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SANTUÁRIO DE CARAVAGGIO

E A MODERNIZAÇÃO DE ESPAÇOS
SACRALIZADOS: NOTAS ETNOGRÁFICAS
DE UMA ROMARIA NA SERRA GAÚCHA
José Rogério Lopes
Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Brasil*

Adimilson Renato da Silva


Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Brasil**

Resumo. Este artigo discute alguns elementos modernizantes presentes nos ritos
de peregrinação e devoção da religiosidade popular, no catolicismo brasileiro,
mais especificamente, na Romaria de N. Sra. de Caravaggio, em Farroupilha, RS.
A problematização proposta considera a estrutura e a espacialidade do Santuário,
na cidade, o trajeto de peregrinação de devotos em dias centrais dessa festividade
e os discursos e lógicas de apropriação de bens simbólicos na devoção. As lógicas
operantes dos atores-devotos imbricados neste “ato de fé”, típico das devoções
Marianas, se estabelecem em práticas que tecem uma gesticularidade própria, na
trama abrangente de significações importantes à composição, ruptura ou atualiza-
ção da religiosidade popular que, em tempos mais recentes, são “enfrentadas” pela
racionalidade modernizadora que (re)configura o espaço/tempo do agir devoto.
Seguido deste contexto, poder-se-á também visualizar, entremeada à estrutura ritual
da Romaria de Caravaggio, uma identidade regional que permanece ora latente, ora
manifesta, nos rituais devocionais desse evento.

Palavras chave: Catolicismo tradicional popular, Romaria de Caravaggio, Estra-


tégias de modernização.

Abstract. This article discusses some modernizing elements present in the rites
of pilgrimage and devotion of popular religiosity, in Brazilian Catholicism, more
specifically, in the Pilgrimage of N. Mrs. Caravaggio in Farroupilha city, RS. The
problematic proposal considers the structure and spatiality of the Sanctuay in
the city, the path of pilgrimage for devotees in central days of this festival and
the discourses and logics of appropriation of symbolic goods in devotion. The
operating logic of the actors-devotees interwoven in this “act of faith”, typical of
Marian devotions, establish themselves in practices that weave gestures themselves,
weft comprehensive meanings important to the composition, rupture or update
of popular religiosity, which in more recent times, are “faced” by modernizing
rationality that (re)configures the space/time devotee of the act. Followed this
context, power will also see, interspersed with ritual structure of the Pilgrimage

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of Caravaggio, a regional identity that remains now latent, sometimes manifested


in devotional rituals that event.

Keywords: Traditional popular Catholicism, Pilgrimage of Caravaggio, Moder-


nization strategies.

Introdução
O foco desse artigo orienta-se a um tema muitas vezes negligenciado
pelo debate acadêmico que, ao naturalizar dinâmicas existentes nos encon-
tros e desencontros de atores participantes das manifestações devocionais
da religiosidade popular, perde a oportunidade de empreender uma com-
preensão mais profunda dos seus fenômenos imediatos. Contrários a essa
tendência, propomos aqui uma abordagem fenomenológica da Romaria
de Caravaggio, em Farroupilha, RS, buscando tecer conexões, articulações
e correspondências mais próximas do mundo vivencial dos devotos que
dela participam.
Desde as primeiras incursões etnográficas no contexto, percebemos
que tais devotos estabelecem suas práticas em contextos de manifestações
religiosas carregados de sentidos da labuta cotidiana e das certezas/incer-
tezas impostas pelas exigências de transformações geralmente assimiladas
no próprio ato de profissão da fé, como no caso das romarias marianas.
Nesse sentido, trazemos à discussão elementos históricos básicos
para pensar diacronicamente alguns desdobramentos dessas transforma-
ções, na atualidade, desde implementações e agenciamentos em disputa
na configuração da espacialidade devocional do Santuário de Caravaggio,
em Farroupilha, e algumas relações estabelecidas pelos devotos em seu
“ato de fé”. A abordagem adotada esforçou-se em salientar uma dimensão
intersubjetiva, constituída entre os interesses de pesquisa1, seus atores
propriamente ditos e a posição que ocupamos como pesquisadores, em
coetaneidade2. Já as lógicas operantes na pesquisa buscaram objetivar as
observações desde ângulos problematizadores das vivências dos atores
envolvidos (Van Velsen, 1997), otimizando um arcabouço metodológico
importante para a compreensão das nuanças e possibilidades das socieda-
des complexas, em uma postura propositiva e ética (Velho, 1994). Desse
modo, o trabalho etnográfico buscou percepções “entre” as incongruências

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e limitações das apropriações empíricas, para estabelecer não mais que


um recorte de determinada realidade e, atendo-se aos dados aí coletados,
recompor cenários, trajetórias, linhas de percepção, visando apreender as
significações entremeadas de sentido dos atores, em suas experiências no
mundo da vida (Geertz, 2008).
No caso da Romaria à N. Sra. de Caravaggio, que remonta a expe-
riências religiosas oriundas da Itália e trazidas para a região serrana do sul
do país por imigrantes que ali se estabeleceram em finais do século XIX,
os ângulos de problematização do fenômeno incluem uma necessária,
mesmo que sucinta, revisão histórica, antes da descrição das modulações
operantes no presente.
O escopo desses ângulos problematizadores busca configurar um
panorama de análise que abre margens para dimensionar reflexividades
possíveis nessas manifestações, buscando tornar inteligíveis diferentes
práticas que gravitam o entorno do cenário composto pela Romaria de N.
Sra. de Caravaggio, em uma paisagem devocional ampliada.

Romaria de Caravaggio: fragmentos de história


na paisagem devocional
A Romaria de N. Sra. de Caravaggio, em Farroupilha – RS3, teve sua
133ª edição no ano de 2012 e suas origens remontam a meados do segundo
quartel do século XIV, na Itália4. A vinda de imigrantes italianos ao sul do
Brasil, em finais do século XIX, estimulada pela estratégia de ocupação
de terras proposta desde o período colonial, foi também motivada por
um contexto europeu marcado por guerras e conflitos civilizacionais, que
gravitavam em torno de disputas por territórios e de afirmação de projetos
nacionalistas e modernizantes.
Emergem desse contexto dois mitos constantemente atualizados ao
longo das atividades da Romaria. O primeiro refere-se à aparição de Nossa
Senhora a uma camponesa chamada Joaneta, no ano de 1432, em um prado
próximo à cidade de Caravaggio, entre Milão e Veneza, na Itália5.
Joaneta, devota fervorosa da Virgem Maria, era conhecida por sua
piedade e sofrimento, pois passava por fortes maus-tratos do marido, um
ex-soldado que trazia em seus atos a marca de tempos de guerra e conflitos,
que concomitantemente afligiam a Itália nessa época.

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Durante seu trabalho de colher pastos, em um prado próximo da


cidade de Caravaggio, a camponesa se depara com uma mulher. Em um
primeiro momento, a mulher lembra a imagem de uma rainha, percebida
nos instantes seguintes como a própria Virgem Maria, tendo esta se auto
declarado, após solicitar que Joaneta ficasse de joelhos à sua frente: “Tenho
conseguido afastar do povo cristão os merecidos e iminentes castigos da
Divina Justiça, e venho anunciar a Paz”.
Posteriormente ao seu pedido para que as pessoas voltassem a se
comprometer com os ritos da Igreja – penitência e oração – a Virgem de
Caravaggio deixa como sinal da aparição uma fonte de água pura e corrente,
sendo esta utilizada desde aquele momento pelos devotos que a este espaço
recorrem, em vias de efetivação de almejadas graças.
Depois de ter cumprido o seu papel de porta voz do pedido da
Virgem, Joaneta é relegada ao anonimato, deixando uma lacuna que é pre-
enchida pela permanência de N. Sra. do Caravaggio no meio de seu povo6,
participando esta das angústias e necessidades dos tempos em mudança,
e transfigurando-se na própria cultura como companheira do povo em
caminhada.
O segundo mito poderia ser descrito como o “conflito colono”,
devido à situação em que se encontravam algumas famílias de imigrantes
italianos chegados em finais da segunda metade do século XIX, nas terras
em que se encontra hoje a cidade de Farroupilha.
Este período remonta a tempos em que as forças clericais não exer-
ciam tanto poder sobre as práticas dos devotos, existindo poucos padres
para o atendimento aos féis. Estes passavam a ter maior autonomia sobre
sua própria orientação religiosa, vinculada basicamente pelo culto aos santos
(Hoornaert, 1983; Benedetti, 1983; Brandão, 1986). E na lacuna deixada pela
insuficiência de padres para o atendimento das populações de imigrantes que
aqui aportavam, orienta-se um princípio de organização social, segundo Steil
(2004, p. 16): “Na ausência do ‘pároco da aldeia’, foi preciso organizar as
comunidades de migrantes em torno de capelas, dirigidas por uma diretoria
de leigos, responsáveis pelo culto e pela organização das festas religiosas,
centro da vida social destas comunidades”.
Esse contexto tem como resultado constantes conflitos em torno
de uma maior normatização, por um lado, e, de outro, a reivindicação em
estabelecer práticas historicamente constituídas em experiências de apro-
ximação, uso, eficácia, atribuição de condutas de devotos, características

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do catolicismo tradicional popular. Como a imigração ao Brasil deu-se de


diferentes regiões da Itália, se estabelecem aqui, além de costumes e gostos
em torno da cozinha, música, dialetos, também diversas devoções a santos
cultuados no país de origem.
No caso em questão, as indicações familiares para patrono da comu-
nidade se dividiram entre Santo Antônio, descartada pela grande maioria
dos imigrantes, e N. Sra. de Loreto, cuja imagem não foi encontrada. A
resolução do impasse se dá quando os integrantes da comunidade aceitam
a proposta realizada pelo Sr. Natal Fáoro:

É que, após novas conversações, o imigrante Natal Fáoro propôs fosse a


Capela dedicada a N. Sra. de Caravaggio. No caso afirmativo da parte da
sociedade ali congregada, ele cederia, de momento, um quadro da Virgem
milagrosa que trouxera da Itália. [...] Incorporando-se à leva que veio para
o Brasil em 1876, Natal, sua mãe e a família trouxeram o precioso quadro
doméstico que, assim como os protegera na Itália, também os ampararia nas
terras gaúchas (Bertuol, 1951, p. 111).

Assim, a imagem de N. Sra. do Caravaggio é escolhida como guar-


diã não somente do capitel de adoração construído pelos colonos, mas
sobretudo, das atividades agrícolas que eram introduzidas aos poucos nas
novas terras, apropriadas para a reprodução de culturas trazidas de diversas
regiões da Itália.
E são esses registros de possibilidades narrativas que conformaram
o novo cenário que estava a se configurar nessa região, cuja marca anterior
era explicitada pela pujança do gaúcho livre dos pampas, trabalhador das
Charqueadas, base econômica do estado do Rio Grande do Sul, no período
do Brasil Imperial.
Inicialmente, os imigrantes construíram um capitel de madeira de
12 m² para o culto dedicado a Nossa Senhora de Caravaggio, que logo se
mostrou insuficiente para atender os devotos que se dirigiam à então colônia.
Os imigrantes buscaram doações que permitiram ampliar o capitel em uma
capela bem maior, inaugurada em 1879 (Bertuol, 1951). E desde a gênese
da devoção, no país e na região em foco, repete-se uma peregrinação anual
de devotos e romeiros de cidades próximas à Farroupilha (sobretudo da
cidade de Caxias do Sul), durante o mês de maio, quase sem interrupção.
Já nos primórdios de sua realização, as Romarias impuseram à co-
munidade local a necessidade de ampliação da capela local, e foi construída
uma Matriz na região,

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inaugurada em 1890 pelos imigrantes que povoaram a então Linha Palmeiro,


que pertencia à colônia Dona Isabel (Bento Gonçalves/RS). Numa época em
que as casas eram fabricadas em madeira ou pedra, eles improvisaram uma
olaria para fazer os tijolos. Pedras só no campanário que abriga um relógio
fabricado por Augusto Rombaldi no ano de 1900 e os três sinos importados
da Itália, que segundo os moradores mais antigos da comunidade de Cara-
vaggio, ao longo dos anos tem afastado as chuvas de pedra da região com o
som. O pintor Cremonese fez a decoração interna, que pode ser apreciada
até os dias de hoje (disponível em: <http://www.caravaggio.org.br/site/
santuario_antigo.php>, acesso em 15/10/2011).7

Essa Matriz e a paróquia local, elevadas à Santuário Diocesano em


1921, passam a ter clérigos regulares que substituem progressivamente a
comunidade de imigrantes na organização da dinâmica das romarias. Até a
metade do século XX, essa organização permitia, inclusive, que os devotos
e romeiros fixassem ex-votos nas paredes internas da Matriz, tornando-as
quase totalmente coberta pelos mesmos.
Ocorre que a difusão da devoção na região trouxe um aumento pro-
gressivo da afluência de romeiros, sobretudo na segunda metade do século
XX, o que implicou na necessidade de ampliar os espaços do Santuário
e melhorar as condições para a peregrinação dos devotos. Um Santuário
novo e bem maior foi construído, entre 1945 e 1963, juntamente com um
Seminário Apostólico, cujos clérigos passaram a orientar as práticas devo-
cionais e organizar as romarias.
Mais recentemente, os antigos espaços edificados passaram por
reformas, visando à revitalização dos mesmos frente a um processo de
patrimonialização cultural em curso. Esse processo inclui o tombamento
do Antigo Santuário como bem cultural, em início da década de 2000, pelo
IPHAE-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do RS. As
obras de restauro do antigo Santuário iniciaram em 2005 e foram entregues
em agosto de 2012. Mais recentemente, a Secretaria Estadual da Cultura do
RS, por meio do próprio IPHAE, propôs e publicou no Diário Oficial do
Estado (21/05/2012) o aviso de notificação de tombamento provisório da
Linha Pedro Salgado e Linha Palmeiro, nos municípios de Bento Gonçalves
e Farroupilha, que formam o entorno do Santuário. O argumento para o
tombamento baseou-se na relevância da paisagem cultural da região e seu
valor ambiental.
Esses dois processos convergem para a preservação do Santuário e

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seu entorno, favorecendo que os romeiros que se dirigem para lá vivenciem


uma ambiência devocional ampliada, na qual espaços físicos sacralizados se
hibridizam com espaços de natureza, produzindo experiências devocionais
também híbridas8.
No âmbito dessas mudanças em curso, a Romaria de Caravaggio vem
apresentando, nas últimas edições, elementos importantes à interpretação
da imaginação religiosa manifesta nesta devoção mariana, por um lado, e,
por outro, a posteriori, permitiu perceber implicações das estratégias de
caráter modernizante operantes no evento, apreendidas em diálogo com o
campo de atuação dos seus atores.
Tais estratégias caracterizam-se por agenciamentos na infraestrutura
do Santuário, assim como dos caminhos que levam ao mesmo, visando
proporcionar o “bom atendimento dos romeiros”, como afirmou em entre-
vista o Reitor do Seminário, Pe. Volmir Comparin. Essa preocupação com
o bem estar dos romeiros complementa-se com outras obras relacionadas
à ambiência do Santuário: um salão para deslocar os ex-votos que estavam
fixados no interior da antiga Matriz, um restaurante amplo, um salão para
confissões, pequenas lojas para vendas de artigos religiosos e souvenires
de Caravaggio, além de um projeto paisagístico que inclui amplo espaço
de estacionamento, vários bancos para os romeiros apreciarem a paisagem
natural do entorno, e um largo com esculturas que reproduzem a Via Sacra,
localizado atrás do Seminário contíguo ao Santuário.
No âmbito organizacional da Romaria, a estratégia centrou-se em
promover pequenas romarias, ao longo do ano (em 2012, foram oito),
produzindo ciclos devocionais sazonais que convergem para o período
central do evento, em maio.
Estas estratégias de modernização estariam vinculadas mais ampla-
mente à dimensão atual do processo de patrimonialização dessa manifes-
tação devocional, sobrepondo-se aos resíduos de experiências que eram
comuns nesse lugar hierofânico de devoção, e que agora se encontram
obliterados por uma nova configuração espacial e simbólica que se projeta
no Santuário9. Mais profundamente, nessa configuração projeta-se uma
articulação de processos de legitimação, presentes nas aproximações e
distanciamentos que se produzem nos cursos de ação dos peregrinos e de
outros atores sociais envolvidos10, agentes importantes da paisagem devo-
cional do catolicismo tradicional popular.

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Entre os fluxos de peregrinação devocional


A participação na 132ª Romaria de N. Sra. de Caravaggio ocorreu
entre 22 e 23 de maio de 201111, acompanhando o circuito devocional cons-
titutivo desta paisagem religiosa e estabelecendo diálogo com uma dimensão
importante desta festividade Mariana, tão cara aos devotos e agentes que
se esforçam em empreender anualmente seus motivos e expectativas para
a realização da Romaria.
Logo no sábado pela manhã, o café em uma padaria no centro da
cidade foi importante pelo contato com um jornal impresso que circula
nesta região, O Pioneiro, contendo alguns relatos das expectativas da cidade
referente ao contingente de pessoas que deveriam se deslocar à cidade de
Farroupilha nestes dias de festividades. Eram esperadas 400 mil pessoas.
Os cerca de 7 km entre o centro da cidade e o Santuário de Carava-
ggio foram superados pelo uso do transporte urbano da cidade. Os ônibus
equipados com moderno sistema de ar condicionado, somados ao conforto
de seu ambiente interno, retomavam a memória de um registro anterior,
de que esta cidade ocupava o 27º lugar entre as cidades mais desenvolvidas
do Brasil.
No trajeto, o contraste entre a paisagem urbana da cidade, com seus
inúmeros prédios, e a insurgente imagem de campos e colinas tornando-se
mais recorrentes ao adentrar cada vez mais pela Rodovia dos Romeiros,
marcam a primeira percepção obtida pelos pesquisadores nessa experiência
de trabalho, mostrando a riqueza de ambientes que compõem o município
de Farroupilha e o entorno do Santuário12.
Pelo caminho, se visualizava um contingente ainda pequeno de
peregrinos que se deslocavam pela Rodovia dos Romeiros. Basicamente,
formam-se grupos pouco numerosos, sendo que os peregrinos exteriorizam
em suas vestimentas a preocupação de proteger-se contra o sol, já intenso
às 9 horas da manhã, somado a um estilo de peregrino fitness – tênis e calça
esportiva13 – que poderia sugerir uma primeira tipificação do peregrino
encontrado na Romaria.
Após cerca de 25 minutos, a chegada às proximidades do Santuário
tornava possível dimensionar melhor o contingente de participantes na
Romaria. Diferentemente do trajeto realizado pela Rodovia dos Romeiros,
desde o centro da cidade de Farroupilha, a Avenida Dom José Barea, que
interliga essa rodovia com outro trajeto, inicialmente constituído próximo

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à cidade de Caxias do Sul14, e o Largo do Santuário, encontrava-se lotada


de peregrinos em deslocamento.
No lugar, já é possível perceber distinções entre as pessoas que são
romeiros, peregrinos e turistas15, sobretudo porque nas proximidades do
Santuário encontram-se extensas áreas planejadas para estacionamento de
carros e ônibus16, de onde surgem pessoas que mobilizavam um distancia-
mento dos locais de maior efervescência devocional.

Figura 01. Santuário de N. S. do Caravaggio.


Fonte: Arquivo dos autores (2011).

Figura 02. Devotos na visitação à Imagem de N. Sra. de Caravaggio.


Fonte: Arquivo dos autores (2011).

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De forma distinta desses, peregrinos e romeiros traziam consigo a


marca do trajeto realizado, o cansaço somado à emoção de terem realizado
suas promessas, ou mais profundamente terem confirmado os seus votos
(Steil, 2003), que se evidenciava em formas de comoção coletiva à chegada
das pessoas e grupos ao largo do Santuário.
Carregando réplicas de casas, fotos de familiares e pertences pes-
soais na condição de oferta de ex-votos, somados a grande quantidade de
flores depositadas nos altares das três imagens de Caravaggio, os volumes
de objetos depositados exigiam um trabalho intenso e articulado por parte
dos agentes voluntários que compunham a equipe de organização da festa.
A espacialidade do Santuário é marcada pela suntuosidade da nova
Matriz, avistada a quilômetros de distância, devido a estar localizada em
uma região alta entre as montanhas que caracterizam o ambiente típico da
serra gaúcha.
Há uma diversidade de edificações a compor o entorno do Santuário.
No largo central, a capela antiga, a sala de ex-votos, a sala das velas, a gran-
diosa igreja nova em conjunto com seu largo, o seminário que se encontra
atrás da igreja, acompanhado de um restaurante e da reitoria do Seminário
ali localizado, uma loja de artigos religiosos, a bica de água benta aludindo à
aparição da Virgem. Atrás e mais abaixo desse complexo, encontra-se outro
largo, com esculturas representando a via sacra, dispostas em círculo. E bei-
rando as áreas marginais há diversos bancos, onde as pessoas podem apreciar
paisagens naturais da serra. Esse cenário sugere um roteiro de peregrinação
acessado por muitos devotos, quase sequencialmente, como parte dos ritos
da Romaria. Porém, é evidente que nem todos os devotos acessam o espa-
ço do Santuário de forma conjunta, estabelecendo diferentes conexões de
participação a partir de variáveis, tais como, o tempo disposto a permanecer
na Romaria, os motivos das promessas, a acessibilidade aos espaços, entre
outros, produzindo-se diferentes itinerários possíveis à apropriação dos fiéis.
A afeição devocional dos peregrinos se exterioriza constantemente nas
promessas cumpridas por graças alcançadas; no encontro ou (re)encontro com
o ambiente físico do Santuário, com a Imagem da Santa; nas amizades obtidas
nas idas e vindas de peregrinações, com os(as) companheiros(as) de comuni-
dade religiosa, confidentes da labuta cotidiana da vida; nas marcas produzidas
pelo trajeto do ano anterior e impressas na própria corporeidade. Tais aspectos,
somados às narrativas que relatam histórias de outras romarias já percorridas,
pelos devotos, traduzem os elementos importantes na constituição da paisagem

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religiosa existente neste contexto. Assim, uma sociabilidade vinculada expressi-


vamente à religiosidade popular se manifesta no ambiente do Santuário.
Quem vai a Caravaggio também leva consigo os objetos comprados
nas bancas de artigos religiosos. Outra alternativa é acessar uma área fora
do largo, onde se encontra uma feira popular de vendedores que, em edi-
ções anteriores, perambulavam pela Romaria e, agora, estão organizados
nesse espaço, expondo os mais diferentes artigos, alimentos e brinquedos
destinados ao entretenimento das pessoas.
Os lugares de maior demanda dos devotos são a antiga capela, ante-
riormente utilizada também como lugar de guarda dos ex-votos, e o Tem-
plo do Santuário. Durante os dias 22, 23 e 26 de maio de 2011, a Imagem
Peregrina da Virgem ficou exposta em uma tenda ao lado do Santuário,
proporcionando a visitação dos devotos que se aglutinam nos momentos de
chegada ao largo, seguidos de períodos em que a estrutura do rito litúrgico
é realizada no largo, através de missas campais.
No sábado, dia 22, ocorriam fluxos constantes de aumento e diminui-
ção do contingente de pessoas pelos lugares existentes no Santuário. Esse
movimento de idas e vindas deixava marcado, nos circuitos de chegada e
saída, os espaços de descontinuidade do evento, produzindo uma percepção
de esvaziamento na Romaria. Tal impressão foi constantemente reivindicada
por parte das pessoas responsáveis pela manutenção das tendas de venda de
objetos religiosos e da barraca que ofertava um suculento pão com linguiça,
nas mediações do Largo do Santuário.
Esse dia foi encerrado com uma Missa realizada no interior do
Santuário.
No amanhecer de domingo, no deslocamento para o ponto de ônibus
que conduzia ao Santuário, no centro da cidade de Farroupilha, podia-se
perceber, diferentemente de outras festividades marianas17, que tanto o
centro da cidade quanto o próprio caminho que conduzia à Romaria não
expunham marcas de publicização do evento que estava ocorrendo. Ao
contrário, outro evento que estava ocorrendo na cidade, a FENAKIWI18,
recebeu um cuidado especial na produção de banners espalhados sistema-
ticamente pela cidade, exteriorizando uma diferente espacialidade festiva,
que contrastava e concorria com a religiosa.
Desde cedo, a Rodovia dos Romeiros já apresentava um maior con-
tingente de peregrinos que do dia anterior, contudo, este ainda ficava bem
abaixo da quantidade de pessoas que usavam o percurso entre a cidade de

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Caxias do Sul e o Santuário. Este caminho, realizado em estrada de terra


pelos sítios da zona rural entre estas cidades, recebe um cuidado especial
por parte das autoridades e agentes da organização da Romaria, por ser
permitido aí somente o trânsito de peregrinos.
Nesse trajeto, legitimado pela peregrinação dos imigrantes italianos de
Caxias que iniciou a devoção, havia postos para atendimento aos peregrinos
(estruturas em lona), organizados pela Universidade de Caxias do Sul (UCS).
Tratava-se de um trabalho de monitoramento da performance dos peregrinos
vindos à Caravaggio, envolvendo alunos dos cursos de graduação em enfer-
magem, educação física e nutrição. Os alunos realizavam o monitoramento
do batimento cardíaco e da pressão arterial das pessoas, com aparelhos na
forma de braceletes utilizados na passagem dos peregrinos pelos postos
espalhados no trajeto, gerando relatórios para análises posteriores.
Outro elemento relevante percebido entre peregrinos no trajeto e
na aproximação ao Santuário era a captação de imagens através de celu-
lares e handycams (câmeras foto-filmadoras), que os inseriam muitas vezes
em uma disputa de apropriação por posicionamentos estratégicos para
realizar a melhor imagem. Esse fenômeno do uso de tecnologias de regis-
tro audiovisual pelos devotos, já analisado por Lopes (2012, 2011, 2010),
apresenta possibilidades e limitações nessas práticas devocionais. Sobretudo,
percebe-se em tal uso dinâmicas de reflexividade individuais e coletivas que
ressignificam e atualizam percepções e imagens que os devotos produzem
em suas participações nas manifestações religiosas. Os produtos dessa re-
flexividade passam por apropriações circulares entre os próprios devotos,
entre eles e as organizações das festas religiosas, geralmente projetados
como sensibilidades devocionais exteriorizadas, mas também produzindo
processos de patrimonialização de tais eventos, entre outras transformações
por que passa o campo religioso do catolicismo popular.
No caso da Romaria de Caravaggio esses processos se acentuam pelo
fato do Santuário ter sido tombado com bem cultural, e são favorecidos
também pelas belas paisagens arquitetônicas e pela localização em uma
região de grande exuberância, com a existência de vales que podem ser
admirados desde as dependências do Santuário.
As missas no domingo compõem aspecto importante também. Essas
já contavam com uma maior quantidade de devotos e os seus movimentos,
realizados interna e externamente ao Santuário, potencializavam a busca
de uma espacialidade que projetasse todos ao interior do mesmo. Assim, a

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entrega das hóstias pelos ministros manifestava uma concorrência e uma


síntese dessa espacialidade, expressando a dimensão de comensalidade na
Romaria. Enquanto as barracas de alimentação entre o Santuário e a Capela
Antiga atraíam os peregrinos, os mesmos eram constrangidos no instante
em que estavam realizando seus lanches, em certos momentos e casos, pela
comunhão de outros com o próprio “corpo de cristo”.
Segundo depoimento do Reitor do Santuário, Pe. Volmir Comparin,
esse é um dos momentos em que a coordenação da Romaria busca, cada
vez mais, ampliar seus ambientes sacralizados, uma vez que a liturgia das
missas encontra-se em permanente disputa com a dimensão profana da re-
ligiosidade, manifesta no comércio popular, na venda de bebidas alcoólicas,
em jogos diversos e outros entretenimentos19.
Assim, os espaços do Santuário são marcados contemporaneamente
pela incorporação de estratégias de modernização, verificadas na acústica
interna e externa a estes ambientes; nas reformas para revitalização do San-
tuário e da antiga Capela; na adaptação de uma antiga sala de eventos para
a alocação dos ex-votos, antes dispostos na capela antiga; na construção
de infraestrutura sanitária para atendimentos aos romeiros; na otimização
de espaços externos para uso de estacionamento e na apropriação de agen-
ciamentos e patrocínios da Romaria.

Figura 03. Placa de orientação às novas práticas e


uso das dependências da nova sala de ex-votos.
Fonte: Arquivo dos autores (2011).

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Figura 04. Antiga capela de ex-votos, frequentada


pelos devotos na prestação de promessas.
Fonte: Arquivo dos autores (2011).

Essa última estratégia é a que chama mais atenção, ultimamente.


A coordenação do Santuário, juntamente com Mauri Demarchi, proprie-
tário da rede de lojas Pró-Cor Tintas, conseguiu agenciar o patrocínio da
empresa AkzoNobel, proprietária da indústria de tintas Coral, através do
projeto socioambiental “Tudo de cor para você”20, e realizou uma consulta
via web, para definir as cores a serem utilizadas na pintura das edificações.
A campanha do projeto, na web, conta com Luiz Felipe Scolari – Felipão,
ex-técnico da seleção brasileira de futebol – como padrinho.

Figura 05. Divulgação do projeto “Tudo de cor para você”


junto ao Santuário de Caravaggio.
Fonte: Arquivo dos autores (2012)

Ciencias Sociales y Religión/Ciências Sociais e Religião, Porto Alegre, ano 14, n. 17, p. 105-132, Jul./Dic. 2012
SANTUÁRIO DE CARAVAGGIO E A MODERNIZAÇÃO DE ESPAÇOS SACRALIZADOS 119

Soma-se a isso a proposta da coordenação do Santuário de produ-


zir canais na web para o Peregrino Virtual21, podendo o devoto acessar os
ambientes existentes em toda a estrutura do Santuário, de qualquer lugar
onde esteja conectado à rede mundial de computadores.
A romaria encerra-se no final da manhã, com um rito processual que
carrega a imagem da Santa pela localidade, gerando comoção e sensibilidades
em gestos de afetividade na passagem do andor, carregado por guardiões
voluntários da santa. A procissão é realizada em um percurso de não mais
que 50 metros, em frente ao Santuário, por entre as dependências do lar-
go, demarcando uma espacialidade que prioriza a relevância do ambiente
religioso frente outras possibilidades possíveis.
Em algumas conversas realizadas com peregrinos foi possível re-
conhecer os motivos mobilizados para participação na procissão: a pros-
peridade financeira almejada, a sorte buscada para toda a família, a cura
de doenças enfrentadas no cotidiano, a felicidade das graças alcançadas.
Porém, entre uma fala e outra, escapava o descontentamento por parte dos
homens de terem que apressar o consumo das bebidas alcoólicas22, usadas
para suportar os 18 ou 25 km de caminhadas de alguns, como também, por
parte de algumas mulheres, dos valores das imagens de santos nas barracas
de objetos religiosos, tendo estas que recorrer à feira popular para especular
um preço mais próximo de suas condições.
Outro fato exteriorizou-se na conversa com um menino de cerca
de 14 anos, acompanhado de sua avó, que capturava algumas fotos junto
ao altar colocado ao lado do Santuário para acesso à Imagem Peregrina de
Caravaggio. Questionado sobre o uso das imagens que estava capturando,
responde: “Gosto de tirar fotos. Não tenho Orkut ainda, mas quero fazer
para colocá-las ai. Viemos hoje à tarde de Dois Irmãos, passamos primeiro
pela festa do Kiwi. Quer um”?
Os elementos relatados pelo menino reforçam alguns agenciamentos
complementares e operantes na Romaria, como no caso da FENAKIWI, e o
emprego de instrumentos de apropriação de imagens anteriormente usados,
na maioria das vezes, por pesquisadores e jornalistas, agora incorporados
às práticas dos próprios devotos.

Notas interpretativas da Romaria de Caravaggio


Considerando as descrições de registros históricos e empíricos

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120 JOSÉ ROGÉrIO LOPES e ADIMIlSON RENaTO Da SIlVa

apresentados anteriormente, podemos realizar alguns apontamentos e


observações relevantes.
A Romaria da N. S. do Caravaggio apresenta importantes elementos
para pensarmos as transformações por que tem passado o campo religioso
do catolicismo tradicional popular.
Neste ponto, um diálogo preliminar com obras importantes, tais
como os estudos realizados por Fernandes (1992), Brandão (1985, 1986) e
Steil (1996), manifestam algumas rupturas e mudanças estratégicas na com-
posição dos ritos de peregrinação das Romarias. Assim, elementos como
o caráter de espontaneidade ritual, mais próximo à prática cotidiana dos
devotos; a transfiguração de experiências já existentes no cotidiano destes
atores, manifestando um caráter descrito como pertencente à composição
da dimensão popular dos ritos; o uso particular de estratégias de compo-
sição da devoção, sua eficácia, característica da manipulação dos símbolos
e significados coexistentes nos circuitos de sacralização realizados pelos
devotos, entre outros, passam a ser confrontados pela otimização do uso
do espaço sagrado condicionada pelos processos de patrimonialização dos
Santuários católicos23, agora assediados pela prática do turismo religioso.
Nesse sentido, a trajetória histórica proposta inicialmente, no caso
da reconfiguração da espacialidade do Santuário de Caravaggio, dispôs
diacronicamente algumas reformas que afetam sincronicamente as relações
entre devotos, romeiros, a coordenação do Santuário e a espacialidade do
lugar. Além da construção do novo Santuário, a Capela antiga, utilizada em
tempos anteriores como sala de ex-votos – depois como depositária desses
objetos nos períodos de realização da Romaria – passa agora por reformas
para recuperação e preservação de suas características arquitetônicas ori-
ginais. Devido a tal reforma, os ex-votos foram transferidos para a antiga
sala de eventos, adaptada esteticamente para expor os objetos em painéis
simétricos, com características museológicas, e dispostos em seções temá-
ticas: históricos, casamentos, formaturas, crianças, curas de doenças, etc.
Essa nova configuração apresenta um panorama de institucionalização das
experiências devocionais, pela incorporação de estratégias de modernização
desses espaços. Esse processo coloca em evidência não somente a trans-
formação desses lugares sagrados, mas, também, das tipicidades impressas
às práticas dos atores-devotos, que são influenciados a também incorporar
em seus “atos de fé” novas atitudes condicionadas pelas lógicas racionais
operantes na dinâmica de modernização do Santuário, da Romaria e das
próprias experiências religiosas.

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SANTUÁRIO DE CARAVAGGIO E A MODERNIZAÇÃO DE ESPAÇOS SACRALIZADOS 121

Exemplo disso, também presente nos estudos citados anteriormente,


seria o caráter de ingenuidade atribuído por parte do clero à maneira “ir-
racional” dos fiéis se relacionarem com a sua devoção. Tal relação poderia
ser vista, segundo alguns clérigos, em aspectos do culto aos santos, onde
os devotos, mesmo que em contextos extraordinários, exteriorizam uma
afetividade tamanha, não medindo esforços ao percorrerem distâncias
enormes em procissão, prestando promessas que ora entoam a alegria da
graça realizada, ora revivem instantes desconfortáveis da labuta cotidiana
dos problemas enfrentados, em uma reflexividade própria do processo
que deixa impresso em sua corporeidade a marca do trajeto percorrido,
nas romarias24.
O discurso do clero, exposto em muitos momentos na realização
das missas – e difundido por aparelhos de amplificação sonora no interior
e exterior do Santuário – marca a convergência de interesses acerca da
“conversão” dos devotos a uma identidade católica vinculada à santidade
ideal, para a obtenção do reino de Deus.
Desse quadro referencial, intencionamos destacar que a ambiência
reformada e modernizada do Santuário expressa um modelo de racionali-
dade simétrica – uma racionalidade extensivamente difundida como condi-
cionamento às práticas devocionais – disposta como única lógica de ação e
distante da dimensão plural de experiências característica da vida cotidiana
das camadas populares (Certeau, 1996). E complementar a tal idealização do
caráter de devoção a ser incutido nos devotos, sobrepõe-se à manifestação
religiosa uma dimensão característica da identidade do imigrante italiano.
O mito do “conflito colono” é resgatado durante o período da Roma-
ria para abordar, no mais das vezes, o percurso histórico desenvolvido pelo
povo em caminhada, desvinculado da ideia de disputa e conflito típica de
períodos anteriores, agora materializado como a contribuição dos colonos
italianos ao desenvolvimento da região, sua importância na manutenção
da religião autêntica25 e, importante, as contribuições destes à formação da
família cristã, vinculada ao ideal de homem trabalhador e fiel a sua crença.
Este contexto apresenta relevância à análise pela importância que
a dimensão de uma suposta “autenticidade identitária” apresenta em tem-
pos de globalização acelerada, potencializando os sentidos expostos pela
singularidade local, neste caso, já existente nas práticas e reivindicações
dos colonos. O discurso da autenticidade reproduz uma perspectiva de
interdependência entre experiências culturais, econômicas, políticas e re-

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122 JOSÉ ROGÉrIO LOPES e ADIMIlSON RENaTO Da SIlVa

ligiosas, desenvolvidas em percurso histórico, transcendendo dessa forma


uma dimensão de eficácia aos pertencimentos de sujeitos que conseguem
projetar suas práticas vinculadas a um referente coletivo. Essa estratégia
propicia aos sujeitos elementos importantes para a construção do repertó-
rio de práticas e experiências a serem difundidos e postos em evidência26.
Retomando as características típicas destes momentos extraordinários
constituídos pelas Romarias Marianas, Rosendahl (1996) apresenta em sua
leitura da composição da paisagem religiosa o processo de sacralização dos
espaços hierofânicos:

O espaço sagrado é um campo de forças e de valores que eleva o homem


religioso acima de si mesmo, que o transporta para um meio distinto da-
quele no qual transcorre sua existência. É por meio de símbolos, dos mitos
e dos ritos que o sagrado exerce sua função de mediação entre o homem e
a divindade (Rosendahl, 1996, p. 30).

Tal panorama apresentado mostra que o processo de modernização


que afeta as práticas devocionais tradicionais coloca-as constantemente à
prova, frente às mudanças que afetam seus processos de mediação com
o sagrado, pela apropriação de novos meios de produção e de gestão das
práticas religiosas, incrementados pelas inovações tecnológicas ofertadas
por um mercado em acelerada transformação.
Nesse sentido, autores como Postman (1994) já analisaram que as
tecnologias mudam o que é pensado pelas pessoas, a maneira como as
pessoas pensam e o contexto em que pensam, pois, na medida em que a
aceleração da informação retroage sobre as escolhas e práticas dos mesmos,
potencializa a perda de sentido do uso e eficácia de elementos tão caros
às tradições, num processo de simplificação de apreensão dos sentidos
realizado de forma parcial e incompleta.
Seguindo esta mesma linha de raciocínio, Latour (2004) também
expôs algumas consequências desse processo, no que estabeleceu como
“comunicação de duplo-clique”: a deformidade ocorrida pelo imediatismo
do uso das tecnologias informacionais que se pretendem guardiãs das nar-
rativas historicamente constituídas. Tal investida coloca à prova as possibi-
lidades e limitações do uso indiscriminado dos instrumentos tecnológicos
para a composição de narrativas que apresentem um repertório significativo
e mais próximo do acúmulo das experiências humanas ao longo de seu
processo histórico.

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SANTUÁRIO DE CARAVAGGIO E A MODERNIZAÇÃO DE ESPAÇOS SACRALIZADOS 123

Complementar a esta dimensão, a disputa pela legitimidade do uso


e do monopólio dos bens de salvação (Bourdieu, 1974) ocasionada pelas
mudanças no campo religioso brasileiro, mais precisamente, aquelas exte-
riorizadas em disputas midiáticas entre as mais diferentes denominações
religiosas, trazem a este campo religioso plural implicações na ordem da
manutenção dos repertórios de práticas devocionais, tentando atribuir maior
eficácia e efetividade às estratégias de conversão religiosa27.
Os estudos do caráter secular das sociedades modernas também
vieram ampliar o debate sobre a relevância da autenticidade de subjetivida-
des religiosas deixadas às margens das instituições tradicionais. Sobretudo,
tendo-se em vista que nas sociedades contemporâneas, em suas intrincadas
teias de entrelaçamentos de sentidos, o trânsito religioso (Almeida, 2010)
é um dos aspectos em evidência, conformando a individualização de uma
religiosidade (Hervieu-Léger, 2008) arraigada nas narrativas de um reper-
tório devocional ancestral, além do mesmo ser apropriado por diferentes
experiências dos indivíduos com o sagrado, não mais vinculadas às lógicas
operantes pela cultura de normatização das religiões tradicionais.
Nos limites desse artigo, o que pode ser evidenciado pela experi-
ência vivenciada junto ao circuito devocional da Romaria do Caravaggio,
é a difusão contemporânea de processos de modernização dos Santuários
católicos, que pode ser constatado, por exemplo, desde o contexto do San-
tuário de Aparecida, no estado de São Paulo. Complementar às reformas e
arranjos na espacialidade desses santuários, justificadas sempre para melhor
atendimento dos romeiros28, produz-se um conjunto de outras atividades,
como as missas televisionadas, as experiências devocionais virtuais aces-
síveis em sítios na web29, como também, a otimização e higienização dos
lugares sagrados dos Santuários. Essa modernização expõe uma dinâmica
contemporânea de gestão dos bens de salvação, ligada às lógicas institu-
cionais de racionalização destes mesmos processos e das manifestações
religiosas populares. E o turismo religioso é colocado aqui como uma das
possibilidades de agenciamento de recursos para atender as necessidades
de tal modernização.

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Figura 06. Devotos observando os motivos dos ex-votos em sua nova sala.
Fonte: Arquivo dos autores (2011).

Figura 07. Imagem da Capela Antiga, à esquerda


e a nova sala de ex-votos, à direita.
Fonte: Arquivo dos autores (2011).

De outra parte, o que é material e simbolicamente gerado pela idea-


lização destas mudanças nos santuários é diferentemente apropriado pelos
devotos e romeiros, no caso de Caravaggio. Da perspectiva massiva de
acesso, essa diferença remete ao sentido de privação da familiaridade com
a devoção, causado pela institucionalização das práticas devocionais, como
exposto por vários romeiros. Da perspectiva pessoal de acesso, o controle
sistemático de manutenção dos espaços e do comportamento dos devotos
é transgredido regularmente, seja pelos fluxos irregulares de trânsitos cole-
tivos entre as atividades oficiais da programação religiosa e as atividades do
mercado de bens religiosos e de entretenimento popular circundante, seja
pelas inserções desautorizadas de objetos e fotografias nos interstícios da
disposição simétrica dos painéis existentes na sala de ex-votos.

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Figura 08. Exemplos de inserções de imagens nos painéis da Sala de ex-votos.


Fonte: Arquivo dos autores (2012).

Enfim, o caso do Santuário de Caravaggio permite pensar em uma


ressignificação da imaginação devocional e religiosa, que anteriormente
se vinculava a uma maior autonomia na manipulação e no uso dos bens e
espaços devocionais dos santuários católicos, projetando às experiências
coletivas e individuais sentidos que requerem uma maior normatização e
institucionalização dos modos de agir dos devotos.
De outro ângulo, a situação que engendra as estratégias de moder-
nização do Santuário, por parte dos agentes religiosos institucionalizados,
traz uma difícil tarefa à manutenção e ao gerenciamento desses espaços,
que necessitam, sem sombra de dúvidas, de uma organização estrutural
para comportar o contingente de devotos que demandam acessos durante
os períodos da Romaria, ou nos atendimentos diários nas missas e nos
serviços de pastoral.

Finalização
As descrições históricas e empíricas apresentadas nesse estudo,
limitadas pelo recorte imposto, pretendeu recompor alguns dados parciais
de pesquisa junto à Romaria de N. Sra. do Caravaggio, realizada em incur-
sões etnográficas e acessos a sítios da web. A abordagem esforçou-se em
salientar uma dimensão intersubjetiva, buscando abarcar diferentes ângulos
do campo de pesquisa, enfatizando a dinâmica operante sobre as práticas
e os discursos que se mostram ora em antagonismo, ora complementares
e contíguos, de uma forma abrangente. Tal ambivalência deve-se ao fato
dos atores dessa manifestação ocuparem posições no evento que se querem

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significativamente participantes nas atribuições dos sentidos que aproximam


ou distanciam uns aos outros, de maneira a se constituírem como integrantes
da mesma trama de significados, nessa paisagem religiosa.
Por fim, reconhecemos a importância de um maior aprofundamento
acerca da dinâmica desenvolvida pelos agentes religiosos especializados,
como também pelo atores-devotos populares, ao estarem em permanente
adaptação ou confronto com as estratégias religiosas de modernização.
Esse processo pode manifestar novos arranjos institucionais, dissonâncias
ou atualizações das práticas legitimadas por uma maior institucionalização
dos ritos, ou, de outra maneira, acentuar a própria dinâmica de continui-
dade das tradições religiosas populares, através da manipulação de bens e
espaços religiosos. O certo é que essa dinâmica está a compor, ao longo do
tempo, novos repertórios de imagens e sensibilidades que se modificam, ao
evocar a continuidade de participação dos devotos nos seus “atos de fé”,
em tempos de aceleradas mudanças.

Notas
*
Professor Titular do PPG Ciências Sociais, UNISINOS. Agradecimentos ao CNPq e a FA-
PERGS, pelos financiamentos da pesquisa cujos dados são aqui parcialmente considerados.
**
Graduando em Ciências Sociais e Bolsista PIBIC CNPq/UNISINOS.
1
O projeto de pesquisa intitulado “Devoções marianas, agenciamentos tecnológicos e
reflexividades” objetivou investigar a apropriação que os sujeitos populares operam das
tecnologias de registro audiovisual das e nas manifestações religiosas, produzindo uma refle-
xividade de suas próprias crenças e práticas religiosas. Do quadro complexo das causalidades
reconhecidas nesse fenômeno, optamos por apresentar, aqui, uma análise da expansão de
um modo de modernização das culturas locais, assentado na valorização das experiências
pessoais e da performance cultural ou religiosa.
2
O sentido de coetaneidade que se estabelece entre pesquisadores e sujeitos da pesquisa,
na experiência etnográfica, foi definido por Fabian (2006, p. 59) como compartilhamento
do espaço e do tempo das manifestações produzidas e vividas pelos sujeitos pesquisados,
possibilitando ao pesquisador uma objetivação da experiência comum vivenciada. Tal coeta-
neidade foi estabelecida, na pesquisa, pela vivência partilhada das experiências de romeiros
nos rituais centrais da Romaria de Caravaggio, entre 2010 e 2012, seguindo a orientação de
Turner (2008) de buscar compreender a romaria como uma ação simbólica que dramatiza
o ser devoto.
3
A cidade de Farroupilha compreende uma população com cerca de 63.293 habitantes (Censo
IBGE 2010). Encontra-se em ponto de intersecção das rodovias Estaduais RS 453 e RS
122, entre as cidades de Bento Gonçalves e Caxias do Sul, na região da Serra Gaúcha, RS.
4
Nesse sentido, a origem da Romaria de Caravaggio remonta ao que Steil (2004) denominou
de catolicismo de imigração.

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SANTUÁRIO DE CARAVAGGIO E A MODERNIZAÇÃO DE ESPAÇOS SACRALIZADOS 127

5
As descrições desses mitos foram condensadas do livro escrito pelo Pe. Olívio Bertuol
(1951). Esta obra é importante para o entendimento dos desdobramentos ocorridos à
constituição da devoção de N. Sra. de Caravaggio como é hoje, pois articula tanto o mito de
origem da devoção na Itália, passando pela chegada das famílias na localidade de D. Isabel,
atual cidade de Bento Gonçalves, e a ocupação da área que será conhecida posteriormente
como Caravaggio, em Farroupilha, fechando com dados do início da festa votiva que ocorre
em fevereiro e o início da construção do Novo Santuário.
6
Uma leitura contemporânea desse fenômeno, relativizado em alguns pontos pelos desloca-
mentos e transformações que impactaram o mesmo, é apresentada em Steil e Alves (2003),
ao analisar a aparição de Maria na cidade de Taquari, RS, configurando em seguida a conti-
nuidade da devoção a N.Sra. da Assunção. As pessoas que se apresentam, aparentemente,
como confidentes das aparições da Virgem Maria, em suas diferentes representações, na
maioria das vezes são relegadas ao anonimato pela apropriação e controle do clero sobre
as devoções Marianas. O clero, de forma estratégica, lança mão de discursos e práticas nos
quais reivindicam o controle devocional pela legitimidade da manipulação dos bens de
salvação, e pela “narrativa autêntica” da anunciação do reino de Deus, tendo uma centrali-
dade fundamental para a reprodução dos dogmas institucionalizados pela Igreja Católica.
7
Após a construção da capela, foi encomendada uma nova imagem de Caravaggio, em
madeira, realizada pelo artista plástico conhecido pelo nome de Stangherlin. O quadro
original da virgem foi devolvido à família Fáoro, ficando em cuidado dessa até o término
da obra do novo Santuário.
8
Ver, nesse sentido, as elaborações de Castro (2008) e de Carvalho e Steil (2008). Estes últi-
mos, sobretudo, analisaram como os aspectos cênicos (paisagens) e a potência dos lugares
naturais tornaram-se supostas fontes de bem-estar às espiritualidades das religiões do self e a
indústria do ecoturismo.
9
Nesses termos, buscamos apreender se os processos de modernização que se impõem
sobre a Romaria de Caravaggio configuram-se em estratégias que denotariam a estruturação
da antiestrutura, efeito que o tempo (a longa duração) traz para as “communitas”. Segundo
Turner (2008: 195), o tempo traz a estrutura e a consolida na peregrinação. Isso implica
que as peregrinações, nas suas relações sociais, revelam a qualidade de “communitas”; “e,
em peregrinações há muito estabelecidas esta qualidade se articula, até certo ponto, com
a estrutura social circundante através da sua organização social” (Turner, 2008, p. 156).
10
No caso da notificação de tombamento da paisagem cultural do entrono do Santuário, a
iniciativa da Secretaria da Cultura do Estado teve repercussões negativas na cidade. Setores
administrativos do município, associados a pequenos proprietários locais e o Sindicato de
Trabalhadores Rurais do município, reuniram-se e propuseram a impugnação do tomba-
mento, considerando que ele poderia trazer prejuízos ao desenvolvimento econômico local.
(ver manifestação da prefeitura local no site: Farroupilha se posiciona contrariamente ao
tombamento da paisagem cultural da Linha Palmeiro, disponível em <http://www.farrou-
pilha.rs.gov.br/content/view/3294/>, publicada em 15/06/2012, acesso em 31.12.2012).
11
Embora optemos por descrever, aqui, os acontecimentos observados na Romaria de 2011,
durante os anos de 2010 a 2012, realizamos várias outras incursões etnográficas ao Santuário,
acompanhando os rituais das Romarias, o cotidiano do lugar e pequenos grupos de romeiros.
12
O estudo de Steil e Alves (2003) sobre a aparição de N. Sra. da Assunção, na cidade
de Taquari, além de constatar as mudanças ocorridas nesse fenômeno religioso, como a

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128 JOSÉ ROGÉrIO LOPES e ADIMIlSON RENaTO Da SIlVa

constituição de um self sagrado na transposição da vidência para mensagens, sendo estas


proferidas por locuções interiores, e o controle da devoção por parte do clero, remetendo
ao anonimato os locutores das aparições, destaca, sobretudo, a importância do contato deste
cenário presente na natureza: “Neste sentido, o ambiente bucólico e rural que tem servido
de moldura para a maioria das aparições marianas não seria algo acidental, portanto, mas
se constitui num elemento central para a presença e reprodução, ainda que inconsciente,
do mito na atualidade” (Steil & Alves, 2003: 185).
13
Esse estilo fitness de peregrinação já foi reconhecido por Toniol (2012), ao etnografar o
projeto “Caminhadas na natureza”, desenvolvido em municípios do Vale do Ivaí, no estado
de Santa Catarina. Segundo o autor, a difusão das práticas de caminhada na natureza, assim
como de diversos Caminhos religiosos e ecológicos, no país, tem desenvolvido um mercado
de produtos específicos para os praticantes, como roupas e acessórios.
14
Este trajeto de peregrinação remonta às origens locais da própria devoção a Caravaggio.
A imagem exposta no Santuário é a mesma que foi trazida em peregrinação da cidade de
Caxias do Sul, pelos colonos imigrantes, no inicio do século XX, após ser esculpida pelo
artista plástico conhecido pelo nome de Stangherlin. Esse caminho permanece desde este
período, e mesmo não sendo possível dimensionar exatamente o contingente de peregrinos
que realizavam este trajeto, os que foram questionados relataram que eram todos da cidade
de Caxias do Sul.
15
A diferenciação entre romeiros e turistas segue aqui a descrição elaborada por Steil (1996)
em seu estudo sobre o santuário de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, e atualizada em Steil
(2003, p. 251): “De um lado temos o modelo convivial de uma comunidade emocional e
religiosa, que Victor Turner e Edith Turner chamaram de communitas [...]; de outro, temos
o modelo da sociedade de corte, marcado por uma convivência ‘fria e calculada’, que poderia
ser expresso pela ideia de societas, da forma como a entende Norbert Elias”. O primeiro
caso estaria circunscrito à condição dos romeiros, e o segundo, à representação dos turistas.
Essa dimensão é importante por apresentar aspectos de modificações provocadas pela inte-
ração desses atores no campo religioso do catolicismo, enfatizando conflitos e apropriações
diversas das devoções Marianas. Ver, nesse sentido, o estudo de Lopes (2011) sobre o Círio
de Nazaré, em Belém, PA.
16
Formam disponibilizados cerca de 200 ônibus pelas três empresas responsáveis pelo
transporte dos devotos para as cidades de Caxias de Sul, Bento Gonçalves, Antônio Prado e
Flores da Cunha. Somados ao contingente de ônibus de empresas que conduziam excursões
particulares de outras cidades, organizadas por agências de turismo e Paróquias de outras
regiões, geravam um acúmulo de veículos que exigia uma organização específica por parte
da equipe responsável pelo evento.
17
A sensibilidade mobilizada nessa percepção foi obtida pela participação dos pesquisadores
em outras festas marianas no Estado do Rio Grande do Sul, e no Pará, desde o ano de
2009. A Festa de N. S. dos Navegantes, de Porto Alegre (em menor número), a Romaria
de N. Sra. da Medianeira de Santa Maria, e o Círio de Nazaré, em Belém do Pará, com uma
extensiva carga de motivos exteriorizados, expunham a articulação de diferentes agentes
na marcação de lugares nas cidades, de forma a criar uma espacialidade que imprimisse
significativamente a existência de tais eventos. Diferentemente, em Farroupilha a impressão
era de um “silêncio distanciador” que exigia de parte dos pesquisadores uma atenção maior

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SANTUÁRIO DE CARAVAGGIO E A MODERNIZAÇÃO DE ESPAÇOS SACRALIZADOS 129

para apreender características típicas desse evento, colocando a exigência de precisar melhor
as particularidades/singularidades específicas da Romaria de Caravaggio.
18
A FENAKIWI era denominada anteriormente de FESTMALHA. Organizada pela Câmara
de Dirigentes Lojistas da cidade (CDL), conta com a participação de expositores e produ-
tores de Kiwi da região. A cidade de Farroupilha já reivindica o título de Capital Nacional
do Kiwi. Este evento coloca-se como uma estrutura de turismo paralela à Romaria, sendo
que, em diversos momentos nas incursões etnográficas, alguns devotos declaravam que
tinham vindo de outras cidades do Estado, onde estes dois eventos faziam parte do pacote
de viagens organizado por suas paróquias de origem.
19
Essa interferência da organização clerical da Romaria sobre o comércio de ambulantes foi
destacada por alguns comerciantes, que reclamaram por suas barracas terem sido afastadas
do largo do Santuário, durante as Romarias.
20
O projeto “Tudo de cor para você” objetiva revitalizar vários patrimônios culturais brasilei-
ros, através da pintura, tendo já se efetivado nos centros históricos de Salvador (BA), Paraty
(RJ), Ouro Preto (MG), Olinda (PE), Porto Alegre e Bento Gonçalves (RS). Detalhes do
projeto podem ser conferidos em <www.tudodecorparavoce.com.br>, acesso em 31.12.2012.
Para assistir a campanha do projeto “Tudo de cor para o Santuário de Caravaggio”, com o
vídeo de Felipão, acessar: <http://www.youtube.com/watch?v=oE_vdPaKWqE>, acesso
em 31.12.2012.
21
Esta proposta de Peregrino Virtual segue um padrão midiatizado estabelecido desde as
modernizações realizadas em grandes Santuários católicos, como os de Aparecida, no estado
de São Paulo, e de Nazaré, em Belém do Pará. Para maior apreensão dessa característica
evidenciada acessar:: <http://www.caravaggio.org.br/site/passeio_virtual/santuario_ex-
terno/index.htm>, <http://www.a12.com/santuario/multimidia/peregrinacao_virtual.
asp>, <http://www.ciriodenazare.com.br/v2.0/index.php?action=Destaque.principal>;
acessados em 31.12.2012.
22
No domingo pela manhã uma cena chamou a atenção dos pesquisadores. Um senhor,
aparentemente com cerca de 50 anos, foi abordado por 5 policiais que faziam a segurança
do largo do Santuário. Depois de conversarem por algum tempo com este homem, pedindo
que mostrasse o que havia dentro de sua mochila, orientaram que não se podia consumir
bebida alcoólica nesse lugar. Apresentando sinais de embriaguês, o senhor mostrou-se cons-
trangido pela situação, não deixando de argumentar incessantemente: “Eu sou um cidadão
de bem, sou trabalhador, só bebi um pouco. Vim lá de Caxias. Caminhei 4 horas, isso cansa”.
23
Os processos de patrimonialização cultural dos santuários e outros locais de cultos reli-
giosos não são exclusividade do catolicismo. Durante a Reunião de Antropologia do Mer-
cosul, ocorrida em Curitiba, em 2011, apresentações na mesa redonda intitulada “Religiões,
visibilidade pública e políticas de patrimonialização”, formada de pesquisadores do Brasil
e da Argentina, expuseram processos diversos de patrimonialização cultural de templos
e santuários no Candomblé, no catolicismo e entre evangélicos. A apresentação da mesa
concebia que “especialmente na América Latina, as políticas de patrimonialização dizem
respeito às religiões, fato que tende a repercutir no interior das redes institucionais religiosas,
exigindo reordenamentos simbólicos significativos” (IX Reunião Brasileira De Antropologia,
2011, p. 72; Ludueña 2012). Embora se deva reconhecer que a patrimonialização de bens
religiosos vem se tornando uma chave cultural para católicos e outras denominações religio-
sas (Lopes, 2012), é importante destacar que, ao menos no contexto brasileiro, as políticas

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de patrimonialização não se referem exclusivamente aos segmentos religiosos, incluindo o


patrimônio religioso no rol de ações voltadas à preservação do patrimônio cultural, como
se apreende nas políticas atuais.
24
Discursos semelhantes foram proferidos, em 2010, por clérigos responsáveis pela orga-
nização do Círio de Nazaré, em Belém (PA), ao comentarem em programas televisivos o
sacrifício de romeiros junto à corda, na principal procissão daquela festa religiosa.
25
Nesse contexto, a concepção de autenticidade é legitimada e complementada pelos refe-
rentes de ancestralidade, mantidos pelas tradições da comunidade de imigrantes locais, que
ainda convivem com seus dialetos e costumes, no entorno do Santuário. como exposto na
análise de outras festividades religiosas por Lopes (2012a).
26
Exemplo desse repertório pode ser constatado em festas de colonos, como a CONTRA-
CAR, vinculada aos ritos das pré-romarias, a Romaria Votiva, onde os colonos trazem seus
instrumentos de trabalhos para serem consagrados pela Virgem de Caravaggio, dando
significado e importância a suas práticas de manutenção e projeção de vida.
27
Embora essas estratégias sejam pensadas por Bourdieu nas relações entre tradições reli-
giosas distintas, buscamos evidenciar que elas também são produzidas nas relações entre o
clero e os romeiros, no processo de modernização em foco.
28
No caso do Santuário de Aparecida, a necessidade de melhor atendimento ao romeiro
justificou a construção de um complexo comercial e de hospedagem no espaço contíguo à
Basílica, além de outras melhorias.
29
Estudo acerca dessas experiências devocionais virtuais foi desenvolvido por Lopes (2009).

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