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Conferência Internacional sobre Reabilitação de Estruturas Antigas de Alvenaria – CIRea2018

INSPEÇÕES E ENSAIOS – METODOLOGIAS DE DIAGNÓSTICO

Eng. Carlos Mesquita


Oz, Diagnóstico, Levantamento e Controlo de Qualidade em
Estruturas e Fundações, Lda
Lisboa - Portugal

SUMÁRIO

Qualquer intervenção de conservação ou de reabilitação, em particular, de construções antigas, com elevado


valor patrimonial, deve ser fundamentada através dum projeto de conservação e restauro. Para tal é fundamental
recolher informação sobre a estrutura existente, incluindo as alterações sofridas ao longo do tempo, sobre as
técnicas utilizadas e sobre o seu estado ou conservação (diagnóstico).

Da experiência da Oz, lda, descrevem-se, sumariamente, possíveis metodologias de inspeção e ensaios “in-situ”,
não destrutivos, ou reduzidamente intrusivos, que visam obter o suporte documental e gráfico atualizado,
necessário para a elaboração do projeto da intervenção.

Analisa-se, também, o significado da qualidade na inspeção e ensaios das construções, apontando-se a


necessidade dos fornecedores deste tipo de serviço estabelecerem Sistemas de Gestão da Qualidade de acordo
com a norma NP EN ISO 9001:2015.

1. INTRODUÇÃO

Qualquer intervenção de conservação ou de reabilitação, em particular, de construções antigas, com elevado


valor patrimonial, deve ser fundamentada através dum projeto de conservação e restauro. Para tal é fundamental
recolher informação sobre a estrutura existente, incluindo as alterações sofridas ao longo do tempo, sobre as
técnicas utilizadas e sobre o seu estado ou conservação (diagnóstico).

Os regulamentos e normas, atuais, não têm, em geral, aplicabilidade às construções antigas, o que condiciona
fortemente a definição do tipo de intervenção a adotar, deixando os critérios de atuação à consideração do Dono
de Obra ou do projetista. O ICOMOS - Comité Científico Internacional para a Análise e Restauro de Estruturas
do Património Arquitetónico elaborou um documento, [1], constituído por duas partes, uma com os princípios,
sobre os conceitos básicos de conservação e a outra com um guião, com as regras e as metodologias que os
projetistas podem seguir, constituindo uma preciosa ajuda.

Em Portugal, no caso dos bens imoveis individualmente classificados, ou situados em conjuntos classificados, o
Decreto-Lei Nº. 140/2009, [2], criou a figura do relatório prévio, que acompanha o pedido de informação prévia,
de licença ou a consulta prévia em relação a obras de reconstrução, ampliação, alteração e conservação, o qual
abarca o conhecimento sobre as características do imóvel e sobre o seu estado de conservação. Em relação à
componente estrutura do imóvel, o relatório tem por objetivo servir de base à elaboração dos projetos de
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estabilidade e de arquitetura, estabelecer a extensão e natureza dos trabalhos a executar, estabelecer as


prioridades e avaliar a adequação das intervenções e servir de suporte para registo das obras futuras.

Da experiência da Oz, lda, descrevem-se, sumariamente, possíveis metodologias de inspeção e ensaios sobre as
construções, privilegiando as técnicas, tanto quanto possível, não destrutivas ou reduzidamente intrusivas, que
visam obter o suporte documental e gráfico atualizado, necessário para a elaboração do projeto da intervenção de
conservação ou reabilitação.

Analisa-se, também, o significado da qualidade na inspeção e ensaios das construções, apontando-se a


necessidade dos fornecedores deste tipo de serviço estabelecerem Sistemas de Gestão da Qualidade de acordo
com a norma NP EN ISO 9001:2015, [3].

2. METODOLOGIAS DE INSPECÇÃO E ENSAIOS

Descrevem-se, resumidamente, a seguir possíveis metodologias de inspeção e ensaios, segundo os objetivos a


atingir.

2.1. Levantamento estrutural/construtivo

O levantamento estrutural/construtivo visa a recolha de informação sobre as características estruturais e


construtivas atuais duma dada construção, nomeadamente, da geometria, da natureza dos materiais, das
propriedades mecânicas dos materiais estruturais e, caso aplicável, também, das propriedades geomecânicas do
solo de fundação.

2.1.1. Levantamento arquitetónico

Normalmente aplicável a edifícios, visa a definição da geometria, quer do envelope, quer do interior do imóvel,
em planimetria e altimetria, utilizando, usualmente, técnicas topográficas e, mais recentemente, o varrimento
laser 3D. Dependendo do detalhe pretendido, o levantamento poderá incluir a identificação das características
arquitetónicas do imóvel.

Figura 1: Teatro São João, Porto. Fases do levantamento arquitetónico das fachadas com varrimento laser.

2.1.2. Levantamento dimensional

Visa a caracterização da geometria da estrutura duma dada construção, tendo por suporte o levantamento
arquitetónico no caso dos edifícios. Para além das medições através de técnicas topográficas, envolve, também,
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técnicas não destrutivas ou reduzidamente intrusivas, como, por exemplo, o uso da termografia por
infravermelhos, [4], que permite localizar a presença de elementos estruturais e construtivos (por exemplo,
frontais pombalinos), através das diferenças de temperatura da superfície (pontes térmicas, fig. 2), o uso do
pacómetro (detetor de armaduras) que permite detetar a presença de elementos estruturais ocultos com
componentes metálicas (alterações estruturais com perfis metálicos ou com elementos de betão armado, [5]), o
uso da técnica de ultrassons para a medição, totalmente, não destrutiva da espessura de partes da seção de
elementos metálicos, com acesso apenas a uma das faces (alma de perfis, colunas de seção oca, etc.), [6], etc.

Figura 2: Edifício pombalino, Lisboa. Levantamento de frontal pombalino com camara de infravermelhos. Na
imagem do lado esquerdo, termograma, distinguem-se as pontes térmicas, denunciando a estrutura de madeira
oculta na parede.

O levantamento é representado graficamente sobre desenhos, assinalando-se a implantação e a geometria da


seção dos elementos estruturais, conforme ilustrado na fig. 3. No caso, distinguem-se as paredes exteriores e as
do saguão de alvenaria resistente e as inúmeras alterações sofridas, com a introdução de elementos de betão
armado e de elementos metálicos, cujas implicações podem, pois, ser avaliadas.

Figura 3: Edifício pombalino, Lisboa. Representação da disposição espacial da estrutura do piso.


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2.1.3. Caraterização dos materiais

2.1.3.1 Constituição

A caraterização dos materiais dos elementos estruturais das construções, nomeadamente, de alvenarias
resistentes pode ser feita através da recolha de amostras com carotadora elétrica, com diâmetro, por exemplo, de
100mm e alcance até 2m, ou mais, dependendo do equipamento de corte. É feita a caraterização dos materiais
intersetados, identificando-se a sua natureza e a espessura das subcamadas, conforme exemplo ilustrado na fig. 4.
Os furos de sondagem são posteriormente reparados com materiais e técnicas compatíveis com o existente.

Figura 4: Aqueduto, Tomar. Extração de amostras com carotadora elétrica para caraterização dos materiais
constituintes da seção do pilar de alvenaria de pedra.

Outra técnica, menos intrusiva, de caraterização dos materiais, consiste na execução de furos compridos com
broca, até, por exemplo, 1 m de comprimento, posteriormente observados, ao longo do seu desenvolvimento,
com recurso a tecnoscópio, com tubo rígido ou flexível, permitindo a realização de filmagem ou registo
fotográfico, conforme ilustrado na fig.5.

Figura 5: Ponte, Beja. Observações boroscópicas do interior de furos de sondagem para caraterização dos
materiais constituintes do arco duma ponte antiga.

2.1.3.2 Avaliação das propriedades mecânicas

O uso de carotes para a avaliação das propriedades mecânicas das alvenarias resistentes não é viável devido às
reduzidas dimensões das amostras, conforme ilustrado na fig.4, que não permitem avaliar o real comportamento
mecânico das alvenarias.

O tipo de ensaios habitualmente utilizado para esse fim é o ensaio com macacos planos duplos de reduzida área,
SFJ (Small Flat Jack), [7], [8]. Resumidamente, a técnica, reduzidamente intrusiva, consiste na introdução de 2
macacos planos em entalhes na alvenaria a ensaiar, previamente executados com uma máquina de corte, munida
de disco diamantado. Posteriormente, utilizando uma bomba hidráulica, munida de manómetro, são realizados
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vários ciclos de carga/descarga, com o aumento/diminuição gradual dos níveis de pressão, sendo feitas, para
cada nível, leituras das deformações da amostra em estudo, com o alongâmetro de milésimos, permitindo avaliar
a variação do módulo de deformabilidade e, também, a tensão de cedência, para a qual a alvenaria deixa de
apresentar um comportamento elástico linear (fig. 6 e fig. 7).

Figura 6: Edifício, Lisboa. Ensaios com macacos planos duplos numa parede de alvenaria de pedra irregular.

O valor do módulo de YOUNG vertical (módulo de elasticidade - E) para cada intervalo de tensão (σ) e extensão
associada (ε) pode ser estimado através da fórmula:

É necessário corrigir as pressões lidas no manómetro, através de 2 fatores de correção, km e ka, que têm em conta
as características geométricas dos macacos e a rigidez do cordão de soldadura e as áreas de contacto dos
macacos dentro dos entalhes da alvenaria.

(MPa) Ciclos de carga e descarga do ensaio M1 - bases 2 e 4


2,20
2,07
1,94
1,81
1,68
1,55
1,42
1,29
1,17
1,04
0,91
0,78
0,65
0,52
0,39
0,26
0,13
0,00
-5000 -4500 -4000 -3500 -3000 -2500 -2000 -1500 -1000 -500 0 500
base2 base4 ( )

Figura 7: Curvas das deformações vertical e horizontal duma alvenaria ensaiada.

O Quadro 1 apresenta os resultados dum ensaio com macacos planos duplos, realizado numa alvenaria resistente
de pedra irregular argamassada, dum edifício em Lisboa.
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Quadro 1 - Resultados do Módulo de Deformabilidade da alvenaria à


à compressão dos ensaios com os macacos planos duplos

Tensão (MPa) Módulo de Young - Patamar - (MPa)

0 - 0,26
3954
0,26 - 0,51
0,51 - 0,77
3316
0,77 - 1,02
1,02 - 1,28
1,28 - 1,54
1803
1,54 - 1,79
1,79 - 2,05

A resistência ao corte de argamassas de assentamento de alvenarias resistentes, ordinária ou de blocos cerâmicos,


pode ser avaliada através de ensaios de arrancamento duma hélice conforme ilustrado na fig. 8, [9]. O ensaio é
útil, também, para controlo da execução de reparações, comparando-se a resistência da argamassa de
assentamento antiga face à da resistência da argamassa de reparação.

Figura 8: Avaliação da resistência de argamassa de assentamento através de ensaio de arrancamento de 1 hélice.

2.1.4. Caraterização da fundação/solo

Caso a intervenção o justifique o levantamento estrutural/construtivo poderá incidir, também, na caracterização


das fundações, através, por exemplo, de poços de reconhecimento e, tal como nas construções novas, na
caracterização geológica/geotécnica dos solos interessados, através, por exemplo, de sondagens mecânicas,
complementadas com ensaios de penetração “SPT”, [10], [11].

2.1.5. Exemplos de levantamentos estruturais/construtivos

A fig. 8 ilustra o levantamento estrutural/construtivo do piso elevado do edifício do atual Centro Polivalente de
Divulgação da Casa do Lanternim do ICNF, em Mértola, antes da obra de remodelação. Distinguem-se várias
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tipologias estruturais, nomeadamente, paredes de alvenaria resistente de pedra irregular de natureza xixtosa,
paredes de taipa (terra) e paredes divisórias e a disposição dos vigamentos de madeira do teto.

PLANTA DO 1º ANDAR
vigamento oculto pelo forro
(vigamento do tecto) 16 x 13

LEGENDA
A xL
- vigamento de madeira, altura e largura da secção
- pavimento pré-fabricado de vigotas de betão
pré-esforçadas e abobadilhas cerâmicas
- viga principal de madeira
- alvenaria de pedra irregular (xistosa) e fragmentos
cerâmicos assentes em terra barrenta
- divisória de alvenaria de tijolo cerâmico maciço
colocado de cutelo
- alvenaria de pedra irregular com elementos de
madeira dispostos em "Cruz de Stº. André"

- taipa
estrutura da cobertura e
forro bastante deteriorados,
encontrando-se em risco - alvenaria de pedra e tijolo cerâmico maciço
iminente de ruína
- troço de parede de alvenaria de pedra irregular,
e taipa no topo
- alvenaria de tijolo cerâmico maciço argamassado
com ligante de cal
- troço de parede de alvenaria de pedra irregular, e
alvenaria de tijolo cerâmico maciço (lambás), no topo

chaminé
zona onde ruiu a cobertura

Figura 9: Edifício, Mértola. Levantamento estrutural dum piso, evidenciando as diferentes tipologias estruturais
caraterizadas.

A fig. 9 ilustra o levantamento estrutural/construtivo dum dos edifícios do atual Museu de Portimão, antiga
fábrica de conservas, antes da obra de remodelação. Distinguem-se, também, várias tipologias estruturais,
nomeadamente, paredes de alvenaria resistente de pedra irregular, a estrutura de betão armado do piso elevado e
a estrutura de madeira da cobertura.

P.1

VL2

P1
Laje de betão

VS1
VL1 VP1

Parede de alvenaria de pedra


irregular argamassada
P1

Figura 10: Edifício, Portimão. Levantamento estrutural, evidenciando as diferentes tipologias estruturais
caraterizadas.
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2.2. Levantamento das anomalias visíveis

Este objetivo é fundamental para o diagnóstico das anomalias presentes na construção, independentemente da
sua natureza, permitindo avaliar o desempenho da construção ao longo da sua existência e qual a eventual
influência no desempenho futuro pretendido. O levantamento das anomalias visíveis, levado a cabo,
fundamentalmente, através de inspeção visual, visa a caracterização e identificação das anomalias, a sua
disposição e importância nos componentes da construção, bem como se as causas estão estabilizadas, ou não.
Tem interesse distinguir as anomalias de natureza estrutural, que traduzem um deficiente desempenho estrutural,
das que não são, apesar das últimas, num estágio mais avançado podem vir a condicionar o desempenho da
estrutura.

Para apoio do diagnóstico das anomalias é habitual o recurso a técnicas de diagnóstico “in-situ”, não destrutivas
ou reduzidamente intrusivas, tais como, por exemplo, ensaios de percussão em superfícies para deteção de
descontinuidades superficiais, observações com câmara termográfica, também, para deteção de descontinuidades
superficiais e manifestações de humidade excessiva, [4], observações boroscópicas, com endoscópio, do interior
de descontinuidades para avaliação da sua importância, medições qualitativas da humidade superficial (fig. 11),
etc.

Figura 11: Edifício, Lisboa. Observações boroscópicas do interior de furos de sondagem e de descontinuidades e
medição qualitativa da humidade superficial de paredes.

O levantamento das anomalias visíveis, naturalmente, evidenciado através de registo fotográfico, com escala
decimétrica no caso dos pormenores, deve ser representado esquematicamente sobre desenhos, servindo, por um
lado, para avaliar a extensão e importância das anomalias e, por outro, de referência futura, quanto à evolução
dos mecanismos anómalos.

2.2.1. Anomalias de índole estrutural

As anomalias de natureza estrutural têm especial relevância na medida que denunciam um comportamento
deficiente da estrutura da construção, pelo que a sua deteção, atempada, é fundamental para a tomada de decisão
sobre a implementação de medidas corretivas, eventualmente, urgentes. Os sintomas mais correntes são as
fissuras com orientação bem definida, associadas, normalmente a deformações aparentes dos elementos
estruturais, cujas principais causas têm origem mecânica. Apontam-se, por exemplo, a cedência das fundações, o
uso indevido com acréscimo de carga, as alterações estruturais, a falta ou inadequada conservação, etc.

A caracterização da fissuração, nomeadamente, a abertura das fissuras pode ser medida, com grande rigor,
através de um comparador, fig. 12, devendo ser feito em várias seções do seu desenvolvimento. Pode, ainda, ter
interesse acompanhar a evolução da fissuração através da monitorização da disposição e da abertura das fissuras,
conforme ilustrado na fig. 12.
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Figura 12: Aqueduto, Tomar e Edifício, Lisboa. Medição da abertura de fenda e monitorização da abertura de
fissuras/fendas com fissurómetros Oz.

A fig. 13 ilustra parte da representação gráfica do levantamento de anomalias estruturais realizado num edifício
da baixa do Porto, referente ao alçado interior da empena lateral. Assinalam-se as fendas com abertura de vários
cm e as áreas extensas de deterioração profunda da parede de taipa.

Face interior da parede lateral esquerda

LEGENDA
- Deterioração profunda da parede de taipa
(lacunas e podridão da madeira)

- Alvenaria com pedras soltas e vazios


no interior da secção

6 3 4 3 - Fissura / fenda cujo valor da abertura é de 3 cm


2
10
4 3 4 3
4 2
2 4
2
3 2
3

7
5 5
4

RUA DE SANTANA

VIELA

Figura 13: Edifício, Porto. Representação gráfica do levantamento de anomalias estruturais do alçado interior da
empena lateral do edifício.
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Para se complementar a caracterização das anomalias estruturais pode, também, ser necessário avaliar a
importância das deformações dos seus elementos através de técnicas de topografia (medição de flechas de
pavimentos e medição de desaprumos ou de assentamentos diferenciais de paredes ou colunas). Estes parâmetros
são muito importantes para o projetista poder avaliar o desempenho estrutural. Por exemplo, a fig. 14, ilustra a
representação gráfica do nivelamento topográfico do pavimento do piso elevado dum edifício antigo, localizado
em Lisboa, através de curvas de nível. Dessa forma, é possível avaliar se as deformações são devidas a flechas
excessivas do pavimento ou a cedência da fundação.

Figura 14: Edifício, Lisboa. Representação gráfica do nivelamento topográfico

2.2.2. Anomalias de índole não estrutural

No caso de anomalias de índole não estrutural, não está, tanto, em causa a segurança atual da estrutura ou dos
seus componentes, mas sim outras exigências funcionais que comprometem a normal utilização das construções
durante o restante período de vida útil. No entanto, caso não sejam, atempadamente, implementadas medidas
corretivas, pode o desempenho estrutural vir a ser seriamente afetado. As anomalias mais comuns, para além da
fissuração generalizada, com orientação aleatória, estão relacionadas com formas de deterioração dos materiais
dos revestimentos, a maioria relacionadas com humidade excessiva, tais como, por exemplo, humidade
ascendente proveniente do terreno, condensações e causas fortuitas (fig.15). Os ensaios habitualmente utilizados
nesses casos consistem, precisamente, na medição qualitativa ou quantitativa da humidade presente nos
elementos da construção, observações com câmara termográfica, ensaios de percussão, já referidos
anteriormente, etc..

Figura 15: Edifício, Lisboa. Deterioração dos revestimentos devido a humidade excessiva.
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A fig. 16 ilustra parte da representação gráfica do levantamento de anomalias, estruturais e não estruturais,
realizado no castelinho do Castelo de Castro Marim, referente a um dos alçados, assinalando-se a sua disposição
e importância. Desta forma, é, também, possível estimar as quantidades das medidas corretivas necessárias de
implentar.

LEGENDA

- Fissuras / fendas - Zona com desagregação profunda do reboco

- Zona com reboco - Zona com destacamento do reboco

- Zona sem reboco com juntas normais - Zona reparada

- Zona sem reboco com juntas pouco abertas - Zona com vegetação parasitária

- Zona sem reboco com juntas muito abertas - Zona com colonização biológica

- Zona com desagregação superficial do reboco - Identificação da fotografia

Figura 16: Castelinho do Castelo de Castro Marim. Representação gráfica do levantamento de anomalias de
diferentes tipologias, estruturais e não estruturais, dum alçado.

2.3. Controlo de qualidade da execução

Na execução das intervenções, para além dos habituais ensaios de receção dos materiais, devem, também, ser
executados outros ensaios "in-situ", nomeadamente, na estrutura ou seus componentes, visando o controlo da
execução do produto final. Por exemplo, no caso de argamassas de revestimento para se avaliar a aderência ao
suporte pode recorrer-se ao ensaio de arrancamento pull-off, [12], conforme ilustrado na figura 17 e para avaliar
a resistência à compressão pode recorrer-se ao ensaio com o esclerometro de pendulo [13], [14],conforme
ilustrado na figura 18.

Figura 17: Avaliação da aderência de argamassas de revestimento através do ensaio de arrancamento pull-off.
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Figura 18: Avaliação indireta da resistência de argamassa de revestimento com o esclerómetro de pendulo e
curva de calibração.

Outro ensaio de controlo da execução, no caso, de pregagens metálicas de varão selado com calda para reforço
de cunhais de alvenaria resistente consiste no ensaio de arrancamento, utilizando um macaco hidráulico e um
deflectómetro, conforme ilustrado na fig. 19. O ensaio permite avaliar o comportamento mecânico da pregagem
cuja rotura ocorre, frequentemente, na alvenaria, conforme ilustrado no gráfico exemplificativo da fig. 19.

Figura 19: Ensaio de arrancamento de pregagem de reforço de cunhal, constituída por varão nervurado, selado
com calda de base cimentícia e gráfico da curva força/deslocamento.

3. QUALIFICAÇÃO DOS AGENTES

Apesar da regulamentação não o exigir, a competência dos agentes envolvidos, desde o Dono de Obra até ao
executante, deve ser assegurada de modo a que os objetivos da intervenção sejam alcançados da forma mais
eficaz e eficiente possível. A via a seguir consiste no estabelecimento dum Sistema de Gestão da Qualidade
(SGQ), de acordo com a NP EN ISO 9001:2015 [3]. A sua implementação na atividade da inspeção e ensaios
coloca algumas questões, que a seguir se destacam.
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- Os Planos Anuais de Formação devem envolver todos os colaboradores e prever ações internas e externas.
Concretamente, as internas incidem sobre o SGQ e sobre as Técnicas de Observação e Ensaios, incluindo o
período de aprendizagem teórica e prática e, posteriormente, o período de avaliação.

- Todo o SGQ deve ser suportado documentalmente através do Manual da Qualidade, Procedimentos Funcionais
e Instruções Detalhadas e deve ser divulgado através da distribuição desta documentação e em ações de
formação aos colaboradores.

- O equipamento de inspeção, medição e ensaio deve ser previamente identificado e, técnica a técnica, definida a
exatidão necessária para cumprir com as especificações em termos de rigor das leituras obtidas (critério de
aceitação).

- O Plano da Qualidade deve descrever “como”, “quando”, “onde”, ”o quê” e “quem”, no ciclo do serviço, tem
de comprovar a conformidade das diferentes operações com os requisitos aplicáveis.

4. REFERÊNCIAS

[1] – ICOMOS, (2001) - Recomendações para a análise, conservação e restauro estrutural do


património arquitectónico.

[2] - Decreto-Lei Nº. 140/2009 de 15 de Junho

[3] - NP EN ISO 9001:2015, (2015). Sistemas de gestão da qualidade – Requisitos

[4] - ASTM C1060-11a, (2011) - Standard Practice for Thermographic Inspection of Insulation
Installations in Envelope Cavities of Frame Buildings

[5] - Norma BS 1881, (1988) - 204 Testing concrete. Recommendations on the use of electromagnetic
covermeters.

[6] - ASTM E797 / E797M – 15, (2015) - Standard Practice for Measuring Thickness by Manual
Ultrasonic Pulse-Echo Contact Method

[7] - ASTM C1196 - 14a, (2014) - Standard Test Method for In Situ Compressive Stress Within Solid
Unit Masonry Estimated Using Flatjack Measurements

[8] - ASTM C1197 - 14a, (2014) - Standard Test Method for In Situ Measurement of Masonry
Deformability Properties Using the Flatjack Method

[9] - RILEM Recommendation, (1997) MS-D.9 Determination of mortar strength by the screw (helix)
pull-out method

[10] - ISSMFE, (1989) - International Reference Test Procedure for the Standard Penetration Test

[11] - EN 1997-2: 2007, (2007) – Geotechnical Design – Part 2: Ground investigation and testing

[12] - EN 1015-12:2002, (2002) - Methods of test for mortar for masonry. Part 12 - Determination of
adhesive strength of hardened rendering and plastering mortars on substrates

[13] - NP N 12504-2, (2003) - "Ensaios do betão nas estruturas. Parte 2: Ensaio não destrutivo.
Determinação do índice esclerométrico"
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[14] - RILEM Recommendation, (1997) MS-D.7 Determination of pointing hardness by pendulum


hammer