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5. As narrativas historiográficas e a invenção da identidade nacional.

Conhecendo as interpretações divergentes sobre a periodização e a categorização do que seja ou não


narrativa historiográfica brasileira (como acontece, por exemplo, entre Francisco Iglesias e José Arruda), bem
como as críticas atuais sobre o tema (como a de Rebeca Gontijo, João Miguel Godoy e outros), decidimos adotar
uma leitura que considera a construção das narrativas em torno da identidade nacional como um processo, que vai
se tornando nítido nos momentos vizinhos à Independência, depois vai se construindo ao longo do Império em
favor da monarquia e se reinaugura como discurso acadêmico, dentro da República, com os ditos ‘modernistas’ da
geração de 1930.
Isto posto, à parte os relatos de viajantes e missionários desde Pero Vaz de Caminha, aportados no país
durante os séculos XVII ao XIX, as primeiras narrativas sobre o Brasil que possam ser qualificadas como
indicadoras de um discurso identitário de nação são escritas no contexto da crise dos impérios ibéricos e o
processo de formação dos Estados Nacionais americanos (Valdei Lopes de ARAUJO, A experiência do tempo:
conceitos e narrativas na formação nacional brasileira (1813-1845)). Os diagnósticos acerca da decadência do
reino de Portugal no início do século XIX e o papel atribuído ao Brasil nessa conjuntura moldaram a experiência
do tempo e a constituição das narrativas sobre o passado luso-brasileiro nesse período (Cf. Valdei Lopes de
ARAUJO, A experiência do tempo: conceitos e narrativas na formação nacional brasileira (1813-1845), 2008).
Desde o século XVIII, a identidade lusoamericana era reformulada pelos trabalhos acadêmicos dos Esquecidos e
Renascidos na Bahia, através dos quais se tentou conferir singularidade à experiência brasileira no interior da
história do Império Português (Iris KANTOR, Esquecidos e Renascidos: historiografia acadêmica luso-americana
(1724-1759), 2004). Ao deslocar a centralidade do reino para a colônia, com a vinda da corte em 1808,
intensificou-se o sentimento de “degeneração” de Portugal, percebida já desde o século anterior, e abriu caminho
para incluir o Brasil como fonte de interesse para a escrita de uma história filosófica e geral que buscasse abarcar o
novo concerto (Araujo, op. Cit.). Foram estrangeiros a escrever as primeiras Histórias sobre a colônia americana,
como o inglês Robert Southey, que publicou a sua History of Brazil entre 1810 e 1819, em que delineava uma
história do Brasil entendido como unidade autônoma em relação à história de Portugal (DIAS, Maria Odila da
Silva. O fardo do homem branco. Southey, historiador do Brasil- um estudo dos valores ideológicos do império do
comércio livre, 1974).
No período da Independência, tendo em vista a ameaça à relativa autonomia e ao protagonismo alcançados
pelo novo reino transatlântico, antes sede da coroa portuguesa, a leitura do passado colonial brasileiro sofreu
alterações significativas, no sentido de se dirigir para a construção da história do Império do Brasil. Em A
experiência do tempo, Valdei Lopes de Araújo sugere que José Bonifácio de Andrada e Silva, tomando por base
ainda uma visão cíclica de história, concebia o sentido da história do Brasil a partir da “regeneração”.
"Regeneração", para Bonifácio, se implicava a recuperação da essência de ser português, ainda que transplantada
para o Brasil, não significava um retorno. Para usar os termos do autor, ao "espelhar" a história de Portugal, a
história do Brasil abria para uma possibilidade em sua busca de consciência, a de ser "uma outra história que já
não podia mais ser de Portugal".
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No cenário europeu, desde o início do século XIX, percebe-se claramente que o pensar a história articula-se
num quadro de discussão da questão nacional. Em paralelo, a história ganha foros de cientificidade, num processo
em que a "disciplina" se autonomiza e conquista definitivamente os espaços acadêmicos. A figura do historiador se
caracteriza agora pelo estatuto da pesquisa científica e tende a perder o caráter de hommes de lettres. Assim, a
tarefa de disciplinarização da história guarda íntimas relações com o debate em torno da identidade nacional.
A historiografia brasileira não se aparta dessa tendência, embora com aspectos singulares, que envolvem
uma perspectiva que mescla uma visão da história com forte aproximação da tradição filosófica iluminista, em
voga no século anterior, ao mesmo tempo em que abraça as premissas metodológicas da heurística acadêmica
alemã e da analítica positivista francesa. O IHGB, fundado em 1938, fica responsável por promover a
materialização do discurso historiográfico na nova “nação brasileira” seguindo esses moldes. Assim, é no bojo do
processo de consolidação do Estado Nacional que se viabiliza um projeto de pensar a história brasileira de forma
sistematizada, de acordo com os novos princípios organizadores da vida social europeia do século XIX, portanto
uma profunda marca elitista, sem, contudo, desvencilhar-se de uma tradição teleológica iluminista.
Entretanto, a gestação de um projeto nacional para uma sociedade marcada pelo trabalho escravo e pela
existência de populações indígenas envolvia dificuldades específicas, para as quais já alertava José Bonifácio em
1813:
" amalgamação muito difícil será a liga de tanto metal heterogêneo
como brancos, mulatos, pretos livres e escravos, índios etc. etc. etc., em um corpo sólido e político".

O projeto historiográfico do lHGB visará, pois, a produzir um discurso homogeneizador, que “dê liga”
para a formação de uma sociedade a par da emergente nação Brasil, procurando dar-lhe uma identidade própria
capaz de atuar tanto externa quanto internamente. A leitura da história empreendida pelo IHGB está, assim,
marcada por um duplo projeto: dar conta de uma gênese da Nação brasileira, ao passo de inseri-la numa tradição
de civilização e de progresso (GUIMARÃES, Manoel Luís Salgado. Nação e civilização nos trópicos: o Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro e o projeto de uma história nacional, 1988).
É Francisco Adolfo Varnhagen, seguindo as indicações de Karl von Martius, que explicitaria os
fundamentos definidores da identidade nacional brasileira que balizam a escrita de sua obra História geral do
Brazil (1954-57), frente à discussão do problema nacional e da herança da colonização europeia (REIS, José
Carlos. As identidades do Brasil: de Varhagen a FHC, FGV, 2007).:

"Em geral busquei inspirações de patriotismo sem ser no ódio a portugueses, ou à estrangeira Europa, que
nos beneficia com ilustração; tratei de pôr um dique a tanta declamação e servilismo à democracia; e procurei ir
disciplinando produtivamente certas ideias soltas de nacionalidade (Historia geral do Brazil).

Num processo muito particular ao caso brasileiro, a construção da ideia de Nação não se assenta, portanto,
sobre uma oposição frontal à antiga metrópole portuguesa; ao contrário, se reconhece enquanto continuadora de
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uma certa tarefa civilizadora iniciada pela colonização (GUIMARÃES, Manoel Luís Salgado. Nação e civilização
nos trópicos: o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o projeto de uma história nacional, 1988). Além disso,
no movimento de definir-se o Brasil, aponta também o "outro" em relação a si. Na medida em que Estado,
Monarquia e Nação configuram uma totalidade para a discussão do problema nacional brasileiro, externamente
define-se o “outro” desta Nação a partir do critério político das diferenças quanto às formas de organização do
Estado. Assim, os grandes “inimigos” externos do Brasil serão as repúblicas latino-americanas, corporificando a
forma republicana de governo, ao mesmo tempo, a representação da barbárie. Assegurava-se também por esta
forma a possibilidade de continuidade com Portugal e da construção das metáforas de parentesco para caracterizar
as relações entre o Brasil e a antiga metrópole'. Curiosa permanência a se observar ao longo da história brasileira
essa tentativa de integrar o "velho" e o "'novo", de forma a que as rupturas sejam evitadas (REIS, José Carlos. As
identidades do Brasil: de Varhagen a FHC, FGV, 2007).
Por um outro lado, será, em torno da temática racial, segundo uma abordagem mormente evolucionista, que
essa história se configurará, a partir do mito da harmonização e do “aperfeiçoamento” das três raças, conforme a
proposta de cunho darwinista de Karl von Martius, o qual servirá de modelo para a construção de um discurso que
pretenderia fazer aquele “difícil amálgama” prenunciado por José Bonifácio. Em artigo de 1844 para a revista do
instituto, von Martius enuncia em linhas gerais o norte para projeto historiográfico, seguido depois pelo IHGB,
capaz de garantir uma identidade que desse conta da especificidade à Nação brasileira (GUIMARÃES, Manoel
Luís Salgado. Nação e civilização nos trópicos: o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o projeto de uma
história nacional, 1988):
"Portanto devia ser um ponto capital para o historiador reflexivo mostrar como no desenvolvimento
sucessivo do Brasil se acham estabelecidas as condições para o aperfeiçoamento de três raças humanas, que nesse
país são colocadas uma ao lado da outra, de uma maneira desconhecida na história antiga . . . » "
Seguindo por uma perspectiva da singularidade brasileira, travar-se-á, nos arredores e dentro do IHGB um
acirrado debate sobre a viabilidade da nacionalidade brasileira estar representada pelo seu habitante originário e o
seu meio: o indígena e a natureza tropical. Francisco de Moraes Paz traz o exemplo de Ferdinand Denis, que ao
valorizar a natureza tropical do Brasil, buscava-se potencializar aquilo que a Europa não era ou não tinha. Este
viajante reconhece o europeu como símbolo “da história sem natureza”, e observa o índio brasileiro como o seu
oposto direto, o representante “da natureza sem história” (PAZ, Francisco de Moraes. Na poética da História: a
revitalização da Utopia Nacional Oitocentista, 1996).
Do lado contrário, Sílvio Romero, (História da Literatura brasileira,1888) inseria-se no movimento de
reformulação intelectual, ocorrido a partir da década de 1870, o qual combatia as ideias românticas e indianistas.
Romero, influenciado pelo positivismo de Comte e Taine, assim como seus pares, atuou na frente em defesa da
evolução social brasileira, apostando no protagonismo cultural português na condução do progresso civilizacional
do Brasil (Cf. ROMERO, Silvio, op. Cit.; VENTURA, Roberto. Estilo Tropical: História Cultural e Polêmicas
literárias no Brasil 1870–1914, 1991). Dessa chamada “geração de 1870”, fazem parte José Veríssimo, Capistrano
de Abreu, Nina Rodrigues e Euclides da Cunha.
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José Capistrano de Abreu tem um papel significativo na historiografia na passagem para a República,
porque introduz um elemento novo ao enfocar seus estudos nos hábitos culturais, promovendo uma espécie de
“invenção do povo” brasileiro (Cf. eg. GONTIJO, Rebeca. O “cruzado da inteligência”: Capistrano de Abreu,
memória e biografia, 2007; RODRIGUES, José Honório. Explicação. In: ABREU, Capistrano de. Capítulos de
história colonial, 2000). Suas críticas a Varnhagen, feitas no necrológico do mesmo, em 1878, são contundentes.
Segundo José Honório Rodrigues, sua contribuição para o conhecimento do território brasileiro e do seu processo
de ocupação foi inovadora, pois, até à publicação de Caminhos antigos e povoamentos do Brasil ninguém, na
nossa historiografia, teria tratado do tema da ocupação do interior do Brasil (“entre o São Francisco e o Parnaíba”)
com tanta percepção e com tanta abundância documental. (RODRIGUES, José Honório. Explicação. In: ABREU,
Capistrano de. Capítulos de história colonial, 2000). Além disso, ainda segundo Rodrigues, para além dos sertões,
o ineditismo de Capistrano era, também, a grande preocupação com os modos de vida a formação do povo. De
fato, Rebeca Gontijo aponta-o como precursor dos estudos culturais da geração dos modernistas (Gontijo, op.
Cit.). “Foi com ele, sem dúvida”, afirma Rodrigues, “que o povo brasileiro entrou na história pela primeira vez”, já
que “a produção historiográfica até então tinha como centro os chamados grandes vultos das elites e da
aristocracia” RODRIGUES, José Honório. Capistrano de Abreu e a historiografia brasileira. In: ABREU,
Capistrano de. Correspondência. 1977). De fato, em carta a João Lúcio de Azevedo, Capistrano declarou que: “A
mim preocupa o povo, durante três séculos, capado e recapado, sangrado e ressangrado...” (ABREU, Capistrano
de, Correspondência ,1977).
A geração do modernismo historiográfico brasileiro participa do processo de formulação de um discurso
identitário, mas que se constrói já fora do âmbito do IHGB. Intelectuais de formações acadêmicas diversas
realizam suas pesquisas a fim de trazer explicações para as características que conformam e singularizam a
sociedade brasileira, levando em conta o seu passado colonial, sob uma perspectiva da “formação” – ou do
“redescobrimento”, como prefere nomear José Carlos Reis (As identidades do Brasil, 2007) - do povo e de sua
estrutura social.
A obra de Gilberto Freyre é uma das mais importantes contribuições nesse sentido, e um dos autores mais
estudados e debatidos da historiografia brasileira faz parte dessa geração. A parte a rica fortuna crítica em torno da
obra do autor de Casa Grande e Senzala, podemos dizer, em linhas gerais, que Freyre faz uma abordagem
eminentemente cultural, e, segundo Ricardo Benzaquen, moldada por uma perspectiva lamarckiana de adaptação
ao meio (Ricardo Benzaquen de Araújo, Guerra e Paz: Casa-grande & senzala e a obra de Gilberto freyre nos anos
30, 2005). Em Casa-grande e senzala, publicado em 1933, desenha uma sua opinião singular acerca do português
que vem a ser ratificada na publicação de 1940, O mundo que o português criou. Para ele, é o português o
elemento principal, sob vários aspectos, do processo sincrético de colonização brasileiro. Contemporizador por
excelência, é, exatamente nesse traço, que ele se diferencia do colonizador espanhol e, especialmente, do anglo-
saxão nas Américas. Para Freyre, é o português o portador da característica mais importante da vida colonial
brasileira: o elemento da plasticidade, do homem sem ideais absolutos nem preconceitos inflexíveis (cf.
Benzaquen de Araújo, op. Cit; Freyre, 1933 e 1940). É essa plasticidade que irá propiciar, segundo Freyre, a
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extraordinária influência da cultura negra nos costumes, língua, religião e, especialmente, numa forma de
sociabilidade entre desiguais que mistura cordialidade, sedução, afeto, inveja, ódio reprimido e praticamente todas
as nuances da controversa “ambiguidade do caráter brasileiro”. Importante ponderar, ainda, que alguns críticos
consideram o tratamento de Gilberto Freyre racista, aproximando-o das interpretações propostas anteriormente
pelo IHGB. Dentre eles está Luiz da Costa Lima (“A versão solar do patriarcalismo: Casa-grande & Senzala”, In:
A aguarrás do Tempo, 1989), que sugere que o olhar sobre a cultura brasileira proposto por Freyre estaria sendo
determinado pelo aspecto de uma superioridade racial portuguesa no processo de miscigenação e acusa de idílica a
ideia de “democracia racial”, sem conflitos entre negros e brancos, esboçada por Freyre. Outra vem de Florestan
Fernandes. Enquanto Freyre via uma herança positiva da escravidão, visão consolidada na tese de que os negros
acabaram colonizando os brancos, Florestan preferia frisar o legado perverso: as desigualdades sociais, políticas e
econômicas (FERNANDES, Florestan. O negro no mundo dos brancos, 2007).
Um outro marco da dita geração de 1930 é Sérgio Buarque de Holanda, com seu Raízes do Brasil
publicado em 1936. Quatro motivos ou temáticas marcam Raízes do Brasil: o sistema colonial português, o
patriarcado rural, o conceito de “homem cordial" e as aporias do liberalismo brasileiro. De acordo com Sérgio
Buarque, os espanhóis, os “ladrilheiros”, teriam se esforçado para "vencer e retificar a fantasia caprichosa da
paisagem agreste" em suas colônias. Portugal, contudo, dos “aventureiros”, percebia que "a colônia [seria] simples
lugar de passagem, para o governo como para os súditos" (Cf. Sérgio Buarque, op. Cit.; ORTIZ, Renato. Cultura
Brasileira e Identidade Nacional. 2003). Além disso, em oposição à ética protestante do trabalho constituinte da
sociabilidade norte-europeia, Buarque de Holanda diagnostica nos portugueses uma moral de trabalho pouco
desenvolvida, que se ajusta bem "a uma reduzida capacidade de organização social", já que a ascensão da
burguesia portuguesa não havia levado simplesmente à destituição da velha elite, mas sim a uma existência
continuada e parasitária deste grupo. (REIS, José Carlos. As Identidades do Brasil: de Varnhagen a FHC, 2001).
Vale anotar a perspectiva da evolução racial de Oliveira Vianna, que alcançou relativo sucesso nos anos
1930. Apesar de publicado em 1923, Evolução do povo brasileiro foi uma referência importante para o movimento
integralista, a variante brasileira do fascismo nos anos 30, e integrada ao discurso político de parte de apoiadores
do governo de Getúlio Vargas, opção claramente rejeitada por Sérgio Buarque de Holanda e muitos dos
intelectuais de sua geração (PERICÁS, Luiz Bernardo e SECCO, Lincoln. Intérpretes do Brasil. Clássicos,
rebeldes e renegados. São Paulo: Boitempo, 2014).
O mais jovem expoente dessa geração foi Caio Prado Júnior. A produção historiográfica de Prado Júnior
foi marcada por uma forte vinculação entre os estudos históricos e o engajamento político, sendo um dos primeiros
e principais estudiosos representantes do materialismo histórico marxista no país. Ao adotar uma visão dialética do
processo histórico. (Bernardo Ricupero, Caio Prado Jr. e a Nacionalização do Marxismo no Brasil, 2009). Entre
seus principais livros estão os seguintes: Evolução política do Brasil (1933), Formação do Brasil contemporâneo
(1942), História econômica do Brasil (1945), A revolução brasileira (1966).
A grande novidade que Caio Prado busca trazer à historiografia nacional está nessa ampliação de foco. Ao
invés de investigar como o Brasil formou-se em sua autonomia e individualidade, tal como o haviam feito os
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historiadores até então, ele afirma a necessidade de inserir o Brasil no espaço mais amplo da civilização ocidental.
Seu pensamento dialético levou-o a perceber que a individualidade do Brasil só poderia ser definida a partir de
uma relação e não a partir de si mesma. Segundo Caio Prado, pois, é na relação colônia-metrópole que deve ser
encontrada a individualidade brasileira. É na condição de “colônia”, aponta Caio Prado, que o território e a
sociedade começam a surgir. A colônia, “como totalidade social, se constituiria, portanto, subordinada a outra
totalidade social, a metrópole” (Bernardo Ricupero, Caio Prado Jr. e a Nacionalização do Marxismo no Brasil,
2009). Por “totalidade social”, nesse caso, entenda-se a unidade composta pela sociedade que se formou no Brasil,
com colonizadores europeus, índios e escravos. O sentido que presidiu toda a formação do Brasil foi, portanto,
suprir as demandas de sua metrópole. Com isso, segundo Caio Prado, instaurava-se a “contradição fundamental”
presente na história brasileira: “interesses nacionais e portugueses díspares” (PRADO Jr, 1933). Essa relação entre
colônia e metrópole condicionou as relações sociais no Brasil, fazendo com que a sociedade se estruturasse em
dois principais grupos: os senhores de engenho, donos dos meios de produção, e os escravos, sua força de trabalho.
Na margem desses grupos, estavam os indivíduos que produziam para o mercado interno, mas que devido à
condição colonial não encontravam espaço na sociedade. Compunha-se, assim, como um “setor inorgânico” da
sociedade colonial, uma vez que não se integrava em sua parte “orgânica”, isto é, aquela composta por senhores e
escravos que dava sentido à existência da colônia: produzir para a metrópole. É dessa camada social
marginalizada, no entanto, que sairiam as bases para a formação de uma nação independente (Bernardo Ricupero,
op. cit, 2009).