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u,m,dHu,ssert

As MedirízçõesCa esiaPzassão uma admirável condensaçãodos temas e das teses


centrais da Fenomenologia Transcendental.Apesarde nunca ter chegado a publicar em vida
o texto original, escrito em alemão,o próprio Husserl via nelas a sua obra-prima. Trata-se,de
fato, de uma apresentaçãomagistral do caminho de pensamento que conduz até a Fenome-
nologia e de uma exploração, de uma concisão e riqueza extraordinárias, do campo infinito
de pesquisasque se abre a partir da atitude transcendental.
Esta obra é, porém, apenas uma das vias de acesso à Fenomenologia. Conhecida
como "via cartesiana",ela deixa de lado outras, nomeadamenteas vias pela Ontologia e
pela Psicologia, que Husserl explora em outras obras. Para lá de todos os debates sobre o
cartesianismo" de Husserl e sobre o suposto "abandono", por Husserl, do seu caHesianismo
inicial, estaobra mostra que a chamada"via cartesiana",apesarde suasunilateralidades, nun- = MEDllAÇOES
ca foi abandonadapelo mestre de Friburgo, o qual, muito ao contrário, via nela uma "porta
real" para a FenomenologiaTranscendental.Como ele próprio confessa,sua Fenomenologia
pode ser apresentadacomo um "cartesianismo do século XX". Não se trata de fidelidade
CARTE
doutrinária relativamente a Descarnes, mas de assunção do motivo de pensamento cartesiano
em toda sua radicalidade e de construção -- para lá de Descarnes-- de uma Filosofia que Ihe
possadar pleno desenvolvimento. A Filosofia como ciência construída na ausênciade pres-
CONFERENCHS
supostos, almejando uma fundamentaçãoabsoluta e definitiva do saber -- eis aquilo em que
Edmund Husserl foi, e sempre continuou sendo, um "cartesiano'
A obra que ora se publica, as MedízaçõesCar/esíanas, está, nesta edição, precedida
DEPAÍS
pelas "Conferências de Paris".Sucede-lhea "Sinopse" das conferências, escrita pelo próprio
Husserl, e as observaçõesde Roman Ingarden às Meditações, que Husserl muito valorizou.
A edição ora dada à estampa é, assim,a tradução integral do primeiro volume da colecção
Hzlsser/ia/za,que publica as obras completas do autor.

PedroM. S.Alvos

ISBN9784&309-5001-9

www.fo re nseuniversita ria .com.br 9ii7'á'ã'b'b'ó'ii?'s'õ'õ"1'9


Edmund Husserl nasceu em Prossnitz,
na Morávia, anualRepública Checa, em 8 de
abril de 1859.EstudouAstronomiana Uni-
versidade de Leipzig entre 1876 e 1878. De
seguida,estudouMatemática,primeiro sobre
a direção de Kronecker e de C. Weierstrass,
em Berlim, entre 1878 e 1880, e depois na
Universidade de hiena, de 1880 a 1882. Ê
desteúltimo anoo seuprimeiro trabalhoaca-
dêmico: a dissertação"Beitrãge zur Theorie
der Variationsrechnung"("Contribuições
para ateoria do Cálculo de Variações").Terá,
em seguida, oportunidade de assistir a algu- MEDllAÇOES
maslições de FranzBrentano nos semestres CARTESIANASE A.

de verão de 1884-1885e 1885-1886,opor CONFERENCIAS


tunidade que havia de alterar radicalmen-
te a sua postura intelectual, levando-o da
DE IUmS
Matemáticaaté a Filosofia. Estuda em Halle
com Cai.l Stumpf entre 1886 e 1887. AÍ, na
Universidade de Halle, inicia sua atividade
docente como Pduzzfdozenf, entre 1887 e
1901. Muda-se em seguida para a Universi-
dade de Gotinga, como ízu@eror#e/zf/icbe/z
PTQÓessor,
nela permanecendo até 1915.

Respeiteu direito autoras

www.fo re n se u n iversita ria .co m . br


Edmum,dHusserl

MEDllAÇOES
CARTESIANASE A.

CONFERENCIAS
DE PÁmS
De acordo com o texto de Husserliana l

Editado por
Stephan Strasser

\ Editorial
Nacional Tradução de
Pedro M. S. Alves
O GEN l Grupo Editorial Nacional reúne as editoras Guanabara Koogan, Santos, Roca,
AC Farmacêutica, Forense, Método, LIC, E.P.U.e Forense Universitária, que publicam nas
áreas cientíâca, técnica e proâssional.
Diretor cientíâco
Essasempresas,respeitadas no mercado editorial, construíram catálogos inigualáveis, Pedra M. S. Alves
com obras que têm sido decisivasna formação acadêmicae no aperfeiçoamentode
várias geraçõesde proâssionais e de estudantesde Administração, Direito, Enferma-
gem, Engenharia, Fisioterapia, Medicina, Odontologia, Educação Física e muitas outras Aprovada pelos Arquivos-Husserl de Lovaina
ciências, tendo se tornado sinónimo de seriedade e respeito. Phainomenon Clássicos de Fenomenologia
Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
Nossamissão é prover o melhor conteúdo cientíâco e distribuí-lo de maneira flexível e
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Rio de Janeiro
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do art. 26 da Lei n. 8.078,de 11.09.1990)
SUMÁRIO
Tlanslation âom German languageedition: CarfesíaníscheJWedífatíonen
und Parísez"\brfràge
by Edmund Husserl and StephanStrasser
Copyright © 1991 Springer Netherlands
SpringerNetherlands is a part of Springer Science+BusinessMedia
Apresentação da Tradução Portuguesa.
lx
All Rights Reserved
ISBN: 978-94-010-5346-4

Traduzido de
Cal"tesianische
Meditationen und Pariser Vbrtrãge A AS CONFERÊNCIAS DE PARIS

Com basenum convênio com a Springer Vêrlag e o Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, detentor
dos direitos da tradução para língua portuguesa, a qual foi realizada no quadro do Projecto de Investigação
Tradução das Obras de Husserl" da FCT sob a direcção de Pedro M. S. Alves. B -- MEDITAÇÕES CARTESIANAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39

Uma Introdução na Fenomenologia 39


Meditações Cartesianas e Conferências de Pauis
ISBN 978-85-309-5001-9
Introdução............ 39
Direitos exclusivos da presente edição para o Brasil
S 1. As Meditações de Descartes como protótipo da re$exão .Rtosó$ca 39
CoP7rÜ/zí' © 2012 by
FORENSEUNIVERSI'leRIA um selo da EDITORA FORENSE l;rDA. $ 2.Necessidade
deumnovocomeço
radicaldaFilos{3$a.
. .. .. . 41
Uma editora integrante do GEN l Grupo Editorial Nacional
TravessadoOuvidor, ll 6' andar 20040 040 Rio de janeiro RJ 45
'lbls.; (0XX21) 3543 0770 Fax: (0XX21) 3543 0896 Primeira Meditação O Caminho para o E:goTranscendental ..
bilacpinto@grupogen.com.brl www.grupogen.com.br S 3. A subversão cartesiana e a ideia diretora de uma .füttdamentação absoluta da
Czêncza 45
O titular cqa obra seja ftaudulentamente reproduzida, divulgada ou de qualquer forma utilizada poderá
requerer a apreensão dos exemplares reproduzidos ou a suspensãoda divulgação, sem prejuízo da indeni- S 4. Desvendamentodo sentido final da Ciência por imersão vivencial nela, en
zação cabível (art. 102 da Lei n. 9.610, de 19.02.1998). gzzalzfo./ênómenorzoemáfíco 47
Quem vender, expuser à venda, ocultar, adquirir, distribuir, tiver em depósito ou utilizar obra ou monogra- $ 5. A evidênciae a Ideiade Clêfzcía
aufêfzfíca. . . . . . . . . . . 49
ma reproduzidos com âaude, com a finalidade de vendei obter ganho,vantagem,proveito, lucro direto ou
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precedentes,respondendo como contrafãtores o importador e o distribuidor em caso de reprodução no em si pnmetra 52
exterior (art. 104 da Lei n. 9.610/98).
$ 7. A evidência acercada existência do mundo não é apodítica; sua ittclusão tla
I'edição - 2013 subversãocarfesíana . . . . . . . . . - . ' ' ' - - ' ' ' - - - '. 54
S 8. O ego cogito como subjetividade transcendente! 56
Editado por: StephanStrasser
Tradutor: PedroM. S.Alves S 9. Alcance da evidência apadítica do "etl sou' 59
Diretor científico: Pedro M. S. Alves 61
S 10.Excurso.O@/dançodeDescarnes
zaviragemfranscerzde?zfaJ
. .. .. . .. .. .. .
CIP Brasil.Catalogaçãona fonte. $ 11. O eu psicológicoe o eu fransce?zde?praz.
A frarzscerzdêrzcía
do mundo 62
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RI.
H96m SegundaMeditação - Abertura do Campo de Experiência Transcendental segun-
Husserl,Edmund, 1859-1938 do as suas Estruturas Universais . . . . . . . . . . . . . . . 65
Meditações cartesianos e Conferências de Paras:de acordo com o texto de Husserliana 1/ Edmund 65
Husserl; editado por Stephan Strasser; tradução Pedro M. S. Alves. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Forense, S 12.Ideia de umafundamentaçãotranscendental
do conhecimento.
. .. .. .. .. . .
2013 S 13. Necessidadede secomeçar por excluir o problema do alcance do conhecimento
franscendenfa/ . . . . . . . . . . ' . ' ' . 67
il
Tradução de: Carfesíanísc/ze .ÀÍedifczfione/z und Paríser Vbrfrlqge $ 14. .A corrente das 'togífatlorzes". "Cogífo e cogífafum' 69
Apêndice 71
Glossário $ 15.R(gexão
nafuraJ
efranscerzderzfa/
. . .. . .. .. . .
ISBN 978-85-309-5001-9 $ 16. Excurso. Começo necessário com o éXOcogifo, falzfo na re/7exão . '>sícoZógíca
pura" comona transcendental
.. .. . .. .. . .. . . 75
1. Ciência - Filosofa. 2. Filosofa moderna. 1. Strasser; Stephan. 11.Título.
S 17. A dualidade da investigação da consciência enquanto problemática correlati-
13-02917. CDD:190 77
CDU:l va. Direçõesda descrição.Síntesecomo protoJbrma da consciência
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl
Sumário

$ 1.8. Ident©cação como uma .arma .fundamental da síntese. Síntese universal do


S 43. O modo õntico- tioemático de doação do outro comovo condutor transcenderi
tempo transcendental 79
tal para a teoria constitutiva da experiência alheia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129
S \9. Atualidadee potencialidadeda vida intencional. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
$ 44. Redução da experiência transcendental à esfera de propriedade . . 131
S 20.O f@opecu/íarda a?zá/ise ItzfencfonaJ... . .. .. .. .. .. .. . .. .. .. .. .. . .. .. . 84
88 S45. O egotranscendental e a atitoapercepçãoenquanto eu psic(físico reduzido à
S 21. O objeto intencional como "Jio condutor transcendental" . 137
esferade propriedade.
$ 22. Ideia da unidade universal de todos os objetose a tango do seu esclarecimento
corzsf'fz/f'to......ep +BBo+B ç#eBpaa#Rap+ 91
S 46. A propriedade como espia das atualidades e potencialidades da corrente de
co?zscze?'zela
. .. .. ' ' .. . .. .. .. 138

'lêrceira Meditação - A Problemática Constitutiva. Verdade e Efêtividade 93 S47. O objeto intencional pertence também à plena cortcreçãomottádica da esfera
de propriedade. Transcendênciaimanente e mundo primordial 141
$ 23. O conceitopleno de constituição transcendentalsob os títulos de "razão" e de
irracional: S 48. A transcendência do mundo objetivo como tema transcendência de grau mais
93
elevado que a transcendêttciaprimordial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143
$24.Evfdêlzcfa
comoazzfodoação
es asvariações
. .. .. . .. .. .. .. .. .. . .. .. .. . . 94
95 $ 49. Pré-delineamento do percurso de explicitação intencional da experiência do
S 25. E@tividade e quase-e$tividade 144
alheia.. . . ....
$26.EÊtívídade
comocorre/afo
da cola/irmaçõo
evídelzfe.
. .. .. .. .. .. . ... . .. .. 96
S 50. A intencionalidade mediada da experiência do alheio como "apresentação:
S 27. Evidência habitual e potencial como .Mncionando constitutivamettte para o 146
97 (apercepção
analógica)
sentido"objetoqueé
S 51. "Emparethamerlto" como componente associativamente constittlinte da expe
S28. Evidência presuntiva da experiêrlciado mundo. O mundo como ideia correla- ciência do alheio 150
tiva de uma pel#ita evidência de experiência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98
S 52. Apresentaçãoenquanto tipo de experiência com o seu estilo próprio de corÚr-
S 29. As regiões ontológico-Jlormais e ontológico-materiais en quanto índices dos sis 152
maçao
temas transcendentaisde evidências. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100
$ 53. As potencialidades da esferaprimordial e a sua Jilnção constitutiva na aper-
cepçãodo outro 154
Quarta Meditação - Desenvolvimento dos ProblemasConstitutivos do Próprio 156
EaOTra n scendent,] 103 S 54. Explicação do sentido da apreserltaçãoem que selbz experiência do alheio
103
$ 55. Comunalização das manadas e primeira .forma da objetividade: a Natureza
S 30. O ego transcettdental, inseparável das suas vivências
rzfersiié efzl(z......pe «Ta+aeaBRaRnBoa--P TaPnaBnaaaBeBP 158
$ 31. O eu comopolo ídénfico das t,ívêrzcías 104
$ 56.Constituição
dosníveissuperiores
dacomunidade
intermonadológica
. .. .. . 166
S32. O eu enquanto stlbstrato de habitualidades 104
S 57. Esclarecimentodo paralelismo entre explicitação psíquica interna e explicita-
S 33. A plena concreçãodo eu enquanto mârlada e o problema da sua autoconsti 169
função 106 çãoecológicatranscendental
S 58. Articulação dos problemas ria analítica itttenciona! das comunidades ittter-
S 34. Desenvolvimento principiar do método .fenomenológico.A análise transcen- 170
dental como análise eidética. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107 subjetivas superiores. Eu e mundo circundante
lll S 59. A explicação ontológica e o seu lugar no conjunto da Fenomenologia Trens
$ 35.Excurso
pe/aPsíco/ogfa
fnfer?za
eídéfíca
. . .. .. - ' '. ' .. - - ' . .. . ce?z(íe/ífízZcoflsffz4tzl(z+. ... p.+PP P+##8.«#B -«PP- - .. .. 8 174
S 36. O ego transcendente! como universo de armas possíveisde vivência. Regu- 177
S 60. Resultadosmetafísicosda nossaexplicitação da experiênciado que éalheio. . .
[ação essencial]ega] da compossibi]idade das vivências rla coexistência e na
SZ4(,oSS(Zo©.ee e©ee e e Bee. 112 $ 61-. Os problemas tradicionais da "origem psicológica" e o seu esclarecimento$no-
r7zerzo/ rg'co . . . . . . . . . . B p p ' ' ' - - ' ' ' ' - ' - - ' . - ! ' ' ' ' - - + ' ' -''. 180
S 37. O tempo comolforma universal de toda e qualqtler géneseecológica. 113
$ 62. Caracterização sinótica da explicitação intencional da experiência alheia. . . 186
$ 38. GêFzeseafíva epasslva . 115
S 39. Associação como princípio da gênesepassiva 118
Conclusão 189
$ 40.Passagem
paraa questão
doIdealismo
transcendental
. .. .. . .. . .. .. .. .. . . 120
189
S 63. Tarei de uma crítica da experiência e do conhecimento transcendentais
S 41. A autêntica autoexpticitação .Pnomenotógicado egocopito como "Idealismo 190
transcendente! 121
$64.EPÍ/ogo.
. ... . .

Quinta Meditação - Desvendamentoda Esíêrade SerTranscendentalcomo In-


C-SINOPSEDEHUSSERLNOTEXTOPRIMITIVO..................... 197
tersubjetividade Monadológica. .. . .. .. . ... . .. .. .. .. . ... . .. .. . .. .. .. . . 127
Lição l As Meditações Cartesianas e a sua Transe)rmação Crítica para o Desco
$ 42. Exposição do problema da experiência alheia em contraposiçãoà objeçãodo
127 brimento Meditativo do llko Transcendental . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 197
So/ ssP?zo......+ BHnBna ssBeBeBseBeeeRBB+R8++'PaH eBB BO PBnnçP
LiÇão11......''''--...'''''''-''-'-'''''-'--'-''''''''. ..'...'.''''. 199

VI
vll
Meditações Cartesíanas e Conferências de Paris. Edmund Husser

Lições 111e IV 201

Apêndice Observaçõesdo Professor Dr. Roman Ingarden Cracóvia 205

Glossário
APRESEN'loÇÃO DA TRADUÇÃO PORTUGUESA
221

A presente obra é a tradução do primeiro volume da coleçãoHus-


serliana, preparado por StephanStrassere publicado em 1950. Tàl como
o volume da Husserliana, integra os seguintestextos:
Conferênciasde Paria;
Meditações Cartesianas;
Sinopsede Husserl no texto primitivo.
E um Apêndice com objeções e comentários de Roman Ingarden
àsMeditações CarfesÍanas, tal como tinham aparecido em tradução para
a língua francesa.
Sendo embora quatro textos de um mesmo conjunto, cada um
deles tem uma história diürente. Desde logo, o texto que inicia o vo-
lume teve uma origem acidental. Na qualidade de membro-correspon
dente da Academia Francesa,Husserl foi convidado pelo Instituto de
Estudos Germanísticos e pela Sociedade Francesade Filosofa para
proferir uma conferência na Sorbonne, Paras,no Anfiteatro Descartes.
Husserl trabalhou na preparação da sua intervenção a partir de 25 de
janeiro de 1929, tendo resultado daí o texto que daria a basepara a sua
apresentação (aqui traduzido szzbA). Esta apresentação realizou-se em
duas conferências, nos dias 23 e 25 de íêvereiro de 1929, sob o título
comum de "Ein/eífung ín díe franszendenfaZe P;zãnomenoZogíe" ("lntro
dução à Fenomenologia Transcendental"). Para elas, Husserl preparou
também uma Sinopse (que se traduz nesta obra sub C), da qual foi feita,
na ocasião, uma tradução para língua ú'ancesa.Xavier Léon, ao tempo
diretor da Sociedade Francesade Filosofia, apresentou Husserl à audi-
ência, tendo esteúltimo íéito, nas suas duas coníérências e sempre em
língua alemã, uma exposiçãode conjunto sobre o método da redução,
sobre a conexão da Fenomenologia Transcendental com a obra de Des-
cartes e sobre alguns temas da problemática fenomenológica, como as

Vlll
Meditações Cartesianase Conferênciasde Paras. Edmund Husser
Apresentação da Tradução Portuguesa

importantes questões da apoditicidade, da experiência transcendental,


dre Koyré, outro antigo aluno de Husserl, reviu a tradução. Eis assim as
da teoria da constituição e outros temas afins. Cada conferência teve /Wédífczfionscarfésíennes, saídas em Paras,no ano de 1931, na casa editora
a duração de duas horas. Husserl, segundo sua esposa, Malvine, em Armand Collin, posteriormente reeditadas pela Librairie Philosophique
carta a Roman Ingarden de 24.03.1929,falou de um modo "completa- J. Vrin, em 1947, e sucessivamente reimpressas desde essa data. Pouco
mente livre e na melhor das disposições't Ainda segundo essacarta, a depois desta edição em língua francesa, Husserl recebeu de seu antigo
estada em Paris durou 15 dias, tendo sido o casal Husserl "motivo de
aluno, o âlósoh polaco Roman Ingarden, um conjunto de observações
grandes recepções e convites': inclusive convidado para um jantar na e de anotaçõescríticas a que deu o maior significado. São essasobserva
Embaixada da Alemanha na véspera da sua partida.
ções que se publicam em apêndice.
No regressoa Friburgo, Husserl parou quatro dias em Estrasburgo, Husserl não estava,porém, plenamente satisíêito com o texto que
a âm de proferir mais duas coníêrências na "Casa Vermelha': a convite
enviara a JeanHéring, apesar de ter anunciado a sua publicação, no
de Jean Héring, professor da Faculdade Protestante de Teologia e seu an- /ahrbuch,para o verão do ano de 1929.Uma série de anotações,cor-
tigo aluno. AÍ, Husserl falou para uma audiência de cerca de 60 pessoas reções e novos desenvolvimentos vieram juntar-se ao manuscrito. Em
interessadasna sua obra. Segundo Malvine, na mesma carta a Ingarden, 1930,em uma das suasvárias cartas a Ingarden, Husserl confessanão
as duas faculdades de Teologia (protestante e católica) estavam maciça- poder protrair mais a pub]icação do texto das ]Wedífaçõescartesíanas,
mente representadas.As conferências seguiram o mesmo plano das de que, nas suas próprias palavras, seria a "obra capital" (Hazzpfwerk) da
Paras,tendo Husserl, em Estrasburgo,dado um desenvolvimentomais
suavida. Apesardessaresoluçãofirme, a obra não saiu e a situação
aprofundado ao tema da intersubjetividade, o qual tinha sido tocado ape- política da Alemanha, depois de 1932, tornou altamente problemático
nas ao de leve em Paris. As conferências foram seguidasde prolongadas e qualquer projeto de edição. Acresce que, nesseano de 1932, Husserl
intensas discussões, que se "estendiam até a meia-noite': ainda segundo a pediu a colaboraçãode EugenFink para a preparaçãodo manuscri-
descrição de Malvine Husserl.
to final. Fink apresentouuma primeira meditação inteiramentenova
Sob o evito das excelentes recepções de Paris e Estrasburgo e das (com 62 páginas datilografãdas), uma série de novos parágrafos para
discussõeshavidas, Husserl entregou-se, uma vez chegado a Friburgo, ao a segunda meditação (32 páginas) e acréscimos para a terceira (14 pá-
trabalho de reformulação e ampliação do manuscrito. A ideia era trans-
ginas), a quarta (15 páginas) e a quinta (35 páginas) meditações. Para
formar a sua "Introdução à Fenomenologia Transcendental" numa larga lá disso, Fink redigiu toda uma nova meditação, a sexta, sobre a ideia
reflexão de conjunto sobre a problemática e o método da Fenomenologia. de uma doutrina do método, a qual foi lida e anotada por Husserl. Es-
Aproveitando a ocasiãoque Ihe dera origem - o convite para falar em cusado será dizer que esta entrada de Fink tornou ainda mais distante
Paris e a centralidade da referência a Descartesnas coníêrências, o seu o momento da publicação.'lodo o texto entrou, de fato, em processo
título seria precisamente "Meditações Cartesianas': Husserl trabalhou
de reelaboração. Da prolixidade de Fink, bem como da sua incoercível
nesteprojeto por dois períodos. Primeiro, entre 15 de março e 6 de abril; tendência para o devaneio especulativo, nada de verdadeiramente sóli-
depois, entre 15 de abril e 16 de maio. Quando se ausentou de novo de do e útil resultou. Desse modo, íbi de novo o manuscrito de 1929, com
Friburgo, em 17 de maio de 1929, deixou a Eugen Fink um manuscrito as variantes das correções de próprio Husserl, que a coleção Husser-
que este reviu e enviou a Jean Héring (aqui publicado sub B). Subsequen- liana publicou em 1950,como primeiro volume da série das Obras de
temente, o manuscrito das cinco meditações foi entregue a Gabrielle Pei- Edmund Husserl, numa cuidada edição de Stephan Strasser.
fhr e Emmanuel Levinas, para que o traduzissem para o francês. Alexan

X
XI
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris. Edmund Husserl

Como é visível pelo que foi exposto, a tradução âancesa foi, até
r wA
1950, a única versão publicamente conhecida desta obra de Husserl. No
ASCONFERÊNCIASDEPARIS
entanto, algumas deficiências terminológicas e de fidelidade ao texto ori-
ginal impendiam sobre ela. Elas emprestavam ao trabalho de Peifhr e Le.
vinas o caráter de uma obra perfêctível e, portanto, provisória. Uma nova
<Hua 1, 3> Por razões particulares, enche-me de alegria poder falar da
tradução de Marc de Launay (Médifafions carfésíennes ef co?!/êrerzcesde
nova Fenomenologia neste lugar venerabilíssimo da ciência francesa. Porque
Paras.Paris: PUR 1994) veio suprir as insuficiências no que diz respeito
nenhum 61ósofodo passado atuou de uma forma tão decisiva sobre o sentido
à língua âancesa. Entretanto, havia saído uma excelentetradução para o
da Fenomenologia quanto o maior pensador da França, René Descartes. Ela
inglês, por Dorion Cairns (Carfesían medlfafíons. The pague: Martinus
NijhoR 1960), bem como para o castelhano, primeiro por José Gaos, das devevenera-lo como o seupatriarca em sentido próprio. Foi de um modo
quatro primeiras meditações, e depois por Mano Presas (Medífàcío?zes muito direto, seja dito expressamente, que o estudo das meditações cartesia-
carfesianas. Madrid: Editorial Têcnos, 1986). nas interveio na nova forma da Fenomenologiaem desenvolvimentoe Ihe
Em língua portuguesa, havia até o presentemomento duas tradu- deu a forma de sentido que agora tem, que quase nos permite denomina-la
como um novo Cartesianismo,um Cartesianismodo séculoXX.
ções das Med/cações Carfesíanízs e uma tradução das Co?!/krências de Pa-
ras.Estaúltima, por António Fidalgo, constitui um trabalho competente Devido a essasituação, poderei estar de antemão plenamente seguro

e fidedigno. Ao contrário, ambas as traduções das À4edifaçõessão feitas, do vosso interesse se começar com aqueles motivos das Medífafíones deprí-

infelizmente, a partir do texto francês de Levinas-Peifhr, e não do origi- ma phíZos(p/zía,que têm, como creio, um significado eterno, e se prosseguir
nal alemão,circunstância que, tornando-as tributárias das incorreções caracterizando as transíbrmações e reformulações por via das quais surgiu
nele existentes, as torna pouco úteis para quem desejar entrar seriamente o que há de peculiar no método e na problemática fenomenológica.
na compreensão do texto de Husserl. Qualquer principiante de Filosofia conhece o notável curso de pen-
Foi precisamentepara obviar a estasituaçãoque se empreendeu samento das Meditações. A sua meta é, como nos recordamos, uma com-
uma nova tradução de Ás medífações carfesíanas, juntamente com os tex- pleta reforma da Filosofia, incluindo aí a de todas as ciências. Porque estas
tos correlacionados, constantesdo volume l da coleçãoHusserliana. são apenasmembros dependentes da Ciência Universal una, a Filosofia.
Finaliza este volume das Obras de Edmund Husserl um glossário Somente na sua unidade sistemática poderão elas chegar à racionalidade
Alemão-Português, registrando as principais opções de tradução. autêntica a qual lhes falta ainda, atendendo ao modo como até agora se
desenvolveram. Carecemos, por isso, de uma reconstrução radical que dê
Pedro M. S. Alves safes/tiçãoà ideia de Filosofia, enquanto unidade universal dízs ciências na
unidade de uma .@ndamentação aliso/ufamenfe racÍona/. Esta exigência
de reconstruçãoexerce-se,em Descartes,numa íilosoíia virada para o
sujeito. Esta viragem subjetiva consuma-se em dois níveis.
<4> Primeiro: todo aquele que queira seriamente tornar-se filóso-
fo deve, uma vez na vida, recolher-se em si próprio e procurar, dentro
de si próprio, destruir todas as ciências já dadas e de novo construí-las.

Xll
As Conferênciasde Paras
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris. Edmund Husserl

Filosofia é assuntototalmente pessoaldo filósofo. 'nata-se da suasapíen- Em todo caso, dá que pensar que as ciências positivas, que deve
fía universo/ís, isto é, trata-se do sezzsaber esforçando-se pelo universal - riam obter uma fundamentação racional absoluta atravésdestasmedita-
mas de um saber autenticamente científico, como seu sabei por si próprio ções,se tenham, porém, interessadotão pouco por elas.Certamente que,
adquirido e que continuadamente se esforça pela universalidade, como no nosso tempo, depois de um brilhante desenvolvimento de três sécu-
um saberpelo qual, desdeo início, ele pode responder absolutamente,em los, elas se sentem muito entravadas no seu progresso por obscuridades
cada um dos seus passos, a partir dos seus fundamentos absolutamente nos seusfundamentos. Mas, quando tentam proceder à reformulação dos
evidentes. SÓposso me tornar um autêntico filósofo através da minha li- seusconceitos fundamentais, a nenhuma delas ocorre retornar às medi-
vre decisãode querer viver ao encontro destameta. Se a tal me decidi, se tações cartesianos.
Por outro lado, deve-sedar bastanteimportância a que as medi-
escolhi, então, com isso, o começo na absoluta indigência e a destruição,
terei manifestamente como primeira questão refletir sobre como poderei tações tenham feito época, na Filosofia, num sentido completamente
encontrar um começo absolutamente seguro e sobre o método de pro- único, a saber, precisamente por via do seu regresso ao ego cogifo puro
gressão,aí onde me falta todo e qualquer apoio de uma ciência já dada Descartes inaugurou, de fato, uma íilosoíia de um tipo completamente
previamente. As meditações cartesianas não pretendem ser, portanto, um novo. Esta Filosofia assume, alterando o seu estilo de conjunto, uma vira-

assuntomeramenteprivado do filósofo Descartes,mas anteso protótipo gem radical do objetivismo ingênuo para um suQefívlsmo transcendental,
das meditações necessárias a todo e qualquer filósofo incipiente em geral. que, em tentativas sempre novas e, contudo, sempre insuficientes, parece
Senos voltarmos para o conteúdo das Meditações- tão estranho esforçar-se por atingir uma forma final necessária. Não deverá, então,
para nós, hoje em dia - bem depressase consumara,com isso, um re esta continuada tendência trazer consigo um sentido eterno, ser para nós
grosso ao qgo./i/os(2/hnfe num segundo e mais profundo sentido. Trata-se uma magna tarefa, que nos é imposta pela própria história e que convoca
do bem conhecido regresso,que fêz época,ao egodas c(Kífafionespuras. a colaboração de todos nós?
Trata-sedo qo que se encontra como o único ente apoditicamente certo, A decomposição da Filosofia atual, na sua atividade desorientada,
enquanto o ser do mundo, não podendo ser asseguradocontra possíveis dá-nos que pensar.Não teremos de remetê-la para a circunstância de as
dúvidas, é posto fora de validade. forças impulsionadoras, que irradiam das meditações de Descartes, terem

Esseego realiza agora, de início, um filosofar seriamente solipsista. perdido a sua originária vivacidade? Não será isto o único renascimento
Ele procura caminhos apoditicamente certos através dos quais, da sua frutuoso, o que desperta de novo estas meditações, não para adotá-las no
interioridade pura, se deixe abrir uma exterioridade objetiva. Com Des- seu conteúdo, mas para pâr por vez primeira a descoberto o sentido mais
cartes, isto sucede naquela forma bem conhecida em que, desde logo, são profundo do seu radicalismo no retorno ao ego cogfto e, numa consequ

postas a descoberto a existência de Deus e a veracifase, de seguida, por ência mais lata, os valores eternos daí provenientes?

meio delas, a natureza objetiva, o dualismo das substâncias,numa pala- Em todo caso, com isso fica apontado o caminho que conduziu à
vra, o domínio objetivo das ciências positivas e as ciências positivas elas Fenomenologia Transcendental.
próprias. Todos os meios de inferência sucedemtendo como íio condutor Pretendemos, agora, fazer em conjunto estecaminho, pretendemos
princípios que são imanentes, que são inatos ao qgo puro. meditar cartesianamente, enquanto âlósofos que começam radicalmente,
Até aqui, Descartes. Perguntamos agora: valerá mesmo a pena ave- naturalmentenuma permanente rebrmulação crítica das antigasmedi-
riguar criticamente se haverá um significado eterno nestespensamentos? tações cartesianas. O que era nelas esboço embrionário deve ser levado a
um livre desenvolvimento.
<5> Serão eles apropriados para infundir forças vivas ao nosso tempo?

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris. Edmund Husserl As Conferênciasde Paras

Começamos então, cada um por si e em si, com a decisão <6> de pâr uma crítica demasiado ligeira da experiência sensível, a concebibilidade
fora de validade todas as ciências que nos sãojá dadas de antemão.Não do não ser do mundo, apesar de ele ser constantemente experienciado.
abandonamos a meta diretora cartesiana de uma fundamentação absoluta Retemos apenas que, para a finalidade de uma fundamentação radical da
das ciências, mas, de início, nem a sua possibilidade deve ser pressuposta ciência, a evidência da experiência do mundo carece,primeiro, de uma
a título de preconceito. Contentemo-nos em mergulhar no agir das ciên- crítica da sua validade e do seu alcance, e que, portanto, não podemos
cias, para com isso extrair o seu ideal de cientiíicídade, aquilo para que toma-la como sendo inquestionável e imediatamente apodítica. Para isso,
elas, para que a ciência tende. De acordo com o seu modo de ver, não não bastapâr fora de validade todas as ciências que nos são previamen
pode valer como efétivamente científico aquilo que não é fundamentado te dadas,trata-las como se fossem preconceitos; também ao seu terreno
por uma períêita evidência, ou seja, que não se possacomprovar através universal, o do mundo da experiência, deveremos nós retirar a validade
do regressoàs próprias coisasou estados-de-coisas na experiência e visão ingênua. O ser do mundo não poderá mais ser, para nós, um fato óbvio,
l/zfe/ecfívaor@ínárías.Assim guiados, tomemos como princípio, nós, fi- mas apenas um problema de va/idade.
lósofos incipientes, só julgar na evidência e examinar criticamente a pró- Será que, agora, nos resta ainda um terreno de ser, ainda um terre-
pria evidência, também isto, obviamente, de novo na evidência. Dado que no para quaisquer juízos, evidências, para sobre ele - e apoditicamente
retiramos, desde o início, validade às ciências, encontramo-nos na vida poder fundamentar uma FilosofiaUniversal?Não seráo mundo o título
pré-científica, na qual não faltam asevidências, tanto imediatas como me- para o universo do que é em geral? Será que ele, ao íim e ao cabo, não é
diatas. É disto, e de nada diferente disto, que dispomos de início. o terreno absolutamente em si primeiro dos juízos, mas que, com a sua
Daí surge-nos a primeira pergunta: não podemos apresentar evidên- existência, estará já pressuposto um terreno de ser em si anterior?
cias imediatas e apodíticas, e, de certo, evidências em si primeiras, ou seja, Fazemos aqui, neste momento, seguindo Descartes, a grande reversão
tais que devam necessariamente preceder todas as outras evidências? que, consumada da maneira correta, conduz à suyefívídade franscendenfa/:
Seprosseguirmos meditando nessapergunta, a evidência da exis- a volta para o ego cogífo como fe7"re?zozí/rima e apoditicamente certo de.jzzí-
tência do mundo parece apresentar-se-nos,desdelogo, como sendo de zos, no qual toda e qualquer Filosofia radical deve ser fundamentada.
fato em si a primeira de todas e como sendo apodítica. 'lidas as ciências Reflitamos: enquanto filósofos que meditam radicalmente, não te
se reíérem ao mundo e, antes delas, já a própria vida ativa. .Antesde tudo mos, agora, nem uma ciência que seja válida para nós, nem um mundo
o mais, o ser do mundo é por sí mesmoóbvio tanto que ninguém pen que exista para nós. Em vez de ser pura e simplesmente, ou seja, em vez
sará em enuncia-lo expressamentepor uma proposição. 'lemos, aânal, de valer para nós de modo natural na crença de ser da experiência, o
a experiênciacontinuada do mundo, pela qual estemundo está inces- mundo é, para nós, apenas uma simples pretensão de ser. Isto diz tam-
santemente diante dos nossos olhos como sendo inquestionavelmente. bém respeito a todos os outros eu, de tal modo que nós não deveríamos
Mas será estaevidência de experiência eíêtivamente apodítica, apesardo mais falar propriamente no plural comunicativo. Os outros homens e os
seu caráter óbvio, e será efêtivamente ela a evidência em si primeira, que animais só são para mim dados em virtude da experiência sensível,ex-
precede todas as outras? Devemos negar ambas as coisas. Não se reve- periência de cuja validade, enquanto algo que estáposto em questão,não
lam muitas coisas,tomadas singularmente, como sendo uma ilusão dos me poderei servir. Juntamentecom os outros, perco eu, naturalmente,
sentidos?Não sucedeque a própria conexão da experiência no seu todo, também as formações da sociabilidade e da cultura no seu todo, numa
unitariamente considerada, é desvalorizada como simples sonho? Não palavra, o mundo no seu todo será doravante, para mim, em vez de algo
queremos assumir a tentativa de Descartes de provar, por meio de <7> que é, apenas fênâmeno de ser. Mas, seja qual hr o desenlace da preten-

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paras' Edmund Husserl As Conferênciasde Paras

são à realidade por parte deste fénõmeno se ser, se aparência -, ele, en- enquanto consciência do mundo, então aproprio-me de mim próprio, en-
quanto <8> meu knâmeno, não é, porém, nada, mas antes precisamente quanto qo puro, com a corrente pura das suas coglfafiones.
aquilo que torna, em geral, para mim possível ser e aparência. E mais: se Eu não me ganho a mim próprio, digamos, como um pedaço do
me abstenho, como em liberdade o posso fazer e de fato o faço, de toda mundo, dado que pus universalmenteo mundo fora de validade, não
e qualquer crença de experiência, de tal maneira que o ser do mundo como <9> o eu singularizado, mas antes precisamente como o eu em cuja
da experiência permaneça, para mim, fora de validade, esteabster-me é vida de consciência o mundo no seu todo e eu próprio enquanto objeto
ainda, todavia, aquilo que é, e ele é juntamente com a corrente inteira da mundano, como homem que é no mundo, recebem por vez primeira o
minha vida de experiência, com todos os seusfenómenos singulares, as seu ser e a sua validade de ser.
coisas,os meus semelhantes,os objetos culturais aparecentesetc. Tudo Ficamos, aqui, num ponto perigoso. Seguindo Descartes, parece
permanece como era antes, só que, simplesmente, não o tomo já como bem fácil captar o eu puro e as suas coglfafíones. No entanto, é como se
existente, mas me abstenho de todas as tomadas de posição acerca do tivéssemoschegado,aqui, a um cume íngreme, em que prosseguir lenta-
ser e da aparência. Também me devo abster de todas as minhas outras mente e de modo seguro decidisse da vida ou da morte filosófica. Descar-
opiniões, juízos, tomadas de posição valorativas referidas ao mundo, na tes tinha uma vontade seriíssima de uma ausênciaradical de preconcei-
medida em que pressupõem o ser do mundo; e estaabstençãonão signi- tos. Sabemos,porém, através de novas investigações,e particularmente
fica a sua desaparição enquanto simples íênõmenos. dasbelase profundas investigaçõesde Gilson e de Koyré,: o quanto há de
Por conseguinte, essainibição universal de todas as tomadas de po Escolástica escondida, como um preconceito não esclarecido, nas À4edi-
sição perante o mundo objetivo, que designamos por Croché.Pnomeno- façõesde Descartes. Mas isto não é tudo; desde logo, devemos afastar de
róglca,torna-se justamente um meio metodológico por meio do qual eu nós os preconceitos, para nós próprios quase imperceptíveis, nascidos da
me capto puramente como aquele eu e aquela vida de consciência na qual orientação para a Ciência matemática da Natureza, segundo os quais, sob
e atravésda qual o mundo objetivo no seu conjunto é e é tal como preci- o título egoc(Tifo, se trataria de um axioma apodítico que, em união com
samentepara mim é. Todo e qualquer ser mundano, espaço-temporal, é outros axiomas (a derivar dele), tivessede dar um fundamento para uma
para mim porquanto o experiencio, percepciono, dele me recordo, nele ciência dedutiva do mundo, para uma ciência ordenegeomefrico. Em cone-
penso de algum modo, o ajuízo, valoro, desejo etc. Como é bem sabi- xão com isto, não pode de modo nenhum admitir-se como algo óbvio que
do, Descartes designou tudo isto pela palavra cogífafío. O mundo não é nós, no nosso %o puro e apodítico, tenhamos salvado um pedacinho do
para mim, em geral, outra coisa senão um ser que, num tal cogífo, está mundo, como se fosse a única coisa inquestionável para o eu que íilosofã
consciente e vale para mim. EZerefira em exc/zzsíl,ode paíscogifafíones e como se setratasse, agora, através de cadeias dedutivas bem conduzidas
rodo o sezlsenfído, bem como a va/idade de ser Nelas decorre a minha a partir dos princípios inatos ao ego, de inferir o restante do mundo.
vida mundana no seu todo. Eu não posso emergir vivencialmente, expe- Infelizmente, é isso que se passaem Descartes com a viragem, sin-
riencialmente, pelo pensamento, não posso imergir valorativamente ou gela mas fatal, que fãz do ego uma szzbsfanfía cog/tens, um anímus humano
ativamente em nenhum outro mundo senão naquele que tem em mim
próprio e a partir de mim próprio o seu sentido e validade. Seme coloco l N.L : Husserl refere-se certamente às seguintes obras: Éüenne Gilson, Études sur
por sobre esta inteira vida e me abstenho de toda e qualquer consumação le rale de ia pensée médiévale dons la formaüon du systême cartésien. Par\s: Vr\íx,
1.930,e A\exandreKoyré,Estai sur I'idée de Doeuet les preuvesde son existence
de uma qualquer crençade ser, que toma diretamente o mundo enquanto
chez l)escartes. Paras:Leroux, 1922. Alexandre Koyré tinha sido aluno do próprio
existente - se dirijo exclusivamente o meu olhar para estaprópria vida, Husserlno final da primeira décadado século XX,em Goünga.

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Meditações Cartesianase Conferênciasde Paras' Edmund Husser As Conferênciasde Paris

separado, e um ponto de partida para inferências segundo o princípio cau- aquele eu puro, com a vida pura e as faculdades puras (por exemplo, com
sal, numa palavra, a viragem pela qual ele setornou pai do contrassenso do a faculdade evidente de me abster de julgar) através das quais o serpara
Realismo Transcendental. Ficaremos bem afastados de tudo isto seperma mfm deste mundo, e de qualquer ser-assim, têm, em geral, sentido e pos-
necermos fiéis ao radicalismo da reflexão e, com isso, ao princípio da pura sível validade. Se o mundo, cujo eventual não ser não suprime o meu ser
intuição, por conseguinte, se não conférirmos aqui validade senão àquilo puro, antes o pressupõe, se diz franscendenfe,então este meu puro ser,
que nos foi desdelogo e imediatamente dado no campo do ego c(Tifo - ou o meu eu puro, diz-se franscendenfa/.Por meio da epoc/zéfênomeno
que nos foi aberto pela Croché - e se não dizermos asserções sobre aquilo lógica, <ll> reduz-se o eu natural humano, e certamente o meu eu, ao
que nós próprios não vemos. Descartes errou a este respeito, e é assim que meu eu transcendental, e assim se torna compreensível o discurso sobre
ele se quedou diante da maior <lO> de todas as descobertas- e a reali- a redução fenomenológica.
zou mesmo, de certo modo sem, contudo, captar o seusentido próprio, Todavia, são aqui precisos passos ulteriores, pelos quais possamos,
portanto, o sentido da subjetividade transcendental; assim, não transpôs a por vez primeira, obter os corretos benefícios do que bi até aqui exposto.
porta de entrada que conduz à autêntica Filosofia Transcendental. Que se pode iniciar 61osoficamente com o qo transcendental? Certamente
A livre Crochéa respeitodo serdo mundo aparecentee, em geral, que, do ponto de vista do conhecimento, o seu ser precede- para mim,
do mundo válido para mim como ehtivo - como efêtivo na precedente aquele que 61osofia - todo e qualquer ser objetivo. Em certo sentido, ele
atitude natural mostra estefato, de todos o maior e mais significativo, a é o fundamento e o terreno onde se desenrola o conhecimento objetivo
saber, que eu e a minha vida permanecemos intocados na nossa validade no seu todo, tanto o correto como o incorreto. Mas pode esta precedên
de ser, quer o mundo seja, quer não seja,sejao que for que se possadeci- cia querer dizer que ele é, no sentido comum, o fundamento gnosiológico
dir sobre isso. Se, na vida natural, digo "eu sou, eu penso, eu vivo': então para esteconhecimento objetivo? Estamos muito perto dessaideia e dessa
isto signiâca: eu, esta pessoa humana entre outros homens no mundo, tentação; ela é justamente a de toda a teoria realista. Mas a tentação de ir
que está, através do seu soma corpóreo, na conexão real da Natureza, na procurar na subjetividade transcendental premissas para a posição de exis
qual, agora, também as suas cogífafio?zes,as suas percepções, recordações, tência do mundo subjetivo desvanece-seassim que pensamos que todas as
juízos etc., estão inseridas enquanto fatos psicológicos. Assim captado, eu conclusões que tiramos, puramente captadas, transcorrem elas próprias na
e nós, homens e animais, somos tema das ciências objetivas, da Biologia, subjetividade transcendental, e que todas as conârmações que se referem
da Antropologia, da Zoologia e também da Psicologia.A vida anímica, de ao mundo têm o seupadrão no próprio mundo, tal qual se dá e conârma
que fala toda a Psicologia, é entendida como vida anímica no mundo. A na experiência.Não que tenhamos por falsa a grande ideia cartesianade
Croché fenomenológica, porém, que exige de mim, daquele que íilosofà, o procurar na subjetividade transcendental a ftlndamentação mais profunda
percurso pelas meditações cartesianaspurificadas, exclui do meu campo de todas as ciências, e mesmo do ser do mundo objetivo. Nessecaso, não
judicativo tanto a validade de ser do mundo objetivo em geral como tam- teríamos seguido os caminhos da sua meditação, mesmo que sob críticas.
bém as ciências mundanas, mesmo já como fatos do mundo. Para mim, Mas talvez que se abra, com a descoberta cartesiana do qo, também uma
não há, portanto, nenhum eu e nenhunsalaspsíquicos,ttenhuns$nâmenos nova ideia de .Mndamentação,a sabema.Mndamentação transcendental.
psíquicos no senado da Psicologia,para mim também não há, portanto, De fato, em vez de utilizar o egoc(Tifo como uma simples proposi
algo como eu próprio enquanto homem, não há algo como as minhas ção apodítica e como uma premissa absolutamente fundante, deveremos
próprias cogífafíonesenquanto componentes de um mundo psicofísico. atentar em que a @oc/zéíbnomenológica nos liberou (ou a mim, aquele
Mas, em contrapartida, ganhei-me, e ganhei-me agora unicamente como que âlosofà), juntamente com o eu sou seguramenteapodítico, uma esfê.

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As Conferênciasde Paris
EdmundHusser
Meditações Cartesianas e Conferências de Paras

todos os pontos de vista, o seu ser transcendental na sua vida temporal


ra infinita de ser de tipo novo, e certamente enquanto esíêra de uma ex-
transcendental e nas suas faculdades. Trata-se maniíêstamente aqui de
periência de tipo novo, de uma e=rperíêncíafranscerzdenfaJ.
Precisamente
um paralelismo com o que o psicólogo, na sua mundanidade, designa
por isso, também liberou a possibilidade de um conhecimento de experi-
como experiência interior ou autoexperiência.
ência transcendental, portanto, de uma ciência transcendental.
É, portanto, de grande, de decisiva importância observar <13> que
Abre-se aqui um muito notável horizonte de conhecimento. <12>
não se pode passar por isto ligeiramente coisa que já Descartes ocasio-
A Crochéíênomenológica reduz-me ao meu eu puro transcendental e,
nalmente observou -, que a Croché a respeito do mundano nada altera
pelo menos de início, eu sou, por conseguinte, num certo sentido, um
nele, que a experiência é experiência dele, e que, assim, a consciência
soltasPse: não no sentido habitual, digamos, no sentido de que, por via
respectiva é consciência dele. O título qgo cogifo deve ser alargado a mais
de um colapso de todos os astros, eu seria o único homem que restaria
um membro: todo e qualquer cogífotem em si, enquanto visado, o seuco-
num mundo que continuaria, porém, ainda a existir. Sebani o mundo do
gífafum. A percepção da casa,mesmo quando inibo a atividade da crença
meu campo judicativo, enquanto algo que recebe de mim e a partir de
mim o sentido de ser, então eu - ou seja, o eu transcendental que o pre- perceptiva, é, tomada tal como a vivo, precisamente percepção desta e
justamente desta casa,aparecendo desta e daquela maneira, mostrando
cede - sou o zírzicoqzíepode estar e que estájudicízfívamenfe posto. E devo
se com precisamente estasdeterminações, de lado, de perto ou de longe.
agora adquirir uma ciência de uma peculiaridade inaudita, pois que ela,
Do mesmo modo que a recordação, clara ou vaga, é recordação da casa
produzida exclusivamentepela e na minha subjetividade transcendental,
clara ou vagamente representada, ou que o juízo, por mais falso que seja,
não deverávaler, pelo menos no início, também senãopara esta:uma
é um visar judicativo destee daquele estado-de-coisasvisado etc. Á pro-
ciência solipístico-transcendental. Portanto, não o ego cogífo, mas, sim,
priedade .fundamenta! dos modos de consciência em que eu, enquanto eu,
uma ciência do ego, uma -EgoZogía pura, deverá ser o fundamento mais
vivo, é a c/camada í?zfenciona/idade, é, em cada caso, o ter consciência de
basilar da Filosofia no sentido cartesiano da Ciência Universal, e deverá
qualquer coisa. A este qzzidda consciência pertencem também os mo-
fornecer pelo menos o terreno para a sua absoluta fundamentação. De
dos de ser, como o ser, o ser presumido, o não ser, e também os modos
fato, estaciência existe já - é a Fenomenologia Transcendental mais ba
do ser-aparente,ser-bom, ser-valor etc. A experiência íénomenológica,
selar;a mais basilar e, portanto, não a Fenomenologia plena, à qual com-
enquanto reflexão, deve permanecer afastada de todas as invenções cons-
pete, obviamente, fazer o caminho ulterior do solipsismo transcendental
trutivistas e deve ser tomada precisamentecom o teor de sentido e com o
para a intersubjetividade transcendental.
teor de ser com que surge.
Para tornar tudo isso compreensível, é desde logo preciso liberar o
E uma invenção construtivista do Sensualismoquando se interpre-
campo infinito, negligenciado por Descartes, da autoexperiência trans-
ta a consciência como complexo de dados dos sentidos e, eventualmente,
cendental do qo. A autoexperiência, até na sua valoração como apodíti-
se introduz de seguidasqualidades de forma, deixando que estascuidem
ca, desempenha consabidamente um papel em Descartes, mas este está
da totalidade. Isto é já fundamentalmente falso na atitude psicológica
ainda longe de explorar o ego,na total concreçãodo seu ser e da suavida
transcendentais,e de encara-lo como um campo de trabalho para per- mundana, mas só na transcendental temos a razão. Quando a análise íé

correr sistematicamente nas suas infinitudes. Para o âlósofo, esta visão nomenológica, na sua marcha, deve também exibir qualquer coisa sob o
nome de "dados de sensação':não se trata nunca de algo de primário em
intelectiva de fundo deve ser posta no ponto central: que ele pode refletir
todos os casosde "percepção externa': mas antes, na descrição correta e
consequentemente,na atitude da redução transcendental, sobre as suas
puramente intuitiva, a primeira coisa é descrever mais pormenorizada-
cogífafíonese seu teor íénomenológico puro, e desvendar com isso, de
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Meditações Cartesianas e Conferências de Paras' Edmund Husserl As Conferências de Paris

mente o cogifo, digamos, a percepção da casa enquanto tal, segundo o seu Deve com isso atentar-se em que a Croché transcendental a res-
sentido objectual e segundo os modos de aparição. E o mesmo para todo peito do mundo que é com todos os objetos que são,de cada vez, ex-
e qualquertipo de consciência. perienciados, percepcionados, recordados, pensados, judicativamente
Dirigido diretamente para o objeto, encontro-o como qualquer acreditados - nada altera no íàto de o mundo e de todos essesobjetos,
coisa que é experienciada ou visada com estas e aquelas determinações, enquanto fênõmenos de experiência - mas também puramente enquan-
<14> encontro-o como qualquer coisaque, no juízo, é portador de predi- to tais, puramente enquanto cogífízfadas respectivas cogifafíozzes
-, de
cados judicativos, na valoração, portador de predicados de valor. Olhan- verem ser um tema capital <15> da descriçãohnomenológica. Em que
do para o outro lado, encontro os modos cambiantes de consciência, o consiste, então, a diferença abissal entre juízos fénomenológicos sobre
modo perceptivo, o modo recordativo, tudo aquilo que não é nem objeto o mundo da experiência e juízos objetivo-naturais? A resposta pode ser
nem determinação objectual, masantesmodo subjetivo de doação,modo dada assim: enquanto ego fenomenológico, tornei-me puro espectador
subjetivo de aparição, como as perspectivas ou a diferença entre vago e de mim mesmo, e não dou validade a nada mais do que àquilo que en-
claro, entre atenção e desatenção etc. contro como inseparável de mim mesmo, como minha vida pura e como
Prosseguir na reflexão sobre si mesmo, enquanto filósofo meditan- inseparável desta, e decerto tal como a reflexão originária e intuitiva pre
te que, assim, se tornou ego transcendental, signiâca, portanto, entrar na cisamente o desvenda para mim. Como homem inserido na atitude na
experiência aberta e ilimitada, não se contentar com o vago ego cogifo, tural, tal como era antesda Croché,vivo ingenuamente adentro do mun-
mas percorrer o constante fluxo do ser e da vida cogitante, ter em conta do; experienciando, vale sem mais para mim aquilo que é experienciado
tudo aquilo que há para ver, penetra-lo explicitando-o, capta-lo descri- e, sobre essabase, realizo as minhas demais tomadas de posição. Mas
tivamente em conceitos e juízos que sejam Ê)rmados de um modo total- tudo isto decorria em mim, sem que eu estivessepara aí dirigido; o que
mente originário a partir destemanancial intuitivo. constituía o meu interesse era o meu experienciar, as coisas, os valores,
Enquanto esquema da explicitação e da descrição, guia-nos, por os fins, mas não a minha vida experienciante, o meu estar-interessado,
tanto, comojá foi dito, um título tríplice: egocogífocogífafum.Se,num o meu tomar posição, o meu subjetivo. Como eu vivendo naturalmente,
primeiro momento, abstrairmosdo eu idêntico, se bem que, de certo era eu também eu transcendental, mas sem nada saber sobre isso. Para
modo, ele esteja em todo e qualquer cogíto,destaca-seentão mais fàcil- me dar conta do meu ser próprio absoluto,devo exercerjustamentea
mente, na reflexão, o que é específico do próprio cogífo e, de imediato, epoc/zéfenomenológica. Através dela, não quero exercer, como Descar-
diferenciam-se tipos descritivos, que são indicados na linguagem de um tes, uma crítica da validade, sabersepoderei confiar apoditicamentena
modo assaz vago, como percepcionar, recordar-se, manter-ainda-na- experiência, portanto, no ser do mundo, mas quero antes aprender que
consciência após a percepção, antecipar, desejar, querer, asserir predica- o mundo é para mim, e também como é o mundo para mim o c(Tífafzzm
tivamente etc. Mas se os tomarmos tal como a reflexão transcendental das minhas cogítafíones.Não pretendo apenasestabelecerque, em ge-
concretamenteno-los ohrece, então surge imediatamente a já menciona- ral, o egocogifo precedeapoditicamente o ser-para-mim do mundo, mas
da diferença fundamental entre sentido objectual e modo de consciência, aprender a conhecer integralmente o meu ser concreto, enquanto qo, e
eventualmente, modo de aparição; portanto, a dualidade - considerada com isso ver o seguinte: o meu ser, enquanto naturalmente experiencia
no seu tipo - que constitui precisamente a intencionalidade, a consciên e vive adentro do mundo, consiste numa vida transcendental particular,
cia enquanto consciência de qualquer coisa. Disto resulta sempre uma em que ingenuamente consumo a experiência, em que continuo a ativar
dupla direção de descrição. a minha convicçãoingenuamenteadquirida acercado mundo. Assim, a

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As Conferênciasde Paris
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl

qualquer face do hexaedro, uma qualquer aresta ou ângulo, uma qual


atitude fenomenológica, com a sua Croché,consiste em que eu obtenho o
derradeiro ponto de vista pensável de experiência e de conhecimento, em quer mancha de cor, numa palavra, um momento qualquer do sentido
que me torno o espectadordesinteressadodo meu eu mundano-natural e objetivo, então notamos, para cada um destes, precisamente o mesmo:
ele é unidade de uma multiplicidade de modos de aparição sempre de
da mí?zhat.'ídaegoíca,a qual constitui apenasum fragmento particular,
novo cambiantes,de perspectivasparticulares, de particulares diíérencia
ou um estrato particular, da minha vida transcendentalmente desven-
dada. Sou desinteressadona medida em que "inibo" todos os interesses çõesdo aqui e do ali subjetivos.Olhando diretamente, encontramos a cor
constantemente idêntica, mas, refletindo nos modos de aparição, <17>
mundanos que eu ainda tenha, enquanto eu - <16> aquele que âlosofã
reconhecemos que ela não é outra coisa - e que não é de outro modo
estou acima deles e os contemplo, tomando-os - tal como, em geral, ao
pensável senão aquilo que se apresenta ora num, ora noutro adumbra-
meu qo transcendental - como tema de descrição.
mento cromático. Sempre temos unidade apenascomo unidade a partir
Assim se consuma, com a redução fenomenológica, uma espécie
da apresentação, apresentação que é autoapresentação da cor ou autoa-
de cisão do eu: o espectador transcendental põe-se acima de si próprio,
presentação da aresta.
vê-se, e vê-se também como o eu que, antes, se abandonava ao mundo,
O cogífafum só é possível nas formas particulares do cogífo. De
encontra, portanto, em si mesmo, enquanto cogífafum, a si mesmo en-
íêito, se começamosa tomar a vida de consciênciade modo inteira-
quanto homem, e encontra, nas correspondentescogifafiones,a vida e o
ser transcendentais constituintes do mundano no seu todo. Se o homem mente concreto e se constantemente olharmos descritivamente para
ambos os lados na sua correlação intencional, então abrem-se-nos
natural (no qual o eu é, derradeiramente, decerto um eu transcendental,
verdadeirasinfinidades e surgem diante de nós semprenovos fatos
sebem que nada saiba sobre isso) tem um mundo que é numa absolutez
ingênua e tem uma ciência do mundo, então o espectador transcenden- que antes nem supúnhamos. É o caso das estruturas da temporalidade
fenomenológica. Isto acontece já mesmo quando permanecemos no
tal, que dele se tornou consciente como eu transcendental, tem o mundo
quadro do tipo de consciência a que chamamos percepção cousal. De
apenas como ./ênõmeno, isto é, como cogífafz4m da cogífatio respectiva,
cadavez, estaestáviva como um ter até aí decorrido, como um ter até
como aparecente da aparição respectiva, como simples correlato.
aí temporalmente fluído tanto da percepção como do percepcionado.
Quando a Fenomenologia tem tematicamente objetos de consciên-
Este estender-se-a-si-mesmofluente, esta temporalidade, é algo que
cia, seja de que tipo for, tanto reais como ideais, ela tem-nos, então, ape-
pertence essencialmenteao próprio fênâmeno transcendental. Cada
nas como objetos dos respectivos modos de consciência; a descrição que
partição que nela concebamos produz sempre uma percepção do mes-
pretende captar o knâmeno pleno e concreto das cogítaffones deve olhar
constantementepara trás, indo do lado objetivo ao lado da consciência, mo tipo, de cada porção, de cada fase, dizemos o mesmo: o hexaedro
é percepcionado. Mas estaíde/zfídadeé um traço descritivo imanente
e procurar as correspondências que aqui continuamente se veriÊcam. Se
de uma tal vivência intencional e das suasfases,é um traço da própria
tenho, por exemplo, como tema o percepcionar de um hexaedro, então
consciência. Os fragmentos e as fases da percepção não estão exter-
noto, na reflexão pura, que o hexaedro é continuamente dado enquan-
namente colados uns aos outros, eles estão unidos, como consciência
to unidade objetiva numa correspondente e determinada multiplicidade
e de novo consciência estão precisamente unidas, e decerto unidas
pluriforme de modos de aparição. O mesmo hexaedro - o mesmo que
na consciência dela mesma. Não há primeiro coisas, que depois são
aparece,ora deste, ora daquele lado, ora sob esta, ora sob aquela perspec-
implantadas na consciência, de tal modo que o mesmo esteja implan-
tiva, ora numa apariçãode perto, ora numa apariçãode longe, ora com
grandeclarezae distinção, ora numa menor. Setivermos em vista uma tado aqui e ali, mas antes consciência e consciência, um cogífo e um

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14
As Conferênciasde Paras
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl

outro cogíto, ligam-se num copito unindo ambos e que, enquanto nova seu todo é, nas suas flutuações, no seu fluxo heracliteano, uma unidade
consciência, é de novo consciência de qualquer coisa, e é certamente sintética universal. A esta temos de Ihe agradecer profundamente que o
um resultado desta consciênciasí zféfícczque nela se torne consciente qo transcendental não apenas seja, mas seja também para si próprio uma
'o mesmo'l o um enquanto um. unidade concreta observável numa visão sinóptica, vivendo unitariamen-
Chocamos aqui, neste exemplo, com uma singularidade da síntese, te em semprenovos modos de consciência e, todavia, constantemente se
enquanto peculiaridade fundamental da consciência, e com eladesponta objetivando unitariamente e na forma do tempo imanente.
ao mesmo tempo a d{/Crençaentre teorescíeconsciência reais e ideais,z Mas não apenasisto. Tão essencialquanto a afzza/idadeda vida é
símplesmenfeínfencíonals. Considerado fénomenologicamente, o obje- também a potencialidade, e esta potencialidade não é uma vazia possi-
to de percepçãonão é um fragmento real: do percepcionar,<18> das bilidade. Cada cogifo, por exemplo, uma percepção externa ou uma re-
perspectivas e das outras multiplicidades de aparição que, até aí fluindo, cordaçãoiterativa etc., traz em si próprio, e como algo desvendável,uma
sinteticamente se unem. Duas apariçõesque, por força de uma síntese,se potencialidade, que Ihe é imanente, de possíveis vivências refêríveis ao
me dão como aparições do mesmo, estão realmente' separadas,não têm, mesmo objeto intencional e realizáveis a partir do eu. Em cada cogífo en
enquanto realmente separadas,nenhum dado em comum; têm, no maxi contramos, como a Fenomenologia diz, horizontes, e em diferentes sen
mo, momentos semelhantes e iguais. O mesmo hexaedro visto é intencio- tidos. A percepção prossegue e <19> delineia antecipadamente um hori-
nalmente o mesmo; aquilo que se dá como espacialmentereaisé, no per- zonte de expectativa, como um horizonte de intencionalidade apontando
cepcionar múltiplo, um ideal-idêntico, idêntico da intenção, dos modos para o vindouro enquanto percepcionado, portanto, para futuras cadeias
de consciência, imanentes aos atos do eu, não enquanto dado real,' mas perceptivas. Mas cada uma traz consigo também potencialidades, como
antes enquanto sentido objectual. O mesmo hexaedro pode, portanto, em "eu poderia olhar para ali, em vez de para aqui': poderia dirigir de ou
diferentes recordações iterativas, expectativas, representações claras ou tra maneira o decurso perceptivo do mesmo. Cada recordação iterativa
vazias, ser para mim o mesmo substrato intencional, idêntico, para pre- reenvia-me para uma inteira cadeia de recordações iterativas possíveis,

dicações, para valorações etc. Este caráter de ser o mesmo sempre reside até chegar ao agora atual e às copresentificaçõesque podem ser postas a
na própria vida de consciência e é vista pela síntese. Assim a re/êrência de descoberto em cadaposição do tempo imanente etc.
consciência a uma objectuatidade atravessa a inteira vida de consciência, Tudo isso são estruturas intencionais regidas pelas leis da síntese.
e esta objectualidade desvenda-secomo uma propriedade de essênciade Possointerrogar toda e qualquer vivência intencional e isto significa
que posso penetrar nos seus horizontes, explicita-los, e, com isso, desven-
toda e qualquer consciência, a saber,a de poder transitar pela síntese,em
sempre novos modos de consciência, de tipos bastante diferentes, para a do, por um lado, potencialidadesda minha vida e, por outro, aclaro,do
consciência de unidade do mesmo. ponto de vista objectual, o sentido visado.
Em conexão com isso, veriÊca-se que nenhum cogífo singular está Assim, a análise intencional é algo totalmente diferente da análise
isolado no ego, tanto que Ênalmente se mostra que a vida universal no no sentido corrente. A vida de consciência - e isto vale já para a pura
Psicologiainterna, enquanto paralelo da Fenomenologia Transcendental
2 N.t: Real /dee/. - não é uma simples conexão de dados, nem uma acumulação de átomos
3 N.L: Ree/,/dee/ psíquicos, nem também um todo de elementos que seriam unidos por
4 N.T.: /?ee//.
5 N.T.: Rea/. qualidades de ílorma. .A?zá/íseí?zfezzciona/é desvendamenfo das afia/Ida-
6 N.ll: Ree/. des e potencialidades em que os objetos, enquanto unidades de sentido, se

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paria ' Edmund Husser As Conferências de Paris

consfífzíem, e toda a análise do próprio sentido se realiza na passagem das xo reina uma típica bem definida. Percepçãoé um tipo geral, recordação
vivências reais' para os horizontes intencionais nelas pré-delineados. iterativa, outro tipo, também a consciência vazia e, certamente, a reten-
Essaderradeira visão prescreve à análise e à descrição fénomeno- cional, tal como tenho de um fragmento de melodia que já não ouço, mas
lógicas uma metodologia totalmente nova, uma metodologia que entra que tenho aírzdana consciência, na não intuitividade, sendo,porém, este
em cena por todo lado onde objeto e sentido devam ser seriamente abor- fragmento da melodia - tudo isso são tipos gerais nitidamente definidos,
dadoas, ou questões sobre o ser, sobre possibilidade, sobre origem ou que, por sua vez, se particularizam
no tipo percepção-de-coisa-espacíaZe
legitimidade. Toda a análise intencional vai além da vivência da esfera no tipo percepção-de-um-ser-humano, de um ser psicofísico.
imanente momentânea e realmentes dada, e certamente de tal manei- Posso interrogar cada um dessestipos, descrevendo-os de maneira
ra que, desvendando as potencialidades, que agora são patenteadasde geral, segundo a sua estrutura, e decerto segundo a sua estrutura inten
modo real9e em horizonte, ela expõe multiplicidades de novas vivências cional, que é, precisamente,um tipo intencional. Possoquestionar como
em que se torna claro o que era apenas implicitamente visado e que, desse um passapara o outro, como se forma, se modifica, que formas da sín
modo, era já intencional. Vendo um hexaedro,logo digo: vejo-o efêtiva e teseintencional residem necessariamentenele, que formas de horizontes
propriamente apenas de um lado. E é então evidente <20> que aquilo que necessariamenteele em si encerra, que formas de desvendamento e de
agora percepcionamos é algo mais, é evidente que a percepção encerra preenchimento Ihe pertencem. Isto produz, por conseguinte, uma teoria
uma intenção, se bem que inintuitiva, atravésda qual o lado visto tem o transcendental da percepção, isto é, uma análise intencional da percepção,
sentido de um simples lado. Mas como se põe a descoberto estemais na uma teoria transcendental da recordação e da conexão <21> das intuições
intenção,como se torna por vez primeira propriamente evidenteque eu em geral, mas também teoria do juízo, teoria da vontade etc. Trata-se sem-
viso mais? Pois pela passagem para uma sequência sintética de percep pre, não, como nas ciências fàtuais objetivas, de acionar a simples experi-
ções possíveis, como as teria se, tal como posso fazer, andasse em tor ência e de analisar realmente os dados de experiência, mas, sim, de ir no
no do objeto. A Fenomenologia desagregaconstantemente o visar, a res- encalço das linhas de síntese intencional, tal como estão pré-delineadas
pectiva intencionalidade, ao expor tais síntesespreenchentes do sentido. intencionalmente e segundo o horizonte, coisa com o que os horizontes
Explicitar a estrutura universal da vida transcendental de consciência, devem ser elespróprios exibidos e, então, também desvelados.
na sua referência significativa e na sua formação de sentido, é a colossal Porque já cada cogífafum singular, por força da sua extensão tem-
tarefa imposta à descrição. poral transcendental-imanente,é uma síntesede identidade, uma cons-
Naturalmente, a investigação move-se em diferentes níveis. Decer- ciência do continuamente mesmo, o objeto um joga já algum papel, en-
to que ela não é impedidapor aqui sero reino do fluxo subjetivoe por quanto íio condutor transcendental, para as multiplicidades subjetivas
ser uma loucura querer proceder com uma metodologia da formação de que o constituem. Mas, para a visão sinótica dos tipos mais gerais de
conceitos e de juízos que fosse padrão para asciências exatas.Certamente cogÍtafa e a sua descrição intencional geral, é de novo totalmente irrele-
que a vida de consciência está num fluxo e que cada cogífo é fluente, sem vante se estesou aqueles objetos são os percepcionados ou os recordados,
elementos últimos e relações últimas que possam ser fixáveis. Mas no flu- e coisas semelhantes.
Setomarmos, porém, como tema o hnâmeno do mundo, que está
7 N.T.:/?ee//.
também consciente como unidade sintético-unitária na corrente que até
8 N.ll:Ree//. aí deflui daspercepções,setomarmos, pois, como tema estetipo admirá-
9 N.T::Ree//.
vel percepção uníversa/ do mundo, e se perguntarmos como deve ser en-

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl As Conferências de Paris

tendido, do ponto de vista intencional, que um mundo estejaaí para nós, na vida transcendental. Pelo contrário, toda e qualquer intencionalidade
então reteremos consequentemente o tipo de objeto sintético mundo, na ou é, ela própria, uma consciência de evidência, ou seja, uma consciência
turalmente enquanto cogífafz4m,como./io co?zdzítorparao desdobramento que tem o próprio c(Tífafum, ou está, por essência, e segundo o seu ho-
da estruturade it$nitude da intencionalidade
própria da experiênciado rizonte, ordenada à autodoação, para ela está dirigida. Toda e qualquer
mzzndo.Tomos,com isso, de nos ocupar da típica singular. O mundo de clarificação será já uma evidenciação. Qualquer consciência vaga, vazia,
experiência, puramente enquanto experienciado, sempre permanecendo obscura, é, desde o início, consciência disto e daquilo apenas na medida
na redução hnomenológica, articula-se em objetos identicamente persis- em que (ponta para um caminho de c/ízr@cação,no qual o visado seria
tentes. Como se apresenta a infinitude particular de percepções efêtivas dado enquanto efêtividade ou enquanto possibilidade. 'leda e qualquer
e possíveis,que pertencem a um objeto? E assim para cada tipo geral de consciência vaga pode ser interrogada a respeito de qual deveria ser o
objeto. Como se apresenta a intencionalidade de horizonte, sem a qual aspectodo seuobjeto. Seguramenteque pertence também à estrutura da
um mundo não poderia ser objeto - apontando para a conexão do mun- subjetividade transcendental que se construam intenções que, na passa
do, sem a qual, como a análise intencional o mostra, nenhum objeto seria gem para a possível evidência ou para uma representação clara, do mesmo
pensável? E assim para cada tipo particular de objeto que possivelmente modo que, na experiência que vai efétivamente decorrendo, na passagem
pertençaao mundo. efêtiva de uma intenção para a própria situação objetiva correspondente,
A retençãoideal:' de um tipo intencional de objeto significa, como não seja o que é visado como um ser ele próprio possível que se expo-
imediatamente sevê, uma organização ou ordem <22> nas investigações nha, masantesuma outra coisa.Em vez de confirmação, preenchimento,
intencionais. Por outras palavras: a subjetividade transcendental não é surgem, então, frequentemente, decepção, supressão, negação. Enquanto
um caos de vivências intencionais, mas antes uma unidade da síntese, e tipo específico dos acontecimentos contrapostos do preenchimento e da
de uma síntese de vários níveis, em que são constituídos sempre novos decepção,tudo isto pertenceao domínio total da <23> vida de consci-
tipos de objetos e novos objetos singulares. Cada objeto designa, porém, ência. Sempre e necessariamente vive o qgo em c(Tífafíones, e sempre o
uma estrutura regular para a subjetividade transcendental. respectivo objeto é ou intuitivo (seja na consciência de que ele é, seja na
Com a questão sobre o sistema transcendental da intencionalida consciência de fantasia de que é como se ele fosse) ou inintuitivo, longín-
de, atravésdo qual está aí constantementepara o ego uma natureza, um quo. E sempre, acerca dele, podemos nos interrogar sobre os caminhos
mundo - desdelogo na experiência, enquanto algo diretamente visível, pelos quais chegamos até ele próprio, seja enquanto efêtividade, seja en-
captável etc., e, de seguida, através de qualquer outra intencionalidade quanto possibilidade da fantasia, e sobre os caminhos em que elese com-
dirigida para o mundo -, estamosjá em plena Fenomenologia da Razão. provada como ser, em que seria atingível na continuidade concordante
Razãoe irracional, entendidos no mais lato sentido, não designam quais- de evidências,ou em que exporia o seu não ser.
quer faculdades ou fatos de uma hticidade contingente, mas pertencem Um objeto existe para mim - isto é: ele vale para mim consciencial-
antes às formas estruturais mais gerais da subjetividade transcendental. mente. Mas estavalidade só é para mim tanto quanto presuma que posso
Evidência, no sentido mais lato da autoaparição, do deparar-se-co- comprova-la, que posso produzir para mim caminhos trilháveis, ou seja,
mo-ele-próprio, enquanto dar-se-conta do próprio estado de coisas, do experiências a percorrer livre e ativamente, e outras evidências, nas quais
próprio valor e coisassemelhantes,não é um acontecimento contingente eu estariaperanteo próprio objeto,realiza-lo-ia como ({/êfivamenfe
aí.
Isto se verifica também quando a minha consciência dele é experiência,
10 N.L: /dee//. consciência que ele próprio é aí, que ele próprio é visto. Porque também

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As Conferências de Paris
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris e Edmund Husserl

sávelreside em mim próprio, estáencerrada na minha intencionalidade


estever continua remetendo para mais ver, para a possibilidade de con-
imediata e mediata, na qual todo e qualquer sentido de ser deve estar,
firmar e de poder sempre de novo regressar ao que foi já alcançado como
portanto, conjuntamente encerrado.
ser segundo o modo da comprovação progressiva.
Com isso, estamos já nos grandes, nos esmagadoramente grandes
Pensemno signiâcado imenso dessaobservação,após nos termos
problemas da Razão e da E/êfividade, da consciência e do ser verdadeiro,
colocadono terreno egológico.A partir desteponto de vista último, ve
dos problemas consfífufívos, como a Fenomenologia em geral os deno
mos que, para nós, ser-aí e ser-assim não têm, na realidade e em verdade,
outro sentido senãoser a partir da possibilidade de uma conârmação que mina. De início, eles aparecemcomo problemas fénomenológicos limi-
tados, dado que se pensa apenas no ser mundano, sob as palavras "efêti-
se comprove; mas também que tanto estecaminho de confirmação como
vidade" e "ser'l e, portanto, apenasno paralelo íénomenológico daquilo
a sua acessibilidade pertencem a mim próprio, enquanto subjetividade
que correntemente se denomina como "Teoria do Conhecimento" ou
transcendental, e só assim têm um sentido.
"Crítica da Razão': a qual está habitualmente reíêrida ao conhecimento
Ser verdadeiro - seja real, seja ideal': - tem, portanto, sjgnÚcado
objetivo, ao das realidades.Em verdade, porém, os problemas constitu-
apenas enquanto correlato particular da minha própria intencionalidade,
tanto da atual como da que está pré-delineada enquanto potencial. Se- tivos abarcam a Fenomenologia Transcendental no seu todo e designam
um aspectosistemático,totalmente geral, sob o qual se ordenam todos os
guramente que não de um cogífo singular; por exemplo, o ser de uma
problemas fênomenológicos. Constituição fenomenológica de um obje
coisa reali2 não como simples cogífo da percepção singularizada que ago-
to - tal significa: consideração da universalidade do ego sob o ponto de
ra tenho. Mas essapercepção e o próprio objeto no seu modo de doa-
vista da identidade desteobjeto, a saber, na questão acercada totalidade
ção intencional reenviam-me, por força do horizonte presuntivo, para
sistemática das vivências de consciência, ektivas e possíveis, que estão
um sistema infinitamente aberto de percepções possíveis<24> enquanto
pré-delineadasno meu ego,como a elereíéríveis, e que significam, para o
tais, que não são inventadas, mas que estão motivadas pela minha vida
meu %o, uma ârme regra de sínteses possíveis.
ncional - só podendo perder a sua validade presuntiva quando uma
O problema da constituição fenomenológica de um qualquer tipo
experiência contraditória as suprime - e que estão necessariamenteco-
de objetos é, desdelogo, o problema da sua doação evidente idealmente
pressupostas como minhas possibilidades, possibilidades que eu, quando
períêita. A cada tipo de objeto <25> pertence o seu modo típico de expe
não estou impedido de fàzê-lo,poderia desenvolver,aproximando-me,
riência possível. Qual será o aspecto de uma tal experiência, segundo as
olhando em redor etc.
suasestruturas essenciais e, claro, quando a pensamos como desdobran-
Mas certamente que tudo isso está dito de um modo assazgros-
seiro. São necessárias análises intencionais mais complicadas e de muito do onilateralmente de um modo idealmente perfeito o seu objeto?A esta
seliga uma pergunta ulterior: como chega o qo a possuir um tal sistema
maior alcancepara desenrolar as estruturas de possibilidade, em relação
como uma possedisponível, mesmo quando não tem do objeto nenhuma
ao horizonte que pertence especificamente a cada tipo de objeto, e para,
experiência atual? Finalmente, que significa para mim que objetos sejam
assim, tornar compreensível o sentido do respectivo ser. De antemão, e
para mim o que são, sem que eu saiba ou soubessedeles?
apenas evidente uma coisa, que nos serve como uma guia: aquilo que
Todo objeto, que é, é objeto de um universo de experiência possí-
tenho como ente vale para mim como ente, e toda a comprovação pen-
vel, pelo que devemos apenasalargar o conceito de experiência até o seu
mais amplo conceito: o conceito da evidência corretamente compreendi-
11 N.T.:Real/dea/.
da. A cada objeto possível corresponde um tal sistema possível. Como foi
12 N.T.:Rea/.

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl As Conferênciasde Paris

dito já, "transcendental" é um índice objetivo progressivode uma corres- Deve ser agora observado, porém, que esteeu centrador não é um
pondente estrutura universal do ego, totalmente determinada segundo ponto ou polo vazio, mas que, em virtude de uma legalidade da gênese,
os seus cogífczfa efétivos, segundo as suas potencialidades e íàculdades. sofre uma determinaçãopermanente com cadaato que dele irradia. Se,
Ora é, agora, da essênciado ego ser sob a forma da consciência efétiva por exemplo, me decido, num ato judicativo, por um ser-assim, então
e possível, e da possível segundo as suas formas subjetivas do eu posso, esseato efémero passa, mas eu continuo a ser aquele que está assim de-
da faculdade para, formas que residem no ego. O ego é o que é por refe- cidido, encontro-me e permaneço como eu das minhas convicções per-
rência a objectualidades intencionais, ele tem sempre um ente e um ente manentes. E o mesmo para cada tipo de decisão, por exemplo, para as
possível; assim, é sua peculiaridade essencial construir sempre sistemas decisõesvalorativas e volitivas.
de intencionalidade, e ter já formações cujo índice são os objetos por ele Tomos, por conseguinte, o ego não apenas como polo vazio, mas
visados, pensados, valorados, tratados, fãntasiados e a fantasiar etc. como qo estacionário e permanente das respectivas convicções persis-
Mas o próprio ego é, e o seu ser é ser para ele próprio, também o tentes, das habitualidades em cuja alteração se consfífui, primeiro que
seu ser, com todas as suas particularidades ânticas, é nele constituído e tudo, a unidízde do ezzpessoa/ e do seu caráferpessoaZ. Deve, porém, ainda
constitui-se sempre mais. O ser-para-si-próprio do egoé ser em cons- separar-se dessaunidade o ego na sua plena concreção, que só é concre-
tante autoconstituição,que, por seu lado, é o fundamento para toda a tamente na pluralidade fluente da sua vida intencional e com os objetos
constituição das chamadas"transcendências':as objectualidades munda- aí visados, que para ele se constituem. Por isso falamos também do ego
nas. Assim, o fundamento da Fenomenologia constitutiva está em criar, como manada concreta.
na doutrina da constituição da temporalidade imanente e das vivências Dado que eu, enquanto ego transcendental, sou aquele que a si mes-
ímanenfesnela inseridas, uma teoria egológica a partir da qual se tornará mo se pode encontrar de antemão enquanto ego num e noutro sentido, e
compreensível, passo a passo, como é concrefamerzfepossa'e/ e compreen- dar-seconta do seu ser ehtivo e verdadeiro, também esteé um problema
sível o ser-para-si-mesmo do ego. constitutivo e mesmo o problema constitutivo mais radical.
<26> Surge aqui uma plurivocidade do tema ego: ele é diferente nos <27> Na verdade, a Fenomenologia Constitutiva abarca,portanto,
diíérentes estratos da problemática fenomenológica. Nas considerações a Fenomenologia no seu todo, se bem que ela não possa começar como
de estrutura primeiras e mais gerais, encontramos, como resultado da tal, masantescom uma indicação típica de consciênciae do seu desdo-
redução fenomenológica, o ego cogífo cogifafa, e depara-se-nos aí, certa- bramento intencional, que só mais tarde torna visível o sentido da pro-
mente, a multiplicidade dos cogífafa, do ezzpercepcío?zo,eu recordo-me, eu blemática constitutiva.
desço etc., e a primeira coisa em que se deve aqui atentar é que os mul- De qualquer modo, os problemas íénomenológicos de uma análise
típlices modos do cogÍfo têm um ponto de identidade, um ponto de cen- de essência da constituição de objetividades reais:' para o egoe, com isso,
tramento em que eu, o mesmo eu, sou aquele que, uma vez, realiza o ato os problemas de uma Teoria do Conhecimento hnomenológica objetiva
ezzpe?zso,de seguida, o ato eu ava/io como czparêncfaetc. Torna-se notória são,por si mesmos, um enorme campo de investigação.
uma dupla síntese,uma dupla polarização. Muitos modos de consciência, Antes, porém, de confrontarmos esta Teoria do Conhecimento
mas não todos, que aí decorrem estão sinteticamente unidos, enquanto com a comum, precisamos de um colossal progresso metódico, ao qual
modos de consciência do mesmo objeto. 'lbdavia, por outro lado, todas chego já tão tarde nesta coníérência para permitir que, de início e sem
as cogifaflones e, desde logo, todas as minhas tomadas de posição, têm a
forma estrutural (qo) c(Zgifo,elas têm a polarização-eu. 13 N.T.:Rea/

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paras' Edmund Husser As Conferências de Paris

preocupações, as concreções vos falem por si próprias. Cada um de nós, modo obtenho estruturas gerais de essênciado meu egoenquanto um ego
reconduzido ao seu qgo absoluto atravésda redução fenomenológica, em geral pensável, sem as quais não me poderia de todo e a priori pensar,
encontrou-se, na certeza apodítica, como sendo íàticamente. Olhando dado que, de modo evidente, elas devem necessariamentesubsistir em
em torno, o ego encontrou múltiplos tipos, descritivamentecaptáveise cada livre variação do meu ego.
intencionalmente explicitáveis, e pôde, de imediato, progredir no des- Alçamo-nos, assim, a uma visão intelectiva do método que, ao lado
vendamento intencional do seu (:go.Não foi, porém, por acaso que me do método autêntico da redução íénomenológica, é o mais importante da
escapou repetidamente a expressãoessênciae essencialmente,coisa que Fenomenologia: a saber,qz4eo ego,para falar como os nossosantecesso
equivale a um conceito determinado de czpriori que só a Fenomenolo- res, fem um domílzÍo imenso de a priori ínafo, e que a Fenomenologia por
gia clarificou. Está claro, de qualquer modo, que: quando explicitamos e inteiro, ou a pura autorreflexão do âlósofo prosseguida metodicamente,
descrevemos, na sua típica própria, um tipo cogitativo como percepção- é desvendamento deste a priori inato na sua infinita multiformidade. Tàl
percepcionado, retenção e retido, recordação iterativa e iterativamente é o sentido autênticodo inatismo, cujo rasto o antigo conceito seguira,
recordado, asserção e asserido, desejo e desejado etc., somos conduzidos mas sem conseguir capta-lo.
a resultados que continuarão a persistir mesmo que abstraiamos do fato. A esse a priori inato do ego concreto - para falar como Leibniz: a
Para o tipo, é totalmente irrelevante a individualidade do fato exemplar, mlrzhamõ fada - pertence certamente muito mais do que aquilo de que
por exemplo, da percepção-da-mesa que até agora decorre momentanea- poderíamos íàlar. Pertence-lhe coisa que não pode ser aqui indicada se
mente; e a própria situação geral de que eu, este ego íático, tenha, em ge- não por uma palavra - também o a priori do eu no sentido particular que
ral, vivências dessetipo entre as minhas vivências fáticas é irrelevante e a a triplicidade geral do título cogífo determina: o eu como polo de todas as
descrição não depende, de todo, de uma verificação dos fatos individuais específicastomadas de posição ou atos egoicos, e como polo das aíécções
e da sua existência. E o mesmo para todas as estruturas egológicas. que, indo para o eu a partir de objetos já constituídos, o motivam a virar-
Se realizo, por exemplo, uma análisedo tipo e=xperíêncla sensíl'e/da se para eles atentando e para cada tomada de posição. O ego tem, portan-
coisaespacía/;se me adentro sistematicamente na consideração constitutiva to, uma dupla polarização: a polarização segundo as múltiplas unidades
sobrecomo tal experiência pode e deve prosseguir decorrendo de um modo objectuais e a polarização-egológica, um centramento em virtude do qual
concordante para que, em geral, uma e a mesma coisa se deva mostrar per- a intencionalidade no seutodo estáreferida ao eu-polo idêntico.
feitamente, segundo tudo o que Ihe é atribuído enquanto coisa, <28> surge <29> Todavia, de certo modo, a polarização egológicapluraliza
então o grande conhecimento de que, a prior"f, na necessidadede essência, se também indiretamente no ego através das suas intropatias, enquan
o que para mim, enquanto um ego em geral, pode ser uma coisa que é ver- to "espelhamentos" que nele surgem, segundo a forma presentificante,
dadeiramente, está sob a forma de essênciade um sistema estrutural deter- de manadas alheias com polos-eu alheios. O eu não é simples polo de
minado correspondente de experiência possível, com uma multiplicidade tomadas de posição que surgem e desaparecem; cada tomada de po-
apriorística de estruturas que Ihe correspondem especificamente. sição fundamenta no eu algo permanente, uma convicçãoque aí fica
De modo evidente, posso accionar o meu egode um modo inteira- até nova ordem.
mente livre, posso considerar os tipos como possibilidades ideais puras A abertura sistemática da esíéra transcendental, enquanto esfera
do qgo doravante simplesmente possível e de um ego possível em geral absoluta do ser e da constituição, a que tudo o que seja pensável deve ser
(como variação livre do meu ego fático), e obtenho, assim, tios essenciais, reconduzido, levanta dificuldades colossais e só na última década se pu-
possibilidadesapriorísticas e correspondentesleis de essência;do mesmo seram por ordem os métodos e os graus mais elevadosdo problema.

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Meditações Cartesianase Conferênciasde Parase Edmund Husserl As Conferências de Paris

Em particular, só bastante tarde se abriu a passagem para os pro- comportamo-nos teoreticamente, íbrmamos proposições, conclusões,
blemas da legalidade universal da gênesehnomenológica e, na base,da demonstrações, teorias, as configuramos como verdades, criamos, como
gênesepízssíva,na formação de sempre novas intencionalidades e de aper- isso, sempre novas formações de objetos, desta vez, objetos ideais,:s que
cepçõessem uma qualquer participação atavado eu. Desponta aqui uma para nós são numa validade persistente. Se consumarmos uma autorre-
fenomenologia da associação,cujos conceito e origem recebemum rosto flexão radical, por conseguinte, um regresso - cada um por si - ao nosso
essencialmentenovo, desde logo por meio do conhecimento, a princípio qo absoluto, então tudo isto são as formações do livre fazer da atividade
estranho, de que a associação é um título imenso para uma legalidade de egoica, inserida nos níveis da constituição egológica, e cada um desses
essência,para um a priori inato, sem o qual o egoé impensável enquanto seresideais é o que é enquanto índice dos seus sistemas constitutivos. Por
tal. Por outro lado, a problemática da génesede grau superior, na qual conseguinte, aí estão também todas as ciências que ponho em validade
surgem, através de atos egoicos, formações de validade e, em uníssono no meu próprio pensamento e conhecimento. Enquanto ego,inibi a sua
com isso, o eu central recebe as peculiaridades egoicas especíâcas, por validade ingênua; no contexto do meu autodesvendamento transcenden
exemplo, as convicções habituais, os caracteres adquiridos. tal, enquantoespectadordesinteressado
da minha vida operativa,elas
SÓ pela Fenomenologia da Gênese se torna o eu compreensível entram de novo em validade, tal como já o mundo da experiência, mas
como uma conexão infinita de reíz/ilaçõesque se correspondem sintetica- puramente como correlato constitutivo.
mente, e certamente de realizações constitutivas, que outorgam validade Passemosagora a pâr em relação essateoria transcendental-egoló-
a níveis sempre novos de objetos que são em diversos níveis de relativi- gica da constituição - que apresentatudo o que é para o ego como uma
dade. Torna-se compreensível como o ego apenas é o que é numa gênese, formação surgida nas motivações sintéticas da sua própria vida intencio-
pela qual são por ele sempre intencionalmente apropriados, provisória nal, das realizações ativas e passivas - com a comum .üoría do Conheci-
ou duradouramente, mundos que são,reais ou ideais;:' são apropriados mento ou .üoría da Razão. Sem dúvida, a falta de um elemento funda-
a partir de criações de sentido próprias, são apropriados sob encadea mental da teoria fenomenológica, que supere a aparência de Solipsismo,
mentos possíveis a priori de correções, de cancelamentos de nulidade, de só se fará sentir plenamente num contexto ulterior, e a sua complementa
conversões em aparência etc., que surgem, imanentemente, nada menos ção adequada porá de lado essapedra de escândalo.
do que como acontecimentos típicos de sentido. De tudo isto, o fato <30> O problema da Teoria do Conhecimento tradicional é o da frans-
é irracional, mas a forma, o colossal sistema de armas dos objetos cons- ce?zdêncía.Mesmo quando se apoia, enquanto teoria empírica, na Psico-
tituídos e os sistemascorrelativos de formas da suaconstituição intencio- logia usual, ela quer ser não uma simples Psicologia do Conhecimento,
nal czpriori, são uma inesgotável infinitude do ízFrio?"í,que é desvendada mas antes esclarecer,a partir de princípios, a própria possibilidade do
sob o nome "Fenomenologia" e que não é outra coisa senão a forma de conhecimento. O problema surge-lhe na atitude natural <31> e é, sub-
essênciado ego, enquanto um qgo em geral, desvendado e a desvendar sequentemente,também nela tratado. Eu encontro-me de antemãono
através da minha autorreflexão. mundo enquanto homem e, em simultâneo, enquanto alguém que fàz ex-
Às realizações constitutivas do sentido e do ser pertencem todos periência do mundo e que conhece cientificamente o mundo, incluindo
os níveis tanto da realidade como da idealidade; por conseguinte, quan- eu próprio. Agora, digo a mim mesmo: tudo o que é para mim é-o graças
do contamos, calculamos, quando descrevemosa natureza e o mundo, à minha consciência cognoscente,é para mim o experienciado do meu

14 N.L:Real/dea/. 15 N.T.:/dea/

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ©Edmund Husserl As Conferênciasde Paras

experienciar, o pensado do meu pensar, o teorizado do meu teorizar, o in- <32> Que tem a dizer sobre isso a autorreflexão transcendental da
telectualmente visto do meu ver intelectual. Ele é para mim apenascomo Fenomenologia? Ela não tem a dizer outra coisa senão que todo este pro-
objectualidade intencional das minhas cogifaflones.Intencionalidade, blema é um contrassenso, um contrassenso em que o próprio Descartes
como traço peculiar de fundo da minha vida psíquica, designa uma pe- teve de cair por não ter topado com o sentido autêntico da Crochétrans-
culiaridade real'' que me pertence enquanto homem, bem como a qual- cendental e da redução ao ego puro. Mas mais grosseira ainda é a atitude
quer outro homem, a respeito da sua interioridade puramente psíquica, dos que se seguem a Descartes. Perguntamos: quem é, então, o eu que
e já Brentano a havia colocado no ponto central da Psicologia Empírica pode levantar, com pleno direito, tais questõestranscendentais?Posso
do homem. Não precisamos para isso, portanto, de uma redução feno- eu fàzê-lo enquanto homem natural, posso eu, enquanto tal, questionar
menológica; nós estamos e permanecemos no terreno do mundo dado. seriamente e de um modo transcendental: "como poderei sair da ilha da
E dizemos agora, obviamente, o seguinte: tudo o que é e que vcz/epara os minha consciência e como poderá adquirir signiâcação objetiva aquilo
homens, qüe é e vale para mim, .@-lo na vida de consciência própria, a qua\ que surge na minha consciência como vivência da evidência?" Porqzzanfo
permanece consigo mesma em todo o ter consciência de um mundo e em me apercebacomo homem natura!, jú terei tido de antemão uma apercep-
todo o operar cientificamente. Todas as diferenciações que eu faço entre çãodo mundo espacial,já me terei apreendido como estando no espaço,
experiência autêntica e enganadora e, dentro dela, entre ser e aparência no qual terei, portanto, um fora-de-mim! Não estará, por conseguinte, a
decorrem na minha própria esfera de consciência, do mesmo modo que validade da apercepção do mundo já pressuposta na própria posição da
quando distingo, em níveis mais elevados,entre pensamento com e sem questão, se bem que só da sua resposta pudesse resultar, em geral, a jus-
visão intelectual, e também entre necessidadesa priori e contrassensos, tificação dessamesma validade objetiva? É manihstamente necessáriaa
ou entre o que é empiricamente correto e o que é empiricamente falso. execução consciente da redução./ênomeno/ógíca, a.Pm de a/ca?içar aquela
Evidentemente efêtivo, pensado como necessário,contrassenso, pensado vida de consciência, aqzíeieeu a parar do qual ?zosserá possíve/iel'fintar
como possível, provável etc. - tudo isso são caracteresdo objeto inten- questõestranscendentais, enquanto questõessobre a possibil dade do co
cional respectivoque surgem no meu próprio domínio de consciência. n/zecímentotranscendente.Assim que, em vez de ehtuarmos fugazmen-
Toda e qualquer justificação, toda a fundamentação da verdade e do ser te uma Crochéfenomenológica, entregarmo-nos ao empreendimento de
decorrem, de ponta a ponta, em mim, e a sua resultante final é um caráter desvendar,numa autorreflexão sistemática e enquanto egopuro, o campo
no cogífafum do meu c(Rito. de consciência em totalidade, reconheceremos, então, que tudo o que é
Por aí se vê, agora, o grande problema. Que eu, no meu domínio de para esse ego é algo que se constitui nesse próprio ego; mais ainda, que
consciência, no contexto da motivação que me determina, chegue a cer todo e qualquer tipo de ser - e, dentro disso, aquele que se caracteriza
tezas, e mesmo a evidências inflexíveis, isso é compreensível. Mas como como transcendente - tem a sua constituição particular.
poderá ganhar significação oyetíva todo essejogo, que decorre na ima- A transcendência é um caráter de ser imanente, que se constitui no
nência da vida de consciência? Como poderá a evidência (a clara ef dis- inferior do ego.'lodo sentido que se possa conceber, todo ser concebível,
fíncfa perca'fio) reivindicar ser algo mais que um caráter de consciência chama-seele imanente ou transcendente, cai no domínio da subjetivida
em mim? Eis o problema cartesiano, que deveria ser resolvido por meio de transcendental. Um seu exterior é um contrassenso, ela é a universal,
da veracifas divina.
a absoluta concreção. Não tem sentido querer captar o universo do ser
verdadeiro como qualquer coisa que está fora do universo da consciên-
16 N.T.:Rea/.
cia possível, do conhecimento possível, da evidência possível, de modo

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id /

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que ambos os universos se correlacionassem de uma forma simplesmente quentemente desenvolvida, na .broa de uma ciência egológica sistemática
exterior por meio de uma lei fixa. <33> Por essência,ambos se correspon- de cada sentido de ser com o qual tudo o que é deve poder ter para mim,
dem, e aquilo que se corresponde por essênciaé, também, concretamente o ego,precisamenteum sentido. Este Idealismo não é,porém, um produto
um, um na concreção absoluta: a da suyeffvídade transcendente/. - Ela é o de jogos argumentativos, um troféu a ganhar no combate dialético com
universo do sentido possível, um exterior será precisamente algo sem sen- os realismos. <34> Ele é a explicitação do sentido, prosseguida num tra-
tido. Mas já o próprio sem sentido é um modo de sentido, e esta ausência balho efêtivo, da transcendência (pré-dada ao ego através da experiência)
de sentido tem a sua evidência. Isto não vale, porém, simplesmente para da Natureza, da Cultura, do Mundo em geral, e isto é o desvendamento
o qgo.@fíco e para aquilo que fàticamente Ihe está acessível enquanto ente sistemático da própria intencionalidade constituinte. A prova deste Idea-
para ele. A autoexplicitação./ênomenoZógicaé uma autoexplicitação aprio- lismo é a realização da própria Fenomenologia.
rística, e assim tudo é válido para qualquer ÍTO pensável,possível, para Devemos agora, porém, formular a única objeção verdadeiramente
cada ser pensável e, por conseguinte, para quaisquer mundos pensáveis. A inquietante. Quando eu, o eu que medita, me reduzo ao meu egotrans-
Teoria do Conhecimento autêntica só tem, assim, pleno sentido enquanto cendental absoluto e ao que aí se constitui, através da epoché,não me tor-
fenomenológico-transcendental, a qual, em vez de ter que ver com infe- no um soZzzs
pse e não será toda esta filosofia da autorreflexão um puro
rências, que são um contrassenso,de uma suposta imanência para uma Solipsismo, mesmo que fenomenológico-transcendental?
suposta transcendência de "coisas-em-si" que, alegadamente, seriam, por No entanto, antes de se tomar uma decisão aqui, e de se procurar
razões de princípio, incognoscíveis, tem exclusivamente que ver com o es- mesmo uma ajuda em inúteis argumentações dialéticas, importa levar
clarecimento sistemático da operatividade cognitiva, na qual estasdevem, a cabo o trabalho fenomenológico concreto de uma maneira suficien-
de ponta a ponta, ser compreendidas como uma realização intencional. temente extensa e suÊcientemente sistemática, de modo a ver como o
Precisamentepor isso, todo tipo de ser, tanto real como ideal,i7 se torna a/fer-ego se anuncia e se confirma no ego enquanto doação de experi-
ele próprio compreensível enquanto formação constituída precisamente ência, que tipo de constituição deve ser introduzida para o seu ser-aí,
nesta operatividade da subjetividade transcendental. Este tipo de compre- enquanto ser-aí no círculo da minha consciência e do meu mundo. Por-
ensibilidade é a mais alta forma de racionalidade que se pode conceber. que eu experiencio efétivamente o outro, e não o experiencio ao lado
Todas as transviadas interpretações do ser provêm da cegueira ingênua a da Natureza, mas entrelaçado e fazendo unidade com ela. Mas eu ex-
respeito dos horizontes que são codeterminantes do sentido do ser. Assim periencio os outros de um modo particular, experiencio-os não apenas
conduz a pura autoexplicitação do ego,prosseguidana pura evidência e, como surgindo no espaço,psicologicamente entrelaçados na concatena-
com isso, na concreção, até um .Idecz/esmo
franscendenfaZ, se bem que num ção da Natureza, masexperiencio-os como experienciando também este
sentido fundamental essencialmente novo; não no de um Idealismo psico- mesmo mundo que eu experiencio, como me experienciando do mes-
lógico, nem no de um Idealismo que, a partir de dados sensuaiscarecidos mo modo como eu os experiencio etc. Experiencio em mim mesmo, no
de sentido, quer derivar um mundo pleno de sentido, não um Idealismo quadro da minha vida transcendental de consciência,tudo e cadaum, e
kantiano, que, pelo menos como conceito-limite, crê poder manter em experiencio o mundo não como algo simplesmente privado, mas antes
aberto a possibilidade de um mundo de coisas-em-si mas antes um ]de como mundo intersubjetivo, dado para qualquer um e acessívelnos seus
abismo que não consiste em nada mais do que na autoexpticitação, conse- objetos, e nele experiencio os outros enquanto outros e, em simultâneo,
enquanto sendo aí uns para os outros, enquanto sendo aí para qualquer
17 N.l: Real /dea/. um. Como se pode esclareceristo, se permaneceinatacávelo princípio

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de que tudo o que é para mim só na minha vida intencional pode adqui- çar a intersubjetividade enquanto transcendental. Mas mostra-se com isso
rir sentido e confirmação? que, para aquele que medita âlosoficamente, o seu ego é o ego originário,
Carecemosaqui de uma autênticaexplicitaçãohnomenológica da e que, então, numa consequência ulterior, a intersubjetividade só é, pelo
operatividade transcendental da infropafía e, para tal, porquanto ela es- seulado, pensável para cada ego concebível, como a/fer-egoespelhando-se
teja em questão, de um pâr-fora-de-validade abstrativo dos outros e de nele. Nesta elucidação da intropatia, mostra-se também que existe uma
todos os estratos de sentido do meu mundo circundante que para mim diferença abissal entre a constituição da Natureza, de um lado, que tem já
crescem <35> a partir da validade da experiência dos outros. Precisa- um sentido para o egoabstrativamente isolado, mas não ainda um sentido
mente por isso se separa,no domínio do qo transcendental, isto é, no seu intersubjetivo, e a constituição do Mundo Espiritual, do outro.
domínio de consciência,justamente o seu ser egológico especificamente <36> Assim semostra o Idealismo $nomenológico como uma Mona-
privado, a minha peculiaridade concreta, como aquela a partir da qual, doZogia.PnomenoZógfco-transcendental, que, agora, não é uma construção
a partir de motivações do meu ego, capto o meu análogo na intropatia. metafísica, mas antes uma sistemática explicitação do sentido que, antes
Posso captar direta e genuinamente toda a vida de consciência própria de todo o filosofar, o mundo tem para nós, um sentido que pode ser filo-
como essamesmcz,mas não a vida alheia: o sentir alheio, o percepcionar, soficamente desfigurado, mas que não pode ser alterado.
o pensar, o sentimento, o querer. 'lbdavia, em mim mesmo tudo isso é Todo o caminho que percorremos deveria ser um caminho com a
coexperienciado,num sentido secundário,ao modo de uma apercep- meta cartesiana,por nós colocada, de uma Filosofia Universal, isto é, de
ção de semelhançainteiramente peculiar, é consequentementeindicia- uma Ciência Universal a partir de uma fundamentação última. Podemos
do, confirmando-se de modo concordante. Para o dizer com Leibniz, na dizer que ele conseguiu ater-se a este objetivo e, assim, vemos já que o
minha originalidade, enquanto mórzada a mim apoditicamente dada, caminho é ehtivamente viável.
espelham-se manadas alheias, e este espelhamento é uma indiciação que A vida prática quotidiana é ingênua, é um imergir no mundo pré-
se vai consequentementeconÊrmando. Contudo, o que aí se indicia - dado, experienciando, pensando, valorando, agindo. Com isso, todas as
quando realizo uma autoexplicitação fenomenológica e, com isso, uma operações intencionais do experienciar, pelas quais as coisas estão pura e
explicitação do que estáaí legitimamente indiciado - é uma subjetividade simplesmente aí, realizam-se anonimamente: aquele que experiencia não
transcendental alheia; o egotranscendental põe em si, não arbitrária, mas sabenada delas, e do mesmo modo também nada sabe do pensamento
necessariamente, um a/fer-qgo transcendental. operante; os números, os estados-de-coisas predicativos, os valores, os
Precisamente por isso se alarga a subjetividade transcendental a uma âns, as obras surgem graçasàs operaçõesocultas, edificando-se membro
intersubjetividade, a uma socialidade transcendental-intersubjetiva, que é o a membro - só os primeiros estão diante dos olhos. Nas ciências positivas
terreno transcendental para a Natureza intersubjetiva e o Mundo intersubje- veriâca-se o mesmo. Elas são ingenuidades de nível superior, conâgu-
fivo emgeríz/,e não menos para o ser intersubjetivo de todas as objectuali- rações produzidas por uma técnica teórica engenhosa, sem que as ope'
dades ideais. '; O primeiro ego, a que conduz a redução transcendental, está rações intencionais, a partir das quais tudo isso ultimamente desponta,
ainda privado da distinção entre o intencional que Ihe é originariamente tenham sido explicitadas.
próprio e o que nele é esse//zamenfodo a/fer-(KO. É, em primeiro lugar, ne- Certamenteque a ciência reivindica para si o poder de justificar
cessária uma Fenomenologia concreta bastante desenvolvida para alcan cada um dos seuspassos teóricos e repousa, em geral, sobra a crítica. A suíz
crífíca não é, porém, a crífíca ÚZfímízdo cotzhecfmenfo,
ou seja,o estudo e
18 N.T.:/dea/. a crítica das operaçõesoriginárias, o desvendamentode todos os seusho-

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl As Conferências de Paria

rizontes intencionais, crítica atravésda qual somente se poderá captar de horizontes, também todas as diíérençasde alcance,todas as relatividades
um modo definitivo o "alcance"das evidênciase, correlativamente, avaliar abstratas, terá ela, então, de chegar a partir de si mesma aos sistemas de
o sentido de ser dos objetos, das formações teóricas, dos valores e dos fins. conceitos que determinam o sentido fundamental de todos os domínios
Por aí temos, precisamente no alto nível das ciências positivas modernas, científicos. Eles são os conceitos que pré-delineiam todas as demarcações
problemas de fundamentos, paradoxos, coisasininteligíveis. Os conceitos formais da ideia-arma de um mundo possível em geral e que, por via
primifívos que, atravessandoa ciência no seu todo, determinam o sentido disso,devem ser os autênticos conceitos fundamentais de todas as ciên-
da sua esferade objetos e das suasteorias, degonfaram í/lgenuamenfe; eles cias. Para tais conceitos, não pode haver quaisquer paradoxos.
têm horizontes intencionais indeterminados, <37> são conâgurações de O mesmo é válido para todos os conceitos fundamentais que dizem
operações intencionais desconhecidas e exercidas numa grosseira inge- respeito à estrutura e à forma estrutural de conjunto das ciênciasque se
nuidade. Isto não é válido apenaspara as ciênciaspositivas particulares, referem ou se hão de reíêrir às diferentes regiões de ser.
mastambém para a Lógica tradicional, com todas as suasnormas formais. Podemos também agora dizer: na Fenomenologia apriorística e
Cada tentativa de chegar,a partir das ciências que sedesenvolveram histo- transcendental, graças à sua investigação correlativa, surgem, numa fun-
ricamente, a uma melhor fundamentação,a uma melhor autocompreen- damentação última, <38> todas as ciências apriorísticas em geral e que,
são quanto ao seu sentido e operatividade, será uma parcela de autorrefle tomadasnessaorigem, elas próprias pertencem a uma Fenomenologia
xão do cientista. SÓhá, porém, 24maautorreflexão radical, que é a fênome Universal apriorística, enquanto suas ramificações sistemáticas.Este
nológica. Autorreflexão universal e autorreílexão plenamente radical são, sistemado a priori universal é, por conseguinte, algo que deve também
contudo, inseparáveise, ao mesmo tempo, elassão também inseparáveis, ser designado como um desdobramento sistemático do a priori univer-
uma e outra, do método fenomenológico autêntico da autorreílexão sob a sal inato à essência de uma subjetividade e também, por conseguinte, de
forma da generalidade de essência.A autoexplicitação universal e essen- uma intersubjetividade transcendental, ou como o /egosuníversaJde foda
cial significa, porém, um domínio sobre todas as possibilidades ideais:9 ser concebíve/.Dito de novo: a Fenomenologia Transcendentalsistemati-
ínafas a um qo e a uma intersubjetividade transcendental. camente desenvolvida em pleno seria eo @'sea Onfo/ogía Universal verda-
Uma Fenomenologia consequentemente prosseguida constrói, por deira e aufênfíca; não apenas uma Ontologia formal e vazia, mas também,
conseguinte, a Frio?"í e, portanto, numa necessidade e generalidade de es- ao mesmo tempo, uma Ontologia que incluiria em si todas as possibilida-
sência estritamente intuitiva, as .armas de mzz?zelos
concebheís e estes, de des regionais de ser, segundo todas as correlações que Ihe pertencem.
novo, no quadro de todas as formas de ser concebíveis em geral e dos seus EssaOntologia concreta universal (ou também essauniversal Ló-
sistemas de níveis. Isto, porém, originariamente, ou seja, em correlação com gica do ser) seria,por conseguinte, o universo da Ciência em si primeira
o a priori constitutivo, o das operações intencionais que os constituem. a partir da fundamentação última. Segundo a ordem, a disciplina em si
Dado que a Fenomenologia, no seu proceder, não tem nenhuma primeira entre as disciplinas filosóficas seria a Egologia soja'sístÍcamenfe
realidade eíétiva já dada de antemão e nenhum conceito de realidade efê delimitada, e só depois viria a Fenomenologia intersubjetiva, e certamen-
uva, mas cria desdeo início os seusconceitos a partir da originariedade te com uma generalidade que trataria, desde logo, as questões universais,
da operação, ela própria captada, por sua vez, em conceitos originários, para só depois se ramiíicar nas ciências apriorísticas.
e dado que ela estádominada pela necessidadede desvendartodos os Esseízpriori universal seria, então, o.@ndamenfopara aufênffcas ci-
ências de .latose para uma autêntica Fitos($a Universal no sentido cartesiano,
].9 N.T::/dea/. uma ciência universal a partir de uma .@ndamentaçãoabsoluta. Toda a ra-

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Meditações Cartesianase Conferênciasde Parase EdmundHusserl

cionalidade do fato reside, decerto, no apriori. Ciência apriorística é ciência ®B


do principial, a que a ciência dos fatos deve recorrer para que possa,justa-
mente, tornar-se uma ciência principialmente fundamentada - apenas que
MEDI'loÇÕES CARTESIANAS
a ciência apriorística não pode ser uma ciência ingênua, mas uma ciência
que desponte a partir de antes fenomenológico-transcendentais últimas.
Finalmente, para não deixar surgir qualquer mal-entendido, quero UMAINTRODUÇÃONAFENOMENOLOGIA
indicar que a Fenomenologia exclui toda e qualquer Metafísica que opere
ingenuamente com absurdas coisas-em-si, mas não toda e qualquer Me- <43>
tafísica em geral. O Ser em si primeiro, que precede toda e qualquer obje- IKTnoDtJ('Ão
tividade mundana e que em si a transporta, é a intersubjetividade trans-
cendental, <39> o todo das manadas, comunalizando-se em dihrentes
S \. As Meditações de Descarnescomo protótipo da re$exão $tosófica
armas. Mas, no interior da esfera monádica fática, e enquanto possibili-
dade ideal de essênciapara toda e qualquer esfera monádica concebível,
Por razõesparticulares, enche-me de alegria poder falar da Feno
surgem todos os problemas da fãticidade contingente, da Morte, do Des-
menologia Transcendental neste lugar venerabilíssimo da ciência fran-
tino, da possibilidade de uma vida subjetiva que se exige que seja plena de
cesa. Porque o maior pensador francês, René Descartes, deu-lhe um
senfído, numa acepção muito particular, também o problema do sentido
novo impulso através das suas meditações. O estudo dessasmeditações
da História etc. Podemos também dizer que se trata dos problemas ético-
influenciou diretamente a transformação de uma Fenomenologia já em
religiosos, postos, porém, no terreno em que deve ser posto tudo o que
desenvolvimento numa forma nova de Filosofia Transcendental.Assim,
pode ter um sentido possível para nós.
Assim se realiza ízideia de zzmaPiloso/ía Universo/ - completamente quasese poderia denominar a Fenomenologia como um neocartesianis-
mo, por mais que ela tenha de rejeitar quase no seu todo precisamente
diíérente do que pensaram Descartes e os seus contemporâneos, guiados
por causado desenvolvimentoradical dos motivos cartesianos o bem
pela nova Ciência da Natureza - não enquanto sistema universal da teo-
conhecido teor doutrinário da filosofia cartesiana.
ria dedutiva, como se todo e qualquer ente estivesseincluído na unidade
de um cálculo, mas antes enquanto sistema de dísc@línas./ênomenoZógícas Devido a essasituação, poderei estar de antemão plenamente segu-

correZafíl'as,desenvolvidasa partir do fundamento último não do axioma ro do seu interesse se começar com aqueles motivos das Medlfafíones de
prima p/zí/osophíaque têm, como creio, um significado eterno, e se pros
qo cogífo, mas de uma autorreflexão universal.
Por outras palavras: o caminho necessárioque leva a um conheci- seguir caracterizando astransformações e reformulações por via das quais
mento fundamentado de modo último, no sentido mais elevado, ou, o que surgiram o método e a problemática hnomenológico-transcendentais.
é o mesmo, a um conhecimento filosófico, é o de um sufoco?zheclmenfo Qualquer principiante de Filosofia conhece o notável curso de pen-
u?zíversízi,
de início monádico e, de seguida,intermonádico. l:v(bOtaeauróv samento das Medífafiones. Tornemos para nós presente a ideia diretora.
- eis que estaspalavras délficas ganharam uma nova significação, Ciência A sua meta é uma completa reforma da Filosofia numa ciência baseada
positiva é ciência perdida no mundo. Deve-seprimeiro perder o mundo na fundamentação absoluta. Isto envolve, para Descartes, uma corres-
pela epoc;zépara ganha-lo de novo numa autorreflexão universal. No/í./liras pondente reforma de todas as ciências. Porque, segundo ele, estas são
íre, disse Agostinho, ín fe regi, ín ínferíore homo?zehabífaf peritas. apenas membros dependentes da Ciência Universal una e isto é a Filo-

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Meditações Cartesianas
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris e Edmund Husserl

soíia. Somente na sua unidade sistemática poderão elas tornar-se ciência ele recusa-se a deixar que algo valha como um ser se não estiver prote
autêntica. Contudo, tal como se desenvolveram historicamente, falta-lhes gido de toda e qualquer possibilidade pensável de se tornar duvidoso. A
<44> esta autenticidade da fundamentação última e total a partir de vi- respeito de tudo o que é certo na vida de experiência e de pensamento na-
sões intelectivas absolutas - visões intelectivas para lá das quais já não se turais, elerealiza, por essavia, uma crítica metódica quanto à possibilida-
de de isso ser posto em dúvida, e procura adquirir, por meio da exclusão
possa remontar. Carecemos, por isso, de uma reconstrução radical que dê
de tudo o que deixa ainda em aberto a possibilidade da dúvida, um even-
satisfação à ideia de Filosofia, enquanto unidade universal das ciências na
tual acervo de coisas absolutamente evidentes. Por estemétodo, a certeza
unidade de uma tal fundamentação absoluta. Esta exigência de recons-
trução exerce-se,em Descartes,numa âlosofia virada para o sujeito. Esta da experiência sensível, na qual o mundo é dado na vida natural, não
resiste à crítica e, por conseguinte, o ser do mundo deve, neste estádio
viragem subjetiva consuma-se em dois níveis significativos. Primeiro:
todo aquele que queira seriamente tornar-se filósofo deve, "uma vez na do começo, deixar de ser válido. Aquele que medita mantém como abso
vida': recolher-se em si próprio e procurar, dentro de si próprio, destruir lutamente indubitável - como algo que não se pode suprimir, mesmo se
todas as ciências que, até então, para ele valiam, para de novo as construir. estemundo não existisse- somente a si próprio, enquanto eEOpuro das
Filosofia - sabedoria (sagesse)- é assunto totalmente pessoal do filósofo. suas cogifafíorzes.O ego assim reduzido realiza, agora, um tipo solipsísti
Ela deveacontecercomo sua sabedoria,como sezzsaber,por si próprio co de filosofar. Ele procura caminhos apoditicamente certos atravésdos
adquirido e que continuadamente se esforça pelo universal, como um quais, da sua interioridade pura, possa abrir uma exterioridade objetiva.
saberpelo qual, desde o início, ele pode responder, em cadaum dos seus Isto sucede naquela forma bem conhecida em que, desdelogo, são pos
tas a descoberto a existência de Deus e a sua veracífas e, de seguida, por
passos, a partir das suas visões intelectivas absolutas. Se tomei a decisão
meio delas, a natureza objetiva, o dualismo dassubstânciasfinitas, numa
de viver para esta meta que só ela me pode pâr no caminho de um de-
senvolvimento íilosóíico - escolhi, então, com isso, o começo da absoluta palavra, o domínio objetivo da Metafísica e das ciências positivas e as
indigência de conhecimentos. Nestecomeço, terei manifestamente como ciências positivas elas próprias. Todos os meios de inferência sucedem,
como deveser,tendo como fio condutor princípios que são imanentesao
primeira questãorefletir sobrecomo podereiencontrarum método de
progressão, que possa conduzir-me ao saber autêntico. As meditações egopuro, que são "inatos'l

cartesianas não pretendem ser, portanto, um assunto meramente privado


do filósofo Descartes,muito menos uma simplesforma literária impres-
S 2. Necessidade de um novo começo radical da Fitoso$a
sionante para uma apresentaçãode fundamentos de Filosofia Primeira.
Pelo contrário, elas delineiam o protótipo das meditações necessárias a
todo e qualquer filósofo incipiente, somentea partir das quais poderá Até aqui, Descartes. Perguntamos agora: valerá mesmo a pena ave-

originariamente despontar uma filosofia. riguar se haverá um significado eterno nestes pensamentos, serão eles
Se nos voltarmos para o conteúdo das Meditações- tão estranho ainda apropriados para infundir forças vivas ao nosso tempo?
para nós, hoje em dia consumar-se-á, com isso, um regressoao <45> Em todo caso, dá que pensar que as ciências positivas, que deve-
egofilosofantenum segundoe mais profundo sentido,um regressoaoego riam obter uma fundamentação racional absoluta atravésdestas medita-
das cogítafionespuras Aquele que medita realiza esteregressopor meio ções,se tenham, porém, interessadotão pouco por elas.Certamente que,
do bem conhecido e muito notável método da dúvida. Dirigido de um no nosso tempo, depois de um brilhante desenvolvimento de três sécu-
modo radicalmente consequentepara a meta do conhecimento absoluto, los, elas se sentem muito entravadas no seu progresso por obscuridades

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Meditações Cartesianas
Meditações Cartesianas e Conferências de Paras' Edmund Husserl

nos seusfundamentos. Mas, quando tentam proceder à reformulação dos postos em resultados objetivamente válidos. "Resultados objetivamente
seusfundamentos, <46> a nenhuma delas ocorre retornar às meditações válidos" - isto não quer dizer, contudo, outra coisa senãoresultados que
cartesianas.Por outro lado, deve dar-se bastanteimportância a que as foram esclarecidospor meio da crítica recíproca e que, a partir daí, se
meditações tenham feito época, na Filosofa, num sentido completamen- mantêm contra qualquer crítica. Como seria, porém, possível um estu
te único, a saber, precisamente por via do seu regresso ao ego cogífo puro do e um trabalho conjunto efetivos,quando há tantos filósofos e quase
De fato, Descartes inaugurou uma filosofia de um tipo completamente tantas âlosofias? Certamente que ainda temos congressos íilosóâcos - os
novo: alterando o seu estilo de conjunto, a Filosofia assume uma vira filósofos encontram-se, mas não, infelizmente, as filosoâas. A estasfalta a

gem radical do objetivismo ingênuo para o subjetivismo transcendental, unidade de um espaço espiritual, em que pudessem ser umas para as ou-
que, em tentativas sempre novas e, contudo, sempre insuficientes, parece tras, atuar umas sobre as outras. Pode ser que as coisas estejam melhores
esforçar-sepor atingir uma forma final necessária.
Não deverá,então, no interior de "escolas"ou de "tendências" singulares; contudo, pelo fato
estacontinuada tendência trazer consigo um sentido eterno, ser para nós de existirem sob a forma da singularidade e tendo em vista a situação fi-
uma magna tarefa, que nos é imposta pela própria história e que convoca losófica do presenteno seuconjunto, as coisaspermanecem, no essencial,
tais como as caracterizamos.
a colaboração de todos nós?
A decomposição da Filosofia atual, na sua atividade desorientada, Não estaremosnós, nestedesditoso presente,numa situação geme
dá-nos que pensar. Se considerarmos a Filosofia ocidental do ponto de Ihante àquela que Descartes encontrou na sua juventude? Não estaremos,
vista da unidade de uma ciência, então, por comparação com os tempos portanto, no tempo oportuno para recordar aquele seu radicalismo de
precedentes, o seu declínio é inegável desde o meado do século passado. filósofo incipiente e também para submeter a uma subversãocartesiana
Essaunidade perdeu-se, tanto na posição da meta como na problemática essaliteratura filosóâca enorme a perder de vista, com a sua mescla de
e no método. À medida que, com o início da Modernidade, a fé religio- grandestradições, de novos começos "mais sérios': de movimentos lite.
sa cadavez mais se exteriorizava numa convençãosem vida, erguia-se rários da moda (que contam produzir efeito, não estudo), e de começar
a humanidade pensante sobre uma nova grande fé, a de uma Filosofia e com novasMedifafío/zesdeprima phí/osop/zia?Não poderá o desconforto
Ciência autónomas. A cultura humana no seutodo deveria ser conduzi- da nossa situação filosófica ser, no fundo, remetido para a circunstância
da por visões intelectivas científicas, ser iluminada por elas e, assim, ser de as forças impulsionadoras que irradiam dessasmeditações terem per-
reformada numa nova cultura autónoma. dido a sua originária vivacidade, e isso certamente porque está perdido
Entretanto, também essafé caiu na inautenticidade e definhou. Não o espírito de radicalismo da autorresponsabilidade âlosófica? Não per-
sem razão. Em vez de uma Filosofia unitária e viva, temos uma literatura tencerá, antes, ao sentido fundamental da Filosofia autêntica a exigência,
âlosóíica crescendo sem limites e quase sem coerência; em vez de uma supostamenteexcessiva,de uma filosofia montada a partir da derradeira
séria confrontação de teorias conflitantes que, porém, tornam manifesta, ausência de pressupostos que pensar se possa, de uma filosofia que se
pelo seupróprio confronto, a suasolidariedadeíntima, a sua comunida forme, numa efetiva autonomia, a partir de evidências últimas por ela
de nas convicções fundamentais e a sua íé imperturbável numa Filosofia própria produzidas, e que seja,por essavia, absolutamente autorrespon-
verdadeira, temos uma atividade de recensão e de crítica aparentesno sável?O anseio por uma Filosofia plenamente viva conduziu, nos tempos
lugar de um sério âlosofar com os outros e de uns para os outros. Não recentes,a múltiplos renascimentos.Não será,porém, o único renas-
se trata aí, de modo nenhum, de um estudo recíproco conscientemente cimento frutuoso precisamenteo que despertade novo as meditações
responsável,no espírito de um sério trabalho em conjunto <47> de olhos cartesianas:não para as adotar no seu conteúdo, mas para pâr por vez

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Meditações Cartesianas e Conferências de Parase Edmund Husserl

primeira a descoberto o sentido mais profundo do seu radicalismo no


retorno ao ego cogífo <48> e, numa consequência mais lata, os valores
eternos daí provenientes? PRIMEIRA MEDITAÇÃO
Em todo caso,com isso fica apontadoo caminho que conduziu à
Fenomenologia Transcendental.
Pretendemos, agora, fazer em conjunto este caminho, pretendemos O CAMINHO PARA O EGO TRANSCENDENTAL
meditar cartesianamente, enquanto filósofos que começam radicalmente,
com a maior precaução,naturalmente, e preparados para toda e qualquer S 3. A subversãocartesianae a ideia diretora de uma fundamentação ab
transformação das antigas meditações cartesianas.Extravios sedutores, soluto da Ciência
nos quais caíram tanto Descartescomo os seusseguidores,devem ser,
por esta via, esclarecidos e evitados. Com a decisão de filósofos que começam radicalmente, começa-
mos então, de novo, cada um por si e em si, por pâr de lado, desdelogo,
todas as nossasconvicções até agora válidas e, com isso, também todas as
nossasciências.A ideia condutora das nossasmeditações será, tal como
para Descartes, a de uma ciência a fundamentar numa radical autenti-
cidade e, derradeiramente, a de uma Ciência Universal. Mas em que fi-
camos com a indubitabilidade da própria ideia, da ideia de uma ciência
a fundamentar absolutamente,dado não podermos dispor de qualquer
ciência previamente dada como exemp]o de uma ta] [ciência] ' autêntica
(nenhuma ciência vale já para nós)? Designa ela uma ideia-final legítima,
uma meta possível de uma praxis possível?Manifestamente, também isto
é algo que não podemos pressupor, já para não falar de tomarmos de an-
temão como estabelecidasquaisquer normas para tais possibilidades ou
mesmo de nos termos de apropriar de uma forma de estilo supostamente
óbvia, a da Ciência autêntica enquanto tal. Porque, no fundo, isso seria
pressupor toda uma Lógica enquanto Doutrina da Ciência, se bem que
também esta esteja,porém, envolvida na subversãode todas as ciências.
O próprio Descartes tinha de antemão um ideal de ciência, o da Geome-
tria, correspondentemente,
o da Ciênciamatemáticada Natureza.Este
ideal determina os séculoscomo um fatal <49> preconceito, e determina
também, por não ser criticamente ponderado, as próprias meditações.

l N.T.: A palavra "ciência" está omissa no texto da Husserliana e, em consequência,


como o editor assinala,a frase parece estar truncada.

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Primeira Meditação
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husser

Para Descartes, era algo óbvio de antemão que a Ciência Universal tivesse se o nosso radicalismo não permanecer um espírito inane, mas tiver de
a forma de um sistemadedutivo, pelo qual a construção deveria repousar, nos levar à ação? Progridamos, então, pacientemente.
no seutodo, sobre um fundamento axiomático que fundamentassea de
dução. A respeito da Ciência Universal, o axioma da autocerteza absoluta
$ 4. Desvendamento do sentido anal da Ciência por imersão vivencial nela,
do ego, com os princípios axiomáticos inatos a este ego, desempenhava
um papel semelhanteao dos axiomas geométricos no caso da Geometria enquanto fenómeno noemático
apenasque estefundamento axiomático residia numa dimensão ainda
mais profunda que o da Geometria e era convocado para cooperar na Manifestamente, torna-se agora prioritário clarificar a ideia-direto-

fundamentação última deste. ra que, no começo, paira diante de nós numa generalidade vaga. Natural-
Nada disso nos deve condicionar. Como filósofos incipientes, não mente que não se trata, com isso, da formação do conceito de ciência, por
temos ainda nenhum ideal de ciência em vigor; e apenas o poderemos ter meio da abstração comparativa, com base nas ciências factuais. Reside já
no sentido de todas as nossasconsideraçõesque ciência, enquanto fato
porquanto para nós próprios de novo o criemos.
de cultura, e ciência, em sentido verdadeiro e autêntico, não sãouma e a
Contudo, não abandonamos, com isto, a meta geral de fundamen-
tação absoluta da Ciência. Ela deve, antes, motivar continuadamente a mesma coisa, ou que aquela, através da sua fatualidade, transporta con-

marcha da nossa meditação, tal como o fizera na meditação cartesiana,e sigo uma pretensão que não se certiâca, como pretensão já preenchida,
formar-se gradualmente até uma determinação concreta. Devemos, ape- precisamente na simples fatualidade. Resideprecisamente nesta preten-
nas, estar precavidos quanto ao modo como a pomos como meta - não sãoa Ciência enquanto ideia enquanto ideia de Ciência autêntica.
Como poderemos desvenda-la e capta-la? Se bem que recusemos
podemos, desde logo, pressupor nem sequer a sua possibilidade. Mas
como pode, agora, ser clarificado e também asseguradoestemodo de toda e qualquer tomada de posição a respeito da validade das ciências fáti-
posição de uma meta? cas(validade que elas pretendem), por conseguinte, a respeito da autentici-

A ideia geral da Ciência tomamo-la nós, naturalmente, das ciências dade das suasteorias e, correlativamente, da capacidade dos seus métodos
faticamente dadas. Se elas se tornaram, na nossa atitude radicalmente de teorização, nada nos impede, porém, de emergir vivencialmente no seu
esforço e no seu agir científicos e de, com isso, tornarmos para nós claro e
crítica, simples ciências presumidas,então a sua ideia final geral deve
também, no mesmo sentido, ter-se tornado uma ideia simplesmentepre distinto para onde tudo isso propriamente tende. Se assimfizermos, apro
sumida. Portanto, não sabemos mesmo se ela pode ser, em geral, realiza fundando progressivamente a intenção do esforço científico, desdobrar-se-

da. Todavia, nesta forma do ser presumido e numa generalidade indeter- bo diante de nós os momentos constitutivos da ideia-final geral de Ciência

minada e fluida, temo-la ainda e, portanto, temos também a ideia de uma autêntica, se bem que, de início, apenas numa primeira diferenciação.
Antes de todo o resto, é aqui o lugar para uma primeira clarificação
Filosofia, a saber, enquanto uma ideia de que desconhecemosse será e
como será realizável. Tomamos essaideia como uma presunção provisó- do agir judicativo e do próprio juízo, com a distinção entre juízos ímedía-
ria, que aceitamos tentativamente e que deixaremos, a título de tentame, fos e medíafos:nos juízos mediatos, reside uma referencialidade de sentido
conduzir as nossas meditações. Examinaremos ponderadamente como relativamente a outros juízos, de tal maneira que a crença judicativa acerca

pode ela ser pensada enquanto possibilidade e, de seguida, como poderia delespressupõea dessesoutros juízos - ao modo de uma crença com base
ser realizada. Seguramente que cairemos naquilo que, no início, serão em algo já acreditado; além disso, é também aqui o lugar para uma clarifi-
complicações estranhas como, porém, <50> poderiam elas ser evitadas, cação do esforço para obter juízos fundamentados, correspondentemente,

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Primeira Meditação
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris + Edmund Husserl

juízos. Dito com mais precisão, ele não quer deixar valer, perante si pró-
do agir fundamentador, em que a correção, a verdadedos juízos - ou, no prio e os outros, qualquer con;zecímentocíentz@co que não tenha funda-
caso de um insucesso, a <51> incorreção, a fãsidade -, deve ser compro' mentado perfeitamente e que, por isso, não possa ser justificado com-
vada. No caso dos juízos mediatos, esta comprovação é ela própria media-
pletamente e em qualquer momento pelo livre retorno ao ato iterável de
ta, apoiando-se naqueles juízos imediatos que estão compreendidos no fundamentação. Isto pode, debafo, permanecer uma simples pretensão;
sentido judicativo e coenvolvendo também, em concreto, a sua fundamen- em todo caso,está aí uma meta ideal.
tação. A uma fundamentação consumada uma vez, correspondentemente, <52> Uma coisa deve ser ainda destacada complementarmente: de-
à verdade por ela comprovada, podemos retornar sempre que queiramos vemos distinguir, por um lado, o juízo (no sentido mais lato de um visar
Por força desta liberdade de realização reiterada do que, com isso, está de ser) e a evidência e, por outro lado, o juízo pré-predicativo e a evidên-
consciente como uma e a mesma verdade, esta será um adquirido perma'
cia pré-predicativa. A evidência predicativa contém a pré-predicativa.
nente, ou uma possessão,e chamar-se-á,enquanto tal, conhecimento. Aquilo que é visado, correspondentemente, que é visto com evidência
Seprosseguirmos dessemodo (aqui, naturalmente, dando apenas vem à expressão,e a ciência pretende, em geral, julgar expressamentee
indicações), logo chegaremos, por via de uma explicitação mais preci- manter fixo o juízo, a verdade enquanto expressada.Mas a expressãoen
sado sentidode uma fundamentaçãoou de um conhecimento,à ideia quanto tal pode ajustar-se melhor ou pior ao que é visado e por si próprio
de evidência. Na fundamentação autêntica, os juízos mostram-se como
dado, portanto, ela tem a sua própria evidência ou não evidência, que vai
carretos,como concordantes, ou seja, a fundamentação é a concordân-
juntamente com a predicação; por isso, a evidência da expressãoé tam-
cia do juízo com a própria situação julgada (com a coisa ou o estado- bém codeterminante da ideia de verdade científica, enquanto situação
de-coisas).Dito com mais precisão: o julgar é um visar e, em geral, um
predicativa ultimamente fundamentada ou a fundamentar.
simples presumir de que seja isto e aquilo; o juízo (aquilo que é julgado)
é, então, coisa simplesmente presumida, correspondentemente, estado-
de-coisas presumido, ou visada cousal, visada de um estado-de-coisas. S 5. A evidência e a ideia de Ciência autêntica
Mas, eventualmente, contrapõe-se a isto um visar judicativo eminente
(um ter consciência disto ou daquilo julgando). Chama-se evidência. Em Continuando a meditar desta maneira e nesta direção, nós, âló-
vez de se visar remotamente uma coisa, na evidência a coisa está presente
sofos incipientes, reconhecemos que a ideia cartesiana de uma ciência
como ela própria, o estado-de-coisasestápresentecomo ele próprio - e, em suma, de uma ciência universal, a partir de uma fundamentação e
aqueleque julga tem-nos, portanto. Um julgar que simplesmente presu' justificação últimas, outra coisa não é senão a ideia que constantemente
me dirige-se, através de uma transposição consciente, para a evidência guia todas as ciências e os seus esforços para a universalidade seja como
ondente de acordo com a própria coisa ou estado-de-coisas.Esta
for que fiquemos a respeito da sua realização fatual.
transposição comporta em si o caráter do preenchimento da simples vi- No sentido mais lato de todos, evidência é a experíêrzcíade que algo
sada, o caráter da síntese do recobrimento concordante, ela é um estar
é e é assim, ela é, justamente, um fitar espiritualmente a própria coisa. O
ciente evidente a respeito da correção do que, acerca de uma coisa, fora
conflito com o que a evidência, com o que a experiência mostra, produz
antes visado remotamente.
o negativo da evidência (ou a evidência negativa) e, enquanto seu con-
Se o âzermos, deparar-se-nos-ão, então, elementos fundamentais teúdo, a falsidade evidente. A evidência, à qual pertence, de fato, toda a
daquelaideia-anal que rege o agir cientíâco no seutodo. Por exemplo, o experiência, no sentido estrito habitual, pode ser mais ou menos perfeita.
cientista não quer julgar simplesmente, mas antes fundamentar os seus
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Primeira Meditação
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl

Doutrina Geral da Ciência ou Lógica, a qual, obviamente, deverá ser aplica-


A evidência perfeita e o seu correlato, a verdade pura e autêntica, é dada
da, tanto aqui como subsequentemente': Todavia, devemo-nos precaver, jus-
como uma ideia que reside no esforço para o conhecimento, para o pre'
tamente, contra tais coisas óbvias. Sublinhámos o que já dissemos a propósi-
enchimento da intenção que visa, correlativamente, como algo a extrair
to de Descartes: tal como com todas as ciências previamente dadas, também
por imersãovivencial num tal esforço.Verdadee falsidade,crítica e ade
a Lógica sevê destituída de validade com a subversão universal. Deveremos
quação crítica à doação evidente são assuntos quotidianos, que jogam já
adquirir por nós próprios tudo aquilo que nos possa servir de ponto de par-
o seu papel, de um modo constante, na vida pré-científica. Para esta vida
tida õlosóíico. Se,mais tarde, resultará para nós uma ciência autêntica do
quotidiana, como os seusfins cambiantes e relativos, bastam evidências e
verdades relativas. A Ciência, porém, <53> procura verdades que sejam tipo da Lógica tradicional, é coisa que não podemos agora saber.
Com este trabalho preliminar mais indicado de um modo apro-
e que permaneçam válidas de uma vez por todas e para qualquer um; em
ximativo <54> do que explicitamente prosseguido -, ganhamos clarida
conformidade com isso, ela busca conârmações de um novo tipo, que
de bastante para que possamos fixar um primeiro princ@ío mefodoZógfco
sejam levadas até o âm. Mesmo quando a Ciência, como ela deve por
para todo o nossoprocedimento posterior. É manifesto que eu, enquanto
âm perceber, não chega delafo à realização de um sistema de verdades
absolutase sevê na necessidade
de modificar semprede novo as suas principiante íilosó6co, esforçando-me por atingir a meta presumida da
Ciência autêntica, não poderei, para ser consequente,fazer nem deixar
verdczdes,ela segue,porém, precisamente a ideia da verdade absoluta ou
cientificamente autêntica e vive, de acordo com isso, num horizonte in- valer nenhum juízo que eu não tenha formado a partir da evidência, a
partir das experiências em que a coisa ou o estado-de-coisas em questão
finito de aproximações que se esforçam por atingi-la. Com isto, ela visa
estão para mim presentes enquanto elespróprios. Certamente que devo
superar não apenaso conhecimento quotidiano, mastambém a si própria
sempre reíletir sobre a evidência respectiva, examinar o seu alcance e tor-
ín ínÚnífz4m; isto acontece também por ela ter em vista a universalidade
sistemáticado conhecimento, estejaesta referida a um qualquer domínio nar para mim próprio evidente até onde ela se estende, até que ponto se
científico fechado ou a uma pressuposto unitotalidade do ente enquanto estende a sua perfeição, a efetiva autodoação da própria coisa. AÍ onde ela

tal, no caso de ser possível uma Filosofia e de esta estar em questão. Ten- falha, não poderei reivindicar qualquer validade final e, no melhor dos
do em conta a sua intenção, pertence, portanto, à ideia da Ciência e da casos,devo pâr o juízo na conta de um estádio intermédio possível no
Filosofia uma ordem de conhecimento indo dos cofzhecímenfosem sl pri- caminho que conduz a essavalidade anal.
Porque as ciênciastendem para predicaçõesque exprimam de um
meiros pczra os conhecimentos em sl posteriores; derradeiramente, portan-
modo completo e num ajuste evidente o que foi pré-predicativamente
to, um começo e uma progressãoque não seja suscetívelde uma escolha
visto, será compreensívelque nos preocupemos também com esteaspec
arbitrária, mas que se fundamente na naturezadas próprias coisas.
Dessemodo - através da imersão vivencial meditativa na generali- to da evidência científica. Devido à instabilidade, à plurivocidade da lin-
guagem comum e também à sua excessivaparcimónia no que diz respei-
dade do esforço científico - desvendam-se-nosos elementos capitais da
ideia-final de Ciência autêntica, que domina esteesforço de uma maneira to à completude da expressão,é necessário,mesmo quando são usados
os seusrecursos expressivos,uma nova fundamentação dassignificações,
ainda vaga no início, sem que nós, a respeito da sua própria possibilidade
por meio da originária orientação das expressõespelas visões intelectivas
ou do caráter supostamente óbvio de um tal ideal de ciência, tenhamos
cientificamente geradas e pela sua fixação ârme a estas significações. Po
estabelecido já de antemão qualquer pressuposição
mos também isto na conta do nosso princípio metódico da evidência, o
Aqui, não podemos dizer o seguinte:"Para que nos importunarmos
qual deve, a partir de agora, dar a norma de um modo consequente.
com tais investigações e veriâcações? Manifestamente, elas pertencem à

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Primeira Meditação
Meditações Cartesianas e Conferências de Paras+ Edmund Husserl

componentescovísados epré-visados que não são preenchidos. A perfecti-


Mas como nos ajudaria esteprincípio, e toda a meditação que de
bilidade consuma-se, então, como progressão sintética de experiências
senvolvemosaté aqui, se ele não nos fornecessequalquer utensílio para
concordantes, nas quais esseselementos covisados chegam à experiência
proceder a um efetivo começo, a saber, para põr a ideia de Ciência autên-
preenchente efetiva. A correspondente ideia de perfeição seria a da evi-
tica na via da realização?Dado que a estaideia pertence a forma de uma
dência adeqzzada,coisa em que frequentemente permanece em aberto se
ordenação sistemática dos conhecimentos conhecimentos autênticos
ela,por questõesde princípio, não reside no infinito.
daí resulta, então, enqua?zfoqziesfãodo começo,a demanda dos conhe-
Sebem que essa ideia dirija constantemente o intento do cientista,
cimentos em si primeiros, que devem suportar no seu todo o edifício de
uma outra perfeição da evidência tem, contudo, para ele (como podere-
vários níveis do conhecimento universal. Sea nossameta presuntiva deve
mos verificar por meio da mencionada imersão vivencial nesseintento)
poder ser uma meta possível do ponto de vista prático, nós, que medita-
uma dignidade mais elevada, a saber, a da apodíficidade; ela pode surgir
mos na nossa completa indigência de conhecimento científico, devemos,
também, eventualmente, nas evidências inadequadas. Ela é uma indubi-
por isso, ter acessoa evidências que já tenham em si o selo de uma tal
tabilidade absoluta num sentido inteiramente determinado e peculiar - a
vocação, <55> na medida em que sejam reconhecíveis como precedendo
indubitabilidade absoluta que o cientista pede a todos os princ@íos e cujo
todas as outras evidências que se possaimaginar. Mas elas deverão tam-
valor mais alto se patenteia no seu esforço de, relativamente aos funda-
bém possuir uma certa perfeição, deverão trazer consigo uma segurança
mentos já evidentes em e por si mesmos, <56> fundamenta-los uma vez
absoluta a respeito dessa evidência da sua precedência relativamente a
mais, a um nível mais elevado, pelo regresso a princípios, conferindo, por
todas as outras, se, a partir delas, a progressão e a construção de uma
essavia, a essesfundamentos a dignidade suprema da apoditicidade. O
ciência, sob a ideia de um sistema de conhecimentos com uma validade
caráter fundamental da apoditicidade deve ser assim caracterizado:
definitiva - com a inanidade presumida que pertence a esta ideia -, de-
Toda e qualquer evidência é autocaptaçãode um ser ou de um ser-
vem poder ter um sentido.
assim no modo "ele próprio': na plena certeza acerca deste ser, a qual, por-
tanto, exclui qualquer dúvida. Daí não se segue,porém, que ela exclua a
possibilidade de que o evidente se possa tornar posteriormente duvidoso,
S 6. Diferenciação da evidência. A exigência .$!os(5$cade uma evidência
que o ser se possa expor como aparência, possibilidade para a qual a expe
apodítica e em si primeira
riência sensível nos fornece já exemplos. Esta possibilidade em aberto de
se tornar duvidoso, correspondentemente, do possível não ser apesarda
Contudo, aqui, neste ponto decisivo do começo, devemos, medi-
evidência, deve poder ser sempre reconhecida de antemão através de uma
tando, penetrar mais profundamente. O discurso sobre certezaabsoluta
reflexão crítica sobre a operatividade da evidência. Mas uma evidência
o que é o mesmo, sobre índubífabíiidade absoluta, carece de clarifica-
apodítica tem a peculiaridade notável de não ser em geral, apenase sim-
ção. Esta leva-nos a dar atenção ao fato de que, numa explicitação mais
plesmente, uma certeza de ser acerca das coisas ou dos estados-de-coisas
precisa, a idealmente exigida perfeição da evidência se torna diferencia-
nela evidentes, mas de se revelar ao mesmo tempo, pela reflexão crítica,
da. No presente nível inicial da meditação filosófica, temos a infinidade
como a absoluta impensabilidade do seu não ser; que ela, portanto, de an
ilimitada das experiênciaspré-científicas, das evidências: elas são mais
temão exclui como algo sem objeto qualquer dúvida que possamos con-
ou menos perfeitas. Imperfeição signiÊca, aí, em regra, incompletude,
ceber.Além disso, a evidência desta reflexão crítica tem a dignidade de
unilateralidade, relativa obscuridade, indistinção na autodoação da coi-
ser apodítica, portanto, tem-no também a evidência acerca da existência
sa ou do estado-de-coisas,por conseguinte, afetaçãoda experiência com
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Primeira Meditação
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris e Edmund Husserl

a todas as evidênciasda vida voltada para o mundo e de todas as ciências


desta impensabilidade do não ser do que reside na certeza evidente, e o
- das quais ela é o fundamento que constantemente as suporta -, depres-
mesmo para toda e qualquer reflexão crítica de nível superior.
sa âcamos na dúvida sobre se ela poderá reivindicar, nesta sua função,
Recordemo-nos, agora, do princípio cartesiano da absoluta indu-
um caráter apodítico. E, quando prosseguimos com esta dúvida, torna-
bitabilidade, pelo qual deveria ser excluída, enquanto princípio para a
se visível que essaevidência também não poderá reivindicar a prerro-
edificação da Ciência autêntica, qualquer dúvida concebível e mesmo
gativa de ser a evidência absolutamente primeira. No que diz respeito
toda e qualquer dúvida relato que não tivessefundamento. Se, por via
ao primeiro ponto, a experiência sensível universal, em cuja evidência
desta nossa meditação, obtivemos esseprincípio numa forma mais clara,
o mundo nos é constantemente dado de antemão, não deve ser tomada,
pergunta-se,agora, se e como nos poderá ele auxiliar para realizarmos
sem mais, como uma evidência apodítica em que fosse absolutamente
um efetivo começo. De acordo com o que foi dito, formula-se, como uma
excluída a possibilidade de que se tornasse duvidoso que o mundo fos-
pergunta da Filosofia incipiente só agora determinada, sehaverá para nós
se efetivamente, ou seja, a possibilidade do seu não ser. Não é apenas
evidências patenteáveis que, como deveremos presentemente dizer, por
cada coisa singular experienciada que pode sofrer uma desvalorização,
um lado tragam consigo apoditicamente a visão intelectiva de que pre-
cedem todas as evidências concebíveis enquanto em si pz"ímeírase, por enquanto aparência dos sentidos, mas também o todo da experiência co-
nectada,unitariamentevisível de um modo sinóptico, pode mostrar-se
outro, também se possaver que são elaspróprias apodíticas; seelas forem
como uma aparência,como um sonho coerente.Não poderemostomar
inadequadas, então deverão ter, no mínimo, um teor apodítico reconhe-
a indicação destas inversões, possíveis e reais, da evidência como uma
cível, um teor de ser que, por força da apoditicidade, esteja firmemente
crítica suficiente da evidência e, assim, ver nelas uma prova completa de
asseguradode uma vez por todas. Certamente que o como <57> e mesmo
que é concebível a possibilidade de um não ser do mundo, apesarde este
o seserá possívelir mais além na ulterior edificaçãode uma Filosofia
ser constantemente experienciado. Retemos apenas que, para a finalidade
apoditicamente asseguradaserá coisa que deveficar para czlraposterior.
de uma fundamentação radical da ciência, a evidência da experiência do
mundo carece, primeiro, de uma crítica da sua validade e do seu alcance,
e que, portanto, não podemos, sem questão, <58> toma-la como sendo
S 7. A evidência acerca da existência do mundo não é apodÍtica; sua inclu-
são nasubversão cartesiana imediatamente apodítica. Para isso, não basta pâr fora de validade todas
asciências que nos são previamente dadas, trata-las como se fossem para
nós preconceitos inadmissíveis. Também ao seu terreno universal, o do
A pergunta sobre as evidênciasem si primeiras parecepoder re-
solver-se sem diâculdade. Não se oferecerá a existência de um mundo, mundo da experiência, deveremos nós retirar a validade ingênua. O ser
do mundo, com basena evidência da experiência natural, não poderá
sem mais, como uma tal evidência? A vida atava quotidiana refere-se ao
mais ser, para nós, um fato óbvio, mas deverá antes ser, ele próprio, um
mundo, a ele se referem também todas as ciências,imediatamente as ci-
ênciasde fatos e mediatamente, como instrumentos do método, as ciên- simples fenómeno de validade.
Será que, quando mantemos essaatitude, resta ainda para nós, em
cias apriorísticas. Antes de tudo o mais, o ser do mundo é por si mesmo
geral, um terreno de ser para quaisquer juízos, para não falar de evidên-
óbvio - tanto que ninguém pensaráem enuncia-lo expressamentepor
cias em torno das quais se poderia fundamentar, apoditicamente aliás,
uma proposição. Temos, aânal, a experiência continuada, pela qual este
mundo está incessantementediante dos nossos olhos como sendo in- uma Filosofia Universal? Não será o mundo o título para o universo do
que é em geral? Poder-se-ia, portanto, evitar tomar como primeira tarefa
questionavelmente.Mas, por mais que esta evidência seja em si anterior
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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl Primeira Meditação

ífz extensoessacrítica da experiência do mundo que foi apenasindicada por parte deste fenómeno, e seja como for que eu me decida criticamente
acima? E, no caso de se confirmar o resultado que antecipadamente su- pelo ser ou pela aparência, ele, enquanto meu fenómeno, não é, porém,
pusemos para esta crítica, não âcaria, então, frustrado todo o nosso pro' nada, mas antes precisamente aquilo que torna, em geral, para mim pos-
PÓsitofilosófico? Mas como ficaríamos se o mundo não fosse, ao fim ao sível uma tal decisão crítica e que, portanto, também torna possível o que
cabo, o terreno absolutamente em si primeiro dos juízos e se, com a sua tem, para mim, sentido e vali.dade enquanto ser t,erdadeíro - já decidido
existência, não estivesse já pressuposto um terreno de ser em si anterior? de um modo deânitivo ou para decidir. E mais: se me abstenho,como em
liberdade o posso fazer e de fato o faço, de toda e qualquer crença de ex-
periência, de tal maneira que o ser do mundo da experiência permaneça,
S 8. O ego copito como subjetividade transcendental para mim, fora de validade, este abster-me é ainda, todavia, aquilo que é,
e ele é juntamente com a corrente inteira da minha vida de experiência.
Fazemos aqui, neste momento, seguindo Descartes, a grande reversão E certamenteque estavida estápara mím constantementeaí enquan
que, consumada da maneira correta, conduz à subjetividade transcenden- to ela própria está constantemente consciente de modo perceptivo, num
tal: a volta para o qo cogífocomo terreno último e apoditicamente certo de campo de presente, na mais primitiva originalidade; na recordação, ora
juízos, no qual toda e qualquer Filosofia radical deve ser fundamentada. estas, ora aquelas coisas passadas estão outra t'ez conscientes, e isso im
Reflitamos. Enquanto filósofos que meditam radicalmente, não te- placa:conscientes enquanto as próprias coisaspassadas.A cada momento
mos, agora, nem uma ciência que sejaválida para nós, nem um mundo posso,refletindo, dirigir um olhar atento particular para estavida origi-
que exista para nós. Em vez de ser pura e simplesmente, ou seja, em vez de nária. Posso captar o presente como presente, o passado como passado,
valer para nós de modo natural na crença de ser da experiência, o mundo tal como ele próprio é. Assim o faço agora, enquanto eu que reflete e que
é, para nós, apenasuma simples pretensãode ser.Isto diz também respei- exerce a mencionada abstenção.
to à existênciaintramundana de todos os outros eus,de tal modo que não De certo modo, o mundo experienciado nesta vida que reílete per-
deveríamos mais falar propriamente no plural comunicativo. Os outros manece,com isso, aí para mim, como mundo experienciado, tal como
homens e os animais só são para mim dados da experiência em virtude antes, precisamente com o seu teor respectivo. Ele continua a aparecer tal
da experiência sensível dos seus somas corporais,: experiência de cuja como apareciaantes,apenasque eu, como alguém que reflete filosofica-
validade, enquanto algo que estáposto em questão,não me poderei ser- mente, não mantenho mais em execução,em validade, a crença natural
vir. Juntamentecom os outros, perco eu, naturalmente, <59> também as de ser que é característica da experiência, se bem que essacrença esteja,
formações da sociabilidade e da cultura no seu todo. Numa palavra, não porém, ainda aí e sejaconjuntamente captada pelo olhar da atenção.Para
apenasa Natureza corpórea, mas também o inteiro mundo circundante lá das visadas que são experiência do mundo, o mesmo se passa com
concreto da vida será doravante, para mim, em vez de algo que é, apenas todos as restantesvisadas que pertencem à minha corrente de vida, com
fenómeno de ser. Mas, seja qual for o desenlace da pretensão à realidade asminhas representaçõesnão intuitivas, juízos, atitudes valorativas, deci-
sões,posições de fins e de meios etc., e particularmente com as tomadas
de posição nelas necessariamente atestadas quando estou nas atitudes da
2 N.T.: Kórper//che l-eib. Traduzimos invariavelmente l-e/b por soma e Kõrper por cor- vida natural, irrefletida, não filosóâca - na medida em que estaspressu-
po. Seguimos, neste ponto, uma sugestão do próprio Husserl, que designa a ciência
do l-e/ó por Somado/og/e(somatologia), em /deen 111, $ 2, Hua IV...bem como os usos põem, em geral, precisamenteo mundo e, portanto, encerram em si uma
que faz, em vários manuscritos, da palavra grega soma como equivalente de l.e/b. crença de ser a respeito do mundo. Também aqui, a <60> abstenção por

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paras' Edmund Husserl Primeira Meditação

parte do eu que reflete filosoficamente, o põr fora de validade as tomadas to, não posso imergir valorativamente ou ativamente em nenhum outro
de posição, não signiâca o seudesaparecimentodo seucampo de experi- mundo senão naquele que tem em mim próprio e a partir de mim próprio
ência. As vivências concretasem questão são,dizemo-lo de novo, aquilo o seusentido e validade. Se me coloco por sobre esta inteira vida e <61>
para que está dirigido o olhar da atenção,só que o eu atento, enquanto me abstenho de toda e qualquer consumação de uma qualquer crença de
eu íilosóíico, exerce a abstenção a respeito do que é intuído. Também ser,que toma diretamente o mundo enquanto existente - se dirijo exclu-
tudo aquilo que, nas vivências dessetipo, era visado numa consciência sivamenteo meu olhar para estaprópria vida, enquanto consciênciado
de validade ou seja, o correspondente juízo, a teoria, o valor, o âm etc. mundo, então aproprio-me de mim próprio enquanto egopuro, com a
-, mantém-se completa e plenamente, apenascom esta modiâcação de corrente pura das suas cogífafiones.
validade: símp/eslenómeno. Assim, o ser do egopuro e das suas cogífízfíonesprecede,de fato, o
Este universal pâr fora de validade ("inibir': "põr fora de jogo") to- ser natural do mundo - daquelede que somente falo e posso falar - como
das as tomadas de posição perante o mundo objetivo pré-dado e, assim, um ser em si anterior. O terreno de ser natural é, na suavalidade de ser,
desde logo, as tomadas de posição de ser (as tomadas de posição a respei- secundário,ele pressupõeconstantemente o terreno de ser transcenden-
to do ser, da aparência, do ser de modo possível,suposto, do ser provável tal. O método fenomenológico fundamental, o da êvoxá transcendental,
e semelhantes)- ou, como também se costuma dizer, esta êxoXrl Jelzo- na medida em que reconduz ao terreno do ser transcendental, chama-se,
meno/ógícaou estepór entrepczrênfeses o mundo objetivo - não nos põe por isso, redução transcendental-fenomenológica.
perante um nada. Ao contrário, aquilo de que nos apropriamos precisa-
mente por isso ou, mais claramente, aquilo de que eu, aquele que medita,
por isso mesmo me aproprio é da minha vida pura com todas as suas S 9. Alcance da evidência apodÍtica do "eu sou
vivências e todas as suas coisas visadas, enquanto puramente visadas, o
universo doslerzóme?zos no sentido da Fenomenologia. A êvoxá é, tam- A próxima pergunta será se esta redução torna possível uma evi-
bém se pode dizer, o método radical e universal por via do qual eu me dência apodífíca do ser da subjetividade transcendental. Apenas se a ex-
capto puramente como eu, com a vida de consciência que me é própria, periência de si próprio for apodítica poderá ela servir de subsolo para
na qual e atravésda qual o mundo objetivo no seu todo é para mim e, juízos apodíticos; só então estará à nossa disposição o prospecto de uma
dessemodo, precisamentetal como ele é para mim. Todo e qualquer ser Filosofia, de uma construção sistemática de conhecimentos apodíticos
mundano, espaço-temporal, é para mim - isso significa: vale para mim, e a partir do campo das experiências e dos juízos em si primeiros. Que o
certamente porquanto o experiencio, percepciono, dele me recordo, nele egoszlm, correspondentemente,o sum cogífa?zs, deva ser apoditicamente
penso de algum modo, o ajuízo, valoro, desejo etc. Como é bem sabido, enunciado, que nós, portanto, tenhamos debaixo dos pés um primeiro
Descartes designou tudo isto pela palavra cogffafío. O mundo não é para terreno de ser apodítico, isto, como é sabido, foi o que Descartesviu,
mim, em geral, outra coisa senão um ser que, num tal cogífo, está cons- pois tanto sublinhou a indubitabilidade dessaproposição como também
ciente e vale para mim. Ele retira em exclusivo de tais cogífafíonestodo que o próprio ezlduvido pressupõejá um eu sou. Trata-se com isso, tam
o seusentido, universal e específico,bem como a validade de ser. Nestas bém em Descartes, daquele eu que está ciente de si mesmo depois de ter
cogífaffonesdecorre a minha vida mundana no seu todo, a que pertence posto fora de validade o mundo da experiência, enquanto possivelmente
também a minha vida de investigação científica e de fundamentação. Eu duvidoso. De acordo com as nossasprecisões, é claro que o sentido da
não posso imergir vivencialmente, experiencialmente, pelo pensamen- indubitabilidade em que o egoacedeà doação, atravésda redução trans-

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl Primeira Meditação

cendental, corresponde efetivamente ao conceito de apoditicidade que que Ihe está ligado. O ser efetivo do terreno de conhecimento em si pri-
expusemosanteriormente. Certamente que, com isso, não estáainda de- meiro é, assim, decerto, absolutamente verificado, mas não o é, sem mais,
cidido o problemada apoditicidadee, com ele, o problemado primei- aquilo que determina o seu ser de um modo mais preciso e aquilo que,
ro fundamento e do terreno para uma Filosofia. Surgem imediatamente durante a evidência viva do eu sou, não está ainda ele próprio dado, mas
dúvidas. Por exemplo, não pertencerá inseparavelmenteà subjetividade é apenas presumido. Esta presunção, coimplicada na evidência apodítica,
transcendental o seu respectivo passado,que estáapenasdisponível por está,portanto, sujeita, a respeito da possibilidade do seupreenchimento,
meio da recordação?Mas poderá <62> reclamar-separa a recordação à crítica quanto ao seu alcance,que pode ser apoditicamente delimitado.
uma evidência apodítica? Seria certamente despropositado querer negar, Quão longe pode o eu transcendental enganar-se sobre si próprio e quão
por causa disso, a apoditicidade do ezzsou, coisa que só seria possível se, longe se estendem os elementos absolutamente indubitáveis, apesar des-
argumentando de um modo exterior, falássemossobre essaapoditicidade te engano possível?Ao estatuir o ego transcendental, ficamos, em suma,
a distância e, portanto, também a olhássemosa distância. Mas, em vez num <63> ponto perigoso, mesmo quando não temos desde o início em
disso, deve o problema do alcance da nossa evidência apodítica tornar-se, consideraçãoas difíceis questõesacercada apoditicidade.
agora, uma questão candente.
Recordamos aqui uma observação anterior, a saber, qzzea adequa-
ção e a apodífícidade de uma evidência não têm de andar de mãos dadas S 10. Excürso. Ojalhanço de Descartes na viragem transcendental
- talvez que esta observação tenha sido feita precisamente para o caso da
autoexperiência transcendental. Nela, o ego é originariamente acessível Seguindo Descartes, parece bem fácil captar o eu puro e as suas
para si próprio. Mas esta experiência oferece, de cada vez, apenas um nú- cogífafíones.No entanto, é como se tivéssemos chegado, aqui, a um cume
cleo de coisas que são propriamente experienciadas de modo adequado, a íngreme, em que prosseguir lentamente e de modo seguro decidisse da
saber,o presente vivo próprio, que o sentido gramatical da proposição ego vida ou da morte íilosóíica. Descartestinha uma vontade seriíssimade
cogífo expressa, enquanto, por sobre isso, apenas se alcança um horizonte uma ausência radical de preconceitos. Sabemos,porém, através de no-
indeterminadamente geral, presuntivo, de coisaspropriamente não expe- vas investigações, e particularmente das belas e profundas investigações
rienciadas, mas necessariamentecovisadas. A estehorizonte pertence não de Gilson e de Koyré,' o quanto há de Escolástica escondida, como um
só o passadopróprio, na maior parte dos casoscompletamente obscuro, preconceito não esclarecido,nas À4edífaçõesde Descartes. Mas isto não
mas também as faculdades transcendentais e as propriedades habituais é tudo; desdelogo, devemos afastar de nós o preconceito já acima men-
que, de cada vez, pertencem ao eu. Também a percepção externa (que, cionado, nascido de um deslumbramento com a Ciência matemática da
sem dúvida, não é apodítica) é certamente uma experiência da própria Natureza e que a nós próprios nos determina como uma herança anta
coisa - e/a própria se nos depara -, mas, neste deparar-se próprio, tem a ga, segundo o qual, sob o título do ego cogífo, se trataria de um axioma
coisa,para aquele que a experiencia, um horizonte geral aberto, infinito apodítico que, em união com outros axiomas a exibir e, eventualmente,
e indeterminado, de elementosque não são elespróprios propriamente
percepcionados,e tem-no certamentecomo um horizonte - tal reside aí 3 N.T.: Husserl refere-se certamente às seguintes obras: Étienne Gilson, Études sur
le rale de la pensée médíévale dons la formaüon du systême cartésien. Paí\s=Vr\n,
enquanto presunção - a destrinçar por meio da experiência possível. Algo
1930, e A\exaí\dre Koyré, Essassur I'idée de Doeu et les preuves de son existence
semelhante corresponde à certeza apodítica da experiência transcenden- chez l)escartes. Paras:Leroux, 1922. Alexandre Koyré tinha sido aluno do próprio
tal do meu eu sozltranscendental,na generalidadeabertado horizonte Husserl no final da primeira década do século XX, em Gotinga.

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl Primeira Meditação

com hipótesesfundamentadasindutivamente, tivessede dar o funda- mente sempreaí para mim, não é um pedaço do mundo, e se ele diz: "eu
mento para uma ciência do mundo que explicassededutivamente, para sou, ego cogífo'l então isto já não significa mais: "eu, este homem, eu sou'l
uma ciência nomológica, uma ciência ordenegeomefríco,precisamente Eu já não sou aquele que se encontra já de antemão enquanto homem na
semelhante à Ciência matemática da Natureza. Em conexão com isto, não experiência natural de si próprio, aquele homem que, na limitação abstra
pode de modo nenhum admitir-se como algo óbvio que nós, no nosso uva à consistência pura da experiência interna de si, da experiência pura-
ego puro e apodítico, fezzhamossaZt,ado um pedaci zho do mundo, como mente psicológica, encontrajá de antemão o seu próprio menusfve animus
se fosse a única coisa inquestionável para o eu que filosofa e como se se síve infe//ecfus puro, ou seja, a própria alma, para si mesma captada em
tratasse agora, através de cadeias dedutivas bem conduzidas a partir dos separado. Apercebido deste modo natural, eu e todos os restantes homens
princípios inatos ao ego,de inferir o restante do mundo. seremos temas das ciências positivas ou objetivas, no sentido comum, da
Infelizmente, é isso que se passaem Descartes com a viragem, sin- Biologia, da Antropologia e, enquanto incluída nestas,também da Psico-
gela mas fatal, que faz do ego uma subsfanf/acogífa?zs,
um menusíveaní- logia. A vida anímica, de que fala a Psicologia, é e semprefoi entendida
mus humano separado, e um ponto de partida para inferências segundo o como vida anímica no mundo. Isto é manifestamentetambém válido para
princípio causal, numa palavra, a viragem pela qual ele se tornou o pai do a vida anímica própria, que é captada e considerada na experiência inter-
contrassenso (que não podemos ainda tornar visível) do Realismo Trans na pura. A êvoxá fenomenológica, porém, que exige àquele que filosofa
cendental. Ficaremos bem afastados de tudo isto se permanecermos fiéis o percurso pelas meditações cartesianaspuriíicadas, inibe a validade de
ao radicalismo da reflexão e, com isso, ao princípio da pura intuição ou ser do mundo objetivo e o exclui, com isso, completamente do campo do
evidência, por conseguinte, se não conferirmos aqui validade senão àqui- juízo, excluindo também, assim,a validade de ser dos fatos objetivamente
lo <64> que nos foi desdelogo e imediatamente dado no campo do ego apercebidose também dos fatos da experiência interna. Para mim, para
cogífo - que nos foi aberto pela êxoXrl e se não úzermos asserçõessobre o eu que medita, que está e permanece na évoXÚ, <65> que põe a si pró-
aquilo que nós próprios não vemos.Descarteserrou a esterespeito,e é prio exclusivamentecomo/undamenfo de validação de toda e qualquer
assim que ele se quedou diante da maior de todas as descobertas e a rea- validade e fundamento objetivos, para mim não há, portanto, nenhum
lizou mesmo, de certo modo - sem, contudo, captar o seu sentido próprio, eu psicológico, nenhum fenómeno psíquico, no sentido da Psicologia, a
portanto, o sentido da subjetividade transcendental; assim, não transpôs a saber,como componentesdo homem psicofísico.
porta de entrada que conduz à autêntica Filosofia Transcendental. Através da êToxá fenomenológica, reduzo o meu eu natural hu-
mano e a minha vida anímica - o domínio da minha aufoexperiêncía
psícoZógíca- ao meu eu fenomenológico-transcendental, ao domínio da
S 11. 0 eu psicológico e o eu transcendental. A transcendência do mundo czz4foexperlêncíalenomenoZógíco-
franscendenfa/. O mundo objetivo, que é
para mim, que para mim era e há-de ser, o único que para mim pode ser,
Se eu, aquele que medita, mantenho puramente o que surge diante com todos os seus objetos, ganha a partir de mim próprio, digo eu, todo o
do meu olhar através da livre êvoXÓ a respeito do ser do mundo da experi- sentido e validade de ser que tem de cada vez para mim, a partir de mim
ência, o fato mais significativo será que eu e a minha vida permanecemos enquanto aqueleeu transcendental que entra em cena, por vez primeira,
intocados na nossa validade de ser, seja o que for que se passecom o ser precisamente com a êvoXr} transcendental-fenomenológica.
ou o não ser do mundo, sejao que for que eu possadecidir sobre isso. Este Esteconceito do transcendental, bem como o conceito, seucorreia
eu e a sua vida egoica, que, em virtude de uma tal êxoXrl, está necessaria- uivo, do transcendente, deve ser haurido exclusivamente a partir da nossa

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris. Edmund Husserl

situação meditativa âlosófica. Deve tomar-se aqui em conta o seguinte:


do mesmo modo que o eu reduzido não é um qualquer pedaço do mun-
do, também, inversamente, o mundo e qualquer objeto mundano não são <66> SEGUNDA MEDITIAÇAO
um pedaço do meu eu, algo que se possa encontrar realmente4 na minha
vida de consciênciacomo uma parte real; sua, como um complexo de
dados de sensação ou de atos. Esta transcendência pertence ao sentido ABERTURA DO CAMPO DE EXPERIÊNCIA TRANSCENDENTAL
próprio de tudo o que é mundano, se bem que este sentido, que determi- SEGUNDOAS SUASESTRUTURAS UNIVERSAIS
na no seu todo o que é mundano, com a sua validade de ser, só o adquira
ele e só o possaadquirir a partir do meu experienciar, do meu respectivo
S 12. Ideia de uma fundamentação transcendental do conhecimento
representar,pensar, do meu valorar, do meu agir - e também o eventual
ser válido com evidência só se adquire a partir dasminhas próprias evi-
A nossa meditação precisa, agora, de um aperfeiçoamento ulterior,
dências, a partir dos meus atou de fundamentação. Se esta fríznscendê?zela,
que nos possa por vez primeira trazer os corretos benefícios do que foi
que consiste num estar irrealmente' contido, pertence ao sentido próprio
até aqui exposto. Que posso eu (aquele que medita de modo cartesia-
do mundo, então se chama ao próprio eu que a transporta em si como
no) iniciar filosoficamentecom o egotranscendental?Certamenteque,
sentido válido, e que está necessariamente pressuposto por este sentido,
do ponto de vista do conhecimento, o seu ser precede,para mim, todo e
franscendenfa/no sentido fenomenológico; os problemas filosóâcos pro-
qualquer ser objetivo: em certo sentido, ele é o fundamento e o terreno
venientes desta correlação chamam-se, correspondentemente, problemas
onde se desenrola o conhecimento objetivo no seu todo. Mas pode esta
fenomenológico-transcendentais.
precedência querer dizer que ele é, no sentido comum, o fundamento
gnosiológico para o conhecimento objetivo no seu todo? Não que nós
queiramos abandonar a grande ideia cartesianade procurar na subjetivi-
dade transcendental a fundamentação mais profunda de todas as ciências
e mesmo do ser de um mundo objetivo. Nessecaso,não teríamos seguido
os caminhos da sua meditação, mesmo que com modificações críticas.
Mas talvez que se abra, com a descoberta cartesiana do ego transcenden-
tal, também uma nova ideia de/undamenfação do conhecimento,a saber,
enquanto fundamentação transcendental. De fato, em vez de querer utili-
zar o ego cogífo como premissa apoditicamente evidente para conclusões
que supostamente nos conduzem a uma subjetividade transcendente, de-
veremos dirigir o nosso olhar atento para o que a êxoXÓ fenomenológica
abre(a mim, o filósofo que medita): uma esferainfinita de ser de um tipo
4 N.T.:Ree//. novo, enquanto esfera de uma experiência de tipo novo, a experiência
5 N.T.:Ree//. transcendental. Tomemos isto em consideração: dado que a cada tipo
6 N.T.:/ree//.
de experiência efetiva e seus modos gerais de modificação - percepção,

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Segunda Meditação
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husser

retenção,recordação iterativa etc. - pertence uma fantasia pura corres- acessívelatravésde uma possível autoexperiência, que pode ser apertei
pondente, uma experiênciano comose,com modos paralelos (uma como çoada e, eventualmente, enriquecida ao inÊnito.
que percepção,uma retençãono modo do como se,uma como que re-
cordação iterativa etc.), ficamos na expectativa de que haja também uma
ciência apriorística que se mantenha no domínio da possibilidade pura S 1.3.Necessidade de se começar por excluir o problema do alcance do co
nhecimento transcendental
(do puro representável,fantasiável) e que, em vez de julgar acerca das
efetividades do ser transcendental, julgue antes acerca das suas possibi-
lidades apriorísticas e que, com isso, ao mesmo tempo prescreva a priori Expor isto efetivamente seria a magna far(;áade z.zmíz
crífíca da azz-
regras para a sua efetividade. [oexperíêncía fransce?zdenfaZ,segundo as suas formas singulares, que se

<67> Contudo, se deixarmos deste modo os nossospensamentos enlaçam umas nas outras, <68> e a sua operatividade de conjunto, que se
avançaraté a concepçãode uma ciência fenomenológicaque deveria realiza através deste entrelaçamento universal. Manifestamente que isso
tornar-se Filosofia, decerto que logo tombaremos nas dificuldades an- seria uma tarefa de nível mais elevado ela pressupõe que, primeiro que
tes mencionadas a propósito da exigência metodológica fundamental de tudo, seguindo a evidência da experiência transcendental que progride
uma evidência apodítica para o ego. Porque, por mais absoluta que possa concordantemente, tal como funciona de certo modo ingenuamente, nós

ser, para ele próprio, esta evidência do ser do ego,ela não coincide, po nos tivéssemosocupado do que nela é dado e o tivéssemos descrito de
rém, sem mais, com a evidência acerca do ser dos múltiplos dados da ex- acordo com os seus caracteres gerais.
periência transcendental. Se, agora, também não devemos, de modo al- O alargamento que acabamosde fazer das meditações cartesianas
gum, tomar as cogifatíones que, na atitude da redução transcendental, são vai motivar, correspondentemente,o nosso procedimento ulterior com o
dadasenquanto percepcionadas,iterativamente recordadas etc.,já como intento de chegar a uma Filosofia (no sentido cartesianoacima descrito).
sendo absoluta e indubitavelmente presentes ou como sendo absoluta e Vemos de antemão que os trabalhos científicos devem decorrer em dois
indubitavelmente passadasetc., poder-se-á talvez mostrar que a evidên- níveis, para os quais se nos oferece o título de conjunto de "Fenomenolo-
cia absoluta do ego sum também se estende necessariamente às multi- gia Transcendental'
plicidades da autoexperiência da vida transcendental e das propriedades No primeiro nível, o colossal, como veremos já de seguida, domínio
habituais do ego, se bem que só dentro de certos limites, que determinam da az4foexperíêncíafransce?zdenfaZ
deve ser percorrido e, para começar, na
o alcancede tais evidências (as da recordaçãoiterativa, da retenção etc.). simples entrega ao decurso concordante da evidência que Ihe é inerente,
Para o indicar de um modo ainda mais preciso, talvez tenha de mostrar portanto, protraindo as questõesde uma ponderada crítica última, assente
o seguinte: a consistência absolutamente indubitável da autoexperiência em princípios apodíticos, acerca do alcance da evidência. Procedemos,por'
transcendental não é a simples identidade do "eu sou'l mas, ao longo de tanto, neste nhe/ aírzdanão.#Zosó/ícoem senado pleno, de modo semelhante
todas as doações particulares da autoexperiência efetiva e possível - se ao do investigador natural, na suaentrega à evidência da experiência natural,
bem que estasnão sejam, individualmente tomadas, absolutamente indu- pela qual, para ele, enquanto cientista da Natureza, permanecem em geral
bitáveis -, estende-se uma esfr fura de experiência unir,erga/ e apodífíca fora do seu tema questões relativas a uma crítica principial da experiência.
do eu (por exemplo, a forma temporal imanente da corrente de vivên- O segundo nível da investigação fenomenológica toca, então, pre
cias). Disso depende e a isso pertence conjuntamente que o eu esteja para cisamente a críflca da experíêrzcíafranscendenfaí e, a partir daí, do conhe-
si mesmo apoditicamente pre-delineado como um objeto de experiência cimento transcendetttal em geral.

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Meditações Cartesianase Conferênciasde Paras' Edmund Husserl SegundaMeditação

Uma ciência de uma peculiaridade inaudita entra, assim, no nosso as indicações que foram dadas até aqui só na continuação poderão re.
campo de visão, uma ciência da subjetividade transcendental concreta, velar a sua plena signiÊcação.
enquanto dada na experiência transcendental efetiva e possível, uma ci- Em todo caso,âcou bem definido um desvio essencialrelativamen-
ência que esfabe/eceíz mais extrema confraposíção com as ciências no sen- te à marcha cartesiana, o qual, de agora em diante, será decisivo para
fldo caféaqziíveenfe, com as ciências oqefivas. Entre estas,encontra-sejá toda a nossa meditação subsequente. Em contraposição a Descartes, en-
certamente também uma ciência da subjetividade, mas da subjetividade tregamo-nos aprofundadamente à tarefa de abertura do campo ínÚnifo
objetiva, animal, pertencente ao mundo. <69> Agora, porém, trata-se de, da experiência transcendelzfa/.A evidência cartesiana, a da proposição
por assim dizer, uma ciência absolutamente subjetiva, de uma ciência "ego cogífo, ego sum': permaneceu infrutífera porque Descartes não ape-
cujo objeto é, no seuser, independente da decisãosobre o não ser ou o ser nas descurou <70> a clariâcação do sentido puramente metodológico da
do mundo. Mas mais ainda. Pareceque o seu primeiro, que o seu único êxoxá transcendental,mas descurou também uma consideraçãoatenta
objeto seja e só possa ser o meu ego transcendental - o ego daquele que do fato de que o ego pode explicitar a si próprio ao inânito e de um modo
medita. Seguramente que reside no sentido da redução transcendental sistemático, através da experiência transcendental, e, com isso, está pron-
que ela, no começo, não possa põr como ser nada mais que o ego e aquilo to como um campo de trabalho possívelinteiramente peculiar e separa-
que está nele próprio contido, certamente com um horizonte de determi- do, na medida em que ele se correfere ao mundo no seu todo e a todas
nabilidade indeterminada. Seguramenteque ela começa,portanto, como as ciências objetivas, sem, contudo, pressupor a sua validade de ser, e na
uma egologia e como uma ciência que, como parece, nos condena a um medida em que, com isso, está separado de todas as ciências e não está de
solipsismo, se bem que transcendental. Não é ainda de todo visível como, modo algum em contiguidade com elas.
na atitude da redução, outros egopodem tornar-se suscetíveisde serem
postos como seres não como simples fenómenos mundanos, mas antes
como outros egotranscendentais e, com isso, como se podem tornar $ 14.A correntedas 'toglfafíones' :Cogito e cogitatum"
temas igualmente legítimos de uma egologia fenomenológica.
Como filósofos incipientes, não temos de nos deixar atemorizar Pomos por ora de lado o "peso pesado" da evidência transcenden-
por tais dúvidas. Talvez que a redução ao ego transcendental acarre- tal do qgo cogífo (tomando esta palavra no sentido cartesiano mais lato),
te consigo apenas a aparência de uma permanente ciência solipsística, do ego idêntico por relação às múltiplas cogifafíones(enquantotomamos
enquanto o seu desenvolvimento consequente, segundo o seu sentido como estando adiadas as questões a respeito da apoditicidade desta evidên-
próprio, nos conduzirá, em vez disso, a uma Fenomenologia da inter- cia), portanto, à vida de consciência fluente, na qual o eu idêntico (o meu,
subjetividade transcendental e, por seu intermédio, se desenvolva numa daqueleque medita) vive, seja o que for que esta última expressãopossa
Filosofia Transcendental em geral. De fato, dever-se-á mostrar que um determinarcom mais precisão.Possoa todo momentodirigir um olhar
solipsismo transcendental é apenas um subnível filosófico e que, en- reflexivo para estavia, por exemplo, para o seu percepcionar e representar
quanto tal, eledeverá ser delimitado, do ponto de vista do método, para sensíveis, ou para o seu asserir, o seu valorar, querer, posso em qualquer
que a problemática da intersubjetividade transcendental, como proble- momento considera-la,posso explicita-la e descrevê-lano seuteor.
mática fundada e, portanto, de nível mais elevado, possa ser tomada em Poder-se-á talvez dizer, seguindo nesta linha de inquirição, que isto
consideração de um modo correto. Acerca disso, contudo, nada pode- não será nada mais do que realizar uma descrição psicológica com basena
mos determinar neste estádio da nossa meditação, tal como, em geral, pura experiência interna, na experiência da própria vida de consciência,

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl Segunda Meditação

em que a pureza de uma tal descrição exige, naturalmente, que tudo o que é, em si mesma, consciência de isto ou aquilo, seja como for que fiquemos
é psicofísico permaneça fora de consideração. No entanto, uma Psicologia a respeito de saber se a validade de realidade dessealgo objetivo é ou não
puramente descritiva da consciência, por mais que o seu sentido metodo- legítima, e seja como for que eu, enquanto estou na atitude transcendental,
lógico autêntico só com a nova Fenomenologia tenha desabrochado, não me possa abster desta ou de quaisquer outras das minhas validades natu-
é ainda, e/aprópria, Fenomenologia Transcendental,no sentido em que rais. O título transcendental ego cogífo deve, por conseguinte, ser alargado
a determinamos, enquanto tal, através da redução transcendental-feno- com mais um membro: todo e qualquer cogífo,toda e qualquer vivência
menológica. Certamente que a Psicologia da consciência faz um paralelo de consciência, como também dizemos, visa qualquer coisa e é em si mes-
nítido com a Fenomenologia Transcendental da consciência, mas ambas ma portadora, neste modo do visado, do seu cogífafum respectivo, e cada
devem, mesmo assim, ser estritamente apartadas, ao passo que a sua mes- vivência fá-lo à sua maneira. A percepção da casa visa uma casa,precisa-
cla caracterizará o Psicologismo Transcendental, que torna impossível mente como estacasa individual, e visa-a no modo da percepção; uma re-
a Filosofia em sentido autêntico. Trata-se, aqui, de um dessesdetalhes, cordação visa no modo da recordação; uma fantasia de uma casa,no modo
aparentementeinsignificantes, <71> que decidem, porém, dos caminhos da fantasia; um juízo predicativo sobre a casaque, digamos, se depara per-
e descaminhosfilosóficos. Deve ter-se sempre em atenção que a investi- ceptivamente, visa-a precisamente no modo do juízo; e outra vez de um
gaçãotranscendental-fenomenológica está,no seu conjunto, vinculada à modo novo no caso de um <72> valor que aí sobrevenha etc. As vivências
observância inquebrantável da redução transcendental, a qual não pode de consciência são também denominadas ínfencíonízís,em que a palavra
ser confundida com o confinamento abstrativo à investigaçãoantropoló "intencionalidade" não significa, então, outra coisa senão esta propriedade
gica da simples vida anímica. Assim, o sentido da investigação psicológi- universal e fundamental da consciência de ser consciência de qualquer coi-
ca da consciência e o da investigação transcendental-fenomenológica são sa, de transportar em si, enquanto cogÍfo, o seu próprio cogífafum.
abissalmente diferentes, se bem que os conteúdos a descrever de um lado
e do outro possam concordar. De um lado, temos dados que são apreen-
didos como entidadesde um mundo já pressuposto,a saber,dados que S 1.5.Re$exão natural e transcendental
são apreendidos enquanto estados anímicos do homem; do outro lado,
relativamente aos dados paralelos, iguais quanto ao conteúdo, não se fala Para uma clariâcação mais avançada, deve ser acrescentado que de-
de todo disso, porque, na atitude fenomenológica, o mundo em geral não veremos distinguir entre, de um lado, a captaçãoperceptiva, o recordar
é válido como realidade, mas apenascomo fenómeno de realidade. se,o predicar, o valorar, a posição de âns etc., dírefamenfeconsumados,
Se esta mescla psicologística for evitada, haverá ainda um outro pon- e, do outro, as reflexões por meio das quais, enquanto atos de captação de
to de uma importância decisiva (que, de resto, com a alteração correspon- um novo nível, os atos diretos por vez primeira para nós se descobrem.
dente de atitude, também será de importância decisiva, no terreno da expe- Percepcionando diretamente, captamos, por exemplo, a casae não o pró-
riência natural, para uma autêntica Psicologia da consciência). Não sedeve prio percepcionar. SÓna reflexão nos dirigimos para o próprio ato e para o
passarpor alto que a êvoxá a respeito de todo e qualquer ser mundano seuestar-dirigido perceptivo para a casa.Na regerão natura/ da vida quo-
não altera o fato de as múltiplas cogífafíones,que se referem ao ser munda- tidiana, mastambém na da ciência psicológica (portanto, na experiência
no, transportarem em si próprias essareferência, o fato de, por exemplo, a psicológica das nossaspróprias vivências psíquicas), permanecemosno
percepção desta mesa ser, tanto antes como depois, precisamente percep- terreno do mundo que está dado de antemão como um ser, tal como
ção desta mesa. Assim, em geral, toda e qualquer vivência de consciência quando dizemos, na vida quotidiana, "vejo ali uma casa"ou "recordo-me

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husser SegundaMeditação

de ter ouvido estamelodia" etc. Na regexãojenomeno/ógíco-franscendenfa/, da casa aparecente, o caráter da exísfêncía pura e simples. O não coeÓefuar,
deslocamo-nos deste terreno através da àroXá universal a respeito do ser o abster-se,por parte do eu na atitude fenomenológica, é coisa sua, não
ou do não ser do mundo. A experiência assim modificada, a transcendental, da percepção por ele reflexivamente considerada. De resto, temos acesso
consiste então, podemos dizê-lo, em que olhamos para o respectivo cogíto a isso através de uma reflexão correspondente, e só por ela sabemos algo a
transcendentalmentereduzido e o descrevemos,mas sem que, enquanto seu respeito.
sujeitos que refletem, consumemos conjuntamente aquela posição natural Podemos descrever o que aqui se verifica também dessa maneira:
de serque a percepçãooriginariamente realizadade modo direto (ou outro se chamarmos ao eu que naturalmente se entrega à experiência do mun-
qualquer cogífo) contém em si, ou seja, aquela posição que foi efetivamente do, ou que de outro modo se abandona à vida nele, um eu írzferessadono
consumada pelo eu que diretamente seentrega à vida no mundo. Sem dúvi- mundo, então a atitude fenomenológica alterada, que se deve constan-
da que, com isso, entra em cena, no lugar da vivência originária, uma outra temente assim manter, consiste em que na realização de uma cisão do
essencialmente diferente; nessa medida, dever-se-ia dizer, portanto, que a eu, na qual, por sobre o eu ingenuamente interessado,se estabeleceo eu
reflexão altera a vivência originária. Mas isto é válido para toda e qualquer fenomenológico enquanto espectador desinteressado. Que isto aconteça,
reí[exão, mesmo para a natura]. A ref]exão natural a]tera bem essencia]- é coisa a que temos acesso através de uma nova reflexão que, enquanto
mente a vivência que antes era ingênua; esta perde o modo originário do transcendental, exige, mais uma vez, precisamente a realização desta ati-
estar direfamenfe dirigido, precisamente porque a reflexão torna objeto o tude do espectador desínferessado,sendo o único interesse remanescente
que antes era vivência, mas não algo objetivo. Contudo, a tarefa própria da o de ver e descrever adequadamente.
reflexão não consisteem repetir a vivência originária, <73> mas antesem Assim se tornam acessíveis à descrição todos os acontecimentos da
considera-la e em explicitar o que nela se pode encontrar. Naturalmente vida voltada para o mundo, com todas as suasposições de ser, simples e
que a passagempara esta consideraçãofornece uma nova vivência inten- fundadas, e os modos de ser que lhes são correlativos - como o de ser na
cional que, na sua peculiaridade intencional de se refrorreáerirà vivência certeza, <74> o ser possível, provável e, para lá disso, o ser belo ou bom, o
arzferíor,torna conscienteessaprópria vivência - eventualmentede modo ser útil etc. -, purificados de todos os componentes covisados e pré-visa-
evidente e não uma outra qualquer. Precisamentepor isso, torna-se pos- dos que são próprios do observador. SÓnesta pureza se tornam elestemas
sível um saber de experiência, de início um saber descritivo - aquele a que de uma crítica universal da consciência, tal como ela é necessariamente
devemos todo o contato e todo o conhecimento pensáveis acerca da nossa exigida pelo nosso propósito de chegar a uma Filosofia. Recordemo-nos
própria vida intencional. Isto deve,portanto, continuar a verificar-se tam do radicalismoda ideia cartesianade Filosofia,como sendoa ideia de
bém na reflexão fenomenológico-transcendental. O fato de o eu que reflete uma Ciência Universal, fundamentada apoditicamente até os elementos
não coefetuar a tomada de posição de ser que está presente na percepção últimos. Enquanto tal, elaexige uma crítica absoluta e universal que, pelo
direta da casa não altera em nada que a experiência de reflexão seja, preci- seulado, devecriar primeiro para si própria um universodeabsolutaau-
samente, uma experiência da percepção da casa, com todos os momentos sêncíczde preconceitos,por meio da abstenção de todas e quaisquer toma-
que Ihe pertenciam anteriormente e que continuam a tomar forma nela. E dasde posição que nos deem de antemão um qualquer ser. A universali-
a isso pertencem, no nosso exemplo, os momentos da própria percepção, dade da experiência transcendental e da descrição criam-no, na medida
enquanto vivência fluente, e os da casa percepcionada puramente enquan- em que inibem o preconceitouniversal da experiência do mundo - que
to tal. Não falta nem, de um lado, a posição de ser (a crença perceptiva) no atravessainapercebidamente toda a naturalidade (a crença no mundo,
modo da certeza,que é peculiar ao percepcionar (normal), nem, do lado que atravessaesta experiência constantemente) - e na medida em que

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Meditações Càrtesianas e Conferências de Paras' Edmund Husserl Segunda Meditação

se esforçam, agora, por efetuar uma descrição universal no interior da na apreensão, dirigidos para o singular. Por outras palavras, ele estácons-
esfera que permanece intocada, a esfera absoluta egológica de ser, en- tantemente coconsciente na unidade de uma consciência que pode, ela
quanto esfera das visadas reduzidas à pura ausência de preconceitos. Esta própria, tornar-se apreensora e que frequentemente o faz. Com isso, o
descrição é chamada a ser a base de uma crítica universal e radical. Tudo todo do universo torna-se consciente na forma que Ihe é própria: a da
sejoga, naturalmente, em acautelar rigorosamente a absoluta czusêncíade inÊnitude espaço-temporal.Em toda e qualquer mudança de consciên-
preconceitos desta descrição e, com isso, em satisfazer o princípio da pura cia, permanece o universo - mutável, aliás, nas singularidades que são
evidência, que acima expusemos antecipadamente. Isto significa que fica- objeto de experiência e tal como são singularizadas pelo visar e, com
mos vinculados aos dados puros da reflexão transcendental, que deverão isso,permaneceum universo único como plano de fundo entitativo para
ser tomados precisamente como se dão intuitivamente, na simples evi- a vida natural no seu todo. Portanto, na execução consequenteda redu-
dência, e que deverão ser mantidos livres de quaisquer interpretações que ção fenomenológica, permanece para nós, noeticamente, a vida pura de
lhes introduzam mais do que aquilo que é neles genuinamente visto. consciência aberta e inânita e, do lado do seu correlato noemático, per-
Se seguirmos este princípio metodológico a respeito do tópico maneceo mundo visado puramente enquanto tal. Assim, o eu que medi-
dual cogifo-cogífafzzm(qHa cogífafum), abrem-se diante de nós, primei- ta íenomenologicamente pode tornar-se o egecfador impízrcÍa/ de si pró-
ro que tudo, as descrições gerais de cada uma das direções correlativas, prio não apenasnos aspectossingulares, mas também na universalidade,
descrições que devem ser realizadas com base nos casos singulares de incluindo-se aí toda e qualquer objetividade que para ele é e tal como
tais cogifaflones. Por conseguinte, de um lado, as descrições do objeto in- para eleo é. Manifestamente, podemos dizer o seguinte: eu, enquanto eu
tencional enquanto tal, a respeito das determinações que Ihe são atribuí- naturalmente disposto, sou, também e sempre, eu transcendental, mas só
das nos correspondentes modos de consciência, e atribuídas com modos o sei por vez primeira por meio da execução da redução fenomenológica.
correspondentes,que se nos deparam quando o olhar para eles se dirige Por meio desta nova atitude, eu vejo, pela primeira vez, que o todo do
(exemplo: modos de ser como o ser de modo certo, o ser possível ou o ser mundo e, em geral, que qualquer ente mundano é apenaspara mim, com
presumido etc., ou os modos subjetivo-temporais: ser presente,passado, o seu sentido respectivo, enquanto para mim valendo, enquanto cogífa-
futuro). Esta direção descritiva chama-se direção noemátíca. Em contra- fzzmdas minhas cogífafíonesmutantes e interconectadas na mudança, e
posição a ela está, do outro, a noéfíca. Esta diz respeito aos modos do pró- apenas enquanto tal o mantenho eu em validade. Consequentemente, eu,
prio cogifo, <75> por exemplo, os modos de consciência da percepção, da o fenomenólogo transcendental, tenho objetos (tanto conexões singula-
recordação iterativa, da retenção, com as distinções modais que Ihe são res como universais) como tema das minhas verificações descritivas uni-
inerentes, como as da clareza e da distinção. versais exclusivamente na medida em que essesobjetos são os correlatos
Compreendemos agora que, com esta êTroXqexercida universal- intencionais dos seusrespectivos modos de consciência.
mente a respeito do ser ou não ser do mundo, não perdemos, de fato,
o mundo para a Fenomenologia, mas antes o retemos qzzacogífafum. E
isto não apenas a respeito de cada uma das realidades singulares que são <76> $ 16. Excurso. Começo necessário com o ego cogífo, farzfo na redexão
visadas e tal como o sãovisadas ou, para o dizer com mais nitidez, que "psicológica pura" como na transcendental
são extraídas pelo visar - neste ou naquele ato separado de consciência.
Porquea suasingularizaçãodá-seno quadro de um universo unitário, Segundo estas explanações, o ego cogífo, na universalidade da sua
que também semprenos apareceunitariamente, mesmo quando estamos, vida, designauma multiplicidade aberta infinita de vivênciassingulares

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Meditações Cartesianase Conferênciasde Parise Edmund Husserl SegundaMeditação

concretas, cujos desvendamento e captação descritiva, segundo as suas tes dados e que, portanto, os todos serão em si primeiros relativamente às
estruturas variáveis, assinalam um primeiro grande domínio de tarefas: partes. Todavia, a doutrina descritiva da consciência que começa radical-
e o mesmo,por outro lado, a propósito do modo de /cação dessasvi mente não tem diante de si tais dados e tais todos, a não ser como precon-
vências, até ascender à unidade do próprio ego concreto. Naturalmente, ceitos. O começo é a experiência pura e ainda muda, por assim dizer, que
esteego só é concreto na universalidade sem õm da sua vida intencional deve ser agora levada, por vez primeira, à enunciação pura do seu sentido
unitariamente ligada e dos correlatos nela implicados enquanto cogífafa, próprio. A enunciação efetivamente primeira é, porém, a cartesiana do
correlatos que, pelo seu lado, são unidos em universalidades totalizantes, qo cogifo, por exemplo: eu percepciono esta casa; eu recordo-me de -
entre elas a do mundo aparecenteenquanto tal. O próprio egoconcreto um certo ajuntamento na rua etc., e a primeira generalidade da descrição
é o tema universal da descrição. Ou, para o dizer de um modo mais pre- é a separação entre cogíío e cogifafum quíz cogífafum. Determinar em que
ciso, eu, o fenomenólogo que medita, atribuo-me a tarefa universal do casos e em que diferentes signiâcações poderão ser eventualmente apre
desvendamento de mfm mesmoenquantoeu transcendentalna minha sentados, com correção, dados de sensaçãoa título de componentes, isso
p/ena co?zcreção,
por conseguinte,com todos os correlatos intencionais será um resultado especial de um trabalho mais vasto de desvendamento
aí incluídos. Como já foi focado, o paralelo deste autodesvendamento e de descrição a que a doutrina tradicional da consciência, para seu pró
transcendental de mim mesmo será o autodesvendamentopsicológico, a prio dano,se eximiu completamente.Em virtude da sua falta de clareza
saber,o do meu ser anímico puro na minha vida anímica, a qual, sendo acerca do que, no método, diz respeito aos princípios, ela perdeu comple-
apercebida de modo naturalístico, existe enquanto componente da minha tamente de vista não só a colossal temática da descrição dos cogífafa qua
realidade psicofísica (animal) e, assim,enquanto componente do mundo cogífafa,mas também o sentido peculiar e as tarefas particulares ligadas
que vale naturalmente para mim. às próprias cogífafíones,enquanto modos de consciência.
Manifestamente que, tanto para uma egologia transcendental-des-
critiva como para uma PsícoZogííz ínferna pura (a qual deve ser desen-
volvida como disciplina psicológica fundamental), elaborada descritiva- S \7. A dualidade da investigação da consciência enquanto problemática
mente (de modo totalmente exclusivo) a partir da experiência interna, correlativa. Direções da descrição. Síntese como protoforma da consciência
não haverá outro começo a não ser o do egocogífo.Por força do falhanço
de todas as tentativas da Modernidade para distinguir entre uma doutri- Todavia, se desde o início tornamos claro tanto o começo como
na psicológica e uma doutrina âlosóíica da consciência, esta observação as várias direções das nossastarefas, resultarão então para nós, na nossa
é da maior importância. Ela significa que se corta o acessoa ambasas atitude transcendental, importantes ideias diretoras para a problemática
disciplinas quando nos deixamos transviar pela tradição do Sensualismo, ulterior. A dualidade da investigação da consciência (não tocamos ainda
ainda por todo lado dominante, que faz da doutrina da sensaçãoo come- na questão acerca do eu idêntico) deve ser descritivamente caracterizada
ço. Isso implica o seguinte: interpretam de antemão, como se fosse algo como uma compertença inseparável, e o modo de ligação que une cons-
supostamente óbvio, a vida de consciência como um complexo de dados ciência com consciência deve ser caracterizado como o da síntese,que é
da sensibilidade exfer?zae (no melhor dos casos) também da í zferna, cuja exclusivamente peculiar à consciência. Se,por exemplo, tomo como tema
ligação em totalidades se <77> deixa, então, ao cuidado das qualidades de descrição a percepção deste cubo, vejo então, na reflexão pura, que este
de forma. Para se desembaraçarem do .Aforismo, acrescentam ainda a cubo está continuamente dado como unidade objetiva numa multipli-
doutrina segundo a qual as formas estão necessariamente fundadas nes- cidade, mutável e multiforme, de modos de aparição que determinada-

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl SegundaMeditação

mente Ihe pertencem. No seu decurso, estesmodos de aparição não são outros modos de intuição (o da recordação iterativa, que produz uma
uma sucessão de vivências sem conexão. <78> Eles transcorrem, antes, reilustração intuitiva, ou o da expectativa, que produz uma pré-ilustração
na unidade de uma síntese,de tal modo que, neles, tomamos consciência intuitiva); por exemplo, também a coisa que é recordada aparecemu-
de uma só e mesma coisa enquanto aparecente. O cubo, um e o mesmo dando os lados de apresentação,as perspectivas etc. Contudo, para fa-
cubo, apareceumas vezesem aparições de proximidade e, outras vezes, zer jus às diferenciações nos modos da intuição, por exemplo, ao que
em apariçõesde afastamento, nos modos mutantes do aqui e do a/í, que diferencia a doação na recordação <79> da doação perceptiva, novas di-
estão perante um aqzzíabsoZzzfo,
que está conjuntamente consciente de mensões descritivas terão de estar em questão. Um traço generalíssimo
um modo constante,sebem que inobservado (no meu próprio soma, que permanece, porém, para toda e qualquer consciência em geral, enquanto
aparececonjuntamente). Cada modo de aparição continuado de uma tal consciência de qualquer coisa: este qualquer coisa, o respectivo oQeío
modalidade - digamos: cubo aqui, na esferadeproximidade - mostra-se í?zfencíona/enq cznfofaZ,está consciente como uma unidade idêntica de
como sendo, por sua vez, uma nova unidade sintética de uma multipli- cambiantes modos noético-noemáticos de consciência, sejam eles,agora,
cidade de modos de aparição pertencentes a essamodalidade. A saber, a modos intuitivos ou não intuitivos.

coisapróxima aparececomo a mesma uma vez deste, outra vez daquele Assim que tivermos dominado a tarefa fenomenológicada des-
lado, e mudam não só as "perspectivas visuais': mas também as "táteis': crição concreta da consciência, abrir-se-nos-ão verdadeiras infinidades
as "acústicas" e outros "modos de aparição': como o poderemos observar de fatos que jamais - antes da Fenomenologia - foram investigados, e
por meio de uma direção correspondente da atenção. Seprestarmos aten- que poderão ser, todos eles, designados como fatos da estrutura sintéti-
ção de um modo particular a uma qualquer nota distintiva do cubo, que ca, que dão unidade noético-noemática às cogifczfíotzes singulares, tan-
semostre na sua percepção, por exemplo, à forma ou à coloração do cubo, to em si mesmas (como totalidades sintéticas concretas), como também
ou também a uma sua face, por si mesma, ou à sua forma quadrada, à sua em relação com as outras. SÓ a elucidação da peculiaridade da síntese
cor, por si mesma etc., então o mesmo se repete. Encontramos sempre a torna frutuosa a exibição do cogífo, da vivência intencional, como uma
nota característica em questão como uma u?zídadede mu/f@lícidadesque consciência-de, só ela torna, portanto, frutuosa a signiÊcativa descoberta
defluem. Vendo diretamente, temos, digamos, a cor ou forma que perma- de Franz Brenfano de que a intencionalidade seria o caráter descritivo
necem inalteradas, e, na atitude reflexiva, teremos os modos de aparição fundamental dosjenõmenos psÜuícos, e só ela fornece realmente o méto
(da orientação, da perspectiva etc.) correspondentes, que se abrem uns do para uma doutrina descritiva da consciência, tanto fenomenológico
sobre os outros numa sequência contínua. Assim, cada um de tais modos transcendental como também, naturalmente, psicológica.
de aparição, por exemplo, o adumbramento de forma ou de cor etc., é
em si mesmo apresentação da sua forma, da sua cor etc. É por isso que
cada cogifo não tem apenas conscientemente o seu cogifafum num vazio S 1.8. Identi$cação como uma forma fundamental da síntese. Síntese uni
indiferenciado, mas antes numa estrutura de multiplicidades que se pode versardo tempo transcendental
descrever,que tem uma constituição noético-noemática totalmente de-
terminada, que pertence por essência ao respectivo cogífafum idêntico. Se tomarmos em consideração a forma fundamental da síntese,a
Paralelamente,colmose tornará patente à medida que as efetuar- saber,a da idenf@cação,
então estadepara-se-nos,primeiro que tudo,
mos, podemos fazer descrições de longo alcance para todas as intuições enquanto síntese que decorre passivamente e que é oniabrangente, sob
e, portanto, não apenaspara a percepção sensível,mas também para os a forma da contínua consciência interna do tempo. Toda e qualquer vi-

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vência tem a suatemporalidade vivencial. Sese tratar de uma vivência de Mas toda e qualquer consciência em que o não idêntico se torna
consciência em que um objeto mundano apareçacomo cogífafum (como unitariamente consciente, toda e qualquer consciência de pluralidade,

no caso da percepção do cubo), teremos, então, de distinguir entre a tem- consciência de relação etc. é, no fundo, também uma sítzfeseneste sentido,
poralidade objetiva que aparece,por exemplo, a destecubo, e a tempora- constituindo sinteticamente o seu cogífatum peculiar (pluralidade, relação
lidade ínferna do aparecer (por exemplo, do percepcionar do cubo). Esta etc.) ou, como também é dito aqui, constituindo-o sintaticamente, seja, de
última temporalidade franscorre nos seus trechos e fases temporais, os resto, esta operatividade sintática caraterizável como uma pura passivida-
quais, por sua vez, são aparições, continuamente cambiantes, do mesmo de do eu ou como sua atividade. As próprias contradições e incompatibi-
e único cubo. A sua unidade é unidade da síntese,não uma ligação con- lidades são configurações sínféfÍcas,se bem que de um outro tipo.
tínua de cogífaflo?zesem geral (de certo modo, um estar exteriormente A síntese não reside, porém, apenas em todas as vivências de cons-
grudadas umas às outras), mas antes ligação numa consciência em que ciência singulares e não liga apenas,em cada ocasião,uma vivência sin-
se consfifuí a unidade de uma objetividade intencional, enquanto a mes- gular com outra vivência singular; aocontrário, a vida deconsciênciapor
ma <80> de uma multiplicidade de modos de aparição. A existência de ínfeíro, como já o dissemos antecipadamente, está sinfeficamenfe unÚca-
um mundo, e, portanto, a deste cubo aqui, é posta entre parêntesespor da. Ela é, portanto, um cogífo universal, abarcando em si sinteticamente
força da êxoxá, mas um só e mesmo cubo aparecenteé continuamen- cada vivência singular que se destaque, com o seu cogífafum universal,
te imanente à consciência fluente, está descritivamente nela, do mesmo fundado em diversos níveis nos múltiplos cogifafa singulares. Esta fun
modo que tem nela o caráter de ser descritivamente um e o mesmo.Este dação não quer, porém, dizer qualquer coisa como uma construção na
;na-consciência"
é um "estar-em"de um tipo completamentepeculiar, sucessãotemporal <81> de uma gênese,pois, ao contrário, cada vivên-
a saber,um "estar-em"não como elemento integrante real,: mas antes cia singular que possamospensar é apenas algo que se destaca de uma
como elemento intencional, enquanto "estar-idealmente:-em"ou, coisa consciência total unitária sempre já pressuposta. O cogifafum universal
que quer dizer o mesmo, como um "estar-na-consciência"enquanto seu é a própria vida universal na sua unidade e totalidade aberta e infinita.
senfídooyeíívo imanente. O objeto de consciência,na sua identidade É apenasporque ela aparecesemprejá como unidade total que pode ser
consigo mesmo durante o viver fluente, não chega de fora a essamesma também consideradasob o modo eminentedos atosde captaçãoe de
consciência, mas reside antesnela enquanto sentido nela contido, isto é, atençãoe tornar-se tema de um conhecimento universal. A forma de fun-
enquanto rea/lzação infencfonaJ da síntese de consciência. do desta síntese universal, que possibilita todas as restantes síntesesde
Ora, o mesmocubo - o mesmopara a consciência- pode estar consciência, é a oniabarcante consciência do tempo. O seu correlato é a
consciente, em simultâneo ou sucessivamente,em modos de consciência própria temporalidade imanente, de acordo com a qual todas as vivências
separados de tipo muito diferente, em percepções isoladas, em recorda- do ego,que podem vir a ser, de cada vez, reflexivamente encontradas, de
ções iterativas, expectativas, valorações etc. De novo, ele é uma síntese, vem apresentar-secomo ordenadastemporalmente, como temporalmen-
que produz a consciência da identidade, como consciência unitária que te começando e temporalmente findando, como simultâneas e sucessivas,
abarca estas vivências isoladas e que, com isso, torna possível todo saber no interior do horizonte inânito constante do tempo imanente. A distin-
acerca da identidade. ção entre a consciênciado tempo e o próprio tempo pode também ser
expressacomo a diferença entre a vivência intratemporal, ou a sua forma
1 N.T.: Ree//. temporal, e os seusmodos temporais de aparecer,enquanto muif@/ící-
2 N.T.: /dee//. dades correspondentes. Porque estes modos de aparecer da consciência

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris. Edmund Husserl SegundaMeditação

interna do tempo são,elespróprios, vivênciasínfencíonízíse devem ser poderíczmoster se dirigíssemos ativamente de outra maneira o curso da
necessariamente dados, na reflexão, de novo enquanto temporalidades, percepção,movendo, digamos, os olhos de outra maneira em vez desta,
chocamos,então, com uma paradoxal propriedade fundamental da vida ou se andássemospara a frente ou para o lado etc. Na recordaçãocorres-
de consciência, que parece estar afetada por um regresso ao infinito. A pondente,tudo isto retorna de um modo modificado, digamos,na cons-
aclaraçãocompreensiva deste fato levanta dificuldades extraordinárias. ciência de que eu, num momento anterior, em vez dos lados que foram
Mas, seja como for, tal coisa é evidente, e mesmo apodítica, e assinala visualmente percepcionados de fato, também teria podido percepcionar
um aspectodo maravilhoso ser-para-si do ego,a saber,aqui, desde logo, outros, naturalmente se tivessedirigido a minha atividade perceptiva da
o do ser da suavida de consciência, na forma do estar-intencionalmente. maneira correspondente. Para se ser exaustivo, teremos de acrescentar
retrorreferido-a-si-mesmo.
que pertence sempre a cada percepção um horizonte de passado,enquan-
to potencialidade de recordações iterativas que podem ser despertadas,
e que, a cada recordação iterativa, pertence, enquanto horizonte, a in-
S 19.Atualidade e potencialidade da vida intencional tencionalidade contínua, mediata, de recordações iterativas possíveis (a
serem ativamente realizadas por mim) que vão até o agora perceptivo de
O caráter plural da intencionalidade que pertence a cada cogífo - e cadavez atual. Aqui joga por todo lado o seu papel, nestas possibilidades,
que pertence já a cada cogífo referido ao mundo porque este não tem um eu posso e um eulaço, correspondentemente, um eu possolazer de ou-
apenasconsciência do mundano, mas também, enquanto cogifo, está ele tro modo que aquele quelaço - não considerando, de resto, as possibilida-
próprio consciente na consciência interna do tempo - não fica temati- des sempre abertas da obstrução tanto desta como de qualquer liberdade.
camente exaurido com a simples consideração dos cogífafa enquanto Os horizontes sãopotencialidades pré-delineadas. Dizemos também que
vivências atuais. Toda e qua/qzzerarma/idadeí/np/íca, antes, as szzaspo se pode interrogar todo e qualquer horizonte acercado que nele resi-
fencía/idades, que não são possibilidades vazias, mas, sim, possibilidades de, explicita-lo, desvendar as potencialidades correspondentes da vida de
que, na própria vivência atual respectiva, <82> estão intencionalmente consciência. Mas precisamente com isso desvendámos o sentido objetivo
pré-delineadas quanto ao conteúdo e, sobretudo, dotadas do caráter de que está implicitamente visado, em cada cogifo atual, apenasnum certo
seremalgo a realizar pelo eu. Com isso fica indicado um outro traço grau de indicação. Este sentido, o cogífafzzm qz4acogífafum, não está nun-
fundamental da intencionalidade. Cada vivência tem um horízonfe que ca representado como um dado acabado; ele esc/prece-sepor vez primeira
cambia na mudança das conexões de consciência e na mudança das suas através desta explicitação do horizonte, e dos horizontes constantemente
próprias fasesde fluência - um horizonte intencional de remissãopara de novo despertados. <83> O próprio pré-delineamento é, decerto, em
as potencialidades da consciência que pertencem à própria vivência. Por todos os momentos imperfeito, mas, mesmo na suaíndefermínação,pos
exemplo, a cada percepção externa pertence a remissão dos lados pro- sui, contudo, uma estrutura de defermínidade. Por exemplo, o cubo, na
priamente percepcíonados do objeto perceptivo para os lados covísczdos, perspectiva dos lados não vistos, deixa muita coisa em aberto, contudo,
não ainda percepcionados, mas apenas antecipados na expectativa e, ele é já de antemão apreendido como cubo e, portanto, em particular,
desde logo, num vazio intuitivo; enquanto lados que virão perceptiva- como colorido, áspero,e coisas semelhantes,com tudo o que cada uma
mente a partir de agora, trata-se de uma constante propensão, que adqui- destas determinações deixa sempre ainda em aberto quanto às particu-
re um novo sentido com cadafaseperceptiva.Além disso, a percepção larizações. Perante as determinações pormenorizadas efetivas, que quiçá
tem horizontes de outras possibilidades de percepção enquanto tal, que nunca venham a suceder, este deixar em aberto é um momento que está

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl Segunda Meditação

incluído na própria consciênciarespectiva- precisamenteaqueleque todo e qualquer copito, enquanto consciência, é certamente, num sentido
constitui o borfzonfe. Através da percepção que decorre eíetivamente - lato, ato de visar o seu visado respectivo, mas que este visado, em cada
contraposta à simples aclaração através de representações
antecipadoras Momento,é mais (estávisado com um "mais") do que aquilo que, no mo-
- sucede a determinação pormenorizada preenc/zenfe e, eventualmente. mentocorrespondente, nele se encontra enquanto visado explícito. No
outra determinação, mas semprecom novos horizontes de abertura. nossoexemplo, cada faseperceptiva era simples lado do objeto, enquanto
Assim, a toda consciência, enquanto consciência de qualquer coisa. perceptivamente visado. Este visar-para'lá-de-si-próprio, que reside em
pertence a propriedade essencialde poder transitar não apenasem geral toda consciência, deve ser considerado como um momento essencial da
para semprenovos modos de consciência, enquanto consciência do mesmo própria consciência. Que ele, todavia, se chame e deva chamar um mais
objeto, que nela reside intencionalmente na unidade da síntese,enquanto da visada é o que mostra por vez primeira a evidência da possível clari-
sentido objetivo idêntico, mas de o poder e de apenaso poder fazer neste ficação e, por fim, do desvendamento intuitivo, sob a forma de um efeti-
modo da i/zfe?zoo?za/idade
de ;zor/zonfe.O objeto é,por assim dizer, um polo vo ou possívelprosseguimento do percepcionar ou do recordar iterativo
de ídenfídade, sempre consciente com um sentido pré-visado e a realizar - possível, enquanto um e outro são algo a realizar a partir de mim próprio-
em cada momento de consciência,ele é o index de uma intencionalidade O fenomenólogo não atua, porém, num simples e ingênuo abandono ao
noética que Ihe pertence segundo o seu sentido, que pode ser interrogada e objeto intencional puramente enquanto tal, ele não realiza uma mera
explicitada. Tudo isto está concretamente acessívelpara a pesquisa. consideração direta do mesmo, uma explicitação das suas notas caracte-
rísticas visadas, das suas partes visadas e das suas propriedades. Porque,
então, permaneceria anónima a intencionalidade que realiza o ter cons-
$ 2Q.O tiPOpeculiar da análise intencional ciência intuitivo ou não intuitivo e a própria consideração explicitadora.
Por outras palavras, permaneceriam ocultas as multiplicidades noéticas
Mostrou-se que aná/íseda consciência, enquanto análise intencio- da consciência e sua unidade sintética, multiplicidades em virtude das
nal, é algo totalmente diferente de análise no sentido comum e natural. quais, e a título de sua operatividade unificadora essencial, nós visamos,
A vida de consciência, assim o dissemos já uma vez, não é um simples em geral, um objeto intencional e, de cada vez, continuamente este objeto
todo de dados de consciência que, em conformidade, fossem apenas ana- determinado, que temos, por assim dizer, diante de nós enquanto desta e
/isáveís - partíveis, num sentido bastante lato - nos seus elementos in- daquela maneira visado; e também, digamos, a operatividade constituti-
dependentes ou dependentes, com o que, então, as formas de unidade va oculta atravésda qual nós (quando, súbito, a consideração se continua
(as qzza/idadesdeJorna) seriam atribuídas aos elementos dependentes. sob a forma de explicitação) encontramos diretamente qualquer coisa
Certamente que a análise intencional conduz também,em determinadas como notas características, propriedades, partes, enquanto explicitações
direçõestemáticas do olhar, a partições - e, nessamedida, a palavra pode do visado, ou implicitamente as visamos para, de seguida, poder expõ'las
nda servir -, mas a operatividade peculiar da análiseintencional é, por intuitivamente. Na medida em que o fenomenólogo investiga tudo o que
todo lado, o desvendamento das potencialidades fmp/iradas nas atuali- é objectual - e o que aí se pode encontrar - exclusivamente enquanto
dades de consciência, desvendamento com que se realiza, sob o aspecto corre/afo de consciência,não o considera e descreve apenasdiretamente,
noemático, a exp/ícifação, <84> o fol"nar dísfínfo e, eventualmente, a ac/o- nem também simplesmente em geral como retrorreferido ao eu corres-
ração do que é visado segundo a consciência, do sentido objetivo. A aná- pondente, ao ego coglfo, de que ele é o cogifafum, mas antes penetra, com
lise intencional é conduzida pelo reconhecimentofundamental de que o seu olhar reflexivo, na vida cogitativa anónima, desvendaos proces-

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SegundaMeditação
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris e Edmund Husser

sossintéticos determinados dos modos de consciência múltiplos e, ainda permanentes e, em particular, como tem lugar, para cada categoria de ob-
<85> mais para trás, os modos do comportamento egoico que tornam jetos, esta maravilhosa operatividade de consfftzziçãode objetos idênticos,
compreensível o ser-pura-e-simplesmente-visado-para'o'eu, o ser intui- <86> ou seja, como, para cada categoria, a vida constituinte da consciên-
tivo ou não intuitivo do objectual; ou que tornam compreensívelcomo a cia tem e deve ter um certo aspecto, de acordo com asvariações correlati-
consciência em si mesma, e em virtude da sua respectiva estrutura inten- vas, noéticas e noemáticas, do mesmo objeto. Por conseguinte, a esfrufura
de horízonfe de toda intencionalidade prescreve à análise e à descrição fe
cional, torna necessárioque esteja nela conscientetal objeto como sendo
e sendo-assim,que o sentido nela possa surgir enquanto tal. Assim, por nomenológicas uma metódica de um tipo totalmente novo - uma metó
exemplo, no caso da percepção de coisas espaciais (de início, fazendo abs- dica que entra em ação por todo lado onde consciência e objeto, intenção
tração de todos os predicados de significação e ficando puramente pela e sentido, efetividade real e ideal,' possibilidade, necessidade,aparência,
res extensa), o fenomenólogo investiga como as coisasvfsz4aiscambiantes verdade, mas também experiência, juízo, evidência etc. entram em cena
e as restantes coisas sensíveis têm em si o caráter de aparições desta mesma enquanto títulos de problemas transcendentais (e, paralelamente, de pro-
res extensa. Para cada uma, ele investiga as suas perspectivas cambiantes blemas puramente psicológicos) e devem ser elaborados como autênticos
e, mais além, a respeito dos seusmodos de doaçãotemporais, a transfor- problemas acerca da "origem" subjetiva.'
mação do seu ser-ainda-consciente no afundamento retencional, a res- Seguramenteque, de início, a possibilidade de uma Fenomenolo-
peito do eu, os modos da atenção etc. Com isso, há que atentar em que gia pura da consciência parece, com razão, questionável, nomeadamente,
tendo em conta o fato de o reino dos fenómenos de consciência ser, em
a explicitação fenomenológica do percepcionado enquanto tal não está
amarrada à explicação segundo as suas notas características, que se rea- verdade, o reino do fluxo heracliteano. Seria, de fato, uma tentativa de-
liza perceptivamente no decurso da percepção, mas que essaexplicitação sesperadaquerer adotar, aqui, um método de construção de conceitos e
torna, antes,claro o.que está envolvido no sentido do cogífatum, e que é de juízos tal como aquele que funciona como padrão para as ciênciasob-
covisado de um modo simplesmente não intuitivo (como o lado poste- jetivas. Seria certamente uma ilusão querer determinar uma vivência de
rior), através da presentiâcação das percepções potenciais que tornariam consciência, enquanto objeto idêntico com base na experiência, tal como
visível o invisível. Isto vale em geral para qualquer análise intencional. En- sedetermina um objeto natural, por conseguinte, em suma, soba presun'

quanto tal, por sobre as vivências singularizadas, que se trata de analisar, ção ideal de uma explicação possível da vivência em elementos idênticos,
a análise intencional capta mais além: na medida em que explicita os seus captáveis através de conceitos fixos. As vivências de consciência não têm,
horizontes correlativos, ela coloca as vivências anónimas e assazdiversas não apenasem virtude da nossacapacidadeimperfeita de conhecimento
no campo temático daquelas que funcionam de modo consfifufivo para o
sentido objectual do cogífafzzmcorrespondente - portanto, não apenasas 3 N:T.:Real.ideal.
4 IWutaüsmutandfs.o mesmoé manifestamenteválido para uma Ps/co/og/a/eter-
vivências atuais, mas também as potenciais, enquanto vivências que es-
na, ou para uma Ps/co/og/apuramente /nter7c/ona/,que nós, de um modo indicati-
tão implicadas, pré-delineadas na intencionalidade realizadora de sentido vo, expusemos como paralelo da Fenomenologia constitutiva e, do mesmo lance,
dasvivências atuais, e que, uma vez expostas,têm o caráter evidente de transcendental. A única reforma radical da Psicologia reside na edificação pura
de uma Psicologiaintencional. Já Brentano a exigiu, mas sem ter, infelizmente,
explicitaçõesdo sentido implícito. SÓdestamaneira poderá o fenomenó-
reconhecido o sentido fundamental de uma análise intencional e, portanto, do
logo tornar compreensível como, na imanência da vida de consciência, e método que torna por vez primeira possível uma tal Psicologia, sem ter reconhe-
em que modos de consciência deste inândável fluxo de consciência, pode cido, portanto, como esta última põe a descoberto, através dessemétodo, os seus
haver consciência de qualquer coisa como unidades objetivas estáveise problemas autênticos, verdadeiramente infinitos.

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl Segunda Meditação

de objetos desse tipo, mas antes a priori, quaisquer e/emenfos e relações que pertencem a todo e qualquer objeto pensável,como também os tipos
que sejam últimos, que possam ajustar-se à ideia de uma determinabili- de entrelaçamento sintético que lhes correspondem. Todos estestipos se
dade conceitual fixa, caso em que se poderia racionalmente estabelecera particularizam, de novo, na sua estruturação global noético-noemática,
tarefa de uma determinação aproximativa sob conceitos fixos. Eis a razão assimque particularizamos a generalidade, vazia quanto ao teor, do ob-
por que subsistelegitimamente ainda a ideia de uma a7zó/íse íntenciona/: jeto intencional. As particularizações podem, desde logo, ser lógico-for-
porque, no fluxo da síntese intencional, que cria a unidade em toda cons- mais(ontológico-formais): por conseguinte, ser modos do qualquer coisa
ciência e que constitui, noética e noematicamente, a unidade do sentido em geral, como o singular e o individual último, o geral, a pluralidade, o
objetivo, impera uma típica de essência,captável por conceitos rigorosos. todo, o estado-de-coisas,a relação etc. Surge aqui a distinção radical en-
tre objetividades reaiss(num sentido lato) e categoriais,reenviando estas
últimas para uma origem a partir de operações,enquanto atividade egoica
<87> S 21. O objeto intencional como "bo condutor transcendental" gradual, produtora e construtiva, <88> e as primeiras para realizações de
uma simples síntesepassiva.' Por outro lado, temos as particularizações
A típica generalíssima- na qual, enquanto forma, todo particu- ontológico-materiais, que se ligam ao conceito do indivíduo real,' que se
lar está contido - é designada pelo nosso esquema genérico ego-cogífo- divide nas suas regiões reais, por exemplo, (simples) coisa espacial, ser
cogifafum. A ele se referem as descrições generalíssimas que ensaiamos animado etc., o que arrasta consigo as correspondentes particularizações
a respeito da intencionalidade e da síntese que Ihe corresponde etc. Na para as variações lógico-formais correlativas (propriedade real, plurali-
particularização desta típica e na sua descrição,o objeto intencional que dade real, relação real etc.).
l se depara do lado do cogífafum joga, por razões fáceis de entender, o Cada um dessestipos resultantes dessesaios condutores deve ser
l papel de.#o condutor fríznscendenfíz/para o descobrimento da multiplici- interrogado na sua estrutura noético-noemática, deve ser sistematica-
l dade de tipos de cogífafio/zesque, numa síntese possível, o trazem cons- mente explicitado e fundamentado nos seusmodos do fluxo intencional,
ciencialmente em si como o mesmo objeto visado. O ponto de partida nos seus horizontes típicos e suas implicações etc. Quando se âxa um
é, necessariamente,o objeto de cada vez diretamente dado, a partir do qualquer objeto na sua forma ou categoria e se mantém constantemente
qual a reflexão retrocede até o modo de consciência respectivo e até os em evidência a identidade do mesmo na variação dos seus modos de
modos de consciência potenciais, que nele estão incluídos à maneira de consciência, mostra-se, então, que estes, por mais fluentes que possam
horizonte, e, por fim, até aquelesem que o objeto poderia estar de outro ser e inapreensíveis nos seus elementos últimos, não são, porém, de todo
modo conscientecomo o mesmo,na unidadede uma vida de consci- arbitrários. Eles permanecem sempre ví?zculados a z/míz f@lca esfrufzzrczZ,
ência possível.Se nos mantivermos no quadro da generalidadeformal, que é inquebrantavelmente a mesma porquanto a objetividade permane-
se pensarmos num objeto em geral enquanto cogífafum, com arbitraria- ça consciente precisamente como esta e como assim constituída e por
mente qualquer conteúdo, e se o tomarmos, nesta generalidade, como âo quanto ela deva poder persistir na evidência da identidade, atravésda
condutor, então particulariza-se a multiplicidade de possíveis modos de mudança dos modos de consciência.
consciência do mesmo - o tipo de conjunto formal - numa série de fios
parflczz/aresnoético-noemáticos nitidamente diferenciados. Possível per-
5 N.T.:Rea/.
cepção,retenção, recordação iterativa, expectativa, significação, ilustra- 6 Nota do Editor: A observação de Ingarden às p. 214 e segs. refere-se a esta frase
ção intuitiva analógica são, por exemplo, tais tipos da intencionalidade, 7 N.T.: /?ea/, para todas as ocorrências neste período.

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paria ' Edmund Husser SegundaMeditação

Explicitar sistematicamenteessatípica estrutural é precisamente a ta- correlatos objetivos. Setomarmos o mundo objetivo unitário como fio con-
refa da teoria transcendental, a qual, quando toma como íio condutor uma dutor transcendental, então ele remete para a síntese das percepções obje-
generalidadeobjetiva, se chama teoria da constituição transcendentaldo tivas e das outras intuições objetivas ocorrentes, sínteseque se estende ao
objeto em geral enquanto objeto da correspondente forma ou categoria ou, longo da unidade da vida no seu todo e em virtude da qual o mundo não só
no ponto supremo, da correspondente região. Surgem assim variegadas te- estáa todo momento conscientecomo unidade, como pode mesmo tornar-
orias transcendentais, desde logo diferenciadas, uma teoria da percepção e se objeto temático. Em conformidade, o mundo é um problema egológico
dos outros tipos de intuição, uma teoria da signiâcação, uma teoria do juízo, universal, do mesmo modo que o é, na direção puramente imanente do
uma teoria da vontade etc. Todas elasse encadeiam unitariamente, porém, olhar, o todo da vida de consciência na sua temporalidade imanente.
nomeadamente, por referência aos contextos sintéticos mais abrangentes,
elasestãofuncionalmente em correspondênciapara uma teoria constituti-
va genérico-formal do oyefo emgera/, ou de um horizonte aberto de obje- S 22. Ideia da
unidade universal de todos os objetos e a tareia do seu escoa
tos possíveisem geral, enquanto objetos de uma consciência possível. regimento constitutivo
Numa consequência ulterior, surgem, então, teorias constitutivas
transcendentais <89> que se referem, não já apenas enquanto teorias for- Tipos de objeto - tomados puramente enquanto cogífafa na redução
mais, a, por exemplo, coisas espaciais em geral, tomadas singularmente ou fenomenológica e não nos preconceífos de uma conceitualidade cientíâca
no nexo universal de uma Natureza, a serespsicofísicos, a homens, a comu- aceitecomo válida de antemão é o que encontramos como fio condutor
nidades sociais, a objetos culturais e, finalmente, a um mundo objetivo em para as investigações transcendentais tematicamente correspondentes.
geral - puramente como mundo de uma consciência possível e, transcen- As multiplicidades constituintes da consciência - as quais, na efetividade
dentalmente, como um mundo constituindo-se, de modo puro, segundo ou na possibilidade, há que trazer à unidade da sínteseno mesmo - per'
a consciência, no egotranscendental. Tudo isto, naturalmente, na êvoXÚ tencem-se mutuamente não por casualidade, mas por razões essenciais
transcendental consequentemente executada. Não devemos deixar passar que dizem respeito à possibilidade de <90> uma tal síntese. Elas estão,
despercebido,no entanto, que não são apenasos tipos de objetos reais e portanto, sob princípios, princípios em virtude dos quais as investigações
ideais,; enquanto objetivamente conscientes, que são aios condutores para fenomenológicas não se vão perder em descrições desconexas, mas antes
investigações consfífufil'as, ou seja, para as investigações que perguntam se organizam com baseem fundamentos essenciais.Cada objeto, cadíz
pela típica universal dos seus modos de consciência possíveis, mas que tam- oQeío em geral (também cada objeto imanente), designa uma esfrufura
bém sãofios condutores os tipos de objetos simplesmente subjetivos, como regular do ego franscendenfaZ. Enquanto seu representado,seja como for
as próprias vivências imanentes, em totalidade, na medida em que têm, que esteja consciente, o objeto designa, de imediato, uma regra universal
singular e universalmente, a sua constituição enquanto objetos da consci- de outras consciências possíveis do mesmo, possíveis segundo uma típica
ência interna do tempo. Sob cada aspecto, levantam-se problemas relativos de essência pré-delineada; e o mesmo vale já, naturalmente, para tudo o
a tipos de objetos na singularidade, por si mesmos considerados, e proble- que seja concebível, enquanto pensável como algo representado. A sub-
mas de universalidade. Os últimos dizem respeito ao ego na universalidade jetividade transcendental não é um caos de vivências intencionais. Mas
do seu ser eda sua vida, por referência à universalidade correlativa dos seus ela não é também um caos de tipos constitutivos, em que cada um esteja
em si organizado por referência a um tipo ou forma de objeto intencio-
8 N.T.:/?ea/,/dea/. nal. Por outras palavras:a totalidade dos objetos e dos tipos de objeto

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris. Edmund Husserl

concebíveis- ou, dito de modo transcendental,concebíveispara mim


enquanto ego transcendental não é nenhum caos e, correlativamente.
também não o são a totalidade dos tipos de infinitas multiplicidades que TERCEIRA MEDITAÇÃO
correspondem aos tipos de objeto, os quais mutuamente se pertencem
noética e noematicamente, de acordo com a sua síntesepossível.
Isso indica antecipadamente uma síntese constitutiva universal, na A PROBLEMÁTICA CONSTITUTIVA. VERDADE E EFETIVIDADE
qual todas as síntesesfuncionam conjuntamente de um modo determi-
nadamente ordenado e na qual estão compreendidas, portanto, todas as
S23. O conceito pleno de constituição transcendental sob os títulos de "ra
objetividades efetivas e possíveis efetivas e possíveispara o egotrans- zão" e de"irracional
cendental - e, correlativamente, todos os seus modos de consciência efe-
tivos e possíveis.Podemostambém dizer: estáaqui indicada uma tarefa
Constituição fenomenológica foi para nós, até agora, constituição
colossal, que é da Fenomenologia transcendental no seu todo, a tarefa
de um objeto intencional em geral. Ela abrangia o título cogífo-cogÍtafum
de, na unidade de uma ordem sistemática e oniabrangente, elaborar, por
níveis sucessivos,seguindo como âos condutores moventeso sistema de em toda a sua amplitude. Vamos agora diferenciar estruturalmente esta

todos os objetos de consciência possível e, com isso, o sistema das suas amplitude e preparar um conceito pleno de constituição. Foi até agora
indiferente que se tratassede um ser verdadeiro ou de um não ser, de
categorias formais e materiais, lojas as invesfígaçõeslenomeno/ógícas en-
quanto correspondentes i?zvesf@açõesconsfífufívas, portanto, elaborar to- objetos possíveisou impossíveis. Esta diferença não é, todavia, posta de
das as investigações como rigorosa e sistematicamente edificadas umas lado por via da abstençãoquando à decisão sobre o ser ou o não ser do
sobre as outras e enlaçadas umas nas outras. mundo(e, numa consequênciasubsequente,dasoutras objetividades pré

Todavia, melhor seria dizer que se trata, aqui, de uma ideia regra/a- dadas).Ela é, pelo contrário, um tema universal da Fenomenologia, sob
os títulos, entendidos de modo amplo, de Razão e de Irracional, enquan-
dora infinita, que o sistema dos objetos possíveis, que pressupomos, numa
antecipação evidente, como objetos de uma possível <91> consciência, é to nomes correlativos para Ser e Não Ser. Através da êvoXÓ, efetuamos

ele próprio uma ideia (mas não uma invenção,um "como-se")e que ele a redução à pura visada (cogffo) e ao visado puramente enquanto visa-
nos fornece praticamente o princípio para ligar cada teoria constitutiva do. É a este último que se referem - portanto, não aos objetos puros e
relativamente fechada com todas as outras, atravésdo constante desven- simples, mas antes ao senfído oqectuaJ - os predicados "ser" e "não ser'
damento não apenasdos horizontes que são internamente próprios aos e as suasvariações modais; ao primeiro, ao <92> visar correspondente,
objetos da consciência, mas também dos horizontes que remetem para referem-se os predicados "verdade" ("retidão") e "falsidade'l se bem que
fora, para formas essenciais de interconexão. Seguramente que as tarefas num sentido muito amplo. Estes predicados não estão dados sem mais,
que se nos deparam quando tomamos como aios condutores limitados tanto nas vivênciasque visam como nos objetos visadosenquanto tais,
os tipos de objeto singular se mostram já como altamente complicadas e e terão, assim, a sua oregemlenomenológíca. Para todas as multiplicida-
conduzem sempre, ao penetrarmos nelas mais profundamente, a grandes des - investigáveis segundo a sua típica fenomenológica - de modos de
disciplinas - como é o caso,por exemplo, para uma teoria da constituição consciência, sinteticamente correspondentes a cada objeto visado de uma
de um objeto espaciale mesmo de uma Natureza em geral, da animalida- qualquer categoria, pertencem também aquelas síntesesque, a respeito
de e da humanidade em geral, da cultura em geral. da visada que é ponto de partida, possuem o estilo típico da confirmação,

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Meditações Cartesíanase Conferênciasde Paras. Edmund Husserl Terceira Meditação

e, em particular, da confirmação evidente,ou também, em contraposi- possibilidade e, seguramente,uma possibilidade que surge como meta de
ção, o da supressãoe supressãoevidente. Por via disso, o objeto visado uma intenção forcejante e realizadora para cada coisa que tenha sido ou
tem, correlativamente, o caráter evidente do ser ou o do não ser (do ser que possa vir a ser visada e, assim, como sendo, por essência, um fraco
suprimido, dance/ado). Estes acontecimentos sintéticos são intencionali- /andamenfaZda vida írzfencíonaZ em geral. Cada consciência em geral ou
dadesde ordem superior, que pertencem a todos os sentidos objectuais tem já o caráter da evidência (ou seja, é autodoadora a respeito do seu
numa disjunção exclusiva, enquanto atou e correlatos da Razão,que são objeto intencional) ou está, por essência, ordenada à passagem para a au-
essencialmente produzidos por parte do ego transcendental. Razão não é todoação, por conseguinte, à passagem para síntesesde confirmação, que
nerzhzzmalaculdade
confíngenfeelãfica, não é um nome para fatos con- pertencem, por essência, ao domínio do eu posso. Toda e qualquer cons-
tingentes possíveis, mas antes para umajorma estrutural, essência/e uni- ciência vaga pode ser interrogada, na atitude da redução transcendental,
versal, da subjetividade transcendental em geral. a respeito de se e em que medida a ela, com manutenção da identidade
Razão remete para possibilidades de confirmação, e estas, por seu do objeto visado, corresponde esseobjeto no modo do eZepróprio, ou, o
turno, ultimamente para o tornar evidentee para o ter-na-evidência. que é o mesmo, qual teria de ser o seu aspecto - o do objeto pressuposto
Devemos falar de evidência já no início das nossas meditações, - enquanto "ele próprio': situação em que o ainda indeterminadamente
quando nós, na ingenuidade inicial, indagamos primeiro pelas linhas di- antecipado seria, do mesmo lance, mais pormenorizadamente determi-
retoras metódicas e, portanto, não estamosainda no terreno fenomeno- nado. No processo de confirmação, a confirmação pode reverter-se no
lógico. Ela tornar-se-á, agora, o nosso tema fenomenológico. seu negativo, pode surgir, em vez do próprio visado, um outro, e segu-
ramente no modo do e/epróprio, com o que a posição do objeto visado
fracassa e este assume, pelo seu lado, o caráter de nulidade.
$ 24. .Et'ídência como aufodoação e szzózs
t'armações Não ser é apenas uma modalidade do ser puro e simples, da certeza
de ser, modalidade que é, por certas razões, privilegiada na Lógica. Mas a
No sentido mais lato, evidência designaum protofenâmeno uni- evidência, num sentido amplíssimo, é um conceito correlativo não apenas
versal da vida intencional (perante outros modos de ter consciência, que a respeito do ser e do não ser. Ela modaliza-se também, correlativamente,
podem ser a priori vízzíos,que podem ser pretensões,modos indiretos, nas outras variações modais do ser puro e simples, como o ser-possível,
impróprios), ela designa o modo de consciência bem preeminente da au- provável ou o ser-duvidoso, e também nas variações que não pertencem
toaparição, do apresentar-se-a-si-próprio, do dar-se-a-si-próprio de uma a esta série e que têm a sua origem nas esferasafetiva e volitiva, como o
coisa,de um estado-de-coisas,
de uma generalidade,de um valor etc., ser-valioso e o ser-bom.
no modo anal do e/epróprio aÉ imediata, frzfzzitfva,<93> orelha/merz-
fe dado. Para o eu, isso quer dizer o seguinte:não visar uma qualquer
coisa de modo confuso, vazio, antecipativo, mas estar antes junto a ela, S 25. Efetividade e quase-4etividade
contempla-la, vê-la, encara-la. Experiência é, no sentido comum, uma
evidência particular, e a evidência em geral, assim poderíamos dizer, é Além disso, todas estas diferenças andem-se paralelamente, <94>
experiência num sentido amplíssimo e, todavia, por essênciaunitário. A por força da distinção entre efetividade e fantasia (efetividade na forma
respeito de muitos objetos, a evidência é, certamente, apenas um aconte- do como-se), que atravessaa esfera da consciência por inteiro e, correla-
cimento ocasional da vida de consciência, mas ela designa, contudo, uma tivamente, a de todas as modalidades de ser. Do lado da fantasia desponta

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl Terceira Meditação

um novo conceito geral de possíbí/idade, que, no modo da simples conce- dizer nada, desde logo, acerca da evidência, mas apenasque eles valem
bibilidade (um figurar-se como se fosse assim), repete modificadamente para mim por outras palavras, eles são para mim, segundo a consciên
todos os modos de ser, começando pelo da simples certeza de ser. Ele cia, enquanto cogÍfafa que, de cada vez, estão conscientes no modo posi-
fá-lo à maneira de modos de í?z(áefívídadepuramente fantasiada perante cional da crença certa. Mas também sabemos que deveríamos, de pronto,
os modos da ( áefívídade (ser efetivamente, ser efetivamente provável, ser abandonar estavalidade se o caminho da síntese evidente de identidade
efetivamente duvidoso ou nulo etc.) Assim se andem, correlativamente, conduzissea uma contradição com dados evidentes, e sabemostambém
os modos de consciência daposícíonaZídade e os da quase-posící07za/idade que só podemos estar seguros acerca do ser efetivo através da síntese de
(do como-se, do Ja?zfasíar- expressão seguramente equívoca), e a cada conârmação evidente, a qual é autodoadora da reta ou verdadeira efe
um dessesmodos particulares correspondetanto o seumodo próprio de tividade. É claro que a verdade ou a efetividade verdadeira dos objetos
evidência acercados seus objetos visados, e certamente nos seusmodos apenaspode ser haurida na evidência e que só ela é aquilo que faz com
de ser respectivos, como também potencialidades de torna-los evidentes. que tenha sentido para nós o ser (:Óefívo,verdadeiro, a reta validade de
E aqui o lugar daquilo que frequentemente denominamos como clarifica- um objeto, sejaqual for a sua forma ou tipo, com todas asdeterminações
ção, como pâr a claro, já que designa sempre um modo de tornar evídenfe, que, para nós, Ihe pertencem sob o título de ser-assim verdadeiro. Todo
de encetar um caminho sintético que vai de uma visada obscura até uma direito provém daí, da evidência, provém, por conseguinte, da nossapró-
correspondente ínfu/ção pre$guríztiva, a saber, uma intuição que traz im- pria subjetividade transcendental, toda e qualquer adequação concebível
plicitamente consigo o sentido de que, se chegassea ser direta, autodoa- despontacomo conârmaçãonossa,é síntesenossa,tem em nós o seu
dora, daria um preenchimento que conârmaria a visada no seu sentido fundamento transcendental último.
de ser.A intuição prefigurativa destepreenchimento confirmador produz
evidência realizadora não do ser, mas antes da possibilidade de ser do
conteúdo correspondente. S 27. Evidência habitual e potencia! como funcionando constitutivamente
para o sentido"objetoqueé

S26. Efetividade como correlato da con$rmação evidente Seguramenteque tanto a identidade do objeto visado enquanto tal
e em geral, como também a identidade do que verdadeiramente é e, as-
Com estas rápidas observações, foram desde logo indicados pro- sim, também a identidade da adequaçãoentre estevisado enquanto tal e
blemas genérico-formais da análise intencional, bem como as corres- o que é verdadeiramente, não são um momento real' da vivência fluente
pondentes investigações,já muito amplas e difíceis, que dizem respeito de evidência e de confirmação. Trata-se, antes, de uma imanência ídeaZ,:
à origem fenomenológica dos conceitosfundamentais e princípios lógico- que remete para mais conexões de sínteses possíveis, que Ihe pertencem
jormaís. Mas não se trata apenasdisto, pois, com elas, abre-se-noso sig- por essência. Cada evidência institui para mim uma posse permanente.
nificativo conhecimento de que estes conceitos indicam uma /ega/ídczde Posso retornar sempre de novo à realidade efetiva contemplada em si
esfrufz4ra/ uníversa/ da vida de consciêrzcía em gera/, em virtude da qual mesma, em cadeiasde novas evidências enquanto restituiçõesda primeira
somente verdade e efetividade têm e podem ter sentido para nós. <95>
De fato, que objetos, numa acepção amplíssima (coisas reais, vivências, 1 N.T.:Ree/.
números, estados-de-coisas,leis, teorias etc.), sejam para mim não quer 2 N.T.:/dea/

96 97
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris e Edmund Husser Terceira Meditação

evidência; assim, por exemplo, na evidência dos dados imanentes, diga- deste tipo, nenhum outro modo de autodoação seja pensável.Por outro
mos, sob a forma de uma cadeia de recordaçõesiterativas intuitivas, com lado, também deve ser considerado que pertence por essênciaa estetipo
a infinidade aberta que cria o "eu possose7nprede novo': enquanto hori- de evidência a z ?zí/aferaZfdade,
dito de um modo mais preciso, um ho-
zonte potencial. <96> Sem possibilidades como estas,não haveria para rizonte pluriforme de antecipaçõesnão preenchidas,mas carecidasde
nós nenhum ser estávele permanente, nenhum mundo real ou ideal.s preenchimento; portanto, pertencerá a este tipo de evidência um certo
Cada um deles é, para nós, a partir da evidência ou, então, da presunção teor de simplesintenções,que remetempara as evidênciaspotenciais
de poder tornar evidente ou de repetir a evidência adquirida. correspondentes.Esta imperfeição da evidência é perfectível pelas pas-
Já daqui se segueque a evidência singular não cria ainda, para nós, sagenssintéticas realizadoras, que vão de uma evidência para uma nova
nenhum serpermanente. Todo e qualquer ser é, num sentido amplíssimo, evidência,mas necessariamentede um modo tal que nenhuma síntese
em si'; e tem perante si o para-mim contingente dos atos singulares; do concebível deste tipo âque concluída numa evidência adequada, trazen-
mesmo modo, toda e qualquer verdade é, nestesentido amplíssimo, uma do consigo, ao invés, sempre de novo elementos pré e covisados. <97> Ao
"verdade em si'l Este sentido lato do "em si" remete, por conseguinte, para mesmo tempo, permanece sempre uma possibilidade em aberto de que a
a evidência, não para a evidência enquanto fato vivencial, mas antes para crença de ser, que se estende à antecipação, não se preencha, que aquilo
certas potencialidades fundamentadas no eu transcendental e na suavida, que apareceno modo do eiepróprio não seja ou seja diferente. No entan-
desde logo, remete para as potencialidades da infinitude das visadas que to, a experiência externa é, por essência,a única força de confirmação,
estãosinteticamente referidas a uma e a mesma coisa em geral, de segui- mas certamente apenasna medida em que a experiência que transcorre
da, também para as potencialidades da sua confirmação, portanto, para passivaou ativamentetenha a forma da síntesede concordância.Que
evidências potenciais, repetíveis ao infinito enquanto fatos vivenciais. o ser do mundo seja, deste modo e mesmo na evidência autodoadora,
franscendenfe à consciência e que permaneça necessariamente transcen-
dente, é coisa que não é alterada por a vida de consciência ser a única
$ 28. Evidência presuntiva da experiência do mundo. O mundo como ideia instância em que todo o transcendente se constitui como algo insepará-
correlativa de uma pe7$ita evidência de experiência vel, e por ela, especialmenteenquanto consciência de mundo, trazer em
si o sentido mundo e também o sentido estemundo que eÓefivamenfe é.
As evidências a respeito do mesmo objeto remetem de um outro De um modo derradeiro, é somente o desvendamento dos horizontes de
modo, e de um modo assazcomplicado, para inânitudes de evidências, experiência que esclarece a efetividade do mundo e a sua transcendência,
a saber,sempre que elas trazem o seu objeto à doação numa unilate- e que as patenteia, então, como inseparáveisdo sentido e da efetividade
ralidade essencial.Isto diz respeito a nada menos do que ao todo das de ser da subjetividade transcendental constituinte. A remissão para in-
evidênciasatravésdas quais um mundo objetivo real4está aí imediata finidades concordantes de possível experiência ulterior, a partir de cada
e intuitivamente para nós enquanto todo, a partir de quaisquer objetos experiênciamundana - onde o objeto que é efetivamentesó pode ter
singulares. A evidência que Ihe corresponde é a experiência externa, e sentido enquanto unidade visada e a visar numa conexão de consciência,
devemos considerar como uma necessidade de essência que, para objetos unidade que seria doável como ela própria numa evidência de experiên-
cia perfeita -, quer manifestamente dizer que oqeío (;activode um mundo
3 N.T.:Rea/,/dea/. e, por maioria de razão, zlm mundo, ele próprio, são uma ideia referida a
4 N.T.:Rea/. inânidades de experiências a unificar de modo concordante - uma ideia

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl Terceira Meditação

correZafivczà ideia de uma peráeíta evídê?zelade experiência, de uma sínte- gico-formal) de objeto em geral (que são, portanto, insensíveis perante as
se completa de experiências possíveis. particularizações materiais das diferentes categoriasparticulares de ob-
jetos), temos, então, como se vê, os formidáveis problemas daquela cons-
tituição que surge a respeito de cada uma das categoriassupremas, não
$ 29. As regiões ontológico-formais e ontológico-materiais enquanto Índices já lógico-formais, de objetos (das regiões), como as regiões que estão sob
dos sistemas transcendentais de evidências o título mzzndoobyefívo.Temos necessidadede uma teoria constitutiva
da Natureza física, Natureza que está dada como sempre sendo (e isso
Compreende-se agora as magnas tarefas da autoexplicitação trans- implica, ao mesmo tempo, que ela estará sempre pressuposta), de uma
cendental do ego ou da sua vida de consciência, que surgem a propósito teoria constitutiva do Homem, da Comunidade humana, da Cultura etc.
das objetividades que, nessa mesma vida, estão postas ou são para pâr. Cada um destestítulos designa uma grande disciplina, com direções dife-
Os títulos ser verdadeiro e t,erdade (segundo todas as modalidades) desig- rentes de investigação correspondentes aos conceitos parcelares ingenua-
nam, para cada objeto em geral, visado e a visar por mim, enquanto ego mente ontológicos (como os de espaço real, tempo real, causalidade real,
transcendental, uma deÓerencíação esfrutzzral no quadro das mulf@/icída- coisa real, propriedade real' etc.). Naturalmente, trata-se, por todo lado,
desínÚnlfas de cogífafíonesefetivase possíveis,que se referem ao objeto de desvendamento da intencionalidade implícita na própria experiência
<98> e, portanto, podem ser conjuntamente postas na unidade de uma enquanto vivência transcendental, trata-se de uma explicitação sistemá-
síntese de identidade. No quadro dessamultiplicidade, o sentido obyefo tica dos horizontes pré-delineados, através da passagem para a evidência
que é (;áefívamenfeindicia um sistema particular, o sistema das evidências preenchente possível, e, assim, trata-se de explicitar sempre mais os <99>
que Ihe estão referidas, e que Ihe pertencem sinteticamente de tal modo novos horizontes, que sempre de novo despontam nos horizontes prece-
que se juntam numa evidência total, se bem que talvez inânita. Isto seria dentes segundo um estilo determinado, tudo isto, porém, sob constante
uma evidência absolutamenteperfeita, que daria finalmente o próprio estudo das correlaçõesintencionais. Com isto se mostra, a respeito dos
objeto segundo tudo aquilo que ele é, em cuja síntesetudo o que é pré- objetos, uma ediâcação intencional altamente complicada das evidências
intenção, ainda não preenchida nas evidências singulares que a fundam, constitutivas na sua unidade sintética, por exemplo, uma fundação em
poderia ser levado a um preenchimento adequado.Produzir efetivamen- graus de objetos não objetivos (símp/esmenfesuyetívos), que sobe a partir
te não estaevidência - a qual, para todos os objetos objetivamente reais,5 do fundamento objetivo mais baixo. Funciona continuadamente enquan-
seria uma meta insensata,porque, como foi exposto, uma evidência ab- to tal fundamento mais baixo a temporalidade imanente, a vida fluente,
soluta será, para eles, uma ideia -, mas antes clarificar a sua estrutura de que se constitui em si e para si própria, cujo esclarecimento constitutivo
essênciaou clarificar, segundo todas as estruturas internas, a estrutura é tema da teoria da consciência originária do tempo, que constitui em si
de essênciadas dimensões de iníinitude que sistematicamente constro- os dados temporais.
em a sínteseinfinita ideal desta evidência - eis uma tarefa formidável e
completamente definida, a tarefa da consfífuíção frcznscelzdenfaZ,
no p/eno
senfído do termo, da oyefívídade qzzeé. Ao lado das investigações formais
gerais, a saber, das que se restringem ao conceito lógico-formal (ontoló-

5 N.T.:/?ea/. 6 N.T.: Rea/, em todas as ocorrências

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QUARTA MEDITAÇÃO

DESENVOLVIMENTO DOS PROBLEMAS CONSTITUTIVOS


OOPKÓPRiOEaOTRANscENDEKTAL

$ 30. O ego transcendental, inseparável das suas vivências

Os objetos são para mim, e são para mim o que são apenascomo
objetos de consciência efetiva ou possível - se isto não deve ser um dis-
curso vazio ou o tema de especulações vazias, deverá então ser mostrado
o que constitui concretamente este ser-para-mim e este ser-assim,ou o
que estará em questão a propósito de uma consciência, efetiva ou pos-
sível, assim estruturada, o que, com isso, deverá significar pois/bí/idade
etc. Isto só a investigação constitutiva o pode fazer, desde logo no sentido
lato acima indicado e, de seguida, no sentido restrito, que acabamosde
descrever. Tudo isto, porém, segundo o único método possível, exigido
pela essência da intencionalidade e dos seus horizontes. Já as análises pre
paratórias, conducentes à compreensão do sentido da tarefa, tornaram
claro que o ego transcendental (ou a alma, no paralelismo psicológico)
só é o que é em relação com objetividades intencionais. Todavia, a estas
objetividades pertencem também necessariamente, para o ego enquanto
estáreferido ao mundo, não apenasobjetos a confirmar de modo ade-
quado na esferatemporal imanente do próprio ego, mastambém objetos
mundanos, que se mostram como seresapenasno decurso concordante
da experiência externa, que é inadequada e apenaspresuntiva. <100> É,
portanto, peculiaridade essencial do ego ter continuadamente sistemas
de intencionalidade e, entre eles, também sistemasde concordância, em
parte nele decorrendo e, em parte, disponíveis enquanto potencialidades
fixas de desvendamento,atravésde horizontes pré-delineadores.Cada
objeto que é pelo egovisado, pensado, valorado, tratado, mas também
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl Quarta Meditação

fantasiado ou a fantasiar, indicia o seu sistemaenquanto correlato, e será eu que se decidiu desta ou daquela maneira, <lOl> eu tenho a convic-
apenas enquanto tal correlato. ção respectiva. Isto não quer simplesmente dizer que eu me recordo ou
que posso posteriormente recordar-me do ato. Posso fazer isso também
quando abandonei a minha convicção. Por via do cancelamento, ela já
S 3 \ . O eu como polo idêntico das vivências não é minha convicção, mas foi-o permanentemente até ele. Enquanto
elaé válida para mim, posso reforna7"repetidamente a ela e reencontra-la
Todavia, devemos prestar agora atenção a uma grande lacuna da semprede novo como a minha, que me é habitualmente própria, corres-
nossa exposição. O próprio ego é para si próprio um ser numa evidência pondentemente, que é minha, enquanto sou o eu que está convicto o
contínua, portanto, a si em sí mesmo confl/zuamenfese consfífz4í?zdo
en- eu que está determinado como eu persistente através deste hábito perma-
quanto ser. Até agora, tocamos apenas num lado desta autoconstituição, nente; o mesmo vale para toda e qualquer decisão, para decisões valorati-
olhamos apenaspara o cogífo fluente. O ego não se capta apenas como vas e volitivas. Eu decido-me - a vivência de ato deflui, mas a decisãoper-
vida fluente, mas, sim, como eu, como o eu que vive isto e aquilo, que siste duradouramente na suavalidade, quer passivamentemergulhe num
vive através deste e daquele cogífo como o mesmo. Até aqui, ocupados sono pesado, quer viva em outros atos; correlativamente, eu sou, de agora
com a relação intencional entre consciência e objeto, cogifo e cogífafzzm, em diante, aquele que está assim decidido, e sou-o enquanto não tiver
sobressaíram para nós apenas aquelas sínteses que polarizavam as multi- abandonado a decisão. Se a decisão está dirigida para uma ação conclu-
plicidades da consciência, efetiva ou possível, segundo objetos idênticos; siva, então ela não é, digamos, suprimida através do seu preenchimento,
portanto, em referência a objetos enquanto polos, enquanto unidades sin- porque ela continua a ser válida no modo do preenchimento - contínuo a
téticas. Agora depara-se-nosuma segundapolarização, um segundo tipo responderpe/a minha anão.Eu próprio - aquele que persiste no seu querer
de síntese, que abarca no seu conjunto as multiplicidades particulares de permanente - me altero quando cancelo ou szzp?"ímo decisõesou ações.:
cogífatíones e que o faz de um modo peculiar, a saber, enquanto cogífafio- O persistir, o durar temporal de tais determinações egoicas e o íz/ferízr-se
nesdo eu idêntico, que vive em todas asvivências, enquanto consciência que lhes é peculiar não significam, manifestamente, qualquer enchimento
atiça ou enquanto afetado, e que, através e ao longo das vivências, está contínuo do tempo imanente com vivências, tal como o próprio eu per-
referido a todos os polos-objeto. manente, enquanto polo de determinações egoicas permanentes, não é
nenhuma vivência ou continuidade de vivências, se bem que ele esteja,
contudo, por essênciaretrorreferido à corrente de consciência com tais
S 32. O eu enquanto substrato de habituatidades determinaçõeshabituais. Enquanto, a partir da gêneseatavaprópria, o eu
se constitui como substrato idêntico de propriedades egoicaspermanen-
Deve ser agora observado, porém, que esteeu centrador não é um tes,ele constitui-se também, subsequentemente,como eu-pessoalesfáve/
polo de identidade vazio (tampouco como o será um qualquer outro ob- epermanente - tomando essaexpressão,aqui, no sentido mais amplo de
jeto), mas que, em virtude de uma legalidade da gêrzese franscenderztaZ, todos, que permite falar também de pessoas sub-/humanas. Se as convic-
com cada ato que dele irradia com um novo sentido objetivo, este eu ções são também, em geral, apenas relativamente permanentes, se têm
adquire uma propriedade nova permanente. Se,por exemplo, me decido o seu modo de a/geração(através da modalização das posições ativas e,
pela primeira vez, num ato judicativo, pelo ser e o ser-assim, então esse
ato efêmero passa,mas, doravante, eu sou, de um modo permanente, o l Nota do Editor: A observação de Ingarden refere-se ao início do $ 32, p. 215-218

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl Quarta Meditação

dentro disso, do canse/ízmento ou negação, anulação da sua validade) ou seja, de objetos a adquirir, mas já de antemão antecipados com esta
então o eu mostra, em tais alterações,um estilo permanente, com uma estrutura formal de objeto.
unidade de identidade que as atravessa,mostra um caráferpessoa/. Eu sou para mim mesmo e estou-me dado constantemente, através
da evidência de experiência, como eu próprio. Isto é válido tanto para
o egotranscendental (mas também, em paralelismo, para o psicologica-
<102> $ 33. A p/encz concreção do eu enq íznfo mónczda e o proa/ema da mente puro) como para o egoem qualquer outro sentido. Dado que o
sua autoconstituição egoconcreto monádico compreende a inteira vida de consciência, efetiva
e potencial, será então claro que o problema da explicitação fenomeno-
Do eu como polo idêntico e substrato de habitualidades, distingui- lógica deste ego monádico (o problema da sua constituição para si pró-
mos o egotomado na plena concreção(que pretendemos denominar com prio) deve compreender todos os problemas corzsfífufívos <103> em gera/.
a pa[avra [eibniziana manada), na medida em que ]he juntamos aquilo sem Como consequência subsequente, resulta a coincidência da fenomenolo-
o que ele não pode ser precisamente um eu concreto; a saber, ele só pode gia desta autoconstituição com a Fenomenologia em geral.
ser um eu concreto na pluriformidade fluente da sua vida intencional e
dos objetos que são, com isso, visados e que, eventualmente, se constituem
para ele como objetos que são. Para estes objetos, o respectivo caráter de $ 34. Desenvolvimentoprincipiam do método jettomenotógico.A análise
ser e de ser-assimpermanente é, obviamente, um correlato da habituali- transcendental como análise eidética
dade das tomadas de posição, que se constitui no próprio eu-polo.
Isso deve ser compreendido da seguinte maneira. Eu tenho, en- Com a doutrina do eu como polo e substrato de habitualidades,
quanto ego,um mundo circundante que apara mim de maneira constan tocamosjá, num ponto significativo, a problemática da gênesefenome-
te, tenho nele objetos enquanto são para mim, a saber, que são para mim nológica e, com isso, o nível da Fenomenologiagenética. Antes de clari-
enquanto bem conhecidos, com uma disposição permanente, ou que são ficar o seu sentido mais preciso, é necessário uma nova reflexão sobre o
meramente antecipados como objetos suscetíveis de deles tomar conhe- método fenomenológico. Tem, finalmente, de pâr-se em vigor uma visão
cimento. Os primeiros, que são para mim no primeiro sentido, são-no a intelectiva fundamental a respeito do método, uma visão que, uma vez
partir de uma aquisição originária, ou seja, da tomada de conhecimento apreendida, penetre a metódica da Fenomenologia transcendental no
originária, da explicaçãodo que, de início, não fora visto nas intuições seu todo (e, do mesmo modo, no terreno natural, a de uma Psicologia
particulares. Por via disso, constitui-se, na minha atividade sintética, o interna autêntica e pura). Foi apenaspara facilitar o acessoà Fenomeno
objeto na forma de sentido explícita: o idêntico das suas mzíZf@/as pro- logra que a mencionamos tão tarde. A multiplicidade excessiva de novas
priedades;por conseguinte, o objeto enquanto idêntico consigo mesmo, descobertase problemas devia atuar, de início, sob a simples roupagem
como se determinando nas suasmúltiplas propriedades. Esta minha ati- de uma descrição simplesmente empírica (se bem que decorrendo ape-
vidade de posição e de explicitação do ser institui uma habitualidade do nas na esfera de experiência transcendental). Em contraposição a isso, o
meu eu, em virtude da qual esteobjeto é, agora, por mim permanen- métodode descriçãoeídéfica significa uma transferência para uma nova
temente apropriado como tendo as suaspróprias determinações.Tais dimensão, uma dimensão principial que teria aumentado as diâculdades
aquisiçõespermanentes constituem o meu mundo circundante de cada de compreensão se tivesse sido exposta no início, mas que será de fácil
vez bem conhecido, com os seus horizontes de objetos desconhecidos, apreensão depois de um grande número de descrições empíricas.

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Quarta Meditação
Meditações Cartesianas e Conferências de Paras' Edmund Husserl

Cada um de nós, meditando cartesianamente, foi reconduzido, nos fornece aspuras possibilidades, puriâcadas de tudo o que as vincula
atravésdo método da redução fenomenológica, ao seu egotranscenden- tanto a este como a todo e qualquer fato. Neste último aspecto, também
tal e, naturalmente, com o seu respectivo teor monádico concreto en- não mantemosestaspossibilidadesnuma vinculação ao egofático que
é conjuntamente posto, mas antes como uma ficção totalmente livre da
quanto esteegoíático, o ego absoluto uno e único. Eu, enquanto esteego,
encontro, sempre de novo meditando, tipos captáveis descritivamente fantasia, de tal modo que nós, desde o início, poderíamos ter tomado
e a desenvolver intencionalmente e posso progredir, gradualmente, no como exemplo inicial a fantasia de uma percepção, fora de qualquer relê
desvendamento intencional da minha manada, segundo as direções fun- ção com o resto da nossa vida fática. O tipo geral percepção, assim obtido,

damentais que sevão destacando. Por boas razões, expressõescomo "ne- paira no ar, por assim dizer - no ar da concebibilidade absolutamente
cessidade de essência" e "por essência" etc., impõem-se frequentemente pura. Assim, destituído de toda a faticidade, ele tornou-se o eídosper-
nas descrições, vindo nelas à expressão um conceito de a priori que só a cepção,cuja extensão ideal é constituída por todas as percepçõesidem/í-
Fenomenologia por vez primeira clarificou e delimitou. fer possíveisenquanto concebibilidades puras. As análises da percepção
<104> Aquilo de que se trata aqui será já clarificado atravésde <105> são, então, aná/asesde essência;tudo o que expusemos sobre as
sínteses correspondentes ao tipo percepção, sobre horizontes de potencia-
exemplos. Tomemos um qualquer tipo de vivências intencionais, a per'
cepção,a retenção,a recordação iterativa, o asserir,o ter-prazer'em-algo, lidade etc. vale por essência,como facilmente se poderá ver, para todas as

o esforçar-se-por-algo etc., e pensemo-lo explicitado e descrito segundo a percepções que sepodem construir nesta livre variação, por conseguinte,

sua espécie de operatividade intencional, ou seja, segundo a noese e o no- para todas as percepçõesconcebíveisem geral; por outras palavras,vale
ema. Isso pode querer dizer - e assim o entendemos nós até agora - que em absoluta venera/idade de essência e numa necessidade de essência para
estariam em questão os tipos fáticos de acontecimento do ego transcen- qualquer caso singular que sepossa põr em destaque e, portanto, também
dental íático e que as descriçõestranscendentais deveriam ter, portanto, para cada percepção íática, na medida em que todo e qualquer fato deve

um significado empírico No entanto, a nossa descrição manteve-se invo- ser pensado como simples exemplo de uma pura possibilidade.
luntariamente numa generalidade tal que os resultados não são, por via Dado que a variação é visada como evidente, portanto, como auto-
disso, afetados, seja o que for que suceda com as fatualidades empíricas doadora, na pura intuição, da possibilidade enquanto possibilidade, o seu
do eEOtranscendental. correlato é, então, uma corzsciênciade venera/idade í?zfuífívae apodíffca.
Tornemos isso claro e, de seguida, também metodicamente frutu- O próprio eídosé algo universal, visto ou visível, algo puro incondícíomz-
oso. Partindo do exemplo desta percepção de mesa,variemos o objeto do, a saber, não condicionado por qualquer fato segundo o seu sentido

de percepção mesa de um modo totalmente livre, de tal maneira, con- intuitivo próprio. Ele está cz?zfes
de todos os conceitos, no sentido de sig-

tudo, que mantenhamos a percepção como percepção de qualquer coisa nificações verbais, as quais, enquanto puros conceitos, terão antes de se
- qualquer coisa, seja qual for -, começando, digamos, por transformar ajustar a ele.
na dicçãoa sua forma, as cores etc., de um modo totalmente arbitrário, Secada tipo singular que se possa destacar é elevado do seu míJÍeu

mantendo idêntico apenaso aparecerperceptivamente. Por outras pala- no ego transcendental fático-empírico até a esfera pura de essência, não
vras, sob abstraçãoda sua validade de ser,trocamos o fato desta percep' desaparecem, com isso, os horizontes intencionais externos que indicam
ção numa pura possibilidade entre outras possibilidadespuramente arbi- a sua conexão, desvendável no ego; apenas que esteshorizontes de cone
frárías - mas possibilidades puras de percepções. Lançamos, por assim xão tornam-se elespróprios eidéticos. Por outras palavras, com cadatipo
dizer, a percepção efetiva no reino das inefetividades, do como-se, que eideticamente puro, estamos, certamente, não no ego fático, mas antes

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Quarta Meditação
Meditações Cartesianas e Conferências de Paras' Edmund Husserl

num eídos ego; ou cada constituição de uma possibilidade efetivamen- sua possibilidade pura e, com isso, é tornado cientíâco (é logicizado).:
te pura entre possibilidades puras traz implicitamente consigo própria, Assim, a ciência das puras possibilidades precede "em si" a ciência das
enquanto seu horizonte externo, um egopossível no sentido puro, uma efetividadese torna-a por vez primeira possível, em geral, enquanto ci-
pura possibilidade de variação do meu egolãfíco. Poderíamos também ência. Assim nos elevámosà visão intelectiva metódica de que, a par da
pensar, logo desde o início, este ego livremente variado e equacionar a redução fenomenológica, a intuição eidética é a .forma fundamental de to
tarefada investigaçãode essênciada explícita constituiçãode um ego dos os métodos transcendentais parficu/ares, que ambas definem de ponta
transcendental em geral. Assim o fez a nova Fenomenologia desde o co- a ponta o reto sentido de uma Fenomenologia transcendental.
meço e, em conformidade, todas as descriçõese delimitações de proble.
mas feitas por nós até agora foram, de fato, retroversões do teor eidético
originário para a linguagem de uma tipologia empírica. Quando pensa- <107> S 35. Excürso pela Psicologia interna eidética
mos uma Fenomenologia edificada puramente segundo o método eidé-
tico, enquanto ciência apriorístico-intuitiva, então todas as suasinvesti- Transpomos o círculo em si mesmo fechado das nossas medita-
gações de essência não são outra coisa senão desvendamentos do <106> ções, que nos vincula à Fenomenologia transcendental, se não quisermos
eídosuniversal ego franscendenfaZem gercz/,que contém em si todas as deixar inexpressa a observação de que o conteúdo total desta considera-
possibilidades puras de variação do meu egofático e o próprio egofático ção metodológica fundamental que acabamos de desenvolver se mantém
enquanto possibilidade. A Fenomenologia eidética pesquisa,portanto, o - com pequenas modificações que, bem entendido, suprimem o seu ca-
a priori universal sem o qual não seria concebívelo eu e um eu transcen- ráter transcendental - quando, no terreno da consideração naturalística
dental em geral, ou, dado que toda e qualquer generalidade de essência do mundo, nos esforçamos por edificar uma Psicologia, enquanto ciência
tem o valor de uma legalidadeinquebrantável,ela pesquisaa legalidade positiva, e com isso nos esforçamospor edificar, primeiro que tudo, a
universal de essênciaque prescreve o seu sentido possível (juntamente Psicologia que é primeira em si e necessária para qualquer psicologia,
com o seu oposto, o contrassenso) a toda e qualquer asserçãofatual so- e que desponta da experiê?leiai?zferna,a Psicologia intencional. Ao ego
bre o transcendental. transcendental concreto corresponde, então, o eu-homem, a alma con-
Como egoque medita cartesianamente,guiado pela ideia de uma cretamente apreendida enquanto pura em si e para si, com a polarização
Filosofa como Ciência Universal absoluta e rigorosamente fundamenta- anímica: eu como polo das minhas habitualidades, das minhas proprie
da, cuja possibilidade foi suposta de modo tentativo, torna-se para mim dades de caráter. No lugar da Fenomenologia transcendental eidética sur-
evidente, pelo prosseguimento das últimas reflexões,que devo, desdeo ge, então, uma teoria eidética pura da alma, referida ao eídosalma, cujo
{nüío, desenvolver uma Fenomenologia puramente eidética e que só nela horizonte eidético permanece,certamente,inquestionado. Se ele fosse,
se consuma e pode consumar a primeira realização de uma ciência filosó- porém, questionado, abrir-se-ia, então, o caminho para a superação desta
fica - a de uma "Filosofia Primeira'l Se,depois da redução transcendental positividade, isto é, para o transporte para a Fenomenologia absoluta, a
ao meu egopuro, o meu interessemais próprio está dirigido para o des
vendamento deste seu ego fático, este desvendamento só pode tornar-se
2 Deve dar-se bem atenção a que, na passagem do meu ego para um ego em geral,
autenticamente científico por recurso aos princípios apodíticos que Ihe não está pressuposta nem a efectividade nem a possibilidade de uma extensão de
correspondem, ou seja, ao ego como um ego em geral, às generalidades outros ego. Aqui, a extensão do e/dos ego está determinada pela autovariação do
de essência e às necessidades por meio das quais o fato é retrorreferido à meu ego. Euficciono que seria de outra maneira, não ficciono o outro.

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Quarta Meditação
Meditações Cartesianase Conferênciasde Paras' Edmund Husser

do egotranscendental, que não tem precisamentemais nenhum horizon- seja racíonaZno sentido particular, essemesmo que surge na mundani-
te que pudesse conduzir para fora da sua esfera de ser transcendental e, zação do ego na forma de essência Homem (anima/ rafionale). Assim que
portanto, que a pudesse relativizar. tipiíico eideticamente a minha atividade fática de teorização, terei então,
esteja disso ciente ou não, conjuntamente efetuado uma variação de mim
próprio, não de um modo totalmente arbitrário, mas antesno quadro do
$ 36. O ego transcendental como universo dejormas possíveisde vivência. tipo essencialcorrelativo ser racional. Manifestamente, não posso pensar
Regulação essencial legal da compossibilidade das vivências na coexistência o teorizar que agorafoi feito ou que posso fazer como estando arbitraria-
e na sucessão mente situado na unidade da minha vida isto se transpõe para o plano
eidético. A captação eidética da minha vida infantil e das minhas possibi-
Depois da significativa reformulação da ideia de uma Fenomeno- lidades constitutivas cria um tipo, em cujo desenvolvimento subsequente,
logia transcendental atravésdo método eidético, se retornarmos ao des- masnão no seu próprio nexo, pode surgir o tipo teorizar cíenfz@co.
Uma
cobrimento da problemática fenomenológica, então ficaremos, de agora tal restrição tem os seusfundamentos numa estrutura universal apriorís-
em diante, por natureza, no quadro de uma Fenomenologia puramente tica, em legalidadesde essênciauniversais da coexistência e da sucessão
eidética, na qual o fato do ego transcendental e os dados particulares da temporais egoicas.Pois, seja o que for que surja no meu egoe, eidetica-
sua empina transcendental têm apenaso significado de exemplos para mente, num egoem geral sejam vivências intencionais, unidades cons-
possibilidades puras. Também compreenderemos os problemas até agora tituídas, habitualidades egoicas-, tudo tem a sua temporalidade e toma
apresentadoscomo problemas eidéticos, na medida em que pensamos parte, neste aspecto, no sistema de formas da temporalidade universal,
como por todo lado realizada a possibilidade, apresentada no exemplo, de com a qual se constitui para si mesmo cada egoconcebível.
purifica-los eideticamente. Satisfazer a tarefa ideal de um descobrimento
efetivamente sistemático <108> do qo concreto em geral segundo a sua
consistência essencial,correspondentemente, pâr em jogo uma proble- <109> S 37. O tempo comolormcz uníversa/ de foda e qualquer génese
mática e uma sequência de investigações efetivamente sistemáticas levan- ecológica
ta diâculdades extraordinárias, primeiro de tudo porque teremosde obter
novas vias de acessoaos específicos problemas universais da constituição As leis de essênciada compossibilidade(de fato, regrasdo ser-
do ego transcendental. O a priori universal, que pertence a um ego trans um-com-outro-simultaneamente-ou-subsequentemente e do poder-ser)
cendental enquanto tal, é uma forma de essênciaque encerra em si uma são,num sentido mais lato, leis da causalidade leis para um "se" e um
infinidade de formas, de tipos apriorísticos de possíveisatualidades e po- 'então': No entanto, será melhor evitar aqui a expressão "causalidade'l
tencialidades da vida, juntamente com os objetos a constituir nela como tão carregada de preconceitos, e falar, antes, na esfera transcendental (tal
sendo efetivamente. Mas, para um ego unitariamente possível, nem todos como na psicológica pura), de motivação. O universo de vivências que
os tipos singulares possíveis são compossíveis, não o são numa ordem ar- constituem o teor de ser real3do egotranscendental é um universo com-
bitrária, em lugares arbitrários da sua temporalidade própria. Se eu cons- possível unicamente nalorma de unidade universal do./7ufr, na qual todas
truo uma qualquer teoria científica, então esta atividade racional comple- as singularidades se inserem elas próprias como aí deíluindo. Portanto, já

xa, e o seu ser construído de acordo com a razão, são de um tipo essencial
que não será possível em qualquer egopossível, mas apenas num ego que 3 Ree//(Nota do Tradutora

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esta forma generalíssima de todas as formas particulares de vivências con- Recordamos aqui os bem conhecidos problemas psicológicos da ori-
cretas e das formações que, no seu fluxo, se constituem como fluentes, é a gem da representação do espaço,da representação do tempo, da represen'
forma de uma motivação que a tudo enlaça e que domina, em particular, taçãoda coisa,do número etc.Na Fenomenologia,elessurgem como pro'
blemas transcendentais e, naturalmente, com o sentido de problemas inten-
cadasingularidade, a qual também poderíamos enunciar como uma lega-
/idadelorma/ de zzmagénese24nfversaZ, de acordo com a qual se constituem cionais, que estão,decerto, inseridos nos problemas da gêneseuniversal.
unitariamente, sempre de novo, passado,presente e futuro, numa certa É muito difícil o acessoà generalidade última da problemática fe
forma estrutural noético-noemática de modos de doaçãofluentes. No in- nomenológica eidética e, com isso, também à de uma génesezí/tina. O
terior desta forma, decorre, porém, a vida, como uma marcha motivada de íenomenólogoincipiente está involuntariamente vinculado ao seu ponto
operatividades particulares constitutivas, com uma pluralidade de moti- de partida exemplar consigo mesmo. Ele encontra transcendentalmente a
vaçõesparticulares e de sistemas de motivação que produzem, segundo as si próprio de antemão como este ego e, de seguida, como um ego em geral,
leis gerais da gênese,a unidade da gêneseuniversal do ego.O ego constitui- que tem já consciencialmenteum mundo, um mundo do nosso tipo onto-
se para si mesmo na unidade de uma hisfóría, por assim dizer, e quando lógico, de todos bem conhecido, com Natureza, Cultura (Ciência, Belas-
dissemos que, na constituição do ego,estavam incluídas todas as constitui- Artes, Técnica etc.), com personalidades de ordem superior (Estado, Igre-
çõesde todas as objectualidades que eram para ele, tanto imanentes como ja) etc. A Fenomenologia elaboradade início é simplesmente esfáficíz,as
transcendentes, tanto ideais como reais,' deverá agora acrescentar-se que suas descrições são análogas às da história natural, que busca os tipos sin-
os sistemasconstitutivos, através dos quais cada objeto e cada categoria gulares e, no melhor dos casos, os sistematiza ordenando. Questões acerca
de objeto é para o ego,só são elespróprios possíveisno quadro de uma da gênese universal e da estrutura genética do ego na sua universalidade,
gêneseconforme as leis. Ao mesmo tempo, estessistemasficam com isso quevai para além da forma temporal, estão ainda longe, pois são,de fato,
vinculados à forma genética universal, que torna possível o ego concreto (a questõesde ordem superior. Mas mesmo quando essasquestões sãolevan-
manada) enquanto unidade, enquanto compossível no seu teor particular tadas,isso acontececom uma limitação. Porque, de início, também a con-
de ser. Que, para mim, uma natureza seja, que um mundo cultural seja, sideração das essências se fixará num eXOem geral com a limitação de que,
um mundo humano com as suasformas sociaisetc. quer dizer que existem para ele, há já um mundo constituído. Também isto será um grau necessá-
para mim possibilidades de experiências correspondentes - experiências rio, a partir do qual se poderá por vez primeira, atravésdo desdobramento
que, para mim, a cada momento, <1 10> podem ser postas em jogo e que dasformas de conjunto da correspondente gênese,ver as possibilidades de
podem ser livremente prosseguidas num certo estilo sintético, quer eu efe- uma Fenomenologia eidética ge/zeralíssímcz.Nela, o ego faz uma variação de

tivamente experiencie de modo direto essesobjetos, quer não; quer dizer, si próprio de um modo tão livre que nem sequer se mantém o pressuposto
além disso, que os seus outros modos correspondentes de consciência, vi- - ideal, mas limitador - de que um mundo, < 111> com a estrutura ontoló-
sadasvagas e coisas semelhantes, são para mim enquanto possibilidades gica que é para nós óbvia, estejapara ele essencialmente constituído.
e que a elas correspondem também possibilidades de preenchimento e de
decepção,através de uma experiência de tipo pré-delineado. AÍ reside uma
habitualidade firmemente desenvolvida uma habitualidade adquirida a $ 38. Génese afíva e passiva
partir de uma certa gênese,que estásob leis de essência.
Se desde logo perguntarmos pelos princípios da gêneseconstitu-
4 /dea/, rea/ Inata do Tradutora tiva que são universalmente significativos para nós, enquanto possíveis

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Em todo caso,cada construção da atividade pressupõe necessaria-


sujeitos referidos ao mundo, então eles dividem-se, segundo duas formas
fundamentais, em princípios da géneseafíva e da génesepassiva.Nos pri- mente, porém, como grau inferior, uma passividade pré-doadora, e, re-
meiros, o eu funciona, através de atos egoicos específicos, como produtor, gredindo nessaatividade, embatemos por fim na constituição atravésda
constituinte. A isto pertencem todas as operaçõesda razão prática, num gênesepassiva. Aquilo que, na vida, por assim dizer se nos depara como
sentido muito lato. Neste sentido, também a razão lógica é prática. O ele- coisa existente já acabada (abstraindo de todos os caracteres espirifuaís,
mento característico é que atos egoicos ligados na socialidade (cujo senti- que a dão a conhecer como, por exemplo, um martelo, uma mesa, uma
do transcendental deve, sem dúvida, ser exposto) através da comunaliza- criaçãoestética)é dado na originariedadedo e/epróprio na sínteseda
ção,ligando-se em múltiplas síntesesda atividade específica,constituam experiência passiva. Enquanto tal, está pré-dado para as atividades espírí-

or@ínaríamenfe nol'os oQeíos a partir do subsolo de objetos já pré-dados fzzals,que se iniciam com a captação atava.
(em modos de consciência pré-doadores). Estes surgem, então, conscien- Enquanto estaslevam a cabo as suas realizações sintéticas, está sem-
cialmente como produtos. Assim, no ato de coligir, surge o conjunto, no pre em marcha a síntese passiva, que lhes fornece toda a matéria. A coisa
de contar, o número, no de repartir, a parte, no de predicar, o predicado pré-dada na intuição passiva aparece,subsequentemente, na intuição uni-
ou o estado-de-coisaspredicativo, no de concluir, a conclusão etc. Tam- tária e, por mais que ela possa ser também modificada através da atividade
bém a consciência originária de generalidade é uma atividade, na qual de explicação, de captação singular das partes e das notas características, é
o geral se constitui objetivamente. Como consequência, constitui-se, do também uma pré-doação persistente durante e nesta atividade; decorrem
lado do eu, uma habitualidade de validação continuada, que pertence os múltiplos modos de aparição, as imagens perceptivas visuais ou táteis,
agora em conjunto à constituição dos objetos enquanto são pura e sim- em cuja síntese - obviamente, passiva aparece a coisa una e, nela, a sua

plesmente para o eu, a qual se pode sempre apreender de novo, seja em forma etc. Assim, precisamente esta síntese tem, enquanto síntese desta
reiteradas produções, com a consciência sintética da mesma objetividade forma, a sua história, que nela própria se manifesta. Residenuma gênese
como de novo dada na ínfuição categoria/,seja numa consciênciavaga que se desenvolve em conformidade com uma essência que eu, o ego,já
que Ihe corresponda sinteticamente.A constituição transcendentalde num primeiro olhar, possa fazer experiência de uma coisa. Isto é válido,
objetos de tais tipos, com referência a atividades intersubjetivas (como de resto, tanto para a gênese fenomenológica como para a gênese psico-
as da cultura), pressupõe a constituição prévia de uma intersubjetividade lógica no sentido comum. Com boas razões se diz que nós, nos primeiros
transcendental, da qual só mais tarde se falará. tempos de infância, tivemos primeiro, em geral, de aprender a ver coisas,
Às formas de grau superior de tais atividades da Razão num sentido e que isso deve preceder geneticamente todos os outros modos de consci-
ência das coisas. O campo perceptivo pré-doador naprimeíra írlááncía não
específico e, correlativamente, aos produtos racionais, que têm, no seu con-
junto, o caráter da irrealidade <112> (de objetos ideais)s não os podemos, contém ainda, por conseguinte, aquilo que, no simples ver, pode ser ex-
como já foi mencionado, encarar como pertencentes,sem mais, a todo e plicitado como uma coisa. Portanto, sem regressarmos ao campo da pas-
qualquer ego concreto enquanto tal(como o mostra já a recordação dos nos- sividade ou fazer uso do modo de consideração psicoíísico exterior, que
sos tempos de infância). Certamente que se passaráalgo diferente com os caracteriza a Psicologia, poderemos, <1 13> ou pode o egoque medita, por
graus mais baixos, como o captar experienciante, como o explicitar-o-expe' penetraçãono teor intencional dos próprios fenómenosda experiência
rienciado-nos-seus-momentos-singulares ou conjunta-lo, relaciona-lo etc. (fenómenos de experiência de coisas e outros afins), encontrar remissões
intencionais que conduzem a uma hísfóría, ou seja,que dão a conhecer es-
5 /dea/(Nota do Tradutor) tesfenómenos como formas subsequentesde outras, que essencialmente

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as precedem (mesmo que não sejam diretamente referíveis ao mesmo ob- espaço-temporal. .Associaçãoé um <1 14> conceito/undamentaZJenome
jeto). Mas aqui encontramos, de imediato, legalidades de essência de uma noZógíco-franscendenta/(do mesmo modo que aparece, também, entre
edificação de síntesessempre novas que, em parte, estão subjacentes a toda os conceitos psicológicos fundamentais paralelos de uma Psicologia
atividade e que, na outra parte, abarcam de novo toda atividade; encon- intencional). O antigo conceito de associação e de leis de associação,
tramos uma gênesepassivadas múltiplas apercepções, como formações se bem que, desde Hume, tenha sido pensado como estando, em regra,
referido aos nexos da vida anímica pura, não passa de uma distorção
persistentes numa habitualidade própria, que parecem, para o eu central,
pré-doaçõesjá formadas que, ao se tornarem atuais, metam e motivam naturalista dos autênticos conceitos intencionais correspondentes.Atra-
para atividades. Graças a esta síntese passiva (à qual, portanto, se ajustam vés da Fenomenologia, que só muito tardiamente encontrou uma via de
as realizações da atividade), o eu tem incessantemente uma cercada de acesso à pesquisa da associação, este conceito contém uma face comple
Duetos. Pertence já a isto que tudo o que me afeta, enquanto ego desen- tamente nova, uma delimitação essencialmente nova, com novas formas
ho/viço, sejaapercebido enquanto oqefo, enquanto substrato de proprie- fundamentais, às quais, por exemplo, pertence a configuração sensível
dades a conhecer. Porque esta é uma forma final possível, conhecida de na coexistência e na sucessão.É, porém, fenomenologicamente evidente

antemão, para possibilidades de explicação que tornam bem conhecido, - sebem que estranho para os que se enfeudam na tradição que a asso-
explicaçõesque constituiriam um objeto numa possepermanente como ciação não é um simples título para uma legalidade empírica, regendo a
sempre de novo disponível e esta forma final é de antemão compreensí- complexão de dados numa a/ma - qualquer coisa como uma gravitação
vel como tendo brotado de uma gênese. Ela remete já para uma írzsfffzzição interna da alma, de acordo com a imagem antiga -, mas antesum título,
or@ínáría desta forma. Tudo o que é bem conhecido remete para um ato amplíssimo, para uma legalidade intencional de essência da constituição
originário de tomar conhecimento; aquilo a que chamamos desconhecido do egopuro, um domínio de a priori inato sem o qual, portanto, um
tem, assim,uma forma estrutural de cognoscibilidade,a forma oQetoe, qo enquanto tal é impensável. SÓa partir da Fenomenologia da gêne-
mais detalhadamente, a forma coisa espacííz/,oqeto czz/fziraZ,
zzfensí/íoetc. se se tornou o egocompreensívelcomo uma conexão inânita, enlaçada
na unidade da gêneseuniversal, de operações que se pertencem mutu-
amente de um modo sintético - em graus que se devem conjugar por
S 39. Associação como princípio da génesepassiva completo com a forma universal e persistente da temporalidade, porque
esta se edifica, ela mesma, numa gênese constantemente passiva e com-

O princípio universal da gênesepassivapara a constituição de to- pletamente universal que, por essência,abarca tudo o que surge como
das as objetividades, enquanto pré-dadas de modo último para todo o novo. Esta ediâcação gradual mantém-se no egodesenvolvido como um
construir ativo, leva consigo o título associação.Ele é, note-se bem, um sistema persistente de formas de apercepção e, com isso, como um siste
fífuZo da intencionalidade, enquanto tal descritivamente demonstrável ma de objetividades constituídas, entre elas, as de um universo objetivo
nas suas formas primitivas, e que está sob leis de essêncianas suas re- de estrutura ontológica fixa; e este manter-se é, ele próprio, uma forma
alizaçõesintencionais, leis que tornam compreensíveltoda e qualquer de gênese.Em tudo isto, o respectivo fato é irracional, mas só possível
constituição passiva,tanto a das vivências como objetos temporais ima- no correspondente sistema de formas do a pr/orí que Ihe é próprio, en-
nentes, como a de todos os objetos naturais reais' do mundo objetivo quanto fato egológico. A este respeito, não se deve perder de vista que o
.bafo e a sua irracionalidade
são, eles próprios, um conceito estrutural no
6 Rea/ (Nota do Tradutor) sistema do a priori concreto.

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S 4a. Passagempara a questão do Idealismo transcendental experiência autêntica e enganadora e, dentro dela, entre ser e aparência,
decorrem na minha própria esfera de consciência, do mesmo modo que
Com a redução da problemática fenomenológica ao título unitá- quando distingo, em níveis mais elevados,entre pensamento com e sem
rio de conjunto da constituição (estática e genética) das objetividades de visão intelectual, e também entre necessidadesa priori e contrassensos,
uma consciência possível, < 115> parece que a Fenomenologia se deverá. ou entre o que é empiricamente correto e o que é empiricamente falso.
com razão, caracterizar como Teoria Transcendenfa/do Conhecimento. Evidentemente efetivo, pensado como necessário, contrassenso, pensado
Contrastemos estaTeoria do Conhecimento, transcendental neste senti- como possível, provável etc. - tudo isso são caracteresdo objeto inten-
do, com a Teoria do Conhecimento tradicional. cional respectivo que surgem no meu próprio domínio de consciência.
O problema desta última é o da transcendência. Mesmo quando Toda e qualquer fundamentação, toda justificação da verdade e do ser
se apoia, enquanto teoria empírica, na Psicologia usual, ela quer ser não decorrem, de ponta a ponta, em mim, e a sua resultante final é um caráter
uma simples psicologia do conhecimento, mas antes esclarecer,a par- no cogítafum do meu cogffo-
tir de princípios, a própria possibilidade do conhecimento. O problema <116> Por aí se vê, agora, o grande problema. Que eu, no meu
surge-lhe na atitude natura/ e é, subsequentemente, também nela tratado. domínio de consciência, no contexto da motivação que me determina,
Eu encontro-me de antemão no mundo enquanto homem e, em simul- chegue a certezas, e mesmo a evidências inflexíveis, isso é compreensí-
tâneo, enquanto alguém que faz experiência do mundo e que conhece vel. Mas como poderá ganhar significação objetiva todo essejogo, que
cientificamente o mundo, incluindo eu próprio. Agora, eu digo a mim decorre na imanência da vida de consciência? Como poderá a evidência
mesmo: tudo o que é para mim é-o graças à minha consciência cognos- (a c/ara et disfincfa percepfío) reivindicar ser algo mais que um caráter de
cente, é para mim o experienciado do meu experienciar, o pensado do consciênciaem mim? Eis o problema cartesiano (deixando de lado a ex-
meu pensar, o teorizado do meu teorizar, o intelectualmente visto do meu clusão, talvez não tão indiferente quanto se possa pensar, da validade de
ver intelectual. Se, seguindo F Brenfano, reconhecermos a intenciona- ser do mundo), que deveria ser resolvido por meio da veracifas divina.
lidade, diremos então: intencionalidade, como traço peculiar de fundo
da minha vida psíquica, designa uma peculiaridade real' que me per-
tence enquanto homem, bem como a qualquer outro homem, a respeito S 41. A autêntica autoexplicitação fenomenológica do ego copito como
da sua interioridade puramente psíquica, e já Brerzfanoa havia coloca- "Idealismo transcendental"
do no ponto central da Psicologia empírica do homem. O discurso na
primeira pessoa deste começo é e permanece um discurso na primeira Que tem a dizer sobre isso a autorreflexão transcendental da Feno-
pessoanatural, ele mantém-se ainda, bem como todo o desenvolvimento menologia?Ela não tem a dizer outra coisa senãoque todo esteproblema
subsequentedo problema, no terreno do mundo dado. E isto quer dizer, é um contrassenso,
um contrassensoem que o próprio Descartesteve
agora, obviamente, o seguinte: tudo o que é e que vale para os homens, de cair por não ter topado com o sentido autêntico da sua éxoX'Rtrans-
que é e vale para mim, fá-lo na vida de consciência própria, a qual per- cendental e da redução ao ego puro. Mas mais grosseira ainda é a atitude
manececonsigo mesmaem todo o ter consciênciade um mundo e em de pensamento dos que se seguem a Descartes, precisamente por desa-
todo o operar cientificamente. Todas as diferenciaçõesque eu faço entre tenção completa à êvoXq cartesiana. Perguntamos: quem é, então, o eu
que pode levantar, com pleno direito, tais questõesfranscendenfaís?Posso
7 /?ea/(Nota do Tradutor) eu fazê-lo enquanto homem natural, posso eu, enquanto tal, questionar

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seriamente e de um modo transcendental sobre como poderei sair da simplesmente para o ego íático e para tudo aquilo que faticamente Ihe
ilha da minha consciência e como poderá adquirir signiâcação objetiva estáacessívelenquanto sendo para ele e, aí incluído, também para uma
aquilo que surge na minha consciência como vivência da evidência? Por. pluralidade aberta de outros egoque sãopara ele,juntamente com as suas
quanto me aperceba como homem natural, já terei tido de antemão uma operatividades constitutivas. Dito com mais precisão: se em mim, o ego
apercepçãodo mundo espacial,já me terei apreendido como estando no transcendental, sãotranscendentalmente constituídos não só outros ego,
espaço,no qual terei, portanto, um fora-de-mim. Não estará,por con- como de fato acontece,mastambém um mundo objetivo a todos comum,
seguinte, a validade da apercepçãodo mundo já pressupostana própria como constituído, por seu lado, pela intersubjetividade transcendental
posição da questão, não terá ela entrado no próprio sentido da pergunta, que surge, com isso, constitutivamente a partir de mim, então tudo o que
se bem que só da sua resposta pudesseresultar, em geral, a justificação foi dito há pouco não é válido simplesmente para o meu ego fático e para
dessa mesma validade objetiva? É manifestamente necessária a execução estaintersubjetividade e estemundo fáticos, que ganham sentido e vali-
consciente da redução fenomenológica, a fim de alcançar aquela vida de dade de ser em mim. A autoexplicitaçãolenomenoZógÍca que se consuma
consciência, aquele eu a partir do qual nos será possível levantar ques- no meu ego, a explicitação de todas as suas constituições e de todas as
tõestranscendentais, enquanto questõessobre a possibilidade do conhe- objetividades que são para ele, assume necessariamentea forma metó-
cimento transcendente.Assim que, em vez de efetuarmos fugazmente dica de uma autoexplicitação apriorística, que ordena os fatos no corres-
uma éTroXÓfenomenológica, nos entregarmos ao empreendimento de pondente universo de possibilidades (eidéticas) puras. Ela dirá, portanto,
desvendar,numa autorreflexão sistemáticae enquanto egopuro, o cam- respeito ao meu eXOfático apenas na medida em que ele é uma das possi-
po de consciência em totalidade, reconheceremos,então, que tudo o que bilidades puras, que se obtém a partir dele por meio da livre variação de si
é para esseego <117> é algo que se constitui nessepróprio ego e, mais mesmo em pensamento (variação na ficção); ela vale, com isso, enquan
ainda, que todo e qualquer tipo de ser - e, dentro disso, aquele que se ca- to eidética, para o universo destas minhas possibilidades enquanto ego
racteriza como transcendente em algum sentido - tem a sua constituição em geral, para as minhas possibilidades de ser outro qualquer e, assim,
particular. A transcendência, em todas as suas formas, é um caráter de ser também para cada intersubjetividade possível, referida a cada uma des-
imanente, que se constitui no interior do ego.Todo sentido que se possa tas minhas possibilidades na variação correlativa, <1 18> e, para lá disso,
conceber, todo ser concebível, chame-se ele imanente ou transcendente, para o mundo que é nestas pensável como intersubjetivamente constitu-
cai no domínio da subjetividade transcendental, enquanto constituinte ído. A Teoria do Conhecimento autêntica só tem, assim,pleno sentido
de sentido e ser. Não tem sentido querer captar o universo do ser ver- enquanto fenomenológico-transcendental, a qual, em vez de ter que ver
dadeiro como qualquer coisa que está fora do universo da consciência com inferências,que são um contrassenso,de uma supostaiminência
possível, do conhecimento possível, da evidência possível, de modo que para uma suposta transcendência de "coisas-em-si" que, alegadamente,
ambos os universos se correlacionassem de uma forma simplesmente ex- seriam, por razões de princípio, incognoscíveis, tem exclusivamente que
terior por meio de uma lei fixa. Por essência,ambos se correspondem, e ver com o esclarecimentosistemático da operatívidade cognitiva, na qual
aquilo que se corresponde por essênciaé, também, concretamente um, estasdevem, de ponta a ponta, ser compreendidas como uma operativi
um na concreçãoabsoluta única da subjetividade transcendental. Seesta dade intencional. Precisamente por isso, todo tipo de ser, tanto real como
é o universo do sentido possível, então um exterior a ela será precisamen- ideal,; se torna ele próprio compreensível enquantolormação constituída
te algo sem sentido. Mas já o próprio sem sentido é um modo do senti-
do, e esta ausência de sentido tem a sua evidência. Isto não vale, porém, 8 Rea/,fdea/anota do Tradutor)

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precisamente nesta operatividade da subjetividade transcendental. Este pria Fenómeno/ogía.SÓquem compreende mal o sentido mais profundo
tipo de compreensibilidade é a mais alta forma de racionalidade que se do método intencional ou o da redução transcendental, ou mesmo o de
pode conceber.Todas as transviadasinterpretaçõesdo ser provêm da ambos, pode querer separar Fenomenologia e Idealismo transcendental;
cegueira ingênua a respeito dos horizontes que são codeterminantes do quem incorre nesta má compreensão nem sequer começou por perceber
sentido do ser e das correspondentes tarefas de desvendamento da inten- a essênciapeculiar de uma Psicologiaintencional autêntica (e, aí incluída,
cionalidade implícita. Seestessão vistos e assumidos, resulta então, como de uma Doutrina do Conhecimento psicológico-intencional), nem a sua
consequência,uma Fenomenologia universal como autoexplicitação do vocaçãopara se tornar a peça fundamental e nuclear de uma Psicologia
ego, prosseguida na constante evidência e, com isso, na plena concreção. verdadeiramente cientíâca. Mas quem falseia o sentido e a operatividade
Dito de um modo mais preciso: como, em primeiro lugar, uma autoex- da redução fenomenológico-transcendental permanece ainda no Psico-
plicitação em sentido pleno, que mostra sistematicamentecomo o egose logismo transcendental, confunde Psicologia intencional e Fenomenolo-
constitui um ser próprio, enquanto sendo em si e para si, e logo de segui- gia transcendental - um paralelismo que brota da possibilidade essencial
da, em segundo lugar, como uma autoexplicitação em sentido alargado, de uma alteraçãode atitude - e cai no contrassensode uma Filosofia
que mostra, a partir daí, como o ego constitui em si, em virtude deste seu transcendental que continua estando no terreno natural.
ser próprio, também o outro, o o@efívoe, em geral, tudo o que para ele As nossasmeditaçõesprogrediram tanto que trouxeram jâ ã evi-
tem validade de ser enquanto não eu no eu. dência o estilo necessáriode uma filosofia enquanto Filosofa fenomeno-
Desenvolvida nessaconcreção sistemática, a Fenomenologia é, eo lógico-transcendental e, correlativamente, para o universo daquilo que é
Pso, laca/esmo franscendenfa/, se bem que num sentido fundamental para nós efetivo ou possível, o estilo da sua única possível interpretação
essencialmente
novo; não no de um Idealismopsicológico,nem no de de sentido, a saber,enquanto Idealismo fenomenológico-transcendental.
um Idealismo que, a partir de dados sensuais carecidos de sentido, quer Esta evidência envolve também que a iníinitude do trabalho, posta a des-
derivar um mundo pleno de sentido. Ela não é também um Idealismo coberto pelo esboço muito geral que dizemos- o trabalho de autoexplici-
kantiano, que, pelo menos como conceito-limite, crê poder manter em tação do meu egomeditante, segundo a constituição e o constituído -, se
aberto a possibilidade de um mundo de coisas-em-si. Ela é, antes, um insira, como cadeia de meditações singulares, no quadro universal de uma
Idealismo que não consiste em nada mais do que na autoexplicitação, meditação unitária, que pode sempre ser sinteticamente continuada.
consequentemente desenvolvida, do meu ego enquanto sujeito de todo o Devemos acabar por aqui e deixar todo o resto para os comple-
conhecimento possível, na forma de uma ciência egológica sistemática, e mentos de detalhe? A evidência adquirida, com o seu sentido final pré-
isto a respeito de cada sentido de ser com o qual tudo o que é devepoder delineado, é já suficiente? Foi este esboço já levado suficientemente lon-
ter para mim, o ego, precisamente um sentido. Este Idealismo não é pro- ge para nos infundir a grande crença numa Filosofia que brote deste
duto de jogos argumentativos, um troHu a ganhar no combate diabético método meditativo da autoexplicitação <120> de tal maneira que a
com os rea/íamos.<1 19> Ele é a exp/fcífação do sepzfído,prosseguida num possamosacolher na nossa vontade e nos possamos entregar ao traba-
trabalho efetivo, de todo tipo de ser concebível por mim, o ego, e espe- lho numa jubilosa segurança? Mesmo neste olhar fugaz para o que em
cialmente o da transcendência (que me estáefetivamente pré-dada atra nós - em mim, o egomeditante - constituiu-se como mundo, como
vés da experiência) da Natureza, da Cultura, do Mundo em geral. Isto é, universo de ser em geral, não pudemos, naturalmente, evitar pensar
porém, o mesmo que dizer: desvendamento sistemático da própria inten- nos outros e nas suasconstituições. Por meio das constituições alheias,
cionalidade constituinte. Á províz deste /dea/limo é,por conseguínfe, czpró- que se constituem no meu próprio ego,constitui-se para mim (já o men-

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Meditações Cartesianase Conferênciasde Paris. Edmund Husser

cionamos) o mundo comum para todos nós. A isso pertence também,


naturalmente, a constituição de uma Filosofia como algo comum a fa-
dos nós,enquanto meditamos uns com os outros - a ideia de uma única
QUINTA MEDITAÇÃO
perennisp/zí/osoP/zííz.Mas será agora que essaevidência - a de uma Filo-
sofia fenomenológica e de um Idealismo fenomenológico como únicas
possibilidades se mantém firme, essaevidência que era completamen- DESVENDAMENTO DA ESFERA DE SER TRANSCENDENTAL
te clara e segura tanto quanto nós, entregando-nos ao curso das nossas
COMOINTERSUBIETIVIDADE MONADOLÓGICA
intuições meditativas, expressávamos as necessidades de essência que
assim vinham à luz do dia? Será que ela não se torna vacilante pelo fato
S 42. Exposição do problema da experiência alheia em contraposição à ob
de não termos levado suficientemente longe o esboço metódico, de ma-
3eçãodo Solipsismo
neira a que tanto a possibilidade (que todos nós sentimos como muito
estranha) como o tipo mais preciso do ser-para-nós dos outros sejam
Liguemos as nossas novas meditações a uma objeção ponderosa, ao
compreensíveis segundo a generalidade de essência e sejam expostas
as respectivas problemáticas? Se as nossas meditações carfesíanas de- que parece. Ela diz respeito nada menos que à pretensão da Fenomenolo-
vem ser para nós, como filósofos em formação, a reta ízztroduçãonuma gia transcendental de ser já uma Filosofia transcendental e, por conseguin-
filosofa e o começo fundamentante da sua efetividade como ideia ne te, de poder resolver os problemas do mundo objetivo sob a forma de uma
cessariamente prática (um começo a que pertence, portanto, também problemática constitutiva que se mova no quadro do egotranscendental-
a evidência de um caminho a constituir, enquanto necessidade ideal. mente reduzido. Quando eu, o eu que medita, me reduzo ao meu egotrans
cendental absoluto através da êvoXÚ fenomenológica, não me torno num
para a infinitude de trabalho a realizar), então as nossas próprias medi-
tações deverão conduzir-nos suâcientemente longe para que, sob este solz4sipsoe não o permaneço porquanto eu, sob o título de Fenomenologia,
aspecto, não deixem em aberto qualquer estranheza quanto à sua meta exerça consequentemente uma autoexplicitação? Não deverá uma Feno-
e ao seu caminho. Elas devem, tal como o queriam as antigas medita- menologia que queira resolver os problemas do ser objetivo e apresentar-se
ções cartesianas,desvendar, com uma compreensibilidade sem resto, a como Filosofia ser estigmatizada como solipsismo transcendental?
problemática universal pertencente à ideia-final da Filosofia (para nós, Reflitamos mais de perto. A redução transcendental vincula-me à
portanto, os problemas constitutivos); e isso implica que elas devam corrente das minhas vivências puras de consciência e às unidades cons-
ter já exposto, na maior e, contudo, mais estritamente delimitada das tituídas através das suas atualidades e potencialidades. Parecerá, então,
generalidades, o verdadeiro sentido universal do ser em gera/ e as suas óbvio que tais unidades sejam inseparáveis do meu ego e, assim, que per-
estruturas universais - numa generalidade que torne possível, por vez tençam à sua própria concreçao-
primeira, tanto a execuçãodo trabalho ontológico, sob a forma de uma Como ficamos,porém, com os outros ego,que não são,de todo,
Filosofia fenomenológica vinculada ao concreto, como também, numa uma simples representaçãoe algo representado em mim, simples unida-
consequênciamais larga, uma <121> ciência filosófica dos fatos, por- des sintéticas de possível conârmação em mim, mas antes, segundo o seu
que o ente é, para a Filosofa e, assim, para a investigação correlativa sentido, precisamenteoutros?Será, portanto, que cometemos uma injus-
da Fenomenologia -, uma ideia prática, a ideia da inânitude do traba- tiça com o Realismo transcendental? Pode bem faltar-lhe fundamentação
lho teoreticamente determinante.
fenomenológica, mas, em termos de princípio, ele procede corretamente

126
Meditações Cartesianas e Conferências de Paras' Edmund Husserl Quinta Meditação

quando procura um caminho da imanência do egopara a transcendên- fatos transcendentais da minha esfera fenomenológica - como, de outro
cia dos outros. <122> Enquanto fenomenólogos,não poderemos fazer modo senão interrogando-as, poderia eu explicitar, em todos os seusas-
outra coisa senão segui-lo e dizer: a natureza e o mundo imanentemente pectos, o sentido "outro que é"?
constituídos no ego em geral têm, por trás de si, o próprio mundo que é
em sí, para o qual se deve, em primeiro lugar, buscar precisamente a via
de acesso; e, com base nisso, dizer ainda: a questão sobre a possibilida- $ 43. O modo õ?zfico-rzoemáfíco de doação do outro como ./io condutor
de do conhecimento efetivamente transcendente e, primeiro que tudo, a transcendental para a teoria corlstitutiva da experiência alheia
questão sobre a possibilidade de eu, a partir do meu ego absoluto, chegar
até outros ego,que, todavia, enquanto outros, não estão efetivamente em Antesde mais nada,tenho no outro experienciado,tal como ele
mim, mas estãoapenasem mim enquanto conscientes,é uma questão se me dá diretamente, quando aprofundo o seu teor õntico-noemático
que não pode ser levantada de um modo puramente fenomenológico <123> (puramente como correlato do meu coglto,cuja estrutura mais
Não é desdelogo óbvio que o meu campo de conhecimento transcenden- detalhada há agora que desvendar), o âo condutor transcendental. Na
tal não se estende para lá da minha esfera de experiência transcendental e notabilidade e pluralidade deste conteúdo revelam-se já a multilatera-
daquilo que está nela sinteticamente contido? Não é óbvio que tudo isto é lidade e a dificuldade da tarefa fenomenológica. Por exemplo, os outros
definido atravésdo meu próprio egotranscendental e que nele se esgota? experiencio-os eu, enquanto outros que são efetivamente, em multiplici-
No entanto, talvez que nem tudo estejaem boa ordem em tais pen- dades de experiência mutáveis e concordantes, e experiencio-os, certa-
samentos. Antes de nos decidirmos por eles e pelas coisas "óbvias" de que mente, por um lado, como objetos do mundo, não como simples coisas
fazem uso, e antes de nos envolvermos em argumentações dialéticas e em naturais (sebem que também os experiencie como tal, segundo um certo
hipóteses que se denominam como "metafísicas" - cuja pretensa possi- aspecto). Eles são também experienciados como governando psiquica-
bilidade talvez se venha a apresentarcomo um perfeito contrassenso-. mente os somas: naturais que lhes correspondem. Assim entrelaçados de
será, desde logo, mais adequado compreender e desenvolver sistematica- modo peculiar com os somas,enquanto objetos psico/ísícos,estão elesno
mente, num trabalho concreto, a tarefa de explicitação fenomenológica mundo. Por outro lado, experiencio-os, ao mesmo tempo, como sujeitos
que nos é indicada pelo a/fer-ego.Temos de ganhar uma visão sobre a para estemundo, como tendo experiência deste mundo, destemesmo
intencionalidade explícita e implícita em que, a partir do terreno do nos- que eu experiencio, e, portanto, como tendo experiência de mim próprio,
so ego transcendental, o a/fer-ego se anuncia e se conârma, sobre como, de mim, tal como experiencio o mundo e, portanto, aos outros. Deste
em que intencionalidades, em que sínteses,em que motivações o sentido modo poderei eu, prosseguindo nesta direção, explicitar noematicamen-
cz/fer-egose forma em mim e, sob o título de experiênciaconcordante do te ainda muitas outras coisas.
que me é a/heío,' se confirma como sendo e mesmo como estando, a seu Em todo caso, portanto, em mim, no quadro da minha vida de
modo, ele próprio aí. Estas experiências e suas operatividades são bem consciência transcendentalmente reduzida, tenho experiência do mun-
do, incluindo os outros, e, segundo o sentido da experiência, não como
l
N.T.: Freme, significando estranho, esfrange/ro, a/he/o, entra, nesta quinta medita-
ção, numa oposição semântica com e/gen, no sentido do que é próprio, peculiar. Por
essarazão, traduzimos o jogo semântico e/gen-/remo pelo par equivalente própr/o- 2 N.T.:Como foi antes indicado, em todas as ocorrências traduzimos l.e/b e/efb/ích por
a/he/o. Todos os compostos de /remo, que são múltiplos (como Fremde/jahrurvg, soma e somático; Kórper e kórper//ch, por corpo e corpóreo; os compostos, como,
Fremdbewusstse/netc.), serão uniformemente traduzidos pela palavra «alheio" por exemp\a, Leibkórper,kõrperlicher Leib, por corpo somático, soma corpóreo etc.

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Quinta Meditação
Meditações Cartesianas e Conferências de Parase Edmund Husserl

tipo etc.), que trazem também consigo, ao mesmo tempo, o sentido de


formação sintética minha, privada, por assim dizer, mas antes como um
experiência aí-para-qualquer-um (scíZfcef,para qualquer um da corres-
mundo que me é alheio, como um mundo íntersuqetívo,como sendo
pondente comunidade, como, por exemplo, os europeus ou, de um modo
para qualquer um, como um mundo acessívelpara qualquer um nos seus mais limitado, os franceses etc.).
objetos. E, contudo, cada um tem as suas experiências, as suas apançoes
e unidades de aparição, o seu fenómeno-mundo, ao passo que o mundo
experienciado é em si, perante todos os sujeitos que experienciam e pe- S44. Redução da experiência transcendental à esfera de propriedade
rante os seus fenómenos-mundo.
Como se pode esclareceristo? Imperturbavelmente deverei eu
Se está agora em questão a constituição transcendental e, com isso,
manter que todo e qualquer sentido que um qualquer ente tenha e pos- o sentido universal do ser que, irradiando a partir dela, torna possível
sa ter para mim. tanto quanto ao sêu "guia" como quanto ao seu "é, e é
para mim, por vez primeira, o mundo objetivo, então o sentido de sz4b-
eáefivamenfe':é um mentido.em ou a partir da minha vida intencional,
.Íetívídadealheia que estáem questãonão pode ainda ser o dos outros
cujas sínteses constitutivas,';;oisistemai ãiconíirmação concordante,
enquanto objetivos, enquanto sujeitos que são no mundo. Para proceder
são aquilo a partir de que esse sentido para mim se aclara e se desven-
aqui corretamente,há a exigência metódica primacial de efetuar, antesde
da. Para estabelecero terreno em que podem ser respondidastodas as
tudo, um tipo peculiar de êTroxãtemática no interior da esferatranscen-
perguntas concebíveis que, em geral, possam ter pleno sentido, e mesmo dental universa . Para começar, excluiremos do campo temático tudo o
para expâ-las e resolver passo a passo,há, portanto, que começar com um
que é agora questionável, ou seja, absfraíremoi' de rodas as operafívidades
desdobramento sistemático das intencionalidades abertas e implícitas em
constitutivas da intencionalidade-que estejam referidas, mediata Ol{ime-
que o ser dos outros selar para mim e se explicita segundo o seu correto
díafamenfe,à suqefívídadealheia e delimitaremos,desdelogo, o con-
teor, isto é, segundo o seu teor suscetívelde um preenchimento.
texto de conjunto daquela intencionalidade, tanto atual como potencial,
O problema estáposto, desde logo, como um problema especial,
em que o egose constitui na suapropriedade e < 125> constitui unidades
precisamentecomo o <124> problema dg#!j:2Ízm-mÍm dos outros, por'
sintéticas que são inseparáveis dele, por conseguinte, que devem ser im-
tanto, como tema de uma teoria franscefzdenfa/da experiência do que me
putadas à sua propriedade.
é aJ/leio, da chamada {?zfropafía. Mas imediatamente se torna patente que
A redução à minha esfera própria transcendental ou ao meu eu-
o alcance de uma tal teoria é muito maio.r do que parece à pr.ipçlra )lj$a,
mesmo concreto, por meio da abstração de tudo o qltf.IÊsult&p4ra !p+m
dado que ela também conjuntamente/finda uma feoría franscerzdenfaZdo como alheio na constituição tran ceílídãiiãl:'tem aqui um sentido inco-
mundo oqefivo, e seguramenteem todos os aspectos,particularmente riiliü. Na atitude natural da mundaneidade, encontro diferenciados e sob
também a respeito da Natureza objetiva. Ao sentido de ser do mundo e,
a forma da contraposição - eu e os outros. Se abstraio dos outros no
em particular, da Natureza enquanto objetiva pertence,como Jã men- sentido comum, então acabopor ficar só.Mas esta abstraçãonão é radi-
cionamos acima, o aí-paríz-qzzaZquer-um,enquanto algo por nós sempre
cal, porque esteestar-sóainda não produz qualquer alteração no sentido
covisado quando falamos de realidade objetiva. Além disso, ao mundo
mundano, natural, do experienciável-por-qualquer-um,que é inerente
da experiência pertencem objetos com plç!!içê1191.glZ?Í11i!!!gls,
que reme- ao eu naturalmente compreendido e que não se perderia mesmo se uma
tem, segundo a sua origem e sentido, para sujeitos e, em geral, para sujei-
pesteuniversal me tivessedeixado inteiramente só no mundo. Na atitude
tos alheios e para a sua intencionalidade ativamente constituinte: assim transcendental e, em simultâneo, na abstração constitutiva que acabamos
acontececom todos os objetos culturais (livros, utensílios e obras de todo
131
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Quinta Meditação
Meditações Cartesianas e Conferências de Parase Edmund Husser

de assinalar, o meu ego o daquele que medita - não é, porém, na sua Essa problemática ganhará em compreensibilidade quando pro-
cedermos à caracterização da esfera de propriedade do ego, correspon
propriedade transcendental, o eu-homem no sentido comum, reduzido
a um simplesfenómenocorrelativono interior do fenómenoglobal do dentemente, quando executarmos explicitamente a éxoXÓ abstrativa que
mundo. Ao contrário, trata-se,agora,de uma estruturaessencialda cons- engendra essaesfera. A exclusão temática das realizações constitutivas da

fÍfuição uníversa/, em que transcorre a vida do ego transcendental, en- experiência do que é alheio e, com isso, de todos os modos de consciência
referidos ao alheio, não quer apenasdizer a êvoXÓ fenomenológica a res-
quanto constituinte de um mundo objetivo.
O que me é especificamentepróprio enquanto ego,o meu ser con- peito da ingênua validade de ser do que me é alheio, tal como a de todos
os objetos que, ingênua e diretamente, são para nós. Porque está e sempre
creto enquanto manada, puramente em mim próprio e para mim próprio,
continua pressupostaa atitude transcendental, segundo a qual tudo o que
numa propriedade fechada, compreende, tanto como outra qualquer,
também a intencionalidade dirigida para o alheio, apenasque, desdelogo antes fora diretamente para nós um ser é tomado exclusivamentecomo

por razõesmetodológicas, a suaoperatividade sintética (a efetividade do Jenõmeno,como um sentido visado que se confirma, puramente tal como
alheio para mim) deve permanecer tematicamente excluída. Nesta inten- adquiriu e adquire para nós sentido de ser, enquanto correlato de sistemas
cionalidade insigne, constitui-se um novo sentido de ser que ultrapassa o constitutivos que há que desvendar. Através desta évoXrl de tipo novo,

meu ego monádico na sua propriedade mesma, e constitui-se um ego não estamos agora preparados precisamente para essedesvendamento e acla-
como eu-mesmo,mas antes como espelhando-seno meu próprio eu, na ração do sentido, e, mais particularmente, do modo que se segue.
minha manada. Todavia, o segundo egonão estápura e simplesmente aí Enquanto assumo a atitude transcendental, procuro, primeiro que
como elemesmo dado em sentido próprio, mas é antesconstituído como tudo, delimitar o próprio-cz-mim no interior do meu campo de experiên-
cia transcendental. Ele é, di-lo-ei em primeiro lugar, o não a/belo. Come
czZter-ego,
em que o egoque estaexpressão "aZfer-ego"indica, como um dos
seus momentos, sou eu-mesmo na minha propriedade. Açg!!!!ç+g..g..!çU ço, assim, por libertar abstrativamente este horizonte de experiência de
sentido constitujÉb: o outro remete para mim mespg,, o outro é reflexo de tudo o que me é, em geral, alheio. Pertence ao fenómeno transcendental
mim mesmo e, porém, não reHexono sentido comum; o outro é o análo- do mundo que ele seja diretamente dado numa experiência concordante
e, assim,considerando-o de um modo sinótico, há que atentar no modo
go de mim mesmo e, de novo, porém, não o análogo no sentido comum.
como o alheio se apresentacomo codeterminante do sentido do mundo
Se, portanto, e enquanto <126> primeira coisa que há a fazer, o ego for
delimitado no que Ihe é próprio, se for visto e articulado na suaconsistên- e, na medida em que o faz, há que exclui-lo abstrativamente. Assim, abs-
traímos desdelogo daquilo que dá o seu sentido especíâcoaos homens
cia - não apenas de vivências, mas também de unidades de validade, que
são concretamente inseparáveis dele -, então deverá, em conexão com e animais, enquanto seresvivos de tipo egoico, por assim dizer, e, numa
isso, levantar-se a questão de saber como pode o meu ego,no interior da <127> consequênciamais lata, abstraímos de todas as determinações do
mundo fenomênico que remetem, no seu sentido, para os outros enquan-
sua propriedade, constituir, sob o título "experiência alheia': precisamen-
te algo alheio, portanto, constituir algo com um sentido tal que exclua o to sqeitos egoicose, por essarazão,os pressupõemjá. Assim o é com
constituído da consistência concreta do eu-mesmo concreto que constitui todos os predicados culturais. Acerca disso, também poderemos dizer
essesentido, que o constitua, de certo modo, como um a?zaZogon. Isto diz que abstraímos de toda a espirífua/Idade alheia, enquanto ela torna possí-
respeito, de início, a um qualquer aZfer-ego,mas, de seguida, dirá respeito vel o sentido específico de alheio que está aqui em questão. Também não

a tudo o que adquire sentido determinante a partir de todos os ego, numa pode ser descurado e deve ser abstrativamente excluído - o caráter da
círcum-mandaneídadepara qualquer um, do aí-para-qualquer-um e do
palavra, ao mundo objetivo no seu sentido próprio e pleno.

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl Quinta Meditação

estar-disponível, o poder-importar-ou-não-importar-para-a-vida-e-as- ?zafurezaque são captados na minha propriedade, encontro, então, com
aspirações,que é próprio de todos os objetos do mundo fenomênico e uma proeminência única, o meu soma, a saber, como o único que não é
que constitui o seucaráter de nos serem alheios. um simples corpo, mas precisamenteum soma,o único objeto no interior
Verificamos, com isso, uma coisa importante. Nesta abstração, Te- do meu estrato abstrativo de mundo a que atribuo, em conformidade
remos um esf7afo nítárío e coerente do fenómeno-mundo, do correlato (jj;;ii"ã"êR:pariêncíã, campos.SÊ4$oriais, se bem que em diferentes modos
transcendental da experiência de mundo continuamente concordante e de pertença (campo de sensaçõestáteis, do frio e do quente etc.), o úni-
sempre prosseguida. Apesar desta nossa abstração, podemos prosseguir co em que imediatamente ponho e disponho, e em que particularmente
continuamente na intuição experienciante, permanecendo exclusivamen- governo em cada um dos seusórfãos. Eu percepciono com as mãos,tate-
te neste estrato. Este estrato unitário é, além disso, caracterizado por ser, ando cinestesicamente, do mesmo modo que, olhando cinestesicamente,
por essência, um estrato fundante, ou seja, eu não posso, manifestamen- percepciono com os olhos etc., e posso a todo tempo percepcionar assim,
te, ter experiência do a/belo, portanto, não posso ter o sentido mz4ndo pois estas cinesteses dos órgãos transcorrem no eulaço e estão submeti-
oyefivo como sentido da minha experiência semter esteprimeiro estrato das ao meu eu posso; além disso, eu posso, jogando com estas cinesteses,
numa experiência efetiva, enquanto o inverso não tem de se verificar. empurrar, impelir etc., e, com isso, ágil.!glpaticamente, primeiro, de um
Consideremos mais de perto o resultado da nossa abstração e, por- modo imediato, e, de seguida, também mediato. Percepcionando ativa-
tanto, daquilo que ela nos deixa como remanescente.No fenómeno do mente, tenho experiência (ou posso ter experiência) de toda a natureza
mundo, do mundo que aparececom sentido objetivo, separa-seum subs- e, dentro dela, da minha própria somaticidade,a qual está,portanto, re-
trato enquanto "natureza" í?zc/zzída
na minha propriedade, que deve ser trorreferida a si própria. Isto se torna possívelporque eu possosempre
bem separada da Natureza pura e simples e, portanto, daquela que é tema percepcionar, por meio de uma mão, a outra mão, por meio de uma mão,
do investigador natural. Certamente, também esta última desponta já a um olho etc., situação em que o órgão funcionante se tem de tornar ob-
partir da abstração,a saber, da abstração de todo o psíquico e dos pre- jeto, o objeto, órgão funcionante. E do mesmo modo para o comércio
dicadosdo mundo objetivo que provêm das pessoas.Mas aquilo que se originário, em geral possível,que tenho com a naturezae com a própria
obtém nesta abstraçãodo investigador natural é algo que pertence ainda somaticidade, através desta mesma somaticidade, a qual está, portanto,
ao próprio mundo objetivo (dito em atitude transcendental:ao sentido referida a si própria do ponto de vista prático.
objectual "mundo objetivo"), é, portanto, um estrato que será, ele pró- A apresentaçãodo meu soma reduzido à mj!!1llp11oWliedadesig
prio, objetivo, tal como aqueles de que nos abstraímos são, pelo seu lado, nificaJ4:3 exposição de um elemento da essênciaperu/lar do fenómeno
estratos objetivos (o psíquico objetivo, os predicados culturais objetivos objetivo "eu. !gquanfoestehomem't Se reduzo outros homens à esfera de
etc.). Na nossa abstração, porém, degaWarece total e completamente o propriedade, obtenho então corpos na esfera de propriedade, mas,se me
sentido "oqetív'o': que pertence a tudo o que é mundano, enquanto inter- reduzo enquanto homem, obtenho então o meu soma e a minha a/ma, ou
subjetivamenteconstituído como algo experienciávelpor qualquer um eu próprio enquanto unidade psicofísica e, nesta, o meu eu pessoal,que,
<128> etc. Assim, pertence à minha propriedade o sentido símp/esmz- neste e por meio deste soma, age e padece no mu/zdo exterior e, assim, em
furezcz,purificada de todo o sentido da subjetividade alheia, que perdeu geral, se constitui em unidade psicofísica com o soma corpóreo, em virtu-
precisamente também estepara-qua/quer-um e que, por isso, não pode, de da experiência constante destasreferencialidades egoicas e vitais pecu-
de modo nenhum, ser tomada como um estrato abstrativo do próprio liares. Sea depuração à esfera de propriedade é realizada relativamente ao
mundo ou, correspondentemente, do seu sentido. Entre os corpos desta mundo exterior, ao soma <129> e ao todo psicofísico, então perco o meu

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Quinta Meditação
Meditações Cartesianas e Conferências de Parase Edmund Husserl

transporto-o intencionalmenteem mim. Se deverasse pudessemostrar


sentido natural de ser um eu, pois fica eliminada toda e qualquer referên-
que tudo aquilo que é constituído como próprio, por conseguinte,tam
cia de sentido a um "nós" ou um "a nós" possível, bem como toda a minha
mundaneidade em sentido natural. Na minha esfera própria espiritual, bém o mundo reduzido, pertence à essênciaconcreta <130> do sujeito
constituinte como determinação interna inseparável, então o seu mundo
eu sou, porém, ainda um polo idêntico das minhas múltiplas vivências
próprio encontrar-se-ia,na autoexplicaçãodo eu, como í?zfernoe, por
puras, as da minha intencionalidade, tanto atava como passiva, e de todas
outro lado, encontrar-se-ia o próprio eu, enquanto percorre diretamente
as habitualidades que por essavia foram ou virão a ser instituídas.
estemundo, como um membro das exterioridades do mundo e eledistin-
Assim, por meio dessapeculiar separaçãoabstrativa do sentido do
guiria, assim, entre si próprio e mundo exterior.
alheio, retivemos ainda um tipo de "mundo': uma Natureza reduzida à
propriedade,um eu psicofísicocom um soma,uma almae um eu pesso-
al, inserido nessaNatureza por meio do soma corpóreo - as Únicas sin-
S 45. O ego transcendental e a autoapercepção enquanto eu psico$sico re
gularidades distinguíveis neste "mundo" reduzido. Manifestamente que
duvido à esferade propriedade
também surgem aí predicados que têm significação puramente a partir
deste eu, como, por exemplo, predicados "valorativos e produtivos't Tudo
Tanto estasúltimas como o conjunto destas meditações consuma-
isto não é, de todo, algo mundano em sentido natural (daí as aspascons-
mo-las nós na atitude da redução transcendental e, portanto, na do eu, o
tantes), mas apenas o que me é próprio em exclusivo na minha experiên-
eu daquele que medita, enquanto egotranscendental. Há agora a questão
cia do mundo, o que a atravessapor toda parte e que é também unitária
de sabercomo serelacionam um com o outro o eu-homem, reduzido à
e intuitivamente coerente nela. Por conseguinte,aquilo que, enquanto
suapura propriedade, num fenómeno-mundo do mesmo modo reduzi-
membros articulados, distinguimos nestefenómeno-mundo, restringido
do, e o eu enquanto egotranscendental. Esteúltimo provém da parenfefl-
a estapropriedade, é algo concretamente uno, tal como também se torna
zczçãodo mundo objetivo no seu conjunto e de todas as demais objetivi-
visível pelo fato de a forma espacial - mas a correspondente forma espa'
dades (também as ideais). Por meio dela, fiquei ciente de mim enquanto
cial reduzida à propriedade - também se inserir nestefenómeno-mundo
egotranscendental, que constitui na sua vida constitutiva tudo o que para
reduzido e, portanto, por também os "objetos" reduzidos, as "coisas'l o
mim é objetivo, o eu de todas as constituições, o eu em cujas vivências
"eu psicofísico': estarem uns com os outros numa relação de exteriorida-
atuais e potenciais, e nas habitualidades egoicas, existe e nas quais, tanto
de. Aqui surge-nos, todavia, algo digno de nota - uma cadeia de evidên-
como a tudo o que é objetivo, se constitui também enquanto egoidêntico.
cias que, na sua concatenação, parece, porém, apresentar um paradoxo.
Poderíamosagora dizer: enquanto eu, como esteego,constituí o mundo
A vida psíquica no seu todo destemeu eu psíco/ísícoe, com isso, a minha
que é para mim (enquanto correlato) e prossigo sempre constituindo-o
vida que faz experiênciado mundo, portanto, também a minha experi-
mais além, consumei, nas correspondentes síntesesconstitutivas - e sob
ência efetiva ou possível do alheio, não é afetada por esta supressão do
o título eu no sentido corrente do eu humano e pessoal no interior do
alheio. Pertence, portanto, ao meu ser anímico a total constituição do
todo do mundo constituído -, uma azzfoqpqçeZ?ção
mundanizanfe e man-
mundo para mim existente e, numa consequência mais larga, também
tenho-a constantemente numa validação e construção continuadas. Por
aquela diferenciaçãonos sistemasconstitutivos que formam o que me
força desta mundanização, tudo o que está transcendentalmente inserido
é próprio e o que me é alheio. Eu, o ez4-homemreduzido (eu psicofísi-
nesta esfera de propriedade, enquanto este ego último, entra na mí/zha
co), sou, portanto, constituído como membro do mzz?zdo, com o jora-
a/ma, enquanto algo psíquico. Eu encontro já de antemão a apercepção
de-mim multíplice, mas eu próprio constituo tudo isso na minha alma e
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Quinta Meditação
Meditações Cartesianase Conferênciasde Parase Edmund Husserl

mundanizante e poderei, agora, regredir da alma enquanto fenómeno e cemos com algo mais geral. Quando um objeto concreto da experiência
para nós se destacacomo qualquer coisa para si e, então, o olhar captador
parte do fenómeno-homem até mim enquanto egotranscendental uni-
da atenção para ele se dirige, ele é apropriado, neste mero captar, enquan-
versal e absoluto. Por conseguinte, quando eu, enquanto este ego, reduzo
o meu fenómeno do mundo objetivo à minha propriedade e aí adiciono, to simples objeto indeterminado da intuição empírica. Torna-se objeto
determinado e mais e mais determinável numa continuação da experi-
agora, tudo o que posso encontrar como meu próprio (o que, depois da-
ência, na forma de uma experiência explicitadora e determinadora que,
quela redução, não pode conter já o alheio), esta propriedade do meu ego,
de início, explicita apenaso próprio objeto a partir de si próprio numa
no seu conjunto, há-de reencontrar-seno fenómeno-mundo reduzido
experiência que é, em suma, uma pura explicação. Fundando-se no ob
enquanto a propriedade <131> da minha alma, apenascom a diferença
jeto dado numa identidade consigo mesmo na sínteseintuitiva contínua
de que esta,enquanto componente da minha apercepçãodo mundo, será
de identificação, a explicação desdobra, na sua progressão sintética arti-
algo seczzndárfodo ponto de vísfa franscendenfaJ.Senos mantivermos no
culada, numa concatenaçãode intuições particulares, as determinidades
egotranscendental último e no universo daquilo que é nele constituído,
que são próprias do objeto, <132> as determinidades internas. Elas com-
então verificamos que Ihe pertence imediatamente uma partição do seu
parecem originariamente como aquelas determinidades nas quais ele, o
inteiro campo de experiência transcendental na esferada sua proprieda-
de - com o estrato conexo da sua experiência de mundo em que todo o próprio, idêntico, é, na sua particularidade, aquilo que é - e, certamente,
alheio está desvanecido - e na esfera do alheio. Todavia, toda e qualquer aquilo que, em e por si, ele em si próprio é -, e em que o seu ser idêntico

consciência do que é alheio, todo e qualquer modo de aparição do alheio, se expõe nas suas propriedades particulares. Este teor próprio essencial
estáde antemão antecipado apenasem geral e em horizonte, e constitui-
pertence, porém, à primeira esfera.Tudo o que o egotranscendental cons-
seoriginariamente (com o sentido: nota característica interna, essenciale
titui naqueleprimeiro estrato enquanto não alheio - enquanto próprio
própria, parte específica,propriedade) apenasatravésda explicação.
pertence-lhe, de fato, como componente da sua própria essência concreta
Apliquemos isso. Quando eu, na redução transcendental,refeito
(como se terá ainda de mostrar), é inseparável do seu ser concreto. No
interior e com os meios deste próprio, ele constitui, porém, o mundo ob- sobre mim, o egotranscendental, então estou para mim próprio percep-
tivamente dado como este ego, e certamente numa percepção captadora.
jetivo enquanto universo de um ser que Ihe é alheio e, no primeiro nível,
o alheio no modo ízlfer-ego. Torno-me também ciente de que, antes disso, estavajá sempre aí origi-
nal e intuitivamente pré-dado para mim (percepcionado no sentido mais
lato), apenasque não captado.Mas eu estou dado, em todo caso,com
um horizonte aberto, sem íim, de peculiaridades internas que ainda não
S 46. A propriedade como e:!lera das atualidades e potencialidades da cor-
rente de consciência foram postas a descoberto. Também aquilo que me é próprio se descobre
por explicaçãoe retira o seusentido originário a partir da realizaçãodes
ta explicação.Ele desvenda-seoriginariamente no olhar experienciante e
Até aqui, o conceito fundamental de próprio-a-mim foi apenas indi-
explicitante que dirijo para mim próprio, a partir do meu eu sou, percep-
retamente caracterizado enquanto não alheio, coisa que, pelo seu lado, se
baseiano conceito de outro e, portanto, o pressupõe.Contudo, para uma tiva e mesmo apoditicamente dado, e da sua identidade persistentecon
sigo próprio, na síntesecontínua unitária da autoexperiência originária.
clarificação do seu sentido, será uma coisa importante elaborar também
O essenciale próprio deste idêntico caracteriza-se como o seu exp/icafzzm
a caracterização positiva deste próprio ou do ego na minha propriedade.
efetivo e possível,como aquilo em que eu simplesmente desdobro o meu
Ela foi apenasindicada nas últimas frasesdo parágrafo anterior. Come-

138 139
a
Meditações Cartesianase Conferências de Paris' Edmund Husserl Quinta Meditação

próprio ser idêntico, como aquilo que ele, enquanto idêntico, é na sua através da autoexplicitação, as formas estruturais universais, nas quais
particularidade - em si próprio. eu sou enquanto ego, a saber, aquelas em que, numa universalidade es-
Aqui, deve-seatentar no seguinte:se bem que tenha falado com sencial, eu sou e só assim poderei ser. A isso pertence (se bem que entre
razão de autopercepção,e certamente a respeito do meu ego concreto, outras) o modo de ser na forma de uma certa vida universal em geral, na
não quis dizer com isso que me mova sempre em percepções particulares forma da constante autoconstituição das suas próprias vivências enquan-
no sentido próprio, como no caso da explicitação de um objeto visual to temporais no quadro de um tempo universal etc. Toma parte nestea
perceptivamente dado, e que, com isso, obtenha apenas exp/icafa percep- priori universal e apodítico, na sua generalidade indeterminada mas de-
tivos e não outros. Pois são primícias da explicaçãodo meu horizonte terminável, toda e qualquer explicitação de dados egológicos singulares,
de ser próprio e essencialque eu embata na minha temporalidade ima- como, por exemplo, uma evidência certa, mas imperfeita, da recordação
nente e, com isso, no meu ser na forma de uma inânitude aberta de uma iterativa do meu próprio passado.A participação na apoditicidade mos-
corrente de vivências, e em todas as minhas peculiaridades que, de al- tra-se na lei formal, ela própria apodítica: tanta aparência quanto ser (só
gum modo, aí estão incluídas, às quais pertence também o meu próprio que oculto, falsiâcado pela primeira) - lei de acordo com a qual esseser
ato de explicar. Transcorrendo no presentevivo, a explicação só poderá pode, portanto, ser interrogado, ser investigado e ser encontrado seguin-
encontrar de um modo estritamente perceptivo coisas que transcorram do um caminho pré-delineado, mesmo que numa simples aproximação
viva e presentemente.<133> Ela desvendao meu próprio passadono ao seu conteúdo plenamente determinado. Este, com o sentido de algo
modo que é o mais originário pensável:na recordação iterativa. Se bem fixamente identificável sempre de novo e segundo todas as suaspartes e
que esteja, portanto, sempre para mim mesmo originalmente dado e que momentos, é uma ideia válida a priori.
possa explicitar, progredindo, o que me é próprio e essencial, esta expli-
cação consuma-se, em larga medida, em atos de consciência que não são
percepçõesdos momentos respectivosda minha essênciaprópria. Ape- <134> S 47. O objeto intencional pertence também à plena concreçãomoná-
nas dessamaneira pode âcar para mim disponível a minha corrente de dica da el$erade propriedade. Transcendência imanente e mundo primordial
consciência, enquanto aquela em que vivo como eu idêntico; desde logo,
nas suas atualidades e, depois, nas potencialidades que, manifestamente, Manifestamente - e isto é de uma particular importância -, o que
me são também próprias e essenciais. Todas as possibilidades do tipo do me é essenciale próprio enquanto ego estende-senão apenasàs atuali
eu posso ou poderia pâr em marcha esta ou aquela cadeia de vivências" - dades e potencialidades da corrente de consciência, mas também tanto
entre elas também as do eu posso antever ou rever, portanto, do eu posso aos sistemasconstitutivos, como às unidades constituídas, se bem que,
penetrar, desvendando,no horizonte do meu ser temporal pertencem, com estasúltimas, apenascom uma certa restrição. A saber:aí onde e
manifestamente, a mim mesmo de um modo essencial e próprio. tanto quanto a unidade constituída seja inseparável da própria constitui-
Por todo lado, porém, a explicitação é original quando desdobra ção original, ao modo de uma unidade imediata e concreta; aí, tanto o
o próp11o exoerienciado no terreno da autoexperiência original e o leva percepcionar constituinte como o ser-percepcionado pertencem à minha
àquela autodoação que será, para ele, a mízis.oz.!g!çlrla que pensar sepos- propriedade própria concreta.
sa. A evidência apodíflca da autopercepção transcendental (a do eu sou) Isso não diz apenas respeito aos dados sensíveis que, tomados como
estende-se a esta explicitação, se bem que com uma restrição já antes elu- simples dados de sensação, se constituem como femporaZídades imanentes
cidada. Com uma evidência apodítica pura e simples, apenasemergem, que me são próprias, no quadro do meu ego; ao invés, isto vale também

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Quinta Meditação
Meditações Cartesíanas e Conferências de Paras' Edmund Husser

se nos deparam como transcendentes,na medida em que estãosubmeti-


para todas as minhas habitualidades, que igualmente me são próprias e
das à nossa redução à propriedade, pertencem também a este domínio
que, tendo o seuponto de partida em atospróprios instituidores, se cons-
tituem como convicçõespermanentes,como aquelasconvicçõespelas - ao domínio do que me é próprio e essencial, daquilo que eu mesmo sou

quais eu próprio me torno aquele que fica permanentemente assim con- em plena concreçãoou, como também dizemos, à minha mó?fada.
vencido e em que eu, enquanto eu polar (no sentido particular do simples
eu-polo), adquiro determinações especificamente egoicas. Por outro lado,
S 48. A transcendênciado mundo objetivo como uma transcendênciade
pertencem também a isto os objetos franscendenfes,por exemplo, os ob-
jetos da sensíbí/idade externa, unidades de multiplicidades de modos sen- grau mais elevado que a transcendência primordial
síveis de aparição, se eu, como ego puro, tomar em consideração apenas o
Que esta essênciaprópria possa ser para mim, em geral, contras
que, enquanto objetividade espacial aparecente, é original e efetivamente
consfífuídoatravés da minha própria sensibilidade, das minhas próprias tada com qualquer coisa de outro, ou que eu, o eu que sou, possa estar
conscientede um outro que não sou eu, de um eu que me sejaalheio,
apercepções, como sendo delas concretamente inseparável. Vemos de ime
diato que pertence a esta esfera o mundo no seu todo, por nós anterior- pressupõe, portanto, que nem todos..gs.illqlj modg} d$..Sonsçiêpçia

mente reduzido por meio da exclusão do alheio enquanto componente próprios pertencem ao círculo daqueles que são modos da minha auto-
de sentido,e que o mundo deveser, portanto, legitimamentecontado consciência. Dado que o ser efetivo se constitui originariamente através
como fazendo parte da consistência, positivamente deânida, do ego,en- da concordância da experiência, então, contraposta à autoexperiência
e ao sistema da sua concordância - por conseguinte, ao da autoexpli
quanto algo que Ihe é próprio. Assim que pusemos fora de consideração a
prestaçãoda ínfropafía, da experiência do alheio, obtivemos uma nature- citação em elementos da minha propriedade -, deverá haver, no meu
za e uma somaticidade que certamente se constituem como objetividade ser próprio, ainda outras experiências em sistemas de concordância, e
espacial e que, perante a corrente de consciência, se constituem como surgirá, agora, o problema de saber como se poderá compreender que
uma unidade transcende?zfe, mas que se constituem como simples multi- o egotenha e possa sempre formar em si tais intencionalidades de um
plicidade de objectualidades de uma <135> experiência possível, em que tipo novo, com um sentido de ser através do qual ele transcende, de todo
estaexperiência é puramente a minha própria vida e em que aquilo que aí em rodo, o seu próprio ser. Como pode, para mim, o ser efetivo - en-
é experienciado não é mais que uma unidade sintética inseparável desta quanto tal, não apenas como algo apenas visado, mas, sim, como algo
confirmando-se pelaconcordância ser outra coisa senãoum ponto de
vida e das suas potencialidades.
Dessemodo torna-se claro que o ego,concretamente tomado, tem interseção das minhas sínteses constitutivas? Será ele, portanto, minha
propriedade, enquanto concretamente inseparável da minha síntese?
um universo daquilo que é próprio a si mesmo, o qual pode ser desven
dado atravésde uma explicitação original apodítica - ou, pelo menos, Mas serájá problemática mesmo a <136> própria possibilidade do mais
pré-delineadora de uma forma apodítica do seu egosum apodítico. No vago, do mais vazio visar o alheio, se for verdade que, por essência,cada
um de tais modos de consciênciatem as suaspossibilidadesde des-
interior desta esperaor«mal (da autoexplicitação original), encontramos
vendamento, as suas passagenspara as experiências de preenchimento
também um mundo franscendenfe,que desponta com baseno fenómeno
intencional mundo oheíívo reduzido ao que me é próprio (no sentido po- ou de decepçãodo visado, e se também, na gêneseda consciência, for
sitivo a que agora damos preferência); todavia, todas as correspondentes verdade que essevisar reenvia para tais experiências do mesmo objeto
visado ou de um semelhante.
aparências, fantasias, puras possibilidades, objectualidades eidéticas, que

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Quinta Meditação
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris © Edmund Husserl

dos ego excluídos do meu ser próprio concreto (de mim enquanto ego
O fato da experiência do alheio (do não eu) estápresenteenquanto
primordial). Em unidade com isso e, certamente,motivado por isso -
experiênciade um mundo objetivo e, dentro disso, de outros (do não
eu sob a forma: outro eu), e foi um importante resultado da redução à realiza-se uma sobreposição de níveis de sentido a parfír do meu mundo
primordícz/, pela qual este se torna aparição de um mundo oqefivo deter-
propriedade, operada sobre estas experiências, o fato de ter permitido
destacar um substrato intencional destas experiências, no qual se pode minado, enquanto um e o mesmo mundo para qualquer um, incluindo
eu próprio. Por conseguinte, o ízZheioem si primeiro (o primeiro não eu) é
chegar à comprovação de um mundo reduzido enquanto.!111DêÊç114ênçia
o outro eu. E isto torna constitutivamente possível um novo domínio do
imanente. Na ordem da constituição de um mundo alheio ao eu, de um
mundo exferíor ao meu eu concreto próprio (não, porém, exterior no ple- que me é alheio, uma natureza objetiva e um mundo objetivo em geral,
no sentido espacialnatural), essemundo reduzido é a transcendência (ou que pertencem em geral a todos os outros e a mim próprio Reside na
essênciadesta constituição, que se eleva a partir dos outros puros (que
mzíndo) em si primeira, prfmordíaJ, que, náo atentandõ na sua ii=lêãlidade
não têm, ainda, nenhum sentido mundano), que os que são para mim
enquanto unidade sintética de um sistemainfinito dasminhas potencia-
lidades, é ainda um e/eme?zto
defel"mlnafívodo meu ser concretopróprio. outros não permaneçam isolados, que, ao contrário (na minha esfera de
Tem de se tornar compreensível, agora, como, no grau superior e propriedade, naturalmente), se constitua uma comunidade dos eu, que
fundado, se realiza a doação de sentido da franscendêncía oQefíva em inclui a mim próprio, como uma comunidade dos eu que sãouns com os
outros e uns para os outros, e, derradeiramenfe, uma comunidade de mõ
sentido próprio, constitutivamente secundária, enquanto experíê?leia.
nadas,certamentecomo uma comunidade que constitui(na sua inten
Não se trata, aqui, do desvendamento de uma gêneseque decorra tem
cionalidade constituinte comunalizada) o mesmo e zínÍco mundo. Cada
poralmente, mas, sim, de uma análise estática. O mundo objetivo está
eu surge de novo neste mundo, mas numa apercepção objetivante, com
sempre já aí para mim, acabado, doação da minha experiência objetiva,
o sentido Homem, correspondentemente, homem psicofísico enquanto
que continua vivamente a decorrer, e também, a respeito do já não expe-
rienciado, da validade habitual que se prolonga. Trata-se de questionar objeto mundano.
Através dessacomunalização, a intersubjetividade transcendental
estaprópria experiência e de desvendarintencionalmente o modo da sua
tem uma esferaintersubjetiva de propriedade, na qual ela constitui in-
doaçãode sentido, o modo como ela,enquanto experiência,pode surgir e
conârmar-se enquanto evidência de um ser efetivo que tem uma essência tersubjetivamente o mundo objetivo e, assim, ela é, enquanto nós trans-
cendental, uma subjetividade para estemundo e também para o mundo
própria explicitável, que não é o meu próprio ser ou que não se insere no
humano, mundo humano que é a forma em que essasubjetividade obje-
meu próprio ser como elemento integrante, se bem que só no meu ser
tivamente se realizou. Quando, porém, aqui de novo se distingue entre
possa obter sentido e confirmação.
esfera intersubjetiva de propriedade e mundo objetivo, devo reconhecer
- assim que, enquanto ego, me coloco no terreno da intersubjetividade
<137> $ 49. Pré-delineamentodo percursode explicitação intencional da constituída a partir das fontes da minha essênciaprópria - que o mundo
objetivo já não transcendea esfera de propriedade em sentido próprio,
experiência do alheio
que já não transcende a sua essênciaprópria intersubjetiva, <138> mas
O sentido de sér mundo oqeflvo constitui-se em vários níveis a par- que nela habita enquanto transcendência íma?zenfe.Dito com mais preci-
tir do subsolodo meu mundoprimordial. Como primeiro, devepâr'se são: o mundo objetivo enquanto ideia, enquanto correlato ideal de uma
em destaque o nível constitutivo do outro ou dos ozítrosem geral, isto é, experiência intersubjetiva que idealmente se realiza e que foi realizada

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Quinta Meditação
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ência do alheio, tomada no sentido em que o outro ainda não chegou a


na concordância - enquanto correlato de uma experiência intersubjeti-
revestir o sentido homem.
vamente comunalizada -, está por essênciareferido à intersubjetividade,
<139> Experiência é consciência original; e, de fato, no caso da
ela própria constituída na idealidade como intersubjetividade aberta ao
experiência de um homeínjdizemos, em geral, que o outro estáaí diante
infinito, cujos sujeitos singulares estãodotados de sistemasconstitutivos
de nós "em pessoa':; Por outro lado, esta presença "em pessoa" não obsta
que se correspondem mutuamente e que sãoem conjunto concordantes.
a que concordemos sem mais que não é o.glitro eu em si prõpno, que
Por isso,pertencepor essa?leia à consfÍfujçãodo muradooyeflvo ilha har-
não são as suas vivências, as suas próprias aparições, que +lgq.é aquilo
monia dczsmómzdas,precisamenteestaconstituição particular nas ma-
que pertence à sua essênciaprópria que chega, com isso, a uma doação
nadas particulares e, por conseguinte, também uma gênese decorrendo
originária. Se fosse esse o caso, se o que é próprio e essencial ao outro me
harmonicamente nas manadas particulares. Isto não está,porém, conce-
estivessedisponível de um modo direto, então o outro seria apenasum
bido como uma substrução mef(!/ísícada harmonia das manadas, ainda
momento da minha essência própria e, em conclusão, ele e eu seríamos o
menos são as próprias manadas invenções ou hipóteses metafísicas. Isso
mesmo. Algo semelhante severiâcaria com o seu soma, se estenão fosse
tem que ver, ao contrário, com a explicitação dos conteúdos intencionais
nada mais que o corpo, que é uma unidade constituindo-se puramente
que residem no próprio fato do mundo de experiência que para nõs exis-
na minha experiência, efetiva e possível, e que pertence exclusivamente
te. Temos, aqui, de atentar de novo naquilo que foi já por várias vezes su-
à minha esfera primordial, enquanto formação da minha sensibf/idade.
blinhado, a saber, que as ideias mencionadas não são fantasias ou modos
Uma certa medíafezda intencionalidadedeve estar aqui presente,que,
de um como se, mas que surgem constitutivamente em unidade com toda
promanando, certamente, do subsolo subjacente do mundo primordial,
experiência objetiva e têm o seu modo de legitimação e de configuração
na atividade cientíÊca. torne representável o aí-com, que não está, todavia, ele próprio aí, nem se
pode tornar um eZe-próprio-aí.Trata-se, por conseguinte, de uma espécie
Aquilo que acabamos de apresentar é uma antevisão do percurso
do formar-copresenfe, uma espécie de apresentação.
gradativo da explicitação intencional que teremos de realizar, se qui-
sermos solucionar o problema transcendental da única forma que é Algo assim está já presente na experiência externa, na medida em ..
que a parte frontal de uma coisa vista sempre e necessariamente apresen'
pensável,ou ainda realizar efetivamente o Idealismo transcendental da
ta uma parte traseira dessamesma coisa e Ihe pré-delineia um certo teor
Fenomenologia.
mais ou menos determinado. Por outro lado, a experiência do outro não
pode consistir nesta espécie de aoresentacão coconstituinte que pertence

S 5Q.A intencionalidade mediada da experiência do alheio como "apresen' já à natureza primordial, porque esta envolve a possibilidade de confirma-
ção atravésda correspondente presentaçãopreenchente (a parte traseira
ração"(apercepção analógica)
torna-se parte frontal), enquanto isso está a priori excluído no caso dessa
apresentação que.pos deve introduzir numa outra esfera original. Como
Depois de termos terminado o nível prévio, muito importante do
pode ser motivada na minha esfera primordial, a apresentação da esfera
ponto de vista transcendental, da definição e articulação da esfera pri-
mordial, verdadeiras dificuldades - que não são,de fato, de somenos - primordial de um outro e, com isso, o sentido outro, e, de fato, como ex-
sãoocasionadas pelo primeiro dos passos acima descritos na constituição periência, como já o indica a própria palavra "apresentação"(como um

de um mundo objetivo, a saber, o passo para o outro. Estas dificuldades


3 N.T.:l.e/bha/t
residem, por conseguinte, no esclarecimento transcendental da experi-
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Meditações Cartesianase Conferênciasde Parase Edmund Husserl

tornar consciencialmentecopresente)?Isto não pode ser feito por uma po ali, que é também apreendido como um soma, retire este sentido de
uma fransáerê/!çia apercepfiva a partir do mezzsoma e, portanto, o faça de
\ presentificação qualquer. Esta última só o pode fazer em entrelaçamento
çom uma presentação,com uma autodoaçãoem sentido próprio; e só um modo que exclui uma comprovação efetivamente direta e, por conse
enquanto exigida pela presentação pode ela ter o caráter da apresentação, guinte, primordial dos predicados da somaticidade específica, uma com-
de modo semelhante a como, na experiência de coisas, o ser-aí-presente provação através de uma percepção em sentido próprio. E desde agora
motiva perceptivamente o ser-aí-copresente. claro que só uma semelhança,no interior da minha esferaprimordial,
O subsolo da percepção em sentido próprio é-nos oferecido <140> ligando aquele corpo ali com o meu próprio corpo, pode fornecer o fun-
pela nossa percepção do mundo primordialmente reduzido, com as suas damento motivacional para a apreensãoanaiogízanfe do primeiro como
um outro soma.
articulações previamente descritas, que continuadamente se prossegue
no quadro da constante autopercepção do ego.A questão é, agora, saber <141> Seria, portanto, uma certa apercepção que assemelha, mas
o que, a este respeito, se deve tomar em particular consideração e como de modo nenhum uma inferênciapor analogia.Apercepçãonão é in
decorre a motivação, como se pode pâr a descoberto essaoperação de gerência,não é um ato de pensamento. Toda e qualquer apercepçãoem
apresentação deveras complexa - que é faticamente realizada. que apreendamos de um lance e captemos de um modo notório objetos
Uma primeira orientação pode ser-nosfornecida pelo sentido da pré-dados - por exemplo, os objetos pré-dados no mundo quotidiano - e
palavra "outro" outro eu; aZferquer dizer aifer-ego,e o egoque estáaqui em que compreendamos, sem mais, o seu sentido com os seus horizontes
implicado sou eu próprio, constituído no interior da minha propriedade remete intencionalmente para uma ínsfífzzlção originária em que se cons-

primordial, e certamente na singularidade, enquanto unidade psicofísica tituiu, por vezprimeira, um objeto com um sentido semelhante.Também
ascoisasdesconhecidas destemundo são,falando de um modo geral,
(enquanto homem primordial), governando imediatamente, enquanto
eu pessoal,o meu soma, o único, e atuando também imediatamente no conhecidas segundo os seus tipos próprios. Já vimos antes coisas geme
mundo circundante primordial; no restante,sujeito de uma vida inten- Ihantes, se bem que não precisamente esta coisa aqui. Assim, toda expe
cional concreta, de uma esfera psíquica referida a si próprio e ao mundo. riência quotidiana, na suaapreensãoantecipadora do objeto como tendo
Tudo isto estáà nossa disposição, e certamente com todas as tipiíicações um sentido semelhante,encerra uma transferência analogizante, para o
que despontam da vida de experiência, com as suasformas familiares de novo caso,de um sentido objetivo já originariamente instituído. Tanto
decurso e de complexificação. Através de que intencionalidades - que quanto haja pré-doação,haverá também uma tal transferência, pela qual,
são,pelo seulado, altamentecomplexas- tudo isto seconstituiu foi coisa então, aquilo que se expõe, na experiência ulterior, como efetivamente
que, seguramente, ainda não investigamos. Isso forma um estrato próprio novo pode funcionar outra vez como instituidor e fundar uma nova pré
de vastas investigações em que não entramos nem poderíamos entrar. doação de sentido mais rico. A criança, que já vê coisas, compreende pela
Admitamos que um outro homem entra no nosso campo percep' primeira vez o sentido flnalístico de, digamos, uma tesoura e, a partir daí,
uivo; prill;i;;:iiiãliiiêiíti'iétiuzido, isto signiâãa=no'canifiõ'pêlcêptivo da vê tesouras enquanto tais ao primeiro olhar e de modo imediato, sem ter
Minha natureza primordial, surge um corpo que, enquanto primordial, é de fazê-lo, naturalmente, numa reprodução explícita, numa comparação
naturalmente apenasum elemento determinativo de mim próprio (trans- e na consumação de uma inferência. Contudo, é muito diferenciada, se-
cendência{manenfe). Que, nesta natureza e neste mundo, o meu soma gundo os diversos casos,a maneira como despontam as apercepçõese
sejao único corpo que está e que pode estar originariamente constituído como, subsequentemente,elas em si remetem intencionalmente para a
como um soma (como um órgão funcionante) implica, então, que o cor- suagênese,atravésdo seu sentido e do seu horizonte de sentido. Derra-

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Meditações Cartesianas e Conferências de Parase Edmund Husserl

deiramente, somos sempre reconduzidos à distinção radical das apercep- característico é que, no caso mais primitivo, dois elementos sejam intuiti-
çõesnas que, de um lado, pertencem, segundo a sua gênese,puramente vamente dados com destaque na unidade de uma consciência e que, sobre
à esferaprimordial, e as que, por outro lado, surgem com o sentido aZter- essabase, essencialmente já na pura passividade e, portanto, indiferente
egoe que, por sobre estesentido, instituíram novo sentido graçasa uma mente a que se atente nisso ou não, fundamentem fenomenologicamente,
gênesede nível superior. enquanto elementos que aparecem distintamente, uma unidade de geme
Ihança e, por conseguinte, sejam sempre constituídos como uma parelha.
Sehouver aqui mais de dois, então constitui-se um grupo fenomenalmente
S 51. "Emparelhamento" como componettte associativamente constituinte unitário, uma pluralidade, fundada em emparelhamentossingulares. Por
da experiência do alheio via de uma análise mais precisa, encontramos aí presente, por essência,
uma transposição intencional, que surge geneticamente (e certamente por
Se quisermos, agora, indicar o que é mais peculiar nessaapreensão essência)asii;fique õs elementos que se emparelham setornam conscien-
analogizante,por meio da qual um corpo, no interior da minha esfera tes ao mesmo tempo e com destaque;visto ainda de mais perto, encon-
primordial, é também apreendido como um somapor semelhançacom o tramos um vivente despertar-semútuo, um mútuo deslocamento e um
meu próprio corpo-soma, vamos dar com o fato de, em primeiro lugar, o cobrir-se de cadaum com o sentido objetivo do outro. Este recobrimento
l original da instituição originária estar sempre vivamente presente <142>
e de, por conseguinte, a instituição originária estar sempre em marcha, a {gucz/dadoo caso-limite. Como resultado deste recobrimento, realiza-se,
atuando de modo vivo; em segundolugar, vamosdar com o fato, já por nas parelhas, uma transferência de sentido, ou seja, a apreensãode um
nós reconhecido na sua necessidade,de o apresentadopor força desta elemento em conformidade com o sentido do outro, tanto quanto <143>
analogia jamais poder vir efetivamente à presença, portanto, a uma per' momentos de sentido realizados naquilo que é experienciado não anulem
cepção em sentido próprio. Que o ego e o altar-ego sejam sempre e ne esta transferência na consciência do outro.
cessariamente dados num empareZhamenfooriginário está intimamente No caso que particularmente nos interessa da associação e aper'
conectado com a primeira peculiaridade. cepção do aZfer-eEOatravés do ego, realiza-se por vez primeira o empare'
Emparelhamento, o surgir configurado como parelha e, subsequen Ihamento quando o outro surge no meu campo perceptivo. Eu, enquan-
temente, como grupo, como pluralidade, é um fenómeno universal da es- to eu psicofísico, primordial, estou constantemente destacado no meu
fera transcendental (e, paralelamente, da esferapsicológico-intencional); campo perceptivo primordial, quer preste atenção a mim próprio e para
e, para o acrescentarmos desde já, tanto quanto um emparelhamento mim próprio me volte numa qualquer atividade, quer não. Em particular,
seja atual, também se estenderá, permanecendo numa atualidade viva, está constantemente aí, sensivelmente destacado, o meu corpo somático,

aquela notável forma de instituição originária de uma apreensão analogi- sendo que, além disso, e do mesmo modo com uma originariedade pri-
zanteque sublinhámos como a primeira peculiaridade da experiência do mordial, ele estáprovido com o sentido específicoda somaticidade.Se,
alheio, se bem que não constitua uma sua peculiaridade exclusiva. agora, na minha esfera primordial, entra um corpo, destacadamente, que
Para começar, elucidemos o essencial do emparelhamento (corres- é serre/hanfe ao meu, ou seja, um corpo de tal modo constituído que deve
pondentemente, da construção da pluralidade) em geral. Ele é unl!..p.11o- estabelecercom o meu um emparelhamento fenomenal, então parece
toforma daquela síntese passiva que designamf?s por associação, por opo' rá agora claro sem mais que ele, na deslocação de sentido, deve tomar
sição à síntese passiva de ídenf@cação. Numa associação emparelhante, o de imediato do meu soma o seu sentido de "soma't Mas será a apercep-

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Edmund Husserl Quinta Meditação
Meditações Cartesianase Conferênciasde Paras

ção assim tão transparente, será ela uma simples apercepção através de Como fio condutor sugestivopara a pertinente clariâcação,pode
transferência, como qualquer outra? Que torna o soma um soma alheio e bastar a seguinte proposição: o soma alheio experienciado manifesta-se
não num segundo soma próprio? Manifestamente, há que tomar aqui em continuadamente como sendo efetivamente um soma apenas na sua con-
consideração aquilo que foi designado como o segundo caráter de fundo duta cambiante, mas sempre concordante, de tal modo que esta conduta,
da apercepçãoem questão, a saber, que nada do sentido que foi tomado que tem o seu lado físico e que~jndicia apresentativamente o psíquico,
dessasomaticidade específica possa ser originalmente realizado na mi- devesurgir, agora, na experiência original preenchente. E assimna cons
nha própria esferaprimordial. tante mudança da conduta de fase para fase. Se a conduta não fosse con-
cordante, o soma seria experienciado como uma aparência de soma.
Nessetipo de acessibilidade confirmável daquilo que é, porém, ori-
S 52. Apresentação enquanto tipo de experiência com o seu estilo próprio ginalmente inacessível funda-se o caráter de ser a/belo. Aquilo que é ori
de con$rmação ginalmente suscetível de presentação e de comprovação sou eu próprio
ou pertence a mim mesmo enquanto próprio. Tudo o que é experienciado
Mas agora surge-nos o difícil problema de tornar compreensível naquelemodo fundado de uma experiênciaque não é primordialmente
como é possível uma tal apercepção e por que razão não pode ela, quan- preenchível,que não é originalmente autodoadora, mas que confirma
do surge, ser logo de seguida anulada. Como sucedeque - como os fatos consequentemente o que nela é indiciado, é a/belo. Este só é, por isso,
o ensinam o sentido transferido seja assumido numa validadfl de ser, pensável como análogo da minha propriedade. Ele surge necessariamen-
como um teor de determinações psíquicasque existem no corpo que ali te, em virtude da sua constituição de sentido, como mod@caçãoírzfen-
está,se bem que estasnão possammostrar-se enquantotais no campo ciona/ do meu eu primeiramente objetivado, do meu mundo primordial:
original da esferaprimordial (a única à disposição). o outro fenomenologicamente como modÚcação do meu "ezzmesmo" (o
Vejamos mais de perto a situação intencional. A apresentação, que qual, pelo seulado, obtém estecaráter de meu atravésdo emparelhamen
dá o que, no outro, é origina/ífer inacessível,está entrelaçada com uma to contrastante, que agora necessariamenteentra em cena). É claro que,
presentação originária (a do seu corpo, enquanto pedaço da minha na- com isso, na modificação analogizante, é apresentado tudo o que perten
tureza dada na propriedade). Neste entrelaçamento,porém, o corpo so- ce à concreção desse eu, desde logo como seu mundo primordial e, de
mático alheio e o eu alheio que o governa <144> são dados ao modo seguida, como egoplenamente concreto. Por outras palavras, na minha
de uma experiência unitária transcendente. Cada experiência está apon- manada constitui-se apresentativamente uma outra.
tada a ulteriores experiências, preenchendo e confirmando os horizon- De modo semelhante para fazer aqui uma comparaçãoinstru-
tes apresentados,experiências que incluem, sob a forma de antecipação tiva -, no interior da minha propriedade,e certamentena esferaviva
inintuitiva, síntesespotencialmente coníirmadoras de uma experiência do presente,<145> o meu passadosó é dado por meio da recordação
continuada concordante. A respeito da experiência do alheio, é claro que e, nesta, é caracterizado enquanto tal, enquanto presente passado, isto
a sua continuação coníirmadora pode suceder apenas por novas apresen- é, enquanto modificação intencional. A sua confirmação experiencian-
taçõesfranscorrendo de um modo sínfeficamenfe concordante e por via do te, enquanto modificação, realiza-se,então, necessariamenteem sínteses
modo como essasapresentações devem a sua validade de ser à conexão concordantes da recordação iterativa; apenas desse modo se confirma o

motivacional com as presentaçõesque constantemente,se bem que de passadoenquanto tal. Tal como o meu passado recordativo fransce?zde
o
modo cambiante, pertencem à minha propriedade. meu presente vivo enquanto sua modificação, assim também, de modo

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Quinta Meditação
Meditações Cartesianas e Conferências de Paras' Edmund Husserl

semelhante, o ser alheio apresentado transcende o ser próprio (no senti- ça. Com isso, na minha esfera primordial, na mudança das orientações,
do agora puro e mais basilar da propriedade primordial). A modiâcação é constituída a natureza espacial una, e é certamente constituída numa
reside, em ambos os casos, no próprio sentido, enquanto momento de referencialidadeintencional à minha somaticidadefuncionando percep-
sentido, ela é correlato da intencionalidade que a constitui. Tal como no tivamente. Que, agora,o meu soma corpóreo seja apreendido e seja apre-
meu presentevivo, no domínio da percepçãoínferna, constitui-se o meu ensívelcomo outro qualquer corpo natural móbil existindo no espaço,
passado,em virtude das recordaçõesconcordantesque ocorrem neste está manifestamente conectada com a possibilidade que se expressa nas

presente, assim também, em virtude de apresentaçõesque ocorrem na seguintes palavras: eu posso alterar a minha posição de tal modo que,
minha esfera primordial e motivado pelo seu teor, pode-se constituir, no através da livre modificação das minhas cinesteses e, em particular, as do

meu ego,o egoalheio, portanto, em presentiâcações de um novo tipo, que circunvagar, poderei sempre converter todo e qualquer ali num aqui, ou
tem como seu correlato um modificado de tipo novo. Certamente que, seja,poderei ocupar somaticamente qualquer lugar espacial Nisto reside
enquanto considero presentiíicações na minha esfera de propriedade, o que eu, percepcionando a partir dali, veria a mesma coisa, apenas que
correspondente eu centrador será o idêntico eu-mesmo. A tudo o que é com os outros modos de aparição correspondentes,que pertencem ao
alheio pertence, porém na medida em que ele mantenha o horizonte estar-eu-ali, ou que a cada coisa pertence constitutivamente não apenas
de concreção apresentado que necessariamenteIhe corresponde -, um os sistemasde apariçãodo meu aparfír daqui momentâneo, mastambém
eu apresentado que eu próprio não sou, mas que é antes um modificado sistemascompletamente determinados, correspondentesa cada mudan-
meu, um outro eu. ça de posição que me coloca nesse ali. E assim para todo e qualquer ali.
Uma explicitação das conexões noemáticas da experiência alheia Não deverão estas conexões, caracterizadas associativamente, ou,

que fosse efetivamente suâciente, a qual é absolutamente necessária para antes, estas correspondências da constituição primordial da minha na
um completo esclarecimento das suas realizações constitutivas, das suas tureza, estar essencialmente em questão quando se pretende um esclare-
realizações através da associação constitutiva, não está concluída com o cimento da realização associativa da experiência do alheio? Pois eu não
que foi até aqui exposto. É preciso um com!!elementopara chegar sufi- aperceboo outro simplesmentecomo um duplicado de mim próprio, por
cientemente longe para que se possa tornar completamente transparente, conseguinte,com a minha esferaoriginal ou com uma igual e, portanto,
a partir dos conhecimentos adquiridos, a possibilidade e o alcance de com os modos espaciaisde aparição que me sãopróprios a partir do meu
uma constituição transcendental do mundo objetivo e, com isso, do Ide aqui, mas antes, vendo de mais perto, com aqueles que eu igualmente de-
alismo fenomenológico-transcendental. veria ter se eu para ali fosse e ali estivesse.Além disso, o outro é apercebi-
do apresentativamentecomo ezzde um mundo primordial, ou como uma
manada em que o seu soma é originariamente constituído e experiencia-
S 53. As potencialidades da esfera primordia! e a suafunção constitutiva na do no modo do aqui absoluto, precisamentecomo centro funcionante do
apercepçãodo outro seugoverno. Por conseguinte, nesta apresentaçãodo corpo entalandona
minha esfera monádica no modo do aZÍ,que é apercebido como corpo se'
O meu soma corpóreo, enquanto retrorreferido a si próprio, tem mático alheio, como soma do aZfer-ego,estáindiciado o mesmocorpo no
como seu modo de doaçãoo aqui central; tgçlg e qualquer outro çor- modo aqui, como aquilo que o outro experiencia na sua esfera monádica.
po, <146>ê assimo corpo do outro, tem o !11odoaZÍ Esta orientação Isto, porém, concretamente com o todo da intencionalidade constitutiva
do ali, graças às minhas cinesteses,está submetida a uma livre mudan- que este modo de doação nele opera.

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl

<1.47>S 54. Explicação do sentido da apresentaçãoem que sejaz experi- despertadaatravés do emparelhamento associativo é, ao mesmo tempo,
ência do alheio uma fusão e, tanto quanto não contenha incompatibilidades, um asseme-
Ihamento, um ajustamento do sentido de um dado com o outro.
O que acabamos de expor aponta, manifestamente, para o decurso <148> Seagora regressarmos ao nosso caso da apercepção do aZfer-
da associaçãoconstituinte do modo outro. O corpo que pertencenteao ego,torna-se, então, por si mesmo compreensível que o que é aí apresen'
meu mundo circundante primordial (que logo de seguida seráo outro) é, todo, no meu mzindocírcundanfeprimordial, por parte de todo e qualquer
para mim, corpo no modo aZI.O seu modo de aparição não emparelha, corpo que esteja ali, não é o meu psiquismo próprio, não é nada que, em
em associaçãodireta, com o modo de aparição que o meu soma,de cada geral, provenha da minha esfera de propriedade. Eu estou somaticamente
vez, tem efetivamente(no modo aqui), masdespertaantesreprodutiva- aqui, centro de um mundo primordial orientado em meu redor. Com isso,
mente uma aparição semelhante, pertencente ao sistema constitutivo do a minha inteira propriedade primordial tem, enquanto manada, o teor de
meu soma enquanto corpo no espaço.Ela faz-me lembrar o meu aspecto sentido do aqz4íe não de um ali qualquer, determinado, que se modifica
corporal se eu esfívesseaZÍ.Também aqui se realiza um emparelhamento, por meio da introdução de um qualquer eu possoe eulaço. Um e outro
se bem que estedespertar não se torne numa intuição da recordação. excluem-se, não podem ser ao mesmo tempo Na medida, porém, em que
Nele não surgem apenasos modos de aparição do meu corpo que são o corpo alheio no ali entra numa associaçãoemparelhantecom o meu
desde logo despertados,mas antes este meu próprio corpo, enquanto corpo no aqui e porque o corpo no ali é perceptivamente dado e se torna
unidade sintética dessesmodos de aparição e dos seus múltiplos outros o núcleo de uma apresentação, isto é, a experiência de um eEOcoexistente,
modos familiares de aparição. Assim se torna possível e fundamentada a deve este,então, de acordo com a inteira marcha doadora de sentido da
apercepçãoque assemelha,apercepçãopor meio da qual o corpo exterior associação, ser necessariamente apresentado como ego agora coexistente
ali obtém analogicamente o sentido de um soma a partir do meu soma no modo do ali(como se eu estivesseaZÍ).O meu ego próprio, dado per-
próprio; e, numa consequênciaulterior, o sentidode somade um ou- manentemente numa autopercepção,é agora atualmente com o teor do
tro mundo análogo ao meu mundo primordial. O estilo geral tanto desta seu aqui. Há, portanto, um ego que é apresentado como outro. O que é
como de qualquer outra apercepção que desperte associativamente deve primordialmente incompatível na coexistência torna-se compatível por-
ser descrito do modo que se segue:com o recobrimento associativo dos que o meu egoprimordial constitui o que é para ele um outro eXOatravés
dados que fundam a apercepção, realiza-se uma associação de nível supe- de uma apercepção apresentativa que, segundo a sua peculiaridade, não
rior. Se um dado é um dos modos de aparição de um objeto intencional exige nem permite um preenchimento por meio de uma presentação.
- um index para um sistema, associativamente despertado, de múltiplas É também fácil compreender o modo como uma tal apresentação
aparições,nas quais ele se poderia mostrar a si próprio -, então o outro do alheio fornece semprenovos conteúdos apresentativosna progressão
dado é complementado até se tornar uma aparição de qualquer coisa, e constante da associaçãoefetiva e, por conseguinte, leva a um conheci-
certamente de um objeto análogo. Não é apenas,porém, como se a uni- mento determinado os conteúdos cambiantesdo outro ego; por outro
dade e a multiplicidade que para ele são des/ocízdassimplesmente o com lado, através do entrelaçamento com uma constante presentação e das
plementassem com modos de aparição tomados deste primeiro dado; ao exigências associativas a ela dirigidas no modo da expectativa, torna-se
contrário, o objeto analogicamente apreendido, ou o sistema de aparições compreensível como é possível uma confirmação consequente do outro
de que ele é índice, é analogicamente aplicado à aparição análoga que ego.O primeiro teor determinado do outro ego deve, manifestamente, ser
codesperta todo este sistema. Toda e qualquer deslocação-a-distância formado pela compreensão da somaticidade do outro e da sua conduta

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl

especificamente somática: a compreensão dos membros como mãos que entre o meu e o seu ego monádico. O primeiro constituído na forma da co-
funcionam palpando ou empurrando, como pés que funcionam andan- munidade e/andamento de todas as ozzfrascomuna/idades ínfersuQefivas
do, como olhos que funcionam vendo etc., coisa em que o eu, de iní- é a comunidade da Natureza, em unidade com a do soma alheio e do eu
cio, apenas é determinando como assim governando somaticamente e se psicofísico alheio, em emparelhamento com o eu psicofísico próprio. Por-
confirma constantementede um modo bem conhecido, na medida em que a subjetividade alheia surge, através de apresentação, no interior da
que à inteira forma de estilo dos processossensíveisque me são primor- minha essencialidade própria fechada, com o sentido e a validade de uma
dialmente visíveis devem corresponder, constantemente, os modos tipi- outra subjetividade com a sua essencialidadeprópria, poder-se-ia antever
camente bem conhecidos que provêm da minha própria somaticidade. aqui, num primeiro momento, um obscuro problema relativo à questão
<149> Numa consequência ulterior, pode-se conceber como se chega ao de saber como pode vir a realizar-se a comunalização e, desdelogo, na
preenchímenfo de conteúdos determinados da esfera psíquica superior. suaprimeira forma de um mundo comunitário. O somaalheio,enquanto
Também estesse indiciam somaticamente e na conduta externa da soma- aparecentena minha esferaprimordial, é desdelogo corpo na minha na-
ticidade no mundo, por exemplo, como conduta externa da ira, da alegria tureza primordial, <150> que é minha unidade sintética, inseparávelde
etc., condutas bem compreendidas a partir da minha própria conduta mim mesmo enquanto elemento integrante próprio e essencial.Se esse
em circunstâncias semelhantes. Os acontecimentos psíquicos superiores, corpo funciona apresentativamente, então, em unidade com ele, torno-me
por mais variados que sejam e por mais bem conhecidos que se tenham consciente do outro, desde logo com o seu soma, enquanto para ele pró-
tornado, têm, então, outra vez o seu estilo de conexõessintéticas e as suas prio dado no modo de aparição do seu aqui aliso/uto. Mas como é possível
formas de decurso, que poderão ser para mim compreensíveis através da que eu possafalar, em geral, do mesmo corpo que aparecena minha esfera
referência ao meu próprio estilo de vida, que me é empiricamente fami- primordial no modo ali e que aparece na sua e para si no modo aqui? Não
liar na sua típica aproximada. Toda e qualquer compreensão conseguida estarão ambas as esferas primordiais - a minha, que, para mim, enquanto
do outro atua abrindo novas associaçõese novas possibilidades de enten- ego, é a original, e a sua, que é para mim apresentada - separadas por um
dimento, tal como, ao contrário, dado que toda associação emparelhante abismo que não posso efetivamente atravessar,pois tal significaria que eu
é recíproca, esta compreensão desvendaa vida anímica própria na sua teria uma experiência original e não apresentativa do outro? Mas se nos
semelhança e alteridade e, pondo em destaque novos aspectos, torna-os ativermos à experiência fática do alheio, por conseguinte, à experiência
frutuosos para novas associações. que semprese realiza,verificamos, então, que o corpo sensivelmentevisto
é efetivamente,sem mais, experienciado como corpo do outro e não ape-
nas como índice do outro - não será estefato um enigma?
S 55. Comunalização das manadas e primeira forma da objetividade: a Como serealiza a identificação do corpo da minha esferaoriginal
Natureza intersubjetiva com o corpo constituído no outro ego,de um modo totalmente separado,
a que, pela identificação, chamamos o mesmo soma do outro - como
No entanto, é mais importante o esclarecimento da comunidade pode isso, em geral, ser realizado? No entanto, o enigma só surge quando
que se vai construindo em diversos níveis e que, em virtude da experi- ambasas esferasoriginais já foram distinguidas, uma distinção que pres'
ência do alheio, logo se produz entre mim, o eu psicofísico primordial, supõe que a experiência do outro já cumpriu a sua tarefa. Dado que não
governando em e com o meu soma primordial, e o outro experienciado se trata aqui de qualquer gênesetemporal destetipo de experiência com
por apresentação - ou, para toma-lo de um modo mais concreto e radical, basenuma autoexperiênciatemporalmente prévia, obviamentesó uma

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris. Edmund Husserl Quinta Meditação

explicitação mais precisa da intencionalidade que é efetivamente com. não pode ser como se o corpo ali da minha esfera primordial permane-
provável na experiência do alheio e a descoberta das motivações que nela cesseseparadodo soma corpóreo do outro, como se essecorpo no ali
estão,por essência,implicadas nos pode dar uma saídapara esteenigma. fossequalquer coisa como um sinal para o seuanálogo (numa motivação
A apresentação- digamo-lo uma vez mais - pressupõe,enquanto tal, um que seria, manifestamente, impensável) e como se, assim, na expansão da
núcleo de presentação. Ela é uma presentiíicação ligada à presentação, à associação e da apresentação, permanecessem separadas a minha nature.
percepçãoem sentido próprio, atravésde associações,mas é uma pre- za primordial e a natureza primordial apresentada do outro e, de acordo
sentiâcaçãoque estáfundida com a percepçãona função particular de com isso, o meu ego concreto do egoconcreto do outro. Pelo contrário,
copercepção. Por outras palavras, ambas estão tão fundidas que ficam na este corpo natural ali, pertencente à minha esfera, apresenta o outro eu na
comunidade funcional de uma só percepção que, em si mesma, presenta minha natureza primordialmente constituída, em virtude da associação
e apresentaem simultâneo e, assim, produz, relativamente ao objeto, a emparelhante com o meu soma corpóreo e com o eu psicofísico que aí
consciência do seu ser-ele-próprio-aí. Noematicamente, há, portanto, que governa. Ele apresenta, desde logo, o seu governo sobre este corpo ali e,
distinguir, no modo do objeto que entra ele-próprio-aí em cena numa tal mediatamente,o seu governo sobre a ?zafzzreza que Ihe aparecepercepti-
<151> percepção presentante-apresentante, entre aquilo que, do objeto, vamente - a mesma natureza a que pertence estecorpo ali, a mesma que
é percepcionado em sentido próprio e o excedente daquilo que não é nele é minha natureza primordial. <152> Elg é.a mesma natureza, apenasque
percepcionado em sentido próprio, mas que é, todavia, coexistente. As- no modo.çlÊ.apariçãocomo se eu afz4asse czlí.?zo/usar do corpo somático
sim, toda e qualquer percepção destetipo é transcendente,ela põe como úzZheío.
O corpo é o mesmo, a mim dado como ali, a ele como aqui, como
ele-próprio-aí mais do que, de cada vez, ela torna (;áefivamenfepresente. corpo central, e a "minha" inteira natureza é a mesma que a do outro, ela
E este o caso de toda e qualquer percepção externa, digamos, a de uma é dessa maneira constituída na minha esfera primordial como unidade
casa (lado da frente, lado de trás); no fundo, porém, fodczpercepção, e idêntica dos meusmúltiplos modos de doação - como idêntica nasorien-
mesmo toda evidência, está com isso descrita no seu traço mais geral, se taçõescambiantesemtorno do meu somacomo corpo-zerono aqui ab
compreendermos o presenfar num sentido alargado. soluto; como idêntica das multiplicidades ainda mais ricas que, enquanto
Se aplicarmos esseconhecimento geral ao caso da percepção do modos de aparição cambiantes dos diversos sentidos, pertencem a um
alheio, ter-se-á também de atender ao fato de que ela só pode ser apre- aqui e um ali enquanto perspectivasmutáveis de cadaorientação singular
sentante porque presenta, que, também para ela, a apresentação só pode e que, de um modo muito particular, pertencem ao meu soma vinculado
existir naquelacomunidade funcional com a presentação.Mas aí reside ao aqui absoluto.Tudo isto tem para mim a originalidade da proprieda-
que aquilo que ela presenta deve, desdeo início, pertencer à unidade do de, do que me é diretamente acessívelatravés da originária explicitação
mesmo objeto que é aí apresentado. Por outras palavras, não é nem pode de mim mesmo. Na apresentação do outro, os sistemas sintéticos são os
ser o casode que o corpo da minha esferaprimordial, que me indicia mesmos, com todos os seus modos de aparição e, portanto, com todas as
o outro eu (e, com isso,a esferaprimordial do outro por inteiro, ou o percepções possíveis e os seus respectivos teores noemáticos; apenas que
outro egoconcreto), pudesseapresentar,portanto, o seu ser-aí e o seu aspercepções efetivas e os modos de doação que nelas se tornam efetivos
cosser-aí sem que este corpo primordial ganhasse o sentido de um corpo e, em parte, também o objeto que é com isso efetivamente percepcionado
que pertence ao outro ego e, por conseguinte, de acordo com o tipo da não são os mesmos, mas antes precisamente os que são percepcionados
operatividade aperceptivo-associativano seu conjunto, o sentido de um a partir dali, tal como são a partir desse ali. O mesmo é válido para tudo
soma alheio e, desde logo, do próprio corpo somático alheio. Portanto, o que é próprio e alheio, também quando a explicitação originária não

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Meditações Cartesíanas e Conferências de Paris ' Edmund Husser Quinta Meditação

decorre em percepções. Não tenho primeiro uma segunda esfera original que é, por assim dizer, o objeto em si primeiro, tal como o homem alheio
apresentada, com uma segunda natureza e um segundo corpo somáti- é, constitutivamente, o homem em si primeiro. Para esteprotofenõmeno
co (o do próprio outro) nessanatureza, para depois me perguntar como da objetividade, a situação é já clara para nós: se esbater a experiência do
faço para poder apreender ambas as esferascomo modos de aparição da alheio, terei, então, a constituição presentativa de grau mais baixo, apenas
mesma natureza objetiva. Ao contrário, através da própria apresentação de um só estrato, do corpo alheio no interior da minha esfera primordial;
e da sua unidade necessária,enqzzanfoapresentação,com a presentação setomo adicionalmente essaexperiência do alheio, então tenho apresen
que é para ela cofuncionante (em virtude da qual está aí, em geral, para tativamente, e em recobimento sintético com este estrato presentativo, o
mim um outro e, em consequência, o seu ego concreto), está já necessa- mesmo soma tal como é dado ao outro eu-mesmo, assim como os demais
riamente produzido o sentido identitário da minha natureza primordial modos possíveis de doação que subsistem para ele.
e da outra natureza primordial presentificada. É, portanto, com inteira Como é fácil de compreender, a partir daí, todo e qzzaiquerobjeto
justificação que ela se chama percepçãodo a/belo e, subsequentemente, natural experienciado ou experienciável nesteestrato mais baixo adquire
percepção do mundo objetivo, percepção de que o outro olha para o mes- um estratoapresentativo(sebem que não se torne, de modo algum, ex-
mo que eu etc., se bem que esta percepção se desenrole exclusivamente plicitamente intuitivo) em originária unidade de identidade com o que
no interior da minha esfera de propriedade. Isto não exclui, porém, que a me é dado na originalidade primordial: o mesmo objeto natural nos mo-
intencionalidade desta esfera transcenda a minha propriedade, que, por dos possíveisde doação do outro. Isto se repete, mufafis mutandís, para
conseguinte, o meu ego constitua em si um outro <153> ego,e certamente as mundanidades de níveis superiores, posteriormente constituídas, do
como egoque é. O que eu efetivamente vejo não é um signo e um simples mundo objetivo concreto, tal como ele sempre está aí para nós, enquanto
ana/ogon,uma âguração, num sentido natural qualquer - eu vejo antes mundo humano e cultural.
o outro; e o que é captadocom isso numa originalidadeefetiva,nesta <154> Com isso, deve prestar-se atenção ao fato de que reside no
corporeidade ali(e, além do mais, apenas a sua superfície frontal), é o sentido da apercepçãobem-sucedida do alheio que o mundo do outro, en-
corpo do próprio outro, apenasque visto do meu lugar e do meu lado, e, quanto seu sistema de aparições, deve, sem mais, ser experienciado como
de acordo com a constituição de sentido da percepção do soma corpóreo Õ mesmo que o mundo dotüeu sistema de aparições, coisa que encerra
alheio, uma alma por princípio não originalmente acessívelpara mim, "êm si uma identidade dos sistemas de aparições. Ora sabemos muito bem
ambos,corpo e alma, na unidade de uma realidade psicofísica. que há qualquer coisa como anormalidades, cegueiras, surdezes e coisas
Por outro lado, reside na essênciaintencional dessapercepção do semelhantes, que, portanto, os sistemas de aparições não são sempre ab-
outro - outro que, tal como eu próprio, doravanteé no interior do mun- solutamente idênticos e que inteiros estratos (se bem que não todos os es-
do objetivo que doravante é - que eu possa encontrar de antemão, en tratos) podem diferir. Mas a anormalidade deve constituir-se ela própria
quanto percepcionante, aquela divisão entre a minha esfera primordial e enquanto tal, e só o poderá fazer com base numa normalidade que em si a
a esfera do outro, que é apenas presentificada e, de acordo com isso, possa preceda. Isto aponta outra vez para novas tarefas de uma análise fenome-
perseguir a dupla estratificação noemática na sua peculiaridade e possa nológica, de nível já mais elevado,da origem constitutiva do mundo obje-
explicitar as conexõesda intencionalidade associativa.O fenómeno de tivo como aquele que é para nós apenas a partir das fontes de sentido que
experiência nafzlreza oQeííva tem, por sobre o estrato primordialmente nos são próprias, e que não pode ter, para nós, sentido e ser de uma outra
constituído, um segundo estrato, apresentadoa partir da experiência do maneira. O mundo objetivo tem de ser em virtude da confirmação con-
alheio, que diz certamente respeito, desde logo, ao corpo somático alheio, cordante da constituição aperceptiva, uma vez bem-sucedida, por meio

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paria e Edmund Husserl Quinta Meditação

da progressãoda vida experienciante na concordância consequente,que e a validade de um ser, um ser na sua forma temporal idêntica e no seu
sempre se vai reproduzindo de novo, eventualmente através de correções. conteúdo temporal idêntico? O original foi-se, mas retorno a ele em pre
Ora a concordância mantém-se também, em virtude de um rearranjo das sentificaçõesrepetidas, e faço-o na evidência de que assim o possojazer
apercepções,por meio da distinção entre a normalidade e as anormalida- sempre de novo. As próprias repetições são, porém, evidentemente, uma
des,enquanto suasmodificações intencionais, correspondentemente,em sucessão,elas estão separadas umas das outras. Mas isto não impede que
virtude da constituição de novas unidades na mudança destas anormali- uma síntese de identificação as enlace numa consciência evidente de o
dades.À problemática da anormalidade pertence também o problema da mesmo, em que se encerra a mesma forma temporal única, enchida com
anima/ídízde e das suas gradatividades entre animais superiores e ír!$eríores. o mesmo conteúdo. Por conseguinte, o mesmoquer dizer, aqui como por
Em relação ao animal, o homem é, falando constitutivamente, o caso nor- todo lado, um objeto intencional idêntico de vivências separadas, que
mal, tal como eu próprio sou, constitutivamente, a norma primitiva para lhes é, portanto, imanente apenasenquanto algo irreal. Um outro caso
todos os homens; os animais são, por essência,constituídos para mim em si muito importante é o da constituição de objetos ideais em sentido
como modÚcaçõesanómalas da minha humanidade, mesmo que, tam- pleno, tal como todos os objetos ideais lógicos. Numa ação de pensa-
bém entre eles, se possa separar outra vez normalidade e anormalidade. mento viva, polimembrada, produzo uma formação, um teorema, uma
Trata-sesemprede novo de modiâcações intencionais na própria estrutu formação numérica. Uma outra vez, repito a produção com base na re-
ra de sentido, que enquanto tais se atestam.Tudo isto carececertamente cordação iterativa da anterior. De imediato e por essência,surge a sínte-
de uma explicitação fenomenológica que penetre muito mais fundo, mas se de identificação, e uma nova síntese surge com cada repetição que se
esta exposição de ordem geral é já suficiente para os nossos fins. consume, na consciência de que se pode continuar livremente: é identi
De acordo com essesesclarecimentos,não haverá, por conseguin camente a mesma proposição, identicamente a mesma formação numé
te, mais nenhum enigma quanto a saber como constituo em mim um rica, apenasque repetidamente produzida, ou, o que é o mesmo, levada
outro eu e, mais radicalmente, como constituo uma outra manada na repetidamente à evidência. Aqui, a síntese expande-se, por conseguinte
minha manada, e como aquilo que é em mim constituído pode ser preci- (no elemento de presentiíicações recordativas), no interior da minha cor-
samenteexperienciado enquanto outro; e, com isso, também não haverá rente de consciência sempre já constituída, do presente vivo até os meus
mais nenhum enigma, dado ser inseparável do anterior, quanto a saber passadosde cada vez relevantes e estabelece,com isso, uma ligação entre
como possoidentiâcar uma naturezaem mim <1552..Sonstj114da go.m eles e o meu presente. Com isto, soluciona-se, de resto, o problema trans-
uma natureza constituída por outro (ou dito com a precisão necessária: cendental, em si mesmo muito signiâcativo, das chamadas objetividades
com uma naturezaconstituída em mim enquanto constituída pelo ou- ideais em sentido específico.A sua supratemporalidade revela-se como
tro). Esta identificação sintética não é um enigma maior do que outra onitemporalidade, enquanto correlato de uma livre <156> produtibili-
qualquer e, por conseguinte, não é um enigma maior do que aquela que dade e reprodutibilidade numa qualquer posição temporal. Tudo isto se
semantém na minha própria esferaoriginal e em virtude da qual a uni- transpõe então, obviamente, depois da constituição do mundo objetivo,
dade objetiva pode, em geral, obter para mim sentido e ser através da me- com o seu tempo objetivo e os seus homens objetivos, enquanto sujeitos
diação das presentificações. Consideremos este exemplo assazinstrutivo pensantes possíveis, também para as formações ideais que, por estaparte,
e utilizemo-lo, ao mesmo tempo, para a exposição de um pensamento se objetivam e para a suaonitemporalidade objetiva, com o que se torna
que nos fará avançar: o de uma ligação que se constitua no elemento da compreensível o seu contraste com as realidades objetivas, enquanto ob-
presentiíicação.Como ganha para mim uma vivência própria o sentido jetividades espaço-temporalmente individuadas.

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Meditações Cartesianas e Conferências de Parase Edmund Husserl

Se agora voltarmos uma vez mais ao nosso casoda experiência do mas precisamente como eu sou para mim; e depois, porém, também em
alheio, então verificamos que ela realiza, na sua estrutura complexa, uma comunidade, por conseguinte (repito, sublinhando, a expressãojá antes
ligação semelhante, no elemento da presentificação, entre a autoexperiên- usada), em ligação comigo, enquanto ego concreto, enquanto manada.
cia do egoconcreto, que sempre se prossegue numa vivacidade inquebrá- Certamente que eles estão realmente' separados da minha manada, na
vel (enquanto autoaparição original puramente passiva),portanto, entre medida em que nenhum ligação reais permite passar das suasvivências
a sua esfera primordial e a esfera alheia que nele é presentificada. A expe- para as minhas vivências e, assim, em geral, do seu essenciale próprio
riência do alheio realiza-o através da síntese identiíicante entre o corpo para o meu essenciale próprio. A isto corresponde, decerto, a separação
somático primordialmente dado e o mesmo corpo somático, apenasque real,' a separaçãomundana, do meu ser-aí psicofísico com o dos outros,
apresentado num outro modo de doação, expandindo-se, de seguida, atra- que se apresenta como algo espacial em virtude da espacialidade dos
vés da síntese identiíicante de uma mesma natureza que é, em simultâneo, somasobjetivos. Por outro lado, estacomunidade originária não é um
nada. Se cada manada é realmente uma unidade absolutamente fechada,
dada e confirmada primordial (na originalidade sensível pura) e apresen-
tativamente. Por via disso, é primitivamente instituída a coexistência do a intrusão intencional irreal do outro na minha primordialidade não é,
meu eu (e do meu egoconcreto em geral) e do eu alheio, da minha e da porém, irreal no sentido de uma intrusão oniricamente construída,de
sua vida intencional, das minhas e das suas facilidades, em suma, de uma um ser-representado ao modo da simples fantasia. O ente estácom o ente
forma temporal comum, com o que toda a temporalidade primordial ad- numa comunidade intencional. É uma vinculação que, principialmente,
quire a partir de si mesma a simples significação de um modo original de é de um tipo peculiar, que é uma comunidade efetiva, e, precisamente,
aparição, subjetivo e singular, da temporalidade objetiva. Por aqui se vê ela é a vinculação que torna transcendentalmente possível o ser de um
como é inseparável a comunidade temporal das manadas constitutiva- mundo, de um mundo de homens e de um mundo de coisas.
mente referidas umas às outras, pois ela está,por essência,conectada com Depois de ter sido suficientemente clarificado o primeiro nível da
a constituição de um mundo e de um tempo do mundo. comunalização e, coisa que se torna quase equivalente, a primeira cons-
tituição de um mundo objetivo a partir do mundo primordial, os níveis
superiores oferecem difiçyldade!.relativamente.menores. Sebem que, re-
S 56. Constituição dos níveis superiores da comunidade irttel'monadológica lativamente a eles,para os objetivos de uma explicitação que cubra todos
os aspectos e com uma problemática diferenciada, se tornem necessárias
Com isso, foi esclarecido,portanto, o primeiro e mais baixo nível iny!:$igqções de largo.alça!!çe, podem aqui bastar-nos traços de conjun-
da comunalização entre mim, a manada para mim primordial, e as ma- to, em linhas grosseiras,facilmente compreensíveisa partir dos funda-
nadasem mim constituídas como alheias e, com isso, em mim constitu- mentos já estabelecidos. A partir de mim - a protomânada, constitutiva-
ídas como sendo para si próprias, mas para mim apenas apresentativa- mente falando obtenho as manadas para mim outras, correspondente-
mente mostráveis.Que os outros se constituam em mim como outros mente, os outros enquanto sujeitos psicofísicos. Nisto reside que eu não
é a única forma pensável de como eles possam ter para mim sentido e os obtenho simplesmente como somaticamente contrapostos a mim e,
validade como entes que são e que são assim; se eles o têm a partir das
fontes de uma confirmação constante, então eles precisamente são, como 4 N.T.:/?ee//
feremde asseri-lo, <157> mas serão, então, portanto, exclusivamente com 5 N.T.:/?ee//
6 N.T.:/?ea/.
o sentido em que eles são constituídos: manadas que são para si mes-

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl Quinta Meditação

em virtude do emparelhamento associativo, como retrorreferidos ao meu zendo necessariamente em si o mesmo mundo objetivo. Manifestamente,
ser-aí psicofísico, o qual, em geral e de um modo compreensível, é mem- pertence à essência do mundo transcendentalmente constituído em mim
bro centra/ no mundo comunalizado do nível que agora está em ques- (e, de modo semelhante, em qualquer comunidade monádica em que eu
tão, por força do modo necessariamenteorientado da doaçãodo mundo. possa pensar) que ele seja, por uma necessidade de essência, também
Pelo contrário, no sentido de uma comunidade humana e no sentido de um mundo humano, que ele seja constituído, em cada homem singular,
homem, que, na sua singularidade, traz já consigo o sentido de membro de um modo anímico interno mais ou menos perfeito, em vivências in-
de uma comunidade (coisa que se transpõe para a socialidade animal), tencionais e sistemas potenciais da intencionalidade que, pelo seu lado,
reside um ser-um-para-o-outro-mútuo, que envolve uma equiparação estãojá constituídos como entes mundanos enquanto sua vida anímica.
objetivante <158> do meu ser-aí e do de todos os outros: portanto, eti: e Por constituição anímica do mundo objetivo compreende-se, por exem-
qualquer um como homem entre outros homens. Se, compreendendo plo, a minha efetiva e possível experiência do mundo, do meu eu, que a
o outro, penetro profundamente no seu horizonte de propriedade, então si próprio se experiencia como homem. Esta experiência é, certamente,
de imediato darei com o fato de que, assimcomo o seusoma corpóreo se mais ou menos perfeita, mas será, pelo menos, experiência enquanto ho-
encontra no meu campo de percepção,também o meu soma se encontra rizonte aberto indeterminado. Paracada homem, todos os outros, na sua
no seu, e que, em geral, ele me experiencia sem mais como um outro dimensão física, <159> psicofísica e psíquica interna, residem neste hori-
para ele, tal como eu o experiencio como meu outro. Do mesmo modo, zonte, enquanto domínio de coisas aberta e infinitamente acessíveis,bem
darei com o fato de que, no caso dos membros de uma pluralidade, tam ou mal, ainda que, na maior parte dos casos,precisamente mal.
bém eles se experienciam uns aosoutros como outros; subsequentemen-
te, darei ainda com o fato de que eu posso experienciar cada outro não
apenascomo outro, mas como referido aos seus outros e, eventualmen- S 57. Esclarecimentodo paralelismo entre explicitação psíquica interna e
te, numa mediatez que se pode pensar como iterável, como referido ao explicitação ecológica transcendental
mesmo tempo a mim mesmo. Também é claro que os homens não são
apercebidoscomo encontrando, à sua vontade, outros e ainda mais ou- Não é difícil aclarar,a partir daqui, o necessário paralelismo entre
tros homens apenas no plano da efetividade, mas também no da possi- explicitação anímica interna, de um lado, e egológica transcendental,
bilidade. A própria natureza aberta sem íim torna-se também algo que do outro, ou o fato de que a alma pura, como já antesfoi dito, é uma
encerra em si, em uma multiplicidade aberta, homens repartidos de um auto-objetivação da manada, que nela mesma se consuma e cujos dize
modo desconhecido pelo espaçoinfinito, que encerra, em geral, animais, rentes níveis são necessidades de essência para que, em geral, possa haver
enquanto sujeitos de uma possível comunidade recíproca. Naturalmen- outros para a manada.
te, a essacomunidade corresponde, na concreção transcendental, uma A isso está ligado que, czpriori, toda e qualquer análise e teoria
correspondente comunidade monádica aberta, que designamos como fenomenológico-transcendental - e também a teoria que acabamosde
intersubjetividade transcendental. Ela é, como quase não precisa ser dito, esboçar em grandestraços acercada constituição transcendental de um
para mim constituída em mim, no egomeditante, puramente a partir das mundo objetivo pode também ser realizada no terreno natural, por
fontes da minha intencionalidade, mas ela é constituída como a mesma meio do abandonoda atitude transcendental.Transpostapara estain-
para cada manada, que é por sua vez constituída na modificação outro, genuidade transcendental, ela torna-se numa teoria psicológica interna.
apenasque com um diferente modo subjetivo de aparição, e como tra- Eidética e empiricamente, corresponde a uma Fenomenologia transcen-

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Quinta Meditação
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris e Edmund Husser

dental uma Psicologia pura, ou seja, uma disciplina que explicita exclusi- de uma explicitação mais precisa de sentido. Ela é, por isso, obviamente
vamente a essênciaprópria intencional de uma alma de um eu humano diferente da acessibilidade absolutamente incondicionada para qualquer
concreto, e inversamente. Mas isto é uma situação que deve ser tornada um que, por essência, pertence ao sentido constitutivo da natureza, da so-
transcendentalmente visível. maticidade e, com isso, do homem psicofísico, compreendido esteúltimo
numa certa generalidade. Na verdade, está inserido na esfera da genera-
lidade incondicionada ainda o seguinte (como correlato da forma de es-
S 58. Articulação dos problemas na analítica intencional das comunidades sênciada constituição do mundo): que todo e qualquer um, a priori, vive
intersubjetivas superiores.Eu e mundo circundante na mesma natureza, e numa natureza a que cada um, por uma comuna
lização necessáriada suavida com a dos outros, deu a forma, numa ação
e numa vida individual e comunalizada, de um mundo cultural, de um
A constituição da Humanidade, ou daquela comunidade que per-
tence à sua essênciaplena, não está ainda terminada com o que foi dito mundo com significatividade humana, por mais primitivo que o seu nível
até aqui. Mas, obviamente, a partir da comunidade, no sentido obtido em possaser.Mas isto não exclui que, tanto apriorística como faticamente,
os homens de um só e mesmo mundo vivam numa comunidade frouxa
último lugar, será muito fácil tornar intelectivamente visível a possibili-
ou mesmo em nenhuma comunidade cultural e, por via disso, constitu
dade de atos egoicos que realizam uma intrusão no outro eu atravésdo
elemento da experiência apresentativa do alheio, e, mais ainda, de-ates am diferentes mundos circundantes culturais enquanto mundos da vida
especificamente pessoais-egoicos, que têm o caráter de atos sociais, por concretos, em que as comunidades relativa ou absolutamente separadas
meio'dos quais é produzida toda e qualquer comunicação pessoalhuma- vivem agindo e padecendo. Cada homem compreende, para começar, o
na. Estudar cuidadosamente estes aros nas suas formas diversas e, a partir seumundo circundante concreto ou a sua cultura, no seu núcleo e com

daí, tornar transcendentalmente compreensível a essênciade toda sociabi- um horizonte para desvendar, e compreende-o precisamente enquanto
lidade, é uma importante tarefa. Com a <160> comunalização em sentido homem da comunidade que Ihe dá historicamente forma. Uma compre

próprio, a social, constituem!:se,no interior do mundo objetivo, enquanto ensão mais profunda que abra o horizonte do passado,que é codeter-
objetividades espirituais de tipo peculiar, os diversos tipos de comunida- minante para a compreensão do presente, é, por princípio, possível para
des sociais na sua ordenação de níveis possíveise, dentro dissol os tipos qualquer membro dessacomunidade, com uma certa originariedade que
só para ele é possível <161> e que está vedada para os homens de outra
preeminentes, que têm o caráter de personízZidades
de ordem sz4períor.
Subsequentemente, seria de considerar o problema da constituição comunidade que entrem em relação com esta comunidade. Para come-
do humano em sentido específico, que é inseparável da problemática que çar, elecompreende os homens do mundo alheio, necessariamente,como
indicamos e, num certo sentido, Ihe é correlativa, e certamente também homens em geral e como homens de um certo mundo cultural; a partir
daí, ele deve criar por vez primeira, passo a passo, as ulteriores possibi-
o problema de um mundo circundante cultural para cada homem e cada
comunidade humana e o seu tipo, se bem que limitado, de objetividade. lidades de entendimento. Partindo do que é compreensível de um modo
generalíssimo, deve abrir uma via de acessoà recompreensão de estratos
Estaobjetividade é limitada, sebem que, para mim e para qualquer um, o
mundo não seja concretamente dado senãocomo mundo cultural e com do presente cada vez maiores e, a partir deles, do passado histórico, o
.o sentido da acessibilidade para qualquer um. Mas também esta acessi- qual ajuda de novo a um descobrimento mais alargado do presente.
bilidade não é, por força de fundamentos constitutivos essenciais,uma A constituição de mundos de qualquer tipo, começando com a cor-
acessibilidadeincondicionada, tal como se mostra de imediato por meio rente de vivências próprias, com as suas multiplicidades abertas infinitas,

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paras' Edmund Husserl Quinta Meditação

até se guindar ao mundo objetivo, nos seus diferentes níveis de Objeti- Seregressarmosao nosso caso do mundo cultural, então ele tam-
vidade, está sob a legalidade da constituição oríenfada. Assim também bém é dado orientadamente como mundo de culturas, sobre a basesub-
o mundo cultural é, como vemos, oríenfadamenfe dado em relação ao jacente da natureza em geral e da sua forma de acessoespaço-temporal,
seu membro zero ou a uma personalidade.Aqui, sou eu e a minha que tem de ser uma forma cofuncionante para o acessoà multiplicidade
cultura o primordial perante cada cultura alheia. Estas são acessíveis. de formações culturais e às culturas.
a mim e aos que participam da minha cultura, numa espécie de expe- Temos de nos abster de uma indagação mais precisa do estrato de
riência do a/belo e num tipo de íntropafía na humanidade alheia e na sentido que dá o seusentido especíâcoao mundo humano e cultural en-
sua cultura, e também esta intropatia exige as suas investigações in- quanto tal, que faz dele um mundo equipado com predicados especifica-
tencionais de uma constituição que, em diversos graus, mas no quadro mente espírifuaís.As explícitações constitutivas que efetuamos até aqui
de um sentido a conceber com uma larga amplitude, pressupõeo que põem a descobertoos nexosintencionais de motivação em que nasce
é primária e secundariamenteconstituído. Com isso,o primordial ir- constitutivamente o estrato subjacentedo mundo pleno e concreto, o qual
rompe sempre no mundo secundariamenteconstituído com um novo remanescequando fazemos abstração de todos os predicados do espírífo
estrato de sentido, de tal modo que se torna membro central nos mo- o»efívo. Conservamos a natureza por inteiro, já em si mesma concreta e
dos orientados de doação. O secundariamente constituído é, enquanto unitariamente constituída, nela inserindo os somas humanos e animais.
mz4ndo,necessariamente dado como horizonte de ser acessível a partir mas não a vida anímica concretamente completa, já que o ser humano
do primário e que se pode descobrir de um modo ordenado. Assim o enquanto tal está sempre consciencialmente referido a um mundo cir-
é já para o primeiro, para o mundo imanente, a que chamamosa cor- cundante prático existente, mundo sempre já equipado com predicados
rente de vivências. Enquanto sistema de elementos exteriores uns aos significativos para o homem, e esta referência pressupõe a constituição
outros, ela é dada de um modo orientado em torno do presentevivo psicológica dessespredicados.
constituindo-se primordialmente, a partir do qual é acessível tudo o Que cada um dessespredicados do mundo se origine numa gênese
que está fora dele na temporalidade imanente. Para lá disso, o meu temporal, e numa gêneseque está,certamente, enraizada no agir e pade-
soma é, no quadro da esfera primordial no nosso sentido específico, o cer humanos, não carece de qualquer demonstração. Pressupostopara
membro central para a natureza, enquanto mundo que só se constitui a origem destespredicados no sujeito singular e para a sua validade in-
atravésdo seu governo. Do mesmo modo, o meu soma psicofísico é tersubjetiva, permanecendo como pertencentes ao respectivo mundo da
primordial para a constituição do mundo objetivo das exterioridades, vida comum, é, assim,que uma comunidade humana e cadahomem sin-
e entra nos seusmodos orientados de doação como membro central. gular mergulhem vivencialmente num mundo da vida concreto, estejam
Se o mundo que é primordial no sentido a que demos preeminência a ele referidos agindo e padecendo - que tudo isto estejajá constituído.
não setorna, ele próprio, centro do mundo objetivo, <162> então isso Nesta constante mutação do mundo da vida humano, mudam-se, obvia-
signiâca que essetodo se objetiva de tal modo que não cria nenhu- mente, também os próprios homens enquanto pessoas,na medida em
ma nova exterioridade recíproca de elementos.Ao contrário disso,a que, correlativamente, devem assumir sempre novas propriedades habi-
multiplicidade do mundo alheio é dada orientadamente em torno da tuais. Aqui, tornam-se <163> sensíveisproblemas de largo alcance da
minha, e ela é um mundo porque seconstitui com um mundo objetivo constituição estática e genética, sendo estes últimos aspectos parcelares
comum que Ihe é imanente, cuja forma espaço-temporal tem, ao mes- da bem enigmática gêneseuniversal. Por exemplo, a respeito da persona-
mo tempo, a função de uma forma de acesso. lidade, não apenaso problema da constituição estática de uma unidade

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husser Quinta Meditação

do caráter pessoal, perante a multiplicidade de habitualidades instituídas <164> ou, numa autovariação eidética, regredimos até um ego transcen
e de novo suprimidas, mas também o problema genético, que reconduz dental em geral.
ao enigma do caráter inato. De acordo com isso, essefoi apreendido como um ego que em si
Deve bastar-nos, por ora, ter aludido a esta problemática de nível mesmo experiencia e que comprova na concordância um mundo. Per
superior enquanto problemática constitutiva e, por essavia, ter tornado correndo a essência de tal constituição e dos seus níveis egológicos, tor-
compreensível que, na progressão sistemática da explicitação fenome- namosvisível um a priori de tipo novo, precisamente o a priori da cons-
nológico-transcendental do egoapodítico, deve finalmente desvendar- tituição. Aprendemos a separar a autoconstituição do egopara si mesmo,
se-nos também o sentido transcendental do mundo na plena concreção na suaessencialidadeprópria p?"ímordía/,e a constituição de tudo o que
com que ele é o mundo da vida constante de todos nós. Isto diz respei- Ihe é alheio, em todos os seus diversos graus, a partir das fontes do que
to também a todas as formas particulares circum-mundanas em que o Ihe é próprio e essencial. Resultou daí a unidade universal da constituição
mundo se nos apresenta segundo a nossa educação e desenvolvimento que se consuma no meu ego, nas suas formas de essência, cujo correlato,
pessoais, ou também segundo a nossa afinação a esta ou àquela nação, a o mundo que objetivamente é, estáconstantemente pré-dado para mim
este ou àquele círculo de cultura. Em tudo isso, imperam necessidades e para um ego em geral e continua configurando-se nos seus estratos de
de essênciaou um estilo essencial que tem as fontes da sua necessida- sentido; isto, porém, na minha forma de estilo correlativa e apriorísti-
de no egotranscendental e, logo, na intersubjetividade transcendental ca. E esta constituição é, ela própria, um a priori. Nestas explicitações,
que nele se abre, por conseguinte, nas formas de essênciada motivação radicalíssimase consequentes,do que está intencionalmente incluído e
transcendental e da constituição transcendental. Se o seu desvenda- do que se torna intencionalmente motivador no meu ego e nas minhas
mento for bem-sucedido, então esteestilo apriorístico obterá também próprias variações de essência,mostra-se que a estrutura fática geral do
um esclarecimento racional de suma dignidade - o de uma inteligibili- mundo objetivo dado, a sua estruturação enquanto simples natureza,en
dade transcendental última. quanto animalidade, humanidade, socialidade de vários níveis e cultura
é,numa medida assazconsiderávele talvez ainda maior do que se pensa,
uma necessidade de essência.Como consequência necessária e compre
S 59. A explicação otttológica e o seu lugar no conjunto da Fenomenologia ensível,resulta daqui que também a tarefa de uma Ontologia apriorística
Transcendental constitu uva do mundo real' - que é precisamente a exposição do a priori que Ihe
é correspondente em toda a sua universalidade é algo incontornável,
Por via da concatenação entre os vários fragmentos das análises sendo,porém, por outro lado, uma tarefa unilateral e não filosófica em
realizadas e, em parte, por via do pré-delineamento, que as acompanhou, sentido final. Porque um a priori ontológico dessetipo (como o da natu-
de uma problemática nova e inelutável, juntamente com a forma de or- reza,da animalidade, da socialidade e da cultura) confere certamente ao
denaçãoque dela se segue,obtivemos visões intelectivas filosóficas fun- fato õntico, ao mundo fático na sua confíngêncía,uma relativa compre
damentais.Partindo do mundo da experiência,pré-dado como mundo ensibilidade, a compreensibilidade de uma necessidadeintelectivamen-
que é, e na passagempara a atitude eidética,visando a um mundo de te visível, a partir de leis de essência,acerca do seu ser-assim, mas não
experiência pré-dado em geral, pensado como mundo que é, exercemosa a compreensibilidade filosófica, isto é, a transcendental. Pois a Filosofia
redução transcendental, ou seja, regredimos até o ego transcendental que
constitui em si a pré-doação e todos os modos de doação subsequentes, 7 N.T.: /?ea/

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris e Edmund Husserl Quinta Meditação

exige um esclarecimento a partir das necessidades de essência mais con- nominado fenomenológico e reivindique um signiâcado íilosóíico tem
cretas e últimas, e estas são as que dão satisfação ao enraizamento essen- unicamente a sua justiâcação em que cada intuição tem o seu lugar na
cial de todo e qualquer mundo objetivo na subjetividade transcendental, conexão constitutiva. Daí que cada verificação ontológica intuitivamente
por conseguinte, que tornam concretamente compreensível o mundo en consumada na positividade, que diga respeito à esfera principial (axio-
quanto sentido constituído. E com isso abrem-sepor vez primeira <165> mática) dos fundamentos, sirva como um trabalho prévio, mesmo indis-
as questões stzpremas e zí/umas que se podem ainda dirigir ao mundo, pensável íz priori, cujo resultado deve tornar-se íio condutor transcen
mesmo assim compreendido. dental para a exposição da plena concreção constitutiva na sua dualidade
Foi um dos bons sucessosda Fenomenologiaincipiente o fato de noético-noemática. Que coisassignificativas e totalmente novas se abrem
o seu método de uma intuição pura, mas, ao mesmo tempo, eidética, com esteregressoao constitutivo não considerando a <166> abertura,
ter levado ao ensaio de uma nova Ontologia, essencialmentediferente realizadacom ele, de horizontes de sentido encobertosdo lado ântico,
da do século XVlll, que operava logicament:, com conceitos arredados cuja omissão limita essencialmente o valor das verificações apriorísticas
da intuição, ou, coisa que é o mesmo, ao ensaio de edificação de ciências e torna insegura a sua aplicação - é o que mostram os resultados morga-
particulares apriorísticas, gerando-se diretamente a partir da intuição do/ógícosda nossa investigação.
concreta (Gramática pura, Lógica pura, Teoria pura do Direito, Teoria
de Essênciada naturezaintuitivamente experienciadaetc.), e de uma
Ontologia geral do mundo objetivo que a todas abarcasse. A este respei- $ 60. Resultados meta$sicos da nossa explicitação da experiência do qüe é
a//leio
to, nada obsta a que se comece desdelogo, de uma maneira plenamente
concreta,com o nossomundo da vida circundante e com o próprio ho-
mem, enquanto por essênciareferido a essemundo circundante, e que se Os nossos resultados são metafísicos se for verdade que deverá
,investigue, em geral, de um modo puramente intuitivo, precisamente o a denominar-se metafísico o conhecimento último do ser. Mas o que está
priori - riquíssimo, mas nunca exposto - de um tal mundo circundante, aqui em questão não é nada de metafísico no sentido comum, como a
que dele se faça o ponto de partida para uma explicitação sistemática das Metaflísicaque degenerouhistoricamente e que não estájá ao nível do
estruturas de essênciado ser-aí humano e dos estratos do mundo que, sentido com que a Metafísica foi originariamente instituída enquanto
correlativamente, se abrem atravésdele. Mas o que é obtido diretamente FÍ/osoÚaPrimeira. O tipo de comprovação da Fenomenologia, intuitivo,
através disso, se bem que seja um sistema do a priori, só se torna por vez concreto e, além disso, apodítico, exclui toda a?enfura mef(!/kíca, todos
primeira um sistema filosoficamente compreensível - de acordo com o osexcessosespeculativos. Destaquemos alguns dos nossosresultados me-
que foi antes dito - e retrorreferido a fontes de inteligibilidade últimas, tafísicos, juntando-lhes novas consequências. O meu ego, a mim mesmo
quando a problemática constitutiva é precisamente aberta enquanto pro- apoditicamentedado - o único que pode ser, com uma apoditicidade
blemática de nível especificamentefilosófico, quando, assim,o terreno de absoluta,por mim posto como ente -, não pode ser a priori um qo que
conhecimento natural é substituído pelo terreno transcendental. Nisso experienciao mundo senãona medida em que estáem comunidade com
reside que tudo o que é natural, diretamente pré-dado, seja construído outros seus semelhantes,enquanto membro de uma comunidade mo-
outra vez numa nova originariedade e não simplesmenteinterpretado, nádica dada e orientada a partir dele. A..ÇWmproN'ação
consequentedo
subsequentemente, como algo já dotado de uma validade definitiva. Que, mundo objetivo de experiência implica a consequente comprovação de
em geral, um procedimento gerado a partir da intuição eidética seja de- outras manadas como entes. Inversamente, nenhuma pluralidade de mâ-

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nadasé para mim pensávelsenãocomo uma pluralidade explícita ou im- paço objetivo, apenasuma natureza, e fem de haver esta natureza una e
plicitamente comunalizada;nisso reside o seguinte:uma pluralidade de única, se, em geral, eu estou dotado de estruturas que impliquem o ser
manadas constituindo em si um mundo objetivo e nele - enquanto seres com das outras manadas. Apenas será possível que diferentes grupos de
animais e, em particular, humanos - se espacializando,temporalizando, manadas e mundos estejam uns em relação com os outros da mesma
realizando. O ser em conjunto das manadas, o seu simples ser de uma maneira que os grupos de manadas que, eventualmente,pertencem a
só vez, significa, por uma necessidadede essência,o seu ser de uma só mundos estelarespara nós invisíveis estão em relação conosco próprios,
vez temporalmente e, então, também o estar temporalizado na forma da portanto, como animais que carecemde qualquer conexão atual conosco.
temporalidade rea/.' Os seus mundos são, porém, mundos circundantes com horizontes que
Mas disso seguem-se ainda outros resultados metafísicos suma- só faticamente, só de modo contingente estão, para eles, por descobrir.
mente importantes. Será pensável (para mim, que o digo, e, a partir de O sentido desta unicidade do mundo monadológico e do mundo
mim, também para todo e qualquer outro pensável,que também o pos- objetivo que Ihe é ínafo deve ser, porém, corretamentecompreendido.
sa dizer) que várias pluralidades de manadas separadas,isto é, não co- Naturalmente que l,eíbníz tem razão quando diz que são pensáveisinfi-
munalizadas umas com as outras, possam coexistir, em que cada uma nitamente muitas manadas e grupos de manadas, mas que nem por isso
dessaspluralidades constitui um mundo próprio e que, portanto, haja todas estaspossibilidades são compossíveis e, de novo, que infinitamen-
dois mundos separados ao inânito, <167> dois espaçosinfinitos e dois .te muitos mundos podiam ter sido criados, mas não vários ao mesmo
espaços-tempos?Manifestamente que isto não é algo pensável,mas um tempo, dado que são incompossíveis. Deve atentar-se aqui que eu posso,
puro contrassenso. .Apriori, cada um dessesgrupos de manadas, certa- desde logo, repensar esteego apoditicamente fático numa variação livre e,
mente como unidade de uma intersubjetividade - e de uma que, de modo assim, obter o sistema das possibilidades de modiâcação de mim próprio,

possível,carecede qualquer relação comunitária atual com a outra inter- das quais cada uma é suprimida pela outra e pelo ego que eu efetivamente
subjetividade , tem o seu mundo que, de modo possível,tem um aspecto sou. É um sistema de incompossibilidade apriorística. < 168> Mais ainda,
completamente diferente do da outra. Mas ambos os mundos são,então, o fato eu sou prescreve se e que outras manadas são para mim outras; às
necessariamente,simples mundos círcz4ndantesdestasintersubjetividades manadas que para mim podem ser, só as posso encontrar, mas não as
e simples aspectosde um mundo objetivo único, que lhes é comum. Pois posso criar. Seme repenso numa pura possibilidade, então isso prescreve
ambas as intersubjetividades não pairam no ar; sendo pensadas por mim, de novo que manadas serão para mim enquanto outras. E assim continu-
estãoambasnuma comunidade necessáriacomigo, enquantoprotomâ ando, reconheço que cada manada, que tem validade como possibilidade
nada para elas constituinte (ou comigo numa possibilidade de variação concreta, pré-delineia um universo compossível, um mu?zdomorzádíco
de mim mesmo). Elas pertencem, por conseguinte, em verdade, a uma fechado, e que dois mundos monádicos são incompossíveis do mesmo
comunidade universal única, que a mim próprio contém e que abarca modo que duas possibilidades de modiâcação do meu ego, ou, em geral,
todas as manadas e grupos de manadas que se possam pensar como coe- de qualquer ego pressuposto em pensamento.
xistentes. SÓpode haver, portanto, na realidade, uma única comunidade Por essesresultados e pela marcha das investigações que a eles con-
de manadas, a de todas as manadas coexistentes,e, assim, apenas um duzem, compreende-se como se tornam plenas de sentido as questões
único mundo objetivo, apenasum único tempo objetivo, apenasum es- (seja como for que possam ser decididas) que, como os problemas em
que já tocamos antes, deveriam permanecer, para a tradição, mais além
8 N.T.:Rea/. de todos os limites científicos.

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Quinta Meditação

S 61. Os problemas tradicionais da "origem psicológica"e o seu esclareci. No entanto, no interior da nossa esfera de trabalho, que sejam ain-
mento jenomeno lógico da mencionados os formidáveis domínios de problemas (e, certamente,
tanto enquanto problemasestáticos como genéticos) que nos colocam
No interior do mundo animal e humano, depara-se-nosa bem co- numa relaçãode maior proximidade com a tradição âlosófica.As clarifi-
nhecida problemática científico-natural da gênesepsicofísica, fisiológica cações intencionais conexas que efetuamos, a respeito da experiência do
e psicológica. Está aí contido o problema da gênese anímica. Ele torna-se alheio e da constituição de um mundo objetivo, realizaram-se num terre
próximo a nós por via do desSgl:!!!yjmento. i.nfantil, em que cada criança no que nos era pré-dado no quadro da atitude transcendental, a saber, o
deve edificar a sua representaçãodo mzzndo.O sistema aperceptivo em de uma articulação estrutural da esfera primordial, na qual encontramos
que para ela está aí e é sempre pré-dado um mundo, enquanto domínio já de antemão um mundo, um mundo primordial. Ele tornou-se acessível
de experiência efetiva e possível, deve constituir-se, por vez primeira, no para nós na saída do mundo concreto, tomado como fenómeno, através
desenvolvimento anímico infantil. Objetivamente considerado, a criança da peculiar reduçãoprimordial dessemundo à esferado próprio, ou seja,
chega ao mundo; como chega ela a um começo da sua vida anímica? a um mundo de transcendências imanentes. Este compreendia a natu
Essechegar-czo-mundopsicofísico leva ao problema do desenvolvi- reza no seu conjunto, reduzida à natureza pertencente a mim próprio a
mento corpóreo-somático individual (puramente biológico) e da filogêne- partir da mi?zhapura sensibilidade, mas também o homem psicofísico e,
se,que, pelo seulado, tem um paralelo numa filogênesepsicológica. Mas dentro disso, a sua alma, na redução correspondente. No que diz respei-
não apontara tudo isto para as correspondentes conexões das manadas to à natureza, pertenciam-lhe não apenas coisast,ísíveís,fáteís,e outras
absolutas transcendentais, dado que homens e animais são, do ponto de semelhantes, mas já coisas, de certo modo, acabadas, enquanto substra-
vista anímico, auto-objetivações das manadas?Não se estarãoa indiciar,
to de propriedades causais, com as formas universais espaço e tempo.
com tudo isto, os seriíssimos problemas de essênciade uma Fenomeno- Manifestamente, o problema primeiro para o esclarecimento constitutivo
logia constitutiva, enquanto Filosofia transcendental? do sentido de ser do mundo objetivo consiste em esclarecer, desde logo,
<169> No entanto, em grande medida, os problemas genéticos - a origem desta natureza primordial e das unidades somático-anímicas,
e, naturalmente, decerto os do nível primeiro e fundamental - estão já a sua constituição <170> enquanto transcendências imanentes. A sua
presentesno trabalho fenomenológico efetivo. Este nível fundamental é, execução exige investigações extraordinariamente amplas. Aqui, recor-
naturalmente, o do meu ego na sua essencialidade própria primordial. A damos de novo os problemas da origem psicológica da representaçãodo
constituição da consciênciainterna do tempo e a inteira teoria fenome- espaço,
da represa?zfação
do tempo,da representação
cousa/,tratadosde
nológica da associaçãopertencem a este nível, e aquilo que se encontra uma maneira tão diversificada no século passadopelos mais importantes
na autoexplicitaçãointuitiva e originária do meu egotranspõe-se,sem psicólogos e fisiólogos. Mas, até agora, não sechegou a efetivas aclarações
mais, para todo e qualquer outro qo, com base em fundamentos essen- dessesproblemas, por mais que os grandes projetos exibam o selo dos
ciais. SÓque, com isso, os problema!].e!!erativos acima mencionados do seus distintos autores.
nascimento e da morte, e da conexão geracional da animalidade, não fo- Se regressarmos, agora, dessesproblemas à problemática que deli-
ram ainda, decerto, tocados, pois que pertencem, manifestamente, a uma mitámos e que integramos no sistema de níveis fenomenológicos, torna-
dimensão superior e pressupõem um trabalho de explicitação dos níveis se, então, evidente que tanto a moderna Psicologia, no seu todo, como
\
inferiores tão colossal que ainda por muito tempo não poderão figurar a Teoria do Conhecimento não captaram o sentido autêntico dos pro-
como problemas sobre os quais se possatrabalhar. blemas que devem ser aqui levantados quer psicológica, quer transcen

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dentalmente, a saber, o seu sentido enquanto problemas de explicitação damental, tanto para a Fenomenologia transcendental como para a Psi-
intencional, estática e genética. Isso não era possível mesmo para aqueles cologia intencional que Ihe é paralela (enquanto ciência positiva), uma
distinção das investigações paralelas psicológico-eidéticas naquelas que,
que tinham aceito a doutrina de Brentano doslenõmenos ps@z4ícoscomo
vivências intencionais. Faltava compreensão do que é peculiar de uma por um lado, explicitam intencionalmente o que é concretamentepróprio
e essenciala uma alma em geral e naquelas que, por outro, explicitam a
cima/{seintencional e do conjunto das tarefas que eram abertas através da
intencionalidade respeitante ao alheio que nessaalma se constitui. A pri-
consciência enquanto tal, a respeito da noese e do noema, e também falta-
meira esfera de investigação pertence o elemento capital e fundamental
va compreensão da metodologia, por princípio de tipo novo, que essasta
da explicitaçãointencional da representação
de mundo,dito com mais
regasexigiam. A respeito dos problemas da "origem psicológica da repre-
precisão,do Jenóme?zo do mundo que é, que surge no quadro da alma
sentação do espaço,da representação do tempo, da representação cousal':
humana, enquanto mundo da experiência universal; se estemundo é re-
nenhuma Física ou Fisiologia tem algo para dizer, assimcomo não o terá
também toda equalquer Psicologia,experimental ou não, que se mova, de duzido ao que é primordialmente constituído na alma singular, então ele
resto, no terreno das exterioridades indutivas. São exclusivamente proble- já não é doravante mundo para qualquer um, já não é mundo recebendo

mas de constituição intencional para fenómenos que nos sãojá pré-dados o seu sentido a partir da experiência humana comunalizada, mas será
anteso correlato intencional exclusivo do anímico singular e, desdelogo,
como./ios condutores (eventualmente, que também podem ser pré-dados
da minha vida experienciante e das suas edificações graduais de senti-
na sua singularidade pela ajuda de uma experiência), que, porém, apenas
podem ser por vez primeira interrogados pelo método intencional e no do na originalidade primordial. Se seguirmos estas, então a explicação
intencional terá de tornar constitutivamente compreensível como pode
contexto universal da constituição anímica. Aquilo que se entende aqui
ser obtido - por nós, homens, e, sobretudo, por cada psicólogo -, através
por "universalidade" mostra-o com claridade suficiente a conexão unitá-
da exclusão antes descrita do momento de sentido do ser-a/belo, este nú
ria sistemática das constituições que desenvolvem a unidade do meu eXO
segundo o que Ihe é próprio e o que Ihe é alheio. Para a Psicologia,. a Fe- cleo primordial do mundo fenomenal.Se,nestemundo primordial, abs-
trairmos do ser psicofísico eu-homem nele reduzido, resta-nos a simples
nomenologia significa, também, precisamenteuma nova conâguração de
princípio. Assim, a maior parte da sua investigação pertence largamente a natureza primordial, enquanto natureza da minha simples sensíbi/ídízde

uma Psicologia apriorística e pura (ou seja, liberada de tudo o que é de or- própria. Aqui surge, como problema primário da origem psicológica do
mundo de experiência, o problema da origem dojanfasma de coisa,com
dem psicofísica). É a mesma Psicologia a respeito da qual, repetidamente,
os seus estratos (coisa visual etc.) e a sua unidade sintética. Ele é (sem-
<171> já indicamos que permite, atravésda alteração da atitude natural
em atitude transcendental, uma "revolução copernicana" em que ela as- pre no quadro desta <172> redução primordial) dado puramente como
sume o novo sentido de uma consideração transcendental plenamente unidade de modos de aparição sensíveise da sua síntese.O fantasma de
radical e o imprime a todas as análisesfenomenológico-psicológicas. SÓ coisa, nas suas variações, que se correspondem sinteticamente, de coisa
este novo sentido faz com que todas as análises sejam utilizáveis da pers- próxima e de coisa dista?zfe,não é ainda a coísíz rea/ da esfera anímica

pectiva filosófico-transcendental, inserindo-as, mesmo, numa À4efí;!/íslca


primordial, que se constitui antes, já nesta esfera, num nível superior,
como coisa causal,enquanto substrato idêntico (substancia)de proprie
transcendental. É precisamente aqui que residem o esclarecimento final
dades causais. Subsfa?leia/idade e caz4saiidadedesignam, manifestamente,
e a superação do Psicologismo transcendental, que tornou errónea e que
paralisou a Filosofia Moderna no seutodo. Manifestamente que também problemas de um nível superior da constituição. O problema constitutivo
da coisa sensívele os problemas da espacialidade e da espaço-tempora
agora, através da nossa exposição, foi pré-delineada uma estrutura fun-

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lidade, que Ihe são, no fundo, essenciais,é, agora, a problemática que ra disciplina), adotando o termo kanffano porque os argumentos sobre o
acabamosde indicar, que interroga apenasdescritivamente as conexões espaçoe o tempo da crítica da razão apontam manifestamente, mesmo
sintéticas das aparições de coisas (aparências, aspectosperspectivísticos), que de um modo extraordinariamente limitado e não esclarecido,para
e o faz, decerto,de um modo unilateral; o lado oposto destaproblemática um a priori noemático da experiência sensívelque, alargado até o a priori
é a retrorreferência intencional das aparições ao soma funcionante, que, concreto da natureza intuitiva puramente sensível (e certamente a pri-
pelo seulado, deve ser descrito na sua autoconstituição e na notável pe- mordial), exige ser transcendental-fenomenologicamente complementa-
culiaridade do seu sistema constitutivo de aparições. do atravésda sua inserção numa problemática constitutiva. No entanto,
Avançando dessamaneira, surgem sempre novos problemas descri- não poderemos corresponder ao sentido do título kantiano contraposto
tivos de explicitação, que devem ser, todos eles, sistematicamente prosse- de "analíticatranscendental':porque com ele denominaríamoso piso
guidos se quisermos tratar seriamente nem que seja apenasa constitui- superior do a priori constitutivo, o do próprio mundo oyetÍvo das suas
ção do mundo primordial, enquanto mundo de realidades,9e, nele, os multiplicidades constitutivas (e, no nível mais elevado, o a priori dos aros
grandesproblemas da constituição da espacialidadee da temporalidade, ídeaZlzanfes e teorizadores que constituem, por âm, a natureza e o mun-
como espacialidadee temporalidade mundanas. SÓisto forma já, como o do da ciência). Ao primeiro piso, que ultrapassa esta "estética transcen
seudesenvolvimento o mostra, um domínio de investigaçãoimenso que, dental': pertence a teoria da experiência alheia, a i?ztropafía, como é cha-
apesar disso, é apenas o nível de base para uma plena Fenomenologia mada. Precisamos apenas indicar que, aqui, vale o mesmo que dissemos
da Natureza, enquanto natureza objetiva, mas pura natureza, a qual está para os problemas psicológicos de origem que são relativos ao piso mais
ainda muito longe de ser o mundo concreto. baixo, a saber, que o problema da intropatia só através da Fenomenologia
A ligação com a Psicologia levou-nos a traduzir a distinção entre o constitutiva recebe o seu sentido verdadeiro e o seu verdadeiro méto-
primordial e o que é constituído enquanto alheio em termos puramente do de solução. Precisamente por isso, todas as teorias surgidas até hoje
anímicos e a esboçar,mesmo que fugazmente, a problemática constituti- (mesmo também a de Max Scheler) não produziram resultados efetivos,
va da constituição de uma natureza primordial e de uma natureza objeti- não tendo nunca reconhecido como o caráter alheio do outro se transfere
va como um problema psicológico. para o mundo no seu todo enquanto sua oQetívidade, dando-lhe por vez
Seretornarmos, porém, à atitude transcendental,os nossosesboçosda primeira este sentido.
problemática da origem psicológica da representaçãodo espaçoetc. dão-nos Sejaainda expressamenteindicado que é, agora, compreensível que
agora,inversamente, também outros esboçospara os problemas fenomeno- seria vão tratar separadamentea Psicologia intencional, enquanto ciên
lógico-transcendentais paralelos, a saber, os de uma explicitação concreta cia positiva, e a Fenomenologia transcendental, e que, a este respeito, o
da natureza primordial e do mundo em geral, coisa com que se preencherá trabalho efetivamente a executar recai sobre esta última, enquanto a Psi-
uma grande lacuna na nossa problemática anteriormente ensaiadaacerca cologia, não estando preocupada com a revolução copernicana, tomará
da <173> constituição do mundo enquanto fenómeno transcendental. para si própria os resultados. É, porém, também importante atentar em
Podemos também designar como uma "esféfíca franscendenfa/'l que nós, do mesmo modo que, no modo de consideração transcenden-
num sentido bastante alargado, o extraordinariamente grande complexo tal, não perdemos a alma e o mundo objetivo em geral no seu <174>
de investigaçõesreferidas ao mundo primordial (que formam uma intei- ser e no seu ser-assim,mas o elevámos a uma originária inteligibilidade
atravésdo desvendamentoda sua multilateralidade concreta, também a
9 N.T.:Rea//tàt. Psicologia positiva não perde o seu Feto teor, mas é apenasliberada da

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positividade ingênua para se volver numa disciplina da própria Filosofia <175> A objeção dissolve-sena sua inconsistência depois das ex
transcendental universal. A partir deste ponto de vista, pode ser dito que planações apresentadas.Deve-se atentar, antes de tudo, que em nenhum
a Psicologia intencional é a ciência em si primeira na série das ciências lugar foi abandonada a atitude transcendental, a da epochétranscendental,
que se elevam acima da positividade ingênua. e que a nossa teoria da experiência alheia, da experiência dos outros, não
Ela tem ainda uma precedência sobre todas as outras ciências posi- queria nem precisava ser mais do que a explicitação do seu sentido outro,
tivas. Mesmo quando se edifica na positividade com o método correto de a partir da suaoperatividade constitutiva, e a explicitação do ponto-limite
análise intencional, ela não poderá ter, mesmo assim, quaisquer proble- outro que é verdadeiramente, a partir das correspondentes sínteses de con-
masde/andízmenfos do tipo dos que as outras ciências positivas têm, pro- cordância. Aquilo que eu comprovo concordantemente como ozzfroe que,
blemas que despontam da unilateralidade da objetividade ingenuamente com isso, portanto, me dei, necessáriae não arbitrariamente, como uma
constituída e que, por fim, para chegar a uma visão multilateral, exigem realidade efetiva a conhecer, é eo Üso, na atitude transcendental, o outro
a passagempara o modo de consideração transcendental. A Psicologia como ente, o aifer-ego,comprovado precisamenteno quadro da intendo
intencional tem, porém, já eJnsi o transcendental,apenasque oculto - nalidade experienciantedo meu qgo.No quadro da positividade, dizemos
ela não precisa senão de uma derradeira reflexão para que consume a e encontramos como algo óbvio o seguinte:na minha própria experiência,
revolução copernicana, a qual não altera, quanto ao conteúdo, os seus experiencio não apenasa mim mesmo, mas também o outro, na forma
resultados, mas antes os reconduz ao seu sentido ú/fino. Apenas um pro- particular da experiência do alheio. A indubitável explicitação transcen
blema fundamental terá, por âm, a Psicologia, como se poderá objetar, dental mostrou-nos não só o direito transcendental desta asserçãopositiva,
um problema que será, também, o seuúnico problema de fundamentos: mas também que o ego transcendental, concretamente apreendido (o qual
o conceito de alma. só se torna ciente de si mesmo, com horizontes indeterminados, na redu-
ção transcendental), capta tanto a si próprio no seu ser próprio primordial,
como aos outros egotranscendentais, sob a forma da sua experiência trans-
S 62. Caracterização sinótica da explicitação intencional da experiência cendental do alheio, sebem que estesnão sejam já dados na originalidade e
alheia na evidência apodítica pura e simples, mas antes numa evidência de expe-
riência externa.Experiencio, conheço em mim o outro, eleconstitui-se em
Ao concluir estecapítulo, retomemos à objeção pela qual nos deixa- mim espelhado apresentativamente e não como original. Nessamedida,
mos desde logo guiar, a objeção contra a nossa Fenomenologia, na medida pode muito bem ser dito num sentido aZargízdoque o ego,que eu, enquanto
em que ela, desde o seu início, levantou a pretensão de ser uma Filosofia faço uma explicitação meditando atravésda aufoexp/icifação,a saber,en
transcendental e, portanto, de, enquanto tal Filosofa transcendental, re- quanto faço explicitação daquilo que encontro em mim mesmo, obtenho
solver os problemas acerca da possibilidade do conhecimento objetivo. De todas as transcendências,e obtenho-as enquanto transcendentalmente
acordo com essa objeção, a Fenomenologia não estaria apta para fazê-lo, constituídas,portanto, não enquanto aceitesna ingênua positividade. As-
pois, partindo do ego transcendental da redução fenomenológica e estan- sim desaparecea aparência de que tudo aquilo que eu, como egotranscen-
do a ele vinculada, cairia, mesmo sem o querer admitir, num Solipsis- dental, conheço como ente e que explicito como sendo por mim mesmo
mo transcendental, e toda a passagem para a subjetividade alheia e para a constituído,devepertencer-mecomo me sendo essenciale próprio. Isso
objetividade autêntica seria apenaspossível atravésde uma inconfessada só é válido para as transcendências imanentes; constituição, enquanto título
Metafísica, através de uma secreta adoção de tradições Zeíbnizlanízs. para os sistemas de atualidade e potencialidade sintética, que me atribuem

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sentido e ser enquanto egona essencialidadeprópria, quer dizer constitui- da minha esfera de consciência. Este Idealismo apresentou-se como uma
ção de uma efetividade objetiva imanente. No <176> começo da Fenome- Monadologia, que, peseembora todas as ressonâncias propositadas com a
nologia e na atitude daquele que primeiro começa,que por vez primeira Metafísica leibniziana, vai haurir o seu teor próprio puramente à explici-
procedeà instituição originária da reduçãofenomenológica como habifus tação fenomenológica da experiência transcendental, que é liberada na re
universal da pesquisaconstitutiva, o egotranscendental que surge diante dução transcendental, <177> por conseguinte, à evidência mais originária,
dos olhos é, com certeza, captado apoditicamente, mas com um horizonte em que todas as evidências pensáveis se devem fundar - ou à fonte mais
totalmente indeterminado, que é apenaslimitado, em geral, pela exigência originária do Direito, a partir da qual podem ser criados todos os direitos e,
de que o mundo e tudo o que eu deleconheçase devatornar um sim- em particular, os direitos do conhecimento. Por conseguinte,explicitação
pleslenõmeno. Quando assim começo, faltam-me todas as distinções que fenomenológica não é, efetivamente,o mesmo que construçãomef({/bica,
só a explicitação intencional pode por vez primeira criar e que, contudo, e também não é uma teorizaçãoque se muna, quer de uma forma aberta
como o vejo com evidência, me pertencem por essência.Antes de tudo, quer escondida, de pressupostos ou de pensamentos auxiliares retirados da
falta, portanto, a autocompreensão do meu ser primordial, da minha esfera tradição histórica metafísica. Ela contrapõe-se a tudo isto acerrimamente
de pertença em sentido pleno e daquilo que, sob o título de experiência por via do seu modo de procederno quadro da i?zfuíção
pura, ou antes
a/bela, nela própria se constitui como alheio, como algo apresentado mas da pura explicitação de sentido através da autodoação preenchente.Em
não originalmente dado ou doável, por princípio, na minha própria esfera particular, a respeito do mundo objetivo das realidades" (como também
primordial. Em primeiro lugar,devo explicitar o próprio enquantotal, de a respeito de todos e de cada um dos múltiplos mundos objetivos ideais,
modo a compreender como, no próprio, também o não próprio adquire que são os campos das ciências puras apriorísticas), ela não faz outra coi-
sentido de ser,e certamentecomo algo analogicamenteapresentado.Pois sa senão - e isto nunca é demais inculca-lo - exp/icífar o senfído que este
eu, aquele que medita, ainda não compreendo, no começo, como chego mz4/zdofem para fados nós, antes de todo o./í/os(Zoar,e que, manifestamente,
em geral aos outros e a mim próprio, dado que os outros homens estão, no tem a partir da nossa experiência um senado que pode ser./i/osoÚcamenfe
seuconjunto, postos entreparênteses.No fundo, também não compreen- desvendado, mas que não pode ser.Êloso$camente alterado, e que s6 por via
do - e só o reconheçoa contragosto - que eu próprio, parenfeflzando-me de uma necessidadede essência,e não por via das nossasdebilidades, traz
enquanto homem e pessoa humana, possa, todavia, ainda conservar-me consigo,em cadaexperiência atual, horizontes que carecemde uma clari-
enquanto ego. Pois não posso ainda saber nada de uma intersubjetividade ficação principial.
transcendental; involuntariamente, tomo-me a mim mesmo, o ego, como
um se/us Üse e, mesmo depois de ter obtido uma primeira compreensão
acerca das operações constitutivas, tomo todos os conteúdos constitutivos CONCLUSÃO
ainda e semprecomo simples conteúdos próprios desteego singular. Por
isso tornavam-se necessáriasas extensasexplicitações do presente capítulo. S 63. Tar(;lh de üma crítica da experiência e do conhecimento transcendentais
Por seu intermédio, tornou-se para nós pela primeira vez compreenda'eZ o
sentidopróprio epleno do Idealismotranscendental-fenomenológico. A.apa- Tanto nas investigaçõesdesta meditação como já nas duas prece
rência de um solipsismo vê-se dissolvida, se bem que conserve o sentido dentes,movemo-nosno terreno da experiênciatranscendental,da au
fundamental a proposição segundo a qual tudo o que é para mim só pode
retirar o seu sentido de ser exclusivamente a partir de mim próprio, a partir 10 N.T.:Rea//tãt

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toexperiência própria e da experiência do que é alheio. Confiamos nela creta da ideia cartesianade uma Filosofia enquanto Ciência Universal
graçasà sua evidência originariamente vivida, e confiamos também, de desenvolvida a partir de uma fundamentação absoluta. A demonstração
modo semelhante, na evidência da descrição predicativa de todos os mo- destapossibilidade concreta, a exequibilidade prática se bem que, como
dos de experiência da ciência transcendental em geral. Com isso, per- é óbvio, sob a forma de um programa sem fim -, signiâca a prova de
demos de vista essaexigência - sem de modo algum a abandonarmos um começonecessárioe indubitávele de um método do mesmomodo
- que fora levantada de um modo tão sério no início, a saber,a exigência necessário, que sempre de novo deve ser empregado, com o qual se pré
de um conhecimento apodítico enquanto único auge?zficamente cient@- delineia, ao mesmo tempo, uma sistemática dos problemas que, em geral,
co. SÓque preferimos circunscrever, em traços largos, a colossal <178> têm sentido. Jáchegamos,de fato, tão longe quanto isto. A única coisa
problemática da primeira Fenomenologia, ainda afetada a seu modo de que resta fazer, e que é em si mesma de fácil compreensão, é a ramificação
uma certa ingenuidade (a ingenuidade apodítica), na qual reside a maior da Fenomenologia transcendental tal como desponta, enquanto Filo-
e mais peculiar operatividade da própria Fenomenologia enquanto nova sofia incipiente, nas ciências particulares objetivas - e a sua relação com
e mais elevada configuração da ciência, em vez de irmos logo direto à <179> as ciências da positividade ingênua, pré-dadas como exemplos.
problemática posterior e última da Fenomenologia, a problemática da Para estasúltimas voltamos agora o nosso olhar.
sua.ç!!!!ocrífca com vista à determinação não só da extensãoe dos li- A vida prática quotidiana é ingênua, é um emergir no mundo pré
mites, como também dos modos da apoditicidade. As nossasindicações dado, experienciando, pensando, valorando, agindo. Com isso, todas as
anterioresdão uma representaçãopelo menos provisória acercado tipo operações intencionais do experienciar, pelas quais as coisas estão pura e
de crítica do conhecimento fenomenológico-transcendental que tem de simplesmente aí, realizam-se anonimamente: aquele que experiencia não
ser desenvolvida, a saber, enquanto indicações acerca do modo como, sabe nada delas, e do mesmo modo também nada sabe do pensamento
por exemplo, através da crítica da recordação iterativa transcendental, operante; os números, os estados-de-coisaspredicativos, os valores, os
é extraído um seu teor apodítico. A Teoria do Conhecimento íilosóâco- fins, as obras surgem graçasàs operaçõesocultas, edificando-se membro
transcendental no seu todo, enquanto Críffca do Conheclmenfo,recon- a membro - só os primeiros estão diante dos olhos. Nas ciências positivas
duz, por fim, à crítica do conhecimento fenomenológico-transcendental veriâca-se o mesmo. Elas são ingenuidades de nível superior, configu-
(desde logo, da experiência transcendental) e, por via da retrorreferência raçõesproduzidas por uma técnica teórica engenhosa,sem que as ope-
essencial da Fenomenologia a si mesma, esta crítica exige, por sua vez, raçõesintencionais, a partir das quais tudo isso ultimamente desponta,
também uma crítica. A esterespeito, apesarda própria possibilidade evi- tenham sido explicitadas. Certamente que a ciência reivindica para si o
dente de reflexões e críticas transcendentais iteráveis, não existem quais- poder de justificar cada um dos seus passos teóricos e repousa, em geral,
quer regressõesao infinito afetadas por dificuldades ou mesmo contras- sobre a crítica. A sua crítica não é, porém, a crítica última do conheci-
sensos de qualquer tipo. mento, ou seja, o estudo e a crítica das operações originárias, o desvenda-
mento de todos os seushorizontes intencionais, crítica atravésda qual so-
mente se poderá captar de um modo definitivo o "alcance" das evidências
$ 64.EPÍlogo e, correlativamente, avaliar o sentido de ser dos objetos, das formações
teóricas, dos valores e dos âns. Por aí temos, precisamente no alto nível
Bem podemos dizer que as nossasmeditações alcançaram, no es dasciênciaspositivas modernas, problemas de fundamentos, paradoxos,
sencial, o seu objetivo, a saber, o de consubstanciar a possibilidade con- coisas ininteligíveis. Os conceitos primitivos que, atravessando a ciência

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no seu todo, determinam o sentido da sua esfera de objetos e das suas conseguinte, de um mundo possível em geral e que, por via disso, devem
teorias, despontaram ingenuamente, têm horizontes intencionais inde- ser os autênticos conceitos fundamentais de todas as ciências. Para tais
terminados, são configurações de operaçõesintencionais desconhecidas conceitos,assim tão originariamente formados, não pode haver quais-
e exercidas numa grosseira ingenuidade. Isto não é válido apenas para as quer paradoxos. O mesmo é válido para todos os conceitos fundamen-
ciênciasparticulares, mas também para a Lógica tradicional, com todas tais que dizem respeito à estrutura e à forma estrutural de conjunto das
as suas normas formais. Cada tentativa de chegar, a partir das ciências ciências que se referem ou se hão-de referir às diferentes regiões de ser.
que se desenvolveram historicamente, a uma melhor fundamentação, a Assim, as investigações,que pré-delineamos mais acima de um modo
uma melhor autocompreensãoquanto ao seu sentido e operatividade indicativo, sobre a constituição transcendental de um mundo não são
próprias, será uma parcela de autorreflexão do cientista. SÓhá, porém, outra coisa senão o começode uma cZar{/tençãoradícaZdo senfldo e da
uma autorreflexão radical, e ela é a Fenomenologia. Autorreílexão uni- origem (ou do sentido a partir da origem) dos co?zceífosde Mzzndo,N2zfu-
versal e autorreflexão plenamente radical são, contudo, inseparáveis e, ao reza, Espaço, Tempo, Animalidade, Homem, Alma, Soma, Comunidade so-
mesmo tempo, elassãotambém inseparáveis,uma e outra, do método fe- cial, Cultura etc. É claro que o desenvolvimento efetivo das investigações
nomenológico autêntico da autorreflexão sob a forma da redução trans- indicadas deveria conduzir a todos os conceitos que, não investigados,
cendental, da autoexplicitação intencional do ego transcendental - que é funcionam, porém, como conceitos fundamentais das ciências positivas,
aberto através dela - e da < 180> descrição sistemática na forma lógica de mas que despontam na Fenomenologia com uma claridade e uma distin-
uma eidética intuitiva. A autoexplicitação universal e eidética significa, ção onilaterais, <181> que não deixam mais espaço para uma qualquer
porém, um domínio sobre todas as possibilidades constitutivas concebí- questão concebível.
veis, "inatas" a um ego e a uma intersubjetividade transcendental. Podemostambém agora dizer que, na Fenomenologiaapriorísti-
Uma Fenomenologia consequentemente prosseguida constrói, por ca e transcendental, graças à sua investigação correlativa, surgem, numa
conseguinte, a priori e, portanto, numa necessidade e generalidade de es- fundamentação última, todas as ciências apriorísticas em geral, e que, to-
sência estritamente intuitiva, as formas de mundos concebíveis e estes, de madasnessaorigem, elaspróprias pertencem a uma Fenomenologia uni-
novo, no quadro de todas as formas de ser concebíveis em geral e dos seus versal apriorística enquanto suas ramificações sistemáticas. Este sistema
sistemasde níveis; isto, porém, originariamente, ou seja,em correlação com do a priori é, por conseguinte, algo que deve também ser designado como
o a pz"íori constitutivo, o das operações intencionais que os constituem. um desdobramento sistemático do úzpriori níversaJ í?bafoà essência de
Dado que a Fenomenologia, no seu proceder, não tem nenhuma uma subjetividade e também, por conseguinte, de uma intersubjetivida
realidade efetiva já dada de antemão e nenhum conceito de realidade efe- de transcendental, ou como o logosuniversal de todo ser co?zcebíve/.
Dito
tiva, mas cria desde o início os seus conceitos a partir da originariedade de novo: a Fenomenologia transcendental sistematicamente desenvolvi
da operação (ela própria captada, por sua vez, em conceitos originários), da em pleno seria, eo Oso, a Ontologia universal verdadeira e autêntica;
e dado que ela está dominada pela necessidadede desvendar todos os não apenasuma Ontologia formal e vazia, mas também, ao mesmo tem-
horizontes, também todas as diferenças de alcance,todas as relatividades po, uma Ontologia que incluiria em si todas as possibilidades regionais
abstratas, terá ela, então, de chegar a partir de si mesma aos sistemas de de ser, segundo todas as correlações que Ihe pertencem.
conceitos que determinam o sentido fundamental de todos os domínios Essa antologia concreta universal (ou também essa Doutrina da
científicos. Eles são os conceitos que pré-delineiam todas as demarcações Ciência universal e concreta, essaLógica concreta do Ser) seria, por con-
formais da ideia-forma de um universo possívelde ser em geral e, por seguinte, o universo da Ciência em síprímelra a partir da fundamentação

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Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husser Quinta Meditação

última. Segundo a ordem, a disciplina em si primeira entre as disciplinas Podemos também dizer que se trata dos problemas ético-religiosos,
filosóâcas seria a egologia solipsisticamente limitada, a do ego primor- postos, porém, no terreno em que deve ser posto tudo o que pode ter um
dialmente reduzido, e só depois viria a Fenomenologiaintersubjetiva, sentido possível para nós.
que estaria nela fundada, e certamente com uma generalidade que tra- Assim se realiza a ideia de uma Filosofa Universal - completamente
taria, desde logo, as questões universais, para só depois se ramificar nas diferente do que pensaram Descartes e os seus contemporâneos, guiados
ciências apriorísticas. pela nova Ciência da Natureza - não enquanto sistema universal de teoria
EssaCiência total do a priori seria, então, o/undamenfopara autên- dedutiva, como se todo e qualquer ente estivesseincluído na unidade de
ticas ciênciasdejatos e para uma autêntica Filosofa Universal no sentido um cálculo, mas antes - o sentido fundamental de Ciência em geral are
cartesiano,uma ciência universal do ser fático a partir de uma fundamen- rou-se radicalmente com isto - enquanto sistema de disciplinas renome
tação última. Toda a racionalidade do :fato 1lesideLdecerto,nq.g priçlrÚ nológicas correlativas na temática, desenvolvidas a partir do fundamento
Ciência apriorística é ciência do principial, a que a ciência dos fatos deve último não do axioma egocogifo,mas do de uma autorreflexão universal.
recorrer para que possa,justamente, tornar-se uma ciência principial- Por outras palavras:o caminho necessárioque leva a um conhe-
mente fundamentada; apenas que a ciência apriorística não pode ser uma cimento fundamentado de modo último, no sentido mais elevado,ou, o
ciência ingênua, mas uma ciência que desponte a partir de fontes feno- que é o mesmo, a um conhecimento filosófico, é o de um autoconheci-
menológico-transcendentais últimas e que, assim, deva estar coníigurada mento universal, de início monádico e, de seguida, intermonádico. Po-
num a priori onilateral , num a priori em <182> si mesmo repousando, demostambém dizer: a própria Filosofa é uma continuaçãoradical e
num a priori a si próprio e a partir de si próprio se justiâcando. universal de meditaçõescartesianasou, coisa que é o mesmo, um <183>
Finalmente, para não deixar surgir qualquer mal-entendido, quero autoconhecimento universal, e ela abarca toda e qualquer ciência autên-
indicar que a Fenomenologia, como já o expusemosantes,exclui toda e tica que possa responder por si.
qualquer Metafísica que opere ingenuamente com absurdas coisas-em-si, FvóOt aeautóv - eis que estaspalavras délficas ganharam uma nova
mczspiãofoda e qua/quer À4et(!/bicaem geral, e que ela não faz violência signiâcação. Ciência positiva é ciência perdida no mundo. Deve-se pri-
aosmotivos que impulsionaram internamente a antiga tradição nos seus meiro perder o mundo pela êvoXrl, para ganha-lo de novo numa autor-
métodos e abordagens incorretos, nem diz, de modo algum, que devamos reílexão universal. NbZÍJoras íre, disse Agostinho, ín fe real, ín ínferíore
parar diante das questões "supremas e últimas': O ser em si primeiro, que domine habitat ventas.
precedetoda e qualquer objetividade mundana e que em si a transporta,
é a intersubjetividade transcendental, o todo das manadas, comunalizan-
do-se em diferentes formas. Mas, no interior da esfera monádica fática, e
enquanto possibilidade ideal de essência para toda e qualquer esfera mo-
nádica concebível, surgem todos os problemas da faticidade contingente,
da Morte, do Destino, da possibilidade de uma vida humana "autêntica"
- que, num sentido particular, é exigida como vida "plena de sentido" -
e, dentro disso, também os problemas do "sentido" da História e ainda
outros em progressão ascendente.

194 195
C

SINOPSEDE HUSSERLNO TEXTO PRIMITIVO

<i87>
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''-Y'x--' '

AS MEDITAÇÕES CARTESIANAS E A SUA TRANSFORMAÇÃO CRÍTICA


PARA O DESCOBRIMENTO MEDITATIVO DO EGO TRANSCENDENTAL

1. Paríza ínfrodução.Uma introdução na Fenomenologia transcen-


dental liga-se, naturalmente, às Medífafíolzes de Descartes, cuja transfor-
mação crítica teve impacto na sua formação. - A exigência de Descartes
de uma Ciência Universal absolutamente fundamentada; pela subversão
das ciências transmitidas, a sua reconstrução a partir de fundamentos ab
solutos. Viragem subjetiva desta exigência e seu caráter exemplar. A ideia
do autêntico âlósofo em devir, o seu começo necessáriocom meditações
do tipo das cartesianas:como se poderá encontrar o fundamento em si
primeiro e absolutamente certo? O resultado: aquele que medita deve ex-
cluir, como algo questionável, a existência do mundo e, por aí, ganhar o
seu egopuro como absoluto e único. A partir daí, caminho da edificação
do conhecimento do mundo e de todas as ciências objetivas puramente
sob a atuação de princípios inatos ao ego.
Valor eterno e eficácia histórica desta consideração meditativa
fundamental. As ciências positivas puseram-na de lado, mas, filoso-
âcamente,despontou a partir dela o sentido completamente novo do
desenvolvimentoda Filosofa Moderna, na direção de uma Filosofia
transcendental cuja forma última e mais radical é apresentada pela Fe-
nomenologia. A decadência e a desconcertante fragmentação da Falo
soba, desde o meado do século XIX, exigem um novo começo e novas
meditações cartesianas. A Fenomenologia como seu consciente acolhi-
mento e sua mais pura consequência.
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris e Edmund Husserl Sinopse de Husserl no Texto Primitivo

2. As meditações carfesíanas em fransáormação crítica. Eu, como trário, por trás do ser do mundo, como pressuposto último de ser tanto
âlósofo que começa radicalmente, tenho de põr fora de validade toda para a validade como para a não validade da experiência do mundo e
e qualquer ciência já dada de antemão. <188> Também não se decidiu do ato de pâ-la em questão,desvenda-seo ser da própria experiência, o
ainda a respeito da possibilidade e da exequibilidade da ideia de Ciência ser daquele que experiencia, do seu inteiro meditar e da sua demais vida
Universal a partir de uma fundamentação absoluta, se bem que ela guie a absoluta. <189> Com a Croché universal, enquanto abstenção universal
meditação. Explicitação do seu sentido por meio da entrada compreensi- do exercício natural da crença de experiência, e com a consequentemu-
va na intenção do trabalho cientíÊco; os juízos científicos aceitáveisape- dançado olhar para a vida experienciante, como aquela em que o mundo
nasenquanto perfeitamente fundamentados, imediata ou mediatamente, tem para mim sentido e ser (realidade efetiva pura e simples), entra em
atravésda evidência - apelo às próprias coisas e estados-de-coisas.Não cena a subjetividade frarzscendenfaZ,
enquanto ela é o ego meditante que
evidências ocasionais e juízos verdadeiros da vida quotidiana, mas antes se encontra a si próprio como pressuposto absoluto e último para tudo
verdades científicas, que valham de uma vez por todas e para qualquer o que, em geral, é, e que já não se encontra como homem no mundo,
um. O filósofo que começacom as ciênciasem "desmoronamento"não mas antes como aquele ego em que tanto o mundo em geral como este
tem tais evidências,mas tem, contudo, evidênciase verdadesda vida. homem obtêm o seusentido de ser.Enquanto e apenasenquanto sou este
Ele começa com o princípio do julgar a partir da pura evidência e com a ego,estou eu para mim próprio apoditicamente certo e sou o pressupor'
análise crítica da própria evidência a respeito da sua perfeição e do seu to último de ser, ao qual é relativo todo e qualquer ente que para mim
alcance, uma análise que é, por sua vez, desenvolvida em evidências de tenha sentido. Permanece inteiramente fora de questão, e deve-o perma
nível superior. A partir daí, ele levanta a questão de saber se podem ser necer, qualquer mal-entendido, como se este egofosse uma última réstia
comprovadas evidências em si primeiras, precedendo todas as outras, e de mundo, que, de um modo singular, fosse dada apoditicamente, e a in-
que, ao mesmo tempo, possam ser ditas "apodíticas': enquanto válidas de tenção de introduzir aí de novo uma prova do restante mundo, para, en-
uma vez por todas. tão, construir sobre o antigo terreno das ciências mundanas. A meditação
Vida e ciência referem-se ao mundo que obviamente é. - Será,per- deveprosseguir até a autorreflexão consequentedo egopuro, para tornar
gunta aquele que medita, a existência do mundo a certeza em si primeira claros os problemas com sentido que nele residem enquanto fundamento
e apodítica? A primeira, mas superficial, crítica da experiência sensível, universal do ser e do conhecer em geral. Assim se volveu o método carte-
provinda de Descartes: que ela carecede apoditicidade; e, por essavia, siano no método da Crochéfenomenológico-transcendental e da redução
por meio do seu grande passo de incorporar também universalmente fenomenológico-transcendental, a redução ao ego transcendental.
esta experiência na subversão, para agora provar que o ego cogífo perma'
neceintocado pelo possível não ser do mundo.
3. 1)e/imitação críffca do procedimento cartesiano. Todas as ciências X'X\,JXV XA

positivas pressupõem a validade da crença no mundo que reside em toda


experiência do mundo. - Esta evidência universal necessitade crítica e Introdução: Que posso eu, aquele que medita, iniciar filosofica-
deve, portanto, ser também posta fora de validade. Mas esta abstenção da mente com o ego cogífo?Compreensão prévia da sua aplicação não como
crença no mundo subtrai o mundo àqueleque medita, enquanto terreno axioma fundante, mas antescomo esferafundante universal de experiên-
de ser para todas as ciências que se Ihe refiram, mas não Ihe subtrai todo cia e de ser. Ideia de um novo tipo de fundamentação - a transcendental,
e qualquer terreno de ser e toda e qualquer evidência em geral. Pelo con- em contraposição à objetiva - de um conhecimento de experiência e de

198 199
Sinopsede Husserlno Texto Primitivo
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl

uma ciência transcendentaisde novo tipo, a partir da autoexplicitação consciência, como ligação de consciência e consciência para uma nova
consciência de intencionalidade fundada. A unidade universal da vida de
puramente egológica: a primeira Fenomenologia, a egológica.
Rea/ízação:liberação progressiva do campo da autoexperiência consciência no ego como unidade da síntese em que o ego para si próprio
se torna consciente como unidade.
transcendental através da reflexão fenomenológica. Autoexperiência
psicológica e autoexperiência transcendental enquanto experiências pa- O egona potencialidade da consciência possível. Os horizontes in-
ralelas. A psicológica, a partir do terreno do mundo que é, reivindica tencionais em cada cogífo e o seu desvendamento. Explicitação das impli-

validade objetiva, a transcendental, apenasvalidade egológica. <190> - caçõesintencionais como tarefa capital da análise intencional. Distinção
Primeira verificação fundamental: o cogííocomo consciência de qualquer fundamental da análise fenomenológica e da análise no sentido comum.
coisa (vivência intencional), o cogífafzzmq a cogífafzzm,um inseparável Na <191> Fenomenologia, há sempre uma interpenetração de análises
reais: e intencionais. - A vida de consciência como fluxo heracliteano e
momento descritivo no cogífo.Autorreflexão que se prossegueenquanto
autoexperiência conexa, desvendamento consequente e descrição pura a possibilidade de descrição fenomenológica como descrição de tipos de
dos modos típicos das vivências intencionais e das suas objectualidades consciência. Passagem para a Fenomenologia da Razão, suas atualidades
visadas (aparecentes, pensadas, valoradas etc.), precisamente tal como e potencialidades.
estão conscientes. A esta dupla direção da descrição junta-se ainda, como
terceira, a do próprio eu das cogifafíones.O mundo, apesar da epoc/zéa
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respeito de toda e qualquer tomada de posição a ele relativa, como tema
capital das descrições fenomenológicas: o mundo comolenõmeFzo. Con-
traste da consideração natural e fenomenológica do mundo. O ego me- Razão e irracionalidade, preenchimento e decepção de intenções
ditando fenomenologicamente como espectador transcendental do seu como formas estruturais da subjetividade transcendental. Sere experiên-
próprio ser e da sua própria vida em posição de entrega ao mundo. Eu, cia possível - evidência possível, possibilidade como acessibilidadesub-
enquanto eu em atiz?zzdenatura/, sou também e sempre eu transcendental, jetiva referida a horizontes presuntivos. As questões constitutivas como
mas só o sei por meio da efetuação da redução fenomenológica. Por meio questões acerca do sistema de experiência perfeitamente comprovável
desta atitude transcendental, vejo por vez primeira que tudo o que natu- que, na sua típica particular, está pré-delineado para cada tipo de objeto,
ralmente é só o é para mim enquanto cogífafz4m de cogífafíones cambian- enquanto possibilidade, na subjetividade transcendental. Cada objeto vi-
tes, e apenasa isto conservo judicativamente validade. Assim, em geral, sado indicia presuntivamente o seu sistema. A referencialidade que, por
só tenho objetos (tanto reais como ideaisy para descrever em correlação essência, o ego tem relativamente a uma multiplicidade de objetos visa-
com os seus modos de consciência. dos designa, assim, uma estrutura de essência da sua inteira intencionali-
Um fragmentode fenomenologiada percepçãode coisacomo dade, efetiva e possível. Os problemas constitutivos abarcam a subjetivi-

exemplo de descrição fenomenológica, com exibição da compertença dade transcendental no seu todo, porque também o ser-para-si-próprio
correlativa do aparecente e dos modos de aparecer. Unidade e multiplici- do egoé um problema constitutivo. A autoconstituição do eu em sentido
dade a unidade objetiva enquanto síntesedo recobrimento identifican- específico enquanto eu pessoal.Eu como polo dos atou em sentido espe-
te das apariçõesdo mesmo. Síntesecomo fato fundamental da esfera da cífico, dos atos que tomam posição, e como polo das afecções.Contraste

1 N.T.:Rea/,/dea/. 2 N.T.: Ree//

200 201
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl Sinopsede Husserl no Texto Primitivo

da polarização objectual e da polarização do eu. O eu não é, porém, um intropatia analogizante. Tudo o que é originalmente percepcionável e ex-
simples polo de atos fugidios, pois cada tomada de posição fundamenta perienciável será uma determinação do eu próprio. O eu alheio na expe-
no eu uma convicção persistente. riência secundária da intropatia não é diretamente percepcionável, mas
Progressão para o método eidético: todos os problemas fenome- indiretamente experienciado através de indicação, que tem o seu modo
nológico-transcendentais são problemas de essência,a Fenomenologia de confirmação concordante. Na minha manada originalmente expe
transcendental é uma ciência do a priori ínízfo da subjetividade trans- rienciante esse/ham-seas outras manadas (Leibniz). O desvendamento
cendental.
da constituiçãodo aZfer-ego
faz surgir estecomo transcendental,e as-
Passagem para a Fenomenologia da gênese. Fenomenologia da sim se alarga a redução fenomenológica à subjetividade transcendental
associaçãoenquanto legalidade de essênciada gênesepassiva.A gênese enquanto comunidade monádica transcendental. Esta última é, agora, o
ativa. Graças à gênese,despontam as operatividades intencionais persis- terreno transcendental tanto para a constituição do mundo objetivo, en-
tentes e, dentro disso, a constituição de mundos persistentespara o ego, quanto ente idêntico para todas as manadas da comunidade, como para
reais e ideais: (mundo dos números, das formações teóricas). a validade intersubjetiva das objectualidades ideais.
<192> A teoria da constituição transcendental do ser e a Teoria do O problema cartesiano de uma ciência universal numa fundamen-
Conhecimento tradicional. Explicação do problema comum da transcen- tação absoluta e a sua resolução na Fenomenologia. Ingenuidade da vida
dência enquanto problema do conhecimento natural humano, referido à pré-científica, ingenuidade das ciênciaspositivas. Estaingenuidade como
intencionalidade enquanto fato psicológico. Como pode um jogo na inte- falta de uma mais profunda <193> fundamentação a partir do desvenda
rioridade anímica imanente, com as vivências da evidência que nela des- mento das operatividades transcendentais. A ciência radicalmente fun-
pontam, adquirir significação objetiva? Exibição crítica do contrassenso damentadadeve criar originariamente todos os seusprincípios a partir
desta maneira de pâr o problema. Todo e qualquer autêntico problema da inquirição transcendental.Então não mais poderá haver quaisquer
transcendental é um problema fenomenológico. Na sua universalidade, paradoxos.A formação sistemáticada Fenomenologia apriorística encer-
a subjetividade transcendentalnão tem nenhum lado de fora que faça ra em si, enquanto seus ramos, todas as ciências apriorísticas numa fun-
sentido. A tarefa não é abrir o domínio do ser transcendente, mas antes, damentação absoluta. Ela preenche a ideia de uma Ontologia Universal,
atravésdo desvendamentoda constituição, compreendê-lo como aconte- ao mesmo tempo formal e material (uma Filosofia Primeira) ou, coisa
cimento na subjetividade transcendental. O Idealismo fenomenológico, que vem a dar no mesmo, de uma Doutrina da Ciência completa, radi-
como um Idealismo de tipo radicalmente novo, contrastado com o de calmente fundamentada.
Berkeley-Hume e com o de Kant. Os seus níveis: a egologia solipsisticamente limitada; esta Ontolo
A objeção do Solipsismo transcendental. O problema constitutivo gia como fundamento apriorístico para a fundamentação radical de uma
do aZfer-ego(intropatia), da intersubjetividade, da natureza e do mundo ciência universal dos fatos, de uma Filosofia do ser íático. Os problemas
enquanto mundo idêntico para qualquer um. O método de resolução:a metafísicos autênticos como sendo os problemas de mais alto nível no
estratiâcação metódica da esfera de consciência, dada ao ego, através da interior de uma Fenomenologia. Contraste da realização cartesiana e
abstração de todo o seu acervo que pressuponha já o aZfer-ego.Exposi- fenomenológica da ideia de uma Filosofa. A Filosofia fenomenológica
ção do ego próprio, do eu-mesmo concreto, como fundamento para a como universalíssima e consequentíssima prossecuçãoda ideia de auto-
conhecimento, que não é apenas a fonte primitiva de todo conhecimento
3 N.T.:Rea/,/dea/.
genuíno, mas também se entremete em todo autêntico conhecimento.

202 203
APÊNDICE

OBSERVAÇÕES DO PROFESSOR DR. ROMAN


INGARDEN-CRACOVIA

Observaçíão àp(ígí?za <49>

O mais importante do parágrafo 3 e, ao mesmo tempo, a resolução


da inteira di6culdade que foi desenvolvida neste parágrafo reside, como me
parece, nas palavras: "Tomamos essa ideia como uma presunção provisó-
ria" (p. <49>, grifo meu ). Consequentemente, parece-me que a provisorie-
liade, o caráter provisório da assunção desta hipótese deve ser sublinhado
de um modo algo mais forte, porquanto também os fundamentos para esta
provisoriedade sejam alegados.Além disso, seria necessário,na conclusão
de toda esta consideração,retornar a esteponto e discutir ainda uma vez
mais a questão da decisão provisória. De outro modo, não me parece que
seja possível superar o difícil ponto das assunções pré-co?zcebídas.Estas as-
sunções pré-concebidas estão, porém, implicitamente contidas nos pontos
seguintes:"(-.) a meta geral de fundamentação absoluta da Ciência" (.-),
"(...) nesta forma do ser presumido e numa generalidade (...), temo-la ainda
(-.)" (p. <49>). No que diz respeito a este último, existem nesta proposição
duas assunçõespré-concebidas,isto é, não controladas pelo âlósofo que
medita: I', a assunção da posse desta ideia, em que é ainda obscuro se de-
vemos possuir esta ideia de um modo esclarecido ou não esclarecido; 2', a
assunçãoda índz4bífabfZídade
do conhecimento que possuímos dessaideia.
Em jeito de complemento, seria ainda de observar ao parágrafo 3:
se nos decidimos a executar a primeira "redução': <206> que diz respeito
aos resultados das ciências, então esta decisão deve ser de algum modo
motivada ou fundamentada. E estamotivação ou fundamentação reside
em muitas assunções,cuja legitimidade não é aqui, de fato, investigada.
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husser Observações do Professor Dr. Roman Ingarden -- Cracóvia

Pressupõe-seaí: I', a ideia e o valor da/u?zdamenfaçãoabsoZz4fa,


2', o fato tento das meditações será ou não ele próprio justiâcável etc. São,pois, aqui
de a acessibilidade de uma fundamentação absoluta não ter sido, pelo necessários os correspondentes complementos. Deve incluir-se aqui, sem
menos, ainda firmemente estabelecida ou de não existir mesmo de todo dúvida, a proposição da p. <53> ("Deveremos adquirir por nós próprios
no conhecimento ingênuo ou no científico. A primeira assunção,que é tudo aquilo que nos possaservir de ponto de partida 61osófico").Seria,po-
aqui a mais importante, ou é totalmente ingênua,prosseguidaacritica- rém, recomendável discutir tudo isto de um modo algo mais desenvolvido.
mente e, neste sentido, um dogma (que talvez não cumpra as condições
posteriormente desenvolvidas da evidência apodítica), ou, se não é in-
genuamente prosseguida, deve ser ela própria obtida fenomenológico- Observação à página <58>
transcendentalmente. Por outras palavras, terá de se ter já exercitado
praticamente a redução fenomenológico-transcendental para poder ver a .4d "Os outros homens e os animais só são para mim dados da expe-
possibilidade e a necessidade desta mesma redução. Em ambos os casos, riência em virtude da experiência sensível dos seussomas corporais (...)
verificamos a impotência do método consciente, crítico-cientificamente Isto pode ser compreendido quer no sentido da verificação de um
conduzido, perante as "ideias" totalmente acidentais das visões geniais. "simplesfato': quer no sentido de uma verificaçãode essência,de tal
Haverá uma saída?(Esteé o problema do começo.) modo que não seria possível conhecer a vida psíquica de outros homens
ou animais sem a participação da "experiência sensível'l Para a marcha
das meditações, é o segundo que interessa. Seria recomendável, portanto,
Observação à página <52> uma formulação mais forte.
Além disso: que signiÊca precisamente aqui este "em virtude de"?
De que muitas ideias elementares da ideia de ciência sejam por nós vi- Porque dependedisso se, através desta redução da experiência sensível,
vidas no trabalho cientíâco concreto ou numa reflexão crítica, não se segue é ou não eo ipso executadaa redução do modo de captaçãodos sujeitos
ainda nada de decisivo para a marcha das meditações. Porque não se trata alheios. SÓ seria este o caso se a validade da experiência de sujeitos alheios
apenas de que não tenhamos "apanhado completamente do ar" a ideia de ou da vida psíquica alheia estivessedependenteda validade da experiência
ciência autêntica, mas também de saber se - no caso de que haja vivências sensível, e certamente dependente de uma maneira tal que a primeira só
inteiramente concretas,experiências desta ideia - o que é experienciado possuíssevalidade quando a segunda a tivesse também. Isto pode bem ser
nessasvivências, ou seja, a ideia de ciência autêntica (ou as corresponden- efetivamente assim, mas seria, contudo, necessário indicar algumas coisas
tes ideias elementares), é algo justificado. Mais ainda: precisamente o fato sobreisto. De outro modo, podem surgir no leitor dúvidas fundadas.
que é verificado na p. <52> ("(...) a ideia que constantemente guia todas as
ciências (-.)") aponta para que o intento das meditações no seu todo está,
de fato, ele próprio guiado por vivências de ideias, por ideias que, portanto, Observaçãoàpágína <59>
são: I', vivências de ideias insuficientemente esclarecidas (pelo menos para
o leitorl); <207> 2', por ideias (por exemplo, pela ideia da fundamentação .Ad "Este abster-me é ainda, todavia, aquilo que é, e ele é juntamente
absoluta) cuja legitimidade não foi aclarada até a fase presente das medita- com a corrente inteira da minha vida de experiência': Não é completamente
ções e que é questionável(dubitável). Assim surge a dúvida, que deverá ela claro em <208> que sentido se fda aqui de um abster-se,da "abstinência"
própria ser ulteriormente fundamentada ou posta de lado, sobre se o in- (epoc;zé,redução) na "inteira corrente da vida perceptiva': Dever-se-á en-

206 207
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husser
Observações do Professor Dr. Roman Ingarden -- Cracóvia

tender que, na fofa/idade desta corrente, por assim dizer de a/gum modo se prio e a partir de mim próprio o seu sentido e validade': proporia: "Eu
encontra também a abstenção,completamentepeculiar, do juízo, da posi- não posso <209> agir e fazer juízos de valor em nenhum outro mundo
ção,ou dever-se-á,no sentido totalmente oposto, entender que, em todos os que num mundo cujo sentido e validade (ser?) eu capte na consumação
lugares onde, em geral, se consuma, na corrente, uma posição de realidade das minhas cogífafíones
ou, de um modo mais geral, uma posição de ser, estaúltima é "impedida"
ou neutralizada (para lá, naturalmente, da posição da própria consciência
pura)? No segundo caso, ter-se-ia de duvidar do fato e também mesmo da Observação
à píígína<6] >
possibilidade de uma tal modificação, com tão grande latitude, de todas
estasposições. Provavelmente, trata-se aqui da "exclusão" daquilo que, nas ,4d 'h.ssim, o ser do ego puro e das suas cogífafiones precede, de fato,
Ideias, é denominado como "tese geral'l(A rigorosa captação da "tese geral" o ser natural do mundo (-.) O método fenomenológico fundamental (...)
- cf. Ideia levanta, de resto, grandes dificuldades, do mesmo modo que a chama-se, por isso, redução transcendental-fenomenológica': Tomado ri-
tentativa de tornar preciso o seu conceito.) Pode ser que não tenha grande gorosamente,com baseno que foi dito até aqui, só pode ser afirmado o
signiâcado para o que se segue, mas o presente texto oferece o flanco a um seguinte: "Em consequência disso, a existência natural do mundo por mlm
ataque ou é um ponto que pode dar azo a possíveis mal-entendidos. captada - o mundo de que eu somente posso falar - pressupõe, de fato, a
existênciado egopuro e das suascogífafíones,como uma existênciaem si
anferfor': Reformulando um pouco, também se poderia dizer: '%.captação
Observação à p(ágfna <60> da existêncianatural do mundo pressupõe...etc;: Se,porém, se afirma o
que está no texto, então ter-se-á primeiro de mostrar expressamenteque
Não seria melhor, em vez de "(...) todo o seu sentido, universal (...y: os conceitos de "existência natural do mundo" e de "existência natural do
dizer ".Eucrio somentea partir de tais cogffafíones
todo o seu sentido, mundo por mim captada" são estritamente equíl'clientes, coisa que não é de
universal e particular, bem como toda a validade de ser" (o mesmo para todo óbvia. (Que sejam diferentes quanto à significação, é coisa que não
p. <22> e p. <65>)? No quadro da epoc/zé,posso fazer juízos apenasso- oferecenenhuma dúvida.) Seria também muito difícil mostrar essaequi-
bre mim mesmo e não sobre o mundo. - A proposição que aqui contesto valência neste passo das Medífações. A observação intercalada no texto,
pode, naturalmente (num sentido algo modificado), ser tida como o pos- "daque]e [mundo] de que somente fdo e posso falar': não é, em primeiro
sível resultado da consideração constitutivo-transcendental. Mas, neste lugar, totalmente clara; em segundo lugar, não está ainda decidido de que
sentido, não pode ser ela compreendida aqui, porque aqui seprocura ain- mundo posso fazer aârmaçõeslegítimas; terceiro, estaobservaçãonão é,
da o caminho para desenvolver o problema transcendental; os resultados por último, suficiente. Porque também no mundo de que eu posso falar a
da consideração transcendental não podem ser pressupostosl "existência" e a "existência por mim captada" não são ainda idênticas, e que
se queira passar da "existência por mim captada" para a "existência" pura e
simples é uma generalização que deve ser primeiro comprovada.
Observação àpíígi?za <60> E para o sublinhar ainda uma vez mais: mesmo que a legitimida-
de das afirmações que constam do texto pudesse ser mostrada, isso não
Analogamente, em vez de "Eu não posso imergir vivencialmente poderia (nem deveria) acontecer neste passo das À4edítações,onde, pela
.) em nenhum outro mundo (...) senãonaqueleque tem em mim pró-
(

primeira vez, são procurados e abertos os camín/zospara uma considera-

208 209
Meditações Cartesianas e Conferências de Paras' Edmund Husser Observações do Professor Dr. Roman Ingarden -- Cracóvia

ção transcendental, mas onde não se devem antecipar os resz4/fados.#naís metafísicaque coincide com o estabelecimentode uma distinção existen-
possíveisda consideração transcendental. Isto seria, em todo caso, um cial entre o constituinte e o mundo. Isto pode ser verdade, mas o leitor
passo "não cartesiano'l um passo que <210> certamente o próprio Des- mesmo também o que não é um perfeito principiante em Fenomenologia
cartes deu, mas que E. Husserl quer precisamente evitar, porque está aí - <211> ficaria contente se Ihe tivessem dado razões convincentes para
contida uma decisão metafísica, uma decisão que equivalea uma tese uma tal decisão. Estassó podem, contudo, ser fornecidas como um resul-
categóricasobre qualquer coisa que não é, ela própria, um elemento da tado bastantetardio da consideraçãotranscendental e não na introdução
subjetividade transcendental. de uma tal consideração. Além disso, a possibilidade de uma consideração
Se posso fazer uma sugestão,pretenderia que o último parágrafo transcendental não deve apoiar-se num resultado que pressupõeessames-
[do $ 8] fosse pura e simp]esmente riscado. ma possibilidade. A afirmação que consta do texto não pode ser intelecti
vamente vista simplesmente a partir de um aprofundamento ingênuo, por
assim dizer, do sentido do "mundano" enquanto tal. Para isso, devem ser
Observação à p(ígína <65> primeiro criados fundamentos a partir da consideração consfifutiva.
Ao contrário, o resto da proposição em apreço (a partir daspalavras
"Esta transcendência pertence ao sentido próprio de tudo o que é "(...) se bem que este sentido (...)" até o flm da proposição) é, sem dúvida,
mundano'l Esta proposição parecerá, desdelogo, inteiramente plausível rcompletamente inatacável. Parece-me também que, para os objetivos da
a todo aquele que se tenha ocupado do modo de doação dos objetos do primeira meditação, seria perfeitamente suficiente deixar simplesmente
mundo "exterior': e não parecerá trazer consigo quaisquer outras deci- esteresto tal como está.Eu formula-lo-ia, contudo, mais fortemente e
sões. (Para o fenomenólogo principiante, ela será bem difícil de ver na sua com maior ênfase.Deveriafazer-sedele o princípio do método no seu
correção.) Na realidade, ela alberga em si, porém, difíceis decisões,na me- todo a partir do teor das vivências de experiência (de um modo mais
dida em que se conclui a partir dela que "tudo o que não estáassinalado geral: das vivências tanto quanto sejam "racionais") e apenas a partir des-
por estatranscendência é não mundano': com o que se decidiu, portanto, te teor se pode e se deve extrair todo o saber e todas as afirmações, tan-
sobre a não mundaneidade da subjetividade pura (da consciência consti- to acerca das vivências como também acerca de todo o resto que tem a
tutiva não transcendente). Esta aârmação está certamente no sentido em pretensão de ser, mas que não é, ele próprio, vivência, no caso em que,
que Husserl a toma. Mas será ela efetivamente visível na evidência apodí- em geral, exista. Seria então fácil introduzir sob a simultânea distinção
tica?De início, temos a distinção, que deveremossubscreverinteiramente, entre o eu-homem e o "eu, sujeito puro" o eu transcendental enquanto
entre tudo aquilo que se constitui em multiplicidades de vivências, de um transcendental, sem fazer uso de asseveraçõesque, nesta passagem,de-
lado, e a subjetividade pura (certamente que apenasna forma da consci- vem atuar como asseveraçõesmetafísicas.
ência consfifuínfe pura), do outro. Logo então vale que muito daquilo que
é constituído pertence ao mu/zdo.Será,porém, permitido dizer que "per-
tencente ao mundo" não é senão aquilo que é constituído? A partir de uma Observação à página <67> e à página <68>
distinção que, de início, é realizada a partir de fundamentos puramente
metodológicos - precisamente os autenticamente cartesianos -, porque Protrair para um momento temporal posterior da "segundafase'
o constituinte é dado como existente na evidência apodítica, enquanto o da investigação, que deve realizar a crítica da experiência transcendental,
mesmo não se pode dizer do constituído, obtemosaqui uma aârmação terá certamente a sua justificação metodológica: desde/ogo, a exposição

210 211
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris e Edmund Husserl Observações do Professor Dr. Roman Ingarden -- Cracóvia

do sentido das doações de uma região de experiência e, de seguida, a leitor também não sabese o terreno da experiência transcendental - ou
investigação, pela primeira vez, das próprias operações de experiência o terreno dasvivências de consciência transcendentalmente puriâcadas,
correspondentese, com isso, também a crítica da legitimidade do sentido mas constituídas - preenche já as condições que a primeira meditação
das doações que, de início, foram expostas ingenuamente. Mas - e aí vem estabelececomo indispensáveis para um intento autenticamente cartesia-
o que, em minha opinião, é a necessáriacorreção do <212> caminho de no, ou melhor: para um intento autenticamente filosófico.
pensamento do $ 13 - se esta marcha da investigação fosse necessária,
então seria também necessário que se sublinhasse o "caráter provisório"
dos resultados obtidos pela efetuação da experiência transcendental, isto Observação à página <75>
é,que se sublinhasse que, provísoriamenfe, não se decidiria acerca de uma
avaliação deânitiva da legitimidade dos sentidos de doação aí expostos. .Ad proposição "(...) eu, enquanto eu naturalmente disposto, sou,
Isto deve ser de algum modo indicado no texto do $ 13. Em segundo lugar, também e sempre,eu transcendental" etc. Na presenteformulação, <2 13>
será, porém, necessário que esta avaliação definitiva suceda, de fato, na estaproposição parece-me, se bem a entendo, incorreta. Pois se eu com
crítica da experiência transcendental, coisa que não é efetivamente o caso preendo o membro de frase "eu, que permaneço na atitude natural':; no
no quadro das À4édífafíonscarfésíen/zes.'AÍ reside, segundo me parece, a sentido de que se trata do eu puro, que estána atitude natural, então a
razão para o necessário completamento das meditações. Em terceiro lu- frase só será correta se for riscado o "também" ("sou também"). Pois este
gar, seria, porém, necessário refletir sobre o caráter terminável de uma tal "também" refere-se a quê? O eu que é o oyeto da consideração transcen-
crítica, a saber,sobre se ela não envolve um regressasín inÚ?zifum(como dental e que, no casodado, se encontra na atitude natural, foi de imediato
eu tentei mostrar, por exemplo, no meu livro Über díe G(;Áahreíner Pefífio introduzido como o eu transcendental; ao contrário, o eu que é o sugeí-
Prí?zc@ii).: Por fim, para o leitor não fenomenológico das "Meditações': o fo da consideração transcendental não foi ainda, em geral, introduzido
protraimento da crítica significa uma incómoda surpresa- pois que es- como transcendental - aí reside o grande problema da identidade ou da
perou o leitor? Esperou que o terreno que as meditações obtiveram atra- identificação dos dois "eu't Deverá este "também" referir-se a este "eu -
vés da primeira redução estivesseassinalado por uma evidência apodífícíz sujeito da consideração transcendental"? Parece-meque não será esta a
e que só nos pudéssemosmanter nesseterreno se esta condição fosse intenção desta proposição. Então só se poderia tomar em consideração
preenchida. Porque nisso reside uma das tendências capitais do intento o eu real,' que se constitui em multiplicidades de vivências, para que pu-
cartesiano, quando corretamente compreendido e radicalmente realiza- déssemoster o segundo termo de relação deste "também': Mas então a
do até o fim. No entanto, agora, depois da realização da primeira redução frase seria falsa, pois o eu reais constituído não é o eu transcendental. Se,
e da obtenção do campo da consciência pura, fica o leitor sabendo que pelo contrário, riscarmos a palavra "também': então a frase será verda-
1) também existem possibilidades de dúvida neste terreno; 2) que estas deira, mas o seu valor reside apenas na verificação de que o eu puro, sem
possibilidades não serão agora, porém - como se mostra mais à frente - a redução, não se dá conta da sua pureza, ou seja, de si mesmo. - Se, ao
investigadas, em geral, no quadro do presente livro. Por conseguinte, o
3 N.T.: Ingarden cita a partir da tradução francesa "mo/ qu/ demeure dons /'atitude
r7ature//e",ao passo que o original alemão tem uma lição diferente: "/ch a/s nafÍir-
l N.T.:Emfrancês no original. lich eingestesllteslch".
2 4 N.T.:/?ea/.
N.T.: tJber die Gefahr einer Petftio Principii in der Erkenntnístheorie. ./ahrbuch.feia
Phànomenologíe und Phãnomenologische Forschung 4: S45-568. 1921. 5 N.T.:/?ea/.

212 213
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husserl Observações do Professor Dr. Roman Ingarden -- Cracóvia

contrário, se compreende o membro de frase acima citado no sentido de Mas também então permaneceria o problema: como deveser entendida a
que se trata do eu real' constituído, então a frase será igualmente falsa, unidade de uma objectualidade cujos elementos (consciência constituin-
porque o eu constituído não é, uma vez mais, o eu puro, transcendental. te objetualidade constituída) sãolevados à unidade de um só e mesmo
E, no entanto, âcamos inclinados a manter esta proposição porque se está objeto através da intencionalidade de um deles?
inclinado a estatuir uma idenfídade entre m/m, enquanto eu puro, e mím,
enquanto eu real' do indivíduo psicológico, que é uma parte do mundo.
Mas resta, então, a grande dificuldade que ninguém, a meu conhecimen- Observação à página <87> e à p(ígina <88>
to, apontou ainda: como pode um e o mesmo eu se6 em situ/fáneo, ezz
puro consfífzíí?zfee eu reaZ*consfífuído, dado que as propriedades que lhes Concordo plenamente com a distinção entre as "operações"que
são atribuídas se excluem mutuamente e, com isso, não poderão subsis- conduzem às objectualidades reais'' e aquelas que conduzem a objetos
tir em conjunto na unidade de zlm objeto? Somente se o eu constituído "categoriais': Poder-se-á, no entanto, afirmar efetivamente que as opera-
fosse,desde o início, tomado por uma <214> i/zzsão- tal como o inteiro ções sintéticas que conduzem aos objetos reais': sejam de natureza pura
mundo constituído poderia esta di6culdade ser resolvida, no sentido mente passiva, ou que as sínteses correspondentes sejam de tal natureza?
de que única e somenteexistiria o eu puro e que o eu real seria uma Isto me parece não estar de acordo já com as operaçõesque conduzem
./acçãotranscendente ao eu puro, se bem que prescrita pelo decurso das f às coisas intuitivamente dadas de modo perceptivo; e não estará de acor-
suas vivências. Husserl protestaria firmemente, porém, contra uma tal do, em grau muito maior, com as inumeráveis operações cognitivas que
interpretação do Idealismo, à luz da qual o constituído equivaleria a uma conduzem, no trabalho científico, à construção, <215> por exemplo, das
acção. A escapatória que consistiria em apreender o ser do eu puro como objectualidadesda Física, as quais devem, no entanto, ser ainda "reais':::
ser absoluto e o ser do eu real,Pao contrário, como ser plenamente justi- Terá aqui, em geral, grande signiâcado a atividade e a passividade das sín-
ficado, mas não como ser autónomo, não conduz, neste caso, a uma so- teses?Em vez disso, quereria destacar aqui um outro momento que talvez
lução, dado que ambos os eu têm de coexistir, por assim dizer, no quadro possaproduzir a nota distintiva dos dois tipos de síntesesou operações:a
de uma e mesma objectualidade, caso se insista em interpretar a relação saber, que as síntesesque conduzem aos objetos reais'; são caracterizadas
entre ambos os eu no sentido de uma identidade e em que, também neste pelo caráter da vinculatividade, da não liberdade, assim como por uma
caso,as determinações que se excluem mutuamente devam coexistir no fendêncía í?zsflnfíl,ade adaptação, de uma tendência de abandono ao real
quadro desta objectualidade zí?liga.Ou dever-se-á dizer que o princípio e, com isso, também por uma certa passividade,enquanto,pelo menos
ontológico da não contradição não possui qualquer validade geral, mas em muitas das síntesesque conduzem a objetos "irreais': categoriais, não
que só vale para a esfera das objectualidades constituídas, ou que ele deve é esteo caso.- Todavia, é sem dúvida totalmente correto que estasúltimas
ser reinterpretado numa série de princípios, em que cadaum valeria ape- estãocaracterizadaspor uma atividade quaseque movida por um propó-
nas para zzmadeterminada esfera de ser de um determinado tipo de ser? sito, atividade que, passoa passo,prosseguena construção do objeto.

6 N.T.:Rea/ 10 N.T.:Rea/.
7 N.T.:Rea/ 11 N.T.:/?ea/
8 N.T.:Rea/ 12 N.T.:Rea/
9 N.T.:Rea/ 13 N.T.:Rea/

214 215
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris ' Edmund Husser
] Observações do Professor Dr. Roman Ingarden -- Cracóvia

Observação às páginas < 100>-<101 > tura essencialnecessáriade cadavivência de consciênciacomo tal traz
consigo que haja um componente de matéria particular em cada vivên-
As afirmações sobre a existência e sobre o modo de aparecimento cia que se refira à própria vivência e que conduza, assim, à constituição
das propriedades habituais, que constituem uma importante novidade de propriedades habituais. Para esta concepção parece apontar o último
e para mim, pessoalmente,uma novidade muito simpática - em com- parágrafodo S 33 (ver pp. <102>-<103>).Por outraspalavrase na mi-
paração com as Ideen, levam a diferentes questões e diâculdades. Do seu nha terminologia: neste caso, seria necessário admitir um "transviver'
esclarecimento depende tanto a correta captação do sentido da teoria das em cada vivência (ver über die G(:áahrefner Petíflo Prínc@ii). Todavia,
propriedades habituais como também que essateoria se imponha rapida- Husserl rejeita, que eu saiba, a existência do "transviver't Deve-se,por
mente.Por isso,permito-me esboçaraqui essadificuldade.Não faria mal conseguinte, pelo menos em certos casos, naqueles que, segundo Hus
se se pusessea ênfase da Quarta Meditação no seu todo no desenvolvi- será,se deve chegar à constituição das propriedades habituais, admitir a
mento desteponto e na discussãodas diâculdades que aqui despontam. existência de atos particulares (ou, pelo menos, de momentos de ato) que
1. Serão também as "habitualidades" apenas "simples correlatos in- teriam um tal "conteúdo': que conduziria à constituição daspropriedades
tencionais" dos correspondentes sistemas de vivências unitariamente co mencionadas. Há efetivamentetais atou?E como se deveria descrevê-los
ligadas, ou será a sua existência uma existência "absoluta»? Tanto por ra em mais pormenores? Não conduzirá isto a um regressas? B. Ou então a
zões gnosiológicas como metafísicas, a decisão sobre esta questão é mui- pressuposição acima feita não é verdadeira; ou seja, há que conceder que
to importante. As propriedades habituais são - tanto quanto o entendo o constituído não âca determinado em todo o seu sentido pela "matéria"
- transcendentes às próprias vivências, e particularmente transcendentes e a "qualidade" das vivências constituintes. Dito pela positiva: há casos de
também àqueles aros cognitivos em que elas são originalmente captadas. constituição em que não é o teor da vivência (a sua matéria e a suaquali-
A sua existência é, assim, tão dubitável como a de todo o transcendente. dade, na <217> terminologia das l,ogísche Unfersuchungen), mas antes a
Serão elas completamente captadas, adequada e unilateralmente, ou não simples execuçãodo ato que pode conduzir à constituição de uma objec-
o serão?E, no caso dado, em que sentido não o serão?<216> Dependerá tualidade: naspropriedades habituais, teríamos de ver precisamenteuma
de razões gnosiológicas - do modo de doação de uma objectualidade tal objectualidade. Mas então seria quebrado o princípio fundamental da
- ou da essênciamaterial de uma objectualidade,particularmente, uma FenomenologiaTranscendentalconstitutiva, a saber:só se pode admi-
propriedade habitual, que ela seja, por exemplo, "um simples correlato" tir como existente e de tal ou tal maneira qualitativamente determinado
de uma multiplicidade de vivências ou, em contraposição, um objeto ab- aquilo e somente aquilo que se comprova numa consideração constitu-
solutamente existente? tiva, através da análise do teor da vivência. Aquilo que seria, aqui, cons-
2. Como ficamos com a "constituição" das propriedades habituais? tituído através do simples fato da execução de um ato (e a constituição
Aqui abrem-se-me as seguintes possibilidades: A. Ou é verdade que o significa, do ponto de vista do Idealismo Transcendental, um tipo de gê-
pleno sentido do constituído (o pleno "teor do objeto intencional': na nese existenciall) não é zzmcorre/afo das vivências correspondentes, mas
minha terminologia no livro l)as /iferaríscheKunsfwerk) estádependente antes,por assim dizer, uma segunda realidade surgindo em simultâneo
da "matéria" e da "qualidade" das vivências constituintes e é determinado com a execução do ato, que seria, porém, transcendente ao próprio ato e,
exclusivamentepor elas; então é necessárioadmitir que há atos inteira- por isso, não faria com ele qualquer unidade de ser. - C. Ou então haverá
mente particulares em que se constituem as "habitualidades': Também que distinguir entre "constituição" e "gênese't "Constituição" seria apenas
se poderia dizer que não são de todo atos particulares, mas que a estru- "determinação de sentido" nos atos em que a objectualidade constituída

216 217
Meditações Cartesianas e Conferências de Paria e Edmund Husserl Observações do Professor Dr. Roman Ingarden -- Cracóvia

chega à doação; e, ao seguir passo a passo a constituição, estaríamos auto. incriadas e ingênitas, mas também pelas razões epistemológicasde que,
rizados a explicitar os modos de surgimento e de determinação deste sen. nessecaso, a ideia de uma ciência eidética ou se apresentaria como desti-

tido e, com isso, a tornar patente a legitimidade do sentido que surge com tuída de sentido ou se transformaria na ideia de uma "criação de um tipo
a constituição. Pelo contrário, "gênese"seria produção da própria objec- particular': Por outras palavras, com base nos pressupostos esboçados no
tualidade e não teria nada que ver com o conhecimento de um objeto e texto, seria impossível conhecereideticamente qualquer coisa;um tal "co-
com os seusmodos de doação. Neste caso,não se trata da determinação nhecimento" seria igual a um afastamento daquilo que há que conhecer e
do seu sentido, mas antes do seu surgimento puro e simples. Para que, a uma criação de algo que não poderia de todo ser conhecido. Podebem
em geral, pudesse ser, aquilo que surge não careceria também, neste caso, ser que essasobjectualidades, que, nas l,ogísche Unfersz4chunge?z,
foram
de ser o correlato de um qualquer ato de captação.Dever-se-ia, assim, originalmente tomadas como ideais, a saber, signiâcações, proposições,
dizer que as propriedades habituais, no caso de surgirem desta manei- conexõesde proposições, não sejam de todo objetos ideais (é isto que
ra, não são nenhum "simples correlato de vivências de consciência': mas, quer mostrar, entre outras coisas, o meu livro l)as ZíferaríscheKunsfwerk),
sim, que elas existem de um modo absoluto. Não conduzirá, porém, esta mas daí não se segueainda que, em geral, tudo o que foi originariamente
solução do problema a uma considerável alteração do método da Feno- declarado como ideal tenha de perder a sua originariedade de ser, a sua
menologia Transcendental?- D. Ou, por üm, deve-senegar a existência idealidade em sentido estrito. - Também as dificuldades que estão ligadas
das propriedades habituais. Retornaríamos, então, ao ponto de vista das ao problema de um entendimento intersubjetivo e de uma ciência inter-
Ideen e teríamos de tomar o eu puro como um simples ponto-fonte vazio subjetiva não me permitem admitir a aârmação aqui discutida.
dos atos, coisa que não é, certamente, sustentável. Assim, <218> parece-
me que a única saída possível é a que foi esboçadaem A, a qual assenta
na suposição de um "transviver':
3. Seria muito importante delimitar com precisão a esfera das "pro-
priedades habituais" em relação às chamadas "disposições psíquicas': e,
por outro lado, distingui-las também das "propriedades de caráter': ex-
planando as relações entre elas.
4. Haveria que fundamentar mais pormenorizadamente que as
propriedades habituais pertencem ao eu puro transcendental e não ao eu
"psicológico': "humano'l Ou não será isto verdade?

Observação às páginas < 11 1 >-< 1 12>

Eu não poderia dizer que os objetos ideais autênticos as ideias, os


conceitos ideais e as essencialidades - são "produtos': "formações inten-
cionais" que são criados em operações subjetivas. E isto não apenas pela
razão de que a minha intuição dessas objectualidades mas mostra como

218 219
'1

GLOSSÁRIO ALEMÃO-PORTUGUÊS

Abschattung adumbramento
Abwandlung - variação
Allgemein geral
Allgemenheit - generalidade
Allzeitlichkeit - onitemporalidade
Anfang - começo
AnÊãngende - incipiente
Apprãsentation apresentação
Au#assen - apreender
Au#assung apreensão
Aufheben - suprimir
Aufklârung - esclarecimento
Auschaltung - exclusão
Auslegung explicitação
Ausser Spiel setzen - pâr de lado
Ausssprechen - enunciar
Ausweisung - comprovação

Begründung - fundamentação
Bestimmbarkeit - determinabilidade
Bestimmtheit - determinidade
Bestimmung determinação
Bewãhrung - confirmação
''1
Meditações Cartesianase Conferênciasde Paras' Edmund Husser Glossário Alemão-Português

Bildlich - figurativo Erfassen captar


Bleibende - permanente Erfassung - captação
Boden -terreno Erlebnis- vivência
Erlebnisstrõm - corrente de consciência
Erschliessung - descobrimento, abertura
D Es selbst elepróprio
Existenz - existência

Da-sem - ser-aí, existência


Deckung - recobrimento F
Dingphantom - fantasma de coisa
Durchleben transviver Fortgeltung - validade que se prolonga
Fremd - aJ/leio, estranho

E
G
Echt - autêntico
Echtheit - autenticidade Gebaren - conduta
Egologie Egologia Gebilde - formação
Egologisch - egológico Gegenstand - objeto
Eigenheit- propriedade Gegenstãndliche objetual
Eigenheitsphãre esfera de propriedade Gegenstãndlichkeit - objetividade, objetualidade
EigenschaR propriedade Gegenwãrtigung - presentação
Eigensphãre - esfera própria Gehalt- teor
Eigenwesen - essênciaprópria Geltung - validade
Eigenwesentlich próprio e essencial Gemeischaft comunidade
Einfühlung intropatia Gestalt - forma
Einklammern - pâr entre parênteses
Einklammerung - parentetização
Einsicht - visão intelectiva
Einstellung - atitude
Empândungsfeld campo sensível
Enthüllen - desvendar lchlich egoico
Enthüllung - desvendamento lchspaltung cisão doeu
Erdenklich - concebível,imaginável Ideal - ideal (assinaladopor nota)
Erdenklichkeit - concebíZídade,imaginabilidade Ideell - ideal (assinalado por nota)

222 223
Meditações Cartesianas e Conferências de Paras' Edmund Husser Glossário Alemão-Português

Inhalt-conteúdo Noesis - noese


Innerzeitlich - intratemporal

P
K
Paar parelha
Kinãstese - cinestese Paarung - emparelhamento
Kõrper - corpo Positionalitãt - posicionalidade
Prãsentation - presentação
Primordinal primordial
L Protention - pretensão

Leben - viver
Leib - soma R
LeibhaR - í?zpropría persona,em pessoa
Leibkõrper - corpo somático Real - real (assinalado por nota)
Leiblich somaticamente Reell - real (assinalado por nota)
Leistung - operafívídade, operação, realização, efetuação Retention - retenção
Leitfaden fio condutor Richtig correto
Richtigkeit - correção
Rückbeziehung retrorreferência
M

MannigÊãltigkeit - multiplicidade S
Mehrheit - pluralidade
Meinen - visar Schauen contemplar, ver
Meinung visada Schein - aparência
Monade manada Schicht - estrato
Sede - alma
Sehen ver
N Seiende ente
Sem- ser
Natürliche Einstellung - atitude natural Seinsgeltung - validade deser
Noema - noema Selbstauslegung - autoexplicitação

224 225
''1
Meditações Cartesianas e Conferências de Paras' Edmund Husser Glossário Alemão-Português

Selbstda - ele-próprio-aí Unvollkommenheit - imperfeição


Selbstdasein - ser-ele-próprio-aí Unzugãnglich inacessível
Sinnlos - carecido de sentido Urform - protoíorma
Sinnvoll- pleno desentido Ursprünglich - originário
Sonderung - particularização Ursprung - origem
So-sem - ser assim UrstiRung - instituição originária
Stehende - estável, estacionário Urteil - juízo
Stellungnahme atitude, fornada de posição Urteilen - julgar
Stiften instituir Urteilsboden terreno dejuízos
Stiftung instituição
Stimmend - concordante
V
T Veranchaulichung ilustraçãointuitiva
Verílechtung - entrelaçamento
Tragweite - alcance Vergegenwãrtigung - presentiíicação
Transzendental - transcendental Verhalten - comportamento
Transzendenz - transcendência Verharrende - persistente
Vermeint }'usado,presumido, pretenso
Vermõgen faculdade
U VernunR - razão
Verwandeln - transmutar, converter
Überschiebung - deslocação Verweisung - remissão
[)bertragung - transferência Verweltlichung mundanização
(Jberzeitlichkeit supratemporalidade VielÊãltigkeit - diversidade
Umgebung - cercada Vollkommenheit - perfeição
Umsturz - subversão Vollzug - execução
Umwelt - mundo circundante Vorbildlichende Anschauung - intuição prefigurativa
Unechtheit - inautenticidade Vorgegeben - dado de antemão, pré-díodo
Universal universal Vorgegebenheit - pré-doação
l.Jniversalitãt - universalidade Vorkomnis - acontecimento
Unsinn - sem sentido Vorprãdikativ pré-predícafívo, antipredicativo
Unterschicht - substrato Vorurteil - preconceito
Unvernunft irracional Vorurteilslosigkeit - ausência de preconceitos

226 227
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris. Edmund Husserl

Wahrheit verdade
Walten - governar
Wandlung - mutação
Wechsel - mudança, câmbio
Wendung viragem
Widersinn contrassenso
Wiedererinerung recordação iterativa
Wirklichkeit - realidade,eáefívidczde,
realidadeefetiva

Zentralglied membro-central
Ziel - meta
Zielstellung - posição de meta
Zuíãllig - contingente
Zugãnglich acessível,disponível
Zusachauer espectador
Zuschauer, unbeteiligte - espectador imparcial
Zuschauer uninteressierte espectador desinteressado
Zweckidee - ideia de âm, ideia-jna/

228
fl"."

,- f-l-
/
O derradeho período da sua carreira como
docente será passado na Universidade de
Friburgo, entre 1916 e 1928, data de sua ju-
bilação. Morre em Friburgo, em 27 de abril
de 1928
Husserl foi um dos mais importantes fi-
lósofos do séculoXX. A Fenomenologia, por
ele iniciada, é, ainda hoje, uma das mais es-
tuantes correntes de pensamento.Publicou
pouco em sua longa vida acadêmica.Des-
tacam-seFilosofa da Aritmética ; Investiga-
çõesLógicas;Ideiaspara uma Fenomenolo-
gia Pura e uma Fitoso$a Fenomenológica,
Liçõessobrea ConsciênciaInterna do tem-
po\ Lógica Formal e Lógica Transcettdetttal
e, por fim, Á Crise dízs Ciê/zclzzs l?zzropeíízs

e xperíê/zcl(z e/zzfzo(em colaboração com


Landgrebe). No entanto, apesar desta con-
tenção, é o protagonista de uma prodigiosa
experiência de pensamentoe escrita.A mas-
sa colossal de manuscritos que deixou con-
tinua sendo publicada e alimenta, sempre
com novasfacetas,o pensamentoanual.

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