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economia & história: difusão de ideias econômicas 59

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Um Dicionário da Escravidão e Liberdade


Rômulo Manzatto (*)

Entre as décadas de 1550 e 1850 publicado pela editora Companhia to”, por avançar influenciado pelo
o Brasil foi o maior importador de das Letras. O volume traz 50 bre- ritmo das aspirações do presente.
escravos africanos do Novo Mundo. ves textos críticos organizados
Nesse período, estima-se que 4,8 por Lilia Moritz Schwarcz e Flávio Costa e Silva também destaca que
milhões de escravizados africanos Gomes, reunindo um amplo grupo o campo de estudos de que trata o
tenham desembarcado no territó- de nomes de referência no tema, livro foi uma das áreas do conheci-
rio brasileiro, afirma Luiz Felipe de sem perder a coesão necessária mento histórico que mais avançou
Alencastro.1 para justificar a coletânea. nos últimos 50 anos. Lembra, ainda,
que o volume constitui uma espécie
Aproximadamente dois terços dos O texto de introdução, assinado
de cartografia do atual estado do
cativos que aqui desembarcavam pelos organizadores, lembra que
conhecimento histórico sobre a es-
eram homens, com predominância o ano de publicação da obra é em-
cravidão no Novo Mundo.3
de adultos. Quando no Brasil, eram blemático, já que em 2018 comple-
submetidos a duríssimas condi- taram-se 130 anos da extinção da
A capa da cuidadosa edição merece
ções de trabalho, do que decorriam escravatura no Brasil. O que não
menção especial. Desenhadas por
altas taxas de mortalidade e uma significa que as heranças de nosso
Jaime Lauriano, as linhas brancas
baixa expectativa de vida dos que passado escravocrata não se façam
aqui foram escravizados, segundo presentes ainda hoje. contra o fundo negro formam o
Herbert Klein.2 contorno dos continentes. A re-
Para Alberto da Costa e Silva, que presentação cartográfica que daí
Os dados fornecidos por Alencastro assina o prefácio, o livro seria um surge focaliza o Oceano Atlântico,
e Klein constam do recente Dicio- dicionário temático, além de uma cenário do intenso tráfico de almas
nário da Escravidão e Liberdade, espécie de “poliedro em movimen- realizado durante séculos entre o

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60 economia & história: difusão de ideias econômicas

Novo Mundo e o continente afri- O texto de Angela Alonso analisa GOMES, F. D. S. Dicionário da escravidão
cano. os processos políticos da abolição, e liberdade: 50 textos críticos. 1ª. ed. São
cujos ciclos duraram mais de uma Paulo: Companhia das Letras, 2018.

No lugar dos nomes de países e ca- geração, englobando estratégias ALONSO, A. Processos políticos da abolição.
mistas de atuação e diferentes es- In: SCHWARCZ, L. M.; GOMES, F. D. S. Di-
pitais, consta um mapeamento do
tilos de ativismo. Alonso registra cionário da escravidão e liberdade: 50 tex-
vocabulário próprio do campo de tos críticos. 1ª. ed. São Paulo: Companhia
que a campanha abolicionista re-
estudos de que o livro é uma amos- das Letras, 2018.
presentou o primeiro movimento
tra. Nos cantos inferiores do mapa,
social de âmbito nacional no Brasil. CHALHOUB, S. Literatura e escravidão.
dois pequenos globos. Um em que o
A intensidade com que o movimen- In: SCHWARCZ, L. M.; GOMES, F. D. S.
continente africano ganha o nome Dicionário da escravidão e liberdade: 50
to disputou o espaço público fez
de “Africanos Livres”. Outro em com que a questão em muito extra- textos críticos. 1ª. ed. São Paulo: Compa-
que a América do Sul recebe a alcu- polasse os mecanismos da política nhia das Letras, 2018.
nha de “Quilombo”. institucional, então praticada por COSTA E SILVA, A. D. Prefácio: Escravidão e
uma reduzida elite imperial.6 liberdade. In: SCHWARCZ, L. M.; GOMES, F.
Por trás da capa, o texto de Rafael D. S. Dicionário da escravidão e liberdade:
Marquese mostra que a combina- 50 textos críticos. 1ª. ed. São Paulo: Com-
Não seria possível esgotar nesse
panhia das Letras, 2018.
ção de mão de obra escrava e pro- espaço todos os 50 textos críticos
dução em larga escala de açúcar foi que compõem o Dicionário da Es- KLEIN, H. S. Demografia da escravidão.
uma criação ibérica. Esse arranjo cravidão e Liberdade. O intuito, se In: SCHWARCZ, L. M.; GOMES, F. D. S.
Dicionário da escravidão e liberdade: 50
deu origem à economia do açúcar possível, é o de instigar o interesse
textos críticos. 1ª. ed. São Paulo: Compa-
no Brasil, que chegou a obter o por uma obra de referência, que
nhia das Letras, 2018.
quase-monopólio da produção do aborda o passado com o objetivo
declarado de dialogar com o pre- MARQUESE, R. D. B. Economia escravista
açúcar consumido no continente
sente. Até porque é fato que um re- mundial. In: SCHWARCZ, L. M.; GOMES, F.
europeu. D. S. Dicionário da escravidão e liberdade:
gime escravista que perdurou por
50 textos críticos. 1ª. ed. Sâo Paulo: Com-
No ciclo econômico subsequente, o séculos simplesmente não termina
panhia das Letras, 2018.
ouro brasileiro extraído por escra- sem deixar marcas duradouras.
Nessa situação, o simples ato de SCHWARCZ, L. M.; GOMES, F. D. S. Dicionário
vos teria sido fundamental para a da escravidão e liberdade: 50 textos críti-
lembrar pode ser um exercício de
criação e consolidação do amplo sis- cos. 1ª. ed. São Paulo: Companhia das
rebeldia, como recordam Flávio
tema financeiro britânico, uma das Letras, 2018.
Gomes e Lilia Schwarcz.7
bases de sua Revolução Industrial.4
Enquanto os efeitos da escravidão
Na literatura, Sidney Chalhoub ainda nos cercarem por todos os 1 Alencastro (2018)
chama a atenção para a presença lados, as histórias de escravidão
nem sempre evidente dos escravi- 2 Klein (2018)
e liberdade serão assunto vivo.
zados nos enredos dos romances Representações de um passado 3 Costa e Silva (2018)
brasileiros do século XIX. São ca- profundo que continua a nos as- 4 Marquese (2018)
tivos os que sustentam o estilo de sombrar. 5 Chalhoub (2018)
vida de senhores como o Casmurro
6 Alonso (2018)
Bento Santiago ou o memorialis-
ta Brás Cubas. Chalhoub destaca Referências 7 Schwarcz e Gomes (2018, p. 17)

ainda o intuito de dar voz aos es-


(*) Bacharel em Ciências Econômicas (FEA-
cravizados da pioneira escritora ALENCASTRO, L. F. D. África, números do USP) e Mestre em Ciência Política (FFLCH-
Maria Firmina dos Reis.5 tráfico atlântico. In: SCHWARCZ, L. M.; USP). (E-mail: romulo.manzatto@usp.br).

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