito tão fundamental quanto os outros. Em particular, muito do que
descobrimos em relação às limitações da Física pode ser classificado em
termos de informação.
Algumas dessas limitações ocorrem porque a informação de que pre-
cisamos simplesmente não é acessível, se é que de fato existe. Não pode-
mos saber o que aconteceu antes do big bang - se é que algo aconteceu
mesmo-, porque a informação não viaja numa velocidade maior que a da
luz. Também não podemos saber o que jaz para além do horizonte - se
existe uma porção do universo que está mais distante de nós em anos-luz
do que o tempo decorrido desde o big bang, e se essa porção está se distan-
ciando de nós a uma velocidade maior que a da luz, nenhuma informação
dessa porção jamais nos alcançará.
Algumas limitações são impostas porque existe um limite para a acu-
rácia das informações correspondentes. O famoso princípio da incerteza
de Heisenberg nos diz que, quanto mais acuradamente somos capazes de
determinar a posição de uma partícula, menor é a exatidão com que pode-
mos conhecer seu momento (ou, como é mais comumente pensado, sua
velocidade). As conseqüências do princípio da incerteza e outros aspectos
da Mecânica Quântica, que tomarão uma boa parte do próximo capítulo,
estão entre os resultados mais reveladores e contra-intuitivos da história
do conhecimento humano. Essa limitação também estorva nossa capaci-

Os testes da realidade 41
dade de prever - negando a famosa afirmação de Laplace sobre a onisciên-
cia. Poderíamos dizer que o universo nos impede de conhecer como as coi-
sas serão, escondendo de nós como as coisas são.

Quando as teorias entram em guerra

Na metade do século XX, havia dois concorrentes principais para a expli-


cação do fato de que, nas grandes escalas de espaço e tempo, o universo
parece inalterável e constante. Embora a teoria do big bang, 9 que postula-
va a criação do universo em uma gigantesca explosão, estivesse a ponto de
emergir de modo triunfante, encontrava um forte rival na teoria do estado
estacionário, ou da criação contínua. Uma das suposições básicas da teoria
do estado estacionário 10 era que um átomo de hidrogênio era criado de ni-
hilis* por 1O bilhões de anos em cada metro cúbico de espaço. Isso não é
muita criação - mas requer o abandono do princípio da conservação da
matéria-energia, que é nominalmente um dos princípios centrais da Físi-
ca . Entretanto, existem limites para quais princípios científicos podem ser
confirmados por experimentos - e, na década de 1950 (possivelmente
hoje em dia também), era impossível medir com uma precisão que invali-
dasse um resultado desse tipo.
Existe uma incerteza (que nada tem a ver com o princípio da incerte-
za) que cerca qualquer conjunto de hipóteses na Física. O melhor que se
pode fazer com qualquer conjunto de hipóteses é tirar deduções e tes-
tá-las por meio de experimentos, e a precisão de qualquer experimento é
limitada. De modo a observar a criação de um átomo de hidrogênio por
1 O bilhões de anos por metro cúbico, não dá para simplesmente pegar
um metro cúbico e observá-lo por 10 bilhões de anos . Mesmo aceito o
fato de que seria difícil encontrar algo ou alguém disposto a sentar e ficar
olhando para um metro cúbico por um período tão longo de tempo,
você pode dar azar e escolher um metro cúbico no qual nada acontece - a
teoria do estado estacionário obviamente se refere a uma média, e não
a uma ocorrência exata. A teoria do estado estacionário não caiu por ter-
ra porque a criação do átomo continuou inobservada - caiu porque, num
universo imutável, não haveria uma radiação cósmica de fundo em mi-

*Nota do Revisor Técnico: Do nada.

42 Como a matemática explica o mundo


croondas. Tal radiação de fundo foi prevista pela teoria do bigbangcomo
uma relíquia deixada pelo big bang- e, quando foi observado por Arno
Penzias e Robert Wilson na década de 1960, a teoria do big bang surgiu
como a vencedora inconteste.
Com freqüência, a Física é confrontada com situações nas quais precisa
confiar em métodos estatísticos, e não em observações - várias teorias previ-
ram que os prótons decaem, mas a intervalos excessivamente longos antes
que isso aconteça, então a solução é presumir que há uma distribuição de fre-
qüência com a qual esses prótons decaem e observar um grande número de
prótons. Muitas teorias físicas são confmnadas ou refutadas com base em tes-
tes estatísticos - não muito diferente das teorias nas Ciências Sociais, exceto
pelo fato de que teorias nas Ciências Sociais normalmente são aceitas oure-
jeitadas com base na confirmação estimada no nível de 95% de certeza, en-
quanto teorias físicas precisam recorrer a critérios muito mais rigorosos.
Teorias na Matemática nunca guerreiam dessa maneira, e elas nunca
são resolvidas com base em evidência estatística. Diante de um grande
problema como o da verdade ou falsidade da hipótese do contínuo, a reso-
lução agrega algo de novo à Matemática. É verdade que teorias caem e
descaem nas graças da comunidade matemática, e é verdade também que
teorias são algumas vezes superadas por outras teorias mais abrangentes.
Se existem explicações rivais para os fenômenos do mundo real, a Mate-
mática pode conceder algumas das ferramentas necessárias para resolver a
disputa, mas, sem experimentos e medições, essas ferramentas mostram-
se essencialmente inúteis.
O último capítulo desta parte se ocupa de qual modelo matemático
melhor descreve a estrutura de pequena escala do nosso universo - estru-
turas discretas ou contínuas. Ambas as teorias, de um ponto de vista mate-
mático, são igualmente válidas - mas, quando a questão foi descrever o
universo, só podia haver uma vencedora.

NOTAS
1. Veja h ttp ://en. wikipedia. org/wiki/Auguste_ Comte. Como eu já disse, as biografias
da Wikipédia costumam ser confiáveis e geralmente muito bem documentadas.
2. Veja http://en.wikipedia.org/wiki/Simon_Newcomb.
3. Veja http://sciencepolicy.colorado.edu/zine/archives/3 l/editorial.html. Uma rá-
pida pesquisa no Google informa também que essa citação é atribuída a Mark

Os testes da rea lidade 43


Twain, que disse muitas coisas brilhantes, e a Yogi Berra, que disse um monte de
coisas nesse sentido, e, conseqüentemente, recebe muitos créditos por coisas assim,
que ele pode ou não ter dito.R
4. De acordo com Seligman, o problema exato era determinar para quais valores de n
existe um mapa bilinear (a multiplicação de) iRl" x iRl" H iRl", de modo que ab = Ose e
somente se ou a= O ou b =O . Se você não conhece a notação, iRl" é o conjunto de to-
dos os vetores n-dimensionais cujos componentes são números reais. Mapas bili-
neares são generalizações da lei distributiva em ambas as variáveis - (a+b) c = ac +
bc e a (b + c) = ab + ac. Além disso, como a e b são vetores, um mapa bilinear deve
satisfazer (ra) b = r (ab) e a (rb) = r (ab) para qualquer número real r.
5. Essa é uma excelente oportunidade para fazer propaganda de dois best-sellers de
leitura imensamente prazerosa de Brian Greene, O universo elegante (São Paulo:
Companhia das Letras, 2006 .) e O tecido do cosmo (São Paulo: Companhia das Le-
tras, 2005). A despeito de tudo o que dizem os críticos, esses livros maravilhosos
são trabalhos difíceis - idéias profundas nunca permitem explicações fáceis, e tan-
to a teoria das cordas quanto a gravidade quântica em loop são idéias incrivelmen-
te profundas . Mesmo assim, Greene faz um excelente trabalho sobre a teoria das
cordas no primeiro livro, mas, como ele crê na teoria das cordas, dispensa um es-
paço relativamente curto à gravidade quântica em loop . Para fazer justiça, devo
dizer que a gravidade quântica em loop é inquestionavelmente uma posição mi-
noritária na comunidade dos físicos - mas o direito de uma minoria se tornar maio-
ria não é em lugar algum mais fielmente observado do que na Física.
6. Topologia é o estudo das propriedades das figuras ou sólidos geométricos que não
são mudados por deformações tais como esticamento ou dobramento. O exemplo
clássico é que uma rosquinha é topologicamente equivalente a uma caneca de café,
pois ambos têm precisamente um buraco (você sabe onde ele fica na rosquinha, en-
quanto o buraco na xicara de café se situa onde você põe o dedo enqu anto segura a
xícara) . Se você tivesse um pedaço de argila e abrisse um buraco nele, poderia mol-
dá-lo como um donut (fácil) ou como uma xícara (não tão fácil) esticando e dobran-
do a argila sem qualquer ruptura no material.
7. Veja http ://en.wikipedia.org/wiki/Standard_Model. Trata-se de uma excelente
exposição curta do Modelo Padrão, junto com um belo quadro que coloca a tabela
periódica no chinelo . Você tem de clicar várias vezes no quadro até conseguir uma
resolução que seja legível, mas vale a pena tentar.
8. V eja http://en.wikipedia.org/wiki/Electroweak. Os dois primeiros parágrafos lhe
dão tudo o que você precisa, m as, se você gosta de ficar olhando para equações, há
uma bela janelinha que tem as equações básicas da teoria - se E = mc 2 é a equação
mais impressionante que você já viu, dê uma olhada. Pelo fato de a Wikipédia ser
editada pelo público, a profundidade de tratamento em diferentes seções varia lou-
camente. Não sou físico, mas consigo reconhecer os símbolos e o que as equações

44 Co mo a matemática explica o mundo


estão dizendo, mas não faço idéia de sua procedência nem de como podem ser utili-
zadas.
9. Veja http://en.wikipedia.org/wiki/Big_Bang. Se sites explicativos fossem avaliados
numa escala de 1 a 1O, esse ganh aria um 1O- melhor, impossível. Bons gráficos, ex-
plicações compreensíveis, ótimos links - esse site é tão bom que, se tivesse pop-ups
com anúncios, você nem se importaria.
10. Veja http://en .wikipedia.org/wiki/Steady_State_theory. Esse site não chega nem
perto de ser tão impressionante quanto o outro sobre a teoria do big bang. Não há
gráficos, a explicação é bem superficial, mas isso não chega a surpreender, porque a
teoria do estado estacionário está morta, morta, morta. Imagino que suspiros de alí-
vio tenham sido ouvidos em toda a comunidade astrofísica quando essa teoria bei-
jou a lona, porque a conservação da matéria-energia é um princípio tão fundamen-
tal que você odiaria ter de abandoná-lo.

Os testes da realidade 45
Toé:las as coisas, grandes e pequenas

Glamour versus carne e batatas

A teoria da relatividade é provavelmente o resultado m ais glamouroso da


física do século XX. É ao mesmo tempo bela e profunda, e fez de Albert
Einstein um ícone. Porém, além de mostrar a equivalência entre matéria e
energia, o que abriu caminho para a invenção de armas extremamente
destrutivas e uma tecnologia de energia que é amplamente usada fora dos
Estados Unidos, mas caiu em descrédito nesse país, o que a teoria da rela-
tividade fez pelas pessoas comuns?
A resposta curta é "Não muito". A teoria da relatividade* também en-
volve a gravidade, mas, embora a gravidade seja usada para ligar dínamos
tanto quanto foi usada para mover pás de moinhos de água no passado, é a
eletricidade produzida pelos dínamos que dá energia a nosso mundo, não

*Nota do Revisor Técnico: O autor usa "teoria da relatividade" para se referir tanto à "teoria
da relatividade especial" quanto à "teoria da relatividade geral".

46 Como a matemática explica o mundo


a queda d'água induzida pela gravidade que gira as pás do moinho. De
modo inquestionável, a teoria da relatividade teve um impacto significati-
vo sobre o mundo, mas empalidece em comparação com o impacto causa-
do pelo estudo da física do elétron e do fóton. O entendimento mais pro-
fundo do elétron e do fóton é domínio da Mecânica Quântica. Muitos
grandes físicos contribuíram para a Mecânica Quântica, incluindo Eins-
tein,* mas, nesse ramo da Física, não havia um Isaac Newton esperando
para ser derrubado de seu pedestal. Ainda assim, a Mecânica Quântica
mudou nossa vida, talvez mais do que qualquer outro ramo da Física -
embora a teoria clássica do eletromagnetismo seja uma concorrente à al-
tura. Mas a Mecânica Quântica tem sido muito mais do que uma geradora
de tecnologias; ela mudou e desafiou significativamente nosso entendi-
mento da natureza da realidade.

Qual é o sentido de tudo?


Desde que Pitágoras provou aquele que talvez seja o teorema mais impor-
tante da Matemática, essa disciplina tem tido uma perspectiva bem clara
do que está tentando realizar. Pitágoras sabia, como se sabia desde o tem-
po dos egípcios, que alguns dos triângulos clássicos eram triângulos retos,
tal como o triângulo de lados 3, 4, e 5. Percebendo que 3 2 + 4 2 = 52 , ele
pôde generalizar isso para mostrar que, num triângulo reto, o quadrado da
hipotenusa era igual à soma dos quadrados dos dois lados restantes. Ele ti-
nha consciência do que queria provar e, quando o provou, tinha consciên-
cia do que possuía - um teorema tão importante que, em comemoração,
ordenou que se fizesse um churrasco de cem bois**. Algumas vezes, conto
a meus alunos essa história, revelando também que isso nos dá uma régua
para medir a importância dos teoremas matemáticos. O teorema funda-
mental da Aritmética (de que todo número pode ser unicamente expresso
como um produto de números primos), o teorema fundamental da Álge-

*Nota do Revisor Técnico: Ao contrário do que se pensa, Albert Einstein é certamente um


dos físicos fundadores da Mecânica Quântica, apesar de mais tarde rejeitar sua interpreta-
ção probabilística.
**Nota do Revisor Técnico: Aqui há, certamente, uma brincadeira do autor: Pitágoras era
vegetariano, e tudo o que se sabe é que ele deve ter mandado sacrificar alguns bois em hon-
ra ao teorema.

Todas as coisas, grandes e pequenas 47


bra (de que cada polinômio de grau n com coeficientes reais tem n raízes
complexas) e o teorema fundamental do Cálculo (de que integrais podem
ser calculados via antidiferenciação) são todos t eoremas que valem um
churrasco de sessenta bois, e, para mim, não há outros teoremas que che-
guem perto desses.
Na Física é diferente- especialmente na Mecânica Quântica. Tanto fí-
sicos quanto matemáticos "brincam" com aquilo que têm, numa tentativa
de deduzir resultados novos e interessantes, mas, quando matemáticos
deduzem tal resultado, quase nunca têm de se preocupar com o que ele
significa. Ele é o que é, e o próximo passo é encontrar aplicações do resul-
tado, ou deduzir novas conseqüências dele.
Físicos, por outro lado, devem decidir acerca do significado do resul-
tado - o que a Matemática, de fato, representa no mundo real. A Mecâni-
ca Quântica é uma área tão incrivelmente rica e profunda que físicos ain-
da têm debatido o significado de resultados com quase cem anos de idade.
Niels Bohr, um dos arquitetos da teoria, exprimiu com perfeição esse sen-
timento ao declarar: "Se a Mecânica Quântica ainda não o chocou profun-
damente, isso significa que você ainda não a entendeu." 1

Richard Arens

Meu primeiro emprego como professor me levou à UCLA (University of


California, em Los Angeles) no outono de 1967, poucos anos depois do lan-
çamento do filme "Mary Poppins". Um dos atores coadjuvantes do elenco
era o venerável comediante britânico Ed Wynn, que fez o papel do tio de
Mary Poppins, Albert. Na época em que cheguei à UCLA, um dos mem-
bros seniores do D epartamento de Matemática era Richard Arens, que ti-
nha uma semelhança física incrível com Ed Wynn- era careca, com uma fai-
xa de cabelo nas laterais, e um ar de quem estava sempre se divertindo.
No curso do meu trabalho, tive oportunidade de ler vários artigos es-
critos por Arens. Esses artigos eram um deleite - tinham resultados inte-
ressantes e inesperados, quase que invariavelmente provados de maneira
interessante e inesperada (muitos resultados na Matemática são provados
por técnicas tão bem conhecidas que, tendo lido as primeiras linhas da
prova, você pode dizer a si m esmo algo como "Prova diagonal de Cantor"
- essa era usada para mostrar que o conjunto de todos os nomes infinita-

48 Como a matemática explica o mundo


mente grandes não podem ser combinados um a um com os positivos in-
teiros - e então seguir para a próxima seção).
Em algum estágio de sua impressionante carreira, Arens decidiu que
havia necessidade de o matemático prestar atenção à Mecânica Quântica.
Ele o fez por uns bons anos. Conversei com ele sobre isso, e ele me disse
que a havia estudado intensamente e que, basicamente, não havia chega-
do a lugar algum. Suspeito que "lugar algum" para Richard Arens era bem
mais longe do que é para os outros, mas, de qualquer forma, isso indica a
profundidade e a complexidade que surgem na Mecânica Quântica.

Alguma pergunta?
Por vários anos, fui orientador de graduação no Departamento de Mate-
mática na CSULB ( California State University, em Long Beach). Uma de
minhas atribuições era inspecionar de perto nossos professores associa-
dos, os alunos de doutorado que tinham bolsa da universidade, permitin-
do que dessem aulas das matérias mais básicas. No começo de cada ano,
eu dava uma pequena palestra com o que considerava bons conselhos para
a arte de ensinar. Um dos assuntos era como lidar com as perguntas mais
intrincadas. Eu lhes dizia que, de vez em quando, um de seus estudantes
perguntaria algo que não conseguiriam responder de imediato. Já aconte-
ceu comigo, e suponho que com praticamente todos os outros professores
de Matemática. Eu dizia que, numa situação desse tipo, deveriam dizer:
"Essa é uma questão muito interessante. Deixe-me pensar melhor, e de-
pois dou o retorno." Ao agir assim, eles mostravam respeito, tanto em re-
lação à pergunta como ao perguntador, e eram fiéis àquela que é uma das
missões essenciais de um professor - responder às perguntas da melhor
maneira possível. Algumas vezes, a resposta correta a uma pergunta de-
manda trabalho, e é mais importante dar uma resposta correta depois do
que uma resposta incorreta agora.
Eu gostaria de dar o mesmo conselho aos leitores deste livro- especial-
mente neste capítulo - , mas algumas vezes as respostas simplesmente n ão
são conh ecidas, m esmo pelas melhores mentes da Física, e certamente
não por mim. Então eu pediria alguma indulgência da parte do leitor. O
que a Mecânica Quântica nos mostrou sobre a natureza da realidade e so-
bre as limitações do conhecim ento é realmente fascinante - mas a versão

Todas as coisas, grandes e pequenas 49


final dessa saga está longe de ser escrita, e pode muito bem jamais ser es-
crita. Inquestionavelmente, porém, o que aprendemos por intermédio da
Mecânica Quântica sobre a realidade e sobre a limitação do conhecimen-
to é tão fascinante e atraente que este livro estaria incompleto sem uma
discussão acerca do assunto.

Max planck e a hipótese quântica


Quando o século XIX chegava ao fim, os físicos ao redor do mundo come-
çavam a pensar que sua época já havia passado. Um físico aconselhou seus
estudantes a buscarem novas carreiras, sentindo que o futuro da Física
consistiria na tarefa mundana de medir as constantes físicas do universo
(tal como a velocidade da luz), com níveis cada vez maiores de exatidão.
Mesmo assim, havia (aparentemente) problemas menores que ainda
esperavam uma solução. Uma das questões em aberto se relacionava com o
modo como um objeto emite radiação. Quando o ferro é esquentado em
uma forja, primeiramente brilha num vermelho opaco e, então, num ver-
melho mais brilhante, e depois fica branco; em outras palavras, a cor muda
de maneira consistente, de acordo com a temperatura crescente. A Física
clássica estava tendo problemas para explicar isso. De fato, a teoria mais
bem aceita, a de Rayleigh-Jeans, previa que um objeto ideal, denominado
corpo negro, emitiria uma energia infinita, à medida que o comprimento de
onda caindo sobre ele se tornasse cada vez menor. A luz de comprimento de
onda curto é ultravioleta; o fracasso da teoria de Rayleigh-Jeans em prever
energia finita para um corpo negro sendo irradiado pela exposição à luz ul-
travioleta veio a ser conhecido como a "catástrofe ultravioleta".2
Quando uma teoria científica encontra um obstáculo, muitas coisas
diferentes podem acontecer. A teoria pode superar o obstáculo; com fre-
qüência, isso ocorre quando as ramificações maiores de uma nova teoria
são descobertas. A teoria pode passar por modificações menores; como
acontece com um software, a versão alfa de uma teoria muitas vezes pre-
cisa de pequenos ajustes. Por fim, tendo em vista que qualquer teoria ci-
entífica somente é capaz de explicar um número limitado de fenômenos,
pode ser necessária a criação de uma nova teoria.
A teoria de Rayleigh-Jeans operava de acordo com uma premissa re-
vestida de muito bom senso - a energia podia ser radiada em todas as fre-

50 Como a matemática explica o mundo


qüências. Uma analogia seria considerar a velocidade de um carro - deve-
ria ser capaz de viajar a todas as velocidades, até seu limite teórico. Se um
carro não pode ir além de l 60km/h, por exemplo, deveria ser capaz de an-
dar a 45km/h, ou 60km/h, ou 90,2849km/h. Entretanto, simplesmente
anotar alguns números é enganador, porque todos eles são números racio-
nais. Como aprendemos do capítulo anterior, há uma quantidade incon-
tável de números reais abaixo de 160.
Certo dia, em 1900, o físico Max Planck fez uma suposição bizarra,
numa tentativa de escapar à catástrofe ultravioleta. Em vez de pressupor
que a energia poderia ser irradiada em qualquer freqüência, ele presumiu
que somente um número finito de freqüências era possível, e estes eram
todos múltiplos de alguma freqüência mínima. Continuando a analogia
com a velocidade do carro, a hipótese de Planck seria de que, por exem-
plo, somente velocidades que eram múltiplas de 5 a 3 Skm/h, 60km/h etc.
seriam possíveis. Ele conseguiu mostrar quase imediatamente que essa hi-
pótese contra-intuitiva resolvia o dilema, e as curvas de radiação que ele
obteve ao fazer essa suposição correspondiam àquelas registradas experi-
mentalmente. Naquele dia, enquanto caminhava com seu filho pequeno
depois do almoço, ele disse: "Hoje tive uma idéia tão revolucionária e
grandiosa quanto aquela de Newton."3
Seus colegas, de início, não viram a coisa dessa maneira. Planck era um
físico respeitado, mas a idéia da Quântica - energia existente apenas em
certos níveis - não foi, a princípio, levada a sério. Foi vista como uma espé-
cie de truque matemático que resolvia a catástrofe ultravioleta, mas o fazia
recorrendo a regras às quais o mundo real não obedecia. Desde quando
Isaac Newton fez da Matemática uma parte essencial das descrições dos fe-
nômenos naturais, tem sido em geral mais fácil para um teórico sentar e,
lançando mão de papel e caneta, deduzir conseqüências matemáticas do
que tem sido para um experimentador conceber e pôr em prática um expe-
rimento de sucesso. Conseqüentemente, algumas vezes há a impressão de
que a Matemática é meramente uma linguagem conveniente para descre-
ver os fenômenos, mas que não nos dá um insight intuitivo sobre a natureza
do fenômeno.
A idéia de Planck se arrastou por cinco anos, até que Einstein a usou,
em 1905, para explicar o efeito fotoelétrico. Oito anos mais tarde, Niels
Bohr a utilizou para explicar o espectro do átomo de hidrogênio. Dentro

Todas as coisas, grandes e pequenas 51


de mais vinte anos, Planck ganharia o Prêmio Nobel, e a Mecânica Quân-
tica se tornaria uma das teorias fundamentais da Física, explicando o com-
portamento do mundo dos átomos e tornando possíveis muitas das indús-
trias de alta t ecnologia dos dias de hoje. Com a ascensão dos nazistas, a
ciência alemã sofreu severamente. Muitos dos cientistas de ponta eram ou
judeus ou tinham parentes judeus, e fugiram do país. Muitos outros reagi-
ram com horror ao regime nazista, e também partiram. Planck, embora
condenando os nazistas, resolveu ficar na Alemanha. Essa se revelaria
uma escolha trágica. Em 194 5, o filho mais novo de Planck foi executado
por sua participação na "Revolta dos Coronéis", a tentativa fracassada de
vários membros das Forças Armadas alemãs de assassinar Hitler.

A revolução quântica continua


A idéia revolucionária de Max Planck fez mais do que simplesmente re-
solver a catástrofe ultravioleta. Possivelmente, só outro momento da ciên-
cia abriu um portal para um mundo tão inesperado - quando Anton von
Leeuwenhoek usou seu microscópio primitivo e examinou com ele uma
gota de água, para então descobrir formas de vida jamais imaginadas ou
vistas até então.
A revolução quântica mudou nosso mundo - tecnológica, científica e
filosoficamente. Boa parte da incrível tecnologia que foi desenvolvida
desde a década de 1930 - o computador, os scanners médicos, os lasers,
todas as coisas com um chip dentro- resulta da aplicação da teoria quânti-
ca à compreensão do comportamento do mundo subatômico. A Mecâ-
nica Quântica não apenas gerou ciências que não existiam antes dela, mas
também enriqueceu imensamente algumas das mais veneráveis áreas de
estudo, como a Química e a Física. Por fim, a Mecânica Quântica fomen-
tou descobertas tão profundas que nos fazem refletir sobre a natu reza es-
sencial da realidade, um assunto que tem sido matéria de intenso debate
filosófico há milênios.
Bibliotecas inteiras poderiam ser montadas contendo somente livros
devotados às discussões sobre Mecânica Quântica, de modo que m e dedica-
rei apenas a três dos tópicos mais desconcertantes da Mecânica Quântica:
a dualidade onda/partícula, o princípio da incerteza e o emaranhamento
quântico.

52 Como a matemática explica o mundo


A luz é onda ou partícula?
É provável que nenhuma outra questão na ciência tenha causado maior
controvérsia por um maior período de tempo do que a natureza da luz. Fi-
lósofos gregos e medievais especulavam sobre ela, alternando entre teo-
rias que diziam que a luz era uma substância e outras que diziam que era
uma onda, uma vibração em um meio circundante. Quase dois milênios
depois, Isaac Newton entrou no debate. Newton, quando não estava ocu-
pado com Matemática, Mecânica ou Gravitação, achou tempo para in-
ventar a ciência da Óptica. Como os outros haviam feito, Newton ficou
confuso com a questão da natureza da luz, mas no fim deu seu voto à teo-
ria de que a luz era uma substância.
Todos nós conhecemos as características das substâncias, mas quais são
algumas das características das ondas? Nem todas as ondas se comportam
da mesma maneira. O som, exemplo clássico de uma onda, pode fazer cur-
vas. A luz não pode. Ondas de água, outro tipo óbvio de onda, podem inter-
ferir entre si. Quando duas ondas de água colidem, a onda resultante pode
ser mais forte ou mais fraca do que as ondas originais - mais forte quando as
cristas de ambas as ondas reforçam-se mutuamente, e mais fraca quando as
cristas de uma onda coincidem com os vales da outra.
Tal era o respeito quase universal que sentiam por Newton que pou-
cos esforços foram feitos quer para confirmar quer para negar a teoria da
luz como onda por mais de um século, mesmo que o famoso cientista
Christian Huygens (1629-1695) favorecesse sobremaneira a idéia de que
a luz era fenômeno ondular. O indivíduo que enfim realizou o experi-
mento definitivo foi Thomas Young, um menino-prodígio que era capaz
de ler aos 2 anos e que, na idade adulta, dominava 12 línguas. Além de ser
um menino-prodígio, a sorte havia favorecido Young em outros aspectos,
já que ele nasceu em uma família abastada.
Thomas Young foi um polímata cujas realizações se espalharam por
muitos dos reinos das Ciências, e mesmo para além deles. Ele fez contribui-
ções significativas para a teoria dos materiais; o módulo de Young é ainda
um dos parâmetros fundamentais usados para descrever a elasticidade de
uma substância. Young foi também um egiptólogo notável, e foi o primeiro
indivíduo a fazer progresso na identificação dos hieróglifos egípcios.
D epois de uma performance brilhante como estudante em Cambrid-
ge, Young decidiu estudar M edicina. Ele tinha grande interesse pelas do-

Todas as coisas, grandes e pequenas 53


enças e condições do olho. Construiu uma teoria da visão das cores, obser-
vando que, para ser capaz de enxergar todas as cores, era necessário ape-
nas ser capaz de enxergar o vermelho, o verde e o azul. Enquanto ainda
era estudante de Medicina, descobriu como a forma do olho muda en-
quanto se foca. Logo depois, diagnosticou corretamente a causa do astig-
matismo, um embaçamento visual causado por irregularidades na curva-
tura da córnea.
O fascínio de Young pelo olho levou-o a iniciar investigações sobre a
visão das cores e sobre a natureza da luz. Em 1802, ele executou o experi-
mento que mostraria, de uma vez por todas, que a luz era um fenômeno
ondulatório.

O experimento da dupla fenda


Partículas e ondas se comportam de maneiras diferentes quando passam
através de fendas. Se você imaginar ondas batendo no litoral, bloqueadas
por um cais de pedra com uma abertura estreita, as ondas se espalham
para fora em círculos concêntricos em volta da abertura. Se há duas aber-
turas estreitas razoavelmente próximas uma da outra, as ondas se espa-
lham para fora em círculos concêntricos em volta de cada abertura, mas as
ondas de cada abertura interagem (o termo técnico é "interferem") com as
ondas da outra abertura. Onde as cristas (os pontos mais altos das ondas)
de um conjunto de ondas encontram as cristas de outro conjunto de on-
das, a "éristação" é reforçada. Quando as cristas de um conjunto de ondas
encontram os vales (os pontos mais baixos das ondas) do outro conjunto,
elas t endem à neutralização mútua, diminuindo a amplitude das cristas
onde as cristas encontram os vales.
O comportamento das partículas, ao encontrarem uma coleção se-
melhante de aberturas estreitas, é diferente. Se duas peças retangulares
de papelão estão alinhadas paralelamente uma atrás da outra, uma úni-
ca fenda estreita cortada mais próxima das duas e um spray de tinta é
dirigido à mais próxima, uma única mancha de tinta aparece na peça
mais distante de papelão, diretamente atrás da fenda. As margens da
mancha não são claramente definidas, porém, já que as partículas de
tinta se espalharam a partir do centro, mas diminuíram em d ensidade à
m edida que se afastaram do centro. Corte duas fendas paralelas no pe-

54 Como a matemática explica o mundo


daço mais próximo de papelão e direcione o spray de tinta a ambas, e
manchas similares aparecerão no pedaço mais distante de papelão, di-
retamente atrás das fendas.
Young construiu um experimento que se aproveitava dessa diferença.
Ele cortou duas fendas paralelas em um pedaço de papelão e brilhou uma
luz por entre as fendas, sobre um fundo escurecido. Ele observou bandas
brilhantes de luz alternadas, intercaladas com regiões totalmente escuras.
Essa é a assinatura clássica da interferência de onda. As bandas brilhantes
ocorriam onde os "pontos altos" (as cristas) da luz coincidiam, enquanto
as bandas escuras, onde as cristas de uma onda de luz eram canceladas pe-
los vales da outra onda de luz .

Einstein e o efeito fotoelétrico


O experimento da dupla fenda de Young parecia encerrar a questão rela-
tiva ao fato de a luz ser uma onda ou uma particula - até que Einstein
deu sua contribuição, em seu "ano miraculoso" de 1905. Um dos artigos
que ele escreveu durante esse ano explicava o efeito fotoelétrico. Quan-
do a luz recai sobre um material fotoelétrico, como o selênio, por exem-
plo, a energia na luz é algumas vezes suficiente para jogar elétrons para
fora da superfície do metal. A luz produz eletricidade, portanto o termo
fotoelétrico.
A teoria das ondas da luz previa que, quanto maior era a intensidade
da luz, maior seria a energia dos elétrons emitidos. Num experimento
clássico feito em 1902, Philipp Lenard* mostrou que esse não era o caso, e
que a energia dos elétrons emitidos era independente da intensidade da
luz. Não importava quão forte era a fonte de luz, os elétrons emitidos ti-
nham a mesma energia. Lenard também mostrou que a energia dos elé-
trons emitidos dependia da cor da luz incidente; se fosse usada uma luz de
menor comprimento de onda, a energia dos elétrons emitidos era maior
do que se fosse usada uma luz de comprimento de onda maior. Esse resul-
tado também oferece evidências de como um orientador, e os interesses

*Nota do Revisor Técnico: Philipp Lenard (1865-194 7), alemão, ganhador do Prêmio Nobel
de Física de 1905, por suas pesquisas sobre raios catódicos. Fora de sua atividade científica,
Lenard é lembrado por sua ativa participação no movimento nazista, tendo sido conselheiro
de Hitler e detrator da chamada "física judaica", especialmente de Albert Einstein.

Todas as coisas, grandes e pequenas 55


do orientador, normalmente influenciam a carreira do estudante. O men-
tor de Lenard na University of Heidelberg era Robert Bunsen, que havia
descoberto que os padrões de luz, reconhecidos como faixas de cores dife-
rentes, caracterizavam cada elemento, e podiam ser usados para deduzir a
composição das estrelas. Esse experimento seminal fez com que Lenard
merecesse o Prêmio Nobel em 1905, o mesmo ano em que Einstein expli-
caria as razões por trás dos fenômenos que Lenard viria a descobrir.
Einstein explicou o efeito fotoelétrico invocando a idéia de Planck dos
quanta. Ele presumiu que a luz se comportava como uma coleção de par-
tículas (cada partícula é chamada um "fóton"), com cada fóton carregan-
do uma energia que dependia da freqüência da luz. Quanto menor o com-
primento de onda, maior a energia do fóton associado. Se você gira o bas-
tão com maior velocidade, imporá mais energia à bola de beisebol - con-
tanto que a atinja. Quando os fótons de pouco comprimento de onda (alta
energia) atingem um elétron com energia suficiente para jogá-lo para fora
do metal, aquele elétron adquire mais energia do que quando atingido por
um fóton de maior comprimento de onda (baixa energia) - um home run
de Barry Bonds, *em vez de um home run ajudado pelo vento em Wrigley
Field, feito por um jogador reserva.
A explicação do efeito fotoelétrico deu a Einstein o Prêmio Nobel em
1921. Grandes experimentos, como o de Lenard, ganham Prêmios No-
bel, mas grandes explicações, como a de Einstein, não apenas ganham
Prêmios Nobel, como também entram para a história. Talvez infeliz por
Einstein lhe ter roubado a cena, possivelmente irritado com sua incapaci-
dade para encontrar a explicação para o efeito fotoelétrico que havia des-
coberto (ele poderia ter ultrapassado tanto o marco experimental quanto
o teórico), Lenard menosprezou a teoria da relatividade de Einstein como
"ciência de judeu" e se tornou um defensor ardoroso dos nazistas.

A matéria é onda ou partícula?

Não tenho idéia de qual seja o volume de uma tese de doutorado típica;
estou certo de que varia de acordo com o ramo de ciência. A minha tinha

*Nota do Tradutor: O jogador com o maior número de home runs na história do beisebol
dos Estados Unidos.

56 Co mo a matemática explica o mundo


cerca de setenta páginas datilografadas e continha um número suficiente
de resultados para que eu pudesse publicar três artigos dela - todos eles já
esquecidos há muito . Tenho certeza de que existem outras teses de dou-
torado muito maiores, mesmo no campo da Matemática. Há também as
menores, muito menores. Em 1924, Louis de Broglie escreveu uma tese
bem curta, na qual lançava a nova idéia de que a matéria também poderia
ter qualidades similares às das ondas. O núcleo dessa tese era uma única
equação expressando uma relação simples entre o comprimento de onda
da partícula (obviamente uma propriedade de onda) e seu momento
(uma propriedade de partícula). Em 1927, isso foi experimentalmente
confirmado, e de Broglie recebeu o Prêmio Nobel em 1929.
Para entender um pouco essa notável idéia, imagine que ajustemos o
spray de tinta que descrevemos anteriormente de modo que as partículas
de tinta saiam em linha reta, e bem lentamente - talvez uma única partí-
cula de tinta a cada poucos segundos. Direcionamos esse spray de tinta
para a formação de duplas fendas e, após esperarmos um excruciante pe-
ríodo de tempo, olhamos por trás das fendas para ver como está a peça de
papelão traseira. Sem surpresa alguma, sua aparência é basicamente igual
a quando usamos o spray com o jato máximo-duas manchas de margens
difusas centradas atrás de cada uma das duas fendas. Execute esse mesmo
experimento usando, em vez de spray de tinta, um canhão de elétrons,
disparando elétrons em vez de partículas de tinta (e usando um detector
que registra o impacto de um elétron, iluminando cada pixel no ponto de
impacto), e algo estranho e totalmente inesperado (bom, talvez exceto
para de Broglie) acontecerá. Em vez de vermos duas manchas de luz com
margens difusas, veremos franjas escuras e franjas claras em alternância-
ª assinatura da interferência de onda. A conclusão é inescapável- sob tais
circunstâncias, o elétron se comporta como uma onda. A matéria, como a
luz, algumas vezes se comporta como partícula; outras vezes, como onda.

Decisões divididas: Experimentos com divisores de feixes


Uma série de experimentos intrigantes nessa área são conduzidos com divi-
sores de feixes. Imagine que um fóton comece sua jornada numa das bases
de um campo de beisebol e consiga um duplo, escorregando para a segunda
base. Nesse experimento, entretanto, o fóton pode chegar à segunda base

Todas as coisas, grandes e pequenas 57


pela rota usual-passando pela primeira base, até chegar à segunda - ou por
um caminho que, no beisebol, tiraria o batedor do jogo-, passando pela ter-
ceira base até chegar à segunda. Essa é a versão moderna do experimento da
dupla fenda. Existe um detector de luz atrás da segunda base que registra o
impacto do foton, assim como antes; os caminhos que os fotons podem se-
guir convergem na segunda base, de modo que a interferência de onda, se
existe, pode ser detectada. O divisor de feixes envia o foton por uma de
duas rotas, através da terceira ou da primeira base, e o faz aleatoriamente,
mas com probabilidades iguais de usar qualquer uma das rotas. Nessa varia-
ção, o detector de luz revela os padrões de interferência, assim como fez o
experimento de dupla fenda; os fotons estão agindo como ondas.
Agora, mude o experimento um pouco. Posicione um detector de fo-
tons na área por trás da primeira base (ou da terceira base, não importa).
Um técnico sempre pode saber quando um runner passou por ele - ou se
nenhum runner passou por ele. Da mesma forma, um detector de fotons
pode determinar se um foton passou ou não. Isso tem um efeito decisivo
sobre o padrão de luz atrás da segunda base; ele agora é composto de duas
faixas de luz, indicando que os fotons se comportaram como partículas.

Como os fótons sabem?


Quando observados (por um detector de fotons) os fotons se comportam
1

como partículas. Quando não-observados (quando não há detector de fo-


tons) os fótons se comportam como ondas. Isso é bem estranho - como
1

é que um fóton sabe se está sendo observado ou não? Esse é um dos enig-
mas que estão no centro da Mecânica Quântica, e que aparece sob dife-
rentes roupagens.
A estranheza aumenta ainda mais. Na década de 1970, John Wheeler
propôs um experimento brilhante, conhecido como o experimento da es-
colha retardada. Posicione um detector de fótons bem longe da "última
base", e equipe-o com um interruptor que liga e desliga. Se o detector de
fotons está ligado, os fotons se comportam como partículas; se está desli-
gado, os fótons se comportam como ondas. Isto é, essencialmente, uma
combinação dos dois experimentos anteriores.
A sugestão de Wheeler foi ligar ou desligar o detector de fotons depois
de o foton ter deixado a última base. Isso é conhecido como o experimen-

58 Como a matemática explica o mundo


to da escolha retardada, porque a escolha de ligar ou desligar o detector é
retardada até que o fóton tenha, presumivelmente, cumprido sua escolha
entre se comportar como partícula ou como onda. Parece haver duas pos-
sibilidades - o comportamento do fóton é determinado no instante em
que deixa a última base (mas, se for assim, como ele sabe se o detector está
ligado ou desligado?), ou o comportamento do fóton é determinado pelo
estado final do detector de fótons. Se a última hipótese for a correta
ecomo, de modo conclusivo, demonstrou-se pelos experimentos), o fóton
deve simultaneamente estar em ambos os estados quando deixa a última
base, ou está num estado ambíguo que é resolvido ou quando passa pelo
detector de fótons e aprende que está sendo observado, ou chega à segun-
da base sem ter sido observado.
Como foi previamente mencionado, a descrição matemática do fenôme-
no quântico é feita por meio da probabilidade. Um elétron, antes de ser obser-
vado, não tem uma posição definida no espaço; sua localização é definida por
uma onda de probabilidade, que dá a probabilidade de que o elétron esteja
localizado em certa porção do espaço. Antes de ser observado, o elétron está
em todo lugar- embora seja mais provável que esteja em alguns lugares do
que em outros. Além disso, ao se deslocar, usa todas as rotas possíveis dispo-
níveis para tanto~ Entretanto, o processo de observação "colapsa" a função de
onda, de modo que o elétron não pode mais estar em todos os lugares, e, em
vez disso, permanece em algum lugar específico. A observação também que-
bra a capacidade do elétron de ir daqui pra lá por todas as rotas possíveis e, em
vez disso, seleciona uma dentre as zilhões de rotas possíveis.
Wheeler também propôs que a natureza podia ilustrar o quanto a Me-
câníca Quântica é contra-intuitiva, por meio de um experimento grandio-
so de escolha retardada. Em vez de um divisor de feixes em um laborató-
rio, um quasar a bilhões de anos-luz de distância, agindo como lente gravi-
tacional, faria o que o divisor de feixes faz - p errníte que o fóton venha à
Terra por um de dois carnínhos diferentes. Esses caminhos poderiam ser
focados no espaço; se nenhum detector de fótons fosse posicionado nesses
caminhos, resultaria num padrão de interferência, e se houvesse detecto-
res de fótons colocados, os fótons agiriam como partículas. O aspecto
contra-intuitivo é que o fóton, bilhões de anos atrás, quando passava pela
lent e gravitacional, parece ter tomado a "decisão" de agir como onda ou
partícula. Experimentos demonstraram que essa decisão não é tomada

Todas as coisas, grandes e pequenas 59


pelo fóton, mas sim pelo universo - se uma observação é feita, o fóton age
como partícula; caso contrário, age como onda.

Ondas de probabilidade e observações: Um exemplo humano


Embora possa parecer misteriosa a idéia de ondas de probabilidade e ob-
servações que as colapsam, há um análogo simples que ocorre anualmente
em todas as universidades do país. Muitos estudantes entram como gra-
duandos não-declarados- incertos de onde está seu futuro, se na bioquí-
mica, nos negócios ou em outra área qualquer. Como resultado, freqüen-
tam vários cursos, encorajados p ela política geral e pedagógica da univer-
sidade, que requer que os alunos freqüentem cursos em uma variedade de
disciplinas. Esses estudantes são como ondas de probabilidade; suas espe-
cialidades ainda não-selecionadas são um amálgama probabilístico de bio-
química, negócios e várias alternativas.
Em algum momento, porém, o estudante deverá escolher uma espe-
cialização, o que normalmente é feito depois de uma conversa com um
orientador que apresenta ao aluno as opções disponíveis, os requisitos das
várias especializações e os caminhos de carreira que cada uma delas abre
(no caso de o aluno ainda não saber), e o estudante faz sua escolha. Essa
escolha colapsa a onda de probabilidade, e o estudante agora é um gra-
duando declarado.

Você não é ninguém antes de ser observado


Uma canção popular da década de 1950 foi "You're Nobody 'Till Some-
body Loves You" (''Você não é ninguém antes de ser amado"), de Dean
Martin. Na Mecânica Quântica, você é apenas uma onda de probabilidade
até ser observado por alguém, ou por algo. O que constitui uma observação
no universo físico e quando ela se dá? Uma visão amplamente aceita naco-
munidade da Física é a de que uma observação consiste em uma interação
com o universo. Nossa noção intuitiva de realidade - de que as coisas têm
estados e atributos definidos - entra em colisão com o mundo apresentado
pela Mecânica Quântica, no qual as coisas têm uma mistura probabilística
de estados e atributos, e somente a interação com o universo pode criar
uma realidade do que era inicialmente apenas uma possibilidade.

60 Como a matemática explica o mundo


O gato de Schrodinger
Erwin Schrodinger* lançou um modo tremendamente provocativo de vi-
suahzar a esquisitice inerente ao comportamento quântico . Ele imaginou
uma caixa contendo um gato, um frasco de gás venenoso e um átomo ra-
dioativo, que tem uma probabilidade de 50% de decair na próxima hora.
Se decair, coloca em funcionamento um mecanismo que libera o gás ve-
nenoso, matando o gato (parece provável que Schrodinger não tenha tido
um gato** -embora ele possa ter tido um que dava mais problemas do que
prazer). Uma hora se passa. Em qual estado está o gato?4
A resposta convencional à pergunta é que o gato está morto ou vivo, e
descobriremos quando abrirmos a caixa. A Mecânica Quântica responde
a esta questão dizendo que o gato está meio morto e meio vivo (ou que
não está nem uma coisa nem outra) - e a resposta será conhecida quando a
caixa for aberta, e a observação colapsar a função de onda.
Não importa quão contra-intuitivo o gato meio-morto, meio-vivo
possa ser, essa é a interpretação que a Mecânica Quântica dá - e como po-
demos refutá-la? Sem uma observação (que não necessariamente consiste
em examinar o gato, mas simplesmente em obter informações sobre o es-
tado do átomo radioativo cuja decadência determina o resultado), como
poderemos saber? Aquele seu vizinho recluso, que você quase nunca vê,
poderia estar num estado meio-morto, meio-vivo, o que somente é deter-
minado quando ele interage de algum modo com o mundo? Não faz mui-
to tempo, um homem foi encontrado em um estado mumificado em fren-
te a um aparelho de televisão - ele morreu e ficou lá (com a televisão liga-
da) por 13 meses, antes que alguém tivesse a idéia de ver como ele estava.
Como método computacional, a Mecânica Quântica provavelmente
é o mais exato na Física- confirmado em mais casas decimais do que há dí-
gitos (incluindo os centavos) na dívida americana. A alguns físicos parece
que isso é tudo o que a Física pode fazer- prover regras de cálculo que nos
permitem construir computadores e aparelhos de ressonância magnética.
Um número bem maior de físicos pensa que isso nos diz algo profundo e

*Nota do Revisor Técnico : Erwin Schrodinger (1887-1961) , austríaco, ganhador do Prêmio


Nobel de 1933, e um dos fundadores da Mecânica Quântica.
**Nota do Revisor Técnico: No original, Schrodinger se refere a "uma gata", o que estaria de
acordo com sua fama de galanteador.

Todas as coisas, grandes e pequenas 61


importante sobre a realidade - mas a comunidade da Física ainda não che-
gou a um consenso sobre o que seja a realidade, e se eles não conseguem,
será difícil nós conseguirmos.

Apagadores quânticos
A idéia de que fótons e elétrons são ondas de probabilidade até que sejam
observados, momento em que viram objetos, tem sido o assunto de inú-
meros experimentos. Um tipo especialmente engenhoso de experimento
é o do apagador quântico, concebido inicialmente por Marlon Scully e Kai
Druhl em 2000. Voltando à versão "beisebolística" do arranjo, imagine
que, quando um fóton passa por um dos técnicos, o técnico lhe dá um tapa
nas costas (não muito diferente de um técnico de beisebol real), colando
um rótulo identificador que nos habilita a saber qual rota o fóton usa. Quan-
do isso acontece, claramente dá-se uma observação, e o fóton age como
partícula - o padrão no detector atrás da segunda base são as já conhecidas
duas manchas que caracterizam as partículas.
Agora suponha que, de algum modo, assim como os fótons rotulados
chegam à segunda base, os rótulos são removidos (por mais exótica que
possa parecer essa rotulação e desrotulação de fótons, há um meio de fa-
zer isto, mas os detalhes não importam para esta discussão). Deixa de ha-
ver então evidência da rotulação - os rótulos foram apagados (daí o termo
apagador quântico) . Não havendo evidência de qual caminho os fótons
usaram para chegar à segunda base, o padrão de interferência reemerge.
Bizarro? Sem dúvida. Surpreendente? Não. Esse foi exatamente ore-
sultado previsto por Scully e Druhl. Entendemos o que a Mecânica Quân-
tica está nos dizendo: que fótons e elétrons são ondas de probabilidade até
que interajam com o universo, e então viram partículas. Se não podemos
determinar se eles de fato interagiram com o universo - e é isso que o apa-
gamento quântico realiza-, eles são ondas de probabilidade. Dentre as
coisas que jamais poderemos conhecer é o porquê de isso ser assim, e se
poderia ser de outra maneira. Este é um dos objetivos de longo prazo da
Física: dizer-nos não só como é o universo, mas por que este é o único uni-
verso possível - ou se poderia ser de alguma outra forma.
É uma medida de quão longe chegamos, tecnologicamente falando,
que a edição de maio de 2007 da Scientific American contenha um artigo

62 Como a matemática explica o mundo


sobre como construir o próprio apagador quântico. 5 Não parece muito
complicado - mas, toda vez que tento montar alguma coisa, parece que
sempre sobram peças em minhas mãos (por que raios os fabricantes nunca
enviam o número exato de partes?). Lembro de ler um artigo sobre como,
pouco antes do teste da primeira bomba atômica, os físicos preocupa-
vam-se com a possibilidade de a explosão criar um estado ultradenso de
matéria, conhecido como matéria Lee-Wick, cujo surgimento poderia (ao
menos teoricamente) resultar na destruição do universo. Eles se conven-
ceram de que, se isso pudesse acontecer, já teria acontecido em algum lu-
gar do universo. No entanto, eles não incluíram em seus cálculos minha
tentativa de ajuda (eu só tinha 4 anos naquela época), então acho que vou
deixar a construção de apagadores quânticos caseiros para aqueles que
têm uma comprovada habilidade mecânica.

O princípio da incerteza
Alguns ramos da Matemática, como, por exemplo, a Geometria, são alta-
mente visuais; outros, como a Álgebra, são altamente simbólicos, embora
muitos resultados importantes tenham sido obtidos ao se olhar geometri-
camente para problemas algébricos ou algebricamente para problemas
geométricos. Todavia, a maioria das pessoas tem uma preferência por
olhar as coisas de uma maneira ou de outra. Einstein tinha um belo jeito
de expressar isso: em seus últimos anos, ele observou que pouquíssimas
vezes pensara na Física usando palavras. É possível que ele visse figuras;
talvez até mesmo relações entre conceitos. Fico maravilhado com essa fa-
cilidade - embora algumas vezes pense em t ermos de figuras, elas são qua-
se sempre derivadas das palavras que as descrevem .
À medida que a Física investigava cada vez mais a fundo o mundo su-
batômico nas primeiras décadas do século XX, tornou-se cada vez mais
difícil visualizar os fenômenos estudados. Como resultado disso, alguns
físicos - incluindo Werner Heisenberg* - preferiam tratar o mundo suba-
tômico somente por representações simbólicas.

*Nota do Revisor Técnico: W erner H eisenberg (1901-1976), alem ão, ganhador do Prêmio
Nobel de Física em 1932, por su as contribuições à Mecânica Quântica.

Todas as coisas, grandes e pequenas 63


O Heisenberg que atacou esse complexo problema era um Heisenberg
muito diferente daquele que, no fim da Primeira Guerra Mundial, era um
"street-fighting man", *engajado em intensas batalhas contra os comunistas
nas ruas de Munique, após o colapso do governo alemão que se seguiu ao
fim da guerra. Heisenberg era só um adolescente na época e, depois do final
da fase rebelde, ele mudou seu foco da política para a Física, revelando um
talento tão grande que se tomou um dos assistentes de Niels Bohr. Assim,
Heisenberg ganhou grande famiharidade com o modelo "sistema solar" do
átomo, de Bohr, no qual os elétrons eram vistos como orbitando o núcleo
da mesma maneira que planetas orbitam o Sol. Naquela época, o modelo
de Bohr encontrava certas dificuldades teóricas, e vários físicos se dedica-
vam à sua resolução. Um deles era Erwin Schrodinger, que já conhecemos.
A solução de Schrodinger implicava tratar o mundo subatômico como
composto de ondas, em vez de partículas. Heisenberg adotou uma aborda-
gem diferente. Ele concebeu um sistema matemático composto por obje-
tos chamados matrizes (uma matriz é como uma planilha - uma formação
retangular de números dispostos em fileiras e colunas) que podiam ser ma-
nipuladas de maneira tal a gerar resultados experimentais conhecidos. As
abordagens de Schrodinger e H eisenberg funcionavam, no sentido de que
davam conta de mais fenômenos do que o modelo atômico de Bohr. Na
verdade, mais tarde mostrou-se que ambas as teorias eram equivalentes, ge-
rando os m esmos resultados com o uso de diferentes idéias.
Em 1927, Heisenberg estava prestes a fazer a descoberta que não só
lhe daria um Prêmio Nobel, como também mudaria para sempre o pano-
rama filosófico . Lembre-se de que, no final do século XVIII, o matemáti-
co francês Pierre Laplace enunciou a quintessência do determinismo cien-
tífico, afirmando que, ao saber a posição e o momento de cada objeto do
universo, seria possível calcular exatamente onde cada objeto estaria em
todos os instantes futuros. O princípio da incerteza de Heisenberg6 decla-
ra que tanto é impossível saber exatamente onde qual.quer coisa está quan-
to para onde está indo em qualquer instante determinado.
Essas dificuldades, na verdade, não se manifestam no mundo macros-
cópico - se alguém joga uma bola de neve em sua direção, você normal-
mente consegue prever a posição futura da bola de neve e, quem sabe,

*Nota do Tradutor: Referência à musica de m esmo nome, dos Rolling Stones.

64 Como a matemática explica o mundo


manobrar para sair da frente dela. Por outro lado, se tanto você quanto a
bola de neve forem do tamanho de elétrons, você terá problemas em des-
cobrir para que lado se mover, pois não vai saber para onde está indo a
bola de neve .
Podemos entender algo da idéia subjacente no princípio da incerteza
de Heisenberg olhando para um acontecimento cotidiano - a compra de
gasolina em um posto. O custo da transação consiste em um número de dó-
lares e centavos - o centavo é o quantum de nosso sistema monetário, a
menor unidade irredutível da moeda. O custo da transação é calculado até
o centavo mais próximo, e isso torna impossível para nós determinar com
precisão quanta gasolina foi de fato comprada, mesmo que saibamos o
preço exato do galão (3,78 litros).
Se o galão da gasolina custa US$2 (como nos velhos tempos, nos Esta-
dos Unidos), arredondar o custo da compra em US$0,0l pode resultar
numa diferença de 1/200 de galão (sim, ao adotar uma regra razoável para
o arredondamento, você pode cortar isso para metade de 1/200 de galão,
mas os medidores do posto provavelmente arredondam uma compra de
$12,5300001 para $12,54). Se você começar a dirigir a partir de uma po-
sição determinada numa estrada reta e seu carro render 48km por galão,
1/200 de um galão de gasolina renderá 0,24 quilômetro - 241 metros .
Então o fato de que o custo é calculado em centavos resulta numa incerte-
za posicional de 241 metros. Lembro da primeira vez em que dirigi um
carro próprio, no verão de 1961; eu costumava deixar duas moedas de
US$0,25 no porta-luvas, para comprar gasolina em caso de emergência. A
gasolina custava cerca de US$0,25 o galão naquela época- a 48 quilôme-
tros por galão, o custo calculado em centavos resultará numa incerteza
posicional de cerca de 1,9 quilômetro. Quanto menor o custo da gasolina,
maior a incerteza posicional. De fato, se a gasolina fosse de graça, você não
teria de pagar nada - e então não teria idéia da situação do carro .
O princípio da incerteza opera de acordo com linhas parecidas. Ele
declara que o produto das incertezas de duas variáveis relacionadas, cha-
madas variáveis conjugadas, deve ser maior do que alguma quantidade
fixa predeterminada. Possivelmente as variáveis conjugadas mais conhe-
cidas sejam a duração de uma nota musical e sua freqüência - quanto mais
tempo a nota for sustentada, com mais exatidão poderemos determinar
sua freqüência. Uma nota tocada por um periodo infinitesimalmente pe-

Todas as coisas, grandes e pequenas 65


queno de tempo tem simplesmente o som de um clique; é impossível de-
terminar sua freqüência.
No entanto, o detalhe problemático do princípio da incerteza é o fato
de que a posição e o momento (momento é o produto de massa e veloci-
dade) são variáveis conjugadas. Quanto mais acuradamente pudermos
definir a posição de uma partícula, menos informações teremos sobre seu
momento - e se pudermos determinar seu momento com um alto grau de
exatidão, teremos somente uma noção limitada de onde a partícula está.
Como o momento é o produto de massa e velocidade, uma quantidade
microscópica de momento que resultaria numa velocidade quase nula no
caso de um automóvel resulta numa grande velocidade no caso de um elé-
tron. O princípio da incerteza de Heisenberg é por vezes erroneamente
interpretado como uma incapacidade, da parte dos seres humanos falíveis,
de medir fenômenos com exatidão suficiente. Em vez disso, é uma decla-
ração sobre as limitações do conhecimento, e uma conseqüência direta da
visão que a Mecânica Quântica tem do mundo. Como parte fundamental
da M ecânica Quântica, o princípio da incerteza tem ramificações no
mundo real para a construção de itens do dia-a-dia, tais como lasers e
computadores. Ele também baniu a simples perspectiva de causa e efeito
do universo, que se mantivera sem questionamentos desde a sua primeira
enunciação pelos filósofos gregos . H eisenberg formulou uma das conse-
qüências do princípio da incerteza do seguinte modo:

"Não é de surpreender que nossa linguagem seja incapaz de descrever


os processos que ocorrem nos átomos, pois, como já observado, ela foi
criada para descrever as experiências da vida cotidiana, e estas se com-
põem somente de processos que envolvem um número excessiva-
mente grande de átomos. Além disso~ é muito difícil modificar nossa
linguagem de modo que ela seja capaz de descrever os processos atô-
micos, pois as palavras podem descrever apenas coisas das quais pode-
mos formar imagens mentais, e essa habilidade, também, é resultado
da experiência cotidiana .. . Nos experimentos sobre eventos atômicos,
temos de lidar com coisas e fatos, com fenômenos que são tão reais
quanto qualquer fenômeno da vida diária. Mas os próprios átomos ou
partículas elementares não são tão reais; eles formam um mundo de
potencialidades ou possibilidades, e não um mundo de coisas ou fa-
tos ... Átomos não são coisas. "7

66 Como a matemática explica o mundo


Se átomos não são coisas, o que são então? Mais de 75 anos depois
da revelação de Heisenberg, físicos - e filósofos - ainda lutam com essa
questão. A resposta que achamos anteriormente, de que átomos são
ondas de probabilidade até que sejam observados e, depois disso, coi-
sas, não é inteiramente satisfatória, mas é o melhor que podemos fazer
até agora.

Uma pesquisa em Lower Wobegon


O entrelaçamento, o último dos três enigmas da Mecânica Quântica que
investigaremos, pode ser traduzido para um exemplo familiar. Lower
Wobegon, uma cidade localizada logo abaixo do Lago Wobegon,8 difere
do Lago Wobegon não apenas no sentido de que lá todas as crianças são só
medianas: a cidade como um todo também é - tão mediana que, toda vez
que indagados sobre um assunto qualquer, como, por exemplo, "Você
gosta de aspargo?", 50% dos entrevistados respondem sim, enquanto os
outros 50% respondem não.
Certo dia, uma empresa de pesquisas decidiu coletar amostras das
opiniões dos casais de Lower Wobegon. A questão 1 era "Você gosta de
aspargo?", a questão 2 era "Você acha que Michael Jordan foi o maior jo-
gador de basquete de todos os tempos? " e a questão 3 era "Você acha que
nosso país está caminhando na direção certa?".
Dois pesquisadores foram a cada uma das casas. Um pesquisador per-
guntava só uma das três questões ao marido, enquanto o outro perguntava
só uma das três questões à mulher - cada pesquisador selecionando alea-
toriamente as questões. Às vezes, as questões feitas ao marido e à mulher
eram idênticas; outras vezes, diferentes. Quando os resultados foram ta-
bulados, viu-se que 50% das questões obtinham resposta positiva e 50%,
resposta negativa, mas havia algo notável- quando marido e mulher eram
indagados sobre a mesma questão, sempre respondiam de modo idêntico1
Coçando a cabeça, os pesquisadores tentaram chegar a uma explicação
para essa ocorrência bizarra. Por fim, ocorreu a alguém que talvez os mari-
dos e as esposas tivessem ensaiado as respostas previamente. Mesmo em-
bora as questões não fossem conhecidas, eles poderiam ter formulado
uma regra tal como: se a questão contiver a palavra foi, responda sim; caso
contrário, responda não.

Todas as coisas, grandes e pequenas 67


Há alguma maneira de testar essa hipótese? Surpreendentemente,
isto pode ser feito. Se cada casal formulou uma regra de respostas às ques-
tões, existem somente quatro possibilidades distintas - dependendo das
três questões, a regra pode resultar em três sins, ou três nãos, ou dois sins e
um não, ou dois nãos e um sim.
Vejamos as respostas de marido e mulher às perguntas que lhes fo-
ram feitas - mesmo que lhes tenham sido feitas perguntas diferentes (é
claro, já sabemos que, se foram indagados sobre a mesma questão, res-
ponderam de forma idêntica). Existem nove maneiras diferentes para
os pesquisadores fazerem as três perguntas. Se a regra que marido e
mulher adotam resulta em três sins ou três nãos, marido e mulher sem-
pre responderão às perguntas de maneira idêntica. Se a regra usada
pelo casal resultar em dois sins e um não, suponhamos que a resposta às
perguntas 1 e 2 seja sim e à pergunta 3 seja não. A tabela a seguir lista
todas as possibilidades.

Pergunta Resposta Pergunta Resposta


ao Marido do Marido à Mulher da Mulher

Sim Sim
Sim 2 Sim
Sim 3 Não
2 Sim l Sim
2 Sim 2 Sim
2 Sim 3 Não
3 Não Sim
3 Não 2 Sim
3 Não 3 Não

Observe que, em cinco de nove dos casos (fileiras 1, 2, 4, 5, e 9 da ta-


bela), as respostas de marido e mulher são correspondentes. Quando are-
gra para responder às perguntas produz dois sins e um não, ou dois nãos e
um sim, as respostas corresponderão em cinco de nove casos. Quando a
regra para responder às perguntas produz três sins, ou três nãos, as respos-
tas serão sempre correspondentes. Então, se os maridos e mulheres desen-

68 Como a matemática explica o mundo


volveram uma regra para responder às perguntas, isso aparecerá nos dados,
porque, quando os pesquisadores vão às casas e fazem as perguntas a cada
cônjuge aleatoriamente, marido e mulher darão a mesma resposta pelo menos
cinco vezes em cada nove.
Convencidos de que haviam chegado à solução do mistério, os pesqui-
sadores examinaram os dados. Surpreendentemente, as respostas de ma-
rido e mulher eram idênticas aproximadamente na metade das vezes . Os
pesquisadores concluíram que maridos e mulheres não haviam desenvol-
vido uma regra de resposta às perguntas, mas ainda havia um mistério res-
tante: por que, quando indagados sobre a mesma questão, marido e mu-
lher sempre davam a mesma resposta?
Simples, concluiu um pesquisador: quando o primeiro cônjuge era
perguntado, ele ou ela dizia ao outro qual questão havia sido feita, e qual
fora sua resposta; então, quando o segundo cônjuge era indagado sobre a
mesma questão, ele ou ela poderia responder de modo idêntico . A solução
era simples - impedir a comunicação entre os cônjuges . Essas precauções
e
foram tomadas - cada cônjuge era discretamente) revistado em busca de
aparatos de comunicação e questionados em cômodos separados. Ainda
assim, quando a cada um foi feita a mesma pergunta, a resposta dada por
cada cônjuge era a mesma!
O que poderia explicar esse fato? Há duas possibilidades que parecem
requerer a crença em fenômenos que atualmente não são abordados pela
ciência. A primeira possibilidade é a de que marido e mulher têm uma es-
pécie de intuição - não um meio explícito de comunicação, mas um co-
nhecimento de como o outro responderia à questão . Afinal, muitos côn-
juges t êm a habilidade de completar as frases de seu parceiro .9 A segunda
possibilidade é a de que o casamento de fato seja, mais do que uma mera
união, uma fusão; marido e mulher são, nessa situação, um. Vemos os dois
como indivíduos distintos, mas, no que concerne às questões feitas por
pesquisadores de opinião, eles constituem uma única entidade - pergun-
tar algo a um é o mesmo que perguntar algo ao outro. Isso difere da idéia
de "intuição", no sentido de que, no caso da intuição, marido e mulher são
entidades individuais que respondem de forma idêntica às perguntas por-
que sabem como o outro as responderia. Uma diferença sutil, mas ainda
assim uma diferença.

Todas as coisas, grandes e pequenas 69


Emaranhamento e o experimento de Einstein, Podolsky e Rosen

Muitas propriedades da Mecânica Quântica são parecidas com o dilema


onda-particula engendrado pelos fótons - até que uma observação ou me-
dição seja feita, a propriedade existe em uma superposição de várias possi-
bilidades diferentes. Uma dessas propriedades é a rotação em torno de um
eixo.* Um fóton pode girar para a esquerda ou para a direita em volta de um
eixo, uma vez que aquele eixo é selecionado e o fóton observado, mas terá
um spin para a esquerda 50% das vezes e, para a direita, outros 50% das ve-
zes, e fará isso de modo aleatório. Isto é claramente similar às respostas às
perguntas da pesquisa de opinião com os habitantes de Lower W obegon.
Quando um átomo de cálcio absorve energia e, mais tarde, volta ao es-
tado inicial, emite dois fótons cujas propriedades têm um paralelo com as
respostas da pesquisa com maridos e mulheres em Lower Wobegon.
Diz-se que os fótons estão emaranhados- o resultado da medição do spin
de um fóton automaticamente determina o resultado da medição do spin do
outro fóton, muito embora, inicialmente, nenhum fóton possua spin defi-
nido, mas apenas uma onda de probabilidade que deixa espaço igual para
spins à esquerda ou à direita. Pelo menos, esse é um ponto de vista ampla-
mente aceito pelos físicos. Albert Einstein ficava extremamente inquieto
diante dessa perspectiva, e então, junto com os físicos Boris Podolsky e
Nathan Rosen, desenvolveu um experimento hipotético, conhecido
como o experimento EPR, 1º que desafia aquela idéia. Einstein, Podolsky,
e Rosen faziam objeção à idéia de que, antes das medições, nenhum spin é
conhecido.** Suponha que dois grupos de experimentadores, anos-luz
distantes um do outro, decidissem medir os spins desses fótons. Se o spin
do fóton A é medido e, segundos depois, o spin do fóton B é medido, a
Mecânica Quântica prevê que o foton B "saberia" o resultado da medição
do spin do foton A, mesmo não havendo tempo suficiente para que um si-

•Nota do Revisor Técnico: Na Mecânica Quântica não faz sentido dizer que uma partícula
"gira" em torno de um eixo, esta é apenas uma imagem para se estabelecer uma analogia
com algo mais familiar. Essa propriedade é o chamado spin da partícula, termo inglês usa-
do internacionalmente.
•• Nota do Revisor Técnico: Essa versão do experimento EPR é devida a David Bohm
(1917-1992), americano; foi professor na Universidade de Princeton, mas devido a liga-
ções com comunistas, foi p erseguido e não teve sua posição renovada, indo para a USP, en-
tre 1951 e 1955 .

70 Como a matemática explica o mundo


tonem volta de mais de um eixo. Essa situação é paralela à de Lower Wobe-
gon também - cada pesquisador fez somente uma pergunta.
Bell concebeu isso como um experimento hipotético, para testar se a
hipótese de os fótons t erem um programa oculto gravado em ambos,
como fora sugerido por Einstein, Podolsky e Rosen, era válida. Se esse fos-
se o caso, os dois fótons t eriam o mesmo spin mais do que 5/9 do tempo.
Dentro de uns poucos anos, milhares de tentativas do experimento de Bell
foram executadas - e os detectores não registraram a mesma direção de spin
dos fótons mais do que metade das vezes. Isso representava uma prova ine-
gável de que não havia uma programação oculta gravada nos fótons.
Haveria outra solução possível? Com a explicação das variáveis ocul-
tas posta fora de jogo, a próxima possibilidade mais plausível era a de que,
de algum modo, os fotons podiam se comunicar. No instante em que o spin
do primeiro fóton era registrado, ele enviava uma mensagem para o outro
foton, algo como "alguém acaba de medir meu spin em volta do Eixo 1, e
eu girei para a esquerda".
A t eoria da relatividade não faz restrições à existência de mecanismos
de sinalização, mas requer que nenhum sinal possa ser enviado a uma ve-
locidade maior que a da luz. No inicio da década de 1980, avanços na tec-
nologia permitiram que uma versão mais sofisticada desse experimento
fosse executada. Nesse experimento, o equipamento detector para os dois
fótons era colocado a uma distância significativa, e se instalava um dispo-
sitivo randomizador, que selecionaria o eixo para o segundo foton depois
de o spin do primeiro fotonjá ter sido medido. O que tornou esse experi-
mento tão interessante foi que um novo expediente foi adicionado: agora,
a tecnologia era tão boa que o eixo para o segundo foton podia ser selecio-
nado em um período menor de tempo do que levaria para que um raio de
luz pudesse passar do primeiro detector para o segundo. O primeiro fóton
a ser medido podia, portanto, enviar um sinal para o outro foton, mas este
não poderia ser recebido a tempo para que o segundo foton agisse de acor-
do com o sinal- o spin do segundo foton era medido antes que um sinal via-
jando na velocidade da luz, oriundo do primeiro fóton, pudesse alcan-
çá-lo. Os resultados desse experimento foram obtidos num laboratório por
Alain Aspect 11 em 1982, com a distância entre os detectores medida em
metros. A distância de separação foi elevada para l lkm no fim da década
de 1990, mas os resultados foram idênticos. Se o mesmo eixo fosse esco-

72 Como a matemática explica o mundo


nal do fóton A alcançasse o fóton B, e informasse o fóton B de como deve
ser seu spin~
De acordo com Einstein, duas escolhas restavam. Era possível aceitar a
chamada interpretação de Copenhagen da Mecânica Quântica, que se deve
primariamente a Niels Bohr, no sentido de que o fóton B sabe o que aconte-
ceu ao fóton A mesmo sem que uma comunicação ocorra entre eles. Essa
possibilidade, correspondendo à "intuição" em Lower Wobegon, é sem dú-
vida o motivo pelo qual a Mecânica Quântica parece abrir caminho para o
misticismo no mundo real. Afinal, o que poderia ser mais místico do que o
conhecimento do que ocorre com outro corpo, sem que haja uma transmis-
são mensurável de informação? Alternativamente, poder-se-ia acreditar
que existe uma realidade mais profunda, manifestada em alguma pro-
priedade física ainda não encontrada nem medida, que explicaria esse fe-
nômeno - isso corresponde às "respostas ensaiadas" em Lower Wobegon.
Einstein morreu ainda firmemente apegado a esse segundo ponto de vista,
que é conhecido na comunidade da Física como "variáveis ocultas".

O teorema de Bell

Mais de uma centena de artigos foi escrita entre 1935 e 1964 discutindo os
prós e os contras da hipótese das variáveis ocultas, mas eram apenas discus-
sões e argumentos - até que o físico irlandês John Bell veio com um experi-
mento altamente engenhoso, que colocaria verdadeiramente em teste ateo-
ria das variáveis ocultas. Bell sugeriu que o experimento deveria ser com-
posto por um aparato que pudesse medir o spin de cada fóton em volta de
um entre três eixos. O eixo para cada fóton seria escolhido aleatoriamente,
e os spins dos dois fótons, registrados. Essas medições seriam registradas
como pares: o par (2, E) indica que o eixo 2 foi selecionado para medição e
que o fóton possuía um spin para o lado esquerdo em volta desse eixo.
Suponha que os dois fótons entrelaçados sejam, cada qual, gravados com
a seguinte programação: se o eixo 1 ou o eixo 2 for selecionado, gire para a es-
querda; se o eixo 3 for selecionado, gire para a direita. Supondo que o eixo
para cada fóton seja selecionado aleatoriamente, há nove escolhas possíveis
de eixos, assim como havia nove escolhas possíveis de questões para os dois
pesquisadores em Lower Wobegon. O spin axial é outro exemplo de variá-
veis conjugadas - é impossível determinar simultaneamente o spin de um fó-

Todas as coisas, grandes e pequenas 71


grupo de místicos semi-religiosos que viveram dois milênios e meio atrás,
com os quais nos encontraremos no capítulo seguinte.

NOTAS
1. Veja http://en.wikipedia.org/wiki/Niels_Bohr. Vá a esse site pela biografia, mas
não perca as citações. Niels Bohr é meio Yogi Berra,• meio Yoda. Aqui vai uma cita-
ção para dar um gostinho, que deveria ser estudada com assiduidade por todas as fi-
guras púbhcas: "Nunca fale mais rápido do que você pensa."
2. Veja http://en. wikipedia. org/wiki/Rayleigh-Jeans_law. Esse breve site é tremen-
damente intrigante, já que tem as equações tanto da lei Rayleigh-Jeans quanto d a
revisão de Planck, como t ambém um gráfico atraent e que ilustra a catástrofe ul-
travioleta.
3 . J. Bronowski, The Ascent ofMan (Boston: Little, Brown, 1973), p . 336. Edição bra-
sileira: A escalada do homem (São Paulo: Liv. Martins Fontes; Brasília: Ed. Universi-
dade de Brasília, 1983).
4. Veja http://en.wikipedia.org/wiki/Schrodinger_cat. A Física está repleta de provo-
cantes experimentos hipotéticos. Esse site contém uma discussão bastante abran-
gente.
5. R. Hillmer e P. Kwiat, "Faça você mesmo um apagador quântico", Scientific Ameri-
can Brasil, junho de 2007. Contudo, se, ao construir isso, você acidentalmente
apagar o universo inteiro, nem eu n em o editor dest e livro podemos ser proces-
sados.
6. Veja http://en.wikipedia.org/wiki/Uncert ainty_Principle. Esse site t em uma boa
dedução, caso você conheça álgebra linear e a desigualdade de Cauchy-Schwarz;
essas coisas são, normalmente, Física e Matemática só estudadas p elos prim eiros
escalões.
7. W . H eisenberg, The physical principies of the quantum theory. Chicago: University of
Chicago, Press (1 930).
8. Uma cidade fictícia, inventada por Garrison Keillor e descrita em seu programa da
National Public Radio, A Prairie Home Companion, como uma cidade na qual "to-
das as mulheres são fortes, todos os homens são bonitos e todas as crianças são acima
da média". O efeito Lower W obegon, em que todos declaram estar acima da m édia,
e
foi observado em motoristas de automóveis e estudantes de faculdades estimando
as próprias h abilidades m at emáticas).
9 . Notavelmente, porém, pesquisas mostraram que uma proporção muito maior de
mulheres completa as frases de seus maridos do que o contrário.
10. Veja http:// en.wikipedia.org/wiki/EPR_paradox . Este é um site excelente e tam-
bém tem m aterial sobre a desigualdade de Bell, poupando-me, desse modo, de fazer
uma nova pesquisa.

*Nota do Revisor Técnico: Técnico de beisebol do N ew York Yankees, famoso por suas de-
clarações.

74 Como a matemática explica o mundo


lhido, os fótons sempre giravam na m esma direção - mas eles não giravam
na mesma direção mais que metade das vezes.
Esse é um dos grandes mistérios da Mecânica Quântica, ainda
não-resolvido, mais de um século depois de Max Planck ter trazido à luz a
idéia do quantum. Embora a relatividade especial proíba tanto a matéria
quanto a energia ou a informação de viajarem a uma velocidade superior à
da luz, o que está acontecendo aqui é que a onda de probabilidade que-
brou instantaneamente, ao longo do universo inteiro.
Há um momento dramático no primeiro filme da série "Guerra nas
Estrelas" (Episódio 4), quando se observa um grande distúrbio na Força.
Você não precisa ser Darth Vader para perceber um distúrbio numa onda
de probabilidade; o universo faz isso por você, ao colapsá-la instantanea-
mente e em todos os lugares, quando uma observação é feita.
Mas como isso é feito? Atualmente, existem sugestões e idéias- inclu-
sive a idéia de que isso é algo que jamais poderemos saber. Mesmo que
nunca saibamos, a busca desse conhecimento irá, sem dúvida, resultar em
desenvolvimentos, tanto tecnológicos quanto filosóficos, que irão mudar
radicalmente nosso mundo. Sir Athur Eddington, que liderou a jornada
que em 1919 confirmou a teoria da relatividade de Einstein, talvez o te-
nha explicado melhor quando disse: "O universo não só é mais estranho
do que imaginamos; ele é mais estranho do que somos capazes de imagi-
nar", 12 pois quem poderia ter imaginado a dualidade onda-partícula, o
princípio da incerteza ou o emaranhamento?

12 round

Samuel Johnson t eve seu Boswell, mas John Wheeler certamente merece
um - possivelmente nenhum outro físico ou matemático será capaz de
sintetizar os dilemas enfrentados pela ciência de modo tão sucinto. Um
componente-chave da incompatibilidade entre a Física do grande (relati-
vidade) e a Física do pequeno (Mecânica Quântica) é o modelo matemáti-
co u sado para descrevê-la. No nível do muito, muito pequeno, o vencedor
incontest e - por enquanto - é a visão discreta, pois a hipótese de Max
Planck resultou em descrições discretas que se mostraram inacreditavel-
mente eficientes para prever os valores de todas as quantidades físicas re-
levantes. Esse triunfo seria visto como uma vindicação por um pequeno

Todas as coisas, grandes e pequenas 73


11. Veja http://www.drchinese.com/David/EPR _Bell_Aspect.htm. Se, como o pro-
grama de televisão "Mr. Ed" diz, você quer ir "direto à fonte e perguntar ao cavalo",
esse site oferece a chance de baixar em PDF os Três Grandes artigos nessa área (o
experimento EPR, o teorema de Bell e o Experimento de Aspect). Todos os três ba-
sicamente requerem especialização de alto nível, mas, se você quiser ver as versões
originais, aqui estão elas. Também há fotos dos três protagonistas principais - você
talvez confunda Alain Aspect com Geraldo Rivera.
12. Veja http://www.quotationspage.com/quote/ 27537.html.

Todas as coisas, grandes e pequenas 75


Parte li

A Caixa de
Ferramentas
Incompleta
A irmandade
Era uma poderosa sociedade secreta de homens ligados por crenças religio-
sas e místicas comuns. Então, certo dia, toda sua estrutura de crenças seria
estraçalhada por uma descoberta tão profunda que transformaria o modo
de pensar do mundo civilizado.
Parece uma descrição da Opus Dei, a poderosa sociedade secreta e
clandestina católica que cumpriu um papel central no popularíssimo ro-
mance O Código Da Vinci. Ou poderia descrever o núcleo da igreja du-
rante o século XVII, quando foi confrontada pela arrasadora descoberta
de Galileu, de que as luas de Júpiter orbitavam outro corpo celestial que
não a Terra. Essa sociedade secreta, contudo, existiu cerca de dois milê-
nios antes de Galileu. Fundada pelo filósofo-matemático Pitágoras, o
lema da sociedade - "Tudo é número" - refletia a visão de que o universo
era construído ou de números inteiros ou de suas razões. A descoberta
que estremeceria seu mundo foi a de que a raiz quadrada de 2, a razão do

Const ruções impossíveis 79


comprimento da diagonal de um quadrado em relação a seu lado, era in-
comensurável - ou seja, não podia ser expressa como a razão de dois nú-
meros inteiros.
Na verdade, os gregos construíram tanto as provas numéricas quanto
as geométricas desse fato - a prova numérica se baseava no conceito de
números pares e ímpares. Se a raiz quadrada de 2 pudesse ser expressa
como a razão p/q de número inteiros, esses números seriam escolhidos de
modo a não terem nenhum fator comum (aprendemos no ensino funda-
mental a cancelar os fatores comuns para reduzir as frações). Se piq = >/2,
então p 2 /q 2 = 2, e então p 2 = 2q2 . Já quep 2 é um múltiplo de 2, p deve ser
um número par, dado que números ímpares têm raízes ímpares. Dado
que p e q não têm um fator comum, q deve ser ímpar. Permitindo p = 2n,
vemos que (2n) 2 = 2q2 , e então q 2 = 2n2 ; o mesmo raciocínio que usamos
para demonstrar que pé par mostra que q é par - e concluímos, portanto,
que q é, ao mesmo tempo, par e ímpar.
A descoberta da incomensurabilidade da raiz quadrada de 2 afetou o
desenvolvimento da matemática grega tão profundamente quanto a des-
coberta das luas de Júpiter afetou o desenvolvimento da Astronomia. Os
gregos se voltaram da filosofia do arithmos (a crença no número que é evi-
dentemente a raiz de nossa palavra aritmética) para as deduções lógicas da
Geometria, cujas validades foram asseguradas.
A geometria dos gregos-cuja formalização, posteriormente, seria feita
por Euclides - baseava-se, inicialmente, na linha e no círculo. As ferramen-
tas para a exploração da Geometria eram a régua sem escala, para desenhar
linhas e segmentos de linha, e o compasso, para a criação de circulas. Não
parece haver um registro para os gregos não terem incluído uma escala na
régua, de modo que nenhuma distância fosse inscrita nela. Talvez os primei-
ros geômetras gregos tivessem acesso apenas às mais símples das ferramen-
tas, e o uso do compasso e da régua não-marcada símplesmente se tornou o
modo tradicional de fazer Geometria. No entanto, não foi até os gregos co-
meçarem a explorar outras figuras - que não aquelas construídas com li-
nhas e círculos - que a utilidade da régua com escala começou a se mostrar;
ela trouxe certo aspecto deselegante às construções geométricas, mas au-
mentou significativamente seu campo de ação. Essa exploração não come-
çou até quatrocentos anos antes de Cristo, e depois de outro acontecímento
profundo, que faria estremecer os fundamentos da Grécia antiga.

80 Como a matemática explica o mundo


A primeira pandemia
No ano 430 a.C., os atenienses estavam engajados na Guerra do Pelopo-
neso, quando uma praga abateu-se sobre a cidade. O historiador Tucídi-
des caiu doente, mas sobreviveu, e descreveu o terrível curso da doença. 1
Olhos, garganta e língua se tornavam rubros e ensangüentados, o que era
seguido por espirros, tosse, diarréia e vômitos. A pele cobria-se de feridas
e pústulas ulcerosas, sentia-se uma sede ardente e insaciável. A moléstia
começou na Etiópia e se espalhou para o Egito, e então para a Grécia. A
praga durou por quase quatro anos e matou um terço da população ateni-
ense . Só recentemente descobrimos, por meio da análise de DNA, que a
doença foi de fato a febre tifóide. 2
É possível apenas imaginar o desespero do povo, que estava, quase
com certeza, disposto a tentar qualquer coisa que tivesse mesmo a mais
remota possibilidade de aliviar a devastação. O oráculo de Delfos foi con-
sultado, e o remédio recomendado foi dobrar o tamanho do altar existen-
te, que tinha o formato de um cubo.
Era fácil dobrar o lado de um cubo, mas isso criaria um altar com um
volume oito vezes maior do que o cubo original. Os gregos eram altamente
qualificados em Geometria, e perceberam que, para construir um cubo
cujo volume fosse o dobro do inicial, o lado do cubo dobrado teria de exce-
der o tamanho do lado do cubo original por um fator da raiz cúbica de 2.
Nenhum dos sábios podia usar esses instrumentos para construir um lado
do tamanho desejado, usando apenas o compasso e a régua não-marcada.
Erastóstenes relata que, quando os artesãos, que deveriam construir o altar,
foram a Platão perguntar como resolver o problema, o filósofo respondeu
que o oráculo não queria realmente um altar daquele tamanho, mas, ao dar
essa ordem, tinha a intenção de envergonhar os gregos por sua negligência
para com a Matemática e a Geometria. 3 Em meio a uma praga, levar um
sermão sobre as deficiências matemáticas da educação grega provavelmen-
te não era o que os artesãos ou a população de Atenas queriam. Levou qua-
tro anos para que a praga se acabasse, mas o problema de construir um seg-
mento de linha do comprimento desejado permaneceu - seja porque aos
gregos apetecia o desafio intelectual do problema, ou como possível defesa
contra uma recorrência da praga. De todo modo, o problema de construir
um segmento de linha com o comprimento desejado foi resolvido por uma
série de matemáticos distintos, usando uma variedade de abordagens.

Construções impossíveis 81
Provavelmente a mais elegante foi a abordagem proposta por Arquitas,
que construiu uma solução baseada na interseção de três superfícies: um ci-
lindro, um cone e um toro (um toro se parece com o tubo interno de um
pneu). Essa solução demonstrava uma dose considerável de sofisticação - a
Geometria sólida é consideravelmente mais complexa do que a Geometria
plana (fiz um curso em Geometria sólida no ensino médio, e recebi concei-
to B menos; até hoje, continua sendo um dos cursos de Matemática mais di-
fíceis que encarei). Duas soluções mais simples foram encontradas por Ma-
neemo, usando curvas planas; a interseção de duas parábolas, e a interseção
de uma hipérbola e uma parábola. 4
As soluções de Arquitas e Maneemo são representativas de um tema
que veremos ao longo deste livro - a busca por soluções de um problema,
mesmo de um problema impossível, geralmente leva a áreas férteis onde
nenhum homem, ou matemático, pisou antes. Maneemo recebe créditos
pela descoberta da hipérbola e da parábola, 5 que são duas das quatro se-
ções cônicas, as outras sendo o círculo e a elipse. Cada uma das curvas é a
interseção de um plano e um cone, e cada uma delas não apenas se repete
constantemente na natureza, como também foi incorporada em muitos
dos aparelhos que caracterizam nossa era tecnológica: a parábola, nos re-
fletores parabólicos das antenas de satélite em forma de prato; a elipse,
nas máquinas de litotripsia, que desintegram as pedras nos rins usando on-
das sonoras, em vez de extraí-las por uma cirurgia invasiva; e a hipérbola,
em sistemas navegativos, como loran. *
Os gregos fizeram mais do que simplesmente descobrir soluções para
problemas matemáticos; eles também as utilizaram. Platão inventou um
dispositivo conhecido como a máquina de Platão, que utilizava a Geome-
tria para construir um segmento de linha cujo comprimento fosse a raiz
cúbica do comprimento de um dado segmento de linha. Platão, no entan-
to, não foi o único sábio a abordar a construção física de um cubo dobrado .
Outra pessoa a empreender essa tarefa foi Erastóstenes. Sua construção,
envolvendo simples rotações de linhas e triângulos acoplados, pôde ser
adaptada para construir não apenas raízes cúbicas, como também qual-
quer raiz inteira. Erastóstenes forneceu comentários adicionais sobre sua
construção, junto com uma difamação das técnicas rivais.

*Nota do Tradutor: Long-range navigation: sistema de navegação de longo curso.

82 Como a matemática explica o mundo


"Se, bom amigo, tu planejas obter, de qualquer cubo pequeno, um
cubo duas vezes maior, e devidamente mudar qualquer figura sólida em
outra, isso está em teu poder; tu podes encontrar a medida de uma dobra,
de um fosso ou a bacia larga de um poço raso, por este método, isto é, se tu
assim fixares entre duas réguas duas médias com suas extremidades con-
vergindo. Não procures usar o difícil método dos cilindros de Arquitas, ou
cortar o cone nas tríades de Maneemo, ou compassar uma forma curvada
de linhas como descreve o pio Eudoxo."6
As afirmativas auto-indulgentes de Erastóstenes podem ter sido moti-
vadas pelo fato de ele ter recebido o apelido de Beta (a segunda letra do al-
fabeto grego) de seus contemporâneos, aos quais parecia que suas
não-desprezíveis realizações (dentre as quais, a primeira medição acurada
da circunferência da Terra, a compilação de um catálogo de estrelas, além
de inúmeras contribuições para a Matemática, a Astronomia e a Geogra-
fia) não lhe conferiam o mérito das supremas distinções concedidas aos
melhores dentre os melhores .
"[Erastóstenes] era, de fato, reconhecido por seus contemporâneos
como um homem de grande distinção em todos os campos do conheci-
mento, embora em cada assunto ele simplesmente ficasse abaixo do lugar
mais alto. Por esse motivo era chamado Beta, e outro apelido dado a ele,
Pentatlos, tem a mesma implicação, representando, como é o caso, um
atleta versátil que não era o melhor maratonista ou lutador, mas alcançava
o segundo lugar nessas competições como em outras" .7
Parece que, mesmo na Grécia antiga, eles acreditavam que o outro
nome de segundo colocado é "perdedor".
Outros problemas da Geometria, embora não parecendo ter conse-
qüências tão significativas quanto prevenção de pragas, deixaram perple-
xos os matemáticos gregos. Dois desses problemas, a quadratura do circulo
e a trissecção do ângulo, foram resolvidos pelos gregos em passeios fora do
reino das construções clássicas com régua e compasso. O terceiro proble-
ma, a construção de polígonos regulares (um polígono é regular se todos os
seus lados têm o mesmo comprimento e se todos os ângulos formados pelos
lados adjacentes são iguais - o quadrado e o triângulo eqüilátero são regula-
res), com um número arbitrário de lados, fugiu à compreensão deles.
O termo quadratura do círculo- construir um quadrado cuja área seja
a mesma que a de um dado círculo - é comumente usada como sinônimo

Construções impossíveis 83
para uma tarefa impossível. Assim como a de dobrar um cubo, a tarefa
não era impossível. Arquimedes descreveu uma bela construção, que co-
meçava por "desenrolar" o círculo dado para produzír um segmento de li-
nha, cujo comprimento fosse a circunferência do círculo dado .8 Entretan-
to, desenrolar não é uma construção de régua e compasso. Da mesma for-
ma, a tarefa de trissecar o ângulo- construir um ângulo cuja abertura em
graus seja um terço da abertura em graus de um ângulo dado - pode ser fa-
cilmente realizada em se desenhando uma escala na régua que está sendo
usada (um método atribuído a Arquimedes), o que também está fora da
estrutura das clássicas construções de régua e compasso permitidas na
Geometria euclidiana. Essas construções demonstram que os gregos, em-
bora reconhecessem as restrições formais da Geometria euclidiana, esta-
vam dispostos a procurar soluções para problemas, mesmo que essas solu-
ções pudessem ser encontradas somente fora do sistema no qual os pro-
blemas foram propostos .
Não sabemos se os gregos chegaram a considerar que essas tarefas não
podiam ser realizadas dentro da estrutura das construções de régua e com-
passo . É, sem dúvida, fácil acreditar que um matemático tal como Arqui-
medes, por ter dedicado bastante esforço a um daqueles problemas, pode
muito bem ter chegado a uma conclusão dessas . O que, de fato, sabemos é
que, mesmo hoje, quando a impossibilidade da realização dessas tarefas
foi satisfatoriamente provada para pelo menos cinco gerações de matemá-
ticos, incontáveis homens-hora são gastos com a formulação de "provas" e
com o envio dos resultados para publicações na área da Matemática.
Algumas das pessoas que dedicam tempo a esses problemas não têm no-
ção de que matemáticos provaram que trissecar o ângulo ou fazer a qua-
dratura do círculo são tarefas impossíveis. 9 Outras sabem disso, mas ou
acreditam que a impossibilidade matemática não é um absoluto, ou que a
prova da impossibilidade é falha.
Há construções simples de régua e compasso para construir polígonos
regulares com três, quatro e seis lados, e há uma construção um pouco
mais complexa para um polígono regular com cinco lados. Todos esses
eram conhecidos pelos gregos antigos, mas uma construção de outros po-
º
lígonos regulares se provou elusiva. 1 No final da década de 1920, desco-
briu-se um manuscrito atribuído a Arquimedes (quem mais?) que deli-
neava um método para construir um heptágono regular com o uso de uma

84 Como a matemática explica o mundo


régua marcada, mas quase dois milênios se passariam desde a era de
Arquimedes até que os quatro problemas em discussão fossem enfim re-
solvidos para a satisfação da comunidade matemática.

O Mozart da Matemática
Qualquer hsta dos maiores matemáticos deve incluir Carl Friedrich Gauss
(1777-1855), o Mozart da Matemática, cujos talentos matemáticos se
tomaram evidentes quando ainda extremamente jovem. Aos 3 anos, ele
provavelmente estudava as contabilidades de seu pai, e corrigia erros arit-
méticos se e quando estivessem presentes. Assim como Mozart é renoma-
do por haver composto música quando ainda muito jovem, Gauss é co-
nhecido por demonstrar sua genialidade na infância. Durante uma aula de
Aritmética na escola elementar, pediu-se à turma que somasse os núme-
ros de 1 a 100. Gauss quase imediatamente escreveu" 5050" em sua lousa
e exclamou: "Aqui está~" O professor ficou perplexo com o fato de uma
criança conseguir encontrar a resposta correta com tamanha rapidez; a téc-
nica que Gauss empregou é até hoje conhecida como "o truque de Gauss"
pelos matemáticos. Gauss percebeu que, se escrevesse a soma

s = 1 + 2 + 3 + .. . + 98 + 99 + 100,
e então escrevesse a mesma soma em ordem inversa

s = 100 + 99 + 98 + ... + 3 + 2 + 1,
ao adicionar as extremidades esquerdas, seria obtido o resultado 2S, e adi-
cionando as extremidades direitas pensando nelas como cem pares de nú-
meros, cada qual somando 101 (1+100, 2 + 99, ..., 99 + 2, 100 + 1), ob-
ter-se-ia o resultado 2S = 100 x 101 = 10, 100, e então S = 5050. 11
Ainda mais incrível é o fato de que, quando foi dada a Gauss, então
com 14 anos, uma tabela de logaritmos, ele a estudou por algum tempo, e
então escreveu na página que o número de primos menores do que um
dado número N se aproximaria de N dividido p elo logaritmo natural de
N, quanto mais próximo N fosse do infinito. Esse resultado, uma das p e-
ças centrais da teoria analítica dos números, não foi provado antes da últi-
ma parte do século XIX. Gauss não forneceu uma prova, mas ser capaz de
conjecturar isto aos 14 anos já é extraordinário. 12 Quando tinha 19 anos,

Construções impossíveis 85
Gauss forneceu uma construção de régua e compasso para o heptadecágo-
no regular - o polígono com 1 7 lados. Além do mais, sua técnica de cons-
trução mostrou que polígonos com Fn lados eram regulares (números des-
sa forma são conhecidos como primos de Fermat, 13 já que foram estuda-
dos pela primeira vez pelo matemático francês Pierre de Fermat, do famo-
so Último Teorema de Fermat). Mais de dois mil anos se haviam passado
desde a última vez em que alguém mostrara novas construções de polígo-
nos regulares que não aquelas conhecidas pelos gregos.
Uma lista das realizações de Gauss tomaria muito tempo e muito es-
paço - basta dizer que sua carreira deu seguimento à promessa que ele era
na infância. Hoje, Gauss é considerado um dos dois ou três maiores mate-
máticos de todos os tempos - e isso sequer inclui seus notáveis feitos nos
campos da Física e da Astronomia.

Pierre Wantzel: O prodígio desconhecido


Não sou historiador da Matemática e, quando comecei a escrever este livro,
o nome de Pierre Wantzel me era desconhecido, e suspeito que seja igual-
mente desconhecido de muitos dos matemáticos de hoje. Wantzel nasceu
em 1814, filho de um professor de Matemática aplicada. Como Gauss, seu
talento para a Matemática se manifestou cedo - enquanto Gauss corrigia
erros na contabilidade do pai, Wantzel lidava com difíceis problemas de to-
pografia quando tinha apenas 9 anos. Após uma brilhante carreira acadêmi-
ca tanto no colégio quanto na faculdade, W antzel entrou numa escola de
Engenharia. No entanto, ao sentir que teria maior sucesso ensinando Mate-
mática do que praticando Engenharia, se tornou professor de Análise na
École Polytechnique - ao mesmo tempo que era professor de Mecânica
Aplicada em outra faculdade, enquanto também dava cursos sobre Física e
Matemática em outras universidades parisienses.
Gauss havia afirmado que os problemas de dobrar o cubo e trisseccio-
nar o ângulo não podiam ser resolvidos por construções de régua e com-
passo, mas ele não fornecera provas dessas assertivas. Esse era o procedi-
mento padrão de Gauss ao lidar com muitos problemas, mas isso, algumas
vezes, deixava seus colegas em um dilema sobre se deveriam trabalhar
num problema específico, correndo o risco de descobrir logo depois que
Gauss já o havia solucionado. Wantzel, porém , foi o primeiro a publicar

86 Como a matemática explica o mundo


provas das assertivas de Gauss - finalmente tirando de cena esses dois pro-
blemas. Wantzel também simplificou a prova do teorema de Abel-Ruffini
sobre as raízes dos polinômios, e usou isso para mostrar que um ângulo era
passível de construção apenas e unicamente se seus seno e cosseno fossem
números construtiveis. A Trigonometria simples mostrou que o seno e o
cosseno de um ângulo de vinte graus não eram números construtíveis. 14
Além disso, Wantzel refinou o problema de quais polígonos regulares eram
construtíveis, demonstrando que os únicos polígonos regulares construti-
veis eram aqueles com n lados, onde n é o produto de uma potência de 2 e
qualquer número dentre os primos de Fermat.
Jean Claude Saint-Venant, que era um dos principais matemáticos
franceses da época e colega de Wantzel, descreveu seus hábitos da seguin-
te maneira: "Ele normalmente trabalhava de noite, não indo se deitar até
que fosse bem tarde, quando então lia e dormia umas poucas horas de
sono agitado, abusando alternativamente do café e do ópio, fazendo suas
refeições, até se casar, em horários estranhos e irregulares." Saint-Venant
comentou sobre o fato de Wantzel não ter realizado ainda mais (mesmo
que suas realizações fossem suficientes para fazer jus a 99% de todos os
matemáticos da história), afirmando: "Acredito que isso se deva princi-
palmente a seus hábitos irregulares de trabalho, ao número excessivo de
ocupações que tinha, até a agitação continua e o caráter febril de seus pen-
samentos, e mesmo até ao abuso de suas próprias aptidões."15

A impossibilidade da quadratura do círculo


Por volta da metade do século XIX, mostrou-se que os comprimentos dos
segmentos de linha que podiam ser construídos resultavam da aplicação
da soma, da subtração, da multiplicação, da divisão e da extração de raízes
quadradas aos números inteiros Qá que raízes cúbicas não podem ser obti-
das por esse processo, o cubo não podia ser dobrado, nem o ângulo trisse-
cado). De modo a encontrar a quadratura de um círculo de raio 1, já que a
área do círculo é n, é necessário poder construir um segmento de linha
cujo comprimento seja a raiz quadrada de n, o que pode ser feito apenas se
for possível construir um segmento de linha cujo comprimento é n.
Nessa época, matemáticos já haviam mostrado que a linha real era com-
posta por dois tipos de números: os números racionais tais como 22/7, que

Construções impossíveis 87
podia ser visto como o quociente de dois inteiros ou como a razão de dois in-
t eiros, e os números irracionais, aqueles que não podiam ser expressos como
razões. Como já vimos, os pitagóricos sabiam que a raiz quadrada de dois é ir-
racional; esse conhecimento era tão bem difundido entre os gregos que ti-
nham acesso à instrução que uma boa prova surge em um dos diálogos socrá-
ticos.16 Ademais, os números irracionais haviam sido subdivididos nos nú-
meros algébricos, aqueles números que eram as raízes de polinômios de coe-
ficientes inteiros, e nos números transcendentes. Em 1882, o matemático
alemão Ferdinand von Lindemann escreveu um artigo de 13 páginas mos-
trando que n era transcendente, mostrando, portanto, que a quadratura do
círculo era impossível por construções de régua e compasso. Até hoje, Lin-
denmann leva o crédito, embora boa parte do trabalho anterior t enha sido
feita pelo matemático francês Charles Hermite. A prova de Lindemann da
transcendência de n é similar à prova de Hermite, de que e, a base do logarit-
mo natural, é transcendente. No século XIX, a fama era a única recompensa
de um matemático - embora hoje existam prêmios em dinheiro oferecidos
como incentivo para a solução dos grandes problemas. Então, como hoje, a
fama recaía sobre a pessoa responsável por colocar o último tijolo do edifício,
e não sobre aquelas responsáveis por lançar as fundações.17

Aprendendo com a impossibilidade


Todos os problemas investigados neste capítulo são importantes. Um pro-
blema importante é, em geral, relativamente fácil de explicar, desperta nos-
sa curiosidade, é difícil de resolver e tem uma resolução que aumenta as
fronteiras de nosso conhecimento para além do próprio problema. Faz com
que nos perguntemos se as suposições que fizemos são suficientes para re-
solvê-lo, e se as ferramentas de que dispomos são adequadas ao trabalho.
A procura pelos métodos de dobrar o cubo e trissecar o ângulo levou a
explorações muito além das simples estruturas da linha e do círculo que
constituem a Geometria plana euclidiana. Os axiomas da Geometria pla-
na, como trazidos no primeiro livro dos Elementos, de Euclides, são:

1. Quaisquer dois· pontos podem ser unidos por uma linha reta.
2. Qualquer segmento de reta pode ser prolongado indéfinidamente
em uma linha reta.

88 Como a matemática explica o mundo


3. Dado um segmento de reta qualquer, um círculo pode ser traçado,
tendo o segmento como raio e uma de suas extremidades como centro.
4. Todos os ângulos retos são congruentes.
5. (Postulado das paralelas) Se duas linhas intersectam uma terceira
de tal modo que a soma dos ângulos interiores de um lado é menor
do que dois ângulos retos, então as duas linhas inevitavelmente de-
vem intersectar uma à outra naquele lado, quando suficientemen-
te estendidas. is

Os postulados apresentados discutem apenas pontos, linhas, ângulos


e círculos. Mesmo que um exame dos Elementos revele ambas as geome-
trias, plana e sólida, as figuras geométricas discutidas são os polígonos e os
poliedros, os círculos e as esferas. Os métodos de duplicação propostos
por Arquitas, Maneemo e Erastóstenes certamente transcendem a Geo-
metria euclidiana, tal como esboçada nos Elementos.
As tentativas de alcançar a quadratura do círculo levaram a uma análi-
se mais profunda da linha real e do conceito de número. A solução do pro-
blema da construção de polígonos regulares revelou uma conexão surpre-
endente entre a Geometria e uma classe interessante de números primos.
De fato, esse é um dos aspectos constantemente surpreendentes da Mate-
mática - há também conexões inesperadas não só entre áreas da Matemá-
tica, mas também entre a Matemática e outras áreas.
Entretanto, a Matemática às vezes leva as pessoas a tirarem conclusões
precipitadas. Ao tentar encaixar as órbitas dos planetas em um padrão coe-
rente, Johannes Kepler foi pego de surpresa pela coincidência de que, naque-
le tempo, havia seis planetas e cinco sólidos regulares. Mais planetas seriam
descobertos, mas os matemáticos gregos haviam provado que havia apenas
cinco sólidos regulares: o tetraedro de quatro lados, o cubo de seis lados, o oc-
taedro de oito lados, o dodecaedro de 12 lados e o icosaedro de vinte lados.
Baseando-se em dados inadequados, Kepler construiu o seguinte modelo:
"A órbita da Terra é a medida de todas as coisas; circunscreva em tor-
no dela um dodecaedro, e o círculo contendo isso será Marte. Circunscre-
va em torno de Marte um tetraedro, e o círculo contendo isso será Júpiter.
Circunscreva em torno de Júpiter um cubo, e o círculo contendo isso será
Saturno. Agora inscreva dentro da Terra um icosaedro, e o círculo contido
dentro dela será Vênus. Inscreva dentro de Vênus um octaedro, e o círcu-

Construções impossíveis 89
lo contido dentro dele será Mercúrio. Agora, você tem a razão para o nú-
mero de planetas."19
Um esquema sofisticado e belo - mas equivocadíssimo. A atração dos
padrões é tão grande que, assim como vemos um rosto na superfície de
Marte onde há somente uma formação de terreno vista sob uma luz que
acentua traços que parecem humanos, algumas vezes enxergamos pa-
drões matemáticos com base em informações ou dados precários. É para
eterno crédito de Kepler que ele tenha feito algo que deve ter sido extre-
mamente difícil: quando Tycho Brahe lhe forneceu melhores dados, os
quais ele não podia encaixar em seu modelo, ele abandonou o modelo. Ao
agir assim, formulou as leis de Kepler do movimento planetário, que leva-
ram Newton a descobrir a teoria da gravitação universal.

Pitagóricos redux*
O dogma principal dos pitagóricos era o de que o universo era construído
de números inteiros e das razões dos números inteiros. A descoberta de
que a raiz quadrada de 2 era incomensurável destruiu essa visão de mundo
- na época dos pitagóricos. Porém, em uma intrigante reviravolta, talvez
os pitagóricos estivessem enfim certos~ A Mecânica Quântica- por ora, a
mais exata representação que temos do universo - é essencialmente uma
versão moderna da perspectiva adotada pelos pitagóricos. Como já vimos,
o mundo, de acordo com a M ecânica Quântica, é composto por uma cole-
ção de números inteiros de unidades básicas - massa, energia, compri-
mento e tempo são todos m edidos em termos de quanta. A matemática
do sistema dos números reais, a residência da raiz quadrada de 2, é um
constructo ideal, que tem grande utilidade e um considerável interesse in-
telectual. No mundo real, porém, se um quadrado pode ser de fato cons-
truído a partir de objetos materiais, sua diagonal (também construída
com objetos materiais) é ou um pouco curta demais para se estender de
canto a canto, ou se estende um pouco além deles.
É o caso de se perguntar se outras idéias, conhecidas de civilizações
anteriores, mas h á um bom tempo descartadas, não esperam silenciosa-
m ente nas margens para retornar, usando vestimentas modernas.

*Nota do Tradutor: Redux é uma palavra latina que significa "reconduzido", ou trazido no-
vamente à baila, revisitado.

90 Como a matemática explica o mundo


NOTAS
I. http://www.perseus.tufts.edu/GreekScienceffhuc.+2.4 7 -55.html.
2. International Journal of Infectious Diseases, Papagrigorakis, Volume II, 2006.
3. T. L. H eath, A History of Greek Mathematics I (New York: Oxford, I93 I).
4. http ://www -groups.dcs.st-nd.ac.uk/-history/HistTopics/Doubling _the _cube .
html #s40. Esse precioso site contém não somente as soluções de Arquitas e Manee-
mo para a duplicação do cubo, mas também o m étodo de Erastóstenes para encon-
trar raízes . Certo nível de familiaridade com a G eometria analítica é necessário para
seguir o raciocínio de Arquitas, mas as soluções de Maneemo são razoavelmente
simples, e um estudante de ensino médio não deveria ter muita dificuldade em en-
tendê-las. Mesmo que não seja a intenção do leitor "fazer a matemática" necessária
para acompanhar as construções, vale a p ena olhar esse site, simplesmente para de-
senvolver uma maior estima pela sofisticação dos gregos antigos. O fato de que eles
podiam fazer todas essas coisas usando apenas Geometria (e não Geometria Analí-
tica, que simplifica enormemente tudo que se relaciona com a Geometria) e não
tendo acesso a papel e lápis, ainda me faz balançar a cabeça em descrença - e nós
ainda nem chegamos a Arquimedes.
5. T. L. H eath, A Histo1y of Greek Mathematics I (New York: Oxford, I93I).
6. Ibid.
7. lbid.
8. A. K. Dewdney,BeyondReason (NewYork:John Wiley&Sons, 2004), p. I35 . Essa
construção não é de modo algum um exemplo de Arquimedes em sua melhor for-
ma - mas um dia ruim para Arquimedes é tudo o que muitos matemáticos menores
precisariam para fazer carreira. Ele simplesmente usa o comprimento da circunfe-
rência desenrolada como a base de um triângulo reto, e o raio do círculo como a al-
tura daquele triângulo. Isso resulta num triângulo de área 1/2 x (2nr) x r = nr2, e
uma construção padrão resultará num quadrado com a mesma área do triângulo.
9. http ://www.jimloy.com/geometry/trisect.htm. Esse site provavelmente bate ore-
corde do maior número de trissecções errôneas de um ângulo - algumas extrema-
m ente engenhosas e cometendo apenas erros sutis. Seria bom se ele já existisse
quando eu era m embro júnior da faculdade na UCLA, lá pelos fins da década de
1960. Então como h oje, a UCLA era o lar do PacificJournal of Mathematics . N aque-
la época, recebia numerosas submissões de artigos com a trisecção do ângulo - e os
editores, geralmente um grupo cortês, respondiam não com um curto "É impossí-
vel, nem tentem mandar qualquer outra coisa", mas com uma análise detalhada do
erro da "prova". E adivinha quem era o encarregado dessa análise? Membros junio-
res da faculdade - como eu. Aprendi muita Geometria com a investigação desses er-
ros, mas poderia ter economizado bastante tempo se tivesse tido acesso a esse site.
1O. http ://mathworld.wolfram.com/GeometricCons.t ruction.html. Esse site tem uma
versão razoável de como construir triângulos eqüiláteros, quadrados, pentágonos
regulares e o heptadecágono de Gauss. O Mathworld tem um monte de coisas boas
- algumas das quais altamente técnicas, mas é sempre um bom lugar para começar.
Creio que seja escrito principalmente para vender ou patrocinar Mathematica, um
produto Wolfram, no qual muitos matemáticos têm grande confiança. Como resul-
tado disso, às vezes parece que se está lendo algo daMath Reviews.

Construções impossíveis 91
11. http://en.wikipedia.org/wiki/Carl_Friedrich_Gauss. Admito que a Wikipédia te-
nha encontrado alguns problemas - já que todos podem editá-la, algumas vezes o
indivíduo que a edita tem algum objetivo não-relacionado, e faz uso da Wikipédia
para promover seu objetivo indevidamente. Entretanto, isso raramente acontece
com a Matemática - é difícil imaginar que alguém escrevendo sobre os primeiros
anos de Gauss tenha algum objetivo ulterior em mente. Além disso, é comum haver
uma série de referências nos artigos da Wikipédia, que podem ser usadas numa pes-
quisa mais minuciosa do assunto, ou para conferir autenticidade ao verbete.
12. http ://www.math.okstate.edu/-wrightd/4713/nt_essay/nodel 7.html. Esse site não
só tem a conjectura original de Gauss, como também várias outras relacionadas a
ela. Ajuda ter um pouco de conhecimento de cálculo, mas a maior parte do que é
dito requer apenas o conhecimento do que sejam os logaritmos naturais .
13. http://en.wikipedia.org/wiki/Fermatnumber#Applications_of _Fermat_numbers.
Há um teorema atraente que declara que, se 2n + 1 é um número primo, então n
deve ser uma potência de 2. Os números primos de Fermat continuam a ser estuda-
dos; um resultado intrigante, obtido recentemente, é o de que nenhum número de
Fermat pode ser a soma de seus divisores. Números como 6 = 1 + 2 + 3 e 28 = 1 + 2 +
4 + 7 + 14, que são a soma de seus divisores, são chamados números perfeitos. Os
números de Fermat também são úteis para a geração de seqüências de números in-
teiros aleatórios usados em simulações de computador.
14. http ://planetmath.org/encyclopedia/TrisectingTheAngle.html. Esse site contém
uma pletora de materiais sobre o assunto e problemas relacionados .
15. http://www-groups.dcs.st-and.ac.uk/-history/Biographies/Wantzel.html. Esse site
tem uma série de boas biografias, incluindo a m elhor, dentre as fáceis de encontrar,
de Wantzel.
16. O diálogo é, na verdade, o Meno, de Platão, no qual Sócrates trabalha com um jo-
vem servo inculto para descobrir que a raiz quadrada de 2 é irracional. Um bom re-
lato da discussão pode ser encontrado em http://www.mathpages.com/home/
kmathl 80.htrnl. Embora Filosofia não fosse minha matéria favorita no colégio (ou
em qualquer outro lugar), lembro de meu instrutor nos dizendo que havia muito
humor inconsciente no Meno. Os diálogos socráticos eram algumas vezes o equiva-
lente de uma aparição pública contratada de Paris Hilton - Sócrates era pago para
conduzir um diálogo como entretenimento para os convidados de um banquete. O
assunto desse diálogo era "virtude" - uma astuciosa alfinetada em Meno, que meu
instrutor de filosofia disse ser algo como o Poderoso Chefão daquela época.
17. http://www-groups.mcs.st-and.ac.uk/history/Biographies/Lindemann.html. Como
já mencionado, esse site tem numerosas boas biografias e referências secundárias.
Também tem links internos maravilhosos, então você pode se deslocar e conseguir
várias informações relacionadas.
18. Uma das grandes vantagens da Era da Informação é a quantidade extraordinária de
material clássico disponível on-line. Aqui está uma excelente versão da obra clássica
de Euclides, com uma série de aplicações em Java. http://alephO.clarku. edu/-djoy-
ce/j ava/ elem ents/toc.html.
19. http://www.astro.queensu.ca/- hanes/p014/Notes!Topic_Ol9.html. A citação apa-
rece na seção intitulada "Kepler the Mystic".

92 Como a matemática explica o mundo


O Diamante Esperança da Matemática

A maldição
O Diamante Esperança é provavelmente o diamante mais famoso do
mundo. Sua fama não vem tanto de seu tamanho - com 45,52 quilates, é
sem dúvida impressionante, mas o Diamante Kohinoor marca 186 quila-
tes na balança-, tampouco de sua cor azul-brilhante, que se deve a traços
impuros de boro. Sua fama se baseia na crença de que todos os seus donos
sofrerão sob uma maldição infligida pela deusa hindu, Sita, que se vingará,
pois o diamante era originalmente o olho de uma imagem dedicada a ela,
da qual foi roubado.
Reza a lenda 1 que um ourives chamado Tavernier foi o primeiro arou -
bar o diamante, e foi destroçado até a morte por cachorros selvagens
numa viagem à Rússia. Por algum tempo, o Diamante Esperança perten-
ceu a Luís XVI e Maria Antonieta, que foram decapitados na Revolução
Francesa. O nome do diamante vem de um de seus herdeiros, Henry Tho-
mas Hope, *cujo neto, Henry Francis Hope, p erdeu dinheiro no jogo até ir

*Nota do Tradutor: Hope significa "esp erança" em inglês.

O Diamante Esperança da Matemática 93


à falência. O Esperança (é costumeiro referir-se a diamantes famosos ape-
nas pelo nome) teria, então, sido adquirido por Evalyn Walsh McLean -
cujas riquezas podiam comprar diamantes, mas não prevenir tragédias.
Seu primeiro filho morreu aos 9 anos, num acidente de carro, a filha suici-
dou-se aos 25 anos e o marido foi declarado insano e passou o resto da vida
num hospício.
O Esperança deixou atrás de si uma trilha de desgraças - mas isso em-
palidece em comparação com os sofrimentos dos grandes nomes na busca
por soluções das equações polinomiais de graus cada vez maiores.

A entrevista de emprego de um matemático


Aos estudantes de Matemática, conta-se o caso do matemático que tentou
um emprego numa grande corporação. Quando indagado sobre o que sabia
fazer, o matemático respondeu que resolvia problemas. O entrevistador,
então, o levou a um cômodo pegando fogo. Havia uma mesa sobre a qual
estava wn balde de água, e o matemático foi instruído a apagar o fogo. O
matemático pegou o balde, jogou a água sobre o fogo e o extinguiu. Ele en-
tão se virou para o entrevistador e perguntou: "O emprego é meu?"
"Você terá que passar pelo teste avançado", respondeu o entrevista-
dor. O matemático foi levado a outro cômodo pegando fogo. D ebaixo de
uma mesa, havia um b alde de água e, então, o matemático foi instruído a
apagar o fogo . O matemático pegou o balde - e o colocou em cima da
mesa. Por que raios, perguntam os estudantes, ele faria isso? Porque mate-
máticos gostam de reduzir um novo problema a outro que eles já tenham
resolvido antes.
O progresso na matemática é muitas vezes cumulativo, com resulta-
dos anteriores usados para obter novos resultados cada vez mais profun-
dos e complexos. Assim é a história da busca pelas soluções das equações
polinomiais, tais como ax3 + bx2 +ex+ d= O, que é a equação polinomial
geral de grau 3. Os polinômios são as únicas funções que podemos calcu-
lar, 2 pois elas envolvem apenas adição, subtração, multiplicação e divisão.
Com raras exceções, quando calculamos um valor tal como um logaritmo
ou o seno de um ângulo (por exemplo, usando uma calculadora), o loga-
ritmo ou seno é aproximado por um polinômio, e é este valor aproximado
que é calculado.

94 Como a matemática explica o mundo


Os primeiros resultados: Soluções de equações lineares e quadráticas
A história da busca pela solução de equações polinomiais começa, timida-
mente, no antigo Egito, cujos matemáticos eram suficientemente hábeis
para resolver equações lineares. Um exemplo de uma delas é a equação 7x
+ x = 19, que hoje em dia é confortavelmente resolvida por alunos do sex-
to ano, que somam os termos na esquerda para obter 8x = 19, e então divi-
dem ambos os lados por 8 para mostrar que x = 19/8. A Álgebra estava in-
disponível para Ahmes, do Egito, que contribuiu com uma seção chama-
da "Instruções para o Conhecimento de Todas as Coisas Obscuras" (sem
dúvida, atualmente, muitos estudantes concordariam com essa definição
da Matemática) para o papiro de Rhind, um dos primeiros manuscritos de
Matemática. Ahmes resolveu esse problema recorrendo a um método
que só pode ser descrito como tortuoso. 3
Os Jardins Suspensos podem ter sido a única contribuição física dos babi-
lônios para as maravilhas do mundo antigo, mas suas realizações matemáti-
cas foram bastante impressionantes para a época. Eles eram capazes de resol-
ver certas equações quadráticas (equações da forma ax2 + bx + c = O) usando
o método de completar o quadrado, 4 que é usado na Álgebra do ensino mé-
dio para gerar a solução completa para essa equação. A formula resultante é
conhecida como a formula quadrática. Ela foi descrita no inicio do século IX
pelo matemático árabe Al-Khowarizmi, que também é responsável por ter
dado o nome de Álgebra a essa área do conhecimento matemático.

Dei Ferro e a cúbica reduzida


O tempo passou - aproximadamente sete séculos. Não haveria qualquer
avanço significativo na resolução de equações até a metade do século XV,
quando um grupo de brilhantes matemáticos italianos se embrenhou na
busca pela solução da equação ax3 + bx2 +ex+ d= O. Essa equação, que é
conhecida como a cúbica geral, se provaria uma noz bem mais difícil de
quebrar do que se imaginava.
À medida que o grau do polinômio aumenta, diferentes tipos de nú-
· meros são necessários para resolvê-lo. Equações como 2x- 6 =O podem
ser resolvidas com inteiros positivos, mas 2x + 6 =O requer números nega-
tivos, ao passo que 2x - 5 = O requer frações. Equações quadráticas intro-
duziram as raízes quadradas e os números complexos à mistura, e ficou

O Diamante Esperança da Mat emática 95


claro que uma equação tal como x 3 - 2 = O necessitaria de raízes cúbicas.
Raízes que não são números inteiros são conhecidas como radicais, e o ob-
jetivo era achar uma fórmula que pudesse ser construída a partir de intei-
ros, radicais e números complexos, que daria todas as soluções à equação
cúbica geral. Tal fórmula é chamada "solução por radicais".
O primeiro matemático a dar um passo na direção da solução das cú-
bicas através de radicais foi Scipione del Ferro, que, no fim do século XV,
conseguiu encontrar uma fórmula que resolvia um caso restrito da cúbica
geral, o caso em que b =O. Essas "cúbicas reduzidas" têm a forma ax3 +ex+
d= O, e a fama matemática de del Ferro certamente seria maior se o mun-
do tivesse tomado conhecimento desse avanço. Esta, contudo, era uma
época em que Maquiavel escrevia sobre a importância do subterfúgio - e o
subterfúgio, no ambiente universitário italiano, era normalmente um
meio de sobrevivência.
Duelos - de natureza intelectual - eram um dos métodos pelos quais
os promissores aspirantes da época conseguiam prestigiosos cargos acadê-
micos. Um desafiante propunha uma lista de questões, ou problemas ma-
temáticos, a um acadêmico estabelecido, que respondia com outra lista,
de sua lavra. Após um período predeterminado, os resultados seriam
anunciados - e, como era de se esperar, os espólios pertenciam ao vence-
dor. A solução da cúbica reduzida foi o ás na manga de del Ferro - se desa-
fiado, ele apresentaria ao desafiador uma lista de cúbicas reduzidas. Pelo
que se sabe, del Ferro nunca foi obrigado a usar seu trunfo. 5

Um duelo de inteligências, com equações como armas

Antes de morrer, del Ferro legou em testamento a solução para seu discí-
pulo Antonio Fiar, um matemático de talento menor, porém de maior
ambição que seu mentor. Del Ferro havia guardado a solução como uma
defesa, mas Pior decidiu usá-la para construir a própria fama, e lançou um
desafio ao famoso erudito Niccolo Fontana.
Fontana se ferira gravemente na infância, quando um soldado cortou
seu rosto com uma espada. Isso afetou sua fala, e o levou a ser apelidado de
Tartaglia - o Gago-, o nome pelo qual ele é conhecido até hoje. Quando
Fior apresentou seu desafio de trinta problemas a Tartaglia, Tartaglia re-
bateu com uma lista de trinta problemas que abrangiam uma variedade de

96 Como a matemática explica o mundo


tópicos da Matemática - apenas para descobrir que a lista de Pior consistia
em trinta equações cúbicas reduzidas.
Era a clássica situação tudo-ou-nada - Tartaglia resolveria todos os
trinta problemas, ou nenhum, dependendo do fato de conseguir ou não
criar a solução da equação cúbica reduzida. Tartaglia obteve a fórmula

Vn/2+~m 3 /27 + n 2 /4 -V-n/2+~m 3 /27 +n 2 /


para a raiz da cúbica reduzida x 3 + mx =n. Como você pode perceber, não
seria fácil topar com essa fórmula usando simplesmente técnicas de tenta-
tiva e erro.
Usarei essa fórmula com a cúbicareduzidax3 + 6x = 20. O resultado é
VI
x = O + .JI 08 -V-1 O + .JI 08 . Simplificar essa expressão é um bom
problema para um estudante avançado de Álgebra do ensino médio, mas
aqueles que preferirem a tecnologia moderna podem conferir com uma
calculadora de bolso que x = 2, o que é de fato uma solução da equação.
Há uma sutil falácia em todos os livros-texto de Matemática, que os
professores percebem, mas os estudantes, em geral, não; muito de tentati-
va-e-erro acontece antes de se estabelecer um resultado como a solução
da equação cúbica reduzida, e muitas das tentativas são mesmo erradas.
Sabemos que grandes compositores, como Beethoven, por exemplo, ti-
nham cadernos em que rascunhavam suas idéias, e podemos lê-los para
descobrir algumas das passagens que Beethoven pensou em utilizar antes
de chegar à versão final. Muitos matemáticos fazem o mesmo - mantêm
registros de suas t entativas fracassadas, porque às vezes o que não funcio-
na para um problema pode muito bem resolver outro. Entretanto, esses
registros geralmente não entram nos arquivos e, como resultado, não te-
mos idéia de quanto tempo del Ferro levou para descobrir essa aborda-
gem. Usando a notação moderna, a solução correta finalmente alcançada
por del Ferro não é tão difícil de acompanhar.
Podemos dividir nossa equação cúbica reduzida pelo coeficiente de x 3
para chegar a uma equação que tem a forma

x 3 + Cx +D= O
Em vez de apresentar a solução na forma em que é normalmente tra-
zida em um livro-texto, tentemos reconstruir o que del Ferro fez . Muitas

O Diamante Esperança da Matemática 97


vezes, matemáticos tentam diferentes coisas, na esperança de ter sorte, e
então del Ferro tentou supor que a solução tinha a forma x = s - t. Existe
um motivo válido para se tentar usar algo assim, já que usar duas variáveis
(se t), em vez de uma, introduz um novo grau de liberdade ao problema.
Essa é uma arma comum no arsenal dos matemáticos de técnicas para re-
solver problemas, dado que o preço a pagar por ter de resolver variáveis
adicionais pode ser mais do que compensado pela facilidade da solução.
Após fazer essa substituição, a equação cúbica reduzida se torna

(s - t) 3 + C(s - t) +D =
3
(s - 3s2t + 3st2 - t3) + C(s - t) + D =
(s3 - t3 + D) - 3st(s - t) + C(s - t) =
(s3 - t3 +D) + (C - 3st)(s - t)

Nesse ponto, del Ferro sem dúvida percebeu que talvez tivesse fecha-
do a grande questão. Se ele pudesse encontrar se t de modo que s3 - t3 +D
= O e C - 3st = O, a última equação seria

O+ O (s-t) =O

ex = s - t seria uma raiz da cúbica reduzida. Então del Ferro foi levado ao
sistema de duas equações

3st= e
t3 -s3 =D

Ficamos com o problema de achar se t de modo que satisfaçam ambas


as equações; mas agora você vai saber como o balde de água é movido de
debaixo da mesa para cima dela - essas equações se reduzem a uma qua-
drática~ Solucionar 3st = C para tem termos de s produzindo t = C/3s e
substituindo isso por t 3 - s3 = D resulta na equação

C 3/(27s 3) - s3 =D
Multiplicando tudo por s 3 e juntando todos os termos em um lado,
temos

s6 + Ds3 - (C3/27) =O

Esta é quadrática em s3 , pois pode ser escrita

(s3 ) 2 + Ds3 - (C3/27) = O

98 Como a matemática explica o mundo


Usando a fórmula quadrática, obtemos duas soluções possíveis para
s3 ,mas, se a raiz cúbica de qualquer uma delas é tirada e t calculado a par-
tir da fórmula t = C/3s, a quantidades - t será a mesma e resolverá a equa-
ção cúbica reduzida original.
Não parece ser tão difícil quando é limpidamente apresentada em um
livro-texto, mas, quando você tem apenas um mês e seu futuro está em
jogo, a coisa é bem mais complicada. Numa corrida desesperada contra o
tempo, um (não surpreendentemente) exausto Tartaglia conseguiu che-
gar a uma engenhosa abordagem geométrica do problema, que produziu a
solução pouco antes do prazo combinado para que o desafio expirasse. Ele
resolveu todos os problemas de Fiar, vencendo o desafio com folga. De
modo magnânimo, Tartaglia não exigiu que Fiar pagasse pela aposta per-
dida - nesse caso, ele havia apostado trinta suntuosos banquetes-, mas
esse provavelmente foi um pequeno consolo para Fiar, que mergulhou na
obscuridade, enquanto a fama de Tartaglia crescia.

Cardano e Ferrari - escalando o topo

Uma pessoa que aprendeu com o sucesso de Tartaglia foi Girolamo Car-
dano, sem dúvida um dos indivíduos mais incomuns a aparecer na cena
matemática. Cardano era brilhante mas atormentado - afligido por uma
série de enfermidades, incluindo hemorróidas, hérnias, insônia e impo-
tência. Além desses problemas físicos, havia uma série de problemas psi-
cológicos. Ele tinha acrofobia e também um medo incontrolável de cães
raivosos, e talvez não tenha sido masoquista, mas formou o hábito de infli-
gir dor física a si mesmo, pois adorava o prazer de quando a dor cessava.
Nós sabemos de tudo isso porque Cardano, que faria a festa de talk-shows
sensacionalistas, caso existissem no século XVI, escreveu uma extensa au-
tobiografia, na qual nenhum detalhe, por mais íntimo que fosse, parece
ter sido poupado.
Cardano era fascinado pela vitória de Tartaglia, e escreveu várias car-
tas implorando a Tartaglia que lhe contasse o segredo de seu sucesso. Tar-
taglia respondeu com o equivalente do século XVI para "Desculpe, meu
agente está trabalhando num contrato para um livro", mas Cardano per-
sistiu, e finalmente convenceu Tartaglia a deixar sua casa em Brescia e vi-
sitá-lo em Milão. Durante a visita, Cardano convenceu Tartaglia a revelar

O Diamante Esperança da Matemática 99


seu segredo - mas, em pagamento, Tartaglia fez com que Cardano fizesse
o seguinte juramento: "Juro a você pelo Evangelho Sagrado, e pela minha
fé como cavalheiro, não somente jamais publicar suas descobertas, se
você transmiti-las a mim, mas também prometo e empenho minha fé,
como cristão verdadeiro, a anotá-las em forma cifrada, para que depois de
minha morte ninguém possa compreendê-las.'16
Como muitos de seus contemporâneos, Cardano acreditava forte-
mente em sonhos e profecias, e era também um astrólogo praticante. Cer-
ta noite, ele sonhou com uma bela mulher vestida de branco e, com perse-
verança (e sucesso), cortejou a primeira mulher que passou pela frente
correspondendo a essa imagem, embora não acreditasse nas próprias
chances; naquela época, ele era muito pobre . Logo depois desse encontro
com Tartaglia, ele ouviu o grasnido de uma gralha-do-campo e acreditou
que era presságio de boa fortuna . Quando um jovem menino apareceu na
porta de sua casa procurando por trabalho, Cardano viu o fato como a boa
sorte prometida pela ave e acolheu o garoto. Talvez a teoria do grasnido
da gralha-do-campo não fosse totalmente absurda, já que o menino pro-
vou ter grande habilidade matemática. A princípio, o garoto, chamado
Ludovico Ferrari, era apenas um servo da casa de Cardano, mas gradual-
mente Cardano lhe ensinou Matemática e, antes que Ferrari completasse
20 anos, Cardano lhe havia passado o segredo da resolução das cúbicas re-
duzidas. Os dois matemáticos decidiram atacar o problema de resolver a
cúbica geral.
Cardano e Ferrari conseguiram dois progressos importantíssimos. O
primeiro foi encontrar uma transformação que reduzia a equação cúbica
geral a uma cúbica reduzida, que a técnica de Tartaglia lhes permitiu re-
solver. Essa transformação move outro balde de água, de debaixo da mesa
para cima da mesa.
Mais uma vez, ao dividir pelo coeficiente de x 3 , podemos supor que
nossa equação cúbica geral tem a seguinte forma:

x3 + Bx2 + Cx + D =O
Se deixarmos x =y - B/3, essa equação se toma

(y- B/3) 3 + B(y- B/3) 2 + C(y- B/3) + D =O

100 Como a matemática explica o mundo


Expandindo os dois primeiros termos, dá em

(y3 - By2 + (B2/3) y - (B 3/27)) + B [y2 - (2B/3) y


+ (B2 /9)] + (y- B/3) +D= O

Não é necessário simplificar totalmente o lado à sua esquerda para


perceber que há apenas dois termos envolvendo y 2; o termo - By2 , que
ocorre na expansão de (y-B/3) 3, e o termo By2, que ocorre na expansão
de B(y- B/3) 2; esses termos cancelam, então o resultado é uma cúbica re-
duzida emy, que a técnica de del Ferro nos permite resolver pory. Então,
se x = y - B/3, x é uma raiz da cúbica original.
Esse foi o primeiro progresso, mas o segundo foi ainda mais empol-
gante: Ferrari descobriu uma técnica para transformar a equação quártica
geral eencontrar as raízes de um polinômio de grau 4) para uma cúbica,
que eles agora sabiam como resolver. Estes eram os avanços mais significa-
tivos na Álgebra em milênios-mas ambos os avanços se calcavam na solu-
ção de Tartaglia para a cúbica reduzida, e o juramento de Cardano os im-
pedia de publicar seus resultados.
Muitos anos depois, Cardano e Ferrari viajaram para a Bolonha, onde
tiveram acesso aos artigos de Scipione del Ferro. Esses artigos continham a
solução de del Ferro para a cúbica reduzida - que coincidia com a solução
que Tartaglia havia encontrado. Cardano e Ferrari se convenceram de que,
já que del Ferro havia previamente obtido a solução, usá-la não seria uma
quebra do juramento de Cardano a Tartaglia.
Cardano publicou sua obra clássica, Ars Magna ("a grande arte"), em
1545. A Álgebra era, de fato, a "grande arte" de Cardano-emboraele fos-
se um médico competente (para a sua época) que havia tratado do papa, e
embora tivesse escrito o primeiro tratado matemático das probabilidades
(Cardano era um jogador inveterado), suas contribuições para a Álgebra
são aquelas pelas quais ele é mais lembrado. A descrição oferecida ante-
riormente para o procedimento usado na solução da equação cúbica redu-
zida é extraída de Ars Magna.
NaArs Magna, Cardano dá todo o crédito devido aos gigantes em cujos
ombros ele se alçou. O prefácio ao capítulo sobre a solução da cúbica co-
meça assim: "Scipio Ferro, de Bolonha, há quase trinta anos, descobriu
essa regra e a repassou a Antonio Maria Fior, de Veneza, cujo desafio con-

O Diamante Esperança da Matemática 101


tra Niccolo Tartaglia, de Brescia, deu a Niccolo oportunidade de desco-
bri-la. Ele ma deu em resposta a meus pedidos, embora ocultando a de-
monstração. Armado dessa ajuda, procurei pela demonstração de [várias]
formas, o que foi muito difícil."7
Tartaglia não ficou satisfeito com a revelação, acusando Cardano de
violar seu juramento sagrado. Cardano não respondeu a essas acusações,
mas Ferrari, que era conhecido como uma pessoa explosiva, sim. Isso cul-
minou em um desafio entre Tartaglia e Ferrari - mas Ferrari teve a vanta-
gem de jogar em casa, e acabou vitorioso. Tartaglia atribuiu sua derrota ao
vigor com que os curiosos torceram pelo favorito da casa (havia um char-
me exótico no fato de cidadãos torcerem em resposta a um desafio inte-
lectual, em vez de, como é o caso hoje em dia, em resposta aos resultados
de uma partida de futebol, mas possivelmente não havia muito pelo que
torcer no século XVI). Ferrari, naturalment e, pensou que o próprio bri-
lhantismo lhe trouxera a vitória. Nesse ponto, a história da busca por uma
solução de equações polinomiais por radicais fica paralisada por dois sécu-
los, esperando pela chegada dos personagens finais desse drama. As dores
de parto sofridas por muitos dos personagens principais do drama são ma-
téria-prima do tipo utilizado por escritores de ,.mínisséries. A esposa de
Cardano morreu jovem, o filho mais velho, Giambattista, foi condenado e
executado como assassino, e o outro filho foi preso por atividades crimi-
nosas. O próprio Cardano foi jogado na cadeia por cometer heresia (não
era uma boa época para ser um herege), mas depois foi perdoado. O epitá-
fio de Cardano podia bem ser a última linha de seu Ars Magna: "Escrito
em cinco anos, talvez dure milhares."8 Ludovico Ferrari morreu envene-
nado - muitos historiadores crêem que pelas mãos da irmã.

A insolubilidade da quíntica
A equação cúbica geral foi resolvida sendo simplificada em uma cúbica
reduzida, e a quártica, ao ser reduzida a uma cúbica - mas as soluções de
cada equação polinomial de grau mais alto estavam se tornando cada vez
mais confusas e complicadas. Parecia que o futuro da solução da equação
quíntica geral - o polinômio de grau 5 - seguiria o mesmo caminho: en-
contrar a transformação que a reduzisse a uma quártica, e então usar a fór-
mula de Ferrari. Isso parecia ser um panorama bem monótono. Talvez por

102 Como a matemática explica o mundo


isso mais de dois séculos se tenham passado, e não obstante os considerá-
veis avanços ocorridos na Matemática, a maioria deles se deu no Cálculo e
em áreas afins. Tentar achar a solução geral da quíntica deixou de ser um
problema de primeira importância para a comunidade matemática- Cál-
culo era uma disciplina mais nova e muito mais sexy.
Como algumas vezes acontece tanto na Matemática quanto nas Ciên-
cias, as ferramentas disponíveis para a comunidade são simplesmente ina-
dequadas à solução de certos problemas, e a comunidade científica ou
matemática se encontra num beco sem saída. Técnicas novas e diferentes
são necessárias - embora muitas vezes a comunidade simplesmente não
perceba isso até que aquelas técnicas d e fato apare çam. Tal foi o caso d a
solução da quíntica. A resolução desse problema não ocorreu até a virada
do século XIX, quando três matemáticos brilhantes quebraram os para-
digmas com uma abordagem totalmente diferente, que alteraria para
sempre os rumos da Matemática.

Paolo Ruffini

Por quase 250 anos após a solução da quártica por Cardano e Ferrari, ma-
temáticos tentaram resolver o mistério da quintica. Alguns dos grandes
nomes da Matemática naufragaram após bater nos bancos de areia desse
problema, incluindo Leonhard Euler e Joseph-Louis Lagrange. Este últi-
mo publicou um artigo famoso, "Reflexão sobre a Resolução das Equa-
ções Algébricas", no qual declarou que planejava retornar à solução da
quíntica, que ele, evidentemente, espeÇava resolver por r~dicais.
Paolo Ruffmi foi o primeiro matemático a sugerir que a quíntica não
poderia ser resolvida por m eio de radicais, e ofereceu uma prova disso em
"General Theory of Equations in which It Is Shown Th at the Algebraic So-
lution of the General Equation of Degree Greater Than Four Is Impossi-
ble".* N esse trabalho, ele declara: "A solução algébrica de equações gerais
de grau m aior do que 4 é sempre impossível. Observe um t eorema muito
importante que creio ser cap az de defender (se é que não caio em erro) : até
hoje, a prova dele é a principal razão da publicação deste volume. O imortal
Lagrange, com suas sublimes reflexões, ofereceu a base de minha prova. "9

*Nota do Revisor Técnico: "Teoria geral das equações; na qual se mostra que a solução algé-
brica da equação geral de grau m aior do que quatro é impossível".

O Diamante Esperança da Matemática 103


Infelizmente, essa introdução tornou-se presciente -havia uma lacuna
em sua prova. Entretanto, Ruffmi não apenas vira uma parcela da verdade;
ele percebera também que o caminho para a solução passava por uma análi-
se do que ocorria com equações quando as raízes de um polinômio eram per-
mutadas. Mesmo não havendo formalizado a idéia de um grupo de permu-
tações, ele provou muitos dos resultados iniciais básicos na teoria.
Ruffini era mais um matemático a ser perseguido pela má sorte. Na ver-
dade, ele jamais recebeu crédito por seu trabalho - ao menos não enquanto
estava vivo. O único matemático de ponta a lhe dar o respeito merecido foi
Augustin-Louis Cauchy, mas, quando seu artigo foi examinado pelos maio-
res matemáticos da Inglaterra e da França, as críticas foram de neutras (as
inglesas) a desfavoráveis (as francesas). Ruffini jamais foi notificado de que
sua prova continha uma lacuna - se algum grande matemático o houvesse
feito, ele talvez tivesse uma chance de emendar a prova. Normalmente, a
pessoa mais familiarizada com uma prova imperfeita é quem tem mais
chances de consertá-la - mas essa chance nunca foi dada a Ruffini.

Grupos em geral-grupos de permutações em particular

Uma das realizações mais importantes da Matemática é ter most rado que
estruturas aparentemente dissimilares t êm muitos atributos em comum.
Esses atributos podem ser codificados em um conjunto de axiomas, e con-
clusões deduzidas para todas as estruturas que satisfaçam esses axiomas.
Um dos mais importantes dentre esses objetos é chamado "um grupo" .
Para ent ender a definição de um grupo, considere o conjunto de to-
dos os números reais diferentes de zero. O produto de quaisquer núme-
ros reais diferentes de zero x e y é um número real diferente d e zero xy;
esse produto satisfaz a lei associativa: x(yz) = (xy)z. O número 1 tem a
propriedade de que, para qualquer número real diferente de zero, l x =
xl = x. Por fim, cada número real diferente de zero tem um inverso mul-
tiplicativo x-1, que satisfaz xx- 1 = x-1x = 1. Essas são as proprieda-
d es-chave usadas para d efinir um grupo G, que é uma coleção d e ele-
mentos e um modo de combinar dois daqueles elementos g e h em um
elemento gh em G. Em geral, essa maneira de combinar elementos é cha-
mada multiplicação, e o elemento gh resultante é chamado produto, em-
bora, como veremos, existam muitos grupos nos quais "multiplicação"

104 Como a matemática explica o mundo


não tem qualquer semelhança com Aritmética. A multiplicação deve
atender à lei associativa: a(bc) = (ah )e para quaisquer três elementos a, b
e e do grupo. O grupo deve conter um elemento de identidade, que po-
deria ser denotado por 1, o que satisfaz g1 = Ig = g para qualquer mem-
bro g do grupo. Por fim, cada membro g do grupo deve possuir um inver-
so multiplicativo ~1, que satisfaça gg-I = ~Ig = 1.
Um exemplo interessante de um grupo, que tem uma conexão impor-
tante e surpreendente com a questão de resolver a quíntica, é encontrado
no exame do que acontece quando embaralhamos as cartas de um bara-
lho. É possível descrever completamente um embaralhamento pelas posi-
ções finais das cartas em relação às posições iniciais. Por exemplo, num
embaralhamento perfeito, as 26 cartas de cima ficam na mão esquerda,
enquanto as 26 cartas de baixo ficam na mão direita. A mecânica do tipo
de embaralhamento clássico conhecido como "queda d' água" solta a últi-
ma carta da mão direita, e então a última carta da esquerda, depois a pe-
núltima carta da mão direita, e assim por diante, alternando cartas a partir
de cada mão. Poderíamos descrever o embaralhamento perfeito por meio
do seguinte diagrama, que descreve a posição inicial de uma carta no bara-
lho e sua posição final; a carta no topo do baralho está na posição 1, en-
quanto a carta no fundo, na posição 52.

Posição Inicial l 2 3 24 25 26 27 28 29 50 51 52
Posição Final 3 5 47 49 51 2 4 6 48 50 52

Poderíamos abreviar usando a notação algébrica.

Posição Inicial Posição Final

1:Çx:::;;26 2x- 1
27 :Ç X :Ç 52 2x-52
O conjunto de todos os embaralhamentos de um baralho de cartas
forma um grupo. O produto gh de dois embaralhamentos g eh é o reorde-
namento que resulta de primeiro realizar o embaralhamento g e depois o
embaralhamento h. O elemento de identidade desse grupo é o embara-
lhamento que não muda a posição de nenhuma carta - "o embaralhamen-
to-fantasma", que às vezes é executado por mágicos ou trapaceiros. O in-

O Diamante Esperança da Matemática 105


verso de qualquer embaralhamento é aquele que retorna as cartas à sua
posição original. Por exemplo, podemos usar o diagrama anterior para dar
uma olhada numa porção do inverso do embaralhamento perfeito

Posição Inicial 2 3 4 49 50 51 52
Posição Final 27 2 28 25 51 26 52

Novamente, usando a notação algébrica,

Posição Inicial Posição Final


x é ímpar (x + 1)/2
x é par 26 + x/2

Para ver que este é de fato o inverso do embaralhamento perfeito, ob-


serve que, se uma carta começa na posição x, onde 1 : : :; x:::::; 26, o embara-
lhamento perfeito a põe na posição 2x- 1 (um número ímpar), então o in-
verso a põe na posição [ (2x -1) + 1) / 2 = x - de volta ao ponto onde havia
começado. Se uma carta começa numa posição x, onde 27:::::; x:::::; 52, o em-
baralhamento perfeito a coloca na posição 2x - 5 2 (um número par), en-
tão o inverso apõe na posição 26 + (2x-52)/2 =x-maisuma vez, de volta
à posição inicial. De modo similar, é possível mostrar que, se for executa-
do o inverso em primeiro lugar, e depois o embaralhamento perfeito, to-
das as cartas voltam à sua posição original. Embora isso não seja aphcável
ao problema quintico, executar oito embaralhamentos perfeitos de um
baralho de 52 cartas restaura o baralho à sua ordem original- se g denota o
embaralhamento perfeito, isto se escreve f' = 11 e matemáticos dizem que
g é um elemento de ordem 8. Mostrar que o embaralhamento atende à lei
associativa não é difícil- mas não é especialmente interessante, então pu-
larei a demonstração.
Note que o embaralhamento perfeito- e seu inverso- não muda a po-
sição da carta do topo do baralho. Se considerássemos todos os embara-
lhamentos que não mudam a posição da carta no topo do baralho, desco-
briríamos que eles também formam um grupo - o produto de quaisquer
desses embaralhamentos não mexe na carta do topo, e o inverso de tal em-
baralhamento também não mexe na carta do topo. Um subconjunto de
um grupo que é, em si mesmo, um grupo chamado subgrupo.

106 Como a matemática explica o mundo


A maneira como o grupo de todos os embaralhamentos difere do gru-
po dos números reais diferentes de zero é que este último grupo é comuta-
tivo - não importa em que ordem você multiplique dois números, o resul-
tado é sempre o mesmo: por exemplo, 3 x 5 = 5 x 3 . O mesmo não pode
ser dito dos embaralhamentos. Se o embaralhamento g simplesmente
muda de posição as duas primeiras cartas (e deixa as outras cartas na mes-
ma posição), e se o embaralhamento h apenas muda de posição as segunda
e terceira cartas, sigamos o que acontece com a terceira carta do baralho.
Se executarmos g antes, a terceira carta p ermanece onde está, mas em se-
guida migra para a posição 2, depois que tivermos executado h. Se execu-
tarmos h ant es, a terceira carta inicialmente é movida para a posição 2, e
então g a move para a posição 1. Então, executar os embaralhamentos em
diferentes ordens produz resultados diferentes - a ordem do embaralha-
mento (multiplicação, nesse grupo) de fato faz diferença.
Embora um baralho de cartas padrão contenha 52 cartas, obviamente
seria possível embaralhar com qualquer quantidade de cartas. O grupo de
todos os embaralhamentos possíveis de um baralho de n cartas é conheci-
do como o grupo simétrico Sn- A estrutura de Sn- ou seja, o número e as
características de seus subgrupos - se torna mais complexa quanto maior
for o valor de n, e este é o fato essencial que determina por que a quíntica
não possui solução em termos de radicais.

Niels Henrik Abel (1802-1829)


Niels Henrik Abel nasceu em uma família norueguesa pobre e grande.
Aos 16 anos, embarcou num projeto de ler as grandes obras da Matemáti-
ca; mas, quando tinha 18 anos, o pai morreu. Abel, embora ele mesmo
não tivesse boa saúde, assumiu a responsabilidade de sustentar sua famí-
lia. A despeito dessas obrigações, decidiu atacar a quíntica, e a princípio
achou que havia obtido uma solução à maneira de Cardano e Ferrari. D e-
pois de perceber que sua prova estava errada, ele ch egou à conclusão pre-
cisamente oposta: era impossível encontrar uma expressão algébrica para
as raízes da quíntica geral. Trabalhando com as mesmas linhas gerais de
Ruffini, mas evit ando as armadilhas de prova que haviam amaldiçoado o
matemático italiano, Abel conseguiu mostrar que a quíntica geral não po-
dia ser resolvida pelos radicais, trazendo um desfecho à jornada que co-
m eçara mais de três milênios antes, no Egito.

O Diamante Esperança da Matemática 107


Depois de publicar um ensaio que trazia um esboço de sua prova, Abel
foi a Berlim, onde começou a publicar seus resultados em uma variedade
de tópicos, no então recentemente lançado Crelle's Journal. Esses resulta-
dos tiveram recepção favorável entre os matemáticos alemães, e Abel en-
tão viajou a Paris, onde esperava obter o reconhecimento dos principais
matemáticos franceses.
No entanto, a França era um viveiro de atividade matemática, e Abel
escreveu a um amigo: "Todo principiante tem muita dificuldade de ser
notado aqui." 1º Desencorajado e enfraquecido pela tuberculose, Abel vol-
tou à casa, onde morreu -tragicamente, tinha apenas 27 anos. Sem que
Abel soubesse, seu escritos causavam uma crescente empolgação na co-
munidade matemática e, dois dias após sua morte, um carta chegou lhe
oferecendo uma posição acadêmica em Berlim.

Évariste Galois
O terceiro personagem principal na solução da quíntica t ambém sofreu de
má sorte. Évariste Galois nasceu nove anos depois de Abel, em um subúr-
bio de Paris. Filho de um prefeito, ele não demonstrou qualquer habilidade
excepcional na escola - mas, aos 16 anos, percebeu que, apesar do julga-
mento de seus professores, possuía considerável talento matemático. Ten-
tou ingresso na École Polytechnique, uma faculdade que fora freqüentada
por matemáticos célebres, mas sua performance medíocre no colégio im-
pediu que fosse aceito. Ele escreveu um artigo e o apresentou à academia
aos 1 7 anos - mas Augustin-Louis Cauchy, um dos principais matemáticos
da época, o perdeu. Ele apresentou outro artigo à academia logo depois -
mas Joseph Fourier, o secretário da academia, morreu logo após tê-lo rece-
bido, e este também foi perdido. Certa vez, Jonathan Swift afirmou que se-
ria possível reconhecer um gênio pela perseguição empreendida pelos estú-
pidos; Galois parece ter sido especialmente azarado, já que até os gênios o
perseguiam, ainda que inadvertidamente.
Frustrado com toda essa incompetência, Galois procurou uma válvula
de escape na política de seu t empo, e se juntou à Guarda N acional. Revo-
lucionário ativo, em 1831 , ele propôs um brinde em um banquete que foi
visto como ameaça contra o rei Louis Philippe. Essa declaração foi seguida
por um erro que se provaria fatal - ele se envolveu com uma jovem donze-

108 Como a matemática explica o mundo


la que tinha outro amante, e este desafiou Galois para um duelo. Temen-
do o pior, Galois passou a noite anterior ao duelo fazendo suas anotações
matemáticas, confiando-as a um amigo que se empenharia em publi-
cá-las. O duelo se deu no dia seguinte, e Galois morreu em decorrência
dos ferimentos um dia depois. Tinha apenas 20 anos.
Embora Abel tenha sido o primeiro a demonstrar a insolubilidade das
quínticas, Galois descobriu uma abordagem muito mais geral para o pro-
blema, que estava destinada a se tornar muito importante. Galois foi o
primeiro a formalizar o conceito matemático de um grupo, que é uma das
idéias centrais da Álgebra moderna. A conexão entre grupos, equações
polinomiais e corpos é um dos temas fundamentais do ramo da Matemáti-
ca conhecido como teoria de Galois. A teoria de Galois não somente ex-
plica por que não existe solução geral para a quíntica, como também mos-
tra precisamente por que as polinomiais de menor grau t êm soluções. De
forma notável, a teoria de Galois também fornece explicações claras de
três impossibilidades de régua-e-compasso que examinamos previamen-
te: por que o cubo não pode ser dobrado, por que o ângulo não pode ser
trissecado e por que apenas certos polígonos regulares são construtíveis.

Os grupos de Galois
Quando aprendi pela primeira vez a fórmula quadrática no colégio, meu pro-
fessor de Álgebra mencionou que havia formulas assim para polinomiais de
grau 3 e grau 4, mas não uma fórmula para polinomiais de grau cinco. N a
época, eu não compreendia totalmente o que o professor queria dizer, e in-
terpretei sua afirmação como se os matemáticos simplesmente ainda não ti-
vessem descoberto a fórmula. Foi b em depois que percebi que, embora
existissem fórmulas que de fato extraíam as raízes dos polinômios de quin-
to grau, elas usavam expressões outras que não radicais - se a "linguagem"
para descrever soluções era composta simplesmente de números inteiros,
radicais e expressões algébricas que os envolviam, então aquela linguagem
simplesmente não tinha o poder de exprimir as raízes de todos os polinômios · : :
de quinto grau. Um de m eus objetivos como estudante era descobrir por
que isso era assim - mas, de modo a entender o assunto completamente, é
preciso aprender a teoria de Galois. E, para entender a teoria de Galois, é
necessário em primeiro lugar fazer um curso de introdução à Álgebra abs-
trata, que geralmente é oferecido no terceiro ano da faculdade.

O Diamante Esperança da Matemática 109


Não obstante, é possível entender algumas das idéias básicas que cer-
cam a teoria. Usando a fórmula quadrática, o polinômio x 2 - 6x + 4 tem
duas raízes: A= 3 +.JS e B = 3 -.JS. Essas raízes satisfazem duas equações
algébricas básicas: A+ B = 6 eAB = 4 . Evidentemente, elas satisfazem mui-
tas mais, como, por exemplo, S(A+B)-3(AB) 3 = S x 6- 3 x 64= -162,
mas esta equação foi obviamente construída a partir das outras duas. Elas
também satisfazem A - B = 2.JS, mas esta equação é qualitativamente di-
ferente das duas primeiras: os únicos números que aparecem nas duas pri-
meiras equações são números racionais, enquanto a última equação con-
tém um número irracional. Observe também que, se tentássemos algo
como A+ 2B, teríamos o número irracional 9- .JS, então as equações que
podem ser construídas a partir de A e B, que incluem apenas números ra-
cionais, são definitivamente limitadas.
Veja mais uma vez as duas equações A + B = 6 e AB = 4, mas, em vez
de escrevê-las dessa forma, escreva-as na forma D+~= 6 e D~= 4, em
que o plano é olhar para as várias maneiras possíveis de inserir as duas raí-
zes A e B nos lugares D e~' de modo a conseguir uma afirmação verdadei-
ra. Há duas maneiras como isso pode ser feito. Uma é a maneira original
com que obtivemos essas equações - insira A no D e B no ~' que resulta
nas duas afirmações (verdadeiras) originais A + B = 6 e AB = 4. Se um ba-
ralho de duas cartas é embaralhado, e A está inicialmente no topo e B está
inicialmente no fundo, então D representa a letra que acaba na posição de
cima e ~' a letra que termina na posição de baixo, depois do embaralha-
mento. A substituição de A por D e de B por~ corresponde ao embaralha-
mento-fantasma. O único outro embaralhamento de duas cartas tem A
t erminando no fundo e B no topo, então, quando B é substituído por D e
A por~' as afirmações B +A = 6 e BA = 4 ainda são verdadeiras. O grupo
Galois de um polinômio é composto de todos esses em baralhamentos que
resultam em todas as equações algébricas com números racionais sendo
afirmações verdadeiras. Então, o grupo Galois da polinomial x 2 - 6x + 4 é
composto por dois embaralhamentos (fantasma e trocar as duas primeiras
cartas) que compreendem 5 2 .
N ão é sempre o caso de os dois embaralhamentos em 5 2 estarem no gru-
po Galois dos polinômios. Para ver um caso assim, considere o polinômio x 2
- 2x - 3, cujas raízes A e B são 3 e - 1. As duas raízes satisfazem A + 2B = 1,
então examine a equação algébrica com coeficientes racionais D + 2~ = 1.

110 Como a matemática explica o mundo


Se A e B são trocados no lado esquerdo da equação, a equação resultante é
B + 2A = 1, que não é uma afirmação verdadeira, já que a soma B + 2A = 1
tem resultado 5. Para esse polinômio, o único embaralhamento que gera
afirmações verdadeiras a partir das equações originais é o elemento iden-
tidade (o embaralhamento-fantasma), então esse caso do grupo Galois de
x 2 - 2x - 3 consiste somente no embaralhamento-fantasma.
Há uma citação famosa do astrônomo americano Nathaniel Bowditch,
que traduziu para o inglês a obra de Laplace, CelestialMechanics. Bowditch
afirmou: "Nunca chego a uma das afirmações de Laplace do tipo 'Então fica
evidente que' sem ter certeza de que tenho horas de trabalho duro pela
frente, antes de poder transpor o abismo, e descobrir e demonstrar como é
que fica evidente." 11 O mesmo é, em geral, verdadeiro em relação à afirma-
ção "Pode ser demonstrado" e, portanto, odeio ter de incluí-la, a menos que
haja necessidade absoluta - e aqui há necessidade absoluta. Pode ser de-
monstrado que um polinômio tem raízes que podem ser expressas em ter-
mos de radicais apenas quando seu grupo Galois possui uma estrutura par-
ticular em termos de seus subgrupos. Essa estrutura é conhecida como so-
lubilidade; sua descrição é bastante técnica, mas o nome é claramente moti-
vado pela questão de solucionar o problema de achar as raízes de um poli-
nômio por meio de radicais. O grupo Galois do polinômio x 5 - x - 1 pode
ser demonstrado (Epa, escrevi isso de novo) como insolúvel, e então as raí-
zes daquele polinômio não podem ser encontradas por radicais.

Desenvolvimentos ulteriores

A insolubilidade da quíntica provou ser um momento significativo no de-


senvolvimento da Matemática. Não é possível dizer, com certeza, o que
teria acontecido se a quíntica e os polinômios de grau mais alto provassem
ter soluções por meio de radicais, mas é possível dizer, com alguma con-
vicção, que a Matemática é um assunto muito mais interessante porque a
quíntica não tem uma solução assim.
A Matemática é uma linguagem usada para descrever uma variedade
de fenômenos - mas uma linguagem precisa de palavras. Umas das mais
importantes palavras da linguagem matemática são as funções. Funções -
como potências ou raízes - podem ser combinadas de duas maneiras bási-
cas - algebricamente (usando adição, subtração, multiplicação e divisão)

O Diamante Esperança da Matemática 111


e composicionalmente (uma depois da outra, como em embaralhamentos
sucessivos - é possível elevar um número ao quadrado e então extrair sua
raiz cúbica). A insolubilidade da quíntica equivale a uma declaração de
que o vocabulário das funções que pode ser construído com potências e
raízes é inadequado para descrever as soluções de certa equação. Isso na-
turalmente estimulou uma busca por outras funções que pudessem ser
usadas para descrever essas soluções.
De onde vêm essas funções? É comum que surjam da necessidade. As
funções trigonométricas são usadas para exprimir quantidades determina-
das por ângulos, como também para descrever fenômenos periódicos, e as
funções exponenciais e logarítmicas são usadas para descrever processos de
crescimento e decaimento. Muitas funções surgem como soluções para equa-
ções importantes (normalmente, equações diferenciais) que ocorrem na
Ciência e na Engenharia. Por exemplo, as funções Bessel (batizadas com o
nome do físico e matemático do século XIX William Bessel, que foi o pri-
meiro a calcular a distância de uma estrela) ocorrem como soluções ao pro-
blema de como uma membrana como a de uma bateria vibra quando é gol-
peada, ou de como o calor é conduzido em uma barra cilíndrica.
Em 1872, o matemático alemão Felix Klein conseguiu achar uma solu-
ção geral para a quíntica em termos de funções hipergeométricas, uma clas-
se de funções que ocorrem como uma solução para a equação diferencial
hipergeométrica. 12 Em 1911, Athur Coble resolveu a equação polinomial
geral de sexto grau, nos termos das funções de Kampé de Fériet - uma clas-
se de funções da qual eu nunca tinha ouvido falar, e duvido que 99% dos
matemáticos vivos tenham. A tendência é sombria - parece que a solução
geral de polínômios de grau cada vez maior, se tais soluções forem encon-
tráveis, serão em termos de classes de funções cada vez mais obscuras. Fun-
ções são mesmo como palavras: sua utilidade depende muito da freqüência
com que são usadas, e as funções (ou palavras) são tão especializadas que,
quando somente uns poucos as conhecem, elas têm valor limitado.
A solução de equações é central não apenas para a Matemática, mas
também para as Ciências e Engenharia. Matemáticos podem achar inte-
ressante saber que a solução para uma equação particular existe, mas,
para construir algo, é necessário saber qual é a solução - e saber com uma
exatidão de três, cinco ou oito casas decimais. A análise numérica não é,
como sugere o nome, a análise de números; é o ramo da Matemática que

112 Como a matemática explica o mundo


lida com a busca de soluções aproximadas de equações - com uma exati-
dão de três, cinco, oito (ou o que for) casas decimais. Saber que pode não
ser possível encontrar uma fórmula exata para a solução de uma equação,
mas, ainda assim, compreender que a construção de algo pode requerer
uma aproximação acurada àquela solução, motivou os matemáticos a
conceberem técnicas para encontrar essas soluções aproximadas e, o que é
igualmente importante, saber o quanto essas soluções são exatas. Uma
calculadora de bolso barata vai dar a raiz cúbica de 4 como 1,587401052;
mas, se esse número é elevado ao cubo, a resposta não será 4 - embora seja
bem próxima disso. A raiz cúbica de 4, como dada pela calculadora, tem
uma exatidão de nove casas decimais - o suficiente para a construção de
todos os dispositivos mecânicos e muitos dispositivos eletrônicos. De um
ponto de vista prático, a análise numérica pode geralmente determinar as
raízes dos polinômios com exatidão suficiente para construir qualquer coi-
sa cuja construção dependa do conhecimento dessas raízes.
No momento, porém, a busca pela solução de polinômios está embre-
nhando por novas direções. Assim como a busca pelas raízes dos polinômios
fez uma curva abrupta na aurora do século XIX e trouxe a teoria dos grupos
para dentro da questão, ramos relativamente novos da Matemática estão
atualmente sendo trazidos a fun de contribuir para a solução do problema.
Muitos dos grupos mais amplamente estudados têm conexão com as sime-
trias dos objetos. Por exemplo, vimos S3 como o conjunto de todos os em-
baralhamentos de um baralho de três cartas. Entretanto, se é possível ima-
ginar um triângulo eqüilátero com vértices A, B e C, começando com A
como o primeiro vértice e B e C como os vértices inferiores esquerdo e direi-
to, respectivamente, o triângulo pode ser girado ou refletido de modo que
sua nova posição corresponda a um dos embaralhamentos.

Triângulo 2 3 4 5 6
Vértice do Topo A e B A e B
Base B C A B C A C B B A A C

De fato, podemos ver como a estrutura de grupo surge nesse exemplo


- há duas operações fundamentalmente diferentes, a partir das quais as
outras são construídas. Essas são uma rotação do sentido anti-horário de
120 graus, que poderíamos denotar por R. O triângulo 2 é obtido do triân-

O Diamante Esperança da Matemática 113


gula l através de R. A outra operação básica é deixar o vértice do topo
inalterado mas trocar os dois inferiores; denotamos isso por F. O triângulo
4 é obtido a partir do triângulo l através de F. Da mesma forma, o triângu-
lo 3 é obtido do triângulo l através de duas execuções de R; essa operação
é denotada por RR, ou R 2 . O triângulo 5 é obtido do triângulo 1 através de
uma execução de R, depois de F, denominadas RF; o triângulo 6 é igual-
mente obtido pela execução de F e então de R - ou PR.
Esse é essencialmente o mesmo grupo que o de embaralhamentos de
um baralho de três cartas - é possível identificar R com o embaralhamen-
to que simplesmente coloca a carta do topo no fundo do baralho, e F com
o embaralhamento que deixa a carta do topo inalterada, mas muda a posi-
ção da segunda e da t erceira cartas. Esse processo de identificar dois gru-
pos aparentemente distintos entre si é conhecido como isomorfismo- um
processo que habilita os matemáticos a traduzir verdades conhecidas so-
bre um objeto para verdades conhecidas sobre o outro. A prova de que a
quíntica geral não tem solução envolve um grupo isomórfico ao grupo de
simetrias do icosaedro regular - o sólido platônico regular com vinte faces,
todas as quais são triângulos eqüiláteros. Hoje em dia, matemáticos estão
se voltando para a Geometria, na esperança de descobrir coisas que pos-
sam ser traduzidas em problemas que envolvam raízes de polinômios.
Certa vez, o político francês Georges Clemanceau disse que a guerra
era demasiadamente importante para ser deixado na m ão dos generais.
Da mesma forma, a teoria dos grupos era importante demais para ser dei-
xada com os matemáticos. A teoria dos grupos é amplamente empregada
nas ciências, porque a teoria dos grupos é a linguagem das simetrias, e a
ciência descobriu que a simetria desempenha um papel fundamental em
muitas de suas leis. Não estou certo de que alguém j á tenha escrito a Teo-
ria dos grnpos para antropólogos, ou a Teoria dos grnpos para zoólogos, mas
existem livros com títulos parecidos escritos para bioquímicos, quimicos,
engenheiros - provavelmente a maior parte das letras do alfabeto já foi
contemplada, e eu estaria disposto a apostar que todas as letras do alfabe-
to estão representadas, quando a questão é descrever tipos de grupos (já
observamos que a letras é usada para "grupo solúvel"). Perceb er padrões,
e elementos faltantes de padrões, é muitas vezes a chave para importantes
descobertas, e a teoria dos grupos provê uma estrutura de organização que
comumente mostra o caminho até o elemento faltant e.

114 Como a matemática explica o mundo


A história da busca por soluções por radicais para equações polinomiais
não terminou com a descoberta de que era impossível encontrar fórmulas
para a quíntica; em vez disso, ramificou-se para gerar resultados úteis e
fascinantes, que mesmo Cardano e Ferrari, que alcançaram o topo da
montanha do que poderia ser feito nessa área, sem dúvida achariam tão
encant adores quant o aqueles revelados na Ars Magna, de Cardano.

NOTAS
1. Veja http://historyl900s.about.com/od/1950s/a/ hopediamond.htm.
2. Seria mais exato dizer que os polinômios são as únicas funções diferenciáveis em
toda parte que podemos calcular. Por exemplo, a função f(x) , queridinha dos analis-
tas, defmida por f(x) =Ose x é racional e f(x) = 1 se x é irracional, pode ser calculada
para todos os valores da variável. Essa função é altamente artificial, já que nunca se
mostra em nenhum processo relacionado ao mundo real.
3. A. B. Chace, L. S. Bull, H . P . Manning e R. C. Archibald, The Rhind Mathematical
Papyrus (Oberlin, Ohio: Mathematical Association of America, 1927-29). Uma
boa descrição desse m étodo, conhecido como o método da falsa posição, pode ser
encontrada em http://www-groups.dcs.st- and.ac.uk/-history/HistTopics/Egyptian_
papyri.htrnl.
4. Um exemplo de solução de uma equação usando o método de completar o quadrado é
x 2 -4x- 5 =O
x 2 - 4x = 5
x2 - 4x + 4 = 5 + 4 (o passo de "completar o quadrado")
(x - 2) 2 = 9
x - 2 = 3 ou - 3
x=5oux= - l
5. W. Dunham, Journey Through Genius (New York: John Wiley & Sons, 1990) .
6. Como citado em http://www-history.mcs.st-andrews.ac.uk/Biographies/ Cardan.
htrnl.
7. G. Cardano, Ars Magna (Basel, 1545) .
8. Ibid.
9. Como citado em http://www-groups.dcs.st-and.ac.uk/-history/ Biographies/ Ruf.
fíni.html.
10. CarlB. Boyer, AHistoryofMathematics (NewYork: John Wiley&Sons, 1991), p . 523.
Edição brasileira: História da Matemática (São Paulo: E. Blucher, Ed. da USP, 19 74).
11 . Citado em F. Cajori, The Teaching and History of Mathematics in the United States.
Whitefish, MT: Kessinger Publishing, 2007.
12. A série geométrica de razão r é a soma infinita 1 + r + r 2 + r3 +... ; séries hipergeomé-
tricas generalizam essa série. Uma discussão mais detalhada desse tópico pode ser
encontrada em http://en.wikipedia.org/wiki/Hypergeometric_functions, mas, a
menos que planeje uma carreira que requeira um conh ecimento substancial de Ma-
temática avançada, você pode pular essa discussão.

O Diamante Esperança da Matemática 115


eis nunca se encontrarão

É preciso contar com um adulto


Há alguns prazeres que até mesmo uma criança de 3 anos pode apreciar,
como sorvete e raios de Sol morno batendo no rosto num belo dia de pri-
mavera - mas há outros que estão reservados aos adultos. Conversas inte-
ligentes. Verduras e legumes. G eometria.
Acredite em mim, não acordei aos 18 anos e disse a mim mesmo: "A
Matemática parece interessant e - talvez eu devesse me especializar nessa
área." Eu gostava de Matemática desde a primeira vez em que comecei a
contar coisas, no jardim-de-infância, ou até mesmo antes disso. Bom, eu
gostava de Matemática até que conheci a G eom etria, e aquele foi um ano
péssimo, no qual lutei para conseguir conceitos B, pois eu teimava em não
ver o modo de provar algumas coisas e em saltar etapas em outras coisas
que eu conseguia ver como provar. Álgebra avançada e Trigonometria rea-
vivaram meu entusiasmo e, quando cheguei à Geometria Analítica e ao
Cálculo, eu estava de volta aos trilhos da Matemática - em parte porque

116 Corno a matemática explica o mundo


esses dois assuntos eliminavam quase por completo a necessidade de saber
muita coisa além do básico da Geometria.
Não consigo lembrar o que me incomodava mais na Geometria, mas
lembro que provas indiretas* estavam perto do topo da lista. Uma prova
indireta é aquela em que você supõe a negação de uma conclusão, mostra
que isso leva a uma contradição e, conseqüentemente, a única opção res-
tante é que a conclusão procurada deve ser correta. Um grande número de
provas indiretas na Geometria resulta do infame quinto postulado de Eu-
clides - o postulado das paralelas.

Geometria não-controversa

Geometria não-controversa é tudo o que vai até o postulado das paralelas,


mas não o inclui. Inclui objetos básicos que não podemos realmente defi-
nir, mas todo mundo sabe o que eles são, algumas definições incluindo ob-
jetos básicos, alguns fatos aritméticos e geométricos óbvios, e os quatro
postulados que precedem o postulado das paralelas.
Objetos básicos são coisas como, por exemplo, os pontos. Euclides
definiu o ponto como aquilo que não tem partes. 1 Tudo bem por mim -
não sou suficientemente filósofo para dizer o que são exatamente esses
constructos abstratos, mas eu (e você) sabemos aonde Euclides queria
chegar, então podemos seguir adiante. Fatos aritméticos óbvios são afir-
mações tais como, se iguais são somados a iguais, o todo é igual. Um dos
fatos geométricos óbvios de Euclides era o de que coisas que coincidiam
entre si eram iguais - se os segmentos de linha AB e CD podem ambos ser
posidonados de modo a coincidir, então AB =CD. Chegamos agora aos
quatro postulados não-controversos. Parto da suposição de que segmen-
tos de linha têm pontos finais, mas linhas retas não. Usando essa termino-
logia, os postulados são:

Postulado 1: Quaisquer dois pontos podem ser unidos por um único


segmento de reta.
Postulado 2: Qualquer segmento de reta pode ser prolongado indefi-
nidamente em uma linha reta.

*Nota do Revisor Técnico : Também conhecida como "demonstração por absurdo".

E os dois nunca se encontrarão 117


Postulado 3: Há um único círculo com um centro e um raio dados.
Postulado 4: Todos os ângulos retos são iguais.2

Há uma quantidade fabulosa de Geometria que pode ser feita usando


apenas esses quatro postulados - mas não nos preocuparemos com isso aqui.

O postulado das paralelas


A versão inicial de Euclides para o postulado das paralelas era, para dizer o
mínimo, desajeitada.
Postulado 5 (Euclides): Se uma linha reta incidindo sobre duas linhas
retas compõe os ângulos interiores no mesmo lado menores do que dois
ângulos retos, as duas linhas retas, quando estendidas indefinidamente, se
encontram naquele lado no qual estão os ângulos menores do que dois ân-
gulos retos .3
Para entender o que está acontecendo aqui, pense em um triângulo
com todos os seus lados estendidos indefinidamente. Olhe para o lado que
você considera ser a base do triângulo . Os "ângulos interiores" antes referi-
dos são os ângulos que a base faz com os outros dois lados; a soma daqueles
dois ângulos é menor do que 180 graus, ou seja, a soma de dois ângulos re-
tos. Se fosse possível mudar suficientemente a orientação dos lados, de
modo que eles se cruzassem no outro lado da base, os "ângulos interiores"
aqui seriam de novo uma soma inferior a 180 graus. Então, o que acontece
quando os ângulos interiores somam precisamente 180 graus? As duas ou-
tras linhas não se encontram em nenhum dos lados da base - então ou elas
devem se encontrar na base (mas isso aconteceria apenas se a base coinci-
disse com os lados), ou não se encontram.
Como você pode ver, não é fácil trabalhar com essa formulação do
postulado das paralelas e, mesmo na Grécia antiga, foram feitas algumas
sugestões para revisá-la. Foi Prado quem sugeriu uma versão que, hoje
em dia, usamos com freqüência (duas linhas p aralelas estão em todo lugar
separadas pela mesma distância), mas foi o matemático escocês John
Playfair quem levou o crédito, já que escreveu um texto de Geometria
muito popular na virada do século XIX que incluía essa definição. Então,
como agora, o crédito vai para o indivíduo que tem o melhor departamen-
to de relações públicas.

118 Como a matemática explica o mundo


Postulado 5 (Axioma de Playfair) : Através de cada ponto fora de
uma dada linha, apenas uma linha pode ser traçada paralelamente à li-
nha dada. 4
Essa foi a forma como aprendi o postulado das paralelas. Ela apresenta
duas vantagens óbvias. A primeira é que é muito mais fácil de compreen-
der, visualizar e usar do que a formulação original de Euclides. A segunda
vantagem é mais sutil - conduz à colocação da seguinte pergunta: Será
possível criar geometrias em que mais de uma linha pode ser traçada para-
lelamente à linha dada?
Certamente, tal geometria não pode existir no plano, já que este é o
hábitat da geometria plana de Euclides, com seus cinco postulados. Po-
rém, se nos movemos para o espaço euclidiano tridimensional, podemos
ter um número infinito de linhas paralelas traçadas através de um ponto
dado fora de uma linha dada - paralela, isto é, no sentido de que ambas as
linhas, quando estendidas, não se encontram. Simplesmente tome uma li-
nha e um plano paralelo a essa linha, mas que não a contenha. Quando se
fixa um ponto naquele plano, qualquer linha através daquele ponto evi-
dentemente não encontrará a linha dada- embora todas, menos uma des-
sas, sejam chamadas linhas oblíquas na terminologia moderna (existe ape-
nas uma que é genuinamente paralela à linha dada, porque fica em um
plano com a linha dada).

Girolamo Saccheri
Nem todos os matemáticos italianos foram tão pitorescos quanto Tartaglia,
Cardano e Ferrari. Girolamo Saccheri foi ordenado padre jesuíta e aprendeu
Filosofia e Teologia na Universidade de Pávia. Ele também ocupava a cadei-
ra do Departamento de Matemática de lá, o que me leva a pensar se aquela
situação guarda alguma semelhança com o que aconteceu durante a Gran-
de Seca de Professores de Matemática da década de 1970, quando a escas-
sez de professores de Matemática nas seis últimas séries do ensino médio al-
gumas vezes resultou em professores de Arte e de Educação Física virando
instrutores de Álgebra. Uma boa amiga minha havia se especializado em
Ciência Política. Quando se tornou professora das últimas séries anteriores
ao ensino médio, em 1970, precisava-se de alguém para ocupar uma vaga
no grupo de professores de Álgebra; ela a ocupou e teve uma carreira re-
compensadora e cheia de sucessos como professora de Álgebra.

E os dois nunca se encontrarão 119


De qualquer forma, não se ouviu falar muito de Saccheri até o ano de
1733, quando sua bomba devastadora, Euclides ah Omni Naevo Vindica-
tus (há várias traduções - prefiro "Euclides Livrado de Todas as Falhas"),
foi publicada. Era mais exatamente uma bomba-relógio, não tendo seu
valor reconhecido senão muito tempo depois. Nela, Saccheri faria os pri-
meiros movimentos importantes em direção ao desenvolvimento da Geo-
metria não-euclidiana.
Saccheri fez o que aqueles antes dele tentaram fazer - provar o postulado
das paralelas a partir dos outros quatro postulados. Ele começou com um seg-
mento de linha (a base) no qual construiu dois segmentos de linha de com-
primento igual (os lados), cada um formando um ângulo reto com a base.
Ele, então, conectou os pontos Bnais dos dois segmentos de linha (o topo),
compondo uma figura que hoje é conhecida como quadrilátero de Saccheri - e
que você, quando fizer isso, imediatamente reconhecerá como um retângulo.
Entretanto, você sabe que é um retângulo porque cada ponto do topo
está à mesma distância da base (os lados de comprimento igual fazem com
que seja assim), e você aceitou a versão de Proclo para o postulado das pa-
ralelas. Saccheri não pressupôs o postulado das paralelas. Usando os ou-
tros postulados, ele foi capaz de mostrar, com bastante facilidade, que os
ângulos dos vértices, que são os dois ângulos feitos no topo com os lados,
tinham de ser iguais. Havia então três possibilidades: os ângulos dos vérti-
ces podiam ser ângulos retos (o que então demonstraria que o postulado
das paralelas poderia ser provado a partir dos outros quatro), os ângulos
dos vértices podiam ser obtusos (com mais de 90 graus), ou os ângulos dos
vértices podiam ser agudos (menos de 90 graus).
Saccheri primeiramente desenvolveu uma prova indireta, na qual de-
monstrou que a hipótese de que os ângulos dos vértices eram obtusos le-
vava a uma contradição. Ele então tentou demonstrar que a hipótese de
que os ângulos dos vértices eram agudos também levava a uma contradi-
ção- mas, depois de muito trabalho, foi incapaz de fazer isso sem falsificar
a prova, ao pressupor que linhas que se encontravam em um ponto numa
distância infinita (isto é chamado "ponto do infinito") de fato se encontra-
vam em algum ponto da linha. Nesse momento, Saccheri tinha duas op-
ções - apostar na prova fraudada, de modo a demonstrar o resultado que
tinha um valor emocional para ele, ou admitir que era incapaz de demons-
trar que a hipótese de que os ângulos dos vértices eram agudos levava a

120 Como a matemática explica o mu ndo


uma contradição. Em retrospectiva, caso tivesse escolhido a segunda op-
ção, ele possivelmente teria permitido que a descoberta da Geometria
não-euclidiana acontecesse décadas antes- mas ele escolheu a primeira.
Saccheri também foi o primeiro a perceber uma importante proprie-
dade das geometrias não-euclidianas: a suposição de que os ângulos dos
vértices eram agudos levava à conclusão de que a soma dos ângulos de um
triângulo deve ser menor do que 180 graus. A maior parte das investigações
que envolvem a questão de o universo ser euclidiano ou não-euclidiano
inclui a medição dos ângulos de um triângulo - quanto maior for o
triângulo, melhor - para ver se essa medição revela a geometria fundamen-
tal do universo. Um triângulo cuja soma dos ângulos seja menor que 180
graus, e de tal modo que o resultado esteja fora da margem de erro experi-
mental, provaria inquestionavelmente que o universo é não-euclidiano.
Porém, um triângulo cuja soma dos ângulos é próxima de 180 graus so-
mente forneceria evidências corroborativas de que o universo é euclidia-
no, e não constituiria um resultado definitivo.

Uma nova visita dos anjos dançantes


Saccheri publicou seus resultados em 1733. Cerca de trinta anos depois, o
matemático alemão Johann Lambert, colega de Leonhard Euler e de Jo-
seph Lagrange, atacou novamente o problema, usando uma abordagem
bastante parecida. Em vez de usar os quadriláteros de Saccheri (dois ângu-
los retos com dois lados iguais), ele se voltou para um quadrilátero com três
ângulos retos e extraiu conclusões sobre o quarto ângulo usando os postula-
dos de 1 a 4. Como Saccheri, ele descartou a possibilidade de que o quarto
ângulo pudesse ser obtuso, mas, ao contrário de Saccheri, reconheceu que
não se podia obter uma contradição caso se supusesse que o quarto ângulo
era agudo. Partindo da suposição de que o quarto ângulo era agudo, Lam-
bert conseguiu provar uma série de proposições importantes sobre modelos
para a geometria não-euclidiana - tanto quanto George Seligman, meu
professor de Álgebra na faculdade, conseguiu provar resultados sobre álge-
bras de dimensão 16. Entretanto, Lambert não construiu modelos para geo-
metrias não-euclidianas, então na época de sua morte ainda não estava claro
se anjos poderiam dançar na cabeça desse alfinete específico. Lambert teria
mais sorte do que Seligman, dado que o socorro veio a caminho - mas o ve-
redicto final não seria declarado senão quase um século mais tarde.

E os dois nunca se encont rarão 121


Uma sinfonia inédita do Mozart da Matemática
Na virada do século XIX, três matemáticos percorreriam essencialmente
o mesmo caminho em direção à construção das geometrias não-euclidia-
nas - e eles o fizeram basicamente da mesma maneira, substituindo o Axio-
ma de Playfair por uma alternativa. Cada um dos três trabalhou com
"Através de cada ponto fora de uma linha dada, existe mais de uma parale-
la à linha dada", e cada um tirou praticamente as mesmas conclusões -
embora a história dê a maior parte do crédito a Nikolai Ivanovich Loba-
chevsky e János Bolyai.
Embora tenha sido, indubitavelmente, o primeiro a chegar à conclusão
de que uma Geometria consistente era possível usando a alternativa acima ao
Axioma de Playfair, Gauss viveu numa época diferente - e jogava com a Ma-
temática usando um conjunto de regras diferente do que é usado normal-
mente nos dias de hoje. O lema não-oficial de Gauss era Pauca, Sed Matura-
que se traduz do latim como "Poucos, mas maduros", e expressa sua atitude
em relação à publicação. Gauss não publicou nada ~té estar convencido de
que fazê-lo lhe acrescentaria prestígio (o que, considerando seu prestígio, sig-
nificava que ele apenas publicaria o creme de la creme) e também de que o re-
J

sultado tivesse sido polido até alcançar a perfeição máxima. É evidente que,
como qualquer matemático, ele certamente não queimou suas anotações, e
estava disposto a comunicar seus resultados em caráter particular. Certo dia,
ele recebeu uma visita de Carl Jacobi, na época considerado o segundo m e-
lhor matemático da Europa. Jacobi tinha a intenção de discutir um resultado
que obtivera, mas Gauss tirou algumas anotações de uma gaveta para mos-
trar a Jacobi que ele próprio já chegara àquele resultado. Um aborrecido Ja-
cobi observou: "É uma pena que você não tenha publicado esse resultado,
tendo em vista que publicou artigos tão mais pobres."5
Newton provavelmente estabeleceu o padrão de ouro da recalcitrância,
quando o assunto era publicação. Ele colocou sua obra sobre gravitação em
uma gaveta - provavelmente como resultado de uma maldosa disputa
acadêmica com Robert Hooke sobre a natureza da luz. Alguns anos mais
tarde, o astrônomo Edmond Halley (famoso pelo cometa ao qual deu seu
nome) foi visitar Newton, e perguntou a ele qual seria o movimento de um
corpo sob uma lei do inverso do quadrado de atração gravitacional.Newton
surpreendeu Halley ao dizer-lhe que havia calculado que o movimento t e-

122 Como a matemática explica o mundo


ria a forma de elipse, e Halley ficou tão impressionado que decidiu ser opa-
trocinador dos custos de publicação do livro de Newton, Princípios matemá-
ticos da fiwsofia natural - que Newton teve dificuldade de achar quando
Halley o visitou, pois não lembrava onde a havia escondido. Quando New-
ton não evitava a publicação, publicava anonimamente - mas sua solução
para um problema proposto por Johann Bernoulli era tão elegante que,
mesmo tendo sido publicada anonimamente, Bernoulli sabia que era de
Newton, declarando que sabia reconhecer um leão pela pata.
A publicação é um assunto muito diferente nos dias de hoje. Com raras
exceções (como quando Andrew Wiles anunciou uma solução para o últi-
mo teorema de Fermat), os matemáticos geralmente publicam, ou tentam
publicar, o que têm - mesmo que não seja uma solução para um problema
trabalhada até os últimos detalhes, ou nem mesmo uma solução completa.
Existem boas razões para isso. Matemáticos jovens, especialmente de
universidades de prestígio, estão bem conscientes do adágio "Publique ou
pereça" .* A decisão final sobre a contratação definitiva dos professores as-
sistentes geralmente não acontece depois do sexto ano após a contratação
inicial, e não importa quão bom professor você seja, numa faculdade que
ocupa o topo dos rankings, é bom que tenha algo a mostrar, pronto para
ser publicado, daqueles seis anos - ou então comece a procurar um novo
emprego. Como resultado disso, a pressão para publicar - mesmo que
prematuramente- é enorme. Além disso, mesmo para os professores titu-
lares, mostrar algo para o mundo é importante porque (1) ajuda na hora
de contribuir para uma publicação e (2) assim fazendo, você pode forne-
cer a peça-chave de um quebra-cabeças, que pode acabar transformando
um resultado não-provado, ou o Teorema de Outro Alguém, num Teore-
ma Seu e de Outro Alguém. Sei disso porque, quando li o artigo de um es-
timado matemático tchecoslovaco, Vlastimil Pták, tive uma das poucas
boas idéias de minha vida, 6 e escrevi um pequeno artigo que foi publicado
no Proceedings of the Amerícan Mathematical Society. O melhor resultado
desse artigo acabaria sendo conhecido como o teorema de Pták-Stein (até
onde sei, a única coisa que existe batizada com meu nome) - e, nove me-
ses mais tarde, um artigo apareceu noutro lugar contendo exatamente o
mesmo resultado. Como diz Tom Lehrer em sua hilária canção "Nikolai
lvanovich Lobachevsky",

*Nota do Revisor Técnico : Em inglês, publish ar perish.

E os dois nunca se encontrarão 123


And then 1 write
By morning, night,
And aftemoon,
And pretty soon
My name in Dnepropetrovsk is cursed,
When he finds out 1 published first~ 7 *

Gauss teve um longo histórico de investigação das geometrias alterna-


tivas. Aos 15 anos, contou a seu amigo Heinrich Christian Schumacher
que poderia desenvolver geometrias logicamente consistentes além da geo-
metria euchdiana usual. Inicialmente, ele tencionava tentar deduzir o pos-
tulado das paralelas dos outros quatro, mas eventualmente chegou à mes-
ma conclusão que chegara aos 15 anos, de que havia outras geometrias
consistentes. Em 1824, ele escreveu para Franz Taurinus, em parte para
corrigir um erro na suposta prova de Taurinus do postulado das paralelas.
Depois de assim fazer, Gauss escreveu: "A suposição de que a soma dos
três ângulos de um triângulo é menor do que 180º leva a uma curiosa geo-
metria, completamente diferente da [euclidiana], mas perfeitamente
consistente, a qual desenvolvi de modo satisfatório para mim ... Os teore-
mas dessa geometria parecem ser paradoxais e, para os não-iniciados, ab-
surdos; mas uma reflexão serena e firme revela que eles não contêm nada
de impossível". 8 Parece bastante claro que Gauss não havia construído um
modelo para uma geometria consistente, mas havia simplesmente se con-
vencido de que ela era possível.
Gauss concluiu sua carta para Taurinus dizendo: "De qualquer modo,
considere privada esta comunicação, da qual nenhum uso púbhco ou que
leve à publicidade deve ser feito. Talvez Um dia eu venha a tomar púbhcas
minhas investigações, caso disponha, em algum momento do futuro, de
mais tempo livre do que possuo nas atuais circunstâncias."Vários anos de-
pois, numa carta ao astrônomo Heinrich O lbers, ele reiterou tanto seus
resultados quanto seu desejo de não vê-los publicados.
Não obstante, ele estava suficientemente impressionado com a possibi-
hdade de que a Geometria do mundo real pudesse não ser euclidiana para

*Nota do Tradutor: "Então escrevo/De manhã, à noite/E nem de tarde abandono minha
obra/E sem muita demora/Meu nome em Dnepropetrovsk é amaldiçoado/Quando des-
cobre que fui antes dele publicado~"

124 Como a matemática explica o mundo


conceber um experimento que resolvesse a questão . Saccheri e Gauss ha-
viam deduzido que, se o postulado das paralelas não se sustentasse, a soma
dos ângulos em um triângulo resultaria num total menor do que 180 graus.
Gauss estabeleceu um triângulo usando as montanhas em volta de sua casa,
em Gottingen; os lados do triângulo tinham tamanho aproximado de
64km. Ele mediu os ângulos do triângulo e computou a soma; se obtivesse
um resultado significativamente inferior a 180 graus, ele poderia ter chega-
do a uma conclusão devastadora. Mas não era para ser: a soma dos ângulos
diferia por menos do que dois segundos (1/1.800 de um grau), uma dife-
rença que certamente poderia ser resultado de um erro experimental.

Wolfgang Bolyai e János Bolyai


Wolfgang Bolyai (também conhecido como Farkas Bolyai) era amigo de
Gauss, dos dias de estudante dos dois em Gottingen. Quando estudantes,
haviam discutido aquilo que chamavam de problema das paralelas e, ao
longo dos anos, mantiveram a amizade por cartas, quando Wolfgang re-
tornou à Hungria. Entretanto, o filho de Wolfgang, János, era, sem som-
bra de dúvida, a estrela matemática da família. Wolfgang deu aulas de Ma-
temática a János, e o filho provou ser um aprendiz extraordinariamente
veloz. Certo dia, Wolfgang caiu doente, quando János tinha 13 anos, mas
o pai não se sentiu nem um pouco mal de mandar seu filho substituí-lo nas
palestras que deveria dar na faculdade. Não estou certo de como eu me
sentiria, caso um garoto de 13 anos aparecesse no lugar de meu professor.
Quando János tinha 16 anos, Wolfgang escreveu a Gauss, pedindo que o
amigo aceitasse seu filho como aprendiz, para facilitar o progresso de sua
carreira. Possivelmente a carta se extraviou, mas o fato é que Gauss não
respondeu, e então J ános entrou na Academia Imperial de Engenharia,
planejando uma carreira no Exército. Além de ser um matemático extre-
mamente talentoso, János era um duelista soberbo e violinista excepcio-
nal. Certa vez, ele aceitou um desafio no qual lutou em 13 duelos conse-
cutivos contra oficiais de cavalaria, mas estipulou que seria permitido to-
car uma peça para violino entre cada dois duelos. Ele venceu os 13; não há
registro de críticas às suas performances ao violino.
Na academia, János mostrou interesse pelo postulado das paralelas.
Como todos os demais, seus esforços iniciais foram voltados à tentativa de

Eos dois nunca se encontrarão 125


prová-lo. Seu pai, que havia batalhado sem sucesso com o problema, ad-
vertiu o filho para que concentrasse seus esforços em outra coisa. "Não
desperdice nem uma hora sequer nesse problema", escreveu Wolfgang.
"Ele não leva a resultado algum e, na verdade, vai envenenar toda a sua
vida ... Acredito que eu mesmo tenha investigado todas as idéias concebí-
veis referentes a esse assunto."9
J ános não foi o primeiro filho a ignorar os conselhos do pai e, em 1823,
mandou este comunicado a ele: "Estou decidido a publicar um trabalho
sobre as paralelas assim que conseguir completar e organizar o material, e
quando a oportunidade surgir. No momento ainda não vejo com clareza
meu caminho, mas a direção que segui quase com certeza me levará a meu
objetivo, desde que tudo seja possível... Tudo o que posso dizer agora é
que, a partir do nada, criei um estranho mundo novo."1 º
J ános havia, de fato, criado um estranho mundo novo. Ele desenvol-
veu um sistema completo de Geometria, construindo três famílias distin-
tas de diferentes conjuntos de postulados. O primeiro sistema incorpora-
va os cinco postulados clássicos de Euclides - isto é, obviamente, Geome-
tria euclidiana. O segundo sistema, hoje conhecido como Geometria hi-
perbólica, incluía os quatro primeiros postulados e a negação do postula-
do das paralelas. Essa seria a grande contribuição de János, um desenvolvi-
mento sistemático de uma Geometria não-euclidiana. Finalmente, seu úl-
timo sistema, a Geometria absoluta, se baseava somente nos primeiros
quatro postulados de Euclides.
O trabalho de János, a única coisa que ele jamais publicou, foi incluí-
do como um apêndice de 24 páginas a um livro-texto escrito por seu pai.
O pai enviou o trabalho a Gauss, que escreveu a um amigo dizendo consi-
derar János Bolyai um gênio de primeira ordem. Porém, sua carta a Wolf-
gang foi bastante diferente. Gauss comentou: "Louvá-lo seria o mesmo
que louvar a mim mesmo. Pois o conteúdo ir1teiro da obra ... coincide qua-
se exatamente com minhas próprias meditações, que têm ocupado minha
mente pelos últimos 30 ou 35 anos."II
Embora sua intenção não tenha sido desencorajar, teve um efeito ar-
rasador sobre János, que ficou tremendamente perturbado ao saber que
Gauss havia anteriormente transposto o mesmo caminho. A partir daí, a
vida de J ános deteriorou significativamente. Ele passou a receber uma pe-
quena pensão quando foi dispensado do Exército, e foi viver numa proprie-

126 Como a matemática explica o mundo


dade da família. Isolado da comunidade matemática, continuou a desen-
volver algumas de suas próprias idéias, e deixou atrás de si vinte mil pági-
nas de anotações matemáticas. János acabou se tornando ainda mais
amargurado quando sua elevada realização - a primeira pessoa a publicar
uma Geometria não-euclidiana consistente - foi tomada dele.

Nikolai lvanovich Lobachevsky (1792-1856)


O terceiro descobridor da Geometria não-euclidiana com esse nível de
detalhamento foi, na verdade, o primeíro - ou pelo menos o primeíro a
publicar. Nikolai lvanovich Lobachevsky era o filho de um funcionário
público, que era pobre. Seu pai morreu quando Nikolai tinha 7 anos, e a
viúva se mudou para Kazan, no Leste da Sibéria. Nikolai e seus dois ír-
mãos receberam bolsas de estudo do governo para escolas de ensino mé-
dio, e Nikolai entrou na Kazan University, pretendendo se tornar um ad-
ministrador médico. Em vez disso, ele passaria o resto de sua vida lá, como
estudante e professor, e administrador.
Evidentemente, ele um estudante de enorme talento, pois se graduou
na universidade antes de completar 20 anos, com grau de mestre tanto em
Física quanto em Matemática. Ele então recebeu uma cadeira de profes-
sor assistente e se tornou professor titular aos 23 anos. Ê verdade que ou-
tros talentos da Matemática também se tornaram professores titulares
ainda bastante novos, mas este era, ainda assim, um feito impressionante.
Lobachevsky trabalhou praticamente dentro das mesmas linhas de Gauss
e Bolyai, usando a suposição alternativa de que, através de cada ponto fora
de uma linha dada, existia mais de uma paralela àquela linha, e partiu daí
para desenvolver a Geometria hiperbólica. Ele publicou em 1829 (portan-
to, ganhando precedência, pois Gauss nunca publicou, e a obra de Bolyai
saiu em 1833), em um ensaio intitulado On the Foundatíons of G eometry. Po-
rém, em vez de passá-las a uma publicação de maior porte, elas apareceram
no Kazan Messenger, uma publicação mensal interna da universidade.
Lobachevsky, acreditando que merecia uma audiência maior e mais cul-
·ta, submeteu-a à apreciação da Academia de São Petersburgo - onde foi su-
mariamente rejeitada por um parecerista medíocre, que falhou em perceber
seu valor. A última frase pode parecer bastante forte, mas, por ter tido alguns
artigos meus recusados por indivíduos semelhantes, simpatizo com Loba-

E os dois nunca se encontrarão 127


chevsky. De qualquer forma, o esforço de Lobachevsky foi outro acréscimo à
grossa lista de grandes artigos que inicialmente foram recusados.
Para crédito de Lobachevsky, ele se recusou a perder a coragem e, final-
mente, teve um livro publicado em 1840, em Berlim: Geometric Investiga-
tions on the Theory of Parallels (Investigações geométricas sobre a teoria das
paralelas). Lobachevsky enviou uma cópia do livro a Gauss, que ficou sufi-
cientemente impressionado para escrever uma carta de congratulações a
Lobachevsky. Gauss também escreveu a seu velho amigo Schumacher,
com quem havia inicialmente discutido as geometrias alternativas, dizendo
que, embora não estivesse surpreso com os resultados de Lobachevsky, já
os tendo antecipado, estava, contudo, intrigado com os métodos que Loba-
chevsky havia usado para alcançá-los. Gauss, já velho, até estudou a língua
russa, para poder ler os outros artigos de Lobachevsky1 A vida de Loba-
chevsky diferiu significativamente da de János Bolyai. Lobachevsky se to-
mou reitor da Kazan University aos 34 anos e viveu confortavelmente de-
pois disso, mas nunca deixou de buscar reconhecimento para seus esforços
com a Geometria não-euclidiana. Para o aniversário de meio século da Ka-
zan University, ele fez uma última tentativa. Mesmo tendo ficado cego, ele
ditou "Pangeometry, ora Summary of the Geometric Foundations of a Ge-
neral and Rigorous Theory of Parallels" (Pangeometria, ou um sumário dos
fundamentos geométricos de uma teoria das paralelas geral e rigorosa), que
foi publicada na revista cientifica da Kazan University.
O reconhecimento a Lobachevsky finalmente chegou, mas só depois
de sua morte . Assim como Hilbert havia saudado os esforços de Cantor, o
matemático inglês William Clifford disse de Lobachevsky: "O que Vesalius
foi para Galena, o que Copérnico foi para Ptolomeu, assim foi Loba-
chevsky para Euclides." 12 Hoje, todos os três participantes principais são
reconhecidos como co-descobridores da Geometria não-euclidiana, em-
bora o grosso do crédito vá para Bolyai e Lobachevsky, que desenvolve-
ram suas idéias de modo independente - e as publicaram. Infelizmente,
quando Bolyai soube do trabalho de Lobachevsky, inicialmente acreditou
que era uma tentativa de Gauss de lhe tirar o merecido lugar no firma-
mento matemático, e que Gauss teria repassado a Lobachevsky algumas
das idéias dele, Bolyai. Não obstante, quando Bolyai examinou o trabalho
de Lobachevsky, teve integridade suficiente para comentar que algumas
das provas de Lobachevsky eram obra de um gênio, e que a obra como um
todo era uma realização monumental.

128 Como a mat emát ica expl ica o mundo


Outro paralelo
É fascinante ver quantas vezes a história se repete - mesmo a história da
Matemática. Vimos que a história da hipótese do continuo é muito pare-
cida com a história do postulado das paralelas. Um sistema axiomático é
delineado, e o status de um axioma adicional é posto em dúvida - será de-
monstrável a partir dos outros axiomas, ou não? Em ambos os casos, o axio-
ma adicional acabou se provando independente do conjunto original - a
inclusão quer do axioma adicional ou de sua negação resultava em siste-
mas consistentes de axiomas. O que é simplesmente fascinante é como as
histórias são paralelas entre si - um grande matemático (Kronecker para
Cantor, Gauss para Bolyai), quer d eliberadamente (Kronecker), quer
inadvertidamente (Gauss), impede um matemático menor de alcançar o
reconhecimento merecido, e é deixada para a posteridade a tarefa de con-
ferir as homenagens. Enquanto isso, o efeito é arruinar uma vida.
A Matemática não é diferente da maioria dos outros esforços huma-
nos, no sentido de que h á indivíduos de êxitos admiráveis, mas com cará-
ter bem menos respeitável.

Eugenio Beltrami e a última peça do quebra-cabeça


Havia um obstáculo final ainda não-superado: o desenvolvimento de um
modelo que exibisse as maravilhosas propriedades geométricas que Gauss,
Bolyai e Lobachevsky haviam formulado. Isto foi conseguido por Eugenia
Beltrami, um geômetra italiano que, em 1868, escreveu um artigo no qual
de fato construía tal modelo. Beltrami estava, sem dúvida, tentando en-
contrar uma realização concreta para a t eoria que os três primeiros geô-
metras não-euclidianos haviam desenvolvido, pois ele escreveu nesse arti-
go: "Tentamos encontrar uma fundação real para essa doutrina, em vez de
admitir para ela a necessidade de uma nova ordem de identidades e concei-
tos. "13 Beltrami também desempenhou um importante papel na história
da Geometria não-euclidiana, pois foi ele o primeiro a voltar a atenção so-
bre o trabalho que Saccheri fizera.
Muitas curvas interessantes na Matemática resultaram da análise de
um problema físico. Uma dessas curvas é a tractrix, que é a curva criada
pela seguinte situação: imagine que o barbante de um ioiô esteja comple-

Eos dois nunca se encontrarão 129


tamente esticado e com a extremidade livre presa em um trenzinho de
ferrorama viajando em trilhos retos. O trem se move a uma velocidade
constante, mantendo a corda retesada. A tractrix representa a curva traça-
da pelo centro do ioiô; torna-se cada vez mais próxima dos trilhos, mas
nunca de fato os alcança.
A tractrix é rotacionada em volta dos trilhos do trem, o trilho repre-
senta um eixo central de simetria para a superfície resultante, que é co-
nhecida como uma pseudoesfera. A pseudoesfera é o modelo há muito
procurado para uma Geometria não-euclidiana, e cada triângulo dese-
nhado em sua superfície tem a soma dos ângulos menor do que 180 graus.

Será o universo euclidiano ou não-euclidiano?


O experimento de Gauss de medir a soma dos ângulos num triângulo cujos
lados mediam aproximadamente 64km foi o primeiro a t entar determinar
se a geometria do universo poderia ser não-euclidiana. Lembre-se de que
Gauss descobriu, dentro de uma margem de erro experimental, que sua
medição era consistente com um universo euclidiano. Essa ainda é uma
questão que fascina astrônomos e, portanto, experimentos continuam
sendo feitos até o dia de hoje, com os comprimentos sendo empregados
agora na ordem dos bilhões de anos-luz. Os dados mais recentes, da Sonda
Anisotrópica de Microondas Wilkinson, ficam firmemente do lado dos
gregos - de acordo com a melhor determinação possível, a Geometria de
larga escala do universo é plana, como os gregos pensaram antes mesmo
que lhes ocorresse a idéia de que a própria Terra talvez fosse redonda.

NOTAS
1. R. Trudeau, The Non-Euclidean Revolution (Boston, Mass: Birkhauser, 1987), p . 30.
Itens tais como pontos e linhas são denominados termos primitivos. Euclides estava
dizendo que os pontos são os menores objetos que existem, e que não podem ser
subdivididos. Ele também diz coisas como "uma linha é um comprimento sem lar-
gura", mas a qualifica com o adjetivo "reta" quando a situação assim exige.
2. Ibid., p. 40. Não sou tão culto a ponto de ter certeza de que essas afirmações são tra-
duções perfeitas do grego, mas são basicamente as que todo mundo usa.
3. Ibid., p. 43. É impossível não se perguntar por que essa versão particular do postula-
do das paralelas foi escolhida. Parece terrivelmente desajeitada, e não é surpresa te-
rem procurado por substitutos. Normalmente, é mais fácil trabalhar com uma ca-
racterização simples de um conceito do que com uma mais complicada.

130 Como a matemática explica o mundo


4. Ibid, p. 128.
5. D. Burton, The History of Mathematics (New York: McGraw-Hill, 1993), p. 544.
6. Certa vez, perguntou-se a Linus Pauling como ele tivera tantas boas idéias . Ele
respondeu com algo no sentido de que simplesmente tinha muitas idéias e jogava
as ruins fora. Tentei fazer isso, mas esbarrei em dois obstáculos- eu não tinha quase
idéia alguma, comparativamente às tantas de Pauling, e quando eu jogava as ruins
fora, não sobrava muita coisa. Porém, restaram algumas poucas.
7. Tom Lehrer obteve um bacharelado em matemática em Harvard aos 18 anos, e o tí-
tulo de mestre um ano depois. Destinado a uma carreira brilhante na Matemática,
ele se desviou desse rumo, tornando-se um dos três maiores humoristas do século
XX, em minha opinião (os dois outros são Ogden Nash e P. G. Wodehouse). Ele
provavelmente foi o primeiro humorista a usar humor negro politicamente incorre-
to - sim, antes de Lenny Bruce e de Mort Sahl- e suas canções são clássicas. "Nikolai
lvanovich Lobachevsky", "The Old Dope Peddler" e "The Hunting Song" sempre
ocuparão um lugar especial em meu coração, mas a que provavelmente tem mais
poder de incitar um tumulto público é "I Wanna Go Back to Dixie". Curta. Visite
http://members.aol.com/quentncree/lehrer/lobachev.htm.
8. Burton, History of Mathematics (p. 545).
9. Ibid., p. 548.
10. lbid., p. 549.
11. Ibid., pp. 549-50.
12. lbid. , p. 554.
13. Veja http://www-groups.dcs.st-and.ac.uk/-history/Biographies/Beltrami.htrnl.

Eos dois nunca se encontrarão 131


Até a lógica tem limites

Mentiroso, mentiroso
Quando eu estava na faculdade e meu coeficiente de rendimento precisa-
va de uma levantada, procurava o reconfortante abrigo do Departamento
de Filosofia, que sempre ofereceu um sortimento de cursos introdutórios
à Lógica. O que cursei começou examinando este silogismo clássico.

Todos os homens são mortais .


Sócrates é um homem.
Logo, Sócrates é mortal.

Certo, essa não é exatamente uma dedução que requeira um Sher-


lock Holmes - mas existem formulações mais interessantes que pode-
riam ter intrigado até mesmo esse grande detetive. Um desses silogis-
mos, que não apareceu na Introdução à Lógica, a princípio parece ser um
clone do anterior:

132 Como a matemática explica o mundo


Todos os cretenses são mentirosos
Epiménides é um cretense.
Logo, Epiménides é um mentiroso.

Parece ser o mesmo caso - a menos que a primeira afirmação tenha sido
feita por Epiménides1 Se este for o caso, estaria Epiménides mentindo com
a primeira afirmação? Afinal, um mentiroso é alguém que mente parte do
tempo, mas não necessariamente o tempo inteiro . Se ele é um mentiroso,
então a primeira afirmação poderia ser uma mentira - ent ão alguns creten-
ses podem não ser mentirosos, e não podemos deduzir legitimamente.
Há alguma flexibilidade aqui; o que, exatamente, caracteriza um menti-
roso? Ele deve mentir sempre que abre a boca, ou alguém que mente ocasio-
nalmente é um mentiroso? Depois de algum refinamento, o paradoxo do
mentiroso, como essa seqüência de proposições é comumente chamada, foi
condensado em uma frase de quatro palavras: essa afirmação é falsa. Será a
afirmação "Essa afirmação é falsa" é falsa ou verdadeira? Supondo que verda-
deiro ou falso sejam as únicas alternativas para qualificar uma afirmação, ela
não pode ser verdadeira (se fosse, seria verdade que é falsa e, portanto, seria
falsa), e não pode ser falsa (se fosse, seria falso que é falsa, portanto seria ver-
dadeira) . Presumir que ela é verdadeira ou falsa leva à conclusão de que é, ao
mesmo tempo, verdadeira e falsa, e então devemos colocar a sentença "Essa
afirmação é falsa" fora do reino do verdadeiro-falso. Você talvez detecte nes-
se argumento um leve eco da clássica prova par-ímpar de que a raiz quadrada
de 2 é irracional, que procede por meio da demonstração de que um número
possui simultaneamente duas características incompatíveis.
Alguns podem colocar o paradoxo do mentiroso sob o rótulo "comidi-
nhas para o pensamento"; pois, na superfície, pode parecer pouco mais do
que um enigma lingüístico curioso, porém pedante. Mas Kurt Godel, um
jovem e talentoso matemático, prestou uma atenção mais profunda ao
paradoxo do mentiroso, e o usou para provar um dos resultados matemá-
ticos mais intrigantes do século XX.

O colosso
Na cúpula do mundo matemático, em 1900, elevou-se um colosso-David
Hilbert. Discípulo de Ferdinand von Lindemann, o matemático que provara

Até a lógica tem limites 133


que n era transcendental, Hilbert fizera contribuições brilhantes em muitos
dos campos mais importantes da Matemática -Álgebra, Geometria e Análi-
se, o ramo da Matemática que evoluiu a partir de um exame rigoroso de algu-
mas das dificuldades teóricas que acompanharam o desenvolvimento do cál-
culo. Hilbert também apresentou um artigo sobre a teoria geral da relativida-
de cinco dias antes de Einstein, embora não fosse uma descrição completa da
teoria. 1* Medido por qualquer padrão, porém, Hilbert era um titã.
Durante o Congresso Internacional de Matemáticos em Paris, realizado
em 1900, Hilbert fez aquele que talvez seja o discurso mais influente da his-
tória dos encontros de matemáticos. Nele, Hilbert lançou a agenda para os
matemáticos do século XX, descrevendo 23 problemas críticos - embora, ao
contrário do Clay lnstitute, ele não pudesse oferecer incentivos financeiros
para suas soluções. O primeiro problema na lista de Hilbert era a hipótese do
continuo, que, como vimos, é indecidível dentro da formulação de teoria dos
conjuntos de Zermelo-Fraenkel. Em segundo lugar na lista, estava a necessi-
dade de descobrir se os axiomas da aritmética eram consistentes. 2
Lembre-se de que um esquema axiomático é consistente se for impos-
sível obter resultados contraditórios dentro daquele sistema; isto é, se for
impossível provar que o mesmo resultado pode ser tanto verdadeiro como
falso. É preciso que apenas uma proposição seja ao mesmo tempo verda-
deira e falsa para que um esquema seja inconsistente, mas pode parecer
que seria impossível provar que uma proposição ao mesmo tempo verda-
deira e falsa não existe. Afinal, não é necessário provar todos os resultados
provenientes de um esquema de axiomas particular de modo a decidir se o
esquema é consistente?
Felizmente, não. Um dos sistemas da Lógica mais fáceis de analisar é a
lógica proposicional, que é a lógica da tabela verdade. Esse sistema, que
freqüentemente é ensinado em Matemática em cursos livres, envolve a
construção e a análise de proposições compostas, que são construídas a
partir de proposições simples (somente se permitem verdadeiras ou fal-
sas) usando os termos não, e, ou e se ... então. Na seguinte tabela de verda-
de, P e Q são proposições simples; o resto da primeira linha representa as

*Nota do Revisor Técnico: Hilbert deduziu as equações de Einstein independentemente,


utilizando o chamado Princípio Variacional. Einstein havia apresentado algumas idéias a
Hilbert anteriormente.

134 Como a matemática explica o mundo


proposições compostas cujos valores de verdade dependem dos valores de
verdade de P e Q, e de como os calculamos. É bastante parecido com uma
tabela de adição em que usamos VERDADEIRO e FALSO, em vez de
números, e proposições compostas no lugar de somas.

Fileira p Q NÃOP PEQ POUQ SEPENTÃOQ

(1) VERDADEIRO VERDADEIRO FALSO VERDADEIRO VERDADEIRO VERDADEIRO

(2) VERDADEIRO FALSO FALSO FALSO VERDADEIRO FALSO

(3) FALSO VERDADEIRO VERDADEIRO FALSO VERDADEIRO VERDADEIRO

(4) FALSA O FALSO VERDADEIRO FALSO FALSO VERDADEIRO

As duas primeiras colunas listam as quatro atribuições possíveis dos


valores VERDADEIRO ou FALSO para as proposições P e Q; por exem-
plo, a fileira 3 dá os valores lógicos das várias proposições quando P é
FALSO e Q é VERDADEIRO .
O valor lógico atribuído a NÃO-Pé simplesmente o oposto do valor ló-
gico atribuído a P. Como um exemplo, se Pé a proposição verdadeira O Sol
nasce no Leste, então NÃO-Pé a proposição falsa O Sol não nasce no Leste.
O valor lógico assinalado a P e Q também reflete o entendimento co-
mum do conectivo e, que requer que ambas, P e Q, sejam verdadeiras para
que a proposição P e Q seja verdadeira. As duas últimas colunas requerem
um pouco mais de explicação.
A palavra ou é usada em dois sentidos diferentes na língua inglesa: o sen-
tido exclusivo ou o sentido inclusivo.* Ao atribuir valores lógicos à proposi-
ção P OU Q, fazê-lo com o "ou exclusivo" resultaria na proposição sendo ver-
dadeira precisamente quando exatamente uma das duas proposições P e Q
forem verdadeiras, enquanto fazê-lo com o "ou inclusivo" resultaria na pro-
posição ser verdadeira se pelo menos uma das duas proposições P e Q fossem
verdadeiras. O exemplo que dou para os estudantes de Matemática de cursos
livres para distinguir entre os dois ocorre quando um garçom pergunta se
você prefere café ou sobremesa depois da refeição. O garçom está usando o
"ou inclusivo", pois você nunca o ouvirá dizer: "Desculpe, mas você só pode
escolher um ou outro", quando você disser: "Eu gostaria que trouxesse uma

*Nota da Editora: O mesmo ocorre na língua portuguesa.

Até a lógica tem lim ites 135


xícara de café e uma tigela de sorvete de chocolate." A lógica proposicional
adotou o "ou inclusivo" e a tabela anterior reflete isso.
Finalmente, os valores lógicos assinalados à proposição SE P, ENTÃO
Q são motivados pelo desejo de distinguir argumentos obviamente falsos;
aqueles que começam com uma hipótese verdadeira e terminam com
uma conclusão falsa. Isso tende a causar certa confusão, pois ambas as pro-
posições compostas a seguir são definidas como verdadeiras.
Se Londres é a maior cidade da Inglaterra, então o Sol nasce no Leste.
Se Yuba City é a maior cidade da Califórnia, então 2 + 2 = 4.
A objeção que os estudantes fazem à verdade da primeira proposição
é que não existe um argumento lógico que ligue as duas, e a objeção à se-
gunda é de que é impossível chegar à conclusão aritmética simplesmente
pelo fato de a hipótese ser falsa. SE P, ENTÃO Q não significa (na lógica
proposicional) que existe um argumento lógico começando com P e ter-
minando com Q. Um dos objetivos primeiros da lógica proposicional é
distinguir argumentos obviamente falaciosos de todos os outros; obvia-
mente existe algo errado com o argumento que diz 2 + 2 = 4, portanto o
Sol nasce no Oeste. É tentador pensar em "SE P, ENTÃO Q " como uma
conseqüência (o que significa que existe algum argumento vinculante
subjacente), mas não é assim que a lógica proposicional a vê.
A lógica proposicional inclui um método de computar o valor de vera-
cidade/falsidade de uma proposição composta, assim como a Aritmética
pode calcular um valor para x + yz quando os valores numéricos de x, y e z
são dados. Por exemplo, se P e Q são VERDADEIROS e Ré FALSO, a
proposição composta (P E NÃO-Q) OU Ré avaliada de acordo com a ta-
bela anterior da seguinte maneira:

(VERDADEIRO E NÃO-VERDADEIRO) OU FALSO


(VERDADEIRO E FALSO) OU FALSO
FALSO OU FALSO
FALSO

Finalmente, assim como proposições aritméticas como x(y + z) = xy +


xz são universalmente verdadeiras porque, não importa por quais valores x,
y e z sejam substituídos, ambos os lados chegam ao mesmo número, é possí-
vel que duas proposições compostas tenham valores idênticos, não importa
quais sejam os valores de verdade das proposições individuais que fazem as

136 Como a matemática explica o mundo


proposições compostas. Nesse caso, as duas proposições são chamadas de
logicamente equivalentes; as tabelas verdade a seguir mostram que NÃO
(P OU Q) é logicamente equivalente a (NÃO-P) E (NÃO-Q).

Fileira p Q POUQ NÃO (P E Q)

(1) VERDAD EIRO VERDADEIRO VERDADEIRO FALSO

(2) VERDADEIRO FALSAO VERDADEIRO FALSO

(3) FALSO VERDADEIRA O VERDAD EIRO FALSO

(4) FALSO FALSO FALSO VERDADEIRO

A última coluna dessa tabela verdade tem os mesmos valores da últi-


ma coluna da seguinte tabela.

Fileira p Q NÃOP NÃOQ (NÃO P) E (NÃO Q)

(1) VERDADEIRO VERDADEIRO FALSO FALSO FALSO

(2) VERDAD EIRO FALSO FALSO VERDADEIRO FALSO

(3) FALSO VERDADEIRO VERDADEIRO FALSO FALSO

(4) FALSO FA LSO VERDADEIRO VERDADEIRO VERDADEIRO

Uma situação em que essa equivalência surge ocorre quando o garçom


pergunta se você prefere café ou sobremesa, e você responde que não . O
garçom não traz café e também não traz sobremesa. A lógica proposicio-
nal teve sua consistência demonstrada no início da década de 1920, por
Emil Post, usando uma prova que poderia ser seguida por qualquer aluno
de ensino médio.3 Post demonstrou que, sob a suposição de que a lógica
proposicional era inconsistente, qualquer proposição poderia ser de-
monstrada como verdadeira, incluindo proposições como P E (NÃO-P),
que é sempre falsa. O próximo passo seria atacar o problema da consistên-
cia de outros sistemas - o que nos traz de volta ao segundo problema na
lista de Hilbert, o da consistência da Aritmética.

Os axiomas de Peano

Existem inúmeras formulações dos axiomas da Aritmética, mas aque-


les usados por matemáticos e lógicos foram concebidos por Giuseppe

Até a lógica tem limites 137


Peano, um matemático italiano do fim do século XIX e início do século
XX. Seus axiomas para os números naturais (outro termo para inteiros
positivos) são:

Axioma 1: O número 1 é um número natural.


Axioma 2: Se a é um número natural, a+ 1 também o é.
Axioma 3: Se a e b são números naturais, com a= b, então a+ 1 = b + 1
Axioma 4: Se a é um número natural, então a+ 1 7:- 1
Se esses fossem os únicos axiomas, você não apenas seria capaz de fa-
zer o balanço de seu talão de cheques, mas os matemáticos não teriam a
menor dificuldade em provar a consistência dos axiomas. Foi o quinto
axioma de Peano que causou os problemas.
Axioma 5: Se Sé qualquer conjunto que contém 1, e tem a proprieda-
de de que, se a pertence a S, a+ 1 também pertence, então S contém todos
os números naturais.
Este último axioma, algumas vezes chamado princípio de indução
matemática, permite aos matemáticos provarem resultados sobre todos
os números naturais. Suponha que certo dia você se encontre numa reu-
nião entediante e, sem qualquer coisa melhor a fazer, você comece a ano-
tar somas de números ímpares. Depois de algum tempo, você tem a se-
guinte tabela:

1=1
1+3=4
1+3+5=9
1 + 3 + 5 + 7 = 16

De repente, você percebe que todos os números à direita são quadra-


dos, e também nota que o número à direita é o quadrado do número de nú-
meros ímpares à esquerda. Isso leva você a formular a seguinte conjectura: a
soma dos primeiros n números ímpares (o último dos quais é 2n - 1) é n 2 .
Você pode escrever isso numa única formula:

1 + 3 + 5 + ... + (2n - 1) = n2 .

Então, como você vai provar isso? Há pelo menos duas belas maneiras
de fazê-lo. A prímeira é uma versão algébrica do truque de Gauss. Escreva
a soma S tanto em ordem crescente quanto decrescente.

138 Como a matemática explica o mundo


S=l +3 + .. . + (2n - 3) +(2n-l)
S = (2n- 1) + (2n - 3) + .. . +3 +1

Cada soma contém precisamente n termos, então se adicionarmos os


lados esquerdos de ambas as equações, teremos 2S, e olhando para asso-
mas de cada coluna, notaremos que 1 + (2n- l) = 2n= 3 + (2n-3), e assim
por diante. Somando os lados direitos, temos n somas de 2n, ou 2n2 . Então
2S = 2n2 , e então segue o resultado .
A segunda maneira é tão fácil que alunos do terceiro ano a quem dei
palestras compreendem a idéia. Requer que olhemos essas somas em um
tabuleiro de damas. O número 1 é representado pelo quadrado no canto
superior esquerdo do tabuleiro de damas. O número 3 é representado por
todos os quadrados na segunda fileira ou coluna que tenham um vértice
comum com o quadrado do canto superior esquerdo. Juntos, 1+3 perfa-
zem o quadrado no canto superior esquerdo que está duas casas para o
lado. O número 5 é representado por todos os quadrados na terceira filei-
ra ou coluna que divide um vértice com um quadrado usado na represen-
tação do 3. Juntos, 1 + 3 + 5 perfazem o quadrado no canto superiores-
querdo que está três casas para o lado. E assim por diante.
Você também pode usar o princípio de indução matemática.
A linha

1 = l2

estabelece a proposição (a soma dos primeiros n números ímpares é n 2 )


para n = 1. Se supusermos que a proposição é verdadeira para o inteiro n,
tudo o que precisamos fazer é mostrar que a proposição é verdadeira para
n + 1. Essa proposição seria a de que a soma dos primeiros n + 1 números
ímpares é (n + 1) 2 . Escrevendo formalmente, precisamos estabelecer que,
de acordo com a suposição

1 + 3 + 5 + ... + (2n - 1) = n 2 (a fórmula é válida


para o inteiro n)

podemos provar que

1 + 3 + 5 + ... + [2(n + 1) -1) = (n + 1) 2 (a fórmula é válida


para o inteiro n + 1)

Até a lógica tem limites 139


Os fatos básicos das manipulações algébricas e aritméticas podem ser
deduzidos dos axiomas de Peano, mas fazê-lo é um tanto técnico, então
pelo restante dessa prova simplesmente vamos supor as leis usuais da
Aritmética e da Álgebra, como a + b = b + a.
Simplificando a expressão entre parênteses no lado esquerdo da equa-
ção, temos

1 + 3 + 5 + ... + (2n + 1) = en + 1) 2
Continuando, obtemos

1 + 3 + 5 + .. . + (2n + 1) = [1 + 3 + 5 + ... + (2n - 1)] + (2n + 1)


= n 2 + (2n + 1) (essa substituição é nossa
= (n + 1) 2 suposição) (Álgebra básica)

Se A denota o conjunto de todos os positivos inteiros n de maneira que


a soma dos primeiros n inteiros ímpares é n 2, demonstramos que A con-
tém 1, e se n pertence a A, então n + 1 pertence aA. Pelo axioma 5, A contém
todos os inteiros positivos.
Um grande número de resultados profundos usa a indução matemáti-
ca como uma técnica-chave de prova. Demonstrar a inconsistência da
Aritmética é algo que traria infelicidade a muitos matemáticos - incluin-
do David Hilbert, cujo teorema da base (um resultado importante, tanto
na teoria dos anéis quanto na Geometria Algébrica) foi provado através da
indução matemática. Parece bastante seguro dizer que Hilbert definitiva-
mente esperava que alguém provasse que os axiomas de Peano para a
Aritmética eram consistentes; afinal, ninguém quer ver um de seus resul-
tados mais importantes posto em dúvida.
Então, muita coisa está em jogo com o estabelecimento da consistên-
cia dos axiomas de Peano para a Aritmética, e Hilbert estava bem consci-
ente disso -por tal razão esse é o problema número 2, na frente de outros
problemas realmente famosos, como a conjectura de Goldbach (cada nú-
mero par é a soma de dois números primos) e a hipótese Riemann (um re-
sultado técnico de imenso potencial, mas que requer o conhecimento de
variáveis complexas e das séries infinitas para ser compreendido). Basta
dizer que o Clay Mathematics Institute pagará US$1 milhão a quem con-
seguir demonstrar a consistência ou inconsistência dos axiomas de Peano.

140 Como a matemática explica o mundo


Um pós-doutorado muda as coisas
Há uma crença geral de que os matemáticos fazem seus melhores traba-
lhos antes dos 30 anos. Possivelmente, 40 seria uma estimativa mais ra-
zoável- a Medalha Fields é conferida apenas aos trabalhos de pessoas com
menos de 40 anos. Não obstante, alguns dos resultados mais importantes
da Matemática vieram de estudantes de doutorado e pós-doutores.
Há muitos debates sobre o porquê de a coisa ser assim; minha crença é
de que, em certa medida, o trabalho sobre um problema específico setor-
na cristalizado, no sentido de que os matemáticos mais importantes viaja-
ram por uma trilha que a maioria dos outros segue - e, algumas vezes, essa
trilha só leva até certo ponto, e não além. Matemáticos jovens são menos
propensos à doutrinação - lembro vividamente de Bill Bade, meu orienta-
dor de tese, recomendando-me materiais de leitura que me inteirariam dos
últimos avanços, mas sem me sugerir que caminho tomar depois de lidos
os artigos.
Kurt Godel nasceu seis anos depois da apresentação de Hilbert de seus
23 problemas no local em que hoje é a República Tcheca. Seus talentos aca-
dêmicos ficaram óbvios muito cedo. Inicialmente, Godel se debateu entre
estudar Matemática ou Física teórica, mas optou pela primeira, por causa
de um curso dado por um instrutor carismático, que estava confinado a
uma cadeira de rodas.* Godel era agudamente consciente de seus próprios
problemas de saúde - uma consciência que mais tarde provaria ser sua ruí-
na, então é possível que a condição de seu instrutor tenha exercido impacto
significativo sobre a decisão de Godel. Na Europa, os matemáticos geral-
mente têm de superar dois obstáculos no caminho para se tornarem profes-
sores titulares: a tese de doutorado (o mesmo ocorre com os matemáticos
americanos) e a habilitação (que, ainda bem, não é requerida dos matemá-
ticos americanos), que é uma performance notável adicional depois de o
doutorado ter sido conferido. Godel se interessara pela Lógica matemática,
e sua tese de doutorado consistiu numa prova de que um sistema de lógica
de predicados proposto em parte por Hilbert estava completo - todos os re-
sultados verdadeiros no sistema podiam ser provados. Esse resultado foi um
salto considerável para além da demonstração de Post de que a lógica pro-

*Nota do Revisor Técnico: O nome deste professor era Philipp Furtwãngler, irmão do maes-
tro e compositor Wilhelm Furtwãngler.

Até a lógica tem limites 141


posicional era consistente - e a prova de Godel usava a indução matemática
para estabelecer esse resultado. Para a habilitação, Godel decidiu ir atrás de
uma questão realmente grande - a consistência da Aritmética, número 2 da
lista de Hilbert, composta de 23 problemas.
Em agosto de 1930, tendo completado seu trabalho, Godel subme-
teu um artigo em uma conferência de Matemática que continha uma
apresentação de Hilbert intitulada "A Lógica e a Compreensão da Na-
tureza". Hilbert seguia ainda o caminho para axiomatizar a Física e pro-
var a consistência da Aritmética, e terminou seu discurso com confian-
ça inabalável: "Nós precisamos saber. Nós saberemos." É um tanto irô-
nico que o artigo de Godel na mesma conferência contivesse resulta-
dos, apresentados numa palestra de vinte minutos, que estilhaçariam
para sempre o sonho de Hilbert de "Nós saberemos" . Numa apresenta-
ção feita longe dos holofotes (ou daquilo que passa como holofote em
uma conferência matemática), Godel anunciou seu resultado de que
uma de duas condições deve existir: ou a Aritmética incluía proposi-
ções que não podiam ser provadas (hoje conhecidas como proposições
indecidíveis) ou os axiomas de Peano eram inconsistentes. Até hoje,
ninguém demonstrou a inconsistência dos axiomas de Peano e, a des-
peito da persistente incerteza, qualquer matemático diria que as chan-
ces são quase infinitas de que eles não sejam. Esse resultado é conheci-
do como o teorema da incompletude de Godel.
Diferentemente da teoria da relatividade de Einstein, que tomou de rol-
dão o mundo da Física e foi aceita quase de imediato, a comunidade matemá-
tica inicialmente não compreendeu a importância do trabalho de Godel.
Não obstante, durante os cinco anos seguintes, seus resultados obtiveram
amplo reconhecimento e aceitação. Ele continuou fazendo trabalhos im-
pressionantes na área da Lógica matemática, embora sofresse com proble-
mas de saúde. Embora Godel não fosse judeu, poderia facilmente ser con-
fundido com um (certa vez, foi atacado por uma gangue de criminosos que o
tomaram por judeu) e, quando um de seus importantes professores foi assas-
sinado por um estudante nazista em 1936, Godel sofreu um colapso nervoso.
Quando a Segunda Guerra Mundial começou, Godel deixou a Alemanha e
viajou para a América pela Rússia e pelo Japão, chegando a Princeton.
Problemas de saúde, tanto física quanto mental, continuaram pertur-
bando Godel. Seu círculo de amigos e conhecidos em Princeton era bas-

142 Como a matemática explica o mundo


tante seleto - houve períodos em que a única pessoa com quem conversa-
va era Einstein. Perto do fim de sua vida, a paranóia adquiriu controle so-
bre ele, e seus problemas o fizeram acreditar que havia gente tentando en-
venená-lo. Ele morreu em 1978, por ter deixado de se alimentar, numa
t entativa de não ser envenenado.

As provas do teorema da incompletude de Gõdel

Existem muitas maneiras diferentes de demonstrar o t eorema de Godel.


Aqui, escolhi demonstrar que ele é plausível, e coloquei referências para
provas formais nas notas deste capítulo, que dão uma idéia da prova origi-
nal de Godel.4
Godel tomou o paradoxo do mentiroso e modificou a proposição
Esta proposição é falsa (que, como já vimos, está fora do reino das propo-
sições que podem ser julgadas como verdadeiras ou falsas) para Esta pro-
posição não pode ser provada. Este foi o ponto de partida de Godel, mas,
por meio de uma t écnica conhecida como numeração de Godel, que está
esboçada nas notas deste capítulo, ele ligou a impossibilidade de provar
uma proposição à impossibilidade de provar proposições sobre números
inteiros, dentro da estrutura de axiomas de Peano. Se a proposição Esta
proposição não pode ser provada não pode ser provada, então é verdadei-
ra, e a ligação que Godel estabeleceu com a Aritmética demonstrou que
existem proposições que não podem ser provadas na teoria dos núme-
ros. Se a proposição Esta proposição não pode ser provada pode ser prova-
da, então é falsa, e a prova de Godel ligou esta conclusão à inconsistência
dos Axiomas de Peano .s
O que se quer dizer com a expressão "Não pode ser provada"? Quer di-
zer simplesmente o que diz, que não existe uma prova que possa determi-
nar a veracidade ou a falsidade da proposição. Não é necessário dizer que a
existência de proposições que não podem ser provadas levanta algumas
questões. Existem duas escolas de pensamento sobre o assunto. Lembre-se
de que o princípio da incerteza é interpretado pela maioria dos físicos como
significando que variáveis conjugadas não têm valores especificamente de-
finidos, e não que os humanos não sejam bons o bastante para medir as va-
riáveis especificamente definidas. Um grupo de matemáticos interpretou a
impossibilidade de prova da mesma maneira- não é que não sejamos inteli-

Até a lógica tem limites 143


gentes o bastante para provar a veracidade ou falsidade de uma proposição;
é que, se a lógica for usada como o árbitro supremo, revela-se inadequada à
tarefa. Outros vêem uma proposição impossível de ser provada como se
fosse inerentemente verdadeira ou falsa, mas o sistema de lógica usado sim-
plesmente não chega longe o suficiente para poder discernir.

O problema da parada
Aproximadamente na mesma época em que Godel lançou seu teorema da
incompletude (que talvez devesse ser chamado "teorema da incompletu-
de, ou da inconsistência", mas isso não soa tão bem), os matemáticos esta-
vam começando a construir computadores, e também a formular a teoria
que fundamenta o processo da computação. Os primeiros programas de
computador relativamente complicados haviam sido escritos, e os mate-
máticos descobriram uma possibilidade desagradável escondida no pro-
cesso computacional: o computador pode entrar num ciclo infinito, do
qual a única saída possível seria interromper manualmente o programa
(isso, provavelmente, significava desconectar o computador da fonte de
energia). Aqui vai um exemplo simples de ciclo infinito

Número do comando do programa Instrução


1 ir para comando 1 do programa
2 ir para comando 2 do programa

A primeira instrução do programa manda o programa para a segunda ins-


trução, que o manda de volta para a primeira instrução, e assim por diante.
Nos primeiros dias da programação de computador, entrar num ciclo infinito
era uma ocorrência comum, e então surgiu uma pergunta óbvia: Seria pos-
sível escrever um programa de computador cujo único propósito fosse deter-
minar se um programa de computador entraria em um ciclo infinito? Na
verdade, a questão foi colocada de uma forma diferente, mas equivalente:
Se um programa pára ou entra num ciclo, é possível escrever um programa
de computador que determine se outro programa de computador irá parar
ou entrar em um ciclo? Isso ficou conhecido como o problema da parada.
Rapidamente demonstrou-se que não era possível escrever tal progra-
ma de computador, e esse resultado ficou conhecido como a indecidibili-
dade do problema da parada. A prova que segue se deve a Alan Turing,

144 Co mo a matemática explica o mundo


um dos primeiros gigantes nesse campo. Turing não só era um matemáti-
co e um lógico tremendamente talentoso, como também desempenhou
um papel central ajudando a decifrar códigos alemães durante a Segunda
Guerra. Entretanto, ele era um homossexual num ambiente tremenda-
mente intolerante com a homossexualidade, e foi forçado a passar por tra-
tamentos químicos, que, por fim, resultaram em seu suicídio.
Suponha que o problema da parada é decidível, e que existe um pro-
grama H que, dado um programa P e uma entrada de dados E, possa deter-
minar se P pára ou entra num ciclo. Os dados de saída do programa H são
o resultado; H pára quando determina que P pare com a entrada de dados
E. Nós agora construímos um novo programa N que examina os dados de
saída de H e faz o oposto; se H resulta "parada", então N entra em ciclo, e
se H resulta "ciclo", então N pára.
Dado que H é, presumivelmente, capaz de determinar se um progra-
ma pára ou não, tomemos o programa N e passemos a usá-lo como fonte
de dados para N. Se H determina que N pára, então o resultado de H é
"parar", e então N entra em ciclo. Se H determina que N entre em ciclo,
então o resultado de H é "ciclo", e então N pára. Em outras palavras, N faz
o contrário do que H pensa que deveria fazer. Essa contradição resultou
de nossa suposição de que o problema da parada era decidível; portanto, o
problema da parada deve ser indecidível.
Isso provavelmente não foi muito difícil de acompanhar. Parece que a
prova incorpora elementos semelhantes àqueles que existem no paradoxo
do mentiroso, e as aparências não enganam nesse caso. Matemáticos de-
monstraram que, embora os resultados pareçam estar em áreas díspares, o
teorema de Godel e a indecidibilidade do problema da parada são equiva-
lentes; cada um deles pode ser provado como conseqüência do outro.
Voltemos ao presente. A indecidibilídade do problema da parada acaba
se mostrando equivalente a um problema cuja indecidibilídade provavel-
mente garantirá a continuação da existência de uma indústria multibilioná-
ria. O ano 2007 marcou o vigésimo quinto aniversário da primeira aparição
de um vírus de computador. O vírus Elk Cloner foi desenvolvido para com-
putadores Apple II, por Rich Skrenta, um estudante de ensino médio de Pitts-
burgh, e não fazia nada mais sinistro do que deixar uma cópia de si mesmo
em sistemas operacionais e disquetes 5"1/4 Oembra-se deles?), e mostrar os
seguintes versos, não exatamente memoráveis, na tela do computador:

Até a lógica tem lim ites 145


Elk Cloner: The program with a personality
It will get on ali your disks
It will infiltrate your chips
Yes, it's Cloner~
It will stick to you like glue
It will modify RAM too
Send in the Cloner1 6 *
Skrenta provaria ser uma ameaça insignificante a Keats ou Frost como
figura literária, mas, desse humilde esforço, surgiu todo o espectro dos mal-
wares, os softwares maliciosos. Também resultou na óbvia questão: é possí-
vel escrever um programa que detecte vírus? Felizmente para a continuida-
de da existência de empresas como Norton e McAfee, programas de com-
putador que detectam alguns vírus podem ser escritos, mas os criminosos
estarão sempre um passo à frente da polícia, ao menos nessa área. A exis-
tência de um programa de computador para detectar todos os vírus é equi-
valente ao problema da parada; escrever esse programa é impossível. 7

O que é, ou talvez seja, indecidível


Não tenho certeza do que o futuro reserva para nós nessa área, mas estou
certo do que é que os matemáticos gostariam de ver. Assim como os acio-
nistas da bolsa gostariam de ouvir o som de uma campainha a cada queda
no valor das ações, matemáticos gostariam de um modo rápido de deter-
minar se um problema no qual estejam trabalhando é indecidível. Lamen-
tavelmente, o teorema de Godel não vem com um algoritmo que lhes diga
precisamente quais proposições são indecidíveis. O exemplo que Godel
construiu de uma proposição indecidível é matematicamente inútil; en-
volve formulas que são satisfeitas pelo Número de Godel daquela formu-
la. O Número de Godel de uma formula é descrito nas notas, mas não
existe uma única formula matematicamente importante na Aritmética
que incorpore o Número de Godel daquela formula. O que realmente
agradaria aos matemáticos seria uma etiqueta presa a tais problemas im-

*Nota do Tradutor: "Elk Cloner: O programa que tem personalidade/ Ele vai pegar todos
os seus discos/ Vai se infiltrar em seus chips/ Sim, é o Cloner/ Vai grudar em você que
nem cola/ Vai modificar a RAM também/ Que entre o Cloner~"

146 Como a matemática explica o mundo


portantes, como a conjectura de Goldbach, que dissesse "Nem tente -
esta proposição é indecidível" ou "Continue assim, você pode chegar a al-
gum lugar". Parece altamente improvável que alguém encontre uma ma-
neira de etiquetar todas as proposições; a história do campo (pense na in-
decidibilidade do problema da parada) indica que há bem mais chances
de que se prove que não existe tal modo de etiquetar proposições.
No entanto, alguns problemas extremamente interessantes tiveram
sua indecidibilidade demonstrada. Infelizmente, houve um número rela-
tivamente pequeno - não se chega nem perto de algum tipo de conclusão
geral sobre qual tipo de problema é indecidível. De longe, o mais impor-
tante foi a demonstração de Cohen de que a hipótese do contínuo era in-
decidível dentro da teoria dos conjuntos de Zermelo-Fraenkel (com o axio-
ma da escolha), caso aquela teoria fosse consistente. Houve pelo menos
dois outros problemas interessantes que se mostraram indecidíveis - e um
está relacionado com um problema atualmente não-resolvido, que é intri-
gante e fácil de compreender.

O problema da palavra: não, não é sobre o jogo de palavras cruzadas


No Capítulo 5, descobriu-se que o grupo de simetrias de um triângulo
eqüilátero é composto de combinações de dois movimentos básicos: uma
rotação anti-horária de 120 graus, rotulada R, e um movimento no qual o
vértice do topo fica inalterado mas os dois vértices da base são trocados,
chamado de reflexão e rotulado de F.
Se 1 denota a identidade do grupo (a simetria que deixa todos os vérti-
ces em sua posição original), temos então as seguintes relações entre F e R:

F2 = 1 (lembre-se de que F2 = FF; duas reflexões do triângulo


resultam na posição original)
3
R = 1 (da mesma forma para três rotações sucessivas de
120 graus no sentido anti-horário)
FR = RF
2

R 2F = FR

Como já demonstrado no Capítulo 5, há um total de seis diferentes si-


metrias do triângulo eqüilátero, que podem ser produzidas por 1, R, R 2 , F,

Até a lógica tem limites 147


RF e FR. Suponha que usemos as quatro regras apresentadas para tentar
reduzir palavras grandes usando apenas as letras R e F para cada uma da-
quelas seis. Aqui vai um exemplo:

RFR2 FRF = FR2 R2 F FR2 (substituídas as duas primeiras


e as duas últimas)
=FR3 RF2R2 (R R = R3 R = R4)
2 2

= FIRIR2 (R3 = F2=1)


= FRR2 (FI = R, RI = R)
= FR3 = FI = F (Ufa~)

É fácil demonstrar que qualquer "palavra" usando apenas as letra R e F


pode ser reduzida usando as três relações básicas com uma das seis pala-
vras correspondentes às simetrias do triângulo eqüilátero. Este é o plano
do jogo: mostremos que qualquer conjunto de três letras pode ser redu-
zido a um conjunto de duas ou menos letras. Existem oito possibilidades;
escreverei apenas o resultado final.

RRR= 1
RRF = FR
RFR=F
RFF=R
FRR = RF
FRF = R2
FFR=R
FFF= F

Tendo em vista que cada grupo de três letras pode ser reduzido a um
grupo de duas ou menos letras, continue fazendo isso até conseguir uma
palavra de duas ou menos letras; deve ser uma das seis básicas que são os
elementos do grupo. Dizemos que o grupo 5 3 das simetrias do triângulo
eqüilátero é gerado pelos dois geradores R e F, sujeitos às quatro relações
básicas.
Existem muitos (não todos) grupos que são definidos por uma coleção
de geradores que estão sujeitos a uma série de relações, como no exemplo
anterior. Assim, o problema da palavra para um grupo é encontrar um al-
goritmo que, quando dadas duas palavras (tal como RFR2 e RFR), decida

148 Como a matemática explica o mundo


se eles representam o mesmo elemento do grupo. Em alguns grupos, isso
pode ser feito, mas, em 1955, Novikov deu um exemplo de um grupo
para o qual o problema da palavra era indecidível. 8 A família Novikov deu
grandes contribuições à Matemática. Petr Novikov, famoso pelo proble-
ma da palavra, teve dois filhos: Andrei foi um matemático de destaque, e
Sergei, um matemático de muito destaque, recebendo uma Medalha
Fields em 1970.
Incidentalmente, quando o cubo mágico foi inventado, muitos artigos
sobre soluções para ele apareceram em publicações dedicadas à teoria dos
grupos 9 - pois o cubo mágico envolve um grupo de simetrias com gerado-
res (rotações em torno dos vários eixos) sujeitos a relações.

Você sempre vai daqui pra lá?


O último dos três problemas que foi demonstrado como indecidível é
conhecido como teorema de Goodstein. Para ter um vislumbre desse
assunto, aqui vai um problema atualmente não-resolvido, a conjectura
de Collatz, que tem alguns aspectos em comum com ele. Muitos mate-
máticos pensam que talvez seja indecidível, mas é fácil de entender.
Paul Erdos - o prolífico e peripatético matemático cujo estilo de vida
consistia em visitar diversas universidades por curtos períodos de tem-
po - costumava oferecer prêmios em dinheiro pela solução de proble-
mas interessantes. Como Erdos era basicamente mantido pela comuni-
dade matemática, vivendo com matemáticos cujas casas ele visitava, o
dinheiro que ele juntava com honorários era usado para bancar esses
prêmios. Eles começavam num piso de US$10; ele ofereceu US$500
dólares pela prova (de um jeito ou de outro) da conjectura de Collatz.
Da conjectura de Collatz, ele disse: "A Matemática ainda não está
pronta para problemas assim. "10
Quando você vê o problema pela primeira vez, parece algo inventado
por um garoto de 9 anos brincando com números. Escolha um número. Se
for par, divida-o por 2; se ímpar, multiplique por 3 e some 1. Continue fa-
zendo isso. Examinaremos um exemplo no qual 7 é o número escolhido.

7,22[= 3 X 7 + l], 11[= 22/2], 34, 17,


52, 26, 13, 40, 20, 10, 5, 16, 8, 4, 2, l

Até a lógica tem limites 149


Levou algum tempo, mas finalmente chegamos ao número 1. Aqui
está o problema não-resolvido: no fim, sempre se chega ao número 1, não
importando de onde comece? Se você puder prová-lo, de um jeito ou de
outro, acho que o dinheiro hoje faz parte dos bens deixados por Erdos; ele
morreu em 1996. O New York Times publicou um artigo de primeira pá-
gina sobre ele, depois de sua morte . Certa vez, ele foi descrito com bom
humor por seu colega Alfréd Rényi, que disse: "Um matemático é uma
máquina que transforma café em teoremas", já que Erdos bebia quantida-
des prodigiosas de café. 1 1
O teorema de Goodstein 12 guarda semelhanças com esse proble-
ma; ele define uma seqüência (chamada seqüência de Goodstein) re-
cursivamente (o próximo termo é definido ao se fazer algo com o ter-
mo anterior da seqüência, assim como no problema não-resolvido an-
teriormente), embora a seqüência que define não seja tão simples de
estabelecer como aquela da conjectura de Collatz. Pode-se demonstrar
que toda seqüência Goodstein termina em O - embora isso não possa
ser demonstrado usando somente os axiomas de Peano; é necessário o
uso de um axioma adicional, o axioma do infinito, da teoria dos conjun-
tos de Zermelo-Fraenkel. Como tal, é uma proposição interessante,
que seria indecidível usando apenas os axiomas de Peano- em contras-
te com as nada interessantes proposições indecidíveis usadas por Godel
em sua prova original. Também é válido observar que a capacidade de
comprovação do teorema de Goodstein numa versão mais forte da teo-
ria dos conjuntos dá crédito ao ponto de vista de que esses teoremas são
inerentemente verdadeiros ou falsos, e que um sistema adequado de
lógica pode determiná-lo.
Então, a menos que outro estudante de doutorado com o talento de
Godel apareça para provar que o consenso esmagador dos matemáticos
está errado, e que os axiomas de Peano são, na verdade, inconsistentes, os
matemáticos continuarão a acreditar na indução matemática. É, entre as
ferramentas disponíveis, uma das mais úteis - e a existência de proposi-
ções indecidíveis é um pequeno preço a pagar por uma ferramenta tão va-
liosa. Se algum estudante de doutorado chegar a cumprir essa tarefa tão
improvável, pode estar certo de duas coisas: obterá uma Medalha Fields e
o ódio eterno da comunidade matemática, a qual terá sido privada de uma
das mais importantes armas de seu arsenal.

150 Co mo a matemática explica o mundo


NOTAS
1. Veja http://www-groups.dcs.st-and.ac.uk/-history/ Biographies/Hilbert.html. Essa,
talvez, tenha sido a última vez na história da humanidade em que existiram eruditos
que podiam dar contribuições verdadeiramente significativas em vários campos.
Além de Hilbert, Henri Poincaré (famoso pela conjectura de Poincaré) também
deu contribuições importantes tanto na Matemática quanto na Física.
2. Veja http://en.wikipedia.org/wiki/Hilbert's_problems. Esse site contém uma lista
de todos os 23 problemas, junto com o status atual deles. A maioria dos que não fo-
ram discutidos neste livro são bastante técnicos, mas o número três é fácil de enten-
der-dados dois poliedros de volumes iguais, é possível cortar o primeiro em um nú-
mero finito de pedaços e reagrupá-los no segundo? Dehn demonstrou que isso pode
ser feito.
3. A. K. Dewdney, Beyond Reason (Hoboken, N .J.: John Wiley & Sons, 2004) . A prova da
consistência da lógica proposicional é trazida nas páginas 150-152.
4. A. K. Dewdney, Beyond Reason (Hoboken, N.J. : John Wiley & Sons, 2004) . A pro-
va do teorema da impossibilidade é trazida nas páginas 153-158. http ://www.mis-
katonic.org/ godel.html. A caixa de texto de Infinity and the Mind, de Rudy Rucker,
contém o argumento de Gõdel na forma de programa de computador.
5. Veja http://www.cs.auckland.ac.nz/CDMTCS/ chaitin/georgia.html. Na verdade,
esse site tem um artigo que apareceu relacionando o teorema de Gõdel com a teoria
da informação. É razoavelmente legível, se você tem familiaridade com a notação
matemática.
6. Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Elk_Cloner.
7. Science 317 (13 de julho, 2007): pp. 210-11.
8. Vejahttp://www-groups.dcs.st-and.ac.uk/-history/ Biographies/Novikov.html.
9. Veja http://members.tripod.com/-dogschool/. Aqui há um pequeno curso sobre
teoria dos grupos com bons gráficos, que guiarão você através da teoria dos grupos
que fundamenta o cubo mágico. A explicação do motivo por trás do pitoresco título
"The Dog School of Mathematics" pode ser encontrada na homepage.
10. Veja http :// en. wikipedia. org/wiki/ Collatz_conj ecture. Esse site tem muita coisa, e
grande parte só pode ser lida com domínio de assuntos abordados no ensino médio -
mas não tudo.
11. Veja http://en.wikipedia.org/wiki/Paul_Erdos. Esse site tem um bom panorama da
vida e das realizações de Erdõs.
12. Veja http://en.wikipedia.org/wiki/Goodstein%27s_theorem. O primeiro parágra-
fo chama a atenção para o fato de que o teorema de Goodstein é um exemplo
não-artificial de uma proposição indecidível. A Matemática é um tanto difícil de ler
para o iniciante, mas os persistentes conseguirão entender.

Até a lógica tem limites 151


A segunda solução
Já posso ver a Álgebra que aprendi no ensino médio, cinco décadas atrás,
em meu espelho retrovisor, mas, quanto mais as coisas mudam, mais a
Álgebra do colégio permanece a mesma. Hoje, os livros são graficamente
muito mais interessantes e muito mais caros - mas ainda contêm proble-
mas como o que está no parágrafo a seguir.
O jardim de Susan tem o formato de um retângulo. A área do jardim é
de 50m2, e o comprimento do jardim excede sua largura por Sm. Quais
são as dimensões do jardim?
A formulação do problema é bastante clara e direta. Se C e L repre-
sentam as dimensões do jardim, então tem as seguintes equações:

CL= 50 eárea = 50m2)


C-S=L (comprimento excede largura em Sm)

152 Como a matemática explica o mundo


Ao substituir a segunda equação na primeira, obtém-se a equação
quadrática C(C-5) = 50. Reagrupando e fatorando, C 2 - 5C- 50 =O=
(C-10) (C + 5). Existem duas soluções para essa equação. Uma é C = 10;
substituindo isso na segunda equação, temos L = 5. É fácil ver que esses
números solucionam o problema; um jardim com um comprimento de
1Om e uma largura de 5m tem uma área de 50m2 , e o comprimento exce-
de a largura em 5m.
Entretanto, há uma segunda solução para a equação quadrática aci-
ma; C = -5. Ao substituir na segunda equação, temos L = -10, e esse par
de números nos dá uma solução matemática satisfatória para o par de
equações. Procure o quanto quiser, porém, e você não vai achar um jar-
dim com uma largura de 1O metros negativos - porque largura é uma
quantidade inerentemente positiva.
O estudante de ensino médio sabe o que fazer nesse caso: descartar a
solução L = -1 O e C = -5, precisamente porque não faz sentido no contex-
to do problema. Se tal equação ocorresse na Física, o físico não seria tão rá-
pido em descartar a solução aparentemente sem sentido. Em vez disso, ele
talvez se pergunte se há algum sentido subjacente escondido na solução
aparentemente "sem sentido" que espera para ser revelado, dado que exis-
te uma rica história de Física interessante subjacente em soluções aparen-
temente sem sentido algum.

A lacuna na tabela

A defmição constante no dicionário acerca do verbete "matemática" normal-


mente é semelhante àquela que encontrei no meu velho dicionário Punk &
W agnalls - o estudo da quantidade, da forma, da magnitude e da ordem.
Quando uma ordem se manifesta de modo que, em parte, explica fenôme-
nos do mundo real, explorações são muitas vezes empreendidas para ver se
fenômenos ocultos correspondem à parte faltante do arranjo, ou ordem. Um
caso clássico desse tipo é a descoberta da tabela periódica dos elementos.
No século XIX, os químicos estavam tentando impor ordem e estru-
tura à aparentemente perturbadora gama de elementos químicos. Dmitry
Mendeleyev, um químico russo, decidiu tentar organizar os elementos
conhecidos em um padrão. Para fazê-lo, ele primeiramente arranjou esses
elementos na ordem crescente do peso atômico, a mesma propriedade fí-

Espaço e tempo: Isso é tudo? 153


sica que atraía a atenção de John Dalton, quando ele arquitetou a teoria
atômica. Ele, então, impôs outro nível de ordem, agrupando os elementos
de acordo com propriedades secundárias, como metalicidade e reativida-
de química- a facilidade com que os elementos se combinavam entre si.
O resultado das deliberações de Mendeleyev foi a tabela periódica,
um arranjo tabular dos elementos em fileiras e colunas. Em essência, cada
coluna era caracterizada por uma propriedade química específica, como
m etais alcalinos ou gases quimicamente não-reativos . Os pesos atômicos
aumentavam da esquerda para a direita em cada fileira, e de cima para bai-
xo em cada coluna.
Quando Mendeleyev deu início a seu trabalho, nem todos os elemen-
tos eram conhecidos. Como resultado, havia lacunas ocasionais na tabela
p eriódica - lugares que Mendeleyev esperava ser de elementos com um
peso atômico particular e propriedades químicas determinadas, mas não
se tinha conhecimento de um elemento assim. Com confiança inabalável,
Mendeleyev previu a futura descoberta de três desses elementos, dando
seus pesos atômicos e propriedades químicas aproximadas, mesmo antes
de ter uma prova substancial de sua existência. Sua previsão mais famosa
envolveu um elemento que Mendeleyev chamou eka-silício. Localizado
entre o silicone e o zinco em uma de suas colunas, Mendeleyev previu que
seria um metal com propriedades semelhantes àquelas do silicone e do
zinco. Além disso, ele fez uma série de previsões quantificáveis: seu peso
seria 5,5 vezes maior que o da água, seu óxido seria 4, 7 vezes mais pesado
que o da água, e assim por diante . Quando o eka-silício (posteriormente
chamado germânio) foi descoberto, cerca de vinte anos mais tarde, viu-se
que Mendeleyev acertara na mosca em suas previsões.
Embora esse talvez seja o mais notável sucesso na descoberta de uma
ordem ou arranjo ao qual o mundo real correspondia em parte, seguida da
tentativa de descobrir aspectos do mundo real que correspondessem a ou-
tras partes do arranjo, essa história tem-se repetido com relativa freqüên-
cia na Física.

O jardim de largura negativa

Um dos mais famosos exemplos ocorreu quando Paul Dirac publicou


uma equação em 1928, descrevendo o comportamento de um elétron se

154 Como a matemática explica o mundo


movendo em um campo eletromagnético arbitrário. As soluções para a
equação ocorriam em pares, de modo, em certo sentido, análogo ao modo
como as raízes complexas de uma quadrática ax 2 + bx + e cujo discrimi-
nante b2 - 4ac é negativo ocorrem em pares conjugados complexos, tendo
a forma u + iv eu - iv. Qualquer solução em que a partícula apresentasse
energia positiva tinha uma contrapartida em uma solução na qual a partí-
cula apresentava energia negativa - uma idéia quase tão desnorteante
quanto a de um jardim com largura negativa. Dirac percebeu que isso po-
deria corresponder a uma partícula semelhante a um elétron, cuja carga
fosse positiva (a carga em um elétron é negativa), uma idéia inicialmente
recebida com considerável ceticismo. O grande físico russo Pyotr Kapitsa
comparecia a seminários semanais junto com Dirac. Não importava qual
fosse o tópico do seminário, no final Kapitsa sempre se virava para Dirac e
perguntava: "Paul, onde está o antielétron?" 1
Quem riu por último, porém, foi Dirac. Em 1932, o físico america-
no Carl Anderson descobriu o antielétron (que foi rebatizado como
pósitron), num experimento envolvendo os rastros deixados por raios
cósmicos em uma câmara de névoa. Não se sabe se, depois da descober-
ta do pósitron, Dirac virou para Kapitsa e disse: "Lá está ele~". Se Dirac
foi capaz de resistir à tentação, pode ser contado entre os poucos seres
humanos capazes disso. Dirac foi um dos ganhadores do Prêmio Nobel
em 1933.
Na Matemática, uma maneira de evitar o dilema colocado pela
existência de jardins de extensão negativa é restringir o domínio da
função (o conjunto de valores de entrada permitidos) sob considera-
ção. Dessa forma, ao considerar as equações para o jardim descrito no
início deste capítulo, tomam-se apenas aqueles valores de C e L (o
comprimento e a largura do jardim) que são positivos. Assim restringi-
da, a equação quadrática que obtivemos tem apenas uma solução no
domínio permitido da função, e o problema dos jardins de extensão ne-
gativa é eliminado .
Entretanto, como mostrado no exemplo da equação de Dirac, o físico
não pode ter a arrogância de restringir o domínio das funções que descre-
vem fenômenos. Assim fazendo, o domínio restrito pode descrever fenô-
menos que são conhecidos - mas na parte do domínio que foi excluída
pode espreitar algo maravilhoso e inesperado.

Espaço e tempo: Isso é tudo? 155


Cookies complexos
Conceitos matemáticos são idealizações. Algumas idealizações, como, por
exemplo, "três" ou "ponto", correspondem à nossa compreensão intuitiva
do mundo. Outras, como i (a raiz quadrada de -1 ), têm utilidade sem apre-
sentar uma correspondência tão estreita. Uma ferramenta matemática bá-
sica na Mecânica Quântica é a função de onda, que é uma função de valor
complexo, cujos quadrados são funções de densidade de probabilidade.
Funções de densidade de probabilidade são razoavelmente fáceis de enten-
der. É mais provável que eu esteja em Los Angeles (onde vivo) na próxima
terça-feira do que em Cleveland, mas certamente existem eventos que exi-
giriam uma viagem minha para lá. Eventos de baixa probabilidade, com
certeza, mas não impossíveis. A função de valor complexo cujo quadrado é
uma função de densidade de probabilidade não parece ter qualquer corres-
pondência com o mundo - é uma entidade matemática que, quando apro-
priadamente manipulada, fornece resultados precisos sobre o mundo.
Mos o que os números complexos têm a ver com o mundo real? Não po-
demos comprar 2 - 3i cookies a um preço de 1O+ l 5i centavos por cookie -
mas, se pudéssemos, daria para pagar a conta1 Usando a fórmula custo
igual a número de cookies vezes o preço por unidade, o custo total seria

(2 - 3i) x (10 + l 5i) = 20 + 30i - 30i + 45 = 65 centavos

Situações análogas ocorrem com freqüência na Física - fenômenos


reais têm descrições irreais, porém úteis. Será que a utilidade dessas des-
crições se restringe ao universo que conhecemos - ou simplesmente ain-
da não descobrimos a existência dos cookies complexos?
Heisenberg disse algo sobre o papel da Matemática que parece ser
apropriado citar a esta altura, mesmo que não estejamos falando sobre a
Mecânica Quântica: "... foi possível inventar um esquema matemático -
a teoria quântica - que parece ser inteiramente adequado ao tratamento
do processo atômico; para efeito de visualização, no entanto, temos de
nos contentar com duas analogias incompletas - a formulação ondulatória
e a formulação corpuscular." 2 Em outras palavras, os cookies complexos
talvez não sejam parte do que podemos visualizar com a mesma exatidão
que podemos retratar matematicamente - mas, se funciona, é só com isso
que devemos nos preocupar.

156 Como a matemática explica o mundo


O Modelo Padrão

O Modelo Padrão representa o modo como os físicos atualmente vêem o


universo. Existem dois tipos de partículas: os férmions, que são partículas
de matéria, e os bósons, que são as partículas que transmitem as quatro
forças atualmente consideradas atuantes no universo. Essas forças são o
eletromagnetismo, que é transmitido pelos fótons; a força nuclear fraca,
que é responsável pelo decaimento da radioatividade e é transmitida pelos
bósons W e Z; a força nuclear forte, que mantém o núcleo atômico unido
(fazendo oposição à força elétrica repulsiva gerada pelos prótons do nú-
cleo) e é transmitida pelos glúons; e a força gravitacional, cuja partícula
transmissora ainda não foi encontrada.
O Modelo Padrão é o ápice de séculos de esforços, mas, mesmo que se
mostre exato em todos os detalhes (e em algumas ocasiões, foi experimental-
mente confumado com uma exatidão de mais de 15 casas decimais), os físi-
cos sabem que ele deixa muitas questões sem resposta. As massas das parti-
culas são números medidos experimentalmente; será que existe uma teoria
mais profunda que possa prever essas massas? Os férmions têm uma bela di-
visão em três "gerações" distintas de particulas; por que três, e não duas, qua-
tro, ou algum outro número? As quatro forças variam significativamente e de
muitas maneiras. O eletromagnetismo é quase quarenta ordens de magnitu-
de mais forte do que a gravidade, o que explica que você pode passar um
pente em seus cabelos (supondo que você tenha cabelos; eu não tenho) num
dia frio de inverno e gerar eletricidade estática suficiente para superar a atra-
ção gravitacional da Terra, e pegar com o pente um pequeno pedaço de pa-
pel. O eletromagnetismo e a gravidade têm um raio de ação infinito - a força
forte é confinada no interior do átomo. O eletromagnetismo atrai e repele, o
que felizmente ocorre em proporções iguais em cada átomo não-ionizado
(de modo que não somos feixes andantes de carga elétrica, exceto nos dias
frios do inverno), mas a gravidade atrai sempre. Tempestades elétricas no
centro da Via Láctea não nos afetam, mas a força da gravidade que emana do
buraco negro que está em seu centro certamente sim.
Mais importante do que tudo: há um nível mais profundo de realidade
do que o mostrado pelo Modelo Padrão? Nós já vimos que os experimentos
de Aspect confumaram que não existem variáveis escondidas que funda-
mentem as propriedades mecânicas quânticas, mas isso meramente elimina a
possibilidade de uma realidade mais profunda em uma situação espeáfica.

Espaço e tempo: Isso é tudo? 157


Para além do Modelo Padrão

Neste momento, a Física está inundada por miríades de variações do anti-


elétron de Dirac. Há inúmeras tentativas de ir além do Modelo Padrão
(que categoriza a variedade de partículas e forças que hoje acreditamos
compor nosso universo) ao tentar responder à seguinte questão: por que
essas partículas e forças? A busca por uma teoria de tudo elegante irá, sem
dúvida, continuar, porque somente a descoberta de uma teoria assim, ou
uma prova de que uma teoria assim não é possível, podem interromper a
busca. Como resultado, as descrições matemáticas que estendem o Mo-
delo Padrão atualmente são abundantes. Examinaremos algumas das con-
seqüências desses modelos-partículas,estruturas e dimensões cujas exis-
tências talvez jamais sejam conhecidas.

O outro lado do infinito

Provavelmente, há uma única coisa com que todos os modelos matemáti-


cos para a Física concordam- neste universo, não existe algo chamado infi-
nito. Isso não quer dizer que não exista algo chamado infinito em qualquer
universo dado. Num artigo intrigante e provocador3 (que apareceu pela
primeira vez na Scientific American), o físico Max Tegmark classificou qua-
tro tipos diferentes de "universos paralelos" que poderiam ser explorados.
Sua classificação de Nível IV consiste em estruturas matemáticas. Tegmark
argumenta, de modo convincente, embora não necessariamente persuasi-
vo, em favor de um conceito que ele chama "democracia matemática". O
multiverso (o conjunto de todos os universos possíveis) concentra todas as
realizações físicas possíveis de um modelo matemático.
Há certamente boas razões para considerar essa possibilidade. O físi-
co ganhador do Prêmio Nobel Leo Szilard, ao refletir sobre a "eficácia ir-
racional" da Matemática na Física, declarou que não podia ver qualquer
motivo racional para ela. John Archibald Wheeler, que Szilard encon-
trou numa discussão sobre a utilidade física do contínuo, perguntou-se:
"Por que essas equações?" 4 Não dito, mas implícito, estava "Por que não
outras equações?" Por que o universo em que vivemos suporta as equa-
ções de Einstein da relatividade geral, e as equações de Maxwell acerca
do eletromagnetismo, e não algum outro conjunto de equações? Teg-
mark propõe uma resposta possível; o multiverso suporta todos os con-

158 Como a matemática explica o mundo


juntos possíveis (e consistentes) de equações; ele simplesmente faz isso
em setores diferentes, e acontece de nós estarmos vivendo no setor de
Einstein e Maxwell.
Um dos grandes debates que apaixonaram a Física por séculos foi
aquele sobre a natureza da luz - é uma onda ou uma partícula? A resposta
a isso, de que é ambas as coisas, não seria plenamente compreendida antes
do século XX, mas, em meados do século XIX, as equações de Maxwell,
que descreviam o comportamento eletromagnético, pareceram aprovar a
hipótese das ondas, já que as equações levavam a soluções que obviamen-
te se assemelhavam a uma onda . Não obstante, um problema ainda per-
manecia: pensava-se que as ondas requeriam um meio de propagação.
Ondas de água precisam de água (ou de algum outro líquido) e ondas so-
noras precisam de ar (ou de alguma outra substância para transmitir as ra-
refações e compressões alternantes que constituem as ondas). O meio no
qual se acreditava que as ondas eletromagnéticas se propagavam era o pi-
torescamente batizado éter luminífero. Com um nome tão adorável, foi
uma pena que os experimentos inicialmente conduzidos por Albert Mi-
chelson e Edward Morley, em 1887, e que continuam a ser conduzidos
até hoje, tenham demonstrado, com um grau extraordinariamente alto de
precisão, que não existe essa coisa chamada éter luminífero. O resultado
de Michelson-Morley levou rapidamente às transformações de Lorenz,
que expressavam as relações entre distância e tempo numa estrutura co-
ordenada se movendo numa velocidade constante em relação a outra es-
trutura, e essas transformações ajudaram Einstein a formular a relativida-
de especial, mais conhecida pela fórmula E = mc2 . * No entanto, Einstein
também conseguiu deduzir a seguinte expressão para massa como uma
função de sua velocidade:
mo
m=--;:::====
~l-(v/ c) 2
Aqui m 0 é a massa do objeto em repouso, em é sua massa quando está
se movendo à velocidade v. 5 É fácil perceber que, quando v é maior do que
Omas menor do que e, o denominador é menor do que 1, e então a massa

*Nota do Revisor Técnico : A versão da história da teoria da relatividade apresentada pelo


autor não está exatamente correta. Para mais detalhes, veja Sutil é o Senhor (Nova Frontei-
ra, 1995)

Espaço e t empo: Isso é tudo? 159


m é maior do que a massa em repouso m 0 . Igualmente fácil de perceber é
que, à medida que v se aproxima de e, o denominador se aproxima de O, e
m se torna cada vez maior; quando v é 90% da velocidade da luz, a massa
mais do que dobra; quando v é 99% dessa velocidade, a massa já aumen-
tou por um fator de 7; e, quando v é 99,99% da velocidade da luz, a massa
é mais de setenta vezes maior do que era quando em repouso.
Como observamos, nosso universo (ou os físicos que atualmente ocupam
nosso setor do universo) abomina infinitos da mesma maneira que se pen-
sava que a natureza abominava o vácuo . Como resultado disso, nenhuma
partícula com uma massa finita pode viajar na velocidade da luz - pois,
então, o denominador na equação acima seria O, e a massa m seria infinita.
Isso não impede a luz de viajar à velocidade da luz, já que fótons, as partí-
culas da luz, não têm massa - não têm massa em repouso.

Entra o táquion?

A teoria de Einstein também mostrou que uma energia infinita seria neces-
sária para capacitar uma partícula de massa não-zero a se mover à velocida-
de da luz. Entretanto, uma olhada mais de perto na equação acima- que foi
obtida para objetos do nosso universo- revela uma contrapartida potencial
do antielétron de Dirac. Se v é maior do que e, o denominador requer que ti-
remos a raiz quadrada de um número negativo, resultando em um número
imaginário. As regras que governam a aritmética dos números imaginários
ditam que o resultado da divisão de um número real por um número imagi-
nário é um número imaginário; então, se fosse possível acelerar um objeto
para além da velocidade da luz, a massa do objeto se tornaria imaginária.
Objetos com massa imaginária viajando a uma velocidade maior que a da
luz são chamados táquions - da palavra grega para "velocidade". Até agora,
nenhum mensageiro vindo do outro lado do infinito foi detectado em nosso
universo- mas a ausência de evidência não é evidência de ausência. Táquions
têm uma reputação tão ruim na Física contemporânea que se diz que uma
teoria que permita sua existência tem certa instabilidade, 6 mas a possibili-
dade deles ainda não foi totalmente descartada. Embora não haja meio de
visualizar como um táquion que "desacelerou" para velocidades menores
do que a da luz pode subitamente virar uma partícula com massa real, algu-
mas partículas cuja existência é conhecida de fato mudam de caráter; exis-

160 Como a matemática explica o mundo


tem três espécies diferentes de neutrinos, e eles mudam de espécie quando
viajam. Por mais bizarra que seja a noção de uma partícula mudando de es-
pécie, é a única exphcação que se tem hoje para aquilo que é chamado de
problema do neutrino solar. Décadas coletando neutrinos resultaram em
apenas um terço do número esperado de neutrinos; a única maneira de ex-
plicar isso é supor que os neutrinos, na verdade, mudam de espécie em vôo,
já que os coletores de neutrinos conseguiram detectar apenas uma espécie
de neutrino.

Teoria de cordas

Antes, neste capítulo, referimo-nos ao comentário de John Archibald Whee-


ler: "Por que essas equações?" Uma questão igualmente váhda, e talvez mais
pé-no-chão (deste nosso universo), é "Por que essas partículas?" Por que as
partículas que constam do nosso universo, os fótons e quarks e glúons e elé-
trons e neutrinos do Modelo Padrão são as partículas? Por que elas têm essas
massas e forças de interação? Tais questões estão além do escopo do Modelo
Padrão. O Modelo Padrão é uma tabela do campo do "que" que nos permite
prever o "como" - mas completamente ignorada é a questão do "porquê".
Possivelmente, "o porquê" é uma questão que está além do reino da
Física - mas talvez não. Nosso último século testemunhou a perspectiva
científica de as partículas fundamentais mudarem primeiramente dos
átomos para os nêutrons, prótons e elétrons, e então para as partículas que
compõem o Modelo Padrão. Talvez existam ainda mais partículas funda-
mentais que componham aquelas do Modelo Padrão. A teoria candidata
que ocupa a liderança nessa área é a teoria de cordas 7 (e uma versão mais
evoluída, conhecida como teoria de supercordas), que postula que todas
as partículas neste universo são os modos vibracionais de objetos unidi-
mensionais conhecidos como cordas. Uma corda de violino de compri-
mento e tensão fixos só pode ser vibrada em certos padrões particulares.
Quando um violinista passa um arco sobre uma única corda, o som resul-
tante é melodioso, e não dissonante, que nos faça pensar num gato sendo
torturado. Isso ocorre porque cada padrão vibracional corresponde a uma
nota especifica. As cordas que constam de teoria das cordas somente podem
vibrar em certos padrões específicos - e esses padrões são as partículas que
compõem nosso universo.

Espaço e tempo: Isso é tudo? 161


As cordas que se encontram no centro dessas teorias são incrivelmente
pequenas8 - a observação direta das cordas é tão difícil quanto tentar ler as
páginas de um livro a uma distância de cem anos-luz. Isto certamente pare-
ce descartar a possibilidade de uma observação direta, mas a ciência nem
sempre precisa de observações diretas; muitas vezes, as conseqüências bas-
tam. De fato, os cientistas não tinham visto o átomo até que fosse revelado
pelos microscópios de varredura da década de 1980, mas a teoria atômica já
estava firmemente estabelecida mais de cem anos antes disso. Muitos esfor-
ços estão sendo empreendidos para se encontrarem previsões feitas pela teo-
ria de cordas que possam ser observacional ou experimentalmente verifica-
das. Entretanto, a teoria de cordas é, por si mesma, um trabalho em pro-
gresso e, à medida que passa por suas várias encarnações (já houve pelo me-
nos quatro gerações de teorias de cordas até hoje), as previsões mudam.
Não obstante, a teoria de cordas geralmente faz dois tipos de previsão
que transcendem o Modelo Padrão: prevê partículas que ainda não foram
observadas, e estruturas geométricas e topológicas para o universo que
continuam sem verificação. Essas duas merecem uma olhada- não só por-
que são fascinantes em e por si mesmas, mas porque é possível que alguma
teoria futura possa nos mostrar que elas nos levam a contradições, e que
teremos de procurar em outros cantos.
Tive a sorte de comparecer a uma palestra muitos anos atrás, no Cal-
tech, na Califórnia, proferida por Edward Witten. Witten é um medalhis-
ta Fields e um dos principais expoentes da teoria das cordas. Muitos im-
portantes cientistas estavam na platéia e houve espaço para perguntas e
respostas depois da palestra. Uma das perguntas dirigidas a Witten foi:
"Você realmente acredita que as coisas sejam assim?" A resposta de Wit-
ten foi inequívoca: "Se eunão acreditasse, não teria passado dez anos tra-
balhando nisso." Isso me convenceu- naquele momento . No meu cami-
nho de volta para casa, ocorreu-me o pensamento de que, séculos antes,
Isaac Newton, que havia passado dez anos trabalhando em uma explica-
ção para a Alquimia, talvez tivesse respondido da mesma maneira a uma
pergunta sobre a validade da Alquimia.

Mais partículas postuladas


Existem duas grandes categorias de partículas que ainda estão por ser de-
tectadas, mas são assuntos de investigação. A primeira classe de partículas

162 Como a matemática explica o mu ndo


é composta por aquelas que integram o Modelo Padrão, mas ainda não fo-
ram detectadas. A estrela deste céu particular é o bóson de Higgs, que é o
veículo por meio do qual a massa é transmitida a todas as partículas sem
massa (fotons, as partículas da luz, são exemplos de partículas sem mas-
sa). Como já se observou anteriormente, o bóson de Higgs parece conti-
nuar, de modo hipnotizante, fora do alcance de qualquer espectro de
energia que os atuais aceleradores de partículas conseguem gerar, mas a
muitos físicos parece que é só uma questão de tempo até que uma caia na
armadilha preparada para ela. O que é mais interessante, de um ponto de
vista matemático, são as partículas supersimétricas. Essas partículas são as
efêmeras companheiras de dança para o coro de partículas que compõem
o Modelo Padrão, e existem na maioria das versões atualmente populares
da teoria de cordas. Como o antielétron de Dirac, elas emergem como re-
sultado de um processo de acasalamento na Matemática subjacente. Para
Dirac, no entanto, esse processo de acasalmento resultava da existência de
carga oposta. Partículas supersimétricas decorrem de um acasalamento
que envolve um spin - as partículas de massa do Modelo Padrão têm um
spin Yz, suas partículas supersimétricas têm spin O.
A detecção de uma partícula Higgs, ou de uma supersimétrica, de-
pende das massas dessas partículas. Todas as partículas não-observadas
são pesadas (quando medidas como um múltiplo da massa do próton); a
massa conjecturada dessas partículas varia de acordo com qual teoria está
sendo empregada. O que não varia é o que é necessário para criá-las- mui-
ta energia. A grande equação de massa-energia de Einstein, E= mc2 , pode
ser comparada com a freqüência de troca entre diversas moedas. A bomba
atômica, ou a energia gerada por fusão termonuclear no centro de uma es-
trela, é o resultado da conversão de massa em energia - uma quantidade
mínima de massa gera muita energia, porque aquela massa é multiplicada
por c2 . De modo a produzir uma partícula de massa m, é necessário obser-
var a equação equivalente m = E/c2 ; e é necessário um monte de E para
produzir uma m bem pequena. Isso significa que aceleradores de partícula
têm de ser construídos cada vez maiores, para suprir a E necessária para a
criação de novas partículas; e, quanto maior for a m das novas partículas,
maior será a E necessária. Há teorias de cordas em que as massas das partí-
culas-chave serão acessíveis à próxima geração de aceleradores- mas tam-
bém há teorias de cordas em que esse não é o caso. O parâmetro-chave é o

Espaço e tempo: Isso é tudo? 163


tamanho da entidade fundamental- a corda vibrante - e, quanto menor a
corda, mais energia é necessária.

O Homem do Milênio

Um de meus grandes desapontamentos de 1999 foi o fracasso da revista


Time em nomear o Homem do Milênio. Foi certo consolo que tenham in-
dicado Einstein como o Homem do Século (boa escolha!) 1 mas eles perde-
ram uma oportunidade de ouro. Para mim, Isaac Newton era uma escolha
ainda mais óbvia para Homem do Milênio do que foi Einstein para Ho-
mem do Século, e não existem muitas oportunidades sobrando para ele-
ger um Homem do Milênio.
Isaac Newton é mais famoso por sua teoria da gravitação, mas esta é
apenas uma de suas muitas realizações, tanto na Matemática quanto na
Física. Contudo, a maior realização de Newton transcende a Matemática
e a Física, e é o motivo pelo qual merece ser o Homem do Milênio: ele for-
mulou o método científico, que ajudou no rápido início da Revolução
Industrial e de tudo o que aconteceu desde então. O método científico,
como Newton o empregou, consistia em reunir dados (ou examinar dados
existentes), elaborar uma teoria para explicar esses dados, deduzir mate-
maticamente previsões a partir da teoria e verificar a validade daquelas
previsões. Ele fez isso não apenas com a Gravitação, mas com a Mecânica
e a Óptica, e transformou a civilização ocidental.

O Homem do Século

A teoria da gravitação de Newton é, inquestionavelmente, uma das grandes


realizações intelectuais da humanidade. Ela não apenas explica a maioria
das coisas do dia-a-dia, como, por exemplo, as órbitas dos planetas e o mo-
vimento das marés; é até suficientemente profunda para conter conceitos
como buracos negros, que eram, no máximo, idéias no plano do sonho
(sonho nada claro) até poucas décadas atrás . Contudo, os físicos do século
XIX perceberam que a teoria não era perfeita - algumas medições (prin-
cipalmente a precessão da órbita de Mercúrio) diferiram significativa-
mente dos valores calculados pela teoria de Newton.
O que Einstein fez não foi simplesmente reparar a teoria de Newton;
ele criou uma nova maneira de olhar o universo. Contudo, tanto Newton

164 Como a matemática explica o mundo


quanto Einstein visualizaram um universo no qual os eventos podem ser
especificados por quatro números (dimensões) - três números denotando
a localização espacial, um denotando a localização temporal. Para New-
ton, porém, esses quatro números eram absolutos; todos os observadores
concordariam sobre o quanto de distância espacial existe entre dois even-
tos que ocorrem no mesmo instante, e todos os observadores concordari-
am sobre quanto tempo teria passado entre dois eventos ocorrendo no
mesmo lugar no espaço. Uma das contribuições de Einstein foi a observa-
ção de que esses números eram relativos; uma conseqüência da teoria de
Einstein é a de que observadores em movimento discordariam sobre
quanto tempo teria passado entre dois eventos ocorrendo no mesmo lugar
do espaço. Réguas em movimento diminuem de tamanho, e relógios em
movimento andam mais devagar, de acordo com Einstein - e um experi-
mento em que dois relógios atômicos perfeitamente sincronizados foram
comparados, um dos quais ficou em terra firme, enquanto outro foi leva-
do em um jato ao redor do mundo, provou que Einstein estava certo.
Contudo, tanto Newton quanto Einstein usaram quatro números para
discutir o universo; seus universos são quadridimensionais. Há duas questões
que surgem imediatamente. A primeira - nosso universo é realmente quadri-
dimensional? - indaga se Newton e, depois, Einstein estavam certos. A se-
gunda - existem outros universos, não-quadridimensionais? - é um tanto
mais profunda, e começa a invadir o reino da Filosofia (ou Matemática pura).
Essas duas questões têm ocupado os físicos por quase um século. É a
busca pela teoria de tudo, pela qual os físicos não apenas explicarão o que
acontece, mas por que acontece e se outras coisas podem acontecer (outros
universos existem) ou não (o nosso é o único universo possível). Embora
uma teoria de tudo ainda vá deixar muitas questões sem resposta, tal feito
responderia definitivamente a uma das grandes questões da humanidade.

A geometria do universo
Uma das afirmações mais famosas de Newton, encontrável em seu Princi-
pia, foi: "Não construo nenhuma hipótese; pois tudo o que não é deduzi-
do dos fenômenos (dados observáveis) deve ser chamado hipótese, e hi-
póteses .. . não têm lugar na Filosofia experimental. Nessa filosofia, propo-
sições particulares são inferidas a partir dos dados e depois convertidas em

Espaço e tempo: Isso é tudo? 165


proposições gerais por meio da indução. Assim foi que ... [minhas] leis do
movimento e da gravitação foram ... descobertas."9
Ele pode não tê-las construído, ao menos não para publicação, mas é di-
fícil acreditar que ele, pelo menos, não especulasse sobre elas. Entre os gran-
des feitos matemáticos de Newton, está o desenvolvimento do cálculo (que
também foi desenvolvido, independentemente, por Gottfried Leibniz). O
desenvolvimento da gravitação newtoniana em livros-texto contemporâ-
neos é invariavelmente expresso em termos de cálculo, já que essa é, clara-
mente, a ferramenta matemática correta para expressar os resultados. É in-
teressante notar, porém, que Newton foi comedido no uso do cálculo em
seu Principia; a grande maioria de seus resultados foi desenvolvida usando
apenas Geometria euclidiana. A habilidade de Newton com o uso da Geo-
metria era extraordinária, e é impossível acreditar que, uma vez que havia
exprimido a força gravitacional entre dois corpos como variando inversa-
mente com o quadrado da distância entre eles, Newton não tivesse especu-
lado sobre a conexão entre esse fato e a Geometria. O fato de que a área de
superfície de uma esfera é um múltiplo do quadrado do raio era conhecido
dos geômetras gregos, e se existe uma quantidade finita de "coisas gravita-
cionais" emanando de um corpo material, aquelas coisas gravitacionais de-
vem estar espalhadas sobre a superfície de uma esfera em expansão. A exis-
tência de tal coisa gravitacional emanando de corpos materiais em uma es-
fera em expansão explicaria a lei do inverso do quadrado da gravitação e,
sem dúvida, Newton deve ter tido alguns pensamentos nesse sentido.

Outra lacuna em outra tabela


O Modelo Padrão não é uma equação, mas uma tabela. Existe uma lacuna
no Modelo Padrão, uma partícula que se encaixa perfeitamente, mas que
ainda não foi observada. Assim como a organização de elementos feita por
Mendeleyev o levou a prever elementos faltantes e suas propriedades, a
lacuna no Modelo Padrão pede para ser preenchida por um bóson que
transmita a força gravitacional (como os outros bósons transmitem as ou-
tras forças). Essa partícula hipotética é conhecida como gráviton.
Grávitons são, em algum sentido, um modo natural de explicar a lei
do inverso do quadrado de Newton. O eletromagnetismo também é uma
força em que a força da atração ou da repulsão varia com o inverso do qua-
drado da distância entre as partículas eletromagnéticas, e a razão é que os

166 Co rno a matemática explica o mundo


fótons se espalham por sobre a superfície da esfera em expansão expan- e
dindo-se à velocidade da luz), cujo centro é a fonte da emissão. Se o mes-
mo número de fótons é espalhado por sobre duas esferas, e a maior delas
tem um raio três vezes maior do que o raio da menor, a esfera maior tem
uma área de superfície nove vezes maior do que a da esfera menor. Supon-
do que o mesmo número de fótons seja utilizado para cobrir a superfície
da esfera, a densidade dos fótons eque é uma medida do poder da força) na
superfície da esfera maior é 1/9 = 1/3 2 da densidade dos fótons sobre a su-
perfície da esfera menor.
Assim como é quase certo que Newton tenha percebido, é razoável
postular a existência de um mecanismo similar para explicar a força do
campo gravitacional. Mas é aqui que encontramos um dos maiores proble-
mas não-resolvidos que confrontam a Física contemporânea. As três teorias
que explicam o comportamento das forças não-gravitacionais são todas teo-
rias quânticas, que explicam as forças por intermédio do comportamento
das partículas. A relatividade, a teoria que melhor descreve a força gravita-
cional, é uma teoria de campos; ela fala de um campo gravitacional que se
estende através do espaço, e descreve o comportamento desse campo.
Esse também foi o caso com as equações de Maxwell, a primeira descri-
ção da força eletromagnética. Essas equações descrevem como os campos
elétrico e magnético se relacionam entre si. Na primeira metade do século
XX, a Eletrodinâmica Quântica foi inventada, e descrevia como os campos
eletromagnéticos eram produzidos como resultado de partículas eletrica-
mente carregadas eque são os férmions) interagindo através da troca de fó-
tons (que são bósons). A Eletrodinâmica Quântica serviu como modelo para
teorias quânticas subseqüentes - a teoria eletrofraca, que fornece uma descri-
ção unificada das forças eletromagnética e fraca, e aquela com o charmoso
nome de cromodinâmica quântica, que fornece uma descrição da força forte.
Contudo, mesmo que a partícula que transmite a força gravitacional esteja
em seu lugar - ao menos teoricamente -, uma teoria quântica da gravidade
bem-sucedida ainda está por surgir. O desenvolvimento dessa teoria talvez
seja o objetivo mais importante da Física teórica contemporânea.

Um relâmpago na garrafa

Em 1919, a teoria da relatividade geral de Einstein foi espetacularmente


comprovada pelas observações de Eddington acerca da deflexão gravita-

Espaço e tempo: Isso é tudo7 167


cional da luz pelo Sol de luz advinda das estrelas.* No mesmo ano, Eins-
tein recebeu um artigo extraordinário de Theodor Kaluza, io um obscuro
matemático alemão. Kaluza fizera algo que, com freqüência, era pratica-
do por matemáticos, mas apenas ocasionalmente por físicos: havia toma-
do resultados bem conhecidos e os colocado em um ambiente novo e hi-
potético. Os resultados bem conhecidos nesse caso eram o tratamento de
Einstein da relatividade geral; o ambiente hipotético no qual ele os colo-
cou foi um universo composto por quatro dimensões espaciais e não as e
três com as quais somos familiarizados) e uma dimensão de tempo.
Kaluza provavelmente escolheu quatro dimensões de espaço porque é
o próximo degrau na escada da complexidade, depois das três dimensões.
Entretanto, a abordagem de Kaluza capturou um relâmpago dentro de uma
garrafa - literalmente. Essa suposição não apenas resultou nas equações de
Einstein da relatividade geral, o que não foi surpreendente, mas outras
equações emergiram desse tratamento - e essas equações não eram outras
senão as equações de Maxwell, descrevendo o campo eletromagnético.
De vez em quando, uma suposição bizarra resulta em algo completa-
mente maravilhoso e inesperado. Max Planck fez uma suposição bizarra se-
melhante quando postulou que a energia vinha em pacotes discretos; essa
suposição resolveu muitos dos problemas existentes na Física teórica da
época, m esmo que muitos anos ainda tivessem de passar até que essa supo-
sição fosse empiricamente validada. Paul Dirac fez uma suposição parecida
sobre a existência do antielétron. A suposição de Kaluza e a quase milagrosa
aparição simultânea das duas grandes teorias descrevendo as duas forças co-
nhecidas da época (gravidade e eletromagnetismo) impressionaram muito
Einstein. O entusiasmo de Einstein era compreensível - ele passou grande
parte de sua carreira em busca de uma teoria do campo unificado, que com-
binasse, com sucesso, as teorias do eletromagnetismo e da gravidade. Ades-
coberta de Kaluza lhe pareceu uma pista rápida para uma teoria assim.
Havia somente um problema: onde estava a quarta dimensão espa-
cial? Lembre-se da p ergunta de Kapitsa a Dirac: "Paul, onde está o antie-
létron?" As três dimensões espaciais normais (Norte-Sul, Leste-Oeste,
cima-baixo) parecem suficientes para localizar qualquer ponto no uni-

*Nota do Revisor Técnico: A experiência de Eddington foi realizada em Sobral, no Ceará,


durante um eclipse solar total, em 29 de maio de 1919.

168 Como a matemática explica o mundo


verso . Parecemos estar condenados às três dimensões- como, sem som-
bra de dúvida, pareceu a Kaluza e a Einstein. Então uma sugestão feita
pelo matemático Oskar Klein pareceu apresentar uma possibilidade
atraente sobre uma quarta dimensão.
Klein propôs que a quarta dimensão era extremamente pequena
quando comparada com as três dimensões usuais às quais estamos acostu-
mados. A página que você está lendo agora parece ser bidimensional, mas,
na verdade, é tridimensional; acontece que a espessura (a terceira dimen-
são) é muito pequena comparada com a altura e a largura da página, que
são as outras duas dimensões. Essa sugestão ressuscitou, ao menos em teo-
ria, as quatro dimensões espaciais de Kaluza. Contudo, ainda restava o
problema de que ninguém jamais havia visto a quarta dimensão espacial, e
o estado-da-arte tanto na teoria quanto nos experimentos era insuficiente
para expô-la, se é que de fato existia. A teoria Kaluza-Klein, como era
chamada, morreu de modo silencioso.

O Modelo Padrão redux


Uma das grandes descobertas do último século foi a de que um átomo pode
mudar de espécie. Como os transmorfos da ficção cientifica, as mudanças de
espécies permitem às partículas assumirem outras formas, e mudanças de es-
pécie entre neutrinos explicam o déficit do neutrino solar. Mas os neutrinos
são altamente arredios (um neutrino pode viajar anos-luz através de chum-
bo sólido sem sofrer qualquer interação); átomos são a matéria do mundo
real. Um átomo que começou sua vida como átomo de nitrogênio pode,
por meio do processo conhecido como decaimento beta, virar um átomo de
carbono. Esse é um dos muitos fenômenos interessantes associados com a
radioatividade, e é uma ação promovida pela força fraca.
A força fraca é fraca quando comparada com a força forte, a força que
mantém inteiros os núcleos de um átomo, contra a repulsão elétrica gera-
da pelos prótons que residem no núcleo. Embora Einstein e Kaluza certa-
mente soubessem do fenômeno do decaimento beta, e também estives-
sem perfeitamente conscientes de que alguma coisa tinha de estar man-
tendo a unidade do núcleo, as forças fraca e forte ainda não haviam sido
isoladas na época em que eles estavam desenvolvendo suas teorias.
No meio século entre 1940 e 1990, alguns progressos notáveis foram
feitos no desenvolvimento das teorias dessas forças. Uma teoria que com-

Espaço e tempo: Isso é tudo? 169


binava a força eletromagnética e a força fraca foi desenvolvida por Shel-
don Glashow, Abdus Salame Steven Weinberg. Essa teoria postula que,
nas temperaturas extraordinariamente altas que existiam no universo pri-
mordial, universo, essas duas forças eram, na verdade, uma única força, e
o resfriamento do universo permitiu que as duas forças se estabelecessem
como forças separadas, numa maneira similar àquela como diferentes
substâncias em uma mistura precipitam à medida que a mistura esfria. A
Cromodinâmica Quântica, a teoria da força forte, foi em grande parte de-
senvolvida por David Politzer, Frank Wilczeck e David Gross. *Ambas as
teorias, que deram Prêmios Nobel a seus descobridores, foram submeti-
das a experimentos e sobrevivem até hoje; juntas, elas ajudam a compor o
Modelo Padrão com as partículas e forças que compõem nosso universo .
A teoria eletrofraca, que combina o eletromagnetismo e a força fraca,
é um importante passo na direção da realização do sonho de Einstein, uma
teoria do campo unificado. Hoj e, a opinião dominante é de que a idéia de
forças se separando à medida que o universo esfria é um modelo para a teo-
ria do campo unificado definitiva - por um instante inconcebivelmente
curto depois do big bang, a uma temperatura inconcebivelmente elevada,
todas as quatro forças eram uma única força e, à medida que o universo es-
friou, elas se separaram. A primeira a se separar teria sido a gravidade, de-
pois a força forte e, finalmente, o eletromagnetismo e a força fraca se sepa-
raram da maneira descrita pela teoria eletrofraca.
O desenvolvimento dessa teoria é um trabalho em andamento, mas está
enfrentando um obstáculo imenso. A teoria eletrofraca e a Cromodinâmica
Quântica são teorias quânticas que dependem significativamente da Mecâni-
ca Quântica para produzir resultados extraordinariamente acurados. A rela-
tividade, a melhor teoria que temos sobre a gravitação, é uma teoria de cam-
pos clássica, que não menciona a Mecânica Quântica. Os níveis experimen-
tais em que as teorias foram confirmadas diferem notavelmente. Podemos
examinar estruturas subatômicas a distâncias de 10-18 metros, e não encon-
tramos nada contradizendo as teorias eletrofraca e cromodinâmica existen-
tes. Porém, o melhor que podemos fazer para medir o efeito da gravidade é

*Nota do Revisor Técnico: Politzer, Gross e Wilczeck não são os descobridores da cromodinâ-
mica quântica, mas os físicos que descobriram o fenômeno chamado "liberdade assintótica"
que essencialmente mostra que a força entre os quarks (força forte) diminui quanto mais au-
mentamos a energia dos quarks, e por essa razão ganharam o Prêmio Nobel de 2004 .

170 Como a matemática explica o mundo


confirmá-la a distâncias de um décimo de milímetro, ou lü-4 metros. Parte
da dificuldade é a fraqueza extraordinária da gravidade quando comparada
às outras forças; a gravidade da Terra não consegue superar a força elétrica es-
tática quando você passa um pente nos cabelos num dia frio de inverno, e é
necessária a gravidade de uma estrela para se destruir um átomo.

A ressurreição das dimensões extras


O advento da teoria de cordas ressuscitou a teoria de Kaluza-Klein de ou-
tras dimensões espaciais - mas de uma maneira que parece quase impossí-
vel de compreender. Após décadas de trabalho, teóricos de cordas perce-
beram que existe apenas um espaço-tempo multidimensional possível que
resulta em equações compatíveis com o universo conhecido - mas esse es-
paço-tempo extradimensional requer dez dimensões espaciais e uma di-
mensão temporal. Se, até hoje, fomos incapazes de enxergar qualquer evi-
dência da dimensão espacial extra da teoria de Kaluza-Klein, que chances
temos de ver as outras sete requeridas pelos teóricos do espaço-tempo? E
que dizer da extensão dessas dimensões extras: elas são grandes, no senti-
do em que as três dimensões espaciais normais são grandes, ou são peque-
nas - e, se esse for o caso, quão pequenas?
Desde que Newton desenvolveu a Matemática do cálculo para ajudar
a formular suas teorias da Mecânica e da Gravitação, os avanços da Física
têm andado de mãos dadas com os avanços na Matemática - mas existem
horas em que uma área de conhecimento guia a outra. Quando Maxwell
desenvolveu sua teoria do eletromagnetismo, tirou da prateleira o cálculo
vetorial que já existia há quase um século; e, quando Einstein inventou a
relatividade geral, descobriu que a Geometria Diferencial, inventada dé-
cadas antes por matemáticos italianos, era a ferramenta ideal para o traba-
lho. Contudo, a teoria de cordas foi forçada a desenvolver muito da pró-
pria Matemática e, conseqüentemente, a Matemática - a linguagem na
qual os resultados da teoria de cordas são expressos - não é completamen-
te compreendida.
Conjugado a esse problema, está outro que tem afetado a Física desde
que ela começou a usar a Matemática para expressar seus resultados - a ne-
cessidade de aproximação . Quando equações não podem ser solucionadas
com exatidão - e, como vimos, essa é uma situação que ocorre com relativa

Espaço e tempo: Isso é tudo? 171


freqüência-, uma possibilidade é solucionar as equações exatas aproxima-
damente, mas outra é substituir as equações exatas por equações que se
aproximam delas, e solucionar as equações aproximadas. Físicos têm feito
isso há séculos - para pequenos ângulos, o seno do ângulo é aproximada-
mente igual à sua medida em radiamos (assim como 360 graus constituem
um círculo completo, 2n radianos também o fazem), e, para a maioria dos
propósitos, usar o ângulo em uma equação, em vez de seu seno, resulta em
uma equação muito mais tratável. Algumas vezes, as equações da teoria de
cordas utilizam aproximações assim, de modo a serem resolvidas, e ao lidar
com algo tão desconhecido como cordas infmitesirnalmente pequenas e di-
mensões igualmente inB.nitesirnalmente pequenas, é difícil ter certeza de
que as soluções obtidas refletem o modo real de existir do universo .
Então, como saber se a teoria de cordas, com suas dez dimensões espa-
ciais, está na pista certa? Existem duas abordagens possíveis, mas ambas
são chutes de longa distância. A confirmação da existência das cordas
constituiria uma prova por inferência da existência de dimensões extras,
tendo em vista que análises matemáticas determinaram que o cenário das
cordas só se sustenta no universo de 11 dimensões (dez dimensões espa-
ciais, uma dimensão temporal), já descrito. Mas a teoria das cordas não
determina inequivocamente o tamanho das cordas. Embora algumas ver-
sões da teoria das cordas prevejam que o tamanho das cordas deva estar na
vizinhança de 1Q- 33 metros, o que as tornaria indetectáveis a qualquer
equipamento concebível que a tecnologia - tal como a conhecemos - pos-
sa construir, há versões em que as cordas são (relativamente) gigantescas,
e possivelmente detectáveis, por inferência, se não diretamente, ao menos
pela próxima geração de aceleradores de partículas.
A outra abordagem repousa no fato de que a lei da potência inversa
que a gravidade satisfaz depende do número de dimensões espaciais.
Vemos a gravidade como uma lei do inverso do quadrado porque, em
nosso universo tridimensional, grávitons se espalham por sobre o limi-
te de uma esfera, cuja área de superfície varia de acordo com o quadra-
do do raio. Em um universo bidimensional, grávitons se espalhariam
sobre o limite de um círculo em expansão, cuja circunferência varia
diretamente com (é um múltiplo constante do) o raio . Em dimensões
mais elevadas, a força gravitacional cairia rapidamente. O limite de uma
esfera p-dimensional varia em tamanho de acordo com a (p - 1) en ésima

172 Como a matemática explica o mundo


potência do raio, e então veríamos uma lei do inverso da (p- 1)-potên-
cia para a gravitação.
Isto é, se pudéssemos medir a força gravitacional a distâncias para as
quais as dimensões espaciais extras são significativas. A má notícia é que
as dimensões espaciais extras têm de ser, pela teoria atual, não maiores do
que cerca de 10- 18 metros- e a gravidade, por enquanto, só pode ser medi-
da acuradamente em escalas de cerca de IQ-4 metros. Treze ordens de
magnitude é uma lacuna monumental, então essa é uma hipótese monu-
mentalmente longínqua - mais ainda se as dimensões espaciais extras fo-
rem menores do que 10-18 metros.

A sombra do incognoscível
Enquanto a comunidade da Física persegue, com entusiasmo e otimismo,
a teoria definitiva da reahdade, é difícil não refletir sobre o que aprende-
mos no último século sobre a hmitação do conhecimento no universo físi-
co . Existem pelo menos dois caminhos pelos quais a natureza última da
realidade pode ser algo eternamente escondido de nós. A primeira é que a
natureza do espaço-tempo talvez seja tão caótica na escala do compri-
mento de Planck (a extensão de uma corda) e do tempo de Planck (o tem-
po que a luz leva para viajar a extensão de uma corda) que não poderemos
medir as coisas com exatidão suficiente para determinar alguns dos aspec-
tos essenciais do espaço e do tempo. A segunda é que a complexidade da
estrutura axiomática de qualquer teoria que descreva definitivamente a
realidade admite proposições indecidíveis - ou algo parecido com elas.
Pode acontecer de aquelas proposições indecidíveis não terem impacto
sobre a realidade - da mesma maneira que as proposições indecidíveis
examinadas por Godel eram de interesse metamatemático, e não mate-
mático. Por outro lado, pode ser que exista uma proposição possível que
diga que a natureza última da realidade - os "átomos", de certa maneira,
do espaço, do tempo e da matéria - permanecerá eternamente fora do
nosso alcance. A busca por uma teoria de tudo pode muito bem encontrar
o mesmo destino que o desejo de Hilbert, no sentido de provar a consis-
tência da Aritmética. Algum matemático com um sólido conhecimento
de Física, ou algum físico que tenha estudado o teorema da incompletude
de Godel, talvez seja capaz de demonstrar que uma teoria de tudo não

Espaço e tempo: Isso é tudo? 173


pode existir. Na verdade, se alguém me pedisse para apostar, é nessa pos-
sibilidade que eu colocaria meu dinheiro.

NOTAS
1. Veja http://physicsweb .org/articles/world/13/3/2. Esse site é uma cortesia da
Physics World, uma revista para físicos e possivelmente para aqueles que simples-
mente se interessam por Física. De qualquer maneira, o que eu li nesse site é muito
bem escrito.
2. W. Heisenberg, Quantum Mechanics (Chicago: University of Chicago Press, 19 3 O) .
3. Veja http:l/arxiv.org/PS_cache/astro-ph/pdf/0302/0302131 v l.pdf. Há uma ver-
são menos técnica disso (Scientific American, maio de 2003, Scientific American Bra-
sil, junho de 2003) -mas eles tentarão vender uma assinatura digital para você. Sou
assinante há trinta anos, é uma excelente revista - mas essa versão levemente mais
técnica é grátis. É também um dos artigos mais interessantes que li na última déca-
da. Embora algumas partes sejam um pouco irregulares, LEIA, LEIA, LEIA~
4. Ibid.
5. Veja http://en.wikipedia.org/wiki/Theory_of_relativity. Esse site é uma excelente
introdução à relatividade, e tem referências que levam você muito mais longe (cli-
que nos links dos artigos principais).
6. B. Greene, The Fabricofthe Cosmos (NewYork: Vintage, 2004), p . 502. Edição brasi-
leira: O tecido do cosmo (São Paulo: Companhia das Letras, 2005). Esse é um livro ab-
solutamente maravilhoso, assim como é o outro livro do mesmo autor que será cita-
do na nota seguinte. Greene é um físico de primeiro escalão e um expositor cheio de
bom humor. Não obstante, há porções desse livro que eu tive de trabalhar duro para
entender. Isso não surpreende; essas coisas não são simples. Como um vendedor de
carros usados da minha cidade costumava dizer em seus anúncios televisivos, elogian-
do as virtudes de um Chevrolet 1985 : "Vale mesmo o que você pagal"
7. B. Greene, O universo elegante (São Paulo: Companhia das Letras, 2006). Esse é o
primeiro dos dois livros de Greene- aborda alguns tópicos tratados no Tecido, mas
vai muito mais fundo na relatividade e na teoria de cordas. Contudo, entre o Univer-
so e o Tecido, cinco anos se passaram, e muita coisa aconteceu na teoria de cordas,
então é um bom plano ir a esse livro primeiro (afinal, foi o primeiro a ser escrito), e
então se atualize lendo o segundo.
8. Greene, Fabric of the Cosmos, p . 352 .
9. I. Newton, PhilosophiaeNaturalis PrincipiaMathematica (1687). Por motivos óbvios,
todos se referem a ele como Principia. Você sabe que encontrou um lógico matemá-
tico quando diz "Principia" e ele pensa que você está se referindo à obra clássica da
Lógica matemática escrita por Bertrand Russel e Albert N. Whitehead - famosa
principalmente porque eles levam mais de oitocentas páginas para chegar à conclu-
são de que l + l = 2.
l O. Vejahttp://en.wikipedia.org/wiki/Kaluza. Este foi basicamente o único momento de
glória de Kaluza. Como Cantor, ele teve muitas dificuldades em conseguir uma cadeira
de professor no sistema universitário alemão - a desp eito do apoio de Einstein.

174 Como a matemática explica o m undo


Parte Ili

Infarmação:
O Dilema de
. Cachinhos
Dourados
Ninguém sabe quem é Murphy, mas quase todo mundo conhece a Lei de
Murphy, que resume as frustrações da vida em sete palavras: se alguma
coisa pode dar errado, dará.
Nós já examinamos alguns dos motivos para um olhar tão cortante so-
bre a realidade, como o da Lei de Murphy. Em nossa primeira visita à ofi-
cina, vimos que modificações que parecem ser meios lógicos de melhorar
uma situação existente podem, na verdade, piorar as coisas. Mais tarde,
quando virmos o que a teoria do caos tem a dizer sobre o assunto, o menor
dos menores desvios do plano, quase impossível de medir, pode fazer com
que as coisas acabem drasticamente mal - por causa de um parafuso mal
apertado, um avião pode cair. E assim por diante.
É difícil que coisas simples dêem errado. Se o único item na nossa pro-
gramação diária é ir ao supermercado e comprar uns poucos itens básicos,
é muito difícil fazer com que isso dê errado. Sim, um produto qualquer
pode estar em falta (a culpa não é sua), ou você pode esquecer algum item

A Le i de Murphy 177
de sua lista (a culpa é sua, mas não porque a tarefa fosse complicada de-
mais; é que sua mente estava voltada para outros assuntos), mas essas fa-
lhas não surgem da dificuldade inerente do problema. O que os matemá-
ticos descobriram é que existem alguns problemas que são tão intrinseca-
mente difíceis que talvez não seja possível resolvê-los; ao menos não em
uma quantidade razoável de tempo.

Uma nova visita à oficina


De vez em quando, somos confrontados com uma lista de afazeres des-
confortavelmente grande. Cedo em minha vida, adotei a estratégia de rea-
lizar primeiramente as tarefas mais onerosas. Havia algumas razões para
isso. A primeira era que, no início, eu sempre tinha mais energia, e o tra-
balho maçante sempre requer mais energia, tanto física quanto emocio-
nal. A segunda era que, uma vez que as tarefas onerosas estavam cumpri-
das, eu podia ver a linha de chegada, e isso parecia me dar energia renova-
da para completar as tarefas restantes.
Eu havia topado com uma estratégia para a programação de tarefas
que atende pelo nome de "processamento de tempos decrescentes". Quan-
do se dá uma olhada de perto nas programações que exibiam as anomalias
incomuns em nossa primeira viagem à oficina, vê-se que alguns proble-
mas eram resultado de tarefas longas sendo programadas para tarde de-
mais. Numa tentativa de prevenir isso, o algoritmo do processamento dos
tempos decrescentes foi arquitetado. Ele consiste em construir a lista de
prioridades arrumando as tarefas em ordem decrescente de tempo neces-
sário (empates são resolvidos escolhendo primeiramente a tarefa com o
menor número, então se T3 e TS requerem o mesmo período de tempo,
T3 é agendada para antes).

Tl-3 T2-2 T3-2 T4-2

T9-9

178 Como a matemática explica o mundo


AlistadeprioridadeséT9, TS, T6, T7, T8, TI, T2, T3, T4. Comqua-
tro mecânicos, a programação fica assim:

Mecânico Horas de Início e Fim das Tarefas

o 2 3 6 10 12
AI Tl T9 Fim
Bob T2 TS TS Ocioso Fim
Chuck T3 T6 Ocioso Fim
Don T4 T7 Ocioso Fim

Há um monte de tempo ocioso aqui, mas é de se esperar que seja as-


sim. O importante é que todas as tarefas estão concluídas depois de I 2 ho-
ras, e essa é a solução ótima.
Vejamos o que acontece quando observamos os três mecânicos se os
tempos de tarefas foram todos reduzidos em uma hora.

Tl-2 T2-1 T3-1 T4-1

T9-8 TS-3 T6-3 T7-3 TB-3

A lista de prioridades é a mesma que a anterior: T9, TS, T6, T7, T8,
TI, T2, T3, T4. Isso leva à seguinte programação:

Mecânico Horas de Início e Fim das Tarefas

o 2 5 8 10
Al Tl T9 Fim
Bob T2 T4 TS T7 Ocioso Fim
Chuck T3 Ocioso T6 TS Ocioso Fim

Mais uma vez, esse é o melhor que podemos fazer. Será esta a espada
que corta o nó górdio da programação? Infelizmente não. Como você

A Lei de Murphy 179


deve ter suspeitado, nem o algoritmo da lista de prioridades nem o do pro-
cessamento de tempos decrescentes conseguirão fornecer sempre a progra-
mação ótima. No entanto, o processamento de tempos decrescentes é su-
perior ao algoritmo do processamento de lista, no seguinte e importante
sentido: o cenário de pior caso com o processamento de tempos decres-
centes é substancialmente superior ao cenário de pior caso com o algorit-
mo de processamento de listas. Suponha que T represente a extensão da
programação ótima. Se m mecânicos estão disponíveis, então o pior que
pode acontecer com o algoritmo do processamento de listas é uma progra-
mação de extensão (2-1/m)T. Entretanto, se o processamento de tempos
decrescentes for usado, o pior que pode acontecer é uma programação de
extensão (4T- m)/3. 1
Existe um algoritmo que sempre funciona: construa todas as progra-
mações possíveis, e escolha aquela que melhor otimizar qualquer critério
que esteja sendo usado. Há um grande problema com isso: pode haver
uma quantidade gigantesca de programações, especialmente quando há
muitas tarefas .

Quão difícil é difícil?

A dificuldade de fazer alguma coisa obviamente depende de quantas coi-


sas precisam ser feitas. Encontrar a melhor programação para a realização
de quatro tarefas é quase o mesmo que chutar a bola para um gol sem go-
leiro, mas encontrar a melhor programação para a realização de cem tare-
fas é, em geral, um empreendimento hercúleo. Trabalhar com cem com-
ponentes evidentemente consome mais tempo do que trabalhar com qua-
tro. Vamos dar uma olhada em três tipos diferentes de trabalhos.
O primeiro é um que todos os americanos fazem: pagar contas pelos
correios. Geralmente, você tem de abrir a conta, preencher um cheque e
colocá-lo em um envelope. Estimando por alto, você gasta o mesmo tem-
po com a conta de luz do que gasta com a conta do cartão de crédito, e en-
tão pagar quatro contas leva quatro vezes mais tempo do que pagar uma.
Pagar contas pelos correios é linear no número de componentes.
O segundo trabalho é algo que acontece a todos nós : você colocou fi-
chas em alguma ordem, quer numa caixa ou num Rolodex, e as deixa cair
no chão. Você tem de colocar as fichas em ordem novamente. Acontece

180 Como a matemática explica o mundo


que isso consome relativamente mais tempo do que o pagamento de con-
tas, por um motivo óbvio: à medida que você continua a ordenar os car-
tões, gasta mais e mais tempo para encontrar o lugar correto para cada fi-
cha adicional.
Finalmente, existe o problema da programação. É algo ainda mais
brutal do que a organização de fichas, por um motivo importante: todos
os componentes têm de se encaixar corretamente, e você só sabe se eles
encaixam bem quando tiver acabado de encaixá-los. Quando você organi-
za as fichas, pode segurar a última na mão e saber que a tarefa estará com-
pletada quando colocar aquela ficha no lugar certo. Tal avaliação não é
possível na programação. Como Yogi Berra disse: "It ain't over 'til it's
over" (Não acaba a não ser no fim).

Deixando o Rolodex cair


Suponha que tenhamos acabado de derrubar o Rolodex no chão. Temos
agora um monte de fichas com nomes, endereços e telefones anotados, e
queremos colocá-las em ordem alfabética. Há uma maneira muito sim-
ples de fazer isso: pegue os cartões e examine um de cada vez, removen-
do-os individualmente da pilha desorganizada e arrumando-os em ordem
alfabética na nova pilha, comparando a ficha que acabamos de tirar da pi-
lha velha com cada cartão na pilha nova, um a um, até encontrarmos seu
lugar correto. Por exemplo, suponha que as quatro primeiras fichas na pi-
lha desorganizada sejam, nessa ordem, Betty-Al- Don - Carla. Presta-
mos atenção na pilha velha, na nova pilha e no número de comparações
necessárias em cada estágio.

Número de Comparações
Etapa Pilha antiga Pilha Nova para Esta etapa
Al-Don-varla Betty o
2 Don-Carla Al-Betty
3 Carla Al-Betty-Don 2
4 Al-Betty-Carla-Don 3

Se existem N fichas na nova pilha, o número máximo de comparações


necessárias será N. Por exemplo, no Estágio 3, a ficha a ser comparada é

A Lei de Murphy 181


Carla, enquanto na pilha antiga é Al - Betty- Don. Carla está atrás de A1
(primeira comparação), atrás de Betty (segunda comparação) e na frente
de Don (terceira comparação).
Podemos agora observar o cenário da pior situação possível para o nú-
mero total de comparações. Vimos que o número máximo de compara-
ções necessárias é o número de fichas na nova pilha e, dado que a nova pi-
lha se constrói uma ficha por vez, com N fichas o número máximo de
comparações é 1 + 2 + 3 +... + (N-1) = N(N-1 )/2, o que é um pouco me-
nos do que Yz N2. Organizar N fichas, mesmo usando um algoritmo inefi-
ciente (há melhores do que a comparação um a um que usamos neste
exemplo), requer menos do que N2 comparações; diz-se que tal tarefa é
factível em tempo polinomial (diríamos a mesma coisa se precisássemos
de menos do que N 4 ou N 12 comparações). Problemas que podem serre-
solvidos em tempo polinomial como função do número de componentes
(fichas no exemplo anterior) são conhecidos como problemas tratáveis.
Aqueles problemas que não podem ser resolvidos em tempo polinomial
são chamados problemas intratáveis.

O problema do caixeiro-viajante
Esse pode muito bem ter sido o problema que deu início ao assunto da
complexidade de tarefas. Suponha que um caixeiro-viajante t enha um
monte de cidades diferentes a visitar, mas ele começa e termina em sua ci-
dade-base. Existe uma tabela dando a distância entre cada cidade (ou, no
mundo mais febril de hoje, os tempos de viagem ou, possivelmente, os
custos); o objetivo é bolar uma rota que comece na base e termine lá, visi-
te todas as cidades uma vez apenas e minimize a distância total de viagem
(ou tempos de viagem ou custos).
Comecemos dando uma olhada no número de diferentes rotas possí-
veis que poderíamos tomar. Suponha que há três cidades além da cida-
de-base, que rotularemos genericamente como A, B e C. Há seis diferen-
tes rotas disponíveis.

Base ~ A ~ B ~ C ~ Base
Base ~ A ~ C ~ B ~ Base
Base ~ B ~ A ~ C ~ Base

182 Co mo a matemática explica o mu ndo


Base ~ B ~ C ~ A ~ Base
Base ~ C ~ A ~ B ~ Base
Base ~ C ~ B ~ A ~ Base

Por sorte, há uma maneira fácil de ver quantas rotas diferentes exis-
tem em termo do número de cidades. Há seis maneiras de ordenar as três
cidades, como listamos acima; pense em 6 = 3 x 2 x 1. Se temos de lidar
com quatro cidades, podemos posicionar qualquer uma das quatro cida-
des em primeiro lugar e ordenar as outras três de 3 x 2 x 1 maneiras. Isso
dá um total de 4 x 3 x 2 x 1 maneiras de ordenar quatro cidades; matemá-
ticos usam a notação fatorial 4! para abreviar 4 x 3 x 2 x 1. O número de
maneiras de ordenar N cidades em ordem é N!. O argumento é basica-
mente aquele que usamos para mostrar que quatro cidades podem ser ar-
ranjadas em 4! ordens diferentes. Então, se o caixeiro-viajante deve visitar
N cidades, o número de diferentes rotas que ele pode tomar é N1.
À medida que N fica maior, N! mais cedo ou mais tarde fica muito
maior do que qualquer potência positiva de N, tal como N 4 ou N1°. Por
exemplo, comparemos alguns valores de N1. com N 4

N NI
3 81 6
10 10.000 3.268,800
20 160.000 2,43 X 10 18

Não importa qual potência de N escolhamos para comparar com N!,


N! sempre o supera, embora, ao compararmos N1. com potências maiores,
como NlO, sejam necessários valores mais elevados de Nantes que o fenô-
meno comece a se mostrar.

A ganância nem sempre é boa


Nada nos faz mais felizes do que descobrir que a solução fácil de um pro-
blema é a melhor; mas, infelizmente, o mundo é construído de tal forma
que esse raramente é o caso. Há uma maneira "mais fácil" de construir um
algoritmo passável para o problema do caixeiro-viajante; esse algoritmo é

A Lei de Murphy 183


conhecido como o algoritmo do vizinho mais próximo. Quando ele quer
que o caixeiro-viajante esteja em uma cidade específica, simplesmente
deve ir à cidade não-visitada mais próxima (em caso de empate, adota-se a
ordem alfabética). Se há N cidades (além da base) 1 é fácil perceber que te-
mos de encontrar o menor de N números para encontrar a vizinha mais
próxima, então o menor de N - 1 números para encontrar a cidade vizinha
não-visitada mais próxima à primeira cidade, então o menor de N - 2 nú-
meros para encontrar o número não-visitado mais próximo à segunda ci-
dade etc. Então, o pior que poderia acontecer é que tivéssemos de exami-
nar um total de N + (N-1) + (N-2) + ... + 1 = N(N +1)/2 números. Tal
como o algoritmo de comparação ficha-a-ficha quando derrubamos o Ro-
lodex, esse é um algoritmo tal que o tempo tomado é da ordem de N2,
onde N é o número de cidades.
O algoritmo do vizinho mais próximo é um exemplo daquilo que é
conhecido como um algoritmo "ganancioso". Há uma definição técnica
do "algoritmo ganancioso",2 mas é bem óbvio o que está acontecendo
aqui; trata-se de uma tentativa de construir um caminho com o mínimo
de trabalho possível, enquanto ainda se tem ainda algum trabalho (sim-
plesmente escolher o primeiro número disponível seria ter o mínimo pos-
sível de trabalho). Algoritmos gananciosos algumas vezes fornecem solu-
ções razoáveis, mas muitas vezes a ganância - a exemplo do crime - não
compensa.
Em nossa primeira viagem à oficina, descobrimos que existem situa-
ções em que tornar os equipamentos melhores na verdade resulta em um
maior tempo de trabalho. Há uma situação análoga para o problema do
caixeiro-viajante, usando o algoritm o do vizinho mais próximo; é possível
encurtar todas as distâncias entre cidades e acabar com uma viagem total
mais longa.

Base A B e
Base o 100 105 200
A 100 o 120 300
B 105 120 o 150
e 200 300 150 o

184 Co mo a matemática explica o mundo


Esse é um quadro de milhagem similar àqueles encontrados em mapas
de estradas que costumavam ser achados em postos de gasolina. A cidade
mais próxima à base é A, a cidade não-visitada mais próxima a A é B, en-
tão o caixeiro-viajante deve ir a C e então para a base. A distância total
para essa viagem é 100 + 120 + 150 + 200 = 570. Suponha que tenhamos
uma tabela de milhagem um pouco diferente, em que todas as distâncias
entre cidades tenham sido reduzidas.

Home A B e
Base o 95 90 180
A 95 o 115 275
B 90 115 o 140
e 180 275 140 o

Agora, a cidade mais próxima à base é B, a cidade não-visitada mais


próxima a B é A, então o caixeiro-viajante vai a C e retorna à base. Adis-
tância total é 90 + 115 + 275 + 180 = 660. É óbvio que esse exemplo foi
construído para ilustrar como a ganância pode ser sua ruína; a proximida-
de de B à base nos seduziu a tomar um caminho que é significativamente
mais curto, em vez daquele que seria o melhor caminho. Se primeiro for-
mos a A, então a B, depois a Cede volta à base, a distância total é 95 + 115
+ 140 t 180 = 530, uma melhoria considerável. Isso demonstra também
que o algoritmo do vizinho mais próximo nem sempre nos fornece a via-
gem total mais curta.
O problema do caixeiro-viajante é consideravelmente mais simples
do que o problema da programação, no sentido de que o único dado ne-
cessário é a distância entre as cidades - nada daquelas coisas de digrafos,
listas, tarefas. Há uma maneira bastante óbvia de melhorar o algoritmo do
vizinho mais próximo, usando uma técnica chamada "ver além". Em vez
de gananciosamente optar pela menor distância, podemos usar um pou-
co de antevisão e procurar pela rota que minimiza a distância total a ser
percorrida até as duas próximas cidades, em vez de só a distância até a pró-
xima cidade.
Temos de pagar um preço por esse melhoramento. Se existem N cida-
des, podemos visitar as duas primeiras cidades em N x (N -1) maneiras,

A Lei de M urphy 185


então as próximas duas cidades em (N-2) x (N -3), as duas próximas ci-
dades em (N - 4) x (N - 5) maneiras, e assim por diante. O número total
de distâncias que devemos examinar é, portanto, N x (N - 1) + (N - 2) x
(N - 3) + (N - 4) x (N - 5) + ... Cada um dos produtos nessas expressões
contém um termo monomial N2, e há aproximadamente N/2 de tais pro-
dutos, então o número total de distâncias que devemos examinar será da
ordem de N3/2. Um argumento similar demonstra que, se "virmos além",
calculando a distância mais curta para as próximas k cidades a visitar, o to-
tal de cálculos será da ordem de Nk+ 1.

Quando você resolve uma, resolve todas


Parte da sedução da Matemática é que a solução de um problema fre-
qüentemente acaba sendo a solução de outros. O cálculo é repleto de tais
situações - um desses exemplos é que encontrar a inclinação da tangente a
uma curva resolve o problema relativo a determinar a velocidade instantâ-
nea de um objeto em movimento, quando conhecemos sua posição como
uma função de tempo.
Neste capítulo, examinamos de perto três problemas: construção de
programação, o problema do caixeiro-viajante e o problema da organiza-
ção das fichas. Mostramos que o último deles é tratável, mas ainda temos
de determinar o status dos outros dois - embora, como disse Han Solo em
"Guerra nas Estrelas", imediatamente antes de as paredes do compactador
de lixo começarem a se fechar sobre ele e seus companheiros, nós temos
um mau pressentimento a esse respeito. Eles parecem ser intratáveis, e
isso seria má notícia, já que significaria que seríamos confrontados por
problemas de considerável significância prática que, simplesmente, não
podem ser resolvidos em um período razoável de tempo.
A construção de programações e o problema do caixeiro-viajante são
apenas alguns dentre mais de mil problemas desse tipo, que estão atual-
mente habitando o limbo, esperando para saber se são intratáveis. Contu-
do, devido ao trabalho de Stephen Cook, há um surpreendente tema uní-
ficante que liga todos esses problemas. Se você resolve um deles, no senti-
do de achar um algoritmo polinomial de tempo, resolve todos.
Na década de 1960, a University of California, em Berkeley, era um
ótimo lugar. Mario Savio liderava o Free Speech Movement (Movimento

186 Como a matemática explica o mundo


pela Liberdade de Expressão) na frente do Sproul Hall. Eu estava dando
os retoques fmais em minha tese (embora tenha de admitir que os historia-
dores de nossa era geralmente omitem esse acontecimento seminal). Fi-
nalmente, dois professores assistentes na Matemática e na Ciência da
Computação estavam prestes a ganhar fama: Theodore Kaczynski (que
depois viria a ser conhecido como o Unabomber) e Stephen Cook.
O que Stephen Cook fez foi conectar uma ampla variedade de proble-
mas (inclusive os problemas da construção de programação e do caixei-
ro-viajante) por meio de uma técnica transformacional. Ele descobriu um
algoritmo que, quando aplicado a um desses problemas, mudaria o pro-
blema para a forma do outro em tempo polinomial. Então, se você pudes-
se resolver o problema do caixeiro-viajante em tempo polinomial, pode-
ria transformar em tempo polinomial o problema da construção de pro-
gramações em um problema do caixeiro-viajante, que você também po-
deria resolver em tempo polinomial. 3 Dois algoritmos de tempo polino-
mial sucessivos (um para transformar o primeiro problema no segundo,
outro para resolver o segundo) compõem um algoritmo de tempo polino-
mial: por exemplo, quando se tem um polinômio, tal como P(x) = 2x2 +
3x-S, e substituímos outro polinômio, tal como x 3 + 3, porxnaquela ex-
pressão, o resultado - 2(x3 + 3) 2 + 3(x3 + 3) - 5 - ainda é um polinômio,
embora, é claro, de grau maior.
Isso aumenta significativamente a recompensa para determinar se
existe (ou não) um algoritmo de tempo polinomial para a construção de
programações. Se você achar um, usando os métodos transformacionais
de Cook, terá algoritmos de tempo polinomial para mais de outros mil
problemas úteis. Você não apenas ganhará uma fama imortal, também
ganhará muito dinheiro, ao lidar com todos esses problemas cobrando ho-
norários - além disso, também vai poder recolher o US$ l milhão de um
dos Prêmios do Milênio do Clay Mathematics Institute, por encontrar
esse algoritmo. Se você puder demonstrar que um algoritmo desse tipo
não existe, ainda ganha a fama e US$ l milhão. É um mistério que as pes-
soas ainda estejam tentando trissecar o ângulo, o que é sabidamente im-
possível, quando poderiam estar se dedicando a achar um algoritmo de
tempo polinomial para o problema do caixeiro-viajante, e conseguir fama
e fortuna com isso.

A Lei de Murphy 187


Os cookies duros de roer de Cook
Cook teve esta idéia no início da década de 1970; no fim dessa década, sa-
bia-se que mais de mil problemas eram tão difíceis de resolver quanto o
problema da programação ou do caixeiro-viajante. É necessário admitir
que muitos são pequenas variações de um mesmo problema, mas vale a
pena examinar alguns deles, para compreender como são abrangentes es-
ses problemas muito difíceis.
Satisfatibilidade. Este é o problema que Cook examinou primeiro.
Lembre-se de que a lógica proposicional trabalhava com proposições
compostas, tal como SE (PE Q) ENTÃO ((NÃO Q) OUR). Existem três
variáveis independentes nessa proposição: P, Q e R. O problema é deter-
minar se há uma designação dos valores VERDADEIRO e FALSO para as
variáveis P, Q e R de tal modo que a proposição composta seja VERDA-
DEIRA. Não é muito difícil perceber que tudo o que você precisa é fazer
com que P seja FALSO, então P E Q devem ser falsos, e que qualquer im-
plicação que diga que a hipótese é FALSA deve ser VERDADEIRA. O
problema é que proposições compostas maiores não podem ser examina-
das com tanta facilidade.
O problema da mochila. Imagine que temos um conjunto de caixas
com pesos diferentes e, dentro de cada caixa, está um item com um valor
determinado. Se a mochila pode conter apenas um peso máximo de P,
qual é o valor máximo dos conteúdos das caixas que pode ser armazenado
dentro da mochila? Aqui há dois algoritmos gananciosos atraentes. O pri-
meiro implica ordenar os itens em termos de valor decrescente e começar
a armazená-los dentro da mochila, partindo do item mais valioso, até não
conseguir colocar mais nada lá dentro. O segundo, ordenar os itens em
termos de peso crescente, e começar a guardá-los na mochila, a partir do
mais leve, até que seja forçado a parar.
Lembra-se de "moneyball", a idéia de que um time pode ser compos-
to por meio da maximização de alguma quantidade, tal como maior nú-
mero de home runs alcançados no ano anterior por dólar do salário atual?
Existe uma versão disso que se aplica ao problema da mochila. É possível
classificar os itens em função de valor decrescente por quilo; essa estra-
tégia pode ser descrita como "selos raros em primeiro lugar", já que eu
creio que selos raros são o item mais valioso do planeta quando medidos
em dólares por quilo.

188 Corno a matemática explica o mundo


Coloração de Grafos. O diagrama usado para ilustrar as tarefas na
oficina é chamado digrafo, que é uma abreviação de grafo dirigido. Um
digrafo é uma coleção de vértices (os quadradinhos de tarefas em nosso
diagrama da oficina) com setas conectando alguns deles para indicar
quais tarefas devem ser realizadas antes de outras. Em vez de traçar se-
tas, que indicam uma direção, podemos traçar somente linhas conec-
tando alguns dos vértices. É algo bem parecido com um mapa rodoviá-
rio, com cidades representadas por círculos ocos nos vértice e linhas
(chamadas arestas) conectando as cidades e indicando grandes rodovias
(ou não tão grandes, quando você está numa área rural). Um grafo é
uma coleção de vértices e arestas; dois vértices podem ou não estar co-
nectados por uma aresta, mas duas cidades não podem estar conectadas
por mais de uma aresta.
Suponha que decidamos preencher cada um dos círculos ocos com
uma cor, observando apenas esta regra: se dois vértices (os círculos ocos)
estão conectados por uma aresta, eles devem ser pintados de cores dife-
rentes. Obviamente, uma maneira de fazer isso envolve simplesmente
pintar cada cidade de uma cor diferente . O problema de colorir o mapa é
determinar o número mínimo de cores necessário para colorir vértices li-
gados por arestas com cores diferentes.
Matemáticos sempre gostam de observar como o problema aparente-
mente mais abstrato pode ter aplicações práticas inesperadas. O proble-
ma de colorir o grafo apresenta muitas. Uma das aplicações deveras sur-
preendentes é o assinalamento de freqüências para usuários do espectro
eletromagnético, como rádios móveis ou telefones celulares. Dois usuá-
rios próximos entre si não podem dividir a mesma freqüência, enquanto
usuários distantes, sim. As freqüências correspondem às cores.

A grande questão
A grande questão nessa área, um dos bebês de US$ l milhão do Clay Mathe-
matics Institute, é se os difíceis problemas descritos nesta parte podem ser
resolvidos em tempo polinomial. Curiosamente, uma resposta afirmativa
a essa questão significaria que existem meios velozes de planejar rotas
para o caixeiro-viajante (ao menos em tese; ainda teríamos de achá-los),
mas uma resposta negativa também traria alguma vantagem~ Existe um

A Lei de Murphy 189


problema muito importante para o qual uma resposta negativa seria alta-
mente satisfatória: o problema da fatoração .
O problema que consiste na fatoração de um inteiro é, a exemplo do
problema da programação e o da coloração do grafo, conhecido como um
dos cookies duros de roer de Cook. Se nenhum algoritmo de tempo polino-
mial existe para fazê-lo, aqueles de nós que temos conta no banco podemos
respirar um pouco aliviados, porque, como se descreve na introdução, adi-
ficuldade de fatorar números que são os produtos de dois primos é essencial
para a segurança de muitos sistemas protegidos por meio de senhas.

Os experts opinam
Em 2002, William Gasarch fez uma pesquisa com cem experts de primei-
ro escalão dessa área, perguntando se a classe P de problemas resolvíveis
em tempo polinomial era igual à classe NP dos cookies duros de roer de
Cook. O envelope, por favor. 4

Sessenta e um votaram que P-:F NP (não existe nenhum algoritmo de


tempo polinomial para qualquer um dos cookies duros de roer)
Nove votaram em P = NP.
Quatro disseram que era uma questão indecidível dentro de ZFE1
Três disseram que isso poderia ser resolvido pela demonstração de
uma maneira explícita de resolver um dos cookies em tempo poli-
nomial, em vez de meramente demonstrar que um algoritmo
deve existir.
Um disse que dependerá do modelo.
Vinte e dois entrevistados não se arriscaram nem a dar um palpite.

Gasarch também pediu aos pesquisados que fizessem uma estimativa


de quando o problema seria resolvido . A estimativa média foi 2050, quase
48 anos depois da data da pesquisa.
Aqui estão duas opiniões dos dois campos discordantes.
Bela Bollobas: P = NP. "Penso que, a esse respeito, sou o único extre-
mista da comunidade matemática. Penso (não com muita intensidade)
que P = NP e que isso será provado dentro de vinte anos. Alguns anos
atrás, Charles Reade eu trabalhamos nisso um bocado, e tivemos até um
jantar de comemoração em um bom restaurante, antes de descobrirmos

190 Como a matemática explica o mundo


um erro absolutamente fatal. Eu não me surpreenderia que técnicas geo-
métricas e combinatórias bem astutas extraíssem o resultado, sem ades-
coberta de novas ferramentas revolucionárias."
Richard Karp: P-:/:. NP. "Minha crença intuitiva é a de que Pé diferente
de NP, mas os únicos argumentos corroborativos que posso oferecer são
os fracassos de todos os esforços de colocar problemas NP-completos es-
pecíficos em P por meio da construção de algoritmos de tempo polino-
mial. Creio que as técnicas tradicionais de prova serão insuficientes. Algo
inteiramente novo será necessário. Meu palpite é que o problema será re-
solvido por um jovem pesquisador que não esteja muito imbuído da sabe-
doria convencional sobre como atacar o problema."
Perceba que uma pessoa pensa que os métodos padrão são suficientes,
enquanto a outra pensa que será preciso que alguém "pense fora dos para-
digmas". Eu votaria pela segunda opção; minha impressão da história dos
problemas difíceis é que muitos mais deles parecem sucumbir a novas
abordagens do que a desenvolvimentos maiores das idéias já existentes.

Computadores de DNA e computadores quânticos


Uma pesquisa entre cientistas da computação demonstrou que a vasta
maioria acredita que nenhum algoritmo de tempo polinomial será encon-
trado - mas a maioria dos experts já cometeu muitos erros no passado.
Mesmo que estejam corretos, existem algumas alternativas viáveis que es-
tão sendo exploradas.
Todos os algoritmos que investigamos nesta parte foram implementa-
dos seqüencialmente - por exemplo, quando explorando todas as rotas
possíveis no problema do caixeiro-viajante, imaginamos um computador
que examina as N! rotas, uma por vez. Outra maneira de lidar com o pro-
blema é quebrar o problema em partes menores e mais manejáveis, e tra-
tar cada parte em um computador diferente. Isso é conhecido como com-
putação paralela, e tem a possibilidade de acelerar significativamente a
velocidade da computação. Existem várias maneiras de realizar isso fora
do reino dos computadores comuns.
A primeira é a computação por DNA, que foi realizada pela primeira
vez por Leonard Adleman, da University of Southern California, em
1994 (lá não é só uma fábrica de jogadores de futebol americano). A idéia

A Lei de M urphy 191


é usar a capacidade dos filamentos de DNA para selecionar entre uma
multidão de filamentos possíveis aquele que servir de complemento.
Dado que um litro de líquido contém algo na ordem de 1024 moléculas,
existe a possibilidade de acelerar significativamente a computação - em-
bora não seja uma possibilidade viável para problemas muito grandes.
Uma técnica potencialmente mais poderosa é a computação quânti-
ca, que usa de modo único o singular fenômeno quântico da superposição
para executar uma quantidade gigantesca de operações paralelas. Em um
computador clássico, que usa 1 e O, um registro de 3 bits sempre registra
um binário inteiro definido de 3 dígitos, tal como 11 O (= 4 + 2 = 6 como
inteiro decimal). Mas um registro de 3 qubits* (um qubit é um bit quânti-
co) existe em uma superposição de todos os oito inteiros binários de três
dígitos, de 000 (inteiro decimal O) a 111 (inteiro decimal 7). Conseqüen-
temente, um registro de N qubits existe em uma superposição de 2N esta-
dos; sob as circunstâncias corretas, o colapso da função de onda pode rea-
lizar qualquer uma dessas 2N possibilidades. Já que qubits podem ser mui-
to pequenos mesmo (possivelmente até subatômicos), um registro de
100-qubits pode abranger 2 100 diferentes estados (aproximadamente
1Q30) 1 e cem partículas subatômicas não ocupam muito espaço .
Embora as possibilidades para os computadores quânticos sejam ex-
tremamente empolgantes, existem problemas enormes a serem supera-
dos. Um deles é o problema da descoerência - o ambiente tende a reagir
com os computadores quânticos e a induzir colapsos de onda. O que que-
remos é que o colapso de onda revele a resposta, e não ver colapsos de onda
ocorrendo como o resultado de interações com o ambiente aleatórias, en-
tão o computador tem de ser isolado do ambiente por períodos significati-
vamente maiores do que os que se conseguiram até agora.

Conformando-se com bom em vez de ótimo


Tanto a computação por DNA quanto a computação quântica buscam a
ajuda do universo físico para a solução de um problema matemático. Esse
é o inverso do procedimento comum-normalmente, a matemática é usa-
da para resolver um problema do universo físico. Excetuando a possibili-

*Nota do Revisor Técnico: Pronuncia-se "quiu-bit" ou "que-bit".

192 Como a matemática explica o mundo


dade de tirarem da cartola um coelho na forma de um Prêmio do Milênio
do Clay Institute, a abordagem mais útil é desenvolver soluções aproxi-
madas - como vimos, essa é uma área importante da Matemática Aplica-
da. Por exemplo, existem algoritmos que podem achar soluções para o
problema do caixeiro-viajante que estão a 2% da melhor solução, e o fa-
zem num período razoável de tempo. Entretanto, soluções aproximadas
para um problema não são prontamente transformáveis em soluções
aproximadas para outro problema-por exemplo, o algoritmo dos tempos
decrescentes para o problema da programação está geralmente 30% longe
da melhor solução. O fato de os problemas que Cook demonstrou serem
equivalentes parece requerer soluções aproximadas distintas, e isso é par-
te do charme- e da frustração -da pesquisa matemática. Talvez o próximo
grande resultado nessa área seja um algoritmo para transformar técnicas
de aproximação para um dos cookies duros de roer de Cook em técnicas de
aproximação para os outros, de modo que a aproximação transformada
esteja dentro da mesma percentagem de proximidade da melhor solução
do que se consegue para o problema original.

NOTAS
1. COMAP, For Ali Practical Purposes. New York: W.H. Freeman & Co. 1988. Como
já observei, acho que esse é um livro excelente; ideal para quem gosta de Matemáti-
ca, e bastante bom para aquelas pessoas que não suportam essa disciplina, mas têm
de freqüentar um curso. A estimativa é uma parte extremamente importante da
Matemática. Esses são exemplos de estimativas das piores situações possíveis. A es-
timativa das piores situações é valiosa também porque muitas vezes destaca preci-
samente quais condições levam à pior situação, o que pode levar a melhores algorit-
mos.
Z. http://mathworld.wolfram.com/search/7query=greedy+algorithm&x=O&r-0 .
3. A.K. Dewdney, Beyond Reason. Hoboken, NJ. : John Wiley & Sons 2004. D ewd-
ney mostra como transformar o problema da satisfabihdade no problema do cobri-
mento de vértices (um problema da teoria dos grafos), mostrando como transfor-
mar expressões lógicas em grafos. Não acho que esse seja um modelo padrão para
técnicas transformacionais. Minha impressão é que há um monte de bases servindo
essa área da Matemática da mesma forma que os aeroportos centrais servem à avia-
ção; para mostrar que o problema A é transformável no problema B, transforma-se
A num problema-base, e então o problema-base no problema B.
4. http://www.math.ohio-state.edu/-friedman/pdf/P-P l 029051 Zpt.pdf.

A Lei de Murphy 193


O valor do imprevisível

Pode-se pensar que a verdadeira imprevisibilidade seria uma barreira ab-


soluta ao conhecimento. Embora a imprevisibilidade do aleatório e do
quase aleatório seja uma fonte de incerteza no que diz respeito a eventos
individuais, a análise de agregações de eventos aleatórios constituem o do-
mínio dos assuntos da Probabilidade e da Estatística, duas das disciplinas
matemáticas mais altamente práticas. Somente podemos adquirir infor-
mação sobre as médias a longo prazo sobre o próximo resultado do cara ou
coroa; ainda assim, informações desse tipo são suficientes para fornecer
uma imensa pedra aos fundamentos de nossa civilização.
Embora nunca pensemos muito sobre o assunto, em qualquer dia há
sempre a chance de que possamos sofrer ou causar lesões quando dirigi-
mos nosso carro. A ausência de seguro provavelmente não nos impediria
de dirigir, embora arriscássemos a devastação financeira se qualquer um
desses eventos ocorresse, e fôssemos incapazes de bancar os custos. O se-

194 Como a matemática explica o mundo


guro nos permite evitar tal devastação, porque podemos pagar um prêmio
razoavelmente pequeno para ficarmos protegidos contra uma conseqüên-
cia desse tipo. As companhias de seguro compilaram dados detalhados
para determinar quanto cobrar de um homem de meia-idade, com um
histórico de um acidente nos últimos cinco anos, que quer um seguro para
seu Honda Civic 2005. Algumas vezes, tenho de me morder ao contem-
plar a conta a ser paga pelo seguro do meu automóvel, especialmente ten-
do em vista o fato de que existe um adolescente dirigindo na família. Em
contrapartida, está a compreensão de quão diferente seria minha vida (se
é que eu tivesse uma vida para viver), caso os mercadores do século XVII
não tivessem se reunido em tabernas para dividir entre si o custo das via-
gens de exploração e comércio. Num certo sentido, auxiliados pela exati-
dão aumentada pela avaliação de riscos resultante de avanços na Estatísti-
ca e na Probabilidade, fazemos isso até hoje.

Aleatório é como aleatoriamente acontece

Parte da razão do sucesso da Matemática é que um matemático geralmen-


te sabe do que os outros matemáticos estão falando, o que é algo que você
não pode dizer em todos os campos do conhecimento. Se você pedir aos
matemáticos que definam um termo como grnpo, ouvirá defmições prati-
camente idênticas de todos eles, mas se pedir a psicólogos que definam
amor, provavelmente você ouvirá uma série de variações que dependem
da escola de pensamento psicológico à qual aqueles a quem você pergunta
pertencem.
O vocabulário comum da Matemática não é necessariamente esotéri-
co. A maioria das pessoas tem um domínio tão bom de algumas idéias
quanto o dos matemáticos. Se você perguntar ao João Comum pela defi-
nição da palavra aleatório, ele provavelmente dirá algo como "imprevisí-
vel". De modo surpreendente, a definição matemática do termo variável
aleatória extrapola o reino da Matemática para o mundo real; uma "variá-
vel aleatória" é uma função matemática que assinala números para os re-
sultados de experimentos aleatórios, que consiste em um procedimento
(tal como rolar os dados ou tirar cara ou coroa numa moeda) no qual o re-
sultado não pode ser determinado previamente. Matemáticos usam o ter-
mo não-determinístico, que soa muito mais erudito do que imprevisível,

Universo desorganizado 195


mas ambas as palavras têm basicamente o mesmo significado. Determinís-
tico significa que eventos futuros dependem de eventos passados e presen-
tes de um modo previsível. Eventos não-determinísticos são aqueles que
não podem ser previstos dessa maneira.
Mas será que jogar dados ou tirar cara ou coroa são ações realmente
aleatórias, no sentido de serem absolutamente imprevisíveis? Se alguém
joga um dado, a força inicial sobre o dado é conhecida, a topografia da su-
perfície sobre a qual o dado viaja é conhecida, e as leis da Física são as úni-
cas leis em jogo; será que não é possível, teoricamente ao menos, prever o
resultado? Obviamente, esse é um problema tremendamente complica-
do, mas o ganho potencial para apostadores dos cassinos do mundo faz
dele um problema de resolução tentadora. Na metade do século XX, um
apostador passou anos desenvolvendo um método de lançar os dados que
os fazia girar freneticamente, sem rolar; esse método foi tão lucrativo que o
apostador foi banido dos cassinos, e agora é uma regra nos jogos de dados
que ambos os dados devem bater na mureta da mesa, que contém uma
quantidade de protuberâncias que, presumivelmente, tornam mais alea-
tórios os resultados da jogada.
Mas tornam mesmo? Se jogarmos um dado normalmente, será que o
número 1 (e todos os outros números) vai sair um sexto das vezes? Afinal,
parece razoável dizer que, uma vez jogado o dado, apenas um resultado
possível está de acordo com as leis da Física e com as condições iniciais do
problema- como o jogador segurou o dado, se suas mãos estavam secas ou
úmidas, e assim por diante. Então, se o universo sabe o que vai acontecer,
por que nós não poderíamos?
Admitamos esse argumento, temporariamente, de que dadas a in-
formação e a capacidade computacional suficientes, é possível determi-
nar o resultado de um dado lançado. Isso deixa espaço para qualquer coi-
sa que se possa chamar de perfeitamente aleatória - no universo, ou na
Matemática?
Uma possibilidade que nos ocorre é a aleatoriedade que aparece na
Mecânica Quântica, que, embora confirmada até um número impressio-
nante de casas decimais, ainda está uma quantidade infinita de casas deci-
mais distante da aleatoriedade perfeita. Talvez a Matemática possa nos
dar algo definitiva e perfeitamente aleatório, algo que não possamos, em
circunstância alguma, prever.

196 Como a matemática explica o mundo


A procura pela moeda aleatória ideal
Tentemos construir uma seqüência de caras ou coroas de acordo com nos-
sa idéia intuitiva de como um jogo "cara ou coroa" aleatório deveria se
comportar. Certamente esperaríamos que um cara ou coroa idealmente
aleatório algumas vezes resultasse em três caras sucessivas - e também
ocasionalmente (mas muito mais raramente) resultasse em três milhões
de caras consecutivas. Isso nos leva à compreensão de que deveria haver
uma seqüência infinita de jogadas para determinar se a moeda é verdadei-
ramente aleatória. Muito embora existam certos problemas técnicos em
determinar o que queremos dizer com "metade" quando estamos lidando
com um conjunto infinito (aqueles que têm familiaridade com o estudo
da probabilidade podem pensar nos termos de uma probabilidade de O, 5),
podemos tentar construir essa seqüência. Se usamos H para denotar cara e
T para denotar coroa, a seqüência H, T, H, T, H, T, H, T. .. obviamente sa-
tisfaz a restrição de que metade das jogadas resulte em cara e a outra meta-
de em coroa. Igualmente óbvio, não é uma seqüência aleatória; sabemos
que, se continuarmos jogando, cedo ou tarde, cara ou coroa ocorrerá duas
vezes consecutivas, e nessa seqüência isso nunca acontece. Não apenas
isso, mas também o fato de essa seqüência é perfeitamente previsível, o
que é o máximo de distância de uma seqüência perfeitamente aleatória.
Ok, modifiquemos a seqüência, de modo que cada um dos dois possí-
veis pares (cara-cara, cara-coroa, coroa-cara, coroa-coroa) ocorra um
quarto das vezes. A seguinte seqüência fará isso.

H, H , H, T, T, H, T, T, H, H, H, T, T, H, T, T, H, H, H, T, T, H, T, T. ..

Caso não esteja claro o que está acontecendo aqui, repetimos o padrão
H, H, H, T, T, H, T , T (cara-cara, cara-coroa, coroa-cara, coroa-coroa) in-
definidamente. Isso satisfaz duas exigências: cara e coroa ocorrem na me-
tade das vezes, e cada um dos pares possíveis de resultados ocorre um
quarto do tempo. E, ainda assim, não temos uma seqüência aleatória; mui-
tos padrões facilmente concebíveis foram deixados de fora. Coroa, por
exemplo, nunca ocorre por três vezes consecutivas, como certamente
aconteceria em um número infinito de jogadas, e quase certamente acon-
teceria mesmo depois de apenas cem.

Universo desorganizado 197


Há uma questão surpreendentemente profunda contida aqui: é possí-
vel construir uma seqüência de jogadas que esteja em perfeita consonân-
cia com as leis da probabilidade, em que cada seqüência específica de N
resultados ocorrerá lf2N das vezes?

Sistemas de numeração: os dicionários da quantidade


O sistema de numeração decimal (também conhecido como o sistema de
números base 1O) que aprendemos no ensino fundamental é semelhante a
um dicionário. Em vez das letras do alfabeto, o sistema de numeração de-
cimal usa os caracteres O, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9. Esses dez caracteres for-
mam todas as palavras que podem ser usadas para descrever quantidade.
É um dicionário inacreditavelmente simples; por exemplo, o número
384,07 é, na verdade, definido como a soma3x10 2 +8x10 1 +4 x 10º +O
x 10-1 +7 x 10-2 , onde a expressão 10-2 = 1/102 . O valor quantitativo da
palavra 384,07 é dedutível a partir das "letras" usadas e de suas posições na
palavra. Digo aos meus alunos, futuros professores do ensino fundamen-
tal, que é um dicionário muito mais simples do que o Merriam-Webster,
no qual não é possível deduzir o significado da palavra a partir das letras
que a compõem, e você tem de decidir, em meio segundo, se a palavra
duck significa "pato" ou "abaixe-se para desviar de algo", se agachar.
Uma maneira de definir os números reais é o conjunto de todas as re-
presentações decimais da forma anterior, em que somente é permitida
uma quantidade finita de números à esquerda do ponto decimal, mas uma
quantidade infinita para o outro lado. Com essa convenção, 384,07 =
384,0700000... Os racionais são todos aqueles números, tal como
25,512121212 .. ., que eventualmente se acomodam em um padrão repe-
titivo à direita do ponto decimal. Uma calculadora demonstrará (ou você
pode fazê-lo à mão) que 0,5121212 ... = 507/990.
Em vez "1 O" que usamos no sistema decimal, é possível usar qualquer
inteiro positivo maior do que 1. Quando "2" assume o lugar de "1 O" no sis-
tema decimal, o resultado é o sistema numérico binário, ou de base 2.
O alfabeto do sistema numérico binário consiste nos dígitos O e 1, e
um número como 1O11, O1 é a representação binária para o número 1 x 2 3
+O x 2 + 1 x 2 1 + 1 x 2º + O x 2- 1 + 1x2-2 . Escrevendo cada um desses ter-
mos no conhecido sistema decimal, esse número é 8 + O + 2 + 1 + O + v,i =

198 Como a matemática explica o mundo


11,25. O sistema binário é o de uso natural para o armazenamento de in-
formações em um computador. Originalmente, a informação era exibida
por meio de uma seqüência de luzes: quando a luz estava acesa, o dígito
correspondente era l; desligada, correspondia a O. Assim, uma fileira de
quatro luzes na ordem ligada-desligada-desligada-ligada correspondia ao
número binário 1001=1 x 2 3 +O x 2 2 +O x 2 1 + 1 x 2º, cujo valor decimal
é 8 + O + O + 1 =9. Hoje, computadores armazenam informação magneti-
camente: se um ponto está magnetizado, o dígito correspondente é um l;
se não está magnetizado, o dígito correspondente é um O.
Há uma correspondência simples entre uma seqüência infinita de ca-
ras ou coroas e representações binárias de números entre O e 1. Dada uma
seqüência de cara ou coroas, simplesmente substitua H por O e T por 1, re-
.mova as vírgulas e coloque um ponto decimal à esquerda do primeiro dígi-
to. A seqüência infinita de caras ou coroas que alterna cara e coroa (H, T,
H, T, H, ... ) torna-se o número binário 0,01010 ... É possível executar ore-
verso desse procedimento, a partir de um número binário entre O e 1 para
uma seqüência infinita de caras ou coroas. A procura pela moeda aleatória
ideal se transforma então em uma procura por um número binário. A exi-
gência de que cada seqüência específica de N jogadas ocorra l/2N das
vezes se torna a exigência de que cada seqüência específica de N dígitos bi-
nários (Os e Is) ocorra l/2Ndas vezes. Um número que possui essa pro-
priedade é chamado normal na base 2 . Em breve, examinaremos mais de
perto esses números.

A mensagem no Pi
O número Pi representa um papel importante no romance best-seller de
Carl Sagan, Contato, 1 sobre o primeiro encontro do homem com uma ci-
vilização avançada. Um dos capítulos, intitulado "A Mensagem no Pi", es-
boça a idéia de que os alienígenas haviam entregue uma mensagem à hu-
manidade escondida nas profundezas dos zilhões de dígitos da expansão
de Pi. Possivelmente o fato de se saber que Pi é um número transcendente
motivou Sagan a colocar uma mensagem transcendente escondida nele. A
atração do misticismo no Pi apareceu mais recentemente no filme "Pi" e,
sem dúvida, em outros lugares dos quais não tomei conhecimento.
Parece tremendamente improvável que uma civilização alienígena te-
nha manipulado a Geometria do universo em que evoluíram, de modo

Universo desorganizado 199


que a razão entre o perímetro de um círculo e seu diâmetro contivesse
uma mensagem. Na verdade, parece impossível, considerando que as ver-
dades e os parâmetros da Geometria plana são independentes do local
onde são estudados. Não bastasse isso, surge ainda a questão de como tra-
duzir a mensagem em Pi. Os dígitos usados na expressão de Pi são uma
função da base do número, e teria de haver um dicionário que traduzisse
blocos de números para os caracteres da linguagem na qual a mensagem é
apresentada. Por exemplo, ASCII é o código que traduz blocos de oito dí-
gitos binários armazenados em um computador para caracteres imprimí-
e
veis; o número o1000001 cuja representação decimal é 65) corresponde
ao caractere A. Em um sentido, porém, Sagan estava certo: os matemáti-
cos crêem que Pi contém não só quaisquer mensagens codificadas por ali-
enígenas mas todas as mensagens, repetidas com uma freqüência infinita~
Um número normal em base 10 é aquele no qual, em média, cada dí-
gito decimal, tal como 4, aparece 1/1 Odo tempo - mas cada par de dígitos
decimais sucessivos, como, por exemplo 4 7, aparece 1/100 das vezes
eexistem cem pares assim, de 00 a 99), cada triplo de dígitos decimais su-
cessivos, tal como 4 71, aparece 1/1000 das vezes, e assim por diante. Esse
é o equivalente matemático da "moeda aleatória ideal" pela qual procura-
mos há pouco tempo, exceto que, no lugar de uma moeda aleatória ideal
com dois lados cujos arremessos gerariam um número normal em base 2,
imaginemos uma roleta perfeitamente equilibrada com dez números, de
Oa 9. É possível formular uma definição equivalente de normalidade para
qualquer base de número . Por exemplo, um número que é normal em
base 4 é aquele em que cada uma das 4N seqüências de N dígitos possíveis
ocorre lf4N das vezes.
Existe algum número normal, em qualquer base, que tenhamos
de fato encontrado? Obviamente, não podemos ficar lançando moe-
das (ideais ou não) para o ar eternamente. Há alguns que são conheci-
dos. David Champernowne, que foi colega de turma de Alan Turing
(cuja prova da indecidibilidade do problema da parada aparece no
Capítulo 7), construiu um em 1935. Esse número, conhecido como a
constante de Champernowne, é normal em base 10. O número é
O, 123456789101112131415 .. ., que é formado simplesmente pela liga-
ção das representações decimais dos inteiros em ordem ascendente. Quan-
do vi esse resultado, cheguei à conclusão de que a constante de Cham-

200 Como a mate mática explica o mundo


pernowne 2 também era normal em outras bases - afinal, é uma idéia, e
não exatamente um número específico, e eu, ingenuamente, supus que
qualquer método de prova que servisse para mostrar que era normal em
base 1O serviria para outras bases também. Se existe um Livro Guinness
dos Recordes de Conclusões Erroneamente Tiradas, acho que tenho direito
a uma menção honrosa. Se você examina a constante de Champernow-
ne em base 10, está entre O, l e 0,2-mas, em base 2, é um número dife-
rente. Em notação binária, 1 = 1, 2 = 10, 3 = 11, 4 = 100, 5 = 101, 6 =
110, 7 = 111, então a constante de Champernowne em base 2 começa
O, 11O111001O111O111 ... Qualquer número cuja representação de base
2 comece de 0, 11 ... é maior do que~ (assim como 0, 12 ... em base 10
mostra que o número é maior do que 1/10 + 2/10 2, 0,11 ... em base 2
mostra que o número é maior do que Yz 1 + 1/2 2).
Entretanto, em 2001, a encarnação em base 2 da constante de Cham-
pernowne foi demonstrada normal em base 2. Assim, escrever H para
cada ocorrência de O e T, para cada ocorrência de 1, seria um exemplo de
uma seqüência de jogadas que parecem vir de uma moeda perfeitamente
aleatória.
Há muitos poucos exemplos conhecidos de números que são normais
em todas as bases; todos os que são conhecidos são altamente artificiais. 3
Por "altamente artificial", quero dizer que você não vai encontrar o núme-
ro no mundo real. Evidentemente, encontramos números como 3 ,089 (o
preço atual em dólares de um galão - 3, 784 litros - de gasolina na Califór-
nia) e a raiz quadrada de 2 (quando extrair o comprimento da diagonal de
um quadrado de trinta centímetros de lado), mas números como a cons-
tante de Champernowne simplesmente não aparecem quando estamos
medindo coisas. Números que são normais em todas as bases não apare-
cem no mundo real, mas a linha real está apinhada de números assim. O
teorema de números normais de Borel4 afirma que, se você escolhe aleato-
riamente (aqui está aquela palavra de novo) um número real, é quase cer-
to (em um sentido que pode ser matematicamente específico) escolher
um número que seja normal em todas as bases. No uso ordinário, quando
se pede a uma pessoa que escolha um número, ela geralmente escolhe um
número que mede alguma coisa, como 5. Quando um matemático des-
creve a escolha de um número real aleatório, imagina um processo pareci-
do com uma loteria, em que todos os números reais são colocados em um

Universo desorganizado 201


chapéu, o chapéu é minuciosamente sacudido, e um número é escolhido
por alguém usando uma venda nos olhos. Se alguém faz isso, o número es-
colhido será quase certamente normal em todas as bases. De novo, "quase
certamente" tem uma definição altamente técnica, mas é possível ter uma
idéia de seu significado ao compreender que, se um número real é escolhi-
do aleatoriamente no sentido descrito, é quase certo que não será um in-
teiro. Inteiros formam o que é conhecido como conjunto de medida de Le-
besgue zero; a afirmação técnica do teorema de números normais de Borel
é de que todos os números, à exceção de um conjunto de medida de Le-
besgue zero, são normais em todas as bases.
Números transcendentes como Pi parecem ser candidatos fortes para
números que são normais em todas as bases. Se fosse demonstrado que Pi
é um desses números, então Sagan teria acertado: a mensagem dos aliení-
genas estaria codificada nos dígitos de Pi, já que a mensagem codificada
seria simplesmente uma seqüência de dígitos. Porém, todas as mensagens
são uma seqüência de dígitos, então, se você examinar suficientemente o
Pi, encontrará a receita para a melhor torta de queijo* de todos os tempos,
assim como a história de sua vida (até mesmo a parte que ainda não acon-
teceu), repetida numa freqüência infinita.
Sagan costumava falar sobre como somos todos feitos de pó de estre-
las; as explosões das supernovas criam os elementos mais pesados que são
usados para construir nosso corpo. Sem dúvida, ele teria ficado igualmen-
te intrigado pela maneira intricada com que todos somos conectados à li-
nha real. Se um número real é selecionado de modo aleatório, é pratica-
mente certo que os dígitos daquele número contem as histórias completas
de todos os seres humanos que já viveram sobre a face da Terra, e de todos
que ainda viverão, e cada história é contada infinitas vezes.
A moeda aleatória ideal, cujos lançamentos podem ser vistos como
os dígitos binários de um número que é normal em todas as bases, acaba
sendo não só uma ferramenta para decidir quem vai chutar a primeira
bola e quem vai recebê-la no SuperBowl, mas um oráculo de maiores-
tatura do que o oráculo de Delfos. Ele responderia a todas as perguntas
possíveis, se soubéssemos como ler suas folhas. Mas, é claro, nunca sa-
beremos.

*Nota do Revisor Técnico: Aqui o autor faz um trocadilho pois "Pi" tem a mesma pronúncia
que "pie" (torta).

202 Como a matemática explica o mundo


Dados rolando: Por que não podemos conhecer
o que o universo conhece

Antes, neste capítulo, perguntamos se o rolar de um dado era imprevi-


sível; afinal, se o universo sabe o que vai acontecer, porque não pode-
mos saber? Em finais do século XX, surgiu um novo ramo da Matemá-
tica. A Teoria do Caos, como seria chamada, emergiu quando se desco-
briu que fenômenos imprevisíveis vêm de duas formas: fenômenos ine-
rentemente imprevisíveis e fenômenos que são imprevisíveis porque
não podemos coletar informações suficientes a seu respeito. Fenôme-
nos inerentemente imprevisíveis existem apenas no sentido ideal, abs-
trato - as jogadas de uma moeda idealmente aleatória correspondem
aos dígitos binários de um número que é normal em todas as bases, mas
tal número não corresponde a nenhuma quantidade que possa de fato
ser medida.
O fenômeno do caos, como ele aparece tanto na Matemática quanto
na Física, é um tipo específico de comportamento determinístico. Ao
contrário dos fenômenos aleatórios, que são completamente imprevisí-
veis, fenômenos caóticos são teoricamente previsíveis. As leis matemáti-
cas subjacentes aos fenômenos são determinísticas; as equações relevantes
têm soluções, e o presente e o passado definem o futuro. O problema não
é que as próprias leis resultem em fenômenos imprevisíveis, é que nós não
podemos prever os fenômenos devido a uma subcarga de informação. Di-
ferentemente da Mecânica Quântica, ramo no qual não podemos conhe-
cer o valor dos parâmetros porque aqueles valores não existem, não pode-
mos (ainda) conhecer o valor dos parâmetros porque é impossível coletar
as informações necessárias.

Agora você está cozinhando com o caos


O dicionário define caos como "um estado de extrema confusão e desor-
dem". A recente profusão de reali-ty shows e filmes baseados em restauran-
tes retratam a cozinha exatamente desta maneira: chefes perturbados gri-
tando com garçonetes e ingredientes destinados à entrada acabando na so-
bremesa. Então, dando um aceno à cultura popular, voltamo-nos ao caó-
tico hospício das cozinhas em busca de alguma sofisticada matemática do
caos que você possa fazer com um rolo de massa.

Universo desorganizado 203


Imagine que t emos um cilindro de massa, e passamos o rolo nele de
modo que fique duas vezes mais longo do que era no início, então nós o
cortamos ao meio e colocamos a metade da direita sobre a metade da es-
querda. Então, repetimos esses dois processos, que são chamados de
transformação do padeiro. Pense na massa da torta ocupando o segmento
da linha real entre os inteiros O (onde está a extremidade esquerda da mas-
sa) e 1 (onde a extremidade direita está). A transformação do padeiro é
uma função B (x) que nos diz onde um ponto que estava originalmente lo-
1

calizado em x se encontra depois da abertura, do corte e da realocação da


massa. B(x) é definida por

B(x) = 2x 0 S X S l/2
B(x) = 2x- 1 l/2 <X S 1

Uma descrição simples é que um ponto na metade esquerda da massa


se move para o dobro de sua distância da extremidade esquerda depois da
transformação do padeiro, mas um ponto na metade direita dobra sua dis-
tância da extremidade esquerda depois da abertura da massa, e então é
movido uma unidade em direção à extremidade esquerda depois do corte
e da realocação .
. Isso não parece muito complicado, mas coisas surpreendentes acon-
tecem . Dois pontos que estão inicialmente localizados muito próximos
entre si podem se distanciar bastante, e bem rapidamente. Escolhi dois
pontos diferentes que estão inicialmente bem próximos e, para homena-
gear minha mulher, que nasceu no dia l º de setembro de 1971, seu ani-
versário é o primeiro ponto inicial, x = 0,0901 71. O segundo ponto ini-
cial está em 0 1 090702 1 somente 111000000 de unidade à direita do pri-
meiro ponto inicial.
Depois de uma iteração, os dois pontos se distanciaram em 0 1 000002 1
e mesmo depois de 12 iterações eles distam somente cerca de 0,004. Mas,
depois da décima sexta interação, um dos pontos está na metade esquerda
da massa, enquanto o outro está agora na metade direita. A próxima itera-
ção os distancia largamente - o primeiro ponto não está muito longe da
extremidade direita, enquanto o segundo ponto está bem perto da extre-
midade esquerda.

204 Como a matemática explica o mundo


Início Iteração
12 13 14 15 16 17
0,090171 0,180342 0,340416 0,680832 0,361664 0,723328 0,446656 0,893312
0,090172 O, 180344 0,344512 0,689024 0,378048 0,756096 0,512192 0,024384

Esse exemplo mostra que dois pontos que iniciam bem próximos um
do outro podem, após um número limitado de iterações, ocupar posições
completamente distantes entre si. Esse fenômeno tem sérias implicações
no que diz respeito ao uso da matemática para prever o comportamento
de sistemas.
Se multiplicássemos todos os números no quadro acima por 100, de
modo que pudéssemos pensar neles como representando temperaturas
em graus Fahrenheit, poderíamos interpretar o quadro da seguinte manei-
ra: temos um processo no qual se começamos com uma temperatura de
9,0171 graus, depois de 17 reiterações a temperatura é 89,3312 graus; en-
quanto, se começarmos com uma temperatura de 9,0172 graus, após 17
reiterações, teremos uma temperatura de 2,4384 graus. A menos que es-
tejamos em um laboratório, exercendo um controle excelente sobre um
experimento, não há maneira de medir a temperatura acuradamente em
.0001 grau. Então, nossa incapacidade de medir com uma exatidão exce-
lente torna impossível fazer previsões exatas; pequenas diferenças iniciais
podem resultar em diferenças substanciais subseqüentes. Esse fenômeno,
uma das peças centrais da ciência do caos, é tecnicamente conhecido
como "extrema sensibilidade a condições iniciais", mas a expressão colo-
quial "efeito borboleta" o descreve de forma muito mais vívida: o bater ou
não de asas de uma borboleta no Brasil poderia determinar se acontece
um tornado no Texas duas semanas depois.
Um exame cuidadoso da transformação do padeiro revela que é o
processo de corte que introduz essa dificuldade. Se dois pontos estão,
ambos, na metade esquerda da massa, a transformação do padeiro sim-
plesmente dobra a distância entre eles - da mesma forma que para dois
pontos na metade direita da massa. Porém, se dois pontos estão muito
próximos, mas um está na metade esquerda da massa e o outro na direi-
ta, o ponto na metade esquerda acaba ficando muito próximo da extre-
midade direita, mas o ponto na metade direita acaba muito próximo da
extremidade esquerda. A transformação do padeiro é um exemplo da-

Universo desorganizado 205


quilo que é chamado de função descontínua - uma função em que pe-
quenas diferenças na variável podem resultar em grandes diferenças en-
tre os valores de função correspondentes. Embora funções descontínuas
ocorram no mundo real- quando você acende uma luz, ela vai instanta-
neamente de brilho zero para brilho máximo-, pode-se dizer, com algu-
ma razão, que processos físicos naturais são mais graduais. Quando a
temperatura esfria, ela não cai de 70 graus para 50 graus instantanea-
mente - vai de 70 graus ao 69,9999 graus para 69,9998 graus ... para
50,0001 graus para 50 graus .5 Esse é um processo contínuo; pequenos
acréscimos no período de t empo resultam em pequenas mudanças na
temperatura. Não há nada de caótico aqui, certo?

Caos no laboratório

O efeito borboleta foi, na verdade, descoberto em conjunção com os pro-


cessos contínuos. O desenvolvimento do transistor tornou possíveis com-
putadores a preços razoáveis no fim da década de 1950 e início da década
de 1960. No início, computadores eram séries de válvulas sedentos de
energia imensamente caros, mas, no início dos anos 60, todas as universi-
dades e muitas empresas haviam comprado seus computadores. As em-
presas estavam, evidentemente, usando os computadores para acelerar os
cálculos e armazenar os dados necessários ao comércio, mas as universida-
des os estavam usando para explorar computacionalmente problemas in-
teiros, que, antes, eram inacessíveis.
O Dr. Edward Lorenz (falecido em 16 de abril de 2008), professor no
Massachussetts Institute of Technology, começou sua carreira como mate-
mático, mas depois voltou sua atenção à descrição e à previsão do clirna. As
variáveis envolvidas são governadas por equações diferenciais e sistemas de
equações diferenciais,6 que descrevem como as freqüências com que as va-
riáveis mudam se relacionam com seus valores atuais. Essas equações, em-
bora muito complicadas, são associadas a processos contínuos.
Resolver equações diferenciais é uma parte importante da Ciência e
da Engenharia, porque essas são as equações que refletem o comporta-
mento dos processos físicos. Porém, é raro se obterem soluções exatas em
equações diferenciais. Em conseqüência, a abordagem padrão é adotar
métodos numéricos que geram soluções aproximadas, e métodos numéri-
cos são colocados em prática com maior eficiência pelos computadores.

206 Como a matemática explica o mundo


Certo dia, em 1961, Lorenz programou um sistema de equações dife-
renciais em um computador que provavelmente processava a uma veloci-
dade menor do que um décimo de 1 % da coisa que está montada em sua
mesa neste momento. Assim, quando chegava a hora do almoço, Lorenz
registrava o output, desligava o computador, e comia alguma coisa. Quan-
do retomava, decidia voltar um pouco atrás, e não usava os dados mais re-
centes do computador, mas os dados que havia gerado algumas iterações
antes. Ele esperava que os dados do segundo uso duplicassem os dados do
uso anterior (afinal, eles estavam usando as mesmas iterações), mas se sur-
preendeu ao ver que, depois de algum tempo, os dois conjuntos de dados
diferiam substancialmente entre si.
Suspeitando de algum defeito no programa (isso ocorria com freqüên-
cia) ou de um mau funcionamento do hardware (isso ocorria com mais
freqüência em 1961 do que hoje), ele verificou reiteradas vezes ambas as
possibilidades- para então descobrir não era nenhum desses casos. Ele en-
tão percebeu que, ao reinicializar o computador para a segunda série, ha-
via arredondado o resultado para a dezena mais próxima; se o computa-
dor tivesse dito que a temperatura era 62,3217 graus, significava que ele
havia arredondado esse valor para 62,3 graus. Naqueles dias, era necessá-
rio digitar todos os dados manualmente, e arredondar os dados tomaria
um bom tempo de digitação. Lorenz pensou, naturalmente, que arredon-
dar faria muito pouca diferença nas computações - mas, como vimos na
tabela da página 205, mesmo uma diferença na sexta casa decimal pode
causar diferenças significativas nos valores das reiterações posteriores,
pelo menos na transformação do padeiro. Lorenz foi o primeiro a docu-
mentar e a descrever um efeito borboleta em um sistema no qual as variá-
veis mudavam gradualmente, e não descontínuamente. Lorenz também é
responsável pelo termo efeito borboleta. Em 1972, numa reunião da Asso-
ciação Americana para o Avanço da Ciência, ele apresentou um artigo in-
titulado "Predictability: Does the Flap of a Butterfly' s Wings in Brazil set
off a Tomado in Texas?" (Previsibilidade: o bater de asas de uma borbole-
ta no Brasil pode causar um tomado no Texas?) Investigações posteriores
revelariam que o comportamento caótico freqüentemente originava-se
de fenômenos não-lineares, uma característica comum de muitos siste-
mas importantes. Fenômenos lineares são aqueles nos quais um múltiplo
simples de um dado de entrada resulta em um múltiplo semelhante do da-

Universo desorgan izado 207


do de saída. (A lei de Hooke é um bom exemplo de um fenômeno linear.
Aplique 900g de peso sob uma mola, e ela estica 25mm; aplique 3,6kg à
mola, e ela estica lOOmm.)
A sensibilidade extrema a condições iniciais acabaria se tornando um
fenômeno muito mais comum do que se suspeitava originalmente. Uma
vez descrito o comportamento caótico, não era mais tão surpreendente
que sistemas complicados como o clima estivessem sujeitos ao efeito bor-
boleta. No meio da década de 1980, porém, demonstrou-se que a órbita
do agora rebaixado planeta Plutão também era caótica.7 O universo como
um relógio, imaginado por Newton, em que os corpos celestes se moviam
serenamente em órbitas majestosas e previsíveis em torno do Sol, dera lu-
gar a um cenário muito mais confuso e desordenado. Acontece que Plutão
é sinistramente parecido com o elétron do princípio da incerteza de Hei-
senberg; podemos saber onde está, mas não sabemos onde estará. Bem, na
verdade, não: não sabemos onde Plutão estará porque não sabemos onde
ele e os outros corpos no sistema solar estão (e com que velocidade e em
que direção estão se movendo) com exatidão suficiente.

Desenvolvimentos estranhos

Muitos sistemas exibem períodos de estabilidade separados por episódios


de transição entre esses períodos. Os geiseres do Parque Yellowstone são
um bom exemplo. Alguns, como o "Old Faithful", são muito regulares
nos períodos de suas erupções; outros são mais erráticos. Um exemplo
bem estudado em Ecologia Matemática é a interação entre populações re-
lativas de predadores e presas, como, por exemplo, raposas e coelhos. A
dinâmica de como as populações de raposas e coelhos mudam é qualitati-
vamente simples. Na presença de um suprimento adequado de comida
para os coelhos, a população de coelhos vai se expandir, provendo mais
presas para as raposas, cuja população também vai crescer. As raposas ca-
çarão os coelhos, reduzindo a população destes. Tal redução implica adi-
minuição da taxa de sobrevivência das raposas, permitindo que a popula-
ção de coelhos cresça novamente - e assim por diante.
A equação logística se modela nas populações relativas de predador e
presa. Ela tem a forma f( x) =a x (1 -x), onde a é uma constante entre O e 4,
ex é um número entre O e 1 que representa a porção de coelhos da popu-
lação total (coelhos divididos pela soma de raposas e coelhos) em um

208 Como a matemática explica o mundo


dado momento. O valor da constante a reflete o quanto os predadores são
agressivos. Imagine uma comparação entre dois tipos diferentes depreda-
dores: as jibóias-constritoras e as raposas. Jibóias-constritoras têm meta-
bolismo lento; umas poucas refeições por ano as mantêm satisfeitas. Ra-
posas, porém, são mamíferos, e precisam comer com muito mais freqüên-
cia para poder sobreviver.
Suponha que x é a fração de coelhos da população em um dado mo-
mento; então f(x) representa a fração de coelhos da população na geração
seguinte. Esse novo valor def(x) é usado como a fração de coelhos da popu-
lação para calcular a nova fração de coelhos na geração seguinte. Suponha,
por exemplo, quef(x) = 3 x (l -x), e que em algummomentox= 0,8 (80%
da população é composta de coelhos, 20% de raposas). Então f(0,8) = 3 x
0,8 x 0,2 = 0,48, então uma geração mais tarde os coelhos constituem 48%
da população. Quando calculamosf(0,48) = 3 x 0,48 x 0,52 = 0, 7488, en-
tão duas gerações depois os coelhos constituem 74,88% da população.
Uma fração x é chamada de um ponto de equilíbrio se a fração de coe-
lhos da população permanece em x ou periodicamente retorna a x. Não é
muito difícil perceber que o valor de a pode alterar os pontos de equilíbrio.
Se os únicos predadores no local são jibóias-constritoras, a fração de coelhos
do total da população seria indubitavelmente muito maior do que se os pre-
dadores fossem raposas, que gastam a energia do que ingerem rapidamente
e precisam comer muito mais vezes do que jibóias-constritoras. Nos anos
80, quando os monitores dos computadores tinham telas cor-de-âmbar e
cursores brancos e retangulares piscantes, havia um software que simulava
a equação logística: um programa chamado FOXRAB. 8* Enquanto outros
jogavam Pong nos computadores, eu costumava passar o tempo olhando
para o FOXRAB, que simplesmente fornecia números representando a fra-
ção da população total que era composta de coelhos.
Seria possível esperar que o sistema evoluísse suavemente, à medida que
a constante a gradualmente sobe de Opara 4, um pequeno aumento em are-
sultando em uma pequena mudança nos pontos de equilíbrio, mas o número
de pontos de equilíbrio do sistema se comporta de forma muito estanha. Se a
é menor do que 3, o sistema tem apenas um ponto de equilíbrio; as popula-
ções relativas acabam permanecendo as mesmas ao longo do tempo. Por
exemplo, se a= 2, o ponto de equilíbrio é x = 0,5; se a população chegar a

*Nota do Revisor Técnico: Em inglês, raposa éfox e coelho é rabbit, daí FOXRAB.

Universo deso rgan izado 209


consistir em 50% de coelhos, então f(0,5) = 2 x 0,5 x 0,5 = 0,5, e depois da
geração seguinte (e de todas gerações subseqüentes) haverá 50% de coelhos.
Outros valores de x se aproximam de 0,5 com o passar do tempo. Por exem-
plo, se x = 0,8, então f(0,8) = 2 x 0,8 x 0,2 = 0,32, f(0,32) = 2 x 0,32 x 0,68 =
0,4352, e f(0,4352) =0,49160192; depois de apenas três gerações, urna popu-
lação de coelhos de 80% se tornou uma população de coelhos de quase 50%.
Em a= 3, existem dois pontos de equilibrio. Esse estado de coisas conti-
nua até que a= 3,5, quando existem quatro pontos; mas, à medida que a au-
menta para 3,56, o número de pontos de equilibrio aumenta para 8, então
16, então 32 ... Quando a= 3,569946, algo inteiramente bizarro acontece:
não há mais nenhum ponto do equilibrio~ Enquanto a aumenta de 3,6 para
4, vemos o desenvolvimento do caos; o número de pontos de equilibrio varia
de modo imprevisível, com intervalos caracterizados por uma ausência de
pontos de equilibrio seguidos por intervalos em que a menor mudança nova-
lor de a cria um número loucamente diferente de pontos de equilibrio. É um
sistema completamente determinístico, mas, por outro lado, é impossível
prever o número de pontos de equilibrio. Em um sistema caótico desse tipo,
os pontos de equilibrio são chamados de atratores estranhos.
A tabela seguinte dá uma indicação de como o número de pontos de
equilíbrio do sistema muda à medida que a aumenta. Os números da li-
nha do topo representam as gerações; os valores da tabela indicam a fração
da população composta de coelhos. Em cada caso, a primeira geração co-
meça com metade da população total composta de coelhos; o resto da ta-
bela mostra a fração de coelhos para as gerações 126 a 134. Quando a=
2,8, a população estabiliza em 64,3% de coelhos. Quando a= 3, 1, a popu-
lação de coelhos oscila entre 76,5% e 55,8% . Quando a= 3,5, existem
quatro pontos de equilíbrio; e quando a= 3,55, existem oito pontos de
equilíbrio (a geração 135 repete o valor da geração 127, a geração 136 re-
pete o valor da geração 128, e assim por diante).

Geração 1 126 127 128 129 130 131 132 133 134

a= 2,8 0,5 0,643 0,643 0,643 0,643 0,643 0,643 0,643 0,643 0,643
a= 3,1 0,5 0,765 0,558 0,7 65 0,558 0,765 0,558 0,765 0,558 0,765
a= 3,5 0,5 0,383 0,827 0,501 0,875 0,383 0,827 0,501 0,875 0,383
a= 3,55 0,5 0,355 0,813 0,54 0,882 0,37 0,828 0,506 0,887 0,355

210 Como a matemática expl ica o m undo


A prevalência do caos
O comportamento caótico pode ser encontrado em uma ampla variedade de
fenômenos: as populações relativas de predadores e presas, o padrão de difu-
são em uma epidemia, o início das arritmias cardíacas, os preços dos merca-
dos de fontes de energia, as mudanças climáticas entre períodos de tempera-
turas moderadas e as eras de gelo. A mudança climática é motivo de preocu-
pação para muitos cientistas, em relação ao fenômeno do efeito estufa. Os re-
gistros do clima contêm períodos nos quais houve transformações relativa-
mente abruptas, e não está de modo algum claro o que causa a oscilação do
clima entre diferentes regimes de temperatura. Aqueles que pensam que os
humanos têm de fazer alguma coisa para prevenir o aquecimento global
apontam para o fato de que é impossível saber se a fração relativa de díóxido
de carbono na atmosfera é o estopim do comportamento caótico, mas, até
que possamos saber mais, parece mais prudente errar por excesso de zelo.
Por outro lado, o clima parece ter tido seus próprios atratores estranhos por
milhões de anos antes que o homem começasse a utilizar combustíveis fós-
seis como fonte de energia, então somos apenas novatos nesses ciclos, que
têm ocorrido há milhões de anos sem a nossa participação.
Há muito a ser ganho com a capacidade de criar modelos dos sistemas
caóticos. Imagine como seria valioso poder prever a arritmia cardíaca an-
tes que ela de fato acontecesse. De fato, nós demos um passo importante
ao descobrir que a arritmia cardíaca é um fenômeno caótico, e não aleató-
rio. Se fosse aleatório, não haveria qualquer esperança de fazer alguma coi-
sa nos casos individuais; o melhor que poderíamos fazer é saber qual por-
centagem de pessoas apresentando certos padrões correriam o risco de so-
frer ataques cardíacos. Com o comportamento caótico, há a possibilidade
de fazermos alguma coisa em situações individuais. Porém, isso provavel-
mente ainda está um pouco distante no futuro, já que o caos é uma disci-
plina muito jovem ainda. 9 Mas pelo menos não é uma disciplina caracteri-
zada por extrema confusão e desordem.

NOTAS
1. C. Sagan, Contato (São Paulo: Companhia das Letras, 2000).
2. Veja http ://mathworld.wolfram.com/NormalNumber.html. Como acontece com
muitas das referências do Mathworld, você precisa ser um profissional para compre-
ender completamente a informação, mas o básico é razoavelmente compreensível.

Universo desorganizado 211


3. Veja http://mathworld.wolfram.com/AbsolutelyNormal.html.
4. O teorema do número normal de Borel afirma que o conjunto de números que não
são normais em todas as bases é um conjunto de medida de Lebesgue zero. Você
precisa de um curso superior em Matemática para realmente se familiarizar com a
m edida de Lebesgue, mas ela insere números em conjuntos que generalizam a idéia
de comprimento . A medida de Lebesgue do intervalo unitário - todos os números
reais entre Oe l - é 1, como seria de se esperar. Entretanto, a medida de Lebesgue de
todos os números racionais naquele intervalo é O. A prova do teorema do número
normal de Borel utiliza o axioma da escolha. A probabilidade para conjuntos de nú-
m eros reais está estreitamente ligada com a medida de Lebesgue, então, quando di-
zemos que um número aleatoriamente selecionado será quase certamente normal,
isso é simplesmente uma reafirmação do teorema do número normal de Borel, na
linguagem mais intuitiva da probabilidade, e não na linguagem m enos intuitiva da
medida de Lebesgue.
5. T ecnicamente, a temperatura diminuindo de 70 graus para 69,9999 graus é descon-
tínua, a menos que tenha passado por todos us números reais entre 70 e 69,9999;
isto é uma conseqüência do teorema do valor intermediário para as funções contí-
nuas. O propósito desse exemplo foi dar ao leitor a idéia de uma transição sem pu-
los, sem ser exageradamente técnico.
6. Uma dessas equações é a equação de Navier-Stokes, uma equação diferencial par-
cial cuja solução é um dos problemas do milênio do Clay Mathem atics Institute.
7. G . ]. Sussman and J. Wisdom, "Numerical Evidence That the Motion of Pluto Is
Chaotic", Science 241: pp. 433-37.
8. V eja http://www.jaworski.eo.uk/mlO/ lO_reviews .html. Nem consigo acreditar
que isso ainda esteja disponivel~
9. Para aqueles interessados em leituras mais aprofundadas sobre a história e os primei-
ros desenvolvimentos do caos, recomendo o livro de James Geick, Caos, a constru-
ção de uma nova ciência (Campus-Elsevier, 1989) . Gleick é um maravilhoso escri-
tor de ciência, digno da herança de Paul de Kruif, Isaac Asimov e Carl Sagan. Entre-
tanto, o estudo do caos teve avanços consideráveis desde a publicação desse livro.

212 Como a matemática explica o mundo


ateriais básicos

A importância de ser prudente*


No início de 1996, o jornal Social Text publicou um artigo do professor
Alan Sokal, da New York University. Intitulado "Transgredindo as Fron-
teiras: Em Direção a uma Hermenêutica Transformativa da Gravitação
Quântica" 1 (hein?), o artigo lança o ponto de vista de que a '"realidade' fí-
sica ... é, no fundo, um constructo social e lingüístico" (como é que é?). O
artigo era, na verdade, um hoax.. intelectual gigantesco, e cedo se tornaria
uma cause célebre. Sokal submeteu seu artigo porque temia que a opinião
de que o mundo é como nós o percebemos, em vez de ser como é, estava
distorcendo um dos objetivos fundamentais da ciência: a busca pela ver-
dade. A aceitação do artigo pelo jornal gerou numerosos efeitos colaterais.

*Nota do Revisor Técnico: Título de uma peça de Oscar Wilde, "The Importance of Being
Earnest" .
**Nota da Editora: Histórias falsas que têm a intenção de enganar, freqüentemente veicu-
ladas na Internet.

Os mate riais básicos 213


Ajudou a aumentar o nível do escrutínio com que eram examinados os ar-
tigos que lidavam com assuntos técnicos, e também revelou como a pro-
babilidade de publicação era afetada, ao menos na área acadêmica das ar-
tes liberais, 2 pela concordância do artigo com as posições filosóficas ou
políticas do conselho editorial. Mais do que tudo, porém, ajudou a expor
uma tendência perturbadora: a crença de que o importante é a percepção
da realidade e não a própria realidade.
Sokal achava tal idéia abominável- como achariam quase todos os ci-
entistas cujo trabalho é investigar a realidade. Como ele afirma: "Sou um
velho e quadrado cientista que acredita, ingenuamente, que existe um mun-
do externo, que existem verdades objetivas sobre este mundo e que meu
trabalho é descobrir algumas delas."3
A incapacidade de prestar atenção à realidade do mundo externo foi
causa de numerosas tragédias, desde Ícaro até a Challenger. Como obser-
vou Richard Feynman, durante a investigação que se seguiu ao desastre
que ocorreu quando a nave Challenger foi lançada sob condições insegu-
ras : "Para uma tecnologia eficiente, a realidade deve ter primazia sobre as
relações públicas, porque é impossível enganar a natureza. "4
Entre as grandes verdades objetivas que aprendemos sobre o mundo
exterior, está a de que nem tudo é possível. Um mais um sempre será igual
a dois, não importa que nos dediquemos 110% ou façamos um pedido a
uma estrela 5 - porque, no fundo, a Aritmética não é um construto social
ou lingüístico. Se calcularmos direito os números em nosso talão de che-
ques e o balanço for de $843,76, é isso o que temos. Infelizmente, não
mais do que isso, se o que desejamos é comprar um Lexus sem recorrer a
cinco anos de prestações mensais, e felizmente, não menos do que isso, se
desejamos sair para jantar e ir ao cinema sem nos preocuparmos com as
conseqüências de não podermos pagar a conta.
A natureza nos fornece os materiais básicos a partir dos quais o univer-
so é construído. Alguns desses materiais básicos são, bem, materiais: a ma-
téria da qual todas as coisas no universo são feitas. Alguns desses materiais
básicos são menos substanciais, como a energia. Existem relações entre os
materiais brutos do universo - como individualidades e também como co-
letividades - que ditam o que é ou não possível. Isso foi vislumbrado pela
primeira vez pelo químico francês Antoine-Laurent Lavoisier, que desco-
briu que, em uma reação química, a massa total dos produtos da reação

214 Corno a matemática explica o mundo


química era igual à massa total das substâncias que reagiam. Esse resulta-
do, conhecido como a lei da conservação da massa, marcou o início da
Química teórica. Um trio de cientistas do século XIX expandiria signifi-
cativamente esse resultado, estendendo à energia o que Lavoisier fizera
pela matéria.

O calor está ligado*


No verão de 1847, William Thomson, um jovem inglês, passava férias nos
Alpes. Certo dia, numa caminhada de Chamonix para Mont Blanc, ele en-
controu um casal tão excêntrico que só podia ser inglês - um homem carre-
gando um termômetro enorme, acompanhado por uma mulher em uma
carruagem. Thomson, que mais tarde se tomaria um dos maiores cientistas
britânicos e receberia o titulo de Lord Kelvin, puxou conversa com o casal.
O homem era James Prescott Joule, a mulher, sua esposa, e eles estavam
nos Alpes em lua-de-mel. Joule havia devotado uma parte substancial de
sua vida ao estabelecimento do fato de que, quando a água caía 23 7 metros,
sua temperatura subia em 1 grau Fahrenheit. A Grã-Bretanha, porém, é
notoriamente deficiente em quedas d' água, e agora que Joule estava nos
Alpes, certamente não deixaria que uma coisinha pequena como uma
lua-de-mel se intrometesse entre ele e a verdade científica.
Um novo ponto de vista havia surgido na Física durante a primeira
parte do século XIX: a idéia de que todas as formas de energia eram con-
vertíveis umas nas outras. A energia mecânica, a energia química e a ener-
gia térmica não eram entidades distintas, mas manífestações distintas do
fenômeno da energia. James Joule, um cervejeiro por profissão, se devo-
tou a estabelecer a equivalência entre trabalho mecânico e energia térmi-
ca. Esses experimentos envolviam diferenças de t emperatura muito pe-
quenas, e não eram espetaculares, e os resultados de Joule foram inicial-
mente recusados, tanto por publicações quanto pela Royal Society. Ele,
por fim, conseguiu publicá-los em um jornal de Manchester, no qual seu
irmão atuava como crítico musical. Os resultados de Joule levaram à pri-
meira lei da Termodinâmica, que afirma que a energia não pode ser criada
nem destruída, mas apenas transformada de uma em outra.

*Nota do Revisor Técnico: Em inglês, "The Heat Is on", canção de Glenn Frey, do filme "Be-
verly Hills Cop" (1984) .

Os materiais básicos 215


Cerca de vinte anos antes de Joule, um engenheiro militar francês
chamado Nicolas Carnot se interessara pela melhora da eficiência das má-
quinas a vapor. A máquina a vapor desenvolvida por James Watt era efici-
ente, se comparada às outras, mas ainda desperdiçava cerca de 95 % doca-
lor usado no funcionamento da máquina. Carnot investigou esse fenôme-
no e descobriu um resultado realmente inesperado: seria impossível con-
ceber uma máquina totalmente eficiente, e a eficiência máxima era uma
simples expressão matemática das temperaturas envolvidas no funciona-
mento da máquina. Essa foi a única publicação de Carnot e permaneceu
enterrada até ser ressuscitada um quarto de século depois, por William
Thomson (Lord Kelvin), somente um ano antes de seu encontro fortuito
com Joule nos Alpes Suíços.
O trabalho de Carnot foi a base da segunda lei da Termodinâmica. Essa
lei existe sob várias formas, uma das quais é a afirmação de Carnot sobre a
eficiência teórica máxima das máquinas. Outra formulação da segunda lei,
devida a Rudolf Clausius, pode ser entendida em termos de entropia, um
conceito termodinâmico que envolve uma direção natural dos processos
termodinâmicos: um cubo de gelo colocado dentro de um copo de água
quente derreterá e diminuirá a temperatura da água, mas um copo de água
morna nunca se separará espontaneamente em gelo e água quente.
O físico austríaco Ludwig Boltzmann descobriu uma formulação in-
teiramente diferente da segunda lei da Termodinâmica, em t ermos de
probabilidade: é mais provável que sistemas procedam de estados ordena-
dos para estados desordenados, simplesmente porque existem muitos
mais estados desordenados do que ordenados. A segunda lei da T ermodi-
nâmica explica por que quartos limpos, quando abandonados, se tornam
sujos, mas quartos sujos, quando abandonados, não viram limpos: há mui-
to mais modos de sujeira do que há de limpeza. A primeira e a segunda leis
da Termodinâmica parecem surgir em tantos ambientes diversos que se
tornaram parte de nosso entendimento coletivo da vida: a primeira lei diz
que você não pode vencer, e a segunda lei diz que não é possível empatar.
Carnot, Joule e Boltzmann chegaram à Termodinâmica vindos de três
direções diferentes: a prática (Carnot), a experimental (Joule) e a teórica
(Boltzmann). Eles estavam ligados não apenas pelo interesse na Termodi-
nâmica, mas por situações de vida difíceis, que beiravam o trágico. Joule
sofreu pela vida toda de uma saúde precária e de uma lesão na coluna ver-

216 Como a matemática expl ica o mundo


tebral ocorrida na infância e, embora filho de um rico cervejeiro, empo-
breceu em seus últimos anos. Boltzmann sofria de transtorno bipolar eco-
meteu suicídio porque temia que suas teorias jamais fossem aceitas; de mo-
do irônico, seu trabalho foi reconhecido e aclamado pouco depois de sua
morte.

O recurso final
Existem paralelos flagrantes entre a energia e o dinheiro. Cada um deles é
o recurso final, em sua própria arena particular. Dinheiro é como avalia-
mos e pagamos por bens e serviços, e energia é a medida de quanto esforço
é necessário para produzir aqueles bens e fornecer aqueles serviços. Assim
como diferentes moedas podem ser trocadas umas pelas outras, diversas
formas de energia podem ser convertidas umas nas outras.
A primeira lei da Termodinâmica, como descrita anteriormente, de-
clara que não existem almoços grátis no universo - a energia não pode ser
criada do nada. Tampouco - e isso é, muitas vezes, ignorado - a energia
pode ser destruída, mas apenas transmutada. A segunda lei, que trata da
transmutação de energia, também tem uma análoga no campo financeiro :
na vida real, o dinheiro nunca é usado com eficiência total. Existem sem-
pre intermediários captando dinheiro para fechar negócios e acordos, e a
natureza faz a mesma coisa toda vez que a energia é usada. A energia nun-
ca pode ser usada com eficiência perfeita; esse é um dos motivos pelos
quais uma máquina de moto perpétuo nunca poderá ser construída.
Avanços recentes, porém, revelaram que pode haver falhas nas leis da
Termodinâmica. Uma delas decorre de um tópico discutido em capítulo
anterior: somente a gravitação (dentre as quatro forças) é capaz de exercer
uma influência extradimensional. Nunca poderemos observar diretamen-
te uma quarta dimensão espacial, porque o processo de observar uma quar-
ta dimensão envolve o uso do espectro eletromagnético, e as teorias atuais
não admitem que a força eletromagnética investigue uma quarta dimensão.
Porém, a força gravitacional pode vazar para outras dimensões - como men-
cionamos, essa é a maneira pela qual poderemos - talvez - discernir .a exis-
tência daquelas outras dimensões espaciais.6 Se conseguirmos provar que é
esse é o caso, a primeira lei da Termodinâmica não mais se sustentará; mas
se abrirá uma possibilidade extremamente atraente. Se a energia gravitado-

Os materiais básicos 217


nal de nossas três dimensões pudesse vazar para outro lugar, por que a ener-
gia gravitacional de outras dimensões não poderia vazar para a nossa? Isso
pode nos capacitar a obter almoços grátis de fornecedores extradimensio-
nais e, ao mesmo tempo, necessitar de uma nova primeira lei da Termodi-
nâmica: no universo como um todo, a energia não pode ser criada nem des-
truída. Houve situações em que a Lei da Conservação da Energia foi rees-
truturada. A equação clássica de Einstein, E = mc2 fornece a "taxa de troca"
para matéria e energia; 1 unidade de matéria é convertida em c2 unidades de
energia. Isso requeria uma reformulação da lei da conservação da energia: a
totalidade de matéria e energia é conservada de acordo com a fórmula de
Einstein, assim como o valor monetário total permanece igual, mesmo que
parte dele seja em dólares e parte em euros. Dada essa história da lei da con-
servação da energia, não seria completamente surpreendente se ainda outra
mudança se escondesse em seu futuro .

Por que a entropia au menta

Para saber por que a entropia aumenta, temos de saber como calcular a en-
tropia. O símbolo !Yx, que aparece com freqüência na Matemática, repre-
senta a mudança na quantidade x- se, ao fmal de um mês, x representa meu
balanço bancário, !Yx é a quantidade de dinheiro que o estado da Califórnia,
que me emprega, deposita diretamente em minha conta. Na Termodinâ-
mica, S representa a quantidade de entropia no sistema. O símbolo "15, a
mudança na entropia do sistema, é a soma de todas as quantidades !'iQ/f
em um sistema, onde T é uma temperatura na qual um componente do sis-
tema reside e !'iQ é a mudança de calor naquele componente à temperatura
T. Para aqueles de nós que cursaram Cálculo, é mais formalmente definido
como a integral de dQ!T - para aqueles que não sabem cálculo, uma inte-
gral é simplesmente a soma de muitas coisas bem pequenas.
Tomarei um exemplo de O tecido do cosmo,7 de Brian Greene, e imagi-
narei que temos um copo de água com alguns cubos de gelo em seu inte-
rior. O calor flui do mais quente para o mais frio porque o calor é uma me-
dida de quão rapidamente as moléculas estão se movendo; quando molé-
culas que se movem rapidamente colidem com moléculas que se movem
lentamente, as mais rápidas perdem velocidade (perdendo calor), en-
quanto as mais lentas ganham velocidade (adquirindo calor). Vamos su-

21 8 Como a matemática explica o mundo


por que 1 unidade de calor é transferida de uma pequena quantidade de
água a uma temperatura T1 para um cubo de gelo de temperatura T2 • Já
que a água é mais quente que o gelo, T2 < T 1 .
A contabilidade do calor é bastante parecida com a contabilidade do
talão de cheques; unidades ganhas são vistas como positivas (adicionamos
depósitos a nosso talão de cheques), enquanto unidades perdidas são vis-
tas como negativas (subtraímos cheques ou retiradas, e subtrair um nú-
mero positivo produz o mesmo resultado que somar um negativo). Então,
a contribuição para a mudança na entropia da perda da unidade de calor
da pequena quantidade de água é - l/T1• A contribuição para a mudança da
entropia do ganho da unidade de calor pelo cubo de gelo é +l/T2 . A mu-
dança total na entropia dessa transação de calor é -l/T1 + l/T2 ; essa ex-
pressão é positiva, já que T2<T1 • À medida que a água esfria e o gelo derre-
te, cada uma dessas transações de calor muda a entropia em uma quantia
positiva, e então a entropia do sistema aumenta.
Uma vez que o sistema tenha atingido o equilíbrio, com todos os cubos
derretidos e o sistema a uma temperatura uniforme, transações de calor
não podem mais acontecer e o copo de água está em sua entropia máxima.
O copo de água é um microcosmo do que está acontecendo no universo.
Na maior parte das vezes, coisas quentes estão esfriando e coisas frias es-
tão esquentando, a entropia está aumentando, e estamos indo em direção
a um futuro sombrio e distante, onde tudo está na mesma temperatura,
nenhuma transação de calor pode mais ter lugar, e tudo é muito, muito
monótono, porque nada pode acontecer. Essa é a chamada morte térmica
do universo.
Pelo menos a entropia nem sempre aumenta em todos os lugares em
todos os momentos; a segunda lei apenas requer que a entropia aumente
em processos reversíveis, e, felizmente, vários processos realmente inte-
ressantes não entram nessa categoria. O congelamento das pedras de gelo,
ou o nascimento de uma criança, requerem uma diminuição local da en-
tropia - mas é sempre à custa do aumento na entropia do universo como
um todo, porque o universo deve suprir calor para o funcionamento do re-
frigerador que congelà as pedras de gelo e, para gerar uma criança, é ne-
cessário ter muita entropia sob a forma de material e energia.
Diminuições locais na entropia acontecem por uma série de razões,
não só porque você precisa usar eletricidade para fazer sua geladeira fun-

Os materiais básicos 219


cionar a fim de criar as pedras de gelo. A gravidade, força que se esconde
por muitos cantos do universo, contribui para decréscimos locais na en-
tropia que dão energia à nossa existência. Uma nuvem de gás hidrogênio,
quando vista estritamente sob a perspectiva de suas propriedades termo-
dinâmicas, é um sistema de alta entropia. O que a perspectiva termodinâ-
mica falha em considerar é o papel que a gravidade desempenha na gera-
ção de um decréscimo local na entropia. A nuvem - se for grande o sufici-
ente - colapsa sob a própria gravitação até que sua massa esteja densa o
bastante para causar a fusão termonuclear, e então nasce uma estrela. Se a
estrela for grande o suficiente, uma diminuição ainda mais drástica da en-
tropia é iminente, já que a estrela eventualmente explodirá em uma su-
pernova, um processo que cria os elementos pesados a partir dos quais
planetas e seres vivos podem finalmente se formar.

Uma nova olhada na entropia

A Mecânica Estatística oferece uma defmição alternativa de entropia. Essa


disciplina surgiu a partir do problema de descobrir e utilizar a vasta quanti-
dade de informação que existe em qualquer agrupamento de moléculas.
Qualquer agrupamento de bom tamanho de moléculas, tal como um copo
de água, contém ao menos 1024 moléculas, cada qual ocupando um ponto
específico (são necessárias três coordenadas para especificar) e se movendo
em três direções distintas (igualmente necessitando de três coordenadas
para determinar a velocidade Norte-Sul, a velocidade Leste-Oeste e a velo-
cidade cima-baixo). Mesmo que pudéssemos ter o domínio (o que nos é
impossível) de toda essa informação para todas as moléculas no copo de
água, o que afinal faríamos com ela? Isso é que é sobrecarga de informação1
Se cada computador tivesse um terabyte de capacidade (um trilhão de
bytes; não me surpreenderia que chegassem em breve ao mercado, se é que
já não chegaram) e cada coordenada usasse um único byte, você precisaria
de um computador para cada homem, mulher e criança do planeta Terra
para armazenar aquela informação sobre um corpo de água.
Encontramos o mesmo problema ao analisar os atributos de grandes
agrupamentos de qualquer coisa, como, por exemplo, a distribuição de
renda da população dos Estados Unidos. O imposto de renda, sem dúvida,
possui dados razoavelmente acurados para, digamos, cem milhões de pes-

220 Como a matemática explica o mundo


soas, mas, se tivéssemos um livro com informações sobre todas essas pes-
soas, nossos olhos certamente ficariam vidrados ao tentar examiná-lo. Re-
suma tudo em um pequeno quadro, tal como a porcentagem de pessoas
ganhando menos de $25 mil, a porcentagem de pessoas ganhando entre
$25 mil e $50 mil, a porcentagem que ganha entre $50 mil e $75 mil, a
porcentagem ganhando entre $75 mil e $100 mil e a porcentagem ga-
nhando mais de $100 mil, e seremos muito mais capazes de examinares-
sas informações e usá-las para tomar decisões. A Mecânica Estatística nas-
ceu quando se percebeu que princípios semelhantes se aplicavam às posi-
ções e aos movimentos de grandes agrupamentos de moléculas.
Qualquer macroestado de um sistema, tal como um copo de água
com pedras de gelo dentro, é uma reunião de microestados-temperatu-
ra, velocidade e localização das moléculas individuais . A definição de
entropia oferecida pela Mecânica Estatística é uma medida do número
de microestados associados a cada macroestado. Um copo de água com
pedras de gelo em seu interior tem menos microestados que o compõem
do que um copo de água em temperatura uniforme, porque estamos
confinando substancialmente as moléculas da pedra de gelo . Suas locali-
zações e velocidades são altamente restritas, enquanto uma molécula in-
dividual de água é livre para se agitar e ir a qualquer canto. A segunda lei
da Termodinâmica, sob essa perspectiva, é uma afirmação sobre a pro-
babilidade; é mais provável que, se um sistema evolui de um estado a ou-
tro, irá se mover em direção a um estado com maiores probabilidades.
Quando lançamos um dado, é mais provável que resulte um número
maior do que 3 do que um número menor do que 3, porque há apenas
dois números menores do que 3 (1 e 2), mas três estados maiores do que
3 (4, 5 e 6).
Isso dá uma explicação probabilística de por que a pedra de gelo der-
rete: existem menos estados de cubos de gelo e água quente do que com
água tépida em temperatura uniforme. Também indica por que os siste-
mas tendem ao equilíbrio: estes são os estados de probabilidade mais alta,
e qualquer desvio desse estado naturalmente tenderá a evoluir de volta ao
estado de probabilidade mais alta.
Porém, a perspectiva estatística da segunda lei abre uma porta que fica
escondida na formulação clássica. Um sistema não é compelido a estar em
seu estado de probabilidade mais alta; simplesmente é mais provável que

Os materiais bás icos 221


ele esteja lá do que em qualquer outro lugar. Por mais improvável que
possa ser, um copo de água em temperatura uniforme pode passar por
uma série altamente improvável de transições, resultando em um copo
com pedras retangulares de gelo imersas em água quente - ou, ainda mais
improvável, com pedras de gelo com o formato de réplicas em miniatura
do Pártenon. Quando eu era mais jovem, li Um, dois, três ... infinito, um li-
vro maravilhoso do físico George Gamow. 8 Nele, Gamow descreve uma
situação semelhante em que todas as moléculas de ar em um quarto mi-
gram para um canto superior, deixando seus azarados ocupantes sem ar.
Ele então faz os cálculos, e mostra que teríamos de esperar aproxímada-
mente uma eternidade para que isso acontecesse. Confesso que fiquei,
definitivamente, aliviado ao saber que essa era mais uma coisa com a qual
eu não tinha de me preocupar - mas provavelmente eu nunca teria me
preocupado com ela se não tivesse lido o livro.

Ordem e desordem

A vida cotidiana nos oferece uma maneira de visualizar o número de mi-


croestados associado a um macroestado qualquer. Linda, minha esposa, e
eu temos opiniões muito distintas sobre o propósito do meu armário. Lin-
da pensa que o armário existe para que as roupas sejam penduradas em
seus lugares certos. Sozinha, ela organiza os cabides da esquerda para adi-
reita; camisas na esquerda, calças na direita. As camisas e as calças são ain-
da subdivididas entre roupas de trabalho (indicadas pelas manchas das ca-
netas para retroprojetores que uso para dar aulas) e roupas de vestir
(aquelas que ainda estão imaculadas; todas as camisas e calças foram ini-
cialmente compradas como roupas de vestir, mas Linda sabe que nem to-
das estão destinadas a continuar assim). Uma última ordem é imposta
quando ela as organiza por cores. Ainda não desvendei a estratégia de or-
ganização de cores que ela usa; se tivesse de arriscar, provavelmente diria
ROY G BIV (um acrônimo há muito aprendido para as cores do espectro
na ordem em que elas aparecem em um arco-íris: as primeiras letras das
palavras em inglês para vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, índigo e
violeta). Porém, tenho um amigo que organiza seus livros por cor e o faz
seguindo a ordem alfabética; ele organizaria as cores acima na ordem ama-
relo, azul, índigo, laranja, verde, vermelho e violeta.

222 Como a matemática expl ica o mundo


Eu, por outro lado, não dou a mínima para essas minúcias. Se as rou-
pas estão nos cabides, está bom para mim. Certo, levo um pouco mais de
tempo para achar a calça e a camisa certas. Grande coisa~ Linda examina o
armário a cada poucos meses, e sua reação é sempre a mesma: baguncei
tudo de novo. Existe apenas uma ordem na qual pendurar as roupas, e to-
das as outras ordens são caracterizadas pela expressão "bagunçado". Para
ela, existem apenas dois macroestados: a ordem correta (e existe apenas
um microestado correspondendo ao macroestado "ordem correta") e aba-
gunçada (e ela acredita que eu tenha gerado todos os microestados possí-
veis correspondentes ao macroestado "bagunçado").
A natureza e meu armário têm isso em comum: há uma quantidade
consideravelmente maior de microestados correspondendo a um macro-
estado desordenado do que a um macroestado ordenado. Para uma de-
monstração quantitativa disso, suponha que tenhamos dois pares de sapa-
to: tênis (minha escolha na maior parte do tempo) e mocassins (minha op-
ção em ocasiões formais), e duas caixas para armazenar os calçados. Essas
caixas são suficientemente grandes para conter os quatro sapatos, mas
uma caixa é para os tênis, e a outra para os mocassins. A seguir, está uma
tabela de todas as maneiras possíveis de dispor os quatro calçados nas duas
caixas. Existe um critério quantitativo óbvio para o que constitui a ordem
nessa situação: o número de pares de calçados na caixa apropriada.
A abreviação CM significa caixa dos mocassins, e CT, caixa dos tênis:

Mocassim Mocas sim Tênis Tênis Pares na


Esquerdo Direito Esquerdo Direito Caixa Certa
CM CM CM CM
CM CM CM CT
CM CM CT CM
CM CM CT CT 2
CM CT CM CM o
CM CT CM CT o
CM CT CT CM o
CM CT CT CT l
CT CM CM CM o
CT CM CM CT o

Os materiais básicos 223


Mocassim Mocas sim Tênis Tênis Pares na
Esquerdo Direito Esquerdo Direito Caixa Certa
CT CM CT CM o
CT CM CT CT
CT CT CM CM o
CT CT CM CT o
CT CT CT CM o
CT CT CT CT

Há três macroestados: 2 pares nas caixas certas (o macroestado mais or-


denado), 1 par na caixa certa, e Opar na caixa certa (o macroestado mais desor-
denado). Existe um microestado correspondente ao macroestado mais or-
denado, 6 microestados correspondentes ao segundo macroestado mais orde-
nado, e 9 microestados correspondentes ao macroestado mais desordenado.
A coisa nem sempre funciona de modo tão bonitinho assim, mas, quanto
maior o número possível de microestados, mais provável é que os macroesta-
dos ordenados ocorram menos que os desordenados. O que torna tão impro-
vável que as moléculas de ar de um quarto migrem todas para os sete centí-
metros superiores contados a partir do teto é que existem na ordem de 1025
moléculas de ar em um cômodo, e o número de microestados em que todas
essas moléculas estejam lá em cima perto do teto é quase infinitesimal, quan-
do comparado com o número de microestados em que as moléculas estão es-
palhadas por todo o cômodo (para grande alívio de quem está lá dentro) .

Entropia e informação

Estamos vivendo naquilo que já foi descrito como a Era da Informação.


Os Estados Unidos - país cujo vasto complexo industrial produziu em sé-
rie automóveis e geladeiras que contribuíram tanto para sua riqueza -
quase abandonaram a produção desses bens materiais para países onde ela
pode ser feita com mais eficiência (graças a equipamentos de produção
mais modernos) ou a um custo menor (graças a um suprimento abundan-
te de mão-de-obra). Mas os Estados Unidos ainda retêm muito de sua li-
derança do mundo industrial, porque a nova moeda do reino não são auto-
móveis nem geladeiras, mas informação; e os Estados Unidos estão na
vanguarda da manufatura e da distribuição da informação.

224 Como a matemática expl ica o mundo


Mas qual é a relação disso com os conceitos que estivemos examinan-
do? Foi Boltzmann, arquiteto da Mecânica Estatística, que percebeu que,
quando alguém fala sobre ordem e desordem, sobre o número de microes-
tados associados a um dado macroestado, os conceitos discutidos se relacio-
navam com a informação que se possuía sobre o sistema. Examinemos de
novo o exemplo dos tênis e dos mocassins acima. O macroestado mais or-
denado é aquele no qual todos os calçados estão em suas caixas corretas,
enquanto o menos ordenado é aquele no qual nenhum dos pares está em
sua caixa correta, e o número de rnicroestados correspondente a cada um
varia inversamente, em relação à precisão com que podemos localizar os
calçados, se tudo o que conhecemos é o macroestado.
Quanto mais microestados estiverem associados a um dado macroes-
tado, menos poderemos dizer com precisão sobre os componentes indivi-
duais do sistema. Quando sabemos que ambos os pares de calçados estão
nas caixas corretas, sabemos com certeza onde está o mocassim esquerdo.
Ao checar a tabela na página anterior, sabemos que somente um dos cal-
çados, o mocassim esquerdo, está na caixa dos mocassins em quatro de
seis microestados- uma probabilidade de 2/3. Porém, se nenhum par está
na caixa certa, o mocassim esquerdo está na caixa dos mocassins em ape-
nas três dos nove microestados, uma probabilidade de 1/3. Essa análise é
típica; à medida que a entropia cresce, a informação que temos sobre o sis-
tema decresce. Já que a segunda lei da Termodinâmica nos diz que a en-
tropia está crescendo no universo como um todo, o inexorável progresso
do tempo está aumentando a quantidade do que não podemos saber. A
morte térmica do universo é também uma morte da informação; o univer-
so tende a um estado no qual nada resta a ser feito, e muito poucas coisas
de natureza física a serem conhecidas.
Este é o exato oposto do que a experiência cotidiana nos diz. Todos os
dias, a ciência coleta mais e mais informações sobre o universo à nossa vol-
ta; mas isso é porque a entropia ainda é capaz de sofrer derrotas locais.
Ainda existem montes de informação a serem coletados, e existirão até
um futuro bem distante. Mas, enquanto gulosamente sugamos quantida-
des exponenciais de novas informações, em um futuro muito, muito dis-
tante, tenderemos inexoravelmente em direção a um universo no qual
não poderemos conhecer coisa alguma, porque não haverá quase nada a
ser conhecido .

Os materiais básicos 225


Buracos negros, entropia e a morte da informação
Enquanto a ciência progride, muitas de suas idéias importantes atraves-
sam um caminho comum. O primeiro estágio é a formulação de um cons-
tructo hipotético (o artigo de Sokal me fez adotar esse termo), um objeto
cuja existência explique certos fenômenos. O estágio seguinte é a confir-
mação indireta; experimentos ou observações sugerem que o constructo
de fato existe. Finalmente, conseguimos o prêmio máximo, uma observa-
ção direta do objeto em consideração. Esse caminho é trilhado não so-
mente nas Ciências Físicas, mas nas Ciências Biológicas também; ele des-
creve tanto o átomo quanto o gene.
Também descreve o buraco negro, cuja existência foi inicialmente hi-
potetizada há mais de dois séculos, pelo geólogo inglês John Michell. Em
um artigo publicado pela Royal Society, Michell declarou: "Se o semidiâ-
metro de uma esfera com a mesma densidade do Sol excedesse a do Sol na
proporção de 500 para 11 um corpo caindo de uma altura infinita em dire-
ção a ela teria adquirido, em sua superfície, uma velocidade maior que a
da luz e, conseqüentemente, supondo que a luz é atraída pela mesma for-
ça em proporção à sua vis inertiae (massa inercial), com outros corpos,
toda a luz emitida de um corpo desse tipo seria forçada a retornar a ele em
razão de sua própria gravidade ."9 A idéia básica de um buraco negro está
claramente contida nesta proposição: a gravidade do objeto é tão forte
que nenhuma luz pode escapar dele.
Com o desenvolvimento da teoria da relatividade geral de Einstein, o
interesse sobre o conceito de um buraco negro ganhou força. Na década
de 1930, um trabalho foi iniciado pelo astrofísico Subrahmanyan Chan-
drasekhar, e continuado por Robert Oppenheimer (entre outros), que,
em uns poucos anos, encabeçaria o Projeto Manhattan, que desenvolveu a
primeira bomba atômica. Eles concluíram que estrelas que possuíam uma
massa maior superior a certo limite se submeteriam a um inevitável colap-
so gravitacional e se transformariam em um buraco negro. Assim, os bura-
cos negros progrediram de um constructo hipotético para entidades con-
cebivelmente observáveis, quer direta, quer indiretamente. Cientistas
acreditam que buracos negros supermassivos, com massas milhões deve-
zes maiores do que a do Sol, se escondem no coração de grandes galáxias,
incluindo a Via Láctea, onde a Terra está. Em 2004, astrônomos alegaram

226 Como a matemática explica o mundo


ter detectado um buraco negro orbitando o buraco negro supermassivo
que está no centro da Via Láctea (felizmente, a Terra está situada a uma
º
distância confortável do centro). 1 Nunca observaremos um buraco ne-
gro, como bem sabia John Michell, mas a evidência relativa à sua existên-
cia é extremamente forte.
O que é sabido sobre buracos negros é que eles são completamente
determinados por suas massas, cargas e momento angular. Essas são as
únicas coisas que jamais poderemos saber sobre um buraco negro, então,
quando vemos um buraco negro com massa, carga e velocidade de giro da-
das (o macroestado), todos os zilhões de microestados possíveis ocorren-
do dentro do buraco negro correspondem àquele único macroestado.
Buracos negros são, portanto, o limite de quanto a entropia pode crescer.
Quanto maior a entropia, menos informação há, e um buraco negro de
massa, carga e momento angular comunica a menor quantidade possível
de informação sobre a região do espaço que ele ocupa. O que acontece
dentro do buraco negro parece estar no topo da lista de coisas que não po-
demos conhecer.
No curso da próxima década, ou um pouco antes ou depois disso, me-
dições astrofísicas deverão revelar o futuro do universo: se está destinado a
se expandir para sempre, ou se vai, no fim das contas, recolapsar no que já
foi chamado "big crunch". Buracos negros se fundirão com outros buracos
negros até que possa existir apenas um buraco negro gigante contendo toda
a matéria do universo, colapsando eternamente para dentro de si mesmo.
Essa era a perspectiva convencional sobre os buracos negros, até que
Stephen Hawking mostrou, na década de 1970, que os buracos negros não
são tão negros quanto inicialmente se pensava. Processos da Mecânica
Quântica permitem que a matéria escape do buraco negro em um processo
conhecido como radiação de Hawking. 11 Assim como a água em um copo
evapora lentamente à medida que suas moléculas individuais adquirem ve-
locidade suficiente para escapar das fronteiras do copo, a matéria dentro de
um buraco negro evapora com o tempo. Surpreendentemente, porém, a
freqüência com que a matéria desaparece depende muito do tamanho do
buraco negro . Um buraco negro do tamanho do Sol levará algo na ordem de
1067 anos para evaporar. Considerando que a idade do próprio universo é
de aproximadamente 101 4 anos, buracos negros de massa solar vão estar por
aí até um futuro muito, muito, muito distante. Se o universo entrasse em

Os materiais básicos 227


colapso em um buraco negro através do bíg crnnch, poderia levar quase uma
eternidade para que evaporasse, mas iria evaporar.

O universo e a Princesa Léia

O trabalho de Hawking também abriu caminho para o surpreendente re-


sultado de que a entropia de um buraco negro é proporcional à área de sua
superfície, e não a seu volume. O que torna esse resultado surpreendente
é que nós já vimos que a entropia é uma medida da desordem, e certamen-
te seria de se esperar que o volume fosse capaz de exibir maior desordem
do que o vaso que contém a desordem.
Em conseqüência, alguns físicos especularam que toda a ordem e de-
sordem que vemos em nosso universo é meramente uma projeção de or-
dem e desordem em uma fronteira multidimensional, que, em certo sen-
tido, engloba nosso universo do modo como a superfície de uma bola de
basquete engloba a região dentro dela. Isso é semelhante ao modo de fun-
cionamento de um holograma. Um holograma é um engenhoso dispositi-
vo que projeta a ilusão de um objeto tridimensional a partir da informação
inscrita em um objeto bidimensional.
Há uma cena no início do Episódio 4 de "Guerra nas Estrelas" (o pri-
meiro a ser filmado, lá pela metade dos anos 70) em que Luke Skywalker e
seus dróides descobrem um velho dispositivo de projeção holográfica.
Eles o põem para funcionar, e uma imagem holográfica da Princesa Léia
aparece. A imagem está u m pouco nebulosa, mas, ainda assim, é tridi-
mensional, e a Princesa Léia holográfica certamente demonstra uma gran-
de dose de paixão ao fazer seu pedido por socorro. Sabemos que a imagem
holográfica da Princesa Léia é somente uma imagem holográfica, mas po-
demos conj ecturar sobre se a imagem, se fosse de algum modo imbuída de
consciência, perceberia que não passava daquilo, uma projeção holográfi-
ca. Se assim é o universo, e nós não passamos de projeções holográficas de
alguma espécie, como poderíamos saber?

O que a Matemática tem a dizer sobre isso

A partir de uma perspectiva matemática, é fácil colocar em uma corres-


pondência "um a um" os objetos de menor dimensão com os objetos de

228 Como a matemática explica o mundo


maior dimensão. Para ver um simples exemplo de como colocar os pontos
em um segmento de linha em correspondência "um a um" com os pontos em
um quadrado, pegue um número entre O e 1 e escreva sua expansão deci-
mal, e então simplesmente use os dígitos de números ímpares (décimos,
milésimos, centenas de milésimos etc.) para definir a coordenada x e os
dígitos de número par (centésimos, dezenas de milésimos, milhoné-
simos etc.) para definir a coordenada y. Dessa forma, o número
0,123456789123456789123456789 ... corresponderia ao ponto no qua-
drado (0, 13579246813579 ... , 2468135792468 ... ).
Para ligar os pontos no quadrado à linha, simplesmente estabeleça ca-
madas alternadas de dígitos - o reverso exato do que foi feito acima. O
ponto (0,111111.. ., 0,222222 ... ) corresponderia ao ponto 0, 12121212 ...
na linha.
O problema aqui é que essas transformações são descontinuas. Pontos
próx imos entre si podem acabar separados por uma grande distância, de
modo análogo à transformação do padeiro que vimos quando discutimos
o caos. De fato, pode ser mostrado na topologia que cada transformação
"um a um" da porção da linha real entre O e 1 para o quadrado no plano
deve ser descontínua.1 2
Isso tem conseqüências interessantes para a Princesa Léia, como tam-
bém para nós, se formos projeções holográficas. Seria de se esperar que a
receita para a construção da Princesa Léia holográfica fosse contínua no
seguinte sentido: assim como todos os pontos estão próximos entre si (ao
menos, eles estão todos dentro da Princesa Léia), a receita para construí-la
consistiria em instruções próximas entre si. Mas a Matemática mostra que
a coisa não pode ser assim. A receita para construir a Princesa Léia (ou, se
não a Princesa Léia, alguma outra projeção holográfica) deve ser b astante
dispersa. Em vez de um único bloco de instruções sobre como construir a
Princesa Léia, as instruções para fazê-lo podem aparecer ao longo de todo
o livro que representa a totalidade de todas as receitas holográficas. Pode-
mos esperar que as páginas de 5 a 19 das receitas holográficas sejam devo-
tadas à construção da Princesa Léia, mas o que pode acontecer, na verda-
de, é que uma linha da página 5 pode ser sobre a princesa, com a próxima
linha sobre a Princesa Léia aparecendo na página 8.417.363.

Os mat eriais básicos 229


O hológrafo cego
Não sei quanto a você, m as isso me faz duvidar da explicação holográfi-
ca. Não me sinto confortável com a idéia de que as instruções para fazer
este que vos escreve estejam espalhadas por tudo que é canto; eu me sen-
tiria muito mais confortável se estivessem juntas, como eu mesmo. Po-
rém, há um buraco nesse argumento: o teorema da topologia, que afirma
que quaisquer transformações entre objetos de diferentes dimensões de-
vem ser descontínuas, se baseia no fato de que os objetos são contínuos
de dimensões maiores, caracterizados pelos números reais. O universo é
quantizado, seus elementos discretos, e isso também seria verdade sobre
a fronteira do universo (eu acho). N esse caso, minhas objeções talvez
não sejam válidas, mas nunca vi um teorema da topologia que abordasse
esse ponto.
Outra coisa que gera dúvida, ao menos para mim, sobre a teoria do
universo como holograma, é uma versão atualizada da teoria do relojoei-
ro, defendida pelo teólogo do século XVIII William Paley. Paley argu-
mentou que, assim como um relógio é um aparelho complicado demais
para que possa simplesmente ocorrer naturalmente, e, portanto, a exis-
tência de um relógio implica a existência de um relojoeiro, a complexida-
de das coisas viventes implica a existência de um criador. Em seu livro de
1986, O relojoeiro cego, 13 Richard Dawkins argumenta que a seleção natu-
ral cumpre o papel de relojoeiro cego, sem qualquer propósito ou preme-
ditação, mas conduzindo a evolução dos seres vivos.
A versão atualizada do argumento da Paley seria a de que a exist ência
de um holograma (o universo) implica a existência de um hológrafo fora
do universo. Assim como o personagem de um romance não pode escre-
ver o romance do qual é personagem, um personagem de um holograma
não pode criar um holograma. Então, de onde vem o holograma, e de
. onde vêm as regras que governam o fundonamento do holograma? Tal-
vez seja como um arquivo de computador que se auto-extrai. Confesso
que meu conh ecimento da Física que está por trás dessa teoria é
não-existente, mas, ainda assim, m e parece que a teoria do universo como
holograma requer ou um hológrafo cego, um conceito que é para essa teo-
ria o que a seleção natural é para a evolução, ou a existência de um holó-
grafo fora do universo. Possivelment e o hológrafo cego se provará uma
bomba para a Física tanto quanto a seleção natural foi para a Biologia.

230 Como a matemática explica o mundo


NOTAS
1. Veja http://skepdic.com/sokal.html. Esse é um excelente sumário do hoax de So-
kal. The Skeptic's Dictionary tem muitas coisas boas, especialmente para aqueles de
nós que somos céticos empedernidos. Tem ótimas seções sobre OVNis, paranor-
malidade e pseudociência. Você pode se educar mais nesse site do que em pratica-
mente qualquer curso nas áreas que estão na moda nas universidades.
2. Dói dizer isso, mas as Ciências Exatas e a Matemática não são imunes a isso. As pes-
soas têm dificuldade com idéias que desafiam suas crenças queridas. Por isso respei-
to tanto a ciência; ela tem um mecanismo embutido (a replicabilidade) para com-
bater esse aspecto.
Isso também funciona quando alguma coisa desafia o paradigma estabelecido. A
fusão fria parecia uma ótima idéia, mas, quando ninguém conseguiu duplicar os ex-
perimentos essenciais, a idéia saiu de jogo.
3. Veja http://skepdic.com/sokal.html.
4 . Veja http://www.brainyquote.com/quotes/authors/r/richard_p_feyrunan.html. As
citações nesse site valem a pena os cinco minutos que se leva para lê-las. Feynman
morreu antes do hoax, de Sokal, m as a seguinte citação é sem dúvida aplicável: "A
ampliação do horizonte teórico que resulta da existência de muitos assuntos na área
de humanas no campus é sobrepujada pela estupidez generalizada das pessoas que
estudam essas coisas."
5. A letra da canção "When you wish upon a star / Makes no difference who you are"
[Quando você pede a uma estrela/ Não importa quem você seja] é reveladora, pois
nada acontecerá que não teria acontecido de qualquer maneira. Afirmações desse
tipo fluem livrem ente quando você passa um pouco de tempo com The Skeptic's
Dictionary.
6. Até agora, nenhum vazamento assim foi detectado. Isso não significa que teorias ra-
zoáveis baseadas em vazamentos tais não possam ser construídas, embora possam ser
difíceis de testar. Lembre-se de que a teoria do estado estacionário exigia a criação de
um átomo de hidrogênio por m 3 a cada dez bilhões de anos. A propósito, a teoria do
estado estacionário fez previsões (ou, melhor dizendo, não fez as previsões essenciais
que a teoria do big bangfez), e por isso foi possível rejeitá-la com base em evidências
experimentais.
7 . B. Greene, The Fabric of the Cosmos (New York: Vintage, 2004) , pp. 164- 67.
Edição Brasileira: O tecido do cosmo (São Paulo: Companhia das Letras, 2005).
Eu disse isso antes: trata-se de um livro magnífico. Não um livro fácil (não creia
em propagandas que digam o contrário) , mas absoluta e totalmente digno do seu
esforço.
8 . G. Gamow, Um dois três ... infinito (Rio de Janeiro: Zahar, 1962). Esse foi o livro que
m e iniciou na Matemática e na Ciência, e, se você tem filhos inteligentes e questio-
nadores, com 12 anos ou mais, dê esse livro a eles. Haverá muita matemática que
eles não entenderão, mas muita também que entenderão, e parte da ciência é obso-
leta ou errônea, mas e daí? Isso pode ser corrigido, e n ão há erros matemáticos.
9. V eja http://www.manhattanrareb ooks-science.com/black_hole.htm. Essa citação
pode ser encontrada em fontes mais eruditas, estou certo.

Os materiais básicos 231


10. Veja http://www.mpe.mpg.de/ ir/GC/index.php. Belas fotos e gráficos do Institu-
to Max Planck.
11. Veja http://en.wikipedia.org/wiki/Hawking_Radiation. Aqui há provavelmente
mais matemática do que você deseja absorver, mas é um bom artigo que exphca as
idéias básicas.
12. Existem muitas maneiras diferentes de demonstrar esse fato (na verdade, quando
aplico provas no curso de primeiro ano de topologia, peço aos alunos que mostrem
isso de pelo menos dois modos). Uma maneira de mostrar que o intervalo de unida-
de não pode ser mapeado continuamente em um quadrado sólido, uma unidade por
vez, é tirar um ponto do meio de cada um. Fazê-lo separa o intervalo de unidade em
duas peças distintas; na linguagem da topologia, está desconectado. Porém, remo-
ver um ponto do meio de um quadrado sólido ainda deixa um objeto que está co-
nectado; você ainda pode ir de qualquer ponto a outro com seu caminho no quadra-
do sem o ponto, como se estivesse evitando um buraco de esquilo em seu quintal.
13. Richard Dawkins, O relojoeiro cego (São Paulo: Companhia das Letras, 2002). Esse
é um ótimo livro, mas toca em idéias que deixam algumas pessoas nervosas. Daw-
kins se tornou, desde então, o principal porta-voz do ateísmo. Evidentemente, esse
é o ponto dele-que a evolução pode ocorrer sem a direção de um criador. Acho que
todos deveriam ler esse livro - ele fará você refletir, não importa qual seja seu ponto
de vista.

232 Como a matemática explica o mundo


Parte IV

A Utopia
lnalcançável
O fundamento da democracia
As eleições são o fundamento da democracia. Votamos em assuntos im-
portantes, como quem será o próximo presidente, e em assuntos triviais,
como quem será o próximo "American Idol".*
Quando um candidato recebe uma maioria de votos, não há dificulda-
de em determinar o vencedor da eleição - mas, quando nenhum candida-
to recebe a maioria dos votos, alguns problemas podem acontecer. Embo-
ra, às vezes, não fique claro quem é o vencedor das eleições (como na elei-
ção presidencial de 2000), muitas vezes a eleição é decidida pela escolha
das regras que governam a eleição. As eleições norte-americanas têm um
longo histórico de exibir o calcanhar-de-aquiles das regras de eleição.
Nos Estados Unidos, atualmente, as eleições presidenciais adotam o
Colégio Eleitoral, e não o voto popular, para decidir o resultado, mas esse

*Nota do Revisor Técnico: Espécie de programa de calouros que conta com a votação do pú-
blico.

Falhas na fundação 235


sistema encontrou problemas pela primeira vez na eleição de 1800, quan-
do Thomas Jefferson e Aaron Burr, os dois candidatos mais votados, rece-
beram o mesmo número de votos eleitorais. A Décima Segunda Emenda
foi estabelecida para resolver os problemas que ocorreram nessa eleição,
transferindo a eleição para a Câmara dos Representantes caso nenhum
candidato obtenha maioria eleitoral, mas a eleição de 1824 revelou que o
sistema ainda não havia sido consertado. O candidato líder, filho de um
ex-presidente dos Estados Unidos, não conseguiu vencer no voto popular.
A eleição foi finalmente decidida não pelos eleitores, mas por um punha-
do de oficiais de altos cargos do governo. Pode soar como uma descrição
da eleição presidencial de 2000, mas a história de fato tende a se repetir.
A eleição de 1824 teve quatro candidatos principais: o carismático gene-
ral Andrew Jackson, que havia ajudado a derrotar os ingleses na Guerra de
1812; John Quincy Adams, filho de um ex-presidente e secretário de estado
na época da eleição; William Crawford, o secretário do tesouro; e Henry
Clay, presidente da Câmara dos Representantes. Depois de depositados os
votos, viu-se que Jackson recebera um grande número deles, tanto populares
quanto no Colégio Eleitoral, mas não obtivera a maioria necessária no Colé-
gio Eleitoral. Como determinado pela Décima Segunda Emenda, a eleição
foi para a Câmara dos Representantes (um fantasma que reapareceu breve-
mente durante as eleições de 2000 também); mas a Décima Segunda Emen-
da estipulava que somente os três candidatos mais votados entrariam em
consideração. Isso eliminou Clay, que estimulou seus eleitores a votarem em
Adams, um homem do qual pessoalmente não gostava, mas com o qual tinha
algumas importantes visões políticas em comum. Como resultado disso,
Adams venceu, apesar de Jackson não só ter recebido mais votos populares,
como também mais votos no Colégio Eleitoral. Quando, mais tarde, Adams
nomeou Clay como secretário de estado, a muitos pareceu que isso era um
pagamento pelos votos que Clay lhe garantira.
Até hoje, o sistema ainda não foi consertado. O Colégio Eleitoral assi-
nala pesos diferentes a votos populares vindos de diferentes estados, e ten-
tar analisar o peso relativo desses votos não é trabalho fácil. Se se define o
valor do voto de um indivíduo como uma fração do voto eleitoral que re-
presenta, então votos de indivíduos em estados de população menor com
três votos no Colégio Eleitoral são muitas vezes consideravelmente mais
valiosos do que os votos dos indivíduos em estados populosos, como Cali-

236 Como a matemática expl ica o mundo


fórnia ou Nova York. Usando esse método de avaliação, um eleitor de
Wyoming tem quase quatro vezes mais poder no Colégio Eleitoral do que
um eleitor da Califórnia.1
Há uma maneira alternativa - e mais interessante, do ponto de vista
matemático- de medir o peso de um voto. O Banzhaf Power Index (BPI)
conta a quantas coalizões (uma coalizão é um conjunto de votos) uma en-
tidade votante pode aderir, de tal modo que sua adesão à coalizão trans-
forme a coalizão, de perdedora numa vencedora.
Embora o BPI possa ser calculado tanto para eleitores individuais
como para blocos de eleitores, é mais fácil entender como isso é feito no
contexto de um colégio eleitoral. Para ver como o BPI é calculado, supo-
nha que haja três estados em um colégio eleitoral de cem votos. Os esta-
dos têm 49, 48 e 3 votos eleitorais. Para computar o BPI do estado com 3
votos, contamos as coalizões perdedoras que se tornam vencedoras, uma
vez que o estado de 3 votos eleitorais se junta a ela. Sozinho, o estado de
49 votos é uma coalizão perdedora, mas, se o estado de 3 votos eleitorais
se junta a ele, o total de 52 votos assegura a vitória. Da mesma forma, sozi-
nho, o estado de 48 votos perde, mas, se o estado de 3 votos se junta a ele,
a coalizão é vencedora. Esse cálculo mostra que o estado de 3 votos tem
um BPI de 1, assim como cada um dos outros estados. O estado pequeno
tem um tremendo poder nessa eleição, bem superior a seu total eleitoral
de fato, e os candidatos devem trabalhar para ganhar nesse estado com o
mesmo empenho que dedicam aos dois estados grandes.
O lado oposto da situação é o de que um estado com um número evi-
dentemente grande de votos eleitorais pode, na verdade, não ter poder para
mudar o rumo de uma eleição. Se há três estados, cada um com 26 votos
eleitorais, e um quarto estado com 22 votos eleitorais (novamente, o total
de votos eleitorais é cem), qualquer candidato que vença em dois dos esta-
dos maiores vence a eleição; é indiferente o modo como votam os estados
pequenos. Não existe uma combinação perdedora de estados à qual o esta-
do pequeno possa se juntar e, com isso, transformar a combinação em uma
vencedora; o estado pequeno tem um BPI de O. Cada um dos estados gran-
des tem um BPI de 4, já que se pode juntar a qualquer um dos outros esta-
dos grandes, ou a uma aliança entre um estado grande e um estado peque-
no, e transformar uma combinação perdedora em uma vencedora. Os elei-
tores do estado pequeno estão efetivamente privados de seus direitos.

Falhas na fundação 237


Análises de índice de poder demonstraram que é quase três vezes mais
provável que um eleitor da Califórnia virasse uma eleição presidencial se
fosse eleitor do Distrito de Columbia. 2 Então, todo mundo sabe que o Co-
légio Eleitoral não é um modo verdadeiramente democrático de decidir
uma eleição presidencial - mas o modo como medimos isso depende da
matemática que se escolhe usar para analisar a situação.
Em uma democracia ideal, cada voto deveria ter um peso igual, en-
tão podemos decidir dar a cada eleitor um total de 100 pontos, e pedir
que distribua esses pontos entre os vários candidatos. Denominado
método de intensidade de preferência, uma variação dele foi usada por
mais de um século para determinar os membros da Câmara dos Repre-
sentantes de Illinois. 3 Um exemplo simples mostra que há problemas
potenciais nesse método. Considere uma eleição com dois candidatos,
A e B e três eleitores (poderíamos estar discutindo grupos maiores de
1

pessoas, tanto quanto indivíduos). O primeiro eleitor atribui 100 pon-


tos para A e nenhum para B, enquanto os dois outros eleitores atribuem
70 pontos para B e 30 pontos para A. Uma maioria prefere B a A, mas o
eleitor solitário que prefere A a B prevalece, com A vencendo a eleição
por 160 pontos a 140. Podemos ficar satisfeitos com um processo elei-
toral que permita que uma minoria barulhenta fale mais alto do que a
maioria?
A investigação de qual método de votação deve ser usado em uma de-
mocracia data de mais de dois séculos. Provavelmente a primeira pessoa a
observar que havia problemas associados com a determinação das prefe-
rências da maioria foi "o matemático que virou burocrata" francês, que
cumpriu um papel importante da Revolução Francesa.

Um paradoxo do voto
Marie-Jean-Antoine-Nicolas de Caritat, marquês de Condorcet, nasceu
em 1743, numa época em que ser marquês era muito agradável. Dentre
os inúmeros benefícios conferidos aos membros da aristocracia, estava a
disponibilidade da educação superior. Na faculdade ele se concentrou na
Matemática e nas Ciências e, em sua formatura, estava bem adiantado no
caminho de se tornar um dos principais matemáticos do século XVIII. Jo-
seph-Louis Lagrange, matemático e físico brilhante responsável por um

238 Como a matemática explica o mundo


trabalho inovador na teoria da probabilidade, nas equações diferenciais e
na Mecânica Celeste (pontos de Lagrange são locais em que corpos peque-
nos orbitando dois corpos maiores parecem não estar em movimento),
descreveu a tese de Condorcet como "cheia de idéias sublimes e férteis,
que poderiam fornecer material para vários outros trabalhos". 4 Ser elogia-
do por Lagrange significava muito.
Entretanto, logo após a publicação de seu artigo, Condorcet conheceu
Anne-Robert-Jacques Turgot, um economista que mais tarde se tornou o
controlador-geral das Finanças de Luís XVI. A amizade rendeu frutos, e
Turgot arranjou para que Condorcet fosse nomeado inspetor-geral da
Casa da Moeda, um cargo similar àquele concedido a Isaac Newton pelo
governo inglês.
Quando a Revolução Francesa começou, ser um membro da aristo-
cracia não era mais tão agradável, mas Condorcet saudou ativamente a
formação da nova República. Ele se tornou o representante de Paris na
Assembléia Legislativa e, mais tarde, o secretário da assembléia, e aju-
dou a construir um plano para o sistema de educação estatal. Infeliz-
mente para Condorcet, quando a Revolução Francesa passou por uma
mudança de rumo, ele cometeu dois erros críticos. Talvez pudesse ter
sobrevivido ao primeiro erro, que foi se juntar aos Girondinos modera-
dos e pedir que a vida do rei fosse poupada. Seu segundo erro, porém,
provou-se fatal. Condorcet falhou em reconhecer que o controle da Re-
volução estava prestes a ser assumido pelos mais radicais Jacobinos . Ele
defendeu vigorosamente uma nova Constituição, mais moderada, que
havia ajudado a escrever, e cedo se descobriu parte do equivalente da
Revolução Francesa para uma lista de inimigos. Emitiu-se um mandado
de prisão e Condorcet, então, se escondeu. Mais tarde, ele tentou fugir,
mas foi pego e enviado à prisão . Dois dias mais tarde, no ano de 1794, ele
foi encontrado morto em sua cela. Não se sabe se ele morreu de causas
naturais ou se foi assassinado.
A fama atual de Condorcet não se baseia nem em suas descobertas
matemáticas, nem em seu papel cumprido na Revolução Francesa, mas
muito mais naquilo que é conhecido como o paradoxo de Condorcet.
Esse talvez seja um nome inadequado, pois é mais um "franze-testa" do
que um paradoxo de fato. O paradoxo de Condorcet foi a primeira difi-
culdade descoberta na busca por um sistema de votação ideal. Pode ocor-

Falhas na fundação 239


rer quando a disputa contém três ou mais candidatos, e se pede aos eleito-
res que os listem, do primeiro ao último, em ordem de preferência. Avo-
tação por ordem de lista é um método adotado nas eleições nacionais de
vários países (a Austrália é o principal exemplo) e, embora não seja adota-
do nos Estados Unidos em suas eleições nacionais, é usado em algumas
eleições locais, e tem conquistado novos adeptos. Existem apenas dois
motivos para considerar a adoção da votação por ordem de lista: ajuda-nos
a priorizar nossas opções, e faz um trabalho muito melhor, no sentido de
eliminar eleições de segundo turno (que são dispendiosas e demandam
tempo), do que o voto simples em um único candidato.
Um dos principais problemas de uma sociedade é como deveríamos
alocar recursos. Três itens de importância atual são o terrorismo, o siste-
ma de saúde e a educação. Para ilustrar o paradoxo de Codorcet, suponha
que pedíssemos a três indivíduos diferentes que listassem esses itens em
ordem de importância. Aqui estão os votos coletados.
Primeira Escolha Segunda Escolha Terceira Escolha

Voto 1 Terrorismo Sistema de Saúde Educação


Voto 2 Sistema de Saúde Educação Terrorismo
Voto 3 Educação Terrorismo Sistema de Saúde

Dois entre três votantes acharam que o terrorismo era mais importan-
te do que o sistema de saúde, e dois de três acharam que o sistema de saú-
de era mais importante do que a educação. Se um eleitor individual consi-
derasse que o terrorismo era mais importante do que o sistema de saúde, e
o sistema de saúde mais importante do que a educação, aquele eleitor, lo-
gicamente, acharia o terrorismo mais importante do que a educação. Mas
a maioria não parece se comportar de maneira tão lógica; pois dois de três
eleitores pensam que a educação é mais importante do que o terrorismo~
Se estivermos usando a decisão da maioria para definir como alocar os re-
cursos, deparamo-nos com um problema intransponível: é impossível
gastar mais com o terrorismo do que com o sistema de saúde, mais com o
sistema de saúde do que com a educação - e mais com a educação do que
com o terrorismo.
Esse exemplo simples ilustra um problema que deixaria perplexos os
cientistas sociais por mais de um século: como é possível traduzir uma co-

240 Como a matemática explica o mundo


leção de votos individuais, composta por uma lista de preferências, em
uma lista de preferências para o grupo como um todo? O paradoxo de Co-
dorcet indica que, se simplesmente examinarmos pares de candidatos e
determinarmos qual de cada par a maioria prefere, encontraremos o pro-
blema de que é impossível manter aquilo que os matemáticos ch amam de
transitividade, ou seja, uma propriedade de relações como: se A é preferi-
do a B, e B preferido a C, então A é preferido a C. Preferências individuais
são transitivas; parece razoável exigir que, para qualquer método que
adotemos a fim de descobrir preferências do grupo, o que descobrirmos
deva ser transitivo também. O paradoxo de Codorcet sublinha a necessi-
dade de determinar precisamente quais propriedades queremos, ao ir de
uma coleção de rankings individuais a um ranking social.

Então, quem venceu mesmo?


Enquanto a civilização ocidental começava sua marcha gradual em dire-
ção à democracia, foram sugeridos diferentes métodos de traduzir ran-
kings individuais em sociais. Cedo, tornou-se evidente que o resultado das
eleições poderia depender de que método de votação era adotado.
Numerosos métodos já foram usados para determinar o vencedor
de uma eleição em que a votação d e ordem de lista é usada. Alguns mé-
todos que têm sido utilizados com freqüência para determinar um ven-
cedor são:

1. Maior número de votos para o primeiro lugar. O candidato vencedor


é aquele mais mencionado no topo da lista. Este método, que já foi
chamado "o vencedor leva tudo", é usado na Inglaterra para eleger
os m embros do Parlamento, e é comum nos Estados Unidos tam-
bém, em todos os níveis.
2. Segundo turno entre os dois mais votados para o primeiro lugar. Os
candidatos que conseguem o primeiro ou o segundo lugares no nú-
mero de votos para primeiro lugar são comparados "cabeça a cabe-
ça", e o vencedor é aquele preferido por uma maioria de eleitores.
Se os eleitores submetem listas de preferência nos votos, esse mé-
todo dispensa a realização de uma segunda eleição eque é costu-
m eiramente realizada no mundo real, e resulta em novos custos

Falhas na fundação 241


monetários tanto para os candidatos quanto para o governo) , já
que é fácil calcular qual de dois candidatos é preferido por uma
maioria de eleitores. Não obstante, segundos turnos entre os dois
primeiros são usados nas eleições para as prefeituras de muitas
grandes cidades nos Estados Unidos, incluindo Nova York, Chica-
go e Filadélfia.
3. Survivor (o nome do popular programa de televisão). O candidato
que recebe o menor número de votos para o primeiro lugar é eli-
minado da ilha. Aquele candidato é removido das considerações e
riscado dos votos existentes, que, então, são reexaminados. O pro-
cesso inteiro é repetido, até que apenas dois permaneçam. O ven-
cedor dessa competição de duas pessoas é aquele preferido pela
maioria. O fato de que é possível evitar segundos turnos com esse
método fez com que fosse chamado Instant RunnoffVoting (IRV)
- Segundo Turno Instantâneo. Esse método é usado pela Austrália
em suas eleições nacionais, e foi adotado em Oakland, na Califór-
nia, em 2006.
4. Total numérico. Cada eleitor lista suas preferências numa votação e,
a cada posição, é atribuído um valor em pontos: por exemplo, um
voto de primeiro lugar poderia dar 5 pontos a um candidato, um
voto para segundo lugar, 4 pontos, e assim por diante. O vencedor é
o candidato que recebe o maior total de pontos. Esse método foi su-
gerido pelo matemático do século XV Nicolau de Cusa, para a elei-
ção dos Sacros Imperadores Romanos, 5 mas, hoje em dia, é usado
apenas para as eleições principais em uns poucos países pequenos.
Porém, é amplamente usado em eleições não-políticas. Os jogado-
res mais valiosos das American e N ational League de beisebol são
escolhidos dessa maneira.
5. Comparações um a um. Cada candidato é comparado "cabeça a
cabeça" com cada outro candidato. O candidato com o maior nú-
m ero d e vitórias "mano a mano" é o vencedor. Uma grande vanta-
gem desse m étodo, como veremos adiante, é que ele evita o para-
doxo de Codorcet. Contudo, esse m étodo freqüentem ente não
dará um vencedor claro: se dois candidatos empatarem em um
primeiro uso desse m étodo, o vencedor será determinado p elo
resultado da comparação "mano a mano" entre esses dois candi-

242 Como a matemática explica o mundo


datas. O uso mais comum desse método é nos campeonatos ao
estilo "Todos contra todos", que freqüentemente ocorre nos es-
portes ou em jogos como o xadrez.

Cada um desses métodos tem seus defensores, e cada um já foi usado


em muitas eleições. Mas a eleição hipotética mostrada na tabela nos dá
uma idéia de quanto pode ser difícil encontrar um bom método de selecio-
nar um vencedor, a partir de uma coleção de listas de preferências. Cinco
candidatos -A, B, C, D, e E - estão concorrendo a um cargo. Houve 55
votos, mas apenas seis rankings de preferência diferentes apareceram.
Aqui estão os resultados: 6

Número de Primeira Segunda Terceira Quarta Quinta


Votos Escolha Escolha Escolha Escolha Escolha

18 A D E e B

12 B E D e A
10 e B E D A
9 D e E B A
4 E B D e A
2 E e D B A

Confesso que, de fato, essa tabulação se parece com o que você vê


quando visita seu oftalmologista, mas vamos conferir os resultados de
cada método de votação .

1. Maior número de votos para primeiro lugar. A é claramente o ven-


cedor.
2. Segundo turno entre os dois mais votados para o primeiro lugar. A e B
são os dois candidatos na comparação, já que têm 18 e 12 votos
para o primeiro lugar, respectivamente. A é preferido a B somente
pelos 18 eleitores que o puseram na primeira posição; B é preferi-
do a A pelos outros 37 eleitores, então B é o vencedor.
3. Survivor. Este requer um pouco de trabalho para se determinar o
vencedor. "E" recebe o menor número de votos para o primeiro
lugar na primeira rodada e, portanto, é eliminado. A tabela agora
fica assim:

Falhas na fundação 243


Número Primeira Segunda Terceira Quarta
de Votos Escolha Escolha Escolha Escolha

18 A D e B
12 B D e A
10 e B D A
9 D e B A
4 B D e A
2 e D B A

É o fim de jogo para D, que recebeu somente 9 votos para primeiro


lugar. A tabela agora se reduz a isto:

Número Primeira Segunda Terceira


de Votos Escolha Escolha Escolha

18 A e B
12 B e A
10 e B A
9 e B A
4 B e A
2 e B A

Pelo menos, a tabela está ficando mais fácil de ler. B recebe apenas
16 votos para primeiro lugar, deixando A e C numa competição de
duas pessoas. A eliminação de B nos deixa com o seguinte:

Número Primeira Segunda


de Votos Escolha Escolha

18 A e
12 e A
10 e A
9 e A
4 e A
2 e A

244 Como a matemática explica o mundo


Então, C sobrevive por uma votação de 37 a 18.
4. Total numérico. Presumiremos que a regra aqui é 5 pontos para um
voto para primeiro lugar, 4 pontos para um voto para segundo lu-
gar, e assim por diante. Você não precisa gastar o tempo indo bus-
car uma calculadora. Vou fazer a conta para você. O resultado é
que D vence a competição, com 191 = 5 x 9 + 4 x 18 + 3 x (12 + 4
+ 2) + 2 x 10 pontos.
5. Comparações um a um . Você provavelmente já sabe o que vai
acontecer. "E" vence todas as comparações um a um. Ele vence A
por 37 a 18, B por 33 a 22, C por 36 a 19, e D por 28 a 27.

Cada um desses métodos tem seus riscos, e o exemplo anterior ajuda a


ilustrar quais são eles. Se adotarmos o maior número de votos para primeiro
lugar a fim de determinar o vencedor, poderemos acabar escolhendo al-
guém que é preferido por uma pequena minoria e detestado pela maioria.
Se usarmos o método da comparação entre os dois mais votados, é possí-
vel para alguém que tem uma quase incontestável maioria de votos para o
primeiro lugar perder para alguém com um número insignificante de vo-
tos para o primeiro lugar. O método "Survivor" pode resultar em um ven-
cedor que é claramente preferido em relação a apenas um dos candidatos,
que acontece de ser o outro candidato restante quando se chega a uma
competição entre dois. O método dos totais numéricos pode gerar resul-
tados distintos, dependendo da pontuação: um sistema de pontuação
7-5-3-2-1 dá mais peso aos votos para primeiro lugar do que um sistema
de votação 5-4-3-2-1 . Finalmente, as comparações um a um podem resul-
tar em um vencedor que o menor número de votantes pensa reunir as
qualidades de um líder.
Esse exemplo foi, é claro, cuidadosamente urdido: D vence o total nu-
mérico por uma pequena margem, e E mal vence D na comparação um a
um . Não obstante, fica evidente que, em uma eleição intensamente
disputada, o resultado depende não só dos votos, mas também do método
usado para determinar o vencedor. Estamos de volta à questão colocada
no início deste capítulo: existe um método melhor de votação para deter-
minar o resultado de uma eleição?
Imagine, por um momento, que se mostre a um especialista em elei-
ções o resultado dessa eleição hipotética, e se pergunte a ele se é possível

Falhas na fundação 245


criar alguma coisa melhor. Após estudar o exemplo, ele talvez observe
que parte da dificuldade foi engendrada pelo fato de que A é um candida-
to que polariza o eleitorado: 18 eleitores preferem A a qualquer outro,
mas os 37 eleitores restantes situam A na última colocação. A coisa óbvia
a fazer seria arquitetar um algoritmo que ajudasse a aliviar o problema de
candidatos polarizadores. Isso certamente pode ser feito , mas, ao fazê-lo,
nosso especialista em eleições sem dúvida perceberia que, não importa
qual algoritmo inventasse, outras situações que seriam consideradas inde-
sejáveis poderiam surgir. De fato, isso foi exatamente o que aconteceu a
Kenneth Arrow, quando ele começou suas investigações.

O teorema da impossibilidade

Kenneth Arrow nasceu em Nova York, em 1921. Sua carreira foi surpreen-
dentemente semelhante à de Condorcet: Arrow, tal como Condorcet, co-
meçou como matemático. Como Condorcet, ele se desviou para a Econo-
mia; e, como Condorcet, isso lhe trouxe fama e fortuna. Como aconteceu
com Condorcet, o trabalho de Arrow serviu de estopirn para uma intensa
investigação do problema sobre o qual ele foi o primeiro a lançar foco. Uma
exceção importante é que, no momento em que escrevo estas linhas,
Arrow está vivo e bem, vivendo confortavelmente em Palo Alto, e ainda
não foi forçado a fugir para salvar a vida por ter ofendido os Jacobinos ou
qualquer outra hierarquia politica. Arrow freqüentou o City College, em
Nova York, onde se formou em Matemática. Ele deu continuidade à sua
educação matemática na Columbia University, obtendo o grau de mestre,
mas se interessou pela Economia ao conhecer Harold Hotelling, 7 economista
e estatístico proeminente, e decidiu se doutorar nessa área. A Segunda Guer-
ra Mundial interrompeu seu caminho, e Arrow serviu como oficial de clima
no Serviço Aéreo do Exército. Lá, Arrow se dedicou à pesquisa, publicando
um artigo sobre o uso ótimo de ventos no planejamento de vôos.
Depois da guerra, Arrow retomou seus estudos para o doutorado, mas
também trabalhou para a RAND Corporation (um dos primeiros thínk
tanks)* em Santa Mônica, Califórnia. Ele se interessou pelo problema de

*Nota do Tradutor: Grupo ou instituição dedicado à pesquisa intensiva e/ou à solução de


problemas .

246 Como a matemática explica o mundo


construir métodos de traduzir Lstas de preferências individuais em listas
de preferências válidos para toda a sociedade. Arrow decidiu que se con-
centraria naqueles métodos de listas sociais que eram transitivos, porque a
transitividade é uma propriedade fácil de expressar matematicamente.
Esse fato permite imediatamente que deduções sejam feitas.
Arrow descreveu seu progresso em direção a seu resultado mais famo-
so, que guardava semelhanças com os esforços de nosso especialista em
eleições hipotético. A princípio, tentou conceber um algoritmo que eli-
minasse algumas das dificuldades encontradas pelos métodos existentes,
mas, depois de ver que cada algoritmo proposto eliminava um problema e
introduzia outro, ele começou a considerar a questão da impossibilidade
de alcançar o resultado desejado.
"Comecei com alguns exemplos. Eu já havia descoberto que esses
exemplos levavam a alguns problemas. A próxima coisa razoável a fazer
era escrever uma condição que eu pudesse anular. Então, construí outro
exemplo, outro método que parecia ir ao encontro daquele problema, e
alguma· outra coisa não parecia certa nele também. Descobri que estava
tendo dificuldades em satisfazer todas essas propriedades que eu pensava
serem desejáveis, e me ocorreu que elas não podiam ser satisfeitas.
Depois de haver formulado três ou quatro condições dessa espécie,
continuei experimentando. E, veja só, não importa o que eu fizesse, não
havia nada que pudesse satisfazer esses axiomas. Então, depois de alguns
dias tentando, comecei a pensar na idéia de que talvez houvesse outro tipo
de teorema aqui, ou seja, o de que não havia método de votação que aten-
desse a todas as condições que eu considerava racionais e razoáveis. Foi
nessa hora que decidi prová-lo. E isso acabou se revelando uma questão de
apenas uns poucos dias de trabalho ."8
Quais eram as condições que Arrow descobriu que não podiam ser si-
multaneamente satisfeitas por nenhum método de votação? A formula-
ção original de Arrow é um pouco técnica; 9 aqui está uma versão ligeira-
mente mais·fraca das condições de Arrow, um pouco mais natural do que
a que aparece em sua dissertação.

1. Nenhum eleitor deve ter poderes ditatoriais. Certamente desejaría-


mos que essa primeira condição estivesse presente numa demo-
cracia. Em outras palavras, quando qualquer indivíduo dá um

Falhas na fu ndação 247


voto, o resto dos eleitores pode sempre votar de tal modo que o
método eleitoral se sobreponha àquela preferência individual.
2. Se todos os eleitores preferem o candidato A ao candidato B, então o
método de votação deve preferir o candidato A ao candidato B. A se-
gunda condição é unanimidade . Essa também parece ser uma con-
dição óbvia e natural para que um método de votação satisfaça: se
todo mundo ama aquilo, a sociedade deveria fazê-lo.
3. A morte de um perdedor não deve alterar o resultado da eleição.
·Numa primeira olhada, essa condição parece quase desnecessária.
Todos aceitamos o fato de que a morte de um vencedor deve ne-
cessariamente alterar o resultado de uma eleição, mas como pode
a morte de um perdedor alterar o resultado de uma eleição? Para
ver como isso pode acontecer, presumiremos que a morte de um
perdedor simplesmente resulte em sua remoção da votação. Supo-
nha uma eleição com a seguinte coleção de votos:

Número Primeira Segunda Terceira


de Votos Escolha Escolha Escolha
40 A e B
35 e B A
25 B A e
Esse é um exemplo muito interessante, como veremos, pois, não im-
porta quem vença, a morte do perdedor "errado" pode alterar o resultado
da eleição.
Suponha que nosso método de votação resulte em A vencendo a elei-
ção. Agora suponha que C morra. Uma vez que seu nome (ou letra) é re-
movido, vemos que 3 5 + 25 = 60 pessoas preferem B a A, então B venceria.
Suponha que, ao contrário disso, nosso método de votação resulte
numa vitória de B, e A morre. Nesse caso, 40 + 35 = 75 pessoas preferem
C a B, então C venceria.
Finalmente, suponha que C vence, e B morre. Nessa situação, 40 + 25
= 65 pessoas preferem A a C, novamente alterando o resultado da eleição.
Não importa qual seja o método de votação adotado para determinar
o vencedor, a morte do perdedor errado muda o resultado da eleição. Isto
é, claramente, muito indesejável.

248 Como a matemática explica o mundo


Essa condição também chama a atenção para outro aspecto do proces-
so eleitoral. É um aforismo político famoso o de que a presença de um ter-
ceiro candidato que não tem chances de ganhar pode ter um efeito signifi-
cativo sobre o resultado de uma eleição, como foi o caso da presença de
Ralph Nader nas eleições presidenciais de 2000. Isso simplesmente é o in-
verso da condição do "perdedor morto" antes mencionada; em vez da saí-
da de um candidato por motivo de morte, um candidato que não pode
vencer (e está destinado a ser um perdedor) entra numa eleição e altera o
resultado. Obviamente, não podemos ter certeza do que teria acontecido
na eleição de 2000 nos Estados Unidos, caso Nader não tivesse sido candi-
dato, mas tem-se a impressão geral de que ele tirou a grande maioria de
seus votos de liberais que teriam votado em Al Gore, e não em Bush. Na-
der recebeu 97 mil votos na Flórida, o estado "pivô" na eleição. Bush, nos
fim das contas, levou o estado por menos de mil votos, então a presença de
Nader provavelmente alterou o resultado da eleição.
O exemplo anterior mostra que nenhum método de votação pode
prevenir que a morte de um perdedor transforme o resultado de uma elei-
ção com três candidatos e cem eleitores. Mas o que aconteceria se houves-
se mais candidatos, ou um número diferente de votantes? O que Arrow
mostrou em seu famoso teorema da impossibilidade - pelo qual lhe foi
conferido o Prêmio Nobel em Ciências Econômicas em 1972-foi que ne-
nhum método de votação transitivo pode atender a todas as três condi-
ções anteriores, sempre que houver pelo menos dois eleitores consideran-
do ao menos três alternativas diferentes.

O estado atual do teorema de Arrow


Certa vez, o célebre biólogo evolucionista Stephen Jay Gould propôs
uma teoria que chamou de "equilíbrio pontuado", 10 na qual a evolução
das espécies pode passar por mudanças drásticas em um curto período de
tempo, e então arrefecer para um período estendido de tranqüilidade.
Embora essa teoria ainda tenha de ser demonstrada, de modo a satisfazer
totalmente os biólogos evolucionistas, ela é suficiente para uma descri-
ção exata do progresso nas Ciências e na Matemática. Isso é precisamen-
te o que aconteceu aqui. O teorema de Arrow, que foi um avanço inega-
velmente significativo, foi seguido por um longo período durante o qual

Falhas na fundação 249


o resultado foi estendido em pequenas porções . Houve importantes de-
senvolvimentos em problemas relacionados, que serão discutidos no
próximo capítulo, mas o teorema de Arrow, em si, ainda é, basicamente,
o estado-da-arte.
Como o teorema de Arrow é um resultado matemático, é interessante
ver como matemáticos trabalham com ele. O ponto inicial mais óbvio é
examinar as cinco hipóteses que surgem em nossa formulação do teorema
de Arrow. São elas: a ordenação em uma lista das seleções de indivíduos e
grupos, a transitividade do algoritmo da seleção de grupo, a ausência de
um ditador, unanimidade e a exigência de que a morte de um perdedor
não altere o resultado da eleição.
Um dos fatos mais intrigantes sobre o teorema de Arrow é que os cin-
co componentes são independentes entre si, mas, juntos, são incompatí-
veis. Uma das primeiras questões que um matemático pergunta ao ver um
teorema interessante é: todas as hipóteses são necessárias para provar ore-
sultado? Já se demonstrou que, se qualquer um dos componentes do teo-
rema de Arrow for removido, os quatro restantes serão compatíveis, no
sentido de que é possível construir métodos de votação que satisfaçam as
quatro condições restantes. 11 Por exemplo, se permitirmos que a socieda-
de tenha um ditador (um eleitor cujo voto é universalmente adotado), as
quatro condições restantes serão automaticamente satisfeitas.
Dado que qualquer seleção individual é transitiva, e o processo de sele-
ção grupal se resume simplesmente a adotar o voto do ditador, o processo
de seleção grupal será transitivo também. A condição da unanimidade tam-
bém será satisfeita; se todos concordaram que o Candidato A era preferível
ao Candidato B, o ditador também preferiu assim, e, já que o voto do dita-
dor é adotado, o processo de seleção grupal prefere o Candidato A ao Can-
didato B. Na prática, a quase unanimidade não é uma ocorrência incomum
nas ditaduras. No Iraque pré-guerra, reportava-se que as escolhas de Sad-
dam Hussein obtinham 99,96% dos votos; recentemente, Bashar al-Assad
foi reeleito presidente da Síria com 97,62% dos votos. Finalmente, a morte
de um perdedor não afetará o res~ltado da eleição, pois a remoção do per-
dedor não afetará a ordem atribuída pelo ditador aos candidatos restantes, e
então a ordem desses outros candidatos pela sociedade também não será
afetada. Então, uma ditadura é um exemplo de um "método de votação"
que satisfaz as outras quatro condições que examinamos.

250 Co mo a matemática explica o mundo


A condição de unanimidade foi submetida a um escrutínio matemáti-
co que tem antecedentes no mundo real. Como já mencionado, em uma
eleição com múltiplas escolhas, há freqüentemente opções às quais um
eleitor é indiferente. Uma modificação na ordenação da lista, a intensida-
de de preferência, já foi discutida anteriormente. Enquanto escrevo este
livro, existem dez candidatos declarados para concorrer à presidência. O
senador John McCain, o ex-governador Mitt Romney e o ex-prefeito
Rudy Giuliani foram os que atraíram a maior parte da atenção. Um eleitor
pode ter decidido como ordenar esses três candidatos, sem manifestar
qualquer preferência ou rejeição especial por nenhum dos outros que não
os três. Algumas variações do teorema de Arrow substituem a condição se
todos os eleitores preferem A a B, o método de votação prefere A a B por algu-
ma coisa, no sentido de se nenhum eleitor prefere B a A, então o método de
votação não preferirá B aA. Esta é, claramente, uma modificação da condi-
ção da unanimidade, para dar espaço à possibilidade de que um eleitor
possa não ver razão alguma para preferir A a B, ou vice-versa, mas a modi-
ficação não seria considerada pela maioria das pessoas como uma mudan-
ça significativa.
Uma maneira de se livrar do dilema apresentado pela transitividade é
simplesmente requerer que o método de votação seja capaz de escolher
entre duas alternativas, e não se preocupar com a transitividade ou não do
método. Reflita mais uma vez sobre a situação que encontramos com o
paradoxo de Condorcet: a maioria prefere A a B e B a C, mas, ainda assim,
prefere C a A. Se os eleitores ficassem ignorantes acerca do resultado da
corrida A versus B e da corrida B versus C, eles não se incomodariam com o
veredicto de que a maioria prefere C a A. A ignorância, nesse caso, signifi-
ca felicidade, pois o assunto do paradoxo de Condorcet nunca surge. O
paradoxo de Condorcet mais provavelmente perturbará cientistas sociais
do que eleitores de fato e, simplesmente ao exigir que o método de vota-
ção seja capaz de escolher entre duas alternativas, o problema da transiti-
vidade é eliminado. O método um contra um certamente consegue isso.
Os dois componentes do teorema de Arrow que são citados com
mais freqüência como a fonte da incompatibilidade das cinco condi-
ções são a ordenação de listas e a condição do perdedor morto. Como
observamos, várias das mais importantes eleições nos Estados Unidos
simplesmente requerem que o eleitor faça uma única escolha, então,

Falhas na fundação 251


na prática, as complicações do teorema de Arrow não surgem (embora,
como será visto no capítulo seguinte, haja outras complicações). Entre-
tanto, as vantagens da ordenação de listas que foram citadas (priorização
e evitar eleições de segundo turno) são suficientemente valiosas para
persuadir cientistas sociais (um grupo mais pragmático do que o dos
matemáticos puros) a continuar estudando métodos de votação por
meio da ordenação por listas.
A condição do perdedor morto é provavelmente aquela que aparece
com mais freqüência em versões do teorema de Arrow- embora o próprio
Arrow sentisse que a condição do perdedor morto fosse, pragmaticamen-
te, o mais dispensável dos cinco componentes. Isso levanta a questão de
como podemos analisar, do ponto de vista matemático, o valor de um mé-
todo de votação - que é um assunto que está sendo atualmente pesquisa-
do. Assim como a primeira lei da Termodinâmica nos compeliu a abando-
nar a busca por energia grátis no universo, e dirigiu nossa busca em direção
à maximização da eficiência, o teorema de Arrow nos força a buscar crité-
rios para avaliar sistemas de votação, já que não pode haver um sistema de
votação perfeito.

O futuro do teorema de Arrow

A observação muitas vezes citada de Niels Bohr "Fazer previsões é difícil-


especialmente para o futuro" 12 é aplicável aos avanços na maior parte dos
esforços científicos. Ainda que seja impossível prever o que vai acontecer,
há três direções possíveis para os resultados futuros que levantariam nos-
sas sobrancelhas - e possivelmente ganhariam Prêmios Nobel se o resulta-
do fosse suficientemente espetacular.
Como já observado, a maioria dos resultados relacionados ao teorema
de Arrow envolve condições muito similares às originalmente estabeleci-
das por Arrow. Encontrar um teorema da impossibilidade com um con-
junto significativamente diferente de condições seria muito interessante,
e é uma direção que, provavelmente, está sendo perseguida neste mo-
mento por cientistas sociais que desejam inscrever seus nomes na Histó-
ria. Contudo, assim como Arrow descobriu que não havia um método de
ordenação para as preferências sociais que satisfizesse todas as cinco con-
dições, no futuro, matemáticos poderão descobrir que tais condições, ou

252 Como a matemática explica o mundo


simples variantes delas, podem ser as únicas que produzem um teorema
de impossibilidade. O resultado de que é impossível achar um teorema da
impossibilidade significativamente diferente pode ser ainda mais impres-
sionante do que o resultado original de Arrow.
Por fim, uma dos meios que os matemáticos sempre usaram para gerar
surpresas é a variedade de ambientes aos quais os resultados são aplicados.
Assim como a teoria da relatividade geral de Einstein provou ser uma apli-
cação inesperada e significativa da Geometria Diferencial, pode haver
aplicações significativas do teorema de Arrow (que é, fundamentalmente,
um resultado de Matemática Pura) em áreas bem diferentes do cenário da
preferência social para o qual foi originalmente formulado.
Não posso resistir à oportunidade de inserir uma idéia que me ocorreu
(e provavelmente a outros). Uma das conseqüências da teoria da relativi-
dade especial é que não existe "tempo absoluto"; um observador pode ver
um evento A como precedendo o evento B, mas outro observador pode
ver o evento B como precedendo o evento A. Para cada observador, a or-
denação temporal dos eventos é uma ordenação por lista, mas a teoria da
relatividade mostra que não há modo pelo qual a ordem de classificação
dos eventos possa ser incorporada a uma ordenação definitiva de eventos
sobre a qual todos os observadores possam concordar. Soa familiar? Para
mim, parece muito com o teorema de Arrow.

Isso me faz lembrar um problema no qual tenho trabalhado

Toda vez que um resultado aparece na Matemática, especialmente um re-


sultado inovador como o teorema de Arrow, matemáticos o examinam
para ver se há qualquer coisa nele que possam usar. Possivelmente, a con-
clusão do teorema fornecerá o passo vital faltante para uma prova, ou pos-
sivelmente a técnica de prova poderá ser adaptada para servir às suas ne-
cessidades particulares. Uma terceira possibilidade é um pouco mais indi-
reta: alguma coisa no teorema soará familiar. Não é exatamente o mesmo
problema que hoje os confunde, mas há similaridades suficientes para fa-
zê-los pensar que, com um pouco de ajuste, o teorema é algo que podem
usar, de uma maneira ou de outra, nas próprias pesquisas. E foi um peque-
no ajuste do teorema de Arrow que levou os pesquisadores diretamente
aos quartos dos fundos enfumaçados da política.

Falhas na fundação 253


NOTAS
1. Veja http://www.hoover.org/multimedia/uk/2933921.html.
2. Veja http://www.cs.unc.edu/-livingst/Banzhaf/.
3. Veja http://lorrie .cranor.org/pubs/diss/node4 .html.
4. Veja http://www.cooperativeindividualism.org/condorcetbio.html.
5. Veja http://en.wikipedia.org/wiki/Nicholas_of_Cusa.
6. CO MAP, For All Practical Pwposes (N ew York: COMAP, 1988) . Os exemplos usa-
dos neste capítulo se baseiam no maravilhoso livro-texto For All Practical Purposes.
Se você comprar um livro para continuar investigando alguns dos tópicos deste li-
vro, assim como outros que você pode considerar interessantes, eu recomendaria
esse. Foi originalmente construído por uma associação de professores de cursos,
com a intenção de criar um livro que habilitasse os estudantes com um background
mínimo de Matemática a aprender algumas partes dessa disciplina que se relacio-
nam com o mundo moderno. O objetivo é alcançado admiravelmente. Edições
mais antigas desse livro podem ser compradas no e-Bay por menos de US$10.
7. Hotelling é o autor da regra de Hotelling da Economia, que diz que, quando existe
um m ercado competitivo para um bem, o preço desse produto aumentará aproxi-
madamente na mesma medida que a taxa de juros. Parece razoável, mas meu banco
paga cerca de 4%, e o preço na bomba de gasolina está subindo com muito mais ra-
pidez. Uma boa discussão a esse respeito pode ser encontrada em http://www.
env-econ.net/2005/07 /oil_prices_hote.html.
8. (Os autores e a edição são os mesmos.) Esse é o livro referido na nota 6; há várias
edições, e essa é a original.
9. K. J. Arrow, "A Difficulty in the Concept of Social W elfare", Journal ofPolitical Eco-
nomy 58(4) (agosto, 1950): pp. 328-46.
10. Veja http ://en.wikipedia.org/wiki/Punctuated_equilibrium.
11. Veja http://www.csus.edu/indiv/p/pynetf/Arrow_and_Democratic_Fractice.pdf.
12. Veja http://en.wikipedia.org/wiki/Niels_Bohr.

254 Como a matemática explica o mundo


A arte do possível
Otto von Bismarck, o chanceler alemão, pode ser famoso por sua atitude
guerreira na unificação da Alemanha, mas foi um político astuto - e citá-
vel - em todos os aspectos. "Leis são como salsichas: é melhor não vê-las
sendo feitas", ele certa vez aconselhou. Não é surpresa, portanto, que ele
considerasse a política a "arte do possível". 1 Durante uma longa carreira,
que viu tanto vitórias militares quanto triunfos políticos (Bismarck foi a
cabeça por trás da unificação da Alemanha), ele, sem dúvida, testemu-
nhou e participou de muitas negociações secretas. Bismarck provavel-
mente conheceu muito bem o cenário que se segue.
Um comitê ao qual você pertence tem de eleger um presidente, e você
e seus companheiros decidiram usar um arranjo de segundo turno instan-

*Nota do Revisor Técnico: No original smace-filled rooms, gíria da política americana que
sugere que as importantes decisões políticas seriam tomadas por pequenos grupos de pes-
soas, em salas enfumaçadas, desconsiderando a opinião pública.

Salas enfumaçadas 255


tâneo para fazê-lo . Quatro candidatos estão concorrendo à posição. Se
qualquer candidato recebe uma maioria de votos para o primeiro lugar,
ele é o eleito; caso contrário, há um segundo turno entre os dois candida-
tos que receberam o maior número de votos para o primeiro lugar. Você
encabeça uma facção composta de quatro pessoas, e há duas outras fac-
ções compostas de cinco e duas pessoas, respectivamente . Dos quatro
candidatos à cadeira de presidente, sua facção apóia inteiramente o candi-
dato A , se conformaria com B e odeia e sente repulsa por D.
Todos em sua facção votam de forma idêntica: a primeira escolha é A,
seguido por B, C e o detestável D. As outras duas facções já deram seus vo-
tos da seguinte forma.

Número Primeiro Segundo Terceiro Quarto


de Votos Lugar Lugar Lugar Lugar
5 D e B A
2 B D A e

Abatido, você percebe que, se vocês submeterem seus quatro votos,


os resultados ficarão assim:

Número Primeiro Segundo Terceiro Quarto


de Votos Lugar Lugar Lugar Lugar
5 D e B A
2 B D A e
4 A B e D

Acontecerá um segundo turno entre A e D, que D vencerá, por 7 a 4.


lntoleráveP De repente, ocorre-lhe uma idéia brilhante, e você encontra
um pequeno quarto, enfumaçado como manda o figurino, no qual reali-
zar uma convenção eleitoral. Você argumenta com os outros membros de
sua facção que, se estiverem dispostos a trocar A por Bem seus votos, B re-
ceberá seis votos para primeiro lugar (uma maioria) e vencerá a eleição .
Nenhum voto que submetam capacitará A a vencer, mas, ao trocar A por
B, podem assegurar um resultado aceitável e garantir que D não vença.
Essa técnica também funciona em situações mais sutis. Suponha ago-
ra que os outros sete votos estejam tabulados como a seguir:

256 Como a matemática explica o mundo


Número Primeiro Segundo Terceiro Quarto
de Votos Lugar Lugar Lugar Lugar
5 D e B A
2 e B D A

Se a sua facção votar como planejava originalmente, a tabulação será a


seguinte:
Número Primeiro Segundo Terceiro Quarto
de Votos Lugar Lugar Lugar Lugar
5 D e B A
2 e B D A
4 A B e D

Nesse caso, nenhum candidato tem maioria, e agora haverá um segun-


do turno entre A e D, como antes, vencido por D. Porém, se sua facção
trocar os votos de A e B, a tabulação muda.
Número Primeiro Segundo Terceiro Quarto
de Votos Lugar Lugar Lugar Lugar
5 D e B A
2 e B D A
4 B A e D

Isso força um segundo turno entre B e D, que, felizmente, B vence por 6


a 5.
Aqui está a produção da salsicha. Essa tática, que já ocorreu incontá-
veis vezes na história das eleições, é conhecida como voto insincero.
Embora sua facção prefira A, se conformaria com B e a possibilidade de
uma vitória de D é aterrorizante o suficiente para que se recuse a votar
pela preferência verdadeira, de modo a evitar esse resultado.
Esse exemplo também ilustra duas condições que são necessárias para
que o voto insincero seja efetivo: o método de decisão tem de ser conheci-
do previamente (nesse caso, segundo turno entre os dois primeiros), e os
votos dos outros precisam ser conhecidos para que uma estratégia possa
ser armada com precisão. No exemplo que estudamos, se os votos das ou-
tras facções forem desconhecidos, você poderia inadvertidamente sabotar
os próprios desejos, ao trocar seus votos para primeiro lugar de A para B.

Salas enfumaçadas 257


O único motivo para votar contra suas preferências é se você sabe que
pode ganhar alguma coisa ao agir assim.
Lembre-se de que, quando Arrow deu início às suas investigações, ele
estava à procura de um sistema de transferência das preferências dos indi-
víduos para as preferências da sociedade, e ele tentou achar um que aten-
desse ao mesmo tempo a vários atributos aparentemente desejáveis.
Embora Bismarck provavelmente balançasse a cabeça, aprovando a ob-
tenção do possível nesse exemplo anterior, é evidente que o resultado al-
cançado adveio do conhecimento dos votos já computados. De modo in-
tuitivo, parece óbvio que o conhecimento dos votos que já foram apura-
dos coloca aqueles que votam por último numa posição mais favorável do
que a daqueles que votam primeiro. Isso certamente parece adicionar um
elemento de manobra por uma posição em uma eleição, assim como de
violação da idéia "uma cabeça, um voto", que é essencial às eleições demo-
cráticas: os votos dos que votam depois têm maior valor que o daqueles
que votam antes. Então surge a questão: será que existe um método devo-
tação que elimina a possibilidade do voto insincero?

O teorema de Gibbard-Satterthwaite
Assim como a busca pelo sistema perfeito de traduzir preferências indivi-
duais em preferências da sociedade, a busca por um método de votação
que elimine a possibilidade do voto insincero termina em fracasso (depois
de tudo o que vimos, isso provavelmente não provoca surpresa). O teore-
ma de Gibbard-Satterthwaite2 declara que qualquer método de votação
deve satisfazer pelo menos uma de três condições. A formulação a seguir é
levemente diferente daquela do teorema de Arrow, que foi proposta
como "Não há método de votação que satisfaça ... "; é um pouco mais fácil
formular a última condição do teorema de Gibbard-Satterthwaite se a for-
mularmos como "Qualquer método de votação deve satisfazer uma das
seguintes condições". Como resultado, algumas condições parecem ser
negações de condições similares presentes no teorema de Arrow.

1. Algum eleitor possui poder ditatorial. Isso é uma negação de uma


das condições do teorema de Arrow.
2. Algum candidato é inelegível. O teorema de Gibbard-Satterthwai-
te não especifica por que o candidato é inelegível. Talvez por ele

258 Como a matemática explica o mundo


ser extremamente impopular, ou por estar concorrendo a um car-
go para o qual não é elegível. Ou, como já ocorreu na política ame-
ricana, ele talvez esteja morto.
3 . Algum eleitor com conhecimento pleno de como os outros eleito-
res votarão pode alterar o resultado ao trocar seu voto para assegu-
rar a eleição de um candidato diferente.

A última condição é, evidentemente, a crítica, já que é a essência do


voto insincero.
Há dois pontos importantes a serem observados sobre o teorema de Gib-
bard-Satterthwaite. Primeiro, é muito mais provável que o voto insincero in-
fluencie o resultado de uma eleição se o número de votos for relativamente
pequeno, já que, obviamente, é improvável que um eleitor votando para se-
nador na Califórnia (ou mesmo em Wyoming) possa influenciar o resultado
de uma eleição ao mudar seu voto. Entretanto, existem muitas eleições em
que existe um número relativamente pequeno de votos - diretorias de comi-
tês e convenções para nomear candidatos são dois bons exemplos - e, quando
se considera a possibilidade de eleitores individuais se reunindo em um blo-
co, o alcance do teorema se ampha de maneira significativa.
Além do mais, é altamente improvável que qualquer eleitor da Cahfór-
nia tivesse conhecimento de como os outros eleitores votariam; mas, nova-
mente, em eleições pequenas, como para a diretoria de conselhos ou conven-
ções para a nomeação de candidatos, não é de modo algum improvável que
haja eleitores de posse de tal conhecimento. As votações no Senado dos Esta-
dos Unidos também parecem sujeitas ao voto insincero; há um período de
tempo estabelecido para um tanto de votos, e a tabulação é exibida aberta-
mente. Como resultado disso, mesmo que o teorema de Gibbard-Sattert-
hwaite seja bem menos amplamente conhecido do que o celebrado resultado
de Arrow, ainda assim, não só é uma contribuição significativa para as Ciên-
cias Sociais, como também possui ramificações importantes no mundo real.

Representação justa
Em uma democracia ideal, todos que desejarem participar do processo
decisório podem fazê-lo por meio do voto. Porém, os Pais Fundadores re-
conheceram que a maioria das pessoas estava ocupada demais com sua

Salas enfumaçadas 259


vida - com coisas essenciais como agricultura, comércio ou manufatura -
para serem participantes constantes, e optaram por uma República, e não
por uma democracia. Em uma República, os eleitores elegem seus repre-
sentantes, que são encarregados das decisões.
Infelizmente, sob um sistema republicano, é impossível que todas as
parcelas sejam representadas com justiça. Um simples exemplo disso
pode ser algum corpo político com cinco subgrupos diferentes, mas ape-
nas três posições de liderança. Pelo menos dois desses subgrupos devem
necessariamente ser excluídos da liderança.
A República americana tem um problema semelhante. A eleição para
cada uma das Câmaras do Congresso é feita no sistema de estado-por-
estado. O Senado tem dois membros de cada estado, então, naquela Câ-
mara, cada estado tem uma parcela igual de posições de liderança. A en-
trada na Câmara dos Representantes é um pouco mais complicada. A Câ-
mara tem um número fixo de representantes (435); a alocação dos repre-
sentantes para cada estado é feita com base no censo populacional, que é
realizado a cada dez anos. Não parece um trabalho tão difícil determinar
quantos representantes cada estado deveria ter: se um estado tem 8% da
população total, deveria receber 8% dos representantes. Uma conta rápi-
da mostra que 8% de 435 é 34,8, então a questão é arredondar aqueles 0,8
de representantes para 34 ou 35.
A maioria dos estudantes do ensino fundamental aprende o seguinte
algoritmo para o arredondamento de números para números inteiros: ar-
redonde para o inteiro mais próximo, a menos que o número a ser arre-
dondado esteja a meio caminho entre dois inteiros (como, por exemplo,
11,5), e então arredonde para o número inteiro par mais próximo. Usan-
do esse algoritmo, 34,8 é arredondado para 35, enquanto 34,5 seria arre-
dondado para 34. Esse é um algoritmo bastante razoável em arredonda-
mentos para fins de cálculos, mas encontra um problema na hora de arre-
dondar para uma representação na Câmara dos Representantes.
Suponhamos que os Estados Unidos fossem compostos pelas 13 co-
lônias originais. Doze dessas colônias têm, cada uma, 8% da população; a
colônia restante possui apenas 4% da população. De acordo com o cálcu-
lo anterior, cada uma das 12 Grandes tem direito a 34,8 representantes,
o que é arredondado pelo algoritmo do ensino fundamental para 35 re-
presentantes. A colônia pequena fica com somente 17,4 representantes,

260 Como a matemática expl ica o mundo


o que é arredondado para 1 7. Esse procedimento designa um total de 12
x 35 + 17 = 437 representantes para uma Câmara que só tem espaço
para 435.
Esse pode parecer um problema menor de arranjo de números, mas a
eleição presidencial de 1876 foi decidida pelo método de arranjar esses
números~ 3 Naquele ano, Rutherford B. Hayes venceu a eleição por 185
votos eleitorais a 184 para seu oponente, Samuel Tilden (que, incidental-
mente, venceu no voto popular por uma margem não-desprezível). Se o
método de arredondamento fosse outro, um estado que apoiasse Hayes
teria recebido um voto eleitoral a menos, enquanto um estado que apoias-
se Tilden teria recebido um a mais. Essa diferença teria virado a eleição.

O paradoxo do Alabama4
Os Pais Fundadores reconheceram a importância de determinar o núme-
ro de votos eleitorais que cada estado deveria receber; de fato , o primeiro
veto presidencial jamais registrado ocorreu quando George Washington
votou contra um método de distribuição recomendado por Alexander
Hamilton. (O Congresso respondeu passando uma medida que determi-
nava a utilização de um método de arredondamento proposto por Tho-
mas Jefferson.) Porém, quando a disputada da eleição de 1876 Oocorreu,
o método de Hamilton, também conhecido como o método das frações
maiores, era o que estava em vigor, tendo sido adotado em 1852.
Para ilustrar o método de Hamilton, começamos supondo que iremos
designar representantes para um país que se divide em quatro estados,
para um corpo representativo que tem 3 7 membros. A tabela seguinte dá
a porcentagem da população que reside em cada um dos quatro estados, e
também a cota para cada estado, que é o número exato de representantes
ao qual o estado proporcionalmente tem direito.

Estado Porção da População Cota (37 x Fração)


A .14 5,18
B .23 8,51
e .45 16,65
D .18 6,66

Salas enfumaçadas 261


Cada cota é um número misto: um inteiro mais uma parte fracio -
nária - a parte fracionária sendo expressa em decimais. A cada estado
inicialmente é designada a parte inteira de sua cota, como indicado pela
seguinte tabela:

Estado Cota Primeira Designação Fração Restante


A 5,18 5 0,18
B 8,51 8 0,51
e 16,65 16 0,65
D 6,66 6 0,66

A designação total inicial de representantes é 5 + 8 + 16 + 6 = 3 5, que


corresponde a 2 representantes a menos do que o total desejado de 37.
Esses dois representantes são designados para os estados de acordo com a
ordem decrescente da fração restante. D apresenta a maior fração restante
(0,66), e então fica com o primeiro dos dois representantes que faltaram.
C tem a segunda maior fração restante (0,65), e é premiado com o segun-
do representante. A e B ficam, nesse processo, desprovidos. A contagem
final é mostrada na seguinte tabela:

Porcentagem Número de
Estado da população representantes
A 0,14 5
B 0,23 8
e 0,45 17
D 0,1 8 7

Em 1880, C. W . Seaton, o secretário-chefe do Órgão Censeador dos


Estados Unidos, descobriu uma curiosa anomalia no método Hamilton.
Ele decidiu calcular o número de representantes que cada estado recebe-
ria se a Câmara tivesse entre 275 e 350 assentos. Ao agir assim, ele desco-
briu que o Alabama teria recebido 8 representantes se a Câmara tivesse
299 representantes, mas, se o tamanho da Câmara aumentasse para 300,
o Alabama receberia somente sete representantes! Por isso, o paradoxo
do Alabama.

262 Como a matemática explica o mundo


299 REPRESENTANTES

Cotas Distri-
Cota Arredon- buição Classifi-
Estado 1880 Pop. %Pop. Padrão dadas Final cação
Kentucky 1648690 3,34 9,99 9 10 0,98
Indiana 197830I 4,0 1 11,98 II 12 0,98
Wisconsin 13I5497 2,66 7,97 7 8 0,97
Pennsylvania 428289 I 8,67 25,94 25 26 0,94
Maine 648936 1,3 1 3,93 3 4 0,93
Michigan I63693 7 3,32 9,91 9 10 0,91
Delaware 146608 0,30 0,89 o I 0,89
Arkansas 802525 I,63 4,86 4 5 0,86
Mississippi 1131597 2,29 6,85 6 7 0,85
New Jersey ll3lll6 2,29 6,85 6 7 0,85
Iowa I6246I5 3,29 9,84 9 10 0,84
Massachusetts I783085 3,61 10,80 10 11 0,80
Nova York 508287I 10,30 30,78 30 31 0,78
Connecticut 622700 1,26 3,77 3 4 0,77
W est Virgínia 618457 1,25 3,75 3 4 0,75
Nebraska 452402 0,92 2,74 2 3 0,74
Minnesota 780773 1,58 4,73 4 5 0,73
Louisiana 939946 1,90 5,69 5 6 0,69
Rhode Island 276531 0,56 1,68 2 0,68
Maryland 934943 I ,89 5,66 5 6 0,66
Alabama I262505 2,56 7,65 7 8 0,65

300 REPRESENTANTES
Cotas
Cota Arredon- Distribui-
Estado 1880 Pop. %Pop. Padrão dadas ção Final Diferença
Wisconsin I31 5497 2,66 7,99 7 8 0,99
Michigan 1636937 3,32 9,9S 9 10 0,95
Maine 648936 1,31 3,94 3 4 0,94
Delaware 146608 0,30 0,89 o l 0,89
Nova York 5082871 10,30 30,89 30 31 0,89

Salas enfumaçadas 263


Mississippi 1131597 2,29 6,88 6 7 0,88
Arkansas 80252S 1,63 4,88 4 s 0,88
New Jersey 1131l16 2,29 6,87 6 7 0,87
Iowa 1624615 3,29 9,87 9 10 0,87
Massachusetts 1783085 3,61 10,84 10 11 0,84
Connecticut 622700 1,26 3,78 3 4 0,78
W est Virginia 618457 1,25 3,76 3 4 0,76
Nebraska 452402 0,92 2,75 2 3 0,75
Minnesota 780773 1,58 4,74 4 5 0,74
Louisiana 939946 1,90 5,7 1 5 6 0,7 1
lllinois 3077871 6,23 18,70 18 19 0,70
Maryland 934943 1,89 5,68 5 6 0,68
Rhode Island 276531 0,56 1,68 2 0,68
Texas 1591749 3,22 9,67 9 10 0,67
Alabama 1262505 2,56 7,67 7 7 0,67

Essas Tabelas são apenas metades de duas, e Seaton compôs 75 delas.


É impossível deixar de se maravilhar diante da tenacidade de Seaton; na-
queles dias, para processar os números, você realmente tinha de fazê-lo
sem qualquer assistência tecnológica, embora seja bem possível que Sea-
ton tenha contado com a ajuda dos outros membros do Órgão Censeador
dos Estados Unidos para esse cálculo. Não só isso, mas também não há
como não sentir pena de Seaton, que estaria muito mais bem servido caso
fosse um matemático ou um cientista social. Uma grande descoberta
como essa deveria ser nomeada "paradoxo de Seaton", mas isso não acon-
teceu. Pelo menos, ele teve o privilégio de sentir a emoção da descoberta.
O paradoxo também pode ser visto neste exemplo:
Tamanho da Câmara Tamanho da Câmara

Fração da Número de Número de


Estado População Cota Representantes Cota Representantes
A 56,7 183,14 183 183,81 184
B 38,5 124,36 124 124, 74 125
e 4,2 13,57 14 13,6 1 13
D 0,6 1,93 2 1,94 2

264 Como a matemática explica o mundo


O paradoxo da população
Outros defeitos apareceriam no método de Hamilton. Em 1900, a Virgí-
nia perdeu um assento para o Maine na Câmara dos Representantes, ape-
sar do fato de a população da Virgínia estar crescendo mais rápido que a
do Maine.
Aqui vai um exemplo simples. Suponha que um estado tenha três dis-
tritos, o corpo representativo do estado, 25 membros, e os representantes
sejam alocados aos distritos pelo método de Hamilton.

População Fração Número de


Distrito (em milhares) do Estado Cota Representantes

A 42 10.219 2,55 3
B 81 19.708 4,93 5
e 288 70.073 17,52 17

Da vez seguinte em que o censo é feito, a população do Distrito A au-


mentou em 1.000 pessoas, a do Distrito C, em 6 .000, enquanto a popula-
ção do Distrito B permaneceu a mesma. A tabela agora fica :

População Fração do Número de


Distrito (em milhares) Estado Cota Representantes

A 43 10.2871 2,57 2
B 81 19.378 4,84 5
e 294 70.3349 17,60 18

A população do Distrito A cresceu 2,38%, enquanto a população do


Distrito C cresceu 2,08%. O Distrito A está crescendo com mais velocida-
de do que o Distrito C, mas perdeu um representante. Certamente parece
mais justo que, se o Distrito C tiver de ganhar um representante, deveria
fazê-lo à custa do Distrito B, que não cresceu nada, e, na verdade, poderia
mesmo estar encolhendo e, ainda assim, receberia o mesmo número de
assentos, de acordo com o método de Hamilton.

Salas enfumaçadas 265


O paradoxo dos novos estados
O método de Hamilton falhou uma última vez em 1907, quando Oklaho-
ma se juntou à União. Antes da entrada de Oklahoma na União, a Câmara
dos Representantes tinha 386 cadeiras. Numa base proporcional, Okla-
homa tinha direito a 5 cadeiras, então a Câmara foi expandida para conter
386 + 5 =391 representantes. Entretanto, quando as cadeiras foram recal-
culadas, descobriu-se que o Maine ganhara um assento (de 3 para 4), e
Nova York perdido um (de 38 para 37) .5
No exemplo seguinte, estão sofrendo de problemas semelhantes, em
que uma câmara de representantes tem 29 assentos.
População Número de
Distrito (em milhares) Cota Representantes
A 61 3,60 3
B 70 4,13 4
e 265 15,65 16
D 95 5,61 6

Agora, suponha que um novo distrito, com uma população de 39 .000


seja adicionado. Numa câmara com 29 cadeiras, sua cota é 2,30, então
tem direito a dois assentos, e uma nova câmara é constituída com 31 cadei-
ras. Aqui está a tabela resultante:

População Número de
Distrito (em milhares) Cota Representantes
A 61 3,57 4
B 70 4,09 4
e 265 15,5 15
D 95 5,56 6
E 39 2,28 2

O Distrito A ganhou uma cadeira à custa do Distrito C.


Talvez o método de Hamilton pudesse ter sobrevivido a dois dos três
paradoxos discutidos aqui, mas essa trifeta o matou. O método atualmen-
te utilizado, o de Huntington-Hill, adotado em 1941, é um método de ar-
redondamento que, aritmeticamente, revela-se um pouco mais complexo

266 Como a matemática explica o mundo


do que o método de Hamilton. Porém, como seria de suspeitar, ele tam-
bém é presa de paradoxos. Dois economistas matemáticos, Michel Balins-
ki e H. Peyton Young, demonstraram mais tarde que isso era inevitável.

O teorema de Balinski-Young

Como vimos, a representação é uma conseqüência do método escolhido


para arredondar as frações. Um método de cota é aquele que arredonda a
cota para um dos dois inteiros mais próximos; por exemplo, se a cota é
18,37, um método de cota arredondará esse número para 18ou19. O teo-
rema de Balinski-Young6 declara que é impossível conceber um método
de cota para representação que seja imune tanto ao paradoxo do Alabama
quanto ao paradoxo da população.
Embora tenhamos introduzido esse problema naquele que é provavel-
mente seu contexto mais importante e controverso - a estrutura da Câmara
dos Representantes e o Colégio Eleitoral-, o problema discutido aqui tem
outras aplicações importantes. Muitas situações requerem que quantidades
sejam divididas em porções discretas. Como exemplo, o departamento de
polícia de uma cidade obteve quarenta novas viaturas; como elas devem ser
distribuídas aos 11 distritos policiais da cidade? Um filantropo legou $100
mil, em testamento, à sua faculdade, para vinte bolsas de estudo de $5 mil
em Artes, Engenharia e Negócios; como as vinte bolsas de estudo devem ser
alocadas entre essas três áreas? O teorema de Balinski-Young nos mostra
que não existe uma maneira justa de fazer isso, se definirmos justiça como
imunidade aos paradoxos do Alabama e das populações.
Talvez devêssemos dizer que não há maneira justa de fazer isso no
curto prazo. O que significa que não há meio de alocar representantes a
estados de modo que, toda vez que um censo for realizado, cada estado
ganhe representantes por meio de um método de cota que não entre em
conflito com os paradoxos do Alabama e das populações. Contudo, há um
método de fazer isso que dará a cada estado uma porção justa a longo pra-
zo. Simplesmente calcule a cota para cada estado e adote um método ran-
domizado de arredondamento para determinar se o número de represen-
tantes alocados para cada estado é a maior ou menor das duas possibilida-
des. Por exemplo, se um estado tem uma cota de 14,37 representantes,
ponha cem bolas numeradas de 1a100 em um jarro, coloque uma venda

Salas enfumaçadas 267


nos olhos do governador do estado, e deixe que ele escolha um número.
Se for de 1 a 3 7, o estado recebe 14 representantes; de outro modo, recebe
15. No longo prazo, cada estado receberá sua cota de representantes.
O problema imediato, porém, é que esse procedimento produz Câ-
maras com números móveis de representantes. Existem cinqüenta esta-
dos; se cada estado for premiado com o número de representantes igual ao
menor de dois inteiros possíveis, haveria somente 385 representantes. Da
m esma forma, poderia haver até 485 representantes. No longo prazo, é
claro, haverá uma média de 435 representantes.

Desenvolvimentos recentes

A pesquisa matemática é muito mais eficiente do que quando entrei nesse


campo, na década de 1960. Naquela época, a instituição na qual você
dava aulas assinava certa quantidade de publicações; e a maioria dos mate-
máticos possuía assinaturas individuais da Notices of the American Mathe-
matical Society, que publicava resumos de artigos publicados, a serem pu-
blicados ou apresentados em conferências. Se você visse algo de seu inte-
resse, pedia ao autor uma pré-impressão, se o artigo não estivesse disponí-
vel. Você lia o artigo, então examinava a bibliografia e encontrava outros
artigos de seu interesse, dos quais podia fazer cópias se estivessem dispo-
níveis na biblioteca, ou as obtinha pedindo pessoalmente ao autor. A cola-
boração era ainda um aspecto-chave da atividade matemática, mas, em
geral, era feita com colegas que você conhecia do próprio local ou pessoas
que encontrava em conferências.
A Internet reformou completamente o modo de se fazer matemática.
A Sociedade Americana de Matemática mantém o MathSciNet,7 um ban-
co de dados com serviço de busca de praticamente todos os artigos publi-
cados nos últimos cinqüenta anos. Se você está interessado em um teore-
ma em particular, como o teorema de Gibbard-Satterthwaite, simples-
mente digita na ferramenta de busca do MathSciNet- assim como eu fiz.
Em resposta, veio uma lista de 61 artigos, o mais recente sendo do ano
desta publicação e o mais antigo de 19 7 5. Se a Math Reviews fez uma si-
nopse do artigo, ele pode ser obtido e lido quase imediatamente.
Esse processo fez a pesquisa matemática com muito mais eficiência -
e de modo frenético. O número de publicações cresceu exponencialmen-

268 Corno a matemática explica o mundo


te. Além disso, a Internet permitiu o contato entre matemáticos de todas
as partes do mundo, que, de outra forma, talvez jamais se viessem a seco-
municar. Recentemente, colaborei com matemáticos da Alemanha, da
Polônia e da Grécia que nunca teria conhecido (excetuando por um en-
contro ocasional em uma conferência) se não fosse pela Internet.
O MathSciNet também revela uma divergência interessante entre o es-
tado de coisas atual em relação aos teoremas de Gibbard-Satterthwaite e
Balinski-Young. O voto insincero é relacionado como o blefe no pôquer; e a
estratégia é um aspecto fundamental na teoria dos jogos, uma área da Eco-
nomia Matemática que já resultou em vários Prêmios Nobel. De particular
interesse no momento, é a pesquisa sobre áreas nas quais a informação pode
ou não ser pública, como, por exemplo, calcular os custos transacionais em
redes de informação. Numa rede desse tipo, o dono de um link é pago pelo
seu uso. Um usuário da rede deseja obter informação, que deve ser transmi-
tida por meio de uma sucessão de links, a um custo mínimo; uma estratégia
óbvia consiste em simplesmente perguntar o custo de cada link. Porém, o
dono de um link pode lucrar mentindo sobre o custo de usá-lo; isto é seme-
lhante ao voto insincero. Uma idéia-chave explorada são os jogos à prova de
estratégias; ou seja, aqueles nos quais não há um incentivo para que um jo-
gador minta ou esconda informações de outros jogadores. É fácil ver como
isso se relaciona com o problema dos votos.
Por outro lado, apenas 22 artigos estão listados no MathSciNet con-
cernentes ao teorema de Balinski-Young, sendo o mais recente de 1990.
O campo está evidentemente adormecido, apesar da existência de uma
falha óbvia nessa área; não consegui achar qualquer trabalho que incorpo-
rasse o paradoxo dos novos estados aos teoremas do tipo Balinski-Young.
Não obstante, devido à importância do Colégio Eleitoral, o método atual
(Huntington-Hill) de selecionar representantes está sendo investigado8
por matemáticos e cientistas políticos, em busca de possíveis métodos
melhores.
Como acontece muitas vezes, quando se demonstra que um resul-
tado ideal é impossível, é importante desenvolver critérios para a avalia-
ção do que pode ser conseguido sob diversas circunstâncias. Um resul-
tado impossível estabelece limitações orçamentárias, e cabe a nós de-
terminar o que deve ser otimizado, e como conseguir isso, sem extra-
polar o orçamento.

Salas enfumaçadas 269


NOTAS
l. Veja http://www.brainyquote.com/quotes/authors/o/otto_von_bismarck.htrnl. Sou um
grande fã de citações, e esse site tem muitas maravilhosas.
2. Allan Gibbard é professor de Filosofia na University of Michigan e Mark Satterth-
waite é professor de gerência estratégica e economia administrativa na Northwes-
tern University. Apesar de ambas as universidades ficarem no meio-oeste, o teore-
ma de Gibbard-Satterthwaite não teve origem numa conversa sobre o voto insince-
ro, em meio a um jantar casual. O resultado original se deve a Gibbard; o aperfeiçoa-
mento, a Satterthwaite, como os seguintes artigos indicam: Allan Gibbard, "Mani-
pulation ofVoting Schemes: A G eneral Result", Econometrica 41 (4) (1973): pp.
587-601; Mark A. Satterthwaite, "Strategy-proofness and Arrow's Conditions:
Existence and Correspondence Theorems for Voting Procedures and Social W elfa-
re Functions", Journal of Economic Theory 10 (abril 1975): pp. 187-217.
3. Veja http://en.wikipedia.org/wiki/United_States_presidential_election,_ 1876. Um
aspecto menor interessante dessa eleição é que havia um terceiro partido pequeno cha-
mado Greenback Party (Partido do Papel-moeda) . Você pode inserir aqui seus comen-
tários cínicos.
4. Veja http://occawlonline.pearsoned.com/bookbind/ pubbooks/pirnot_ awl/ chap-
ter l/custom3/deluxe-content.htrnl #excel. Esse site tem planilhas de Excel que
você pode baixar, tanto sobre o paradoxo do Alabama quanto sobre o método de
Huntington-Hill.
5. Veja http://www.cut-the-knot.org/ctk/Democracy.shtml. Esse site não só tem ex-
plicações de todos os paradoxos, como também belos aplicativos Java que você
pode usar para vê-los em ação.
6. M . L. Balinskie H . P. Young, Fair Representation, 2nded. (Washington, D . C.:Broo-
kings Institution, 2001). Ao contrário dos autores do teorema de Gib-
bard-Satterthwaite, que estavam separados pelo tempo e provavelmente pela dis-
tância, Balinski e Young estiveram juntos na New York University por grande parte
do período em que as idéias relevantes foram formuladas e o teorema de Balinski-
Young, provado.
7. MathSciNet é um banco de dados excelente, mas você ou tem de pertencer a uma
instituição que tenha a assinatura (muitos colegas e universidades, assim como al-
gumas empresas voltadas à pesquisa, são assinantes), ou ter uma boa soma de dinhei-
ro disponível no bolso.
8. Veja http://rangevoting.org/Apportion.htrnl.

270 Como a matemática explica o mundo


O copo meio cheio

Embora a Matemática e a Física nos tenham mostrado que há coisas que


não podemos conhecer e feitos que não podemos realizar, só porque a
utopia é inatingível não significa que a distopia seja inevitável. Nasci num
mundo que acabava de chegar à era eletrônica, numa época em que os va-
lores prezados pelas democracias ocidentais estavam mais ameaçados do
que nunca, de modo que, quando olho para o que o mundo tem hoje a
oferecer, e as ameaças que ele apresenta, parece-me que o copo está mui-
to mais do que meio cheio.
As ciências, juntamente com a linguagem comum da Matemática,
continuarão a investigar o mundo que conhecemos e os mundos que hi-
potetizamos. Juntamente com as futuras descobertas, virão futuros "be-
cos sem saída", que também servirão para nos revelar novos aspectos do
universo . Penso que este livro seria incompleto sem alguma espécie de
sumário do que aprendemos sobre as limitações do conhecimento, mas

At ravés de um vidro escuro 271


também penso que seria incompleto se eu não fizesse uma tentativa de
antever o que o futuro pode nos trazer nessa área. Uma razão adicional
para fazer isso é que é improvável que eu venha a ser lembrado por qual-
quer tipo de sucesso espetacular em meus últimos anos; talvez eu seja
lembrado por um espetacular fracasso, como Comte ou Newcomb fo-
ram. Afinal, vivemos numa sociedade em que fama e infâmia muitas ve-
zes são confundidas.
Além disso, a Matemática é uma área em que uma questão muito
boa pode atingir tanta publicidade quanto sua possível resolução, e
aqueles que a resolvem quase se tornam notas de pé de página históricas
à questão em si mesma. Pierre de Fermat, Bernhard Riemann e Henri
Poincaré estão entres os grandes da Matemática - mas Fermat é quase
certamente mais lembrado pelo último teorema de Fermat, Riemann
pela hipótese de Rienmann e Poincaré pela conjectura de Poincaré. O
último teorema de Fermat caiu há uma década, pelas mãos de Andrew
Wiles, a quem foi negada uma Medalha Fields por seu feito, pelo fato de
ele ser velho demais (as medalhas Fields são reservadas para os que têm
vinte e poucos ou trinta e poucos anos,* e Wiles ficou de fora por causa
de um ano, aproximadamente) . A conjectura de Poincaré sucumbiu
mais recentemente,** e ainda há discussões na comunidade matemática
sobre quem deve ficar com o maior crédito, estando o matemático russo
Grigori Perelman na liderança. A hipótese de Riemann ainda é só isso -
uma hipótese. Além disso, é possível entrar para os anais com uma gran-
de conjectura, mesmo não sendo um grande matemático. A maioria dos
matemáticos estaria em apuros se lhes pedissem para nomear uma única
realização matemática de Christian Goldbach, 1 mas todo mundo conhe-
ce a conjectura de Goldbach - a elegantemente simples "Todo número
par é a soma de dois primos" - uma conjectura que crianças do ensino
fundamental conseguem entender, mas continua não-provada, depois
de mais de um quarto de milênio de esforços.

*Nota do Revisor Técnico: A medalha Fields é concedida a matemáticos com menos de 40


anos.
**Nota do Revisor Técnico: A conjectura de Poincaré foi resolvida recentemente pelo mate-
mático russo Grigori Perelman, a quem foi concedida a medalha Fields de 2006, mas que
ele rejeitou.

272 Como a matemática explica o mundo


O impacto da idade
Há uma idéia de que matemáticos e físicos fazem seus melhores trabalhos
antes dos 30 anos. Isso não é necessariamente verdadeiro, mas é um fato
incontestável que os jovens dão contribuições desproporcionais nesses as-
suntos. Talvez porque os jovens estão menos dispostos a aceitar os para-
digmas geralmente aceitos. Sem sombra de dúvida, a idade confere tanto
desvantagens quanto vantagens.
Algumas vezes, as desvantagens levam os profissionais na direção de
outras áreas. Diz, com alguma razão, que, à medida que os físicos enve-
lhecem, tornam-se filósofos . Eles tendem a prestar menos atenção à des-
coberta de fenômenos da realidade, e a refletir mais sobre a natureza da
realidade. Com a possibilidade de múltiplas dimensões e a natureza da rea-
lidade quântica ainda não-resolvidas, não há dúvida de que há espaço con-
siderável para a reflexão.
Quando eu era jovem, como a maioria dos garotos que cresceram na-
quele tempo, estava tremendamente interessado tanto em esportes quan-
to em jogos - sendo que a diferença é que, em um esporte, você conta os
pontos e sua com os próprios esforços, enquanto num jogo você só conta
os pontos (desculpe-me, Tiger Woods, mas o golfe é um jogo, não um es-
porte). Um de meus interesses era o xadrez; estudei o jogo avidamente e li
histórias sobre ele. Lembro-me de uma história sobre um grande mestre
de xadrez viajando incógnito em um trem, que acabava participando de
um jogo rápido com um jovem fenômeno prestes a se revelar. A certa al-
tura, o grande mestre observa que, à medida que envelhece, a pessoa não
mais move as peças, mas as vê em movimento. 2
Acho que há uma quantidade profunda de verdade e amplitude nessa
observação; acredito que se aplica aos matemáticos tanto quanto aos gran-
des mestres, e certamente penso que se aplica a mim. Não sou mais capaz
de construir provas compridas e complicadas, mas adquiri uma boa quan-
tidade de "faro", que distingue como a prova correta deve ser. Alguns anos
atrás, tive o prazer de trabalhar com Alekos Arvanitakis, um jovem mate-
mático brilhante da Grécia. Nunca conheci Alekos; ele me contatou por-
que obtivera resultados relevantes para um artigo que eu havia escrito, co-
meçamos a trocar e-mails e, por fim, passamos a colaborar. Ele trouxe no-
vos insights e um considerável talento a um campo que eu considerava es-
gotado (no sentido de que nada de realmente interessante restava para ser

Através de um vidro escuro 273


provado). Eu sugeria alguma coisa que meu faro dizia que devia ser verda-
deira e, dentro de uma semana, Alekos me mandava uma prova por
e-mail. Senti-me um pouco culpado por ser co-autor do artigo, perceben-
do que Alekos fizera grande parte do trabalho braçal, mas decidi que eu
pelo menos pressentia no que é que os braços deviam trabalhar. Eu não
podia mais mover as peças tão bem quanto o fazia quando era jovem, mas
podia vê-las em movimento, como se tivessem vontade própria.

Classificando os "becos sem saída"


Dando uma olhada nos capítulos anteriores, parece-me que os problemas e
fenômenos que investigamos se encaixam em algumas categorias distintas.
Desses, os mais antigos são os problemas que somos incapazes de solu-
cionar dentro de uma estrutura particular. Os exemplos clássicos são pro-
blemas como a duplicação do cubo e das raízes da quíntica. Em ambos os
casos, a questão não residia tanto na incapacidade de resolver o problema,
mas sim de resolver o problema usando as ferramentas disponíveis. O jei-
to usual de lidar com tais problemas é inventar novas ferramentas. Foi
exatamente assim que se duplicou o cubo e se encontraram as raízes da
quíntica: usando ferramentas outras que não aquelas disponíveis na Geo-
metria formal euclidiana e encontrando caminhos outros que não as solu-
ções por radicais para expressar certos números.
Proposições indecidiveis poderiam muito bem pertencer a essa catego-
ria. Lembre-se de que o teorema de Goodstein era indecidivel na estrutura
fornecida pelos axiomas de Peano, mas admitia uma solução quando o axio-
ma do infinito da teoria dos conjuntos de Zermelo-Fraenkel era incorpora-
do ao conjunto de axiomas. Isso leva a um questionamento óbvio: será a na-
tureza da indecidibilidade apenas uma questão de escolher os axiomas cor-
retos, ou as ferramentas corretas?
Ou existem proposições genuinamente indecidíveis, que estão fora
do alcance de todo e qualquer conjunto consistente de axiomas?
Uma segunda categoria de problemas insolúveis existe por causa da inca-
pacidade de obter as informações adequadas para resolver o problema. O fra-
casso em obter a informação pode ocorrer porque essa informação simples-
mente não existe (muitos dos fenômenos da Mecânica Quântica se encaixam
nessa categoria), porque é impossível obter informações suficientemente

274 Como a matemática explica o mundo


exatas (isso descreve os fenômenos aleatórios e caóticos), ou porque estamos
diante de uma sobrecarga de informações e simplesmente não podemos ana-
lisá-las de modo eficiente (isso descreve os problemas intratáveis).
Chegamos agora à terceira categoria de problemas que não podemos
resolver: aqueles casos em que estamos pedindo demais. Até hoje, os pro-
blemas mais importantes que encontramos nessa área são aqueles das
Ciências Sociais, envolvendo a busca por sistemas de votação ou sistemas
de representação. Existem inúmeros problemas formais que se encaixam
nessa descrição, como o problema de cobrir o tabuleiro de xadrez com as
duas casas diagonais removidas com ladrilhos 1 por 2, e possivelmente as
técnicas envolvidas na análise de tais problemas serão úteis em situações
mais práticas.
Finalmente, existem as questões que revelam possuir várias respostas
corretas. A independência da hipótese do contínuo e a resolução do dile-
ma proposto pelo postulado das paralelas se encaixam nessa categoria. Pa-
rece razoavelmente seguro prever que haverá outras surpresas à nossa es-
pera; questões para as quais as respostas se encontram fora do reino do
esperado, inclusive a possibilidade da existência de questões cujas respos-
tas dependem da perspectiva do questionador. Por exemplo, a teoria da
relatividade responde à charada sobre o que veio primeiro, o ovo ou a gali-
nha, com a resposta de que depende de quem está fazendo a pergunta - e
com que velocidade e em que direção está se movendo.
Existe um último recurso para quando estivermos absoluta, completa
e totalmente bloqueados: tentar achar uma solução aproximada. Afinal,
não precisamos saber o valor de n com zilhões de casas decimais; quatro
delas são o suficiente para a maioria dos problemas. Embora seja impossí-
vel encontrar soluções exatas por radicais para certas quínticas, é possível
achar soluções racionais para qualquer grau desejado de exatidão. É extre-
mamente importante ser capaz de fazer isso. Caixeiros, afinal, muito pro-
vavelmente continuarão viajando, mesmo na ausência de uma solução de
tempo polinomial para o problema do caixeiro-viajante, e, se formos ca-
pazes de achar um algoritmo de tempo polinomial aproximando a solu-
ção exata dentro de uma pequena porcentagem, poderemos economizar
substancialmente tanto em combustível quanto em tempo. "Bom o bas-
tante" às vezes é mais do que bom o bastante.

Através de um vidro escuro 275


Duas previsões que me parecem prováveis
Um tema comum que emerge de muitos dos problemas que examinamos
é que, se o sistema que estamos descrevendo é suficientemente comple-
xo, haverá verdades que seremos incapazes de averiguar. Evidentemente,
o exemplo supremo disso é o resultado de Godel sobre proposições inde-
cidíveis, mas eu esperaria que os matemáticos e lógicos do futuro fossem
capazes de fazer uma de duas coisas: ou descrever o que torna um sistema
axiomático suficientemente complexo para admitir proposições indecidí-
veis, ou demonstrar que uma descrição desse tipo é impossível. Talvez já
existam resultados parciais nessa área, mas, se este último resultado tives-
se sido provado, acho que seria um resultado suficientemente excitante
para que fosse amplamente conhecido na comunidade matemática. Acho
que o mesmo vale para a busca de Hilbert pela axiomatização da Física: ou
será mostrado que isso não pode ser feito com sucesso, ou, em caso positi-
vo, resultará em análogos físicos das proposições indecidíveis. A existên-
cia de análogos do princípio da incerteza surgirá não de uma hipótese
quântica (embora essa hipótese tenha especificamente resultado no prin-
cípio da incerteza), mas da própria axiomatização. A axiomatização mos-
trará que devem existir resultados nas mesmas linhas do princípio da in-
certeza, mas não nos dirá quais são os resultados.
Admito que há certa vagueza nas previsões feitas no parágrafo anterior,
então vou oferecer uma mais concreta. Mostra-se que, para cada um dos
problemas na miríade de dificuldade de tempo polinomial não-determinís-
tico, qualquer algoritmo de tempo polinomial concebido para resolvê-lo
admite anomalias do tipo que encontramos ao discutir como a programa-
ção de listas de prioridade pode levar a situações em que melhorar tudo pio-
ra o todo. Isso também foi visto quando aplicamos o algoritmo do vizinho
mais próximo ao problema do caixeiro-viajante; é fácil construir uma série
de cidades e distâncias entre elas, de modo que, se todas as distâncias fos-
sem encurtadas, o algoritmo do vizinho mais próximo resultasse em um ca-
minho com uma distância total maior do que a distância total dada por
aquele algoritmo para a configuração original.
Se eu fosse um jovem, mas com posição permanente, especialista nes-
sa área (a especificação ter uma posição permanente é necessária, porque
pode ser um problema que requer uma imensa quantidade de tempo, e
você não quer arriscar a chance de ser contratado num problema para o

276 Como a matemática explica o mundo


qual pode não alcançar resultados rápidos), ou um especiahsta maduro à
procura de um resultado revelador, eu tentaria isso. Afinal, não parece tão
improvável que as técnicas de Cook para demonstrar a equivalência dos
problemas de dificuldade de tempo polinomial não-determinístico pu-
dessem ser modificadas para mostrar que um buraco em um algoritmo
deve necessariamente resultar em buracos em outros. Não sou capaz de
mover essas peças, mas realmente creio que posso vê-las em movimento.

Caindo do trem

Toda vez que se consideram os prognósticos memoráveis que vieram a se


provar incrivelmente errados, é necessário mencionar um clássico, ocorrido
duas décadas atrás. A União Soviética acabara de ruir, os Estados Unidos
eram a única superpotência do mundo, e Francis Fukuyama escreveu um en-
saio muito divulgado, intitulado "O Fim da História?" Este menos-que-pres-
ciente comentário é tirado do referido ensaio: "O que talvez estejamos teste-
munhando não é só o fim da Guerra Fria, ou o término de um período parti-
cular de história pós-guerra, mas o fim da história como tal: isto é, o ponto fi-
nal da evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia
liberal ocidental como a forma final do governo humano."3
Karl Marx pode ter sido desacreditado como teórico econômico, mas
realmente acertou na mosca com sua observação de que, quando o trem da
história faz uma curva, os pensadores caem para fora dele. 4 Mesmo os con-
servadores provavelmente dariam boas-vindas à universalização da demo-
cracia liberal ocidental como a forma final do governo humano, mas os
eventos das duas últimas décadas mostraram que o milênio, ao menos no
sentido da realização definitiva da previsão de Fukuyama, ainda não está aí.
Em retrospecto, Isaac Asimov teve uma visão muito mais clara de
como a história se desdobra. Asimov pode não ter sido o primeiro dos
grandes popularizadores da ciência (meu candidato seria Paul de Kruif,
autor do clássico Caçadores de micróbios), mas, indubitavelmente, foi o
mais prolífico. Ele tem trabalhos em todas as grandes categorias do siste-
ma catalográfico decimal de Dewey, com exceção da Filosofia, à qual tal-
vez tenha resistido porque seu background acadêmico era em Bioquími-
ca, e não em Física. É muito surpreendente que suas obras de populariza-
ção da ciência sejam escritas como apresentações bastante diretas de fatos

Através de um vidro escuro 277


("a lua tem um tamanho equivalente a apenas 1/49 do tamanho da Terra,
e é o corpo celeste mais próximo"), porque sua fama veio primeiramente
da ficção científica que produzia, extremamente divertida e muitas vezes
presciente. Ele foi um dos três grandes primeiros escritores de ficção cien-
tífica (Arthur C. Clarke e Robert Heinlein são os outros), e suas idéias
eram muitas vezes inacreditavelmente engenhosas. Uma de suas primei-
ras histórias publicadas, "Nightfall", descreve a dificuldade experimenta-
da por uma civilização ao tentar descobrir os mistérios da gravitação em
um sistema planetário com seis estrelas próximas. Considerei particular-
mente divertida uma história escrita por ele, em que descrevia as conse-
qüências lógicas que cercavam a descoberta da tiotimolina, uma substân-
cia que se dissolvia na água 1,2 segundo antes de a água ser adicionada.
A grande obra de ficção científica mais bem conhecida de Asimov é a
trilogia Fundação. 5 Nela, um império interestelar do futuro está entrando
em colapso, um colapso previsto por Hari Selden, um sociólogo matemá-
tico que usa a estatística para prever a história futura do império. Os
cálculos de Selden são atrap alhados pela chega do Mula, um mutante cujas
habilidades psíquicas especiais lhe permitem tomar e conservar o poder.
Outros - como Georg Hegel - haviam enfatizado que a história é moldada
por indivíduos específicos, que ele chamava "indivíduos mundialmente
históricos". A contribuição de Asimov foi notar que a propensão das civi-
lizações a produzir tais indivíduos pode invalidar qualquer esperança de
aplicar técnicas, como aquelas usadas na Mecânica Estatística, à história.
Afinal, nenhuma molécula de ar tem a capacidade de alterar o comporta-
mento de grandes quantidades de outras moléculas de ar como um único
indivíduo pode alterar o curso da história.
Isso significa que é impossível chegar a um esquema matemático para
analisar ou prever a história? É uma questão interessante, e não sei de ne-
nhum Hari Seldens, passado ou presente, que tenha tentado qualquer
tipo de esquema, com qualquer tipo de êxito. Possivelmente, quando a
Matemática do caos tiver sido suficientemente bem desenvolvida, pode
ser possível estabelecer algum tipo de limite às possibilidades de realiza-
ção nessa área.
Na década de 1960, o matemático francês René Thom inaugurou um
ramo da Matemática hoje chamado teoria da catástrofe. 6 Essa foi uma
tentativa de analisar mudanças drásticas no comportamento de fenôme-

278 Como a matemática explica o mundo


nos, surgidas de pequenas mudanças nos parâmetros de descrição desses
fenômenos. Isso soa familiar? Certamente tem boa parte do sabor da teo-
ria do caos. Além disso, a teoria da catástrofe examina fenômenos não-
lineares, assim como grande parte da teoria do caos. Uma grande diferen-
ça, entretanto, é que a teoria da catástrofe vê as mudanças dramáticas no
comportamento dos parâmetros subjacentes como manifestações de
comportamento geométrico padronizado em um espaço maior de parâ-
metros. De uma perspectiva prática, isso não ajuda muito a prever de fato
as catástrofes iminentes. Talvez seja bom saber que o próximo colapso da
bolsa de valores consiste simplesmente no comportamento esperado de
uma estrutura geométrica bem definida em um espaço dimensional maior,
mas, a menos que possamos obter um entendimento claro de exatamente
o que os parâmetros governando aquele espaço dimensional maior me-
dem, e fazê-lo de alguma maneira a priori, não será muito útil.
Existem, é claro, numerosas aplicações da Matemática nas Ciências
Sociais; cursos sobre essas aplicações são oferecidos em quase todas as ins-
tituições de ensino superior. Algumas se provaram notavelmente eficien-
tes, primariamente em áreas oferecendo uma quantificação fácil dos parâ-
metros relevantes. Porém, só porque é fácil quantificar os parâmetros re-
levantes, o sucesso não é garantido; quase todas as crises dos mercados de
ações foram caracterizadas por uma incapacidade total da parte dos gran-
des prognosticadores em prevê-las. Possivelmente, algum Hari Selden do
futuro entreveja as estruturas geométricas multidimensionais em cujas
formas estão inscritas os presságios do futuro, mas acho que é mais prová-
vel que algum Kenneth Arrow do futuro descubra que, mesmo que aque-
las estruturas geométricas possam existir, não há meio de determinar o
que elas sejam.

Nas pegadas de Aquino


Algumas das maiores mentes da história, como, por exemplo, Santo To-
más de Aquino, fizeram esforços extremos para provar a existência de
uma divindade; e algumas mentes igualmente grandes fizeram esforços
igualmente extremos para provar que uma divindade não pode existir. As
provas têm uma coisa em comum. Elas falharam miseravelmente em con-
vencer o outro lado.

Através de um vidro escuro 279


É difícil imaginar uma prova em qualquer assunto que gerasse um in-
teresse maior da parte do público. Tal prova responderia, de um modo ou
de outro, uma das questões mais profundas jamais indagadas. Também é
provável que o surgimento de uma prova desse tipo gerasse uma guerra de
polêmicas quanto à sua validade. É improvável que essa prova fosse sim-
ples, já que as linhas de prova mais simples foram exauridas séculos atrás.
Vi várias dessas provas que empregavam hipóteses dúbias e/ou lógica
dúbia, embora eu ainda esteja para ver quaisquer provas, de qualquer dos
lados, empregando uma argumentação puramente matemática, com nú-
meros, formas, tabelas, ou quaisquer outros conceitos da Matemática.
Possivelmente a mais fácil seja aquela que argumenta a não-existência de
Deus pela seguinte construção paradoxal: se Deus existe, deve ser to-
do-poderoso, então será que pode criar uma pedra tão pesada que nem
Ele/Ela fosse capaz erguer? Se Ele/Ela não puder criar uma pedra desse
tipo, então não pode ser onipotente. Se pode criar tal pedra, então o fato
de não poder erguê-la fornece evidências de que não pode ser onipotente.
Há um limite até para a onipotência, e superar esse paradoxo é um deles.
É possível argumentar com a mesma legitimidade que a incapacidade de du-
plicar o cubo usando régua e compasso prova a não-existência de Deus.
Para fazer justiça, uma refutação deveria ser dada para um dos argu-
mentos clássicos da existência de Deus; o argumento da "causa primeira".
Argumenta-se que alguma coisa não pode surgir do nada, e que, portanto,
alguma coisa deve existir primeiramente, essa alguma coisa sendo Deus.
Parece convincente, mas simplesmente não se sustenta. Uma teoria cos-
mológica atual postula a existência de um multiverso eterno. Nosso uni-
verso surgiu do big bang cerca de 13 bilhões de anos atrás, mas esses even-
tos podem ter ocorrido antes infinitas vezes em um multiverso que existe
desde sempre. Hoje, simplesmente não há como saber.
Ambos os lados têm estado tão ocupados tentando construir provas
em apoio às suas teses que me parece que perderam de vista o óbvio. Uma
vez precisamente definidos os atributos de uma divindade, pode haver
uma prova de que é impossível provar a existência ou não-existência dessa
divindade. Alternativamente, é possível que se mostre que a hipótese da
divindade é independente de um conjunto de axiomas filosóficos, e que
juntar a hipótese da divindade ou sua negação àqueles axiomas gera um
conjunto consistente de axiomas.

280 Como a matemática explica o mundo


Devo admitir ter um viés em favor de uma resolução desse tipo. Uma
quantidade gigantesca de poder de fogo intelectual foi trazida para essa
questão, mas até hoje não se sabe de um tiro que tenha acertado o alvo.
Penso que a sociedade estaria mais bem servida se indivíduos com a habili-
dade de fazer progresso em um problema dessa ordem se dedicassem a en-
contrar as curas da AIDS ou da gripe aviária. Esse, provavelmente, é um so-
nho irrealizável de minha parte, um delírio em certa medida substanciado
pelo fato de que, mesmo que se saiba há séculos que trissecar o ângulo com
régua e compasso é impossível, provavelmente milhares de indivíduos este-
jam, neste exato momento, lutando para alcançar o impossível. Estremeço
só de pensar em quantas pessoas podem se devotar à tentativa de desprovar
um resultado como o da independência da hipótese da divindade.

Sei do que gosto


Nós decoramos nossas casas e escritórios com imagens, e nos fazemos cer-
car pela música. Apesar da atração óbvia e quase universal das artes visuais
e auditivas, defendo - sem sair de minha cadeira - a mesma opinião do
corpulento e inerte detetive Nero Wolfe, criado por Rex Stout, que certa
vez disse que a culinária é a mais sutil e agradável das artes. Para mim, a
beleza etérea dos nenúfares de Monet ou a majestade transcendente de
uma sinfonia de Beethoven empalidecem diante de uma tigela fumegante
de sopa chinesa, seguida por um suculento prato de frango kung pao (com
muita pimenta).
Por muito amor que eu tenha a Monet, Beethoven, Nero Wolfe eco-
zinha chinesa, essas paixões não são universais. Na verdade, o teorema de
Arrow joga alguma luz sobre a questão das preferências artísticas (e culi-
nárias) de um grupo; não há como traduzir as preferências individuais
nessas áreas em um ranking social consistente com as cinco condições es-
tabelecidas no teorema de Arrow.
Porém, assim como o sucesso político espera o candidato que conse-
gue encantar a maioria, fama e fortuna sem dúvida esperam o indivíduo
que descobrir a chave da criação das artes, músicas - ou comidas - grande-
mente apreciadas. A Matemática encontrou pouco sucesso nessa área.
Garrett Birkhoff foi um dos destacados matemáticos americanos da
primeira metade do século XX. Ele deu contribuições dignas de nota à

At ravés de um vidro escuro 281


Mecânica Celeste, à Mecânica Estatística e à Mecânica Quântica, além do
seu trabalho na Matemática Pura. Gerações de alunos de faculdades - in-
cluindo os meus - aprenderam as teorias dos grupos, anéis e corpos a par-
tir de seu texto de referência sobre Álgebra Abstrata, 7 escrito em co-auto-
ria com o igualmente eminente Saunders MacLane.
Birkhoff também tinha um interesse agudo pela Estética, e tentou
aplicar a Matemática à avaliação da Arte, da Música e da Poesia. Para fa-
lar a verdade, seus esforços não foram nem de longe tão risíveis quanto a
reação de Charles Babbage, um dos pioneiros na construção de dispositi-
vos computacionais mecânicos. Ao ler um poema de Tennyson que in-
cluía a linha "A cada momento morre um homem,/A cada momento um
homem nasce", Babbage enviou uma carta a Tennyson observando que,
para ser estritamente exato, T ennyson deveria ter escrito, "A cada mo-
mento morre um homem,/A cada momento um homem e 16 avos de
homem nascem".
A fórmula básica de Birkhoff para calcular o valor estético era que a
medida estética de uma obra de arte era igual ao quociente de sua ordem
estética dividido por sua complexidade - coisas ordenadas eram belas, coi-
sas complexas não eram. Os matemáticos cujos gostos musicais pesquisei
geralmente estão de acordo com essa regra; Bach geralmente tem uma re-
cepção melhor entre os matemáticos do que Shostakovitch. De fato,
quando um amigo me apresentou a uma chacona de Bach, ele começou
descrevendo-a, dizendo que possuía 256 compassos (256 = 2 8), divididos
em 4 seções de 64 compassos (64 = 2 6), e gostei dela antes mesmo de ouvir
a primeira nota.
Em certa medida, a idéia de que a ordem é mais atraente está de acor-
do com pesquisas estatísticas que definiram algumas generalidades bem
óbvias sobre a Estética: a maioria prefere simetria à assimetria, padrão à
ausência de padrão. Contudo, algumas das fórmulas secundárias de Birk-
hoff são leitura quase torturante. Por exemplo, para calcular a ordem es-
tética de um poema, Birkhoff concebeu a fórmula O= aa + 2r + 2m - 2ea
- 2ec, onde aa significa aliteração e assonância, r significa rima, m significa
sons musicais, ea significa excesso aliterativo, e ec, excesso de sons conso-
nantes. Para ser justo com Birkhoff, seus esforços precedem em décadas o
teorema de Arrow, e ele admitiu que a apreciação intuitiva valia mais do
que cálculos matemáticos. Não obstante, Birkhoff acreditava que a apre-

282 Como a matemática explica o mundo


ciação intuitiva derivava de uma aplicação inconsciente dos aspectos ma-
temáticos de suas fórmulas.
Se eu fosse arriscar um palpite, a complexidade dos fatores estéticos
muito provavelmente serve como barreira a qualquer tipo de previsibili-
dade estética. Prova disso é a total incapacidade dos maridos de preverem
o que suas esposas apreciarão; como que contra isso, as mulheres, muitas
vezes, parecem ter uma capacidade assombrosa de conhecer o gosto de
seus maridos. Se houver um teorema que explique isso, não me surpreen-
deria nem um pouco que fosse descoberto por uma mulher.

As questões últimas
Será possível para a Matemática inventar uma maneira de saber onde es-
tão os "becos sem saída", ou o que não podemos conhecer? Este livro está
cheio de exemplos específicos de "becos sem saída" que conseguimos
burlar, e coisas que descobrimos que não podemos conhecer, mas será
concebível que exista um metateorema em algum lugar que delineie al-
gumas das características de idéias matemáticas ou científicas que estão
além do alcance do conhecimento? Ou será que existe um metateorema
que diga que é impossível que um metateorema como o descrito na frase
anterior exista?
Penso que os resultados nessa área provavelmente não serão tão gran-
diosos, e que os "becos sem saída" e os limites do conhecimento surgirão
apenas em circunstâncias específicas, e não como resultado de um meta-
teorema último sobre os limites do conhecimento. A Matemática pode
somente discutir objetos matemáticos, embora o escopo do que constitui
os objetos matemáticos esteja em contínua expansão. Por excelente ma-
temático que Gauss fosse, ele não anteviu a possibilidade de tratar infini-
tos como quantidades completas, e os infinitos são claramente algo que
ele podia ter considerado donos do potencial para serem objetos matemá-
ticos. Nós ainda não possuímos os objetos matemáticos necessários para
discutir a arte, ou a beleza, ou o amor; mas isso não significa que eles não
existam, apenas que, se existem, ainda não os encontramos. De fato, se
existimos no multiverso de Nível 4 de Tegmark, que consiste em realiza-
ções de objetos matemáticos, então, já que a arte, a beleza e o amor exis-
tem, eles são objetos matemáticos; simplesmente ainda não encontramos

Através de um vidro escuro 283


a maneira de descrevê-los matematicamente. Talvez Keats estivesse mes-
mo certo sobre a beleza ser a verdade, e vice-versa; a maioria dos matemá-
ticos acredita em pelo menos metade disso - que a verdade é a beleza. Se
algum Kurt Godel do futuro conseguir construir uma teoria matemática
das relações interpessoais, e assim fazendo provar que há aspectos do
amor que não podemos conhecer, quão deliciosamente irônico seria que a
Matemática pudesse provar o que poetas, filósofos e psicólogos foram ca-
pazes apenas de conjecturar.

NOTAS
l. Veja http://www-history.mcs.st-andrews.ac.uk/Biographies/Goldbach.html. Não con-
segui resistir e fui checar a biografia de Goldbach. Ele conheceu muitos dos grandes
e, de fato, fez alguma Matemática útil, mas em nenhuma parte do artigo vi a palavra
diletante, que, como eu p ensava, melhor o descrevia.
2. Embora não tenha conseguido achar uma cópia do livro, lembro-me da história es-
tar em Chernev e F. Reinfeld, The Fireside Book o/ Chess (New York: Simon &
Schuster, 1966).
3. Veja http://www.wesjones.com/eoh.htm.
4. Veja http://www.facstaff.bucknell.edu/gschnedr/marxweb .htm.
5. 1. Asimov, Fundação: trilogia (São P ~mlo: Hemus, 1991) . Ver também http://
www.asimovonline.com/asimov_home_page.html. Essa é a home page para uma
introdução completa a Isaac Asimov. Seria possível passar boa parte da vida lendo
seus livros e contos, e provavelmente seria a melhor parte da vida do leitor.
6. Ver http://en .wikipedia.org/wiki/Catastrophe_theory. Isso fornece uma introdu-
ção à teoria da catástrofe, junto com uma descrição dos vários tipos de catástrofes.
Infelizmente, não há previsões de catástrofes futuras .
7. G. Birkhoff e S. Mac Lane, Algebra (New York: Macmillan, 1979) . Essa é uma edi-
ção mais recente do livro que usei.

284 Como a matemática explica o mundo