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EVANGELHOS SINÓTICOS

CURSOS DE GRADUAÇÃO – EAD

Evangelhos Sinó cos – Prof.a Dra. Elisa Rodrigues

Meu nome é Elisa Rodrigues e sou natural de Osasco, São


Paulo. Tenho Bacharelado em Teologia e Doutora em Ciências
da Religião, área de Literatura e Religião do Mundo Bíblico
(Universidade Metodista de São Paulo). Também sou Bacharel
em Sociologia e Política (Fundação Escola de Sociologia e Política
de São Paulo) e Doutoranda em Ciências Sociais, área de Cultura
e Política (Universidade Estadual de Campinas). Pesquiso temas
relacionados à religião, especialmente, Hermenêutica de Textos
Sagrados (Judaico-cristãos) e a recepção dessa literatura pelos
protestantismos, neo-pentecostalismos e catolicismos. Além de
artigos publicados em periódicos especializados em Teologia e
Religião, participei do livro intitulado Palavra de Deus, Palavra da Gente (Editora Paulus)
e escrevi o livro O que é Teologia? (MK Editora).
e-mail: e_rodrigues@yahoo.com

Fazemos parte do Claretiano - Rede de Educação


Elisa Rodrigues

EVANGELHOS SINÓTICOS

Batatais
Claretiano
2014
© Ação Educacional Clare ana, 2014 – Batatais (SP)
Versão: ago./2014

226 R611e

Rodrigues, Elisa
Evangelhos Sinóticos / Elisa Rodrigues – Batatais, SP : Claretiano, 2014.
194 p. 
ISBN: 978-85-8377-159-3

1. Sinóticos. 2. Evangelhos. 3. Gêneros literários. 4. Perspectivas Teológicas.


I. Evangelhos Sinóticos.








CDD 226

Corpo Técnico Editorial do Material Didático Mediacional


Coordenador de Material DidáƟco Mediacional: J. Alves

Preparação Revisão
Aline de Fátima Guedes Cecília Beatriz Alves Teixeira
Camila Maria Nardi Matos Felipe Aleixo
Carolina de Andrade Baviera Filipi Andrade de Deus Silveira
Cá a Aparecida Ribeiro Paulo Roberto F. M. Sposati Ortiz
Dandara Louise Vieira Matavelli Rafael Antonio Morotti
Elaine Aparecida de Lima Moraes Rodrigo Ferreira Daverni
Josiane Marchiori Mar ns Sônia Galindo Melo
Talita Cristina Bartolomeu
Lidiane Maria Magalini
Vanessa Vergani Machado
Luciana A. Mani Adami
Luciana dos Santos Sançana de Melo
Projeto gráfico, diagramação e capa
Patrícia Alves Veronez Montera Eduardo de Oliveira Azevedo
Raquel Baptista Meneses Frata Joice Cristina Micai
Rosemeire Cristina Astolphi Buzzelli Lúcia Maria de Sousa Ferrão
Simone Rodrigues de Oliveira Luis Antônio Guimarães Toloi
Raphael Fantacini de Oliveira
Bibliotecária Tamires Botta Murakami de Souza
Ana Carolina Guimarães – CRB7: 64/11 Wagner Segato dos Santos

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SUMÁRIO

CADERNO DE REFERÊNCIA DE CONTEÚDO


1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 9
2 ORIENTAÇÕES PARA ESTUDO ......................................................................... 10
3 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 30
4 E REFERÊNCIAS ................................................................................................ 30

UNIDADE 1 INTRODUÇÃO AO ESTUDO DOS SINÓTICOS


1 OBJETIVOS ........................................................................................................ 31
2 CONTEÚDOS ..................................................................................................... 31
3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE ............................................... 32
4 INTRODUÇÃO À UNIDADE .............................................................................. 33
5 O QUE É EVANGELHO? ..................................................................................... 34
6 MUNDO SOCIAL DAS PRIMEIRAS COMUNIDADES
CRISTÃS "ESPELHADO" NA LITERATURA ......................................................... 40
7 SABEDORIA E CRÍTICA SOCIAL NAS ORIGENS CRISTÃS ................................. 43
8 CONFLUÊNCIA DE HORIZONTES CULTURAIS ................................................. 52
9 IDENTIDADE SOCIAL DAS PRIMEIRAS COMUNIDADES CRISTÃS ................. 54
10 PRIMEIRAS COMUNIDADES CRISTÃS: ITINERANTES OU LOCAIS? ............... 57
11 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................ 63
12 CONSIDERAÇÕES ............................................................................................. 63
13 E REFERÊNCIAS ................................................................................................ 64
14 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................... 65

UNIDADE 2 O PROBLEMA SINÓTICO E AS ORIGENS CRISTÃS


1 OBJETIVOS ........................................................................................................ 67
2 CONTEÚDOS ..................................................................................................... 67
3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE ............................................... 68
4 INTRODUÇÃO À UNIDADE ............................................................................... 69
5 O PROBLEMA SINÓTICO E A CRÍTICA DAS FONTES ....................................... 69
6 O "OLHAR" PARA DENTRO DAS FONTES ......................................................... 73
7 FONTES SINÓTICAS .......................................................................................... 76
8 A COMPOSIÇÃO DOS EVANGELHOS ............................................................... 83
9 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................ 87
10 CONSIDERAÇÕES ............................................................................................. 87
11 E REFERÊNCIAS ................................................................................................ 89
12 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................... 89
UNIDADE 3 A HIPÓTESE DE "Q" A FONTE DOS DITOS DE JESUS
1 OBJETIVOS ........................................................................................................ 91
2 CONTEÚDOS ..................................................................................................... 91
3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE ............................................... 92
4 INTRODUÇÃO À UNIDADE ............................................................................... 93
5 GÊNESE DA HIPÓTESE FONTE Q A FONTE DOS DITOS DE JESUS ............... 93
6 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................ 105
7 CONSIDERAÇÕES ............................................................................................. 106
8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................... 107

UNIDADE 4 O EVANGELHO DE MARCOS


1 OBJETIVOS ........................................................................................................ 109
2 CONTEÚDOS ..................................................................................................... 109
3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE ............................................... 110
4 INTRODUÇÃO À UNIDADE ............................................................................... 110
5 SOBRE A AUTORIA E DATAÇÃO........................................................................ 111
6 CHAVES METODOLÓGICAS .............................................................................. 114
7 CONJUNTURA HISTÓRICO SOCIAL .................................................................. 117
8 ALGUNS CONTEÚDOS DO EVANGELHO DE MARCOS ................................... 122
9 O "CRISTO DA FÉ" NO EVANGELHO DE MARCOS ........................................... 124
10 UMA LEITURA POLÍTICA DE MARCOS ............................................................ 126
11 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................ 132
12 CONSIDERAÇÕES .............................................................................................. 132
13 E REFERÊNCIA .................................................................................................. 133
14 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 134

UNIDADE 5 EVANGELHO DE MATEUS


1 OBJETIVOS ........................................................................................................ 135
2 CONTEÚDOS ..................................................................................................... 135
3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE ............................................... 136
4 INTRODUÇÃO À UNIDADE ............................................................................... 136
5 EVANGELHO DE MATEUS E A TRADIÇÃO........................................................ 137
6 EVANGELHO DE MATEUS E A PESQUISA MODERNA ..................................... 139
7 OS CONTEÚDOS DO EVANGELHO DE MATEUS .............................................. 141
8 LUGAR DE ORIGEM E AUTORIA DO EVANGELHO .......................................... 148
9 HISTÓRIAS EVOCADAS POR MATEUS ............................................................. 151
10 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ....................................................................... 161
11 CONSIDERAÇÕES ............................................................................................. 161
12 E REFERÊNCIAS ................................................................................................ 162
13 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 163

UNIDADE 6 EVANGELHO DE LUCAS


1 OBJETIVOS ........................................................................................................ 165
2 CONTEÚDOS ..................................................................................................... 165
3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE ............................................... 166
4 INTRODUÇÃO À UNIDADE ............................................................................... 166
5 FRAGMENTOS DE HISTÓRIA. TESTEMUNHOS SOBRE LUCAS ...................... 168
6 ESTÁGIOS DA ESCRITA DO EVANGELHO E AUTORIA ..................................... 170
7 TEMAS LITERÁRIOS E DISCUSSÕES SOBRE LUCAS ........................................ 175
8 MEMÓRIAS DA TRADIÇÃO JUDAICA EM LUCAS ............................................ 183
9 PROPOSTAS DE ESTRUTURA PARA LUCAS ...................................................... 189
10 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................ 190
11 CONSIDERAÇÕES ............................................................................................. 191
12 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 192
EAD
Caderno de
Referência de
Conteúdo

CRC

1. INTRODUÇÃO
O estudo de Evangelhos Sinóticos consiste na investigação
de parte da chamada "literatura neotestamentária", produzida no
século 1º da Era Cristã e que constitui um dos blocos de textos da
Bíblia. Os Evangelhos Sinóticos Mateus, Marcos e Lucas são assim
denominados porque seriam "espelhos" um do outro, diferente-
mente do evangelho de João, cuja estrutura, forma escrita e teo-
logia guardariam especificidades. Em outras palavras, esses três
evangelhos repetiriam os conteúdos por meio de formas de apre-
sentação semelhantes (gêneros literários), além de mensagens e
teologias comuns.
Tais literaturas despertam interesse entre estudiosos de teo-
logia, de história e outras disciplinas da área de ciências humanas,
mas também no grande público. Isso ocorre porque a literatura
bíblica é passível de novas interpretações a cada período histórico.
10 © Evangelhos Sinóticos

Ela é polissêmica e reverberante. É característica dessa literatura a


linguagem inventiva, narrativa, poética e, de modo geral, simbóli-
ca, que lhe proporciona um caráter de constante atualidade.
As pessoas lêem os Evangelhos Sinóticos e encantam-se. São
atraídas pela aparência histórica, pelas informações biográficas,
pela beleza literária e pelo caráter ético-normativo típico da pro-
clamação de Jesus, expressa na escrita dos redatores.
Os Evangelhos, portanto, trazem algo do Jesus Histórico e
muito do Jesus Proclamado. Trazem conteúdos da mensagem do
reino de Deus, da salvação para humanidade e da restauração da
dignidade humana. Cada qual com especificações típicas de seus
interesses relacionados às suas questões, aos problemas das pri-
meiras comunidades, de suas audiências. O estudo dos Evangelhos
Sinóticos possibilita, mesmo que timidamente, a reconstituição
das origens cristãs por meio do conhecimento de suas crenças, de
seus dilemas, de seus problemas sociais, de suas expectativas e
perguntas mais frequentes. Muitos dilemas, problemas sociais, ex-
pectativas e perguntas que as sociedades atuais ainda partilham.
Nesse sentido, vale notar que o aprofundamento nos temas
relacionados ao estudo dos Sinóticos constitui importante instru-
mento para a compreensão do legado cristão à cultura ocidental.
Após esta introdução aos conceitos principais, apresenta-
mos, a seguir, no Tópico Orientações para Estudo, algumas orien-
tações de caráter motivacional, dicas e estratégias de aprendiza-
gem que poderão facilitar o seu estudo.

2. ORIENTAÇÕES PARA ESTUDO

Abordagem Geral
Aqui, você entrará em contato com os assuntos principais
deste conteúdo de forma breve e geral e terá a oportunidade de
aprofundar essas questões no estudo de cada unidade. No entan-
© Caderno de Referência de Conteúdo 11

to, essa Abordagem Geral visa fornecer-lhe o conhecimento básico


necessário a partir do qual você possa construir um referencial te-
órico com base sólida – científica e cultural – para que, no futuro
exercício de sua profissão, você a exerça com competência cogniti-
va, ética e responsabilidade social.
Para iniciar o aprendizado e a reflexão sobre os Evangelhos
Sinóticos, vamos conhecer um pouco desses documentos tão valo-
rizados pela cristandade ao longo dos séculos, em função de suas
narrativas de conteúdo histórico, biográfico e simbólico.
Sabemos que os evangelhos sinóticos são Mateus, Marcos
e Lucas. Nosso objetivo geral é compreender porque essas três
fontes são estudadas em conjunto e quais os motivos que as tor-
nam documentos tão importantes para a compreensão das ori-
gens cristãs.

Objetivos específicos
• Apresentar a discussão inicial a cerca do que é um gênero
literário "evangelho", bem como caracterizar seus princi-
pais conteúdos.
• Apontar a relação entre os conteúdos, as formas literárias
e as teologias que constituem os evangelhos e seus con-
textos históricos e sociais específicos.
• Caracterizar a importância do estudo dos Evangelhos Si-
nóticos para o conhecimento da modalidade religiosa
cristianismo.
Para começo de conversa, o que é "evangelho"?
O termo substantivo "evangelho" (euaggeliou) pode ser en-
contrado seis vezes no Antigo Testamento, com dois sentidos:
• "boas novas" (Cf. 2 Sm 18:20, 25, 27; 2 Re7:9);
• "recompensa por boas notícias" (2 Sm 4:10; 18:22).

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12 © Evangelhos Sinóticos

Vejamos a referência de 2 Sm 18:20: Ioab lhe disse: "Tu não


serias hoje portador de uma boa notícia. Levá-la-ás noutro dia,
mas hoje não levarias uma boa noticia, porque se trata da morte
do filho do rei".
Esse duplo sentido para evangelho nos ajuda a perceber o
poder efetivo da palavra. A palavra falada é comparável ao seu
conteúdo: más notícias trazem tristeza e boas notícias causam ale-
gria. Nesses termos, a palavra é portadora de poder e efetua o que
proclama.
Entre os gregos, evangelho era o termo técnico para "novas
vitórias" em batalhas militares ou, em determinados contextos de
jogos, como os olímpicos. Mas além desse uso, o mais importante
para nosso estudo foi o feito no culto imperial.
No período de domínio romano, o imperador reuniu em sua
pessoa a noção de homem divino e de salvador. Isso é também o
que a palavra evangelho aponta: o governante é divino por natu-
reza. Seu poder se estende para homens, animais, terra e mar. O
evangelho – materializado no governante – é o salvador do mundo
e aquele que redime as pessoas de suas dificuldades.
Assim, o imperador assumiu para si as características da an-
tiga deusa grega chamada "Túkhe".
De acordo com Mircea Eliade (1978. p. 236), a ideia de sal-
vação tem a ver com o esforço de desprestigiar a terrível deusa
Túkhe, que quer dizer Sorte, Fortuna. Na narrativa mítica grega, ela
poderia trazer tanto felicidade como má sorte. Ela manifestava-se,
também, como anágkê ou heimarmenê, que pode traduzir-se por
necessidade ou destino.
O destino era controlado pelos caprichos astrais dessa deu-
sa. Esse fatalismo só cessaria com a convicção "de que certos Se-
res divinos são independentes do Destino" . Durante o período de
império romano em que era obrigatório o culto ao imperador, os
atributos da deusa foram assumidos por César: grande homem e
deus, ao mesmo tempo.
© Caderno de Referência de Conteúdo 13

Assim, em função de ser o imperador mais do que um ho-


mem comum, seus decretos eram considerados mensagens de
alegria e suas ordens eram consideradas escritos sagrados. O que
ele dizia era um ato divino e implicava em boas coisas e salvação
para os homens.
Disso, podemos concluir que o culto imperial e a Bíblia com-
partilham a mesma visão de ascensão ao trono de alguém que intro-
duziria uma nova era e traria paz ao mundo. Era, nesse sentido, um
evangelho para os homens. No caso dos romanos, esse alguém seria
o imperador. Mais tarde, para os cristãos, esse alguém seria Jesus,
aquele que na tradição judaica era conhecido como Messias.
Como podemos entender essa semelhança na forma de pen-
sar de gregos, romanos e cristãos?
Por um lado, devemos lembrar que os primeiros cristãos
eram judeus, muitos deles já helenizados em função de anos de
dominação romana e, por outro lado, vale destacar que muitos
dos primeiros convertidos ao cristianismo eram de procedência
romana, o que implica no cruzamento das tradições judaica e gre-
co-romana. Outro fator que deve ser considerado é que o estudo
comparado de fontes do período antigo revela que essas noções
eram comuns daquele tempo, portanto, algo tipicamente oriental.
O conteúdo do evangelho cristão que pode ser entendido
como diferente do evangelho imperial é a proclamação da Basiléia
thou theou: a mensagem do Reino de Deus.
Devemos notar com atenção que o Novo Testamento fala
a linguagem de seus dias. Trata-se de uma proclamação popular
e realística. Um saber humano que diz respeito à atitude de um
grupo restrito de discípulos de Jesus de "esperar por" algo, de ter
"esperança" de novas.
Esses primeiros cristãos estavam a espera da realização de
um evangelho, do qual alguns até poderiam ser envergonhados, já
que esse evangelho era um "escândalo".

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14 © Evangelhos Sinóticos

Os cegos recobram a vista e os coxos andam direito, os leprosos


são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa
Nova é anunciada aos pobres, e feliz de quem não cair por causa
de mim! (Mt 11:5).

No léxico cristão, portanto, evangelho significa sōtēria, isto


é, salvação para o homem, mas sōtēria implica metanoia, que é
arrependimento para o julgamento. Os próprios textos bíblicos re-
latam que essa noção de salvação e, principalmente, de ressurrei-
ção, soava estranha para muitos e alguns reagiam com ironia. Veja
At 17:32: "Às palavras "ressurreição dos mortos", uns zombavam,
outros declararam: "Nós te ouviremos sobre isso noutra ocasião".
Mas, para os primeiros seguidores de Jesus, a ideia de sal-
vação e de ressurreição era uma convicção alegre e real: pela pe-
nitência chegaria-se ao julgamento e a alegria, o que significava
graça e salvação. Nesse sentido, César e Cristo, o imperador sobre
o trono e o desprezado rabbi na cruz, confrontavam-se um ao ou-
tro. Ambos eram o evangelho para o homem. Eles tinham muito
em comum. Todavia, eram originários de mundos diferentes. Um
traria um reino de justiça para aqueles que se dobrassem perante
ele, aqui na terra. Outro traria um reino de justiça para aqueles
que fossem súditos dele por toda a eternidade.
Enquanto judeus eram dominados e colonizados por César,
diante o imperador Jesus, os judeus entendiam-se como filhos e
retomando a tradição da Bíblia Hebraica: eles eram a nação esco-
lhida para reinar junto do Messias, que, para os cristãos, era Jesus
de Nazaré.
O evangelho de Cristo consistia na proclamação (kerigma)
do Reino de Deus. O cerne desse evangelho era a vinda do Reino,
o que implicava imediatamente no estabelecimento de um novo
governo: um governo divino de paz e de justiça, cujo único gover-
nante seria o próprio Cristo.
Mas o que é evangelho nos sinóticos?
© Caderno de Referência de Conteúdo 15

Com frequência, Marcos usou a palavra evangelho nos ditos


de Jesus. Além dos usos em Mc 1:1 (Princípio do Evangelho de
Jesus Cristo, Filho de Deus) e em 1:14 (Depois que João foi preso,
veio Jesus para Galileia proclamando o Evangelho de Deus), pode-
mos notar que os textos paralelos de Marcos em Mateus e em Lu-
cas não empregam esse termo, mas fazem menção do significado
da palavra.
Observe o quadro sinótico a seguir:

Pois aquele que quiser Pois aquele que quiser Pois aquele que quiser
salvar a sua vida, irá salvar a sua vida, vai salvar a sua vida vai
perdê-la; mas, o que perdê-la, mas o que perdê-la, mas o que
perder a sua vida por perder a sua vida por perder a sua vida por
causa de mim e do causa de mim, vai causa de mim, esse a
Evangelho, irá salvá-la encontrá-la (Mt 16:25 - salvará (Lc 9:24)
(Mc 8:35) 10:39)

Nos versos que lemos, Marcos emprega o termo "evange-


lho", já Mateus e Lucas dão a entender que o evangelho é o pró-
prio Cristo. Como visto, os trechos paralelos de Marcos (Mt 16:25;
Lc 9:24) não têm a palavra evangelho.
Em paralelos de Marcos, elas apareceriam em Mc 13:10=Mt
24:14 e Mc 14:9=Mt 26:13. Isso pode indicar que Lucas dependeu
de estratos mais antigos de Marcos para a redação de seu evange-
lho e, também, que as ocorrências de evangelho em Marcos e Ma-
teus indicam que esses evangelhos são mais antigos do que Lucas,
o que lhes confere maior grau de autenticidade.
Esse ponto pode ser melhor entendido à luz da leitura de
Marcos.
O importante é sabermos que os Evangelhos não são repro-
duções estenográficas, isto é, transcrições imediatas, dos ensinos
de Jesus. Tampouco se pode afirmar que sejam registros oficiais de
sua atividade na condição de mestre. Na forma original, os Evange-
lhos eram tradição oral.

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16 © Evangelhos Sinóticos

O evangelho é comparado com Cristo, com seu nome (Mt


19:29) e com o Reino de Deus (Lc 18:29). A atitude do Antigo Tes-
tamento e dos judeus para com os gentios – sua exclusão do reino
messiânico e, ainda, da participação na salvação –, foi resolvida por
Jesus. Ele limitou a si mesmo, entendendo-se como conteúdo cen-
tral de sua proclamação, para Israel. Durante seu tempo de vida,
não permitiu que seus discípulos levassem essa mensagem para
além das fronteiras de sua própria terra (cf. Mc 7:27; Mt 15:24,
26, 10;5). Mas, na era messiânica, muitas nações o conheceriam,
conforme Mt 8:11 e Lc 13:29.
Agora que sabemos o significado do termo "evangelho" e o
que ele implica, vamos compreender porque os evangelhos Mar-
cos, Mateus e Lucas foram denominados "sinóticos".
A primeira coisa a se saber é que esse termo vem da palavra
grega synposis, entendida como "ver em conjunto".
Os evangelhos sinóticos, portanto, são narrativas sobre a
vida e o ministério público de Jesus, que podem ser lidas em con-
junto porque apresentam uma estrutura parecida, com conteúdos
que se repetem e gêneros e formas literárias recorrentes. Portan-
to, são como "espelhos" uns dos outros.
A palavra "sinótico" foi empregada pela primeira vez para
designar o estudo comparativo de Mateus, Marcos e Lucas, no fi-
nal do século 18, pelo estudioso alemão chamado Johann Jacob
Griesbach.
Como exposto, a palavra "evangelho" (Boa notícia) foi atri-
buída aos quatro primeiros escritos do Novo Testamento, mas des-
ses quatro, apenas os três primeiros foram considerados parecidos
entre si, a ponto de receberem o nome de sinóticos.
O que mais os aproxima é o fato de apresentarem os ensinos
de Jesus por meio de histórias a seu respeito, que vão do batismo
até sua morte e ressurreição. Todavia, cada um dos evangelhos
narra esses eventos de forma peculiar, considerando o que cada
comunidade entendeu e assumiu dos ensinos do Nazareno.
© Caderno de Referência de Conteúdo 17

O problema sinótico e a crítica das fontes


A despeito de serem considerados sinóticos, uma leitura
atenta dos evangelhos Marcos, Mateus e Lucas revela que existem
algumas diferenças entre esses textos. A percepção de que os si-
nóticos não eram tão semelhantes entre si deu origem ao que se
convencionou chamar de "O problema sinótico".
O problema sinótico consiste na constatação de que existem
diferenças e semelhanças na redação dos evangelhos. Essa cons-
tatação é explicada pelo entendimento de que os autores de tais
textos, no processo de elaboração de cada evangelho, acrescenta-
ram à tradição escrita, narrativas acerca da vida e dos ensinos de
Jesus, conhecidas pela tradição oral. Isso significa que cada autor,
ao descrever a história de Jesus, utilizou livremente memórias e
fontes que estavam à disposição.
A escola que investiga essas particularidades do texto bíblico
é chamada "Crítica das Fontes". Ela se dedica à análise dos está-
gios que formaram a produção dos evangelhos. Ela faz e procura
responder a seguinte pergunta: que fontes escritas os evangelistas
empregaram na formulação de seus evangelhos?
Tal questão interessa tanto ao historiador do cristianismo
primitivo, quanto ao exegeta ou ao indivíduo que tem relação de
fé com os textos bíblicos. Para respondê-la, a academia de estudos
bíblicos da Alemanha, representada pela escola da Crítica das For-
mas, elaborou o conceito de comunidade "por trás" do evangelho
e formulou o entendimento de que se o Sitz im Leben, isto é, a
situação vivencial de uma comunidade pudesse ser bem compre-
endida, o texto – o evangelho que a comunidade produziu –, seria
lido corretamente.
Martin Dibelius, um dos mais importantes críticos da forma,
em 1934 definiu Sitz im Leben como o estrato histórico e social em
que precisamente aquelas formas literárias foram desenvolvidas.
Já em 1969, W. Marxsen foi o primeiro a introduzir três Sitze im
Leben:

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18 © Evangelhos Sinóticos

• O Jesus Histórico (a situação de atividades de Jesus).


• A crítica das formas (a situação da igreja primitiva).
• A crítica da redação (a situação do evangelista na criação
do Evangelho).
A situação do "Jesus Histórico" seria uma espécie de leitura
exegética dos evangelhos preocupada em reconstruir a história do
homem Jesus de Nazaré, que viveu e expressou-se materialmente
na Galileia e nos lugares onde esteve. Essa exegese busca recom-
por a pessoa de Jesus, à luz das informações que se repetem sobre
ele nos diferentes evangelhos, entendidos como fontes próximas
do período em que ele viveu e atuou.
A situação da igreja primitiva seria a leitura dos evangelhos
preocupada em esclarecer, quais as peculiaridades de cada fonte
que indicam as questões que mobilizaram a escrita de cada evan-
gelho. Esse estágio pressupõe que conteúdos teológicos que va-
riam de um evangelho para o outro, tem a ver com as perguntas
que diferentes grupos cristãos faziam entre si. Isso implica que a
igreja primitiva, isto é, as comunidades cristãs das origens eram di-
ferentes, tinham expectativas diferentes e, provavelmente, enten-
diam diferentemente os ensinos do Jesus de Nazaré. O que pode
indicar o uso de biografia, profecia, sabedoria, poesia e outras for-
mas literárias?
Isso está em conexão com a crítica da redação que, como
terceiro estágio de crítica literária, investiga a situação do evan-
gelista, ou dos redatores do evangelho, por ocasião da criação de
seu texto. Nesse estágio, busca-se identificar as fontes usadas pelo
redator ou redatores. Também se investiga a relação entre o con-
texto histórico-social com a redação do texto.
Ao longo dos séculos 19 e 20, todo esse aparato metodológico
tem proporcionado muitas conclusões sobre os evangelhos. A tradi-
ção da igreja e suas conclusões por tanto tempo veiculadas, como
a sequência dos evangelhos formada por Mateus, Marcos, Lucas e
João, têm sido, muitas vezes, confirmada e outras tantas negada.
© Caderno de Referência de Conteúdo 19

O que inicialmente podemos dizer é que a crítica literária


verificou que as semelhanças na estrutura dos evangelhos, no uso
das palavras e na sequência das narrativas sugerem que entre os
evangelhos existiu alguma dependência e talvez o compartilha-
mento de fontes.
Podemos verificar isso na comparação de pequenos estratos
dos evangelhos e na estrutura geral dos evangelhos sinóticos. Veja
o exemplo:

MARCOS 13 MATEUS 24 LUCAS 21


1 Jesus se retirava do 1 Jesus saíra do Templo e 5 Como alguns falassem
Templo, quando um de estava indo embora. Seus do Templo, da sua
seus discípulos lhe disse: discípulos adiantaram- ornamentação de belas
"Mestre, olha que pedras, se, a fim de chamar- pedras e dos ex-votos,
que construções!" lhe a atenção para as Jesus disse:
construções do Templo
2 Jesus lhe disse: "Estás 6 "Do que contemplais,
vendo essas grandes 2 Tomando a palavra, dias virão em que não
construções? Não ficará ele lhes disse: "Estais restará pedra sobre
pedra sobre pedra: tudo vendo tudo isso, não é? pedra: tudo será
será destruído". Em verdade vos declaro, destruído".
aqui não ficará pedra
3 Estando ele assentado, sobre pedra: tudo será 7 Eles lhe perguntaram:
no monte das Oliveiras, destruído". "Mestre, quando é que
defronte do Templo, acontecerá isso e qual
Pedro, Tiago, João 3 Estando ele assentado, será o sinal de que isso irá
e André, à parte, no monte das Oliveiras, se realizar?"
perguntavam-lhe: os discípulos adiantaram-
se para ele, à parte, e
4 "Dize-nos quando é que lhe disseram: "Dize-nos
isto acontecerá e qual será quando isto acontecerá
o sinal de que tudo isso e qual será o sinal da
vai acabar". tua vinda e do fim do
mundo!".

As três narrativas têm, evidentemente, estilos diferentes


de apresentar o mesmo conteúdo, que é a destruição do Templo.
Aqui não vamos discutir a respeito da referência ao Templo se era
a construção de fato ou uma metáfora para a morte e ressurreição
de Jesus em três dias.
Interessa-nos comparar as narrativas e indicar as diferenças.
No que tange ao conteúdo central do pronunciamento de Jesus, o

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20 © Evangelhos Sinóticos

conteúdo não varia, apenas o estilo: "não ficará pedra sobre pedra,
tudo será destruído. O que chama a atenção é que a introdução
de cada evangelho dá detalhes diferentes: Marcos fala que Jesus
se retirava do Templo com os discípulos; Mateus diz que Jesus se
retirava e estava indo embora quando os discípulos se adiantaram
com o objetivo de chamar a atenção de Jesus para o Templo; por
fim, Lucas fala de ornamentação e de belas pedras.
Marcos e Mateus falam de uma cena posterior, quando Je-
sus e seus discípulos já no monte das Oliveiras voltaram a falar da
destruição do Templo. Os discípulos queriam saber quando isso
ocorreria. Marcos diz quem eram os discípulos (Pedro, Tiago, João
e André), ao passo que Mateus não os nomeia. Lucas não faz refe-
rência ao monte das Oliveiras e tampouco diz os nomes de quem
acompanhava Jesus. Todos os três, no entanto, dizem que os discí-
pulos desejavam saber quando ocorreria a destruição.
Tudo isso indica que esse diálogo deve, de fato, ter ocorrido.
Mas não podemos precisar se ocorreu no mesmo dia e no mes-
mo ambiente. Lucas dá a impressão de continuidade, já Marcos
e Mateus dão a entender que o diálogo ocorreu em dois tempos,
possivelmente, em ambientes diferentes já que na primeira cena
estavam nas redondezas do Templo e na segunda, estavam reuni-
dos no monte das Oliveiras.
Embora essa breve comparação não comprometa o conte-
údo central da narrativa, indica, no mínimo, que havia diferenças
entre os redatores dos evangelhos, seja na forma de descrever as
narrativas – quanto ao estilo e uso do grego – seja no que julga-
vam ser indispensável à narrativa. De todo modo, como destacam
alguns estudiosos, essa combinação de correspondência e discor-
dância também alcança a estrutura geral dos evangelhos.
Portanto, é possível perceber que os três evangelhos seguem
praticamente:
1) a mesma ordem de acontecimentos;
© Caderno de Referência de Conteúdo 21

2) omitem informações que podem ser encontradas nos


outros dois evangelhos;
3) apresentam incidentes que os demais não relatam;
4) possuem algumas diferenças quanto à ordem de um
evento em, pelo menos, um dos dois evangelhos.
Na busca por uma hipótese que explicasse correspondências
e disparidades entre os evangelhos sinóticos, emergiram algumas
possibilidades que apresentaremos, a seguir, brevemente:
1) Dependência comum de um evangelho original (um pro-
to-evangelho) – foi proposta por G. E. Lesing (em 1771),
escritor e crítico alemão. Sustentou que a relação entre
os sinóticos teria ocorrido com base no uso independen-
te de uma fonte original, escrita em hebraico ou aramai-
co. Essa hipótese foi duramente criticada, principalmen-
te, a partir do século 20.
2) Dependência comum de fontes orais – foi proposta por J.
G. Herder e, posteriormente, J. K. L. Gieseler (em 1818).
Eles sustentaram a dependência dos sinóticos a partir de
um sumário oral relativamente conhecido, sobre a vida
de Cristo. Essa hipótese foi mais aceita durante o século
19.
3) Dependência comum de um número cada vez maior de
fragmentos escritos – foi proposta por F. Schleiermacher
(s. d.), também conhecido por ter cunhado a hermenêu-
tica bíblica na Alemanha. Ele propôs que circulavam di-
versos fragmentos de tradição sobre Jesus no meio das
primeiras comunidades cristãs, escritos pelos apóstolos.
Tais fragmentos cresceram gradualmente e foram incor-
porados aos evangelhos sinóticos.
4) Teoria da Interdependência –sustenta que dois dos au-
tores usaram uma ou mais fontes para a elaboração do
seu evangelho. Essa teoria é geralmente mais aceita pe-
los estudiosos.
A proposta da interdependência entre os evangelhos é a ge-
ralmente mais aceita. Sugere, a partir da análise de paralelismos
sequenciais entre os evangelhos sinóticos, que podemos obser-
var Mateus e Marcos juntos em oposição à Lucas, e Lucas e Mar-

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22 © Evangelhos Sinóticos

cos juntos em oposição à Mateus, porém, Mateus e Lucas não se


opõem à Marcos.
Assim, surge o "argumento da sequência" que apresenta
Marcos como o termo médio no relacionamento entre os sinó-
ticos. Isso significa que o evangelho de Marcos seria a fonte usa-
da tanto por Mateus como por Lucas para a composição de seus
evangelhos.
Essa hipótese explica as correspondências entre os três pri-
meiros evangelhos. As diferenças, portanto, estariam relacionadas
ao estilo e às particularidades de Mateus e de Lucas, vinculadas
principalmente às expectativas do grupo com o qual se importa-
vam e para o qual procuravam promover a fé em Jesus.
Todos esses estudos e hipóteses acerca da redação dos evan-
gelhos desencadearam, ainda, outras questões relacionadas prin-
cipalmente à veracidade das narrativas e dos acontecimentos so-
bre a vida, os ensinos e os milagres realizados por Jesus de Nazaré.
Embora esse tenha sido um período difícil para a pesquisa sobre
Jesus e para a teologia, é importante destacar que dessa época
surgiram novas possibilidades de compreensão acerca do signifi-
cado do movimento cristão e da sua abrangência.
Essas novas possibilidades devem ser valorizadas porque re-
fletem a tentativa de estudiosos e religiosos modernos de tornar o
conteúdo dos evangelhos cada vez mais próximo do nosso século.
Nesse sentido, mesmo que entendamos por "canônicos" os
primeiros quatro evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João, de-
vemos saber que essa disposição não reflete a ordem cronológica
de composição dessas fontes. Tampouco indica que são os únicos
escritos judaico-cristãos desse gênero. Isso porque existem outros
evangelhos que não foram considerados canônicos pelos concílios
da igreja, a partir do século 3º, mas que são testemunhos das dife-
rentes tradições sobre Jesus que circulavam entre os grupos cris-
tãos das origens.
© Caderno de Referência de Conteúdo 23

Apesar das diferentes hipóteses quanto à origem do cânon


assim como o conhecemos hoje, é quase consenso entre os biblis-
tas que Marcos teria sido o primeiro evangelho redigido e que os
outros (Mateus e Lucas) teriam se inspirado em seu material para
compor suas versões.
Por essa razão, os evangelhos de Marcos, Lucas e Mateus
são chamados "sinóticos" e, nesse caso, o termo "sinótico" indica
a qualidade de terem informações em comum.
Para terminar, é relevante compreender a citação a seguir:
Há muito tempo já se percebeu que esses três evangelhos apre-
sentam materiais paralelos numa estrutura semelhante e com fre-
qüência na mesma seqüência de perícopes individuais (...) a reda-
ção das respectivas passagens paralelas em quaisquer dois ou três
desses evangelhos é muitas vezes quase a mesma, ou tão próxima,
que certamente se deve concluir pela existência de algum tipo de
relação literária (KOESTER, 2005. p. 48).

Espero que essa síntese tenha evidenciado o quão impor-


tante é o estudo comparativo dos evangelhos sinóticos e o quanto
esse estudo pode revelar sobre o Jesus histórico e as primeiras
comunidades cristãs. Para isso, conhecer os evangelhos em sua
estrutura, sua redação e formas literárias pode nos ajudar muito.
Isso sem falar do contexto histórico e social, âmbitos dos quais a
redação não se descola. Para quem quer fazer bons estudos bíbli-
cos, boas exegeses ou simplesmente saber mais a respeito de Je-
sus e seu ministério, é absolutamente necessária a leitura conjunta
dos sinóticos.
Bom estudo!

Glossário de Conceitos
O Glossário permite a você uma consulta rápida e precisa
das definições conceituais, possibilitando-lhe um bom domínio
dos termos técnico-científicos utilizados na área de conhecimento
dos temas tratados em Evangelhos Sinóticos. Veja a seguir a defi-
nição dos principais conceitos:

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24 © Evangelhos Sinóticos

1) Kerigma: também escrito na forma querigma. Termo


grego que significa "Proclamação", utilizado nos evange-
lhos para apontar a proclamação do Reino de Deus.
2) Perícope: termo utilizado para indicar uma unidade lite-
rária que pode ser um capítulo ou um conjunto de ver-
sos. Trata-se de um bloco de versos com sentido único.
3) Exegese: trata-se da disciplina que se dedica à tradução
de textos a partir de suas línguas originais e interpretação.
4) Apocalíptica: além de constituir um sistema de interpre-
tação da história, é, também, considerada uma matriz
de espiritualidade baseada em dualismo, cujo conteúdo
diz respeito à experiência religiosa de caráter extático e
visionário e, geralmente, versada em linguagem simbóli-
ca-mítica. A literatura apocalíptica pode ser identificada
sob compreensões cristológicas sobre Jesus de Nazaré,
no Apocalipse de João, na narrativa de conversão de Pau-
lo e no cristianismo pós-paulino. Todavia, a apocalíptica
já existia sob a forma de apocalipses judaicos como Da-
niel 7-12; 1 Enoque 14-15; 4 Esdras 9,26-10,59, cap.11-
12,13 e Baruque 53-74. É notável que esses apocalipses
foram elaborados em contextos de perseguição, a par-
tir do qual pretendia-se "revelar" aos fiéis uma visão de
mudança e glorificação (cf. Dn 12,1) (BOER, 2011).
5) Didaqué: consistia em uma espécie de doutrina, isto é,
Catechesis. O termo "catequese" em sentido amplo in-
clui instrução pela palavra da boca sobre qualquer as-
sunto sagrado ou profano (At 18,25; 21,21,24; Rm 2,18;
Gl 6,6. – cf. Clem. Alex. Fragm. § 28: οὐκ ἔστι πιστεῦσαι
ἄνευ κατηχήσεως), mas é especialmente aplicado ao
ensino cristão, tanto de um tipo elementar apropriado
para novo convertido, ou, como na famosa Escola Ca-
tequética de Alexandria, estendido para alta interpreta-
ção da Escritura Sagrada e a exposição da filosofia cristã.
O primeiro saber exemplar do trabalho catequético é
a "Doutrina dos doze apóstolos", que Atanásio nomeia
entre os "livros não incluídos no Cânon, mas apontado
pelos Pais para ser lido por aqueles que recentemente
vieram a nós, e desejam ser instruídos na palavra sagra-
da" (Festal Epist. 39. 2010).
© Caderno de Referência de Conteúdo 25

6) Qunram: os Escritos de Qunram e seus estratos 4Q In-


truction e 4QMysteries constituem o conjunto literário
conhecido como Os Rolos do Mar Morto. Khirbert Qun-
ram é um conjunto de ruínas que fica na praia ocidental
do Mar Morto. Os escritos achados foram redigidos em
hebraico e em aramaico e foram conhecidos do grande
público a partir de 1948, graças a descoberta acidental
de um jovem pastor beduíno chamado Muhamed edh-
-Dhib. 4Q Instruction diz respeito à sigla que indica um
manuscrito de conteúdo instrutivo na Caverna 4. Da
mesma forma, 4Q Mysteries diz respeito ao manuscri-
to Mistério encontrado na Caverna 4. Ao todo são 11
as cavernas em que foram descobertos os manuscritos,
provavelmente, produzidos por um grupo sectário de ju-
deus (VERMES, Geza, 1997).

Esquema de Conceitos-chave
Para que você tenha uma visão geral dos conceitos mais
importantes deste estudo, apresentamos, a seguir (Figura 1), um
Esquema dos Conceitos-chave. O mais aconselhável é que você
mesmo faça o seu esquema de conceitos-chave ou até mesmo o
seu mapa mental. Esse exercício é uma forma de você construir o
seu conhecimento, ressignificando as informações a partir de suas
próprias percepções.
É importante ressaltar que o propósito desse Esquema dos
Conceitos-chave é representar, de maneira gráfica, as relações en-
tre os conceitos por meio de palavras-chave, partindo dos mais
complexos para os mais simples. Esse recurso pode auxiliar você
na ordenação e na sequenciação hierarquizada dos conteúdos de
ensino.
Com base na teoria de aprendizagem significativa, entende-se
que, por meio da organização das ideias e dos princípios em esque-
mas e mapas mentais, o indivíduo pode construir o seu conhecimen-
to de maneira mais produtiva e obter, assim, ganhos pedagógicos
significativos no seu processo de ensino e aprendizagem.

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26 © Evangelhos Sinóticos

Aplicado a diversas áreas do ensino e da aprendizagem es-


colar (tais como planejamentos de currículo, sistemas e pesquisas
em Educação), o Esquema dos Conceitos-chave baseia-se, ainda,
na ideia fundamental da Psicologia Cognitiva de Ausubel, que es-
tabelece que a aprendizagem ocorre pela assimilação de novos
conceitos e de proposições na estrutura cognitiva do aluno. Assim,
novas ideias e informações são aprendidas, uma vez que existem
pontos de ancoragem.
Tem-se de destacar que "aprendizagem" não significa, ape-
nas, realizar acréscimos na estrutura cognitiva do aluno; é preci-
so, sobretudo, estabelecer modificações para que ela se configure
como uma aprendizagem significativa. Para isso, é importante con-
siderar as entradas de conhecimento e organizar bem os materiais
de aprendizagem. Além disso, as novas ideias e os novos concei-
tos devem ser potencialmente significativos para o aluno, uma vez
que, ao fixar esses conceitos nas suas já existentes estruturas cog-
nitivas, outros serão também relembrados.
Nessa perspectiva, partindo-se do pressuposto de que é
você o principal agente da construção do próprio conhecimento,
por meio de sua predisposição afetiva e de suas motivações in-
ternas e externas, o Esquema dos Conceitos-chave tem por ob-
jetivo tornar significativa a sua aprendizagem, transformando o
seu conhecimento sistematizado em conteúdo curricular, ou seja,
estabelecendo uma relação entre aquilo que você acabou de co-
nhecer com o que já fazia parte do seu conhecimento de mundo
(adaptado do site disponível em: <http://penta2.ufrgs.br/eduto-
ols/mapasconceituais/utilizamapasconceituais.html>. Acesso em:
11 mar. 2010).
© Caderno de Referência de Conteúdo 27

:ĞƐƵƐ,ŝƐƚſƌŝĐŽ

DŽƌƚĞĞ
sŝĚĂWƷďůŝĐĂϬϭͲ WĂƌĄďŽůĂƐ͕ĚŝƚŽƐĞ
ƌĞƐƐƵƌƌĞŝĕĆŽϯϯ
ϯϯ ĞŶƐŝŶŽƐϯϬͲϯϯ


ŽůĞĕĆŽĚĞĚŝƚŽƐ
ŽƵĂ&ŽŶƚĞY ϰϬʹ
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;>ƵŐĂƌŝŶĐĞƌƚŽ͕ŐĞƌĂůŵĞŶƚĞ ;ŶƚŝŽƋƵŝĂĚĂ^şƌŝĂͿ
ŵĞŶĐŝŽŶĂĚŽĞƐĂƌĠŝĂ͕
ĐĂŝĂ͕ĞĐĄƉŽůĞ͕ƐŝĂ
DĞŶŽƌĞZŽŵĂͿ

Figura 1 Esquema dos Conceitos-chave do Caderno de Referência de Conteúdo Evangelhos


Sinóticos

Como você pode observar, o mapa acima lhe apresenta uma


visão geral dos conceitos mais importantes desse estudo. Seguin-
do este mapa, você poderá transitar entre um e outro conceito e
descobrir o caminho para construir o seu processo ensino-apren-
dizagem.
Observamos que o mapa conceitual é mais um dos recursos
de aprendizagem que vem somar-se aqueles disponíveis no am-
biente virtual com suas ferramentas interativas, bem como as ati-
vidades didático-pedagógicas realizadas presencialmente no polo.
Lembre-se de que você, como aluno na modalidade a distância,
pode valer-se da sua autonomia na construção de seu próprio co-
nhecimento.

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28 © Evangelhos Sinóticos

Questões Autoavaliativas
No final de cada unidade, você encontrará algumas questões
autoavaliativas sobre os conteúdos ali tratados, as quais podem
ser de múltipla escolha, abertas objetivas ou abertas dissertati-
vas.
Responder, discutir e comentar essas questões, bem como
relacioná-las com a prática do ensino de Teologia pode ser uma
forma de você avaliar o seu conhecimento. Assim, mediante a re-
solução de questões pertinentes ao assunto tratado, você estará
se preparando para a avaliação final, que será dissertativa. Além
disso, essa é uma maneira privilegiada de você testar seus conhe-
cimentos e adquirir uma formação sólida para a sua prática profis-
sional.

As questões de múltipla escolha são as que têm como respos-


ta apenas uma alternativa correta. Por sua vez, entendem-se por
questões abertas objetivas as que se referem aos conteúdos
matemáticos ou àqueles que exigem uma resposta determinada,
inalterada. Já as questões abertas dissertativas obtêm por res-
posta uma interpretação pessoal sobre o tema tratado; por isso,
normalmente, não há nada relacionado a elas no item Gabarito.
Você pode comentar suas respostas com o seu tutor ou com seus
colegas de turma.

Bibliografia Básica
É fundamental que você use a Bibliografia Básica em seus
estudos, mas não se prenda só a ela. Consulte, também, as biblio-
grafias complementares.

Figuras (ilustrações, quadros...)


Neste material instrucional, as ilustrações fazem parte inte-
grante dos conteúdos, ou seja, elas não são meramente ilustra-
tivas, pois esquematizam e resumem conteúdos explicitados no
texto. Não deixe de observar a relação dessas figuras com os con-
© Caderno de Referência de Conteúdo 29

teúdos estudados, pois relacionar aquilo que está no campo visual


com o conceitual faz parte de uma boa formação intelectual.

Dicas (motivacionais)
Este estudo convida você a olhar, de forma mais apurada,
a Educação como processo de emancipação do ser humano. É
importante que você se atente às explicações teóricas, práticas e
científicas que estão presentes nos meios de comunicação, bem
como partilhe suas descobertas com seus colegas, pois, ao com-
partilhar com outras pessoas aquilo que você observa, permite-se
descobrir algo que ainda não se conhece, aprendendo a ver e a
notar o que não havia sido percebido antes. Observar é, portanto,
uma capacidade que nos impele à maturidade.
Você, como aluno dos cursos de Graduação na modalidade
EaD, necessita de uma formação conceitual sólida e consistente.
Para isso, você contará com a ajuda do tutor a distância, do tutor
presencial e, sobretudo, da interação com seus colegas. Sugeri-
mos, pois, que organize bem o seu tempo e realize as atividades
nas datas estipuladas.
É importante, ainda, que você anote as suas reflexões em
seu caderno ou no Bloco de Anotações, pois, no futuro, elas pode-
rão ser utilizadas na elaboração de sua monografia ou de produ-
ções científicas.
Leia os livros da bibliografia indicada, para que você amplie
seus horizontes teóricos. Coteje-os com o material didático, discu-
ta a unidade com seus colegas e com o tutor e assista às videoau-
las.
No final de cada unidade, você encontrará algumas questões
autoavaliativas, que são importantes para a sua análise sobre os
conteúdos desenvolvidos e para saber se estes foram significativos
para sua formação. Indague, reflita, conteste e construa resenhas,
pois esses procedimentos serão importantes para o seu amadure-
cimento intelectual.

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30 © Evangelhos Sinóticos

Lembre-se de que o segredo do sucesso em um curso na


modalidade a distância é participar, ou seja, interagir, procurando
sempre cooperar e colaborar com seus colegas e tutores.
Caso precise de auxílio sobre algum assunto relacionado a
este Caderno de Referência de Conteúdo, entre em contato com
seu tutor. Ele estará pronto para ajudar você.

3. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KOESTER, H. Introdução ao Novo Testamento: história e literatura do cristianismo
primitivo. Vol. 2. São Paulo: Paulus, 2005
VERMES, G. Os Manuscritos do Mar Morto. São Paulo: Mercuryo, 1997.

4. EͳREFERÊNCIAS
BOER, M. A influência da apocalíptica judaica nas origens do cristianismo: gênero,
cosmovisão e movimento social. Tradução de Paulo Augusto de Souza Nogueira. (Arquivo
er19cap1.pdf). Editora Metodista Digital. Disponível em: <http://editora.metodista.br/
revista_rel_19.htm>. Acesso em: 2 ago. 2011,
FESTAL EPIST. 39. Compare com Clem. Alex. Strom. V. c. x. § 67. Γάλα μὲν ἡ κατήχησις
οἱονεὶ πρώτη ψυχῆς τροφὴ νοηθήσεται. Christian Classics Ethereal Library. Catechetical
Instruction. In: Chapter II. — Catechetical Instruction. Disponível em: <http://www.ccel.
org/ccel/schaff/npnf207.ii.iii.ii.html?highlight=didaché#highlight>. Acesso em: 2 ago.
2011.
EAD
Introdução ao Estudo dos
Sinóticos

1
1. OBJETIVOS
• Conhecer e introduzir o debate acadêmico sobre história
social do cristianismo das origens.
• Estabelecer relação entre os contextos histórico, político
e cultural e a escrita dos Evangelhos Sinóticos.
• Demonstrar que os motivos que influenciaram a redação
dos Evangelhos estavam vinculados à necessidade de re-
gistrar as tradições, as memórias e os ensinamentos de
Jesus por meio de uma tradição escrita.

2. CONTEÚDOS
• Definições: o que é Evangelho e o que é Sinótico.
• Literatura bíblica.
• Sabedoria e crítica social nas origens cristãs.
• Confluência de horizontes culturais.
• Identidade social das primeiras comunidades cristãs.
32 © Evangelhos Sinóticos

3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE


Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que
você leia as orientações a seguir:
1) Ao estudar esta primeira unidade, tenha em mãos uma
Bíblia ou o Novo Testamento, a fim de identificar na fon-
te as citações bíblicas que serão apontadas. Sugerimos
as traduções: Bíblia de Jerusalém e ou A Bíblia Sagrada,
traduzida por João Ferreira de Almeida (versão atualiza-
da).
2) Uma sinopse dos Evangelhos Sinóticos também oferece
instrumental adequado para a compreensão dessa e das
próximas unidades. Sugerimos a seguinte sinopse: KO
NINGS, J. Sinopse dos evangelhos de Mateus, Marcos e
Lucas e da "Fonte Q". São Paulo: Loyola, 2005. (Coleção
Bíblica 45).
3) Outros recursos como dicionários, dicionários de termos
em grego e mapas também são úteis para a compreen-
são dos conteúdos a seguir.
4) Leia esta unidade e as próximas sem perder de vista que
os textos do Novo Testamento constituem uma literatu-
ra matizada em um período histórico específico e, como
toda produção literária, os evangelhos falam, também,
a respeito do seu tempo, da cultura da época, de cos-
tumes, de práticas e ideias típicas desse período e de
comunidades de pessoas que viveram esse tempo.
5) Para saber mais a respeito do teólogo alemão Karl Bar-
th e de sua teologia (que estudaremos nesta unidade),
consulte o site Bíblia World Net. Disponível em: <http://
www2.uol.com.br/bibliaworld/igreja/estudos/karl001.
htm>. Acesso em: 30 out. 2011.
6) Para ampliar seus conhecimentos a respeito do teólogo
Rudolf Bultmann e de sua teologia existencial, consulte:
PIRES, Frederico Pieper. Mito e hermenêutica. O desafio
de Rudolf Bultmann. São Paulo: Emblema, 2005.
7) Amplie seus conhecimentos e leia: THEISSEN, Gerd. So-
ciologia da Cristandade Primitiva. São Leopoldo: Sino-
dal, 1987, p. 11.
© U1- Introdução ao Estudo dos Sinóticos 33

8) Para saber mais a respeito da Didaqué, consulte: IZIDO


RO, José Luiz. Didaché: doutrinas dos doze apóstolos.
In: Oracula 3/6 (2007): 90-113. (ISSN 1807-8222). Dis-
ponível em: <http://www.oracula.com.br/site/index.
php?option=com_content&task=view&id=56&Item
id=49>. Acesso em: 30 out. 2011.

4. INTRODUÇÃO À UNIDADE
Nesta introdução aos evangelhos, vamos estudar o conjunto
formado pelos "Sinóticos". Esse termo vem da palavra grega "syn-
posis", entendida como "ver em conjunto". Os Evangelhos Sinó-
ticos, portanto, são narrativas sobre a vida e o ministério público
de Jesus, que podem ser lidas em conjunto porque apresentam
uma estrutura parecida, conteúdos que se repetem e gêneros e
formas literárias recorrentes. Portanto, são como "espelhos" uns
dos outros.
Veremos, também, nesta unidade, que a palavra "sinótico"
foi empregada pela primeira vez para designar o estudo compara-
tivo de Mateus, Marcos e Lucas no final do século 18, pelo estudio-
so alemão J. J. Griesbah.
Em relação à palavra "evangelho" (Boa notícia) é importante
entendermos que ela nomeia quatro escritos do Novo Testamento
(NT), os três primeiros foram considerados parecidos entre si (a pon-
to de receberem o nome de Sinóticos). O que mais os aproxima é o
fato de apresentarem os ensinamentos de Jesus por meio de histó-
rias a seu respeito que vão do batismo até sua morte e ressurreição.
No entanto, o evangelho de João não será contemplado
neste Caderno de Referência de Conteúdos em razão de não ser
classificado como sinótico. Segundo a pesquisa bíblica, o evange-
lho de João destaca-se por ter redação complexa e tardia, assim
compreendida em função de seus desdobramentos teológicos e
da acentuada influência filosófica grega que o torna marcadamen-
te diferente dos primeiros três evangelhos.

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34 © Evangelhos Sinóticos

Nesta primeira unidade, vamos estudar o contexto histórico,


social e cultural no qual as primeiras comunidades cristãs se for-
maram. Em decorrência dessa descoberta, vamos compreender de
modo mais acurado como esse "pano de fundo" motivou e influiu
na redação dos Evangelhos Sinóticos. Vamos perceber, ainda, que
as origens cristãs e os textos que esses grupos produziram foram
condicionados por situações de controvérsias, tensões e disputas
típicas daquele período, o século 1º da Era Cristã (EC).
Vamos, pois, iniciar nossos estudos?

5. O QUE É EVANGELHO?
O termo substantivo "evangelho" (euaggeliou) pode ser en-
contrado seis vezes no Antigo Testamento (AT), com dois sentidos:
primeiro "boas novas" (cf. 2Sm 18,20,25,27; 2Rs 7,9) e segundo
"recompensa por boas notícias" (2Sm 4,10; 18,22).
Esse duplo sentido para o "evangelho" nos ajuda a perceber
o poder efetivo da palavra. A palavra falada é comparável ao seu
conteúdo: más notícias trazem tristeza e boas notícias causam ale-
gria. Nesses termos, a palavra é portadora de poder e efetua o que
proclama.
Entre os gregos, "evangelho" era o termo técnico para "no-
vas vitórias" em batalhas militares ou, em determinados contextos
de jogos, como os olímpicos. Mas, além desse uso, o mais impor-
tante para o nosso estudo foi feito no culto imperial.
No período de domínio romano, o imperador reuniu para si a
noção de homem divino e de salvador. Isso é, também, o que a pa-
lavra "evangelho" aponta seu significado e poder: o governante é
divino por natureza. Seu poder se estende para homens, animais,
terra e mar.
O "evangelho" – materializado no governante – é o salvador
do mundo e aquele que redime as pessoas de suas dificuldades.
© U1- Introdução ao Estudo dos Sinóticos 35

Assim, o imperador assumiu para si as características da antiga


deusa grega chamada "Túkhe".

Informação Complementar –––––––––––––––––––––––––––––


De acordo com Mircea Eliade, a ideia de salvação teve origem no esforço de des-
prestigiar a terrível deusa "Túkhe" (a Sorte, a Fortuna). Na narrativa mítica grega,
ela poderia trazer tanto felicidade como má sorte. Ela manifestava-se também
como "anágkê" ou "heimarmenê", Necessidade ou Destino respectivamente. O
Destino era controlado pelos seus caprichos astrais. Esse fatalismo só cessaria
com a convicção "de que certos Seres divinos são independentes do Destino".
Nos cultos de mistério de Ísis e Osíris, por exemplo, a deusa proclamaria o poder
de prolongar a vida de seus adoradores: "Conquistei o Destino e o Destino me
obedece". Mais tarde, a deusa Fortuna tornou-se um dos atributos de Ísis (cf.
MIRCEA, Eliade. História das crenças e das idéias religiosas. São Paulo: Zahar,
1978. p. 236).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Em função de ser o imperador mais do que um homem co-
mum, seus decretos eram tidos como mensagens de alegria e suas
ordens eram consideradas escritos sagrados. O que ele dizia era um
ato divino e implicava em boas coisas e salvação para os homens.
O culto imperial e a Bíblia compartilham a visão de ascensão
ao trono, que introduziria uma nova era e traria paz ao mundo.
Era, nesse sentido, um evangelho para os homens.
O estudo comparado de fontes do período antigo revela que
essas noções eram comuns daquele tempo, portanto, algo tipica-
mente oriental. Contudo, algum conteúdo do evangelho do Novo
Testamento pode ser entendido como oposto ao evangelho impe-
rial, por exemplo, no que diz respeito à proclamação da Basiléia
thou theou (do reino de Deus).
Assim, o que devemos notar com atenção é que o NT fala
a linguagem de seus dias. Trata-se de uma proclamação popular
e realística. Um saber humano de esperar por algo, de esperança
nova, que indicava a espera pela realização de um evangelho, do
qual alguns poderiam ser envergonhados, já que era um "escânda-
lo" (cf. Mt 11,5; Rm 1,16; 1Cor 1,17,23; 2Tm 1,8; Mc 8,35).
No léxico cristão, portanto, "evangelho" significa sōtēria (sal-
vação) para o homem, mas sōtēria implica metanóia (conversão) e

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36 © Evangelhos Sinóticos

julgamento. Os próprios textos bíblicos relatam que essa noção de


salvação soava estranha e muitos devem ter reagido com ironia (At
17,32). Entretanto, para os primeiros seguidores de Jesus, tratava-
-se de uma convicção alegre e real: pela penitência, chegava-se a
alegria e ao julgamento, o que significava graça e salvação.
Desse modo, César e Cristo, o imperador sobre o trono e o
desprezado rabbi na cruz, confrontavam-se um ao outro. Ambos
eram o evangelho para o homem. Eles tinham muito em comum.
Todavia, eram originários de mundos diferentes.
O evangelho de Cristo consistia, pois, na proclamação
(kerigma ou querigma) do reino de Deus. O cerne desse evangelho
era a vinda do Reino, o que implicava imediatamente no
estabelecimento de um novo governo: um governo divino de paz e
de justiça, cujo único governante seria o próprio Cristo.
Você deve estar se perguntando, mas o que é evangelho nos
Sinóticos?
Com frequência, Marcos usa "evangelho" nos ditos de Jesus.
Deixando de lado apenas as referências Mc 1,1 (Princípio do Evan-
gelho de Jesus Cristo, Filho de Deus) e 1,14 (Depois que João foi
preso, veio Jesus para Galiléia proclamando o Evangelho de Deus),
podemos notar que os textos paralelos de Marcos em Mateus e
em Lucas não empregam esse termo, o que sugere que a palavra
"evangelho" pode não ter sido usada em estratos mais antigos de
Marcos. Vamos entender melhor o Evangelho Sinótico observando
o Quadro 1 a seguir.

Os textos bíblicos citados estão de acordo com a versão da Bíblia


de Jerusalém, tradução em língua portuguesa diretamente dos ori-
ginais, publicada pela Sociedade Bíblica Católica Internacional e
Paulus.
© U1- Introdução ao Estudo dos Sinóticos 37

Quadro 1 Sinótico
Cumpriu-se o tempo A partir desse momento, Ensinava (edidasken)
e o reino de Deus está começou Jesus a pregar e em suas sinagogas e era
próximo. "Arrependei-vos a dizer: "Arrependei-vos, glorificado por todos.
e crede no Evangelho". porque está próximo o
reino dos Céus". Lc 4,15

Mt 4,17
Mc 1,15
Pois aquele que quiser Pois aquele que quiser Pois aquele que quiser
salvar a sua vida, irá salvar a sua vida, vai salvar a sua vida vai
perdê-la; mas, o que perdê-la, mas o que perdê-la, mas o que
perder a sua vida por perder a sua vida perder a sua vida por
causa de mim e do por causa de mim vai causa de mim, esse a
Evangelho, irá salvá-la. encontrá-la. salvará.

Mc 8,35 Mt 16,25 (10,39) Lc 9,24


Jesus declarou: "Em E todo aquele que tiver Jesus lhes disse: "em
verdade vos digo que não deixado casas ou irmãos, verdade vos digo, não há
há quem tenha deixado ou irmãs, ou pai, ou mãe, quem tenha deixado casa,
casa, irmãos, irmãs, ou filho, ou terras, por mulher, irmãos, pais ou
mãe, pai, filhos ou terras causa do meu nome, filhos por causa do reino
por minha causa ou por receberá muito mais e de Deus, sem que receba
causa do Evangelho, que herdará a vida eterna. muito mais nesse tempo
não receba cem vezes e, no mundo futuro, a
mais desde agora, neste Mt 19,29 vida eterna".
tempo, casas, irmãos
e irmãs, mãe e filhos e Lc 18,29-30
terras, com perseguições;
e, no mundo futuro, a
vida eterna. (...)".

Mc 10,29-30

Como podemos observar, os trechos paralelos de Marcos


não têm a palavra "evangelho". Elas apareceriam em Mc 13,10;
Mt 24,14 e Mc 14,9, Mt 26,13. Isso pode indicar que Lucas de-
pendeu de estratos mais antigos de Marcos e que as ocorrências
de "evangelho" em Marcos e Mateus podem ter sido acréscimos
à tradição oral.
Esse ponto pode ser melhor entendido à luz da leitura de
Marcos: Mc 13,10 (É necessário que primeiro o Evangelho seja pro-
clamado para todas as nações) parece incompatível com Mc 7,27
(com paralelos em Mt 15,24,26; 10,5).

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38 © Evangelhos Sinóticos

No primeiro, Jesus apontou que a proclamação do Reino de-


veria ser levada a todos. No segundo, Jesus negou a mensagem
de salvação para os não judeus, o que levanta a suspeita de que
Marcos 13,10 tenha sido uma interpolação dentro do discurso es-
catológico, feita em decorrência do sucesso das missões entre gen-
tios. Da mesma forma, alguns estudiosos têm dúvidas quanto ao
trecho de Marcos 14,3-9, em especial, os versos 8 e 9, visto que a
perícope não parece harmonizar com os versos que a antecedem
e que vêm subsequentemente. Assim, não sabemos ao certo se os
ditos de Jesus que dizem respeito ao evangelho são originais e se
foram ditos por Jesus mesmo.
Quanto a isso, a crítica das fontes não encontrou consenso.
O importante é sabermos que os Evangelhos não são reproduções
estenográficas, isto é, transcrições imediatas, dos ensinamentos
de Jesus. Tampouco, pode-se afirmar que sejam registros oficiais
de sua atividade como mestre. Na forma original, os Evangelhos
eram tradição oral.

A Crítica das fontes pode ser chamada de crítica literária e surgiu


no século 18 EC. Ocupa-se de investigar a obra e sua autoria à luz
de seu contexto histórico. Preocupa-se em investigar os documen-
tos que serviram como fontes para a composição dos materiais
bíblicos.

Entendido esse ponto, a pergunta mais pertinente é se o ter-


mo "evangelho" foi usado por Jesus ou atribuído a ele pela Tradi-
ção? A pergunta se Jesus usou ou não a palavra evangelho resulta
na questão sobre a concepção que tinha a seu próprio respeito, se
tinha ou não consciência messiânica.
O que podemos concluir a esse respeito é que, de fato, a
proclamação de Jesus era de "boas novas" e que ele era o único a
proclamá-las naquela expressão, apontando para o reino de Deus.
Se ele compreendeu que era o Filho de Deus que podia morrer e
viver novamente, ele também percebeu que ele mesmo era o con-
teúdo da mensagem de seus discípulos.
© U1- Introdução ao Estudo dos Sinóticos 39

Nesse caso, seu evangelho não era um novo ensino. Ele tra-
zia a si mesmo, o que foi dado com sua pessoa constituía o conte-
údo do evangelho, consequentemente, "thou euaggeliou" implica
para os discípulos o des-velamento do segredo messiânico.
Entender essa mensagem demanda fé. Algo que caracteri-
za esse evangelho como diferente da expectativa (do evangelho)
grega e da judaica. Esse evangelho vem acompanhado da noção
de conversão, isto é, pelo arrependimento é que se poderia obter
a alegria, a Vida.
Em Marcos 8,35 e 10,29, o evangelho não se refere a ativida-
de missionária. O "evangelho" é comparado com Cristo, com seu
nome (Mt 19,29) e com o reino de Deus (Lc 18,29). A atitude do
Antigo Testamento e dos judeus para com os gentios – sua exclu-
são do reino messiânico e, ainda, da participação na salvação – foi
resolvida por Jesus. Ele limitou a si mesmo, entendendo-se como
conteúdo central de sua proclamação, para Israel.
Durante seu tempo de vida, não permitiu que seus discípulos
levassem essa mensagem para além das fronteiras de sua própria
terra (cf. Mc 7,27; Mt 15,24,26). Mas, na era messiânica, muitas
nações o conheceriam, (cf. Mt 8,11 e Lc 13,29).
Portanto, isso nos leva a compreender que o conteúdo cen-
tral da proclamação de Jesus é o reino de Deus, e o reino como
evento escatológico (cf. Mc 13,10; Mt 24,14). Trata-se do evange-
lho do reino proclamado para Israel que será declarado para todo
o mundo: o evangelho da salvação para todos os que crerem.

Para saber mais sobre esse assunto leia: KITTEL, Gerhard; FRIE-
DRICH, Gerhard (Eds.). Theological dictionary of the New Testa-
ment. 10 volumes. Michigan: W. B. Eerdmans, 1972-1989 (1º ed-
ição, 1964-1974, reimpresso em 1999). Ref. NT: 2098.

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40 © Evangelhos Sinóticos

6. MUNDO SOCIAL DAS PRIMEIRAS COMUNIDADES


CRISTÃS "ESPELHADO" NA LITERATURA
Como já podemos perceber, o gênero dos textos tem relação
com a cosmovisão e a situação vivencial da época em que foram
concebidos. O gênero evangelho significa "boas novas", portanto,
não em função de uma definição moderna, mas em decorrência
do sentido que essa palavra recebeu do sentido atribuído a ela nos
meios em que era usada. Por isso, dizemos que os textos projetam,
em nível literário, traços e indícios dos grupos sociais em que esta-
beleceram suas relações cotidianas e tradições culturais-religiosas.
Doravante, investigaremos um pouco mais desses contextos e tra-
dições que subjazem o Novo Testamento.
A fim de explicitar o "pano de fundo" dos textos neotesta-
mentários, o estudioso Gerd Theissen (1987) desenvolveu sua pes-
quisa acerca das primeiras comunidades cristãs com o instrumen-
tal da sociologia da literatura. Antes de chegar a esse recurso de
análise, porém, reconheceu a importância da crítica da forma e da
história da religião como chaves metodológicas de leitura que nos
permitem formular reconstruções do que teria sido o ambiente so-
cial no período das primeiras comunidades cristãs e da formação
dos Evangelhos Sinóticos.

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
A Crítica da forma ocupa-se, principalmente, em analisar unidades dentro dos
documentos e fontes que contenham formas específicas – projeções de tipos de
fala – que teriam sido próprias de certas situações existenciais do cotidiano isra-
elita. Ocupa-se em relacionar as formas, por exemplo, poéticas, como eventos
reais aos quais teria alguma ligação (julgamentos, casamentos, festas religio-
sas, celebrações, procissões etc.). Surgiu no século 20 da EC. Busca identificar
elementos relacionados ao cotidiano de Israel e incorporados ao texto, como
fórmulas, tipos literários fixos, vocabulário próprio ao evento e lugar, que indi-
quem evidências da forma literária. Apresentou bons resultados, por exemplo, no
estudo dos Salmos (24; 45; 121; 132 e outros).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Theissen (1987) admitiu que houve certo retrocesso na pes-
quisa sociológica durante o século 20; entretanto, atribuiu esse
retrocesso à teologia dialética de Karl Barth e a hermenêutica exis-
© U1- Introdução ao Estudo dos Sinóticos 41

tencial de Rudolf Bultmann (uma crítica que pode ser relativiza-


da, tendo em vista o comprometimento que ambos os teólogos
tinham com suas respectivas comunidades cristãs na Alemanha).
Para Theissen (1987), essas duas linhas de estudo dos textos
neotestamentários inverteram a pergunta pelo Sitz im Leben (situ-
ação vivencial), para a questão religiosa da fé e do indivíduo. Isso
significa que esses teólogos interpretaram o Novo Testamento,
bem como os Sinóticos, não a partir de seus contextos históricos-
-sociais específicos, mas a partir do que tais textos significavam
para a cristandade contemporânea.
Assim, a leitura voltava-se mais para o significado da mensa-
gem, em perspectiva existencial, do que para a reconstrução das
origens cristãs. Em contrapartida, tanto a história da forma quanto
a história da religião perguntavam pelo fundo social da redação
dos Sinóticos.
Para Theissen (1987), os textos cristãos primitivos, funda-
mentalmente "(...) são textos de uma comunidade, que têm uma
dimensão social".
Consequentemente, a investigação sociológica da Bíblia
deve ser desenvolvida a partir de dois princípios:
• da história contemporânea;
• do método histórico-formal.
O primeiro princípio, da história contemporânea, investiga
a estrutura social palestina no mundo antigo e, o segundo, torna
acessível o perfil dos grupos sociais que estão por trás dos Sinóti-
cos (THEISSEN, 1987).
Com base nessas chaves, portanto, podemos entender que,
antes de ser redação, o texto denota o relato de certa época. Logo,
traz na sua composição elementos que denunciam aspectos da
cultura, da religiosidade e da política que constituíram o ethos da
comunidade que o concebeu e, concomitantemente, o leu.

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42 © Evangelhos Sinóticos

Isso é o que chamamos relação dialógica entre texto e grupo


social que o elabora: à medida que o texto é elaborado e dado à
audiência, é dado também à reflexão e à mudança. Assim, o texto
não permanece o mesmo porque propõe algo para a comunidade
que o experimenta em seu cotidiano, apropriando-se do texto e
ressignificando-o fluidamente. Portanto, a dinâmica entre gênero,
texto e interlocutor, é circular e ao mesmo tempo material, visto
que os textos abordam temas do cotidiano das comunidades, sa-
bedoria, profecia e crítica social.
Além disso, é necessário considerar que o contexto em que
se dão os acontecimentos das origens cristãs é marcado pela con-
fluência de dois mundos. Confluência ocasionada pelo encontro
de gregos e judeus, pela mútua influência que uma cultura exer-
ceu sobre a outra, o que gerou novos e diferentes horizontes de
compreensão sobre estrutura social, política, cultura e religião
para ambos os povos. Algo que exerceu forte apelo na formação
do cristianismo do século 1º.
Em seus estudos sobre o Novo Testamento, o autor Joaquim
Jeremias (1983) perguntou exatamente pela relação entre os âm-
bitos que constituem a vivência cotidiana dos judeus e as suas
ideias religiosas. Para ele, os textos neotestamentários deixariam
transparecer aspectos sociopolíticos e religiosidade popular carac-
terísticas do tempo de Jesus.
Para justificar que a literatura bíblica, em especial, os Sinóti-
cos "espelham" contextos históricos e sociais das primeiras comu-
nidades cristãs, Theissen (1987, p. 15) propôs que "assim como a
história contemporânea evoluiu para história social, assim também
a história da forma se desenvolveu para sociologia da literatura",
diferenciando-se em três aspectos da história da forma clássica.
Assim, é preciso saber que a sociologia da literatura objetiva:
• Verificar a situação e o lugar vivencial desses grupos, si-
tuando-os junto com sua literatura no âmbito de toda a
sociedade.
© U1- Introdução ao Estudo dos Sinóticos 43

• Explorar os interesses sociológicos das comunidades e es-


clarecer suas condições não-religiosas.
• Investigar as relações concretas e modos de relaciona-
mentos que subjazem o texto.

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
A transmissão das palavras de Jesus no cristianismo primitivo é um problema so-
ciológico, sobretudo, pelo fato de Jesus não haver fixado suas palavras literaria-
mente. Uma tradição literária pode preservar-se durante um determinado perío-
do, mesmo que não tenha significado algum para o comportamento das pessoas
ou quando suas intenções se contrapõem a esse comportamento (THEISSEN,
1987).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
De acordo com essa perspectiva metodológica, o estudo dos
Sinóticos busca clarificar as "relações concretas" entre os grupos
sociais – as audiências – dos evangelhos e os âmbitos sociopolíti-
cos, culturais e religiosos indicados nos interstícios desses textos.
Portanto, esse "caminho" de estudo dos Sinóticos prioriza a iden-
tificação do mundo social subjacente à formação de cada Evan-
gelho, como instrumento que nos possibilita verificar a própria
dinâmica interna dos grupos sociais projetados pelos evangelhos,
entendidos como fontes do período.
Podemos entender que essa será a perspectiva que adotare-
mos para estudar os Evangelhos Sinóticos, conforme verificaremos
adiante.

7. SABEDORIA E CRÍTICA SOCIAL NAS ORIGENS CRISͳ


TÃS
Conhecer o mundo social dos cristãos das origens não é uma
tarefa fácil. Principalmente, quando esse "mundo social" está nos
olhos de quem vê. É comum que os leitores modernos, sejam lei-
gos, líderes eclesiásticos, teólogos, historiadores ou estudantes,
ao interpretarem a literatura bíblica, projetem suas próprias ex-
pectativas sobre o que teria sido o mundo dos tempos de Jesus.
Por causa dessas projeções, ora os evangelhos parecem libertários

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44 © Evangelhos Sinóticos

– em função de leituras mais politizadas –, ora se tornam mais es-


pirituais ou até mesmo, mais esotéricos. As diferentes formas de
compreender os evangelhos ocorrem em função dos "óculos" de
cada intérprete.
Nos últimos anos, a academia de estudos bíblicos tem apre-
sentado diferentes versões sobre vida, ministério e movimento de
Jesus. Ora ele aparece como sábio, conforme um modelo filosófi-
co grego, ora se torna uma figura profética/messiânica, de acordo
com a tradição judaica. Dessa forma, decorrem desses modelos
diversas reconstruções das comunidades cristãs das origens: po-
litizadas, dadas à sabedoria, escatológicas etc. Todas as leituras,
no entanto, amparam-se na exegese dos mesmos textos neotesta-
mentários e, em especial, nos Evangelhos Sinóticos.
A esse respeito, o estudioso F. Gerald Downing propôs:
We do not know enough about Jesus to allow us to construct a cle-
ar account of the primitive church because we do not know enough
about the primitive church to allow us to construct a clear account
of Jesus (cf. DOWNING, F. G. The Church and Jesus. In: SBT 2.10
(1968): p. 51).
(Não conhecemos o suficiente a respeito de Jesus que nos permita
construir uma hipótese clara sobre a igreja primitiva porque não
conhecemos o suficiente sobre a igreja primitiva que nos permita
construir uma hipótese clara sobre Jesus).

Com esse trocadilho em mente, vamos conhecer algumas


hipóteses a respeito da história de Jesus a partir dos evangelhos
sinóticos, aqui entendidos como nossas fontes primárias.

Influências gregas na formação e no estilo dos evangelhos


Considerando os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas em
conjunto, alguns pesquisadores perceberam que esses textos pos-
suíam coleções de ditos de sabedoria muito usados no período do
século 2º antes da Era Cristã.
No contexto grego, essas coleções tinham como objetivo as-
segurar a memória e preservar os ensinos de certos filósofos. Os
© U1- Introdução ao Estudo dos Sinóticos 45

compêndios de ditos de sabedoria eram conhecidos como Vita ou


Bios, pois pretendiam transmitir os ensinos das escolas – das li-
nhas filosóficas – e, ao mesmo tempo, serviam como propaganda
do programa filosófico de certos mestres.
Como introdução dessas coleções, alguns textos possuíam
as biografias dos mestres que destacavam feitos, virtudes, atitude
em relação à matéria, política, projetos e glórias desses filósofos.
Tais virtudes colecionadas indicavam a capacidade de cada mestre
responder às questões de seu tempo.
Nos evangelhos, assim como na Fonte Q (ou Fonte dos Ditos
de Jesus, que explicaremos no decorrer da unidade), Jesus é apre-
sentado de modo semelhante, isto é, como espécie de sábio que
com seu discurso – um programa de vida ético e moral – arregimen-
tava seguidores por onde passava. A proclamação (querigma) dis-
corria sobre o certo e o errado, sobre o bem e o mal e, assim como
outros filósofos, tecia considerações críticas sobre o modo de vida
daqueles que se submetiam ao jugo imperial (DOWNING, 1994).
As diversas escolas tratavam de ganhar novos seguidores por meio
de discursos (...). Este dogma era o único caminho para a felicidade.
O kerigma cristão também falava da ignorância dos homens, pro-
metia dar-lhes um conhecimento melhor e, como todas as filoso-
fias, fazia referência a um mestre que possuía e revelava a verdade
(JAEGER, 1965. p. 21).

Algumas importantes características aproximam os evange-


lhos dessas coleções de ditos:
• Apresentação de Jesus como mestre e profeta que ensina
com discursos.
• Discursos eram compostos por ditos de sabedoria inseri-
dos em histórias, isto é, molduras narrativas.
• Sabedoria expressa nos ditos era produzida conforme a si-
tuação vivencial dos grupos para os quais eram proferidos
em decorrência do contexto histórico-social específico.
Os ditos de sabedoria estariam presentes não apenas nos
evangelhos canônicos, mas também em outros que, posterior-

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46 © Evangelhos Sinóticos

mente, foram considerados apócrifos – como o Evangelho de Tomé


–, o que indica que esse estilo literário era utilizado por gregos e
por judeus, talvez, por ser típico do período, algo "popularizado"
em função de uma cultura mediterrânea. Concordando com esse
argumento, o pesquisador John Kloppenborg admitiu certa proxi-
midade entre a retórica grega e as fontes como Provérbios e Abot
(Ditos dos Pais), nesse ponto, foi apoiado, ainda, pelo pesquisador
James M. Robinson.
Para entender melhor esse assunto, veremos, a seguir, um
exemplo:
O programa ético de Jesus poderia ser identificado em al-
guns estratos neotestamentários como, por exemplo, em Mateus
8,18-22 e Lucas 9,57-62.

Quadro 2 Comparativo das perícopes


Mateus 8,18-22 Lucas 9,57-62
18 Vendo Jesus que estava cercado 57 Enquanto prosseguiam viagem,
de grandes multidões, ordenou que alguém lhe disse na estrada: "Eu te
partissem para a outra margem do lago. seguirei por onde quer que vás".

19 Então, chegou-se a ele um escriba e 58 Ao que Jesus respondeu: "As raposas


disse: "Mestre, eu te seguirei para onde têm tocas e as aves do céu, ninhos; mas
quer vás". o Filho do Homem não tem onde reclinar
a cabeça".
20 Ao que Jesus respondeu: "As raposas
têm tocas e as aves do céu têm ninhos; 59 Disse a outro: "Segue-me". Este
mas o Filho do Homem não tem onde respondeu: "Permite-me ir primeiro
reclinar a cabeça". enterrar o meu pai".

21 Outro dos discípulos lhe disse: 60 Ele replicou: "Deixa que os mortos
"Senhor, permite-me primeiro ir enterrar enterrem seus mortos; quanto a ti, vai
meu pai". anunciar o reino de Deus.

22 Mas Jesus lhe respondeu: "Segue-me 61 Outro disse-lhe ainda: "Eu te seguirei,
e deixa que os mortos enterrem seus Senhor, mas permite-me primeiro
mortos". despedir-me dos que estão em minha
casa".

62 Jesus, porém, lhe respondeu: "Quem


põe a mão no arado e olha para trás não
é apto para o reino de Deus".
© U1- Introdução ao Estudo dos Sinóticos 47

O Quadro 2 apresentado anteriormente indica algumas di-


ferenças e similaridades entre os trechos de Mateus e Lucas. Não
há diferenças significativas de conteúdo, mas na forma da escrita.
Enquanto Mateus acentua que Jesus era seguido por multidões
e fala da travessia de um lago, Lucas menciona apenas que Jesus
estava em uma viagem, indo por uma estrada. Mateus fala de um
escriba que se dirige a Jesus em uma pergunta. Lucas não especifi-
ca quem é a pessoa que questiona Jesus. A despeito dessas obser-
vações, entretanto, os ditos de sabedoria podem ser identificados
em Mateus 8,20,22 e Lucas 9,58, 60,62.
As diferenças seguem. Enquanto Mateus cessa a narrativa
no verso 22, Lucas dá continuidade à história com a inserção de
dois outros versos. Neles, Jesus conversa com outro seguidor des-
conhecido, o que não seria muito, caso não houvesse a introdução
do tema "reino de Deus", feita nos ditos dos versos 60 e 62 de
Lucas.
Daí surge o questionamento: Mateus omitiu esses dois ver-
sos ou Lucas os acrescentou?
Parece-nos provável que Lucas tenha acrescido esses versos,
isso porque seria o Evangelho escrito mais tardiamente, portan-
to, distante dos eventos relacionados a Jesus. Todavia, a peculia-
ridade do acréscimo, que introduziu à perícope o tema "reino de
Deus" (matéria típica da apocalíptica judaica e dos tempos de crise
ocasionados pelo não retorno imediato de Jesus) levanta dúvida
quanto à inserção tardia.
Tradicionalmente, a escrita de Lucas tem sido interpretada
como "endereçada aos gentios", o que exclui o tratamento do
tema "reino de Deus" em perspectiva judaica. Mas, a escrita de
Mateus mais elaborada, sucinta e carregada de termos judaicos,
sugere que esse Evangelho teria recebido maior tratamento na re-
dação. Mateus teria, portanto, mais interesse na audiência judai-
ca e, pelo caráter elaborado do texto, supõe-se que o trabalho de
compilação dos redatores foi maior nesse Evangelho.

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48 © Evangelhos Sinóticos

Ao ler atentamente as perícopes de Mateus 8,18-22 e Lucas


9,57-62, verificamos nos ditos de Jesus inseridos nas narrativas se-
melhanças entre a figura de Jesus dos evangelhos e a figura de um
sábio que apresenta seu programa ético aos discípulos, bem ao
modo grego:

Quadro 3 Ditos de sabedoria


DITOS DE SABEDORIA TEMAS
"As raposas têm tocas e as aves do céu têm O profeta/sábio não tem parada, portanto,
ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde não tem vínculo com lugar ou quaisquer bens
reclinar a cabeça". materiais.
"Segue-me e deixa que os mortos enterrem O profeta/sábio não tem vínculos com família
seus mortos". ou pátria; antes, é avesso às configurações
sociais típicas.
"Quem põe a mão no arado e olha para O profeta/sábio se entrega inteiramente
trás não é apto para o reino de Deus". ao seu programa de vida (proclamação/
filosofia), na expectativa de obter
algo maior – a felicidade (nos termos
filosóficos) ou o reino de Deus (nos
termos judaico-cristãos).

Nessa perspectiva, para seguir Jesus, tanto quanto para se-


guir o programa de um filósofo antigo, era necessário ceder a trí-
ade:
• não ter apego aos bens materiais;
• não ter apego a vínculos sociais (tribos, clãs, famílias);
• não ter apego a lugares geográficos. Ser, portanto, desar-
raigado e itinerante.
Segundo essa abordagem, os itinerantes desligavam-se das
instituições – clã, família, comunidade – e assumiam postura autô-
noma (Mt 8,14; Lc 12,52-53). Os primeiros cristianismos, de certa
forma, ainda vinculados às velhas estruturas por múltiplos laços e
obrigações, com os carismáticos itinerantes ganharam novo aspec-
to. "O conceito de carismático indica que seu papel não era uma
forma de vida institucionalizada, (...) baseava-se num chamado ex-
terno incondicional" (THEISSEN, 1997. p. 16).
© U1- Introdução ao Estudo dos Sinóticos 49

Esse conjunto de princípios assemelhava-se ao programa


ético-filosófico propagado pelos cínicos, grupo de filósofos atuan-
tes na Decápole por volta do século 1º (SILVA, 1996). Evidências
que poderiam confirmar a influência do mundo helênico sobre as
comunidades cristãs das origens.

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Jesus nasceu, cresceu e atuou na Galiléia. Local formado por aldeias e cultura
camponesa. Contudo, ao seu redor estavam cidades helenizadas como Tiro, Sí-
dom e Ptolemaida. Assim, o intercâmbio cultural deveria ser acentuado, propor-
cionando trocas simbólicas nos sistemas interpretativos de ambas as tradições
culturais. Para se aprofundar no assunto leia: MEEKS, H. C. Os primeiros cris-
tãos urbanos. O mundo social do apóstolo Paulo. São Paulo: Edições Paulinas,
1992. (Coleção Bíblia e Sociologia); e do mesmo autor, o capítulo: Early Christia-
nity in the Galilee: Reassessing the evidence from the Gospels. In: Lee I. Levine
(Ed.). The Galilee in the Late Antiquity. Cambridge, Massachusetts and London:
Harvard University Press, 1992. p. 3-22.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
A tríade mencionada anteriormente é confirmada por Theis-
sen. Ele entendeu que os primeiros cristãos eram itinerantes e se
caracterizavam por três tipos de comportamentos:
1) "As palavras de Jesus apresentam uma ética de pessoa sem
pátria, sem querência. O chamado do seguimento significa:
renúncia à stabilitas loci (posição estável)" (Mt 8,20 = Lc 9,58;
Didaqué 11.8).
2) "Os ditos representavam uma ética a-familiar. A renúncia à sta-
bilitas loci inclui o rompimento dos laços familiares" (Lc 14,26;
Mt 10,29; Mt 8,22 = Lc 9,60).
3) "(...) a terceira característica da tradição das palavras é a crítica
à riqueza e à propriedade" (Mc 10,17ss; Mt 1,19-21; Mt 10,25.)
(THEISSEN, 1987, p. 37-40).

Essas características que traçavam o perfil do cristão-itine-


rante tornariam-no mal visto pelos judeus tradicionais (Mc 6,4),
que preservavam a moral familiar. O comportamento desses itine-
rantes era difícil de se justificar segundo os costumes judaicos. O
comportamento recomendado ao itinerante era que:
• Não permanecesse mais que um dia no mesmo lugar (Di-
daqué 11,6).

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50 © Evangelhos Sinóticos

• Fizesse voto de pobreza (não deveria levar consigo dinhei-


ro, nenhuma sacola, nem sandália, nem bordão, apenas
uma túnica (cf. Mt 10,10; Didaqué 11,6).

Didaqué: Capítulo 11 - Os Apóstolos e Profetas –––––––––––


6 - Na sua partida, o apóstolo não leve nada, a não ser o pão necessário até a
seguinte estação; se, porém, pedir dinheiro é falso profeta.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Além disso, o desmantelamento da família como condição
necessária para o fim dos tempos (Lc 12,52) e o novo paradigma
de família destacavam a missão de anunciar o Reino. Os familia-
res mais íntimos do cristão-itinerante eram aqueles que com ele
anunciavam as palavras de Jesus (Mc 3,35).
Aquele que renunciasse à pátria, à família e à riqueza rejeita-
va as preocupações cotidianas. Destarte, libertar-se-ia do jugo da
materialidade (cf. Mt 6,25-34).
O radicalismo ético da tradição das palavras de Jesus é um radica-
lismo itinerante. Ele somente pode ser praticado e transmitido sob
condições extremas de vida: somente quem está desligado das re-
lações do mundo, somente quem abandonou casa, mulher e filhos,
quem deixou aos mortos enterrar os seus mortos e toma os pássa-
ros e os lírios como exemplo pode renunciar à moradia, à família, à
propriedade, ao direito e à defesa. Somente em tais circunstâncias
podem ser transmitidas semelhantes orientações sem que caiam
do descrédito (THEISSEN, 1987, p. 41).

Assim, as palavras de Jesus expressas na forma de ditos de


sabedoria conclamavam o interlocutor a desenvolver certa postu-
ra ética que assumia posição de inadequação à religião judaica e
ao Estado romano. O cristão-itinerante era aquele que rompia com
os vínculos ligados à tradição judaica e assumia o perfil marginali-
zado, de auto-estigmatizado.
Através da auto-estigmatização, a pessoa assume conscientemente
as imputações negativas para com isso redefini-las e transformar a
culpa em graça. Não se trata de um masoquismo inútil, mas de um
tipo de estratégia que testa não apenas a força e poder, mas tam-
bém a impotência dos seus destinatários
© U1- Introdução ao Estudo dos Sinóticos 51

(...) A auto-estigmatização empurra o adversário para o déficit de


legitimidade, coloca em dúvida seus valores e procura revertê-los.
Com isso, elimina a estigmatização.
(...) Ao confirmar o estigma como valor próprio, a pessoa estigmati-
zada se torna modelo para muitos e atrai a simpatia e a compaixão.
Os tipos principais de auto-estigmatização são exibicionismo, pro-
vocação, ascese e êxtase (VOIGT, 1999. p. 49).

Mas, como propomos inicialmente, se entendermos que a


literatura bíblica espelha e projeta o cotidiano das comunidades
no desenvolvimento de sua teologia, modo dialógico, os ensina-
mentos do Nazareno, bem como de seus discípulos, norteavam a
experiência religiosa de tais grupos sem, contudo, desautorizar a
Lei, a tradição judaica e as memórias dos patriarcas. Os próprios
ensinamentos de Jesus originaram-se no judaísmo, seja para criti-
cá-lo, complementá-lo ou reforçá-lo. A religião judaica constituía a
base de Israel. Tratava-se do que conferia sentido ao povo. Portan-
to, foi o que também contribuiu para a formação do cristianismo.
Decorre disso, assim, que a identidade social das primeiras
comunidades cristãs estava marcada por elementos da tradição
religiosa judaica.
Os evangelhos sinóticos, como espelho da teologia e do
mundo social desses primeiros cristãos, trazem características da
situação vivencial desses grupos. Assim, sabedoria e crítica social,
elementos característicos do judaísmo antigo, constituíram as lin-
guagens fundantes da experiência religiosa e da identidade dos
primeiros cristãos. Esses elementos em conjunto forjaram a base
do cristianismo como horizontes culturais sobre os quais repousou
as expectativas dos primeiros cristãos.
Mas, como se possibilitou essa confluência? Quais os pro-
cessos que contribuíram para o encontro de tradições distintas no
bojo do cristianismo? Tentaremos responder essas questões no
próximo tópico.

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52 © Evangelhos Sinóticos

8. CONFLUÊNCIA DE HORIZONTES CULTURAIS


Duas foram as vias pelas quais o cristianismo se assentou:
processos políticos e culturais. De um lado, a política imperial ex-
pansionista forneceu a linguagem universalizante, "urbana" e éti-
ca. De outro, o judaísmo contribuiu com arcabouço simbólico, com
memória e noções de religião.
Na primeira instância, o intercâmbio sócio-político desenvol-
vido em função das conquistas e intervenções entre as culturas do
Mediterrâneo e, posteriormente, com a helenização do Oriente,
proporcionou o que a Antropologia cultural denomina apropriação
e re-significação de linguagens (GEERTZ, 1997).
As culturas dos povos do Mediterrâneo Antigo foram cons-
tituídas de elementos comuns. Se analisadas comparativamente –
por exemplo, por meio da história comparada das religiões – pode-
mos identificar estruturas simbólicas convergentes entre os povos
do mundo antigo. É ilustrativo, desse ponto, o compartilhamento
de mitos e mitemas, de simbolismos religiosos, cúlticos e rituais,
de concepções de sistema de governo, por exemplo.
Assim, admitir apenas a influência grega sobre a formação
do cristianismo é insuficiente para compreender a história de suas
ideias. Além do contexto de dominação romana, da cultura helê-
nica e dos contatos com o pensamento ocidental, outro conjunto
de saberes e de experiências é fundante para as origens cristãs, a
saber: a matriz judaica.

Tradições culturais de judeus e de gregos nos Sinóticos


A experiência religiosa das primeiras comunidades não se
deu de modo unívoco no âmbito em que circularam os ditos de Je-
sus, memórias sobre seus ensinamentos e possíveis materiais que
serviram como subsídios para os Evangelhos.
Alguns grupos cristãos se destacaram pelo caráter apocalíp-
tico, outros pela crítica social-profética e outros pela sabedoria. A
© U1- Introdução ao Estudo dos Sinóticos 53

maneira como a identidade religiosa de cada grupo se estabeleceu,


entretanto, não se desenvolveu a partir de regra fixa. Na mesma
comunidade o elemento apocalíptico, a crítica social-profética e a
sabedoria poderiam estar presentes, como verificamos em Lucas
9,57-62, por exemplo.
Portanto, a discussão quanto às influências na redação dos
Sinóticos não pode ficar circunscrita à sabedoria dos filósofos cíni-
cos. A sabedoria contida nessas fontes também decorre da tradi-
ção sapiencial judaica, que foi transmitida oralmente e teve seus
primeiros registros em Provérbios e Jó. No período pós-exílico, foi
representada pelos livros Sabedoria e Sirácida, chegou à sapiência
de Qunram (também conhecidos como Rolos do Mar Morto) em
4Q Instruction e 4Q Mysteries e, no século 1º pode ser identificada
no Testamento dos 12 Patriarcas, que deixou instruções sapien-
ciais para os filhos de Israel.

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
O debate quanto à autoria e local de redação dos Testamentos é muito amplo,
desde hipóteses que concedem a autoria para judeus-cristãos do século 1º da
EC até proposições de que teriam sido escritos já no século 2º da EC, a partir
dos escritos neotestamentários. Nesses casos, os pesquisadores tendem a situ-
ar os Testamentos na Síria. Mas, há pesquisadores que consideram a redação
judia, talvez qumrânica, do século 1º AEC (70-40 AEC, época dos Salmos de
Salomão), na Palestina. Em todo caso, quanto ao lugar de composição há maior
consenso de que teria sido produzido no Egito helenístico, em função dos poucos
conhecimentos sobre a Palestina que o autor demonstra.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Portanto, no contexto histórico e social que subjaz aos Si-
nóticos, sabedoria e profecia constituíram elementos fundantes e
em diálogo. Isso indica que a sabedoria presente nos Evangelhos
não pode ser atribuída tão-somente aos gregos. As fronteiras en-
tre cultura helena e cultura judaica, diante do avanço do Estado ro-
mano, do estabelecimento da polis e da propagação do helenismo,
tornavam-se cada vez mais tênues. A troca de informação cultural
era inevitável e aconteceu, mas não se pode afirmar que o cristia-
nismo das origens tenha rompido com o judaísmo.

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54 © Evangelhos Sinóticos

Entretanto, o intercâmbio não foi aceito "ecumenicamente".


Basta lembrar que a "contaminação" da religião e da cultura ju-
daica era constantemente evitada, por considerar abominável o
contato com a impureza pagã, nem sempre cristãos-judeus con-
cordaram com a conversão dos gentios. As próprias lideranças de
Jerusalém que mantinham relações com as autoridades romanas
eram constantemente criticadas pelos contatos. Roma permitia
que os judeus prestassem culto a Iahweh, desde que não esque-
cessem as obrigações tributárias, os impostos diziam respeito às
obrigações para com o Estado (Mt 22,21; Mc 12,14-17; Lc 20,22-
25), mas isso não evitou a crítica social às lideranças religiosas sub-
missas ao Império.
Fariseus, escribas e saduceus, apesar de se declararem au-
toridades judaicas, constituíam parte da elite local favorecida pela
relação de patrocínio que possuíam junto à ordem imperial. Nesse
sentido, o "outro", opositor e adversário na redação mateana, era
constituído pelo Império Romano e sua extensão servil intitulada
hipócrita formada pelos partidos fariseus, escribas e saduceus (Mt
6,2,5,16; 22,18; 23,13-15,23,25,27,29; 24,51) (RODRIGUES, 2007).
Mesmo que indesejados, os contatos entre judeus e roma-
nos ocorreram muitas vezes; prova disso é repulsa pela contami-
nação evidente no material mateano. Embora esse seja um aspec-
to da redação mateana, sua aparição indica o intercâmbio e, a esse
respeito, nos ocuparemos a seguir.

9. IDENTIDADE SOCIAL DAS PRIMEIRAS COMUNIDAͳ


DES CRISTÃS
A antropologia cultural propõe "que não existem de fato
homens não-modificados pelos costumes de lugares particulares,
nunca existiram [...]" (GEERTZ, 1989, p. 47). Isso podemos perce-
ber no exame dos Sinóticos.
Notamos que as convergências éticas dos cristãos primitivos
e dos filósofos cínicos podem ser comparadas em três aspectos:
© U1- Introdução ao Estudo dos Sinóticos 55

• a existência apátrida;
• o rompimento com a tradição da família;
• a renúncia à propriedade.
Assim, como os cristãos que circulavam pelos povoados e
aldeias propagando os ensinamentos de Jesus, os cínicos compor-
tavam-se à moda itinerante. A analogia se estabelece em função
de fatores estruturais, mas não exatamente em função de "corres-
pondências históricas" e dependência.
O movimento dos primeiros cristãos, portanto, não pode ser
enquadrado em uma perspectiva unívoca, lembrando que a ima-
gem da Igreja, como foi consolidada na visão constantiniana, deve-
-se a Eusébio de Cesareia (263-339 EC). Um historiador que serviu
aos interesses de Constantino para justificar a construção de uma
religião e teologia que servissem aos propósitos do Império.
Existem dois erros sobre a origem do cristianismo no perío-
do que vai de 30-70 da Era Cristã: o primeiro de origem cronológi-
ca, baseado na interpretação dos quatro evangelhos, e o segundo
de origem geográfica, com base nos Atos dos Apóstolos. É errôneo
interpretar a fundação da Igreja no mesmo período em que se deu
a atuação do Jesus Histórico ou logo em seguida a sua morte-res-
surreição. Antes da Igreja, houve o movimento de Jesus, "onde co-
existiu pluralidade de tendências e seitas, unidas certamente por
um mesmo espírito e a tradição primitiva do batismo e eucaristia"
(RICHARD, 1995, p. 8-9).
Por isso, a interpretação geográfica que se baseia no ma-
terial lucano como principal narrativa da origem do cristianismo,
esconde aspectos relevantes para reconstrução da história da cris-
tandade. Isso porque apresenta as origens no Ocidente, na direção
que vai de Jerusalém a Roma, passando por Antioquia, Galácia,
Éfeso, Corinto e outras.

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56 © Evangelhos Sinóticos

Informação Complementar –––––––––––––––––––––––––––––


O Mediterrâneo, que foi espaço de expansão do cristianismo, era um espaço
fechado: ao oeste, pelo imenso e inexplorado Oceano Atlântico; ao norte, pelas
selvas impenetráveis do norte da Europa e ao sul, pelo grande deserto do Saara.
O Império Romano ocupava somente o centro deste espaço
"(...) A Palestina e a Síria estavam fundamentalmente abertas para o oriente,
ligadas a essas regiões pelo caminho da seda. Este é o marco fundamental das
origens do cristianismo" (RICHARD, 1995, p. 9).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Se o argumento geográfico não é suficiente para desqualifi-
car a chegada do Império Romano e toda a influência que exerceu
sobre a cultura judaica, ele serve, no mínimo, para relativizar os ar-
gumentos que enfatizam a influência ocidental nas origens cristãs
e nos Evangelhos Sinóticos.
Os evangelhos sinóticos são tradições que fundem gêneros
literários, assim como a experiência dos primeiros cristãos fundiu
elementos da cultura helênica e judaica. Essas fontes expressam o
"caldeirão cultural" formado no século 1º, composto pelas ques-
tões e expectativas cotidianas dos vários cristãos espalhados pela
Galileia e arredores.
No debate sobre campo e cidade, refletem-se, também, as
trocas culturais, visto que as origens cristãs se projetam para o
mundo, emergindo de pequenas aldeias – com artesãos, pescado-
res e figuras simples –, em direção às cidades helenizadas. Na me-
dida em que o processo de helenização do Oriente se ampliava, o
mundo social dos primeiros cristãos fundia elementos característi-
cos da realidade camponesa, mas também de elementos urbanos
(NOGUEIRA, 1999, p. 29-40).
A identidade social das primeiras comunidades deve ser
entendida à luz de um conjunto de relações mais amplas do que
imaginamos comumente. Se por um lado Roma representava um
império dominador, por outro, os povos e as culturas dominadas
não poderiam ser classificadas apenas como passivas.
Nesse espectro relacional, é que a noção de identidade se
constrói a partir de processos de relação que envolvem negação e
© U1- Introdução ao Estudo dos Sinóticos 57

assimilação do "outro". O que implica dizer que nem os gregos-ro-


manos permaneceram os mesmos, nem os judeus-cristãos man-
tiveram uma cultura pura, como se verifica nos Evangelhos e na
literatura neotestametária de modo geral.
Tendo em vista esse quadro histórico e político da situação
em que viveram os cristãos das origens, como eles teriam se orga-
nizado após o movimento de Jesus?

10. PRIMEIRAS COMUNIDADES CRISTÃS: ITINERANͳ


TES OU LOCAIS?
Na hipótese de Theissen, o movimento de Jesus que origi-
nou os primeiros cristianismos iniciou com a itinerância de cará-
ter missionário. Para esse autor, os itinerantes eram autônomos e
baseavam-se num chamado "externo incondicional".
Os carismáticos itinerantes não eram um fenômeno marginal no
movimento de Jesus. Foram eles que marcaram as tradições mais
antigas e constituem o fundo social para a maior parte da tradição
sinótica, especialmente a tradição dos ditos de Jesus (logia) (THEIS-
SEN, 1997, p. 18).

Seguindo nessa perspectiva, as comunidades locais per-


maneciam dentro do judaísmo, sem pretensão de formar igreja.
Entende-se que havia pequenos núcleos de simpatizantes que
recebiam os "carismáticos itinerantes". Seriam famílias que aco-
lhiam em suas casas os cristãos de passagem. Na região palestina,
somente em Jerusalém (At 1ss) e Judeia (Gl 1), existiram comuni-
dades locais. Outras pertenciam a regiões helenizadas como Cesa-
reia, Ptolemaida, Tiro, Sidom, Antioquia e Damasco (cf. At 10,1ss;
21,3-7; 11.20; 9.10).
Theissen usou o termo "carismático" segundo a definição de
M. Weber, que afirma:
Denominamos carisma uma qualidade pessoal considerada extra-
cotidiana (na origem, magicamente condicionada, no caso tanto
dos profetas quanto dos sábios curandeiros ou jurídicos, chefes de
caçadores e heróis de guerra) e em virtude da qual se atribuem a

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58 © Evangelhos Sinóticos

uma pessoa poderes ou qualidades sobrenaturais, sobre-humanos


ou, pelo menos, extracotidianos específicos ou então se a toma
como enviada por Deus, como exemplar e, portanto, como líder
(WEBER, 2004. p. 141).

Os adeptos são considerados "dominados" por Weber e os


carismáticos, portanto, seriam os "dominadores" cuja autoridade
é reconhecida pelos "adeptos". Esse reconhecimento é "consoli-
dado em virtude de provas – originariamente, em virtude de mila-
gres – e oriundo da entrega à revelação, da veneração de heróis ou
da confiança no líder" (WEBER, 2004. p. 158-159).
Nessas comunidades, havia certa regulamentação de condu-
ta – nas comunidades da Ásia, essa regulamentação era fornecida
pelas cartas de Paulo –, que concedia parâmetros para o compor-
tamento e o convívio social dos primeiros cristãos.
A pluralidade de interpretações que caracterizava os cristia-
nismos pode-se verificar na maneira como os primeiros cristãos
atendiam aos ensinamentos de Jesus. Enquanto itinerantes eram
mais contundentes nas suas críticas ao Templo e às lideranças ju-
daicas, os cristãos de comunidades locais conformavam-se à tole-
rância e aos preceitos da Lei judaica, tendo como base esperança
do retorno de Jesus. Dessa forma, "havia (...) um ethos diferencia-
do para carismáticos itinerantes e para simpatizantes residentes"
(THEISSEN, 1997, p. 22-24).
As lideranças e autoridades dessas comunidades funciona-
vam conforme o número de integrantes. Os itinerantes constitu-
íam as autoridades em pequenos núcleos. Em geral, os assuntos
eram decididos de modo comum e em grupos maiores se esta-
beleciam bispos e diáconos. Para se regulamentar a pertença em
comunidade local, não havia critério rígido determinado. Prova-
velmente, o batismo tornou-se um ritual iniciatório (cf. Mt 28,19;
Didaqué 7), mas com o tempo adquiriu, também, outras funções.
Capítulo 7 - Instrução sobre o batismo.
1. No que diz respeito ao batismo, batizai em nome do Pai e do
Filho e do Espírito Santo em água corrente (cf. Mt 28,19).
© U1- Introdução ao Estudo dos Sinóticos 59

2. Se não tens água corrente, batiza em outra água; se não pude-


res em água fria, faze-o em água quente.
3. Na falta de uma e outra, derrama três vezes água sobre a cabe-
ça em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
4. Mas, antes do batismo, o que batiza e o que é batizado, e se ou-
tros puderem, observem um jejum; ao que é batizado, deverás
impor um jejum de um ou dois dias (THEISSEN, 1997, p. 24-25).

Em função desse quadro, Theissen (1997, p. 26) sugeriu que:


A investigação de comunidades locais demonstrou que elas preci-
sam ser entendidas a partir de seu relacionamento complementar
com os carismáticos itinerantes. O radicalismo dos carismáticos
itinerantes tornava-se possível apenas com a base material nas co-
munidades locais. Eram elas que, até certo ponto, os aliviavam de
preocupações cotidianas
(...). Uma ética escalonada unia e diferenciava as duas formas so-
ciais do movimento de Jesus.

Em oposição a essa hipótese, R. A. Horsley (2000) afirmou


que os primeiros cristãos saíam do campo para a cidade, o que jus-
tificaria o desmantelamento das famílias e a elaboração de novos
modelos de agrupamentos cujo ideal seria comunitário, de par-
tilha e de igualdade. Algo que ajudaria esses cristãos a suportar
as angústias e as pressões cotidianas. Para Horsley (2000), as co-
munidades locais tiveram prioridade na formação dos primeiros
cristianismos.
Horsley (2000) argumentou que a partir da revisão de evi-
dências arqueológicas e literárias houve pouco mais que uma fina
camada de cultura cosmopolita nas cidades da Baixa Galileia, no
início do século 1º EC. Quanto à proposição de um "Jesus quase-
-cínico", Horsley afirmou, ainda, que seria problemático descon-
siderar outras evidências na pesquisa sobre a recepção dos cam-
poneses galileus às influências exercidas sobre eles por Séforis e
Tiberíades. Segundo esse autor, os relatos de Josefo sobre os even-
tos em 4 AEC indicam que houve forte reação aos governantes e
suas políticas urbanas.

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60 © Evangelhos Sinóticos

É difícil (...) compreender como a influência cínica especificamente


se adaptaria às circunstâncias peculiares dos galileus coagidos a se
ajustarem, econômica e culturalmente, à presença urbana recen-
temente intensificada em seu meio. Temos a sensação geral que
os filósofos cínicos eram de fato "não-convencionais" ou "contra-
culturais"
[...] Isso se adaptaria melhor à situação de uma cultura convencio-
nal antiga. Tanto a cultura judaica como a cultura helenístico-roma-
na, porém, teriam sido relativamente novas na Galiléia e presentes
principalmente nas cidades-capitais (HORSLEY, 2000, p. 159).

Segundo esse argumento, os primeiros cristãos não teriam


assimilado tão arrebatadoramente influências cínicas ou culturais
imperiais do mundo cosmopolita grego. Isso porque tanto cultu-
ra judaica como grega estavam presentes na Galileia não havendo
uma cultura convencional.
Jesus e seu movimento pareciam ter sido 'cínicos' de um modo
mais profético de 'consciência de classe', com relação a reis em
seus palácios e banquetes refinados ou extravagantes entre a eli-
te (cf. Lc 7,24-25; 14,16-24; Mc 6,17-29). Também não há motivo
para acreditar que Jesus e outros artesãos e camponeses de baixo
nível estivessem assimilando influências culturais imperiais e/ou
urbano-cosmopolitas mais do que o estiveram os rabis mais tarde,
que estavam mais expostos a essas influências em Diocesaréia e
em Tiberíades (HORSLEY, 2000, p. 159).

Para conciliar as duas abordagens, a de Theissen (1997) e a


de Horsley (2000), propomos algumas observações atentas.
Em primeiro lugar, deve-se esclarecer que na hipótese de
Theissen (1997, p. 16) a "estrutura interna do movimento de Je-
sus era determinada pela interação de três papéis: os carismáticos
itinerantes, seus simpatizantes nas comunidades locais e o Reve-
lador"; logo, podemos entender que a itinerância não se sobrepu-
nha à vontade da comunidade local. Haveria, antes, interdepen-
dência entre os movimentos.
No primeiro momento, a itinerância teria ocorrido como for-
ma de anunciar as palavras de Jesus. Por esse meio, foram forma-
das as primeiras comunidades cristãs que se fixaram em aldeias e
povoados.
© U1- Introdução ao Estudo dos Sinóticos 61

Os cristãos itinerantes formaram um grupo que seguia os


ensinamentos de Jesus com radicalismo ético e social. Eles assu-
miram o estigma de marginalizados e excluídos, por isso, identifi-
caram-se com a figura do Filho do Homem. Seguiram a missão de
anunciar o reino e perpetuar a tradição das palavras do Nazareno.
No segundo momento, a existência desse grupo favorecia a exis-
tência das comunidades locais.
Assim, vale lembrar que a tradição das palavras de Jesus foi
transmitida inicialmente de modo oral por apóstolos, missioná-
rios, catequistas, profetas e discípulos de Jesus. A oralidade era
característica do povo judeu como recurso de ensino e meio de
perpetuar a tradição.

Os textos Dt 6,6; 11,18; 12,28; 17,19; 29,9 e 31,12 expressam a


importância que os judeus atribuíam à tradição oral.

Nos textos que formam a tradição sinótica e em João, as


"palavras" (logias) podem ser encontradas em destaque. Sejam as
palavras proclamadas pelos profetas (confirmadas no Novo Testa-
mento), sejam as palavras proferidas por Jesus, ou as palavras en-
sinadas pela Tradição.
Na recorrência das "palavras", há forte indicativo de que o
ethos judaico considerava a tradição oral de extrema relevância.
Essa tradição foi herdada pelas primeiras comunidades cristãs,
cuja identidade religiosa tem como aspecto constituinte a tradição
oral.

Destacamos os seguintes textos que denunciam a importância


dada à tradição oral: Mt 7,24; 10,14; 24,35; Lc 3,4; 6,47.

O movimento que teve por mola propulsora a itinerância de


cristãos perpetuou a tradição oral, implementando o reino de Deus
por meio das palavras de Jesus. A propaganda dos ensinamentos

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62 © Evangelhos Sinóticos

de Jesus, desenvolvida por meio desses itinerantes, engrossou as


fileiras de seguidores do Nazareno. Alguns, identificados com a
condição dele, romperam seus vínculos sociais e religiosos, a fim
de exercerem o papel de discípulos-missionários de Jesus. Outros
permaneceram nas comunidades e adaptaram sua maneira de vi-
ver, conforme as palavras de Jesus. Assim, a hipótese de um mo-
vimento de cristãos que circulava entre povoados e aldeias não
desqualifica a hipótese de um cristianismo local.

Texto Complementar: Evangelho ou Biografia? –––––––––––


Para que foram escritos os evangelhos? Vimos acima que não foi apenas para
repetir aquilo que Jesus fez e falou, mas sim para estimular as comunidades
com seu exemplo. A necessidade de fortalecer as comunidades levou a dar aos
evangelhos esse formato e o jeito que conhecemos. É hora de aprofundar essas
afirmações.
Se isso é verdade, podemos também dizer que os evangelhos não têm como
finalidade dar informações sobre Jesus, mas levar as pessoas a se comprome-
terem com ele. Isso fica evidente na conclusão do evangelho segundo João, em
20,30-31. Vamos comentar este texto, que nos esclarece muita coisa a respeito
dos evangelhos todos.
Primeiramente ali se diz que na escrita do evangelho não se teve a intenção de
registrar tudo o que Jesus fez, nem mesmo todos os seus "sinais". Se a finalida-
de do evangelho fosse contar a vida de Jesus tim-tim por tim-tim, não poderia ter
ocorrido esse processo de escolha daquilo que deveria ser escrito e do que podia
ser deixado e que talvez pudesse ser retomado em outro momento.
Mas o que definiu esta escolha? Quais os critérios usados? Aí vem o outro ponto
importante: "Estes sinais foram escritos para que vocês acreditem" (Jo 20,31a).
Quando os evangelhos foram escritos pensou-se primeiramente no "vocês", na
comunidade! Foram os problemas e desafios do cotidiano da comunidade que
conduziram o processo de escrita do evangelho, e inclusive da escolha do que
teria de fazer parte da narração. Para atender às necessidades da comunidade
foram inseridos alguns textos e deixados de fora tantos outros.
No caso da comunidade de João, por exemplo, o ambiente era de perseguição,
ameaças inclusive de morte. Resultado: vamos encontrar em Jo 9 um longo re-
lato sobre alguém que enfrentou as autoridades com coragem, mesmo tendo
sido expulso da sinagoga: o cego de nascença. Uma postura bem diferente da
de seus pais (9,21-22)! E ainda: o evangelho segundo João é tão diferente dos
demais porque sua comunidade vive uma situação específica, que o evangelho
quer encarar de frente! Assim acontece com os demais evangelhos.
Como já foi falado, a finalidade da escrita do evangelho é convencer as pessoas
de realmente aderir a Jesus e comprometer-se com seu projeto. Veja novamente
Lc 1,1-4: o v.4 mostra claramente que o objetivo do evangelho é confirmar na fé.
Daí que o crer esteja diretamente ligado à certeza e à luta pela vida: "para que
vocês acreditem que Jesus é o messias, o filho de Deus, e para que, acreditando,
vocês tenham a vida em seu nome" (Jo 20,31). O evangelho deve servir para a
© U1- Introdução ao Estudo dos Sinóticos 63

comunidade de fé descobrir onde está a verdadeira vida, que apostas e opções


deve fazer, que valores e propostas deve assumir. Como dizia um padre, assas-
sinado por seu compromisso com a gente sem-terra desse país: "Prefiro morrer
defendendo a vida do que viver defendendo a morte".
Fonte: Extraído de: RODRIGUES, M. P. (Org.); RODRIGUES, E. (et.al.) Palavra
de Deus, palavra da gente. As formas literárias da Bíblia. São Paulo: Paulus,
2004. p.83-84.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

11. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS


Ao término desta unidade, sugerimos que você procure co-
mentar, discutir e sintetizar os conteúdos aqui apresentados. Para
tanto, destaque os principais pontos do debate acadêmico sobre
a história social do cristianismo das origens. Essa revisão é rele-
vante à medida que lhe permite perceber quais conteúdos você
compreendeu e assimilou e, quais devem ser retomados mais de-
tidamente. Lembre-se de que o ensino à distância requer do aluno
autonomia e disciplina, mas também atitude cooperativa na cons-
trução do aprendizado. As perguntas que faremos a seguir visam
auxiliá-lo na elaboração de sua síntese:
1) Qual a relação entre os contextos histórico, político e cultural que os primei-
ros cristãos e as primeiras comunidades cristãos vivenciaram e a escrita dos
Evangelhos Sinóticos?

2) Elenque motivos e razões que teriam conduzido à redação dos Evangelhos.

3) Qual a relevância de registrar as tradições, as memórias e os ensinamentos


de Jesus por meio de uma tradição escrita?

12. CONSIDERAÇÕES
Finalizando essa primeira etapa de nosso estudo sobre os
Sinóticos, pudemos compreender que o termo "evangelho" bem
como a palavra "sinótico" estão vinculadas a sentidos bem práti-
cos: boas novas e espelho. Portanto, os Evangelhos versam a res-
peito das boas novas anunciadas por Jesus de Nazaré, que têm
como conteúdo central a proclamação do reino de Deus.

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Essa proclamação requeria de seus adeptos fé e arrepen-


dimento, que implicavam a conversão e a salvação. Era, portan-
to, um evangelho totalmente diferente dos que até então foram
anunciados entre gentios e judeus. Por essa razão, aqueles que
aceitavam a proclamação de Jesus promulgada por meio de ensi-
namentos, de ditos de sabedoria, de profecias e outros gêneros, os
primeiros cristãos, formaram o movimento de Jesus, seguido das
comunidades.
Tais grupos, inseridos no contexto político, social e cultural
do Império Romano, vivenciaram sua crença dentro de um mun-
do social adverso, repleto de tensões, de controvérsias e disputas
entre as diversas tradições culturais, as lideranças, os partidos e as
pessoas de modo geral.
Assim, os Evangelhos Sinóticos, entendidos como fontes do
período (século 1º EC), "espelham" tal realidade por meio de seus
conteúdos, de suas formas literárias e de suas tendências. São
relatos de época que exprimem literariamente a diversidade do
mundo social do qual emergiram as primeiras comunidades, carac-
terizadas pelos "encontros" e "desencontros" entre os horizontes
culturais greco-romanos e judaicos.
Portanto, da confluência da matriz judaica e da matriz helê-
nica resultou uma nova identidade: a identidade social e religiosa
dos cristãos, que se pautavam nas "palavras" de Jesus.

13. EͳREFERÊNCIAS
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