Você está na página 1de 34

Psicologia Social Crítica no Brasil: política, gênero, relações estéticas e sujeitos

da dissidência

Critical Social Psychology in Brazil: politics, gender, esthetics and subjects of


dissent

Maria Juracy Tonelli (Universidade Federal de Santa Catarina)


Katia Maheirie (Universidade Federal de Santa Catarina)
Juliana Perucchi (Universidade Federal de Juiz de Fora)
Claudia Mayorga (Universidade Federal de Minas Gerais)
Ilana Mountian (Universidade Federal de Minas Gerais (PRODOC/CAPES) e
Manchester Metropolitan University)
Marco Aurélio Maximo Prado (Universidade Federal de Minas Gerais)

Introdução

Este artigo tem como objetivo apresentar a trajetória de importantes temas e suas
abordagens na Psicologia Social no Brasil. Para isso, iniciamos mapeando a
psicologia social no Brasil, levantando suas complexidades e paradoxos. Dessa
perspectiva histórica, apontamos a relação da psicologia social com os movimentos
sociais, mais precisamente do desenvolvimento teórico elaborado para o
entendimento dos movimentos sociais, da relação entre academia e ativismo, e da
discussão entre política e crítica que esse campo promove. A partir do argumento da
crítica e da política, trazemos alguns exemplos de debates atuais dentro da academia,
em especial sobre as contribuições dos estudos e ativismos de gênero e dos recentes
estudos críticos sobre política e estética no campo da psicologia social. Nosso intuito
não é apresentar uma história desta disciplina nem tampouco sistematizar um estado
da arte de seu fazer, mas antes de tudo, reconhecer que na emergência da Psicologia
Social no Brasil a idéia de crítica e de política foram fundamentais e estas idéias
constituíram esta disciplina como um campo de preocupações com o que aqui
chamamos sujeitos da dissidência que não só passa a ser um forte investimento
científico da Psicologia Social no Brasil como também cria no interior da própria


disciplina uma dissidência crítica com as posições até então hegemônicas na
Psicologia como ciência.

A emergência da dissidência: crítica, política e crise na Psicologia Social no Brasil

A Psicologia no Brasil tem uma trajetória marcada por tensões em parte decorrentes
da ambigüidade de sua origem como área disciplinar: de um lado a herança das
tradições filosóficas e, de outro, das premissas científicas que marcaram as chamadas
ciências naturais. Embora as análises das determinações histórico-sociais do
psiquismo tenham sido sustentadas antes mesmo da institucionalização da Psicologia
Social como ramo da psicologia geral ou da sociologia (Sass, 2007), a Psicologia
como profissão foi regulamentada no Brasil na década de 1960, com uma forte ênfase
na psicometria e pela prerrogativa do uso exclusivo dos testes psicológicos. Ou seja,
as práticas de avaliação e medidas, inscritas no contexto da racionalidade moderna de
se pensar/fazer ciência com seus pressupostos de objetividade, neutralidade e cisão
sujeito-objeto, ganharam a hegemonia do campo da Psicologia em seu processo de
implantação como área científica e profissão aplicada no Brasil. Importante se faz não
esquecer que se trataram dos anos iniciais da ditadura militar no país, que durou em
torno de duas décadas e trouxe impactos importantes para os campos científico e
profissional.

No que diz respeito às práticas da psicologia da época, grosso modo não fugiam à
regra da busca pela normatividade, pela adaptabilidade, pela regulação dos corpos e
mentes; o que constituiu uma visão hegemônica de ciência psicológica não sem
tensões e dissidências. Ao mesmo tempo, floresciam as diversas alternativas de
tratamento, baseadas em tradições distintas que iam desde a Psicanálise, passando
pelas de base fenomenológica-existencial (como o Psicodrama, a Gestalt-terapia e a
abordagem rogeriana) até a análise do comportamento (Coimbra, 1995). No entanto,
se por um lado, mesmo uma certa Psicologia Social era profundamente influenciada
pelo funcional-pragmatismo de origem estadunidense, por outro, movimentos da
sociedade civil e de organizações profissionais questionavam veementemente o status
quo vigente e o paradigma científico hegemônico de base positivista. De forma
semelhante ao que aconteceu em outros países, a crise da Psicologia Social no Brasil


(anos 1970 e 1980) será fortemente marcada pela oposição às perspectivas positivistas
caracterizando uma crítica epistemológica. Contudo, a dimensão política da crítica
ganhará importante destaque nesse período, como veremos adiante. Esta dimensão
tem desde então se caracterizado como uma possibilidade de pensar não somente as
relações de poder e saber da própria ciência, mas também as possibilidades de
mudança social através das reconfigurações das relações de poder e das formas de
abjeção social. Este movimento permitiu a entrada de temáticas novas como
preocupações da Psicologia Social no Brasil que neste texto identificamos como
temáticas que de uma maneira ou outra abordam a constituição de dissidências,
resistências políticas e enfrentamos a formas de opressão da sociedade brasileira.

Frente a essas críticas duas grandes alternativas surgiram para a compreensão da


disciplina: a reafirmação da Psicologia Social como ciência positivista, mesmo
incorporando revisões, e a Psicologia Social como crítica (Domenech & Ibañez,
1998). Embora essa nova posição dentro do campo da Psicologia Social possa
anunciar, exclusivamente, uma oposição a uma perspectiva filosófica, sem
necessariamente oferecer contribuições realmente originais para a disciplina (esse
debate também aconteceu dentro do campo da psicologia social no Brasil - ver
Bomfim, 2003; 2004), a forma como a Psicologia Social como crítica foi se
configurando no Brasil, apontou para a impossibilidade de se fazer a crítica sem
apresentar uma visão alternativa à posição dominante, articulando, portanto
desconstrução e reconstrução. Lane (1984) em um texto de clara inspiração marxista e
intitulado “A psicologia social e uma nova concepção de homem para a psicologia”
publicado no livro que foi um marco desse efervescente momento, Psicologia social –
o homem em movimento, denuncia que a concepção dualista de ser humano não era
capaz de explicar o seu aspecto criativo e transformador e para isso, era necessário
uma nova dimensão espaço-temporal para apreender o indivíduo como manifestação
de uma totalidade histórico-social.

Foi no início da década de 1980 que, com a criação da ABRAPSO – Associação


Brasileira de Psicologia Social -, esses esforços de crítica e resistência ganham corpo
e tornam-se visíveis no campo científico. Se mesmo antes da Psicologia no Brasil ser
reconhecida e legitimada como área do saber e campo profissional, existiam


profissionais e pesquisadores que já denunciavam as desigualdades sociais como
marcantes nos processos de subjetivação, a partir da década de 1980, com a influência
especialmente da teoria marxista, ganham fôlego os trabalhos que passaram a
constituir um novo campo, o da Psicologia Social Crítica. Uma pluralidade de
perspectivas emergiu ou foi reinterpretada a partir da crise (a psicossociologia que
articulava marxismo e psicanálise, a psicologia social comunitária, a psicologia sócio-
histórica, a psicologia e os estudos do discurso e da linguagem, a psicologia e os
estudos de gênero, a psicologia política e etc.) e seria impossível apresentar uma única
definição para essa nova Psicologia Social que insurgia no Brasil e que ganha forças e
adeptos principalmente nos anos de 1980 do século XX.

Dessa forma, interpretamos esse momento de crise da psicologia social no Brasil e


suas consequências a partir da idéia de ethos crítico (Mayorga, 2007) entendido como
um conjunto de posições e orientações mais genéricas, princípios epistemológicos e
políticos que inspirariam as produções críticas em Psicologia Social. Em termos
epistemológicos, questionava-se qualquer tipo de fundamento absoluto, princípio ou
origem do conhecimento que pudesse ser alcançado por uma faculdade intuitiva
especial; a dicotomia sujeito-sociedade e o individualismo decorrente dessa
separação; o representacionismo e a idéia de que o conhecimento se constituiria como
uma espécie de espelho da natureza; questionava-se, sobretudo, a persistência em
buscar leis universais, descontextualizadas e atemporais especificadas,
principalmente, pelas idéias de progresso e história inerentes ao projeto moderno, e o
método científico de caráter naturalista e sua aplicação ao campo das ciências
humanas e sociais.

Aí se encontra um sentido importante da crítica que é a desconstrução dos princípios


positivistas, questionando e contextualizando concepções de conhecimento, sujeito e
perspectivas epistemológicas baseadas nas idéias de historicização e
desconstrução/construção da realidade (contra um fundamento único). A premissa
básica na qual se fundamenta diz respeito à problematização do paradigma científico
e da racionalidade moderna que engendram a noção de sujeito/indivíduo. As
polaridades características desse paradigma - como natureza-cultura, indivíduo-
sociedade, corpo-mente, externo-interno, objetivo-subjetivo, sujeito-objeto - que tanto


marcaram a produção científica tradicional passaram a ser analisadas pelo viés da
crítica na tentativa de sua superação. Da mesma forma, as idéias dos universais e das
generalizações necessárias são colocadas em questão. Portanto, um dos sentidos de
crítica constituinte desse ethos é o de desconstrução epistemológica. Crise e crítica
possuem uma origem etimológica comum, todavia foram separadas pelo pensamento
social positivista, como se fosse possível pensar criticamente sem colocar em crise o
já estabelecido, objeto, portanto, da crítica. A crise é uma conseqüência importante da
crítica e, por sua vez, a crítica se revela com potencialidade quando coloca em
partilha, portanto em crise, o que está apresentado como um dado, como uma
objetivação em-si.

No Brasil, contudo, a dimensão política se articulará à noção de crítica e será parte


fundamental da constituição desse ethos reafirmando, portanto, que a crise vivida pela
disciplina não teria sido exclusivamente epistemológica, mas fundamentalmente
ético-política. Estava em debate naquele momento qual modelo de sociedade deveria
orientar a teorização e prática da Psicologia e a ABRAPSO foi um ator fundamental
na instauração e difusão desse debate. Esse era também o momento dos últimos anos
da ditadura militar e do início da abertura política e do processo de democratização da
sociedade brasileira que se reinicia a partir dos anos de 1984/5. Temas como a
pobreza, a classe trabalhadora, as exclusões, os movimentos sociais, as mulheres e a
violência (alguns deles nunca abordados pelo campo da psicologia até então), as
relações de gênero emergiram como temáticas de interesse da Psicologia Social, visto
aqui como um indício importante para compreender a tensão do debate naquele
momento. Reconhecia-se que as relações de poder dentro e fora do conhecimento
científico são fundamentais para a compreensão dos processos psicossociológicos a
serem estudados e conseqüentemente para a transformação de situações de
desigualdade, opressão, exclusão que os sujeitos da dissidência interpelavam através
de suas práticas sociais.

A dimensão colonial e elitista da Psicologia foi intensamente criticada nesse


momento, fazendo eco a outros movimentos críticos que emergiam na Psicologia
Social em outros países da América Latina (Martín-Baró, 1983; Montero, 2000). A
análise das relações de poder, a questão do conflito, da conscientização e a


transformação social abordada através do estudo dos seus agentes e a ênfase em
metodologias participativas, de ação e intervenção junto a minorias sociais, nos ajuda
a destacar um outro sentido para a noção de crítica, compreendida aqui como
problematização política. Mas tal postura não se revela somente nas temáticas que
serão abordadas, mas também na recuperação da idéia de político que compreenderá
os antagonismos e os conflitos não como desvios, crises ou patologias (como eram
compreendidas a partir da Psicologia Social de fundamento positivista ou
funcionalista), mas como dimensão constitutiva da vida social e do processo de
democratização (Mouffe, 1993; Prado, 2007).

Esse processo (in)tenso prolonga-se até os dias atuais, configurando jogos de força no
campo científico da Psicologia brasileira, de sorte a não se ter uma concepção una e
inconteste do que configura a área. Pode-se identificar que vários setores da
Psicologia Social ainda resistem à problematização de seus pressupostos
universalistas em sua busca pelos invariantes e à relativização do “método científico”
(Siqueira, 1997). Tendências diversas continuam disputando o que deve ou não ser
considerado científico e legitimado no campo acadêmico, disputa esta que tem efeitos
também na distribuição dos financiamentos, cargos, organizações curriculares,
avaliações, dentre outros aspectos da vida acadêmica. Como afirma Sass (2010), a
Psicologia Social, fruto da mesma sociedade que pretende analisar e intervir, estaria
marcada pela tensão entre contribuir com a preservação e reprodução do existente e
dispor-se, a partir de uma perspectiva histórica de lutar pela justiça e diversidade,
como resistência à ordem social vigente.

Nesse texto, buscaremos, por meio de uma recuperação histórica desse percurso, dar
relevo às algumas contribuições teórico-conceituais que alavancaram a perspectiva da
Psicologia Social Crítica no Brasil, assim como de algumas temáticas que, ao longo
das últimas décadas, constituíram alvo de especial interesse das pesquisas
desenvolvidas por pesquisadores brasileiros. Nosso foco principal será explicitar
algumas discussões teóricas que reverberam este movimento vivido na Psicologia
Social Crítica no Brasil e que configuram atualmente um conjunto de trabalhos sobre
temas que expressam estas premissas críticas e política no campo da Psicologia Social
Crítica no Brasil, tais como os estudos sobre política e estética para pensar as formas


de dissidência e das relações de gênero, poder e sexualidade que ensejam atualmente
compreender os processos de democratização da sociedade brasileira a partir da ótica
dos sujeitos do cotidiano.

Psicologia, Política e Democracia: sujeitos coletivos e democracia

As ações coletivas e os movimentos sociais tornaram-se fenômenos a serem


interpelados pelas ciências precisamente nos finais do século XIX e ganharam força
entre vários pensadores com maior radicalidade no início do século XX (Moscovici,
1985). De maneira inequívoca, pode-se afirmar que a transformação das ações
coletivas em objeto de interpelação científica foi motivada em muito pela tentativa de
controle social por parte das elites. No entanto, como nada pode ser lido de forma
linear, a entrada das ações coletivas para o reino da ciência, também significou a
inauguração de um importante debate no âmbito das perspectivas emancipatórias,
ainda que este termo tenha assumido variações ideológicas das mais plurais.

Poderíamos dizer que, apesar desta variação, esta entrada no campo científico
favoreceu em muito o desenvolvimento de estudos sobre as formas de democratização
das sociedades atuais, pois mesmo tendo inaugurado sua presença no campo científico
pela via da patologização e da regulação moral (Prado, 2001), as ações coletivas
ganharam no século XX um campo próprio de estudos que na contemporaneidade
marca uma efervescência intelectual e política de grande valia para os estudos sobre
as relações sociais (Klandermans & Staggenborg, 2002). Mesmo que esta
efervescência, como bem notou Flacks (2006), possa apontar para uma crise ética da
produção científica sobre as ações coletivas emancipatórias, indubitavelmente este
campo tem sido marcado pela efervescência teórica e metodológica. No caso do
Brasil estas foram preocupações presentes no nascimento da Psicologia Social com os
estudos sobre caráter social do povo brasileiro e das identidades nacionais (Leite,
XXXX).

Inicialmente a Psicologia, como também visto em outras ciências, se utilizou das


ações coletivas para pensar a mente grupal e a mente individual e exerceu seu poder
de patologização das ações humanas, inaugurando uma linha de estudos sobre os


comportamentos coletivos (Turner e Killian, 1957; Smelser, 1962, Moscovici, 1985).
Assim, o século XX foi um laboratório não só das ações coletivas no mundo público,
mas também das interpretações científicas que acenaram com as explicações mais
variadas para um fenômeno que a cada dia interpela o próprio conhecimento
científico. A obsessão e a fúria pela classificação e hierarquização do conhecimento,
como bem notou Santos (2002) ao criticar o paradigma moderno de ciência, fizeram
dos movimentos sociais e da ação coletiva um objeto interpelável pela própria
Psicologia e, mais particularmente, pela Psicologia Social e Política (Prado, 2001).

O papel da Psicologia Social e Política neste campo foi (e tem sido) amalgamado por
uma certa ambigüidade conceitual e política que merece ser explicitada (Prado, 2001).
Logo na emergência do interesse sociopsicológico aparecem os conhecidos estudos
sobre as massas e as multidões, esses em grande parte, visando anunciar a
complexidade das ações coletivas para a democracia da época e os perigos que
poderiam prever através das experiências das massas em público para o chamado
desenvolvimento democrático. Se por um lado, autores da intitulada psicologia das
massas evidenciaram pouca simpatia e legitimidade sobre a experiência das
multidões, possivelmente pelo motivo que lhes faltou conceitos que abrangessem os
fenômenos além da experiência individual, por outro lado, eles também apontaram
para questões que se fazem presentes até os dias atuais e que revelam a importância
de pensarmos a experiência subjetiva da própria política. No pensamento psicológico
brasileiro pode-se perceber que estas preocupações se traduziram de estudos
temáticos sobre raça, identidades nacionais, estudos sobre a patologização dos
conflitos sociais e etc. (Ver autores).

Durante o século XX, precisamente entre os anos de 1940 e 1960, uma nova guinada
no campo de estudos dos fenômenos das ações coletivas marcou a emergência de um
projeto científico de cunho racionalista bastante influenciado pelas teorias econômicas
e sistêmicas na análise das ações coletivas. Exemplo destas perspectivas pode ser
observado na teorização sobre mobilização de recursos que, por um lado, explicou a
relação das ações coletivas com as instituições sociais e, por outro, negligenciou a
questão do motivo pelo qual as pessoas participam, sobrevalorizando dessa maneira, o


modo como elas participam em termo de uma relação binária entre custos e efeitos da
participação (Gohn, 1997).

Contraditoriamente, no entanto, a posição científica não foi somente exercida no


controle, muito pelo contrário, a entrada das ações coletivas no campo científico
trouxe também importantes apreensões analíticas sobre o sentido e o significado
destas ações humanas no mundo atual. Mesmo tendo sido recebido pouca
legitimidade no campo científico, a complexidade das ações coletivas, suas
dinâmicas, suas significações, suas efetividades e, sobretudo, seus impactos na vida
em sociedade trouxeram irrevogáveis críticas ao conhecimento científico, permitindo
também uma descolonização da própria ideologia de produção da psicologia social
contemporaneamente observada na tentativa de construção de um tempo histórico
pós-colonial para o pensamento científico emancipatório (Santos, 2002).

A efervescência deste campo de pesquisas no século XX (Klandermans; Staggenborg


& Tarrow, 2002) foi relevante para a compreensão de que há uma relação ainda não
apreendida entre a constituição dos sujeitos e das identidades e a formação dos
sistemas e suas rupturas. Isso tem permitido uma nova emergência da Psicologia
Social e Política neste campo, valorizando assim as tentativas de compreensão do
hiato produzido pelos modelos teóricos anteriores ao enfrentar as contradições entre a
formação dos sujeitos e as rupturas ou continuidades das formações sistêmicas
(Melucci, 1996; Domingues, 2004).

Ressaltamos duas questões fundamentais para a reinserção da Psicologia Social no


debate das ações coletivas e dos movimentos sociais na atualidade: a crise da
experiência do sujeito coletivo privilegiado e unificado ou como identificaram alguns
autores “o fim do modelo de ator único” (Sandoval, 1989); e a redimensão do político
na atualidade que identificou para além dos processos de institucionalização, formas,
discursos e práticas políticas que interpelam a institucionalidade da política e
questionam a separação total entre a dimensão da experiência privada e da
experiência pública (Tejerina, 2005). Estas questões tornaram-se centrais, dada a
emergência de uma Psicologia Social Crítica no âmbito da crise da Psicologia Social
brasileira.


Quanto à primeira – o esgotamento da noção do sujeito coletivo unificado – pode-se
dizer que, com o advento de movimentos de mobilização social que não mais se
reduziam ao modelo de atores únicos, ou seja, que não estavam necessariamente
vinculados à posição que ocupavam na estrutura societal a partir das relações de
trabalho, os sujeitos múltiplos passam a receber importância dos estudos
psicossociológicos sobre mobilização (Melucci, 1996; Klandermans & Johnson,
1995). Ao tomar outros sujeitos que não somente a classe social, como sujeito
coletivo, as análises dos movimentos sociais começam a enfrentar novas e inúmeras
questões na produção brasileira (Camino, Sandoval, Lhullier, Sawaia, Maheirie)

Desta forma, entram para o debate não somente as críticas ao projeto emancipatório
do ator único e as posturas mais essencialistas, tanto na Sociologia como na
Psicologia, mas, sobretudo as críticas ao processo de construção do ator (Touraine,
1988). Neste sentido, dá-se, a partir deste momento, maior atenção ao processo de
constituição das ações coletivas e de sua dinâmica interna, não por outro motivo
estudos sobre a consciência e as identidades coletivas foram importantes para a
consolidação dos estudos sobre política na Psicologia Social no Brasil (Sandoval,
Camino)

Quanto à segunda questão – da expansão do político – podemos dizer que atualmente


o político tem sido revisitado, isso como conseqüência da crise do modelo de ator
único e das crises da institucionalidade do político, decorrentes de inúmeros fatores,
tais como: a crise da Modernidade, a crise do Estado keynesiano, a expansão dos
meios de comunicação de massa que trouxe uma maior homogeneização da cultura
(Mouffe, 1988) e a “mercadorização” (commodification) de inúmeras esferas da vida
social (Offe, 1989).

Estas duas questões foram igualmente relevantes na emergência de uma Psicologia


Social Crítica brasileira que estudasse os movimentos de democratização do país, as
relações de poder e suas dinâmicas bem como as formas de organização social que
buscaram, mesmo durante o período de ditadura militar, construir espaços
democráticos no âmbito do mundo público e privado. Muitos movimentos sociais e

10


expressões de ações coletivas foram estudados no Brasil a luz da Psicologia Social
Crítica e estes estudos também colaboraram na configuração de um campo de estudos
de fenômenos políticos a partir da Psicologia Social brasileira. Pode-se dizer que foi
esta uma via de mão dupla: 1- vertentes da psicologia social que trabalharam na
construção de sua visão crítica e política permitiu que novos problemas fossem
tornados questões científicas e 2- os próprios movimentos sociais, a partir da
conquista de que são sujeitos da experiência com capacidade discursiva sobre a
própria experiência, foram influenciando as ciências, sobretudo a Psicologia Social,
no intuito de configurar uma ciência com capacidade de pensar o próprio contexto em
que é produzida.

O debate acadêmico contemporâneo está bastante consciente do enfrentamento destas


ambigüidades e hiatos, no entanto, ainda parece permanecer uma visão dualista sobre
as ações coletivas, especialmente no que diz respeito à ontologia dos atores políticos.
Para enfrentar tal questão, nos parece necessário esclarecer nosso entendimento sobre
a emergência dos sujeitos e a manutenção das identidades. Trataremos de separar dois
conceitos-chave, sujeito e identidade, que em vários autores (Javaloy, 2001) do
campo de estudo dos movimentos sociais aparecem muitas vezes como sinônimos.

Por sujeitos entende-se, a partir da proposição de Rancière (1996), que estes não
correspondem à transparência, à temporalidade ou à capacidade da razoabilidade
consentida. Sujeitos são emergentes do litígio do consentido. São, segundo o autor,
enunciados dos não-contados, discursos onde anteriormente só escutávamos ruídos,
vozes onde só se ouviam barulhos. Sendo assim, são eles, nesta visão, uma
perturbação da ordem da gestão dos corpos, uma conturbação do curso do
consentimento; produzem modificações no que é o dizível, o contável e o visível. São
um duplo porque “só existem por sua distinção em relação a qualquer grupo social, a
qualquer parte da sociedade ou função do corpo social. O que os constitui é o próprio
litígio” (Ranciere, 1996:377). São atos de precariedade e não de permanência, já que
colocam em litígio as bases dos consentimentos e das formas de legitimação social.

“Assim, os sujeitos políticos são entendidos como – “sujeitos em


ato, como capacidades pontuais e locais de construir, em sua

11


universalidade virtual, aqueles mundos polêmicos que desfazem a
ordem policial. Portanto são sempre precários, sempre suscetíveis
de se confundir de novo com simples parcelas do corpo social que
pedem apenas a otimização da sua parte” (Rancière, 1996:378).

Indubitavelmente, apresenta-se o risco de confundirmos os processos de subjetivação


política com parte das identidades. Ou seja, o risco de que a precariedade dos sujeitos
se transforme na fixação das identidades, que apenas "pedem a otimização da sua
parte", mas não criam o litígio do mundo do sensível, a desclassificação. Os sujeitos,
capazes que são de uma universalidade virtual, podem imaginar um mundo que não
existe; podem, portanto, criar nomes para o não nomeado, criar território para o ainda
impensável e não nomeável.

Sujeitos e identidades são experiências sociais históricas que se organizam a partir de


lógicas distintas, todavia, suplementares. O sistema de legitimação e normalização,
que Rancière (1996) entendeu como sendo a polícia, é que instala a experiência das
identidades e de sua manutenção, motivo pelo qual são posições e experiências sociais
de maior suscetibilidade nas malhas da regulação, já que são posições de fixação
temporárias, classificatórias e permeáveis às lógicas da gestão dos corpos. As
identidades, neste sentido, entram em negociação sobre as suas diferentes posições de
fala, ou seja, no âmbito da polícia e não da política, a situação de fala já está
constituída, assim como os atores identitários, bem como os possíveis objetos sociais
a serem repartidos. Ou seja, as identidades são a ponta do iceberg de um processo
longo de constituição de parte da arena pública: a polícia. Elas criam sistemas de
ação, lógicas de pertencimento e posições políticas para gestão e funcionalidade das
lógicas da governabilidade.

Assim, os sujeitos são entendidos como precariedades que ao conceberem atos locais
de desclassificação criam uma universalidade virtual, no entanto, são, pelo risco da
própria política, passíveis de serem identidades em algum momento (Rancière, 1996).
Portanto, os sujeitos não poderiam existir por si só, já que como atos de precariedade
não sobrevivem fora da articulação hegemônica, e exatamente por isso podem
constituir-se em identidades.

12


O desenvolvimento destas perspectivas teóricas intercede também na valorização
daquilo que deveria ser princípio de uma sociedade democrática: o surgimento de
novos sujeitos políticos, pois eles emergem a partir do reconhecimento de novas
formas de opressão e novas sensibilidades. Estes sujeitos políticos, de acordo com seu
tempo histórico, surgem e organizam-se criando novas formas de ação coletiva que
correspondem às formas de opressão social; motivo pelo qual se torna imprescindível
uma pauta de pesquisa sobre as formas das militâncias contemporâneas a partir das
dinâmicas internas e das lógicas atuais da opressão social. Além disso, estas
perspectivas no campo da Psicologia Social no Brasil tem levado os pesquisadores ao
desenvolvimento de estudos sobre a formação estética dos conflitos sociais.

Estudos críticos nesse campo, visam a desclassificação e desnaturalização dos


processos de subjetivação e objetivação (Vygotski, 2001; Vazquez, 1999). Tais
trabalhos buscam analisar as relações estéticas em diferentes práticas sociais, na
educação, nos movimentos sociais e nos seus múltiplos desdobramentos na esfera da
política (Da Ros, Maheirie & Zanella, 2006; Zanella e Maheirie, 2010). Por relação
estética se entende a relação de sujeitos concretos com diferentes objetivações
(objetos/obras, discursos, outros sujeitos, natureza, etc.), onde se desconstrói sentidos
cristalizados ou hegemônicos que se tem acerca delas. Tal relação se constitui pela
mediação do outro e implica, necessariamente, contextos concretos e socialmente
construídos.

Estética, entendida aqui não como um campo de estudo específico das Artes ou da
Filosofia, mas como relação necessariamente, seu sentido passa pela ampliação da
sensibilidade, onde se desvelam olhares, escutas e afetos na produção de novas
racionalidades. O conceito de relação estética está intimamente ligado ao conceito de
afeto, entendido como afetar e ser afetado pelo outro ou pela cena que se presencia,
nas diferentes formas de objetivação possíveis. Por meio de diferentes linguagens, a
relação estética é capaz de desestabilizar verdades ou regimes de verdade, uma vez
que desmistifica a imparcialidade e a neutralidade.

13


A Psicologia Social Crítica, a partir dos trabalhos desenvolvidos na década de 80 com
teorias amparadas no materialismo histórico e na dialética, chega a Psicologia
Histórico-Cultural de Vygotski, autor que traz uma visão histórico-social do sujeito a
partir de seus estudos com a Arte. Crítico de arte, Vygotski (1998; 2001) esboça sua
psicologia trazendo os conceitos de catarse e estética, mostrando que as objetivações
artísticas são capazes de produzir um “curto circuito” nas emoções, gerando a
superação dos sentimentos e possibilitando a recriação do sujeito que com elas se
relacionar. Ou seja, relações estéticas são capazes de produzir novas racionalidades,
engendrando processos abertos e inacabados de modos de subjetivação e objetivação.

A psicologia de Vygotski, exercendo uma crítica ao pensamento cientificista, nos traz


um sujeito que só se faz enquanto tal por meio de suas relações sociais, ou seja, ele se
faz na relação com o outro e por meio desta relação produz significados e sentidos, de
forma que sua constituição se dá semioticamente mediada. Neste sentido, a cisão
individual/coletivo perde sua força, abrindo espaço para uma concepção de sujeito
que se faz por meio de processos de subjetivação e objetivação em contextos
necessariamente coletivos.

Bakhtin (1997, 2003) e seus interlocutores também nos auxiliam a compreender a


potência do objeto estético e as relações possíveis engendradas em seu entorno como
sendo dialógicas, apontando para desdobramentos críticos no campo teórico-
metodológico. Para este autor, todo signo é ideológico e se constitui na esfera
coletiva. Neste sentido, o discurso, como objetivação da subjetividade, é produto de
relações dialógicas entre sujeitos e reflete, refrata e recria as múltiplas vozes que o
compõem.

A partir da contribuição crítica de Vygotski, dos trabalhos do Círculo de Bakhtin, dos


interlocutores destes autores e, mais recentemente, da contribuição de Rancière
(2005), temos nos aproximado das objetivações artísticas para compreender as
relações estéticas no campo da política.

A deslegitimação das formas tradicionais de se fazer política tem dado espaço a


reinvenção do político na esfera cotidiana, presencial e virtual, por meio da ação do

14


coletivo transformado e permeado por diferentes linguagens. Longe de projetar um
futuro racional e certeiro, as novas formações coletivas não dispensam a comunicação
imagética e outras linguagens artísticas, ampliando o tema da luta por direitos, na
incorporação da estética na objetivação de suas lutas.

Sem dicotomizar a esfera pública da privada, as análises produzidas por uma


Psicologia Social Crítica sob esta ótica se faz atenta a abertura do sensível e sua
partilha (Rancière, 2005). Para Rancière (2005:13), “a estética é um modo de
articulação entre maneiras de fazer, formas de visibilidade desse fazer e modos de
pensabilidade de suas relações, implicando uma determinada idéia da efetividade do
pensamento”.

Os coletivos que se unificam na ação política se objetivando esteticamente buscam


olhar o invisível, falar o indizível, mostrar o não-ser, denunciar o subtexto e apontar a
ficção do pensamento na partilha desta experiência, tornando a razão sensível ao
comum, no traço da especificidade. Compreender racionalidades no sensível é a
possibilidade que nos abre ao estarmos atentos a essas novas experiências, já que elas
captam, criam e recriam sentidos múltiplos, deslocando palavras, imagens e sons
cristalizados hegemonicamente em diferentes contextos sociais.

Há nessas experiências a criação de uma leitura da esfera da política, que passa longe
de ser uma representação dela (Rancière, 2005). É antes, a invenção de uma
linguagem que visualiza a situação de dominação e opressão, comunicando novas
racionalidades que afetam e são afetadas pelo coletivo, que denuncia e reinventa
estratégias de luta e emancipação.

Cenas inventivas na linguagem estética se constituem em atos simbólicos,


polissêmicos, que possibilitam novas formas de compreender processos de
dominação, reinventar novas formas de afetar e ser afetado, denunciando a opressão e
transformando a opressão em formas fictícias de empoderamento. Para Rancière
(2005), há aí a produção de verdades múltiplas que se pautam na ficção, e não
devemos entender que a ficção está separada do real, pois não há fronteiras entre a

15


razão dos fatos e a razão das ficções. É neste processo que reside a “revolução
estética”, a qual rearranja os signos da linguagem na polissemia dos fatos (idem).

Assim, a estética na política, ou a política vista a partir de seu horizonte estético, pode
abrir profícuos caminhos na compreensão das múltiplas formas de coletivos e suas
possibilidades de luta e empoderamento. As formações coletivas imbuídas da estética
podem vir a nos dizer muito mais acerca do que não nos é compreensível,
possiblitando que nossos olhares alcancem uma compreensão das novas formas de
configuração do político na contemporaneidade.

Pesquisas importantes sobre estes temas na política tem sido desenvolvidos a partir do
estudo da produção artística dos movimentos sociais, das relações entre estética e
mobilização social, bem como na investigação de novas sensibilidades da dissidência
que muitas vezes não foram tomados como elementos da política. (XXXXXXXX)

A perspectiva de uma Psicologia Social Crítica no Brasil na análise destas formas de


dissidência trouxe como foco o estudo sobre a política e os processos de subjetivação,
entendidos aqui como processos capazes de democratização das relações de poder e
de abertura para novas formas de objetivação social. O esforço da própria Psicologia
Social Crítica se dá no entendimento da dinâmica do entreato dos movimentos sociais,
dinâmica esta que revela o paradoxo entre o universal e o particular. A partir desta
visão, pode-se desenhar algumas pautas que vem sendo desenvolvidas pela Psicologia
Social Crítica no Brasil podem ser elencadas:

1-Revisão do entedimento de política de dentro da Psicologia, onde poder não é mais


um conjunto de relações que podemos ultrapassar, transpor, mas sim um conjunto
constituinte de nossas práticas e discursos, logo de nossa subjetividade.
2-A inclusão de cidadania para a pesquisa crítica. No entanto, esta referência não
deverá tomar a cidadania como uma identidade dominante que se sobreponha às
outras, nem como apenas uma entre outras (Mouffe, 1996), mas, pelo contrario,
compreender a questão dos direitos e da cidadania como um principio articulador que
afeta as diferentes posições de sujeito (Mouffe, 1996). A cidadania, nesta visão, pode
ser pensada como uma questão de identificação política, ou seja, como uma das

16


articulações entre as distintas lutas de diferentes grupos, visando a construção de um
nós – “uma cadeia de equivalências entre as suas exigências, de forma a articula-las
pelo principio da equivalência democrática” (Mouffe, 1996:96). Cidadania, nesta
visão, não é a extensão da esfera dos direitos somente – o que se chama de inclusão
social atualmente – mas é a decomposição de identidades e a constituição de uma
cadeia de equivalências que subverta a lógica identitária excluído-incluido.
3-A importância da construção de problemas de pesquisa a partir da lógica histórica,
tanto a da continuidade histórica, que revela o caráter da extensão dos direitos, no
sentido da expansão das ideologias, como a da descontinuidade histórica que revela as
mutações nas formas de opressão e organização social e o surgimento de novos
sujeitos políticos. Desta forma, o estudo dos processos articulatórios da emergência de
sujeitos políticos, através do caráter coletivo da vida social se apresenta como
fundamental, expressando a relevância dos estudos de uma Psicologia Social Crítica.
4-A compreensão de que as características do contexto social, histórico e cultural não
são somente uma espécie de “caldo” onde estamos submersos e, por isso, exigem
algumas relativizações no uso de instrumentos e práticas psicológicas, mas pelo
contrário, tomar estas características como constituintes, portanto capazes de exigir
outras práticas e instrumentos que talvez precisem ser criados e reinventados para o
estudo de problemas que muitas vezes se apresentam ainda como invisíveis ao campo
de intervenção.

Estudos de Gênero, Teorias Feministas e Estudos Queer: impactos sobre a


Psicologia Social

Uma das áreas de pesquisa que tomou corpo a partir da perspectiva crítica gira em
torno do campo do sexo/gênero. Embora não se possa falar em uma Psicologia
Feminista no Brasil, faz-se fundamental reconhecer a importância dos estudos de
gênero e das teorias feministas, assim como dos movimentos sociais para a
problematização dessas desigualdades no campo da Psicologia.

O feminismo constitui um campo político/movimento social, que se iniciou de forma


mais organizada no final do século XIX e início do século XX, com a luta pela

17


igualdade de direitos civis, políticos e educativos, antes apenas reservados aos
homens. O marco desta época é o sufragismo.

No que se refere ao sufrágio no Brasil e suas especificidades em relação ao panorama


estadunidense e ingles, Alves e Pitanguy (1984:44) afirmam que “(...) esta foi uma
luta específica que abrangeu mulheres de todas as classes, foi uma luta longa,
demandando enorme capacidade de organização e uma infinita paciência. Prolongou-
se, nos Estados Unidos e na Inglaterra, por 7 décadas. No Brasil, por 40 anos, a contar
da Constituinte de 1891”. Estas autoras consideram que a luta pelo direito ao voto, no
Brasil, não teve as mesmas características de movimento de massas, como nos
Estados Unidos e Inglaterra, destacando que, no caso brasileiro,

(...) ele iniciou-se bem mais tarde, em 1910, quando a professora Deolinda
Daltro funda, no Rio de Janeiro, o Partido Republicano Feminino, com o
objetivo de ressuscitar no Congresso Nacional o debate sobre o voto da
mulher, que não havia sido retomado desde a Assembléia Constituinte de 1891
(...) o direito ao voto foi sendo alcançado paulatinamente nos Estados. Desta
forma quando, em 1932, Getúlio Vargas promulga o direito de sufrágio às
mulheres, este já era exercido em 10 Estados do país (Alves e Pitangy,
1984:48)

No contexto brasileiro, o feminismo instaura outra lógica na produção do


conhecimento que tem as mulheres como objeto. Rago (1997) destaca diferentes
desdobramentos do movimento e da crítica feminista na tradicional perspectiva do
discurso médico sobre a sexualidade e das diferentes observações acerca do universo
feminino no Brasil colonial, perspectivas excessivamente misóginas, de sujeitos
masculinos “imersos em suas problemáticas fantasias sexuais, ao imaginarem o corpo
e a languidez das índias nuas na Terra de Santa Cruz, ou ao reforçarem a sensualidade
das escravas negras na grande propriedades de terra” (Rago, 1997:16) (ver também
Del Piore 1997).
. O feminismo no Brasil, segundo esta autora, denunciou “o conservadorismo e a
misoginia do pensamento científico do século XIX e meados do XX, ao construir uma
determinada referência de feminilidade e um ideal de identidade feminina” (Ibid).

18


Simultaneamente ao movimento, o projeto feminista configurou um campo teórico-
epistemológico acadêmico, que apresenta tendências diversificadas segundo as
diferentes tradições críticas. Nele pode-se identificar, dentre outras possibilidades, as
contribuições da teoria marxista, dos estudos do patriarcado, da psicanálise, e das
correntes conhecidas como pós-estruturalistas. Essas enfatizam a questão da
diferença, da subjetividade e da singularidade das experiências, concebendo que as
subjetividades são produzidas discursivamente. Essas perspectivas questionam formas
de produção do conhecimento científico, denunciando a impossibilidade da
manutenção da crença na neutralidade, essencialismo e demais pressupostos e regras
do paradigma positivista.

Entre os eixos fundamentais que articulam o movimento social e a produção teórico-


acadêmica feminista, encontram-se as preocupações teórico-epistemológicas e
metodológicas, uma vez que se entende que o fazer científico não é neutro, ao
contrário, é comprometido politicamente. O conceito de gênero, com seus limites e
possibilidades, demonstra o caráter (in)tenso dessa posição.

O feminismo no Brasil teve importantes influências de tradições europeias (Beauvoir


2009; Pateman 1993) e estadunidenses (Scott, 1995; Haraway, 1995; Butler, 1998).
Em texto considerado clássico pelas pesquisadoras feministas no Brasil, Scott (1995)
define gênero como constitutivo das relações sociais e a primeira forma de significar
as relações de poder, entendendo que não há uma subjetividade propriamente
feminina, mas uma subjetividade “criada para as mulheres, em um contexto específico
da história, da cultura e da política” (Scott, 1998:116).

“[o discurso da diferença dos sexos] não se refere apenas às idéias, mas
também às instituições, às estruturas, às práticas quotidianas, como também
aos rituais e a tudo que constitui as relações sociais. O discurso é um
instrumento de ordenação do mundo, e mesmo não sendo anterior à
organização social, ele é inseparável desta. Portanto, o gênero é a organização
social da diferença sexual. Ele não reflete a realidade biológica primeira, mas
ele constrói o sentido dessa realidade. A diferença sexual não é a causa

19


originária da qual a organização social poderia derivar. Ela é antes uma
estrutura social movente, que deve ser analisada nos seus diferentes contextos
históricos” (Scott, 1998: 115).

Na esteira dessa perspectiva pós-estruturalista, que entende o sujeito como


discursivamente produzido, fragmentado, efêmero, movente, Haraway (1995:29)
afirma que “gênero é um campo de diferença estruturada e estruturante, no qual as
tonalidades de localização extrema, do corpo intimamente pessoal e individualizado,
vibram no mesmo campo com as emissões globais de alta tensão”.

As definições de gênero na psicologia e em particular na psicologia social, colocam


de modo agudo os problemas da comparação cultural, da tradução lingüística e da
solidariedade política. Os estudos feministas e de gênero são posicionados do ponto
de vista político e, portanto, não comungam da crença positivista que defende a
neutralidade cindindo sujeito e objeto de investigação. Ao contrário, sob uma ótica
feminista, sujeito e objeto se identificam e a neutralidade é substituída pelo
engajamento.

As doutrinas ideológicas da neutralidade como primado do rigor do método científico,


assim como a epistemologia que a legitima, acabam por sustentar práticas científicas
alienantes e descompromissadas com as demandas sócio-políticas e econômicas
subjacentes aos fenômenos investigados. Deste ponto de vista, advém o argumento
radical de que a ciência é eminentemente retórica, sendo nada mais que ação de atores
sociais relevantes e que o conhecimento fabricado por estes é um caminho para uma
forma desejada de poder objetivo. Nesse sentido, “todo conhecimento é um nódulo
condensado num campo de poder agonístico” (Haraway, 2004:11) e a ciência pode
então ser considerada em seus jogos de poder, em sua forma retórica e não mais como
a tradução da verdade acerca do mundo.

Teorias feministas apontam a importância de estudos que enfatizem a política, as


traduções transculturais, o subjugado e parcialmente compreendido. Haraway (2004)
propõe que o projeto feminista contemple a objetividade corporificada: “objetividade
feminista significa, simplesmente, saberes localizados” (1995:18). A promessa de

20


objetividade não seria a busca por uma posição de identidade com o objeto, mas uma
conexão parcial. Não se pode estar em todas as posições, ou inteiramente em uma
posição privilegiada para a observação do objeto científico, e isso se aplica às
categorias subjugadas (ou privilegiadas) como no caso dos estudos de gênero, raça,
classe, território, geração. O conhecimento localizado pressupõe o reconhecimento da
posição (parcial) de poder/saber, porém não se trata de um relativismo, “não é
qualquer perspectiva parcial que serve; devemos ser hostis aos relativismos e
holismos fáceis, feitos de adição e subsunção das partes”, adverte Haraway (1995:34).

As psicólogas portuguesas Nogueira (2001a), Amâncio (2001), assim como Neves e


Nogueira (2005), atentas a esse debate, defendem estrategicamente a existência de
uma psicologia feminista que se posiciona inequivocamente numa linha de ação
ativamente anti-sexista, sustentando que, aos olhos da ciência, tanto as experiências,
como valorações, preocupações e vivências de homens e mulheres devam ser iguais.
Assim, a psicologia feminista não só proporia a compreensão da chamada “condição
feminina”, mas também de outros sistemas de classificação geradores de opressão
como raça, orientação sexual, classe entre outros (Nogueira & Neves, 2003; Amâncio,
2001; Nogueira, 2001a). Essa leitura crítica proporciona por um lado a desconstrução
de categorias sociais (gênero, classe, raça, sexualidade, idade entre outras) e invoca a
necessidade da leitura dessas categorias em sua intersecção (Mountian, 2011).

A análise e desconstrução do que é genero e sexualidade são temas centrais nos


debates dos estudos de genero (pesquisa feminista e estudos Queer) no Brasil. Ao
discutir a universalidade do termo “mulheres”, Butler (2003) desconstrói a idéia de
uma possibilidade de significação única para a categoria “mulher” ou “mulheres”.
Acaba por abordar o fato de que diferentes mulheres ou diferentes feminilidades, de
certa maneira, suscitariam diferentes tipos de opressão. Neste sentido, Butler (1998)
enfatiza a necessidade de se trabalhar com o que ela denomina “fundamentos
contingentes” no feminismo. A partir de todo esse debate, torna-se necessário admitir
o caráter contingencial dos próprios construtos teóricos e categorias analíticas.

Nesse cenário de debates teórico-espistemológicos, pode-se identificar algumas


implicações metodológicas no campo da Psicologia Social Crítica, dentre elas a

21


rejeição aos seguintes pressupostos: 1) a independência entre cientista e objeto de
pesquisa; 2) a “descontextualização” da matéria do campo em que está inserida física
e historicamente; 3) a teoria e a prática neutras em valor; 4) a independência dos
“fatos” em relação ao cientista; e, 5) a superioridade do cientista em relação às outras
pessoas. (Gergen, 1993; Narvaz & Koller, 2006; Neves & Nogueira, 2005).

Nesse sentido, ressaltamos a importância da reflexividade e do conhecimento


localizado nas metodologias feministas, sobretudo, no que se refere a suas diferentes
utilizações e desdobramentos na produção de conhecimento em países do hemisfério
Sul, como o Brasil e demais países da América Latina, caracterizados por uma
economia periférica no âmbito do capitalismo global e cuja própria construção,
enquanto jovens nações ocidentais, é historicamente marcada pelo sexismo e pelo
racismo. Há a necessidade do(a) pesquisador(a) situar-se de forma reflexiva no
processo, atentando-se ao fato de que os processos de produção do conhecimento são
sempre enraizados nas histórias e experiências localizadas daquele(a) que busca
conhecer algo e daquele(a) que é estudado. Dessa maneira, a investigação feminista
deve ser sensível às diferenças e hierarquias oriundas de vetores como gênero,
geração, classe social, raça/etnia, aspectos culturais. Deve também partir do
entendimento de conhecimento como sempre situado, não essencialista e deve
valorizar a emoção e as experiências femininas no processo de conhecer (Arruda,
2002; Adrião, 2008).

A pesquisa feminista tem como especial preocupação analisar criticamente o lugar


do/a investigador/a na relação com os/as participantes e o impacto sobre eles/as,
reconhecendo que a sua perspectiva é fundamental e singular, visando dar voz a
grupos marginalizados e excluidos. O objetivo comum é o da mudança social, o que
enfatiza o caráter engajado do pesquisar feminista. (Nogueira, 2001b; Nogueira,
2001c; Von Smigay, 2005)

Estes aspectos metodológicos e debates feministas trouxeram importantes


contribuições para o campo científico em geral, no que diz respeito ao estatuto da
ciência e às formas de produzir conhecimento, e assim se apresenta também na área
da Psicologia Social. O desafio da construção de uma Psicologia Social crítica, por

22


exemplo, pode demonstrar os embates internos no campo científico que traduzem os
jogos de força na luta pela posição hegemônica. A área da Psicologia no Brasil ainda
hoje vê com desconfiança a categoria gênero e, com freqüência, os trabalhos que a
utilizam o fazem como sinônimo da variável sexo, de forma a-crítica e a-histórica. Na
busca pelo status de ciência, a Psicologia ainda advoga os princípios da neutralidade e
da objetividade, lidando com dificuldade com a diversidade de posições e construções
de subjetividade (Siqueira, 1997; Fonseca, 1997). As contribuições das teóricas
feministas, no entanto, paulatinamente vêm sendo incorporadas, na esteira da crítica à
ciência positivista, de forma a produzir saberes e práticas comprometidas e implicadas
(Azeredo, 2010; Nuernberg, 2005).

Também na arena dos movimentos sociais, inclusive os feministas, a inserção do


conceito de gênero e das críticas feministas não se processou de modo consensual e
unânime no Brasil. A tensão ainda se faz presente em muitos pontos do debate.
Ressaltamos um deles peculiarmente importante: das diferentes interpretações que os
diferentes atores sociais atribuíam à capacidade analítica e política da noção de
gênero num desiderato bastante caro aos movimentos sociais ligados aos feminismos,
ou seja, de como as hierarquias entre os gêneros podem ser reconhecidas como
relações de opressão, na medida em que, no jogo hierárquico, um deles é oprimido.
Para isso, caberia ao conceito de gênero traduzir estratégias de desnaturalização do
processo das classificações e dos valores hierárquicos que se estruturam na
manutenção da inferioridade de alguns segmentos sociais perante outros (Azerêdo,
1998; Strey, 1998).

Parece pertinente nesta reflexão problematizar acerca da relação das experiências,


práticas sociais e performances contempladas pelo conceito de gênero, com a
constituição de estratégias políticas dos movimentos sociais, que se dividem entre a
ação afirmativa das identidades e a tentativa de escapar das restrições hierárquicas dos
“rótulos” e das definições. Neste sentido, vale pensar sobre o que implica considerar o
conceito de gênero como uma categoria de análise útil, passível de ser usada como
ferramenta de crítica à hierarquia entre homens e mulheres como uma naturalidade
classificatória a ser desconstruída também no campo da ciência. Entretanto, os usos
deste constructo teórico foram demasiadamente marcados por um caráter descritivo,

23


sobretudo, em relatos e análises – acerca das ações coletivas de movimentos sociais –
menos próximos das teorias feministas, e também, por um caráter binário, quando
bandeiras de luta traduzem enfaticamente, por exemplo, experiências, práticas sociais
e performances exclusivamente heterossexuais.

O conceito de gênero, quando entendido de maneira essencialista, foi desafiado pelo


movimento LGBTT (Lesbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) – que o
acusa de ser cunhado por uma esfera específica e restrita do movimento feminista
(representativo de um segmento de mulheres brancas, heterossexuais, das elites e
intelectualizadas). Esta crítica acirrou o afastamento entre movimentos LGBT e
feministas que incorporaram mais propositivamente o conceito de gênero. Entretanto,
por outro lado, o conceito permitiu “descolar” a vinculação naturalmente feita entre
atributos sexuais e atributos de masculinidade e feminilidade.

O “esvaziamento” político do conceito no âmbito de alguns estudos alia-se a certa


tendência “dicotomizante” que insiste em submeter definições do conceito de gênero
às fixações das normas de gênero que o próprio conceito denuncia. Dito de outro
modo, o caráter apolítico e acrítico dos usos descuidados da noção de gênero, não
apenas pelos movimentos sociais, mas, também pelas ciências, não se processa apenas
na utilização descritiva do gênero, mas, sobretudo, quando gênero é considerado a
partir de uma matriz de dois - e apenas dois - “corpos sexuados”, sobre os quais a
construção social de gênero é então imposta.

Atualmente as ações coletivas empreendidas pelos sujeitos políticos do feminismo


tornaram-se mais visíveis à Psicologia Social brasileira. Assim, as críticas feministas
abriram caminho às críticas de outros movimentos emancipatórios, como o
movimento LGBTT. Enquanto as primeiras denunciavam o sexismo e a desigualdade
nas relações de gênero, as críticas da militância LGBTT voltam-se contra a
heterossexualização da sociedade. Se por um lado essa proliferação vertiginosa de
críticas oriundas dos movimentos sociais fertilizou o solo para que os estudos de
gênero fossem efetivamente contemplados pela Psicologia Social, por outro, fez com
que agenda da luta também se pluralizasse: enquanto para algumas militantes e
intelectuais a integração social da diversidade, numa sociedade plural, polimorfa e

24


democrática parecia ser a perspectiva vislumbrada de transformação social, para
outras (principalmente para as feministas lésbicas) a perspectiva era outra: a da
separação, da especificação das demandas, de acentuação das diferenças no interior da
diferença de gênero. No final do século XX, as pesquisas em Psicologia Social no
âmbito dos estudos de gênero revelavam a estreita e tensa ligação entre academia e
militância, entre ciência e política (Louro 2001; Junqueira 2007).

Vale retomar que em torno dos anos 90 a agenda teórica dos estudos de gênero
desloca-se da análise das desigualdades e das relações de poder entre categorias
sociais (homens, mulheres, gays, heterossexuais) para o questionamento das próprias
categorias, problematizando sua fixidez, sua separação, seus limites. Os estudos
preocupam-se então em entender o jogo do poder ao redor destas categorias como
processos menos binários e mais multifacetados. As políticas de identidade que
orientavam fortemente o movimento feminista e o movimento LGBT nos anos 70 e
80 entram em crise nos anos 90 e revelam suas fraturas e insuficiências. É assim que
se instauram proposições e formulações teóricas pós-identitárias no âmbito destes
estudos, dentre as quais a mais eminente talvez sejam as teorias Queer.

As teorias Queer podem ser vinculadas às vertentes do pensamento ocidental


contemporâneo que, ao longo do século XX, problematizaram noções clássicas de
sujeito, identidade e agência. Na Psicologia Social, podemos apontar duas referências
teóricas importantes vinculadas ao campo Queer no Brasil: as proposições de Michel
Foucault (1988) sobre a construção discursiva das sexualidades e os estudos de Lacan
(1998) sobre o processo de identificação na estruturação psíquica, particularmente
sobre a afirmação que o sujeito se constitui sob o olhar do outro. Longe de ser estável
e coeso, esse sujeito é dividido, atravessado pela cultura e pelo desejo (Mountian e
Lara, 2010).

A Psicologia Social ganhou referências teóricas importantes ao incorporar o conceito


de gênero e ingressar no rol de saberes que, a partir deste conceito e elaborando uma
crítica a ele, problematizam os jogos de poder presente nas categorias de gênero.
Butler (2003) tematiza as formas de “assujeitamento”, orientada pelo pensamento
Foucault, para quem “os sistemas jurídicos de poder produzem os sujeitos que

25


subseqüentemente passam a representar” (p. 18). Esse duplo movimento da produção
do sujeito é exatamente o que institui a linguagem legal como o locus primário da
representação, e, portanto, fica claro como o próprio “sujeito” do feminismo, da
psicanálise, da psicologia é discursivamente construído dentro desta lógica. Esta tese,
porém, apresenta alguns problemas de ordem prática, pois “a construção política do
sujeito procede vinculada a certos objetivos de legitimação e de exclusão, e essas
operações políticas são efetivamente ocultas e naturalizadas por uma análise política
que toma as estruturas jurídicas como seu fundamento” (Butler, 2003:19).

A perspectiva de Butler concebe gênero como uma ficção cultural e como efeito
performativo de atos discursivos reiterativos. Sua crítica ao conceito de gênero e às
formulações acerca da identidade de gênero contempla a análise de um conceito
bastante conhecido pela Psicologia Social: identidade. Ao analisar o processo pelo
qual a identidade de gênero é naturalizada por meio da citação e da repetição
discursiva das normas de gênero, as proposições de Butler permitem à Psicologia
elucidar questões antes ofuscadas, ou pelo cientificismo e seu primado da
experimentação, ou pela consideração inadequada do gênero como sexo, ou ainda,
pela perspectiva dicotômica e inerente ao indivíduo que o gênero ganhou ao ser
descolado do organismo.

Considerando, portanto, que é por meio de práticas discursivas, que se repetem na


vida cotidiana, que sujeitos são produzidos e generificados, exige-se da Psicologia
Social um esforço para trabalhar com uma noção bastante complexa de subjetividade.
A teoria das performances de gênero, dos campos Queer e feminista, permitem
ampliar e qualificar analiticamente as reflexões sobre gênero e subjetividade,
contemplando, sobretudo, um posicionamento de atenção a relação de poder nas
produções de verdades e de direitos no âmbito das teorias.

Isso exige da Psicologia um posicionamento crítico em relação aos seus dispositivos


de produção de verdades. Nas perspectivas da produção científica brasileira,
questões chave tem sido debatidas para o entendimento crítico da construção social
dos fenômenos, mais precisamente temas tradicionalmente tratados como naturais

26


como, por exemplo, a a concepção de família (Perucchi, 2010), e da propria noção de
gênero (Prado, Mountian, Machado e Santos, 2011).

Se, do ponto de vista da análise da vivência da sexualidade e da construção da


identidade de gênero, as teorias Queer ajudaram a complexificar o debate, apontando
o caráter ficcional e não estanque da identidade, destacando as múltiplas
possibilidades performáticas provenientes da construção social imposta a corpos
sexuados, e desmantelando a compreensão da sexualidade como exclusivamente
vinculada a práticas sexuais, do ponto de vista político, contudo, as teorias Queer, ao
relativizarem a ênfase atribuída às políticas de identidade, ou seja, ao
problematizarem as categorias identitárias que agregam indivíduos em posições de
sujeito (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros), colocam em questão uma das
principais estratégias dos movimentos sociais LGBT: a de organizar suas bandeiras de
luta em torno de demandas identitárias.

Ao mostrar o quanto tais fixações identitárias são ilusórias e contingenciais, e o


quanto servem à gestão das populações (fazendo funcionar o princípio da
governança), ao mesmo tempo em que, sendo um vetor de força que incide não
apenas sobre todos os corpos, mas, especialmente, sobre cada corpo (fazendo
funcionar o princípio da gestão da vida) e operando produtivamente na vida de cada
indivíduo chamado a ocupar tais posições identitárias, essas estratégias políticas do
movimento LGBT acabam por cair na velha armadilha que o próprio movimento
social tentou se desvencilhar: o risco de amparar suas reivindicações em
argumentações gerais destinadas a sujeitos tidos como universais e homogêneos
(Prado, Mountian, Viana e Santos, 2010).

A maior ou menor penetração do conceito de gênero nos diferentes movimentos


sociais e nos estudos que os contemplam está atrelada diretamente ao peso que as
políticas de identidade ocupam no âmbito destes movimentos. No Brasil a perspectiva
feminista possibilitou a aproximação entre academia e movimentos LGBT, ainda que
esta aproximação seja, desde sempre, tensa e contingencial.

27


Algumas Considerações sobre os fazeres da Psicologia Social no Brasil

O debate crítico dentro da psicologia social no Brasil é atual e com importantes


repercussões no campo. Nesse texto apontamos a trajetória da psicologia social crítica
de estudo e pesquisa, a importância dos movimentos sociais nesse contexto e o debate
entre crítica e política. Ilustramos esse debate a partir das contribuições dos estudos
de gênero (pesquisa feminista e estudos Queer) e dos debates contemporâneos sobre
estética e política.

Há diferenças entre escolas e práticas psicológicas críticas, ressaltamos aqui algumas


perspectivas e aspectos que consideramos importantes para uma visão crítica da
psicologia social, tais como: a contextualização histórica, social e política; atenção às
relações de poder; desnaturalização e dessencialização de categorias; desafios e
debates com pensamentos positivistas; e posicionamento crítico frente à pesquisa.

Referências bibliográficas

Adrião, K. G. (2008). Encontros do feminismo: uma análise do campo feminista


brasileiro a partir das esferas do movimento, do governo e da academia. (Tese de
Doutorado). Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas,
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.

Alvez, B. M.; Pitanguy, J. O Que é Feminismo. São Paulo: Brasiliense, 1984.

Amâncio, L. (2001). O Gênero na Psicologia: uma história de desencontros e


rupturas. Psicologia, XV (1), 9-26.

Arruda, A. (2002). Teoria das representações sociais e teorias de gênero. Cadernos de


Pesquisa, 117, 127-147.

28


Azerêdo, S. (1998). Gênero e a diferença que ele faz na pesquisa em Psicologia.
Cadernos Pagu, 11, 55-66.

Azerêdo, S. (2010). Encrenca de gênero nas teorizações em psicologia. Revista


Estudos Feministas, 18(1), 175-188.

Bakhtin, M. (1997). Marxismo e Filosofia da Linguagem: problemas fundamentais do


método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Hucitec.

Bakhtin, M. (2003). Estética da criação verbal. Tradução do russo de Bezerra, P. São


Paulo: Martins Fontes.

Beauvoir, S. (2009). O segundo sexo. Sao Paulo: Editora Nova Fronteira

Bomfim, E. (2003). Psicologia Social no Brasil. Belo Horizonte: Edições do Campo


Social.

Bomfim, E. (2004). “Históricos cursos de Psicologia Social no Brasil”. Psicologia e


Sociedade; 16(2): 32-36, maio-ago.

Butler, J. (1998). “Fundamentos Contingentes: O feminismo e a questão do


“pósmodernismo””. Cadernos Pagu, 11, 11-42

Butler, J. (2003). Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de


Janeiro: Civilização Brasileira.

Castells, M. (2000). O poder da identidade. São Paulo: Paz e Terra.

Coimbra, C. (1995). Guardiães da ordem – uma viagem pelas práticas psi no Brasil
do “ milagre”. Rio de Janeiro: Oficina do Autor.

Da Ros, S.; Maheirie, K.; Zanella, A. V. (2006) Relações Estéticas,Atividade


Criadora e Imaginação: sujeitos e(em) experiência. Florianópolis: NUP/CED/UFSC.

29


Del Priore, M. (1997.). História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Editora Contexto

Fonseca, T. M. G. (1997). Psicologia e relações de gênero: o gênero da ciência


psicológica. In: A. V. Zanella, M. J. T., Siqueira, S. I. Molon & L. A. Lhullier (Orgs.).
Psicologia e Práticas Sociais (pp. 317-321). Porto Alegre: Abrapsosul.

Foucault, M. (1985). As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes.

Foucault, M. (1988). História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro:


Graal.

Gergen, M. (1993). “Rumo a uma metateoria e metodologia feministas nas ciências


sociais”. In M. Gergen (Ed.). O pensamento feminista e a estrutura do conhecimento
(pp. 110-128). Brasília: Editora Rosa dos tempos/EdUnB.

Hall, S. (1999). A Identidade cultural na Pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A


Editora.

Haraway, D. (1995). “Saberes Localizados: a questão da ciência para o feminismo e o


privilégio da perspectiva parcial”. Cadernos Pagu, 5, 07-41.

Haraway, D. (2004). "Gender" for a marxist dictionary: the sexual politics of a word.
Cadernos Pagu, 22, 201-246.

Junqueira, R. D. (2007). Homofobia: limites e possibilidades de um conceito em meio


a disputas. Bagoas, v.1, n.1, jul-dez, p.145-166

Lacan, J. (1998). Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Lane, S. (1984). “A Psicologia Social e uma nova concepção de homem para a


Psicologia”. In: S. Lane & Codó, W. (orgs.) Psicologia Social. O Homem em
movimento. São Paulo: Brasiliense. (pp.10-19)

30


Louro, G. L. (2001). “Teoria Queer – uma politica pos-identitaria para a educacao”.
Estudos Feministas, v.2, p.541-553

Martín-Baró, I. (1983). La polarización social en El Salvador. ECA, 412, 129-142.

Mayorga, C. (2007). Otras identidades: mujeres, inmigración y prostitución. Tesis


doctoral, Departamento de Psicología Social, Universidad Complutense de Madrid,
Madrid.

Montero, M. (2000). “Construcción, desconstrucción y crítica: teoría y sentido de la


psicología social comunitaria en América Latina”. In: R.H. Campos & P. Guareschi
(orgs.) Paradigmas em Psicologia Social – A perspectiva latino-americana.
Petrópolis, RJ: Vozes.

Mouffe, C. (1993). O Regresso do Político. Lisboa: Gradiva.

Mountian, I. (no prelo/ 2011). Deconstructing Drugs and Gender: Subjectivity and
social imaginary. Livro da série Concepts for Critical Psychology: Disciplinary
Boundaries Re-Thought. Organizado por Parker, I., Londres: Routledge

Mountian, I. and Lara Junior, N. (2010). “Psicologia e cultura: conceituações e


debates”, p. 165-197. In Alves, P. C. (Org.). Cultura: múltiplas leituras. Bauru:
EDUSC e EDUFBA

Narvaz, M. G. & Koller, S. H. (2006). Metodologias feministas e estudos de gênero:


articulando pesquisa, clínica e política. Psicologia em Estudo, 11(3), 647-654.
Neves, S. & Nogueira, C. (2005). Metodologias feministas: a reflexividade a serviço
da investigação nas Ciências Sociais. Psicologia Reflexão e Crítica, 18(3), 408-412.

Nogueira, C. & Neves, S. (2003). “Feminist psychology and violence against women
in intimate relations: the (re)construction of therapeutical spaces”. Psicologia &
Sociedade, 15(2), 43-64

31


Nogueira, C. e Neves, S. (2003). “Feminist psychology and violence against women
in intimate relations: the (re)construction of therapeutical spaces”. Psicologia &
Sociedade, 15(2), 43-64.

Nogueira, C. (2001a). Um novo olhar sobre as relações sociais de género. Feminismo


e perspectivas críticas na Psicologia Social. Braga: Fundação Calouste
Gulbenkian/Fundação para a Ciência e Tecnologia/Ministério da Ciência e da
Tecnologia.

Nogueira, C. (2001b). Contribuições do construcionismo social a uma nova psicologia


do gênero. Cadernos de Pesquisa, 112, 137-153.

Nogueira, C. (2001c). Feminismo e discurso do género na psicologia


social. Psicologia & Sociedade, 13(1), 107-128.

Nuernberg, A. H. (2005). Gênero no contexto da produção científica brasileira em


psicologia. (Tese de Doutorado). Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em
Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.

Pateman, C. (1993). O contrato sexual. Sao Paulo: Paz e Terra

Perucchi, J. (2010) Nos Trâmites da Lei: Uma Crítica à Perspectiva Tradicional da


Noção de Família no Âmbito da Psicologia Jurídica Brasileira. In Psicologia em
Pesquisa, 4(01), p.03-14.

Prado, M. A. M. (2007). “Fronteiras negadas: contribuições da psicologia política


para a compreensão das ações políticas”. In: C. Mayorga & M.A.M. Prado (orgs.)
Psicologia Social – articulando saberes e fazeres (pp. 99-112). Belo Horizonte:
Autêntica.

Prado, M.A.M.; Mountian, I.; Viana, F.M.; Santos, L.C. (2010). "Los movimientos
LGTB y la lucha por la democratización de las jerarquias sexuales en Brasil".
Mexico: Revista Digital Universitaria. 07/2010, Vol. 11, No.7, p.1-15. Disponivel em
http://www.revista.unam.mx/vol.11/num7/art68/index.html

32


Rago, L. M. (1997) Adeus Ao Feminismo? Feminimo e Pos-Modernidade No Brasil.
Cadernos do Arquivo Edgar Leuenroth,3(3), p.11-43.

Rancière, J. (2005) A partilha do sensível: estética e politica. São Paulo: EXO


experimental org. Editora 34.

Santos, B. de S. (1989). Introdução a uma ciência pós-moderna. Rio de Janeiro: Ed.


Graal.

Santos, B. de S. (2002). Um discurso sobre as ciências. Porto, Portugal: Ed.


Afrontamento.

Sass, O. (2007). “Notas sobre a psicologia social e política no Brasil”. In: C. Mayorga
& M.A.M. Prado (orgs.) Psicologia Social – articulando saberes e fazeres (pp. 19-
36). Belo Horizonte: Autêntica.

Sass, O. (2010). “Prefácio - Sobre desigualdades e enfrentamentos”. In: C. Mayorga,


E. F. Rasera & M. S. Pereira (orgs.) Psicologia social – sobre desigualdades e
enfrentamentos. Curitiba: Juruá, pp. 9-15.

Scott, J. W. (1995). “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”. Educação &
Realidade, 20(2), 71-99.

Siqueira, M. J. (1997). “A(s) psicologia(s) e a categoria de gênero: Anotações para


discussão”. In: A. Zanella, J. Siqueira, Lhullier & Malon (orgs.) Psicologia e práticas
sociais, (pp. 271-279). 19 ed. Proto Alegre: Ed. ABRAPSOSUL.

Strey, M. N. (1998). Gênero. In M. G. Jacques, M. N. Strey, N. M. G. Bernardes, P.


Guareschi, S. A. Carlos & T. M. G. Fonseca. (Orgs.), Psicologia social
contemporânea (pp. 181-198). Petrópolis: Vozes.

Vázquez, A. S. (1999) Convite à estética. (Gilson Baptista Soares, Trad.). Rio de


Janeiro: Civilização Brasileira.

33


Von Smigay, Karin Ellen. (2005). Feminismo de terceira geração – um debate para a
psicologia política. Revista Psicologia Política, 5(9), 101-117.

Vygotski, L. S. (1998[1925]) Psicologia da arte. (Paulo Bezerra, Trad.). São Paulo:


Martins Fontes

Vygotski, L. S. (2001) “A educação estética”. Em: Psicologia Pedagógica. (Paulo


Bezerra, Trad.). São Paulo: Martins Fontes.

Zanella, A. V. & Maheirie, K. (2010) Diálogos em Psicologia Social e Arte. Curitiba:


CRV.

34

Você também pode gostar