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O REINO ANIMAL

1º volume

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O REINO ANIMAL
(1º volume)

"... Que caridade espantosa, desconcertante, nas estruturas,


formas, dimensões e cores! Que prodigalidade, que orgia de
invenção! Que verve criadora desenvolveu a Natureza, no
decorrer dos tempos! O que ela não soube realizar, tanto no
enorme como no minúsculo, no forte como no dedicado, no
estranho como no regular! Quantas formas inesperadas,
imprevisíveis, e em todos os níveis da escala animal!

Acerca desta diversidade, como da unidade do


mundo vivo, esta obra oferece-nos uma documentação de valor
excepcional. Assistido de colaboradores dos mais
qualificados, escolhidos em todos os países do Mundo, para
nossa instrução e prazer, um quadro admirável da vida
animal, onde cada pormenor, judiciosamente escolhido e posto
em relevo, concorre para a poderosa harmonia do conjunto."

INTRODUÇÃO

O mundo animal: importância do seu estudo

Esta obra tem por fim iniciar o leitor no conhecimento do


mundo animal, visando mais especialmente as suas diversas
formas de comportamento.
Durante quase um século, tanto os animais selvagens como os
domésticos foram submetidos a estudos intensivos, que se
encontram arquivados na vastíssima bibliografia que lhes foi
consagrada. Nela se revela a preocupação principal de
procurar estabelecer uma classificação satisfatória do reino
animal.
Tal objectivo, assim como os conexos estudos da anatomia e
da fisiologia, sobrelevavam a quaisquer outros. E assim, a
biologia, ou ciência dos seres vivos, e a zoologia, que
estuda mais especialmente os animais, tinham as suas
actividades circunscritas aos laboratórios e museus,
ocupando-se mais de coisas mortas do que de vivas. Mas é
certo que sempre existiram animais vivendo no meio natural,
e que suscitara, normalmente nos últimos tempos, observações
que atraíram, cada vez mais, numerosas pessoas desejosas de
investigar o comportamento dos animais na Natureza e de
estabelecer o confronto com as experiências de laboratório.
Abordaremos, pois, este assunto e passaremos revista às
linhas gerais do conhecimento actual acerca do comportamento
dos animais, no quadro indispensável da sua classificação.
Mas, como isso só pode ser inteiramente compreendido e
apreciado à luz dos princípios subjacentes da evolução,
teremos de começar mesmo pelo princípio, isto é, partindo
das formas de vidas mais simples, portanto dotadas de tipos
elementares de comportamentos, e acompanhando os processos
através da escala zoológica, desde as amebas aos símios
antropóides. Em boa verdade, se não formos capazes de
compreender as determinantes dos hábitos da ameba, não
poderemos esperar que consigamos traduzir a rigor o
comportamento complexo do chimpanzé.
Mas, afinal de contas, por que razão nos havemos de
interessar pelo comportamento dos animais, isto é, pelas
suas reacções perante o meio em que vivem? É bem simples e
fácil a resposta. Efectivamente, o conhecimento da história
natural tem um valor intrínseco, pois faz parte da cultura
geral e a experiência demonstrou que só em muito poucas
pessoas não despertará um vivo interesse, mesmo uma
verdadeira paixão, instruir-se a respeito do que se passa no
mundo que as cerca, se lhes for proporcionado o ensino
conveniente.
Além disso, os aspectos mais utilitários da questão são
também de considerar. Com efeito, só pela compreensão
reflectida da história natural poderemos interpretar com
justeza a estrutura e as funções do nosso corpo e do nosso
próprio espírito. Daí o desempenharem as ciências naturais
um papel importante na luta da sanidade corpórea e mental,
no combate à dõença. Também, por exemplo, o problema do
nosso abastecimento alimentar está mais estreitamente ligado
do que em geral se pensa à noção que temos da vida e do
comportamento dos animais. E, enfim, se o conhecimento das
ciências naturais não pode resolver os nossos problemas
sociológicos, dá-nos pelo menos uma melhor compreensão das
necessidades do homem, tanto físicas como psíquicas, e
permite-nos obter, à luz das leis da natureza, uma
estimativa mais rigorosa das possibilidades e fraquezas
humanas.
Os grandes progressos levados a efeito pelos estudos da
história natural, durante o século passado, dão actualmente,
seja a quem for, a possibilidade de saber muito mais acerca
do nosso Universo do que os nossos avós teriam podido
sonhar. É certo que ainda não se conseguiu materializar os
sonhos dos sábios da última metade do século XIX, tais como
o descobrimento da origem e da estrutura essencial da
matéria viva, apesar dos êxitos promissores já obtidos nesse
sentido.
Na actualidade, poucas são as cidades de alta importância
que não se orgulham de ter um Museu de História Natural. Mas
os seus exemplares, mesmo embalsamados segundo as melhores
técnicas da taxidermia, podem dar apenas uma pálida ideia
das maravilhosas forças vitais e criadoras que animam os
animais por eles representados. Pelo contrário, nos Jardins
Zoológicos, já tão espalhados por toda a parte, é com o
próprio animal vivo que se pode estabelecer contacto directo
e agradável.
Contudo, assim destacado do seu meio natural, em cativeiro,
o animal não pode dar livre expansão aos seus instintos.
Para se compreender o significado profundo das forças vitais
em toda a amplitude das suas manifestações, é necessário
penetrar profundamente na vida selvagem e, furtivamente,
espiar com paciência o comportamento espontâneo das aves,
dos mamíferos e até das flores. Um tal empreendimento está
infelizmente fora do alcance da maior parte das pessoas que
se interessam pela vida animal. Por isso, mais adiante,
encontrará o leitor à sua disposição uma boa colheita de
ensinamentos acumulados acerca da vida dos animais seus
costumes e emoções, dificuldades e triunfos, rancores e
desejos, sua luta com os elementos do ambiente natural. E,
assim, fica esboçado um panorama total da vida na sua
expressão mais autêntica e, em suma, de exaltante beleza.
Antes, porém, de tomar esse rumo, torna-se necessário
trilhar, ainda algum tempo, um caminho, deveras difícil,
desta nossa explanação, representado por alguns aspectos
técnicos do tema em causa, essenciais para a sua clara e
precisa compreensão, cuja enumeração se faz nas páginas
seguintes.

O Que é a zoologia?

A palavra "zoologia" provém de dois vocábulos gregos: zôon


(animal) e logos (ciência).
O termo "zoologia" pode ser assim definido: "a história
natural dos animais, ou seja, a ciência da sua estrutura,
filosofia, classificação, seus costumes e distribuição
geográfica". Consequentemente, zoólogo será o indivíduo que
estiver ao corrente do essencial no que respeita aos
diversos aspectos desta ciência. O simples conhecimento dos
nomes de animais não confere a ninguém o título de zoólogo.
Reconhece-se então que as noções de botânica, química,
física, geografia e geologia são indispensáveis para a
perfeita compreensão da zoologia. A zoologia não seria uma
ciência se não fosse susceptível de tratamento lógico,
racional.
Observando o mundo que nos rodeia, não há dificuldade em
distinguir que certas coisas são vivas e outras não. Por
exemplo, as árvores, as abelhas, os caes, os gatos, os
cavalos, as vacas e os carneiros, todos eles tem uma
característica comum - a vida. Isto quer dizer que todos
esses seres vivos sentem, crescem e se reproduzem, gerando
filhos, que igualmente crescem e se tornam semelhantes aos
pais. Criados de certa maneira, o crescimento e a
multiplicação podem ser activados ou retardados, mas perdem
as suas características e tornam-se inertes - morrem -, se
forem tratados de modo inconveniente.
Examinemos agora esses seres vivos que mencionámos, e logo
reconhecemos que se podem repartir em duas categorias: as
plantas, que se alimentam directamente à custa das
substâncias químicas do ar e do solo, e os animais, que se
nutrem quer das plantas, ou de algumas das suas partes, quer
de outros animais, nomeadamente da sua carne. A maioria dos
animais tem vida livre, move-se sobre o solo ou mesmo no seu
interior, na água ou no ar.
O termo animal aplica-se a todas as formas deste tipo de
vida, quer se trate, por exemplo, de insectos peixes, aves,
répteis ou de mamíferos. Em linguagem vulgar portuguesa é o
vocábulo "bicho" que lhe corresponde.
Observando o mundo animal, impressionam desde logo a
multiplicação e diversidade de formas que, no Planeta, se
distribuem pelas florestas e charnecas, rios, lagos e mares,
nas cavernas, no alto das montanhas e nos pântanos tropicais
pestilentos. A simples identificação de todos esses animais,
o registo da sua frequência e dos lugares em que se
encontram, mesmo a lista banal dos seus nomes, é uma tarefa
imensa que ultrapassa as possibilidades de um só Zoológico.
Felizmente, em muitos países, já está feito o inventário dos
animais das respectivas regiões, que continua a ser
aperfeiçoado, de modo que é possível aos homens de ciência
consultar esses diversos catálogos e terem, assim uma visão
de conjunto do esplendor e da riqueza da vida animal. Um
panorama de tal amplitude sugere logo a necessidade de saber
o bastante acerca desses animais para poder classificar; foi
assim que se base da sistemática. Tentativas desse género
mostram rapidamente que a semelhança exterior ou a
semelhança de costumes entre diversos animais pode ter
grande significado e não constituir indício de parentesco.
As aves, os insectos, certos répteis, os morcegos e outros
mamíferos, todos equipados para a navegação aérea, em vários
graus, apresentam estreitas semelhanças. No mar, os peixes,
as focas, os golfinhos e as baleias parecem-se ainda muito
mais, e, no entanto, sabe-se que esses animais pertencem a
grupos diferentes, embora vivam a mesma existência, nos
mesmos lugares e na mesma época. A base autêntica de uma
classificação assenta sobre elementos mais profundos que o
aspecto ou hábitos, isto é, fundamenta-se na estrutura
íntima do corpo dos animais.
Por isso, torna-se necessário compreender a estrutura, ou
anatomia do corpo, e o seu funcionamento. ao passo que a
estrutura do corpo se chama morfologia, e seu funcionamento
designa-se por fisiologia. Reconheceu-se, porém, que certos
caracteres anatómicos subjacentes são, de facto,
acompanhados por vezes de atributos externos não menos
persistentes, e assim se verifica que os peixes têm escamas,
mas nunca pêlos nem penas; que as aves têm sempre penas, mas
nunca pêlos nem escamas semelhantes à dos peixes; e que os
mamíferos têm pêlos e nunca penas. Um estudo mais profundo
ensina, em suma, quais são os caracteres exteriores que têm
importância e quais os que (por exemplo, a cor) são menos
fundamentalmente significativos.
A fisiologia revela-nos como o animal come, bebe, digere,
respira, se reproduz, etc., e, para facilitar a compreensão
do funcionamento de um órgão, lança também alguma luz sobre
a significação de certos caracteres, tais como a estrutura,
a cor, as variações devidas à idade, etc.; também ajuda a
resolver muitos problemas suscitados pela observação dos
seres vivos, nos lugares que eles frequentam.
A vida dum animal no seu próprio meio é dos aspectos mais
atraentes da ciência. Esclarece-nos acerca dos costumes dos
animais, sua alimentação, seus amigos e inimigos, a vida
social, assim como a acção importante e altamente
significativa dos factores geográficos, climáticos, etc.,
sobre um grupo determinado. Este estudo dos animais no seu
meio original é geralmente designado História Natural. [O
estudo do ser vivo nas suas relações com o meio chama-se
ecologia.]
A noção de "meio" relaciona-se, ao mesmo tempo, com a
botânica e com a zoologia, com o estudo da distribuição
geográfica dos animais e das suas reacções à condição local,
o qual é conhecido pelo nome de geografia animal ou
zoogeografia.
Além desses estudos, que dizem respeito aos próprios animais
e seus modos de vida, existem, porém, ciências importantes e
verdadeiras profissões que se ocupam dos animais e se
desenvolveram nestes últimos tempos.
Até agora, todavia, consideramos os animais como um aspecto
habitual da nossa vida quotidiana, como uma realidade
conhecida e menos banal, praticamente familiar a todas as
regiões habitáveis do Globo. Seja quem for que se interesse
por estes assuntos, será levado, mais tarde ou mais cedo, a
pôr a si estas perguntas: Como se originaram estas
diferentes espécies animais? Como se espalharam à superfície
da Terra, mesmo em lugares extraordinariamente afastados? E
como foi que a própria vida teve início no nosso planeta?
Após numerosos séculos, em muitos países do mundo
civilizado, pessoas curiosas familiarizaram-se com estranhos
objectos, ora encontrados nas praias, ora descobertos aqui
ou acolá, de uma maneira ou outra. Esses objectos parecem,
às vezes, feitos de pedra, e assemelham-se muito a peixes ou
a outros animais; alguns tinham, aliás, exactamente a
configuração de conchas ou de outras partes características
de animais, mas foram encontrados normalmente. Vários desses
observadores consideraram as suas descobertas como simples
pedras de forma original e chamam-lhe ludus naturae, ou seja
jogos da natureza. Outros, que aceitavam a opinião então
corrente segundo a qual a lama e a vasa podiam engendrar
seres vivos, não se admiraram de que essas matérias pudessem
originar objectos de pedra com a aparência exterior de
organismos vivos. Outros ainda, uma minoria esclarecida,
chegam à conclusão de que se tratava, na realidade, de
restos de criaturas que viveram outrora e que tinham sido
petrificadas depois da morte. E, porque em geral eram
descobertos por desenterramento, tais objectos foram
denominados, em latim, fossilia, fóssil, fósseis, em língua
portuguesa.
Os fósseis são, de facto, o que subsiste das criaturas que
viveram noutros tempos, mas que tiveram, por um feliz
conjunto de circunstâncias, a sorte de ser preservadas da
decomposição total, quer por terem atolado, quer por serem
envolvidas nas terras ou rochas que as conservaram, quer
ainda por terem mergulhado nas águas de infiltração com
produtos químicos em solução, etc. Muita gente acreditou,
evidentemente, que os fósseis eram restos de animais
destruídos pelo Dilúvio, e até médicos de renome descreveram
mesmo fragmentos autênticos de restos de seres humanos que
teriam perecido no cataclismo bíblico.
Com o tempo, todavia, fósseis cada vez mais numerosos vieram
a ser reconhecidos, descritos e classificados, e, de maneira
geral, a ser estudados segundo as mesmas linhas gerais dos
animais actuais.
Este estudo acabou por se organizar perfeitamente bem. Para
maior felicidade da nossa história, os principais pioneiros
eram homens com grande conhecimento de zoologia e anatomia
do seu tempo, observadores rigorosos e honestos, e de
espírito filosófico.
O estudo dos fósseis tornou-se uma verdadeira ciência, a
paleontologia, como prelúdio à variedade e riqueza da fauna
actual e sua explicação. e luz dessa ciência, os geólogos
podem provar-nos que a Terra não é estável, mas sempre em
via de transformação; que as modificam continuamente; que a
nossa Terra não é senão uma imagem passageira mergulhada na
imensidade do tempo e cujo aspecto varia incessantemente.
No primeiro período em que aparecem fósseis, uma tal
variedade de formas de vida que o hiato existente nos
arquivos geológicos deve ter sido preenchido por uma vasta
actividade vital, cuja história está irremediavelmente
perdida. Durante milhões de anos, os únicos seres vivos eram
todos marinhos e relativamente simples, protegidos ou não
por concha ou carcaça, nunca dotados de vértebras. Depois,
desenvolveram-se os primeiros Vertebrados, exclusivamente
Peixes marinhos. Só mais tarde os primeiros vertebrados
invadiram a terra firme. Eram grandes e variados, que
actualmente são representados apenas pelas minúsculas e
quase insignificantes salamandras. Eram, pois, anfíbios,
isto é, animais incapazes de subsistir sem as condições de
vida aérea e aquática.
No período geológico seguinte, o Carbónico, quando os
actuais jazigos de carvão eram ainda florestas e pântanos
luxuriantes, esses anfíbios estavam no esplendor, mas nesse
momento uma nova fornada de invasores de classes superior,
os Répteis, entrou em cena.
Quando falamos de Répteis, pensamos em seres rastejantes,
mas muitos répteis do grande período da idade média do
Mundo, o Mesozóico, não rastejavam. Durante milhões de anos
foram os reis incontestados do Planeta: os poderosos
Dinossauros terrestres, os enormes Plesossauros e
Ictiossauros, nos mares; e os Pterodáctilos, nos ares.
Mas os Répteis não deram apenas origem a esses estranhos
seres; deles provieram também as Aves, e certos répteis
antigos dos dias áridos do período Triássico nasceram os
Mamíferos, que deviam usurpar-lhe o ceptro de domínio, e,
mais tardiamente na história da evolução, o Homem.
Aquele que estuda os fósseis ou paleontólogo, e o que estuda
o desenvolvimento individual dos animais, ou embriólogo,
podem ambos reconstruir, com provas de apoio, a árvore
genealógica da vida. Por ela nos apercebemos até que ponto
se entrelaçam intrincadamente as suas raízes, de modo por
vezes impenetrável à nossa ânsia de saber.

Estudo da sistemática ou taxinomia

A primeira dificuldade que se encontra logo no início do


estudo da classificação dos animais encontra-se na escolha
do nome desse estudo. Para uns, a designação própria é
taxinomia, ao passo que outros preferem a de sistemática..
O sistema de classificação a utilizar varia com as
necessidades, e, no que diz respeito aos animais,
reconheceu-se ser mais satisfatório o que se baseia nos
laços de parentesco.
A primeira vantagem de uma classificação baseada em laços de
parentesco é que, quando traduzida graficamente, toma um
aspecto de uma árvore genealógica, e que as linhas gerais do
desenvolvimento evolutivo aparecem consequentemente mais
explícitas. Quem tiver no seu espírito uma imagem bastante
nítida desta classificação pode fazer derivar os seus
conhecimentos ulteriores da aplicação dos princípios gerais
da evolução.
Para se saber como os laços de parentesco se impõem ao nosso
espírito, é indispensável tornar claro o sentido de certas
palavras fundamentais que aparecem constantemente em
qualquer discussão zoológica. O primeiro par de palavras
deste tipo é: primitivo (do latim primus, ou primeiro) e
especializado (do latim specialis, que provém de species,
isto é, estado de qualidade particular).
Um animal primitivo é aquele que pouco difere, pouco se
diferenciou, do antepassado comum do grupo a que pertence,
ao passo que um animal especializado é o que difere
consideravelmente desse antepassado comum. Muitas vezes
desconhece-se o antepassado, mas é possível, em todo o caso,
representar com boa aproximação como ele teria sido, a sua
estrutura e aspecto, usando do raciocínio e da dedução, em
grande parte com base em provas de ordem geológica. Noutros
termos, pela comparação de estudos que conhecemos, chegamos
a reconstituir estados cuja a existência, no passado, apenas
podemos supor. É por isso que, às vezes, se emprega a
expressão "antepassados hipotéticos".
Um bom exemplo é representado pelo lapisma e pelo louva-a-
deus. Ambos são insectos, mas, ao passo que aquele se
aproxima muito do tipo que imaginamos ter sido o antepassado
de todos os insectos, este revela-se altamente
especializado, mormente na maneira como captura as presas.
Outro par de palavras fundamentais é: homólogo e análogo (do
grego homo, ana e lagos, respectivamente: semelhante, para
cima e discurso).
Orgãos homólogos são os que provêm de um órgão ancestral
comum, embora possam já não ter a mesma estrutura nem a
mesma função.
Orgãos análogos são aqueles que apresentam semelhanças
exteriores, mas têm origem diferente, posto que tenham
funções idênticas ou similar. A asa da ave e o membro
anterior do cavalo são homólogos, porque têm a mesma
estrutura essencial, herdada pelos seus possuidores de
antepassado ancestral comum, servindo uma para voar e outro
para marchar. Pelo contrário, a asa da ave e a asa da
borboleta são órgãos análogos, visto que têm semelhança
superficial, devida, não a antepassado comum, mas, sim, à
adaptações de estruturas fundamentalmente diversas ao
serviço de funções semelhantes - voar.
Outro par de palavras que se prestam, por vezes, a confusão:
vestigial e rudimentar. Com efeito, um animal pode possuir
restos ou vestígios de órgãos que deixaram de lhes ser
úteis, mas que persistem constantemente na sua descendência.
É o caso da alheia, que, sendo descendente de um quadrúpede
ancestral terrestre, conserva restos inúteis da cintura
pélvica, embora seja desprovida dos membros posteriores.
Pelo contrário, órgãos rudimentares são aqueles que,
precisamente, começam a construir-se, isto é, são órgãos
incipientes, em começo de evolução.
Todavia, não é possível dar um exemplo satisfatório desse
órgão pela simples razão de que, se é relativamente fácil
reconstituir estados que tenham existido no passado, mais
difícil se torna prever o que sucederá a um órgão no futuro,
digamos, daqui a um milhão de anos. No entanto, supõe-se que
as manchas pigmentares dos Vermes, sensíveis à luz, podem
ser comparadas aos olhos simples dos Moluscos e ser
consideradas, concerto grau de certeza, como olhos
rudimentares.
Um outro fenómeno se pode relacionar com os órgãos
vestigiais. É o atavismo ou reversão, fenómeno que se
manifesta pelo aparecimento subitâneo e esporádico de uma
estrutura ancestral, que se considerava completamente
perdida, ou, pelo menos, muito atrofiada.
Todos os seres humanos possuem, no extremo da coluna
vertebral, um grupo de ossinhos, o cóccix. Ora, acontece,
por vezes, que um bebé nasce com uma cauda inegavelmente
saliente, com vários centímetros de comprimento. Do mesmo
modo, a pata do cavalo deriva de um membro ancestral de
cinco dedos, mas no cavalo normal permanece só o dedo médio,
que é bem desenvolvido, acompanhado de vestígios de dois
outros dedos. Muito raramente, porém, produz-se uma reversão
tal que, no cavalo, se desenvolvem os três dedos vestigiais,
de modo que fica com três dedos, ou mesmo cinco, com no caso
citado pelo escritor latino Plínio.
Enfim, resta-nos definir claramente as palavras degenerado e
secundário, que estão em estreita relação com o último par
de palavras acima mencionado. Um organismo degenerado é
aquele que se afastou da especialização que usufruíam os
seus antepassados, e o estado em que se encontra é tido por
secundariamente adquirido. Voltando as exemplificar com
Insectos, pode dizer-se que o lepisma, que não tem asas, ao
passo que os da pulga eram alados. O carácter áptero da
pulga é, de facto, secundário, visto que as asas ancestrais
degeneraram e perderam-se.
Em resumo, para classificar os animais, estes são dispostos
em grupos que se subdividem sucessivamente, de tal modo que
os grupos e subdivisões últimas estejam de acordo com o
processo real de diferenciação que se produziu durante a
evolução.
Assim, o Reino Animal subdivide-se num certo número de
grupos a que se deu o nome de ramos (filos ou clados). E,
antes de prosseguir, diga-se que outrora havia o costume de
dividir o reino em dois grandes grupos, os Invertebrados e
os Vertebrados.
Embora estas designações possam sempre ser empregadas grosso
modo, e até seja cómodo usá-las, deve sublinhar-se que
muitos animais incluídos no grupo dos pretensos Vertebrados
não possuem realmente vértebras: é o caso especial dos
Protocordados.
Sem dúvida que a maneira mais sugestiva de indicar os
estados sucessivos da subdivisão é a de tomar como exemplo a
espécie à qual pertencemos.

Reino: animal (todos os animais).

Filo: Cordados - animais que possuem esqueleto interno,


tendo por eixo um cordão dorsal, a notocorda, ou corda
dorsal, em volta do qual se pode formar ou não uma coluna
vertebral.
Classe: Primatas grupo que compreende os lémures, os
macacos ou símios e o homem.
Família: Hominídeos compreende todos os seres de aspecto
humano, fósseis e actuais.
Género: Homo - abrangendo todas as raças de homens actuais
e de certas espécies afins, como o Homem de Neanderthal,
actualmente extintas.
Espécie: Sapiens - todas as raças de Homem que vivem na
actualidade.

O nome pelo qual qualquer animal se designa, em nomenclatura


zoológica, é formado por duas partes: o nome genérico (no
caso do homem: Homo) e o nome específico (sapiens).
Portanto, Homo sapiens. Este sistema de nomenclatura,
designado binominal, foi criado por Lineu.
Qualquer leigo nesta matéria censura o homem de ciência pelo
facto de se servir de nomes gregos e latinos, tornando menos
clara a sua exposição quanto à designação dos animais e das
plantas.
Ponhamos, pois, a questão: por que razão se há-de dizer
Felis catus, quando existe em Português a palavra "gato",
nome vulgar que toda a gente conhece? Ora, a ciência, que é
internacional, consagrou o nome Felis catus que tem vantagem
de ser compreendido em todo mundo, seja qual for a
nacionalidade do leitor. Note-se também que, na sua grande
maioria, os animais não têm nome vulgar ou vernáculo, e que
muitos têm mais do que um nome vulgar, o que se presta, por
vezes, a grande confusão.

Estimativa do número de espécies:

"Mamíferos - 5000
"Aves - 8600
"Répteis - 4000
"Batráquios - 2000
"Peixes - 18 000
"Protocordados - 2500
"Aracnídeos - 30 000
"Insectos - 1 000 000
"Miriápodes - 850 000
"Protraqueados - 60
"Crustáceos - 20 000
"Braquiópodes - 140
"Briozoários - 4600
"Equidermes - 5000
"Moluscos - 90 000
"Vermes - 20 000
"Celenterados - 7000
"Espongiários - 2500
"Protozoários - 20 000
ORIGEM DA VIDA

Como e quando se originou a vida?

Um dos problemas que, em todos os tempos, mais têm intrigado


os pensadores é o da origem da vida, da data e do lugar do
seu início, assim como dos processos que presidiram a esse
acontecimento. Tal problema é, pela sua própria natureza,
insolúvel, mas estudá-lo é apaixonante e as especulações a
que pode conduzir nem sempre são vas.
Os filósofos antigos acreditavam implicitamente na
existência de uma força plástica inerente à essência da
própria matéria. Conheciam muito bem os restos de seres que
viveram outrora, se petrificaram e fossilizaram, mas
supunham então que esses objectos tinham sido formados no
solo ou nas rochas, em virtude da nossa força plástica dos
animais vivos e que, em vez de se terem libertado da ganga
mineral e tomado lugar entre as coisas realmente vivas,
haviam ficado aprisionados, sob a forma de pedras, nas suas
cidadelas subterrâneas.
Físicos do séc. XIX, emitiram a hipótese de que o germe
original da vida terrestre, qualquer que fosse, teria vindo
ao nosso planeta transportado por um meteorito, ou mesmo tê-
lo-iam trazido as asas invisíveis da energia luminosa, essa
força solar que faz girar como cata-vento o radiómetro de
Crookes.
Quando retrocedemos no tempo sobre os vestígios dos fósseis,
passamos da era do Homem à dos Mamíferos e desta àquela em
que as formas dominantes eram todas reptilianas; depois,
atravessamos a era dos Batráquios e encontramos, para lá da
época da conquista e ocupação das terras pelos seres vivos,
a era dos Peixes e dos Invertebrados marinhos. Podemos,
assim, reconstruir a história da vida nos mares quase até ao
começo dos tempos geológicos, a era em que as formas mais
primitivas se limitavam a simples animais aquáticos sem
concha, semelhantes aos Protozoários actuais e às algas
microscópicas.
Uma visão retrospectiva do passado mostrar-nos-á a Terra
antes da vida aparecer. Os mares, a atmosfera saturada de
gases, a terra escaldante, fornecem-nos um quadro rico de
substâncias químicas em plena laboração, sobretudo o
carbono, o cálcio, o fósforo e seus compostos. Ora, sabemos
que as combustões químicas são favorecidas quando dois ou
três elementos distintos se encontram estreitamente
associados - estando a terra sólida, os mares líquidos e a
atmosfera gasosa -, sobretudo sob a influência do calor e
talvez dos raios solares ultravioletas. É possível que, em
momento particularmente favorável, uma substância
catalisadora (isto é, um elemento que provoca ao fulminante
ou activa um processo sem nele tomar verdadeiramente parte,
qualquer coisa comparável ao fulminante que faz partir a
bala) tenha posto em marcha a operação química primordial de
que resultou, sem dúvida, uma pequena escuna acinzentada
sobre a água. Pela sua própria natureza, cada gotícula que a
compunha devia ser como uma bola, a sua superfície externa
seria ténue, mas cõerente (como a das numerosas substâncias
químicas não vivas) e seria permeável à água e ao ar, e, que
mais importante acima de tudo, aos raios solares. Tal era
certamente a primeira gota de vida, uma gotícula destinada a
crescer, e, em virtude das leis físicas da sua forma
específica, a dividir-se desde que tivesse atingido um certo
volume limite.
O tempo ia cuidar do resto da sua elaboração, e nisso a
ciência não descortina nenhuma dificuldade.
É quase certo que perto de um bilião de anos havia
transcorrido antes que a pequenina gota primitiva se
transformasse na forma viva mais simples que actualmente nós
conhecemos.

Os vírus: ponte entre o vivo e o imaginário?

É bastante evidente que nem os restos nem os homens nascem


por geração espontânea, e que nunca são gerados por outras
espécies vivas. Provêm sempre de adultos quase idênticos a
eles. Isto é igualmente verdadeiro em relação a todos os
seres cujo ciclo vital se pode estudar sem ou com a ajuda do
microscópio, como é o caso dos Protozoários e das Bactérias.
Existem todavia um grupo de seres vivos minúsculos,
provavelmente aparentados com as bactérias, que são os
Vírus. Diz-se que são vírus filtráveis, por serem diminutos,
atravessam sem dificuldade os filtros de porcelana mais
finos, usados nos laboratórios de bacteriologia.
Os vírus são agentes de dõenças infecciosas que prejudicam a
Humanidade; entre outras, as constipações, a gripe,
poliomielite, a varíola, a rubéola, a papeira e a febre
amarela.
.Durante muitos anos,, tudo quanto se sabia acerca dos vírus
era que tinham tamanho exiguo, que o soluto filtrado que os
continha, quando injectado a animais ou plantas, conduzia a
resultados sempre constantes, segundo a natureza da sua
estirpe, e que, enfim, actuavam especificamente sobre a sua
vítima. Noutros termos, os de uma espécie atacavam a pele,
outros os pulmões, outros o sistema nervoso central, e assim
sucessivamente.
Parece, pois que os vírus devem ser considerados como formas
de vida, minúsculas e complexas, talvez degeneradas , mas
não certamente como o protótipo da estrutura viva elementar,
nem como ponte de ligação entre o mundo vivo e o inanimado.

A matéria viva e as suas necessidades

O constituinte fundamental dos organismos vivos, da natureza


animal ou vegetal, chama-se protoplasma. É formado de
compostos químicos de estrutura complexa, em que entram
numerosas substâncias simples, e carregado de grande energia
potencial. O corpo de qualquer planta e animal não
se destrói completamente depois da morte; mas, durante a
vida, é constantemente destruído (catabolismo) e não menos
constantemente renovado (anabolismo). Em suma, cada
organismo procura proteger-se continuamente contra as
influências destruidoras do meio; a vida é a expressão de
uma perpétua interacção entre o organismo vivo e o ambiente
que o cerca. Esta noção é de importância fundamental e deve
estar sempre presente no nosso espírito, pois através dela
poderemos interpretar, imediatamente, a espantosa variedade
dos comportamentos animais.
Os três elementos mais importantes da vida de qualquer
organismo são a procura do alimento, a necessidade de
reprodução e o instinto de conservação.; mas todas as acções
ligadas a estas não são mais do que uma expressão da
interacção entre o organismo e seu meio, o qual compreende
não apenas as condições geográficas e climáticas, mas também
o conjunto dos outros animais e vegetais, entre os quais
vive o organismo considerado.
Nos animais do deserto, o grande trabalho é lutar contra a
secura do meio, pelo que o seu corpo tem estrutura adequada.
Os animais que vivem no frio polar devem poder conservar o
seu calor. De facto, não podemos compreender a acção do leão
ou do antropóide, se não conhecemos suficientemente como
esses senhores do mundo animal se desenvolvem, através das
idades da história da Terra, a partir de uma forma
insignificante.

O animal mais simples - a ameba

O testemunho dos fósseis concorda tão completamente com o de


outras fontes de informação que as conclusões fundamentais
relativas à história do mundo animal não têm de duvidoso. A
persistência com que cada animal, desde o ovo fecundado ao
adulto, segue uma sequência ordenada coincidente com a
história geológica da espécie a que pertence, demonstra que
ele revive, no curso da sua existência, em maiores ou
menores proporções, o passado da sua raça. Isto é
extremamente importante para a compreensão dos seus
caracteres físicos, assim como do seu comportamento, seus
costumes e psicologia. A ameba (exemplo: Amõeba proteus) é,
na opinião unânime dos zoólogos, a imagem mais típica da
gotícula primordial de protoplasma de onde brotou toda vida
animal.
Não medindo mais do que uma fracção de milímetro, a ameba
vive na vasa com detritos vegetais dos fundos dos charcos e
em quase todas as águas doces expostas às intempéries. Tanto
pelo seu aspecto como pela composição química, a ameba
assemelha-se à clara do ovo. Mas a comparação não passa daí,
pois a ameba é activa, capaz de se deslocar, nutrir e de se
reproduzir. Vista ao microscópio, apresenta-se sob a forma
de uma massa de contornos vagos, de consistência
semitransparentes e granulosa, como se fosse uma gota de
óleo impregnada de areia fina. Os grânulos do protoplasma se
movem em correlação com as mudanças de forma do corpo. Num
determinado ponto, desloca-se para a superfície do corpo uma
corrente de grânulos e, simultaneamente, o protoplasma,
neste ponto, toma a forma de um dedo, a que se chama
pseudópodes (falso pé), órga temporário, que aparece e
desaparece conforme as necessidades imediatas do animal,
órgão simples, de grande eficiência e de mecanismo
verdadeiramente maravilhoso.
Lentamente, enquanto observamos a ameba, o pseudópode
alonga-se, estira-se cada vez mais, transmitindo o seu
movimento ao resto do corpo, o qual avança, reabsorvendo o
pseudópode se formam e, pela repeti deste movimento, a ameba
desloca-se lentamente, continuando a sua marcha vagabunda.
O modo de alimentação é simples. Quando uma ameba avança,
toma contacto com pequenas partículas de lama, detritos
vegetais e outros. Se a partícula é comestível, o animálculo
engloba-a no seu corpo e digere-a. Se, pelo contrário, a
partícula não é comestível, então a ameba muda de direcção e
evita-a. Se, então a ameba muda de direcção e evita-a. É,
pois, evidente que existe um sentido elementar de gustação.
A respiração, isto é, a absorção de oxigénio, para
manutenção da vida, faz-se em toda a superfície do corpo.
A ameba é tão simples que gotas de certos óleos, impregnadas
de areia, se deslocam e se comportam de modo semelhante, com
as seguintes diferenças essenciais: é que não se podem
alimentar, nem reproduzir-se, essas "amebas artificiais".
As diferenças entre a matéria viva e a matéria inanimada são
aparentemente mínimas, mas a faculdade nutrição e reprodução
constitui um critério indiscutível para reconhecer o que é
vivo.
Na escolha da nutrição, reconhece-se uma outra
característica vital da ameba: uma força da selecção, um
gosto nascente, características e atributos que vagamente se
assemelha aos que encontramos nos animais superiores mais
nossos conhecidos.
[Algumas amebas têm vida livre, que é inofensiva, mas
outras são parasitas, como a que produz a disenteria.]

A célula viva

Se cortarmos uma delgada fatia de cortiça e a examinarmos ao


microscópio, reconhecemos que ela se parece com um corte
feito através dos alvéolos vazios dos favos de mel; todavia,
em vez de as paredes desses alvéolos serem de celulose. Os
tecidos das plantas são compostos de inumeráveis cavidades
deste tipo, mas cheias de protoplasma. Como as primeiras
investigações microscópicas incidiram sobre a estrutura
íntima dos vegetais, compreende-se, sem dificuldade, a razão
por que a flagrante semelhança com os alvéolos dos favos das
abelhas levavam os antigos observadores a designar por
células as unidades que constituem os tecidos vivos. Os
tecidos animais têm aspectos semelhantes, com a diferença de
que os limites da célula, ou seja as paredes desta, não são
reforçados por revestimento de celulose, antes são apenas
constituídos pela superfície do próprio protoplasma. Além
disso, a estrutura dos tecidos animais não obedece
geralmente àquela regularidade geométrica dos alvéolos dos
favos de mel. Mas , apesar disso, o termo "célula" mantém-
se, e é cómodo o seu uso. É no caso da "ameba" que o emprego
da palavra "célula mais parece deslocado para designar o seu
corpo; lembremo-nos, porém, de que todos os animais, salvo o
Protozoário, como a ameba, são pluricelulares, isto é,
formados por um número mais ou menos elevado de Células,
unidas como os tijolos de uma parede. Assim se compreende
melhor o uso corrente da palavra célula para designar a
unidade protoplasma.

A reprodução: continuidade da vida

Uma das molas reais da existência de todos os animais é a


necessidade de reprodução, de perpetuação da raça. A procura
dos alimentos, os cuidados com os filhos, a defesa contra os
inimigos, a colaboração protectora e uma multidão de outros
elementos de ordem física e psicológica, estão intimamente
ligados à reprodução. Para continuidade da vida, assim deve
ser e não poderia ser de outro modo.
Na ameba, o processo reduz-se a uma fórmula simples: o
animal divide-se em dois e ficam duas amebas, em vez de uma
só. Esta reprodução assexuada é, ao que parece, condicionada
pelo tamanho do animal. Na verdade, qualquer indivíduo duma
determinada espécie tem crescimento limitado. Na ameba, uma
vez atingido esse limite, produz-se automaticamente a
divisão do seu corpo, de maneira a restabelecer nele a
relação normal entre o volume e a superfície.
Este processo de reprodução (cissiparidade) pode repetir-se
durante certo tempo, maior ou menor, mas a estirpe acaba
geralmente por se desvitalizar. Então, pode dar-se em certos
protozoários uma inversão de processo: em vez de se
dividirem, os indivíduos unem-se aos pares, fundindo-se de
modo que cada par passa a constituir um indivíduo único. É
um processo de reprodução sexual (conjugal), aliás não
observado na ameba.
Na verdade, a ameba só é simples quando comparada com os
animais superiores. Ela não é desprovida de estrutura, pois
possui certos +órgas bem definidos, como, por exemplo, o
vacúolo contráctil, de fun excretara, e o núcleo, central,
de estrutura muitíssimo complexa, que condiciona todo o
comportamento do animal. Salvo raras excepções, qualquer
célula viva possui um tal núcleo, o qual, em virtude da sua
importância, merece mais do que uma referência passageira.
Mas, primeiramente, explicaremos porque consideramos o corpo
da ameba como um ameba.

O tipo mais simples de comportamento

A ameba desloca-se, para a direita, depois imobiliza-se


gradualmente, ou então muda de direcção. Tarde ou cedo
encontra uma partícula qualquer. Se é comestível, come-a;
mas se não o é, passa adiante. A ameba aumenta de volume, e
que, mais tarde, recolhe os pseudópodes e depois descansa.
Poderíamos mesmo vê-la a dividir-se em duas, isto é, a
reproduzir-se.
Todos os gestos desse animalzinho sugerem a existência de
uma "vontade", ainda que fraca, e mesmo de uma
"inteligência" , embora muito vaga. O protoplasma da ameba
reage automaticamente às variações do meio exterior, e que
isso é o carácter fundamental da matéria viva não seria
possível.
A ameba não tem órgãos dos sentidos, não tem olhos, ouvidos,
nariz ou língua, nem tão-pouco cérebro e nervos: contudo,
ela não comerá qualquer coisa que não seja combustível e
afastar-se-á de objectos, tais como grãos de areia, que para
nada lhe servem. Retrai-se, porém, quando lhe tocam, e
afasta-se se a temperatura da água, demasiado baixa ou
elevada, não lhe é favorável. Reage à electricidade ou à
vibração; foge de luzes demasiado intensas ou de substâncias
químicas capazes de a prejudicar. O comportamento da ameba é
governado por tactismo. Isto é uma maneira cómoda de dizer
que o animal reage de modo determinado aos estímulos
externos. Por outras palavras existe no protoplasma uma
reacção físico-química, que lhe é própria, contra as
condições de calor ou frio, luz intensa ou obscuridade e
outros fenómenos naturais comparáveis, e essa reacção pode
ser positiva ou negativa.
Eis porque, neste ser elementar, a vida se manifesta - de
feições estritamente mecânicas - pela expressão das reacções
do organismo relativamente ao meio exterior.

Mecanismo primordial da evolução

O conceito de evolução orgânica pode ser definido como uma


necessidade primordial de o organismo não permanecer
estático. Vimos que a natureza essencial do protoplasma é de
variar, o que se exprime pela contínua destruição e
renovação dos materiais íntimos, combinados, combinados com
a adaptação incessante ao meio exterior. Esta necessidade
inata de modificação é inerente a todos os organismos vivos.
Quais são então os factores que a determinam? O primeiro e
principal dentre todos é a hereditariedade, a transmissão
dos caracteres de pais a filhos, o fenómeno pelo qual estes
são semelhantes aos pais.
Qualquer que seja o grau de semelhança do filho com o pai ou
da filha com a mae, há sempre diferenças. Mesmo na ameba, em
que a reprodução consiste num simples processo de divisão do
protoplasma e do núcleo (mitose), os dois indivíduos
resultantes desta divisão diferem um pouco pelo tamanho. O
fenómeno é ainda mais nítido nos filhos dos animais
superiores. Embora a força da hereditariedade tenda à
conservação da forma, esta não é nunca rigorosamente
mantida.
Ão passo que a hereditariedade determina a forma, a
tendência para a variação assegura a sua alteração contínua.
Algumas das variações adquiridas serão vantajosas ao
indivíduo que as possui, uma vez que lhe conferem maiores
possibilidades de sobrevivência. É neste sentido que podemos
aceitar o princípio geral da sobrevivência do mais apto. A
recíproca deste princípio é chamada elimina do inadapto, e
ambos dependem de factores tais como a temperatura, a luz, a
humanidade e outras condições físicas, assim como também a
abundância ou raridade de alimento e de inimigos.
Por comodidade, as variações normais designam-se merísticas,
quando determinam alteração numérica, flutuações, quando
causam modificações de tamanho e forma. convém mencionar
outros tipos de alterações, com o atavismo, ou
reaparecimento, num indivíduo, que ficaram latentes durante
muito tempo, e a hibrida, ou a geração de um filho por pais
pertencentes a espécies diferentes. Enfim, há também o vasto
domínio da teratologia, ou ciência das monstruosidades,
malformações notáveis e desvios importantes em relação ao
que é normal, e que podem lançar muita luz sobre os
processos normais.

O Que é um animal?

Como sabemos que a ameba é um animal? Uma boa definição do


dicionário é esta: "Qualquer membro do grupo dos seres vivos
que abrange os que são dotados de sensações e de movimentos
voluntários, ao contrário dos vegetais." Uma esponja é um
animal, mas muito poucas esponjas têm a faculdade de
manifestar que recebem uma sensação; todas, desde que
atingem o estado adulto, vivem fixadas e são incapazes de
movimentos voluntários. É verdade que as esponjas se podem
mover durante os estados larvares e juvenis, antes de se
imobilizarem, fixando-se a um suporte.
Junte-se a isto que o seu esqueleto se parece muito com
qualquer excrescência vegetal e, por isso, compreendemos
facilmente por que motivo tanta gente julga que as esponjas
são plantas e não animais. Na actualidade, as esponjas estão
a ser geralmente substituídas por artefactos de borracha e
de matérias plásticas, para uso caseiro.
Os corais e as anémonas do mar têm igualmente a aparência de
plantas, mas não o são porque reagem a estímulos externos, e
as anémonas do mar são dotadas de movimentos voluntários bem
evidentes e variados.
Para delimitar com rigor os domínios do vegetal e do animal,
não podemos falar apenas em sensações e movimentos
voluntários, tanto mais que certas plantas (a sensitiva, por
exemplo) são sensíveis quando se lhes toca, reagindo pela
retracção das suas folhas, e que outras plantas,
unicelulares, são capazes de movimentos voluntários
semelhantes, mesmo ainda mais intensos que os certos animais
unicelulares. O primeiro critério preciso de diferenciação
morfológica é que as células vegetais possuem paredes de
celulose, ao passo que as células animais são nuas. Uma
identificação grosseira quanto a natureza animal ou vegetal
pode mesmo ser obtida pela simples combustão, visto que os
tecidos animais, quanto a ordem, se envolva um cheiro
característico, como o dos cabelos queimados.
Outro critério é que as plantas são verdes por causa da
presença de umpigmento específico, a clorofila, ao passo que
os animais não são geralmente verdes. Nada, porém, nos
obriga a considerar estes Protozoários com clorofila como
verdadeiros animais. [A presença de clorofila, por si só,
não autoriza realmente a classificar o ser vivo unicelular
como vegetal, tornando-se impossível distinguir desse modo o
Protozoário da Protófita, cuja separação é puramente
convencional. Também a existência de celulose não basta, por
isso que muitos Flagelados e os Micetozoários (Mixomecetas
lhes chamam os botânicos) a possuem na sua membrana, estes
últimos apenas numa fase do seu ciclo evolutivo.] Podemos
definir "animais" como um organismo vivo que se alimenta de
substâncias sólidas e é normalmente capaz de movimentos
voluntários e de percepções sensoriais. A ameba, como se
viu, é de facto um animal em toda a acepção da palavra.

MECANISMO DA VIDA

Vida e crescimento

Antes de mais nada, um organismo deve proteger-se contra as


forças de destruição emanadas do meio exterior. Deve
defender-se do calor e do frio, dos atritos mecânicos e das
colisões. Deve escolher um lugar onde viva, livre dos
assaltos dos outros organismos. Cada acção elementar,
pequena que seja, exige um gasto de energia. Por isso, boa
provisão de energia é necessária à conservação da vida. O
organismo vivo queima combustível. O fenómeno da combustão é
a oxidação. Quando o carvão, ou seja o carbono, é queimado,
combina-se com o oxigénio do ar, produzindo anidrido
carbónico e libertando energia, sob a forma de luz e calor.
Estes dois elementos, uma vez unidos, não podem mais
separar-se a não ser à custa de energia, em quantidade igual
à que foi libertada quando da sua união.
Enquanto o carbono e o oxigénio estão separados, a energia
mantém-se latente e chama-se energia potencial. As
substâncias proteicas que fazem parte do protoplasma são
compostos instáveis contendo quantidade de energia
potencial; é a fragmentação de tais substâncias, entre
outras, que liberta a energia necessária aos fenómenos
vitais.
A nutrição, ou alimentação, garante a edificação do corpo,
compensa as perdas resultantes de gastos energéticos e
fornece o combustível necessário a novos consumos de
energia. No organismo vivo, o combustível representado pelos
alimentos, que não é utilizado, cedo ou tarde, na produção
de energia, pode servir para a construção de novo
protoplasma. Desse modo, o organismo cresce.
A edificação do protoplasma, por um lado, e a sua
destruição, por outro lado, constituem o que se domina
metabolismo, o qual é assegurado por três funções
primordiais, em qualquer organismo vivo: a alimentação
propriamente dita, a respiração (ou oxidação) e a excreção
(ou evacuação dos produtos residuais).
O metabolismo é o processo combinado da construção e
destruição do protoplasma, mas note-se que os seus dois
componentes não se devem equilibrar. Se o processo
construtivo é mais rápido que o destrutivo, se a alimentação
é abundante e é fraco o gasto de energia, daí resulta o
crescimento do organismo. Em todo o ser vivo há um limite do
tamanho a que podem chegar, e num organismo tão simples como
a ameba, quando esse limite é atingido, o corpo divide-se em
dois, o animal reproduz-se.
A vida de um organismo pode ser considerada como uma
sucessão incessante de ganhos e perdas, de que resulta
libertação de energia sob a forma de calor nos animais de
sangue quente, de luz nas larvas luminosas, nos pirilampos,
etc., de movimento e, periodicamente, de fenómenos de
reprodução.
O crescimento e a reprodução são, pois, factores essenciais
da evolução dos animais.

Animais unicelulares e pluricelulares

Se considerarmos o reino animal como um todo, reconhecemos


não só que todos os animais são constituídos por agregados
de células fundamentalmente semelhante às amebas, mas que,
além disso, nos apercebemos de uma complexidade crescente
quando se passa de um a outro animal. Podemos aceitar com
confiança a teoria de que o animal pluricelular é aparentado
e, ainda mais descendente de um unicelular ancestral. Isto
está de acordo com as descobertas dos paleontólogos e também
com o facto de que o homem e os outros animais começam a sua
vida sob a forma de uma célula única - o ovo.
Os Protozoários, nome por que se designam todos os animais
unicelulares, são em geral seres moles, de onde resulta que
não deixaram restos fossilizados, excepto quando tinham
esqueleto duro, como no caso dos Foraminíferos e
Radiolários.
Nenhuma forma de transição, entre os unicelulares e os
pluricelulares, ficou conservada no estado fóssil.
Certos seres microscópicos, a Pandorinha, apresentam-se com
um grupo de 16 e 64 células, encerradas em invólucro
gelatinoso, cada uma das quais pouco diferente da Euglena. É
como se uma Euglena se tivesse dividido e que os indivíduos
resultantes, em vez de se separarem, ficassem agrupados em
colónias. A Eudorina é semelhante, mas o agrupamento forma
uma esfera, oca, configuração que também oferecem os Volvox.
[Geralmente, ao contrário dos botânicos, os protozoologistas
consideram esses seres como animais, e não plantas,
Protozoários da classe dos Mastigóforos, ordem dos
Fitomonodíneos, família dos Volvocídeos.
Entre os Protozoários, bem diferenciados, certos
Radiolários, como o Sphaerozoon, também formam colónias. Não
é difícil imaginar que uma tal vida colonial tivesse
conduzido à divisão do trabalho, especializando-se certas
células nas tarefas de nutrição, outras na reprodução, etc.
Essa diferença, em células somáticas e reprodutoras, existe
sem dúvida nos Volvox.
Um argumento a favor dessa evolução é representado pelos
Espongiários. Esses animais são formados de células com as
mais diversas formas, tamanhos e funções, mas é possível
filtrar os tecidos de uma esponja através de uma peneira
fina e, desse modo, separaras células, perdendo cada uma a
sua configuração característica e tamanho a forma amebóide,
com os mesmos contornos irregulares e mutáveis. Há, todavia,
uma diferença importante, que reside no facto de essas
células da esponja, assim dissociadas, não poderem
sobreviver; mas deslocam-se de um lado para outro até que
encontram as suas companheiras e, reunindo-se, reconstituem
uma nova esponja!

Multiplicação celular

A divisão das células não é tão simples como a divisão da


ameba deixa supor. Cada célula consta de citoplasma, ou
substância celular principal, e geralmente de um só núcleo.
Os grânulos do núcleo reúnem-se num longo filamento
enovelado, que acaba por fragmentar em certo número de
corpúsculos chamados "cromossomas". Estes dividem-se
longitudinalmente e um representante de cada par assim
formado emigra para cada um dos pólos da célula, seguindo-se
então a divisão do citoplasma, e recebendo cada metade deste
um lote igual de cromossomas.
Sem dificuldade, podemos imaginar a série de processos
físico-químicos que devem produzir-se para a realização de
um fenómeno tão perfeito e ordenado. Esta mitose (também
designada cariocinese), como se lhe chama, tem ainda outra
significação. Os caracteres corporais ou somáticos estão, na
verdade, sob a acção de factores hereditários (ou genes)
situados nos cromossomas. É importante salientar quanto é
surpreendente que a nossa vida e a estrutura do nosso corpo,
ou a dos animais, estejam condicionadas por forças situadas
na parte central de uma célula que não mede mais do que uma
fracção ínfima do milímetro, e que seja a partir desta zona
infinitesimal que elas exercem a sua acção. Necessário se
torna considerar com atenção que pontos tão pouco
interessantes, relativamente, como o de saber se um homem
será alto ou baixo, moreno ou loiro, e outras
particularidades deste género, são determinadas por porções
do conteúdo protoplásmico do núcleo celular, que os técnicos
científicos mais modernos ainda são incapazes de localizar
sem ambiguidade e de os isolar.
Esses factores hereditários são responsáveis pela
arquitectura imutável da vida, visto que sem eles seria
impossível uma sequência ordenada. Finalmente não só a
estrutura dos animais, mas também o seu comportamento,
dependem em grande parte da composição ultramicroscópica do
núcleo das células.

Origem e evolução do sexo

Já salientamos os três instintos ou necessidades mais


importantes de qualquer animal: alimentação, reprodução e
auto-conservação. A necessidade de reprodução não está
constantemente na origem do comportamento como as outras,
mas, na estação favorável, liberta uma grande quantidade de
energia, tão poderosa que sobreleva a tudo o mais.
Conta-se que, em certa ocasião, uma manada de antílopes do
sexo masculino pastava sossegada e indolentemente. De
repente, apercebendo-se do cheiro de uma manada de fêmeas
que lhes vinha de longe, logo mudaram completamente de
atitude. Dir-se-ia que uma tempestade violenta se tinha
desencadeado! É possível que este quadro esteja um pouco
exagerado, mas ajuda-nos a entender melhor a influência
imposta ao animal pela Natureza.
A reprodução na ameba é uma função relativamente simples e
intimamente ligada com a nutrição e o crescimento. Nos
Metazoários, ou animais pluricelulares, no que respeita à
reprodução, a mesma complexidade crescente que noutros
domínios. Nos Espongiários não há órgãos sexuais
individualizados. No período da reprodução, certas células
do mesmo indivíduo funcionam como óvulo e outras com
espermatozóides, não havendo diferenciação dos sexos, em
machos e fêmeas.
Nos Celenterados existem órgãos especiais de reprodução, que
se designam por gónadas; mas nem sempre há separação dos
sexos em indivíduos distintos.
Na escala animal, os órgãos reprodutores tornam-se cada vez
mais complexos e estabelece-se uma nítida distinção entre os
indivíduos em que se formam os óvulos - as fêmeas - e
aqueles em que se originam os espermatozóides - os machos.
Os indivíduos de uma mesma espécie não se diferem apenas
interiormente em macho e fêmea, antes se torna extremamente
mais evidente a distinção entre os dois sexos. A
complexidade crescente dos órgãos reprodutores e esta
amplitude das diferenças que distinguem o macho da fêmea,
isto é, os caracteres sexuais secundários, estão
relacionados com as secreções das gónadas.
A genética moderna demonstrou que não é a alimentação nem
outros factores dependentes do meio que decidem se um
indivíduo virá a ser macho ou fêmea: compete, na verdade,
aos cromossomas esse encargo.

Caracteres sexuais secundários

Nos animais superiores [designam-se "animais superiores" os


Verebradose, nomeadamente, os mais evoluídos, os Mamíferos],
existem, em relação com a diferenciação sexual, numerosos
caracteres sexuais secundários que não estão forçosamente
ligados aos órgãos reprodutores. Como exemplo, os cornos do
veado, a juba do leão, a plumagem colorida da aves do sexos
masculino, etc.
Estes caracteres servem de estímulo emocional e contribuem
desse modo para a atracção recíproca do macho e fêmea.
Outros caracteres secundários desta natureza são os esporos
de certos galináceos, cujo macho os utiliza nos combates
para defesa do seu território. Nota-se que, nas aves, é o
macho que canta, e, por isso, considera-se o canto como
carácter sexual secundário.
Quando castrado, o veado juvenil ficará sempre desprovido de
cornos e o adulto que os tenha perdê-los-á prematuramente. O
canto das aves depende também do crescimento das gónadas ou
de certas fases deste crescimento, o qual, está relacionado
com a duração e intensidade da luz do dia. Por isso, as
aves, que cantam somente durante uma parte do ano, podem ser
induzidas a continuar a cantar, quando sejam submetidas a
uma iluminação artificial adequada.

Reprodução assexuada

Os óvulos não se desenvolvem em embriões se não forem


fecundados, mas conhece-se casos em que os óvulos por si só
se desenvolvem como se tivesse havido fecundação, isto é, a
sua união com a célula sexual masculina: é o que se chama
partenogénese ou reprodução por ovos virgens.
A reprodução assexuada desempenha um papel muito importante
no reino animal, isso não significa, que o processo seja
indispensável à geração de novos indivíduos. Todavia, mesmo
nos casos mais típicos de partenogénese, cedo ou tarde, em
que a fecundação se revela indispensável à revitalização da
descendência, e, se esta fecundação não se realiza, a
espécie fica condenada a desaparecer. Talvez este facto
ponha em evidência todo o valor do processo sexual como
estimulante vital no decorrer da existência.
Muitos outros modos de reprodução assexuada se conhece, como
a gemiparidade e a cissiparidade ou fragmentação, quase
exclusivamente ocorrentes nos Invertebrados inferiores.
Um dos casos mais bem conhecidos de reprodução por
gemiparidade é o dos Hidróides (Celenterados). São delicadas
arborescências que se encontram sobre as algas e rochedos
marinhos. Sobre cada haste forma-se um certo número de
indivíduos, lembrando flores, os quais, em vez de se
separarem, mantêm-se ligados ao progenitor. O conjunto da
colónia encerra-se num tubo córneo comum, e a cada indivíduo
corresponde um cálice córneo. De onde em onde, também sobre
o tubo córneo, aparecem excrescências que lembram ânforas e
que contém, cada uma, um indivíduo em forma de clava. Estes
dois tipos de indivíduos tão diferentes, formados na mesma
haste, desempenham funções inteiramente distintas: os que
têm a forma de flor (pólpos) dedicam-se inteiramente à
nutrição, os outros (gonozóides) à reprodução. e superfície
destes últimos, formam-se, por gemiparidade, numerosas
medusas. O processo é assexuado, mas as medusas contêm, ao
mesmo tempo, óvulos e espermatozóides. Estas células sexuais
são disseminadas no mar e as larvas ciliadas, provenientes
do desenvolvimento dos óvulos fecundados, instalando-se
sobre as algas ou nos rochedos, dando origem a novas
colónias arborescentes de Hidróides. Neste exemplo, há dois
modos de reprodução alternantes, um assexuado, o outro
sexuado, no ciclo vital, fenómeno que se designa por
gerações alternantes.

Filhos que não se parecem com os pais

Uma alternância de gerações diferentes observa-se em


diversos grupos, não apenas nos Hidróides, mas também nos
verme Trematóidios. Encontram-se igualmente descendentes
que, à nascença, não se parecem com os progenitores, nos
Equinodermes e nos moluscos, em que o estado adulto,
sedentário ou quase, é precedido por um estado larvar de
vida aquática livre; ou ainda nos Artrópodes, em que se
produz uma metamorfose parcial ou completa, de que é um
exemplo clássico a história da lagarta e da borboleta.

PROTOZOáRIOS E ESPONGIáRIOS

Protozoários

Grande parte da vasa que cobre os fundos abissais é


constituída pelo depósito dos seus resíduos. Também o seu
"esqueleto" contribuíu grandemente para a forma de massas.
Hoje os Protozoários têm grande parte na composição de
plâncton, de que se alimentam animais mais evoluídos. E,
enfim, muitos deles são responsáveis por dõenças, tais como
disenteria, dõença do sono, malária e outras menos
conhecidas. Nos mares, rios, lagos e mesmo no mais
insignificante charco, bem como na terra húmida, eles
pululam aos milhões, e é muito provável que no corpo de cada
Metazoário contenha, como parasitas, diversas espécies
diferentes de Protozoários.
Estes animais unicelulares são, na realidade, muito
complexos, pois que em nenhuma só célula se realizam todas
as funções vitais: nutrição, respiração, excreção e
reprodução!
O filo dos Protozoários compreende quatro classes:

Rizópodes
Deslocam-se como as amebas, emitindo pseudópodes;
Mastigóforos ou Flagelados
Deslocam-se na água devido ao movimento de um ou mais
flagelos situados na extremidade anterior;

Ciliados
Cobertos de cílios vibráteis, deslocando-se por movimentos
ondulatórios deste prolongamento protoplásmaticos, de
aparência pilosa;

Esporozoários
Parasitas de outros animais, e que se podem disseminar por
esporos.

Nos Rizópodes contam-se as amebas e seus semelhantes.


Vivem , na sua maioria, sobre pedras, ervas, e lodo, tanto
nas águas doces como do mar. Algumas habitam na terra
húmida, outras, como grupo importante das entamebas, são
parasitas dos animais superiores. No corpo humano podem
encontrar-se seis espécies de entamebas, principalmente no
intestino grosso. Dentre elas só é perigosa uma única -
Entameba histolítica -, que, alojando-se nas paredes
intestinais, as úlceras, provocando a disenteria amebiana.
Os Rizópodes não são células nuas, como a ameba, estando
antes protegidos por carapaças ou tecas, de diversa
natureza. Um dos mais simples é a Arcella, que segrega uma
carapaça quitinosa, globosa na parte superior e plana na de
baixo, na qual existe uma abertura por onde emite os
pseudópodes. As Diflugias estão protegidas
diferentemente, pela carcaça formada por grãos de areia que
aglutinam com secreção protoplásmica, viscosa.
Os Radiolários, absorvem a sílica da água e segregam-na sob
a forma de uma ou mais redes concêntricas, dedicadamente
recortadas, que imprimem ao seu esqueleto a bela aparência
de uma famosa renda. Caso idêntico se dá com os
Forminíferos, mas à custa do carbonato de cálcio, que
absorvem. Contudo, algumas espécies de Foraminíferos não
constituem as suas tecas do mesmo modo, limitando-se a
aglomerar grãos de areia e outros detritos sólidos, tal como
as Difflugias. A maior parte dos Foraminíferos e Radiolários
possui pseudópodes, longos e finos, que se podem dispor
radialmente ou formar rede de filamentos na qual vem
prender-se grande número de microrganismos. Todos estes
seres flutuam à superfície das águas do mar. Quando morrem,
os seus esqueletos caem lentamente, e, por acumulação.
constituem a vasa do fundo dos oceanos.
Existem algumas espécies de Radiolários em que os
indivíduos, reunidos por uma geleia, formam colónias.
Os mais característicos representantes dos Mastigóforos ou
Flagelados são as Euglenas, responsáveis pela coloração
verde das águas estagnadas. De corpo fusiforme, com cerca de
1 milímetro, esculpido por finos sulcos espiralados, possuem
um flagelo inserido na parte anterior. A coloração verde é
devido à presença de clorofila, pigmento característico das
plantas; aliás o seu modo de alimentação é idêntico ao
destas, fixando o anidrido carbónico dissolvido na água,
libertando o oxigénio e transformando o carbono em paramido,
substância próxima do amido. Ora, esta síntese só pode ser
realizada em presença da luz. Junto à base do flagelo, nota-
se uma mancha vermelha, o estigma, sensível à luz, o qual,
sob a acção desta, força o animal a deslocar-se na direcção
do máximo da luminosidade e assim pode realizar a síntese,
de que provém a sua alimentação. Deste modo, o estigma pode
ser considerado como um organóide sensorial, embora muito
elementar.
Certos organismos aparentados com as Euglena têm tendência
para viver em colónias; é o caso dos Volvox, Dinobryon e
Synura. O primeiro, particularmente interessante, consiste
numa esfera oca, formada por uma só camada de células, cada
uma das quais possui um par de flagelos dirigidos para fora.
A deslocação da colónia é provocada pelos movimentos
conjugados dos flagelos de todos os indivíduos. Por outro
lado, cada célula fabrica seu próprio alimento à custa da
clorofila, como existe uma continuidade protoplásmica entre
elas, é muito natural que o alimento seja repartido por
todas. As células conservam a sua individualidade. Certas
células dão lugar à reprodução, havendo uma divisão do
trabalho, visto as células reprodutoras terem somente a seu
cargo a propagação da espécie, e as restantes, vegetativas,
desempenharem as funções de nutrição e locomoção.
A luminescência do mar (a que, em geral, se dá a errada
designação de "fosforescência") pode ser causada por
diversos animais, mas ordinariamente é devida a um
Protozoário com o bem justificado nome de Noctiluca. É um
dos maiores unicelulares, medindo 1 milímetro de diâmetro;
de corpo esférico e transparente, com ramificações
protoplasmas à superfície, tem inseridos no bordo da boca um
tentáculo grande, digitiforme, e um pequeno flagelo,
filiforme.
Certos flagelados estão adaptados à vida parasitária, nos
animais ou nos vasos condutores da seiva dos vegetais. O
tripanossomas (Trypanosma) infestam o sangue de muitos
vertebrados, e são transmitidos aos animais por moscas
sugadoras de sangue ou por sanguessugas. A dõença do sono,
em africa, resulta da proliferação de um tripanossoma
inoculado no sangue pelas moscas tsé-tsé.
Um outro flagelado, Leishmaniose ou kala-azar. Numerosas
espécies de Flagelados vivem nos intestinos dos animais
superiores, incluindo o Homem, sem lhes causar mal. Poderão
até ter uma acção benéfica. Há um exemplo notável de
infestação pelos Flagelados que não só é vantajosa mas
essencial á vida dos hospedeiros. As térmitas comem madeira,
mas são incapazes de digeri-la sem certa acção de
Flagelados. Matando estes por esterilização das térmitas, o
que se consegue introduzindo-as numa estufa de oxigénio sob
pressão, verifica-se que elas morrem por falta de alimento,
se não forem infestadas. As térmitas juvenis alimentam-se à
custa de matérias de excreção parcial digeridas pelos
progenitores, e assim a sua infestação pelos indispensáveis
Flagelados está assegurada. Uma tal associação já não pode
ser considerada como parasitismo, mas sim como uma simbiose,
modus vivendi. A térmita depende do flagelo para a digestão
do seu alimento, e o flagelado beneficia de protecção,
assegurada pelo corpo da térmita, bem como de alimento.
Os Cilióforos ou Ciliados, também chamados Infusórios, são
os Protozoários de mais alto grau de organização. Aquele que
mais facilmente se pode obter para observação é a Paramécia
(Paramõecium), um animálculo de água doce cujo contorno
lembra a forma de sola de sapato. É revestido de pequenos
filamentos protoplásmicos, ou cílios, e apenas pela vibração
rítmica deles o animal é propulsionado em movimento
helicoidal. O corpo da paramécia possui uma grande variedade
de órgãos com funções definidas. Na parte anterior,
encontra-se uma espécie de funil, a faringe, destinado à
absorção dos alimentos, os quais percorrem uma série de
vacúolos contrácteis com função excretora. Diferentemente do
que se passa com os outros protozoários, que têm um só
núcleo, a paramécia tem dois, macronúcleo e micronúcleo,
situados no centro do corpo. Por toda superfície deste
encontram-se organóides, como pequenas agulhas aceradas, ou
tricocistos, que serve para ser projectados em ataque ou
defesa.
Um outro ciliado, muito vulgar nos pântanos e riachos, é o
Stentor, que tem a forma de funil ou trombeta, mas cuja
anatomia é essencialmente idêntica à da paramécia. No bordo
do pavilhão afunilado está inserida uma franja de cílios,
que, agitando-se, originam movimentos turbilhonares das
águas, pelo qual as finas partículas de matéria orgânica são
encaminhadas para a faringe. Na maior parte do tempo, o
Stentor mantém-se ligado, pela boca do funil, ao caule das
ervas aquáticas, mas pode desprender-se e, tomando a forma
oval, nada livremente.
Certas espécies de Stentor vivem em simbiose com pequenas
plantas; a planta fornece o oxigénio ao Stentor e este
recebe abrigo e protecção.
A Vorticella é animálclo, que se assemelha muito ao Stentor,
curto e mais arredondado, diferindo em ter um longo
pedúnculo muitas vezes maior que o seu corpo. De quando em
quando, esta haste retrai-se como uma mola em hélice,
distendendo-se depois, lentamente, impelindo para a frente o
corpo campanuliforme. Quando se toca numa Vorticella, ou se
ela está ameaçada de perigo, não somente o pedúnculo se
retrai como o bordo da campânula se pode fechar
completamente sobre a boca.
Algumas espécies de Vorticella vivem isoladamente, mas
outras podem formar grupos ou colónias. Ainda que
normalmente presas à erva aquática ou às pedras,
frequentemente estes animálculos fixam-se a conchas de
moluscos aquáticos ou ao corpo de girinos e outros animais
habitantes das águas.
No grupo dos Infusórios chamados sugadores, acinetas ou
tentaculíferos, os cílios são substituídos por ventosas,
embora os jovens animálculos sejam ciliados. Estas ventosas
servem para capturar outros Protozoários, como a Paramécia,
e sugá-los. Os infusórios sugadores são caracterizados pela
presença, na parte anterior do corpo, de prolongamentos
tentaculíformes ocos, uns aguçados na extremidade, outros
terminando por ventosa.
Tal como certos Rizópodes e Flagelados, várias espécies de
Ciliados têm vida parasita no tubo digestivo de animais
superiores. Um dos maiores, e que se presta, portanto, mais
facilmente para estudos, é a Opalina, que se encontra no
intestino da ra.
O Balantidium colii, que parasita tanto o homem como o
porco, pode provocar úlceras intestinais e é o causador da
chamada disenteria.
Na quarta classe dos Protozoários, os Esponrozoários, os
parasitas atingem o mais alto grau: todos os elementos deste
grupo são parasitas e multiplicam-se por esporos. O corpo é
secundariamente simplificado.
O animal, encontrando alimento e protecção permanece no
corpo do seu hospedeiro, perdeu os órgãos e os vacúolos
excretares e digestivos, tão característicos dos
Protozoários livres.
Praticamente, todas as espécies animais têm os seus
Esporozoários parasitas, e estes transmitem-se de um animal
a outro por meio de esporos, que são corpúsculos semelhantes
a sementes, nos quais o protoplasma está protegido por um
revestimento duro, muito resistente. Dentre os
Esporozoários, citam-se como mais vulgares as Gregarinas,
construídas por duas partes distintas, numa das quais está o
núcleo. No decorrer do seu desenvolvimento, as Gregarinas
segregam um invólucro resistente, dividem-se várias vezes e
as células resultantes, unindo-se duas a duas, dão lugar à
forma dos esporos. Estes, expelidos com as matérias
excretadas, podem vir a ser apanhados de células são gâmetas
iguais (isogamia), com forma de zigoto, os quais por
divisões sucessivas e enquistamento (esporula) originam os
esporos.
O esporozoário mais conhecido é o agente da malária
(Plasmodium), que é inoculado nos seres humanos, no estado
de esporozoíto, pela picada de um mosquito. Uma vez no
sangue, penetra nos glóbulos vermelhos, atingindo o estado
designado por trofozoíto, fase em que se desenvolve a ponto
de quase encher o glóbulo. Divide-se depois em 24
merozoítos, cada um dos quais, libertando-se (no plasma do
sangue), irá introduzir-se num novo glóbulo sanguíneo.
E assim, no período de 48 horas, pode dar-se grande
infestação, com febre violenta.
Quando um mosquito pica um dõente com malária, absorve os
parasitas, que, fixando-se na parede do estômago, aí se
desenvolve, atingindo o estado de esporozoítos, os quais se
alojam mais tarde nas glândulas salivares do mosquito. E,
assim, estão em condições de ser transmitidos ao homem.
A febre bovina do Texas é causada por um esporozoário
semelhante, mas transmitido por uma carraça.
Em todos os casos, o ciclo vital do esporozoário compreende
uma fase passada no transmissor da dõença e outra no
hospedeiro definitivo.

Espongiários

As esponjas constituem o filo ou ramo dos Espongiários.


A mais vulgar é, sem dúvida, a esponja usual (quase sempre
Euspongia officinalis). Mas o que tão vulgarmente se conhece
é apenas seu esqueleto.
A esponja de uso vulgar, quando viva, apresenta-se como uma
massa arredondada, castanha, presa às rochas do fundo do
mar, de onde é tirada pelos pescadores de esponjas.
Despojada de todos os seus elementos de natureza animal, e
limpas as fibras do esqueleto, adquire a aparência com que é
tão vulgarmente conhecida. Não possui órgãos de sentidos e,
a bem dizer, não é mais do que uma bomba hidráulica viva.
Toda a superfície do corpo tem uma infinidade de poros
microscópicos (poros inalantes), através dos quais é
aspirada a água, a qual depois sai por aberturas
superficiais, maiores, chamadas "ósculos". Toda a massa
interna é percorrida por um labirinto de canais por onde
passa a água. De onde em onde, os canais mais finos dilatam-
se formando câmaras arredondadas, tapetadas de células
particular chamadas "coanócitos". Cada coanócito consiste
numa célula arredondada e prolongada em gola, na base da
qual está inserido um filamento protoplásmico, o flagelo.
São os movimentos rítmicos dos flagelos que provocam a
corrente da água através do corpo, fazendo-a sair pelos
ósculos. A água, na sua passagem, fornece à esponja alimento
e oxigénio, e arrasta os resíduos assimiláveis.
Além das esponjas do esqueleto fibroso, como a esponja
vulgar, a maioria possui esqueleto composto de peças
individualizadas, ou espículos, de natureza siliciosa ou
calcária grosseiramente entrelaçadas.
A forma exterior que as esponjas podem apresentar é muito
variada, como a de crosta delgada, aderente às rochas ou a
algas, de massa irregular, arborescente ou não, de leque,
taça, etc. É igualmente cariada a coloração, que pode ser
branca, amarela, vermelha, violeta, castanha, verde e,
raramente, azul.
Na sua grande maioria, as esponjas são hermafroditas. Em
certas espécies, em que há separação dos sexos, os
espermatozóides, libertados na água, são levados pelas
correntes para uma outra esponja, dando-se a fecundação dos
óvulos, a que se segue o desenvolvimento até à forma da
larva. As larvas, ciliadas, nadam no mar cerca de 24 horas
e, fixando-se, transformam-se em diminutas esponjas,
pequeníssimas crostas, muito difíceis de ver. Noutras
espécies, a fecundação é externa, sendo os óvulos e os
espermatozóides libertados na água antes da fecundação. Além
de se reproduzirem sexualmente, as esponjas podem
multiplicar-se assexuadamente, por cissiparidade (divisão em
duas partes ou binária). Em certas espécies este último
processo é mais frequente, e conhecem-se casos em que as
novas esponjas se formam automaticamente pela cisão do
corpo.
As esponjas de água doce (Spongilla) têm uma reprodução
assexuada especializada, ou gêmula. As gêmulas são esféricas
e constituídas por um duplo invólucro de quitina contendo no
interior uma massa informe de células; por isso, mesmo que
os lagos e rios sequem ou gelem, o conteúdo das gêmulas fica
intacto, o que representa uma salvaguarda para as espécies
de água doce.
As esponjas de água doce são geralmente verdes, mas podem
ter coloração amarela-pálida, quando vivem fora da acção da
luz. A coloração verde é, na realidade, devida à presença de
plantas unicelulares, que vivem nos tecidos das esponjas.
O modo de alimentação das esponjas não é perfeitamente
conhecido. Supõem-se que se alimentam quer de partículas de
matérias em decomposição, quer das bactérias. O que se
verifica é que se desenvolvem melhor em águas poluídas por
corpos em putrefacção.
Podem encontrar-se esponjas em quase todas as regiões
costeiras, excepto onde haja areia; mas estas esponjas são,
em geral, pequenas e de contornos irregulares. As formas
mais simétricas e belas existem em águas profundas,
ultrapassando os duzentos metros.
A colheita de esponjas era praticada apenas por
mergulhadores sem apetrechamentos especiais e hoje são
utilizados mergulhadores providos de escafandro.
Nas águas mais profundas, emprega-se uma espécie de draga, a
gangava: mas nalguns sítios é feita apenas por meio de
forquilhas de ramos curvos, com cabo de seis metros. Esta
pesca, chamada ao espelho", pratica-se em barcos, usando
baldes, cujo fundo é substituído por um vidro, que permite
ver até à profundidade de dez metros.
No decorrer dos últimos 50 a 60 anos, fizeram-se numerosos
ensaios com o fim de cultivar as esponjas em parques,
baseando-se em que elas podiam ser cortadas em pequenos
fragmentos, cada um dos quais daria uma nova esponja. A
idéia basilar era colocar cada fragmento sobre pedras
dispostas em fila no fundo do mar. Em teoria o caso é
possível, mas as dificuldades práticas são inúmeras.
As esponjas são animais multicelulares, de organização
muito primitiva, vivendo agregadas em colónias. Alguns
têm esqueleto mole de espongina, utilizáveis de vários
modos pelo homem, outras apresentam esqueleto duro,
calcário ou silicioso.]

CELENTERADOS

O filo do Celenterados abrange animais de tão grande


diversidade de aspecto com as hidras de água doce, os
hedróides marinhos, que lembram musgos, as delicadas medusas
e as frágeis anémonas, assim com os corais, tão semelhantes
às rochas. Dois factores que lhe são comuns distinguem-nos
nitidamente de todos os outros animais: O corpo formado por
dois folhetos e a existência de células urticantes. O corpo
é um simples saco com uma única abertura, cuja parede tem
apenas duas camadas de células, a ectoderme, externa, e a
endoderme, interna, às quais se interpõe uma camada sem
estrutura celular, a mesogleia. Para os Celenterados, a
designação de animais diploblásticos, ou com dois folhetos.
Este facto diferencia-os realmente de todos os outros
animais, quer se trate de Vermes, Crustáceos, Insectos,
Moluscos e Vertebrados, cujos corpos se edificam a partir de
três folhetos fundamentais e se designam animais
triploblásticos.
Nos Celenterados, os dois folhetos mantém-se
individualizados durante toda a existência, ao passo que,
nos animais triploblásticos, os três folhetos são apenas
reconhecíveis, em geral, no embrião, porque perdem a sua
individualidade precocemente, em virtude da multiplicidade e
complexidade dos órgãos aos quais dão origem.

Células urticantes

O segundo ponto pelo qual os Celenterados se distinguem de


todos os animais consiste na existência de células com
nematocistos, também chamadas células urticantes, devido ao
facto de o veneno que produzem causar efeito comparável ao
dos pêlos das urtigas.
Ainda que todos os Celenterados, excepto os Ctenóforos, as
possuam, a sua acção é mais conhecida por intermédio das
medusas, cujo contacto produz a sensação de queimadura, que
toda a gente receia e procura evitar. Certas espécies
tropicais podem provocar até acidentes fatais.
As células urticantes (nematoblasto ou cnidoblastos), estão
distribuídas por toda a superfície da medusa, principalmente
nos tentáculos que cercam a boca. Cada uma contém o chamado
nematocisto, uma pequena vesícula cheia de líquido
urticante, na qual um longo filamento oco está enrolado em
hélice. A célula da ectoderme possui na extremidade um curto
estilete, o qual, sendo tocado, se contrai e provoca o
desenrolamente do filamento helicoidal; este projecta-se
violentamente, perfurando os tecidos do animal ao seu
alcance e inoculando-lhe o líquido urticante. Se é animal
pequeno, o veneno, penetrando-lhe no corpo, paralisa-o e
pode mesmo matá-lo.
Tal como as medusas, as anémonas do mar, os corais, e outros
animais com eles aparentados, apesar do seu aspecto
inofensivo, dos hábitos sedentários, das cores maravilhosas
e formas fascinantes, não deixam de ser como fortalezas
submarinhas, eriçadas de uma artilharia mortal, constituindo
ameaça constante para todos os pequenos seres que nadam nas
proximidades.

Alternância de gerações
Entre os numerosos seres que vivem nos rochedos e se vêem na
baixa-mar, considerados como pequenas algas, há os
Hidróides. Exemplos: Sertularia e Obelia. Cada haste, e suas
ramificações, é composta de muitos segmentos articulados,
dispostos em ziguezague. Cada um deste termina por um cálice
contendo um pequeno pólipo, semelhante a uma flor delicada,
que pode expandir-se para o exterior ou retrair-se por
completo para dentro do cálice. Cada um destes pequenos
pólipos é absolutamente idêntico a uma hidra de água doce, a
qual, tem vida independente.
Toda a colónia de pólipos começa a sua vida sob a forma de
uma larva oval, que nada livremente durante um certo tempo e
acaba por fixar-se na superfície de uma pedra. Então opera-
se esta curiosa transformação: na extremidade livre da
larva, abre-se um orifício redondo e em volta dele forma-se
uma coroa de tentáculos. Este jovem pólipo segrega um
invólucro formando uma substância dura, semelhante a um
revestimento córneo. Pouco depois, uma nova ampola forma-se,
lateralmente, no tubo córneo e desenvolve-se até atingir o
tamanho do próprio pólipo, constituindo um botão ou gomo
deste, o qual originará outro gomo e assim sucessivamente.
De modo que, sucedendo-se os gomos com rapidez, ora de um
lado ora do outro, constituí-se assim uma haste em
ziguezague.
Mas enquanto esta haste se desenvolve, origina-se uma outra
forma de crescimento. Na base do pólipo original, filamentos
tubulares, semelhante a raízes, começam a crescer sobre a
superfície da pedra a que ele se fixou, e, em certos
intervalos, brotam ramos, cujo desenvolvimento é idêntico ao
que constituiu a haste principal. E assim se forma a pequena
moita marinha que constitui um hidróide.
Cada pólipo, no seu cálice córneo, não é mais do que um
pequeno saco cujas paredes são constituídas por duas camadas
de células (ectoderme e endoderme), separadas por uma lâmina
de mesogleia, tendo numa extremidade a boca cercada de
tentáculos. Cada um está em íntima ligação com o pólipo
vizinho, de modo que milhares de pólipos de uma Sertularia
formam um todo celular. Passado um certo tempo, a este
crescimento puramente vegetativo, ocasionado pela
gemiparidade de novos pólipos, segue-se uma outra espécie de
desenvolvimento completamente diferente. Em certos pontos
dos ramos, aparecem novos cálices, mas com a forma de uma
ânfora. No eixo de cada um deles encontram-se uma haste
carnuda, sobre a qual se formam minúsculas verrugas, que
depressa tomam a forma discóide e se desprendem, flutuando
no mar. A sua vida é relativamente curta, mas, antes de
morrer, dissiminam na água numerosos ovos que, fecundados,
se transformam em larvas arredondadas ou ovais.
A Sertularia tem, pois, dois modos de reprodução: por um
lado a gemiparidade e formação de ramos, que constituem a
geração assexuada, vegetativa ou hidróide, e, por outro
lado, a produção de medusas livres, constituindo a geração
sexuada, medusóide. A existência da Sertularia operculata é
constituída pela alternância de gerações hidróides e
medusóides.
O filo dos Celenterados abrange as seguintes divisões:

Ordem dos Hidrozoários (de hidro e zoon)


Amimais com aspecto de hidra), que abrange os hidróides
marinhos, os admiráveis sifonóforos, e a pequena hidra de
água doce.
Ordem dos Cifozoários (de scyphos, taça, e
zoon)
Animal), que abrange as medusas conhecidas por "alforrecas".
Ordem dos Antozoários (de anthos, flor, e zoon)
animal), que abrange as anémonas do mar, as madréporas e os
diversos coraliários.
Ordem dos Ctenóforos (de cténos, pente, e
phorein, trazer)
Que compreende, entre outros, os beroés e a esplêndida
cinta-de-vénus. Os Ctenóforos são, como se disse, os únicos
Celenterados que não possuem nematocistos.

Nos Hidrozoários, as gerações hidróides e medusóide


estão sempre representadas, mas a hidróide é a mais
importante e mais evidente; nos Cifozoários, pelo contrário,
predomina a geração medusóide, e a hidróide é quase nula.
Nos Antozoários existe apenas a geração hidróide; os pólipos
dos representantes desta ordem assemelham-se de tal modo aos
dos Hidrozoários que não há dúvida acerca do parentesco dos
dois grupos.

Hidrozoários

Cada pólipo alimenta-se individualmente mas como existe uma


continuidade celular entre todos os indivíduos de uma
colónia, é provável que o alimento possa passar de um para
os outros. Há aqui uma nítida divisão do trabalho. Em cada
colónia existem dois tipos de indivíduos: pólipos
encarregados da nutrição (gasterozóides) e pólipos
reprodutores (gomozóides), que originam medusas. Os
gasterozóides desempenham a sua única função extroflectindo-
se e agitando os tentáculos na água ambiente, até que
pequenos seres se aproximem, e, tocando-lhe, estimulem as
células urticantes, cuja acção os imobiliza. Então todos os
tentáculos se encurvam, encaminhando estas partículas
alimentares para a boca.. Não possuem outros movimentos, nem
órgãos sensoriais além de algumas células nervosas isoladas,
espalhadas entre as ectodérmicas.
A presença do alimento na cavidade do corpo do pólipo ou
cavidade gástrica, estimula as células da endoderme a
segregarem sucos digestivos. Os resíduos não digeridos são
expulsos pela boca.
Nem todos os Hidrozoários são sedentários e fixos.
O grupo dos Sifonóforos constitui principalmente colónias
flutuantes. Em Diphyes, dois pólipos, desprovidos de
tentáculos, transformam-se em flutuadores, que, situados na
extremidade de uma haste delgada, o estolho, mantêm em
flutuação toda a colónia, constituída por pólipos de
nutrição e de reprodução. Os Physophora possuem duas fiadas
de flutuadores deste tipo, ficando os outros pólipos
imediatamente abaixo, com longos tentáculos urticantes, que
se movem na água, prontos a reter tudo quanto contacte com
eles.
Em Physalia, a famosa "caravela", os flutuadores locomotores
são substituídos por uma grande bexiga de ar, que flutua à
superfície da água, abaixo da qual estão agrupados grandes
pólipos de nutrição, em forma de ampola, assim como extensos
tentáculos fortemente carregados de células urticantes.
Mas enquanto que Diphyes e Physophora se deslocam devido à
contracção rítmica dos seus flutuadores, Physalia flutua ao
sabor das correntes e dos ventos. Em cada Velella, o modo de
locomoção é aperfeiçoado, desdobrando em estandarte, faz de
verdadeira vela.

Cifozoários

A medusa típica tem a forma de uma umbela, com a superfície


lisa e todos os órgãos essenciais situados ao longo do bordo
da umbela ou na face inferior. A mesogleia gelatinosa do
pólipo desenvolve-se consideravelmente, tornando-se esponja,
com os interstícios cheios de água. No corpo de uma medusa
há 99 por cento de água. Do bordo da ameba pende uma franja
de pequenos tentáculos, e os cantos da boca, situada no
centro da face inferior, prolonga-se por quatro grandes
tentáculos, armados de números nematocistos. As células
reprodutoras encontram-se também na face inferior. Em todo o
contorno do bordo da umbela encontra-se, com intervalos
regulares, órgãos sensoriais de estrutura simples, que
servem para manter o equilíbrio e são sensíveis à luz. O
comportamento das medusas dependem, em grande parte, das
circunstâncias exteriores relacionadas com as condições
físicas e químicas da água, luz e outros factores, os quais
determinam as actividades do animal.
O facto de se encontrarem grandes aglomerações de medusas
não significa que elas tenham instintos gregários ou
sociais. As grandes populações são devidas à acção das
correntes.
O modo de reprodução é da sua simplicidade extrema, como em
todos os animais. Logo que os órgãos reprodutores atingem a
maturação, o seu conteúdo, óvulos e espermatozóides,
difunde-se no mar e dá-se a fecundação. O ovo fecundado
transforma-se numa larva ciliada, que nada durante um certo
tempo, antes de se afundar e fixar a uma pedra ou rochedo.
Dá-se em seguida o aparecimento da boca, rodeada de
tentáculos, na extremidade livre. Este estado, designado por
"cifóstoma" representa o estado hidróide da medusa e pode
confundir-se com um pólipo nutritivo de Sertularia. Mas, em
lugar de formar gomos lateralmente, a gemiparidade é
transversal
Pouco depois de formado o primeiro anel de tentáculos, um
segundo forma-se imediatamente abaixo, ao mesmo tempo que o
corpo se estrangula entre os dois. Um terceiro e quatro
anéis de tentáculos aparecerão, e assim sucessivamente, até
que o cifóstoma, com uma série de 1 centímetro de
comprimento, marcado por uma série de anéis de tentáculos e
de estrangulamentos entre eles, fica semelhante a uma pilha
de discos ou pires com o bordo franjado.
Cada um destes desprende-se do conjunto e, deslocando-se na
água, constitui uma medusa.
Todas as medusas são marinhas, com excepção de uma,
Graspidacustes, que vive em lagos e rios. Raras medusas são
fosforescentes, como Pelagia noctiluca. São pelágicas, isto
é, nadam livremente, salvo poucas excepções.

Antozoários

Os pólipos dos Antozoários têm forma semelhante à dos


Hidrozoários, mas com a diferença importante de estar a
cavidade gástrica dividida por septos transversais e de ser
precedida de faringe tubular. Os Antozoários são quase
exclusivamente marinhos; apenas alguns vivem nas águas
salobras, mas nenhuns são dulciaquícolas. Não possuem órgãos
sensoriais particulares e a reprodução faz-se por meio de
ovos fecundados, que originam larvas ciliadas, as quais se
desenvolvem directamente. Todos são sedentários, mas há uma
anémona, Minyas, cuja base do corpo está transformada em
câmara pneumática, o que lhe permite nadar livremente à
superfície do mar. As anémonas do mar são bem conhecidas,
pelo menos no seu aspecto exterior, visto que muitas se
encontram nas costas marinhas e podem ser observadas quando
as marés baixam.
De grande variabilidade no seu comportamento, podem certas
espécies permanecer indefinidamente no mesmo lugar, desde
que as condições sejam favoráveis, mas a maior parte muda de
local, e outras raramente se mantém no mesmo sítio. O modo
de locomoção é muito variado. O mais vulgar consiste em
movimentos do disco da base, idênticos aos que se observam
no caracol.
Os indivíduos de algumas raras espécies movem-se por meio de
sulcos abertos ao longo do corpo. Certas espécies de
anémonas destacam-se do substrato, e, enchendo-se de ar,
deixam-se levar pelas correntes; outras, nas mesmas
condições, flutuam com a coroa de tentáculos para baixo.
Algumas caminham apoiando-se nos tentáculos, outras
progridem em movimentos que lembram saltos, e, ainda em mais
raras espécies, por movimentos, como chicotadas dos
tentáculos, que constituem um modo estranho de natação.
Basta escolher uma poça de água entre rochedos, apanhar ali,
na maré vazante, algumas anémonas do mar, e colocá-las ao
lado umas das outras, abandonando-as em seguida.
Primeiramente, manter-se-ão onde foram colocadas, mas horas
depois de feita a observação, na altura em que a maré sobe,
verificar-se-á que elas se dispersaram no fundo da poça.
Comparável á variabilidade dos seus modos de locomoção é a
multiplicidade do seus processos de reprodução. Cita-se
primeiro a habitual reprodução sexuada. As anémonas do mar
são hermafroditas, produzindo óvulos ou espermatozóides, e,
por vezes, uns e outros, ao mesmo tempo. Os óvulos podem,
assim como os espermatozóides, ser dispersos no mar, onde se
dará a fecundação, ou então, ser fecundados e desenvolver-se
no interior do próprio corpo da anémona.
Certas espécies reproduzem-se em determinada estação, outras
durante o decorrer do ano. Além da reprodução sexuada,
verificam-se numerosas formas de reprodução assexuada.
Certas anémonas dividem-se (divisão cissípara)
longitudinalmente, originando dois indivíduos perfeitamente
constituídos; outras, transversalmente, sendo esta cisão
precedida do aparecimento de um anel de tentáculos em volta
do corpo, logo abaixo da linha por onde hão-de separar-se as
duas anémonas.
Em certas espécies, jovens indivíduos produzem gomos
(divisão gemipara) no bordo da boca, e conhecem-se também
casos em que as anémonas, deslocando-se, deixam fragmentos
do disco da base, o qual regenera uma nova anémona (divisão
por fragmentação).
Proliferando de tal modo, seria um flagelo se não tivesse
tantos inimigos. Em primeiro lugar, os mudibrânquios,
Moluscos desprovidos de concha, conhecidos vulgarmente por
lesma do mar. Dentre eles, há um de 5 centímetros e de cor
amarela viva, difícil de ver porque se confunde com o meio,
e que se encontra frequentemente nas costas marinhas sob as
algas ou sobre os rochedos, rõendo esponjas e anémonas. As
lesmas do mar devem ter poderosos órgãos digestivos. Parece
não lhes causar danos alimentarem-se de tecidos de esponjas
cheios de espículos siliciosas ou calcária, ou dos tecidos
das anémonas carregados de órgãos urticantes. Devem-se
citar-se também, como inimigos desta, as estrelas do mar, e
Peixes de espécies diversas, como o badejo e a pescada,
certos peixes chatos e os Picnogonídeos ou aranhas do mar,
que se encontram muitas vezes ao nível da maré baixa. Aliás,
não se exclui o canibalismo como causa possível da morte.
podendo as anémonas mais fracas ser devoradas por outras.
Apesar de tantos perigos, certas anémonas têm atingido muita
idade, sendo conhecido o caso, de um grupo da anémonas que
viveu em cativeiro cerca de 100 anos.

Ctenóforos

Estes "portadores de pentes" são difíceis de classificar.


ainda que superficialmente se assemelhem a medusas, não
possuem células urticantes e deslocam-se por contracções do
corpo. Podem ser ovóides (Beroé), esféricos (Pleurobrachia),
ou, como a magníficacinta-de-vénus (Cestus), em forma de
fita.
São muitas vezes encontrados formando bancos, deslocando-se
junto à superfície das águas, transparentes, gelatinosos,
iriçados ao sol e luminescentes à noite. Os pequenos
Peurobrachia, semelhantes a groselhas verdes, transparentes,
possuem um par de longos tentáculos plumosos, armados de
numerosas e pequenas ventosas, com as quais capturam o
alimento. Cada indivíduo tem oito faixas em forma de
crescente, dispostas segundo os meridianos do corpo, nas
quais se encontram palhetas vibráteis semelhantes a pequenos
pentes, que pelo seu movimento provocam a propulsão do
animal. Num pólo do corpo, encontra-se a boca, à qual se
segue uma faringe estreita que conduz ao estômago, muito
complicada, com numerosas ramificações em fundo de saco.
Um Ctenóforo do mar Vermelho, Tialfiella, só nada nos
estados precoces de sua existência, tomando depois uma forma
achatada e arrastando-se sobre o fundo. Sugeriu-se, por
isso, que se poderia estabelecer um elo entre os
Celenterados e os Vermes chatos ou Platelmintas.

Os vermes citados na presente exposição são reunidos sob a


designação de Vermes Ortossomas, podendo os Foronídeos, os
Briozoários e os Braquiópodes, por um lado, os
Enteropneustas e os Equinodermes, por outro, ser agrupados
sob o nome de Derossomas. Neste, que se podem relacionar com
os Poliquetas tubículas, a estrutura fundamental é
obscurecida principalmente por uma curvatura do tubo
digestivo, que aproxima a boca do ânus.
Aqui apenas examinaremos os animais pertencentes aos filos
seguintes:

Anelídeos (vermes anelado: Poliquetas ou minhocas-


marinhas, Oligoquetas ou minhocas-terrestres, e Auetas,
Hirudíneos ou Sanguessugas);
Gefírios (Esquilos, Sipúnculos e Bonélias);

Rotíferos (Vermes portadores de uma "roda" vibrátil);

Gasteróticos (Vermes com cílios ventrais);

Nemertíneos (Vermes em forma de fita);

Platelmitas (Vermes chatos);

Nematóides (Vermes redondos);

Acantocéfalos (Vermes com tromba armada de espinhos);

Quetognatas (Vermes com boca guarnecida de sedas).

Todos os representantes destes diversos filos têm todos um


carácter comum: o corpo não é composto de dois folhetos e
sim de três camadas celulares distintas (Triplobásticos).
Há, portanto, aqui um processo nítido em relação aos
Celenterados, porque a presença de um terceiro folheto
(mesoblasto) origina uma especialização mais elevada.
Os vermes mais evoluídos têm o sistema circulatório
definido, sistema nervoso central com cérebro elementar e
tubo digestivo com órgãos anexos. O grupo mais abundante é o
Anelídeos, que abrange, além de vermes anelados marinhos,
cobertos de numerosas sedas (Poliquetas), os que vivem em
terra ou na água doce, com poucas sedas, (Oligoquetas), bem
como um grupo de parasitas (Mizostomatídeos) e o das
sanguessugas, sem sedas (Aquetas ou Hirudíneos).

Anelídeos

O grupo mais importante é o dos Oligoquetas, por abranger as


minhocas, tão úteis à agricultura. Elas são tão conhecidas
que não é necessário descrever o seu aspecto, lembrando,
contudo, que o corpo está dividido num certo número de anéis
ou segmentos, cada um dos quais possui vários pares de sedas
implantados na pele. Passando o verme entre os dedos polegar
e indicador, de trás para diante, ao arrepio das sedas, pode
nitidamente sentir-se a sua presença. Graças a elas o verme
pode mover-se ou fixar-se pela extremidade posterior quando
um dos seus inimigos pretende arrancá-la do solo. Próximo da
extremidade anterior, numa zona anelar, a pele espessa-se,
formando um anel chamado "clitelo", que marca a posição dos
órgãos reprodutores, constituindo esse espaçamento uma
espécie de glândula capaz de segregar um casulo para os
ovos. As minhocas são hermafroditas, mas nelas não se dá a
auto-fecundação.
É frequente ver nos jardins, de manha cedo, minhocas em
cópula; saídas de buracos vizinhos a cujos bordos continuam
presas pela cauda, mantendo-se unidas intimamente, ligadas
por clitelos.
Elas engolem grandes quantidades de terra, digerindo as
matérias orgânicas, e evacuando-as sob a forma de rolhões.
As minhocas revolvem actualmente cerca de 25 toneladas de
terra por hectare, e são, por isso, um precioso auxiliar do
agricultor. Não somente a revolvem e misturam, como também a
arejam, crivando-a de buracos até à profundidade de 2 metros
e meio. Hoje em dia, essa quantidade é considerada muito
baixa, acredita-se que a profundidade seja maior. [No fundo
do mar, as galerias escavadas pelo verme, têm a forma de U,
com um orifício afunilado e outro destinado à saída dos
dejectos.]
As minhocas não possuem órgãos de sentidos visíveis: não têm
olhos, mas são estimuladas pela luz forte; não têm narinas,
mas possuem delicado olfacto; não têm ouvidos, mas reagem à
menor vibração transmitida pelo ar ou pela terra. A
consideração de alguns destes factos é suficiente para
concluir que os órgãos dos sentidos diferem
consideravelmente de um grupo para outro.
Os Poliquetas, ou vermes marinhos, distinguem-se das
minhocas por numerosas características, como a cabeça
distinta, geralmente provida de certo número de palpos ou
tentáculos e, por vezes, de um penacho de sedas. Também
podem reconhecer-se, exteriormente, regiões torácica,
abdominal e caudal, estando o corpo munido de brânquias
respiratórias, cirros, ou seja, uma espécie de órgãos de
tacto digitiformes, e, frequentemente, de élitros ou escamas
protectoras. Podem possuir olhos, cuja estrutura vai da
simples mancha pigmentar ao órgão mais complicado, com
cristalino. ao longo do corpo estão dispostos, aos pares, os
"pés" ou parápodes, de estrutura complexa. Os sexos são em
geral separados, mas os processos de reprodução variam muito
e raramente são simples. Assim, em Nereis, principalmente,
na minhoca que os pescadores empregam como iscas, os dois
terços posteriores do corpo sofrem uma transformação
completa na época da reprodução, e, reunidas em grandes
massas à superfície das águas, descarregam os produtos
sexuais, após o que, em geral. morrem.
Em Nereis caudata o processo é muito diferente. O macho e a
fêmea vivem no mesmo tubo e nele são fecundados os ovos. O
macho incuba os ovos, e a fêmea, enfraquecida pela postura,
é devorada por ele.
Nereis dumerili é polimorfa, ou, por outras palavras, os
indivíduos de uma mesma espécie podem ser separados num
certo número de formas distintas; umas vezes, os machos são
pequenos e as fêmeas grandes, outras, sofrem transformações
dos dois terços posteriores do corpo e enxameiam à noite.
O Poliqueta mais célebre é o Palolo, que vive ao largo da
ilha de Samoa. Em período determinado do ano, a parte
posterior do corpo degenera, transformando-se num longo saco
cheio de produtos sexuais, que em dada altura se desprende,
acabando por enxamear à superfície das águas. Nesta ocasião,
os indígenas de Samoa recolhem-nos e alimentam-se com eles.
Existe uma estreita relação entre estes enxameamento e as
fases da Lua. Outros vermes estão sujeitos a regularidade
nas suas actividades sexuais, igualmente reguladas pelo
ciclo lunar. São chamados vermes-calendários.
Outra característica dos Paliquetas e o hábito de se meterem
na areia, na quitina, de muco ou mesmo de calcário, o que os
faz assemelhar, pelo exterior, a moluscos com concha. Os
Poliquetas que se metem na areia são bem conhecidos pelos
tortilhões que deixam nas praias e se observam na baixa-mar.
Certos construtores de tubos vivem em colónias, podendo dar
lugar à forma de consideráveis bancos de areia.
Os Mizóstomas, ou Vermes de boca em ventosa, constituem um
pequeno grupo de vermes achatados, em forma de disco,
parasitas de outros animais, particularmente de Equinodermes
da classe dos Crinóides.
Um outro grupo importante de Anelídeos, os Hirudíneos
(Aquetas) ou Sanguessugas, têm papel que interessa à vida do
homem, em parte por poderem fixar-se ao corpo e sugar o
sangue e em parte por serem utilizados com fins terapêuticos
(sangrias). [Actualmente, extraem-se deles substâncias
anticoagulantes, usadas em medicamentos.]

Gefírios

Os Gefírios são animais que não têm parentesco evidente com


nenhum grupo. Os ingleses chamam-lhes "brige-worms" ou seja
Vermes-ponte, porque se julgava constituírem um elo ligando
os Anelídeos aos Equinodermos. As larvas assemelham-se às
dos Anelídeos, mas os adultos não revelam vestígios de
segmentação. Possuem um característico anel nervoso
esofágico e um cordão nervoso ventral.
O Equiuro (Echiurus) mede 15 a 25 centímetros e vive metido
na areia ou na vasa. O seu corpo, que é em forma de saco
alongado, lembrando um chouriço, possui na boca um lobo
espatulado e uma coroa de ganchos em torno da extremidade
posteriore.
A Bonélia (Bonelia) tem igualmente o corpo em forma de saco,
mas o lobo labial forma uma espécie de longo tentáculo,
bifurcado na extremidade, o qual, na fêmea, pode atingir
mais de um metro de comprimento. O macho é quase microscópio
e vive parasitariamente no esófago da fêmea.
Os outros representantes deste grupo, os Sipúnculos, são
animais que lembram uma salsicha, medindo até 30 centímetros
de comprimento e vivendo na areia, na vasa ou em buracos nos
rochedos. Há aqui, em suma, uma especialização manifesta,
determinada pelos hábitos, que teve como resultado a
evolução de um pequeno grupo de animais de forma insólita e
afinidades duvidosas.

Rotíferos ou Troquelmintas

Os Rotíferos despertam presentemente muito menos interesse


do que em épocas passadas, em que faziam as delícias dos que
se serviam dos primeiros microscópios para penetrar num novo
mundo de vida e beleza. Um exemplo é uma Melicerta
construindo o seu tubo protector de lama ou de pedras; e não
é menos maravilhoso o ritmo das suas "rodas". Abundando na
água doce, embora alguns sejam marinhos, constituem um
material de colheita fácil. A transparência do corpo permite
ver em plena acção todos os órgãos internos.
Os Rotíferos são diminutos animálculos, geralmente
microscópicos,, nos quais a parte anterior do corpo está
transformada num disco retráctil, guarnecido de uma ou duas
coroas de fortes cílios. É o movimento destes que dá a
impressão de rodas em rota rápida. A parte posterior do
corpo afila-se em cauda bifurcada, ou pé, que permite a
fixação do animal às ervas ou pedras.
Em certas espécies, as "rodas" são utilizadas com fins
natatórios e nutritivos, visto que, ao mesmo tempo que
provoca a propulsão do animal na água, precipitam os
alimentos na boca. Aí são separados, com os machos raros e
degenerados, só existentes no Inverno. Muitas vezes as
fêmeas são partenogenéticas. Os ovos são de dois tipos: os
ovos de Verão, com casca fina, que, chegado o Inverno, se
desenvolvem sem serem fecundados e originam machos (os quais
fecundando ovos do mesmo tipo, dão então fêmeas), e os ovos
de Inverno, com casca espessa, de que, no Verão, nascem
fêmeas partenogenéticas.
Os Rotíferos possuem cérebro, representado por um gânglio
nervoso, e, em geral, um ou dois olhos simples. Têm três
palpos dos pêlos sensoriais muito delicados. É espantoso ver
com que velocidade eles reagem à menor vibração; ao menor
abalo dado ao microscópio, "rapidamente, como o relâmpago, a
flor desaparece no seu tubo".
[Os Rotíferos têm o corpo pequeníssimo e transparente, e
devem o seu nome à presença, na boca, de um disco ciliado,
que, em movimento,
dá a impressão de roda giratória.]

Gasterótricos

Os membros deste filo representam um dos enigmas


desconcertantes que, de vez em quando, aparecem no reino
animal, desencorajando a interpretação e tornando quase
impossível a sua classificação.
São animálculos de água doce, que não medem mais que um
quarto de milímetro. Embora multicelulares, possuindo boca e
tubo digestivo, têm o corpo com cílios e sedas (na região
ventral e cabeça), de tal modo que lembram simples
Protozoários, Infusórios.
Na verdade são vermes Poliquetas sujeitos a neotemia, isto
é, que passam toda a sua existência e reproduzem-se sob uma
forma de tipo larvar. É, aliás, o que se passa igualmente
nos Rotíferos.
Nemertíneos

Os Nemertíneos são vermes de corpo alongado, mais ao menos


achatados, não segmentado. Não possuem parápodes nem outros
apêndices, mas são cobertos de cílios. O seu comprimento
pode variar de alguns milímetros a 30 metros (Lineus
longissimus) e apresentam coloração muito viva. Na maioria
marinhos, estes vermes, que parecem fitas, vivem metidos na
vasa ou na areia e alimentam-se de vermes tubículas. O que
os caracteriza é a existência de uma longa tromba, que pode
retrair-se em bainha mais curta, situada acima do tubo
digestivo. Esta tromba está ligada à extremidade da sua
bainha por um feixe muscular e mergulhar num líquido, que a
tromba, por vezes armada de estiletes urticantes, se
desinvagina bruscamente. Com esta espécie de arpão, o
Nemertíneo consegue extrair do seu tubo outros vermes de que
se alimentam.

Platelmintas

Os vermes chatos dividem-se em Turbelários, como as


Planárias, Trematódeos, como as Fascíolas, e Cestódeos, como
as Ténias (verme platelminta, cestódio.)
Os Turbelários, a que pertencem as planárias de água doce,
são vermes moles, chatos e inofensivos, pelo menos para o
homem. Na sua maioria, são muito pequenos, podendo, contudo,
alguns medir 3 a 4 centímetros de comprimento, e até,
excepcionalmente, atingir 30 centímetros, como o Bipalium
kewense.
Os Turbelários são marinhos, dulciaquícolas ou terrestres.
Estes últimos podem ter cores vivas e encontram-se sob
detritos vegetais em putrefacção, alimentam-se de minhocas,
caracóis e larvas de insectos. As formas aquáticas arrastam-
se sobre os rochedos e à superfície da vasa, ou nadam
agitando a água com o corpo, alimentando-se de diversos
animálculos. O nome Turbelário provém do termo latino
turbella, que designa o turbilhão provocado pelo movimento
dos cílios que revestem a superfície do corpo e graças aos
quais o animal se desloca, aparentemente deslizando.
Uma interessante excepção a este grupo de animais,
geralmente carnívoros, é constituída por Convoluta
roscoffensis, em cujo tecidos vivem algas verdes em
simbiose, o que lhes permite fazer a síntese dos hidratos de
carbono, tal como uma verdadeira planta. Os Turbelários
formam um elo entre os Celenterados e os outros
Invertebrados. O tubo digestivo tem apenas uma única
abertura pela qual são absorvidos os alimentos e por onde
também são evacuados os resíduos de digestão. Em
contrapartida, possuem órgãos de excreção primitivos,
comparáveis aos nefrídeos. dos vermes Anelídeos. E têm,
ainda, a faculdade de regeneração idêntica à dos
Celenterados. Cortando uma planária em pequenos fragmentos,
cada um reconstruirá um novo animal. Podem também, não
ingerir alimentos, durante muito tempo, mantendo-se à custa
dos seus próprios tecidos.
Os Trematódeos podem repartir-se em dois grupos:
Monogenéticos e Digenéticos. Os primeiros são parasitas
externos e os segundos parasitas internos. Diferem ainda em
que os monogenéticos se desenvolvem num só hospedeiro, (de
onde o seu nome), sem necessidade de hospedeiro
intermediário, ao passo que os digenéticos têm um ciclo
vital complexo, com diversas mudanças de forma, no qual as
larvas vivem em hospedeiro diferente daquele que o adulto
virá a parasitar.
Os Trematódeos monogenéticos são vermes achatados, lembrando
uma folha, com uma grande ventosa na extremidade posterior e
duas pequenas, anteriormente, junto à boca. Aparelho
digestivo bem desenvolvido. Corpo revestido de cutícula,
portanto desprovido dos característicos cílios dos
Turbelários. Encontram-se, na sua maioria, sobre os corpos
dos caranguejos tropicais de água doce, onde se alimentam de
todos os pequenos organismos ao seu alcance. Outros aderem à
pele dos peixes marinhos e de água doce, e também à dos
Batráquios.
Um tipo aberrante é o Polystomum, que se pode encontrar na
bexiga da ra, presos pelas ventosas, sugando o sangue do seu
hospedeiro, tendo os hábitos das espécies digenéticas..
O trematódeo digenético mais conhecido é a fasciola do
fígado, A grande fascícola, Fasciola hepática, infesta o
fígado de diversos animais, podendo atingir o homem, mas ela
é particularmente comum no carneiro. O seu ciclo vital é dos
mais complexos. O adulto vive nos canais biliares, e a sua
actividade quase se limita à nutrição e postura dos ovos. É
hermafrodita, e um só indivíduo pode pôr meio milhão de
ovos.
Cada ovo expelido com as fezes, se atinge a água,
transforma-se numa larva ciliada, o miracídio, que, nadando,
penetra nos tecidos de um Molusco gasterópode de água doce,
do género Limnea. Ali se desenvolve e, perdendo os cílios,
toma forma de saco, construindo o esporocisto. Na parede
deste, forma-se uns gomos e dar outras rédias, ou
transforma-se numa larva oval, diferente, a cercaria, que se
assemelha a um adulto com cauda. As cercarias saem da Limneo
perfurando os tecidos, perdem a cauda e enquistam-se. Quando
um cordeiro bebe água ou come erva infestada de quistos,
recomeça o ciclo vital da Fascíola. No estômago, os vermes
desquitam-se pela acção dos sucos digestivos, e a nova
Fascíola, passando através dos tecidos do animal parasitado,
atinge o fígado, em especial os canais biliares, onde se
transforma em adulto.
A dõença causada por este parasita é conhecida por "caquexia
aquosa" e causa grande mortandade entre os carneiros.
Atendendo ao alto grau de reprodução das Fascíolas, conclui-
se que grande quantidade de larvas morre antes de estas
serem ingeridas por hospedeiros, e apenas uma minoria atinge
o completo desenvolvimento.
A conhecida hematúria do Egipto, que aliás existe noutras
regiões da africa, é causada por um Trematódeo, Schistosoma
(Bilharzia) haematobia, que infesta os vasos sanguíneos do
fígado e da bexiga do homem, provocando graves hemorragias.
O grupo dos Cestódeos é igualmente nefasto. Com raras
excepções, são parasitas do aparelho digestivo dos
Vertebrados. Alguns assemelham-se aos Trematódeos, mas, de
um modo geral, nos Cestódeos são constituídos por uma cabeça
(escólex) minúscula, seguida de uma cadeia de segmentos
(proglotes), maiores ou menores, que pode atingir o
comprimento de 10 ou mais metros.
O cestódeo mais característico é a solitária, Ténia solium,
cujo adulto parasita o homem, tendo o porco por hospedeiro
intermediário. Ingeridos os ovos pelo porco, justamente com
o alimento libertam-se as larvas no seu intestino (armadas
de três pares de ganchos), de onde passam para os vasos
sanguíneos, acabando por fixar-se nos músculos, onde se
transformam em cistecerco. Este tem a aparência de uma
pequena vesícula, contendo a cabeça da ténia, com 4 ventosas
e uma coroa de ganchos, e seguida já de um pequeno pescoço.
Se acontecer que a carne de porco infestada venha a ser
comida crua ou mal cozida, o cisticerco desenvolve-se, a
cabeça da ténia, invaginada até então, desinvagina-se na
parede do intestino delgado, produzindo numerosos proglotes.
Cada um destes está cheio de milhares de ovos que são
expulsos com os excrementos do hospedeiro. O mesmo ciclo se
repetirá, quando os ovos forem ingeridos por um porco.
A solitária adulta pode ter mais de 2000 proglotes, o que
lhe dá o aspecto de uma fita branco sujo. Não possui órgãos
de locomoção, ou de sentidos, nem digestivos, nem boca.
Vivendo no líquido nutritivo do seu hospedeiro, alimenta-se
por absorção, multiplicando-se incessantemente.
Nematóides

Os Nematóides são muito numerosos e abrangem as Anguílulas,


Ancilóstomas, Triquinas, Ascaris, Oxiuros e Filárias.
Na sua maioria têm vida livre, mas há-os parcial ou
totalmente parasitas. Encontram-se tanto na terra como no
mar e na água doce. Algumas espécies de vida livre atacam
certos animais; outros são responsáveis pelas dõenças dos
cereais e diversas plantas; ainda outros alimentam-se de
matérias em putrefacção.
A lombriga intestinal ou Ascaris é o Nematóide mais
vulgarmente conhecido, muitas vezes, parasita o homem, e
principalmente as crianças. De cor esbranquiçada ou rosada,
pode medir 30 centímetros de comprimento por 5 milímetros de
diâmetro. Pulula no intestino, obstruindo literalmente a
parte delgada e causando perturbações do sistema nervoso. A
infestação é causada pela absorção inadvertida dos ovos, os
quais se desenvolvem no intestino delgado. As larvas
perfuram a parede deste, passam aos vasos sanguíneos e são
levadas até aos pulmões, de onde vêm até à boca, abrindo
caminho pelos brônquios e seguindo pela traqueia e laringe.
Engolidos novamente, voltam ao intestino, onde se tornam
adultos.
O Ancylostoma, ou verme dos mineiros, branco e filiforme,
mede cerca de 11 milímetros de comprimento. Introduz-se no
corpo humano perfurando a pele dos pés e chega até aos
pulmões, pelos vasos sanguíneo, de onde passa à boca através
da traqueia e laringe, e é novamente engolido. Chegado ao
intestino, prende-se a uma velocidade da parede e suga o
sangue, provocando hemorragias perigosas. Este mal é
conhecido por "clorose do Egipto", "anemia dos números" ou
ainda "anemia intertropical".
O mais terrível dos Nematóides é o responsável pela
Triquinose. A Trichina vive nos músculos do porco e é pela
absorção da carne mal cozida que ela se transmite ao homem,
no qual se mantém sob a forma de quisto. Estes quistos
acumulam-se em tal quantidade nos músculos, principalmente
no diafragma, língua e olhos, que, originando paralisias,
causam a morte.
Existem remédios contra os Ascaris e Ancilóstomas, mas não
para as Triquinas.
A cozedura da carne, o uso do calçado e uma grande higiene
têm reduzido considerávelmente, nos países civilizados, o
perigo dos Nematóides.
[Os Nematóides têm o corpo cilíndrico, munido de uma
tromba extroflectível, que serve de órgãos de ataque e
defesa.]

Acantocéfalos

Os Acantocéfalos constituem um grupo de animais de tal modo


transformados pela adaptação à vida parasitária que as suas
afinidades são ainda mais obscuras do que as dos
representantes dos grupos anteriormente considerados.
Possuem trombas, armadas de ganchos curvos, e não têm órgãos
digestivos, sendo o alimento absorvido pela pele.

Quetognatas

Estes vermes, que se assemelham a pequenas flechas (por isso


são designados em inglês por "arrow-worms", fazem parte do
imenso mundo, constituído por seres de tão diversa natureza,
que é o plâncton.
Carnívoros vorazes, atacam medusas, pequenos crustáceos,
embriões de peixe, mas são presa de numerosos adultos.
O corpo transparente, em forma de torpedo, mede 15 a 50
milímetros e está munido de 2 pares de pequenas barbatanas
laterais e uma caudal horizontal. A cabeça tem a forma de
capuz e é guarnecida de vários ganchos falciformes, cujas
pontas convergem para a boca. Quando se precipita sobre uma
presa, os ganchos afastam-se, ao mesmo tempo que a boca se
abre.

Os Helmintas e os seus efeitos


na saúde humana

Os Platelmitas e os Nematelmintas, abrangidos na designação


colectiva de Helmintas, não são exclusivamente parasitas,
mas a maior parte deles vive noutros animais, que lhes
prestam abrigo. Supõe-se que estes parasitas provieram de
formas livres, tornadas "comensais", isto é, companheiros de
mesa, de outros animais.
Os efeitos do parasitismo tanto se manifesta no próprio
parasita como no hospedeiro. Uma simples solitária pode
reduzir consideravelmente a nutrição do homem; as lombrigas,
além de causarem estado dõentio, podem dar origem a ataques
de urticária; os ancilóstoma perfuram os tecidos e as
paredes dos vasos sanguíneos, provocam hemorragias, e podem
ser causa de grave anemia.
As lesões podem dar lugar a graves infecções e constituem
porta aberta para a entrada de muitos microrganismos
causadores de dõenças graves, que, por vezes, se alojam até
nos olhos ou no cérebro, nos vasos sanguíneos e nos
estreitos canais linfáticos. No caso da obstrução desses,
pode dar-se a coagulação da linfa em certas regiões do corpo
e o local afectado incha excessivamente, dando lugar a
elefantíase.
Os ovos espinhosos de certos Trematódeos do sangue,
chistossomas, perfurando as paredes do recto ou da bexiga,
podem ser os responsáveis de disenteria e hematúria. Uma
infestação profunda de parasitas é sempre prejudicial ao seu
hospedeiro, mas uma infecção benigna pode dar-lhe imunidade.
As larvas de muitos parasitas, quando deixam o hospedeiro,
têm um período mais ou menos breve em que são mais
vulneráveis e, se fosse possível matá-las ou evitá-las,
muitas dõenças, mais tarde desenvolvidas, poderiam ser
evitadas.
O verme dos mineiros (Ancylostoma duodenale) põe os ovos no
intestino do homem, os quais são expulsos com os excrementos
e começam a segmentar-se. Se as condições ambientes são
favoráveis, passados um ou dois dias de exposição ao ar,
desenvolvem-se os embriões, envolvidos por uma cutícula
fraca. Passados cerca de 5 dias, as larvas estão em
condições de infestar outros mineiros, penetrando, em geral,
pela pele. Depois de uma longa migração através do
organismo, podem, ao fim de 10 dias, estar no intestino:
introduzirem-se numa veia e são levados na corrente
sanguínea até aos pulmões, de onde passam aos brônquios e à
traqueia. A irritação causada nesta leva o hospedeiro a
tossir e as larvas acabam por vir à boca. Se são engolidas,
os ácidos e enzimas do suco digestivo em nada os prejudicam,
e depressa passam aos intestinos, onde permanecem.
Para o ciclo vital de alguns parasitas é necessário o
concurso de dois, três ou mesmo quatro hospedeiros
diferentes.
Na solitária, Taenia solium, são o porco e o homem. Os
ovos,, expulsos com os excrementos, transformam-se em larva
com seis ganchos (hexacanta). Quando um porco os ingere,
juntamente com a comida, as larvas libertam-se no intestino,
atravessam a parede e, entrando na circulação, atingem
diversos músculos, onde se transformam em cisticerco. Neste
estado de enquistamento permanecem e só poderão desenvolver-
se se a carne vier a ser comida mal cozida. Então, o
cisticerco atinge o intestino do homem, ao qual se prende a
cabeça (escólex) da ténia, que se desenvolverá na cadeia
característica de segmento (estróbilo).
Os Trematódeos digenéticos, Fascíola e afins, passam por uma
sucessão de formas larvares - miracídio, esporocisto, rédia
e cercaria - que parasitam em geral os tecidos de moluscos
de água doce, onde se multiplicam por reprodução assexuada.
Grandes quantidades de larvas com cauda (cercaria) procuram,
no exterior, um novo hospedeiro. Tal como a Fascíola do
fígado de carneiro (Fascíola hepática), a do intestino do
homem (Fascioolopsis buski) enquista-se sobre vegetais, e
virá a ser ingerida pelo seu hospedeiro definitivo. Uma só
castanha-d'água, fruto de Trapa natans, pode conter centenas
de larvas enquistadas, e como estes frutos constituem
alimento de indígenas chineses, são graves as infestações
por elas causadas.
A célebre Fascíola do pulmão do homem, Paragonimus
westermanni, da América do Sul, Indias e Extremo Oriente,
vive nos bronquíolos humanos e põe ovos, que são expulsos
com os escarros. Neste caso, as cercarias enquistam-se em
diversos crustáceos de água doce e a infestação produz-se
sempre que a cozedura é imperfeita e não destrói as larvas.
O Clonorchis sinesis, da China, tem um hospedeiro
intermediário em numerosas espécies de peixes, mas resistem
a cozedura insuficiente e podem infligir grandes sofrimentos
aos que as ingerirem.
As bilharzias do sangue do homem (Scistosoma) têm, como os
ancilóstomas, o poder de penetrar pela pele, de modo que,
para evitar a sua infestação, em nada contribuem os cuidados
com a alimentação. Os ovos contidos nos excrementos humanos,
que são utilizados como adubo nas plantações de arroz e
outros cereais, ecludem e as larvas, depois de uma fase de
desenvolvimento passada num molusco, podem penetrar na pele
nua dos pés e das mãos dos agricultores.
A melhor maneira de "controlar" os vermes parasitas é
utilizar o conhecimento do seu modo de propagação, mas o
combate nem sempre é tarefa fácil. Em todo o caso, deve-se
tentar quebrar o ciclo vital no seu ponto fraco, para
frustrar o desenvolvimento. Devem-se evitar os contactos com
as larvas de ancilóstomas e cercarias dos chistossomas,
tanto nas águas que se bebem como naquelas em que nos
lavamos, e proceder a dragagens dos pântanos onde se
encontram moluscos. Um exame escrupuloso dos alimentos e
cozedura conveniente são medidas simples mas muito eficazes.
Um melhor conhecimento dos parasitas e do parasitismo poderá
livrar a Humanidade de inúmeras dõenças ainda muito
frequentes no mundo animal.
MOLUSCOS

O Molusco é um animal de consistência mole - de onde lhe vem


o nome (do latim mollis) -, encerrado numa concha que se
pode apresentar como aspectos variados, ao ponto de se
tornar irreconhecível, vestigial ou mesmo ausente. Assim, em
certos Moluscos, a concha não é externa, mas, tendo-se
atrofiado, encontra-se incluída no corpo, como no caso do
choco, constituindo o bem conhecido "osso de siba".
Os Moluscos estão espalhados em todo o mundo; vivem uns na
terra firme, outros nas águas do mar e outros ainda nas
águas doces. São principalmente vegetarianos, embora também
carnívoros. O seu corpo é essencialmente constituído pela
cabeça, por vezes mal definida, um conjunto de vísceras, a
massa visceral, revestida por uma membrana, o manto, que
segrega a concha, e um músculo, o pé. Todos os Moluscos,
excepto os Bivalves, tomam os alimentos por meio da rádula,
uma placa quitinosa com dentes muito numerosos e geralmente
minúsculos. É, pois, uma espécie de lima que, mercê de
musculatura especial, tem movimentos de vaivém, deslizando
sobre um apêndice eréctil do tecto bucal, o odontóforo. Os
dentes afastam-se quando a rádula avança e retomam a sua
posição inicial quando esta recua, funcionando assim
simultaneamente como dentes e como pinças. Os movimentos da
rádula servem não só para segurar o alimento mas também para
o fazer entrar na boca.
A parte posterior da rádula está envolvida numa bainha
estreita e encurvada, onde se encontra o centro de
proliferação do órgão, que é de crescimento contínuo, para
compensação do desgaste pelo continuado uso. A rádula
constitui um órgão típico dos Moluscos, pelo menos no seu
conjunto, e o seu tamanho, forma e estrutura são
características de cada espécie.
O filo dos Moluscos subdivide-se nas seguintes classes:

1 - Anfineures (Quitons);
2 - Gasterópodes (Lesmas, caracóis, etc.);
3 - Escafópodes (Dentálio);
4 - Bivalves (Lamelibrânquios);
5 - Cefalópodes (Polvos, lulas, chocos, etc.).

Estas diversas classes têm importância muito desigual, visto


que os Anfineures e os Escafópodes, não numerosos, são quase
insignificantes em relação à enorme quantidade de espécies
de Gasterópodes e de Lamelibrânquos, e ao tamanho e aspectos
impressionantes dos Cefalópodes.
Anfineures

Os representantes deste grupo têm a forma oval, são


achatadas e dorsalmente protegidos por uma série de oito
placas calcárias, imbricadas como as telhas de um telhado e
correspondendo à concha dos outros Moluscos. Toda a face
inferior é constituída pelo pé musculoso e achatado; os
órgãos internos, envolvidos no manto, estão situados no
interior da cavidade limitada pelas placas dorsais.
Os quitons vivem principalmente nas águas marinhas pouco
profundas, entre os limites das marés, e até cerca de 35
metros abaixo do nível do mar, embora certas espécies se
encontrem a muito mais profundamente de 4000 metros. As suas
dimensões variam entre 1 a 25 centímetros, tamanho máximo
que atinge o quiton gigante, Cryptochiton stelleri, da costa
NO da América do Norte. Os quitons estão inactivos durante o
dia e seguros pelo pé aos rochedos; mas, durante a noite,
deslocam-se, rastejando, à procura de pequenas algas, de que
se alimentam. As placas dorsais são finamente perfuradas,
passando através dos orifícios, órgãos visuais rudimentares.
Ainda que esta classe seja relativamente pequena e uniforme,
é interessante notar que, não obstante a maior parte das
espécies pôr normalmente os seus ovos, outras, embora raras,
conservam os ovos na cavidade do manto, ou alia, entre as
placas dorsais e o pé, onde são incubados.
A evolução vergente se pode reconhecer, quanto à forma e
comportamento do animal quando bruscamente destacado do seu
meio: na maioria das espécies, observa-se o enrolamento em
bola, à semelhança dos bichos-de-conta (Crustáceos) e dos
Tatus (Mamíferos), ao passo que num pequeníssimo número de
Anfineures aberrantes, que vivem na vasa do fundo do mar,
não há enrolamento, pois têm forma alongada, cilíndrica,
assemelhando-se a Vermes.

Gasterópodes

Os componentes desta classe, que abrange perto de 40 mil


espécies, são extremamente diversificados. A sua
característica comum está bem expressa no seu nome
Gasterópodes, significativo de que têm o pé em posição
ventral. Noutros termos: estes animais deslocam-se por meio
de um grande pé musculoso e parecem, deste modo, arrastar-se
sobre o ventre, tal como os Anfineures. Mas, ao contrário
destes, os Gasterópodes têm concha, contínua, espiralada
(helicoidal), salvo nos casos em que desaparece ou se
atrofia antes de o animal atingir o estado adulto. No estado
juvenil, existe uma concha helicoidal. Os caracóis, os
búzios e os burriés têm a concha helicoidal típica; as
patelas, com a sua concha em forma de chapéu chinês, e as
conchas-de-vénus, com a sua concha quase ovóide, são
exemplos de transformação da hélice; as lesmas terrestres e
marinhas têm a concha reduzida a um simples vestígio e
incluída no corpo, se não desapareceu completamente. Os
Gasterópodes vivem nos mares, na terra firme e nas águas
doces. São, em geral, vegetarianos, e alimentam-se de
quaisquer vegetais, mesmo de plantas em putrefacção, mas
alguns são carnívoros.
As espécies marinhas abundam principalmente entre os limites
das marés e nas águas litorais pouco profundas, onde as
algas são numerosas; mas muitas outras vivem nos fundos, a
grandes profundidades, e comem detritos de algas arrastadas
pelas correntes. Algumas dessas espécies marinhas encontram-
se, todavia, nos abismos oceânicos e estas são
necessariamente carnívoras.
Alguns tornaram-se parasitas, como o Magilis, que se esconde
no coral, e o Stylifer, que vive à custa das estrelas do
mar.
A concha não protege apenas contra os inimigos, mas sim
contra a secura e o calor intenso, e, no caso das espécies
marinhas, contra a violência das vagas. Para tornar a
protecção mais eficaz, o animal pode, depois de se ter
retraído dentro da concha, fechar a entrada por meio de uma
placa córnea, o opérculo, situado na parte posterior do pé,
ou com um escudo provisório, o epifragma, segregado pelo pé.
Em todos os Moluscos marinhos, quer se trate dos quitons,
dos búzios e das ostras, ou ainda dos ferozes cefalópodes, a
respiração é feita por intermédio das brânquias situadas na
cavidade palial. Nas lesmas e caracóis terrestres, as
brânquias desaparecem, durante a evolução, e a cavidade do
manto transformou-se em pulmão, extraindo o oxigénio
necessário à vida, não o dissolvido nas águas, mas sim do ar
atmosférico.
Os caracóis de água doce, as Limneas, têm igualmente uma
cavidade pulmonar e podem respirar o oxigénio do ar, o que
mostra que esses Gasterópodes provieram de antepassados
terrestres que voltaram à vida aquática, mas podem, também,
graças a órgãos respiratórios secundários, formados por
pregas do manto, respirar o oxigénio dissolvido na água.
Os primeiros Gasterópodes que vamos examinar são as Lapas
(Patella), que se encontram em quase toda a parte do mundo,
mais particularmente nas zonas costeiras, entre os limites
das marés, embora certas espécies tenham sido encontradas a
profundidades de mais de 4000 metros. Vivem nos rochedos
costeiros, onde aderem por meio do pé, em forma de ventosa,
cuja força de adesão é tão poderosa que é necessário uma
força de cerca de 28 quilos (perto de 2000 vezes o seu
próprio peso) para as despegar. Esta aderência protege-as,
contra a acção das vagas e contra os ataques da maioria das
aves marinhas e outros inimigos. O pé segrega um ácido que
corrói a superfície do rochedo, produzindo uma depressão
correspondente ao contorno do animal. A patela comum da
Europa, Patella vulgata, possui um instinto muito
desenvolvido: de regresso ao seu lugar, volta sempre, sem se
enganar, à sua depressão, após as excursões em busca das
algas de que se alimenta.
As lapas têm, em geral, um tamanho que vai de 6 milímetros
de diâmetro, como na Lepeta, até perto de 30 centímetros,
como na enorme Ancistromesus mexicanus, uma das Fissurelas
da América Central. Os "ouvidos do mar" (Haliotis), as
Fissurelas (Fissurella) e os trocos (Trochus) são
aparentados com as lapas propriamente ditas. Os Haliotis,
célebres pela sua beleza, podem descrever-se como grandes
conchas nas quais a forma helicoidal se deprimiu a tal ponto
que quase desapareceu. Na margem da sua ampla abertura, a
concha é perfurada por uma série de orifícios redondos
comunicantes com a cavidade respiratória. Haliotis
carcherodi, o "abalone" da Costa do Pacífico da América do
Norte, é muito apreciado como alimento e a sua concha é
utilizada no fabrico de bot, anéis de nácar, assim como na
indústria de embutidos. A pequena lapa-real, da Europa, H.
tuberculata é geralmente usada como alimento, em certos
países.
As Fissurelas têm concha semelhante à das lapas, mas
perfurada no vértice por orifício oval, o qual, no vivo, dá
passagem a pregas do manto que as cobrem.
Os burréis têm concha cónica, segundo a hélice
característica, e encontram-se entre os limites das marés.
Os Gasterópodes marinhos respiram por meio de brânquias,
situadas na cavidade do manto. As Ampulárias da América [os
Aruás do Brasil] são-lhes aparentados. Vivem nas águas doces
e as suas grandes conchas arredondadas têm cor verde; são,
ao mesmo tempo, branquiados e pulmonados e anfíbios. Quando
estão imersos, podem impedir a entrada de água no pulmão, e,
quando se deslocam para a terra, fecham a câmara branquial,
passando a respirar pelo pulmão. Certas espécies possuem um
comprido tubo, ou sifão, pelo qual o animal pode aspirar o
ar atmosférico enquanto se encontra debaixo de água.
Esse dispositivo que se observa nos Aruás é semelhante ao
das Litorinas, que são praticamente anfíbias.
Na espécie comum, Littorina littorea, burrié ou borrelho,
das costas europeias e das Ilhas Britânicas, a cavidade do
manto está parcialmente transformada em pulmão, e, embora
esta espécie viva normalmente entre os limites das marés,
encontra-se por vezes em terra, a certa distância do mar,
levando vida de animal terrestre.
Na Crepídula (Crepidula fornicata), a sua concha perdeu
quase completamente o aspecto helicoidal, de modo que ela se
parece, com uma lapa. Pode fazer-se uma idéia do potencial
de reprodução da crepídula, que é verdadeiramente a praga
dos parques de ostreicultura.
A classe dos Gasterópodes abrange também os Vermetos, as
Porcelanas (ou Concha-de-vénus) e os Heterópodes. Nos
primeiros (Vermetus), a concha, parcialmente enrolada,
lembram os tubos calcários de certos vermes marinhos, e esta
semelhança é ainda mais acentuada pelo facto de esses
moluscos viverem em grupos maciços, com a concha fixada à
superfície dos rochedos ou dos corais.
As Conchas-de-vénus (Cypraea) têm uma concha que parece ter
perdido completamente a sua configuração helicoidal, visto
que é quase globular, com um lado achatado e a abertura
reduzida a uma fenda. No interior, pode-se reconhecer, uma
estrutura helicoidal, cuja última espira abrange todas as
outras. Um bom exemplo é a Cypraea exanthema, do Brasil,
onde lhe chamam Chave, que chega a medir 10 centímetros de
comprimento.
Nos Heterópodes, que abrange os Carinarídeos, os Atlantídeos
e os Pterotraqueídeos, o pé é lateralmente achatado e serve
de órgão de nata. A concha é muito reduzida e todo o corpo,
vítreo, quase transparente. São animais carnívoros e nadam,
em grande número, à superfície do mar ou perto. Os seus
ovos, encerrados numa massa de muco e de bolhas de ar,
flutuam à superfície, dispositivo de adaptação à vida
pelágica.
No grupo dos Gasterópodes estenoglossos, no número dos quais
se contam certos búzios (Buccinum, etc.), embora a rádula
seja estreita e armada somente de três fiadas de dentes,
todas as espécies são carnívoras. Alguns, como Fasciolaria
gigante, da costa da Carolina do Sul, e Megalotractus
aruanus, da Austrália, medem cerca de 60 centímetros de
comprimento. A maioria dos estenoglossos alimentam-se
furando as conchas de outros moluscos e engolindo, sem
mastigar, a partes moles das suas vítimas.
Os Cones, abrangem algumas das mais belas conchas (volutas,
mitras, harpas, fusos, olivas, etc.), servem-se dos dentes
da rádula como anzóis envenenados, com os quais matam as
suas presas. Neles, a rádula é um verdadeiro armazém de
anzóis, que são utilizados uns atrás dos outros, mas o
mecanismo pelo qual isto se realiza não é, porém, ainda bem
conhecido.
Todos os grupos de Gasterópodes que falamos, até agora,
fazem parte de subclasse dos Estreptoneures.
A outra subclasse deste ramo, os Eutineures, compreende os
caracóis terrestres e as lesmas, os caracóis-de-água-doce e
as lesmas-do-mar
A subclasse divide-se em três ordens:

1 - Opistobrânquios;
2 - Nudibrânquios;
3 - Pulmonados.

Opistobrânquios. - Na sua maioria, os membros desta ordem


parecem-se muito pouco com os Gasterópodes de concha dura,.
As Aplysia ou Lebres do mar, têm a bordo do pé dividido em
lóbulos natatórios, e a forma do corpo, com seus tentáculos
distendidos, lembra irresistivelmente uma lebre de orelhas
arrebitadas. Os Pterópodes são pequenos e pelágicos, tão
numerosos no mar em qualquer coisa como 1300 quilómetros
quadrados do fundo do mar estão cobertos por uma espessa
camada devida à acumulação das suas conchas; depois da morte
do seu proprietário, descem até à profundidade de uns 270
metros, formando aí o que se chama "vasa de Pterópodes".
Alguns de entre eles têm o pé transformado, de cada lado do
corpo, em lóbulos semelhantes a asas, o que lhes valeu o
nome de "borboleta do mar".
Nudibrânquios. - Estes Gasterópodes são mais conhecidos por
lesmas do mar. Lembram muito, pela forma do corpo, as lesmas
terrestres, mas são ornadas de cores mais belas.
A coloração de certas lesmas do mar é verdadeiramente
admirável e não a ultrapassa nenhum outro animal marinho.
Muitas vezes o dorso é ornado de longas papilas
digitiformes. Ainda que certas espécies sejam pelágicas, as
mais características do grupo rastejam pelo fundo do mar,
devorando esponjas, hidróides e outros animais fixos. Os que
se alimentam de hidróides servem-se dos nematocistos destes
e da maneira mais inesperada. Estes arp urticantes, não
digeríveis, passam para os apêndices dorsais dos
Nudibrânquios, onde são armazenados numa câmara especial, e
o molusco descarrega-os sobre os inimigos, em caso de
necessidade.
Pulmonados. - É a ordem mais importante do filo dos
Moluscos, e um grupo dos mais florescentes de todo o reino
animal. Os seus componentes são principalmente terrestres,
mas certas famílias vivem na água doce e algumas são
marinhas.
A respiração faz-se por meio de um pulmão das lapas, os
bordos da cavidade soldam-se de maneira a deixar apenas uma
estreita abertura com diafragma (pneumóstoma), que fecha e
abre.
A ordem subdivide-se em duas subordens:

1 - Os Basomatóforos, ou caracóis de água


doce;
2 - Os Estilomatóforos, que engloba os caracóis terrestres e
lesmas.

Basomatóforos. - Os caracóis de água doce são derivados dos


terrestres por adaptação à vida aquática. Abundam por toda a
parte e podem encontrar-se, sem dificuldade, tanto nos lagos
como nos cursos de água, deslizando pela face inferior da
película superficial, ou alimentando-se das larvas, sobre as
quais igualmente se deslocam As Fisas (Physa) que segregam
fios de muco, que vão da superfície da água até ao fundo,
que eles podem percorrer em todos os sentidos.
Os representantes desta ordem adaptam-se facilmente.
Encontram-se não apenas nas águas doces como também nas
águas salobras e mesmo nas nascentes sulfurosas. Uma das
espécies de Limneas, L. rookeri, vive a mais de 5000 metros
de altitude, no Himalaia. Outras encontram-se a grandes
profundidades nos lagos muito profundos.
Estlomatóforos. - Os representantes dessa subordem são todos
terrestres, excepto os membros de uma família das lesmas do
mar (Oncidiidae), que muito se parecem com os Nudibrânquios.
ao passo que os Basomatóforos têm apenas um par de
tentáculos, estes Estlomatóforos têm dois pares, dos quais
os posteriores suportam os olhos.
Na sua maioria, são vegetarianos, mas há alguns carnívoros,
especialmente as espécies do género Glandina, que se
alimentam de outros caracóis, e Testacella, que comem
minhocas de outros invertebrados. Posto que a maioria possua
concha mais ou menos transformada, nas lesmas terrestres ela
está reduzida em graus variados, quer uma pequena concha
degenerada, situada na extremidade posterior do corpo, como
nas Testacellas, quer a uma massa calcária irregular, como
na lesma-negra, Arion ater, quer mesmo a pequenos grãos de
calcário embutidos na pele. Os caracóis e as lesmas
terrestres deslocam-se por cima de uma passadeira de muco, o
que lhes permite transitar por superfícies lisas ou rugosas.
Uma glândula mucosa, situada na extremidade anterior do pé,
produz esse muco.
Escafópodes

Esta classe é constituída por um pequeno grupo de animais


aberrantes - os Dentálios - que pouco se parecem com os
Moluscos típicos, e, por isso, outrora estiveram incluídos
no grupo dos Vermes.
O corpo é alongado e encerrado numa concha tubular curva,
aberta nos dois extremos, e de diâmetro decrescente. As
conchas vazias que muitas vezes se encontram nas praias
parecem dentes incisivos (defesas) de elefante, de onde o
nome do género típico, Dentalium. O Molusco vive meio
enterrado na areia, alimentam-se de plantas e de animais
microscópicos, e respira através da abertura mais estreita
da concha, cuja ponta ultrapassa apenas o nível da areia.

Bivalves

Pertencem a esta classe as ostras [A ostra é o mais


apreciado dos moluscos comestíveis, pelo seu paladar
saboroso e valor nutritivo; é, por isso, cultivada e pescada
activamente ao longo das costas. Em Portugal, cultiva-se e
exporta-se "Ostras portuguesas, Gryphaea angulata.] , os
mexilh, as amêijoas, os berbigões, as vieiras, etc. Esta é a
mais numerosa, em espécies, de todas as classes de Moluscos,
excepto a dos Gasterópodes. Em vez de concha helicoidal,
única nestes últimos, existe uma concha dupla, constituída
por duas partes ou valvas (Bivalves), articuladas uma à
outra por meio de um ligamento. Embora difiram bastante,
pelo seu aspecto exterior, os membros desta casse são
essencialmente semelhantes pela sua anatomia. Assim, neles
se reconhecem a existência de um pé igualmente musculoso e,
na cavidade do manto, de brânquias, pois todos os bivalves
são aquáticos, vivendo no mar ou na água doce.
Os Bivalves são sedentários. Vivem fixados às rochas por uma
valva, como a ostra, ou ancorados por meio de um feixe de
filamentos, resistentes e córneos (bisso), como o mexilhão;
mas a grande maioria vive mergulhada na areia, e, para poder
respirar, sem deixar de escavar os seus túneis, é dotada de
sifões que os mantêm em contacto com a água. Alguns são
capazes de movimentos vigorosos, como os berbigões
(Cardium), que podem dar saltos de 1 metro para alcançar a
água em baixa-mar, e outros, como as vieiras (Pecten), nadam
projectando a água violentamente. Todos Bivalves se
alimentam de organismos microscópicos, desprovidos como são
de rádula.
O mexilhão comestível (Mytilus edulis) constitui um exemplo
mais evidente da pululação dos Bivalves no mar.
Efectivamente, na baixa-mar, podemos ver pululações formadas
por inumeráveis milhões destes moluscos cobrindo grande
extensões costeiras, nas lamas e praias arenosas ou de
calhaus. E, outros Bivalves podem bem competir com eles,
este aspecto, mas, como estão metidos na areia, não são tão
visíveis e quase passam despercebidos. Na verdade, porém, em
muitos sítios, as praias arenosas são formadas, em grande
parte, por fragmentos das suas conchas.
Tratando-se de Bivalves, não se pode deixar de mencionar os
mais insólitos de todos, como são os teredos que perfuram de
um lado ao outro as estacarias dos molhes e dos cais de
amarra, assim como todas as madeiras submersas a que, causam
prejuízos irreparáveis. O Teredo navalis, que mede 15
centímetros de comprimento, tem o corpo cilíndrico e as
valvas da concha muito reduzidas, situadas numa extremidade
do corpo. O animal segrega um invólucro de que reveste os
buracos que produz a madeira.

Cefalópodes

Não é fácil acreditar, à primeira vista, que os polvos e os


chocos, tão activos, tenham parentesco muito próximo com as
ostras e os mexilhões, que são sedentários; a estrutura
anatómica desse tipo, como aliás a dos outros Moluscos, é
notavelmente semelhante. O pé, esse órgão de locomoção tão
característico dos Gasterópodes, está fundido, nos
Cefalópodes, com a cabeça, e a massa assim formada divide-se
em longos tentáculos providos de ventosas, que constituem as
mais formidáveis armas ofensivas. Salvo no argonauta e no
náutilo, a concha é muito reduzida e encerra no interior do
corpo, formando o famoso "osso de siba", ou, em certos
casos, uma simples "pluma" córnea de frágil consistência.
Por baixo da cabeça, um sifão ultrapassa a cavidade do
manto. A água é projectada com violência, em jacto, por esse
sifão, de maneira a propulsionar suavemente o animal por um
sistema de reacção. Quando o animal é atacado, pode emitir
uma nuvem de tinta, proveniente da "glândula do ferrado",
situada no interior do corpo, e, atrás da nuvem assim
formada, escapa-se sub-reptíciamente. Uma das
características mas notáveis dos Cefalópodes é o par de
olhos, muito visíveis, que lembram os dos Vertebrados
superiores, com a diferença, apenas exterior, de que não têm
pálpebras.
Em relação com esses olhos e conjugando-se com o poder da
sua visão, existe uma extraordinária faculdade de
homocromia. Na pele, estão situados numerosos cromatóforos,
que, por expansão ou contracção
rápida, provocam a mudança imediata de cor, que pode ir do
branco ao preto, passando por outras combinações de cores,
tal como azul, violeta, vermelho e amarelo. Em virtude
dessas modificações o animal pode confundir-se rapidamente
com a cor do seu substrato.
A classe dos Cefalópodes subdivide-se nas ordens seguintes:

1 - Dibranquiados, com duas brânquias, e


2 - etrabranquiados, com quatro.

A primeira abrange a imensa maioria dos Cefalópodes actuais,


os quais se agrupam em duas subordens: a dos Decápodes e a
dos Octópodes, conforme têm 10 ou 8 braços (tentáculos).
Os chocos, que, como as Lulas, possuem 10 braços
(Decápodes), alimentam-se principalmente de diversas
espécies de crustáceos e deslocam-se em cardumes ou bancos,
por vezes em tão grande número que a superfície do mar fica
tumultuosamente agitada.

[A Lula ou calamar (Loligo vulgaris), é muito frequente


no Atlântico e no Mediterrâneo. Chega a medir 1,20
metros.]

O Polvo, que tem 8 braços (Octópodes), alimenta-se


igualmente de caranguejos, que ele despedaça, como os
chocos, como seu forte "bico", que lembra o dos papagaios.
Contrariamente aos chocos, os polvos têm tendência para se
esconder nas cavernas submarinhas, nas fendas dos rochedos,
entre os corais ou no fundo do mar, espiando presas. Entre
os Octópodes, devem citar-se também os Argonautas. Neles, o
macho não tem nada de extraordinário, mas a fêmea segrega
uma bela concha branca, de extrema delicadeza, na qual se
abriga e se deixa flutuar, ao sabor das ondas.
A ordem dos Tetrabranquiados é, na actualidade, apenas
representada pelo Náutilo, de que só se conhece duas
espécies. O Náutilo tem uma concha helicoidal,
compartimentada por meio de septos transversais.

FIM DO 1º VOLUME