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processo.

De forma que somente a classe operária terá condiçÓes, uma A EducaÇáo e a Comuna de Paris:
vez no pode4, de concluí-lo'
Eis o núcleo do seu pensamento: "A legislaçáo fabril arrancou notas sobre a construÇão da escola
ao capital a primeira insuficiente concessáo de conjugar a instruçáo
e
primària corn o trabalho na fábrica. Mas, náo há dúvida que a con-
pública, laica, gratuita e popular.
quista inevitável do poder político pela classe trabalhadora trarâ a /osé Claudirtei Lombardi
áaoçao do ensino tecnológicà, teórico e prático, nas escolas dos traba- Professor doDepartamento de Filo-
lhadores. Também náo há dúvida que a forma capitalista de produçáo sofia e História da Educaçáo da Fac.
e as coÍrespondentes condiçÕes econômicas dos trabalhadores se de Educaçáo / UNICAMP
opóem diametralmente a esses fermentos de transformação e ao seu
oLl.tiro, a eliminaçáo da velha divisáo do trabalho'
Mas, o desenvolvimento das contradiçóes de uma forma histó-
rica de produçáo é o único caminho de sua dissoluçáo e do estabeleci- Introdução
mento deumanova forma" -
Estamos a comemorar os 130 anos da Comuna de Paris. Mesmo
A Comuna foi a primeira revoluçáo proletária' Teve pouco mais
sendo repetitivo, gostaria de relembrar que a.Comuna foi um movi-
de dois meses de existência, mas o suficiente Para mostrar sua vitali- mento iniciado en-r 18 de março de '1.87'1., quando a populaçáo
dade e assinalar o caminho Para as revoluções que viriam e as que parisiense, tendo à frente o operariado, assumiu o poder e o controle
certamente viráo, A defesa áa escola vinculada à produçáo social é da cidade, marcando uma longa tradiçáo revolucionária que remonta
parte do programa da revoluçáo e ditadura proletárias' Sem dírvida' à participaçáo popular na Revoluçáo Francesa de 7789. Assim en-
àsta conciusáã pode ser extraída das liçóes da Comuna de Paris, como tendida, a Comuna náo pode ser concebida como um movimento
pode ser encorúrada nas posiçóes da I Internacional e no mais impor- nreramente circunstancial, mas o resultado de uma longa tradiçáo
iante de seus documentós - 14 g t/et,'a ciail na Ftaruça, de Karl Marx. de luta s revolucionárias.
Fatores circunstanciais e estruturais, portanto, Íoram decisivos
para a revolta das massas populares parisienses, entre os quais a
historiografia assinala principalmente a prolongada crise econômica,
social e política da França e a náo aceitaçáo dos operários à capitula-
çáo da burguesia e do governo francês às imposiçóes prussianas, de-
corrência da derrota francesa na Guerra Franco-Prussiana de 1870-
7877, o prolongado cerco da capital francesa pelas tropas prussianas,
que culminaram com a imposiçáo de um humilhante Tratado dePaz.
A tomada de Paris em 18 de março de7971, foi marcada poÍ uma
encarniçada luta popular contra a burguesia e os donos de terra. ]un-
tamente com uma cruel e desigual luta, os trabalhadores instauraram
um govemo de caráter populal, democrático e participativo. O decreto
.
Este texto foi atualizado após o Encontro dos 130 anos da Comuna dé Paris,
para a conferência ministrada no evento "Seminários de Atualizaçáo", na
mesa redonda "Visões e Repercussões da Comuna de Paris", promovido
pela UNICAMR através da PREAD - Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos
Comunitários, no dia 29 de setembro de2A0L, no Centro de Convenções da
UNICAMP-

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maÍço deL871' é suficiente- Foram apenas 72 (setenta e dois) dias nos quais a Comuna to-
da Comuna de Paris, pubücado em 29 de
"Cidadáos' mou um conjunto de decisóes objetivando a destruiçáo do Estado bur-
mente esclarecedor a àsse respeito:
guês e a edificaçáo de uma sociedade auto-gestionária. As principais
Vossa Comuna está constituída' medidas tomadas foram sistematizadas no documento denominado
IJm
O voto de 26 de maÍço sancionou a Revoluçáo vitoriosa' Proclnmação da Comuna ao poao trabalhadot' de Pat'is, merecendo
covardemente agressár os sufocou' Vocês' em legítima defesa'
destaque as seguintes: supressáo do exército permanente e sua substi-
poder
escoÍraçaüarn gor"rão que queria desonrar-vos' impondo-vos um rei' tuiçáo por uma Guarda Nacional organizada como milícia popular;
"rt" abusam elegibilidade e revogabilidade permanente de todos os mandatos; es-
Hoje, os criminosos que vocês náo quiseram perseguir
mo- tabelecimento de instituiçóes governamentais náo parlamentares, con-
a" t"u t"'""rosidade, organizando um ninho de conspiradores- eles
,,u.q.tiiar, Uem às portaJda cidade' Eles convocam a glerrl
civi} cebidas como corporações de trabalho executivas e legislativas ao
eles
a corrupçáo; eles aceitam todas as cumplicidades; mesmo tempo; instauraçáo da separaçáo entre a Igreja e o Estado;
reativam toda
reorganizaçáo completa do sistema educacional e atençáo às condi-
ousam mendigar até apoio estrangeiro'
ao julgamento da ções de vida e trabalho dos profissionais da educação; reorganizaçáo
Estas manobras execráveis, nós entregâmos
do judiciário, com juízes e magistrados eletivos e revogáveis; instaura-
França e do mundo.
çáo de um governo nacional exercido Por uma Assembléia Nacional
Cidadáos, de delegados das diferentes Comunas, com sede em Paris.
Vocês acabam de constituir instituições que
desafiam todas as
Estamos relen'rbrando os 130 anos da Comuna de Paris num
tentativas. momento de grande aproftindamento das contradiçóes e crises do
vosso apoio,
vocês sáo os donos do vosso destino. Fortes pelo modo capitalista de produçáo. Para a maioria da populaçáo a história
que vocês escolheram váo reparar os desastres do desenvolvimento capitalista não é uma história da riqueza, da
as representações
o traba-
.árráaot pelopodei destrutivo: a indírstria comPrometida' abundância e do bem-estar social. Ao contrário, a miséria e a barbiírie
comerciais paralisadas váo receber uÍr1 (econômica, social, intelectual e moral) constituem legado do capital à
tho paradã, as^ transaçÕes
impulso vigoroso. maioria da populaçáo. Correspondendo dialeticamente à espetacular
acumulaçáo, centralizaçáo e monopolizaçáo do capital, uma massa
A partir de hoje, a decisáo almejada sobÍe os aluguéis;
crescente de homens, mulheres e crianças vivem na mais abjeta penír-
Amanhá, a dos Prazos; ria. Ao acúmulo de riqueza num pólo da sociedade, do outro lado
Todososserviçospúblicosseráorestabelecidosesimplificados; impera a pobrezae proliferam os moümentos dos desprovidos detudo,
armada
A Guarda Nacional, de agora em diante' a írnica força ou movimentos dos SEM: sem casa, sent terra, sem emPÍego... muitas
da cidade, será organizada sem demora' vezes politicamente confundidos com sem propriedade... sem capital.

Tais seráo nossos Primeiros atos' A profundidade desse momento de grave e profunda crise pode
República' pe- ser expressa pelos acontecimentos recentes e que/ em temPo real, fo-
Os eleitos do povo, Para assegurar o triunfo da
a sua confiança' ram mostrados e acompanhados em todos os quadrantes planetários:
dem unicamente a vocês qL" ot sustenten"r com
a Grande Águia foi feiida em seu próprio ninho. Fundamentalistas
Quanto cumpriráo seu dever'
a eles,
turbanados, conclamando-se representantes do Grande Profeta, to-
Hôtet de Wlte d'ePais,29 de março de7871' maram pássaros de aço, transformaram-nos em petardos voadores e
A Comuna de Paris (In: MERO, Roberto (or8')'Paris' La atingiram seqüencialmente as duas torres gêmeas e o centro de inteli-
Corumune et lhssaut tlu Ciet' CD-Rom' Mémoire' en association auec gência da Grande Aguia malvada.l Enquaqto isso, tal como na mitolo-
Les Amis de lo Cotnrnttue) I Referência metafórica ao quadro de conflito deflagrado em conseqüência
pela
Entretanto, foi breve o controle dos aparelhos de Estado dos ataques promovidos contra os Estados Unidos da América, no dia 11 de
exército de Versalhes' princi-
população, e no dia 21 de maio d'e1971o setembro de 2001: a destruição das torres gêmeas do World Trade Center e
iui ""pt"ttao da contra-revoluçáo burguesa' furou as barricadas e
da sede do Pentágono, respectivamente representações do poder político-
as massas rebeldes'
àntroriem Paris, vencendo sangrentamente econômico e militar do imperialismo americano.

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uma ensino. Essa análise, contudo, implica em náo se perder de vista que
gia grega em que a Fênix Íessurge das cinzas, paÍa esPanto de
trancafiada em condomírúos e esta durou setenta e dois dias e que a educaçáo, como as demais
torlruãiu cadi dia mais encastelada e
um esPectro contintmaron- medidas tomadas, objetivaram a destruiçáo dos aparelhos ideoló-
ediãcios de luxo, fortemente guardados,
gicos e repressivos do Estado burguês e a edificação de uma socie-
dar o mundo ... a REV)LUÇÃ2, o COMUNISMO'
dade auto-gestionária.
RelembraraComunadeParisrecolocanaordem-do-diaapos-
Tinha conhecimento da importância da Comuna de Paris, obti-
sibilidade de tomada REVOLACIONÁRIAdo poder pelos trabalha-
dores e a implementaçáo efetiva "de um governo do povo e
pelo povo"' da através dos escritos de Marx, principalmente A gtterta ciuil na
Ftnnça. Esse escrito, assim como outros textos conjunturais do auto1,
conforme as palavras usadas por Marx'
foram extremantente importantes para "penetrar... o caráteç o alcance
Ao contrário do que a aPaÍente "glorificaçáo do capital"-tende e as conseqüências inevitáveis dos acontecimentos históricos", para
a ideologicamente up*fouç náo chegamos
ao "fim da história"2, num
vitoriosa foi o capi- usar conhecida expressão de Engels em sua "Introduçáo" à reediçáo
estado qru a única Jternativa que sobreüveu
"i", marcada pela desse conjunto de escritos (Engels, s / data:4L). Mas a importância dos
talismo. Paia além de uma visáo histórica harmônica,
acontecimentos da Comuna de Paris patw a educação só ficaram real-
"-a"*eprogresso",pelaeternizaçáodasrelaçõescapitalistas'ahis- mente perceptíveis depois que busquei entender as propostas e enca-
tória da f,u*ã"iauaeiaracÍeriza-se por um Processo de transforma- mirúramentos educacionais da Comuna no quadro de desenvolvimento
çáo que tem na contradiçáo seu
conteúdo fundamental' Em nossos
imposiçáo do histórico da educação pública, notadamente areahzaçâo desse pro-
dias, ao mesmo temPo em que há uma clara e crescente cesso na França.
e de suas estratégias de desmonte do Estado naçáo,
neoíiberalismo
públicas bem-estar social, enfim de combate às con- Neste ensaio as observações centrar-se-ão sobre três aspec-
das políticas d.e
náo tos: 1) a construçáo histórica da educaçáo pública, notadamente
quislas históricas do movimento organizado dos trabalhadores,
quanto à ocorrência do acirramento das contradiçóes eo sobre o desenvolvimento da escola pública na França; 2) na carac-
da ari..iau
planeta' terizaçáo das deliberaçóes e encaminhamentos da Comuna sobre
pipocar de inovimentos sociais em todos os quadrantes do
educaçáo e, mais especificamente, sobre a escola; 3) nas análises e
itfào na um único lugar que esteja livre da ameaça proporcionada
A direita tem propostas de Marx sobre a educação e que, seguramente, ultrapas-
pelos desprovidos deiudo e qr" nada mais têm a perder'
sam a Comuna.
se mantiáo organizada e faz qualquer metamorfose para- manteÍ-se
hegemonicamãnte no poder. Ao poder daburguesia, também temos Náo há condiçóes para uma análise mais acurada sobre as
prJsenciado , purrug.- utt re.got hada de personalidades de partidos várias questóes imbricadas com as transforn"raçóes históricas da edu-
àa esquerda pàru o ãenffo; da defesa de movimentos de acirramento caçáo, notadamente para buscar estabelecer os ensinamentos da his-
das cóntradiçOes para uma pregaçáo da conciliação; do vislumbrar tória para os tempos àtuais. um exercício extremamente importante
É
Ja ,etoluçao purá u brsca dã um " terceiro caminho" " ' enfim' do
co- para os educadores a busca urgente de uma resposta à mercanülizaçáo
munismo Para a social-democracia' da educaçáo e à tomada empresarial da escola. Nisso reside a impor-
NessestemposemqLlecaricaturalmentenoscolocamnacon- tância em se resgatar a contemporaneidade dos ensinamentos lega-
dos pelo marxismo no âmbito educacional.
dição de estudiosós da reniota antipiidade, de defensores da atuali-
dade paleolítica de últimos "dinossauros", politicamente é importante
ur",r.,âiu, qre náo é preciso abdicar de posiçóes pelotemor das carica- Notas Bobre a construçáo da educação.pública na França
turas novidadeiras, pois ttouo na história náo é a defesa do capital, Tal como Luzuriaga (1,959: 7), entendo que a educaçáo, como
mas seu combate. Aó exercício do poder da burguesia e à barbárie,
a
um dos processos sociais e culturais entre os homens, efstiu enr todos
nous alternativa continua sendo a revoluçáo' os povos e em todas as épocas. Aquilo porém que entendemos como
Feitas estas observaçóes introdutórias, coube-me analisar a con- educaçáo pública - aquela criada, dirigida e mantida pelas autori-
tribuiçáo da Comuna de Paris no que diz respeito à educaçáo e ao dades oficiais do Estado moderno - é de origem relativamente recente,
livro o fim da história confundindo-se com a própria história da transformaçáo e desenvol-
2 Referência à publicaçáo por Francis Fukuyama do
vimento do capitalismo, nos quadros históricos da modernidade.
(Fukuyama, 1992).

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Luzuriaga destaca quatro momentos (fases) que caracterizarn o nrinistrada pelo Estado, capaz de formar o l-romem-cidadão, o hornetn-
desenvolvimento da educaçáo pública: técnico, o intelectual, e náo mais o perfeito cristão... conto ocotria na
escola dos anos Quinhentos, quase toda nas mãos da Igreja. (...)"
1) Educaçáo pública religiosa. Diferentemente da educaçáo medieval,
(Cambi, 7999 : 30 4-305).
organizadà ao amParo da Igreja, a partir do século XVI os reforma-
doies buscaram nas autoridades oficiais sustentaçáo e desenvolvi- A análise de Cambi é de qr.re a escola moderna teve seu nasci-
mento de suas idéias e crenças. O obietivo da educaçáo "."continua mento no transcorrer do século XVII, processo qlre se aprofundou ao
sendo a formação do fiel, do cristiio, mas Com caráter mais secula4 longo clo sécnlo XVIiI e que culminou na Revolução Francesa, a partir
nacionaf e posto que eminentemente religiosa, tem o sentido cultural de7789, com a criaçáo de um sistena de educação nacional e pública.
do Renascin-rento" (Idem, ibiclem); Esse sistema educacional constituir-se-á em modelo para todos os
clemais países e portal para a escola contemporânea: "... a onda que
2)' Com o processo de secularizaçáo do Estado, a educaçáo passou a
ser organizada para seus próprios fins, culminando no século XVIII,
atinge a escola e a educaçáo na França, após 7789, irâ delineando
soluçóes bastante inovadoras e orgânicas, também articuladas se-
épocida "ilusüaçáo" e do "despotismo esclarecido", cont a edu-
cação púbtica estatal. Passou a objetivar a formaçáo do súdito, em
gundo modelos e itinerários ora mais ora menos radicais. (...) Nu
França, entre a Revolução e o Império, nasce tlm sistema educativo
particular a do militar e do fuincionário, tendo um caráter eminente-
intelectual (Idem: 2); moderno orgânico, que permanecerá longamente como um exemplo
e
mente disciplinar e
a a Europa inteira e que fornecerá os Íundamentos para a
imitar para
3) Em fins do século XVI[, com a Revolnçáo Francesa/ os represen- escola contemporânea/ com seu caráter estatal centralizado, organi-
tantes do povo construíram a educnção pública ttncional, qlue camente articulado, unificado por horários, programas e livros de
passou a tei por objetivo a formaçáo do cidadão, a educaçáo cívica texto." (Cambi, 1,999: 365).
à patriótica dà individuo, tendo um caráter essencialmente popula4
A Revoluçáo Industrial e a Revoluçáo Francesa, de 7789, mar-
elemental, primário;
cou para Cambi (7999 : p.377-387), portanto, o nascimento da época
4) Com o avanço da participação do Povo no Soverno da naçáo, foi contemporânea: o fim do Ánciert Régitnee de suas estruturas e organi-
surgindo a educação púhtica detnocrrítica, característica do nosso zações medievais de sociedade da ordern, da soberania por direito
tempo. "Seu objetivo é a formaçâo do ltometn cornp/eto, no máximo divino, da suposta organicidade entre as classes; o início de um pro-
de süas possibilidades, independentemente da posiçáo econômica cesso de permanentes e seguidas revoluções econômicas, sociais,
e social... trata de proporcionar o maior grau possível de cultura ao
políticas e ideológicas. Acompanhando as transformaçóes da totali-
maior número possível de homens" (Luzuriaga, 7959:2). dade da vida social, a contemporaneidade foi dotando a educaçáo de
Outra interpretaçáo do mesmo Processo, sem a Preocupaçáo uma crescente centralidade na vida social. A esse respeito observa
tipológica de Luzuriaga, foi recentemente publicada por Franco Cambi. Can"rbi: "(...) Tanto as tensÕes revolucionárias quanto as transforma-
Pãra este írltimo, o fim do quahocentosÍecha um longo ciclo lústórico - ções radicais da industrializaçáo, tanto os processos de'rebelião das
a"época medieval" - e inicia-se otttro, talvez ainda inconcluso, e lrlassas' quanto as instâncias de democracia promovem uma centrali-
designado como "época moderna" ou simplesmente modernidade zação da educaçáo e um crescimento paralelo da pedagogia, que se
(Canrbi, 1999:1.95). Estimulada pelas transformaçóes em curso, tant- tornam cadavez mais o núrcleo mediador da vida social, onde se ati-
bém a educaçáo foi se renovando, adquirindo as características da vam tanto integraçóes quanto inovaçóes, tanto processos de reequi-
escola moderna: minuciosamente organizada, administrada pelo Es- líbrio social quanto processos de reconstruçáo mais avançada ou de
tado e voltada à formaçáo do homem-cidadáo. Naspalavras do autor: luptrlra. (.. ")" (Cambi, 7999: 3Bl).
"No curso do século XVII, estimulada náo só pela revolução cultural e As diferenças de periodização entre Luzuriaga e Cambi náo
educativa do humanismo, pelas tensóes cla Reforma e da Contra-Refor- constituem objeto de análise no presente trabalho. O importante a re-
ma, pela crise da tradiçáo escolástica, assim como pela revoluçáo tcr é que ambos identificam um processo de construçáo de educaçáo
burguesa e pela ascensáo do Estado centralizado e burocrático mo- pírblica e que este coincide, em suas linhas gerais, com a ernergência e
derno... a escola tambén-r foi se renovando profundamente e assu- ('oll1 as transformaçóes do modo capitalista de produção. Esse pro-
mindo a feiçáo de escola moderna: minuciosamente organizada, ad-
cr.sso náo foi marcado por um desenvolvimento linear da educaçào

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p(rblica, Irlas acompanhou e materializou, em linhas gerais, o contla- Para Luzuriaga foi somente com a Revoluçáo Francesa que teve
ãitOrio processo de organização e lutas sociais e políticas entre as início uma educaçáo propriamente pública e nacional. A Revoluçáo,

classes ó fraçoes de classe'3 porém, náo teve tempo ou condiçóes para implementá-la, mas deixou
assentadas as bases parâ seu posterior desenvolvimento. Nas discus-
o fundamental é o reconhecimento de ambos que a Revoluçáo
sóes, projetos e decretos levados a cabo no Processo revolucionário,
Francesa, ao expressar o rompimento político como Anciert
Régime,
da educaçáo e que encontra-se a substância da educaçáo do ponto de vista nacional
instaurou um novo processo cle transformaçáo
(Ltrztriaga, 7959 : 40 - 47) . D e s taca, na seqiiênci a, o importante pap el
lnarcolr época. Buscanclo entender melhor esse Processo, tomando
da educação em todas as grandes fases do Processo revolucionário
uor base à clássica obra de Luz,riaga sobre a educaçáo pública, é
francês - Estados Gerais, Constituinte, Assen'rbléia Legislativa e Con-
imprescindível unr rápido e sintético mergulho histórico-educacio-
vençáo (ldem, p.41).
nal sobre a França.
Na Constitttição de 7797 a edttcaçáo foi proclamada pela pri-
DestacaLuzltiagaqueaeducaçáopírblicanaFrançasócome-
século xvIII. Até entáo a educaçáo estava em rneira vez como assllnto nacioual, conforme artigo lavrado nos se-
çou, propriamente, no guintes termos: "Será criada e organizada uÍlla instruçáo pírbüca,
*aár a"t congregaçóes religiosas, principalmente a Companhia de
e os Irmáos da Doutrina Cristã, para comlrm a todos os cidadáos, gratuita no qtle toca ao ensino indis-
]esus, para o eislno secundário, pensável para todos os homens e cujos estabelecimentos seráo
t primário (Lttz:uiaga, 79 59 : 37)'
ur-ttir-,o p opular
distribuídos gradualmente em Llma relaçáo combinada com a divisáo
No século XVIII, a eclucaçáo pírblica na França passou Por do reino" (ap rd Luztrtiaga, 7959 : 45).
"ilustraçáo"
dois momentos essenciais: o primeiro foi marcado pela
da Enciclopédia, e não pelos reis A legislaçáo revolucionária estabelecia três dos caracteres es-
e dominado pelos representantes
como em outros países. Esse primeiro mo- senciais da educaçáo pírblica: ser criada pelo Estado, ser universal e
do despotisn-ro esclarecido
pírblica foi puramente teórico, estando entre ser gratuita. Faltava outro caráter esselrcial: a obrigatoriedade.
,ir1e.rtoda educação
seus representantes personalidades_ políticas como La Cl-ralotais, Ficou n-rais conhecida entre os educadores o Relatório e projeto
Roltand, Turgot, e pensadotes, como Montesquieu, Diderot
e Rousseau de decretoelaborado por Condorcet (7743-7794) e apresentado na As-
(Lttzuriaga, 7959: 3 I-38)' senrbléia Legislativa (1,797-7792), qtle se seguitt à Constituinte. Seu
fanroso Rnpport foi apreseutado à Assernbléia eur abril de 7792 e náo
O segundo movimento ocorreu com a Revolução Francesa,
chegou a ser discutido, mas ficou conl-recido como ponto de referência
quand.o a eãucação pírblica sofrelt efetivamente ttma mudança radi-
de todos os projetos e Íeformas posteriores.
à1. grru transfonnaçáo foi assim registrada: "... À educaçáo estatal da
Ilustraçáo e do despotismo esclarecido, isto é, à educação do stídito O Rapport de Condorcet condensa toda a concepçáo pedagógica
paÍa o Éstado, a unrà educaçáo heterônoma imposta pelos príncipes
e da Revoluçáo Francesa: a universalidade, a igualdade, a oficiahzaçao
àirinido esseuciallrente para uma classe social, a burguesia, segue-se da educação. Fiel à concepção liberal náo chegott a recorúecer a obrigato-
a eí,rcação tr,tciotrn/, a educação do cidodão para si tllesmo e Para
a riedade. Foi também ele quern iutroduzitt no ensino o princípio do
naçáo, uma educação ditada pelos representantes do povo, autônoma laicismo, defer-rdendo que "a religiáo seja ensinada nos templos pelos
portanto, e dirigicla a todas as classes sociais, especialmente à poptt- ministros dos diversos cultos e que o lugar da religiáo seia ocupado,
iar. S" a educaçáo estatal tinha sobretudo caráter intelectual e
instru- na escola, pela moral e pelo direito naturais, racionais". Apesar de
mental, a nacional é de caráter cívico e patriótico; e se aquela era defensor da eclucaçáo nacional, clefendeu a autonomia desta em rela-
..,rr"rpridu co,ro deve4 esta ó exigida como direito, como Lr,,-' dos di- çáo às autoridades oficiais do Estado, tenteroso de que as autoridades
reito-s clo homem e do cidirdáo"' (Luzuriag a, 7959 , 40) ' imptrsessem um dogma político partidário (Luzuriagtr, 7959:45-46).
Para garantir a ir"rdependência da educaçáo, propôs Condorcet que a
administração do ensino fosse confiada ao próprio corpo docente, orga-
3 para uma análise panorâmica das transformaçôes históricas da educaçáo, nizado em rlma Sociedade Nacional de Ciências e Artes, diretan-Lente
acompanhando as iransformaçÕes dos modos de produção, inclusive das subordinada à autoridade do Parlamento, através de uma Diretoria
transàrmaçóes havidas sob o capitalismo, é interessante a leitura do livro de Instruçáo nomeada por essa sociedade. A essa sociedade ficaria,
Etlucaçao e iuta ,/e c/nsses, de Aníbal Ponce (Ponce, 1990)' tambénr, reservada a nomeaçáo clos professores (Luzuria ga, L959 : 47).

72 ,/3
Francesa, além das idéias em prol de uma educaçáo pírblica, gratttita,
Apesar das propostas de'Ialleyrand e de Condorcet' nem a As-
obrigatória, igualitári4 universal e laica, introduziu mudanças subs-
sembléiiConstituinte nem a Assembléia Legislativa foram suficientes
Essa tantivas na organizaçáo escolar com a criaçáo das escolas normais,
para implementar transformaçóes na educaçáo pírblica francesa'
apesar do caos em qtle viveu' deu os das escolas centrais, da Escola Poütécnica, do Conservatório de Artes
tarefa coube à Convençáo que/
e Offcios, do Instituto Nacional de Mírsica, etc.
prinreiros passos nessÀ diieçao. A Declarução dos dh'eitos do /nm,n
L ,/o cidadAà incluía a instruçáo como Llma necessidade
de todos os No movimento de desenvolvimento da educaçáo nacional, en-
honrens, cabendo àrazâo pírblica colocai-la ao alcance de todos. Em tende Luzuriaga (7976:180) que o século XIX teve características
demaio 1793 assim ficou redigido: "A instrução próprias que o distinguem do século XVIIL Apesar de ter começado
sua redaçáo dezg c1e

é necessàade de todos e a sociedade ir deve igualmente a todos os em fins do século XVII na Inglaterra, coll1 os novos descobrimentos
seus membros". Na redaçáo de23 dejunho desse mesÍno auo assim técnicos e o emprego de novas fontes de energia, a Revoluçáo Indus-
,,4 instruçáo é necessidade de todos. A sociedade deve favore- trial desenvolveu-se no século XIX e deu nascimento a Llma quarta
ficou:
cer corn todas as forças os Progresso s datazáo pÍrblica e pôr a
instru- classe social, o proletariado/ qtle, junto e ante a burguesia, provocou
ao alcance de todos oi cidadáos " (apud Ltrzttriaga, T9S9: 48). uma paulatina extensáo do sufrágio universal e maior participação
çáo
do povo nos assuntos públicos e, portanto, nos educacionais' Ainda
Durante o período da Convençâo (1792-1795), em meio a guer-
que a educaçáo pública nacional tenha começado na França com a
ras externas, guerra civil e convulsÕes internas, forarn aprovados
a educaçáo nacional' Entre esses pro-
Revoluçáo de7789, sua efetivaçáo ficou reservada PaÍa o século XIX.
vários projetoã e reforuras Para
Assin"r registrou Luzuriaga esse processo: "(...) Nesse sécuIo, desenvol-
letos, o mais conhecido
foi apresentacto I,o1 lepelletier de-Saint-Fargeall
'(1760-lT9Z) entre julho e a[osto c7e 7793. No projeto de Lepelletier foi vell-se a mais intensa luta dos partidos políticos, conservadores e
progressistas, reacionários e liberais, por apoderarem-se da educaçáo
proposta uma instruçáo gãrat para todos, adequada às necessidades
e da escola, para seus fins. Em geral, pode-se dizer que foi uma luta
à" fodor, verdadeira e úiv"rialmente naciona! voltada ao atendi- entre a Igreja e o Estado em torno da educaçáo; venceu este e em cada
mento de todos os meninos e meninas que devem ser educados em
país foi orgarizadauma educaçáo pública nacional.
comllm/ à custa do Estado; devem receber a lnesma roupa/ o mesmo
alimento, a mesma instruçáo, os meslllos cuidados; a educação esco- Do século XIX procedem os sistemas nacionais de eclucaçáo e
lar cteve ser obrigatória e gratuita e, Para a manlltenção da educação' as grandes leis da instrttção pública de todos os países etlroPeus e
propóe a criaçáã, pelo Estado, de unt imposto; ao final, reconhece americanos. Todos levam a escola primária aos últimos confins de
àir',àu o principio do laicisn-ro (Luzuriaga, 7959: 49)' O projeto
de seus territórios, fazendo-a universal, gratuita, obrigatória e, na maior
Lepelletier .aó foi aprovado, mas Passolt. à l-ristória Por sua Pers- parte, leiga ou extraconfessional. Pode-se dizer que a educaçáo pú-
p".tirru revolucionátiu defesa de uma educaçáo pírblica' gratuita' blica, no grau elemental, fica Íirmemente estabelecida, com o acrésci-
"r,.. mo de dois novos elementos: as escolas da primeira infância e as esco-
ãbrigatória, igualitária, universal e laica'
las normais para preparação do magistério.
Passado o furor jacobino, a Convençáo voltou a adotar medidas
cadavezmais mocleradas. Foi dessa época uma importante clisposi- No que tange à educação secundária, também Íica fundada,
normais francesas, reconhecendo- nas linhas gerais, sem alcançar, contudo, o desenvolvimento da pri-
ção: a de criar as primeiras escolas
ie pela prin-reira vez em França a necessidacle de uma preparaçáo rnária, por limitar-se a uma só classe social, a burguesia, e por ser
p"áugOgi.u do magistério, como já se havia dado na Alen-ranha considerada apenas como preparação para a universidade. Esta, por
(Luzuriaga, l959:50). seu lado, adquire novo caráter como centro de alta cultura e de inves-
de fevereiro de7795,limitou a ligaçáo científica, ante o sentido Puramente confessional e docente
o írltin-ro Projeto da Convençáo,
"a liberdade da edu- rlns épocas anteriores" (Luzuriaga, 797 6: 1,80-787),
pÍesençâ do Estâclona educaçi'ro, reconhecendo
àuçao ciornéstica, a liberdacle dos estabelecimentos particulares
ea Na França, passado o n-rovimento da Revoluçáo, seguiu-se a
liberdadedosmétod'osdeensirro,,;strprimitt,ainda,agrattridadeda tcndência autoritária e monopolizadora do império napoleônico. An-
escola primária, com a exigênciir de uma contribuiçáo escolar dos t('s mesmo do período totalitário de Napoleáo , porém, a França pas-
alunos. Voltava a Convençào atls primeiros tempos, os liberais da sor-l por Llm momento intermediário, representado pela lei de 1802, do
( itrrsrrlado. No que diz respeito à educaçáo primária, essa lei buscou
Revoluçáo. um balanço prelirninar permite veriticar que a Revoluçáo
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locais' na perial e lhe colocou à testa um "Conselho Real de Instruçáo Pública".
conciliar os interesses do Estado com os das autoridades Ao par deste, criou comitês cantonais encarregados da inspeçáo das
orática entregando esse nível de ensino às úItimas' autorizando a
escolas. Concedeu modesta subvenção do Estado às escolas primárias,
ãrrã.rà"ça" ãe contribuiçóes escolares e suprimild.o as subvençóes tomadas como modelo para a formaçáo do magistério. Autorizou a
do
do gstadt às escolas primárias; náo tratou da obrigatoriedade volta ao ensino das ordens religiosas que a Revoluçáo haúa suprimido
primária comum entre
ãr,rir,o; abriu a possiúilidade de ter escola que Napoleáo voltou a readmitir vagarosamente (Lluatriaga, 1959: 61).
prerrogativa e
vários municípiôs; a escolha dos mestres Passou a ser
dos conselhos municipais e da inspeção os subprefeitos adminis- A educaçáo pública francesa mudou radicalmente com o ad-
trativos. No ensino sácundário apôio., suas instituiçÕes públicas, vento da Monatquía de Jullto (entre 1830 a 1848). Seu grande ideali-
,rbr,irir,do as "escolas centrais" pelos liceus' submetendo todas as zador foi o historiador Guizot (7787-7874), duas vezes ministro da
escolas secundárias à aprovaçáo e inspeçáo
do Estado, criando, para Instruçáo Pública, entre 7832 e 1836. As reformas educacionais imple-
tanto, uma adn'rinistraçáo centralizada' mentas por Guizot foram inspiradas e aconselhadas pelo filósofo Victor
foi dado pela Cousin (1792-1,867), entáo enviado à Alemanha Para estudar as con-
O passo decisivo PaÍa o monopólio da educaçáo
de maio de diçóes da educaçáo pública. Em seu regresso publicou Cousin um
lei de 10 ãe maio de 1806, completada pelo decreto de
1'
leis implicaram.na Relatóriono qual propôs: a introduçáo da obrigatoriedade escolar na
Í808, jâem pleno período napoleônim Essas duas França (imposta pela Convençáo em1793,mas abolida pouco depois);
subordinaçâo da educaçáo às idéias políticas dos
"-rrir'.t*pf"ta a criaçáo de escola em cada município; a necessidade de preparaçáo
;;;;;r;àt (Luzuriaga, toso: so1;Na Lei de 1806 Napoleão criava a
Tuniversidade ImperIal", entendida como a totalidade da instruçáo para o magistério, sugerindo a criaçáo de escolas normais em todos os
exclusrva departamentos; finalmente, à imitaçáo das Bütgerschtrletz alemás,
púbtca e náo somente o estabelecimento de ensino superio4'
governo imperial' O caráter sugeriu a criaçáo de escolas primárias superiores, para as classes bur-
à monopolisticamente submetida ao
nacional foi reforçado pelo guesas cujos filhos náo váo Para a universidade.
*onopolirudor e autoritário da educaçáo
que estabeleceu que "O ensino pú- Com base nas idéias de Cousin, preparou Guizot sua célebre
decreto d.e17 demarço de 1808,
blico, em todo o In-rpério, é confiaào exclusivamente à Universidade' lei de 1833. Determinou essa lei que todo município era obrigado a
Ner,hrrnla nenhum estabelecimento qualquer de instru,çáo pode manter escolas primárias e todas as povoaçôes de mais de 6 000
"scola
oigu.,irut-t" fora da Universidade imperial, e sem autorizaçáo
de seu habitantes escolas primárias superiores. Para a administraçáo e ins-
chãf". Ninguém pode abrir escolas, nem ensinar publicamente' sem peçáo das escolas a legislaçáo de Guizot determinava a criaçáo de
ser membó da Úniversidade Imperial e graduado PoÍ uma de suas comitês locais, de distrito e de departamento, integrados pelas auto-
faculdades" (apud Lttztriaga, \959: 59) ' ridades municipais, por ministros dos diversos cultos e represen-
insti- tantes dos moradores. Para o exercício da docência a lei fixou um
A Universidade passava a ser comPosta PoÍ uma série
de
ditas' até as soldo mínimo, exigindo dos professores o título de escola normal e
tuições: desde as faculdades universitárias, propriamente
impondo as mesmas obrigações aos mestres leigos e aos religiosos.
ur.àh, primárias, as petites écoles' O princip-al retrocesso'po.tÍ2 "* A lei, todavia, náo introduziu a obrigatoriedade escolar recomendada
fideli-
tava na àoncepçao ,1ár*o das bases ãducaçáo, que estabelecia
formar cidadáos fiéis por Cousin e náo preceituou a gratuidade total do ensino primário,
ãuae a r"iigiaà católica, ao imperadol, devendo
A só concedendo-a aos que efetivamente náo puderem Pagar pelo en-
à religiáo, ã pátria e à família ' (Ltrzuriaga, 1959: 6$ ' organizaçáo
a sino elementar. Embora Guizot não tenha implementado o laicisn-ro
educicional, inspirada na disciplina militar, também estabelecia
obrigando inclusive no ensino primário, reconheceu a liberdade religiosa e o respeito à
maior centrahzáçáo e autoritarismo possível,
napoleônica levou consciência (Luzuriaga, 7959: 61,-64).
a todos os membros o uso de uniforme' A educaçáo
a pÍoposta de estatismo ao máximo, impondo uma-concePçáo Guizot introduziu também outras reformas importantes na edu-
*à^opotlrudora e totalitária de ensino' Suas propostas educacionais' cação pública francesa. Organizou as escolas normais... prevendo a
mal chegaram à reatdade em seu tem- freqüência às escolas normais dos professores em exercício e que PoÍ
náo pàssaram da legislaçáo e
po, po, falta de meiós econôn-ricos e de interesse na aplicaçáo' clas náo haüan-r passado. Criou o primeiro periódico pedagógico ofi-
cial da Europa, o Manuel génétnl de l'insh'ttctíon pritnrtirc. Também o
A Restautação (de 1815 a 1830) náo n-relhorou grandemente a
Im- e nsino médio e o superior tiveram grande desenvolvimento durante a
situaçáo da educaçáo púbüca francesa, conservou a Universidade

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notadamente auúlio aos alunos pobres e, sobretttdo, organizott as escolas feminr-
rnonarquia de Luís Filipe e a administraçáo de Guizot' nas e as rurais. Em disposições, o ministro Duruy criou os cursos de
encaregada de formar o profes-
os liceu! e a EscolaNornlal Superio{'
adultos, incentivou o ensino da agricultura, estimulou a educaçáo
sorado do ensino médio. física, melhorou a situaçáo das escolas normais e facütou o aperfeiçoa-
da educaçáo
Náo há dírvidas que foram inírmeros os avanços mento do magistério em exercício. Restabeleceu o conculso Para o
op"ror^do tom moderado e marcadamente liberal
sob Luiz Filipe, uragistério; criou o chamado "ensino especial", destinado à forrnaçáo
ea
r"ã"ãrq"i.o ãu t"i de 1833' Somente com a Reaolução de 1B4B
de proÍissionais náo universitários; implantou, no ensino superiol a
na França/ mesmo
strbseqiiente Reptíblica é que voltaram a. aparecer Escola Prática de Altos Estudos, com cátedras e laboratórios (Luzu-
tempo, iàéias reforn"radoras da Revoluçáo Francesa'
qo" po. porco as rraga,1959: 67-69).
foi o
tito qruàro desse novo momento de ebuliçáo revolucionária' Somente para finalizar esta rápida incursáo sobre as origens da
ao.Parla-
;i"i:ir; Hyppolite Carnot (1801-1888) quem apresentouco-ntinha as educaçáo pírblica e sobre a realizaçáo desse processo na França, é
;;ft".r* f-i"ro de lei que, apesar de ter sido aprovado'educaçáo: as de importante resgatar o caráter pendurlar da educaçáo ao longo da his-
iaOiu, essenciais da Têrceira'República quanto à tória, acompanhando os vaivéns do contraditório processo das lutas
ensino prin"rário' Foi sob a
eratuidade, obrigatoriedade e laiàismo do entr.e aS classes e fraçóes de classe, notadamente entre burguesia e
cur"ot que foram introduzidas algumas medidas
:il;r*;àoãE 'escolas mater- proletariado. Quando instauram-se processos revolucionários, am-
das
iÀfottu"t"à no ensino, noiadamente a.criaçáo ptanao o proletariado e as frações de classe populares, participaçáo e
d'asileí" de caráter cari-
,-rai^r", enr substituiçáo das antigas salles
pres"r-rça social e política, igualmente avançam as propostas pedagó-
tativo, e a organizaçáo de uma escola normal Para as professoras
gicus as fornlas organizadas do ensino, adquirindo um caráter pú-
dessas escolas (Luzuriaga, 7959: 65-67)' blico, "gratuito, popular e laico; quando, en-r seguida, reorganiza-se a
reaçáo
Como se sabe, teve vida efêmera a República e/ Com a burguesia e hegemoniza o pocler do Estado, volta a educação a ter urn
revolucionário de 1848 e a eleiçáo de Luis
,..Ur"qtiãr',t" ao movimento caráter duaf con'L a defesa de uma educaçáo pública que deve coexistir
Bonaparte para presrdente da república novamente
mudou totalmen-
o conl escolas privadas nos diferentes níveis escolares, em qtle a
te a eàucaçao. Fài aprovada em 1850 nova legislaçáo -e gllrecebeu gratuidade aparece conlo concessão do Estado aos que não podem
De acordo
nome do ministro que a apresentou, Falloux (1811-1886)' pugor por seus estudos, etc. Essa postura da burguesia, passada o
.oÀ l.trrriaga (19b9: 67i essa lei foi resultado de uma campanha do período revolucionário de formaçáo capitalista e viabilizaçáo das con-
ã*p*à"aiá" peüs elementos católicos e reacionários, adversáriosradical- cliçÕes de acumulaçáo, desde a Revoluçáo Francesa e a tomada do
rompe-se
laicismo e temerosos do socialismo. Na lei de 1850 poder pela burguesia, passotl a ser cada vez mais politicamente reacio-
menteaestruturadaeducaçáofrancesa,criando-seconselhosaca- nária, mesmo quando travesticla pela ideologia liberal'
rePresentaçáo aos
dêmicos nos departantentos, dando neles grande É r-t"ss" quadro que se pode entender a crise instaurada na socie-
Íoram autorizados a
üitpot e outros eclesiásticos; os departamentos clade francesa com a Guerra Franco-Prussiana de7870-7877, bem como
;;'fi;it as escolas normais, ql11* ^ll:Y.':1'^l:
T:1enr.ente; retomar o enslno; rr violenta luta popular contra a bnrgttesia e os donos de terra e que
merosas congregaçoes religiosas, como os jesuítas' a
culminaram com a tomada de Paris pelos trabalhadores e a instau-
;

a estabelecer
finalmente, s.:rpr:imindo a g-ratuidade do ensino' voltando ração de um governo de caráter popula4 democrático e participativo -
contribuiçoes escolares' ,r Comuna de Paris.
Ao movimento reacionário representado pela lei Falloux
seguiu-
liberal, repiesentado pelo ministro e historia-
se olrtro, de signiÉicação
àor Victor Dtõuy lttitt-t 894), aufor da lei de 1867 e outras
reformas A Comuna, a educação e a escola
pÍrblica' A lei de 1867 voltou a
["" auru* noró ulento à educaçáo Em vista das observaçóes feitas no iteu'r anterior sobre a educa-
a obrigaçáo dos municípios em criar e manter escolas' çlro, é preciso perguntar: coü1o a Comuna encaminhou a questáo edu-
possibi,dãd" prru a gratuidade; estabeleceu ordenados para
"^rtub.l".", t'acional? Antes de mais nada, deve-se lembrar, que a Comuna foi um
^útl"a,
os professores; tornotl ãUtigJO'At as clisciplinas
História.e Geografia rnovinrento iniciado ern 18 de março de 7877, culminando com a
.uà primárias; subrieteu as escolas particulares à inspeçáo do tomada do poder e o controle da cidade pelos trabalhadores, nllma
"rcolm ,,caixas escolares,,, destinadas a
Estado; criou as chamaclas PÍestar
79
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totnirclas pela Cotl-lut-lil l1o cllttt cliz rcspeito à cducação e i\ e sctlla. ('tlttrtl
contirrr.riclacle cle lor.rga tracliçiitl rcvolttciotrtirii'r. l:lrrtre 30 cle abril a 5
de n1aio cle 1871, a Conlrul.t tornou r1r)r coÚllnto de dccisoes e n-redidas,
náo l-rii interesse em constrtlir unla crítica l'ristoriográfica srlbrc tl irs-
sistenratizadas no documento rlcnotnitrado Ptoc/rttrtrtç,jo dt Cotttrrttrt sunto, rnas resgatar as grallcles bandeiras educacionais cla Cotnuuil,
tlo f DLD Íttl,t//trtrlot t/,, lltt i.s.l'cla int;,rtlrtárrciir e l'CPcrcllSSiro PoStt'Ii- sertlo tor)1.lclas .rs observaçõcs fcitas por Karl Marx sobre o assttlttil..r
or jtrlto ilo t11()vinr('lrto opcrririo itttt'rtrircirlurrl, ulc'recct'u clestatltte as Um.r plimeira obscrvaçito a tlcstacar ó clttc rrs medidas cclttca-
seguintcs ttreclicla s: cirtrr.ris cl.r (lotnurra foram clctirlhaclittttclttc rt'gistritcl.rs c irnillis.lclils
. Supressácl clo t'xórt:it() Pcrlllallclltc c stta substituiçao Por tltllit pcrr Marx tro primeiro esboço c1t- t1 ,çtrttttt t'it.'i/ tttt f'rnttçrt- Apesnr cle
Cl u t'rrcl ir Nacio nrrl orga l'ti zil d a colll o lnil íciil po pular;
ser Llnli1 citação longa, o rcsgatc clo trecho ;r seguir é pletlo cle signifi-
cância por si mestno.
. F.legibiliclatle t'revosirbiliclilclc. Pel.llli'lllc11tÊl dc todos os lllalldatos;
Natnraltnctrtc, a Conrtttra uão tevc temPo cle reorganizar a edll-
. llst.rbelccinlcllto clc ir.rstituiç-ircs govcntitllletrtrris trho 1-rarlattte'ntares,
cirçho pírblicir. No etrtanto, c.litnitrirutlo os fatores relig;rosos e cleric;ris,
collccbirl.ls Collto colpol'irçoes tl0 tri.rbalhtl cxccutivils e lcgislativas
tclrnou .r iniciativn clc cttratrciPar inttllcctltaltuclttc o Povo. lin'r 28 dc:
r-lo r-rl csl)l () tt'tnptl;
.tbril trorttt'or.l uttt,l t'ttl'tti::.io ('tl(.ltl('t,.1(lil tlt'ot'gatriz,tt',1ç11si1111 pt'i-
. Inst;urraçao c1.r separirçáo da lgreja c o Listi-rclo; mtirio e profissionirl. C)rclenott que todos os instrtlmentos cle trabi'rlho
. I(eorganizaç;io cla educação; escolar, tais como livros, rnaPas, papel, etc. fosseln administrados gra-
. Rectrganização clo jncliciiirio, col1l itlízes e llragistl'ilclos elctivos tuitalncnte pelos professores, qtlc os recebcriam de sttas respectivas
e rcvttgiivcis; alcaidarias. Nt:nhtttn profcssor cstaria irtttorizirclo, sob lrenhutn pre-
. lnstiruração clc uln govcmo nircionill('xcl'cido Por tllllil Asscmblóia tcxto, ir solicitirr clc sctts itlrttttls o Pag.'ll-ncllto Pot estL's tniltt-lilris clc
trirbalho escolar (28 cle abril).
N.rcictnll clc clelcgados ciirs clifcrcltcs Comunas, c()lt't sccic cm I'aris.
J)iante clos clcsastres quc se abateratn na Frauçir cttrante esta-r
A recleÉiniçáo dos objctivos eclucircionais e cla escoltr consta clo t
guerra, cliante cle sett afttnclamento nacionerl e de sua ruínir financeira,
Artigo XI cl;r Proclarr1l.çáo, estanclo rrssim redigicl;r: "Artigo XI - Ii I
a cl;rsse média sabe qtlc náo serii a classe corrotnPida daqueles que
trbolicla.r ESCOL,A ',velha'. As crianças devem se se'utir col1lo e1n stla
I tratam cle cotrvcrtcr-so llos aurrts tlit lrrirttça ir que vni trazcr bem-esta4
c.rsa, irbert.r pàri1 it ciclirclc c Ptll'n ir vicla. A sttir ítuicir funçho é a cle
lnirs sir11 rlue scrii, sotuotrtt', a clitsst'ttpcriiria, col)l stlils viris.tspirtr-
torlii-las fclizcs q clilrloras. Âs crianças clecitlcm.r sttir arclttitcttlr.l, o
çócs L'scu poclcr.
seu hor.irio clc tt'.rb.rlho, c o (ltle cle scitrm irptcucler. () professor rrntigo
deirl tle eristir: trittrltrét'u ficil ctltl o Ilonoprólio cla eclrtcaÇáo, 1-rois elir Sentem (lue solllL'lltc a classe oprerária pocle eutaucipar-sc clas
jii náo é concebici.r corno transmissão do saber livresco, ll1as col11o tiranii-rs clos paclres, ftrzcr cla ciência tllll instrtll)1ento tráo de dourr-
transmissão clas c.rp.rciclacles profissionaris de cada ttm." nrrçào dc'classe, mas sim uma forçi-t p-ropular; ftrzcr clos prróprios cien-
tistirs r.rão alcoviteilos clos prcjuíz«rs clt' cltsse par.rsitas clo Estado i\
Alótn cli'rs resolUç[tcs Iomirclirs, r'rão se poclt: esrluccer cltte tarn-
cspcrir tlc bons lug.rrcs c aliaclos clo crrpital, tras sitn irgcntcs livrcs t1o
bí'pt [uram .rrlr>tacl.rs nrt'riiclas pirrà o irtclrrliurctrto ck: rcivinc'licirçi'rcs
cspírito. A ciônci.r síl poclc josrrr sott vcrcli.rcleiro pirpel na llcpírblica
cle citriitcr funtl.ttt.tt'trtirltnctrtt' social, uotaclaurcutc: proibiçáo clo tr.l-
do'kabalho.
balho notut'tro It.rs p.rci.tt'i.rs; ptoibiçáo clo tr.rbalhcl clc metlores; 1110ril-
tória pitr.r it cobritnç.] das clíviclas; SnprCSSão clas tnultas e retençoes rHá tambénr leferêr-rcia sobrc a etlucaçãcl e a Comtttra cttr rrários traba-
salariais; estabclt:cintcnto tlt'rrm saliirio mínirno; expropriação de fii-
Ihos. É interessante conrparar as obscrvações cle Marx cont a cle otttrtr
briCas abittrcLtttirr.lilS t S('tt l-tttrt'iottilmcllto Por cOc'rperativaS opCrárias
.rtrtrrr conten-tPorâneo cla Clonruna. llntrt otttros escrittts cncrttttraclos na
cic Pt'ocl trçit t); cxP r() Pl i,t (';r r I tl t' lirit trtlcs clll Prcstl s' cxcclentr colel;1r'rca clc tlocurnct'rtos, icottogralia c bibliogra[ia soLrrt a
Apcsirr clos linritarlos 72 rliirs rlc cxistôtrcia, i1 Coltltlllil tcur siclo Corrrrrna (Mcroro, liobcrto (orp,.). /7tti.;, I-n Cts»utrtrttt'tl /'ns.çrttt/ rlrr ci'/.
referôncia nccessiiriir parlt Iotlos os cstuclioscls e urilittrtltL'S que CD-Ron'r. Mómoire, c.n association avec Lc'Ti:nrps cles Crises et Les Amis
objetiv;-rm a Srlperilçtro rcvolttciot'r.11'i.r tlo moclo capiti'rlista cle explortr- de la Comn-rune), pocle-se inclicar a obra cle Hippolytc Prosper Olivicr
Lissagarav c ser Htstórín dn Cottuttrt rlt /871, tambétl pr.rblicada em livrtt
çáo. Mesmo no âr]lbito da pcstltrisir (lrrc tel-rl por objeto de estttclo r't
(t.issagara1,,1991).
eclucaçt1o, lltuitos siltt os ensarios ('cstttdos qtltt ilnitlisirlll ils llledidcls

It0 8l
Os professores da escola de medicina
evadiram-se e a Comuna Com o texto de Marx fica reafirmado o caráter que a educaçáo
livres
designol uma comissáo tendo em vista fundar universidades assumilr na Comuna: pública, gratuita, popular e voltada ao atendi-
estudantes que
q.r"ia náo fossem parasitas de Estado; esta deu aos mento de todos; laica e totalmente livre da influência da religiáo, das
independentemente
passaram nos exames a possibilidade depraticar classes e do Estado burguês; formativa e pautada exclusivamente no
pela faculdade).
ào título de doutor (o tíàrlo será confericlo método experimental e cientíÍico. Ademais, a educaçáo é apontada
A Comuna náo deve SeI uula instituiçáo parlan'rentar
mas sim como um importante instrumento de desalienaçáo do proletariado.
e legislativo ao mesmo tempo' Os poli- Ao contrário da educaçáo ser merarnente tratada de forma mecânica,
um corpo dinâmico, execlrtivo
da Comuna e náo serem inStrumentoS de ela é vista como uma importante ferramenta de formaçáo e, portanto,
ciais devern estar a Serviço
colno os funcionários de todos os corpos da um instrumento para a consolidaçáo da REVOLUÇAO.
.* gá""r"o central e,
destituídos semPre pela Comuna; Apesar de náo fazer nenhunla referência sobre a Comuna de
administraçáo, serem nonreados e
d.e maneira igual aos membros cla con'runa, de- Paris, Luzuriaga afirma que as grandes reformas da educaçáo pública
todos os ftincionários,
com salários cie operários. Da mesma forma, francesa só ocorreram "depois da derrota fuancesa na Guerra Franco-
;;;;;;lir". seu trabalho
cleve,r ser eleitos, destituídos e responsáveis' Em todas
as Prussiana de 7870, e com a proclamaçáo da Terceira República"
-- tirrir"t
".
quâstoes da vida social, a iniciativa há
de partir da comuna. Em uma (Ltrzuriaga, 7959: 69). Destaca esse autor que a França, na busca por
púbhcas' inclusive as mais estranhas pro- refazer sua vida social e política, fez da educação seu principal instru-
iufã"tu, todas as funçóes clevem ser assumidas por agentes da
postas pelo governo central/ mento, adotando uma série de projetos que recordam os da Revoluçáo
ão*""u, e cãlocados conseqiientetlente sob seu controle' Francesa de7789.
náo só as funçoes
É absurdo afiÍmar qlle as funçóes centrais - Essa reorganização náo ocorreu imediatamente após a derrota
também as necessáIias para satisfazer os da Con-runa, mas somente em 1879, com a nomeaçáo de ]ules Ferry
do governo do povo, nras
do país - náo devem estar asseguradas' (1,832-7893) como ministro da Instrlrçáo Pública. Começou Ferry com
;;t:rt gerais e ordinários
Estaá ftiãçOes teriam subsistido,
porém os próprios Íu,cionários náo reformas pontuais que desen-rbocaram nas grandes leis escolares: a
colocarem-se aci-
podiam- colllo no v,elho aParato governamental - de 11 dejunho de 1BB0 estabeleceu as condições Para o exercício do
estas f-trnçÓes deviam estar asseguradas magistério; a de 16 de jur-rho de 1881, restabeleceu a gratuidade da
ma cla sociedade real, porqLle
e Sel.executadas, portanto, sob serl efetivo e educaçáo primária, ao suprimir as contribuições escolares na escola
pon ogrrt*rla Cotttrrtin
constante controle. pírblica, assim como o pagamento da pensáo nas escolas normais; a
privada de 28 de março de7BB2, que estabeleceu ao mesno temPo a obrigato-
A fuinçáo pública deve deixar de ser uma propriedade
exército riedade escolar e a laicidade em todas as escolas prin-rárias (Luzu'
concedida pá1o gorrut,-to central a sells auxiliares'
O Perma-
instrun'Lentos físicos da opressáo, devem riaga,7959'. 69-72).
;;;; u pàf.iu"ao Estado,
"
ser eliminados. Expropriando
todas as igrejas r-ra medida em que se-
o ensino religioso de todas as escolas
lr-À ptrpti"tários, elirni[rando A proposta mafiiana de educação e a politécnicas
e introduzindo sitlultaneamente a gratuidade do ensino,
;;úü.oj retiro da vida privada para As observações cle Marx sobre a educaçáo na Comlrna de Paris
ànviar_rdo todos os sacerdotes ao sereno
todos os centros escolares da tute- náo sáo suficientes para explicitar uma concepçáo pedagógica ou edu-
.rirr", do dos fiéis, liberando
"rr.rola a força ideológica da repressáo deve se cacional. Como outros aspectos da obra ntarxiana, pode-se afirmar
la e da tirania do governo,
tornará acessível para todos como também que Marx e Engels náo desenvolveram de forma acabada uma teoria
romper: a ciência não só se
e dos prejuízos de classe- "Os da educaçáo e do ensino, no conjunto da vasta obra, porém, encon-
se livrará da pressáo governâlnental
govelnamental e da dominaçáo sobre a so-
instrumentos da opressáo
grerças à eliminaçáo dos órgãos Puramente
ciedade se fragrneirtarão sA partir deste ponto reproduzo parte do texto da conferência ministracla no
e ãli, orlde o pocler te,r funeogs legítirnas a
cumpri4' estas evento "Comuna de Paris: 130 Anos -1,871,-200"1", promovida pelo Espaço
repressivos,
acima da sociedade,
,ráo seráo c,mpridas po'um organismosituado Marx - SP e CEMARX I IFCFI / UNICAMR nos dias 22 e 23 de maio de 20A1.,
mas por.todos os ug"Àt"t respo,sáveis desta mesma sociedade." (K. que reve por ítulo: A EDUCAÇÃO E A COMUNADE PARIS - Contribuiçáo
ao debate comemorativo dos 130 anos.
Marx, 7983:92-94).

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tram-se os principais elementos que configulam uma indubitável
. Defesa de nma educaçáo pírblica, gratuita" laica, obrigatória e uni-
concepção marxisÍa da educaçõo. versal para todas as crianças, de modo a assegurar a aboliçáo do
monopólio cultural e do conhecimento;
Algumas obras de Marx e Engels sáo referências mais que obri-
gatórias sobre o assunto e sobejamente conhecidas, quais sejarn:
. Cornbinaçáo da educação intelectual com a produçáo material, ou
Lrsando a formulaçáo de Marx, combinação de instruçáo, grnástica
. 7845-46 - A irleotogio aletni - vol' 1, parte I, de K' Marx e F Engels;
e trabalho produtivo. O objetivo de tal rnedida era a eliminaçáo da
. 1847 - hincípios do cotntrnistrta de F. Engels; diferença entre trabalho manual e trabalho intelectual, entre con-
. 1848 - Mantfesto cotnunistn, de K. Marx e F Engels; cepção e execuçáo, de modo a assegllrar a todos os homens uma
. 1.867 - O capita/ - Cap' XIII, de K. Marx;
compreensáo integral do processo de produçáo;
. 1.877 - Á guena ciztil na Ftwnça, de K' Marx;
. A educaçáo deve propiciar aos hornens um desenvolvimento
. integral. Todas as necessidades do homem devem emergir no
1,875 - Crítica ao p7o87'at71o de Got/n, IV de K' Marx'
processo educacional, inclusive o consumo/ o ptaze1, a criação e o
Além dessas, somente para efeitos de registro, convém assina- gozo da cultura, a participaçáo na vida social, a interaçáo com
lar que foi somente com a Revoluçáo de Outubro que, historicantente, os outros homens, a auto-realizaçáo e a autocriação. Essa pro-
deu-se a construção de uma concepçáo teórica e de uma prática edu- funda transformaçáo dos objetivos educacionais exige, entre
cacional marxista e revolucionária. Sem quelel entlal na polêmica outros aspectos, também uma profunda transformaçáo da divisáo
quanto ao que é ou náo ortodoxo, são inúmeros os nomes que se social do traball'ro que, com a aboliçáo da divisão entre trabalho
vinculam aó desenvolvimento de uma concepçáo revolucionária de intelectual e trabalho manual, conduza a unra reaproximaçáo
educação: Lenin, Krupskaia, Blonskii, Pistrak e Makarenko' Ao nome da ciência e da produçáo;
dessesievolucionário+ também é preciso mencionar Bebel, |aurês, Klara . Também as relaçóes no interior da escola precisam se transformar
Zetl<tn,Liebknecht, Gramsci, tangevin, Vigotski, Wallon e Sêve' Há'
da competiçáo para a cooperação e o apoio mútuo. Uma tal trans-
ainda, muitos enlbates em tolno da prodttçáo de outros autores mais
formação pressupóe, por sua vez, uma telaçáo biunívoca e mutua-
contemporâneos, entre os cluais estou a lembrar deAlthusse4 Baudelot
mente enriquecedora entle professor e aluno e uma relaçáo mais
& Establet, Bordieu & Passeron e Manacorda, entre outros'
aberta entre a escola e a sociedade.
A questáo da educaçáo ern Marx deve ser trabalhada como
Con'ro em outras partes do mundo, também aqui no Brasil a
outras: como histórica e socialmente determinada. Os escritos de Marx
teoria educacional marxista tem alentado os debates e gerado várias
e Engels, posto que os entendo como completamente inseparáveis,
propostas e práticas pedagógicas. Entre essas merece destaque a siste-
nao Jao reveladores de uma pedagogia abstrata, mas colrlo uma di-
nratizaçáo e difusáo entre nós da pedagogia hisÍórico-ct'ítica. Para
mensáo que deve ser analisada no interior do processo de transfor-
Dermeval Saviani, sem sombra de dírvidas o principal elaborador e
maçáo histórica, desde suas determinaçÕes materiais, e enquanto
referência dessa concepção, a educaçáo é indissociável da sociedade e
parie do projeto com,nista de homem e de sociedade. Marx e Engels
pode servir tanto de instrumento para a manutenção das condiçÕes de
iráo prodlziiam uma obra pedagógica, evidentemente' Mas na ampla
exploração e subordinaçáo do proletariado pela burguesia quanto de
e coÀplexa obra produzida,ão se pode deixar de reconhecer a exis-
alavanca para a necessária transformaçáo l-ristórica da sociedade em
tência de uma crítica e de uma perspectiva ou proieto explicitamente
direção ao socialisn-ro. Sobre o assunto assim escreveu o autor: "Em
pedagógicos. Bem observa Manacorda que a atenta investigaçáo relaçáo à posição política assumida por nós, é bom lembrar que na
htotOgl.à das formulaçóes marxianas sobre a educaçáo e ensino mos-
pedagogia histórico-crítica a questáo da educaçáo é sempre referida
tran-r {ue estas formam um todo com a PeÍsPectiva da emancipaçáo do
ao problema do desenvolvimento social e das classes. A vinculação
homenr e da sociedade (Mar-racorda,7969 27)
entre interesses populares e educaçáo é explítica. Os defensores da
Embora náo seja fácil uma síntese sobre um asslrnto que ten-t proposta clesejan-r a transformação cla sociedade..." (Saviani, 7991.:87).
produzido vasta literatura, podem-se delinear os principais aspectos
Estando referida ao desenvolvimento histórico da sociedade,
àa teoria marxiana de educaçáo nos segtlintes traços gerais:
cllmpre a educação un-ra funçáo fundarnentalmente política. Articu-

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lando elaboração rnarxiana cotll os ensinamentos de Gramsci, saviali
r'r sível deixar de reconhecer.r importiincia cle umir profuncla disctrssao
entende que a principal funçáo política da educaçáo é de socialização sobre o papel da educação na reprodução social e, contr.rditoriit-
clo conhecimento: "... conchti-se cllte a importância política da edu- trrente, sobre o potencial revoluciot-uirio da educaçáo no desenvolvi-
cação reside na slra funçáo de sociirliz.rção do conhecimento. E, pois, rncnto soci.rl.
realizar-rclo-se r"ra espccificidade cltrc ll'rc é própria que a eclucaçiio cttm- I-in ten'rpos cle defcsa apologótica do particuli'rr; do frngmentá-
prc slla função polítici'r. Drrí ... qLlc ao se dissolver a especificidadc cla rio, do microscópico, clar icléiir, da subjetividade e da irracionalidacle,
contribuiçáo peclirgógica anula-se, etn couseqüência, a stta ilnpor- não ternos motivo alglrm parrir fictrruros na retaguarda. I'recistrmos
tância política" (Serviani, 7L)87'. 92). resgatar as arlnas teórictrs desde ttma perspectiva que vislumbre a
Entendenclo que é no âmbito da escola que a ftinçáo política da n-raterialidacle, a totnlidade lüstórico-social, a objetiüdade e a raciona-
educação se realiza, registrou Libâneo a importante contribuiçáo da Iiclade revolucion;iria.
escola no cumprimento cla fr.u-rçáo que lhe é pr'ópria, qual seja: a trans- À etcrnização capitalista dada por utlla persPectiva tcórica de-
missãro assimilação dos sabercs historicarnente produzidos pela
- fensora clo fim dir l-ristória é preciso clernonsttar qtte as nceleradas
humirniderde: ... a contribuição da escola para a detrrocratizaçáo está transformarçôes em curso clesvelAm Llrn processo de coustelnte recotne-
no cumprimento da funçáo clue lhe é própria: a transtnissáo/assimi-
çar de uma história marcada pela contradição.
laçáo atlva do saber elaborado. Assume-se assim a importtincia da
escolarizaçáo par.l todos e do desenvolvimento do ser humano total, Quanto mais o desenvolvin'rento capitalista coloca aos homens
o fantasma da barbárie, mais c mais é prec_iso colot'ar e recolocar na
cujo ponclo de particl'r está em colocar à disposiçáo das carnadas-po-
ordenr do dia a perspectivada REVOI"LIÇr1O.
p,.ilni"r os couteítdos cultttrzris tniris rcpresentativos do clue de me1l'ror
-.e acnnulou, historicamel-rtc, do si.-rbcr r,tuiversal, requisito
necessário Para aléur cle utna escttltr mistific;rdortr e confortnisttr, precisa-
para to[rarem partido no projeto histórico-social cle sua emancipaçáo l11os como eclucadores acreditar no futuro, snbmetenclo o presente a
lrtrnrana (Libâneo, 7987 : 75). uma proftincl4 radical e rigorosa crítica que, desvincttlando-se cle tudo
o que é antiquado e cadttco, coltrbore corn o processo de construçáo do
Sendo a escola uma instituiçáo historicamente cletern-Linada,
novo. Para cor-rclui4 gostari;r de registrar a recomendação do reconhe-
Como Llllla constnlção humana que Se articnla ao processo cle prodr.r-
ciclo filósofo e educirdor polaco Bogdirn Sucl'rodolski: Diz muito marl c
çáo das condiçóes materiais cle sua existêr'rcia, colllo
Llma clirnensáo
mela reproduçãcl cla sociedade mnito bem cl;r nossa jttvct-ttuclc. 'lttr1;rviir, estas definiçÕes não sáo cor-
dtr realidade humana, para além da
articulrrr-se plenan1ente nir construçáo d;r retas porque exprirnem ircerca cla juver-rtude umi-t aprecitrçi1o e stiitictt;
burguesa, pocle a eclucarçáo
precisa edu- a juventude tornar-se-á melhor ou pior consoante o modo coll1o sere-
, socieclitcle ieDr classes (S.rviani, 1991: 105). Ncste scntido, o
nlos capazes de orgar-rizar as suas atividades concretas no meio em
cador romper coltt as pedagogias escolares articuladoras dos interesses
que vive... para que se torne apta a realizar as tarefas futuras e confor-
I cla burguesia e vincular slra collcepçiro e sna prática nllma PersPec-
lne o que soubermos fazer para facilitar o deseuvolvimento interior
tivtr revolucionáritr de homctlr e clc mtttlclo. Náo se trata simplesmetlte
clos jovens. ll o írnico moclo cle clescnvolvcr as forças criadorz'rs da
cle aclerir a tlllta conccpçãtl cicn tíficit clc mtltrclo c sert poclcr de svelador
juventude, de a libertar das peias provocadas pela desilusáo cltte a
r1a realiclade, n.laS er)l assuruir nir tcorirr c t't;l prática, isto ó, na prlixis,
leva a afirmar "nada se pocle faze1, portanto náo valc a pena Íazer o
rlmâ concepçáo transíormaclora da viclit, clo homent c do rnnudo.
quer que seja". É o írnicó processo para limitar as tendências dos jo-
vens a basearem a sua vicla na exclusiva satisfaçáo das necessidades
Consideraçóes finais materiiris, é o írnico recrlrso para lutar contra uur cinismo que é hojc,
difícil fcchal rtt.tr tcxto clttc trrais abriu discussÓes que
É serr,pte nil maior parte das vezes, urna founa de protesto cor-rtrat o que está mal
encaminhou resposti'ls. I IiÍ, incltrbitavcln'rernte, muita controvérsia so- nrr vicLr, lnas quc corre o risco cle se tornar o pior dos males" (Sucho-
bre o papel da educação par.a ir s0cicclacle e para os indivíduos. Estamos clolski, 7992: 730).
vlvendó um acelerado proccsso cle transformações sociais, notada- Numa época em que a educação se transforma aceleradarnente
mente com a integraçáo crescente dos conhecimentos científicos e nlrma mercadoria e a escola passa a se constituir nun dos promisso-
tecnológicos aos processos produtivos. Face a um tal quadro, é itnpos- res negócios de nosso tempo, é hortr de retomarmos as bandeiras de
defesa cle trma EDLTCAÇAOPlIBLICU, GRATT1/'4, LAICA, OBRIGA-
rONU E LINTVERSÁL,
Em lugar de uma escola onde "professores fingem que ensi-
nâr11" part-r "alurtos que
fingem que aprenden-r", ceutrada na fomra e
nilo no conteítdo, é preciso propiciirr it todos os homens o ilcesso aos
conhecinentos historicamente procluzidos pclt-r humanidaclc, bem
como rlma educação crítict'r, voltacltr ao atendimento cle toda a socie-
dade e centrada nos conteúdos.

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