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Análise da canção - O meu guri: Determinismos Sociaisi

Por Elida Olmedoii

Nos primeiros encontros da turma vocacional música 2018 no CEU Parelheiros, ofereci
meus ouvidos à escuta atenta sobre as propostas dxs vocacionadxs. Permeava no
discurso de todxs uma inquietante e latente vontade de discutir questões sociais de
raça, gênero entre outros. Passada algumas orientações, e após os constantes diálogos
que participei no GT Negritudeiii, que me proporcionaram ideias e pedagogingas para
as minhas orientações, sugeri a escuta livre da música “O Meu Guri” de Chico Buarque.
A escuta, inédita para a maioria dxs vocacionadxs, buscava dar forma às personagens e
o ambiente que compunha o universo do guri de Chico. Trouxe duas opções de escuta
para que xs ouvintes pudessem ter imparcialidade na escuta. A primeira versão foi com
o próprio compositor. Escutamos o canto choroso da flauta e a batida ritmada do
violão, Chico cantando com sua voz escorregadia e sincera. Já na voz de Elza Soares,
uma interpretação densa com direito a um possível choro contido da interprete, um
piano que mais parece entrar na sua mente trazendo uma atmosfera introspectiva. A
letra não foi revelada aos vocacionadxs buscando a menor interferência para não
causar nenhum preconceitoiv
Em uma narrativa livre, surpreendemo-nos com tantas possibilidades para o menino
guri de Chico. Indagamos, questionamos e respondemos perguntas muito importantes
para entender e imaginar quem era/é o guri e quais as personagens que o rodeia.
Perguntas como *quem está cantando? * qual vínculo dessa pessoa com o guri? *
onde essa pessoa está e por quê? *se estamos falando de um progenitor, onde está o
outro? Ninguém gera um filho sozinho* com quem essa pessoa está conversando e por
quê? *é possível que se tenha outra leitura dos papéis desse guri e das personagens
que o envolve? Ou seja, é possível que Chico Buarque estivesse dizendo outra coisa
diferente da que você pensou? Imagine a cor desse guri e das personagens que o
envolve *imagine o contexto de vida desse guri e das personagens que o envolve * e o
final dessa estória, como você imagina? É possível outro final?
Dentre todas as perspectivas, uma vocacionada, tratou de defender com unhas e
dentes que quem canta a música é uma mulher, possivelmente a mãe do guri. Uma
mãe como muitas, orgulhosa de seu filho, pois o mesmo desde cedo disse que chegava
lá, e em dado momento da vida, segundo a vocacionada, o guri chegou. Ela atentou
para as diferentes formas como a frase OLHA AÍ é declamada ao longo da canção, nem
sempre o OLHA AÍ tem a mesma entonação e isso mostra o que para a vocacionada
seria o orgulho da mãe ver um menino que já estava determinado a ser um “João
ninguém” chegar lá! Já outro vocacionado viu possibilidade da narrativa partir de um
homem, possivelmente pai do guri. Ele tratou de explicar que é possível sim que um
pai tenha essa vivência com um filho ainda que não seja a regra, isso também
evidencia outros fatores sociais, como por exemplo, a idéia de que a figura paterna
não pode oferecer carinho e cuidado da mesma forma que a figura materna, ou seja,
pai cuidar dos filhos é visto como algo incomum e até inaceitável.
Sabendo que o índice de mães solos é maior que o de pai solosv, a classe concorda de
que na canção, Chico Buarque traz o universo da mãe que sozinha precisa criar o seu
filho. O fato é de que ambos vocacionadxs vêem a narrativa por meio de um dos
progenitores do guri. Mais interessante nessa primeira análise é saber que para um
vocacionado é possível que a música seja sobre a relação de um pai com seu filho,
ainda que distante fato que não foi imaginado, nem tão pouco aceito pela
vocacionada. Denota-se, portanto já nas primeiras indagações sobre quem se canta
essa música alguns determinismosvi da nossa sociedade.
Trazemos então o primeiro questionamento sobre quem se canta essa canção. O fato
da música poder ser cantada por um pai revela que há uma invisibilidade de homens
que tratam de suas famílias, ainda que em menor quantidade isso acontece e também
é invisibilizado. Lembro-me do relato de um colega de trabalho que ao ter o filho
adoentado, levou-o ao médico, ao entrar no consultório a médica perplexa logo tratou
de indagar pela mãe da criança, o meu colega, muito cordialmente estendeu a mão á
medica e disse “prazer sou eu”.
Mas é no campo dessa figura feminina e sob a luz do abandono social que toda a
turma se debruçou. É notório que essa canção revela uma figura materna que sem
nenhum apoio trata de cuidar desse guri desde seu nascimento. Temos uma
quantidade imensa de mães solos em solo brasileiro. Não foge a regra Chico relatar
mais uma trajetória dessas tantas mães. Iniciamos assim mais um questionamento,
pois se estamos falando de uma mãe contando sobre a criação de seu filho, onde
estará o pai? Ainda trazendo a figura paterna à discussão, a turma chama a atenção
para os apontamentos alarmantes sobre o aborto paternalvii. Diariamente, muitas
crianças recém-nascidas ou até fetos ainda em gestação são abandonadas pelo genitor
do sexo masculinoviii.
Focamos então na trajetória dessa mãe. Nada nos é dado sobre ela. Fragmento sobre
sua falta de documentos vem à tona na frase “pra finalmente eu me identificar”. Xs
vocacionadxs a imaginam mais velha, com muitos filhos e pouca instrução. Como pode
uma mulher sendo mãe e tendo certa idade, sequer ter documentos que a
identificam? E nesse aspecto vemos o peso de ser mulher negra, pobre e periférica
nessa sociedade patriarcal, sim, pois nesse contexto sabemos que não estamos falando
de personagens de classe média alta, brancos e com voluptuosas quantias depositadas
no banco. Essa mulher é mais uma das vítimas do determinismo. Sua trajetória marca
o peso da violência contra a mulher negra pobre e periférica. Vista como objeto pelos
homens, fora do padrão pela sociedade, sem direito aos recursos básicos que a
dignificam, essa mulher vive às margens da sociedade e enfrenta um peso ainda maior
de que os seus pares, pois sequer tem direito ao próprio corpo. Imaginamos um guri
fruto de estupro, imaginamos um guri fruto da negligência do Estado em dar condições
mínimas à saúde ao corpo feminino. Pensamos que essa mãe não teve acesso à
educação sexual nas escolas ou hospitais da mulher. Ela engravidou como muitas
engravidam, sem consciência que pode exigir que o parceiro use preservativo, sem
pensar que ela mesma pode levar consigo preservativos, uma vez que mulher decente
não tem relações sexuais. E depois das relações sem preservativos e com alto risco de
doenças sexualmente transmissíveis, a mulher ainda é obrigada a ouvir da sociedade
“mas como abriu as pernas agora tem que gerar”, não adianta tirar senão vira
assassina e criminosaix. E se essa mulher tivesse optado pelo aborto, sendo preta e
periférica, Chico Buarque escreveria outra estóriax. E assim vemos a mãe desse guri,
mais uma vítima, que sobrevive sobre as mazelas que a sociedade lhe impõe.
Dando continuidade aos apontamentos e questionamentos que a canção traz, ainda
no campo materno, xs vocacionadxs questionaram a consciência ou não da atividade
“ilícita” do filho por parte da mãe. “Agora que o filho é marginal ela finge que não vê”,
como li em algum comentário. Na orientação foi unânime a idéia de que a mãe nutre
orgulho por seu filho que a trata bem e faz tudo por ela. Pesquisando sobre a relação
de mães de infratores encontramos uma moda de viola que traz a narrativa muito
triste e semelhante à do guri de Chico, a canção “mãe do marginal” de Marcos Violeiro
e Clinton Torresxi onde um adolescente durante um assalto, tira a vida de outro
adolescente. A família do morto resolve doar os órgãos e quem recebe as córneas é a
mãe do assassino que fica triste pela vida interrompida do garoto sem jamais imaginar
que fora seu próprio filho o autor do crime.
A análise sobre para quem se fala revelou um ponto curioso sobre as possibilidades do
ambiente da canção de Chico. Nos diversos comentários que li na internet sobre essa
música, a maioria concluía que a mãe sabendo ou não que seu filho é delinqüente está,
possivelmente, falando com algum policial, prestando depoimento ou coisa do tipo. Eu
mesma não vi outra possibilidade ainda que buscando com muito empenho. Mas um
vocacionado fez uma alusão ao auter egoxii, um segundo eu, como quem fala consigo
mesmo, relembra de promessas que fez a si próprio no passado e busca dialogar sobre
as conquistas ou fracassos do presente. É possível que essa personagem que canta fala
com esse “seu moço” apenas para colocar outro de si em cena. O próprio vocacionado
relembrou fatos sobre a avó que fala com ela mesma usando o próprio nome, criando
assim uma segunda pessoa em cena que não existe.
O contexto dessa música foi unânime para todxs xs vocacionadxs. Um guri pobre,
periférico, nascido de mãe pobre periférica, que sonha ainda criança, em chegar lá.
Também foi unânime a cor dessas personagens, a cor PRETA presente em todos os
bairros periféricos desse Brasil e que também é ainda hoje a cor dos infratores,
criminosos, delinqüentes, marginais, a cor predominante nos presídios, a cor dos
analfabetos. É a cor que falta nas faculdades e em posições de destaque em todos os
setores da sociedade. Possível imaginar o guri branco, loiro de olhos azuis cintilantes e
pele sedosa?...Possível, mas ainda assim é como imaginar um pai no lugar da mãe, a
estatística nos conta outra estóriaxiii. E isso reitera o determinismo que nos é imposto.
Sobre o final dessa música. O guri morreu? Foi preso? Não necessariamente. De
acordo com um vocacionado, o guri no mato pode ser expressão antiga para estar com
muito dinheiro. Pesquisando no dicionário informal geralmente a expressão mato está
associada à abundância. E na canção pode ser vista como um momento de felicidade,
pois o guri está no mato, acho que ta rindo, acha que ta lindo e de papo pro ar, e a
mãe ainda conclui: ELE NÃO DISSE QUE CHEGAVA LÁ!
Concluímos então que sendo mãe ou pai o locutor nessa canção, periféricx, pretx,
trabalhadxr que batalha no dia-a-dia ou delinqüente que barganha a própria vida pra
se sustentar, a leitura dessa canção com xs vocacionadxs trouxe muita riqueza de
observações para a nossa orientação. Momentos que observamos como o
determinismo está enraizado em nosso comportamento e como somos facilmente
corrompidos por ele. Lutamos para encontrar novo significado para esse guri, para que
ele não siga o caminho determinado aos periféricxs, pobres e negrxs de nossas
periferias. Nossa turma concluiu que o nosso guri chegou lá, onde ele queria chegar.
Nossa mãe não fecha os olhos diante dos delitos do filho delinqüente, pelo contrário.
Nossa mãe é uma mulher muito orgulhosa de ver seu filho conquistando tudo que lhe
é de direito. Ela tem orgulho em vê-lo ingressando em uma universidade, juiz em um
tribunal, advogando em grandes causas, abrindo seu próprio negócio, passando de ano
no colégio, estudando música no vocacional parelheiros, fazendo o dever de casa
todos os dias, estudando artes, ajudando seus pares, vivendo a vida com leveza, sendo
respeitado independente de sua cor, sendo respeitado independente de sua
sexualidade, sendo respeitado, sendo quem ele quer ser!
E a partir dessa escolha, a turma criou sua própria versão do guri de Chico Buarque. A
versão se chama NÓIS VAI RESISTIR e é cantada em todos os sarais por onde xs
vocacionadxs passamxiv.

A história no livro conta o momento que os brancos vieram pra cá


Mas essa terra já tinha um nome, meu povo e muita história pra contar
Foi assim explorando a me escravizar, mesmo nóis lutando não deu pra evitar
E ainda se contradisse quando ele me disse que disso eu ia me orgulhar
Olha aí Olha aí Olha aí, ai tamo aí, olha aí
Olha aí, nois vai resistir.
Chegam pensando que agente é do tipo, que pode a um troco comprar
Tantas promessas, seu moço, foram feitas que não dá nem pra contar
Agente não cai mais nessa lenga lenga, nóis ta empoderado ninguém vai segurar
E esse é só o começo desse crescimento, e é pra frente que nóis vai olhar, olha aí
Olha aí Olha aí Olha aí, ai tamo aí, olha aí
Olha aí, nois vai resistir.
Chega no morro com todo armamento, trombone, trompete, flauta, violão
Sarau, batalha, slam, batucada, hip hop, dança de rua, roda de jongo, coco, artesanato,
capoeira, teatro de rua, danças folclóricas tem também o funk e o pancadão
Eu ensino a rua, ela me ensina, garra é o que não falta para eu batalhar
Pra mais conhecimento, desenvolvimento, a quebrada poder acessar, olha aí
Olha aí Olha aí Olha aí, ai tamo aí, olha aí
Olha aí, nois vai resistir.
Padrão estampado nascido e criado, com gênero, cor e endereços iguais
Eu não sou parecida com essa gente, seu moço, nem que eu tentasse demais
O padrão de fato ta me excluindo, mas nóis se acha linda, vamo empoderar
Desde o começo que é isso seu moço, mas o gueto ainda chega lá

i
Para o Programa Vocacional 2018
ii Elida Olmedo, artista orientadora linguagem música no Programa Vocacional 2018.
iii
Grupo formado por artistas do Programa Vocacional para discutir e propor diferentes olhares para as questões etnico-raciais no
Programa Vocacional
iv
https://www.youtube.com/watch?v=l6LGditd3oA https://www.youtube.com/watch?v=TBBVVELSago
v Segundo dados colhidos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2005, 10,5 milhões de famílias já eram

compostas por mulheres sem cônjuge e com filhos, sendo elas as principais responsáveis pela criação dos mesmos. Nos últimos 10
anos, o número de “mães solo” no Brasil aumentou em mais de um milhão.
vi princípio segundo o qual todos os fenômenos da natureza estão ligados entre si por rígidas relações de causalidade e leis
universais que excluem o acaso e a indeterminação, de tal forma que uma inteligência capaz de conhecer o estado presente do
universo necessariamente estaria apta tb. a prever o futuro e reconstituir o passado.
princípio segundo o qual tudo no universo, até mesmo a vontade humana, está submetido a leis necessárias e imutáveis, de tal
forma que o comportamento humano está totalmente predeterminado pela natureza, e o sentimento de liberdade não passa de
uma ilusão subjetiva.
vii Diz respeito, na verdade, ao grande número de homens que abandonam filhos e mães e deixam a obrigação de criar a criança

sob responsabilidade apenas da mulher. Quem usa o termo afirma que é uma provocação: enquanto o tema aborto desperta
paixões e discussões acaloradas, o abandono paterno não tem a mesma atenção.
viii
Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com base no Censo Escolar de 2011, apontam que há 5,5 milhões de crianças
brasileiras sem o nome do pai na certidão de nascimento.
ix Atualmente, o aborto provocado é considerado crime previsto nos artigos 124 a 128 do Código Penal Brasileiro e pune tanto a
gestante como os profissionais que realizam o procedimento. - Link para a matéria:
https://azmina.com.br/reportagens/precisamos-falar-de-aborto-e-como-ele-mata-mulheres-negras/ -
x Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice de aborto provocado das mulheres pretas é de

3,5%, o dobro do percentual entre as brancas (1,7%). O perfil mais comum de mulher que recorre ao aborto é o de uma jovem de
até 19 anos, negra e já com filhos, segundo a Pesquisa Nacional de Aborto (PNA). - Link para a matéria:
https://azmina.com.br/reportagens/precisamos-falar-de-aborto-e-como-ele-mata-mulheres-negras/ -
xi https://www.youtube.com/watch?v=lgo61So896U
xii Alter ego é uma locução substantiva com origem no latim "alter" (outro) e "ego" (eu) cujo significado literal é "o outro eu".
xiii No Brasil, 64% dos presos são negros
xiv https://www.youtube.com/watch?v=5FHaakJf9mk&t=22s https://www.youtube.com/watch?v=A7vdNS1tUOQ

https://www.youtube.com/watch?v=QgiaOWGTTNM

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