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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

CENTRO DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA


DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA CIVIL
ÁREA DE ENGENHARIA SANITÁRIA E AMBIENTAL

INTRODUÇÃO ÀS
CIÊNCIAS DO AMBIENTE PARA
ENGENHARIA

Selma Maria de Araujo


março/97
II - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

A Paula pelas primeiras lições.

A João pelo desprendimento.

A Chico pela paciência.


III - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

SUMÁRIO

Introdução

1a Parte - ECOLOGIA GERAL

1. Introdução à Ecologia ...................................................................................................1


1.1. Meio ambiente ..........................................................................................................1
1.2. Hábitat e nicho ecológico .........................................................................................2
1.3. Níveis de organização biológica ................................................................................3
1.4. Exercício de fixação 1 ..............................................................................................3

2. Noções de Biosfera ........................................................................................................4


2.1. Vida na biosfera .......................................................................................................4
2.2. Complexidade ..........................................................................................................5
2.3. A Energia .................................................................................................................6
2.4. Os Recursos naturais ................................................................................................7
2.5. Atividades humanas e desequilíbrios na biosfera ........................................................8
2.6. Exercício de fixação 2 ..............................................................................................8

3. Necessidades Básicas dos Seres Vivos ..........................................................................9


3.1. Processos energéticos utilizados pelos seres vivos ..................................................10
3.2. Biossíntese e biodegradação ...................................................................................11
3.3. Exercício de fixação 3 ............................................................................................12

4. Fatores ecológicos ........................................................................................................13


4.1. Fatores ecológicos bióticos .....................................................................................13
4.2. Fatores ecológicos abióticos ...................................................................................15
4.3. Fatores limitantes ...................................................................................................16
4.4. Exercício de fixação 4 ............................................................................................17

5. Ecossistemas.................................................................................................................18
5.1. Componentes e estrutura ........................................................................................18
5.2. Características dos ecossistemas .............................................................................19
5.3. Equilíbrio nos ecossistemas ....................................................................................19
5.4. Produtividade dos ecossistemas ..............................................................................21
5.5. Pirâmides ecológicas ..............................................................................................22
5.6. Desequilíbrio nos ecossistemas ...............................................................................24
5.7. Exercício de fixação 5 ............................................................................................26

6. Ciclos Biogeoquímicos ................................................................................................27


6.1. Ciclo do carbono ....................................................................................................28
6.2. Ciclo do oxigênio ...................................................................................................29
6.3. Ciclo do Nitrogênio ................................................................................................29
IV - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

6.4. Ciclo da água .........................................................................................................30


6.5. Exercício de fixação 6.............................................................................................31

7. Distribuição dos Ecossistemas ....................................................................................32


7.1. Biomas aquáticos ...................................................................................................32
7.2. Biomas terrestres ....................................................................................................33
7.3. Biomas brasileiros ..................................................................................................34
7.4. Exercício de fixação 7 ............................................................................................36

8. Ecossistemas Humanos ...............................................................................................38


8.1. Unidades de conservação ........................................................................................40
8.2. Exercício de fíxação 8 ............................................................................................42

2a Parte -DEGRADAÇÃO E CONSERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE

9. Introdução à Poluição .................................................................................................43


9.1. Ciclo da poluição ....................................................................................................45
9.2. Os onze maiores poluentes mundiais .......................................................................45
9.3. Classificação da poluição ........................................................................................46
9.4. Indicador de poluição e padrão de qualidade ...........................................................47
9.5. Esquema básico para avaliação da poluição ............................................................48
9.6. Exercício de fixação 9 ............................................................................................48

10. Crescimento Populacional e Desenvolvimento Sustentável .......................................49


10.1. Limites do crescimento .........................................................................................50
10.2. Desenvolvimento sustentável ................................................................................51
10.3. Relatório FUNAP - Estudo da população mundial ................................................52
10.4. Exercício de fixação 10 .........................................................................................53

11. Poluição da Água ........................................................................................................54


11.1. Classificação das águas .........................................................................................55
11.2. Principais fontes de poluição hídrica .....................................................................56
11.3. Principais poluentes hídricos .................................................................................56
11.4. Classificação da poluição hídrica ...........................................................................57
11.5. Poluição orgânica .................................................................................................58
11.6. Autodepuração das águas .....................................................................................61
11.7. Eutroficação .........................................................................................................63
11.8. Medidas de controle da poluição hídrica ...............................................................64
11.9. Exercício de fixação 11 .........................................................................................67

12. Poluição do Solo ..........................................................................................................69


12.1. Poluentes do solo .................................................................................................70
12.2. Principais fontes poluidoras e suas conseqüências .................................................71
12.3. Exercício de fixação 12 .........................................................................................79
V - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

13. Poluição do Ar .............................................................................................................80


13.1. Principais fontes de poluição do ar ........................................................................81
13.2. Principais poluentes atmosféricos ..........................................................................81
13.3. Fatores que afetam a poluição do ar ......................................................................83
13.4. Autodepuração da atmosfera ................................................................................84
13.5. Conseqüências da poluição do ar ..........................................................................85
13.6. Melhorando a qualidade do ar ...............................................................................90
13.7. Medidas de controle da poluição do ar ..................................................................91
13.8. Exercício de fixação 13 .........................................................................................94

14. Poluição Sonora ...........................................................................................................95


14.1. Fontes de ruído .....................................................................................................95
14.2. Características do som ..........................................................................................95
14.3. Índices de ruído ....................................................................................................98
14.4. Medição do ruído .................................................................................................98
14.5. Efeitos do ruído ..................................................................................................100
14.6. Medidas de controle ...........................................................................................100
14.7. Exercício de fixação 14 .......................................................................................101

3a Parte - GESTÃO DO MEIO AMBIENTE

15. Legislação Ambiental Brasileira ...............................................................................102


15.1. Política nacional do meio ambiente .....................................................................104
15.2. Instrumentos de defesa do meio ambiente ...........................................................107
15.3. Legislação básica ................................................................................................109
15.4. Instituições de controle do meio ambiente ...........................................................110
15.5. Exercício de fixação 15 .......................................................................................111

16. Avaliação de Impacto Ambiental .............................................................................112


16.1. Definição e classificação dos impactos ambientais ...............................................112
16.2. Impacto ambiental de um projeto ........................................................................114
16.3. Atividades modificadoras do meio ambiente ........................................................114
16.4. Vantagens da AIA ..............................................................................................115
16.5. Incertezas da AIA ...............................................................................................116
16.6. Critérios para elaboração de EIA ........................................................................116
16.7. Relatório de impacto ambiental - RIMA ..............................................................119
16.8. Exercício de fixação 16 .......................................................................................119

17. Metodologias da Avaliação de Impactos Ambientais ..............................................121


17.1. Métodos aplicáveis .............................................................................................121
17.2. Classificação das técnicas de AIA .......................................................................122
17.3. Exercício de fixação 17 .......................................................................................126

18. Gerenciamento Ambiental (ISO 14.000) ..................................................................127


18.1. ISO 14.000 - Gestão ambiental ...........................................................................127
VI - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

18.2. Sistema de gestão ambiental - SGA .....................................................................128


18.3. Auditoria ambiental ............................................................................................129
18.4. Avaliação do desempenho ambiental ...................................................................129
18.5. Rotulagem ambiental ..........................................................................................129
18.6. Análise do ciclo de vida ......................................................................................130
18.7. Aspectos ambientais de normas de produtos .......................................................131
18.8. Ecoprodutos e o consumidor verde .....................................................................131
18.9. Exercício de fixação 18 .......................................................................................132

APÊNDICES

A. Resumo da Agenda 21 ...............................................................................................133

B. Legislação Federal Básica .........................................................................................136

C. Órgãos de Meio Ambiente ........................................................................................137

D. Principais Impactos Ambientais na Região Nordeste ..............................................141

E. Impactos Ambientais por Ecossistemas Brasileiros .................................................143

F. Impactos Ambientais da Construção de Barragens .................................................144

G. Impactos Ambientais de Projetos de Irrigação ........................................................146

H. Metodologia para Diagnóstico Físico-Conservacionista ..........................................147

I. Metodologia para Diagnóstico do Solo .....................................................................155

J. Metodologia para Diagnóstico da Poluição Ambiental ............................................162

BIBLIOGRAFIA ..................................................................................................................163
VII - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

INTRODUÇÃO

A vida no planeta existe há cerca de 3,5 bilhões de anos, porém a apenas duzentos anos é que a
vida humana tornou-se mais confortável, devido aos grandes avanços tecnológicos. Nestes
duzentos anos, a população mundial aumentou oito vezes, enquanto que o consumo de recursos
naturais aumentou em escala significativamente maior. O consumo de água, por exemplo, aumentou
35 vezes.

A história do homem no planeta difere da história dos demais seres vivos pela forma como se
apropria dos recursos naturais para satisfazer as suas necessidades. O homem cria sistemas cada vez
mais elaborados, baseados em tecnologias nem sempre sustentáveis e, quase sempre, às custas da
degradação ambiental. Esta ocorre de forma tão acelerada que os sistemas naturais não conseguem
repor tudo no lugar com a mesma presteza. A terra, a água e o ar deterioram-se qualitativamente,
pondo em evidência o prejuízo biológico experimentado por muitas espécies, incluindo o próprio
homem.

O aumento do efeito estufa, principalmente pelo acúmulo de CO2 atmosférico, é motivado pela
queima de combustíveis fósseis e pela eliminação de florestas. A destruição da camada de ozônio é
um efeito colateral atribuído ao uso de clorofluorcarbonos. A perda da biodiversidade é um
subproduto de várias atividades humanas, dentre elas o desmatamento para fins agropecuários.
Constata-se, pois, que as atividades humanas interagem com os sistemas físicos e biológicos do
planeta. Assim, qualquer esforço para se reverter esse quadro de degradação ambiental, passa pelo
conhecimento das Ciências do Meio Ambiente e pelo compromisso de mudança global do nosso
comportamento.

O estudo do meio ambiente e a questão ambiental são tão complexos quanto o próprio planeta. Tanto
assim, que a interdisciplinaridade é fundamental para a compreensão do tema, exigindo o esforço de
profissionais das mais diversas áreas de atuação. Neste sentido, procuramos dar a nossa contribuição
na introdução das Ciências do Ambiente para estudantes de Engenharia.

A Engenharia como a arte de engendrar coisas, o faz apropriando-se de espaços e de recursos do


planeta. A antiga idéia de meio ambiente como algo lá fora, levou o engenheiro a produzir muitos
estragos. A compreensão de que somos parte de todo o engenho e que o desenvolvimento deve ser
auto-sustentável, leva-nos a refletir sobre a forma como administramos o planeta. Neste contexto,
trataremos as Ciências do Ambiente em três partes distintas.

Na Primeira Parte - Ecologia Geral -, enfocaremos os sistemas que dizem respeito à natureza, a fim
de conhecer os processos biológicos básicos de transformação da energia, os ciclos alimentares e o
papel desempenhado pelos fatores físicos, químicos e biológicos na manutenção da vida.

Na Segunda Parte - Degradação e Conservação do Meio Ambiente -, abordaremos as alterações


provocadas pelo homem nos diversos ecossistemas, analisando o processo em si e os desequilíbrios
ecológicos decorrentes, procurando identificar algumas soluções .
VIII - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Finalmente, na Terceira Parte – Gestão do Meio Ambiente - , trataremos da administração do meio


ambiente, órgãos gestores e legislação básica, ou seja, como o Poder Público, a Empresa e a
Comunidade podem atuar na melhoria da qualidade do meio ambiente.
1a Parte
ECOLOGIA GERAL

1. INTRODUÇÃO À ECOLOGIA

N o século XIX, o biólogo e naturalista alemão Ernest Haeckel (1866) partindo da observa-
ção de que “o conhecimento biológico nunca é completo quando o organismo é estudado
isoladamente”, deu um novo rumo à História Natural - hoje Biologia, criando uma nova ciência -
a Ecologia.

O termo eco deriva do grego oikos que significa lugar onde se vive, casa, ambiente, e logos é
estudo, ciência, tratado. No sentido literal, Ecologia seria o estudo dos seres vivos em sua casa,
no seu ambiente, ou ainda, a ciência que estuda as relações dos seres vivos com o meio ambien-
te. Numa concepção mais moderna, a ciência que estuda a estrutura e funcionamento da Na-
tureza, considerando que a humanidade é uma parte dela (Odum, 1972).

Com a criação da ciência Ecologia, surgiram os termos ecólogo e ecologista. Este identifica os
militantes de organizações em defesa do meio ambiente, enquanto que ecólogo é o profissional -
pesquisador, cientista, que tem formação e trabalha no campo da ecologia.

Em princípio, a Ecologia considerava as espécies individualmente (ecologia da araucária, ecolo-


gia do peixe-boi...), o que deu origem a auto-ecologia. Hoje, a auto-ecologia é a parte da ecolo-
gia que estuda as respostas das espécies aos fatores ambientais, em função de suas fisiologias e
respectivas adaptações. Posteriormente, os ecólogos perceberam a importância das relações entre
as diversas espécies, surgindo assim a sinecologia, passando esta a ser a parte da ecologia que
estuda as interações entre as diferentes espécies que ocupam um mesmo ambiente, como estas se
interrelacionam e de que maneira interagem com o meio ambiente.

1.1. MEIO AMBIENTE

Para a ciência ecológica, o meio ambiente é o conjunto de condições físicas (luz, temperatura,
pressão...), químicas (salinidade, oxigênio dissolvido...) e biológicas (relações com outros seres
vivos) que cercam o ser vivo, resultando num conjunto de limitações e de possibilidades para
uma dada espécie: o meio ambiente é tudo que nos cerca.

Sempre heterogêneo, o meio ambiente segue variando de um local para outro, dando origem a
agrupamentos de seres vivos diferentes. Tais agrupamentos - comunidades - interferem na com-
posição do meio e são beneficiados ou prejudicados com essas transformações. O meio ambiente
assim evolui, para melhor ou para pior, conforme a espécie considerada. Num lago que recebe
adubo, proveniente de projetos agrícolas na vizinhança, se for considerada a população de algas,
2 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

esta vai ser favorecida, aumentando as suas possibilidades de desenvolvimento, pela maior oferta
de nitratos e fosfatos; porém, se forem considerados os peixes, estes têm suas possibilidades de
desenvolvimento limitadas pela redução do oxigênio, ocasionada pela grande proliferação de al-
gas, e como resultado morrem asfixiados. O meio ambiente melhorou para as algas e piorou para
as populações de peixes.

O meio ambiente está sempre mudando e evoluindo. O clima, os seres vivos e as próprias ativi-
dades humanas modificam o ambiente e são influenciadas por essas modificações, gerando novas
alterações. Esta é a essência da evolução. Alguns seres vivos são incapazes de adquirir os recur-
sos que necessitam e se extinguem. Outros desenvolvem constantemente melhores formas de a-
daptação aos problemas do ambiente mutante. Diz-se que estes evoluíram. Podemos dizer então
que o meio ambiente é ‘seletivo’ na medida que certas características dão aos seus possuidores
certa vantagem na sobrevivência e procriação. Diz-se que os indivíduos melhor adaptados ao
ambiente mutante ‘foram selecionados’, por meio da seleção natural.

No século passado a poluição nas cidades inglesas fez com que a seleção natural atuasse em uma
espécie de mariposas. No início da industrialização a maioria das mariposas salpicadas era clara
com manchas escuras, confundindo-se com as cascas das árvores e escondendo-se de seus preda-
dores. Quando a fuligem das fábricas escureceu as árvores e a paisagem urbana de um modo ge-
ral, as mariposas claras ficaram mais visíveis aos pássaros. Alguns anos depois as mariposas es-
curas tornaram-se mais comuns nas cidades e as claras salpicadas prevaleciam nos campos, me-
nos poluídos. Tal fenômeno de seleção natural ficou conhecido como melanismo industrial.

A seleção nem sempre é natural. O homem aprendeu a utilizar a mutação para produzir organis-
mos que atendam a algum propósito útil ou desejável, criando o processo de seleção artificial. Os
organismos assim obtidos, sobrevivem no ambiente sob a proteção humana. Um exemplo típico
é a galinha doméstica, seu ancestral das selvas africanas é extremamente astuto e bota cerca de
uma dúzia de ovos por ano. Algumas galinhas domésticas botam uma dúzia de ovos por mês,
são extremamente dóceis, perderam a astúcia e, se fossem devolvidas ao seu ambiente natural,
seriam extintas.

O meio ambiente é sempre o conjunto de possibilidades físicas, químicas e biológicas para cada
indivíduo - espécie - de uma comunidade. Neste sentido, a espécie Homo sapiens, entre milhões
de espécies da Terra, tem sido o foco de toda atenção da ciência ecológica, dada a sua capacidade
de transformar as condições ambientais, em nome da qualidade de vida humana.

1.2. HÁBITAT E NICHO ECOLÓGICO

O meio ambiente é o palco onde se desenrola todo o estudo da ecologia. Neste, segundo Odum
(1972), cada espécie considerada tem um ‘endereço’- hábitat, e desenvolve uma ‘profissão’ -
nicho ecológico.

O hábitat de um organismo é o local onde ele vive; ou ainda, é o ambiente que oferece um con-
junto de condições favoráveis ao desenvolvimento de suas necessidades básicas - nutrição, prote-
ção e reprodução. O nicho ecológico é o papel de uma espécie numa comunidade - como ela faz
para satisfazer as suas necessidades. As algas, por exemplo, têm o seu hábitat na água superficial
de um lago (zona iluminada), e parte do seu nicho ecológico é a produção de matéria orgânica,
através da fotossíntese, a qual serve de alimento para sua população e para alguns animais.
1a Parte - Ecologia Geral - 3

Teoricamente, o hábitat seria aquele ambiente em que as condições ambientais atingem o ponto
ótimo e uma espécie consegue reproduzir em toda a sua plenitude, ou seja, consegue desenvolver
o seu potencial biótico. Porém, a reprodução sem oposição não pode manter-se por muito tempo
em um ambiente de recursos limitados. Desse modo, o ambiente se encarrega de controlar o cres-
cimento da população através da resistência ambiental, o que pode fazer com que a população
retorne ao ponto de partida.

A resistência ambiental compreende todos os fatores - fome, enfermidades, alterações climáti-


cas, competição, etc. - que impedem o desenvolvimento do potencial biótico. O processo fun-
ciona do seguinte modo: quando a densidade populacional aumenta, aumenta também a resistên-
cia ambiental, que por sua vez origina uma diminuição da densidade populacional. A interação
entre o potencial biótico e a resistência ambiental resulta num aumento , ou numa diminuição, do
número total de organismos de uma população, ou seja, o seu crescimento populacional. O hábi-
tat é então a região onde a resistência ambiental para a espécie é mínima, ou seja, onde ela en-
contra melhores possibilidades de sobrevivência.

1.3. NÍVEIS DE ORGANIZAÇÃO BIOLÓGICA

A melhor maneira de entender o campo de estudo da ecologia moderna é utilizando-se do concei-


to de níveis de organização dos seres vivos (Odum, 1972). Nestes, um arranjo hierárquico agrupa
os seres vivos partindo de sistemas biológicos simples – genes - para biossistemas cada vez mais
complexos – biosfera -, formando um todo unificado, conforme esquema abaixo.

GENES → CÉLULAS → TECIDO → ÓRGÃO → APARELHO → ORGANISMO →


→ POPULAÇÃO → COMUNIDADE → ECOSSISTEMA → BIOSFERA

A ecologia estuda fundamentalmente os quatro últimos níveis desta seqüência. Entendendo-se


por:
♦ população: conjunto de indivíduos de uma mesma espécie que ocupa uma determinada área;
♦ comunidade: conjunto de populações que interagem de forma organizada, vivendo numa
mesma área;
♦ ecossistemas: conjunto resultante da interação entre a comunidade e o ambiente inerte;
♦ biosfera ou ecosfera: sistema que inclui todos os organismos vivos da Terra, interagindo com
o ambiente físico, como um todo.

1.4. EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 1

1. Conceitue Ecologia. Qual a diferença entre ecólogo e ecologista ?


2. Defina hábitat e nicho ecológico. Cite exemplos.
3. O que é resistência ambiental ? Enumere alguns fatores de resistência ambiental para o ho-
mem.
4. Como ciência biológica, qual o campo de estudo da ecologia ?
4 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

2. NOÇÕES DE BIOSFERA

A biosfera é definida como sendo a região do planeta que contém todo o conjunto dos seres
vivos e na qual a vida é permanentemente possível. O termo ‘permanentemente possí-
vel’ é atrelado ao conceito de biosfera significando ‘ambiente capaz de satisfazer às necessidades
básicas dos seres vivos, de forma permanente’. Neste contexto, a biosfera não passa de uma del-
gada casquinha em torno do planeta, uma vez que as condições de vida vão diminuindo à medida
que nos afastamos da superfície, até que cessam a, aproximadamente, 7 km acima do nível do
mar e abaixo deste não ultrapassa a 6 km. No total a biosfera não vai além de 13 km de espessu-
ra.

Para satisfazer as necessidades dos seres vivos, são necessários, por um lado, a presença de água,
luz, calor e matéria para a síntese dos tecidos vivos e, por outro, ausência de condições prejudici-
ais à vida como substâncias tóxicas, radiações ionizantes e variações extremas de temperatura. A
biosfera apresenta todas essas condições: uma fonte externa de luz e calor - o sol; água que chega
a cobrir ¾ da superfície do planeta e substâncias minerais em contínua reciclagem nos seus vá-
rios ambientes. Apresenta ainda um escudo contra radiações ionizantes provenientes do sol - a
camada de ozônio - e grandes massas de água que se encarregam de manter a temperatura média
do planeta em torno dos 15oC, sem grandes variações.

Na realidade o termo correto para biosfera seria ecosfera (eco = oikos = casa), correspondendo
ao conjunto de biosfera, atmosfera, litosfera e hidrosfera. Porém popularizou-se o termo biosfera
que é usado no seu sentido funcional e não descritivo, ficando esta dividida em três regiões físi-
cas distintas:

♦ litosfera - Camada superficial sólida da Terra, constituída de rochas e solos, acima do nível
das águas. Compreende ¼ da biosfera, apresenta variações de temperatura, umidade, luz, etc.
e possui enorme variedade de flora e de fauna;
♦ hidrosfera - Representada pelo ambiente líquido: rios, lagos e oceanos. Recobre ¾ da super-
fície total do planeta, apresenta condições climáticas bem mais constantes do que na litosfera,
salinidade variável (nos oceanos chega a 35 gramas/litro) e possui menor variedade de plantas
(20 para 1) e de animais (9 para 1) que a litosfera;
♦ atmosfera - Camada gasosa que circunda toda a superfície da Terra, envolvendo portanto, os
dois ambientes acima citados.

2.1. VIDA NA BIOSFERA

A história da Terra começou há 4,6 bilhões de anos e o início da vida remonta a aproximadamen-
te 1,1 bilhão de anos depois - o ser vivo mais antigo conhecido, uma bactéria, formou-se há cerca
de 3,5 bilhões de anos. Nas eras posteriores, a vida foi se diversificando cada vez mais: o padrão
de evolução assemelha-se a uma árvore com uma espécie na ponta de cada ramo. De um tronco
único, os seres vivos evoluíram e formaram os reinos do mundo vivo: monera, protista, fungi,
vegetal e animal. Os primeiros exemplares do reino vegetal datam de cerca de 1,5 bilhões de
anos - estes foram para a terra firme há cerca de 420 milhões de anos. As esponjas, membros
1a Parte - Ecologia Geral - 5

mais simples do reino animal, datam de 570 milhões de anos. Os insetos surgiram há aproxima-
damente 250 milhões, os mamíferos há 175 milhões e o homem há 46 milhões de anos. Compa-
rando com a idade da Terra, a espécie Homo sapiens está na sua infância, principalmente se con-
siderarmos os seus impulsos destrutivos.

2.2. COMPLEXIDADE

A biosfera caracteriza-se por uma estrutura muito complexa. A sua composição é resultado de
fenômenos físicos associados à própria atividade biológica que aí se realiza há milhares de anos.
As atividades de nutrição e de respiração das plantas, dos animais e dos microrganismos, que ha-
bitam o solo e as águas, alteram quimicamente a composição do ar atmosférico, por consumirem
alguns gases que o compõem e produzirem outros; modificam a estrutura do solo, por cavarem
buracos e galerias ou por produzirem alterações químicas do meio; modificam, ainda, a composi-
ção da água em virtude das trocas de alimentos e compostos químicos que realizam no seu inte-
rior. Portando, desde a sua criação, a biosfera está em constante modificação pela ação dos pró-
prios seres vivos, o que de certa forma a torna frágil, principalmente quando este ser vivo é o
homem.

2.2.1. HIPÓTESE DE GAIA

A melhor maneira de compreender a fragilidade da biosfera talvez seja através da Hipótese de


Gaia e do texto elaborado pelo Greenpeace que nos faz pensar sobre o comportamento da espécie
Homo sapiens.

O termo Gaia foi usado pela primeira vez no século XVII pelo médico inglês William Gilbert
referindo-se a ‘Mãe Terra’ e popularizado pelo norte-americano James Lovelock quando formu-
lou a hipótese de Gaia: “a Terra seria um superorganismo, de certa forma frágil, mas com
capacidade de auto-recuperação”. Na Terra, como no metabolismo de um organismo vivo, ca-
da parte influencia e depende de outras partes, ao perturbar uma só dessas partes da vida pode
afetar o todo. Mais recentemente, essa hipótese foi comungada por Jonathan Weiner, mas com
uma certa preocupação. Segundo Weiner “os agentes destrutivos hoje são artificiais e provocam
desgaste em quase todo o planeta, ao mesmo tempo. A constituição de Gaia seria tão vigorosa a
ponto de reparar naturalmente o desgaste e manter o planeta saudável? Poderá Gaia nos salvar?”1

“A Terra tem 4,6 bilhões de anos, se condensarmos esse espaço de tempo num conceito compre-
ensível, poderíamos comparar a Terra a uma pessoa que neste momento estaria completando 46
anos. Nada sabemos dos 7 primeiros anos de vida dessa pessoa e mínimas são as informações
sobre o longo período de sua juventude e maturação.

Sabemos, no entanto, que foi aos 42 anos que a terra começou a florescer. Os dinossauros e os
grandes répteis surgiram há um ano, quando o planeta tinha 45 anos. Os mamíferos apareceram
há apenas oito meses e na semana passada os primeiros hominídeos aprenderam a caminhar
eretos.
1
Revista Ecologia e Desenvolvimento, no 59, 1996.
6 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

No fim dessa semana a Terra ficou coberta com uma camada de gelo, mas abrigou em seu seio
as sementes da vida. O homem moderno tem apenas quatro horas de existência e faz uma hora
que descobriu a agricultura. A Revolução Industrial iniciou há um minuto. Durante esses ses-
senta segundos da imensidão do tempo geológico, o homem fez do paraíso um depósito de lixo.

Multiplicou-se como praga, causou a extinção de inúmeras espécies, saqueou o planeta para
obter combustíveis; armou-se até os dentes para travar, com suas armas nucleares inteligentes,
a última de todas as guerras, que destruirá definitivamente o único oásis da vida no sistema so-
lar.

A evolução natural de 4,6 bilhões de anos seria anulada num segundo pela ação do animal inte-
ligente que inventou o conhecer. Será esse o nosso destino ?”

Texto do Greenpeace.

2.3. A ENERGIA

A fonte de energia para a biosfera é o sol: além de iluminar e aquecer o planeta, fornece energia
para a síntese de alimento. A energia solar também é responsável pela distribuição e reciclagem
de elementos químicos, pois governa o clima e o tempo nos sistemas de distribuição de calor e
água na superfície do planeta. Dos 100% de energia solar enviada para a Terra, somente 47%
conseguem atingir a sua superfície, sendo 30% energia direta e 17% difusa (Figura 2.1). Dos
100% iniciais, menos de 1% é utilizado pelos vegetais na produção de alimento.

Figura 2.1: Distribuição da energia solar na terra. (FREIRE DIAS, G., 1992)
1a Parte - Ecologia Geral - 7

A energia solar que toca a superfície da terra é uma ação conjunta de espécies de radiações dis-
tintas. Do aspecto ecológico, somente as radiações infravermelhas, as visíveis e as ultravioletas
são bem conhecidas quanto aos seus efeitos. As radiações infravermelhas, apesar de serem ab-
sorvidas em grande parte pelo vapor d'água atmosférico, exercem poderosa influência sobre os
seres vivos, dando também origem a fenômenos meteorológicos, como o vento. As radiações
ultravioletas têm importância na formação da vitamina D, necessária aos seres vivos, mas por
outro lado, possuem grande poder mutágeno, estando relacionadas com a incidência de câncer de
pele. A grande maioria desses raios é absorvida pela camada de ozônio presente na atmosfera
terrestre. As radiações visíveis constituem a parte do espectro solar indispensável à vida: a luz
solar se relaciona fundamentalmente com a produção de alimentos.

Todos os processos energéticos da biosfera obedecem às duas leis da termodinâmica. A primeira


lei estabelece que “a energia do universo é constante” ou seja a energia não pode ser criada
nem destruída, apenas transformada. A segunda lei reza que “a entropia no universo tende ao
máximo” ou seja a cada transformação a energia passa de uma forma mais organizada e concen-
trada (energia de alta qualidade) a outra menos organizada e mais dispersa (energia de baixa qua-
lidade - calor). As duas leis podem ser observadas no fluxo contínuo e num único sentido da e-
nergia solar na biosfera (Figura 2.2): a energia luminosa é captada pelas plantas e transformada
em energia química ou absorvida pela água, ar e solo e, posteriormente, em ambos os casos,
transformada em energia calorífica que é irradiada para o espaço. Neste contexto, a Terra é um
sistema aberto.

Energia Solar
(irradiada à Terra com luz solar)

Biosfera
Energia solar convertida em energia
química na matéria orgânica
(através da fotossíntese)

Energia química que se emprega para produzir


trabalho nas células do organismo
(através da respiração)

Energia Degradada
(irradiada para o espaço na forma de calor)

Figura 2.2: Fluxo de energia na biosfera.

2.4. OS RECURSOS NATURAIS

Ar, água, solo, minerais, flora e fauna, genericamente, são recursos naturais, isto é, são recursos
que a natureza coloca à disposição dos seres vivos, para que estes possam satisfazer às suas ne-
cessidades. A existência da biosfera está condicionada à disponibilidade desses recursos que po-
dem der divididos em:

♦ renováveis - são aqueles recursos que naturalmente podem ser regenerados após o uso, como:
a água, o ar, a energia solar, a energia eólica, a madeira, as plantas produtoras de fibra, os ve-
8 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

getais usados na alimentação, animais usados na alimentação e na confecção de agasalhos e os


nutrientes;
♦ não-renováveis - são aqueles que não podem ser naturalmente regenerados após o uso ou são
regenerados em tempos geológicos muito extensos. O calcário, a argila, a areia, o petróleo e o
carvão mineral são exemplos de recursos naturais não-renováveis.

Quando estes conceitos são aplicados no meio humano, o recurso natural será renovável ou não
dependendo da sua exploração e/ou capacidade de reposição. Assim, determinado recurso con-
ceituado como renovável pode deixar de sê-lo, como é o caso da fauna que pode entrar em extin-
ção quando explorada de forma incorreta ou quando o ambiente modificado não fornece condi-
ções para sua renovação. O peixe-boi, o tatu-canastra, o tamanduá-bandeira, a jaguatirica e a ara-
ra-azul, são exemplos de espécies brasileiras que se encontram ameaçadas de extinção, devido à
caça predatória associada a transformações no ambiente. A água também pode deixar de ser um
recurso renovável na região quando manejada de forma incorreta. Para evitar a extinção, exaus-
tão ou perda de recursos naturais é fundamental o conhecimento ecológico, para que se possa es-
tabelecer condições e limites de uso e exploração, bem como planos de manejo adequados à ca-
pacidade de suporte do ambiente e, por que não, da biosfera.

2.5. ATIVIDADES HUMANAS E DESEQUILÍBRIOS NA BIOSFERA

As atividades humanas contribuem para alterações dos requisitos de qualidade da biosfera. As


indústrias com suas chaminés e o uso dos veículos movidos a gasolina ou a óleo alteram a com-
posição da atmosfera; os resíduos lançados pelos esgotos das fábricas e das casas alteram a com-
posição da hidrosfera; a disposição inadequado do lixo, dos entulhos de construção, dos rejeitos
da mineração, dos inseticidas, dos adubos, etc., alteram a composição da litosfera.

Algumas dessas atividades humanas podem ser benéficas para a biosfera, melhorando as condi-
ções de vida ou de desenvolvimento, por exemplo: a adubação e a irrigação do solo, aumentando
nele a quantidade de elementos nutritivos e água necessários ao crescimento das plantas. Outras
porém são nocivas por causarem poluição, erosão. etc. Às vezes, uma atividade é benéfica em
uma determinada área e para outra torna-se nociva, como, por exemplo, a aplicação de inseticidas
para combater as pragas da lavoura, causando morte de insetos inofensivos e contaminando a á-
gua dos rios próximos. O perfeito equilíbrio entre todas essas atividades e o perfeito conhecimen-
to das relações entre as espécies de animais e vegetais que habitam diferentes locais da biosfera,
torna-se assim indispensável para que se consiga manter as características do meio em que vive-
mos.

2.6. EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 2

1. Conceitue biosfera e ecosfera, com noções sobre sua amplitude e idade.


2. Comente sobre a importância da presença da luz, do calor e da água como elementos indis-
pensáveis à vida na biosfera.
3. Explique porque do ponto de vista energético a biosfera ou ecosfera é um sistema aberto.
4. Elabore um quadro com cinco atividades humanas que contribuem para alterar a biosfera, re-
lacionando-as com os benefícios esperados e os prejuízos observados.
1a Parte - Ecologia Geral - 9

3. NECESSIDADES BÁSICAS DOS SERES VIVOS

A existência da biosfera ou de vida de forma permanente, em um ambiente qualquer, só é


possível se este oferecer condições para que os seres vivos satisfaçam as suas necessida-
des básicas: nutrição, proteção e reprodução (Quadro 3.1). A nutrição garante matéria (alimen-
to) rica em energia, para que os seres vivos possam proteger-se de seus inimigos e dos rigores do
tempo e, finalmente, reproduzir para garantir a continuidade das espécies.

Quadro 3.1: Necessidades básicas dos seres vivos.

Necessidade Conceito Tipos Organismos

• Nutrição • Processos de obten- • Autotrófica: os seres vivos • Vegetais cloro-


ção de matéria e e- sintetizam seu próprio ali- filados, algas e
nergia pelos seres mento, partindo de substân- algumas bactéri-
vivos. cias inorgânicas e de uma rias.
fonte de energia.
• Heterotrófica: os seres • Animais, fun-
vivos, através de relações gos, vírus, pro-
com outros seres vivos, ad- tozoários e o res-
quirem o alimento sintetiza- tante das bacté-
do. rias.
• Proteção • Mecanismos utili- • Crescimento quase ilimi- • Vegetais.
zados pelos seres vi- tado, espinhos, substâncias
vos para se defende- urticantes, perda das folhas,
rem das intempéries e ...
dos seus inimigos na- • Aspecto repulsivo, agres- • Animais.
turais. são, fuga, construção de
abrigos, elevada descendên-
cia, camuflagem, ...
• Reprodução • Processos desenvol- • Assexuada: quando não há • Bactérias e al-
vidos pelos seres vi- mistura de genes, gerando guns protozoá-
vos para gerar des- indivíduos geneticamente rios.
cendentes e, conse- idênticos ao que lhe deu
quentemente, dar con- origem.
tinuidade às espécies. • Sexuada: ocorre mistura • Maioria dos
de genes, gerando seres com seres vivos.
novas combinações genéti-
cas.

Boa parte da vida de um organismo é utilizada no processo de nutrição. Por isso, a relação ali-
mentar constitui fator determinante da estrutura da comunidade. Para satisfazer ao processo nu-
tricional, o ser vivo precisa de condições que lhe permitam produzir (autótrofo) ou utilizar (hete-
rótrofo) os alimentos disponíveis, e o meio ambiente deve oferecê-las.
10 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

No que diz respeito à proteção, a camuflagem é talvez o mais curioso mecanismo. Neste, o orga-
nismo envolvido adota a aparência transitória (mimetismo), ou permanente, de uma característica
do ambiente e consegue assim se proteger de seus inimigos naturais: borboletas com cores e for-
ma de pétalas de flores, gafanhotos com aparência de folhas ou de ramos, lagartos com cores da
paisagem, etc. O fenômeno da camuflagem é de tal forma que chega a ser possível identificar,
pelo aspecto do organismo, o tipo de ambiente de onde o mesmo provém.

A reprodução, seja sexuada ou assexuada, depende de condições ambientais particulares, envol-


vendo vento, água, temperatura, presença de outros organismos (polinizadores ou não), disponi-
bilidade de abrigo e de materiais para construção de ninhos, tocas, etc. O ambiente deve ser ca-
paz de satisfazer às necessidades de cada espécie para que ela reproduza, povoe e a vida continue
existindo.

Como heterótrofo, o homem, na busca do alimento, desenvolve as mais variadas relações com o
ambiente, através da caça, pesca, agricultura, pecuária, piscicultura, desmatamento, etc. e, ao
contrário dos demais seres vivos, consome muito mais compostos orgânicos do que a quantidade
por ele utilizada como alimento. A maior parte da matéria consumida é usada na produção de
energia. Em nome do desenvolvimento, o homem vem interferindo na Natureza, eliminando ou
modificando o ambiente, de modo a inviabilizar a satisfação das necessidades básicas de seres
vivos, o que pode causar profundas modificações de caráter ecológico, com o desaparecimento
de espécies úteis e a superpopulação por espécies indesejáveis, com conseqüências para o próprio
homem.

3.1. PROCESSOS ENERGÉTICOS UTILIZADOS PELOS SERES VIVOS

Na biosfera, os seres vivos obtêm energia para satisfazer suas necessidade básicas através de cin-
co processos, divididos em dois grupos.

a) Processos que levam à formação de compostos orgânicos (alimento) ricos em energia, a partir
de CO2 e H2O:

♦ fotossíntese - quando a energia utilizada para a síntese do alimento provém da luz.


Luz
CO2 + H2O Alimento + O2

♦ quimiossíntese - quando a energia utilizada para a síntese do alimento, provém da oxidação


de compostos inorgânicos.

Comp. Inorg. Reduzido + O2 Comp. Inorg. Oxidado

Energia Química

CO2 + H2O Alimento


1a Parte - Ecologia Geral - 11

b) Processos que levam à liberação da energia contida nos alimentos:

♦ respiração aeróbia - quando o receptor final dos hidrogênios é o oxigênio.

Alimento + O2 CO2 + H2O + Energia

♦ respiração anaeróbia - quando o receptor dos hidrogênios é uma substância diferente do oxi-
gênio (CO3-2, PO4-3, SO4-2 ).

Alimento + KNO3 CO2 + H2O + N2 + KOH + Energia

♦ fermentação: quando o receptor dos hidrogênios é uma substância orgânica subproduto da


reação em questão.

Alimento C2H5OH + CO2 + Energia

Os organismos que realizam fotossíntese e quimiossíntese são portanto autótrofos. Tanto autótro-
fos como heterótrofos retiram energia dos alimentos através da respiração. Os seres vivos que
respiram aerobicamente são chamados aeróbios. Os que respiram anaerobiamente são denomi-
nados anaeróbios. Os seres que respiram tanto aeróbia como anaerobiamente, dependendo das
condições do ambiente, são chamados facultativos.

Os processos energéticos mais difundidos nas condições atuais da biosfera são: fotossíntese, res-
piração aeróbia e fermentação. Estes surgiram na Terra juntamente com os primeiros seres vivos.
Tudo indica que a seqüência de aparição destes processos na biosfera foi: fermentação (compos-
tos orgânicos nos mares primitivos), fotossíntese (após introdução de CO2 pela fermentação) e
respiração aeróbia (após a introdução de O2 pela fotossíntese).

3.2. BIOSSÍNTESE E BIODEGRADAÇÃO

Em todo processo de nutrição autotrófica há síntese ou composição de compostos orgânicos e no


de respiração há degradação ou decomposição de compostos, que se caracteriza pela volta destes
aos seus constituintes originais - carbono, água e sais minerais; como ambos os processos são
biológicos, fala-se em biossíntese e biodegradação.

Na biosfera, a todo processo de biossíntese (foto e quimiossíntese) deve corresponder um proces-


so de biodegradação (respiração aeróbia, anaeróbia e fermentação). Isso é quantitativamente ver-
dadeiro, o que origina um equilíbrio entre esses dois processos naturais. A existência desse equi-
líbrio é condição fundamental à continuidade da vida, porque se por um lado a quantidade de e-
nergia disponível (solar) é inesgotável, por outro lado a quantidade de carbono e outros elemen-
tos constitutivos das moléculas orgânicas é limitada no ambiente habitado. Isto faz com que to-
dos os elementos retirados do meio devam, mais cedo ou mais tarde, ser restituídos ao meio, a-
través da biodegradação, para novas biossínteses. Este processo denomina-se reciclagem.
12 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Os vegetais e animais continuamente realizam biodegradação de compostos orgânicos, através da


respiração. Quando morrem, os compostos orgânicos que formam os seus corpos passam a ser
biodegradados, graças à ação de microrganismos que utilizam como alimento os cadáveres ani-
mais e restos de vegetais. Esses microrganismos constituem um grupo particular de heterótrofos
que recebem a denominação genérica de sapróvoros. Se não existisse a atividade desses seres,
todos os restos e detritos animais e vegetais permaneceriam intactos na biosfera, acumulando e-
lementos essenciais à formação de novos seres vivos e o planeta seria um amontoado de lixo.

3.3. EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 3

1. Classifique os seres vivos quanto ao processo de nutrição.


2. Por que os seres vivos precisam se proteger ? Enumere cinco processos de proteção que você
conhece.
3. O que pode acontecer com os seres vivos de uma determinada região quando a mata nativa é
substituída por plantações exóticas ?
4. Identifique os processos energéticos utilizados pelos seres vivos.
5. Os primeiros seres vivos do planeta eram autótrofos ou heterótrofos ? Por que?
6. Levando em consideração a atmosfera primitiva (NH3, H2, CH4 e vapor d’água), explique
porque nem a fotossíntese e nem a respiração aeróbia tinham condições de ocorrer.
7. O que é reciclagem ? Faça uma lista de 5 produtos recicláveis que você usa diariamente.
8. Explique a importância da reciclagem para continuidade da biosfera.
1a Parte - Ecologia Geral - 13

4. FATORES ECOLÓGICOS

E ntende-se por fatores ecológicos o conjunto de fatores biológicos, ou bióticos, e físicos, ou


abióticos, de um determinado ambiente, que atuam sobre o desenvolvimento de uma co-
munidade. Tais fatores podem constituir elementos da resistência ambiental, diminuindo a sobre-
vivência dos seres vivos. Os fatores ecológicos bióticos compreendem as relações simbióticas
entre os seres vivos e os fatores ecológicos abióticos constituem as condições físicas do ambien-
te.

4.1. FATORES ECOLÓGICOS BIÓTICOS

Para satisfazer suas necessidades de alimentação, proteção, transporte e reprodução os seres vi-
vos associam-se com outros seres vivos, de mesma espécie ou de espécie diferente, surgindo as-
sim as relações ecológicas. Consideradas fatores ecológicos bióticos, as relações ecológicas
(Quadro 4.1) podem ser classificadas em:

♦ intra-específica - relação que ocorre entre indivíduos de mesma espécie;


♦ inter-específica - relação que ocorre entre indivíduos de espécies diferentes;
♦ harmônica - relação em que nenhum dos organismos é prejudicado;
♦ desarmônica - relação em que pelo menos um dos organismos é prejudicado.

Quadro 4.1: Relações entre os seres vivos.

Relações Conceito Exemplos Observações

• Canibalismo • Um animal ma- • Ocorre, dentre • Raro. Ocorre em super-


(intra-específi- ta e devora outro outras populações, populações quando há falta
ca desarmôni- da sua espécie. nas de aranhas, de alimento; em algumas
ca) ratos, peixes, lou- espécies é comum a fêmea
va-a-deus, devorar o macho, após a
fecundação.
• Competição • Luta por ali- • Todos os seres • Freqüente. Observa-se
(intra e inter- mento, posse de vivos. sempre que há sobreposição
específica de- território, da fê- de nichos ecológicos. É um
sarmônica) mea, etc. fator de seleção natural e de
limitação da população.
• Predatismo • Um animal ma- • Mamífero carní- • Freqüente. Fator de sele-
(inter-específi- ta outro de espé- voro (predador) x ção natural e equilíbrio da
ca desarmôni- cie diferente para mamífero herbívo- população de presas. Apli-
ca) se alimentar. ro (presa). cado no Controle Biológico:
predador x praga.
• Forésia • Transporte de • Pólen x insetos e • Polinização.
(inter-específi- um ser, seus ovos aves; sementes x
ca harmônica) ou sementes por aves e mamíferos,
outro ser vivo. etc.
14 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

• Mutualismo • Troca de bene- • Cupim x proto- • Obrigatório (liquens), fa-


(inter-específi- fícios entre seres zoários, algas x cultativo (mosca do berne).
ca harmônica) vivos, com ou fungos, plantas x
sem interdepen- insetos, crocodilo
dência. x ave-palito.
• Parasitismo • Um ser vive à • Cipó-de-chumbo • Freqüente. Fator de home-
(inter-específi- custa de outro, x outros vegetais; ostase na população de pre-
ca desarmôni- prejudicando-o. vermes x mamífe- sas. Aplicado no Controle
ca) ro; vírus, bactérias, Biológico: parasita x praga.
fungos e protozoá- Endoparasita (ameba) e ec-
rios x outros seres toparasita (piolho).
vivos.
• Inquilinismo • Um organismo • Bromélia x árvo- • Epifitismo, epizoísmo,
(inter-específi- usa outro como re (suporte), fie- endofitismo e endozoísmo.
ca harmônica) suporte ou abri- ráster x holoturói-
go. des (abrigo).
•Comensalismo • Um ser come • Rêmora x tuba- • Também é aplicada a situ-
(inter-específi- restos da comida rão, hiena x leão. ações em que não está en-
ca harmônica) de outro. volvido o alimento (tuim x
pica-pau).
• Colônias • Seres unidos • Algas, protozoá- • Os indivíduos podem ser
(intra-específi- anatômica e/ou rios, corais, cracas, todos iguais (algas) ou dife-
ca harmônica) fisiologicamente. caravelas. rentes com divisão de traba-
lho (caravelas).
• Sociedade • Indivíduos com • Castores, gorilas, • Comum no mundo dos
(intra-específi- tendência à vida homens, peixes, insetos, onde a divisão de
ca harmônica) gregária, traba- formigas, abelhas, trabalho leva a formação de
lham para o de- cupins. castas.
senvolvimento da
população.
• Amensalismo • Uma espécie • Eucalipto x gra- • Esta relação é mais co-
(inter-específi- inibidora produz míneas, mandioca- mum entre vegetais, fungos
ca desarmôni- secreções (subs- brava x fungos, e bactérias.
ca) tâncias tóxicas) fungos x bactérias,
eliminando a es- algas x peixes
pécie amensal. (Maré vermelha).

Determinadas relações têm importância vital para o equilíbrio ecológico dentro das comunidades.
Numa interação como o predatismo, o predador influi diretamente no controle da população da
presa, mantendo-a em níveis compatíveis com a quantidade de alimento disponível no local. Re-
lações como predatismo e parasitismo são assim utilizadas para eliminação ou diminuição de es-
pécies indesejáveis, num processo conhecido como Combate ou Controle Biológico. Este ofe-
rece duas vantagens sobre o combate através de substâncias químicas: não polui o ambiente e,
desde que adequadamente planejado, não causa desequilíbrios ecológicos. Muitas espécies para-
sitas são seletivas, vivem apenas em um hospedeiro ou em espécies aparentadas do seu hospedei-
ro. Neste sentido, o uso do parasitismo no controle biológico tem se mostrado mais eficiente do
que o predatismo.
1a Parte - Ecologia Geral - 15

Algumas relações existentes entre os seres vivos não se enquadram nos tipos citados, por não se-
rem tão óbvias. Muitas espécies, para sobreviverem em um determinado ambiente, dependem
indiretamente da presença de outras. Como exemplo, podemos citar os mamíferos: as regiões
mais ricas do mundo em mamíferos, são aquelas que apresentam uma fauna diversificada de co-
prófagos (bosteiros), estes além de contribuírem para melhorar as pastagens, reduzem as infec-
ções parasitárias dos mamíferos por enterrarem no solo os vermes parasitas.

4.2. FATORES ECOLÓGICOS ABIÓTICOS

Os fatores ecológicos abióticos estão representados pelas condições climáticas, edáficas e quími-
cas, que determinam a composição física do ambiente. Os principais fatores ecológicos abióticos
nos ambientes terrestres são a luz, a temperatura e a água, enquanto que nos ambientes aquáticos
são a luz, a temperatura e a salinidade. Os principais fatores ecológicos abióticos encontram-se
listados no quadro 4.2.

Quadro 4.2: Fatores ecológicos abióticos.

Fator Importância Classificação

Temperatura • Constitui fator determinante na dis- • Homeotermos: organismos


tribuição dos seres vivos, influi no que conseguem manter a tem-
metabolismo, no apetite, na fotossín- peratura corporal, apesar das
tese, no desenvolvimento, na ativida- variações do meio (Aves e
de Sexual e na fecundidade. As tem- Mamíferos).
peraturas mais favoráveis à vida estão
na faixa de 10 a 30oC. Para cada ser • Pecilotermos: a temperatura
vivo existe um preferendo térmico corporal acompanha as varia-
(PT). Temperaturas fora do PT de- ções do meio (peixes, répteis e
terminam migrações. Quando a tem- anfíbios).
peratura diminui ou aumenta demasi-
adamente, alguns seres vivos entram
em estado de quiescência, fazendo
hibernação (morcego, urso) ou estiva-
ção (lagarto, rato-canguru), outros
migram.

Luz • Essencial na produção de alimentos • Eurifotos: organismos que su-


(fotossíntese), nos processos ópticos, portam grandes variações lumi-
na pigmentação da pele, regula os nosas.
ritmos biológicos diários e anuais, • Estenofotos: só conseguem
regula a atividade motora de animais viver numa estreita faixa lumi-
(fotocinese), orienta o movimento dos nosa.
vegetais (heliotropismo). Alguns ani- • Lucífilos: atraídos pela luz
mais e vegetais produzem luz, proces- (mariposas).
so chamado bioluminescência. • Lucífobos: fogem da luz
(toupeira).
16 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Água • Entra na composição das células de • Hidrófilos ou hidrófitos: ve-


todo ser vivo, está presente em todos getais que só vivem em locais
os processos metabólicos, é o solvente onde haja muita água (vitória-
universal; tem papel fundamental na régia).
temperatura corporal dos homeoter-
mos, na regulação do clima do planeta • Xerófilos ou xerófitos: vege-
e na distribuição dos seres vivos na tais adaptados a locais com
biosfera. As sementes têm em torno pouca água, áridos (cactos).
de 3 a 5% de água, o homem 65%, o
recém-nascido 90% e as medusas
99%.

Nutrientes • Necessários para o crescimento e • Macronutriente: entra em


reprodução dos seres vivos, são eles grande quantidade na composi-
os elementos químicos e sais dissol- ção dos tecidos vivos (Carbono,
vidos. Seu suprimento na biosfera se Oxigênio, Hidrogênio, Nitrogê-
mantém mediante o movimento den- nio).
tro dos ciclos biogeoquímicos. Podem
se tornar fator limitante por falta ou • Micronutriente: necessário
por excesso no meio. Constituem, em quantidades relativamente
juntamente com outras características pequenas (Manganês, Cobre,
do solo (pH, textura, umidade), os Zinco, Magnésio).
fatores edáficos.

4.3. FATORES LIMITANTES

Para cada um dos fatores ecológicos, os seres vivos têm limites de tolerância dentro dos quais
podem sobreviver. Assim, qualquer fator abiótico fora do extremo superior ou inferior, tende a
limitar a oportunidade de sobrevivência do organismo (Lei de Leidberg), e esse fator passa a ser
um fator limitante. O mesmo se aplica para os fatores bióticos quando estes passam a limitar o
desenvolvimento dos seres vivos. Os principais fatores limitantes abióticos são a temperatura
(clima), a água, a luz e os nutrientes; e os bióticos são a competição, o predatismo e o parasitis-
mo.

Quanto mais ampla for a faixa de tolerância de um organismo a um dado fator, mais probabilida-
de ele tem de sobreviver às variações ambientais relacionadas a esse fator. Alguns animais têm
uma faixa de tolerância muito estreita: para os peixes, por exemplo, uma variação de poucos
graus na temperatura da água, pode eliminar a população inteira. Em termos gerais, quanto mais
ampla for a faixa de tolerância de um organismo aos fatores do meio, mais ampla será a sua dis-
tribuição geográfica. Mediante a tecnologia, o homem tem ampliado, artificialmente, sua faixa de
tolerância a muitos fatores, de modo que pode sobreviver em quase todas as regiões da biosfera e
fora dela (nave espacial).
1a Parte - Ecologia Geral - 17

4.4. EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 4

1. De que maneiras podem interagir os organismos de uma mesma espécie ?


2. Identifique e classifique as relações abaixo:
a) A penicilina, o primeiro antibiótico descoberto pelo homem, é uma substância produzida
por um fungo capaz de inibir o crescimento de microrganismos.
b) As abelhas, para produzirem o mel, utilizam o néctar das flores.
c) Em uma calçada, a lagartixa fica imóvel por alguns minutos e, subitamente, lança sua lín-
gua e captura um inseto.
d) O anum é freqüentemente encontrado nas costas do gado bovino, alimentando-se de carra-
patos que infestam sua pele.
e) As orquídeas em uma floresta utilizam as árvores como suporte, para poderem ficar mais
próximas da fonte de luz.
3. As relações entre os seres vivos podem envolver ganho (+), perda (-) ou neutralidade e tole-
rância (0). Classifique as relações listadas no quadro 4.1 usando pares de sinais, como (+,+),
(+,-), (0,+), etc.
4. Qual a importância, para uma espécie, da competição entre seus indivíduos ?
5. Qual a importância do predatismo para a comunidade ?
6. O que é controle biológico ? É mais eficiente quando se usam parasitas ou predadores? Por
que?
7. Por que alguns seres vivos migram ?
8. Qual a diferença entre hibernação e estivação ?
9. Conceitue fator limitante. Dê exemplo de um fator limitante para o homem.
10. Qual a diferença entre fator limitante e resistência ambiental ?
18 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

5. ECOSSISTEMAS

O s vegetais, animais e microrganismos que vivem numa região e constituem uma comuni-
dade biológica, estão ligados por uma intrincada rede de relações e influências, que inclui
o meio físico e a própria comunidade. Estes componentes físicos e biológicos, interdependentes,
formam uma unidade funcional básica de estudo da Ecologia, denominada ecossistema (Tansley,
1935). Um ecossistema pode ser definido como: “unidade funcional básica, composta de uma
biocenose - conjunto de seres vivos - e um biótopo - lugar que abriga uma biocenose”.

As dimensões dos ecossistemas são as mais variadas possíveis, pois convenientemente pode-se
escolher uma unidade maior ou menor para estudo. Ele pode ser constituído por uma floresta in-
teira (macro-ecossistema) ou por uma simples planta como a bromeliácea (micro-ecossistema),
ou ainda, um oceano ou um aquário.

5.1. COMPONENTES E ESTRUTURA

Há nos ecossistemas um enorme complexo de fenômenos e fatores que delimitam e definem a


sua composição: primeiramente, a composição física do meio (natureza do solo, luminosidade,
temperatura, etc.); depois, a composição química (sais minerais e compostos inorgânicos utiliza-
dos como nutrientes, ácidos, álcalis, oxigênio, gás carbônico, etc.); finalmente, a presença de se-
res vivos que podem ser predadores, comensais, parasitas, competidores, etc., e caracterizam-se
por uma interdependência não somente nas relações alimentares, mas também na reprodução e
proteção. Desse modo, pode-se dividir o ecossistema em dois conjuntos amplos de componentes:
os bióticos (vivos) e os abióticos (não vivos). O conjunto dos componentes bióticos compõe a
biocenose e dos componentes abióticos o biótopo.

Os componentes bióticos podem ser agrupados em três categorias funcionais: produtores, con-
sumidores e decompositores. Os produtores são todos os organismos autótrofos, principalmen-
te plantas verdes que realizam fotossíntese, e outros, em menor quantidade, que realizam quimi-
ossíntese. Os consumidores dos ecossistemas são os heterótrofos, principalmente animais, que
se alimentam de outros seres vivos. Podem ser subdivididos em: (a) consumidor primário (her-
bívoro), que utiliza diretamente o vegetal - veado, gafanhoto, coelho e muitos peixes; (b) con-
sumidor secundário (carnívoro), que obtém seu alimento de consumidores primários - leão, ca-
chorro, cobra e espécies carnívoras de peixes; e, (c) consumidor misto (onívoro), que não faz
discriminação pronunciada em sua preferência alimentar entre produtores e outros consumidores
- esta categoria inclui o homem, o urso e alguns peixes. Os decompositores também são heteró-
trofos - bactérias e fungos sapróvoros -, porém se alimentam de materiais residuais (excreções,
cadáveres, etc.) transformando-os em substâncias inorgânicas simples utilizáveis pelos produto-
res. Não fosse o trabalho dos decompositores, o nosso planeta seria um amontoado de ‘lixo’.

A estrutura de um ecossistema pode ser exemplificada através de um Terrário: uma espécie de


jardim encerrado em uma caixa de vidro ou plástico transparente, que recebe luz solar e contém
uma camada de solo, pequenas plantas (produtores), pequenos insetos (consumidores primários)
-como pulgões - alimentando-se da seiva dessas plantas, insetos carnívoros (consumidores se-
1a Parte - Ecologia Geral - 19

cundários) - como joaninhas - comendo pulgões e, mesmo, um predador maior (consumidor ter-
ciário) - como a aranha ou louva-a-deus, capturando as joaninhas. Finalmente, o próprio solo
contendo bactérias e outros sapróvoros (decompositores), nutrindo-se de folhas mortas e outros
detritos de origem vegetal ou animal. Desse modo, mantém-se dentro do terrário, um fluxo de
energia e uma reciclagem de elementos químicos, de maneira a conservar, no seu interior, apro-
ximadamente constantes as concentrações de gás carbônico, água, oxigênio, sais minerais e com-
postos orgânicos, não sendo necessário adicionar ou retirar, periodicamente, qualquer deles.

5.2. CARACTERÍSTICAS DOS ECOSSISTEMAS

No estudo dos ecossistemas distinguem-se quatro características básicas:


♦ continuidade - todos os ecossistemas do planeta estão interligados, formando um grande e-
cossistema - a biosfera;
♦ sistema aberto - sob o ponto de vista da termodinâmica, todos os ecossistemas são sistemas
abertos, que se mantêm através do fluxo contínuo de energia solar;
♦ homeostase - todo ecossistema é dotado de auto-regulação, o que o torna capaz de resistir às
mudanças e lhe confere um estado de equilíbrio dinâmico;
♦ sucessão ecológica - a maioria dos ecossistemas forma-se no curso de uma longa evolução,
conseqüência do processo de adaptação entre as espécies e o meio ambiente. Uma sucessão
ecológica pode levar dezenas a centenas de anos, até que a comunidade estabilize atingindo o
clímax. A sucessão pode ser primária ou secundária. A primeira ocorre em regiões nunca
antes habitadas, como numa crosta rochosa. A segunda ocorre em regiões antes habitadas mas
que, em função de fatores naturais ou artificiais, como enchentes, erupções vulcânicas, quei-
madas, projetos agrícolas, etc., romperam o clímax, retornando ao processo de sucessão. Na
figura 5.1, estão enumeradas as séries da sucessão de um bosque queimado até atingir nova-
mente o clímax, num tempo de aproximadamente 350 anos.

Figura 5.1: Sucessão ecológica em um bosque queimado. (SUTTON, D. B. e HARMON, N. P., 1979)

5.3. EQUILÍBRIO NOS ECOSSISTEMAS

Todos os consumidores da biosfera obtêm energia e nutrientes para satisfazer as suas necessida-
des, comendo plantas (produtores), ou comendo outros animais (herbívoros) que comeram plan-
tas, ou comendo animais (carnívoros) que comeram animais que comeram plantas, e assim por
diante. Dessa forma, embora os ecossistemas variem muito em proporção e em aparência, todos
têm uma mesma estrutura de funcionamento, apresentando um fluxo de energia e um ciclo de
matéria (Figura 5.2), da mesma forma que na biosfera.
20 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Sol Calor Calor Calor

Produtores Herbívoros Carnívoros

Decompositores

Materiais particulados e gasosos


Energia dissolvidos na água,
Matéria no ar ou no solo.

Figura 5.2: Fluxo de energia e ciclo de matéria nos ecossistemas.

A estrutura de funcionamento, resultante do arranjo produtor-consumidor, denomina-se cadeia


alimentar. Uma cadeia alimentar é definida como sendo uma seqüência de seres vivos unidos
pelo alimento. Uma forma de representá-la é ligando o nome dos organismos com setas, as quais
indicam o caminho percorrido pela matéria nos ecossistemas. Esta representação classifica os
organismos de acordo com o nível trófico que ocupam (Quadro 5.1). Por definição o primeiro
nível trófico (NT) pertence ao produtor, com uma única exceção para as cadeias alimentares do
solo, que se iniciam com restos de vegetais e animais mortos. O último nível trófico , por sua
vez, é ocupado pelos decompositores. Estes compreendem miríades de organismos sapróvoros,
que estabelecem cadeias de decomposição sobre a matéria morta. Tais cadeias ocupam sempre o
último nível trófico das cadeias de predadores (predomina o predatismo) e parasitas (predomina
o parasitismo). Logo os decompositores quase nunca são representados nestas seqüências alimen-
tares. Exemplos de cadeias alimentares:

♦ capim → gafanhotos → pássaros → raposas (Cadeia de Predadores)


♦ trigo → pulgão → protozoário (Cadeia de Parasitas)
♦ folhas → fungos → vermes (Cadeia de Decomposição)

Quadro 5.1: Classificação dos organismos num ecossistema.

Tipo de nutrição Categoria funcional Nível trófico

Autotrófica Produtor (vegetal) 1o


Heterotrófica Consumidor
• primário (herbívoro) 2o
• secundário (carnívoro 1) 3o
• terciário (carnívoro 2) 4o
o o o o
• misto (onívoro) 2 ,3 ,4 ,5
o o o o o
Heterotrófica Decompositor 2 ,3 ,4 ,5 ,6
1a Parte - Ecologia Geral - 21

Num ecossistema, as relações de transferência de matéria e energia não são tão simples como nas
cadeias alimentares. Na realidade, estas entrelaçam-se, num delicado equilíbrio, constituindo
verdadeiras teias que unem entre si predadores e presas, parasitas e hospedeiros, formando estru-
turas mais complexas denominadas teias ou redes alimentares. Numa teia alimentar, um orga-
nismo pode ocupar diferentes níveis tróficos (Figura 5.3). Isso torna-se vantajoso para a comuni-
dade, uma vez que um organismo passa a ter várias opções de alimento, fato que confere maior
estabilidade à estrutura e, consequentemente, ao ecossistema.

Figura 5.3: Teia alimentar de águas costeiras


(SUTTON, D. B. e HARMON, N. P., 1979)

5.4. PRODUTIVIDADE NOS ECOSSISTEMAS

A produtividade, ou produção, designa a quantidade de matéria orgânica produzida, ou de e-


nergia fixada pelos produtores, que é transferida para os consumidores ao longo das seqüências
alimentares, podendo ser expressa em unidades de massa ou de energia. Em termos de energia, as
calorias incorporadas em cada nível trófico denominam-se: produção primária ou PP (1oNT),
produção secundária ou PS (2oNT), produção terciária ou PT (3oNT), etc. Denomina-se pro-
dução primária bruta (PPB ou PB), a quantidade de energia fixada pelas plantas no processo de
fotossíntese. Parte dessa energia é dissipada no processo de respiração do autótrofo (Ra) e parte -
produção primária líquida (PPL ou PL) é incorporada à biomassa vegetal e transferida para os
consumidores. A cada nível trófico, parte da energia recebida é incorporada à biomassa e parte é
dissipada na forma de calor (2a lei da termodinâmica) ou perdida na matéria excretada. Toman-
do-se R como sendo o somatório da energia dissipada - energia calorífica - em todos os níveis
tróficos, a produtividade no ecossistema pode ser representada por PB = PL + R.
22 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

A produtividade média nas cadeias alimentares é estimada em torno de 10%, ou seja, a cada nível
trófico são incorporados cerca de 10% da energia proveniente do nível trófico precedente (Lei de
Elton ou dos 10%). Assim, PS = 10%PL, PT = 10%PS, sucessivamente. Conseqüência da se-
gunda lei da termodinâmica, quanto maior o nível trófico do organismo, menor a quantidade de
energia disponível. Tal fato limita o número de níveis de uma cadeia, e este é atingido quando os
organismos não obtêm energia suficiente para manterem-se vivos e reproduzirem-se. Por esta
razão, a maioria das cadeias apresentam quatro a cinco níveis tróficos. Consequentemente, quan-
to mais próximo da base de produção maior a disponibilidade de energia e, portanto, maior quan-
tidade de organismos poderá ser mantida com a produção primária do ecossistema.

O estudo da produtividade é usado para identificar o estágio da sucessão ecológica em que se en-
contra o ecossistema. Com base na relação PB/R determina-se se a comunidade é clímax ou está
em sucessão ecológica. Na primeira, PL = 0, isto é, toda produção primária líquida de um certo
intervalo de tempo é consumida pela fauna em intervalo de tempo igual, logo PB/R = 1,0 ou e-
cossistema maduro. Na segunda, PL > 0, apenas parte da produção primária líquida é consumi-
da, havendo portanto saldo de energia para manter novos consumidores, logo PB/R > 1,0 ou e-
cossistema sucessional. No quadro 5.2, estão resumidas algumas diferenças entre estes dois ti-
pos de ecossistemas.

Quadro 5.2: Diferenças entre o ecossistema sucessional e maduro

Características Ecossistema Suces- Ecossistema


sional Maduro
Diversidade biológica Baixa Alta
Biomassa total Pequena Grande
Número de relações Pequeno Grande
Teia alimentar Simples Complexa
Relação produção/consumo Maior que um Igual a um
Estabilidade Instável Estável
Resistência aos distúrbios externos Baixa Alta

A produtividade dos vários ecossistemas da biosfera não se distribui casualmente. Ela está limi-
tada pelo clima, distribuição de nutrientes, luz e água. A figura 5.4 ilustra a distribuição da pro-
dução primária em vários ecossistemas.

5.5. PIRÂMIDES ECOLÓGICAS

A estrutura trófica de um ecossistema pode ser ilustrada graficamente por meio de pirâmides
ecológicas, nas quais o primeiro nível trófico, ou nível produtor, forma sempre a base e os níveis
sucessivos formam camadas até o ápice.
1a Parte - Ecologia Geral - 23

“A” - Desertos;
“B” - Pastagens, Lagos profundos, Bosques montanhosos;
“C” - Florestas tropicais, Lagos rasos, Pastagens úmidas, Agricultura irrigada;
“D” - Estuários, Recifes de corais;
“E” - Águas costeiras;
“F” - Mares profundos.

Figura 5.4: Produtividade primária bruta de vários ecossistemas,


em kcal/m2 ao ano. (SUTTON, D. B. e HARMON, N. P., 1979)

As pirâmides ecológicas podem ser de três tipos: números, biomassa e energia. A pirâmide de
números (Figura 5.5) dá uma idéia da distribuição quantitativa da biocenose, ou seja, quantos
organismos existem em cada nível trófico do ecossistema; também ilustra relações quantitativas
entre presa-predador e hospedeiro-parasita.

Raposas
Protozoário
Pássaros
Pulgão
Gafanhotos
Capim Trigo

(b)
(a)

Figura 5.5: Pirâmides de números de predadores (a) e de parasitas (b).

A pirâmide de biomassa (Figura 5.6) representa o peso total dos indivíduos nos sucessivos ní-
veis tróficos, expresso em peso seco total por unidade de área, por exemplo kg/m2. Tanto as pi-
râmides de números como as de biomassa podem apresentar o vértices invertidos, em virtude da
variação no tamanho dos indivíduos e da capacidade de renovação dos organismos menores (Fi-
guras 5.5-b e 5.6-b).

Protozoários
Pulgões Peixes
Trigo Plâncton
(b)
(a)

Figura 5.6: Pirâmides de biomassa terrestre (a) e aquática (b).


24 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

A pirâmide de energia (Figura 5.7) representa a distribuição de energia por nível trófico no e-
cossistema. Das três pirâmides, é a que dá melhor idéia do conjunto da natureza funcional das
biocenoses nos ecossistemas. Sua forma não é afetada pelas variações no tamanho e na intensi-
dade metabólica dos organismos. Ela é sempre voltada para cima, uma vez que representa a pro-
dutividade energética nos ecossistemas. A quantidade de energia disponível em cada nível é ex-
pressa em Kcal/m2.ano.

Quarto NT
Carnívoros 2
Terceiro NT
Carnívoros 1
Herbívoros Segundo NT
Produtores Primeiro NT

Figura 5.7: Pirâmide de energia.

5.6. DESEQUILÍBRIOS NOS ECOSSISTEMAS

O equilíbrio dinâmico dos ecossistemas baseia-se na sua estrutura trófica, isto é, na forma como
a comunidade está organizada e se relaciona com o ambiente, para distribuição da matéria e e-
nergia. Assim sendo, alterações na composição da cadeia alimentar ou no ambiente físico podem
promover desequilíbrios ecológicos.

5.6.1. BLOQUEIO NA CADEIA ALIMENTAR

Uma forma comum de desequilíbrio, dá-se pela destruição de um dos elos da cadeia alimentar. A
destruição de um elo acarreta o desaparecimento total do elo seguinte, dependente do primeiro, e
a superpopulação do ambiente pelo elo anterior. A eliminação de cobras que atacam lavradores
no campo, causa aumento da população de ratos e redução do número de animais comedores de
cobras como a sariema. Na década de setenta, a caça predatória ao sapo-boi na zona rural de Per-
nambuco, incentivada pelo valor da pele para exportação, resultou na invasão da zona rural por
gafanhotos (grilos), forçando a migração das pessoas para as cidades.

A introdução de organismo estranho à cadeia alimentar pode também resultar em desequilíbrios


ecológicos, decorrente da inexistência do elo superior ou predador natural que controle a sua pro-
liferação. Na Austrália, na década de trinta, a importação do coelho gerou sérios problemas, pois
o mesmo não encontrou, na fauna local, nenhum animal capaz de predá-lo e passou então a des-
truir as plantações. Atualmente, os australianos procuram reduzir a população de coelhos através
de viroses específicas desses animais. Ainda na Austrália, em 1935, foi introduzido o sapo-boi
(Bufo marinus) para controle biológico de um besouro que atacava os canaviais. A baixa resis-
tência ambiental ao anfíbio, devido ao clima favorável e ausência de predador, resultou numa
praga, agravada pelo fato do sapo ser venenoso. Atualmente, pesquisa-se controle biológico da
espécie.
1a Parte - Ecologia Geral - 25

5.6.2. BIOMAGNIFICAÇÃO

Outra forma de gerar desequilíbrios é a interferência nas cadeias alimentares através do constante
lançamento, no ambiente, de subprodutos da indústria química ricos em metais pesados, como
chumbo e mercúrio, materiais radioativos e de moléculas sintéticas, como plásticos, detergentes e
pesticidas. Essas substâncias, por não serem biodegradáveis, aos poucos vão se acumulando no
ambiente. Algumas delas, quando ingeridas pelos seres vivos, tendem a concentrar-se ao longo
das cadeias alimentares e, consequentemente, os últimos níveis tróficos tornam-se os mais preju-
dicados. Esse fenômeno é conhecido como biomagnificação, ou magnificação trófica, e apre-
senta-se como resultado da absorção seletiva de uma substância pelos tecidos do organismo. Por
exemplo, a glândula tireóide separa seletivamente o iodo da corrente sangüínea. Desta maneira,
quando o iodo 131 (radioativo) está presente no sangue, é absorvido seletivamente pela glândula.
Da mesma forma, o estrôncio 90 e o césio 137 concentram-se nos ossos, os pesticidas organoclo-
rados nas gorduras, etc.

Um dos primeiros estudos sobre esse fenômeno foi o do Lago Clear, na Califórnia, quando o uso
do TDE2 levou ao desaparecimento de aves como o mergulhão na região. Na figura 5.7, através
da pirâmide de biomassa, pode-se observar a concentração do TDE na cadeia alimentar. Neste
caso, a taxa de amplificação do tóxico da água para a ave chegou a 180.000 vezes. A taxa de
amplificação é a razão entre a concentração no último nível trófico da cadeia e a concentração no
ambiente, se este dado estiver disponível, ou a concentração no primeiro nível trófico.

Mergulhão (2.500)
Peixes carnívoros (22 a 221) Inseticida transferido
Peixes planctófagos (7 a 9) por via alimentar
Zooplâncton (3,0)
Fitoplâncton (0,5)

Água (0,014)

Figura 5.7: Pirâmide de biomassa do Lago Clear, na Califórnia (concentração de TDE em ppm).
(CHARBONNEAU, J. P. et al, 1979)

Deste fenômeno constata-se que os animais predadores e os superpredadores, situados no topo


das cadeias alimentares, são os mais ameaçados. O homem, pelo seu regime alimentar, é um su-
perpredador, encontrando-se também ameaçado de intoxicações. Com base nesta constatação,
muitos países proíbem a produção e comercialização de pesticidas organoclorados, uso de metais
pesados como o mercúrio e controlam a exposição às radiações ionizantes.

Os desequilíbrios também podem ocorrer devido: (a) às alterações do ambiente que impeçam a
camuflagem de determinadas espécies, expondo-as ao seus inimigos, ou que estas encontrem na
nova paisagem alimento e abrigo; (b) ao uso de inseticidas que diminuem ou eliminam espécies
polinizadoras, levando ao desaparecimento de vegetais e, consequentemente, de animais; (c) ao
lançamento de esgotos, ricos em matéria orgânica, nos corpos d’água, favorecendo as bactérias
aeróbias em detrimento dos peixes, dentre outros.

2
Abreviatura usual do inseticida organoclorado tetraclorodifeniletano (C14H10Cl4)
26 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

5.7. EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 5

1. Explique por que, apesar de terem a mesma estrutura de funcionamento, os ecossistemas dife-
rem entre si.
2. Que posição ocupa o onívoro numa teia alimentar? Dê exemplo de uma teia incluindo duas
espécies onívoras que você conheça.
3. Descreva o que você observa na figura 5.1 deste capítulo. Qual a importância da sucessão eco-
lógica para os ecossistemas.
4. Observe a cadeia alimentar: planta → larva de mosca de fruta → protozoário. Esquemati-
ze as pirâmides de números, energia e biomassa. De que tipo é essa cadeia ?
5. Qual a vantagem das teias alimentares para os ecossistemas?
6. Explique porque quanto mais próximo do produtor mais consumidores podem ser mantidos
num ecossistema.
8. Suponha que a produção primária líquida das plantas de uma região seja de 1.000 cal/m2.dia.
Considere agora uma área de 100 m2 nessa região.
a) Que energia pode ser transferida para os consumidores: PB ou PL ? Por que ?
b) Qual a produção líquida total dessa área ?
c) Se a população de herbívoros ingerir diariamente 100.000 cal, qual será a produção se-
cundária ?
d) Poderia viver nessa região uma população de herbívoros que ingerisse diariamente
mais do que 100.000 cal ? Por que ?
9. A relação PB / R para três florestas distintas é: 3,0; 2,0 e 1,0.
a) Qual dessas três florestas já atingiu o clímax ? Por que ?
b) Quais podem manter novas populações de consumidores ?
c) Qual dessas comunidades está em estágio menos avançado da sucessão ecológica? Jus-
tifique sua resposta.
10. Parte de uma floresta foi queimada e transformada em pastagem. Usando adjetivos como
simples/complexo, pequeno/grande, etc., compare estes dois ecossistemas em termos de: bio-
diversidade, biomassa total, teia alimentar, relação produção/consumo e estabilidade.
11. Por que os ecossistemas sucessionais são mais susceptíveis às pragas ?
12. Observe a concentração de estrôncio 90 na cadeia alimentar de um lago (água - 1ppm):
plantas aquáticas (280 ppm) → peixes herbívoros (950 ppm) → perca (3.000 ppm)
(a) Que fenômeno se observa ?
(b) Descreva brevemente o fenômeno ?
(c) Qual a taxa de amplificação do estrôncio ?
1a Parte - Ecologia Geral - 27

6. CICLOS BIOGEOQUÍMICOS

E ntende-se por ciclo biogeoquímico o movimento cíclico de elementos químicos entre o


meio biológico e o ambiente geológico. Todos os 30 a 40 elementos necessários ao desen-
volvimento dos seres vivos circulam na biosfera. No quadro 6.1, encontram-se relacionados os
elementos químicos mais presentes nos tecidos vivos, relacionando-os com a sua proporção na
crosta terrestre.

Quadro 6.1: Elementos químicos mais presentes nos seres vivos (% por pêso).

Elemento Símbolo Homem Crosta terrestre Pé de milho

Oxigênio O 65,0 49,0 75,0


Carbono C 18,0 0,09 13,0
Hidrogênio H 10,0 0,88 10,0
Nitrogênio N 3,3 0,03 0,45
Cálcio Ca 1,5 3,4 0,07
Fósforo P 1,0 0,12 0,06
Potássio K 0,35 2,4 0,28
Enxofre S 0,25 0,05 0,05
Sódio Na 0,24 2,6 traços
Cloro Cl 0,19 0,19 0,04
Magnésio Mg 0,05 1,9 0,06
Ferro Fe 0,005 4,7 0,03
Manganês Mn 0,0003 0,08 0,01
Silício Si traços 25 0,36
Fonte: BIOLOGIA – BSCS: VersãoVerde, vol.1, 1979.

Para a ecologia, o fator mais importante de um ciclo biogeoquímico constitui-se no fato de que
os componentes bióticos e abióticos aparecem intimanente entrelaçados. Todos os ciclos biogeo-
químicos incluem seres vivos; sem a vida, os ciclos biogeoquímicos cessariam e, sem eles, a vida
se extinguiria. As seguintes características podem ser observadas nos ciclos biogeoquímicos:

♦ um depósito "geológico" (atmosfera ou litosfera);


♦ inclusão de seres vivos (vegetais, animais e microrganismos);
♦ câmbios químicos;
♦ movimento do elemento químico desde o meio físico até os organismos e seu retorno a este.

Os ciclos biogeoquímicos podem dividir-se em dois tipos básicos:

♦ ciclos (de nutrientes) gasosos, cujo depósito ou reservatório geológico é a atmosfera. Exem-
plos: ciclo do carbono, do oxigênio e do nitrogênio. São ciclos relativamente rápidos e fecha-
dos, onde não existe quase nenhuma perda de elementos nutrientes durante o processo de re-
circulação;
28 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

♦ ciclos (de nutrientes) sedimentares, têm como reservatório geológico as rochas sedimenta-
res. Exemplo: o ciclo do fósforo e do enxofre. Estes são considerados ciclos lentos, posto que
os depósitos sedimentares são pouco acessíveis aos organismos, uma vez que, para que os e-
lementos cheguem até eles, as rochas devem ser intemperizadas e, posteriormente, transporta-
das ao solo.

A interferência do homem nos ciclos biogeoquímicos dá-se basicamente pela utilização do ar, da
água ou do solo como sumidouro de seus despejos. Muitas substâncias são tóxicas, atacam o sis-
tema respiratório de plantas e animais, causam danos aos tecidos das folhas, destroem os micror-
ganismos dos solos, alteram as trocas gasosas, contribuindo para inibir o desenvolvimento da vi-
da nesses ambientes. O homem também contribui para tornar o processo acíclico, quando, por
exemplo, extrai e trata rochas fosfatadas, produzindo fertilizantes fosfatados que são usados na
agricultura. Posteriormente, estes atingem os corpos d'água, concorrendo para o processo de eu-
troficação, provocando sérios desequilíbrios nas águas.

6.1. CICLO DO CARBONO

O carbono é o principal constituinte de qualquer matéria orgânica, sendo portanto essencial à vi-
da na Terra. Encontra-se disponível no ar atmosférico ou dissolvido nas águas, na forma de gás
carbônico. O CO2 entra na composição do ar atmosférico com apenas 0,03%. Entretanto, esta
quantidade é suficiente para manter toda a vida na Terra, uma vez que se mantém em contínua
reciclagem, através do seu ciclo, conforme esquematizado na figura 6.1. Inicialmente, o CO2 é
fixado por vegetais, algas e bactérias na fotossíntese, formando carboidratos e liberando oxigê-
nio. Os carboidratos são degradados pela respiração e o carbono é devolvido ao meio na forma de
CO2. Uma fração do CO2 do ar combina-se com a chuva formando ácido carbônico (H2CO3). No
solo, este passa a bicarbonato (HCO3-) e, posteriormente, a carbonato (CO3=). Este reage com os
ácidos existentes no solo, liberando CO2 para a atmosfera.

Figura 6.1: Ciclo do carbono (SILVA, T. B. e OLIVEIRA, W. B. 1992)


1a Parte - Ecologia Geral - 29

Algumas vezes, o ciclo do carbono é interrompido e o retorno do mesmo à atmosfera pode levar
milhões de anos. É o caso dos compostos de carbono que não foram atacados pelos decomposito-
res e permanecem armazenados no subsolo sob a forma de carvão fóssil e petróleo, ou nas rochas
formadas por conchas e esqueletos de animais. A queima dos combustíveis fósseis devolve o
carbono ao ciclo, na forma de CO, CO2 e diversos hidrocarbonetos. Reações posteriores levam o
CO a CO2 e os hidrocarbonetos a CO2 e H2O.

A queimada, o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis são atividades que interferem


diretamente no ciclo do CO2. Porém, maior atenção deve ser dada às águas, pois 80% da produ-
ção fotossintética vem das algas marinhas e de água doce. A poluição das águas, com destruição
do fitoplâncton, pode desequilibrar todo o ciclo do carbono.

6.2. CICLO DO OXIGÊNIO

O maior reservatório de oxigênio é o ar atmosférico, do qual constitui cerca de 20%. Está presen-
te tanto no mundo orgânico como no inorgânico. Neste, entra na constituição dos minerais e das
rochas. No mundo orgânico, é essencial à vida, uma vez que entra na composição dos tecidos
vivos e é imprescindível para a respiração. É através da respiração de vegetais, animais e micror-
ganismos que o oxigênio é retirado da atmosfera e devolvido na forma de gás carbônico (CO2) e
água. Mesmo os organismos anaeróbios participam do ciclo, uma vez que retiram o oxigênio da
matéria orgânica devolvendo-o ao meio na forma de CO2. Água e gás carbônico, pela ação dos
autótrofos, são retirados do ambiente e devolvidos na forma de carboidratos (alimento) e oxigê-
nio, através da fotossíntese. No ar, tanto a H2O como o CO2 entram nos seus respectivos ciclos e
ambos contém oxigênio, que faz parte do ciclo total. Desse modo, pode-se notar que o ciclo do
oxigênio está intimamente relacionado com os ciclos do carbono e da água.

O fator mais recente que afeta o ciclo do oxigênio na biosfera e o balanço de oxigênio na terra, é
o próprio homem. Além de inalar oxigênio e de exalar dióxido de carbono, o homem contribui
para diminuir o nível de oxigênio e aumentar o de dióxido de carbono pela queima de combustí-
veis, o desmatamento e pavimentação de terras anteriormente verdes.

6.3. CICLO DO NITROGÊNIO

O nitrogênio é importante pela sua participação fundamental na composição das proteínas, as


quais, por exemplo, representam aproximadamente 16% do corpo humano. O N2 encontra-se
disponível no ar atmosférico na proporção de 79% mas, apesar dessa abundância, são poucos os
organismos que conseguem fixá-lo: nos solos, é fixado pelas bactérias do gênero Rhizobium e
Nitrobacter que vivem em mutualismo com plantas leguminosas, e, nas águas, pelas algas azuis
do gênero Nostoc. Além da fixação biológica, pode ocorrer fixação atmosférica e industrial,
quando o nitrogênio é transformado em nitrato ou ácido nítrico, que fica no ambiente à disposi-
ção dos vegetais. Estes absorvem o nitrogênio fixado, transformando-o em proteínas; a passagem
para os animais inicia-se com os herbívoros.

Plantas e animais mortos, juntamente com as excreções, são transformados, pelos organismos da
putrefação (bactérias e fungos), em amônia (NH3) num processo denominado amonificação. A
amônia é utilizada pelas bactérias Nitrosomonas que a oxidam, produzindo nitrito (NO2-) e este é
30 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

transformado em nitrato (NO3-) pelas bactérias Nitrobacter. Após a nitrificação, dissolve-se nas
águas ou permanece nos solos, de onde é absorvido pelas plantas ou sofre desnitrificação por a-
ção de bactérias, voltando ao ar atmosférico (Figura 6.2).

Figura 6.2: Ciclo do nitrogênio (SILVA, T. B. e OLIVEIRA, W. B. 1992).

O nitrogênio fixado que não é absorvido pelos vegetais, pode ser transportado para os mares, in-
do constituir sedimentos profundos nos oceanos, podendo sair de circulação por milhões de anos,
só voltando ao ciclo pelas erupções vulcânicas. Não fosse a atividade vulcânica em determinados
ambientes, talvez ocorressem problemas devidos à falta de proteínas para a alimentação humana.

6.4. CICLO DA ÁGUA

A água representa o constituinte inorgânico mais abundante na matéria viva. O homem possui
65% do seu peso constituído de água e alguns animais chegam a ser formados de 99% desse
composto. O ciclo da água consiste basicamente na evaporação da água das camadas líquidas su-
perficiais do solo, por efeito da ação dos raios solares. Seguindo-se a formação de nuvens e sua
condensação e precipitação sob a forma de chuva, granizo ou neve. Uma parcela da água que se
precipita sobre o solo infiltra-se, promovendo a sua rehidratação e o recarregamento das reservas
freáticas. Uma outra parcela, escoa superficialmente formando os córregos, rios e lagos. A pro-
porção, de água de escoamento superficial em relação à infiltração é influenciada fortemente pela
ausência ou presença de cobertura vegetal, uma vez que esta constitui barreira ao rolamento livre,
além de tornar o solo mais poroso. A parcela de água que se precipita sobre a hidrosfera participa
do ciclo curto e a que cai sobre a litosfera compõe o ciclo longo.

Os organismos terrestres podem obter água em vários pontos deste ciclo. As plantas a retiram do
solo, enquanto que a maioria dos animais a ingere. Por outro lado, vegetais e animais devolvem
água para a atmosfera: os vegetais principalmente pelas folhas; os animais, através da pele e pe-
los sistemas respiratório, digestivo e urinário.
1a Parte - Ecologia Geral - 31

A vegetação exerce, por sua vez, função importante com relação à devolução da água de infiltra-
ção através da evapotranspiração, acelerando muito os processos de simples evaporação. Consi-
derando-se a proporção que representa o somatório da superfície das folhas em relação à superfí-
cie do solo, é fácil avaliar-se o papel acelerador desempenhado pela vegetação em relação à
transferência de umidade do solo para a atmosfera. Além disso, o sistema radicular de árvores e
arbustos, podendo atingir dezenas de metros de profundidade, constitui um mecanismo de alta
eficiência em relação a esse transporte, permitindo a movimentação rápida de enormes volumes
de água. Daí a importância fundamental da cobertura vegetal, com relação à manutenção da umi-
dade atmosférica, regularidade das chuvas e outros fatores eco-metereológicos.

Todos os ciclos biogeoquímicos relacionam-se intimamente com o ciclo da água e o fluxo ener-
gético através da biosfera. De uma forma ou de outra, a água constitui o meio principal para a
circulação de nutrientes. O calor solar que determina a formação de correntes atmosféricas, per-
mitindo a precipitação e evaporação no ciclo da água, proporciona também a energia para que os
organismos vivos, principalmente os vegetais, possam manter em movimento os ciclos dos nutri-
entes. Estes últimos, requerem o fluxo da água para manterem-se.

6.5. EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 6

1. Conceitue ciclo biogeoquímico e enumere as suas principais características.


2. Como o homem interfere nos ciclos biogeoquímicos ?
3. A concentração de CO2 atmosférico é mais baixa ao meio dia e mais alta à noite. Usando o
ciclo do carbono, explique como isto é possível.
4. Como a queima de combustíveis fósseis pode influenciar o ciclo do carbono ?
5. As águas de profundidade são ricas em nutrientes. O ‘Projeto Cabo Frio’, no Rio de Janeiro,
tem como um de seus objetivos bombear água de profundidade para a superfície. Com base
nos ciclos biogeoquímicos, explique de que modo isso poderia ser benéfico para a população
de pescadores da região.
6. A água que se usa dia a dia pode eventualmente ir para o oceano. Descreva o caminho dessa
água dentro do seu ciclo, enumerando suas etapas.
7. Explique como a cobertura vegetal pode influenciar no ciclo da água.
32 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

7. DISTRIBUIÇÃO DOS ECOSSISTEMAS

A s várias regiões do planeta possuem características próprias, desenvolvendo-se nela flora e


fauna típicas, sejam terrestres ou aquáticas, constituindo ecossistemas. A forma mais co-
mum de estudar os ecossistemas é através da identificação de formações vegetais, associando-se
a estas os animais, como uma unidade biótica. Cada combinação distinta de plantas e animais,
formando uma comunidade clímax, é chamada bioma. A biosfera é constituída de dois tipos de
biomas: os aquáticos e os terrestres.

7.1. BIOMAS AQUÁTICOS

Os biomas aquáticos podem ser de água doce ou de água salgada. Os ecossistemas de água sal-
gada, ou talássicos (mares e oceanos), têm como principais características: tamanho (≈70% da
superfície), salinidade (≈35 gramas/litro), marés, correntes, temperatura (-2oC a 32oC), nutrientes
minerais, profundidade e luminosidade. Os ecossistemas de água doce, ou límnicos (rios, ria-
chos, lagos, lagoas, represas), têm como principais características: temperatura, turbidez, tensão
superficial, movimentos das águas, gases (O2 e CO2) e sais minerais dissolvidos (nutrientes). Es-
tes podem ser divididos em dois grupos: ecossistemas lênticos ou de água parada, como os lagos,
as lagoas, as represas e os pântanos; ecossistemas lóticos ou de água em movimento, como as
nascentes, os córregos, os riachos e os rios. No quadro 7.1, listam-se algumas classificações de
interesse para o estudo dos ecossistemas aquáticos.

Quadro7.1: Classificações inerentes aos ecossistemas aquáticos.

Classificação baseada na quantidade de nutrientes:

Eutróficos • Apresentam águas ricas em nutrientes minerais e com alta produtivida-


de.
Mesotróficos • Águas que apresentam valores intermediários entre eutrófico e oligotró-
fico.
Oligotróficos • Apresentam águas pobres em nutrientes minerais e com baixa produtivi-
dade.

Divisão do ecossistema baseada na temperatura:

Epilímnio • Camada superior dos lagos, onde a água é mais quente e circulante, rica
em oxigênio.
Termoclino • Camada intermediária, caracterizada por uma rápida variação na tempe-
ratura e no oxigênio com o aumento da profundidade.
Hipolímnio • Camada inferior dos lagos, onde a água é mais fria e não circulante, po-
bre em oxigênio.
1a Parte - Ecologia Geral - 33

Divisão do ecossistema baseada na quantidade de luz solar:

Eufótica • Zona iluminada do ecossistema, onde a produtividade primária é intensa.


Disfótica • Zona fracamente iluminada.
Afótica • Zona totalmente obscura, onde é ausente a vida vegetal, predominando a
fauna de carnívoros.

Classificação dos organismos aquáticos:

Plânctons • Organismos flutuantes, que se deixam transportar pelas correntes. Divi-


dem-se em: fitoplâncton (algas unicelulares) e zooplâncton (pequenos a-
nimais).
Néctons • Organismos que vivem em plena água, que são capazes de se deslocar
ativamente contra as correntes (peixes, tartarugas).
Bêntons • Organismos que vivem fixos no fundo, sobre outros organismos ou den-
tro do lodo do fundo (vermes).

7.2. BIOMAS TERRESTRES

Os biomas terrestres têm o clima (temperatura e precipitação) e o solo como principais responsá-
veis pela sua formação. Representam aproximadamente 30% da biosfera e apresentam grandes
variações de temperatura, umidade, luz, pressão, etc. e grande variedade florística e faunística,
que dão origem aos mais variados tipos de ecossistemas: florestas, campos, montanhas, desertos,
mangues, praias, ilhas, solos e cavernas (Quadro 7.2). Com base nestes tipos de ecossistemas, na
biosfera podem ser identificados os seguintes biomas terrestres: tundra, taiga, floresta temperada,
floresta tropical, campos e desertos.

Quadro 7.2: Tipos e características de ecossistemas terrestres.

Tipo Características

Florestas • Apresenta vegetação contínua de árvores; temperatura mais ou menos


constante; grande umidade; pouca luz e poucos ventos; fauna diversificada
com adaptações como bico, garras, cauda longa; olfato e audição muito apu-
rados.
Campos • Sem árvores ou com árvores espaçadas; predomínio de gramíneas; baixa
umidade; temperatura variável (alta durante o dia e baixa à noite); muita luz
e muitos ventos; animais euritérmicos, miméticos, de hábitos noturnos; na
fauna guarás, tamanduás, emas, cobras, ratos, lagartos, cupins, formigas.
Montanhas • Vegetação variável; menor teor de oxigênio; radiação solar mais intensa;
baixa temperatura; fauna pobre com animais fortemente pigmentados, con-
trastando muitas vezes com o branco da neve nos picos; a fauna de vicunha,
lhama, condor, cabrito-montês, águia.
34 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Desertos • Vegetação composta de ombrófitas e xerófitas; palmas e gramíneas nos


oásis; baixa umidade; chuvas irregulares com precipitações anuais abaixo de
250 mm; ventos fortes; grande intensidade luminosa; grandes variações de
temperatura; muito frio como o de Gobi, na Ásia, ou muito quente como o
Saara, na África; na fauna de desertos frios, encontra-se rena, urso-branco,
boi-almiscarado e pingüim; nos desertos quentes, camelo, cobra, lagarto,
gazela e rato.
Mangues • Regiões sujeitas à invasão do mar; solo lodoso; vegetação de halófitas e
hidrófitas; rica em crustáceos (caranguejo).
Praias • Regiões de transição entre ecossistemas aquáticos e terrestres; salinidade
elevada nas praias de mar; vegetação pobre próxima do mar, porém mais
rica na restinga, com gramíneas, coqueiros, cajueiros, pitangueiras, cactos,
bromélias; fauna composta de caranguejos, pulgas-d’água, moluscos, barati-
nhas.
Ilhas • Oceânicas: fauna e flora apresentam verdadeiro endemismo, devido ao
afas-tamento dos continentes;
• Continentais: flora e fauna semelhantes às dos continentes.
Solos • Apresentam baixas flutuações de temperatura, luminosidade, evaporação,
ventos e umidade; ecossistemas típicos onde vivem bactérias, fungos, algas,
vermes, protozoários, anelídeos, formigas, cupins e roedores; uma colher de
chá de solo fértil pode conter 5 bilhões de bactérias, um milhão de protozoá-
rios e 200 mil algas e fungos.
Cavernas • Ausência de luz e de ventos; alta umidade; temperatura constante; flora
paupérrima; fauna composta de animais despigmentados, olhos atrofiados
ou adaptados à visão noturna, com tato e audição muito aguçados: tatuzi-
nhos, carrapatos, aranhas, escorpiões, morcegos, corujas e insetos.

7.3. BIOMAS BRASILEIROS

As principais zonas fitogeográficas (Figura 7.1) do país podem ser estudadas sob o prisma de u-
nidades bióticas ou biomas, a saber: Cerrado, Caatinga, Pantanal, Floresta Atlântica, Mata
de Araucárias, Campos, Banhados, Cocais, Mangues, Restingas e Floresta Amazônica. As
dimensões continentais do país, associadas à grande variedade de fatores ecológicos combinados,
favorecem a essa diversidade de paisagens, que se apresentam nas várias regiões Norte, Nordeste,
Sul, etc. A descrição de cada bioma pode ser facilmente encontrada em livros sobre meio ambi-
ente e ecologia. A seguir tem-se comentários sobre alguns desses biomas.

A Floresta Amazônica, maior floresta tropical do mundo, cobre quase metade do território bra-
sileiro (área sete vezes maior que a da França). Tem suas maiores riquezas no seu sistema hídri-
co, por onde corre 1/5 de toda a água doce do planeta, e na sua biodiversidade. Estima-se que
20% de todas as espécies vivas do planeta convivam neste ecossistema, sendo 20 mil de vegetais
superiores, 1.700 de peixes, 300 de mamíferos, 1.300 de pássaros e dezenas de milhares de inse-
tos, outros invertebrados e microrganismos. Berço de inúmeras civilizações indígenas - Yanoma-
ni, Tukano, Caiapó, Tikuna, Manaó, Guanavena, etc., muitas já extintas, é também fonte de ma-
térias primas alimentícias, medicinais, florestais, energéticas e minerais. Boa parte destas rique-
zas ainda não foi catalogada, porém milhares de espécies desaparecem a cada ano em virtude da
devastação da floresta para exploração de ouro, cobre, ferro, manganês, cassiterita, bauxita, etc.,
implementação de grandes projetos agropecuários, usinas hidrelétricas, grandes indústrias (ferro
1a Parte - Ecologia Geral - 35

gusa, alumínio), construção de grandes rodovias (Transamazônica), caça e pesca predatórias. Du-
rante muito tempo, atribuiu-se à Amazônia o papel de “pulmão do mundo”. Hoje, sabe-se que o
balanço de oxigênio na floresta é praticamente nulo. No entanto, acredita-se que tenha importan-
te papel na estabilização do clima do planeta, como ‘condicionador de ar”. Neste contexto, a der-
rubada e queima da floresta pode contribuir para o aumento do ‘efeito estufa’.

Figura 7.1: Biomas Brasileiros.

Muito semelhante à Floresta Amazônica, a Floresta Atlântica cobria aproximadamente 12% do


território brasileiro. Hoje porém, está reduzida a menos de 10% de sua cobertura primitiva, apre-
sentando-se em alguns Estados como manchas desprovidas de espécies arbóreas mais valiosas,
chamadas de matas catadas. Segundo os botânicos, este ecossistema apresenta a maior diversi-
dade de vegetais do planeta, 150 espécies por hectare (as Florestas Temperadas apresentam 10
espécies por hectare). Considerado um dos mais importantes ecossistemas do planeta pela sua
biodiversidade, é também um dos mais ameaçados, devido às grandes concentrações urbanas,
atividade portuária, agroindústria de açúcar e álcool, papel e celulose, siderúrgicas, polos petro-
químicos, transporte de combustíveis em oleodutos e gasodutos, expansão urbana desordenada
na faixa litorânea e mineração de granito, calcário e areia.

As Restingas como os Mangues, estendem-se por quase toda a costa brasileira. Os mangues são
ecossistemas de alta produtividade, criadouro e refúgio permanente e temporário de muitas espé-
cies de peixes, crustáceos, moluscos e aves. Pela sua importância como berçário da vida marinha,
sem manguezais a vida dos oceanos estaria ameaçada. As restingas com suas variedades de vege-
tação, à medida que avança para o interior do continente, têm papel fundamental na fixação das
dunas. A presença humana através de especulação imobiliária, a extração da lenha para produção
do carvão, a construção de grandes vias costeiras, projetos agrícolas para produção de cana e a-
bacaxi e extração de areia, têm contribuído para a degradação desse ecossistema. A localização
dos manguezais coincide com a área de maior interesse para a ocupação humana, causando a su-
perexploração dos seus recursos naturais, alteração da rede de drenagem, poluição por derrama-
mento de petróleo e sua conversão em áreas industriais e urbanas.
36 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Os Campos ou Pampas, característicos da região sul do país, pela sua constituição florística, são
ideais para o desenvolvimento da pecuária, tornando-se a região detentora do maior rebanho bo-
vino do país. A atividade pecuária, aliada ao plantio de soja e trigo e à prática da queimada, tem
contribuído para a degradação desses ecossistemas.

Hoje restrita ao Estado do Paraná e Santa Catarina, a Mata de Araucárias, que forneceu madeira
para os mais diversos usos humanos, é, atualmente, um ecossistema praticamente extinto, substi-
tuído por plantações de eucaliptus e pinus, que oferecem madeira de qualidade inferior, mas de
corte mais rápido.

O Pantanal, característico pelas duas estações bem definidas - inverno e verão - e pela mistura
de floras, abriga a maior densidade faunística das Américas, representada por 650 espécies de
aves, 230 de peixes, 80 de mamíferos, 50 de répteis e, dentre os insetos, são mais de mil espécies
de borboletas já catalogadas. A atividade humana se faz presente no pantanal principalmente a-
través das grandes fazendas de gado (pecuária extensiva), pesca predatória, caça do jacaré (cou-
reiros), garimpo de ouro e pedras preciosas nos rios Paraguai e São Lourenço, turismo e migra-
ção desordenados e predatórios, manejo inadequado dos cerrados, resultando no assoreamento e
contaminação das águas pantaneiras.

Seca prolongando-se por nove meses ou mais, baixas precipitações médias anuais, predomínio de
plantas xerófitas e arbustos esbranquiçadas na seca (Caatinga = mata branca), são características
da Caatinga. Representa 11% do solo do país, cobrindo mais de 70% da região nordeste. O rio
São Francisco é o corpo d’água mais importante, tendo no seu vale a região mais produtiva desse
ecossistema. O uso humano desordenado da caatinga vem deixando suas marcas, muitas vezes
irreversíveis, como a desertificação. Suas ações se fazem presentes através dos grandes latifún-
dios, da prospecção e exploração da água subterrânea e de combustíveis fósseis, de siderúrgicas,
olarias e outras indústrias, formação de pastagens, grandes projetos de irrigação e drenagem mal
conduzidos e exploração da lenha como combustível.

Os Cerrados característicos da região central do país, cerca de 25% do território brasileiro, tem a
queimada natural como importante fator ecológico e quase todas as plantas têm adaptações para
se defender. Após o fogo, muitas espécies florescem e as folhas novas atraem herbívoros das re-
giões de vegetação seca, garantindo assim o seu desenvolvimento. A ocupação humana dos cer-
rados nos últimos quarenta anos, acelerou os processos de degradação pela implantação de gran-
des projetos agropecuários, expansão urbana desordenada, invasão de reservas indígenas, grandes
olarias, indústria de transformação (carvão, cimento), garimpo de ouro e pedras preciosas.

7.4. EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 7

1. Que são biomas ? Como se dividem os biomas da Terra ?


2. Quais as principais carcterísticas dos biomas talássicos ?
3. Explique porque a zona eufótica das águas é a que detém a maior produtividade. O mesmo
para águas eutróficas.
4. Classifique os organismos aquáticos quanto a sua distribuição nas águas.
5. Cite pelo menos três diferenças básicas entre um ecossistema de floresta e um deserto.
6. Enumere os principais biomas terrestres.
1a Parte - Ecologia Geral - 37

7. Desenhe o mapa do Brasil e localize os principais biomas brasileiros.


8. Explique como a queimada pode atuar como fator ecológico contribuindo para a conservação
dos cerrados.
9. Para cada um dos biomas brasileiros, identifique três atividades humanas que contribuem para
a sua degradação.
38 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

8. ECOSSISTEMAS HUMANOS

A s necessidades e desejos da população humana em expansão têm requerido um controle


ambiental intenso. Deste modo, a intervenção do homem tem criado ambientes completa-
mente novos, que podem ser denominados Ecossistemas Humanos.

Estas áreas intensivamente controladas, especialmente as cidades, têm tido êxito em resguardar
os habitantes humanos dos rigores do mundo externo, a tal grau que algumas pessoas questionam
o fato destas áreas dependerem das propriedades de manutenção da vida dos ecossistemas natu-
rais da terra. Mas, considerando-se os ecossistemas ou ambientes humanos, de pronto constata-
se que estes não existem isoladamente, e sim que dependem, como qualquer outro ecossistema,
de uma fonte externa de energia, dos diferentes ciclos e das complicadas inter-relações com os
ecossistemas naturais.

Do ponto de vista humano, a biosfera pode ser dividida em quatro classes gerais de ecossistemas:

♦ classe 1 - Ecossistemas Naturais Maduros: aparecem, mais ou menos, em seus estados natu-
rais e, geralmente, não são empregados nem habitados pelo homem. Exemplo: as áreas silves-
tres, as montanhas e os oceanos;
♦ classe 2 - Ecossistemas Naturais Controlados: ecossistemas que o homem controla para uso
recreativo, estudo, pesquisa ou preservação de recursos naturais. Exemplo: os parques, reser-
vas, as áreas de caça, as estações ecológicas, etc. (ver Unidades de Conservação do IBAMA );
♦ classe 3: Ecossistemas Produtivos ou Exportadores: ecossistemas que o homem emprega
para a produção de alimentos ou de outros recursos naturais. Exemplo: as granjas, os ranchos
de gado, as minas, etc. O homem cria estes ecossistemas com o objetivo de obter a máxima
produtividade da área, geralmente mediante o aumento de uma ou duas espécies de organis-
mos. Sob esse ponto de vista, tais ecossistemas são eficientes, mas tornam-se ineficientes
quando analisados sob o ponto de vista da quantidade de energia gasta para irrigação, fertili-
zação, controle de pragas e da simplificação dos mesmos que resulta na sua instabilidade;
♦ classe 4 - Ecossistemas Urbanos ou Importadores: ecossistemas nos quais o homem vive e
trabalha, exercendo um controle mais intensivo. Requer entradas constantes e produz saídas
contínuas. Exemplo: as áreas industrializadas, as cidades, os povoados, etc.

O homem começou a criar os ecossistemas urbanos, que chamou de cidades, quando descobriu
que a agricultura lhe permitia estabelecer áreas permanentes para viver e armazenar seus produ-
tos, bem como era possível satisfazer suas necessidades tanto biológicas (de ar, água, energia,
alimento, abrigo e áreas para eliminar desperdícios), como culturais (de política, economia, tec-
nologia, transporte, comunicação, educação, atividades sociais e intelectuais e os sistemas de
proteção e segurança). Estima-se que aproximadamente 20% da população mundial vive em e-
cossistemas urbanos de mais de 100.000 habitantes.

À medida que aumenta o tamanho das cidades, cresce também a sua complexidade. O homem
tem desenvolvido sistemas muito complexos, elaborados para controlar a terra, a água e o fluxo
energético através deles. Mas, apesar de toda influência humana, as cidades ainda constituem e-
cossistemas e, como todos os ecossistemas, também são sistemas abertos. Para continuar existin-
1a Parte - Ecologia Geral - 39

do, devem receber do ambiente externo alimentos, combustíveis, materiais, ar e água. Posterior-
mente, estas entradas são controladas, transformadas, armazenadas e, finalmente, expelidas como
uma corrente na qual se incluem produtos de desperdícios, ar viciado, água impura e produtos
úteis da tecnologia, educação e cultura.

Mesmo com toda a tecnologia de controle, os ecossistemas urbanos têm se tornado fontes de au-
mento da instabilidade na biosfera. Algumas dessas razões tornam-se visíveis quando se analisa
o quadro 8.1.

Quadro 8.1: Comparação entre os ecossistemas naturais e urbanos.

Ecossistemas Naturais Ecossistemas Urbanos

Energia
• São sustentados por fonte ilimitada de e- • Atualmente, sustentados por uma fonte
nergia: radiação solar. finita de energia: combustíveis fósseis.
• Não acumulam energia em excesso. • O consumo excessivo de combustíveis
fósseis libera muito calor para a biosfera e
altera a temperatura.
• Nas cadeias alimentares, cerca de dez ca- • Nas cadeias alimentares, são necessárias
lorias de um organismo são necessárias para cem calorias de combustível fóssil para pro-
produzir uma caloria de outro (10:1). duzir dez calorias de alimento, que produ-
zem uma caloria no homem (100:1)
Evolução
• A evolução biológica adapta todos os or- • A evolução cultural, atualmente, subordina
ganismos e o seu sistema de suporte aos os organismos e os sistemas de suporte da
processos que sustentam a vida. Terra aos processos que sustentam a tecno-
logia.
População
• Mantém os níveis de população dentro dos • Permite que as populações cresçam mais
limites estabelecidos pelos controles e ba- rapidamente que a capacidade de aumentar a
lanços naturais, incluindo fatores como ali- disponibilidade de alimentos e abrigo, e e-
mento, abrigo, doenças e presença de inimi- limina inimigos naturais e doenças via bio-
gos naturais. cidas e medicamentos.
Comunidade
• Apresenta uma grande diversidade de es- • Tende a excluir a maioria das espécies e é
pécies que vive nos limites do local dos re- sustentada por recursos provenientes de ou-
cursos naturais. tras áreas .
• Tende a ser mais regularmente dispersa no • Tende a se concentrar em locais determi-
ecossistema. nados pela proximidade de grandes corpos
d’água ou pela conveniência da rede de ser-
viços. Em certos países 95% da população
habita em 5% da área.
Interação
• As comunidades são organizadas em torno • As comunidades são organizadas, de modo
das interações de funções biológicas e pro- crescente, em torno de interações de funções
cessos. A maioria dos organismos interage e processos tecnológicos.
com uma grande variedade de outros orga-
nismos.
40 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Equilíbrio
• São imediatamente governados por pro- • São governados por um conjunto de com-
cessos comuns, naturais, de controle e equi- petições de controle cultural e equilíbrio,
líbrio, incluindo a disponibilidade de luz, inclusive de ideologia, costumes, religião,
alimentos, água, oxigênio, habitat e a pre- leis, políticas e economias. Esse acordo con-
sença ou ausência de inimigos naturais e sidera um pouco, ou não considera, os re-
doenças. querimentos para a sustentação da vida, que
não seja a humana.
Fonte: FREIRE DIAS, G. (1992)

Na realidade, à medida que a população humana tem se desenvolvido, os ecossistemas das clas-
ses 2, 3 e 4 têm aumentado significativamente, em última instância às expensas da classe 1. É
necessário que exista um certo equilíbrio entre todas as classes, já que cada tipo é necessário ao
homem. São óbvias suas necessidades tanto de ecossistemas urbanos como produtivos (estes não
existem isolados). Usualmente, reconhece-se também sua necessidade de parques e outros ecos-
sistemas naturais controlados. Mas, geralmente, compreende-se pouco a necessidade que tem o
homem de áreas silvestres, já que tradicionalmente as tem considerado como áreas não produti-
vas e, portanto, de pouco valor.

Os ecossistemas naturais maduros, não devem ser medidos em termos estritamente econômicos.
Seus efeitos de limpeza da atmosfera são só um exemplo de seu caráter benéfico para o homem.
Tais ecossistemas não só mantêm a si mesmos, mas também têm efeito amortizador nas áreas
circundantes. Regulando as correntes e a erosão, melhorando as condições climáticas locais e ab-
sorvendo os contaminantes, funcionam pois como um filtro para os ecossistemas empregados
mais intensamente. Os bosques e as montanhas ajudam a purificar uma área, da mesma forma
que os oceanos diluem os contaminantes que chegam até eles. Se mantêm um equilíbrio, os ecos-
sistemas naturais podem absorver e neutralizar a contaminação, tal como fizeram no passado. Se
as regiões silvestres se reduzem significativamente, ao mesmo tempo se incrementará a contami-
nação e os problemas ambientais se agravarão consideravelmente.

Não se sabe por quanto tempo será possível continuar expandindo intensivamente a agricultura e
as zonas urbanas, às expensas das paisagens protetoras. A saúde e a sobrevivência de nossos e-
cossistemas urbanos e agrícolas relacionam-se, direta e indiretamente, com a presença contínua
dos ecossistemas naturais. O problema agora é um problema de equilíbrio: "que limites devem
ser impostos ao tamanho e à capacidade de cada uma das classes gerais, de maneira que se
mantenha o equilíbrio vital entre o homem e as comunidades naturais?" 3

8.1. UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

A expansão das atividades humanas indistintamente na biosfera, tem apresentado como conse-
qüência a destruição dos hábitats, com extinção de plantas e animais, redução da biodiversidade e
quebra do equilíbrio dos ecossistemas. Pensando na necessidade de reverter esse quadro, os paí-
ses do mundo inteiro decidiram montar uma rede de proteção, de dimensões planetárias, para a
biodiversidade de plantas, animais e microrganismos, e também das nações indígenas. São as
chamadas Unidades de Conservação - UC.

3
Sutton, N.B. e Harmon, N.P., Fundamentos de Ecologia, 1979.
1a Parte - Ecologia Geral - 41

Em 1992, existiam no mundo inteiro 8.163 UC em ecossistemas terrestres e aquáticos, totalizan-


do 1,5% da superfície da Terra ou 5,1% da extensão territorial dos países (Bridgewater, 1992).
No Brasil, existe o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNCN), constituído de Uni-
dades Federais de Conservação, de uso direto e indireto (Quadro 8.2), totalizando menos de 4%
do território nacional, classificando o país em 9o lugar, dentre os treze países da América Latina.

Quadro 8.2: Unidades Federais de Conservação, de uso direto e indireto*.

Unidades de Conservação Quantidade Extensão (km2)

Parques Nacionais 35 97.421


Reservas Biológicas 23 30.444
Estações Ecológicas 41 126.040
Reservas Ecológicas 05 6.530
Áreas de Relevante Interesse Ecológico 10 230
Florestas Nacionais* 21 21.590
Reservas Extrativistas* 09 22.007
Áreas de Proteção Ambiental* 21 17.147
Total 165 321.409
Fonte: Instituto Socio-Ambiental (ISA)

♦ Parques Nacionais - PN. São áreas destinadas à proteção e conservação dos recursos natu-
rais e de valor ecológico, geológico, histórico, arqueológico, paisagístico ou estético, abran-
gendo flora e fauna de uma determinada região e aberto ao público. Em 1995, existiam trinta e
cinco parques nacionais no país, nove deles localizados na região Nordeste: Chapada Dia-
mantina, centro da Bahia; Grande Sertão Veredas, Bahia e Minas Gerais; Lençóis Mara-
nhenses, nordeste do Maranhão; Marinho de Abrolhos, a 80 km do litoral sul da Bahia; Ma-
rinho de Fernando de Noronha, Pernambuco; Monte Pascoal, sul da Bahia; Serra da Ca-
pivara, sul do Piauí; Sete Cidades, norte do Piauí; e Ubajara, noroeste do Ceará.
♦ Reservas Biológicas - RB. São áreas de conservação destinadas à preservação de estoque ge-
nético, à conservação de espécimes raros e à pesquisa científica. Das vinte e três reservas bio-
lógicas existentes no país em 1995, cinco situam-se no Nordeste: Atol da Rocas, Fernando de
Noronha/Pe; Gurupi, no Maranhão; Saltinho e Serra Negra em Pernambuco; e Una na Ba-
hia.
♦ Estações Ecológicas - EE. São áreas representativas de ecossistemas brasileiros, de proprie-
dade da União, destinadas à realização de pesquisas aplicadas à ecologia, banco genético para
reprodução de animais e vegetais e à preservação do meio ambiente da região. Em 1995, exis-
tiam 41 estações ecológicas no país, das quais oito estão na região Nordeste: Aiuaba, no sul
do Ceará; Mamanguape, na Paraíba; Raso da Catarina, no norte da Bahia; Seridó, no Rio
Grande do Norte; Uruçuí-Una, no Piauí; Praia do Peba, em Alagoas; Itabaiana, em Sergi-
pe; Ilha dos Caranguejos, no Maranhão.
♦ Reservas Ecológicas - RE. São as formações florestais e as áreas de florestas de preservação
permanente nas áreas de pouso das aves de arribação, nos mangues, nas restingas, nas dunas,
nas matas ciliares, nas nascentes, nos topos de morros e montanhas.
42 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

♦ Áreas de Proteção Ambiental - APA. São áreas destinadas à proteção e conservação da qua-
lidade ambiental e dos ecossistemas ali existentes, visando à melhoria da qualidade de vida da
população local. Não necessita obrigatoriamente ser de propriedade da União. Exemplo:
Manguezais da Foz do Rio Mamanguape em Rio Tinto, Pb.
♦ Áreas de Relevante Interesse Ecológico - ARIE. São áreas de características naturais extra-
ordinárias ou que abriguem exemplares raros da biota regional. Exemplo: Vale dos Dinossau-
ros em Souza, Pb.

8.2 EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 8

1. Considerando o esquema abaixo, responda as questões a, b e c.


a) Mencione algumas entradas;
b) Mencione algumas saídas;
c) Em que este ecossistema se assemelha aos ecossistemas naturais ?

Ecossistema
Entrada Urbano Saída

2. Mencione as quatro classes gerais de ecossistemas da biosfera.


3. Descreva resumidamente um ecossistema urbano. Em que difere dos ecossistemas produtivos
?
4. Compare uma floresta tropical com uma cidade, em termos de: energia, evolução, comunidade
e equilíbrio.
5. Quando o homem cria os ecossistemas produtivos qual é o seu objetivo ? Em que esta classe
de ecossistema é eficiente ? Em que não o é ?
6. Que são Unidades de Conservação ? Enumere as Unidades Federais de Conservação.
2a Parte
DEGRADAÇÃO E CONSERVAÇÃO
DO MEIO AMBIENTE

9. INTRODUÇÃO À POLUIÇÃO

A compreensão do processo de degradação do meio ambiente passa pela análise da inte-


ração entre as ecologias natural e humana. Desde o surgimento na biosfera, o homem
destacou-se dos demais seres vivos pela sua capacidade de engenho e aprendizagem. Com isso,
passou a conquistar novos habitats, desenvolver novos nichos e nesse processo evolutivo, muito
mais tecnológico do que biológico, passou a olhar o ambiente como sendo parte externa e não
como elemento componente. Como consumidor, criou o ciclo humano de materiais à parte dos
ciclos naturais. Porém, a manutenção desse ciclo humano depende da manutenção dos ciclos
naturais, pois todas as “entradas” no ciclo de produção de bens para satisfazer o consumo huma-
no vêm dos ecossistemas naturais e todas as “saídas” do ciclo humano se convertem em “entra-
das” no ciclo natural de materiais (Figura 9.1).

Ciclo natural de materiais Ciclo humano de materiais

Matéria-prima
Produção
Industrial
Vegetais Herbívoros Carnívoros
Matéria-prima

Sapróvoros
(Materiais biogeoquímicos, Consumo
Poluição Resíduos humano
minerais, terra, água, ar) Poluição
Resíduos

Figura 9.1: Interação das ecologias natural e humana.


(adaptada de EDMUNDS, S e LETEY, 1975).
44 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Tanto o ciclo natural como o ciclo humano estão submetidos às leis da natureza e estas permane-
cem invariáveis ao longo do tempo. Como exemplos citam-se as leis físicas da conservação de
energia - primeira Lei da Termodinâmica - e da entropia - segunda Lei da Termodinâmica. A
primeira assegura que a energia pode transformar-se, porém não se cria nem se destrói, e a se-
gunda institui que todas as “máquinas” se desgastam, conceitos que se aplicam tanto à ecosfera
quanto à tecnosfera1. A esta última acrescenta-se ainda as leis criadas pelo homem. Estas, que
regulam as sociedades e as economias, são variáveis de acordo com as circunstâncias e com o
tempo.

Analisando o ciclo natural, lado esquerdo da figura 9.1, constata-se que além dos resíduos natu-
rais que retornam à sua base biológica, estão os manufaturados, que procedem da atividade pro-
dutiva do homem, acrescidos daqueles provenientes do seu próprio metabolismo. Tais resíduos,
para voltarem ao processo produtivo, vão depender da capacidade de reciclagem dos ciclos natu-
rais. Muitos deles são substâncias inorgânicas e o resto são compostos orgânicos, alguns dos
quais não biodegradáveis, que se convertem em contaminantes da base biogeoquímica e, seja
pela quantidade ou pela qualidade, contribuem para a degradação do ambiente. Por outro lado, as
“saídas” dos ciclos naturais para abastecer os ciclos humanos através da mineração, desmatamen-
to, queimada, construção de hidrelétricas, agricultura e pecuária intensiva, etc., causam pressões
que contribuem para a degradação do ambiente. Como resultado da soma das pressões sobre o
meio ambiente tem-se a poluição ambiental.

O que seria então poluição ambiental ? Originalmente, poluição significa sujeira (do latim polue-
re = sujar), porém no contexto atual é mais que isso: poluição ambiental é a degradação da qua-
lidade ambiente com prejuízos à qualidade de vida humana ou, mais especificamente, qualquer
alteração na composição e características do ambiente que, direta ou indiretamente, impeça
ou dificulte a sua utilização. Obviamente, este conceito é bem antropocêntrico, uma vez que
coloca o homem como centro, já que a utilização do ambiente está atrelada à manutenção do ci-
clo humano de materiais. Por outro lado, é um conceito mais prático, uma vez que a composição
e características do ambiente podem ser avaliadas conferindo um grau de qualidade ao ambiente
ou a um dado recurso ambiental, assegurando o seu uso.

Analisando o lado direito da figura 9.1, pode-se constatar que quanto maior for a população,
maior será o consumo de alimentos, energia, água, minerais, etc. e, consequentemente, maior
será a pressão sobre os ecossistemas naturais e maior a degradação da biosfera, ou seja, maior a
poluição ambiental. Donde se conclui que o crescimento populacional pode ser apontado como
causa maior da degradação ambiental. Rico polui, pobre também polui. Este por necessidade de
sobrevivência, aquele, muitas vezes por ganância. Porém, a população não pode crescer indefini-
damente, pois está limitada à capacidade de suporte do planeta. A capacidade de suporte para a
vida humana varia de acordo com a forma como o homem maneja os recursos naturais, podendo
ser melhorada ou piorada pelas atividades humanas. Cria-se assim um ciclo vicioso, onde a po-
pulação crescente polui o ambiente e o ambiente assim degradado vai perdendo a sua capacidade
de suporte.

1
Mundo das máquinas e construções criadas pelo homem, regido por leis econômicas, sociais, culturais, mas que
também seguem as leis da física, da química, da biologia e da ecologia.
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 45

9.1. CICLO DA POLUIÇÃO

O processo básico da poluição na Natureza obedece a três fases distintas a saber:

♦ 1a fase: ocorre a geração e a emissão de poluentes pelas diversas fontes poluidoras existentes;
♦ 2a fase: ocorre o transporte e a difusão desses poluentes no ambiente. Nesta fase, as águas e os
ventos, dentre outros fatores, têm papel preponderante;
♦ 3a fase: ocorre o contato dos poluentes com o homem, os animais, os vegetais, os bens mate-
riais, etc., prejudicando, direta ou indiretamente, o homem e ficando assim caracterizada a po-
luição ambiental.

Os programas voltados para o controle da poluição ambiental devem, de preferência, atacar o


problema da poluição na sua 1a fase, isto é, controlar as fontes poluidoras. Entende-se por fonte
poluidora qualquer equipamento, processo ou atividade capaz de gerar e emitir poluentes. O
poluente é qualquer forma de matéria ou de energia que venha de maneira prejudicial, direta ou
indiretamente, alterar as características do ambiente.

9.2. OS ONZE MAIORES POLUENTES MUNDIAIS

No estudo da poluição ambiental, onze poluentes destacam-se pela sua presença em todo o mun-
do. Cada um deles pode ser identificado pelo seu símbolo2 internacional, que pode ser encontra-
do nas embalagens, nos locais de manuseio e de disposição.

1. Dióxido de Carbono - Presente na combustão de produtos carbonados diversos,


em usinas termoelétricas, indústrias e aquecedores domésticos. A acumulação
desse gás na atmosfera favorece ao Efeito Estufa.

2. Monóxido de Carbono - Resultante da combustão incompleta de materiais fós-


seis, tais como petróleo e carvão, em metalúrgicas, refinarias de petróleo e veícu-
los automotores. Esse gás incolor e inodoro é extremamente tóxico para o ho-
mem.

3. Dióxido de Enxofre - Emanações de centrais elétricas, indústrias, veículos au-


tomotores e combustíveis domésticos freqüentemente carregados de ácido sulfú-
rico. O ar poluído agrava as afecções respiratórias, ataca árvores e plantas, certos
tecidos sintéticos e pedras calcárias empregadas em construções e em monu-
mentos históricos. Favorece ao fenômeno da Chuva Ácida.

4. Óxidos de Nitrogênio - Provêm de motores a combustão, aviões, incinerado-


res, do emprego excessivo de certos fertilizantes, de queimadas e de instalações
industriais. Causam nevoeiros, podem provocar afecções respiratórias e bron-
quites em recém-nascidos. Favorecem ao fenômeno da Chuva Ácida.

2
Extraídos de Symbol Sourcebook, Nova York, 1972.
46 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

5. Fosfatos - Encontrados em esgotos, provenientes principalmente de detergentes.


Encontrados também em águas que escoam de terras excessivamente tratadas com
fertilizantes e de terras onde se pratica a pecuária intensiva. Fator principal (eutro-
fizante) da degradação das águas de lagos e rios.

6. Mercúrio - Provém de combustíveis fósseis, da indústria de cloro-álcalis, de fá-


bricas de aparelhos elétricos e de tintas, de atividades de mineração e refino e da
indústria de papel. O mercúrio é forte contaminante de alimentos, principalmente
peixes e crustáceos. Sua assimilação afeta o sistema nervoso.

7. Chumbo - Proveniente principalmente de usinas de refinação de chumbo, de aditi-


vos antidetonantes da gasolina, de indústrias químicas e de pesticidas. É um vene-
no que se acumula no organismo, afeta as enzimas e prejudica o metabolismo ce-
lular. Armazena-se em sedimentos marinhos e de água doce.

8. Petróleo - Poluente originado, principalmente, de descargas ou acidentes com


navios petroleiros e, da extração e do refino de petróleo. Os efeitos ecológicos são
desastrosos nas águas - poluição de praias, envenenamento do plâncton e da fauna
marinhos. Impede a penetração de luz, o que afeta a flora e gera anaerobiose.

9. DDT e outros pesticidas - Proveniente, principalmente, do uso na agricultura e


em campanhas de saúde pública. Na águas mata peixes, envenenando seu alimen-
to, e contamina os alimentos ingeridos pelo homem. São altamente tóxicos para
crustáceos, até em baixa concentração. Reduzem o número de insetos úteis,
provocando o aparecimento de novas pragas. Alguns são cancerígenos.

10. Radiações - Produzidas principalmente pela utilização da energia nuclear, tanto


para fins industriais como bélicos. Importantes na medicina e na pesquisa médica,
podem no entanto causar malefícios orgânicos e até genéticos, quando usadas a-
cima de certas doses.

11. CFC - O clorofluorcarbono, também conhecido como FREON, provém de pro-


dutos em spray (inseticidas, desodorantes, tintas, etc.), circuitos de refrigeração
(geladeiras, ar condicionado), indústria de embalagens (isopor) e da indústria ele-
trônica (solvente). Apontado como destruidor da camada de ozônio.

9.3. CLASSIFICAÇÃO DA POLUIÇÃO

A poluição pode ser estudada sob diversos aspectos. As alterações podem ocorrer na água, no ar
e no solo, classificando-se como poluição da água ou hídrica, do ar ou atmosférica e do solo,
respectivamente. Nestes vários ambientes em que ocorre, pode apresentar-se de forma diferente,
o que a classifica em: Química, Térmica, Biológica, Radiativa e Mecânica.

♦ Poluição Química. Esta forma de Poluição pode ser dividida em dois tipos: poluição química
brutal e poluição química insidiosa ou crônica. A poluição química brutal é decorrente de des-
cargas maciças de detritos industriais no meio ambiente, de substâncias tais como ácidos, ál-
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 47

calis, metais pesados, hidrocarbonetos, fenóis, detergentes, dentre outros. Caracteriza-se pelos
seus efeitos brutais sobre o ambiente. Enquanto que a poluição química insidiosa ou crônica
ocorre de maneira mais ou menos sistemática, com menor quantidade de poluentes. Seus efei-
tos são freqüentemente intensificados devido à mistura de vários tipos de poluentes, que são
bem mais nocivos quando agem sinergicamente com outros do que quando agem separada-
mente. Nesta categoria, estão incluídos os detergentes sintéticos, os subprodutos do petróleo,
os pesticidas e resíduos químicos diversos.
♦ Poluição Biológica ou Orgânica. É aquela cujos poluentes se caracterizam por serem materi-
ais orgânicos fermentáveis. Nesta categoria, são fontes poluidoras, principalmente, os esgotos
domésticos, as indústrias de lacticínios, os curtumes, os matadouros, as indústrias têxteis e de
celulose.
♦ Poluição Térmica. Este tipo de poluição decorre da elevação da temperatura média do ambi-
ente. Mais comum nos ambientes aquáticos, tem sua origem no aquecimento das águas utili-
zadas no resfriamento de reatores de usinas térmicas, nas centrais elétricas, nas refinarias de
petróleo, destilarias, etc..
♦ Poluição Mecânica. É decorrente do deslocamento de grandes quantidades de argila, areia,
calcário e escórias derivadas da dragagem de corpos d’água, da indústria de mineração, da a-
bertura de estradas.
♦ Poluição Radioativa. Proveniente de fissões nucleares, tem sua origem nas explosões atômi-
cas, acidentes de usinas nucleares e no lixo atômico. As águas utilizadas no resfriamento dos
reatores atômicos, além de poluírem termicamente, são capazes de arrastar resíduos radioati-
vos para rios e mares. Este tipo de poluição, devido ao longo tempo de vida média dos poluen-
tes envolvidos, causa danos irreversíveis ao ambiente.

É possível analisar a poluição levando em consideração o aspecto econômico da região. Nas re-
giões subdesenvolvidas, aparece um tipo de poluição bem diverso daquele observado nas zonas
desenvolvidas e em desenvolvimento. Os países pobres sofrem da chamada poluição "da misé-
ria", ou seja, aquela devida à falta de saneamento básico, causadora da disenteria amebiana, febre
tifóide, hepatite, esquistossomose, etc.. Já os países com grande desenvolvimento industrial e
portanto com uma economia estável, podem combater eficientemente a poluição "da miséria",
mas ,em contrapartida, sofrem da poluição "tecnológica", às vezes mais violenta do que aquela
combatida. As nações em desenvolvimento, com os recursos da agricultura e da indústria, vão se
utilizando do saneamento básico, diminuindo a poluição "da miséria", mas aos poucos vão au-
mentando a poluição "tecnológica", através do uso de pesticidas e de muitos outros produtos in-
dustriais.

9.4. INDICADOR DE POLUIÇÃO E PADRÃO DE QUALIDADE

Na avaliação da poluição ambiental dois conceitos são particularmente importantes: o indicador


de poluição e o padrão de qualidade ambiental.

♦ Indicador de poluição - É um parâmetro ou um grupo de parâmetros utilizado para medir o


grau de poluição, seja da fonte poluidora ou do ambiente. São utilizados indicadores físicos,
químicos e biológicos. Os liquens são bastante utilizados como indicadores de poluição at-
mosférica em alguns países. Outros indicadores muito comuns são: o pH, as bactérias e os ni-
tratos usados tanto na água como no solo; a DBO (demanda bioquímica de oxigênio) e o CO
(monóxido de carbono), utilizados na avaliação da poluição hídrica e atmosférica, respectiva-
mente.
48 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

♦ Padrão de qualidade - É um parâmetro ou grupo de parâmetros utilizado para diagnosticar a


poluição ambiental. O padrão de qualidade fixa a quantidade ou a concentração aceitável de
um poluente no ambiente. Seus valores são fixados por órgãos internacionais como a OMS
(Organização Mundial da Saúde) e pelos órgãos de controle ambiental no país, seja a nível fe-
deral ou estadual.

9.5. ESQUEMA BÁSICO PARA AVALIAÇÃO DA POLUIÇÃO

Para facilitar o estudo da poluição ambiental propõe-se o seguinte roteiro básico, cuja seqüência
deve ser observada:

1. Identificar as fontes poluidoras;


2. Associar poluentes às fontes poluidoras;
3. Escolher os indicadores de poluição que melhor representem os poluentes;
4. Comparar os indicadores de poluição com os padrões de qualidade ambiental esperados ou
desejados para aquele ambiente;
5. Parecer sobre as condições ambientais avaliadas, isto é, sobre o grau de poluição no ambiente
estudado.

9.6. EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 9

1. Como o ciclo humano de materiais pode interferir no ciclo natural?


2. Conceitue poluição ambiental.
3. Comente a frase “Rico polui por ganância, pobre por necessidade”.
4. Comente sobre o ciclo da poluição na natureza.
5. Liste três poluentes mundiais associando-os às suas fontes poluidoras.
6. Qual a diferença entre poluição química brutal e insidiosa?
7. Para que servem os padrões de qualidade e os indicadores de poluição?
8. Escolha um corpo d’água que você conheça e proceda um levantamento sanitário.
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 49

10. CRESCIMENTO POPULACIONAL E DESEN-


VOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

N unca a população mundial cresceu tão rápido quanto na segunda metade deste século. Ho-
je (1997), nascem três bebês por segundo, o que dá uma Alemanha por ano. Nos últimos
17 anos a população passou de 4,4 bilhões de habitantes a 5,8 bilhões. Isto tem caráter único en-
tre todas as populações animais da biosfera.

A maneira mais fácil de entender esse crescimento é através do tempo de duplicação, ou seja, do
tempo necessário para que a população duplique seu tamanho. No quadro 10.1 pode-se acompa-
nhar esse crescimento. Observa-se que a população mundial além de manter um aumento contí-
nuo ao longo do período analisado, o tem feito a uma velocidade cada vez maior, devido ao cres-
cimento exponencial.

Quadro 10.1: Tempo de duplicação da população mundial.

Ano População mundial estimada Tempo de duplicação

8.000 a.C. 5 milhões 1.500 anos


1.650 d.C. 500 milhões 200 anos
1.850 d.C. 1 bilhão 80 anos
1.930 d.C. 2 bilhões 45 anos
1.975 d.C. 4 bilhões 35 anos
2.010 d.C. 8 bilhões ? 30 anos
2.040 d.C. 16 bilhões ?
Fonte: SUTTON, D. B. e HARMON, N. P. (1979).

Mesmo com esse crescimento, a população humana na maior parte da sua história tem mantido
um aumento gradual baixo, aquém de seu potencial biótico, devido à resistência ambiental - fo-
me, guerras, doenças - que atua reduzindo a reprodução e a sobrevivência. O aumento rápido da
população aparece nos períodos em que o homem introduziu avanços tecnológicos que lhe per-
mitiram aumentar a capacidade de suporte da Terra. O primeiro aumento notável aconteceu com
a revolução das ferramentas (~ 600 mil anos a.C.). O segundo com a revolução agrícola (~ 8
mil anos a.C.). O terceiro aumento, mais recente, data de 200 anos atrás, a revolução industrial.
Nesta o homem não só conseguiu canalizar e dirigir o fluxo energético dentro dos ecossistemas,
mas também aprendeu a explorar a energia dos resíduos fósseis. Numerosos avanços tecnológi-
cos no campo da agricultura, do transporte, da cultura e, principalmente, da medicina, possibilita-
ram a redução das taxas de mortalidade, enquanto que a taxa de natalidade permanece alta. E,
assim, a população mundial tem apresentado o seu maior crescimento (tempo de duplicação cada
vez menor).
50 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

10.1. LIMITES DO CRESCIMENTO

O crescimento atual da população humana, assim como o consumo dos recursos naturais, avança
a uma velocidade exponencial. O problema é que os recursos do planeta não crescem na mesma
proporção e, pelo contrário, são limitados. Partindo desta constatação, chega-se à pergunta: “que
população o planeta pode abrigar, sem que a qualidade de vida se deteriore, sem que toda a
beleza que encerra desapareça?” ou, em outras palavras, “qual a capacidade de suporte do
planeta?”

Na década de setenta, na busca de uma resposta para esta questão, o oceanógrafo francês Jaques-
Yves Cousteau3, tomando como modelo o padrão de vida norte-americano, chegou à cifra dos
700 milhões. Obviamente, o padrão de vida considerado, apesar de almejado por muitos, não
seria suportável, pois está baseado numa fonte energética não renovável (petróleo) e num consu-
mismo sem limites de supérfluos e de descartáveis, com gastos elevadíssimos de energia, em
detrimento de outros povos (Figura10.1).

2 Europeus

1 55 Indianos
Americano consome
tanta energia quanto
168 Tanzanianos

900 Nepaleses

Figura 10.1: Consumo total de energia em 1980, comparação entre povos.


(Fonte: Banco Mundial)

Esse estudo, como tantos outros, aponta para a superpopulação, com todas as suas conseqüên-
cias nefastas. E este talvez seja o problema mais grave do planeta. Dos 5,8 bilhões que povoam a
terra, menos de 2 bilhões vivem decentemente. Será possível quiçá alimentar os 10 a 12 bilhões
previstos (algumas projeções apontam o CPZ4, por volta do ano 2110, com a população mundial
em 10,5 bilhões de habitantes). Uma alternativa para aumentar a produção de alimentos, seria
buscar os recursos do mar, porém encarando a desvantagem em termos da produtividade: o fator
de transformação no mar é de 40 para 1, enquanto que na terra este é de 10 para 1 (Jaques Cous-
teau, 1991).

O prejuízo causado ao planeta resulta da demografia, mas também do grau de desenvolvimento.


Os países desenvolvidos (EUA, Canadá, Europa, União Soviética e Japão) representam 24% da
população mundial, mas consomem muito mais que o resto do mundo e são os campeões de po-
luição (Quadro 10.2). Ressalte-se, ainda, que os países desenvolvidos são sustentados, em grande
parte, pela terra fora de suas fronteiras; na Holanda, por exemplo, 100% do milho, do algodão,
do arroz e do minério de ferro consumidos são importados. Portanto, se for considerado o con-
sumo em relação à produção, muitos países, principalmente da Europa, já estão superpovoados e,
para se manterem, financiam a degradação em países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos.

3
Revista El Correo da Unesco, nov/91.
4
O CPZ - crescimento populacional zero - taxa de natalidade = taxa de mortalidade da população.
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 51

Quadro 10.2: Distribuição do consumo e da poluição industrial no mundo.

Recurso / Poluente Países desenvol- Resto do mundo


vidos
Energia 75% 25%
Ferro e aço 80% 20%
Cobre e alumínio 86% 14%
Papel 81% 19%
Adubo 60% 40%
Cimento 52% 48%
Automóveis 92% 8%
Veículos comerciais 85% 15%
Leite 72% 28%
Carne 64% 36%
Produtos químicos 86% 14%
Lixo tóxico 94% 6%
CO2 70% 30%
CFC 84% 16%
Fonte: Instituto Indira Gandhi, Índia, publicado na Rev. Superinteressante.

Outra grande ameaça ao planeta é a poluição. O aquecimento do planeta, a destruição da camada


de ozônio, a contaminação química, a alteração e destruição dos ecossistemas, as inúmeras doen-
ças, a degradação das terras produtivas, as alterações em escala global no clima e a rarefação da
água, são ameaças graves e urgentes. O rareamento da água está relacionado com o desperdício,
mas também com a superpopulação. Nos países ocidentais, os agricultores empregam sistemas
de irrigação por aspersão, e uns 90% da água utilizada evaporam-se. Retira-se a água do lençol
freático para deixar que evapore. Todavia, existem provas de que o lençol freático está secando.
Em algumas regiões há seca, apesar da abundância das chuvas, devido à retirada sem controle e
ao desperdício da água.

Um outro problema está no desequilíbrio das espécies e na perda da biodiversidade. A elimi-


nação de um vírus para controlar uma doença é uma idéia nobre, porém traz enormes problemas.
Mediante as epidemias, a natureza compensava os excessos de natalidade com excessos de mor-
talidade. O nobre propósito da medicina de eliminar os sofrimentos e as enfermidades, talvez não
seja benéfico a longo prazo. Existe o perigo de que, ao fazêlo, se comprometa o futuro da popu-
lação humana.

10.2. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

O crescimento da população é um fator fundamental na degradação ambiental; nos países em


desenvolvimento é a causa de 79% do desmatamento, de 72% da expansão de terras cultiváveis e
de 69% do incremento das pastagens. Porém não é o único, a degradação vem determinada tam-
bém pelo nível de consumo da população e pela tecnologia empregada. Os níveis mundiais de
consumo sem dúvida aumentarão. A tecnologia não pode obrar milagres por si só. Um cresci-
mento mais lento da população, permitirá reduzir o impacto do desenvolvimento. Uma estratégia
para reduzir o impacto ambiental e garantir a capacidade de suporte do planeta, deve incluir me-
52 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

didas que fomentem o desenvolvimento sustentável e a redução da taxa de crescimento popula-


cional.

Entende-se por desenvolvimento sustentável aquele processo de desenvolvimento que supre as


necessidades das gerações do presente, sem comprometer as possibilidades das gerações futuras
de atender às suas próprias necessidades. Segundo a Comissão Mundial de Meio Ambiente e
Desenvolvimento, para alcançá-lo, o uso dos recursos naturais, os programas econômicos, o de-
senvolvimento tecnológico, o crescimento populacional e as estruturas institucionais devem estar
em harmonia, não pondo em risco a atmosfera, água, solo e ecossistemas que mantêm a vida.

O desenvolvimento sustentável exige pois mudanças na sociedade, de modo a garantir oportuni-


dades econômicas, sociais e políticas iguais para todos e, sobretudo, ter noções das limitações
que o estágio da tecnologia e da organização social impõem ao meio ambiente. A proteção ao
meio ambiente e a gestão racional dos recursos naturais, quer em escala global ou exclusivamen-
te interna de um país, estado ou município, se fazem necessárias. Neste sentido, na Rio-92 – 2a
Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – elaborou-se o do-
cumento intitulado Agenda 21, que foi ratificado naquela ocasião por 170 países. A Agenda 21
(Apêndice A) constitui o mais extenso, detalhado e dinâmico programa assinado pela Comunida-
de Internacional, cuja espinha dorsal é o desenvolvimento sustentável.

A revisão do sistema de incentivos, de forma a encorajar maior produção de alimentos, princi-


palmente nos países em desenvolvimento, e a estimular políticas agrícolas que protejam a base
dos recursos naturais, juntamente com programas que preconizem a administração racional dos
recursos hídricos, alternativas para o uso de produtos químicos, a proteção e manejo de florestas,
a ampliação da aquacultura e criação de peixes, a reforma agrária, utilização de fontes alternati-
vas de energia, etc., precisam de maior atenção por parte de todos, pois o recurso natural mais
ameaçado é o próprio homem.

10.3. RELATÓRIO DA FUNAP - ESTUDO DA POPULAÇÃO MUNDIAL

Algumas observações e recomendações da Fundação das Nações Unidas para Assuntos de Popu-
lação - FUNAP, no seu Relatório do ano de l980.

1. A população do mundo, hoje, é de 4,4 bilhões de habitantes, com uma taxa de crescimento de
1,63% ao ano. A essa taxa, haverá 6 bilhões de pessoas no fim do século.
2. Até o "Crescimento Populacional Zero" (CPZ), previsto para o ano 2110, haverá 10,5 bilhões
de pessoas no planeta, 90 por cento delas concentradas nos países em desenvolvimento (5,8
bilhões na Ásia e áreas próximas, 2,1 bilhões na África e 1,2 bilhões na América Latina).
3. O Brasil, hoje com cerca de 120 milhões de habitantes e uma taxa de crescimento de 2,1%
(1970-1979), inferior a taxa da década 60-70 que era de 2,9% ao ano, atingirá, o seu CPZ por
volta do ano 2075 com a população de 281 milhões.
4. Nos primeiros anos deste século, à população mundial cresceu em 360 milhões de pessoas, no
atual quarto do século, crescerá 3,1 bilhões.
5. A taxa de mortalidade infantil caiu a metade nos últimos anos, o que pressiona os números do
crescimento. Hoje, no mundo em desenvolvimento, 40% dos habitantes têm menos de 15 a-
nos.
6. Cerca de 450 milhões de pessoas, metade das quais crianças com menos de cinco anos, vivem
hoje em estado de desnutrição. Há cerca de 10 milhões de crianças em condições críticas.
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 53

7. No ano 2110, a terra terá plenas condições de alimentar a população existente. Com a tecno-
logia existente hoje, poderia ser alimentada uma população quatro vezes maior que a atual.
8. Em muitos países onde há altos níveis de desnutrição, quase metade da área cultivada é ocu-
pada por produtos de exportação ou destinados ao consumo das classes mais favorecidas, em
vez de alimentos básicos.
9. 36 dos 40 países mais pobres do mundo exportam alimentos para a Europa e os Estados Uni-
dos.
10.O mundo gasta hoje 80% de suas verbas de saúde na cura de doenças, reservando apenas 20%
para o saneamento básico.
11.Três quartas partes de todas as doenças conhecidas, poderiam ser curadas com melhor nutri-
ção, redes de água potável e saneamento básico, acompanhados do ensino de regras de educa-
ção sanitária.
12.O número de analfabetos, hoje, é de 800 milhões e está aumentando. Há cerca de 100 milhões
de crianças sem escolas e apenas 1/5 da população completa o curso primário.
13.A expectativa de vida nos países industrializados está em torno de 70 anos; nas nações em
desenvolvimento, é cerca de 54 anos.
14.O relatório da ONU finaliza fazendo um apelo para que todos os países aumentem seus esfor-
ços para estabilizar a população no menor nível e no prazo mais curto possível. Defende, ain-
da, a necessidade de uma maior interação entre o crescimento demográfico e os programas de
desenvolvimento que visem melhorar os serviços de saúde, ampliar o acesso a educação e re-
duzir as disparidades de rendas.

10.4. EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 10

1. Como você explicaria o fato da população humana ficar sempre aquém do seu potencial bióti-
co?
2. Em que momentos da história o crescimento populacional aumentou mais rápido? Por que?
3. Qual a população mundial atual? Quantas pessoas a Terra pode sustentar?
4. Admitindo que a população cresce exponencialmente, estime a população atual do país.
5. Comente sobre os problemas que comprometem a capacidade de suporte do planeta.
6. Elabore um conceito para desenvolvimento sustentável.
7. Das observações e recomendações da FUNAP/1980, escolha as três que mais lhe impressio-
naram e comente sobre as mesmas.
rt
Obs.: Considere para a estimativa de população a equação: Pt = Po . e ; onde: Po = população
inicial; Pt = população no tempo t; r = taxa de crescimento; t = tempo em anos.
54 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

11. POLUIÇÃO DA ÁGUA

A água constitui o recurso natural mais abundante no planeta. Cobrindo ¾ de superfície


terrestre, forma biótopos como rios, lagos, lagoas, riachos, mares e oceanos, que possibili-
tam a existência das biocenoses aquáticas. Apesar de toda abundância, apenas 3% é água doce e,
destes, apenas 1% está acessível na superfície.

A água apresenta composição e propriedades físico-químicas que se destacam pela sua importân-
cia ecológica. Devido ao elevado calor específico que possui, absorve muito calor sem se aquecer
em demasia, contribuindo para amenizar o clima da Terra. Com a densidade decrescente em
temperaturas abaixo de 4 oC, a água se dilata ao invés de contrair-se, possibilitando a flutuação
do gelo e mantendo a vida abaixo da camada congelada. A tensão superficial, na interface líqui-
do-gasoso, permite a vida próximo à superfície. Solvente universal, é nesse meio que encontram-
se dissolvidos sais minerais, matéria e gases essenciais à vida. É também nesse meio que o ho-
mem lança os subprodutos das suas atividades, causando a sua degradação.

As causas da poluição das águas são evidentes e pertencem a três ordens de fatos diferentes. A
primeira está relacionada ao alto grau de urbanização aliado à falta de saneamento básico. A se-
gunda razão provém do desenvolvimento da indústria e seus despejos complexos, com os mais
variados poluentes. A terceira está relacionada à necessidade de uma maior produção agrícola,
que resulta numa carga mais pesada, transportada pelas águas, de pesticidas e fertilizantes. O
resultado disso tudo é um alastramento da poluição não só em rios, riachos, lagos e ao longo das
praias, mas também nas fontes naturais subterrâneas.

A legislação em vigor define a poluição hídrica como sendo "qualquer alteração nas caracte-
rísticas físicas, químicas e/ou biológicas das águas, que possa constituir prejuízo à saúde, à
segurança e ao bem estar da população e, ainda, possa comprometer a fauna ictiológica e a
utilização das águas para fins comerciais, industriais, recreativos e de geração de energia".
De forma mais prática, qualquer alteração nas características das águas que impeça ou prejudique
o seu uso.

Desse modo, ao se encarar o problema da poluição e a necessidade de corrigi-la, é preciso que se


tenha presente em cada caso os usos a que se destina a água. Para se assegurar um uso, ou um
conjunto de usos, é necessário que a mesma possua certas características mensuráveis, de nature-
za física, química e biológica, dentro de padrões de qualidade para aquele uso. Tais característi-
cas conferem à água o que denominamos de qualidade. Uso e qualidade são fatores interrelacio-
nados. Desta forma, sempre que alterações indesejáveis acarretarem a diminuição do nível de
qualidade da água, impedindo um ou mais usos para ela definido, temos caracterizado um fenô-
meno de poluição hídrica.

De um modo geral, as águas têm os seguintes usos: abastecimento doméstico, abastecimento


industrial, fonte de proteínas, irrigação, navegação, produção de energia, recreação e diluição de
despejos. Sendo que o uso mais nobre é o abastecimento doméstico e o menos nobre, porém
também bastante antigo, a diluição dos despejos. Este, devido à forma desordenada como vem
sendo feito, tem gerado a poluição hídrica.
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 55

11.1. CLASSIFICAÇÃO DAS ÁGUAS

As águas de interior no país, atendendo legislação federal - Resolução CONAMA no 020/86 -,


podem ser enquadradas em nove classes, distribuídas em três categorias: águas doces, salinas e
salobras. O enquadramento procura preservar a qualidade das águas a fim de assegurar os seus
usos. Para enquadramento do corpo d'água em uma das classes listadas, o mesmo deverá apresen-
tar um nível de qualidade compatível com as condições exigidas para aquela classe, isto é, deverá
obedecer aos padrões de qualidade estabelecidos na citada Resolução.

♦ ÁGUAS DOCES
♦ Classe Especial. Enquadram-se as águas destinadas a: abastecimento doméstico sem prévia
ou simples desinfecção; e, preservação do equilíbrio natural das comunidades aquáticas.
♦ Classe 1. Águas destinadas a: abastecimento doméstico, após tratamento simplificado; prote-
ção das comunidades aquáticas; recreação de contato primário (natação, mergulho, etc.); irri-
gação de hortaliças e frutas que se desenvolvem rentes ao solo e são ingeridas cruas; criação
de peixes.
♦ Classe 2. Águas destinadas ao: abastecimento doméstico após, tratamento convencional; pro-
teção das comunidades aquáticas; recreação de contato primário; irrigação de hortaliças e
plantas frutíferas; criação de peixes.
♦ Classe 3. Águas destinadas a: abastecimento doméstico, após tratamento convencional; irri-
gação de culturas arbóreas, cerealíferas e forrageiras; dessedentação de animais;
♦ Classe 4. Águas destinadas a: navegação; harmonia paisagística; usos menos exigentes.

♦ ÁGUAS SALINAS
♦ Classe 5. Águas destinadas a: recreação de contato primário; proteção das comunidades aquá-
ticas; criação de peixes.
♦ Classe 6. Águas destinadas a: navegação comercial; harmonia paisagística; recreação de con-
tato secundário.

♦ ÁGUAS SALOBRAS
♦ Classe 7. Águas destinadas a: recreação de contato primário; proteção de comunidades aquá-
ticas; criação de peixes.
♦ Classe 8. Águas destinadas a: navegação comercial; harmonia paisagística; recreação de con-
tato secundário.

As águas que ainda não passaram por enquadramento, se forem doces serão consideradas Classe
2, salinas Classe 5 e salobras Classe 7.Os efluentes de qualquer fonte poluidora poderão ser lan-
çados, direta ou indiretamente, nos corpos de água desde que obedeçam também aos limites fixa-
dos na citada Resolução.

As águas doces, salinas e salobras destinadas a balneabilidade podem ser enquadradas em qua-
tro categorias: excelente (3 estrelas), muito boa (2 estrelas), satisfatória (1 estrela) e impró-
pria. Os padrões de qualidade para enquadramento nestas categorias, também encontram-se lis-
tados na Resolução no 020/86 do CONAMA.
56 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

11.2. PRINCIPAIS FONTES DE POLUIÇÃO HÍDRICA

Podemos distinguir, de início, dois grandes grupos de fontes poluidoras das águas: os despejos
urbanos e os despejos rurais. Os despejos urbanos são: os esgotos domésticos, os resíduos líqui-
dos industriais e as águas pluviais provenientes da lavagem das áreas urbanas. Os despejos rurais
são basicamente: resíduos líquidos da agroindústria lançados diretamente nos cursos d'água e os
resíduos das atividades agropastoris normalmente carreados pelas águas de chuva.

Dentre os resíduos líquidos industriais, tanto das áreas urbanas como rurais, as indústrias que
mais se destacam pelo seu poder poluidor são as seguintes: Celulose e Papel; Usinas de Açúcar e
Álcool; Prensados de Madeira; Matadouros e Frigoríficos; Refinarias de Petróleo; Químicas e
Têxteis; Curtumes; e, Galvanoplastia.

Os principais problemas causados pelos despejos urbanos e rurais nos corpos d’água são a polui-
ção pela carga orgânica e a contaminação pelas substâncias tóxicas oriundas de processos indus-
triais.

11.3. PRINCIPAIS POLUENTES HÍDRICOS

No quadro 11.1, enumeram-se os principais poluentes hídricos, associando-os às suas origens


(fontes poluidoras), efeitos, indicadores e métodos de análise.

Quadro 11.1: Principais poluentes das águas.

Poluente Origem Efeito Indicador de Método


poluição de análise
• Matéria • Esgotos do- • Reduz drasticamente • DBO5 - De- • Teste da
orgânica mésticos e al- o nível de oxigênio dis- manda Bioquí- DBO5,OD,
guns efluentes solvido. Por longos pe- mica de Oxigê- e DQO.
industriais (a- ríodos, causa mudanças nio e DQO -
limentos, pa- na flora e fauna aquáti- Demanda Quí-
pel, têxtil). cas. Podem ser tóxicas. mica de Oxigê-
nio (mg O2 /l )
• Óleos • Vazamento • Impede a absorção de • Óleos e Gra- • Técnica
em tanques de oxigênio, o nível deste xas (mg/l) do infra-
estocagem, a- cai, inibindo a vida a- vermelho.
cidentes, eflu- quática. É tóxico para
entes de pos- animais e plantas.
tos, oficinas.
• Sólidos • Esgotos do- • Aumento da turbidez, • SS – Sólidos • Método
(em sus- mésticos e al- diminui a penetração em suspensão, turbidimé-
pensão e guns efluentes de luz e a taxa fotossin- RS – resíduo trico, gra-
sedimen- industriais (ar- tética. Partículas finas sedimentável vimétrico
táveis) gilas, carvão, sufocam as águas, mo- (ml/l), turbidez (SS) e mé-
porcelana,). dificando o ecossiste- (UNT). todo do co-
ma. Causam assorea- ne Imhoff
mento. (RS).
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 57

• Tempe- • Água de res- • Elevação da tempera- • T - Tempera- • Termô-


ratura friamento in- tura da água, reduzindo tura (oC). metro de
dustrial. o nível de OD, ao mercúrio.
mesmo tempo em que
aumenta a atividade
química e biológica.
• Nitratos • Uso de ferti- • Causa crescimento • NO3 - Nitra- • Método
lizantes, eflu- excessivo de algas e tos (mg N/l ). espectrofo-
entes de ETE, plantas aquáticas dani- tométrico.
percolação em nhas, contribui para a
lixões. eutrofização das águas.
Tóxico para o homem.
• Fosfatos • Uso de ferti- • Eutrofização das • PO4 - Fosfa- • Método
lizantes e águas. tos (mg P/l ). espectrofo-
detergentes tométrico.
fosfatados.
Indús-tria de
alimen-tos.
• Bacté- • Esgoto do- • Poluição fecal. Bac- • IC - Índice de • Método
rias méstico e térias patogênicas en- Coliformes (nú- NMP, CPP
hospitalar. con-trados nos esgotos mero de coli / e membra-
Despe-jos de podem causar doenças 100 ml). na filtran-
indús-trias no homem e nos ani- te.
alimentícias. mais.
• Ácidos • Despejos in- • Tóxico para a vida • pH - Potenci- • Métodos
e álcalis dustriais, chu- aquática. Interfere na a- al hidrogeniô- colorimé-
va ácida, es- tividade química e nico. trico e
coamento em biológica. potencio-
solos ácidos métrico.
ou alcalinos.
• Metais • Agrotóxicos, • Tóxicos ao homem. • Metais • Espectro-
despejos in- Acumulam-se nos os- (mg/l). fotômetro
dustriais, per- sos (chumbo), no sis- de absor-
colações em tema nervoso (mercú- ção atômi-
li-xões, rio), a-tacam a medula ca.
chumbo das óssea (cádmio). Bio-
canalizações. magnificação. Redu-
zem a capacidade de
autodepuração das
águas.

11.4. CLASSIFICAÇÃO DA POLUIÇÃO HÍDRICA

Em função dos efeitos dos despejos nos corpos receptores, a poluição hídrica pode ser classifica-
da em: química, térmica, bacteriana, orgânica, radioativa, etc..

♦ Poluição bacteriana - Contato com dejetos humanos portadores de organismos patogênicos,


por via direta ou através de esgotos sanitários.
♦ Poluição orgânica - Recebimento de grande quantidade de matéria orgânica, proveniente de
esgotos domésticos ou industriais;
58 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

♦ Poluição química - Presença de substâncias químicas em teores prejudiciais, provenientes de


processos industriais, do uso de pesticidas e de fertilizantes nas lavouras;
♦ Poluição térmica - Elevação da temperatura da água, ao receber despejos com temperatura
elevada, provenientes de destilarias, usinas atômicas, etc.;
♦ Poluição radioativa - Recebimento de descargas ricas em radioisótopos, provenientes de aci-
dentes em usinas nucleares (água de resfriamento de reatores).

11.5. POLUIÇÃO ORGÂNICA

Considera-se aqui somente a poluição orgânica, ou seja, a poluição resultante do lançamento de


esgotos domésticos e industriais ricos em matéria orgânica. Para melhor entendimento do pro-
blema, basta considerar uma cidade como Campina Grande, com aproximadamente 350.000 ha-
bitantes. Tendo como válida a média de mil gramas de fezes e urina por habitante-dia, são lança-
dos nas fossas e redes de esgotos da cidade, 350 toneladas de resíduos orgânicos diariamente, ou
seja, 127.750 toneladas anualmente, isso sem considerar as indústrias. Extrapolando para uma
metrópole como São Paulo, com a sua população e o grande número de indústrias, pode-se dizer
que se não fosse o tratamento dos esgotos, a mesma flutuaria nos seus próprios dejetos.

De todas as formas de poluição, esta é a que está mais presente no dia-a-dia dos brasileiros. Tal
fato é decorrente da carência de Sistemas de Esgotamento Sanitário, pois apenas 35% dos muni-
cípios brasileiros dispõem de redes de esgotos (na região Nordeste apenas 1,56% ou 11,75% da
população5). Como resultado, 10 bilhões de litros de esgoto “in natura” são lançados diariamente
nos cursos d’água e solos do país.

Esse tipo de poluição é provocado por matérias orgânicas suscetíveis de degradação bacteriana, e
é favorecido, fundamentalmente, pela fraca solubilidade do oxigênio nas águas. A matéria orgâ-
nica alimenta animais, fungos e, principalmente, bactérias. Estas, quando o alimento deixa de ser
fator limitante, multiplicam-se com espantosa rapidez e consomem muito oxigênio. Se a água é
rica em oxigênio dissolvido e a matéria orgânica pouco abundante, domina a degradação aeró-
bia e formam-se gás carbônico, água e nitratos. Mas se a água não contém oxigênio suficiente,
ocorre a degradação anaeróbia, com produção de gás carbônico e também de metano, amônia,
ácidos graxos, mercaptanas, fenóis e aminoácidos - alguns desses compostos são tóxicos. A exis-
tência de um ou de outro processo dependerá das condições do meio, onde tem grande importân-
cia a quantidade de esgotos lançados, o volume do corpo receptor, a rapidez de oxigenação da
água e a temperatura.

Quando a quantidade de esgotos lançada for muito grande em relação ao volume do corpo recep-
tor e à sua capacidade de oxigenação, a grande proliferação de bactérias, "vorazes" pelo oxigênio,
acabará por consumir todo oxigênio dissolvido na água, causando a morte de toda a comunidade
aquática. Diz-se então que houve a morte do corpo d’água, devido ao excesso de alimento que
lhe foi servido. Um corpo d’água morto é aquele que não contém oxigênio dissolvido em suas
águas e consequentemente não tem forma de vida superior.

5
CIMA – Comissão Interministerial para a Preparação da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 59

11.5.1. DBO E DQO

Visto que a poluição orgânica acarreta grande consumo de oxigênio, uma boa estimativa da polu-
ição pode ser obtida através da DBO5 e da DQO. A demanda bioquímica de oxigênio - DBO5 -
corresponde à quantidade de oxigênio necessária para que as bactérias possam oxidar a matéria
orgânica (biodegradável). A demanda química de oxigênio - DQO - representa a quantidade de
oxigênio dissolvido, cedida por via química, para oxidação de matéria orgânica biodegradável e
não-biodegradável. Tanto uma como outra contribuem para o fechamento de ciclos biogeoquími-
cos nas águas. Em águas limpas, a DBO5 é fraca, da ordem de 2 a 4 mg/l. Em águas poluídas, é
de várias dezenas de miligramas. No esgoto doméstico, chega a 300 mg/l e, nos despejos indus-
triais, varia com o tipo de indústria, porém é bem superior à do esgoto doméstico.

A relação DQO/DBO5 dá uma idéia do tipo de matéria orgânica que predomina na poluição. Nas
águas pouco poluídas, a relação DQO/DBO5 é pouco elevada, da ordem de 2 a 3. Quando é mai-
or, indica a predominância de matéria não biodegradável, muitas das quais podem ser tóxicas,
como detergentes e pesticidas. Neste caso, a água pode estar saturada de oxigênio, contudo inten-
samente contaminada (lembrar que toda contaminação é poluição).

É importante determinar também os sólidos em suspensão e sedimentáveis. Tratam-se de subs-


tâncias insolúveis que diminuem a transparência da água e dificultam a fotossíntese (diminuindo
a reoxigenação), perturbam a vida dos organismos bentônicos ao se depositarem lentamente so-
bre o fundo e promovem o assoreamento dos corpos d’água.

11.5.2. CARGA POLUIDORA

A DBO5 dá uma idéia do grau de poluição de despejo ou do ambiente, porém, na avaliação da


poluição, torna-se necessário correlacionar esse indicador com a quantidade de despejos, pois,
para uma mesma DBO5, quanto maior o volume ou a vazão de lançamento, maior o potencial
poluidor do despejo. Esta correlação é feita através da carga poluidora. A carga poluidora, ou
carga de DBO, representa a quantidade de oxigênio que vai ser requerida do corpo d'água na
unidade de tempo, e é obtida multiplicando-se a DBO5 do esgoto considerado pela vazão de lan-
çamento do mesmo corpo receptor.

A importância da medida da DBO5 e, consequentemente, da carga poluidora, sob o ponto de vista


ecológico, é muito grande, pois é através dela que se pode saber quanto oxigênio vai ser "rouba-
do" da água, por determinada quantidade de um certo tipo de despejo. Por conseguinte, conhe-
cendo-se o volume de água do corpo receptor e, portanto, a quantidade de oxigênio nele contida,
pode-se saber também quanto oxigênio resta para a respiração dos peixes.

Suponha, a título de exemplo6, que um rio com vazão de 10 metros cúbicos por segundo, esteja
recebendo os esgotos de uma comunidade com vazão de 300 litros por segundo, esgotos esses
que têm uma DBO média de 200 miligramas por litro, tem-se uma carga poluidora de 60 gramas
de DBO por segundo. Quando não poluída, a água do rio (20oC e ao nível do mar), concentra 9,0
miligramas de O2 por litro, o que corresponde a uma carga de oxigênio inicial de 9,0mg/l x
10.000l/s = 90.000mg/s, ou 90g/s. Ora, se o rio “dispõe” de 90g/s e o despejo lhe “rouba” 60g/s,
“sobram” 90g/s - 60g/s = 30g/s, que divididas pela vazão de 10m3/s, resultará em 3mg/l de O2, a
6
POLUIÇÃO: A MORTE DE NOSSOS RIOS, Samuel Murgel Branco, 1983.
60 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

que ficará reduzido o rio em questão, concentração essa que é insuficiente para permitir a vida
normal de peixes.

Se em lugar de 300l/s de esgotos, a cidade passar a lançar 500l/s, o rio ficará com um saldo nega-
tivo de -1mg/l de oxigênio, isto é, ficará morto. É claro que a concentração de oxigênio não pode
ser negativa, será nula; mas, para que o rio volte às suas características normais de saturação de
oxigênio, será preciso fornecer-lhe 10mg/l de O2 e não apenas 9mg/l. Diz-se então que o rio a-
presenta um "déficit de saturação de oxigênio" de 10mg/l. Por outro lado, esse mesmo esgoto
lançado no rio Amazonas (vazão de 300 milhões de litros por segundo), teria efeitos totalmente
desprezíveis.

11.5.3. EQUIVALENTE POPULACIONAL

É costume referir-se à poluição orgânica em função da quantidade média de detritos produzidos


diariamente por uma pessoa. A ordem de grandeza correspondente a esta quantidade é denomi-
nada de Equivalente Populacional - EP. Um EP corresponde pois à carga poluidora ou carga de
DBO5 produzida por uma pessoa diariamente. Nos povos civilizados, a matéria poluidora produ-
zida por uma pessoa diariamente, representa uma carga de aproximadamente 54 gramas de
DBO5.

Quando se trata de despejos industriais, os números são outros, variando de acordo com o tipo de
indústria considerado. A DBO5 das águas residuárias de uma indústria pode ser dezenas ou cen-
tenas de vezes maior que a dos esgotos domésticos. Para que seja possível comparar o potencial
poluidor dos vários tipos de despejos entre si, costuma-se dividir a carga orgânica poluidora de
cada indústria por 54g/hab.dia, o que fornece um dado relativo a "quantas pessoas seriam neces-
sárias para produzir a mesma poluição", e representa o equivalente populacional do despejo in-
dustrial considerado.

Tomando como exemplo uma fábrica de celulose (Quadro 11.2), cada tonelada de celulose pro-
duzida tem um equivalente populacional de 5.000 habitantes: isto significa dizer que cada vez
que a fábrica produz aquela quantidade de celulose, os despejos resultantes lançados diretamente
no rio, causam uma poluição orgânica equivalente à que seria produzida por uma população de
5.000 habitantes.

O equivalente populacional apresenta enorme interesse técnico, pois permite saber, de antemão,
qual o potencial poluidor de uma indústria, antes mesmo de sua instalação, baseando-se apenas
na previsão de sua capacidade produtora. No quadro 11.2, estão listados os Equivalentes Popula-
cionais de vários tipos de indústrias.

Na agricultura, emprega-se ainda como unidade de referência o Equivalente Animal - EA, que
se refere à quantidade total de detritos orgânicos devido a um animal de 500 kg de peso. É possí-
vel a comparação entre EP e EA através dos valores de DBO5. Um EA corresponde a cerca de 15
EP. É importante frisar que esta comparação só se refere às substâncias orgânicas passíveis de
decomposição microbiana, ou seja, substâncias biodegradáveis.
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 61

Quadro 11.2: Equivalente populacional para vários tipos de indústrias.

Tipo de Indústria Quantidade produzida Equivalente populacional


ou processada / dia (hab.)
Cervejaria 1.000 litros de cerveja 1.500
Curtume 1 tonelada de peles 2.500
Matadouro 1 tonelada de peso em pé 300
Celulose 1 tonelada de celulose 5.000
Usina de álcool 1 ton. de cana ou 65 litros de álcool 400
Granja de galinhas 10 aves abatidas 2
Laticínios 1.000 litros de leite 200
Lavanderia 1 tonelada de roupas 700
Fonte: Manual de Tratamento de Águas Residuárias.

11.6. AUTODEPURAÇÃO DAS ÁGUAS

A água é de natureza essencialmente dinâmica, quer nos aspectos físicos (turbulência), quer nos
aspectos químicos e biológicos. É sede de contínuas modificações que ocorrem naturalmente,
além das transformações que lhe são impostas pelo homem. Quanto a estas últimas, a água pro-
cura dinamicamente eliminá-las, numa tentativa permanente de readquirir suas características
anteriores. Nessa atividade incessante de recuperação, fenômeno conhecido como autodepura-
ção, a água poluída transforma toda a matéria orgânica, putrefata e malcheirosa, em gases que
evolam para a atmosfera e em sais minerais que podem ser absorvidos pelos seres vivos.

O fenômeno da autodepuração inicia-se logo após o lançamento de cargas poluidoras, e inclui


todo o processo de assimilação, decantação e digestão de compostos estranhos, além de oxige-
nação da água. As principais conseqüências nefastas da poluição orgânica, como perda de oxigê-
nio, gases tóxicos e morte do corpo d’água, decorrem do processo.

Os metais presentes nos despejos, também participam do processo. Podem ser absorvidos por
sedimentos minerais, combinar-se com diferentes minerais formando sulfetos, carbonatos, etc. ou
precipitar-se em presença de hidróxidos de ferro ou manganês. Porém, a presença de metais pe-
sados nos despejos pode interferir no processo, devido à sua ação tóxica sobre os microrganis-
mos responsáveis pela degradação da matéria.

11.6.1. ZONAS DE AUTODEPURAÇÃO

Durante o processo de autodepuração as águas passam por uma série de etapas sucessivas, quer
no espaço quer no tempo. Isso permite dividir um rio poluído em zonas de autodepuração. Su-
pondo a existência de uma única fonte poluidora, as transformações no corpo d’água podem ser
vistas nas figuras 11.1 e 11.2. A evolução do teor de oxigênio dissolvido é função da distância ao
local da poluição, segundo uma curva em forma de “bolsa”, que é a resultante, por um lado, do
consumo de oxigênio; e por outro, da oxigenação da água (Figura 11.1). Durante o processo, ob-
servam-se modificações na biocenose em função do teor de oxigênio dissolvido (Figura 11.2 ),
segundo fases caraterizadas por espécies particulares que podem ser utilizadas como indicadores
de poluição.
62 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Figura 11.1: Zonas de autodepuração.


(CHARBONNEAU, J. P. et al, 1979)
.

Figura 11.2: Efeitos da poluição orgânica sobre o oxigênio dissolvido


e os organismos (CHARBONNEAU, J. P. et al, 1979).

11.6.1.1. ZONA DE DEGRADAÇÃO - ZD

Inicia-se no ponto de lançamento dos despejos. A água fica turva, cor acinzentada, há sedimenta-
ção de partículas que formam o lodo no leito do corpo d’água. A proliferação de bactérias logo se
inicia com o consumo da matéria orgânica como alimento e redução da concentração de oxigênio
progressivamente. Quando esta atinge 40% da concentração inicial, tem-se aí o limite da 1a zona.
Não há odor ativo, uma vez que a presença do oxigênio não permite a decomposição anaeróbia.
Esta apenas ocorre no interior da massa de lodo que ocupa o leito do rio, dando origem a bolhas
de gás.
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 63

11.6.1.2. ZONA DE DECOMPOSIÇÃO ATIVA - ZDA

Inicia-se quando o oxigênio atinge valores inferiores a 40% da concentração inicial. Ocorre em
águas que recebem grandes cargas poluidoras. Apresenta cor cinza-escura, quase negra, com
grandes bancos de lodo no fundo, em ativa decomposição anaeróbia, desprendendo gases mal-
cheirosos, tais como amônia, gás sulfídrico e mercaptanas que caracterizam o ambiente séptico.
Nessas condições, o oxigênio dissolvido pode zerar ou “ficar negativo”, na parte média dessa
zona. Neste ponto, a biota aeróbios é substituída por outra anaeróbios. O ambiente torna-se fétido
e escuro, a superfície da água tem aspecto oleoso e denso. O oxigênio passa a ser reposto, seja a
partir do ar atmosférico, seja a partir da fotossíntese. A população de bactérias começa a decres-
cer, seja por falta do alimento, seja devido a predação por protozoários. O meio começa a tornar-
se claro, mas ainda é impróprio à vida de peixes, dada a alta concentração de amônia. Quando o
oxigênio eleva-se a 40% da concentração inicial, termina a 2a zona.

11.6.1.3. ZONA DE RECUPERAÇÃO - ZR

Inicia-se com 40% de oxigênio inicial e termina com a água saturada de oxigênio. Progressiva-
mente mais clara e límpida, a água permite a proliferação de algas que reoxigenam o meio. A
amônia é oxidada a nitritos e nitratos que, juntamente com os fosfatos, fertilizam o meio, favore-
cendo a proliferação de algas. Estas conferem coloração esverdeada intensa e, por sua vez, ser-
vem de alimento para organismos como pequenos crustáceos, larvas de insetos, vermes, molus-
cos, etc., os quais alimentam peixes que começam a aparecer nesta zona, diversificando cada vez
mais a biocenose.

11.6.1.4. ZONA DE ÁGUAS LIMPAS - ZAL

Apesar desta denominação, a água apresenta características totalmente diferentes daquelas que
apresentava antes da poluição. A diferença fundamental é que a água agora encontra-se "eutrófi-
ca" A água está longe de ser limpa pois a grande quantidade de algas torna-a intensamente verde,
às vezes espessa como uma sopa. A população de seres vivos agora é muito maior que a existente
antes, inclusive de peixes. A água foi salva, recuperou-se, melhorou a sua capacidade de produzir
alimento protéico, mas, por outro lado, piorou no que diz respeito à água potável. Além disso
ficou com péssimo aspecto estético e com grande assoreamento nas margens, com invasão de
plantas aquáticas indesejáveis.

11.7. EUTROFICAÇÃO

Denomina-se eutroficação7 o processo resultante da fertilização das águas por despejos orgâni-
cos domésticos ou industriais, despejos de resíduos da agricultura, poluição do ar ou por afoga-
mento da vegetação em represas. O processo também pode ter origem natural, desencadeado pelo
escoamento das águas de chuva nos solos, que arrasta nutrientes para os corpos d'água, dando
origem à eutrofização. Seja eutrofização ou eutroficação, o processo caracteriza-se pelo enve-
lhecimento precoce de um corpo d'água, devido à grande quantidade de nutrientes.

7
Segundo alguns autores o termo “eutroficação” deve substituir o termo “eutrofização”, quando se tratar de processo
desencadeado pelo homem.
64 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

O processo ocorre da seguinte forma: nas águas fertilizadas, nutrientes como nitrogênio e fósforo
deixam de ser fatores limitantes para organismos produtores, o que favorece a proliferação de
algas. O aumento de algas e, consequentemente, de oxigênio, leva também a um aumento na pro-
liferação de pequenos animais que as utilizam como alimento, e também de peixes que se nutrem
desses animais.

O mecanismo pode ser encarado como uma reação em cadeia, de causas e efeitos característicos,
que têm como resultado a quebra do equilíbrio ecológico, pois passa a haver mais produção de
matéria orgânica do que o sistema é capaz de assimilar. O aumento na produção primária, tem
como conseqüência um aumento na quantidade de substâncias orgânicas no meio, cuja decompo-
sição por microrganismos consome oxigênio. Por outro lado, à noite, cessada a atividade fotos-
sintetizante, as algas também passam a consumir parte do oxigênio produzido durante o dia. Com
a queda do oxigênio dissolvido na água, surgem outros gases da atividade de bactérias anaeró-
bias, entre os quais, o gás sulfídrico, a amônia e o metano. Estes, extremamente tóxicos para a
maioria dos organismos aquáticos, especialmente para os peixes, que morrem, aumentando a
carga de matéria orgânica no meio.

O aumento da concentração de algas é acompanhado de alterações qualitativas, com surgimento


de novas espécies e desaparecimento de outras. Nas águas doces eutrofizadas, nos meses mais
quentes, observa-se altas densidades de algas, sobretudo algas azuis (Cianofíceas), responsáveis
pela excreção de altas quantidades de substâncias tóxicas e malcheirosas. O intenso crescimento
de algas dificulta também a penetração de luz na água e provoca a morte de plantas aquáticas
jovens enraizadas no sedimento, justamente aquelas que proporcionam local adequado à desova
dos peixes e à proliferação de organismos que lhes servem de alimento. Nas águas salgadas, a
eutroficação favorece às “marés vermelhas”, fenômeno resultante da proliferação de algas uni-
celulares, muito tóxicas, do gênero Gymnodinium.

No estágio final, o ecossistema aquático caracteriza-se pela pouca profundidade, altos déficits de
oxigênio, organismos mortos flutuando na superfície e grande quantidade de colchões de algas à
deriva. A presença dessas características, indica que o ecossistema está agonizante e só poderá
ser salvo à custa de investimentos elevados e uso de tecnologia moderna. Em nosso país, há e-
xemplos claros desse processo, como no Lago Paranoá - Brasília, Represa Billings - São Paulo,
Lagoa da Pampulha - Belo Horizonte e, num processo bem encaminhado, o Açude Velho - Cam-
pina Grande.

As principais técnicas utilizadas para controle e correção dos efeitos da eutroficação, envolvem
os seguintes processos: diminuição da entrada de agentes eutrofizantes; renovação do hipolím-
nio; remoção periódica das macrófitas aquáticas; remoção do sedimento do fundo; diminuição do
tempo de residência; isolamento químico do sedimento; e controle biológico. A contenção do
processo é uma tarefa das mais difíceis, que exige técnicas especializadas e apoio político-social
dos mais importantes. Da tecnologia saem as medidas para o seu controle e do apoio político as
leis que viabilizam essas medidas.

11.8. MEDIDAS DE CONTROLE DA POLUIÇÃO HÍDRICA

Algumas medidas podem ser tomadas com vistas a controlar a poluição hídrica. No primeiro
grupo estão as medidas corretivas que visam favorecer, ou mesmo elevar, a capacidade de auto-
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 65

depuração dos corpos de água: Regularização da Vazão do Rio, Aumento da Turbulência e Adi-
ção de uma Fonte Química Suplementar de Oxigênio. No segundo grupo estão aquelas medidas
destinadas a prevenir, ou mesmo evitar, a poluição dos corpos d’água: Tratamento dos Despejos,
Levantamento Sanitário e Aplicação de uma Legislação Eficaz.

11.8.1. REGULARIZAÇÃO DA VAZÃO DO RIO

Esta é aplicável quando o corpo d’água sofre grandes variações de vazão durante o ano. O repre-
samento das águas de chuva permite a regularização da vazão do rio mediante a utilização de
comportas na barragem, aumentando assim a sua capacidade de autodepuração. Entretanto, a
construção de represas deve restringir-se aos casos absolutamente indispensáveis, pois ela impli-
ca sempre em uma alteração dos sistemas ecológicos, provocando desequilíbrios: alteração de
fauna e flora, mudanças de clima e outros impactos ambientais que deverão ser cuidadosamente
avaliados.

11.8.2. AUMENTO DA TURBULÊNCIA

Em casos especiais, pode-se aumentar a capacidade de recuperação da água, elevando-se a turbu-


lência. Águas agitadas, como em rios que possuem corredeiras, têm maior capacidade de absor-
ver oxigênio atmosférico do que as águas tranqüilas. É possível aumentar a turbulência das águas
através de artifícios que provocam a sua agitação e, consequentemente, rápida oxigenação do
meio. Dentre os artifícios empregados, citam-se os aeradores, a construção de corredeiras artifi-
ciais e os escovões rotativos.

11.8.3. ADIÇÃO DE UMA FONTE QUÍMICA SUPLEMENTAR

Em casos extremos de produção repentina de fortes odores nocivos, por causa de súbita passa-
gem às condições sépticas (anaeróbias), tem-se recorrido à adição de nitratos ao meio, como fon-
te química suplementar de oxigênio para a atividade de bactérias aeróbia facultativas. Tal solução
paliativa tem porém o grave inconveniente de acrescentar nitrogênio à água, o que acelera o pro-
cesso de eutrofização.

11.8.4. DIAGNÓSTICO AMBIENTAL

Este, consiste num levantamento sanitário-ecológico das bacias hidrográficas, que abrange tanto
a ecologia aquática, como também o uso da terra e suas transformações pelo homem. O mesmo
tem como objetivo fundamental prever as conseqüências futuras que decorreriam de uma expan-
são não planejada das atividades da região. Trata-se pois de um levantamento das condições atu-
ais a fim de prever as condições futuras. E assim, as tendências demográficas, as expansões in-
dustriais e agrárias, devem ser estudadas, além da própria água e os seus usos, dos solos, da fauna
e da flora, com fins de elaborar, conscientemente, um plano de manejo das bacias, de modo a
preservar os corpos d’água.
66 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

11.8.5. APLICAÇÃO DE UMA LEGISLAÇÃO EFICAZ

Uma legislação eficaz é aquela cuja importância é entendida por todos e é seguida, não pelo fato
de ser punitiva, mas pelo seu caráter disciplinador do uso dos recursos naturais. A água é um
recurso aparentemente abundante, mas que tem distribuição bastante irregular no planeta. O uso
sem matéria disciplinadora pode levar a sérios conflitos no futuro (já presentes em algumas regi-
ões), uma vez que a poluição não tem fronteiras. Prevenir a poluição das águas através de uma
legislação tem sido medida de controle adotada por muitos países. No Brasil, a Resolução CO-
NAMA no 020/86 e o Código das Águas, fazem parte da legislação disciplinadora dos usos das
águas, que só precisa de maior divulgação dentro de um programa de educação ambiental que
motive a população, para que possa tornar-se eficaz. A criação de uma consciência pública e in-
dustrial da importância vital da conservação do meio ambiente, seria mais eficaz, sem dúvida, do
que a aplicação pura e simples de sanções penais aos infratores.

11.8.6. TRATAMENTO DOS DESPEJOS

O tratamento dos despejos visa reduzir ou eliminar a carga poluidora, antes do seu lançamento
nas águas (medida preventiva) ou após o lançamento, para recuperação do corpo d’água (medida
curativa). A situação ideal seria a eliminação de todos os poluentes, porém este objetivo parece
inatingível, tanto do ponto de vista econômico como tecnológico.

O tratamento consiste na combinação de operações unitárias (gradeamento, troca de gás, sedi-


mentação, flotação, coagulação, precipitação química, filtração, desinfecção e oxidação biológi-
ca) para obtenção de um efluente com características aceitáveis, para devolvê-lo aos corpos
d’água, conforme a Resolução CONAMA 020/86. Nas operações unitárias são utilizados proces-
sos físicos, químicos e biológicos que, combinados num sistema de tratamento, resultam na efi-
ciência desejada.

Com relação à eficiência das instalações de tratamento na redução dos sólidos em suspensão e da
demanda bioquímica de oxigênio, pode-se classificar o tratamento dos despejos da seguinte for-
ma:

♦ tratamento primário: com predominância de processos físicos, para remoção de sólidos


grosseiros, gorduras e areia, através de decantador, tanque de flotação, separador de óleos,
caixa de areia, etc, com 10 a 50% de eficiência;
♦ tratamento secundário: há predominância de processos biológicos para remoção de material
orgânico biodegradável, através do uso de lagoa de estabilização, lodo ativado, filtro biológi-
co, etc, com 50 a 95% de eficiência;
♦ tratamento terciário: com predominância de processos químicos para remoção de nutrientes,
organismos infecciosos, inorgânicos e orgânicos complexos, por meio de precipitação quími-
ca, desinfecção, dentre outros processos.

A escolha por um ou outro, ou pela combinação de processos, depende dos recursos disponíveis
e, mais precisamente, da eficiência de remoção desejada ou exigida para lançamento de efluentes
nos corpos de água. Nas Figuras 11.3 e 11.4, estão ilustrados dois sistemas de tratamento de des-
pejos.
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 67

Figura 11.3: Sistema de Lagoas de Estabilização.


(Revista Bio, no 1, 1994)

Figura 11.4: Sistema de Disposição no Solo.


(Revista Bio, no 1, 1994)

11.9. EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 11

1. Enumere as causas da poluição hídrica.


2. Qual a sua cidade? Enumere os principais usos das águas na mesma, priorizando-os numa
escala de 1 a 5.
3. Liste três fontes de poluição hídrica com os respectivos poluentes.
4. Enumere as principais conseqüências dos poluentes listados na questão anterior.
5. Associe indicadores de poluição aos poluentes listados na questão 3.
6. Em um corpo d’água estudado, obteve-se os seguintes resultados: DQO/DBO5 = 4,5 e satura-
ção de oxigênio. Como você classificaria essa poluição?
7. Qual a carga poluidora de uma indústria cujo equivalente populacional é 100 mil habitantes?
8. O rio Tietê, ao atravessar a cidade de São Paulo, recebe uma carga poluidora de aproximada-
mente 50 ton./dia. No período de inverno, a vazão do rio pode chegar a 60 m3/s.
a) Qual o equivalente populacional dos despejos lançados no rio?
b) Qual a carga de oxigênio final? (admitir ODinicial = 7,5 mg/l)
c) Qual o seu diagnóstico para o Tietê? (admitir classe 4)
68 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

9. Conceitue autodepuração e comente sobre as suas zonas.


10. O que acontece com a biocenose do corpo d’água durante o processo de autodepuração?
11. Explique o fenômeno das “marés vermelhas”.
12. Como melhorar a capacidade de autodepuração dos corpos d’água?
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 69

12. POLUIÇÃO DO SOLO

O solo é a camada superficial da litosfera, formada por rocha finamente decomposta, restos
vegetais e animais, e seres vivos (bactérias, fungos, algas, protozoários, vermes e insetos),
constituindo um verdadeiro ecossistema. Num simplificado perfil de solo (Figura 12.1) podemos
identificar, de baixo para cima, as seguintes camadas: rocha “mãe”- rocha que deu origem ao
solo -, subsolo - rocha desagregada ou regolito -, e o solo propriamente dito coberto por uma ca-
mada de “húmus” de 15 a 30 centímetros. Nesta, a vida é tão intensa que se assemelha a uma
indústria de reciclagem em funcionamento contínuo, garantindo a perenidade dos ciclos biogeo-
químicos e, consequentemente, a fertilidade dos solos. Estes, verdadeiros substratos da vida hu-
mana, animal e vegetal, funcionam como reservatórios de nutrientes e água, e ainda absorvem e
oxidam substâncias indesejáveis.

Solo

Rocha desagregada (subsolo)

Rocha “mãe”

Figura 12.1: Perfil de solo.

No processo de formação dos solos, quatro fatores são particularmente importantes:

♦ o clima - principalmente a temperatura e a precipitação que influenciam na desagregação de


rocha e formação do húmus;
♦ a geologia - a rocha mãe pode contribuir para a textura e composição química do solo, poden-
do inclusive afetar a fertilidade;
♦ o tempo - os solos desenvolvem-se ao longo do tempo, num processo dinâmico sob determi-
nadas condições ambientais. Em algumas regiões do mundo, estas condições persistem por
longos períodos, noutras ocorrem mudanças rápidas;
♦ a vegetação - a circulação de nutrientes é grandemente influenciada pelas raízes das plantas.
A vegetação densa protege o solo do efeito da chuva forte e também reduz as flutuações de
temperatura no solo.

Sob o ponto de vista ecológico, um solo caracteriza-se pela: textura, porosidade, composição
química, pH, teor de umidade e composição biológica. Em geral, os solos apresentam a seguinte
composição: 45% de elementos minerais (areia e argila), 25% de ar, 25% de água, 5% de matéria
orgânica e miríades de pequenos organismos. A maneira como os elementos minerais e a matéria
orgânica se estruturam contribui para definir o teor de umidade, aeração e fertilidade do solo.
70 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Como substrato da vida, o solo vem ao longo da história da civilização sofrendo as conseqüên-
cias das atividades humanas, que alteram as suas características causando danos à saúde do ho-
mem e ao seu patrimônio, gerando o fenômeno da poluição do solo. Este pode apresentar-se a-
través:

♦ do desmatamento que destrói a cobertura vegetal protetora;


♦ da utilização de queimadas para limpeza;
♦ da mineração de recursos não renováveis;
♦ da superlotação dos pastos com rebanhos;
♦ do cultivo de terras, exaustivamente, com monoculturas;
♦ do uso intensivo de agrotóxicos no controle de pragas;
♦ do uso abusivo de fertilizantes;
♦ de projetos de irrigação mal orientados, provocando a erosão, a lixiviação e a laterização;
♦ e, disposição inadequada do lixo.

12.1. POLUENTES DO SOLO

No quadro 12.1, estão enumerados os principais poluentes do solo, com sua origem, efeitos e
métodos de análise.

Quadro 12.1: Principais poluentes dos solos

Poluentes Origem Efeitos Método de


análise
• Acidez • Alguns solos são na- • Aumenta a solubilidade de • Método de
turalmente ácidos, ou- metais prejudiciais ao homem. igualação de
tros são alterados pela Inviabiliza a vida no solo para cores ou do
chuva ácida ou outra muitos animais e vegetais. pH-metro.
forma de poluição (des-
pejos industriais).
• Micror- • Contaminação por • Pode conter bactérias pato- • Método da
ganismos esgoto humano ou ani- gênicas ao homem e animais. contagem de
mal. colônias.
• Nitratos • Uso de adubos mine- • Tóxicos (nitritos) e cancerí- • Método es-
e fosfatos rais, lodo de esgoto, es- genos (nitrosamidas) para o pectrofotomé-
terco de pocilgas e es- homem. Vegetais florescem trico.
tábulos. menos, produzindo menos fru-
tos e sementes. Alteram o
ciclo do nitrogênio. Nitratos e
fosfatos eutrofizam as águas.
• Metais • Alguns estão normal- • Tóxicos para o homem. A- • Espectrofo-
mente presentes nos so- cumulam-se nos ossos (chum- tômetro de
los (alumínio, cádmio). bo). Atacam o sistema nervo- Absorção
Outros provêm de lodo so (mercúrio). Interferem no Atômica.
de esgoto e alguns resí- processo de fotossíntese (zin-
duos industriais. Usado co). Participam do processo de
em pesticidas (mercú- biomagnificação.
rio), em tintas (cádmio),
na gasolina (chumbo).
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 71

• Sais (Sa- • Evaporação da água • Depósitos salinos são tóxi- • Condutiví-


lino negro) de irrigação. Extrusão cos para muitas plantas. metro.
de água do mar.
• Gases de • Locais de disposição • O metano é altamente explo- • Monitor de
aterros de lixo (aterros, lixões). sivo e o dióxido de carbono é gás de aterro.
asfixiante; no solo podem
restringir o crescimento de
plantas.

12.2. PRINCIPAIS FONTES POLUIDORAS E SUAS CONSEQUÊNCIAS

12.2.1. DESMATAMENTO

O desmatamento é uma prática comum de eliminação da cobertura vegetal do solo, pela destrui-
ção de florestas, matas e campos nativos, com finalidades diversas, tais como: exploração co-
mercial da madeira; abertura de novas pastagens e áreas agrícolas, em projetos agropecuários;
exploração de recursos minerais e especulação imobiliária.

O desmatamento das florestas tem influência sobre o clima, gerando um ciclo vicioso. A chuva
direta compacta o solo. Muita água corre e pouca se infiltra. Esta, causa lixiviação do solo, favo-
recida pela falta de raízes que capturem os nutrientes arrastados. A água que escoa superficial-
mente provoca erosão. Os rios se enchem e há inundação. Depois de uma ou duas semanas de
sol há seca. A água não se infiltrou, não chegou até o nível do lençol freático, não pode alimentar
fontes e vertentes. Os poços, rios e fontes secam, e os solos estão secos porque a chuva somente
umedeceu a superfície. Com a seca, instala-se uma vegetação pobre. Quanto mais pobre a vege-
tação, mais prolongadas as secas e mais pavorosas as enchentes. O clima piora à medida que de-
saparecem as florestas e o solo se compacta. Por outro lado, há destruição dos hábitats. Animais
sem alimento e abrigo, migram ou morrem. As poucas espécies que se adaptam à nova paisagem,
muitas vezes transformam-se em pragas.

Nas regiões semi-áridas, como em boa parte do nordeste brasileiro, a retirada da cobertura vege-
tal nativa torna-se muito mais agravante, pois a combinação solo nu, clima e uso inapropriado da
terra pela população, resulta na desertificação.

Em resumo, o desmatamento tem como conseqüências:

♦ a disseminação de pragas nas lavouras;


♦ alterações do clima na região, pela modificação do regime de chuvas, que se tornam menos
freqüentes e muito mais violentas;
♦ contribui para a seca de corpos d’água (poços, rios, fontes, etc.);
♦ favorece aos fenômenos de lixiviação, erosão e desertificação.
72 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

12.2.2. FERTILIZAÇÃO

A fertilização dos solos consiste no uso de adubos, geralmente minerais, substituindo-se assim os
elementos retirados pelas colheitas e levados para longe. A agricultura moderna utiliza doses
cada vez maiores de adubos sintéticos em troca dos adubos tradicionais, como o esterco. A con-
seqüência é a redução no teor de húmus e a degradação da estrutura do solo. Quando utilizados
em excesso, ocorre verdadeiro desperdício de nitratos: alguns são arrastados pelas chuvas e eu-
trofizam as águas; outros acumulam-se em vegetais, como o espinafre, que no intestino humano é
transformado em nitritos tóxicos e em nitrosamidas cancerígenas. O excesso de adubos no solo
perturba a fisiologia dos vegetais, que acabam florescendo mal e produzindo menos frutos e me-
nos sementes.

O excesso de fertilizantes perturba o ciclo do nitrogênio na biosfera: o nitrogênio atmosférico,


quando transformado em nitratos pela indústria e lançado no solo, em grande quantidade, rompe
o equilíbrio natural entre fixação e desnitrificação, em benefício da fixação.

Mesmo a adubação natural com o uso de estercos, principalmente o de pocilgas, tem gerado po-
luição. Os estercos são ricos em nitratos, fosfatos, potássio, cálcio e magnésio, e, ainda, em cobre
e zinco acrescentados à ração alimentar. Em virtude desta riqueza não podem ser lançados ao
solo em grande quantidade, pois as plantas não podem absorver tudo o que recebem e o solo
acaba poluído.

12.2.3. MONOCULTURA

Entende-se por monocultura o cultivo extensivo de um único tipo de vegetal em uma dada área.
Tal prática é incompatível com a noção de ecossistema, pois trata-se de um sistema instável, on-
de um único vegetal nutre poucos animais, reduzindo a competição inter-específica, permitindo o
surgimento de espécies oportunistas de plantas, animais e insetos, que se transformam em pragas.
Por outro lado, a simplificação dos ecossistemas pela monocultura deixa o solo debilitado, isto
porque explora a terra sempre da mesma forma e não permite que os ciclos de materiais se com-
pletem.

O restabelecimento do equilíbrio biológico dos solos debilitados ou destruídos pela monocultura,


tem sido feito pelo método da rotação de culturas adequadas, uma vez que, a cada nova cultura,
as plantas exploram o solo de maneira diferente e também o enriquecem com diferentes substân-
cias orgânicas, possibilitando uma microvida mais diversificada, pois cada plantio agrícola não é
somente composto de plantas diferentes mas sim de ecossistemas diferentes.

12.2.4. IRRIGAÇÃO

A irrigação é um tipo de prática comum nas zonas áridas e semi-áridas, onde é necessário suprir
a falta de água de chuva. Uma irrigação conduzida de forma incorreta tem como resultado a polu-
ição do solo por sais, a salinização. A salinização resulta de dois fenômenos que muitas vezes
agem simultaneamente: (a) a água de irrigação não penetra em profundidade nos solos pouco
permeáveis, a maior parte da água evapora e os sais nela contidos depositam-se nas camadas su-
perficiais; (b) a irrigação não acompanhada de uma drenagem eficaz, provoca a subida do lençol
freático, que leva à superfície cloretos provenientes das camadas profundas. Como conseqüência,
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 73

há a formação do “salino negro”, associação de carbonato de sódio, sulfato de sódio e cloreto de


cálcio, tornando o solo impróprio para a vida vegetal.

12.2.5. MINERAÇÃO

A mineração consiste na exploração da litosfera para obtenção de minérios úteis às atividades


humanas. As maneiras de minerar subdividem-se em: cata (garimpo), cava (pedreira), minas de
céu aberto, minas subterrâneas e sondas de perfuração (poços de sondagem). Todas geram degra-
dação ambiental, porém destacam-se a seguir os principais aspectos negativos de duas delas.

O garimpo ou cata consiste na retirada de minérios que se encontram na superfície da Terra,


concentrados nos sedimentos ainda inconsolidados e nas rochas sedimentares, tais como ouro,
diamante e cassiterita. A cata, principalmente a mecanizada, tem como conseqüência:
♦ alteração do ecossistema, pela remoção de imensas áreas sedimentares;
♦ assoreamento de corpos d’água;
♦ contaminação do ambiente com produtos tóxicos, tais como mercúrio e cianeto, usados na
separação e purificação do ouro;
♦ subemprego e degradação social das comunidades envolvidas;
♦ destruição das áreas indígenas;

A mineração em pedreiras ou cavas consiste na retirada de minérios localizados imediatamente


abaixo do solo, tais como barro, areia, saibro, brita e bauxita, trazendo como conseqüências:
♦ buracos e depressões de uso duvidoso (em área urbana tornam-se depósitos de lixo);
♦ degradação de ecossistemas costeiros, causando erosão e até o desaparecimento de vastas á-
reas;
♦ remoção de grandes volumes de solo, para obtenção do mineral (bauxita), com grandes preju-
ízos para o ambiente;

12.2.6. QUEIMADA

A queimada é uma técnica comum utilizada para a limpeza de pastos e campos. A vantagem de
promover a limpeza rápida do terreno e o enriquecimento do solo com as cinzas, tem perpetuado
essa prática em várias regiões do mundo. Embora seja um método barato a curto prazo, é muito
caro a longo prazo, pois promove a decadência do solo pela perda de minerais, volatilizados du-
rante a queimada ou lixiviados pelas águas de chuva ou de irrigação.

Porém, o uso controlado do fogo pode trazer vantagens, como no caso de certas regiões, onde as
queimadas são usadas na formação de pastagens, eliminando alguns arbustos nocivos ao gado e
permitindo o desenvolvimento de plantas herbáceas que, além de boas pastagens, protegem me-
lhor o solo contra erosão.

A queimada controlada raramente é maléfica, por não roubar do solo sua cobertura morta, mas
somente eliminar o excesso de vegetação. Entretanto, quando feita de forma descontrolada, tor-
na-se maléfica por:

♦ eliminar, pelo calor excessivo, os microrganismos presentes no solo, os quais são responsá-
veis por sua fertilidade;
74 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

♦ destruir, pelo calor, as sementes, caules e raízes de plantas que voltariam a se desenvolver,
reconstituindo a cobertura vegetal original;
♦ promover a volatilização de substâncias coloidais responsáveis pela textura granular e bem
arejada do solo, resultando no seu adensamento;
♦ promover a volatilização de substâncias nutritivas, causando o empobrecimento do solo;
♦ eliminar a cobertura vegetal, expondo o solo ao impacto das chuvas, favorecendo aos fenôme-
nos de erosão e lixiviação;
♦ criar uma vegetação pastoril, ou de invasoras, próprias do fogo.

A queimada controlada, feita no período certo (início da estação seca), ou sua substituição por
técnicas como o Rolo-faca ou outras técnicas que conservam os solos, tem sido vantajosa. Estas
técnicas são mais caras que o fogo, porém garantem a continuidade de produção, tornando-se, a
longo prazo, muito mais baratas.

12.2.7. AGROTÓXICOS

Os agrotóxicos, defensivos agrícolas ou pesticidas são produtos químicos, naturais ou sintéticos,


utilizados pelo homem com a finalidade de eliminar “pragas” animais ou vegetais, causadores de
consideráveis estragos nas culturas e nas florestas homogêneas. Além do seu emprego na agricul-
tura, encontra aplicação em campanhas de saúde pública, residências, hotéis, bares, restaurantes,
escritórios, etc e na proteção de alimentos. O número de pesticidas atualmente existentes no mer-
cado deve situar-se entre 10.000 e 20.000 preparados.

Em função do agente que combatem, os agrotóxicos podem ser divididos em: inseticidas - com-
batem os insetos; herbicidas - ervas daninhas; fungicidas - fungos; formicidas - formigas; aca-
ricidas - ácaros (carrapato); bactericidas - bactérias; nematicidas - nematóides (vermes); rati-
cidas - ratos e rodenticidas - outros roedores.

Três características são importantes nos agrotóxicos: a toxidez, a seletividade e a persistência.


A toxidez diz respeito à sua capacidade de eliminar pragas. A seletividade à sua capacidade de
eliminar apenas determinada espécie de praga. A persistência à sua capacidade de permanecer
ativo no ambiente. Os agrotóxicos podem ser classificados por categoria química em: organoclo-
rados, fosforados, carbamatos, químicos naturais, mercuriais e arseniais.

O poder de intoxicação dos agrotóxicos é comumente expresso em termos da Dose Letal. A Do-
se Letal ou DL 50 exprime a dose que provoca a morte de 50% das “cobaias” expostas ao produ-
to. Assim, os agrotóxicos são classificados em diferentes classes toxicológicas e identificados
por faixas coloridas com um aviso expresso sobre elas - cuidado veneno ou altamente tóxico ou
muito perigoso, etc.

12.2.7.1. EFEITOS TÓXICOS

Os efeitos tóxicos dos defensivos agrícolas variam de acordo com a sua categoria química. No
homem, a penetração pode ser por via dermal, oral ou respiratória, podem provocar sudorese,
visão turva, intensa secreção nasal, dor de cabeça, tonturas, vômitos, fortes cólicas abdominais,
diarréias, confusão mental, febre, perda de peso, debilitação geral, angústias, dificuldades respi-
ratórias, problemas cardíacos, choque e morte.
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 75

Dentre os químicos naturais, destacam-se os piretróides (derivado da flor do Crisântemo) que


têm elevada toxicidade aguda para mamíferos que os absorvem por todas as vias. Têm baixa per-
sistência e são os inseticidas mais usados nas residências na forma de sprays ou em aparelhos
ligados à tomada elétrica. Exemplos: Aletrina, Permetrina, Cismetrina e Bioresmetrina.

Os organoclorados têm toxicidade crônica e são absorvidos por via oral, respiratória e dérmica, e
sendo lipossolúveis, são persistentes e depositam-se na gordura animal, inclusive humana, sendo
consequentemente cumulativos. Sua ação residual pode determinar o aparecimento de tumores
malignos. Exemplos: BHC, DDT, DDD, Aldrin, Endrin e Lindane.

Os fosforados, embora sejam eficientes para matar insetos, também são venenosos para aves e
mamíferos, incluindo-se o homem. São absorvidos pelas vias dérmica, digestiva e respiratória.
Esses inseticidas são tóxicos agudos, mas de vida breve. Exemplos: Parathion, Malathion,
TEPP, Diclorvos e Endothion.

Considerados menos tóxicos que os fosforados e menos persistentes que os organoclorados, os


carbamatos são freqüentemente usados em residências no combate a traças, baratas e formigas.
São absorvidos pelas três vias, mas rapidamente metabolizados (2 a 3 dias) e elimidados pelas
fezes e urina. Exemplos: Baygon, Carbaril (Sevin), Mobam, Propoxur, Aldicarb, Metomil e Car-
bofuram.

12.2.7.2. CONSEQUÊNCIAS

A ação nefasta dos agrotóxicos pode ser resumida nos seguintes tópicos:

♦ destroem a microflora e microfauna dos solos;


♦ acumulam-se nos ecossistemas, podendo perdurar por vários anos;
♦ armazenam-se nos alimentos e, em certas quantidades, podem produzir efeitos danosos à saú-
de;
♦ provocam o aparecimento de espécies resistentes que se tornam mais difíceis de serem elimi-
nadas;
♦ formam resíduos tóxicos que, em certas doses, provocam a mortandade de peixes e outros
animais aquáticos quando lançados em corpos d’água;
♦ contaminam os alimentos, através de resíduos remanescentes no solo (originários de culturas
anteriores e absorvidos pelas novas culturas) ou através de doses excessivas;
♦ interferem no tratamento das águas nas estações;
♦ causam distúrbios a curto e longo prazo à saúde humana;
♦ poluem indistintamente a água, o ar e o solo.

O uso dos agrotóxicos tem inúmeros benefícios como: aumento das colheitas; aumento da produ-
ção de leite e de carne; diminuição das perdas de alimentos em armazéns; diminuição da mão-de-
obra nas atividades agrícolas; erradicação de epidemias perigosas; melhor higiene pessoal; desin-
fecção de instalações e equipamentos. Tais usos justificam a sua aplicação, desde que seja obser-
vada a legislação oficial sobre o assunto (Lei Federal no 7.602/89).

12.2.7.3. RECOMENDAÇÕES PARA O USO

No sentido de evitar problemas ambientais decorrentes do uso errôneo dos agrotóxicos, reco-
menda-se:
76 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

♦ aqueles altamente tóxicos, só devem ser utilizados por órgãos especializados, sob controle de
autoridades sanitárias competentes;
♦ nos domicílios, mesmo os compostos conhecidos como caseiros, devem ser aplicados com o
máximo de cuidados, para não contaminar os alimentos ou causar danos aos animais e às pes-
soas;
♦ na agricultura, a utilização dos pesticidas deve obedecer a um planejamento, no qual sejam
observados: proteção dos recursos hídricos; uso de defensivos convenientes para cada pro-
blema; localização dos depósitos longe das residências; não lavar os vasilhames de aplicação
nos cursos d'água; evitar a queima ou enterramento dos materiais imprestáveis; adotar medi-
das de proteção dos aplicadores;
♦ sempre que seja tecnicamente possível, substituir os pesticidas, total ou parcialmente, por ou-
tros métodos como: Controle Biológico, Luta Integrada, Esterilização, Manipulação Genéti-
ca, etc..

12.2.8. LIXO

É todo material resultante das atividades humanas, sem valor suficiente para ser conservado pe-
los seus geradores, e que não pode fluir diretamente para a água, o ar ou o solo.

A objeção do lançamento do lixo no ambiente dá-se por quatro razões principais:

♦ risco à saúde pública - o lixo abriga microrganismos infecciosos e vetores de doenças, polui
o ar, a água e o solo, representando sérios riscos à saúde e segurança da população;
♦ objeções estéticas - o acúmulo do lixo causa danos à paisagem, como é o caso do lixo aban-
donado nas ruas, terrenos baldios, estradas ou mesmo depositados a "céu aberto" em grandes
áreas. O vento e a chuva podem dispersar parte destes materiais, causando problemas em áreas
distantes;
♦ ocupação de espaço - o lixo, onde quer que seja lançado, ocupa espaço. Quando chega à área
destinada à disposição final, o valor das terras torna-se muito baixo, pois a digestão do lixo
com geração de gás, pode prejudicar a utilização da terra por muitos anos, mesmo após o a-
bandono da área;
♦ degradação dos recursos naturais - o manejo inadequado do lixo causa poluição das águas -
pelo “chorume” que altera a sua qualidade e os sólidos que entopem corpos d’água; poluição
do solo - pela alteração da sua composição química e presença de material tóxico; e poluição
do ar - pelos gases tóxicos e mal cheirosos, com conseqüências diretas e indiretas sobre a fau-
na e flora locais, e sobre o próprio homem.

O lixo tem sua quantidade e qualidade determinadas pelos padrões culturais e econômicos da
sociedade, e pode ser classificado de várias formas:

♦ por sua origem: rural e urbano;


♦ por sua composição química: orgânico e inorgânico;
♦ pelos riscos potenciais ao meio ambiente: tóxico e não tóxico;
♦ pela sua procedência: domiciliar (residências), comercial (escritórios, lanchonetes, lojas, etc.),
industrial (indústrias em geral), público (feiras, mercados, poda, varrição, etc.), hospitalar
(clínicas, postos de saúde, hospitais, etc.), radioativo (usinas nucleares).
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 77

O lixo domiciliar tem composição muito variável. Numa mesma região, pode variar entre cida-
des, bairros, ruas e até mesmo entre casas. Depende das características do clima, do padrão de
vida e dos hábitos da população. É constituído basicamente de: papel, plástico, vidro, metal,
matéria orgânica putrescível e outros materiais (Quadro 12.2). Muitos desses resíduos, por serem
tóxicos, são potencialmente perigosos (Quadro 12.3).

Quadro 12.2: Composição percentual média do lixo domiciliar.

Componentes B. Horizonte S. Paulo Fortaleza Salvador

Papel 16,77 14,43 22,59 19,00


Metal 3,22 3,24 7,34 4,00
Vidro 2,07 1,10 3,32 4,00
Plástico 1,90 12,08 8,20 11,00
Outros* 76,04 69,15 58,55 62,00
* Matéria orgânica em boa parte. Fonte: IPT/CEMPRE (1995).

Quadro 12.3: Lixo domiciliar potencialmente perigoso.

Tipo Produtos

• Material de pintura • tintas, solventes, pigmentos e vernizes.


• Produtos para jardinagem e animais • inseticidas, repelentes, herbicidas.
• Produtos para motores • óleos lubrificantes, fluídos de freio e
transmissão, baterias.
•Outros itens • pilhas, frascos de aerossóis em geral,
lâmpadas fluorescentes.
Fonte: IPT/CEMPRE (1995).

Segundo o IBGE (1980), cada morador urbano no país produz, em média, 220 kg de lixo domici-
liar por ano. Se for acrescentado o lixo das indústrias, do comércio e dos hospitais, a média sobe
para 500 kg/pessoa e por ano. O problema é a destinação desse lixo, pois o que é recolhido repre-
senta muito pouco em relação ao que não é: a cada 100 kg gerados 63 kg são jogados em córre-
gos e rios, 34 kg são atirados em terrenos baldios e somente 3 kg são recolhidos pelo serviço de
limpeza pública. Além disso, 76% do lixo coletado tem destino inadequado (IBGE, 1980).

12.2.8.1. SOLUÇÕES PARA O PROBLEMA DO LIXO

A responsabilidade pelo gerenciamento do lixo é do poder público (Prefeituras), porém, no caso


dos resíduos industriais e hospitalares, a responsabilidade é do gerador. O gerenciamento do lixo
abrange desde o acondicionamento até o seu destino final, que deve ser feito de tal maneira que
não cause degradação ambiental.

ACONDICIONAMENTO COLETA TRANSPORTE TRATAMENTO E/OU DISPOSIÇÃO FINAL


78 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Dependendo do tipo, da disponibilidade de espaços e de recursos, o problema da destinação final


do lixo pode ser resolvido através de uma ou de combinações de algumas soluções enumeradas a
seguir:

♦ disposição ordenada de lixo em Aterros Sanitários (Figura 12.2), Aterros Controlados e


Lixões. Este último é o mesmo que descarga a céu aberto, muito comum em nosso país. Trata-
se porém de uma forma inadequada de disposição, na qual o lixo é lançado ao solo sem as
medidas de proteção sanitária utilizadas nos aterros sanitários;
♦ tratamento em Biodigestores, com aproveitamento de gás;
♦ queima de lixo em Incineradores, para redução de volume;
♦ degradação dos materiais orgânicos presentes no lixo, através da Compostagem, resultando
em um composto que é usado como adubo recondicionador de solos;
♦ separação de produtos úteis a partir do lixo, como plásticos, vidros, sucatas e papéis, e trata-
mento através da Reciclagem.

Figura 12.2: Aterro sanitário. (IPT/CEMPRE, 1995)

A poluição dos solos pelo lixo é um problema global e a tendência mundial das políticas ambien-
tais neste campo é a ênfase aos “4R”: Reduzir, Reutilizar, Recuperar e Reciclar.

♦ Reduzir - diminuir o volume e o peso do lixo. Boa parte do lixo constitui-se de embalagens,
muitas das quais são totalmente desnecessárias;
♦ Reutilizar - buscar vasilhames que podem ser utilizados mais de uma vez, como as garrafas
de vidro para leite, refrigerante, água, etc. e certas embalagens reaproveitáveis;
♦ Recuperar - obter novamente o material para voltar a usá-lo. Muitas vezes, trata-se de maté-
rias primas de processos industriais ou de reobtenção de metais, óxidos, etc.
♦ Reciclar - coletar o material e voltar a processá-lo. Isto permite um novo uso, ainda que nem
sempre se obtenha uma qualidade igual à inicial. Evita-se gasto de matéria prima e energia.
Este método se aplica a papel - poupam-se árvores, plástico - poupa-se petróleo, vidro - pou-
pam-se barrilha e areia de praia, e metal - poupam-se minérios diversos. Calcula-se que o a-
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 79

lumínio reciclado de latas representa uma economia energética de 90%, com o vidro chega-se
a 30% e no caso do papel pode-se atingir 60%. A reciclagem exige coleta seletiva dos materi-
ais. Para facilitar a identificação destes, foram criados símbolos internacionais padronizados
(Figura12.3), que devem constar nas embalagens e produtos reciclados ou passíveis de reci-
clagem.

Figura 12.3: Identificação de materiais recicláveis e reciclados.


(SILVA, T. B. e OLIVEIRA, W. B., 1992)

12.3. EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 12

1. Que fatores naturais influenciam na formação dos solos?


2. Enumere três poluentes dos solos, com suas respectivas fontes e conseqüências.
3. Como a fertilização de terras agrícolas pode influenciar no ciclo do nitrogênio?
4. Explique o processo de salinização dos solos.
5. Enumere as conseqüências da mineração através dos processos cava e cata.
6. Em que situação as queimadas podem ser vantajosas para os ecossistemas?
7. Em que diferem os vários tipos de agrotóxicos? Como é expresso o poder de intoxicação dos
agrotóxicos?
8. Enumere algumas conseqüências do uso dos agrotóxicos.
9. Quais as objeções do lançamento dos resíduos sólidos no ambiente?
10. No processo de gerenciamento do lixo, que significa “4R”?
80 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

13. POLUIÇÃO DO AR

A atmosfera é o mais importante de todos os componentes não só do clima, como também


da manutenção da vida na Terra. A sua estrutura vertical está dividida em várias regiões
horizontais, de baixo para cima. A primeira, a troposfera, contém 75% da massa gasosa de toda
atmosfera, todo vapor de água e praticamente todos os aerossóis. Nesta , à medida que se sobe, a
temperatura cai, numa média de aproximadamente 1oC para cada 100 metros, até o chamado “te-
to do tempo” ou “tropopausa”, camada onde se processa uma inversão térmica e que fica mais
ou menos a 8 km de altura nos polos e a 16 km no equador. A segunda região, a estratosfera,
estende-se da tropopausa até uns 50 km de altitude. Nesta, as variações de temperatura são muito
violentas, entre - 80 oC e - 40 oC. A atmosfera superior começa aí, com o nome de mesosfera,
que vai até 90 km de altitude, onde tem início a ionosfera, que vai até cerca de 1.000 km.

O estudo de poluição do ar restringe-se à baixa atmosfera, que compreende a troposfera e a estra-


tosfera. Nesta região, o ar atmosférico é uma mistura composta essencialmente de nitrogênio,
oxigênio, dióxido de carbono e vapor de água, que constitui o ar que respiramos. Além desses
gases, outros constituintes como argônio, hélio, metano, amônia, ozônio, emanações radioativas,
poeiras, organismos vivos, etc, podem ser encontrados no ar, cuja composição varia grandemen-
te, não só em função das características físicas locais, como também pela presença do homem
(Quadro 13.1).

Quadro 13.1: Composição do ar atmosférico


normal (não poluído) e do ar poluído.

Componente Ar normal Ar poluído

• Nitrogênio 78,09% 78,09%


• Oxigênio 20,94% 20,94%
• Argônio 0,93% 0,93%
• Dióxido de carbono 305-370 ppm 330-550 ppm8
• Monóxido de carbono 0,12-0,90 ppm 10-360 ppm
• Dióxido de enxofre 0,0002 ppm 0,01-0,06 ppm
• Dióxido de nitrogênio 0,0005-0,02 ppm 0,12-0,25 ppm
• Amônia 0,006-0,010 ppm 0,075-0,285 ppm

O estado higrométrico do ar, a existência de indústrias poluidoras e de grande número de veícu-


los trafegando em uma cidade, alteram as concentrações dos vários constituintes do ar normal
nas áreas industriais e centros urbanos densamente povoados, originando o fenômeno da polui-
ção atmosférica. Entende-se a poluição do ar como sendo as modificações sofridas pela atmos-
fera natural, que possam, direta ou indiretamente, causar prejuízos ao homem, criando
condições nocivas à sua saúde, segurança e bem-estar, prejuízos à fauna e à flora e, ainda,
prejuízos aos demais recursos naturais em todas as suas utilizações consideradas normais.

8
Partes por milhão.
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 81

A poluição atmosférica ocorre de maneira semelhante à da água. Quando a quantidade de poluen-


tes não é grande, pode haver uma dispersão dos mesmos no ar, sem maiores problemas. Porém,
aumentando-se a concentração destes na atmosfera, não há condições de autodepuração do ar,
que passa a ser prejudicial. Por isto, os problemas de poluição atmosférica são graves nas cida-
des, onde veículos, indústrias e outras fontes poluidoras, estão constantemente lançando poluen-
tes no ar, não permitindo que estes sejam convenientemente dispersos.

13.1. PRINCIPAIS FONTES DE POLUIÇÃO DO AR

As fontes poluidoras do ar podem ser classificadas em dois grupos:

♦ processos de combustão - cujos poluentes originam-se da combustão em: incineradores, veí-


culos automotores, centrais térmicas, etc.;
♦ processos industriais - cujos poluentes têm origem em algum processo industrial: siderúrgi-
co, petroquímico, químico (fertilizante), alimentício, etc..

As fontes devido à combustão, principalmente a combustão incompleta que ocorre nos meios de
transporte em geral, são responsáveis pela maior parcela de poluição atmosférica nos centros
urbanos. Os dados levantados na década de setenta na grande São Paulo, nos Estados Unidos e na
Alemanha, mostrados no quadro 13.2, confirmam a citação anterior.

Quadro 13.2: Contribuições das fontes poluidoras em três regiões diferentes.

Fontes Brasil (SP) EUA Alemanha

• Transporte de toda natureza 40,0% 50,6% 40,0%


• Queima de combustíveis em
fontes fixas 30,0% 21,2% 30,0%
• Processos industriais 25,0% 17,2% 30,0%
• Outras fontes 5,0% 11,0% -

Naturalmente, a presença de grande número de indústrias no local, lançando, sem qualquer tra-
tamento, poluentes na atmosfera, altera completamente o quadro acima. As queimadas, eventuais
incêndios em matas, disposição inadequada de resíduos sólidos e líquidos, etc., também causam
poluição atmosférica, constituindo eventuais fontes poluidoras.

13.2. PRINCIPAIS POLUENTES ATMOSFÉRICOS

Os poluentes atmosféricos tanto podem ser substâncias que normalmente não estão presentes no
ar, como podem ser um de seus constituintes normais produzidos por atividades humanas em
quantidades excessivas (por exemplo o CO2).
82 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Alguns poluentes apresentam-se na forma de gases (COx, SOx, etc.), outros na forma de partícu-
las em suspensão no ar (sílica, pólen, fungos, pesticidas, amianto, etc.), provenientes das mais
variadas fontes. O material particulado, em suspensão na atmosfera, forma com esse meio gasoso
o que se denomina de aerossóis (partículas finas, sólidas ou líquidas, com diâmetros menores
que 10 mícrons).

Quanto à sua origem, os poluentes atmosféricos podem ser classificados em: primários e secun-
dários. São poluentes primários, aqueles que se encontram no ar da mesma forma em que foram
emitidos pela fontes (SO2, H2S, CO2, etc.). São poluentes secundários aqueles formados na at-
mosfera, pela interação entre dois poluentes primários ou entre poluentes primários e os constitu-
intes normais do ar (H2SO4, PAN, etc.).

Em função de características locais como padrão climático, urbanização e grau de industrializa-


ção, o ar urbano pode apresentar proporções variáveis de substâncias poluentes, dentre elas as
mais comuns são: óxidos de nitrogênio (NOx), óxidos de enxofre (SOx), óxidos de carbono
(COx), hidrocarbonetos (HC) e material particulado (MP). Por estarem sempre envolvidas nos
fenômenos de poluição do ar, tais substâncias são apontadas como os principais poluentes atmos-
féricos (Quadro 13.3).

Quadro 13.3: Principais poluentes atmosféricos.

Poluente Origem Monitoramento

• Monóxido de carbono • Combustão incompleta de • Espectrofotometria de


(CO). materiais carbonados. Os infravermelho não-
veículos automotores cons- dispersivo.
tituem a principal fonte.
• Dióxido de carbono • Ocorre naturalmente, mas • Espectrofotometria de
(CO2). também é produzido na infravermelho não-
combustão de materiais dispersivo .
carbonados para produção
de energia. Queimadas.
• Óxidos de nitrogênio • Produzido naturalmente • Método da quimiolu-
(NOx). por vulcões. Queima de minescência.
combustíveis fósseis. Quei-
madas.
• Dióxido de enxofre • Produzido naturalmente • Método da pararosani-
(SO2). por vulcões. Queima de lina.
combustíveis fósseis. Pro-
cessos industriais.
• Material particulado • Indústrias, mineração, • Amostrador de grandes
(MP). veículos, queimadas e cons- volumes (em suspensão)
trução civil. e Jarro de deposição de
poeira (sedimentáveis).
• Hidrocarbonetos (HC). • Evaporação e queima de • Método da ionização
combustíveis fósseis em de chama.
veículos automotores e na
indústria.
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 83

13.3. FATORES QUE AFETAM A POLUIÇÃO DO AR

Dentre os fatores naturais que determinam a severidade da poluição do ar ou as condições de


autodepuração da atmosfera, os mais importantes são: os fatores meteorológicos e as condições
topográficas.

13.3.1. FATORES METEOROLÓGICOS

As condições de autodepuração da atmosfera são diretamente influenciadas pelo movimento do


ar para diluir gases e partículas, e facilitar a sua remoção por precipitação, lavagem e reações
químicas. Três fatores são particularmente importantes: a temperatura, as precipitações e os ven-
tos.

♦ Temperatura. A condição meteorológica desejável para dispersar poluentes no ar é a instabi-


lidade térmica, porque os gases devem subir, expandir-se e espalhar-se. Para que exista esta
condição, a temperatura na troposfera deve tornar-se gradativamente mais fria, à medida que
se sobe. Nestas condições, o deslocamento dos poluentes se processa em regime adiabático,
onde a massa de ar quente e menos densa que o ambiente ao redor irá ascendendo e espalhan-
do-se nas camadas superficiais mais frias da troposfera. Ocasionalmente, contudo, podem o-
correr condições estáveis no ar atmosférico, que suprimem esse movimento vertical. Isso é
uma inversão térmica, condição em que uma camada de ar quente fica aprisionada entre duas
camadas frias. Quando os gases são liberados no ar frio, sobem até atingir a camada quente
então param. Em regiões urbanas, os poluentes ficam presos sob a camada quente, podendo
acumular-se durante dias, criando um ar escuro e nocivo (Figura 13.1).

Figura 13.1: Inversão térmica (FELLENBERG, F.,1980).

♦ Precipitações. Os poluentes podem ficar retidos numa precipitação, seja quando a gota de
chuva está em formação, seja quando ela cai. Partículas grandes são particularmente elimina-
das com grande eficiência por esse processo. A aglutinação e as reações químicas removem
ainda outras, e algumas moléculas de gás são removidas por adsorção às partículas. Nesse
contexto, a precipitação oferece um dos numerosos mecanismos que podem deixar o ar isento
de poluentes: uma chuva uniforme, na proporção de 1 mm/h, durante 15 minutos, poderá reti-
84 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

rar cerca de 20% do MP (∅ >10 mícrons) em suspensão na atmosfera. Mas, por outro lado,
por esse processo, a poluição do ar pode ser transferida total ou parcialmente à água e ao solo.

♦ Ventos. Os ventos favorecem a dispersão de poluentes no ar, arrastando-os para locais mais
afastados de suas fontes. Logo, as características de direção e velocidade dos ventos dominan-
tes são fatores importantes no estudo da difusão de poluentes atmosféricos. Se uma cidade ti-
ver ventilação vantajosa, espaço aberto em volta e brisas freqüentes, a poluição atmosférica
raramente se constituirá num problema crítico. Por outro lado, os ventos também levam os po-
luentes de uma população para outra. É possível calcular as condições médias de vento num
período de tempo, para qualquer lugar em particular, e com isso, pode-se determinar as popu-
lações mais afetadas por qualquer fonte em especial. Ainda com relação aos ventos, quando
fortes, criam condições de turbulência na atmosfera dispersando poluentes e misturando as
camadas de ar. Desse modo, não existe inversão térmica quando sopram ventos fortes, estas
ocorrem em condições de ventos fracos ou em calmarias.

13.3.2. CONDIÇÕES TOPOGRÁFICAS

A topografia refere-se às irregularidades ou às configurações da superfície de um terreno. As


irregularidades podem ser naturais, tais como colinas, ou artificiais, como edifícios, tanto uma
como a outra têm influência na circulação do ar. A presença de um vale é geralmente desfavorá-
vel à dispersão de poluentes, pois as camadas de ar frio, mais densas, se acumulam no fundo do
vale, determinando um gradiente anormal de temperatura que acentua a estabilidade atmosférica.
Neste caso, a poluição do ar se intensifica porque os poluentes não têm liberdade de movimento
nem vertical, nem horizontal. Com relação às barreiras artificiais, uma brisa contra os edifícios
pode criar turbulência, favorecendo a mistura e diluição dos poluentes.

13.4. AUTODEPURAÇÃO DA ATMOSFERA

Quando os poluentes são liberados para a atmosfera, eles se dispersam influenciados por suas
próprias características, pela altura da fonte e pelo grau de turbulência da atmosfera ambiente. O
grau de turbulência por sua vez, depende de três fatores: topografia, ventos e temperatura. A to-
pografia influencia diretamente na turbulência, uma vez que quando o ar passa sobre uma super-
fície rugosa tende a acompanhar as ondulações e também fluir em torno dos obstáculos, gerando
turbulência vertical e horizontal. Os deslocamentos de ar - ventos - constituem perturbações do
meio, contribuindo também para aumentar a turbulência. A temperatura, por sua vez, também
influencia gerando condições de turbulência quando a atmosfera está termicamente instável.

Uma vez emitidos pelas fontes poluidoras, durante o transporte e a dispersão, os poluentes po-
dem estar sujeitos a processos como: deposição úmida (chuva, neve), deposição seca (gravitacio-
nal), decomposição pela radiação solar e transformações químicas. Todos esses processos associ-
ados à turbulência da atmosfera garantem a capacidade de autodepuração do ar, conforme pode
ser visualizado no comportamento da pluma ao ser liberada para a atmosfera na figura13.2.

13.5. CONSEQÜÊNCIAS DA POLUIÇÃO DO AR


2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 85

As conseqüências da poluição do ar vão desde o comprometimento da saúde, dos bens materiais


e dos recursos naturais do homem, a nível local ou regional, até conseqüências globais envolven-
do todos os recursos do planeta.

Figura 13.2: Comportamento de poluentes na atmosfera


(Dossiê do Curso Avaliação de Impactos Ambientais, 1987).

O efeito preciso da poluição do ar sobre a saúde, usualmente não pode ser previsto, porque uma
pessoa normalmente está exposta a uma mistura de poluentes e a resposta humana à poluição é
influenciada por fatores como a idade, o estado geral de saúde e desgaste físico, bem como pela
intensidade e a duração da exposição. De um modo geral, a maioria das vítimas não morre duran-
te os períodos críticos. Elas contraem uma doença respiratória ou um outro sintoma associado
com a poluição do ar, enfraquecem gradativamente, para depois morrerem tipicamente de pneu-
monia, ataque do coração ou falha em algum órgão vital; ou geram crianças com defeitos congê-
nitos; ou, ainda, desenvolvem algum tipo de doença, como o câncer, causada por diversos fatores
associados com a poluição do ar.

A seguir, serão abordadas as conseqüências dos principais poluentes atmosféricos sobre os seres
vivos e os materiais, as conseqüências do tabagismo e os efeitos globais de determinados polu-
entes.

13.5.2. EFEITOS SOBRE OS SERES VIVOS E MATERIAIS

O quadro 13.3 resume as conseqüências dos principais poluentes atmosféricos sobre os seres
vivos e os materiais.

Quadro 13.3: Conseqüências de alguns poluentes sobre os seres vivos e materiais.

Poluente Conseqüências

• NOx - Óxidos de • Irritam severamente olhos e pulmões; provocam


nitrogênio afecções respiratórias e alterações sangüíneas (cia-
nose); destroem a clorofila, bloqueando a fotossínte-
se e produzindo lesões nas folhas; causam edema
pulmonar; deterioram borracha, produtos sintéticos e
86 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

tecidos; alteram a coloração das pinturas; favorecem


ao envelhecimento precoce; contribuem para o fe-
nômeno da chuva ácida.
• MP - Material parti- • Causa problemas estéticos: suja com fuligem os
culado prédios e a paisagem; produz bruma e reduz a visibi-
lidade; irrita mucosas e brônquios; carreia poluentes
tóxicos para os pulmões; reduz progressivamente a
área respiratória, matando por asfixia (Silicose, As-
bestose, Pneumoconiose, etc.); reduz a produção de
vitamina D em recém-nascidos; causa danos às plan-
tas, modificações no clima terrestre; distúrbios di-
gestivos, anemia, nervosismo, paralisia (Chumbo);
câncer nas vias respiratórias (Asbesto).
• HC – Hidrocarbone- • Formam névoa escura e amarelada sobre as cida-
tos des; irritam olhos e mucosas; alguns são canceríge-
nos.
• SOx - Óxidos de • Irritam as vias respiratórias; causam espasmos dos
enxofre bronquíolos; destroem a clorofila, bloqueando a fo-
tossíntese; provocam lesões e amarelecimento das
folhas; corroem ferro, aço e mármore; atacam as
pinturas calcárias; causam danos irreversíveis aos
pulmões, quando combinados com partículas; pro-
vocam a acidez da chuva.
• COx - Óxidos de • O CO quando em níveis baixos, agrava o coração e
carbono reduz a habilidade de funcionamento do cérebro. Em
elevadas concentrações, causa a morte por asfixia; o
CO2 é o principal responsável pelo efeito estufa.

13.5.1. CONSEQÜÊNCIAS DO TABAGISMO

Dentre os muitos tipos de poluentes atmosféricos, merece destaque a fumaça do cigarro. As fo-
lhas do tabaco são preparadas de tal forma a manter um certo grau de umidade. Esta é responsá-
vel pelo ardor contínuo do cigarro, sem chamas, e pela formação de vapor d’água. Junto com o
vapor, ocorre a destilação de uma série de substâncias, dentre elas a nicotina. Com a inalação da
fumaça, ocorre a absorção, pelo sangue, de alguns de seus componentes, o que compromete a
saúde de fumantes e não fumantes. Na figura 13.3, encontram-se enumerados alguns poluentes
associados ao cigarro e suas conseqüências no organismo humano. O hábito do tabagismo em
ambientes fechados está cada vez mais desaparecendo, em virtude da pressão exercida pelos ór-
gãos de saúde, pois bastam alguns cigarros para comprometer a qualidade do ar.

13.5.3. EFEITOS GLOBAIS

No estudo da poluição atmosférica, distinguem-se três grandes problemas mundiais: a Chuva


Ácida, o Efeito Estufa e o Buraco na Camada de Ozônio.
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 87

Figura 13.3: Efeitos do cigarro no homem. (FELLENBERG, F.,1980)

13.5.3.1. A CHUVA ÁCIDA

Convencionalmente, é considerada ácida a chuva que apresenta valores de pH menores do que


5,6. O pH define o grau de acidez de uma solução, ou seja, o teor de íons hidrogênio (H+) livres.
O decréscimo de uma unidade de pH significa um aumento de dez vezes na concentração do íon
hidrogênio. Na chuva, valores de pH inferiores a 5,6 resultam da presença dos ácidos sulfúrico
(H2SO4) e nítrico (HNO3), os quais em fase aquosa encontram-se dissociados, isto é, sob a forma
de íons hidrogênio (H+), nitrato (NO3-) e sulfato (SO4=), tornando assim a chuva mais ácida em
decorrência de maior concentração do íon hidrogênio.

Os ácidos sulfúrico e nítrico originam-se de reações que ocorrem na atmosfera entre os óxidos de
nitrogênio (NO e NO2), o dióxido de enxofre (SO2) e outras espécies químicas (HO-) presentes
no ar. Os óxidos de nitrogênio e de enxofre presentes na atmosfera, têm origem em fontes natu-
rais e artificiais. Em escala global, 50% do SO2 e 65% dos NOx, resultam de fontes artificiais.

Em várias regiões da Europa e Estados Unidos, não são raras as chuvas com pH inferior a 3,0.
Tal grau de acidez da chuva tem sido apontado como responsável por algumas alterações ecoló-
gicas, como aumento da mobilidade química de metais potencialmente tóxicos presentes no solo,
o que os torna disponíveis à cadeia alimentar, tanto terrestre como aquática, e a perda de nutrien-
tes do solo pelo aumento da lixiviação. Tais alterações têm como conseqüência a queda da pro-
dutividade das lavouras, além da intoxicação e mortandade da fauna. Nos mananciais de abaste-
88 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

cimento público, com o aumento da acidez, a água torna-se capaz de solubilizar, de canalizações,
certos metais bioacumuladores e neurotóxicos, como chumbo e cádmio, interferindo assim na
saúde do próprio homem.

Em nosso país, estudos realizados na cidade de São Paulo, em 1987, indicam pH da ordem de 4,5
na média anual, tendo-se, até o momento, percebido aumento da corrosão em automóveis e mo-
numentos, e maior incidência de problemas no aparelho respiratório do homem. A ação drástica
das emissões ácidas no país está em Cubatão-SP, na região Sul de Santa Catarina e no Rio Gran-
de-RS. Em Cubatão, a Mata Atlântica da Serra do Mar foi extinta pelas emissões gasosas ácidas
e particuladas das fábricas. No Rio Grande-RS, a Refinaria de Petróleo Ipiranga e indústrias de
fertilizantes emitem, respectivamente, SO2 e partículas contendo fluoretos, dentre outros poluen-
tes, gerando alta incidência de doenças pulmonares, corrosão acelerada, destruição de hortas e
jardins, e, ainda no campo, alta incidência de lesões ósseas e dentárias no gado, típicas de fluoro-
se. Em Santa Catarina, a devastação ambiental está associada às emissões ácidas e aos metais
pesados dos rejeitos da mineração de carvão a céu aberto.

13.5.3.2. O EFEITO ESTUFA

Denomina-se "efeito estufa" o fenômeno que conduz ao aumento progressivo da temperatura


média global do planeta. Tal efeito resulta do aumento da concentração de gases como dióxido
de carbono (CO2), metano (CH4), óxido nitroso (NO), clorofluorcarbono (CFC) e ozônio (O3).
Denominados gases de estufa, são transparentes às radiações de curto comprimento de onda pro-
venientes do sol, mas absorvem e emitem radiações de ondas longas refletidas pela superfície
terrestre, funcionando de forma semelhante às estufas, cuja cobertura de vidro é transparente à
luz solar, mas bloqueia a dissipação do calor ali formado.

Dentre os gases de estufa, o CO2 apresenta-se como o mais significativo. Estima-se que o homem
despeja anualmente 5,5 bilhões de toneladas desse gás na atmosfera. Calcula-se que, até o ano
2075, o valor será duas vezes maior, o que elevará a temperatura média do planeta em mais de
5,5 oC. As projeções indicam que mesmo adotando medidas drásticas para controlar o uso de
combustíveis fósseis, ainda assim o planeta sofreria um aquecimento significativo de até 4 oC no
próximo século.

Além de provocar modificações climáticas cuja intensidade permanece de difícil previsão, o a-


quecimento desencadearia alterações no nível dos mares, na agricultura e silvicultura. Tempera-
turas mais elevadas alteram o ciclo hidrológico de várias maneiras: fazem aumentar o vapor de
água atmosférico e alteram os padrões de precipitação pluviométrica, assim como o carreamento
de águas para os mares a partir de rios e geleiras. Provocam também expansão térmica das águas
oceânicas e o degelo de geleiras e calotas polares. Todos esses efeitos por sua vez podem causar
elevação do nível dos mares, acarretando erosões litorâneas, inundações e danificação de portos e
estruturas costeiras, destruição de charcos e elevação de lençóis subterrâneos de águas.

Tanto o aumento de CO2, como a elevação da temperatura, podem afetar de forma significativa o
crescimento e a distribuição das espécies vegetais. As alterações climáticas conseqüentes podem
ainda gerar mudanças nos padrões globais de muitos processos ecológicos. A ocorrência de pra-
gas de insetos, a multiplicação de organismos patogênicos e a freqüência das queimadas naturais
sofrem influência do clima. Finalmente, o próprio homem, principalmente o habitante das regi-
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 89

ões mais quentes do globo, será diretamente afetado pela ocorrência de temperaturas mais eleva-
das.

13.5.3.3. DESTRUIÇÃO DA CAMADA DE OZÔNIO

O ozônio é uma das formas naturais de associação dos átomos de oxigênio. Sua alta reatividade o
transforma em um elemento tóxico capaz de desestabilizar proteínas, destruir microrganismos e
prejudicar o crescimento das plantas. Mas, no estado puro e livre na estratosfera, esse gás partici-
pa de interações essenciais à defesa da vida no planeta.

O que se convencionou chamar de "camada de ozônio" é uma faixa de 30 mil metros de espes-
sura, a partir de 15 mil metros acima da superfície terrestre, de um gás tão rarefeito que, se fosse
comprimido à pressão e temperatura da superfície da Terra, formaria uma casquinha de apenas 3
milímetros. O ozônio aí presente, é capaz de interagir com grande número de substâncias quími-
cas, dentre elas o clorofluorcarbono (CFC), também conhecido como freon, utilizado como s-
pray em inseticidas, produtos de limpeza e tintas, circuitos de refrigeração de geladeiras e apare-
lhos de ar condicionado, plásticos porosos utilizados em embalagens, além de servir como sol-
vente na indústria eletrônica.

Apesar de sua larga utilização e embora inofensivo na terra, o CFC constitui um "veneno" na
atmosfera. Suas moléculas passam intactas pela troposfera, para desembocar na estratosfera. Ali,
os raios ultravioleta do sol decompõem as moléculas de CFC, liberando átomos de cloro. Este
reage rapidamente com o ozônio, produzindo monóxido de cloro (ClO) e oxigênio molecular
(O2). A cadeia de reações químicas continua quando o ClO combina-se com o O2 e deixa nova-
mente livre o cloro para reagir com outra molécula de ozônio. Estima-se que, por causa desse
efeito cascata, cada átomo de cloro liberado destrói 100 mil moléculas de ozônio da atmosfera.
Um detalhe importante é que o CFC tem uma vida útil de pelo menos 75 anos. Portanto, já houve
descarga suficiente do gás na atmosfera para destruir moléculas de ozônio por quase um século.
Cálculos preliminares indicam que a camada de ozônio deverá sofrer, nos próximos cem anos,
uma perda entre 7 e 13% da massa total.

A diminuição da quantidade de ozônio estratosférico resulta na abertura de buracos naquela ca-


mada, levando a uma maior incidência de radiações ultravioleta do sol na superfície da Terra. Tal
fato pode ter como conseqüência um aumento da temperatura média global do planeta, o que
contribuirá para agravar o efeito estufa. Uma maior incidência de radiação ultravioleta, também
traz, como conseqüência, aumento no número de câncer de pele: segundo a Academia de Ciên-
cias dos Estados Unidos, a diminuição de 1% da camada de ozônio, pode causar 10 mil novos
casos de câncer de pele nos americanos. Além do câncer de pele, pode ainda causar queimaduras
de córnea, catarata, alterações no aparelho reprodutor atingindo o feto, a tireóide, causando mu-
tações e diminuição da vida e até a esterilidade.

A situação mais preocupante é na Antártida, onde já foi constatado que, em determinada época
do ano, a redução da camada de ozônio é da ordem de 50%, formando-se um verdadeiro buraco
sobre aquela região. Tal ocorrência parece estar atrasando a chegada da primavera. Supõe-se que
invernos mais longos tendam a comprometer o ciclo biológico dos espécimes animais e vegetais
da região. Também sobre o Ártico foi constatada redução de 20% na camada de ozônio. Neste a
situação é menos preocupante, uma vez que os baixos valores duram apenas algumas semanas e
não meses como na Antártida.
90 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Por ser uma questão que envolve as condições de vida no planeta, no mundo inteiro têm sido
assinados acordos para banir os CFC’s. Dentre estes acordos, destacam-se o Protocolo de Mon-
treal (ratificado por 155 países), a Convenção de Viena (156 países), a Emenda de Londres (106
países) e a Emenda de Copenhagen (57 países)9.

13.6. MELHORANDO A QUALIDADE DO AR

Uma limpeza completa do ar atmosférico seria impossível, mas um procedimento aconselhável


seria reduzir as concentrações dos poluentes a valores não mais nocivos aos seres vivos, à propri-
edade e ao próprio homem.

Como acontece em qualquer tarefa de melhorar a qualidade do ambiente, o primeiro passo seria
investigar o problema, para em seguida determinar as medidas de controle. Na investigação do
problema, dois conjuntos de informações são indispensáveis:
♦ levantamento geral das fontes poluidoras e seus poluentes;
♦ identificação dos padrões de qualidade do ar a serem atingidos.

13.6.1. LEVANTAMENTO GERAL

O levantamento das fontes poluidoras pode ser feito através de estudos de relatórios antigos de
poluição do ar, complementados com as informações coletadas junto à comunidade, no departa-
mento de trânsito da cidade, nas indústrias, etc. Uma vez identificadas as fontes, preparam-se
mapas que indiquem as fontes, seus principais poluentes e prováveis níveis durante períodos de-
terminados de tempo, supondo condições estáveis de clima.

O passo seguinte seria o estabelecimento de um "plano de amostragem". Como o objetivo usual


do controle da poluição do ar é proteger a vida e a propriedade contra as exposições, e não ape-
nas das emissões, as estimativas das exposições representam um passo importante na definição
do problema. Para uma estimativa correta das exposições, o plano de amostragem deve responder
a três perguntas críticas:
♦ o que? O poluente a ser medido determina o meio a ser usado para coletá-lo;
♦ onde? Como a amostragem do ar ocorre num ponto ou uma série de pontos, deve-se levar em
consideração a localização da amostragem. Teoricamente, a medição deve ser feita nos pon-
tos de exposição crítica;
♦ quando? A amostragem também ocorre numa dimensão temporal, por isso, seria necessário
identificar os momentos de mais baixa e mais alta concentração de poluentes no ar.

Uma vez identificado o tipo de poluente, onde e quando coletá-lo, pode-se escolher o dispositivo
de amostragem a ser utilizado. Existem dois tipos de amostradores:

♦ classificadores de partículas - que podem ser enquadrados em seis categorias: (1) dispositi-
vos de igualação de cores; (2) dispositivos de deposição; (3) dispositivos com obstáculos; (4)
dispositivos de filtragem; (5) dispositivos centrífugos; e, (6) dispositivos com interrupção do
feixe de luz.

9
Dados de março de 1996 - Boletim OzonAction, INEP, no 18.
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 91

♦ classificadores de gás - que podem ser divididos em três grupos: (1) dispositivos de absorção;
(2) dispositivos de adsorção; e, (3) medidas físicas diretas.

Para uma interpretação correta da amostragem torna-se indispensável registrar as condições me-
teorológicas quando as amostras foram tomadas, para que os níveis previstos nas condições mais
adversas possam ser avaliados. A hora de amostragem também deve ser anotada, para que se
possam estabelecer correlações entre os padrões de emissão e os movimentos da população. Por
último, a localização vertical e horizontal da amostragem, que fornece uma informação vital para
que se possam fazer extrapolações para outras localidades e a amostragem possa ser repetida no
futuro.

13.6.2. PADRÕES DE QUALIDADE DO AR

Os poluentes lançados no ar atmosférico (emissões), espalham-se (transmissões) e podem acabar


agindo sobre a propriedade, o homem e demais seres vivos (imissões). Entre a emissão e a imis-
são, o poluente pode passar por transformações e a concentração ativa do mesmo no local da i-
missão, pode não ser tão elevada como no local da emissão. A concentração de imissão deve ser
tanto menor quanto mais afastada estiver do local da fonte poluidora e quanto maiores forem as
possibilidades de autodepuração do ar. Em vista disto, foram definidos os conceitos de "concen-
tração máxima de emissão - CME" e "concentração máxima de imissão - CMI". A CME
representa a quantidade máxima de um poluente que pode ser lançada para a atmosfera por uma
fonte poluidora. A CMI define a concentração máxima permitida para um dado poluente no ar,
de modo a não causar prejuízos à saúde do homem, animais e vegetais.

Com a finalidade de realizar o controle da poluição atmosférica de forma definida e compatível


com os interesses nacionais, e em face da necessidade de haver uma coordenação nas medidas de
controle em todo o país, o Governo Federal instituiu o PRONAR - Programa Nacional de Con-
trole da Poluição do Ar (Resoluções CONAMA nos 005/89, 003/90 e 008/90) e o PROCONVE -
Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Resoluções CONAMA nos
018/86 e 006/93), fixando padrões de qualidade do ar, com base nas CME’s e CMI’s, para todo o
território nacional.

13.7. MEDIDAS DE CONTROLE DA POLUIÇÃO DO AR

As medidas de controle da poluição do ar podem ser agrupadas em três categorias a saber:

♦ planejamento territorial e zoneamento;


♦ redução ou eliminação das emissões;
♦ controle das emissões.

Qualquer que seja a medida a ser adotada, ela deve ser selecionada somente depois de um exame
completo dos benefícios e custos de todas as ações possíveis. Por outro lado, é importante que
haja uma preocupação constante do Governo e das empresas particulares sobre o problema. Me-
didas preventivas devem ser adotadas em áreas onde a poluição não existe e providências corre-
tivas devem ser implantadas em locais onde a poluição do ar já ocorre.
92 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

13.7.1. PLANEJAMENTO TERRITORIAL E ZONEAMENTO

O planejamento territorial, com zoneamento cuidadoso na instalação de zonas industriais e vias


de transporte de uso intensivo, são pontos importantes para a redução da poluição atmosférica.
Para tal, dentre outras providências, o planejamento deve levar em conta:
♦ o estabelecimento de áreas de proteção sanitária;
♦ a direção dos ventos dominantes;
♦ a localização seletiva de indústrias de acordo com o seu potencial poluidor;
♦ a rapidez do tráfego;
♦ a proteção de zonas de cultivo (principalmente hortaliças e forragens);
♦ a conservação de áreas verdes de lazer próximas dos centros urbanos.

As plantas têm um papel importante na redução da poluição do ar. A vegetação localizada nas
vizinhanças das cidades e estabelecimentos industriais, pode contribuir para purificar o ar, tanto
pela eliminação da propagação de poeiras, como pela assimilação de poluentes tóxicos. Para que
a vegetação protetora contribua para a despoluição do ar, é necessário que esteja bem dimensio-
nada, com espaçamento adequado que permita a passagem do vento (Figura 13.5). Plantações de
10 a 30 metros de largura, com espaçamento entre as árvores maiores do que os observados em
florestas, intercaladas com rica vegetação de arbustos, funcionam como verdadeiros filtros: redu-
zem a velocidade dos ventos, as partículas mais pesadas sedimentam, as mais finas são retidas
pelas folhas e gases como CO2 e SO2 podem ser absorvidos pela vegetação. Obviamente, a vege-
tação protetora deve ser resistente às emissões tóxicas observadas no local.

Porém, por mais desejável que seja lançar mão de vegetação protetora para melhoria da qualida-
de do ar, não se deve esquecer de atacar o mal pela raiz, reduzindo ou eliminando o lançamento
de poluentes para a atmosfera, ou mesmo, purificando as emissões das diversas fontes.

Figura 13.5: Vegetação protetora densa (superior) e esparsa (inferior)


filtrando o ar. (FELLENBERG, F.,1980)
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 93

13.7.2. REDUÇÃO OU ELIMINAÇÃO DAS EMISSÕES

A redução ou eliminação das emissões poluidoras pode ser conseguida através de:

♦ utilização de matérias primas e combustíveis com baixo potencial poluidor como o álcool,
combustíveis com baixo teor de enxofre, gás combustível;
♦ uso de energia elétrica para o transporte urbano;
♦ adequados projetos de equipamentos básicos;
♦ operação e manutenção adequada de equipamentos e processos;
♦ controle meteorológico, com paradas ou redução das atividades poluidoras durante os perío-
dos de condições meteorológicas desfavoráveis ao transporte e difusão de poluentes.

13.7.3. CONTROLE DAS EMISSÕES

Dentre as principais medidas recomendadas para controle das emissões estão:

♦ a diluição de poluentes mediante o uso de chaminés altas;


♦ a destruição ou coleta dos poluentes através de equipamentos adequados.

Os equipamentos utilizados na operação de coleta e eliminação de partículas são classificados de


acordo com o princípio físico segundo o qual o objetivo é alcançado. Assim, a separação das
partículas da corrente de ar pode ser obtida por:

♦ ação de filtragem através de meio poroso;


♦ ação de forças de inércia: coletores inerciais;
♦ ação da gravidade: coletores gravitacionais;
♦ ação de forças centrífugas: ciclones;
♦ ação de umedecimento ou lavagem pela água;
♦ ionização e atração eletrostática: precipitadores eletrostáticos.

Quando o poluente forma uma solução gasosa no ar é necessário recorrer a fenômenos ou opera-
ções físicas para conseguir a separação e coleta do gás poluente, o que pode ser obtido por:

♦ absorção por um líquido no qual o gás é solúvel: torres de enchimento, torres de borrifo, etc.;
♦ adsorção por ação de forças de atração molecular superficiais: carvão ativado, sílica-gel, etc.;
♦ incineradores de resíduos gasosos, desde que os gases resultantes não sejam, por sua vez,
também poluidores: queimadores de chama direta, pós-queimadores catalíticos, etc;
♦ condensadores de vapores, graças ao resfriamento dos mesmos: lavador venturi, lavador jet,
etc.

Cada um dos equipamentos citados acima tem uma série de vantagens e desvantagens, podendo
seu uso ser adequado ou inadequado para uma situação em particular, dependendo de um estudo
prévio.
94 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

13.8. EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 13

1. Conceitue poluição do ar.


2. Cite as principais fontes de poluição do ar.
3. Comente sobre os principais poluentes atmosféricos.
4. De que forma as condições meteorológicas afetam a poluição do ar ?
5. De que forma as condições topográficas influenciam a poluição do ar?
6. Explique o processo de autodepuração da atmosfera.
7. Comente sobre chuva ácida e efeito estufa.
8. Esboce a pesquisa inicial que você faria antes de formular um programa de controle da polui-
ção do ar na sua cidade.
9. Cite algumas medidas de controle da poluição do ar.
10.Enumere alguns equipamentos que podem ser utilizados no controle das emissões.
11.Se lhe fossem dados poderes supremos para reduzir a poluição atmosférica em nossa socieda-
de, que medidas você adotaria ?
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 95

14. POLUIÇÃO SONORA

O silêncio é uma qualidade do ambiente que pouco se dá atenção, mas que, quando perdida,
causa distúrbios principalmente na saúde. O conceito de silêncio no cotidiano deve ser
entendido como a ausência de sons indesejáveis, que limitam a concentração para as atividades
diárias e a qualidade de vida. É neste sentido que surge o conceito de poluição sonora como
sendo “qualquer alteração nas características do som ambiente provocada por ruídos”. O
ruído é então aquele som indesejável que perturba o sossego, a segurança e a saúde da população.

Cabe ressaltar que a noção de ruído é muito relativa: uma música agradável para alguns, pode ser
insuportável para outros; um som agradável em determinadas circunstâncias - uma festa, por e-
xemplo -, pode ser insuportável em outras - quando se quer estudar. A intensidade conta, mas
também a freqüência e o seu caráter inesperado. O incômodo também depende da hora - dia ou
noite -, da sensibilidade da pessoa, do ruído de fundo. Finalmente, vale ressaltar que, de um mo-
do geral, somos mais tolerantes aos nossos ruídos do que aos que outras pessoas fazem. Neste
contexto, o estudo da poluição sonora mostra que, mais que qualquer outra forma de poluição,
ela é bastante relativa. Assim sendo, deparamo-nos com questões básicas: “Como identificar e
diagnosticar a poluição sonora?” “Quais as conseqüências da mesma?” “Como medir e regula-
mentar o ruído?”

14.1. FONTES DE RUÍDO

Distinguem-se dois grupos de fontes de ruído: os automóveis e a vizinhança. No primeiro grupo


estão os transportes rodoviários, ferroviários e aéreos. Neste, destacam-se os transportes rodoviá-
rios de pessoas e mercadorias, como uma das maiores fontes de poluição sonora nos centros ur-
banos. O ruído dos veículos provem basicamente: da entrada de ar e escape, do motor, do sistema
de ventilação, do contato entre os pneus e o pavimento e da operação (velocidade/aceleração,
fluxo de tráfego, buzinas, equipamentos de som).

No segundo grupo - ruídos da vizinhança - estão os ruídos das indústria, dos bares, das discote-
cas, dos restaurantes, dos canteiros de obras e os ruídos domésticos (cães, aparelhos eletrodomés-
ticos, elevadores, etc.).

14.2. CARACTERÍSTICAS DO SOM

14.2.1. INTENSIDADE E FREQÜÊNCIA

O som é definido como um fenômeno físico, provocado pela propagação de vibrações mecânicas
em meio elástico - o ar -, passível de excitar o aparelho auditivo. A rápida vibração da pressão do
ar em contato com o ouvido, produz a sensação auditiva.
96 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Para descrever o som, são utilizadas duas de suas características físicas: intensidade e freqüência.
A intensidade é causada pela pressão contra o ouvido ou outro instrumento de medição: quanto
maior a pressão mais intenso é o som. A altura é determinada pela freqüência das vibrações -
número de vezes, durante um determinado período de tempo, que o objeto vibrante dá impulsos
ao ar: quanto mais freqüente a vibração, mais alto - mais agudo - é o som. Portanto as medições
do som devem coletar informações sobre a intensidade (pressão) ou sobre a altura (freqüência)
ou sobre ambas. A pressão do som percebida pelo ouvido humano pode ser tão baixa quanto
2x10-5 N/m2 - limite inferior de audibilidade -, e tão alta quanto 100 N/m2 - limite superior, antes
que a capacidade auditiva seja destruída.

14.2.2. NÍVEL DE PRESSÃO DO SOM OU NÍVEL DE RUÍDO

A unidade padrão para se medir o som é o decibel (dB), definido de modo a ser fiel ao funciona-
mento do ouvido humano: mais sensível à pressões menores (sons suaves) e menos sensível a
pressões mais altas (sons fortes), fato representado matematicamente por uma função logarítmi-
ca. A equação para traduzir os níveis de pressão do som (NPS) em decibéis é:

P2 P
NPS = 10 log = 20 log
P02 P0

. P = pressão sonora medida por instrumento;


. Po = pressão de referência (menor pressão audível);
. NPS = nível de pressão sonora, em dB.

Com base na expressão acima, o limite inferior de audibilidade é zero dB e o limite da dor é 134
dB. Sons inferiores a 25 dB são praticamente impossíveis de se obter, a não ser em condições
acústicas especiais. No meio urbano, os sons registrados variam geralmente entre 30 e 100 dB.

Os ruídos são originados por sons de várias freqüências. Como as altas freqüências são mais in-
cômodas ao ouvido humano, torna-se necessário ajustar o decibel a esta sensibilidade do apare-
lho auditivo. Para ajustar o decibel à altura, definiu-se a unidade dB-A, que ajusta a variação do
nível de pressão do som de acordo com a freqüência. A maioria das leis sobre ruído expressa
seus padrões em dB-A. Além da ponderação A, existem também B e C - hoje pouco usadas - e a
ponderação D - mais utilizada para ruídos de aeronaves. No quadro 14.1 são apresentados níveis
de ruído para algumas atividades e as sensações correspondentes provocadas.

A aritmética dos dB é estranha. É necessário muito barulho para aumentar alguns decibéis. Os
níveis de pressão do som (NPS) não podem ser somados, pois são representados por função loga-
rítmica. Porém, a escala de intensidade física é linear e, portanto, pode ser somada. Como resul-
tado tem-se que a combinação de dois níveis de ruído idênticos dão origem a um acréscimo de 3
dB (acréscimo = 10 log2), isto é, se uma máquina sozinha produz 90 dB, duas máquinas idênti-
cas produzem 93 dB. Para se ter um acréscimo de 10 dB, seriam necessárias 10 máquinas iguais
(acréscimo = 10 log10).
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 97

Quadro 14.1: Níveis típicos de ruído

Tipo de fonte NPS Sensação


(dB-A)
• Relógio / Sussurros / Chuvisco 30 muito baixo
• Trabalho doméstico / Rua residencial cal- 40 razoavelmente baixo
ma
• Conversa 50 normal
• Ruído de escritório 60 normal
• Conversa ruidosa / Gritos / Aspirador de pó 70 alto
• Ruído de tráfego pesado 80 alto
• Fábrica barulhenta / Moto a 10 m 90 muito alto
• Buzina de veículo a 7 m 100 muito alto a insuportável
• Caldeiraria / Indústria têxtil 110 muito alto a insuportável
• Trovoada 120 muito alto a insuportável
• Avião na aterrissagem 150 insuportável
• Motor de foguete 180 insuportável
Fonte: COPPE/UFRJ (1980).

Tabela 14.1: Fontes de ruídos diferentes.


Se as duas fontes não forem idênticas, a
combinação dos níveis de som será feita
Diferença entre Valor a ser somado
através de um acréscimo ao nível mais
os sons (dB) (dB)
elevado. Este acréscimo diminui à medida
0 3,0
que a diferença entre os NPS aumenta,
1 2,6
sendo que, para diferenças acima de 16
2 2,1
dB, o acréscimo é nulo, pois o som mais
3 1,8
intenso mascara o menos intenso. Para
4 1,5
determinar os referidos acréscimos, utili-
5 1,2
6 1,0
za-se a tabela 14.1. Para combinar-se mais
7 0,8 de dois níveis, considera-se dois a dois,
8 0,6 iniciando-se pelos mais elevados.
9 0,5
10 0,4 Exemplo: Determinar o NPS ou nível de
12 0,3 ruído resultante da combinação das quatro
14 0,2 fontes seguintes: NPS1= 92dB, NPS2=
16 0,1 81dB, NPS3= 95dB e NPS4= 90dB.

Inicia-se com NPS1 e NPS3 ⇒ NPS3 - NPS1 = 95 - 92 = 3 dB ⇒ 1,8 dB deve ser somado ao mai-
or valor (Tabela 14.1) ⇒ NPS’ = 95 + 1,8 = 96,8 dB.

Para NPS’ e NPS4 ⇒ NPS’ - NPS4 = 96,8 - 90 = 6,8 dB ⇒ 0,9 dB deve ser somado ao maior
valor (Tabela ....) ⇒ NPS” = 96,8 + 0,9 = 97,7 dB.

Para NPS” e NPS2 ⇒ NPS”- NPS2 = 97,7 - 81 = 16,7 dB ⇒ Diferença maior que 16 dB, o ruído
da fonte 2 é totalmente mascarado pela combinação das outras fontes.
98 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

14.3. ÍNDICES DE RUÍDOS

Para se fazer avaliação do ruído, deve-se levar em conta dois fatores importantes. Primeiro, que o
ruído varia continuamente. Segundo, que o incômodo provocado pelo ruído depende da distância
que separa o ouvinte da fonte e é função, também, do nível de ruído de fundo ou ruído ambiente.

Uma única medida não pode descrever um ruído variável. Logo devem ser usadas medidas que
descrevam melhor os níveis de pico, os ruídos baixos e os ruídos médios. Neste sentido, vários
índices foram desenvolvidos para medição do ruído em dB-A, dentre os quais pode-se destinguir
os índices L10, L50, L90 e Leq.

14.3.1. ÍNDICES L10, L50 e L90

O índice L10 define o nível de ruído ultrapassado por 10% das medidas isoladas - correspondendo
a 10% do tempo de medição. O L90 é o nível abaixo do qual se situa apenas 10% das leituras -
nível que é ultrapassado em 90% do tempo. O índice L50 é, obviamente, o nível mediano, ou seja,
a média das medidas isoladas.

Dentre esses índices, o L10 é o que fornece a melhor comparação e avaliação das condições de
ruído de fontes de som variando continuamente, como aquele que provém do tráfego, além de ser
uma indicação mais precisa do incômodo causado.

14.3.2. NÍVEL SONORO EQUIVALENTE (Leq)

Quando ruído varia com o tempo, é recomendável a análise estatística dos níveis medidos através
do nível sonoro equivalente - Leq. O índice Leq é definido como a média de energia de uma a-
mostra de ruído e é calculado através da expressão:

L10 - L90
Leq = L50 +
56

O Leq tem apresentado uma boa correlação com os distúrbios causados ao homem pelo ruído, e
está cada vez mais sendo utilizado devido à facilidade de obtenção, uma vez que muitos dos e-
quipamentos de medição fornecem diretamente os valores do Leq.

14.4. MEDIÇÃO DO RUÍDO

A avaliação do ruído é feita com base na NBR 10151 e 10152 da ABNT10. O instrumento básico
é o Medidor de Nível de Som - MNS, que mede a pressão do som em escalas com ou sem ponde-
ração. Dentre os MNS, destacam-se os portáteis (Decibelímetro) que fornecem medidas numa
faixa de 20 a 140 dB, com ponderação A (a maioria dos MNS expressam resultados em dB-A).

10
ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas.
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 99

A medição pode ser feita através de métodos manuais, mecânicos ou automatizados. Em qual-
quer dos métodos, leituras instantâneas são efetuadas pelos MNS, em espaço de tempo previa-
mente definido, registrando o nível de som em dB-A. De posse desses registros, parte-se para a
determinação e análise dos índices (alguns instrumentos já oferecem os índices diretamente).

Consideram-se prejudiciais à saúde, à segurança e ao sossego público os sons e ruídos que:

♦ atinjam, no ambiente exterior do recinto em que têm origem, nível de som de mais de dez
decibéis, acima do ruído de fundo existente;
♦ independentemente do ruído de fundo, atinjam no ambiente exterior do recinto em que têm
origem, mais de setenta decibéis;
♦ alcancem, no interior do recinto em que são produzidos, níveis de som superiores aos conside-
rados aceitáveis pelas normas da ABNT.

No estudo da poluição sonora, a duração do ruído é avaliada sobre um período de tempo relevan-
te, diferenciando-se o “período diurno” do “período noturno”, em termos do padrão de ruído a-
ceitável. Os limites de horário para o período diurno e noturno, são definidos pelas autoridades,
com base nos hábitos da população. O Decreto Estadual/Pb no 15.357/83, estabelece três perío-
dos: diurno, entre 7 e 19 horas, vespertino, entre 19 e 22 horas, e noturno, das 22 às 7 horas.

Para efeito de controle da poluição sonora, a área municipal é dividida em três zonas: residencial
- ZR, industrial - ZI e diversificada - ZD. Os padrões de ruído são definidos considerando tanto o
período como o tipo de área. Estes constam da NBR 10.152 e do Dec. Estadual 15.357/83.

14.4.1. RUÍDO DIRETO E REFLETIDO

Durante as medições, muitas vezes é necessário determinar se o ruído é direto ou refletido. Para
se determinar se a influência do som refletido é significativa, efetuam-se duas medidas, uma per-
to e outra longe do local (15 a 20 metros). Quando a diferença for cerca de 8 dB, predomina o
som direto. Se a diferença entre as duas leituras for pequena, o som refletido é apreciável. So-
mente neste último caso, justificam-se medidas para diminuir a reflexão do som.

14.4.2. RUÍDO DE FUNDO

Para determinar a influência do ruído de fundo ou ambiente, devem ser feitas duas medições,
uma com a fonte em estudo funcionando, e outra com a fonte desligada. Se, ao desligar a fonte, o
ruído permanecer praticamente o mesmo, o ruído proveniente da mesma estará mascarado pelo
ruído de fundo. Uma redução de até 2 dB, indica que o ruído de fundo é tão intenso que, relati-
vamente, o ruído da fonte não é apreciável. Neste caso, o controle isolado da fonte não resolveria
o problema, deveriam ser controladas as fontes responsáveis pelo ruído de fundo.

Se a diferença entre as duas leituras estiver entre 2 e 10 dB, deve-se utilizar a tabela 14.2, para
definir o nível de ruído resultante apenas da fonte.
100 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Tabela 14.2: Determinação da influência do Exemplo: Em um determinado local,


ruído de fundo. com a máquina funcionando, o nível
de ruído medido foi 95 dB e com a
máquina desligada, 90 dB. Qual o
Diferença entre Valor a ser subtra-
nível de ruído atribuído à máquina?
os sons (dB) ído (dB)
2 4,3
NPS1 - NPS2 = 95 - 90 = 5dB ⇒ 1,5
3 3,0
4 2,2
dB devem ser subtraídos do NPS1
5 1,5 (Tabela 14.2) ⇒ NPSmáq. = 95dB -
6 1,3 1,5dB = 93,5dB
7 1,0
8 0,8
9 0,6
10 0,4

14.5. EFEITOS DO RUÍDO

As conseqüências do ruído variam desde perturbações na audição a efeitos fisiológicos e psicoló-


gicos. No que diz respeito à audição, observa-se: ‘fadiga auditiva’ que se manifesta como um
déficit provisório da audição, a partir da exposição a ruídos de 75 a 80 dB; ‘efeito máscara’ ma-
nifesta-se inicialmente como perda da capacidade de audição de conversas, contribuindo para o
‘isolamento’ da pessoa; ‘surdez’ ou seja perda definitiva da audição, que pode ocorrer em caso
de ruído brutal (explosão) ou ruído intenso prolongado (mais de 85 dB durante oito horas, por
vários anos, ou de lazer ruidoso - walkmam no máximo volume, motocross, consertos de rock...).

O ruído é com certeza um agente de stress. A tensão contínua provocada pelo ruído tem efeitos
sobre o sistema imunológico do organismo, diminuindo a resistência às doenças. Os sistemas
cardiovascular e digestivo são os que mais apresentam reações negativas. O ruído perturba o de-
senvolvimento da linguagem e a aquisição de leitura entre as crianças. Finalmente, perturba o
sono, reduz o descanso do organismo e, em conseqüência, a atenção para as atividades do cotidi-
ano fica prejudicada.

14.6. MEDIDAS DE CONTROLE

As medidas de controle do ruído podem ser aplicadas na fonte, na trajetória do som ou no pesso-
al. O controle da fonte de ruído, que deve ter sempre a preferência, pode ser feito através de di-
minuição de tecnologias perturbadoras (rebitagem pneumática por solda) - raro, ou, simplesmen-
te, através de boa lubrificação, ajuste e regulagem nos equipamentos, e uso de materiais amorte-
cedores. O controle da trajetória do ruído pode ser feito através de segregação, enclausuramento,
barreiras e tratamento acústico das superfícies.

A segregação é obtida através do afastamento da fonte poluidora ou operação de fonte em horá-


rios pré-determinados. O enclausuramento é o isolamento da fonte por meio de materiais isolan-
tes e absorventes (Figura 14.1). A barreira controla a propagação do ruído numa determinada
direção, através do uso de materiais isolantes e absorventes, este do lado em que se localiza a
2a Parte – Degradação e Conservação do Meio Ambiente - 101

fonte (Figura 14.2). O tratamento acústico de superfícies visa evitar ou diminuir a reverberação
do ruído no ambiente, através do recobrimento de superfícies lisas e duras com chapas de materi-
ais absorventes do som (eucatex acústico, madeira maciça, gesso, borracha, carpete, cortinas,
etc.)

Material isolante

Material absorvente

Figura 14.1: Enclausuramento do ruído.

Material isolante

Material absorvente

Figura 14.2: Barreira contra ruído.

O controle do pessoal é feito por meio de exames médicos (na admissão e periodicamente), da
limitação do tempo de exposição ao ruído e do uso de equipamentos de proteção individual (E-
PI). O uso de EPI, hoje muito difundido em várias atividades ruidosas, é aplicado quando o con-
trole do ambiente não for possível técnica e/ou economicamente. A proteção individual é feita
por meio do uso de tampões, conchas, capacetes e, principalmente, da educação. Campanhas
educativas que motivem os trabalhadores para o uso de EPI e a comunidade em geral para adoção
de práticas menos ruidosas e respeito à legislação, devem ser programadas.

14.7. EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 14

1. Conceitue poluição sonora.


2. Enumere as fontes de poluição que estão mais presentes no seu dia-a-dia.
3. Diferencie intensidade e freqüência do som.
4. Determine o nível de ruído resultante da combinação das seguintes fontes: um escritório, nu-
ma rua barulhenta, num dia de trovoada.
5. Quando se deve aplicar o índice Leq?
6. Como determinar se o ruído é direto ou refletido?
7. Como determinar a influência do ruído de fundo?
8. Quais as principais conseqüências da poluição sonora?
9. Enumere as medidas de controle do ruído.
3a Parte
GESTÃO DO MEIO AMBIENTE

15. LEGISLAÇÃO AMBIENTAL BRASILEIRA

Constituição brasileira diz que o meio ambiente é um “bem de uso comum do povo”.
A Isto quer dizer que o meio ambiente tem valor, é riqueza social. Muitas vezes porém é
impossível transformar este valor em quantidade de dinheiro. Quanto vale uma cacho-
eira? Ou, quanto vale uma floresta nativa?

As questões ambientais, entretanto, sempre envolvem interesses econômicos e sociais. A degra-


dação do meio ambiente, ao mesmo tempo que implica em prejuízos para todos, serve de fonte
de enriquecimento para alguns. Um corpo d’água morto, significa mais dinheiro para quem polui,
no momento em que deixou de investir nas medidas necessárias para controle da poluição. Ao
mesmo tempo, a sociedade arca com os prejuízos de ter que usar água ruim, além de pagar a re-
cuperação do corpo d’água.

Em se tratando de um bem de interesse difuso1, o meio ambiente precisa e deve ser protegido.
Neste sentido, a Constituição Federal impõe “ao Poder Público e à coletividade o dever de de-
fendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.

CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988

Artigo 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso co-
mum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletivi-
dade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

Parágrafo 1o - Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público:


I. preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e propor o manejo ecológico das
espécies e ecossistemas;
II. preservar a diversidade e integridade do patrimônio genético do país e fiscalizar as entidades
dedicadas à pesquisa e manipulação de material genético;
III.definir, em todas as unidades de Federação, espaços territoriais e seus componentes a serem
especialmente protegidos, sendo a alteração e supressão permitidas somente através de Lei,
vedada qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que justifiquem sua
proteção;

1
Bem que é do usufruto de toda a comunidade.
3a Parte - Gestão do Meio Ambiente - 103

IV.exigir, na forma da Lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de


significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio do impacto ambiental, a que se
dará publicidade;
V. controlar a produção , a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que
comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente;
VI.promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública
para a preservação do meio ambiente;
VII.proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da Lei, as práticas que coloquem em risco sua
função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade.

Parágrafo 2o - Aquele que explorar recursos minerais fica obrigado a recuperar o meio ambi-
ente degradado, de acordo com a solução técnica exigida pelo órgão público competente, na
forma da Lei.

Parágrafo 3o - As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os


infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente
da obrigação de reparar os danos causados.

Parágrafo 4o - A Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal


Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma
da Lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao
uso dos recursos naturais.

Parágrafo 5o - São indisponíveis as terras devolutas ou arrecadadas pelos Estados, por ações
discriminatórias, necessárias à proteção dos ecossistemas naturais.

Parágrafo 6o - As usinas que operem com reator nuclear deverão ter sua localização definida
em lei federal, sem o que não poderão ser instaladas.

Ao Poder Público, seja Federal, Estadual ou Municipal, compete legislar em defesa do meio am-
biente, isto é, estabelecer normas jurídicas - leis, decretos, portarias e resoluções. Consequente-
mente, a legislação ambiental é composta por normas federais, estaduais e municipais, a serem
executadas pelo próprio Poder Público e pela comunidade.

A legislação ambiental brasileira é integrada por normas que2:

♦ criam direitos e deveres do cidadão em relação ao meio ambiente;


♦ criam instrumentos de proteção ao meio ambiente;
♦ criam normas sobre o uso de um bem ambiental, como a água, o solo,...;
♦ disciplinam atividades que interferem com os bens ambientais;
♦ e, criam Unidades de Conservação.

Algumas dessas normas foram criadas recentemente, outras já existem há décadas. E, ao contrá-
rio das leis do trabalho que estão organizadas em um só texto3, a legislação ambiental brasileira
está espalhada em vários textos, o que dificulta muitas vezes a sua aplicação.

2
MEIO AMBIENTE – ALEI EM SUAS MÃOS, E. Neves e A. Tostes, 1992.
104 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

15.1. POLÍTICA NACIONAL DO MEIO AMBIENTE

A definição de uma Política Ambiental no país tem sido prerrogativa do Governo Federal, em-
bora a sua execução e administração estejam a cargo dos Governos Estaduais e Municipais.

As primeiras tentativas de montagem de uma estrutura executiva na preservação do meio ambi-


ente, foram feitas na década de setenta, denominada “dédaca ambiental”. A criação do
PLANASA - Plano Nacional de Saneamento Ambiental foi um exemplo, cuja concessão dos re-
cursos do BNH – Banco Nacional de Habitação foi condicionada à apresentação de programas
integrados de controle da poluição hídrica, surgindo assim, pela primeira vez no país, a preocu-
pação pela ação racional e ordenada para enfrentar a poluição. Porém, foi somente na década se-
guinte que a Política Nacional do Meio Ambiente foi, finalmente, instituída através da Lei no
6.938, de 31 de agosto de 1981, e regulamentada pelo Decreto no 88.351, de 1 de junho de 1983.

15.1.1. SISNAMA

Com a Lei do Meio Ambiente, foi criado o Sistema Nacional do Meio Ambiente - SISNAMA,
constituído por órgãos e entidades da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e
dos Municípios, bem como das Fundações instituídas pelo Poder Público, responsáveis pela pro-
teção e melhoria da qualidade ambiental. Atualmente, o SISNAMA tem a seguinte estrutura:

♦ órgão superior: o Conselho de Governo - CG, com a função de assessorar o Presidente da


República na formulação da Política Nacional do Meio Ambiente e nas diretrizes para o meio
ambiente e os recursos naturais;

♦ órgão consultivo e deliberativo: o Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA, com


a finalidade de assessorar, estudar e propor ao Conselho de Governo, diretrizes de políticas
governamentais para o meio ambiente e os recursos naturais, e deliberar, no âmbito de sua
competência, sobre normas e padrões compatíveis com o meio ambiente ecologicamente equi-
librado e essencial à sadia qualidade de vida;

♦ órgão central: o Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal -
MINISMAM, com a finalidade de planejar, coordenar, supervisionar e controlar, como órgão
federal, a política nacional e as diretrizes governamentais fixadas para o meio ambiente;

♦ órgão executor: o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
- IBAMA, com a finalidade de executar ou fazer executar, como órgão federal, a política na-
cional e diretrizes governamentais fixadas para o meio ambiente;

♦ órgãos seccionais: os órgãos ou entidades estaduais responsáveis pela execução de progra-


mas, projetos e pelo controle e fiscalização de atividades capazes de provocar a degradação
ambiental;

♦ órgãos locais: os órgãos ou entidades municipais responsáveis pelo controle e fiscalização


dessas atividades, nas suas respectivas jurisdições.

3
CLT - Consolidação das Leis do Trabalho.
3a Parte - Gestão do Meio Ambiente - 105

15.1.2. COMPETÊNCIA DO CONAMA

Como órgão deliberativo do SISNAMA, dentre outras atribuições, compete ao CONAMA es-
tabelecer, mediante proposta do IBAMA, normas e critérios para o licenciamento de atividades
efetiva ou potencialmente poluidoras, a ser concedido pelos Estados e supervisionado pelo
IBAMA. Ainda, como órgão da hierarquia nacional, ao CONAMA cabe fixar prazos para con-
cessão de licenças, determinando, quando julgar necessário, o estudo de impacto ambiental e
respectivo relatório - EIA/RIMA.

Outrossim, através do IBAMA, é competência do CONAMA, estabelecer normas, critérios e pa-


drões nacionais relativos ao controle e à manutenção da qualidade do meio ambiente em todo o
território nacional, cabendo aos Estados e Municípios a regionalização dos mesmos, desde que
sejam mais restritivos do que os fixados anteriormente.

Compete ao CONAMA, com base em parecer do IBAMA, propor ao Presidente da República a


criação de Unidades de Conservação ambiental. Cabe ainda, no caso de constatada a infração de
meio ambiente, determinar, mediante representação do IBAMA, a perda ou restrição de benefí-
cios fiscais concedidos pelo Poder Público, em caráter geral ou condicional, e a perda ou sus-
pensão de participação em linhas de financiamento em estabelecimentos oficiais de crédito.

15.1.3. PENALIDADES

Para efeito da Lei do Meio Ambiente, entende-se por poluidor, pessoa física ou jurídica, de di-
reito público ou privado, responsável, direta ou indiretamente, por atividade causadora de degra-
dação ambiental. Dessa forma, segundo a Lei do Meio Ambiente, Artigo 15, o poluidor que ex-
puser a perigo a incolumidade humana, animal ou vegetal, ou estiver tornando mais grave situa-
ção de perigo existente, fica sujeito à pena de reclusão de 1(um) a 3 (três) anos e multa de 100 a
1.000 MVR's. A pena será aumentada até o dobro se:

♦ resultar em dano irreversível à fauna, à flora e ao meio ambiente;


♦ resultar lesão corporal grave;
♦ a poluição ser decorrente de atividade industrial ou de transporte;
♦ o crime ser praticado durante a noite, domingo ou feriado.

O não cumprimento das medidas necessárias à preservação ou correção dos inconvenientes e


danos causados pela degradação da qualidade ambiental, sujeitará os transgressores à:

♦ multa simples ou diária, nos valores correspondentes a cada caso, vedada a sua cobrança pela
União se já tiver sido aplicada pelos Estados, Distrito Federal, Territórios ou Municípios;
♦ perda ou restrição de incentivos e benefícios fiscais concedidos pelo Poder Público;
♦ perda ou suspensão de participação em linhas de financiamento em estabelecimentos oficiais
de créditos;
♦ suspensão da atividade.
106 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

A Lei do Meio Ambiente veio disposta a corrigir erros e mudar mentalidades, porque quem cobra
a multa é a Receita Federal, nos moldes do Imposto de Renda. As multas, conforme o Decreto no
99.274/90, variam de 61,7 a 6.170,0 BTN's - Bônus do Tesouro Nacional (corrigíveis pela TR),
que são cobradas pelo Leão.

Embora rigorosa, a lei tem suas atenuantes e peculiaridades. Ela permite às empresas infratoras a
aplicação de 90% do valor da multa na compra de equipamentos destinados a controlar a polui-
ção ambiental ou na realização de pesquisas e de campanhas de educação ambiental.

Formalmente, segundo os Artigos 34, 35 e 36 do Decreto supra citado, as infrações passíveis de


multas, podem ser agrupadas em três faixas.

♦ Com multas de 61,7 a 6.170,0 BTN's:


♦ contribuir para que o corpo d'água fique em categoria de qualidade inferior à prevista na
classificação oficial;
♦ contribuir para que a qualidade do ar ambiental seja inferior ao nível mínimo estabelecido em
resolução oficial;
♦ emitir ou despejar efluentes ou resíduos sólidos, líquidos ou gasosos causadores de degrada-
ção ambiental, em desacordo com o estabelecido em resolução ou licença especial;
♦ exercer atividade potencialmente degradadora do meio ambiente, sem a licença ambiental le-
galmente exigível, ou em desacordo com a mesma;
♦ causar poluição hídrica que torne necessária a interrupção do abastecimento público de água
de uma comunidade;
♦ causar poluição de qualquer natureza que provoque destruição de plantas cultivadas ou silves-
tres;
♦ ferir, matar ou capturar, por quaisquer meios, em áreas de Proteção Ambiental, Reservas Eco-
lógicas, Estações Ecológicas e Áreas de Relevante Interesse Ecológico;
♦ causar degradação ambiental mediante o assoreamento de coleções de água ou erosão acele-
rada, em áreas de Proteção Ambiental, Reservas Ecológicas, Estações Ecológicas e Áreas de
Relevante Interesse Ecológico;
♦ desrespeitar interdições de uso, de passagem e outras estabelecidas administrativamente para a
proteção contra a degradação ambiental;
♦ impedir ou dificultar a atuação dos agentes credenciados pelo IBAMA, para inspecionar situ-
ações de perigo potencial ou examinar a ocorrência de degradação ambiental;
♦ causar danos ambientais, de qualquer natureza, que provoquem destruição ou outros efeitos
desfavoráveis à biota nativa ou às plantas cultivadas e criação de animais.

♦ Com multas de 308,5 a 6.170,0 BTN's:


♦ realizar em APAs, sem licença do respectivo órgão de controle ambiental, abertura de canais
ou obras de terraplanagem, com movimentação de areia, terra ou material rochoso, em volume
superior à 100 m3, que possam causar degradação ambiental;
♦ causar poluição, de qualquer natureza, que possa trazer danos à saúde ou ameaçar o bem-estar.

♦ Com multas de 617 a 6.170 BTN’s:


♦ causar poluição atmosférica, que provoque a retirada, ainda que momentânea, dos habitantes
de um quarteirão urbano ou localidade equivalente;
3a Parte - Gestão do Meio Ambiente - 107

♦ causar poluição do solo, que torne uma área, urbana ou rural, imprópria para a ocupação hu-
mana;
♦ causar poluição de qualquer natureza, que provoque a mortandade de peixes, anfíbios, répteis,
aves e mamíferos.

15.1.4. CONDIÇÕES ATENUANTES E AGRAVANTES

São atenuantes para o cálculo do montante das multas, as seguintes circunstâncias:


♦ o menor grau de compreensão e de escolaridade do infrator;
♦ o arrependimento do infrator, manifestado pela espontânea reparação ou limitação do dano
causado;
♦ a comunicação prévia do infrator, às autoridades competentes , do perigo iminente;
♦ a colaboração com os agentes encarregados da fiscalização e do controle ambiental.

São agravantes:
♦ a reincidência específica;
♦ a maior extensão da degradação ambiental;
♦ o dolo, mesmo que eventual;
♦ a ocorrência de efeitos sobre a propriedade alheia;
♦ a infração ter ocorrido em zona urbana;
♦ danos permanentes à saúde;
♦ a infração atingir área sob proteção legal;
♦ o emprego de métodos cruéis na morte ou captura de animais.

15.2. INSTRUMENTOS DE DEFESA DO MEIO AMBIENTE

Além das penalidades, aplicadas no caso de infrações, a legislação ambiental brasileira prevê
instrumentos de participação da comunidade na proteção ao meio ambiente, tais como: direito de
petição, direito de certidão, ação civil pública, ação popular, inquérito civil administrativo, li-
cenças ambientais, EIA/RIMA e audiência pública, alguns dos quais são comentados a seguir.

15.2.1. DIREITO DE PETIÇÃO

O direito de petição é um instrumento importante para garantir o pleno acesso à informação. A-


través do mesmo, qualquer pessoa pode obter informações sobre a situação atual do ambiente,
tais com: diagnósticos ambientais, estudos sobre problemas ambientais produzidos pelos órgãos
de planejamento e controle ambiental, prognósticos ambientais, informações sobre condições das
praias, potabilidade da água, índices de poluição do ar, índices de ruído, gastos orçamentários,
multas aplicadas aos poluidores, multas não pagas, planos futuros, previsão de gastos, estudos de
impacto ambiental, posição do órgão ambiental frente a determinadas situações de agressão am-
biental.
108 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

15.2.2. DIREITO DE CERTIDÃO

O direito de certidão é um instrumento que atesta a atuação dos órgão públicos na defesa do meio
ambiente. A certidão serve para fundamentar a ação do cidadão no exercício do seu direito, como
defensor do patrimônio ambiental, como prova para a ação civil pública ou para a ação popular.

15.2.3. LICENÇAS AMBIENTAIS

As licenças ambientais - prévia, instalação e operação -, são instrumentos de defesa do meio am-
biente, requeridos pelo órgão estadual competente integrante do SISNAMA, ou pelo IBAMA, em
caráter supletivo. As mesmas devem ser solicitadas pelo empreendedor, nas fases de localização,
instalação/ampliação e operação, de estabelecimentos e atividades utilizadoras de recursos am-
bientais, considerados efetiva e potencialmente poluidores, bem como os capazes, sob qualquer
forma, de causar degradação ambiental.

As entidades e órgãos de financiamento e incentivos governamentais, condicionarão a aprovação


de projetos habilitados a esses benefícios ao licenciamento, na forma da Lei, e ao cumprimento
das normas, dos critérios e dos padrões expedidos pelo CONAMA.

15.2.3.1. LICENÇA PRÉVIA - LP

É expedida na fase inicial do planejamento da atividade e implica em compromisso, por parte do


empresário, de manter o projeto final compatível com as condições do deferimento. Sua conces-
são está fundamentada em informações prestadas pelo interessado, específicas às condições bá-
sicas a serem atendidas durante a localização, instalação e funcionamento do equipamento ou
atividade poluidora.

15.2.3.2. LICENÇA INSTALAÇÃO - LI

É expedida com base no projeto executivo final e autoriza o início da implantação do equipa-
mento ou atividade poluidora, subordinando-o a condição de construção, operação e outras ex-
pressamente especificadas.

15.2.3.3. LICENÇA OPERAÇÃO - LO

É expedida com base na vistoria, realizada pelo órgão licenciador, e autoriza a operação de equi-
pamentos ou atividades poluidoras, subordinando a sua continuidade ao cumprimento das con-
dições de concessão das LP e LI. Este tipo de licença deverá ser solicitado tanto para as ativida-
des existentes como para as novas.

Os prazos de validade das licenças serão expressos nas mesmas e passarão a contar da data de
sua emissão. Nos casos em que não estejam explicitamente determinados, serão adotados os se-
guintes prazos máximos: 2 (dois) anos para a LP e LI, e 4 (quatro) anos para a LO.
3a Parte - Gestão do Meio Ambiente - 109

Com exceção das atividades de interesse da segurança nacional, como a atividade nuclear, insta-
lação de polos petroquímicos, cloroquímicos, siderúrgicos, grandes rodovias e ferrovias federais,
o licenciamento da atividade é de responsabilidade do órgão estadual. A localização de usinas
nucleares só pode ser definida em lei e cabe à Comissão Nacional de Energia Nuclear - CNEN
baixar diretrizes para a segurança da atividade, transporte de materiais, tratamento e eliminação
de rejeitos radioativos, construção e operação de usinas nucleares.

Em nosso Estado, as licenças supra citadas, são concedidas pelo COPAM - Conselho de Proteção
Ambiental através da SUDEMA - Superintendência de Administração do Meio Ambiente e dos
Recursos Hídricos, após o cumprimento das exigências do SELAP - Sistema Estadual de Licen-
ciamento de Atividades Poluidoras.

Estão sujeitos ao SELAP, todas as pessoas físicas ou jurídicas, inclusive as entidades da admi-
nistração indireta estadual e municipal, que estiverem instaladas ou vierem a se instalar no Esta-
do da Paraíba, e cujas atividades, sejam industriais, comerciais, agropecuárias, domésticas, pú-
blicas, recreativas ou quaisquer outras, possam ser causadoras de efetiva ou potencial poluição, a
critério do COPAM e da SUDEMA.

15.2.4. EIA/RIMA

O Estudo de Impacto Ambiental - EIA é uma exigência da legislação ambiental para o licencia-
mento de atividades modificadoras ou potencialmente modificadoras do meio ambiente. O mes-
mo é realizado por equipe de especialistas e apresentado na forma de Relatório de Impacto sobre
o Meio Ambiente - RIMA, para apreciação da comunidade, através do órgão licenciador. O
EIA/RIMA é o primeiro instrumento, de defesa do meio ambiente, criado no Brasil para informar
com antecedência ao Poder Público e à própria sociedade quais os custos e benefícios dos em-
preendimentos, e sobre quem eles vão recair. O EIA/RIMA é assunto dos próximos capítulos.

15.2.5. AUDIÊNCIA PÚBLICA

A audiência pública é uma reunião aberta, com representantes do Poder Público e da comunida-
de, para debater questões sobre o meio ambiente. É parte fundamental no processo de licencia-
mento ambiental, para a tomada de decisão. Geralmente, as audiências públicas têm sido moti-
vadas para apreciação do EIA/RIMA. Nestas, o órgão ambiental, junto com o empreendedor e
mais a equipe responsável pelo EIA, apresentam ao público o RIMA, detalhando as modificações
ambientais, seus custos, sobre quem recairão, e seus benefícios, e quem deles vai usufruir.

15.3. LEGISLAÇÃO BÁSICA

Dentre os diplomas normativos que versam sobre matérias diretamente pertinentes ao meio am-
biente, na Legislação Federal Brasileira cabe ressaltar a importância das resoluções. A lei delega
ao Poder Executivo a tarefa de detalhar as suas disposições através de resoluções, que passam a
ser, de fato, os parâmetros concretos para aplicação da lei. Conforme já citado anteriormente, al-
guns desses diplomas federais são recentes outros datam de décadas, o que pode ser constatado
no Apêndice B. A nível estadual tem-se algumas leis e decretos estaduais que criam órgãos e
110 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

conselhos de meio ambiente, aprovam seus estatutos e dão outras providências. A legislação po-
de ser vista por temas, como água, solo, ar, fauna, flora, mineração, agrotóxicos, atividade nucle-
ar, ruído, etc.

♦ Água - A lei básica é o Código das Águas de 1934, complementada por resoluções
CONAMA, como a no 020/86 que trata da classificação dos corpos d’água, e pela Lei No
9.433/97 que trata da Política Nacional de Recursos Hídricos.
♦ Ar - Assunto disciplinado basicamente através de resoluções do CONAMA, que estabelecem
padrões de qualidade do ar, limites de emissão de poluentes e detalham programas para con-
trole da poluição do ar (PROCONVE - Resolução no 018/86, PRONAR - Resoluções nos
005/89 e 003/90).
♦ Solo - A lei básica é o Estatuto da Terra de 1964. Cabe diferençar o solo rural do solo urbano.
Este, em cidades com mais de 20 mil habitantes, fica subordinado ao Plano Diretor do Muni-
cípio. Aquele, deve ser objeto de política agrícola que contemple medidas de defesa do solo.
♦ Agrotóxicos e outro produtos perigosos - A legislação estabelece que a produção, transpor-
te, comercialização e uso dependem de registro prévio junto ao governo federal. Este registro
está condicionado ao grau de perigo que o produto representa para o meio ambiente. O assun-
to é tratado em lei (Lei dos Agrotóxicos, de 1989) e resoluções do CONAMA nos 013/84 e
005/85.
♦ Flora - Como bem de interesse comum da população, cabe ao Poder Público o dever de pre-
servá-lo - Código Florestal de 1965. Assim, de acordo com a localização, determinadas for-
mações vegetais são consideradas de preservação permanente. A exploração de floresta de-
pende de autorização do IBAMA. O comprador de moto-serra deve ter registro no IBAMA.
As indústrias que consomem grandes quantidades de madeira têm que plantar o que consumir.
As estações de TV têm que apresentar, no mínimo cinco minutos por semana, programas de
interesse florestal.
♦ Fauna - Duas leis básicas regem o uso da fauna: Código de Pesca e Código de Caça, ambos
de 1967. O assunto é ainda complementado através de portarias do IBAMA.
♦ Mineração - A lei básica é o Código de Mineração de 1967. A atividade está sujeita a autori-
zação federal, além do licenciamento ambiental no Estado. O assunto é tratado em resoluções
do CONAMA.
♦ Atividade nuclear - O assunto é de competência exclusiva da União, ficando com a Comis-
são Nacional de Energia Nuclear - CNEN - a incumbência de baixar diretrizes sobre o exercí-
cio da atividade.
♦ Ruído - O assunto é tratado em resoluções do CONAMA nos 001/90, 002/90, 001/93, 002/93,
020/94 e 017/95, que estabelecem, dentre outros itens, padrões aceitáveis de ruído, visando o
conforto e a saúde da população.

15.4. INSTITUIÇÕES DE CONTROLE DO MEIO AMBIENTE

Em todos os Estados e Municípios existem órgãos públicos e/ou fundações instituídas de poder
público, encarregados do controle do meio ambiente. A atuação destes é complementada pela
representação federal, através do IBAMA. Todas essas instituições participam na montagem do
sistema nacional de combate a poluição e defesa dos recursos naturais, compondo o SISNAMA
dentro da Política Nacional do Meio Ambiente. No Apêndice C estão listados os principais ór-
gãos de ação estadual.
3a Parte - Gestão do Meio Ambiente - 111

15.5. EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 15

1. Que tipos de normas compõem a legislação ambiental brasileira ?


2. Esquematize a estrutura do SISNAMA.
3. Cite algumas atribuições que são da competência do CONAMA ?
4. Como a Lei do Meio Ambiente define poluidor ?
5. Enumere as penalidades por agressões ao meio ambiente.
6. As agressões ao meio ambiente estão sujeitas a multas que variam de 61,7 a 6.170,0 BTN's.
Liste 10 agressões ao meio ambiente que estão sujeitas à penalidades com as respectivas mul-
tas.
7. Cite as condições atenuantes e agravantes para o cálculo do montante da multa.
8. Enumere cinco instrumentos de proteção do meio ambiente.
9. Conceitue: Licença Prévia (LP), Licença Instalação (LI) e Licença Operação(LO).
10. O que dispõe: a Lei 6.938, de 31.08.81; o Decreto 88.351, de 01.06.83; o Decreto 73.030, de
30.10.73; a Resolução CONAMA 001, de 23.01.86; a Resolução CONAMA 020, de 18.06.86;
a Lei 7.804, de 18.07.89 e a Lei 8.028, de 12.04.90 (consultar o Apêndice B).
11. O que é SELAP? Quem está sujeito ao SELAP-PB ?
12. Cite alguns órgãos seccionais de controle do meio ambiente, dentre eles, inclua e assinale o
do seu Estado (consultar o Apêndice C).
112 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

16. AVALIAÇÃO DE IMPACTO AMBIENTAL

A satisfação das necessidades humanas, pelo desenvolvimento de uma atividade, se faz a-


través de formas de uso e de apropriação de um espaço, gerando efeitos sobre o meio am-
biente, que poderão refletir-se nas condições físicas e sócio-econômicas deste mesmo homem.
Desse modo, a implantação de uma atividade pode resultar num ambiente equilibrado ou dese-
quilibrado. Os desequilíbrios, biogeofísicos e sócio-econômicos, constituem o principal objeto da
Avaliação de Impacto Ambiental.

A Avaliação de Impacto Ambiental tem por objetivo identificar, predizer e quantificar esses de-
sequilíbrios, com a finalidade de introduzir medidas mitigadoras que minimizem ou mesmo eli-
minem os impactos nocivos, resultantes da implantação de uma atividade modificadora do meio
ambiente.

No que diz respeito à Política Ambiental do país, a AIA é o principal instrumento de execução da
mesma. Constituída de um conjunto de procedimentos técnicos e administrativos, que visam a
análise sistemática dos impactos ambientais do estabelecimento de uma atividade e suas diversas
alternativas, a AIA tem por finalidade embasar as decisões quanto ao seu licenciamento. Vale
aqui salientar que as AIA's são instrumentos de conhecimento a serviço da decisão, porém não
são por si mesmas instrumentos de decisão. Entretanto, são instrumentos idôneos para a tomada
de decisão baseada num conhecimento amplo e integrado dos impactos ambientais.

16.1. DEFINIÇÃO E CLASSIFICAÇÃO DOS IMPACTOS AMBIENTAIS

Para efeito da Resolução CONAMA no 001/86, considera-se impacto ambiental qualquer altera-
ção nas características físicas, químicas e/ou biológicas do meio ambiente, causada por qualquer
forma de matéria ou energia resultante de atividade humana, que direta ou indiretamente, afetem:

♦ a saúde, a segurança e o bem-estar da população;


♦ as atividades sociais e econômicas;
♦ a biota;
♦ as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente;
♦ a qualidade dos recursos ambientais.

Os impactos ambientais podem ser diretos ou indiretos; podem ocorrer a curto ou a longo prazo;
podem ser temporários ou permanentes; reversíveis ou irreversíveis; cumulativos ou sinérgicos;
positivos ou negativos.

16.1.1. IMPACTO POSITIVO

Quando a ação ou atividade resulta na melhoria da qualidade de um fator ou parâmetro ambien-


tal. Aumento da produção agrícola em áreas irrigadas.
3a Parte - Gestão do Meio Ambiente - 113

16.1.2. IMPACTO NEGATIVO

Quando a ação ou atividade resulta em um dano à qualidade de um fator ou parâmetro ambiental.


A perda de matas, lagos e rios quando do enchimento do reservatório para fins hidrelétricos.

16.1.3. IMPACTO DIRETO

Resultante de uma simples relação de causa e efeito. É a alteração que sofre um determinado
componente ambiental, pela ação direta sobre esse componente. Tais impactos são geralmente
mais fáceis de se identificar, descrever ou quantificar, posto que são os efeitos diretos de ações
do projeto. O aumento da concentração de contaminantes, como CO, SO2 e MP na atmosfera,
resultantes da queima de combustíveis nos veículos automotores.

16.1.4. IMPACTO INDIRETO.

Decorrente do impacto direto, seus efeitos correspondem aos efeitos indiretos das ações do pro-
jeto. Geralmente são mais difíceis de identificar e controlar. Um exemplo típico é o crescimento
populacional decorrente do assentamento da população atraída pelo projeto, a qual demanda mo-
radia, escola, serviços sanitários, transporte, etc., que não se havia previsto e cuja falta gera sérios
conflitos sociais.

16.1.5. IMPACTO DE CURTO PRAZO

Quando o efeito ou a modificação do parâmetro ambiental surge logo após a ação, podendo até
desaparecer em seguida. Aumento do ruído no ambiente quando são ligados determinados ele-
trodomésticos.

16.1.6. IMPACTO DE LONGO PRAZO

Quando o efeito ou a modificação do parâmetro ambiental ocorre depois de um certo tempo de


realizada a ação. A erosão e a conseqüente desertificação de solos submetidos a desmatamentos
ou mesmo a projetos agrícolas mal orientados.

16.1.7. IMPACTO REVERSÍVEL

Quando o fator ou parâmetro ambiental afetado, retorna às suas condições originais, uma vez
cessada a ação impactante. As moléstias decorrentes da construção de uma obra em cujo período
se produziu poeira, ruído, aumento do tráfego no entorno, mas que desaparecem ou ficam redu-
zidas a níveis admissíveis uma vez acabada a construção.

16.1.8. IMPACTO IRREVERSÍVEL

Quando uma vez cessada a ação impactante, o fator ambiental afetado não retorna às suas condi-
ções, em um prazo previsível. O assoreamento de corpos d’água, resultante do carreamento de
materiais na atividade de mineração.
114 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

16.1.9. IMPACTO TEMPORÁRIO

Quando, uma vez executada a ação, a modificação do fator ambiental considerado, tem duração
determinada. Os ruídos gerados na fase de construção de um empreendimento.

16.1.10. IMPACTO PERMANENTE

Quando, uma vez executada a ação, os efeitos não cessam de se manifestar num horizonte tem-
poral conhecido. Retenção de sólidos em transporte nas barragens.

16.2. IMPACTO AMBIENTAL DE UM PROJETO

O impacto ambiental de um projeto pode ser definido como a diferença entre a situação do meio
ambiente modificado, tal como resultaria depois de realização do projeto, e a situação do meio
ambiente futuro, tal como havia evoluído normalmente sem tal atuação.

A necessidade de se implantar avaliações de impactos ambientais, surgiu da inadaptação dos


métodos tradicionais de avaliação de projetos, que não consideravam a proteção do meio físico,
nem o uso racional dos recursos naturais, nem tão pouco os aspectos sociais de um dado projeto.
Desse modo, a AIA veio com o propósito de evitar possíveis erros e deteriorações ambientais,
custosos de se corrigir depois.

A AIA de um projeto é realizada através do Estudo de Impacto Ambiental - EIA, onde se pro-
move a identificação, previsão e valoração dos impactos e a análise das alternativas para a ativi-
dade em estudo, cujos resultados são apresentados na forma de Relatório de Impacto Ambiental -
RIMA.

16.3. ATIVIDADES MODIFICADORAS DO MEIO AMBIENTE

Uma relação completa das atividades modificadoras do meio ambiente passíveis de uma avalia-
ção de impacto ambiental é difícil de se estabelecer, posto que o impacto global depende de vá-
rios fatores, dentre os quais selecionam-se como mais significativos, para estabelecimento de
critérios de seleção dessas atividades, os seguintes:

♦ impacto físico (qualitativo e quantitativo);


♦ extensão da área de influência;
♦ utilização de recursos naturais.

Segundo a Resolução CONAMA no 001/86, ficam obrigados a elaborar EIA/RIMA, para obten-
ção de licenciamento, as seguintes atividades modificadoras do meio ambiente:

♦ estradas de rodagem com duas ou mais faixas de rolamento;


♦ ferrovias;
♦ portos, terminais de minério, petróleo e produtos químicos;
♦ aeroportos, conforme definidos pelo inciso I, artigo 4o, do Decreto-Lei no 32/66;
♦ oleodutos, gasodutos, minerodutos, troncos coletores e emissários de esgotos sanitários;
3a Parte - Gestão do Meio Ambiente - 115

♦ linhas de transmissão de energia elétrica, acima de 230Kv;


♦ obras hidráulicas para exploração de recursos hídricos, tais como: barragens para fins hidrelé-
tricos (acima de 10 MW), de saneamento ou de irrigação, abertura de canais para navegação,
drenagem e irrigação, retificação de cursos d’água, abertura de barras e embocaduras, transpo-
sição de bacias, diques;
♦ extração de minérios, inclusive os de classe II, definidos no Código de Mineração;
♦ extração de combustível fóssil ( petróleo, xisto ou carvão);
♦ aterros sanitários, processamento e destino final de resíduos tóxicos ou perigosos;
♦ usinas de geração de eletricidade, qualquer que seja a fonte primária, acima de 10MW;
♦ distritos industriais e zonas estritamente industriais - ZEI;
♦ complexo de unidades industriais e agro-industriais ( petroquímicos, siderúrgicos, cloroquí-
micos e destilarias de álcool );
♦ exploração econômica de madeira ou de lenha, em áreas de 100 hectares ou menores, quando
atingir áreas significativas em termos percentuais ou de importância do ponto de vista ambi-
ental;
♦ projetos urbanísticos, acima de 100 hectares ou em áreas consideradas de relevante interesse
ambiental, a critério do IBAMA e dos órgãos estaduais e municipais competentes;
♦ qualquer atividade que utiliza carvão vegetal, derivados ou produtos similares, em quantidade
superior a dez toneladas por dia.
♦ projetos agropecuários que contemplem áreas acima de 1.000ha ou menores, neste caso,
quando se tratar de áreas significativas em termos percentuais ou de importância do ponto de
vista ambiental, inclusive nas áreas de proteção ambiental (Resolução CONAMA no 011/86).

A rigor, o Poder Público pode pedir um EIA/RIMA para todo e qualquer tipo de empreendimento
não listado. O SELAP-PB, além das atividades supra citadas, segue a listagem do Decreto Esta-
dual no 13.798/90.

16.4. VANTAGENS DA AIA

Na avaliação de impacto ambiental é fundamental ter em conta as diversas vantagens econômicas


que apresenta. Estudos realizados pela Comunidade Européia mostram que o custo das ações
preventivas, incluindo nele o EIA, é inferior aos custos da contaminação e deterioração por im-
pactos ambientais não previstos, sem levar em conta, ainda, que é muito melhor prevenir do que
corrigir.

As experiências realizadas mostram que o custo das AIA’s é muito baixo. Na Holanda, situa-se
em 0,25% do custo total da obra. Na França, entre 0,25 e 0,75%; nos Estados Unidos, 0,19%; e,
em mais 18 países onde esta questão foi levantada, o custo médio situou-se em torno de 0,50%
do custo total da obra. Considerando que estes custos tendem logicamente a diminuir, como
conseqüência da melhoria dos conhecimentos, a disponibilidade de dados, os serviços de infor-
mação, a qualificação de pessoal especializado e pelo efeito repetição, pode-se afirmar que sua
implantação não é tão dispendiosa.

Outra vantagem econômica, é o fato de que a aplicação do procedimento não supõe um alarga-
mento dos prazos de execução da obra. O custo da obra é influenciado pelo tempo necessário
para projetá-la, autorizá-la e realizá-la. Este tempo pode ser encurtado, graças a uma concepção
correta da obra sob o ponto de vista ambiental, pois isso pode permitir reduzir ou evitar os atra-
116 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

sos desnecessários derivados do público em geral, assim como dos órgãos competentes, uma vez
que estes participam do processo de decisão. Esta participação conduz a um processo de decisão
mais transparente e seguro, evitando os recursos administrativos e judiciais, geralmente demora-
dos e dispendiosos.

16.5. INCERTEZAS DA AIA

Na avaliação de impactos as incertezas são muitas, e, portanto, há necessidade de se preparar pa-


ra especificá-las. As principais causas de incertezas são as seguintes:

♦ variabilidade estocástica dos fenômenos ambientais. Há que se considerar uma série de con-
tingências e sinergias difíceis de valorar;
♦ conhecimento inadequado ou incompleto do comportamento dos componentes do meio;
♦ falta de dados de base e informações da zona ou problema a avaliar, o que obriga a trabalhar
com grandes lacunas.

Estas incertezas são maiores quando a avaliação se projeta a longo prazo. Por isso, é necessário
que o avaliador inclua um capítulo que detalhe as possíveis incertezas com as quais se tenha de-
parado a equipe de trabalho e, se possível, faça uma previsão dos riscos e da forma como enfren-
tá-los. A análise de riscos, por sua vez, é exigida pelo órgão ambiental na AIA, sempre que a ati-
vidade incorrer em risco de acidentes.

Devido a tais incertezas, na avaliação se majoram enormemente os dados de risco, com o objeti-
vo de cobrir estas lacunas. Desse modo, a vigilância contínua dos parâmetros do meio ambiente e
a avaliação dos ecossistemas, deverá formar parte integrante do sistema de análise do meio am-
biente. Isto é necessário para proporcionar um banco de dados e análises técnicas para avaliar
posteriormente as decisões específicas. A vigilância e a avaliação são essenciais para a redução
dos riscos e a tomada de decisão, quando se quer proteger e melhorar a qualidade do meio ambi-
ente.

16.6. CRITÉRIOS PARA ELABORAÇÃO DE ESTUDO DE IMPACTO AMBIENTAL

O estabelecimento de critérios para o EIA de uma atividade requer, em primeiro lugar, a defini-
ção de prioridades. Isto deverá ser feito a partir do conhecimento detalhado de todos os fatores
ambientais importantes da área em estudo, assim como do entorno, que poderá sofrer os efeitos
da implantação da atividade que ali se pretende instalar. Esses fatores deverão representar, não
apenas as condições biogeofísicas da área, mas também as sócio-econômicas e principalmente os
interesses da comunidade, que poderá ser beneficiada ou prejudicada pela implantação da ativi-
dade.

Outrossim, além de atender a legislação pertinente, o EIA deve obedecer às seguintes diretrizes
gerais:

♦ contemplar todas as alternativas tecnológicas e de localização do projeto, confrontando-as


com a hipótese de não execução do mesmo;
♦ identificar e avaliar os impactos ambientais gerados sobre a área de influência, nas fases de
implantação e operação da atividade;
3a Parte - Gestão do Meio Ambiente - 117

♦ analisar a compatibilidade do projeto com planos e programas de ação federal, estadual e mu-
nicipal, propostos ou em implantação na área de influência do projeto.

Finalmente, o EIA de uma atividade efetiva ou potencialmente modificadora do meio ambiente,


deverá ser efetuado tendo como base de referência os seguintes tópicos:

♦ descrição do projeto e suas alternativas;


♦ determinação da área de influência;
♦ diagnóstico ambiental da área de influência;
♦ identificação e estimativa dos impactos ambientais;
♦ estudo e definição de medidas mitigadoras;
♦ programa de gerenciamento.

16.6.1. DESCRIÇÃO DO PROJETO E SUAS ALTERNATIVAS

Consiste na descrição completa do projeto e suas alternativas tecnológicas e de localização, con-


tendo objetivos, justificativas, dados econômico-financeiros, localização, área de ocupação,
mão-de-obra, fluxo de insumos e produtos, lay-out, cronogramas, plantas, diagramas e quadros,
de modo a caracterizar o empreendimento, incluindo:

♦ na fase de construção: limpeza e preparação do terreno, remoção da vegetação, terraplana-


gem, movimentos de terra; demanda e origem da água e da energia; origem, tipos e estocagem
dos materiais de construção, incluindo jazidas; origem, quantidade e qualificação da
mão-de-obra;
♦ na fase de operação: processos de produção, insumos e produtos; origem, características, es-
tocagem e manipulação de matéria prima e combustíveis; informação sobre tipo e quantidade
de cada produto intermediário e final e subprodutos produzidos; transporte, armazenamento e
estocagem de produtos; características das emissões sólidas, líquidas e gasosas; sistemas de
tratamento, reciclagem, recuperação e disposição final das emissões sólidas, líquidas e gaso-
sas; origem, quantidade e qualificação do pessoal empregado na produção e administração;
riscos potenciais, ações e equipamentos de prevenção de acidentes.

16.6.2. DETERMINAÇÃO DA ÁREA DE INFLUÊNCIA DO PROJETO

Área de influência de um projeto é a área potencialmente afetada, direta ou indiretamente, pelas


ações a serem desenvolvidas nas fases de construção e operação de um projeto. A definição da
mesma deve ser acompanhada de justificativas e mapeamento, considerando bacias hidrográficas
completas, detalhando os sítios de localização do projeto e de incidência direta dos impactos.

16.6.3. DIAGNÓSTICO AMBIENTAL DA ÁREA DE INFLUÊNCIA

O diagnóstico ambiental consiste de uma atividade dentro do EIA, destinada a caracterizar a si-
tuação do meio ambiente na área de influência do projeto, antes da implantação do projeto, atra-
vés da completa descrição e análise dos fatores ambientais e suas interações. Deve descrever o
meio físico, biológico e antrópico.
118 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

♦ Meio físico: características geológicas, formação e tipo de solo; topografia, relevo, declivida-
de; recursos minerais e jazimentos fósseis; regime hidrológico e qualidade dos corpos d'água;
padrões de drenagem natural e artificial, lançamentos e tomadas de água; clima e qualidade do
ar; processos erosivos e sedimentológicos, estabilidade dos solos.
♦ Meio biológico: inventário de espécies características da fauna e flora natural; inventário de
espécies endêmicas, raras ou ameaçadas de extinção e de espécies migratórias; diversidade de
espécies; áreas de preservação permanente, unidades de conservação da Natureza e áreas pro-
tegidas por legislação especial; produtividade e estabilidade dos ecossistemas; áreas potenciais
de refúgio de fauna e flora.
♦ Meio antrópico: ocupação e uso do solo (processo histórico da ocupação, distribuição das
atividades, densidade demográfica, sistema viário, valor da terra, estrutura fundiária, etc.);
usos dos recursos ambientais (águas, florestas, solos, dependência local dos recursos, nível
de tecnologia, fontes de poluição); população (crescimento demográfico, estrutura da popu-
lação, distribuição espacial, mobilidade, escolaridade, nível de saúde, nível cultural); equi-
pamentos sociais (abastecimento d'água, sistema de esgotamento sanitário, disposição do li-
xo, logradouros, rede de saúde, rede escolar, rede de suprimentos, segurança, lazer, religião,
cemitérios, sítios e monumentos arqueológicos, culturais, cívicos e históricos, meios de
transporte); organização social (forças e tensões sociais, grupos e movimentos comunitários,
lideranças, forças políticas e sindicais atuantes, associações); estrutura produtiva (análise
dos fatores de produção, modificações havidas em relação à composição da produção local,
contribuição de cada setor, geração de empregos e nível tecnológico por setor, relações de
troca entre a economia local e a micro-regional, regional e nacional, incluindo a desativação
da produção local e importância relativa, consumo e renda "per capita").

16.6.4. IDENTIFICAÇÃO E ESTIMATIVA DOS IMPACTOS AMBIENTAIS

A identificação dos impactos ambientais se efetua mediante uma análise do meio e do projeto, e
é o resultado da consideração das interações possíveis. Esta fase do EIA compreende as seguintes
etapas:

♦ identificação e classificação dos impactos ambientais das ações do projeto e suas alternativas,
nas fases de construção e operação da atividade, destacando os impactos mais significativos a
serem pesquisados em profundidade e justificando os demais;
♦ previsão da magnitude dos impactos identificados, especificando os indicadores de impacto,
critérios, métodos e técnicas de previsão utilizados;
♦ atribuição do grau de importância dos impactos em relação ao fator ambiental afetado e em
relação à relevância conferida a cada um deles pelos grupos sociais afetados;
♦ prognóstico da qualidade ambiental da área de influência, nos casos de adoção do projeto e
suas alternativas e na hipótese de sua não implantação, determinando e justificando os hori-
zontes de tempo considerados;

16.6.5. ESTUDO E DEFINIÇÃO DE MEDIDAS MITIGADORAS

Neste ponto do EIA, deverão ser definidas medidas que visem minimizar os impactos negativos,
entre elas os equipamentos de controle e sistemas de tratamento de despejos, avaliando a eficiên-
cia de cada uma delas em relação aos padrões de qualidade ambiental e indicando os impactos
que não podem ser evitados ou mitigados.
3a Parte - Gestão do Meio Ambiente - 119

16.6.6. PROGRAMAS DE GERENCIAMENTO

Os programas de gerenciamento apresentam planos com cronograma de acompanhamento e mo-


nitoramento das medidas mitigadoras, nas diferentes fases do projeto, e devem incluir estratégias
para incrementar os impactos positivos identificados. O programa de monitoramento dos impac-
tos deve ser estabelecido por três razões principais:

♦ assegurar que os padrões ambientais legais não sejam ultrapassados;


♦ assegurar que as medidas mitigadoras sejam implementadas da maneira descrita no RIMA;
♦ possibilitar a detecção imediata dos danos ao meio ambiente, de forma que se possa agir no
sentido de prevenir ou reduzir a gravidade dos impactos indesejados.

16.7. RELATÓRIO DE IMPACTO AMBIENTAL - RIMA

O Relatório de Impacto Ambiental - RIMA refletirá as conclusões do estudo de impacto ambien-


tal e deverá ser apresentado de forma objetiva e adequada a sua compreensão, observando o con-
teúdo mínimo previsto no artigo 9o da Resolução CONAMA no 001/86. As informações devem
ser tratadas em linguagem acessível, ilustrada por mapas, cartas, quadros, gráficos e demais téc-
nicas de comunicação visual, de modo que se possam entender as vantagens e desvantagens do
projeto, bem como todas as conseqüências ambientais de sua implementação. A finalização do
relatório deve conter recomendações quanto à melhor alternativa para o empreendimento.

Todo o estudo de impacto ambiental é realizado por equipe multidisciplinar habilitada, que fica
com responsabilidade técnica dos resultados apresentados. Todas as despesas referentes ao EIA e
à elaboração do RIMA, são de responsabilidade do proponente do projeto, que deverá encami-
nhar no mínimo 5 cópias do RIMA ao órgão estadual competente, ou em caráter supletivo ao
IBAMA, para posterior apreciação.

Ainda que financiado pelo empreendedor, o RIMA é um documento público e suas cópias ficam
à disposição dos interessados nos centros de documentação ou bibliotecas do IBAMA ou do ór-
gão estadual, pois trata-se de peça fundamental para o licenciamento da atividade.

Ao receber o RIMA, o órgão ambiental determinará o prazo para recebimento dos comentários a
serem feitos pelos órgãos públicos e demais interessados, e sempre que julgar necessário ou
quando for solicitado pela comunidade, promoverá a realização de audiência pública para dis-
cussão do mesmo.

16.8. EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 16

1. Conceitue Impacto Ambiental.


2. O que você entende por um impacto ambiental direto, negativo, irreversível de curto prazo?
Dê exemplo.
3. Como pode ser definido impacto ambiental de um projeto?
4. Quais os objetivos da avaliação de impacto ambiental?
5. Liste 10 (dez) atividades modificadoras do meio ambiente que, segundo a Resolução
CONAMA no 001/86, ficam obrigadas a elaboração do EIA/RIMA.
120 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

6. Comente sobre as vantagens econômicas da AIA.


7. Enumere as principais causas de incertezas da AIA.
8. Quais os tópicos que devem ser abordados no EIA/RIMA?
9. Justifique a necessidade do estabelecimento de programa de monitoramento dos impactos
ambientais no RIMA.
10. Quem realiza, quem financia e quem avalia o EIA/RIMA?
3a Parte - Gestão do Meio Ambiente - 121

17. METODOLOGIAS DE AVALIAÇÃO DE


IMPACTOS AMBIENTAIS

I dentificar e quantificar os efeitos ambientais de projetos é tarefa complexa, pela diversidade


de impactos ambientais que podem ser causados pela interferência do homem no ambiente.
Assim sendo, as avaliações de impactos ambientais devem ser interdisciplinares, sistemáticas,
reproduzíveis e com um forte grau de organização e uniformidade. Devem considerar os sistemas
mais complexos possíveis. E, ainda que cada parte deva ser estudada por um especialista na ma-
téria, as interações entre as distintas partes devem ser o mais estreita e constante possível.

A identificação e avaliação de impactos requer a coleta e manipulação de grande quantidade de


dados e, o mais importante, a comunicação dos resultados finais do estudo para os que tomam as
decisões e para os membros do público, muitos dos quais provavelmente não são especialistas
em ciências ambientais. Para auxiliar a ultrapassar essas dificuldades, têm sido desenvolvidas
abordagens ou técnicas auxiliares, comumente chamadas de Metodologias ou Métodos de Avali-
ação de Impactos Ambientais - MAIA.

Entende-se por metodologia de avaliação de impactos ambientais um conjunto de normas e de


procedimentos que regem a realização de estudos de impacto sobre o meio ambiente. Existem
dois tipos de MAIA, a administrativa e a técnica. A metodologia administrativa refere-se aos
procedimentos gerais a aos trâmites legais e institucionais do processo. A metodologia técnica
refere-se aos meios e mecanismos de AIA específicos, alguns dos quais serão abordados neste
capítulo.

17.1. MÉTODOS APLICÁVEIS

Os métodos para avaliação de impactos ambientais variam segundo o fator ambiental considera-
do. Por exemplo, existem tecnologias muito adequadas e comprovadas para a predição dos im-
pactos sobre a qualidade do ar, no que diz respeito a calcular as concentrações de contaminantes
na atmosfera, porém em troca, os impactos na flora e na fauna destes contaminantes, ou seja, os
efeitos, não são tão facilmente quantificáveis. Portanto, é possível usar tecnologias comprovadas
em alguns casos, enquanto que em outros há que basear-se no julgamento e na experiência de
profissionais no campo.

As medodologias de avaliação têm que ser flexíveis, aplicáveis em qualquer fase do processo de
planejamento e desenvolvimento da atividade. Devem ser adequadas para poder efetuar uma aná-
lise global, sistemática e interdisciplinar do meio ambiente e de seus múltiplos componentes. E,
ainda, devem ser revisadas constantemente, em função dos resultados obtidos e da experiência
adquirida.

As AIA’s, conforme visto anteriormente, devem descrever a ação proposta, assim como outras
alternativas; predizer a natureza e magnitude dos impactos ambientais sobre o meio físico, bioló-
gico e antrópico, no entorno da obra; interpretar os resultados; prevenir os efeitos ambientais; e,
122 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

comunicar os resultados, de forma a ser entendido por aqueles que tomam a decisão e o público
interessado. Assim sendo, as metodologias devem envolver as seguintes atividades:

♦ identificação de impactos;
♦ previsão e medição de impactos;
♦ interpretação de impactos;
♦ identificação de medidas mitigadoras e dos requisitos de monitorização;
♦ comunicação aos usuários das informações sobre os impactos, tais como aos responsáveis pela
tomada de decisão e membros do público.

O significado destas atividades, pode ser entendido, tomando-se como exemplo um caso hipoté-
tico, de um país em desenvolvimento, que decidiu que os recursos florestais de uma certa região
deveriam ser explorados e que uma usina de celulose e papel fosse ali instalada, para promover o
crescimento econômico local e substituir as caras importações de papel. Consequentemente, um
certo local foi escolhido como a possível localização para a usina. Antes da decisão sobre o iní-
cio da construção, uma AIA tem que ser elaborada para avaliar as implicações ambientais do
projeto.

17.2. CLASSIFICAÇÃO DAS TÉCNICAS DE AIA

As técnicas de avaliação, segundo a função analítica que apresentam, podem ser divididas em:

♦ técnicas de identificação;
♦ técnicas de predição;
♦ técnicas de interpretação;
♦ técnicas de prevenção;
♦ técnicas de comunicação.

Dentre as metodologias conhecidas, algumas apenas identificam os impactos, outras são técnicas
de identificação e quantificação, outras são basicamente conhecidas como técnicas de comunica-
ção. Por outro lado, ao se abordar as muitas classificações dos diferentes métodos existentes, de-
ve-se ter em conta que nenhum está totalmente desenvolvido, nem resulta absolutamente idôneo
para um determinado projeto. Em todos os casos, tem-se que ajustar o modelo à complexa reali-
dade física e socio-econômica que apresenta uma dada localização. Assim é que quase sempre se
opera com uma metodologia "ad hoc".

Existem várias classificações para as metodologias de avaliação de impactos ambientais, o pre-


sente estudo segue a classificação adotada por Warner e Bormley (1974), que as dividiu em cinco
grupos. Acrescenta-se a estes um sexto grupo constituído pelos modelos de predição.

♦ Métodos " ad hoc ";


♦ Check list ou Listagem de controle;
♦ Matrizes;
♦ Sobreposição de mapas;
♦ Diagramas;
♦ Modelos de predição
3a Parte - Gestão do Meio Ambiente - 123

17.2.1. MÉTODOS "AD HOC" OU ESPONTÂNEOS

Compreendem técnicas rápidas de avaliação de impactos, desenvolvidas para projetos já defini-


dos, ou seja, o método é aplicado apenas para um caso específico, pela equipe solicitada para fa-
zer a avaliação. De um modo geral, estas técnicas não se prendem a métodos já definidos, mas
podem aproveitar idéias dos mesmos para elaborar uma informação qualitativa ampla para com-
paração de alternativas de localização ou de processos de operação de um dado empreendimento.

17.2.2. CHECK LIST OU LISTAGEM DE CONTROLE

É um método de identificação, utilizado principalmente para avaliações preliminares. Consiste de


uma lista de fatores ambientais que podem ser afetados pelo empreendimento, a ser utilizada para
uma avaliação rápida dos impactos ambientais do mesmo em uma determinada área. Através
dessas listas, os impactos ambientais são identificados de forma qualitativa para tipos específicos
de projetos, a fim de assegurar que todos os itens sejam considerados. Desse modo, elabora-se
uma lista para projetos de recursos hídricos, outra para projetos petroquímicos, etc.(Quadro
17.1).

Nas listas de checagem os impactos ambientais podem ser classificados como diretos/indiretos,
reversíveis/irreversíveis, etc. Devem ser acompanhadas de um texto que descreva detalhadamen-
te as possíveis variações dos fatores ambientais assinalados; este texto constitui o estudo de im-
pacto propriamente dito. Os impactos assinalados podem também ser valorados, e, sempre de
forma subjetiva, podem ainda ser ponderados entre si. Assim, as listas evoluem de listas simples
para listas descritivas, lista de verificação e escala e listas de verificação, escala e ponderação.
Vale lembrar mais uma vez que é um método de identificação qualitativo e, como tal, presta-se
muito bem para análises preliminares, com uma grande vantagem pois oferece a possibilidade de
cobrir ou identificar quase todas as áreas de impacto.

17.2.3. MATRIZES

As matrizes são técnicas de identificação de impactos ambientais, onde as colunas são constituí-
das por uma lista das ações do projeto e as linhas por fatores ambientais que podem ser afetados
por aquelas ações. O cruzamento das ações do projeto com os fatores ambientais da área, permite
a identificação das relações de causa-efeito, ou seja, dos impactos ambientais.

A matriz mais conhecida e utilizada no mundo inteiro é a Matriz de Leopold et al (1971), que na
sua composição original possui 88 linhas e 100 colunas, perfazendo um total de 8.800 interações.
Cada interação assinalada para um empreendimento corresponde a um impacto ambiental. Nessa
matriz, cada impacto assinalado é avaliado segundo a sua magnitude e grau de importância, re-
cebendo valores de 1 a 10. A magnitude tem caráter quantitativo e diz respeito a dimensão do
impacto sobre um setor específico do meio ambiente, por exemplo: a carga poluidora lançada no
rio. Deve ser precedida de sinal + ou -, segundo se trate de um efeito positivo ou negativo sobre o
ambiente. A importância, tem caráter qualitativo, é a medida do peso relativo que o fator ambi-
ental alterado tem dentro do projeto, por exemplo: a carga poluidora lançada considerando as
condições do rio e a freqüência com que ocorre. A matriz deverá ser acompanhada de um texto
que irá abordar os impactos mais significativos.
124 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Quadro 17.1: Check list para projetos industriais (PNUMA).


Possibilidades de emprego
Diversidade de empregos
Desenvolvimento de especialidades
Possibilidade de formação técnica
Transferência de tecnologia
Migração de população
Estrutura da população
Demanda de moradia
Equipamentos educacionais
Equipamentos médico-sanitários
Estrutura de salários
Distribuição da renda
Oportunidades empresariais
Serviços comerciais
Desenvolvimento dos recursos locais
Efeitos sobre a utilização das terras
Colheitas agrícolas
Granjas de gado/aves
Serviços de transporte
Valor das propriedades
Qualidade do ar
Qualidade das águas doces
Efeitos sobre a zona costeira
Emissões gasosas
Carga de efluentes
Eliminação de resíduos sólidos
Efeito sobre a fauna
Efeitos sobre a flora
Instalações e recursos recreativos
Níveis de ruído e vibrações
Qualidade visual e paisagem
Fonte: BOLEA, M. T. E.(1977).

A Matriz de Leopold tem aspectos bastante positivos, dentre os quais cabe destacar os poucos
requisitos necessários à sua aplicação e sua utilidade na definição de efeitos, pois contempla de
forma bastante completa os fatores físicos, biológicos e sociais envolvidos. Por outro lado, por
não haver critério único de valorização, pode-se dizer que a matriz de Leopold é um sistema um
tanto quanto subjetivo de avaliação. Não obstante, quanto mais multidisciplinar for a equipe ava-
liadora, mais próximo se estará de um nível objetivo de avaliação.

Na matriz de Leopold, apenas os impactos diretos podem ser identificados, não sendo possível
avaliar interações mais complexas e impactos indiretos. Como a variável tempo não é considera-
da, não é possível distinguir impactos imediatos daqueles de longo prazo, nem os temporários
3a Parte - Gestão do Meio Ambiente - 125

dos permanentes, reversíveis dos irreversíveis, etc.. Desse modo, surgiram as matrizes de intera-
ção onde os impactos podem ser interpretados segundo a sua natureza.

17.2.4. SOBREPOSIÇÃO DE MAPAS

A sobreposição de mapas constitui uma boa ferramenta de comunicação, sobretudo em estudos


do meio físico. Consiste na utilização de mapas onde a área afetada pelo projeto é dividida em
retículas. Obtém-se assim uma série de unidades geográficas e em cada uma delas se estuda os
impactos ambientais através de indicadores previamente estabelecidos. Utilizando-se de transpa-
rências, os resultados obtidos são assinalados nos mapas correspondentes. Sobrepõe-se depois os
resultados das distintas transparências e, tratando-se todas estas informações, chega-se as con-
clusões finais.

17.2.5. DIAGRAMAS / REDES DE INTERAÇÃO

São métodos que tratam da avaliação de impactos indiretos. São representações em forma de di-
agramas da sucessão de impactos, através de conexões entre os indicadores.

Proposto por Sorensen (1974), o método organiza uma seqüência de efeitos provocados por cada
ação do projeto - os impactos diretos. A partir da identificação dos impactos diretos, a cadeia ou
sucessão de impactos indiretos, seus respectivos efeitos e as medidas mitigadoras, são descritas
através de um fluxograma, ou seja, uma rede ou sistema de interação. Um exemplo da rede é
mostrado na figura 17.1.

Corrosão de materiais
Indústria SO2 Poluição do ar H2SO4 Efeitos sobre as plantas
Acidificação dos lagos

Problemas respiratórios
Redução da biodiversidade
do lago
Cardiopatias

Figura 17.1: Efeitos do lançamento de SO2 por uma indústria.

17.2.6. MODELOS DE PREDIÇÃO

A avaliação do impacto de poluentes na atmosfera e nas águas geralmente é feita utilizando-se


métodos de predição, os quais se baseiam em modelos de difusão desses poluentes no ar e nas
águas. Um modelo não é outra coisa que uma representação física ou matemática - ou no melhor
dos casos física-matemática -, que reproduz as características e condições ambientais de um e-
cossistema real, de modo que analisando esta informação e as interações, possamos chegar à
percepção de tal sistema frente às ações modificadoras impostas pelo homem. Teoricamente é o
melhor método, devido à sua capacidade de predição, porém é um método caro, que exige capa-
citação, tempo e muitos recursos.
126 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

17.3. EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 17

1. O que se entende por Metodologia de Avaliação de Impacto Ambiental?


2. Classifique as técnicas de AIA segundo a função analítica que apresentam.
3. Enumere as diferenças fundamentais entre os cinco grupos de MAIA classificados por Warner
e Bormley (1974).
4. Cite algumas vantagens e desvantagens das matrizes.
5. Em que consiste um modelo de predição de impacto ambiental ?
♦ Tomando como base os anexos D, E, F e G, responda as questões de 6 a 11.
6. Enumere algumas atividades poluidoras com os respectivos impactos ambientais identificados
na região nordeste.
7. Classifique os impactos enumerados no exercício número 6, usando a seguinte nomenclatura:
Positivo-P / Negativo-N; Direto-D / Indireto-I.
8. Escolha dois ecossistemas brasileiros e enumere as principais atividades poluidoras com seus
respectivos impactos na região.
9. Classifique os impactos enumerados no exercício número 8, usando a seguinte nomenclatura:
Curto Prazo-CP / Longo Prazo-LP; Reversível-R / Irreversível-RR.
10. Associe os impactos ambientais da construção de barragens às medidas mitigadoras.

Impactos Ambientais Medidas Mitigadoras


(01) Desagregação familiar. ( ) Faixa de proteção marginal do solo
do reservatório.
(02) Erosão do solo durante as obras. ( ) Levantamento de epidemias e con-
trole de endemias.
(03) Eutrofização da represa. ( ) Reflorestamento das margens.
(04) Aumento da salinidade da água do ( ) Preservação da vazão necessária
lago. aos usos a jusante.
(05) Poluição hídrica devido aos usos do ( ) Escolha de menor espelho d’água.
solo.
(06) Propagação de doenças. ( ) Remoção das edificações como
fossas, cemitérios, etc., antes da inunda-
ção.
(07) Destruição da mata ciliar ( ) Desmatamento da área inundável.
(08) Contaminação devido a materiais ( ) Controle do desmatamento durante
inundados (fossas). as obras.
(09) Inundação de áreas de valor afetivo ( ) Programa de reassentamento popu-
e histórico lacional.
(10) Mudanças hidrológicas e repercus- ( ) Relocação de cemitérios e monu-
sões sobre os usos. mentos históricos.

11. Construa uma matriz de impacto e identifique 10 impactos ambientais de um Projeto A-


gro-industrial, para produção de Álcool. Justifique os 5 impactos mais significativos.
♦ Ações previstas para o Projeto: desmatamento, queimada, imigração, abertura de estradas,
uso de agrotóxicos, transporte de empregados, transporte de cana, transporte de álcool, emis-
sões gasosas, efluentes líquidos, empregos e riscos de acidentes.
♦ Fatores Ambientais: qualidade do ar, qualidade da água, qualidade do solo, fauna nativa,
flora nativa, sistema viário, estrutura fundiária, desemprego, habitação e renda per capita.
3a Parte - Gestão do Meio Ambiente - 127

18. GERENCIAMENTO AMBIENTAL (ISO 14.000)

D urante os capítulos anteriores procurou-se entender o ambiente, definir os problemas am-


bientais identificando algumas soluções e como atuar, fazer algo que leve a melhorar a
situação. A ação com vistas a solução das questões ambientais é função dos órgãos gestores. As
ações gerenciais para resolver um problema consistem no estabelecimento de objetivos a cum-
prir, de um sistema a seguir e de uma estrutura organizacional para enfrentar a situação. Os obje-
tivos a cumprir foram definidos pela Lei do Meio Ambiente, no 6938/81 que trata da Política Na-
cional do Meio Ambiente. Esta, complementada por Decretos e Resoluções, define também o
sistema a seguir e estabelece a estrutura organizacional a nível de Poder Público. As ações am-
bientais também são gerenciadas pela comunidade, no momento em que ela exige um ambiente
sadio, estabelece restrições aos produtos ambientalmente nocivos e solicita audiência pública pa-
ra discussão das questões ambientais. E, nesse meio, encontra-se o empreendedor que deve satis-
fazer às exigências do Poder Público (Legislação Ambiental) e da comunidade.

Até recentemente as questões ambientais eram tratadas com regulamentação técnica, pela defini-
ção de padrões de qualidade e limites de emissões que deviam ser respeitados pelos geradores de
impactos ambientais. Atualmente, verifica-se uma tendência de utilização da proteção ambiental
como um fator de diferenciação de produtos, processos e serviços entre empresas e, com a globa-
lização, entre países. Tal tendência mundial passou a exigir uma avaliação mais sistemática das
questões ambientais, surgindo assim normas internacionais de gerenciamento ambiental - série
ISO 14.000. As normas dessa série tratam de uma abordagem sistêmica da gestão ambiental e
possibilitam a certificação de empresas e produtos que as cumpram.

18.1. ISO 14.000 - GESTÃO AMBIENTAL

A International Organization for Standardization - ISO, fundada em 1947, com sede na Suíça, é
uma organização não governamental que congrega os órgãos de normalização de mais de cem
países. O Brasil participa da organização através da ABNT - Associação Brasileira de Normas
Técnicas. A ISO busca normas de homogeneização de procedimentos, de medidas, de materiais
e/ou de uso que reflitam o consenso internacional em todos os domínios de atividade, com exce-
ção do campo eletro-eletrônico4.

A ISO 14.000 visa ser uma referência consensual para a gestão ambiental no mercado globali-
zado. Na sua concepção, a ISO 14.000 tem como objetivo central um Sistema de Gestão Ambi-
ental que auxilie as empresas a cumprirem suas responsabilidades com respeito ao meio ambien-
te. Em decorrência criam a certificação através de rótulos ecológicos, possibilitando identificar
aquelas empresas que atendem à legislação ambiental e cumprem os princípios do desenvolvi-
mento sustentável. A série ISO 14.000 pode ser resumida em seis grupos de normas divididos em
dois grandes blocos, um direcionado para o produto, outro para a organização (Figura 18.1).

4
Atribuição da International Eletrotechnical Commission - IEC.
128 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Avaliação da Organização
•Sistema de Gestão Ambiental
•Auditoria Ambiental
•Avaliação do Desempenho Ambiental
GESTÃO AMBIENTAL
ISO 14.000
Avaliação do Produto
•Rotulagem Ambiental
•Análise do Ciclo de Vida
•Aspectos Ambientais de Normas de Produtos

Figura 18.1: Organização da série ISO 14.000.

18.2. SISTEMA DE GESTÃO AMBIENTAL - SGA

Um sistema de gestão ambiental - SGA (ISO 14.001) - pode ser definido como um conjunto de
procedimentos para administrar uma organização, de forma a obter o melhor relacionamento com
o meio ambiente. A implantação do mesmo é feita em cinco etapas sucessivas. Todas essas eta-
pas buscam a melhoria contínua, ou seja, um ciclo dinâmico no qual está se reavaliando perma-
nentemente o sistema de gestão e procurando a melhor relação possível com o meio ambiente. A
figura 18.2 ilustra o modelo do SGA.

Etapa 1
Comprometimento e Definição da Política
Ambiental MELHORIA
CONTÍNUA

Etapa 2
Elaboração do Plano
• Aspectos ambientais e impactos associados
• Requisitos legais e corporativos Etapa 5
• Objetivos e metas Revisão do SGA
• Programa de gerenciamento ambiental

Etapa 3 Etapa 4
Implementação e Operação Monitoramento e Ações Corretivas
• Alocação de recursos • Medições periódicas
• Estrutura e responsabilidade • Ações corretivas e preventivas
• Conscientização e treinamento • Registros das anormalidades
• Comunicações • Auditorias do sistema de gestão
• Documentação do sistema de gestão
• Controle operacional e emergencial

Figura 18.2: Representação dos elementos do SGA.


3a Parte - Gestão do Meio Ambiente - 129

18.3. AUDITORIA AMBIENTAL

A auditoria ambiental é um instrumento de gestão que permite fazer uma avaliação sistemática,
periódica, documentada e objetiva dos sistemas de gestão e do desempenho ambiental de empre-
sas, para fiscalizar e limitar o impacto de suas atividades sobre o meio ambiente. Ela pode ser
voluntária, por decisão da empresa de conformidade com a sua Política Ambiental ou imposta
por legislação local. Pode ainda ser interna, realizada pelo pessoal da própria empresa, de forma
rotineira, como parte de sua Política Ambiental , ou externa, realizada por empresas especializa-
das, quando houver motivos legais que a justifiquem.

O objetivo básico da auditoria ambiental é avaliar o grau de conformidade do estabelecimento


com a legislação ambiental e com a Política Ambiental da empresa, incorporada ao seu SGA. Os
três alvos fundamentais de investigação são: a situação do licenciamento, a competência para
controle dos riscos ambientais e a confiabilidade do monitoramento realizado.

18.4. AVALIAÇÃO DO DESEMPENHO AMBIENTAL

Entende-se por desempenho ambiental o estágio alcançado por uma organização no trato das re-
lações entre todos os aspectos das suas atividades e seus riscos e efeitos ambientais significantes.
A avaliação de desempenho ambiental - ADA - é um processo para medir, analisar, avaliar e
descrever o desempenho ambiental de uma organização contra um determinado critério acorda-
do, visando ao gerenciamento apropriado. O processo é desenvolvido com base em indicadores
de desempenho ambiental - IDA - em cada área de avaliação - sistema de gestão, sistema opera-
cional e meio ambiente.

O processo pode ser utilizado pelo gerenciamento de uma organização com diversos propósitos,
dentre os quais destacam-se:

♦ medir, avaliar e analisar o desempenho ambiental;


♦ aprimorar e corrigir o desempenho ambiental;
♦ para melhorar a compreensão dos efeitos ambientais das atividades da organização;
♦ contribuir para a constante identificação e priorização de políticas ambientais;
♦ demonstrar conformidade;
♦ comunicar para as partes interessadas internas e externas;
♦ avaliar riscos ambientais.

18.5. ROTULAGEM AMBIENTAL

A rotulagem ambiental da série ISO 14.000 consiste em normas para disciplinar o uso de selos e
mensagens relacionadas ao meio ambiente, contidas nos produtos ou nas respectivas embalagens.
Os “selos verdes” em uso desde o final da década de setenta por alguns países, passaram a identi-
ficar produtos e, consequentemente, prestigiar empresas que segundo os seus outorgantes, não
causariam danos ao meio ambiente. A regulamentação do seu uso através de normas internacio-
nais visa homogeneizar a linguagem e o seu uso no tempo da globalização.
130 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

O “selo” é definido como uma afirmação que indica os atributos ambientais de um produto ou
serviço, podendo ter a forma de proclamações, símbolos, gráficos, etc. O mesmo tem por objeti-
vo comunicar, de forma verificável, acurada e não enganosa, os aspectos ambientais de produtos
e serviços, com vistas a encorajar a demanda daqueles que causam menor pressão sobre o meio
ambiente. A seguir, exemplos de selos já em uso no mercado mundial.

Blue Angel, implementado na Alemanha em 1977. Marca registrada no Ministério


do Meio Ambiente alemão, administrada por três agências alemães. É o selo mais
empregado em todo o mundo, certificando mais de 3.000 produtos, considerados
ambientalmente sadios, em várias linhas.

Environmental Choice, implementado no Canadá em 1988, pelo ECP - Envi-


ronmental Choice Programme, do Ministério do Meio Ambiente Canadense. Al-
guns produtos já certificados: detergentes, fraldas, baterias, material de constru-
ção, utilidades e aquecedores domésticos, lâmpadas, lenços de papel reciclado,
embalagens comerciais, tinta à base de água, produtos de plástico reciclado,
combustíveis.

Eco Mark, implementado no Japão em 1989. É concedido pelo JEA - Associação


Japonesa de Meio Ambiente. Alguns produtos já certificados: detergentes, produ-
tos de plástico, tintas, baterias, pesticidas, artigos eletrônicos, sprays aerosol, frutas
processadas, comidas para crianças, aditivos alimentares, óleos lubrificantes.

18.6. ANÁLISE DO CICLO DE VIDA

O ciclo de vida compreende estágios interligados e consecutivos de um sistema de produtos ou


serviços, desde a extração dos recursos naturais - ‘berço’- até a disposição final - ‘túmulo’(Figura
18.3). Este grupo de normas da série ISO 14.000 estabelece padrões e procedimentos para avali-
ação “do berço-ao-túmulo” dos impactos de produtos ou serviços.

1.Marketing

8.Disposição Final 2.Desenv. de Processos

7.Consumo do Produ- 3.Matérias-Primas


to

6.Distribuição 4.Proces. de Produção

5.Embalagens

Figura 18.3: Ciclo de vida do produto.


3a Parte - Gestão do Meio Ambiente - 131

18.7. ASPECTOS AMBIENTAIS DE NORMAS DE PRODUTOS

Qualquer produto produz algum efeito sobre o meio ambiente durante seu ciclo de vida. Estes
efeitos podem variar de leves a insignificantes; de curto ou longo prazo e podem ocorrer nos ní-
veis local, regional ou global. Precauções nas normas de produtos podem influenciar significati-
vamente a extensão de tais efeitos ambientais. Este grupo de normas apresenta:

♦ considerações gerais que devem ser levadas em conta quando do desenvolvimento do produto,
a fim de alcançar o desempenho pretendido com redução dos efeitos adversos sobre o meio
ambiente;
♦ descreve os meios pelos quais os dispositivos das normas e produtos podem afetar o meio
ambiente, durante os estágios do ciclo de vida do produto;
♦ oferece descrição de metodologias científicas para avaliação dos efeitos ambientais dos dispo-
sitivos das normas de produtos; e
♦ evidencia estratégia para aprimorar o desempenho ambiental.

A ISO 14.000 se aplica a qualquer tipo de empreendimento ou organização, por exemplo, um


negócio, uma empresa, um órgão governamental, uma instituição de caridade ou sociedade, etc.,
dos mais diversos portes e nas mais diferentes condições sociais, culturais, e geográficas. Com a
ISO 14.000, empresas localizadas em países diferentes, participam de um sistema único de certi-
ficação, o qual deixa de ser barreira para o comércio internacional. Tem caráter voluntário, mas é
de se esperar que, com o aumento do grau de informação dos consumidores, muitas empresas
optem pela norma ambiental, que sem dúvida será decisória na competitividade.

18.8. ECOPRODUTOS E O CONSUMIDOR ‘VERDE’

A aplicação da ISO 14.000 reforça a presença de ecoprodutos no mercado. Os ecoprodutos ou


produtos ‘verdes’ refletem um novo paradigma de consumo, contrário à mentalidade de uso e
descarte de produtos, e, em particular, de produtos descartáveis. Segundo Simon (1992)5, eco-
produto é aquele que apresenta as seguintes características:

♦ reduzido consumo de matérias-primas e elevado índice de conteúdo reciclável;


♦ produção não poluidora e matérias não tóxicas;
♦ não realiza testes desnecessários com animais e cobaias;
♦ não produz impacto negativo ou danos a espécies em extinção ou ameaçadas de extinção;
♦ tem baixo consumo de energia durante seu ciclo de vida;
♦ a embalagem é mínima ou nula;
♦ possibilita o reuso ou reabastecimento;
♦ tem período longo de uso, permitindo atualizações;
♦ permite a coleta e desmontagem após o uso;
♦ possibilita remanufatura ou reutilização;

5
Gestão Ambiental: compromisso da empresa, encarte da Gazeta Mercantil, São Paulo, 1996.
132 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

O consumidor de ecoprodutos ou consumidor ‘verde’ é aquele que incorpora a qualidade ao pre-


ço ambiental relativo aos impactos ambientais do ciclo de vida do produto. Segundo Elkington,
Hailes e Makowwer (1988)6, o consumidor verde é aquele que tem o seguinte comportamento:

♦ busca a qualidade evitando produtos com impactos ambientais negativos;


♦ recusa os produtos derivados de espécies em extinção ou ameaçadas de extinção;
♦ observa os certificados de origem e os selos verdes;
♦ leva em conta a biodegradabilidade do produto;
♦ escolhe produtos isentos de alvejantes e corantes;
♦ admite sobrepreço relativo à qualidade ambiental do produto;
♦ não compra produtos com empacotamento excessivo;
♦ prefere produtos com embalagem reciclável e/ou retornável; e
♦ evita produtos com embalagem não biodegradável.

18.9. EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO 18

1. O que significa ISO e quais são os seus objetivos?


2. O que trata a série ISO 14.000?
3. Enumere as etapas do SGA.
4. Conceitue auditoria ambiental.
5. Para que serve o selo verde?
6. O que significa o termo “do berço-ao-túmulo”?
7. Enumere as etapas do ciclo de vida de um produto.
8. Que são ecoprodutos?
9. Enumere cinco características de um consumidor ‘verde’.

6
Gestão Ambiental: compromisso da empresa, encarte da Gazeta Mercantil, São Paulo, 1996.
APÊNDICE

APÊNDICE A
RESUMO DA AGENDA 21

CAPÍTULO 1 – Preâmbulo.

Seção 1 – DIMENSÕES SOCIAIS E ECONÔMICAS

CAPÍTULO 2 – Cooperação internacional para acelerar o desenvolvimento sustentável dos paí-


ses em desenvolvimento e políticas internas correlatas.

CAPÍTULO 3 – Combate à pobreza.

CAPÍTULO 4 – Mudança dos padrões de consumo.

CAPÍTULO 5 – Dinâmica demográfica e sustentabilidade.

CAPÍTULO 6 – Proteção e promoção das condições da saúde humana.

CAPÍTULO 7 - Promoção do desenvolvimento sustentável dos assentamentos humanos.

CAPÍTULO 8 - Integração entre meio ambiente e desenvolvimento na tomada de decisões.

Seção II – CONSERVAÇÃO E GESTÃO DOS RECURSOS


PARA O DESENVOLVIMENTO

CAPÍTULO 9 – Proteção da atmosfera.

CAPÍTULO 10 – Abordagem integrada do planejamento e gerenciamento dos recursos terres-


tres.

CAPÍTULO 11 – Combate ao desflorestamento.

CAPÍTULO 12 – Manejo de ecossistemas frágeis: luta contra a desertificação e a seca.

CAPÍTULO 13 – Gerenciamento de ecossistemas frágeis: desenvolvimento sustentável das


montanhas.
134 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

CAPÍTULO 14 – Promoção do desenvolvimento rural e agrícola sustentável.

CAPÍTULO 15 – Conservação da diversidade biológica.

CAPÍTULO 16 – Manejo ambientalmente saudável da biotecnologia.

CAPÍTULO 17 – Proteção de oceanos, de todos os tipos de mares – inclusive mares fechados e


semifechados – e de zonas costeiras, e proteção, uso racional e desenvolvimento de seus recursos
vivos.

CAPÍTULO 18 – Proteção da qualidade e do abastecimento dos recursos hídricos: aplicação de


critérios integrados no desenvolvimento, manejo e uso dos recursos hídricos.

CAPÍTULO 19 – Manejo ecologicamente saudável das substâncias químicas tóxicas, incluída a


prevenção do tráfico internacional ilegal dos produtos tóxicos e perigosos.

CAPÍTULO 20 – Manejo ambientalmente saudável dos resíduos perigosos, incluindo a preven-


ção do tráfico internacional ilícito de resíduos perigosos.

CAPÍTULO 21 – Manejo ambientalmente saudável dos resíduos sólidos e questões relacionadas


com esgotos.

CAPÍTULO 22 – Manejo seguro e ambientalmente saudável dos resíduos radioativos.

Seção III – FORTALECIMENTO DO PAPEL


DOS GRUPOS PRINCIPAIS

CAPÍTULO 23 – Preâmbulo.

CAPÍTULO 24 – Ação mundial pela mulher, com vistas a um desenvolvimento sustentável e-


qüitativo.

CAPÍTULO 25 – A infância e a juventude no desenvolvimento sustentável.

CAPÍTULO 26 – Reconhecimento e fortalecimento do papel das populações indígenas e suas


comunidades.

CAPÍTULO 27 – Fortalecimento do papel das organizações não-governamentais: parceiros para


o desenvolvimento sustentável.

CAPÍTULO 28 – Iniciativas das autoridades locais em apoio à Agenda 21.

CAPÍTULO 29 – Fortalecimento do papel dos trabalhadores e de seus sindicatos.

CAPÍTULO 30 – Fortalecimento do papel do comércio e da indústria.

134
Apêndice -135

CAPÍTULO 31 – A comunidade científica e tecnológica.

CAPÍTULO 32 – Fortalecimento do papel dos agricultores.

Seção IV – MEIOS DE IMPLEMENTAÇÃO

CAPÍTULO 33 – Recursos e mecanismos de financiamento.

CAPÍTULO 34 – Transferência de tecnologia ambientalmente saudável, cooperação e fortale-


cimento institucional.

CAPÍTULO 35 – A ciência para o desenvolvimento sustentável.

CAPÍTULO 36 – Promoção do ensino, da conscientização e do treinamento.

CAPÍTULO 37 – Mecanismos nacionais e cooperação internacional para fortalecimento institu-


cional nos países em desenvolvimento.

CAPÍTULO 38 – Arranjos institucionais internacionais.

CAPÍTULO 39 – Instrumentos e mecanismos jurídicos internacionais.

CAPÍTULO 40 – Informação para a tomada de decisões.

135
136 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

APÊNDICE B
LEGISLAÇÃO FEDERAL BÁSICA

♦ Decreto-Lei no 24.043 de 10.07.34: Código das Águas;


♦ Lei no 4.504 de 30.11.64: Estatuto da Terra;
♦ Lei no 4.771 de 15.09.65: Código Florestal;
♦ Decreto-Lei no 227 de 28.02.67: Código de Mineração;
♦ Lei no 5.197 de 03.10.67: Código de Caça;
♦ Decreto-Lei no 221 de 28.02.67: Código de Pesca;
♦ Decreto no 73.030 de 30.10.73: cria a Secretaria Especial do Meio Ambiente - SEMA;
♦ Decreto-Lei no 1.413 de 14.08.75: dispõe sobre o controle da poluição ambiental provocada
por atividades industriais;
♦ Decreto no 76.396 de 03.10.75: dispõe sobre medidas de prevenção e controle da poluição in-
dustrial;
♦ Lei no 6.766 de 19.112.79, dispõe sobre o parcelamento do solo urbano;
♦ Lei no 6.902 de 27.04.81: dispõe sobre a criação de estações ecológicas e áreas de proteção
ambiental;
♦ Lei no 6.938 de 31.08.81: dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente;
♦ Decreto no 88.351 de 01.06.83: regulamenta as Leis 6.938/81 e 6.902/81 e dá outras providên-
cias;
♦ Resolução CONAMA no 001 de 23.01.86: estabelece as definições, as responsabilidades, os
critérios básicos e as diretrizes gerais para avaliação de impactos ambientais;
♦ Resolução CONAMA no 018 de 06.05.86: institui o Programa de Controle da Poluição do Ar
por Veículos Automotores - PROCONVE;
♦ Resolução CONAMA no 020 18.06.86, dispõe sobre a classificação das águas doces, salobras
e salinas do território nacional;
♦ Resolução CONAMA no 009 de 03.12.87: regulamenta a questão de Audiências Públicas;
♦ Lei no 7.802 de 11.08.89, dispõe sobre agrotóxicos, seus componentes e afins;
♦ Lei no 7.804 de 18.07.89: altera a Lei no 6.938/81 e dá outras providências;
♦ Lei no 8.028 de 12.04.90: altera as Leis 6.938/81 e 7.804/89;
♦ Resolução CONAMA no 001 de 08.03.90: estabelece as normas a serem obedecidas, em nível
nacional, no tocante à emissão de ruídos em decorrência de quaisquer atividades;
♦ Resolução CONAMA no 002 de 08.03.90: institui o Programa Nacional de Educação e Con-
trole da Poluição Sonora - Programa SILÊNCIO;
♦ Resolução CONAMA no 003 de 26.06.90: estabelece os padrões nacionais de qualidade do ar;
♦ Decreto no 99.274 de 06.06.90: regulamenta a Lei no 6.938/81, revogando dentre outros o De-
creto no.88.351/83;
♦ Lei no 3.160 de 26.09.92: dispõe sobre a obrigatoriedade da realização de audiências públicas;
♦ Lei no 8.490 de 19.11.92: altera as Leis 6.938/81, 7.804/89 e 8.028/90;
♦ Resolução CONAMA no 020 de 07.12.94: institui o Selo Ruído de uso obrigatório em apare-
lhos eletrodomésticos;
♦ Lei no 9.433 de 08.01.97: dispõe sobre a Política Nacional de Recursos Hídricos.

136
Apêndice -137

APÊNDICE C
ÓRGÃOS DE MEIO AMBIENTE

Acre:
♦ Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Acre, Rio Branco, AC, fone: (068) 224-2851/5694.
♦ Fundação S.O.S Amazônia, Rio Branco, AC, fone: (068) 224-9901/0866.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis – IBA-
MA-AC, Rio Branco, AC.

Alagoas:
♦ Conselho Estadual de Proteção Ambiental – CEPRAM, Maceió, AL, fone: (082) 221-7239.
♦ Instituto de Meio Ambiente de Alagoas – IMA, Maceió, AL, fone: (082) 221-7239.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis – IBA-
MA-AL, Maceió, AL, fone: (082) 241-1912/1600/3980.

Amapá:
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis – IBA-
MA-AP, Macapá, AP.
♦ Coordenadoria Estadual do Meio Ambiente - CEMA/Macapá, AP, fone: (096) 223-3444.

Amazonas:
♦ Instituto do Meio Ambiente do Amazonas, Manaus, AM, fone: (092) 236-2574/2844.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis – IBA-
MA-AM, Manaus, AM, fone: (092) 237-3710/3718/3721.
♦ Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia – INPA, Manaus, AM, fone: (092) 236-
9400/9050.

Bahia:
♦ Conselho Estadual de Planejamento e Meio Ambiente da Bahia, Salvador, BA, fone: (071)
321-7539.
♦ Centro de Recursos Ambientais – CRA, Salvador, BA, fone: (073) 226-0000 / 321-7191.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis – IBA-
MA-BA, Salvador, BA.

Ceará:
♦ Concelho Estadual do Meio Ambiente - COEMA/Fortaleza, CE, fone: (085) 231-8118
♦ Secretaria Estadual do Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente do Ceará, Fortaleza, CE,
fone: (085) 274-1171/1178.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis - IBA-
MA-CE, Fortaleza, CE, fone: (085) 272-1600.

Distrito Federal:
♦ Secretaria do Meio Ambiente, Ciências e Tecnologia do Governo do Distrito Federal - SE-
MATEC, Brasília, DF, fone: (061) 225-8314.
♦ Instituto de Ecologia e Meio Ambiente do Distrito Federal, Brasília, DF, fone: (061) 322-
2464.

137
138 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

♦ Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal,Brasília, DF, fo-
ne: (061) 322-8239/7819.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis - IBA-
MA-DF, Brasília, DF, fone: (061) 226-8221/8492/8770.

Espírito Santo:
♦ Conselho Estadual de Meio Ambiente – COSEMA, Vitória, ES, fone: (027) 222-7806.
♦ Secretaria do Estadual para Assuntos do Meio Ambiente – SEAMA, Vitória, ES, fone: (027)
223-4022/222-8303.
♦ Associação Capixaba de Preservação do Meio Ambiente – ACAPEMA, Vitória, ES, (027)
222-5166.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis – IBA-
MA-ES, Espírito Santo, ES.

Goiás:
♦ Secretaria Estadual de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente de Goiás, Goiânia, GO,
fone: (062) 291-3031/1703/223-3679.
♦ Fundação Estadual do Meio Ambiente de Goiás – FEMAGO, Goiânia, GO, fone: (062) 261-
2780.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis – IBA-
MA-GO, Goiânia, GO.

Maranhão:
♦ Conselho Estadual do Meio Ambiente – CENAMA, São Luís, MA, fone: (098) 235-1511.
♦ Secretaria Estadual de Minas, Energia e Meio Ambiente do Estado do Maranhão – SNEMA,
São Luís, MA, fone: (098) 221-1680/222-7182.
♦ Fórum Permanente de Defesa do Meio Ambiente, São Luís, MA.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis – IBA-
MA-MA, São Luís, MA.

Mato Grosso:
♦ Secretaria Estadual do Meio Ambiente de Mato Grosso, Cuiabá, MT, fone: (065) 313-3296.
♦ Sociedade Cuiabana de Proteção ao Meio Ambiente, Cuiabá, MT.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis – IBA-
MA-MT, Cuiabá, MT.

Mato Grosso do Sul:


♦ Conselho Estadual de Controle Ambiental - CECA/Campo Grande, MS, fone: (067) 382-
0681.
♦ Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso do Sul, Campo Grande,
MS, fone: (067) 726-4363/4362/4045.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis – IBA-
MA-MS, Campo Grande, MS.

Minas Gerais:
♦ Fundação Estadual do Meio Ambiente de Minas Gerais – FEAM, Belo Horizonte, MG, fone:
(031) 344-6222.

138
Apêndice -139

♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis, IBA-
MA-MG, Belo Horizonte, MG, fone: (031) 337-2624/335-6611.
Pará:
♦ Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia – SUDAM, Belém, PA, fone: (091) 226-
0004/0834/0634.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis, IBA-
MA-PA, Belém, PA, fone: (091) 224-5998/241-2621/9030.

PARAÍBA:
♦ Conselho de Proteção Ambiental – COPAM, João Pessoa, PB, fone: (083) 241-2555.
♦ Superintendência de Administração do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos - SUDEMA,
João Pessoa, PB, fone: (083) 222-4663/3149, fax: (083) 222-3652.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis – IBA-
MA-PB, João Pessoa, PB, fone: (083) 244-4100/2720/1626/4849.

Paraná:
♦ Conselho Estadual de Meio Ambiente – CEMA, Curitiba, PR, fone: (041) 225-3411.
♦ Secretaria de Estado do Meio Ambiente, Curitiba, PR, fone: (041) 322-1611.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis, IBA-
MA-PR, Curitiba, PR, fone: (041) 254-7344/4999/222-3092/2336972.
♦ Superintendência dos Recursos Hídricos e do Meio Ambiente – SURHEMA, Curitiba, PR,
fone: (041) 225-3411.
♦ Serviço Especial de Defesa ao Meio Ambiente - SEDMA/Curitiba, PR, fone: (041) 252-8431.

Pernambuco:
♦ Companhia Pernambucana de Meio Ambiente – CPRH, Recife, PE, fone: (081) 441-5877.
♦ Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia do Meio Ambiente de Pernambuco, Recife, PE,
fone/fax: (081) 268-0339/441-4134.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis – IBA-
MA-PE, Recife, PE.

Piauí:
♦ Secretaria Estadual do Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia e Desenvolvimento Urbano do
Piauí, Teresina, PI, fone: (086) 222-8000/8019/223-6510.
♦ Fundação Ecológica de Piripiri – FUNEP, Teresina, PI, fone: (086) 276-1269.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis – IBA-
MA-PI, Teresina, PI.
Rio de Janeiro:
♦ Conselho Estadual de Meio Ambiente – CONEMA, Rio de Janeiro, RJ, fone: (021) 262-9338.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis, IBA-
MA-RJ, Rio de Janeiro, RJ, fone: (021) 224-3242/231-0352/221-5245.
♦ Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente – FEEMA, Rio de Janeiro, RJ, fone:
(021) 234-0731/3681/580-9439.
Rio Grande do Norte:
♦ Conselho Estadual de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente - CECTEMA/Natal, RN, fone:
(084) 231-6946.
♦ Coordenadoria do Meio Ambiente do Estado do Rio Grande do Norte, Natal, RN, fone: (084)
231-6946.

139
140 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis – IBA-
MA-RN, Natal, RN.
Rio Grande do Sul:
♦ Secretaria Estadual do Meio Ambiente de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, fone: (0512) 34-
8288.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis, IBA-
MA-RS, Porto Alegre, RS, fone: (0512) 25-2964/25-2594/25-2647.

Rondônia:
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis, IBA-
MA-RO, Porto Velho, RO, fone: (069) 223-3607/3598/3599.
♦ Secretaria do Estadual Extraordinária de Meio Ambiente e Garimpagem de Rondônia, Porto
Velho, RO, fone: (069) 223-2921/1308.

Roraima:
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis, IBA-
MA-RR, Boa Vista, RR, fone: (095) 224-4011/4921.
♦ Fundação de Meio Ambiente e Tecnologia de Roraima, Boa Vista, RR.

Santa Catarina:
♦ Conselho Estadual de Tecnologia e Meio Ambiente, Florianópolis, SC, fone: (0482) 23-6813.
♦ Fundação de Amparo à Tecnologia e ao Meio Ambiente – FATMA, Florianópolis, SC, fone:
(0482) 22-8299.
♦ Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente - SEDUMA/Florianópolis, SC, fo-
ne: (0482) 23-6813.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis, IBA-
MA- SC, Florianópolis, SC, fone: (0482) 23-3465/22-6541/22-6077.

São Paulo:
♦ Conselho Estadual do Meio Ambiente - COSEMA/São Paulo, SP, fone: (011) 883-3482 -
Ramais 201/204.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis, IBA-
MA-SP, São Paulo, SP, fone: (011) 881-8752/8599/883-1300.
♦ Companhia Estadual de Tecnologia, Saneamento Básico e Defesa do Meio Ambiente - CE-
TESB/São Paulo, SP, fone: (011) 210-1100.
Sergipe:
♦ Conselho Estadual de Meio Ambiente, Aracaju, SE, fone: (079) 224-7959.
♦ Secretaria Estadual da Indústria, Comércio, Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Sergipe,
Aracaju, SE, fone: (079) 224-7959/1696.
♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis – IBA-
MA-SE, Aracaju, SE.

Tocantins:
♦ Fundação Natureza de Tocantins – NATURANTINS, Miracema, TO, fone: (063) 214-1765.
♦ Associação de Conservação do Meio Ambiente e Produção Integrada de Alimentos da Ama-
zônia, Palmas, TO, fone: (063) 214-1948.
♦ Assessoria Especial para Defesa da Ecologia e do Meio Ambiente, Palmas, TO.

140
Apêndice -141

♦ Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Recursos Naturais Renováveis – IBA-
MA-TO, Palmas, TO.

141
142 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

APÊNDICE D
PRINCIPAIS IMPACTOS AMBIENTAIS NA REGIÃO NORDESTE

Atividade Local Tipos de Degradação

• Agroindústria • Pernambuco, Alagoas, • Ocupam as áreas agrícolas mais fér-


de Açúcar e Paraíba e Rio Grande do teis, competindo com a cultura de a-
Álcool Norte. limentos, provocando o êxodo rural;
• Destruição de imensas áreas de ve-
getação nativa para plantação da mo-
nocultura de cana;
• Poluição das águas de interiores,
costeiras e subterrâneas;
• Exaustão do solo;
• Problemas sociais devido aos lati-
fúndios.
• Pólos Indus- • Bahia (Polo Petroquímico • Poluição do ar, água e solo;
triais e Grandes de Camaçari e Centro Indus- • Ameaça os ecossistemas litorâneos:
Indústrias. trial de Aratu), Sergipe (Ni- manguezais e restingas;
trofértil e Petronisa), Alago- • Conflito industrial x turismo x pesca
as (Polo Cloroquímico e x lazer.
Salgema), Maranhão (Indús-
trias de Alumínio ).
• Expansão • Todo o litoral do Nordes- • Degradação de ecossistemas litorâ-
urbana desor- te, com destaque para as neos: praias, dunas e mangues;
denada em á- regiões mais próximas das • Degradação da paisagem;
reas naturais do capitais nordestinas locali- • Impactos negativos em atividades
litoral e especu- zadas no litoral. econômicas como turismo e pesca.
lação imobiliá-
ria.
• Atividade • Pernambuco (Porto de Su- • Poluição das águas costeiras;
Portuária. ape e Capibaribe), Rio • Impactos sobre áreas urbanas;
Grande do Norte (Porto de • Risco de acidentes;
Natal , Piauí (Luiz Corrêa e • Poluição atmosférica.
Parnaíba), Maranhão (Ter-
minal da ALCOA, Terminal
Pesqueiro e Porto de Itaqui),
Ceará (Mucuripe) e Bahia
(Porto de Salvador, Ilhéus e
Aratú).
• Pesca Exces- • Em todo litoral Nordestino • Esgotamento dos estoques pesquei-
siva principalmente nos estados ros, principalmente de peixes de mai-
do Ceará, Pernambuco e or valor econômico;
Alagoas. • Desequilíbrio ecológico da biota
marinha;
• Impactos negativos: sócio-
econômicos e culturais;

142
Apêndice -143

• Grandes Lati- • Maranhão, Piauí, Paraíba, • Destruição da vegetação nativa;


fúndios. Rio Grande do Norte e Ba- • Poluição por agrotóxicos (aplica-
hia. ções maciças com uso de aviões);
• Controle dos recursos naturais por
grandes grupos econômicos, tais co-
mo os recursos hídricos (barragens,
açudes) e terras férteis (Zona da Ma-
ta);
• Êxodo rural para as capitais nordes-
tinas e de outras regiões;
• Desertificação de grandes áreas do
semi-árido .
• Piscicultura e • Rio Grande do Norte, Pa- • Destruição de Manguezais (aterros,
Salinas raíba, Pernambuco e Mara- terraplanagens e drenagens);
nhão. • Concentração de grandes áreas da
União sob o domínio de poucas gran-
des empresas (latifúndios litorâneos);
• Impactos na vida marinha e na pes-
ca.
• Siderúrgicas, • Rio Grande do Norte (Ser- • Corte da vegetação nativa para pro-
Olarias e outras ra da Formiga). dução de lenha e carvão vegetal;
Indústrias; Pro- • Desertificação do semi-árido;
dução de car- • Êxodo rural para as capitais e cida-
vão vegetal, des litorâneas e para outras regiões do
com exploração país, tradicionalmente o Sudeste e
da vegetação atualmente o Norte, contribuindo para
nativa. o aumento de conflitos sociais, eco-
nômicos e financeiros.
• Prospecção e • Rio Grande do Norte. • Contaminação dos lençóis de água
Exploração de subterrâneos;
combustíveis • Contaminação de cursos de água
fósseis: petró- superficiais;
leo e gás natu- • Desmatamento de áreas naturais.
ral.
Fonte: CIMA, O Desafio do Desenvolvimento Sustentável, 1991.

143
144 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

APÊNDICE E
IMPACTOS AMBIENTAIS POR ECOSSISTEMAS BRASILEIROS

Ecossistema Atividades Impactos Ambientais

• Floresta A- • Grandes projetos agrope- • Assoreamento dos rios; contamina-


mazônica. cuários e minerais; usinas ção dos rios por mercúrio; inundação
hidrelétricas; construção de de áreas de florestas e de áreas indí-
estradas; indústria de alumí- genas; destruição do hábitat de plan-
nio e de ferro-gusa; garim- tas e animais; conflitos de terras; vio-
pos; concentrações fundiá- lência; invasão de áreas indígenas.
rias; desmatamentos; quei-
madas.
• Pantanal • Agropecuária extensiva • Erosão dos solos; desertificação;
com utilização de agrotóxi- assoreamento dos cursos de água; i-
cos; agroindústrias (usinas nundações; contaminação de solos e
de álcool); extração de cal- rios com agrotóxicos.
cário; serrarias; carvoejari-
as; matadouros; desmata-
mentos; queimadas.
• Caatinga • Projetos de irrigação; uso • Salinização dos solos; contaminação
intensivo do solo; aplicação de águas e solos por agrotóxicos; i-
em larga escala de agrotóxi- nundação de terras férteis; desertifi-
cos; pecuária desordenada; cação; êxodo rural.
retirada de lenha para pro-
dução de energia.
• Floresta A- • Polos industriais (side- • Destruição de hábitats; extinção de
tlântica rúrgicos e petroquímicos); flora e fauna; contaminação dos solos
grandes indústrias; agroin- e das águas por agrotóxicos; poluição
dústria de açúcar e álcool; do ar; poluição das águas costeiras;
agricultura e pecuária; des- assoreamento dos rios; degradação de
matamentos; queimadas; grandes áreas pela mineração; degra-
utilização de agrotóxicos; dação da paisagem.
concentração urbana; ati-
vidades portuárias; extração
de carvão mineral.
• Pampas • Agricultura e pecuária ex- • Erosão dos solos; desertificação;
tensiva; utilização de agro- contaminação dos solos e das águas
tóxicos em larga escala; usi- por agrotóxicos; poluição do ar; chu-
nas termoelétricas. va ácida.
• Mata Araucá- • Agroindútrias; utilização • Erosão dos solos; assoreamento dos
ria intensiva de agrotóxicos; rios; contaminação dos solos e das
extrativismo vegetal; explo- águas por agrotóxicos; inundação de
ração de madeira; projetos áreas férteis; conflitos de terras; êxo-
para geração de energia. do rural; espécies ameaçadas de ex-
tinção.
Fonte: Revista Tempo e Presença, 1992.

144
Apêndice -145

APÊNDICE F
IMPACTOS AMBIENTAIS DA CONSTRUÇÃO DE BARRAGENS

Impactos Ambientais Medidas Mitigadoras

•Alterações no ambiente durante as


obras:
• Destruição da cobertura vegetal; erosão • Controle dos movimentos de terra; contro-
do solo; mudança de topografia; proble- le do desmatamento; proteção dos solos du-
mas de drenagem. rante as obras; preservação da drenagem
natural das águas.
• Assoreamento do reservatório. • Controle da erosão do solo; proteção da
vegetação marginal ao rio e ao reservatório;
proteção da drenagem natural das águas;
controle do uso/ ocupação do solo; consci-
entização dos proprietários de terrenos mar-
ginais.
• Danos à fauna e à flora:
• Inundações; • Programa de relocação de animais;
• Alteração dos tipos de peixes no reser- • Estudos científicos das espécies; repovo-
vatório; amento do lago e das lagoas marginais;
• Destruição da mata ciliar; • Reflorestamento das margens;
• Redução da vazão à jusante; • Manutenção de vazões adequadas à jusan-
te;
• Barreira ao movimento dos peixes no • Escadas para peixes.
contraflluxo.
• Alterações da qualidade da água:
• Decomposição da vegetação; redução • Desmatamento da área inundável (zoneado
do oxigênio dissolvido; eutrofização; ou total); desenvolvimento de modelos ma-
temáticos para previsão do balanço de oxi-
gênio;
• Aumento da salinidade da água, devido • Controle da salinidade: renovação da água
à evaporação; (sangria); escolha de menor espelho d’água;
controle da evaporação;
• Poluição devido a poluentes presentes • Remoção de edificações, fossas, estábulos,
nos materiais inundados (lixo, fossas, cemitérios, depósitos de lixo, etc.
estábulos, etc.);
• Poluição a partir dos uso da água e do • Controle dos usos da água; restrição do
solo marginal. uso; zoneamento dos usos; controle de resí-
duos de embarcações; disciplinamento do
uso/ocupação do solo da bacia hidrográfica;
faixa de proteção marginal ao reservatório;
controle da disposição de resíduos líquidos e
sólidos; controle da aplicação de pesticidas
e fertilizantes.

145
146 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

• Impactos sobre os usos à jusante:


• Mudanças hidrológicas; danos à fauna • Preservação da vazão necessária aos usos
aquática; à jusante;
repercussões sobre outros armazenamen- • Gerenciamento integrado dos recursos hí-
tos; redução da fertilidade do solo mar- dricos da bacia hidrográfica.
ginal ao rio.
• Impactos sócio-culturais:
• Deslocamento da população; • Conscientização da população afetada;
• Inundação de propriedades e edifica- • Indenizações justas das propriedades;
ções;
• Desagregação familiar; • Programa de reassentamento populacional;
• Preparação da população para as novas
• Mudanças nas atividades; condições de vida;
• Remoção de cemitérios, monumentos, etc.;
• Inundação de áreas de valor afetivo, • Melhoria das condições de habitação, saú-
histórico, paisagístico e ecológico; de, educação, etc.; levantamentos epidemio-
• Propagação de doenças. lógicos; controle de endemias; educação
sanitária.
Fonte: Revista BIO, 1980.

146
Apêndice -147

APÊNDICE G
IMPACTOS AMBIENTAIS DE PROJETOS DE IRRIGAÇÃO

Impactos Ambientais Medidas Mitigadoras

• Desmatamento:
• Danos à fauna e à flora; • Manutenção da vegetação nas áreas não
utilizáveis para irrigação; preservação de
áreas de valor ecológico;
• Danos à paisagem natural. • Preservação de áreas de valor paisagístico
e de lazer; proteção de árvores de grande
porte; reflorestamento de áreas desmatadas;
cercas vivas de vegetação ao longo dos ca-
nais e áreas irrigadas.
• Erosão do solo:
• Perda da fertilidade do solo; • Controle do desmatamento; proteção dos
solos desnudos durante as obras; manejo
adequado do solo;
• Assoreamento de recursos hídricos. • Drenagem adequada de águas pluviais;
faixa de proteção marginal aos recursos hí-
dricos.
• Salinização do solo:
• Perda da qualidade do solo para culti- • Manejo correto da água; sistema adequado
vo; redução da produção. de drenagem; manutenção da bioestrutura
superficial do solo (através do uso cobertura
morta ou vegetal, adição de matéria or-
gânica, cultivo correto do solo), rotação de
culturas; redução da evaporação ( uso de
barraventos).
• Poluição ambiental devido à:
• Aplicação de fertilizantes; • Controle da aplicação de fertilizantes; in-
centivo ao uso de adubo orgânico;
• Aplicação de pesticidas; • Incentivo ao controle biológico de pragas
e utilização de produtos naturais no combate
às pragas;
• Resíduos provenientes da população • Adequado sistema de saneamento básico
residente. para colonos.
• Impactos no meio sócio-econômico:
• Desalojamento da população; • Conscientização da comunidade;
• Desagregação familiar; • Programa de reassentamento populacional;
• Destruição de áreas de valor afetivo e • Indenizações justas das propriedades;
cultural;
• Mudanças nas atividades.; • Treinamento de colonos para as novas ati-
vidades; organização comunitária dos colo-
nos;
• Disseminação de doenças. • Educação sanitária; controle de endemias.
Fonte: Revista BIO, 1980.

147
148 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

APÊNDICE H

METODOLOGIA PARA DIAGNÓSTICO


FÍSICO-CONSERVACIONISTA

O Diagnóstico Físico-Conservacionista ou DFC tem por objetivo determinar o estado de


deterioração ou de conservação em que se encontra uma dada região. O mesmo é levado a
efeito correlacionando-se uma série de parâmetros ou variáveis da região, de modo a refletir o
mais exato possível o seu estado.

Segundo Filiberto Lopes C. del Llano, o estado de deterioração ou de conservação de uma região
pode ser expresso em função de variáveis que reflitam o clima, o relevo, a geologia e a cobertura
vegetal, correlacionadas como se segue:

(Clima) (Relevo)
Erosão (f) Fórmula Original
(Geologia) (Vegetação)

A montagem acima, modificada pelo CIDIAT em 1984 e posteriormente por um grupo em Santa
Catarina, resultou na expressão abaixo:

(CO, E, S) (D)
Erosão (f) Fórmula de Santa Catarina
(L, R, e) (CA)

onde: CO⇒ Cobertura vegetal original


E ⇒ Erosão potencial
S ⇒ Sedimentação média
D ⇒ Declividade média do terreno
L ⇒ Litologia
R ⇒ Erodibilidade
e ⇒ Cobertura de erosão atual
CA⇒ Cobertura de vegetação atual

H.1. DESENVOLVIMENTO DO MÉTODO

H.1.1. COBERTURA VEGETAL ORIGINAL (CO)

Esta variável expressa o tipo de cobertura que existia na região, antes de intervenção humana.
Entendendo-se por cobertura original uma unidade climática natural, na qual agrupam-se diferen-
tes comunidades vegetais, relacionadas com valores de temperatura, precipitação e umidade.

148
Apêndice -149

Numa mesma região podem existir tipos diferentes de cobertura vegetal. Para o estudo em ques-
tão, deve ser tomada aquela que for dominante. Uma vez identificada a cobertura original domi-
nante, deve-se estabelecer o grau de semelhança entre a cobertura atual e a original.

Para análise desta variável, é necessário preparar mapas das duas coberturas (original e atual) da
região. Para entrar na expressão, o tipo de cobertura original é representado por um algarismo
romano (Quadro H.1), seguido de um índice que expressa o grau de semelhança (Quadro H.2).
Exemplo: Símbolo (CO)I4 ⇒ Originalmente predominava Floresta. A vegetação atual tem baixa
semelhança com a vegetação original, grau de semelhança entre 21 e 40%.

Quadro H.1: Símbolos dos tipos de cobertura vegetal original

No Tipos de Vegetação Original Símbolo

01 Floresta I
02 Cerrado II
03 Campo Limpo III
04 Vegetação Litorânea IV
05 Vegetação de Araucárias V
06 Vegetação de Transição VI

Quadro H.2: Semelhança entre a cobertura vegetal atual e a original.

Grau de semelhança Símbolo Classificação

81 - 100% (CO)1 Altamente semelhante


61 - 80% (CO)2 Semelhante
41 - 60% (CO)3 Medianamente semelhante
21 - 40% (CO)4 Baixa semelhança
1 - 20% (CO)5 Nenhuma semelhança

H.1.2. EROSÃO POTENCIAL (E)

O impacto da água da chuva e o resultante desprendimento das partículas de solo é a principal


causa da erosão do solo pela água. A quantidade de solo que pode ser perdida neste processo é
denominada de erosão potencial.

Segundo Fournier (1960), na quantificação da erosão do solo, os seguintes parâmetros devem ser
considerados: declividade, tipo de clima e a relação entre o quadrado da precipitação média men-
sal e a precipitação média anual ( coeficiente de Fournier ).A determinação desta variável, impli-
ca no conhecimento dos totais de chuva da região, com registros de pelo menos 10 anos.
De posse da erosão potencial (E), em ton./ha.ano ou unidade equivalente, faz-se a classificação
do tipo de erosão, conforme o quadro H.3. Exemplo: Símbolo E3 ⇒ Erosão potencial média, va-
riando entre 6 e 9 ton./ha.ano.

149
150 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Quadro H.3: Classificação da erosão potencial.

Erosão (ton./ha.ano) Símbolo Classificação

<3 E1 Erosão geológica


3a6 E2 Erosão fraca
6a9 E3 Erosão média
9 a 12 E4 Erosão forte
> 12 E5 Erosão excessiva

H.1.3. SEDIMENTOS (S)

O estado de deterioração do solo é função, dentre outras variáveis, do carreamento de sedimen-


tos. A quantidade de solo que está sendo perdida na região, durante o processo erosivo, é expres-
sa em t/ha/ano e representada pela variável S no presente diagnóstico.

A medição dos sedimentos produzidos pela erosão é feita em campo, através de métodos especí-
ficos. O valor obtido é classificado conforme os intervalos apresentados no quadro H.4. Exem-
plo: Símbolo S4 ⇒ Alta taxa de sedimentos, correspondendo a um arraste de 9 a 12 ton./ha.ano.

Quadro H.4: Classificação dos sedimentos.

Sedimentos Símbolo Classificação


(ton./ha.ano)
<3 S1 Muito baixo
3a6 S2 Baixo
6a9 S3 Médio
9 a 12 S4 Alto
> 12 S5 Muito alto

H.1.4. DECLIVIDADE MÉDIA (D)

A declividade do terreno é um parâmetro importante no DFC, uma vez que quanto maior for a
mesma, maior será a velocidade de escoamento da água e, consequentemente, a sua capacidade
de erosão.

De posse do mapa de curvas de nível, um planímetro e um curvímetro, determina-se a declivida-


de média do terreno. Com base no valor encontrado, classifica-se o relevo conforme o quadro
H.5. Exemplo: Símbolo D4 ⇒ Relevo colinoso, com declividade média variando entre 10 e 15
%.

150
Apêndice -151

Quadro H.5: Classificação do relevo.

Declividade média % Símbolo Classificação

<2 D1 Relevo plano


2-5 D2 Relevo suave
5 - 10 D3 Relevo ondulado
10 - 15 D4 Relevo colinoso
15 - 45 D5 Relevo fortemente inclinado
45 - 70 D6 Relevo montanhoso
> 70 D7 Relevo escarpado

H.1.5. LITOLOGIA (L) E ERODIBILIDADE (R)

O substrato rochoso de uma região é um elemento chave no DFC, visto que cada rocha, em fun-
ção de suas características genéticas e físico-químicas, irá apresentar um comportamento distinto
frente à atividade intempérica, que a torna mais susceptível ou menos susceptível ao fenômeno
erosivo. As informações podem ser obtidas através de pesquisas de campo e/ou de mapas geoló-
gicos ou geomorfológicos realizados anteriormente.

De posse das informações classifica-se as rochas, através do quadro H.6. Associando-se sua ori-
gem e litotipo, determina-se a sua susceptibilidade à erosão, conforme o quadro H.7. Exemplo:
Símbolo L2(2) ⇒ Rochas friáveis, do tipo ígnea Vulcânica. Símbolo R1 ⇒ Solo pouco susceptível
à erosão.

H.1.6. COBERTURA ERODIDA ATUAL (e)

Através deste parâmetro tem-se conhecimento do estado de erosão do terreno. As informações


devem ser obtidas através de medições no local, de modo a expressar em termos de percentagem
da área total, quanto da região está sendo atacada pela erosão.

Durante a medição os tipos de erosão (Laminar, em Sulcos ou em Voçorocas) devem ser discri-
minados em termos de porcentagem da erosão total. Com a percentagem obtida, retira-se do qua-
dro H.8 o símbolo correspondente. Exemplo: Símbolo e2 ⇒ 21 a 40 % da área está afetada pelo
processo erosivo, sendo que desse total, 25% corresponde a erosão em sulcos e o restante a ero-
são laminar.

151
152 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Quadro H.6: Desagregabilidade e instabilidade das rochas.

Rochas Litotipos Símbolo

1) Sedimentares: Conglomerados, Arenitos, Siltitos, Argili-


tos, Diamictitos, Folhelhos, Calcários, Dolomitos. L1(1)
1. Duras 2) Ígneas: Vulcânicas (Basaltos e Diabásios), Plutônicas
(Granitóides e Corpos alcalinos). L1(2)
3) Metamórficas: Metabásicas, Migmatitos, Granulitos,
Gnaises, Mármores (Calcários/Dolomitos). L1(3)
1) Sedimentares: Arenitos, Arenitos conglomeráticos, Arcó-
2. Friáveis sios, Siltitos, Argilitos, Depósitos aluvionares. L2(1)
2) Ígneas vulcânicas: Tufos. L2(2)
3) Metamórficas: Xistos, Filitos, Quartzitos. L2(3)
1) Depósitos coluvionares estabilizados. L3(1)
3. Muito 2) Depósitos fluviais quaternários. L3(2)
Friáveis 3) Terraços e várzeas quaternários. L3(3)
4) Rochas das classes L1 e L2, muito alteradas. L3(4)
4. Altamen- 1) Depósitos de encostas (Talus). L4(1)
te Friáveis 2) Depósitos coluvionares não estabilizados. L4(2)
3) Seixaria aluvionar. L4(3)

Quadro H.7: Susceptibilidade à erosão dos diferentes litotipos.

Litotipos Símbolo Classificação

• Calcários, Dolomitos, Granitos / Gra-


nitóides, Alcalinas, Basaltos, Metabá- R1 Pouco susceptível à erosão.
sicas, Tufos, Diabásios, Gabros e
Mármores.
• Migmatitos, Folhelhos, Magnititos, Medianamente susceptível à
Filitos, Granulitos e Gnaises. R2 erosão.
• Arenitos, Arcósios, Conglomerados,
Siltitos, Argilitos, Diamictitos, Xistos R3 Altamente susceptível à erosão.
Vulcânicos e Quartzitos.

Quadro H.8: Cobertura erodida atual.

Cobertura erodida Símbolo Classificação

01 - 20 % e1 Muito baixa
21 - 40 % e2 Baixa
41 - 60 % e3 Média
61 - 80 % e4 Alta
81 - 100% e5 Muito alta

152
Apêndice -153

H.1.7. COBERTURA VEGETAL ATUAL (CA)

Esta variável mede o grau de proteção que a cobertura vegetal atual confere ao solo para controle
da erosão. A proteção da cobertura vegetal depende de sua natureza, isto é, dos tipos de vegeta-
ção, do seu desenvolvimento e densidade nos diferentes meses do ano.

Com dados de visitas ao campo e fotografias aéreas atualizadas, faz-se um mapa com os diferen-
tes tipos de cobertura vegetal encontrados. Através da análise do mapa determina-se o grau de
proteção que a cobertura vegetal confere ao solo, a qual oscila entre 0,00 e 1,00: 0,00 (zero) para
os solos completamente erodidos e desnudos; 1,00 (um) para os solos totalmente protegidos por
florestas primárias intactas, conforme classificação apresentada no quadro H.9.

Para obter-se o índice de proteção total, procede-se do seguinte modo:


♦ a. Para cada tipo de cobertura, com uso de um planímetro, determina-se no mapa da região a
área correspondente; b. Para cada tipo de cobertura determina-se o índice de proteção, de a-
cordo com o quadro H.9; c. Multiplica-se os valores obtidos no item (a) pelos valores obtidos
no item (b), determina-se assim, a área correspondente a cada índice encontrado; d. A soma
das áreas protegidas obtidas no item (c), dividida pela área total, nos dá o índice de proteção
total.

Com o índice de proteção total assim obtido, entra-se no Quadro H.10 e obtém-se o símbolo cor-
respondente. Exemplo: Símbolo (CA)4 ⇒ Solo medianamente protegido, índice de proteção total
da cobertura vegetal variando entre 0,40 e 0,59.

Quadro H.9: Cobertura vegetal atual

Classifica- Tipo de cobertura vegetal Índice de


ção Proteção
1 Floresta tropical intacta
1a - Floresta primitiva densa 1,0
1b - Floresta prim. descaracterizada 0,8 - 0,9
2 Vegetação secundária
2a - Mata secundária e capoeirão 0,8 - 0,9
2b - Capoeira, capoeirinha e ervas 0,6 - 0,7
3 Reflorestamento 0,5 - 0,7
4 Pastagens
4a - Pastagens manejadas 0,8 - 0,9
4b - Past. naturais não degradadas 0,6 - 0,8
4c - Past. naturais degradadas 0,3 - 0,6
5 Cultivo
5a - Com técnicas conservacionistas 0,5 - 0,7
5b - Sem técnicas conservacionistas 0,2 - 0,4
6 Hortas
6a - Com técnicas conservacionistas 0,6 - 0,7
6b - Sem técnicas conservacionistas 0,3 - 0,5
7 Várzea
7a - Arroz irrigado 0,6 - 0,8

153
154 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Quadro H.10: Índice de proteção total


Índice de proteção Símbolo Classificação
total
1,00 CA1 Total
0,80 - 0,99 CA2 Muito alta
0,60 - 0,79 CA3 Alta
0,40 - 0,59 CA4 Média
0,20 - 0,39 CA5 Baixa
0,00 - 0,19 CA6 Muito baixa
0,00 CA7 Nenhuma

H.2. APRESENTAÇÃO DO DIAGNÓSTICO

Com os dados encontrados monta-se a expressão que sintetiza, mediante a simbologia aplicada, o
estado de deterioração ou de conservação do solo.

O diagnóstico é apresentado em duas partes. Na primeira, apresenta-se uma descrição qualitativa


da simbologia encontrada. Na segunda parte, faz-se uma análise quantitativa dos dados, através
do valor crítico calculado.

H.2.1. DETERMINAÇÃO DO VALOR CRÍTICO

Substituindo-se todos os valores mínimos e máximos, encontrados nos quadros de 1 a 10, na ex-
pressão de Santa Catarina, obtém-se o seguinte:

(CO1 E1 S1) (D1)


Erosão (f) = 8 (soma dos índices mínimos).
(L1 R1 e1) (CA1)

(CO5 E5 S5) (D7)


Erosão (f) = 41 (soma dos índices máximos).
(L4 R3 e5) (CA7)

VC%

100

¬ VC% = 3,03UR - 24,24

0 8 41 UR

Figura H.1: Reta do valor crítico.

154
Apêndice -155

Com os valores máximos e mínimos, denominados unidades de risco (UR) natural ao processo
erosivo, colocados no eixo das abcissas em um sistema cartesiano e fazendo o valor máximo (41)
corresponder à 100 % de degradação, e o mínimo (8) à 0 %, onde os valores de 0 a 100% repre-
sentam os valores críticos (VC) colocados no eixo das ordenadas, obtém-se uma reta. Com o
auxílio da mesma tem-se qualquer valor crítico em %, equivalente a unidades de risco entre 8 e
41. A reta assim obtida obedece à equação CV% = 3,03UR - 24,24.(Figura H.1)

As regiões que apresentarem valores iguais ou próximos a 8, encontram-se em muito boas condi-
ções com respeito à ocorrência de erosão. Em contrapartida, as regiões com valores iguais ou
próximos a 41, encontram-se nas piores condições em relação aos processos erosivos.

155
156 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

APÊNDICE I

METODOLOGIA PARA DIAGNÓSTICO


DO SOLO

N o estudo do recurso solo há dois critérios básicos que direcionam o mesmo: o critério pro-
dutivo e o critério conservacionista. O primeiro objetiva a orientação de alternativas para
produção agropecuária em bases sustentáveis. O segundo tem por objetivo a classificação inter-
pretativa das terras abrangidas pela região em estudo, segundo o seu uso e níveis de manejo, e a
determinação dos conflitos de uso. O resultado é expresso em termos da qualificação da terra em
categorias de bom uso, sobreuso ou subuso, e apresentado em bases cartográficas.

A metodologia aqui proposta, adaptada a partir da experiência do CIDIAT (1984), baseia-se no


critério conservacionista do recurso solo, como parte do inventário e diagnóstico integral de uma
região.

O trabalho é realizado em de três etapas:


♦ levantamento da capacidade de uso das terras;
♦ levantamento do uso atual das terras;
♦ diagnóstico do critério conservacionista do recurso solo e determinação dos conflitos de uso.

I.1. LEVANTAMENTO DA CAPACIDADE DE USO DAS TERRAS

O levantamento é feito com base nos fatores limitantes às condições de uso das terras, com ênfa-
se para a relação do solo com a paisagem, profundidade efetiva, declividade, pedregosidade, tex-
tura e fertilidade natural.

♦ Paisagem. A relação do solo com a paisagem, ou seja, com o aspecto fisiológico, reflete a o-
rigem e o tipo de rocha sob dadas condições climáticas. Fotografias aéreas, mapas geológicos,
geomorfológicos e hipsométricos, fornecem as informações básicas necessárias ao presente
trabalho.
♦ Profundidade efetiva. A profundidade efetiva do solo é aquela em que as raízes podem pene-
trar livremente, facilitando a fixação das plantas e servindo como meio para absorção de águas
e nutriente. Os dados são obtidos no campo através de tradagens e análise de perfis de solo.
♦ Declividade. A declividade é dada pela inclinação do solo no plano horizontal. O cálculo do
mapa de declives é feito com base no gradiente de declives e comprimento da rampa.
♦ Pedregosidade. A pedregosidade refere-se a presença de rochas ou afloramentos rochosos, o
que determina a maior ou menor facilidade para o trabalho das máquinas agrícolas. Apresen-
tada em termos da porcentagem da área, a pedregosidade é obtida através de amostragens no
campo.
♦ Textura. A textura refere-se à proporção entre as frações de areia, silte e argila existente entre
as partículas do solo. Avaliada no campo, é um elemento condicionador do manejo.
♦ Fertilidade natural. A fertilidade natural refere-se à condição do solo em relação às limita-
ções que o mesmo possa apresentar quanto ao conteúdo e a disponibilidade de nutrientes es-
senciais às plantas, as proporções que os mesmos guardam entre si, bem como a presença de
elementos tóxicos. Obtido através de análises químicas de amostras do solo, o resultado deve
estar correlacionado com dados de produção de culturas no local.

156
Apêndice -157

I.1.1. DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO

Da bibliografia cartográfica e descritiva disponível, tomada como base do trabalho, destaca-se:

♦ os mapas do solo a nível de grandes grupos, contendo classificação pedológica e respectivos


mapas de capacidade de uso. Destes pode-se extrair informações sobre textura, pedregosidade,
declividade, profundidade e geomorfologia, entre outros;
♦ os mapas planimétricos (cartas do IBGE ) fornecem dados sobre o relevo, rede de drenagem e
divisores de água, possibilitando ainda o zoneamento das classes de declive;
♦ as fotografias aéreas proporcionam a visualização de divisores de água, rede de drenagem, o-
bras diversas, áreas encharcadas, erosão, pedregosidade, conformações do terreno e uso atual;

Além da bibliografia, trabalhos de campo devem ser realizados, em pontos pré-determinados,


para checagem dos dados. O dados inventariados devem ser tabulados convenientemente para
uso na classificação dos solos.

I.1.2. CLASSIFICACÃO DA CAPACIDADE DE USO DAS TERRAS

Com base nos quadros I.1 e I.2 teremos o quadro I..3 de classificação pela capacidade de uso
conservacionista do solo, cujas características de cada classe de capacidade de uso estão descritas
no quadro I.4. As classes de capacidade de uso serão mapeadas e quantificadadas em termos de
área total (ha) e relativa (%).

Com relação à intensidade das práticas de conservação referidas para as diversas classes de capa-
cidade de uso do solo, deve-se considerar os aspectos físicos, econômicos e sociais. Estes, anali-
sados em conjunto orientarão os níveis de manejo e conservação das terras, e a viabilidade de
execução dos melhoramentos necessários. Os principais elementos a serem considerados são:
capital, mão-de-obra, fonte de energia, tecnologia disponível, estrutura fundiária, atitude dos u-
suários das terras e níveis de produtividade.

Quadro I.1: Classes e intervalos de profundidade efetiva

Símbolo Categoria Intervalo


(m)
0 Não identificada ------
1 Muito profundo > 2,00
2 Profundo 1,00 a 2,00
3 Moderadamente profundo 0,50 a 1,00
4 Raso 0,25 a 0,50
5 Muito raso < 0,25

157
158 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Quadro I.2: Classes e intervalos de declividade.

Símbolo Categoria Intervalo (%)

A Plano < 2
B Suave 2 a 5
C Ondulado 5 a 10
D Colinoso 10 a 15
E Fortemente inclinado 15 a 45
F Montanhoso 45 a 70
G Escarpado > 70

Quadro I.3: Classificação de capacidade de uso do solo.


Declividade (%)
Profundida- A B C D E F G
de (m) (< 2) (2 a 5) (5 a 10) (10 a 15) (15 a 45) (45 a 70) (> 70)

1 (>2,00) I II III IV VI/VII VII VIII


2 (1,00 a 2,00) I II III IV VI/VII VII VIII
3 (0,50 a 1,00) II III III/IV VI VII VIII VIII
4 (0,25 a 0,50) II/V III IV/VI VI VII VIII VIII
5 (<0,25) V IV/VI VII VII VIII VIII VIII

Quadro I.4: Características das classes de capacidade de uso do solo.

Classe Características das classe de capacidade de uso

I • Terras próprias para culturas anuais, que não requerem práticas ou medidas
especiais de conservação. São solos profundos, que ocorrem em áreas planas ou
com declividades muito suaves.
II • Terras próprias para culturas anuais, adaptadas à região, desde que lhes sejam
aplicadas práticas especiais de conservação do solo, de fácil execução. A decli-
vidade suavemente ondulada já pode ser suficiente para provocar enxurradas e
erosão.
III • Terras adequadas para culturas anuais adaptadas, desde que adotadas medidas
intensas e complexas de conservação do solo. O relevo é suavemente ondulado
a ondulado, com riscos severos de erosão laminar e em sulcos.
IV • Terras inadequadas para cultivos anuais intensivos e contínuos. Indicadas pa-
ra pastagens e cultivos permanentes, com a adoção de medidas complexas de
conservação do solo. Declividade acentuada.

158
Apêndice -159

V • Terras impróprias para cultivos anuais, adaptadas para algumas culturas pere-
nes, pastagens ou reflorestamento. A declividade é plana e o solo profundo, não
requerendo práticas especiais de controle de erosão ou proteção dos solos. A-
presentam problemas de risco freqüentes de inundações ou afloramento de ro-
chas, pedregosidade.
VI • Terras próprias para cultivos anuais, adaptadas para algumas culturas perenes,
protetoras do solo, pastagens ou reflorestamento. São solos rasos, com declivi-
dade acentuada e com severo risco de erosão.
VII • Terras impróprias para cultivos anuais, que apresentam severas limitações,
mesmo para pastagens ou para reflorestamento. Requerem cuidados extremos
para controle da erosão. Declividades muito acentuadas e solos rasos a muito
rasos.
VIII • Terras não cultiváveis com qualquer tipo de cultura, pastagem ou refloresta-
mento econômico. Prestam-se apenas para a proteção e abrigo da flora e fauna
silvestres. Declividade extremamente acentuada com solos muito rasos ou áreas
planas permanentemente encharcadas.

I.2. LEVANTAMENTO DO USO ATUAL DAS TERRAS

Esta etapa pode ser realizada em conjunto com os grupos que elaboram o diagnóstico da vegeta-
ção e o físico-conservacionista. O método proposto envolve análise e tratamento de imagens de
satélite, com apoio de fotografias aéreas e checagens no campo. O resultado dos trabalhos será o
mapa de Uso Atual das Terras, sistematizado por categorias de uso, quantificada por área total
(ha) e relativa(%). As categorias de uso, com respectivos símbolos e exemplos, estão expostos no
quadro I.5.
Quadro I.5: Caracterização das categorias de uso da terra.

Símbo- Uso Características


lo
TE Terrenos erosio- • Áreas onde o processo erosivo é intenso o suficiente
nados para evidenciar-se, independentemente da capacidade
de uso da terra em questão. Ex.: área com erosão em
sulcos, sob cultivos de ciclo curto ou pastagens.
TU Terrenos urbanos • Concentração populacional, com elevado número de
residências e outras construções. Ex.: vilas, cidades,
distritos.
CP Cultivos perenes • Culturas de ciclo longo. Ex.: café, urucum, maracujá.
CSP Cultivos semi- • Cana-de-açúcar.
perenes
CA Cultivos anuais • Culturas anuais ou bianuais. Ex.: milho, mandioca,
arroz.
P Pastagens e cam- • Campos nativos e pastagens cultivadas.
pos
R Reflorestamento • Reflorestamento para fins diversos com eucalípto,
pinus, araucária, seringueira, etc.
F Fruticultura • Fruticultura de porte arbóreo como: abacate, citrus,
manga, etc.
M Matas • Matas originais ou secundárias.

159
160 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Quadro I.6: Caracterização dos conflitos de uso do solo

Uso Características Símbolo

Bom Uso De acordo com a capacidade conservacionis- BU


ta
Sobreutiliza- Uso além da capacidade conservacionista SO
ção
Subutilização Uso aquém da capacidade conservacionista SU

Quadro I.7: Conflito de uso do solo.


Vocação Vida sil-
Uso atual Cultivo intenso Cultivo limitado vestre e
Reflorestamento recreação
I II II IV V VI VII VIII
Cultivo
anual (01) BU BU BU SU SU SU SU SU
Cultivo
semi-pere- BU BU BU SU SU SU SU SU
ne (02)
Cultivo
perene SO SO BU BU BU SU SU SU
(03)
Fruticultu-
ra (04) SO SO BU BU BU SU SU SU
Cam-
po/Pastage SO SO SO BU BU BU SU SU
m (05)
Reflores-
tamento SO SO SO SO BU BU BU SU
(06)
Mata/Área
silvestre SO SO SO SO SO SO BU BU
(07)

I.4. ESTUDO DE CASO

Da tabulação dos dados de uma região hipotética, de 347.500 hectares, inventariada segundo a
metodologia proposta neste trabalho, chegou-se ao mapa 1 - capacidade de uso das terras e ao
mapa 2 - uso atual das terras, mostrados nas figuras I.1 e I.2.

Através da sobreposição dos Mapas 1 e 2, obteve-se o mapa 3 - conflitos de uso das terras,
mostrado na figura I.3.

160
Apêndice -161

Da figura I.3, podemos concluir que apenas 17,27% da região em estudo está sendo utilizada
dentro da capacidade de uso da terra. Enquanto que 82,40% está em conflito de uso, isto é,
55,40% sobreutilizada e 27,33% subutilizada.

Figura I.1: Mapa de capacidade de uso das terras.

Figura I.2: Mapa do uso atual das terras.

161
162 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Figura I.3: Mapa de conflito de uso das terras.

162
Apêndice -163

APÊNDICE J

METODOLOGIA PARA DIAGNÓSTICO DA


POLUIÇÃO AMBIENTAL

O Diagnóstico da Poluição Ambiental - DPA visa a elaboração de um diagnóstico integrado,


necessário ao plano de manejo de uma região, e tem por objetivo determinar, em função
do grau de poluição ambiental, a prioridade que deve ser dada ao problema por região.

O método do CIDIAT (Hidalgo, 1988), aqui descrito, compreende os diagnósticos da poluição


hídrica, da poluição atmosférica, da poluição sonora e da poluição por resíduos sólidos (poluição
do solo).

A poluição tem sua origem nas fontes poluidoras, quando da geração e emissão dos poluentes
pelas mesmas. Estas podem ser fixas ou móveis. Entende-se por fontes fixas aquelas cujos lan-
çamentos ocorrem em locais invariáveis no tempo, tais como as indústrias e redes de esgotos.
São fontes móveis aquelas cujas descargas são espacialmente variáveis ao longo do tempo, como
o uso de agrotóxicos e fertilizantes, cujos residuais e excedentes vão, direta ou indiretamente,
para a água, o ar e o solo.

J.1. POLUIÇÃO HÍDRICA

A poluição hídrica, seja de fonte móvel ou fixa, é avaliada através da análise de indicadores de
poluição, tais como: DBO, OD, pH, temperatura, nitrato, fosfato, DQO, sólidos, índice de coli-
formes, tóxicos diversos, etc., cujos limites estão assegurados através dos padrões de qualidade, a
serem observados para cada uma das nove classes de corpos d'água, identificadas na Resolução
CONAMA no 020/86.

Para fins deste diagnóstico, faz-se uso da DBO5 para a classificação da poluição hídrica, confor-
me o quadro J.1.

Quadro J.1: Classificação da poluição hídrica,


de fontes fixas e móveis, em (mg / l)
Classificação Nível de DBO Índice
Baixa < 3,0 1
Média baixa 3,0 a 6,0 2
Média 6,0 a 7,0 3
Média alta 7,0 a 9,0 4
Alta > 10,0 5

163
164 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

J.2. POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA

A Resolução CONAMA no 003/90, estabelece os padrões de qualidade do ar para todo o territó-


rio nacional, considerando os níveis máximos toleráveis de concentração de poluentes atmosféri-
cos - padrões primários -, e os níveis desejáveis de concentrações de poluentes atmosféricos -
padrões secundários, para fontes fixas e móveis.

Para os fins a que se destina este diagnóstico, a poluição atmosférica é classificada conforme os
quadros J.2 e J.3, baseados na Resolução CONAMA no 003/90.

Quadro J.2: Concentração de CO, média de 8 horas, em


µg / m3 ( fontes móveis )
Classificação Nível de CO Índice
Baixa < 5.000 1
Média baixa 5.000 a 9.000 2
Média 10.000 3
Média alta 11.000 a 39.000 4
Alta > 40.000 5

Quadro J.3: Concentração de partículas em suspensão na


atmosfera, em µg / m3 (fontes fixas)
Classificação Nível de MP Índice
Baixa < 20 1
Média baixa 20 a 40 2
Média 40 a 60 3
Média alta 60 a 80 4
Alta > 80 5

J.3. POLUIÇÃO SONORA

Entende-se por poluição sonora qualquer alteração no som ambiente, causada por ruído, que de
alguma maneira venha a prejudicar as atividades humanas.

A Resolução CONAMA 001/90, estabelece as normas a serem observadas, a nível nacional, no


tocante à emissão de ruídos em decorrência de quaisquer atividades. Os critérios e padrões a se-
rem aplicados são os das normas NBR 10.151 e 10.152, da Associação Brasileira de Normas
Técnicas - ABNT. No presente diagnóstico, a poluição sonora passa a ser classificada conforme
o quadro J.4.

164
Apêndice -165

Quadro J.4: Poluição sonora por fontes fixas e móveis, em dB.


Classificação Nível de ruído Índice
Baixa zero a 40 1
Média baixa 40 a 50 2
Média 50 a 60 3
Média alta 60 a 75 4
Alta > 75 5

J.4. POLUIÇÃO POR RESÍDUOS SÓLIDOS

Para o presente estudo, considera-se apenas a poluição causada pelos resíduos sólidos ou lixo,
seja de origem urbana ou rural. Entende-se que o problema da poluição do solo surge no momen-
to em que o lixo deixa de ser manejado ou não é manejado corretamente. Lixo manejado aquele
que é coletado e transportado para tratamento e/ou disposição final.

J.4.1 RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS

O manejo do lixo urbano, tóxico ou não tóxico, pode ser enquadrado em uma das três classifica-
ções: adequado, inadequado coberto e inadequado.

♦ Adequado (A). Quando o tratamento e/ou disposição final dos resíduos é feito segundo crité-
rios e normas de engenharia e atendem aos padrões de segurança quanto à proteção do meio
ambiente e da saúde pública. Exemplo: Aterro Sanitário, Usina de Compostagem, Incinerado-
res, etc.
♦ Inadequado Coberto (IC). Corresponde aos casos em que há descarga livre do lixo sobre o
solo, com cobertura diária do material, sem medidas complementares, tais como coleta e tra-
tamento do chorume, drenagem dos gases, etc. Exemplo: Aterros controlados.
♦ Inadequado Descoberto (ID). Corresponde aos casos em que há descarga livre do lixo sobre
o solo, sem cobertura do material ou outro tipo de medida complementar. Exemplo: Lixões ou
Vazadouros a céu aberto.

Os resíduos tóxicos podem ser coletados, tratados e/ou dispostos pelo serviço de limpeza pública
do município, mas, em princípio, o seu gerenciamento é de responsabilidade da própria fonte ge-
radora e recebem a destinação final de acordo com o grau de periculosidade do resíduo. São con-
siderados tóxicos os resíduos provenientes de usinas atômicas, laboratórios de pesquisas das U-
niversidades e Institutos de Ciência e Tecnologia, hospitais, indústrias de tintas, fertilizantes,
pesticidas, fármacos, desinfetantes, etc., sistemas de tratamento de esgotos sanitários, galvano-
plastias e curtumes.

O grau de manejo do lixo urbano é determinado através da avaliação do percentual coletado pelo
serviço de limpeza pública e do tratamento e/ou disposição final. A partir do cruzamento destas
duas informações, obtém-se o índice correspondente à poluição por resíduos sólidos, conforme o
quadro J.5.

165
166 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

Quadro J.5: Poluição por resíduos sólidos urbanos,


tóxicos e não tóxicos.
Classificação % Manejado Índice
A IC ID
Baixa > 75 1 2 3
Média baixa 50 a 75 2 3 4
Média 25 a 50 3 4 5
Média alta < 25 4 5 5
Alta ----- 5 5 5

J.4.2. RESÍDUOS SÓLIDOS RURAIS

A avaliação do percentual manejado é feita a partir de pesquisa, em cada propriedade rural, do


tipo de destino final empregado. O lixo produzido normalmente é enterrado, reciclado ou incine-
rado. Com os resultados a nível de propriedade, faz-se o diagnóstico para a realidade rural como
um todo, classificando-se a poluição ambiental por resíduos sólidos rurais, conforme o quadro
J.6.

Quadro J.6: Poluição por resíduos sólidos rurais.


Classificação % Manejado Índice
Baixa > 80 1
Média baixa 60 a 80 2
Média 40 a 60 3
Média alta 20 a 40 4
Alta < 20 5

J.5. APRESENTAÇÃO DO DIAGNÓSTICO DA POLUIÇÃO AMBIENTAL

A metodologia do diagnóstico da poluição ambiental segue o princípio do cálculo do valor críti-


co. Parte-se da hipótese de que o menor valor (valor 1), corresponde a situação "menos grave" e
o maior valor (valor 5), corresponde a situação "mais grave", ao aplicar o correspondente índice
para cada tipo de poluição considerado. A soma de todos os índices mínimos corresponde a 9, e a
soma de todos os índices máximos a 45 (Quadro J.7).

166
Apêndice -167

Quadro J.7: Unidade de risco da poluição ambiental.


Tipo de poluição Mínimo Máximo
• Pol. hídrica fontes fixas(PHFF) 1 5
• Pol. hídrica fontes móveis(PHFM) 1 5
• Pol. atmosférica fontes fixas(PAFF) 1 5
• Pol. atmosférica fontes móveis(PAFM) 1 5
• Pol. sonora fontes fixas(PSFF) 1 5
• Pol. sonora fontes móveis(PSFM) 1 5
• Pol. por res. sol. urbanos(PRSU) 1 5
• Pol. por res. sol. urbanos tóxicos(PRSUT) 1 5
• Pol. por res. sol. rurais(PRSR) 1 5
Unidades de Risco 9 45

Com os valores máximos e mínimos colocados no eixo das abcissas de um sistema cartesiano,
fazendo o valor mínimo (9 unidades) corresponder a 0% de poluição e o valor máximo (45 uni-
dades) corresponder a 100% de poluição ambiental, obtém-se uma reta, onde os valores de 0 a
100% representam os valores críticos da poluição, colocados nas ordenadas. A reta assim obtida
obedece a equação VC% = 2,78 UR - 25 (Figura J.1), onde: VC% corresponde a porcentagem
de poluição ambiental e UR o somatório dos índices de poluição na região.

VC%

100

¬
VC% = 2,78UR - 25

0 9 45 UR

Figura .J.1: Reta do valor crítico.

A conclusão do diagnóstico deve apresentar a análise quantitativa do VC% e a descrição da situ-


ação da poluição ambiental na região, ressaltando-se os parâmetros mais críticos, as fontes polui-
doras e as conseqüências da poluição, estabelecendo os problemas prioritários, que resultarão nos
programas de controle ambiental.

167
168 - Introdução às Ciências do Ambiente para Engenharia

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