Você está na página 1de 32

FACULDADES METROPOLITANAS UNIDAS - FMU

FELIPE ANDREOLI FERRARIAS

Psilocybe cubensis

Uma revisão bibliográfica

SÃO PAULO

2018

FELIPE ANDREOLI FERRARIAS

Psilocybe cubensis

Uma revisão bibliográfica

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de graduação em Farmácia da FMU, sob a orientação da Professora Mestre Fernanda Aparecida Gonçalves Branco.

SÃO PAULO

2018

FELIPE ANDREOLI FERRARIAS

Psilocybe cubensis Uma revisão bibliográfica

Trabalho de Conclusão de Curso

apresentado ao curso de

graduação em Farmácia da FMU,

sob a orientação da Professora

Mestre Fernanda Aparecida

Gonçalves Branco e aprovado

pelos membros da Banca

Examinadora abaixo:

Prof. Mestre Fernanda Aparecida Gonçalves Branco FMU Orientador

Prof. Banca Examinadora FMU

Prof. Banca Examinadora FMU

SÃO PAULO

2018

Dedico este trabalho aos meus pais e a minha noiva pelo apoio, pelo amor e pelo suporte que me deram durante toda trajetória da minha graduação.

RESUMO

Este trabalho de conclusão de curso disserta sobre aspectos históricos e populares, como uso religioso e recreativo, bioquímica, com foco no seu mecanismo de ação, atividades biológicas e pesquisas atuais dos fungos do gênero Psilocybe spp., visando demonstrar que, apesar de ser uma substância restrita e proibida pela ANVISA, possui estudos internacionais que vem apresentando resultados satisfatórios para algumas enfermidades neurológicas e, com isso, abrir espaço para este fungo ser estudado nacionalmente. Para realização deste trabalho foi feita uma revisão literária de artigos e textos acadêmicos internacionais visto que no Brasil não foram localizados trabalhos práticos para o fungo acima mencionado.

Palavras-Chave: Psilocibina. Psilocina. Fungos alucinógenos. Psilocybe cubensis.

SUMÁRIO

1.

INTRODUÇÃO

6

1.1. OBJETIVO

6

1.2. METODOLOGIA

6

2.

CLASSIFICAÇÃO GERAL

7

2.1.

FILO BASIDIOMYCOTA

7

3. MICOTOXINAS

7

4. Psilocybe cubensis

9

4.1. DESCRIÇÃO

9

4.2. HABITAT

9

4.3. MORFOLOGIA

9

4.4. ALCALÓIDES PRESENTES

11

4.5. NECESSIDADE DE CRESCIMENTO IN VITRO

12

4.5.1. CULTIVO E FRUTIFICAÇÃO

13

4.6.

EPIDEMIOLOGIA

14

5. HISTÓRICO DE USO E FINALIDADE

15

6. APLICAÇÃO E PESQUISA

16

7. TÉCNICAS DE EXTRAÇÃO

17

7.1. EXTRAÇÃO PSILOCIBINA E PSILOCINA

17

7.2. EXTRAÇÃO EXCLUSIVA PSILOCINA

18

8. ABSORÇÃO, DISTRIBUIÇÃO, METABOLISMO E EXCREÇÃO

18

9. INTERAÇÃO FÁRMACO-RECEPTOR

20

9.1.

EFEITOS EM ATIVIDADES NEURAIS ESPECÍFICAS

21

10.

TOXICIDADE

21

11.

INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS

22

12.

PSILOCIBINA E A LEI

23

12.1.BRASIL

23

12.2. INTERNACIONAL

23

13. DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

24

14. REFERÊNCIAS

26

1.

INTRODUÇÃO

Cogumelos alucinógenos são utilizados desde 500 a.C. para os mais diversos fins, sendo que no início seu uso era restrito a cerimônias religiosas. Com o passar do tempo tomou outro rumo, seguindo para uso recreativo e terapêutico, com efeitos comprovadamente benéficos se usados de forma controlada (DINIZ, 1999). O gênero Psilocybe spp. é um dos mais difundidos no mundo devido sua fácil adaptação em diversos ambientes. O Psilocybe cubensis, uma das espécies capazes de produzir efeitos alucinógenos, é a mais conhecida dentre os fungos do gênero Psilocybe, (DINIZ, 1999) motivo pelo qual foi escolhida para este trabalho. No Brasil, devido barreiras legais e consequente dificuldade para se conseguir uma autorização, não existem estudos em andamento para o cogumelo supracitado, ficando restritos aos países considerados de primeiro mundo, principalmente Estados Unidos. Por este motivo quase todas as fontes consultadas para elaboração deste trabalho são de origem internacional.

1.1. OBJETIVO

A elaboração deste trabalho tem por finalidade incentivar a pesquisa em território nacional, visto que existem resultados promissores acerca das substâncias presentes no cogumelo em questão, e também demonstrar que o Brasil deve quebrar paradigmas e facilitar estudos de substâncias que hoje são vistas apenas como prejudiciais para a saúde ou sociedade.

1.2. METODOLOGIA

As referências usadas para este trabalho foram, em sua maioria, internacionais e localizadas no banco de dados da PUBMED, visto a dificuldade achar pesquisas, mesmo que traduzidas, do fungo revisado em língua portuguesa.

7

2. CLASSIFICAÇÃO GERAL

Em 1969, Whittaker agrupou os fungos em um único reino, o Fungi, de acordo com suas características. Com o passar do tempo a classificação foi sendo diferenciada e incrementada de acordo com o avanço da ciência, tendo alguns marcos como a classificação de Alexopoulos (ALEXOPOULOS; MIMS; BLACKWELLS, 1996) que agrupa no Reino Fungi os filos Chytridiomycota, Zygomycota, Ascomycota e Basidiomycota. Cerca de 80.000 a 120.000 espécies estão descritas atualmente, porém são estimados números de até 1.500.000 (HAWKSWORTH, 2001; GIMENES, 2010). Fungos são aclorofilados (não realizam fotossíntese), eucariontes, reprodução sexuada/assexuada/parassexuada, uni ou pluricelulares, heterotróficos (normalmente saprófitos), alimentam-se por absorção, parede celular composta por quitina e glucanos, podem ser, além de saprófitos, parasitas e simbióticos, podem ser filamentosas ou leveduras (WEBSTER; WEBER, 2007; GIMENES, 2010).

2.1. FILO BASIDIOMYCOTA

O filo basidiomycota abrange mais de 30000 espécies diferentes, incluindo trufas, puffballs, cogumelos alucinógenos e patógenos. A maioria dos basidiomicetos são terrestres e dispersam seus esporos no ar, porém também existem espécies aquáticas. São em sua maioria saprófitas, ou seja, alimentam-se de material orgânico, podendo ser simbióticos, parasitas ou comensais (WEBSTER; WEBER, 2007). Como são fungos saprófitas, tem um papel importantíssimo na reciclagem do material orgânico, tendo como único ponto negativo que podem prejudicar estruturas de

madeira por exemplo (WEBSTER; WEBER, 2007). Segundo os autores nem todos basidiomicetos crescem em forma micelial, podendo ser leveduras ou dimórficos, este último que mudam sua forma de crescimente entre micélio e levedura. Esse dimorfismo pode ser térmico ou a partir de mudanças nas características do hospedeiro. Uma das espécies perigosas para os seres humanos é a Paracoccidiodes brasiliensis, causadora da paracoccidioidomicose, uma doença que produz lesões ulcerativas na boca e nariz, além de danos em linfonodos e no pulmão (WEBSTER; WEBER, 2007).

3.

MICOTOXINAS

Micotoxinas são pequenas partículas orgânicas produzidas como metabólito secundário por diversas espécies de fungos. Pertencem a um grupo termicamente estável e

8

notavelmente tóxico. Contaminam seres vivos, como parasitas, ou ambientes, como decompositores, resistindo inclusive aos processos pós-colheita quando relacionado à alimentos (TURNER et al., 2015). Possuem massa atômica variando entre 300-700 daltons e existe uma clara diferença entre metabólitos tóxicos e metabólitos de reações bioquímicas. As classes mais comuns de micotoxinas são aflatoxinas, ocratoxinas, fumonisina (TURNER et al, 2015). Algumas micotoxinas são bastante tóxicas, podendo levar à morte, porém se manipuladas e utilizadas de forma correta, possuem ação terapêutica, citando como exemplo a toxina do fungo Claviceps purpúrea, chamada de ergotamina (WEBSTER; WEBER, 2007). Os cogumelos do gênero Galerina (fig. 1) são altamente tóxicos, causando morte em caso de ingestão se não for tratado e, muitas vezes, são confundidos com os do gênero Psilocybe (fig. 2) devido sua grande semelhança (STAMETS, 1996) Possuem a mesma toxina de alguns cogumelos do gênero Amanita, as amatoxinas e falotoxinas (CERVELLIN et al.,

2017).

, as amatoxinas e falotoxinas (CERVELLIN et al., 2017). Figura 1. Cogumelos do gênero Galerina ,

Figura 1. Cogumelos do gênero Galerina, demonstrando sua semelhança com os do gênero Psilocybe Fonte: North American Mycological Association

Psilocybe Fonte: North American Mycological Association Figura 2. Cogumelos do gênero Psilocybe Fonte:

Figura 2. Cogumelos do gênero Psilocybe Fonte: FreeSpores.com

9

4. Psilocybe cubensis

O fungo escolhido para realização da revisão bibliográfica foi o Psilocybe cubensis. Tal motivo deve-se pelo fato do gênero Psilocybe ser um gênero de fungos cosmopolita, em especial o Psilocybe cubensis, que é a espécie mais difundida no planeta especialmente pela sua facilidade de cultivo (DINIZ, 1999).

4.1. DESCRIÇÃO

Segundo Diniz (1999), o cogumelo em questão é classificado no Reino Fungi, Classe Basidiomycetes, Subclasse Holobasidiomycetidae, Ordem Hymenomycetales, Família Agaricaceae, Gênero Psilocybe, Espécie P. cubensis. Ainda segundo Diniz, alguns trabalhos classificam este cogumelo como sendo da Família Strophoreaceae, devido ao fato de a reclassificação no gênero Psilocybe ter sido feita na década de 1970 pelo micologista Rolf

Singer.

4.2.

HABITAT

O Psilocybe cubensis necessita de temperaturas medianas e alta umidade para ter sucesso em seu crescimento, por este motivo são facilmente encontrados em pastos (mais especificamente no esterco) em dias quentes precedidos por chuva (OSS; OERIC, 1976). Segundo Diniz (1999), estes cogumelos são encontrados mundialmente, bastando apenas um clima quente e chuvoso e não se limitando ao esterco, podendo ser encontrado até em vasos de plantas.

ao esterco, podendo ser encontrado até em vasos de plantas. Figura 3. Cogumelo Psilocybe cubensis em

Figura 3. Cogumelo Psilocybe cubensis em seu habitat natural Fonte: Smithsonian Tropical Research Institute

4.3. MORFOLOGIA

O corpo frutífero possui cor de palha (fig. 4) que se torna azul por pressão ou dano em qualquer parte do corpo. Capelo variando entre 1,5-8cm de largura, forma cônica que se

10

torna convexa com a idade, de cor esbranquiçada à amarelo pálido, superfície lisa e macia. Estípite entre 4-15cm de altura por 0,5-1,5cm de largura, anel membranáceo persistente próximo ao capelo. Lamelas ligadas diretamente à estípite quando jovem e anexas com a idade, de cor escura (fig. 5) (MUSSHOFF et al., 2000). O impresso de esporos (fig. 6) possui cor entre púrpura e marrom, de formato arredondado ou oval. A reação pela qual o cogumelo azula-se quando é ferido ou pressionado é basicamente uma oxidação enzimática de algum substrato indólico, porém não é exclusivo desse gênero, visto que outras espécies como Russula ou Boletus também apresentam alteração de coloração, porém nesses casos não está relacionado aos componentes indólicos (OSS; OERIC, 1976).

relacionado aos componentes indólicos (OSS; OERIC, 1976). Figura 4. Progressão do corpo frutífero do Cogumelo

Figura 4. Progressão do corpo frutífero do Cogumelo Psilocybe cubensis Fonte: Diniz (1999)

do Cogumelo Psilocybe cubensis Fonte: Diniz (1999) Figura 5. Morfologia do Cogumelo Psilocybe cubensis

Figura 5. Morfologia do Cogumelo Psilocybe cubensis Fonte: Diniz (1999)

11

11 Figura 6. Carimbo de Esporo do Cogumelo Psilocybe cubensis Fonte: Shroomology.org 4.4. ALCALÓIDES PRESENTES Os

Figura 6. Carimbo de Esporo do Cogumelo Psilocybe cubensis Fonte: Shroomology.org

4.4. ALCALÓIDES PRESENTES

Os alcaloides presentes no Psilocybe cubensis responsáveis pelos seus efeitos no sistema nervoso central são a Psilocibina (4-fosforiloxi-N, N-dimetiltriptamina) (fig. 7) e Psilocina (4-hidróxi-N, N-dimetiltriptamina) (fig. 8), sendo que as quantidades encontradas por cogumelo variam de 0-1,07% e 0.01-0.23% respectivamente (MUSSHOFF et al., 2000). A psilocibina é um alcaloide derivado da triptamina, isolado de vários gêneros do reino Fungi, incluindo o Psilocybe e possui propriedades ansiolíticas, alucinógenas e psicoativas. Quando administrada em organismos vivos, a psilocibina é rapidamente degradada em psilocina que se liga e ativa receptores de serotonina (5-HT2A) no sistema nervoso central, imitando os efeitos da serotonina. Possui fórmula molecular C 12 H 17 N 2 O 4 P, peso molecular de 284.252 g/mol, sendo que a forma da substância pura é descrita como cristais à partir de água fervida, apresenta leve sabor de amônia, seu ponto de fusão é aproximadamente de 220-228 ºC, sua solubilidade é de 120 partes em metanol fervente, dificilmente solúvel em etanol, praticamente insolúvel em clorofórmio e benzeno e solúvel em 20 partes de água fervente e pH 5.2 em solução 50% água-etanol (National Center For Biotechnology Information, 2018).

(National Center For Biotechnology Information, 2018). Figura 7. Molécula Psilocibina Fonte: Sociedade Brasileira

Figura 7. Molécula Psilocibina Fonte: Sociedade Brasileira de Química

12

A psilocina é um composto aromático encontrado em cogumelos conhecidos como psicodélicos juntamente com a psilocibina, a diferença é que a psilocina não possui a ramificação fosforilada porém possui os mesmos efeitos da psilocibina. Sua fórmula molecular é C12H16N2O, peso molecular de 204.273 g/mol, sendo descrito como um sólido e apresenta ponto de fusão de 174.5 ºC (National Center For Biotechnology Information, 2018). A solubilidade em água é estimada em 4,08mg/mL, visto que não há experimentos para comprovação de tal (The Metabolomics Innovation Center, 2018).

de tal (The Metabolomics Innovation Center, 2018). Figura 8. Molécula Psilocina Fonte: Sociedade Brasileira

Figura 8. Molécula Psilocina Fonte: Sociedade Brasileira de Química

4.5. NECESSIDADES DE CRESCIMENTO IN VITRO

Psilocybe cubensis podem ser inoculados em 3 tipos de ágar, ABD (ágar batata- dextrose), AEM (ágar de extrato de malte) e MFP (ágar malte-fermento-peptona), os quais promovem um crescimento fácil e seguro (OSS; OERIC, 1976; GOTTLIEB, 1976, BADHAM, 1980). O ágar batata-dextrose deve ser feito na proporção de 250g de batatas, 15g de ágar, 10g de dextrose e 1,5g extrato de fermento. O ágar de extrato de malte deve ser feito na proporção de 20g de extrato de malte, 25g de ágar, 0,1g de potássio dibásico, 0,1g de carbonato de cálcio para 1 litro de água fervente. O ágar de malte-fermento-peptona deve ser feito na proporção de 7g de extrato de malte, 1g de peptona, 0,5g de extrato de fermento e 15g de ágar para 1 litro de água fervente. (OSS; OERIC, 1976; GOTTLIEB, 1976, BADHAM,

1980).

Segundo Catalfomo e Tyler (1964), para culturas submersas em que foi analisado a produção de psilocibina no micélio, a maior produção de psilocibina ocorreu no sétimo dia com o pH entre 4-4.6 usando ágar batata-dextrose sem nenhum aditivo. A adição de triptofano não oferece nenhuma vantagem na produção de psilocibina pelo micélio, apesar de ser um

13

precursor. Culturas que tiveram adição de glucose a 1%, no sétimo dia, com pH 3.9, a porcentagem de psilocibina ficou em 1,06%.

4.5.1. CULTIVO E FRUTIFICAÇÃO OSS e OERIC (1976) citam um método caseiro para cultivar e frutificar o fungo após

o crescimento in vitro, conforme segue resumido:

-Preparar um substrato com 160ml (150g peso seco aproximado) de centeio ou qualquer outro tipo de cereal (arroz integral, trigo, aveia, cevada, sorgo e painço) com 130ml de água de torneira ou destilada e meia colher de carbonato de cálcio (CaCO3), adicionar essa mistura em um pote, ocupando metade da sua capacidade total, e quando tampá-lo deixar um espaço para saída de ar, colocar os potes em panela de pressão com no mínimo 1-1,5 litros de água por 1 hora para esterilizar, esperar resfriar por completo antes de abrir a panela, após abrir a panela descartar qualquer pote com rachadura, caso possua um ambiente estéril melhor, caso contrário colocar os potes em uma superfície previamente limpa sem abri-los, com auxílio de um bisturi esterilizado (pode ser usado fogo na lâmina) retire um pedaço de 1 1,5cm do ágar previamente colonizado em placas de Petri, abra a tampa do pote esterilizado

o mínimo possível para colocar o ágar e feche-a imediatamente, agite vigorosamente, repita

este passo até a quantidade de potes desejada. -Incubar entre 21-26ºC (dando preferência para o limite superior) por volta de 14 dias, ou até completa colonização do substrato, que se mostrará como uma neve branca, valendo dizer que se deve agitar o fraco por volta do oitavo dia para espalhar o micélio e diminuir o tempo de colonização -Após colonização completa procede-se para o “casing; preparar, esterilizar e

umedecer, na proporção de 7,5:3,5:4:2 de turfa, vermiculita, areia fina lavada e CaCO3, respectivamente, completar os potes até quase o bocal e pode-se escolher entre deixar aberto ou cobrir com um papel-filme não esquecendo de ventilar durante o dia para ocorrer a dissipação de CO2 e entrada de O2. Borrifar uma boa quantidade de água 2-3 vezes por dia a fim de não deixar o micélio secar. Manter próximo de 21ºC -Após 14-20 dias deverá aparecer os primeiros pontos brancos que se diferem do micélio, que são os cogumelos em seu estágio inicial. Recomenda-se o uso de luz para dar sentido ao crescimento dos cogumelos, evitando que cresça dentro e fiquem prensados na parede do pote.

14

4.6.

EPIDEMIOLOGIA

Fungos, em sua maioria, são saprófitas, obtém alimento de matéria orgânica em decomposição. A espécie Psilocybe cubensis pode ser encontrada em qualquer local que tenha matéria orgânica em decomposição, podendo ser encontrado próximo de parques, casas, escolas, campos de golfe, entre outros, e vem sendo notável sua adaptação e desenvolvimento à vários ambientes distintos, sendo documentadas por volta de 80 espécies diferentes do gênero Psilocybe ao redor do mundo até 1995 (GUZMÁN, 1983, STAMETS, 1996; WEBSTER; WEBER, 2007). Seus esporos são levados por correntes de ar que cruzam continentes, motivo pelo qual o fungo é encontrado em qualquer canto do mundo, valendo citar também os modernos meios de transporte que também possibilitam essa propagação. Os habitats mais comuns que podem ser encontrados são pastagens, depósitos de estrume, zonas ripícolas, jardins, bosques, terreno pantanoso e terras queimadas (GUZMÁN, 1983; STAMETS, 1996). Em consulta a um mapa online elaborado por caçadores de cogumelos alucinógenos (fig. 9), percebe-se que no Brasil eles ficam concentrados no sul e sudeste, porém não se pode afirmar que em outros estados o cogumelo não cresce, visto que é um cogumelo altamente adaptativo.

não cresce, visto que é um cogumelo altamente adaptativo. Figura 9. Mapa de Ocorrência de Cogumelos

Figura 9. Mapa de Ocorrência de Cogumelos Psicoativos no Brasil Fonte: Formulário do Google associado com Google Maps.

15

5. HISTÓRICO DE USO E FINALIDADE

Os fungos possuem diversos usos importantes para os seres humanos, estando presentes

diariamente em nossas vidas como em remédios ou alimentos. Infelizmente, quando se fala em fungos as pessoas costumam a fazer uma associação negativa aos danos que alguns deles causam (como alergias e micoses em pessoas ou animais) e os benefícios infelizmente são esquecidos. Todos os dias as pessoas usufruem de produtos originados pelos fungos, como exemplo, a ação fermentativa de fungos para a fabricação de massas, queijos e bebidas alcóolicas (cerveja e vinho). A produção de cogumelos comestíveis, industrial ou caseira, comum entre populações de outros países, é uma prática que aos poucos está tomando lugar no Brasil, visto que já existem kits para essa produção em pequena escala (GIMENES, 2010). A maior e mais importante descoberta relacionada a fungos é a penicilina, que pode ser considerada o medicamento que revolucionou o mundo na questão de tratamento de infecções bacterianas. Hoje fala-se biotecnologia quando se usa microrganismos para algum fim específico, e em relação aos fungos muitas espécies estão sendo estudadas para aplicação na

degradação e tratamento de resíduos (GIMENES, 2010). Fungos possuem um histórico de uso recreacional/cerimonial um tanto abrangente, sendo

citados, inicialmente, em países americanos com os povos incas e astecas. Existem indicações de que o uso cerimonial começou a crescer no período anterior ao aparecimentos dos europeus no continente americano. Em países como El Salvador, Guatemala e México foram encontradas esculturas de pedra com formato de cogumelo (fig. 10) sendo que na sua estipe estavam presente imagens esculpidas de anjos e demônios. Alguns exemplos mais antigos são datados de 500 a.C. segundo alguns arqueólogos. Os astecas chamavam tais cogumelos de “teonanactl”, que significa carne dos deuses(HOFFMAN, 1980). Os povos que usavam com finalidade cerimonial acreditavam que o cogumelo fazia eles se conectarem com anjos ou demônios, permitir projeções astrais, ter visões do futuro, entre outros (HOFFMAN, 1980).

A primeira evidência escrita de povos que usaram cogumelos alucinógenos, com

finalidade recreacional ou religiosa, foi achada em cronistas espanhóis e naturalistas do século 16, sendo que o mais importante dos relatos é do frade franciscano Bernardino Sahagun que

descreveu os cogumelos mágicos e seus efeitos em várias passagens do seu livro “Historia General de las Cosas de Nova Espanha”, escrito entre 1529 e 1590 (HOFFMAN, 1980).

16

16 Figura 10. Cogumelo de Pedra Fonte: Diniz (1999) 6. APLICAÇÃO E PESQUISA Matharu (2005) é

Figura 10. Cogumelo de Pedra Fonte: Diniz (1999)

6. APLICAÇÃO E PESQUISA

Matharu (2005) é o primeiro a mencionar cientificamente, em forma de relato de caso, o uso da psilocibina para tratamento de enxaquecas, ele descreve que um paciente sofria de crises intermitentes de enxaqueca e havia passado por diversos tipos de tratamento, incluindo polifarmácia, sem sucesso. O único tratamento com sucesso foi com verapramil 720mg, mas causou problemas gengivais graves e com isso reduziram para 480mg diários. O paciente relatou que usou 1g de algum fungo que continha psilocibina e, que após esse uso, a dor reduziu drasticamente sua frequência por 1 mês, a partir desse momento ele relata que continua a usar 1g a cada 1 ou 2 meses concomitantemente com 480mg diários de verapramil. Um estudo de novembro de 2016 avaliou os efeitos da psilocibina no tratamento de depressão e ansiedade em 51 pessoas que faziam tratamento vitalício para câncer. Os resultados foram bem satisfatórios. Seis meses após a última sessão, cerca de 80% dos participantes continuaram apresentando redução significativa da ansiedade e depressão, 83% relataram melhoras no bem-estar geral (GRIFFITHS et al., 2016).

17

Roland Griffiths, professor e psicofarmacologista da Universidade de Johns Hopkins com mais de 15 anos conduzindo experiências com psilocibina, afirma que uma simples dose de psilocibina é mais eficaz do que o tratamento usual para algumas condições psiquiátricas, que pode levar meses (MACMAINS, 2017). Outro estudo, publicado em 30 de agosto de 2016, avaliou as chamadas “bad trips” (situação em que as alucinações causadas por drogas levam o indivíduo a sentir sensações ruins, podendo trazer riscos à integridade física dele ou de terceiros) em aproximadamente 2.000 pessoas, não se limitando apenas à psilocibina. O professor Griffiths afirma que é impossível para alguém avaliar os riscos do uso da psilocibina baseados nos relatos dos efeitos positivos e negativos existentes (CARBONARO et al., 2016). Ainda nesse estudo, o resultado que mais chama atenção é que 10.7% dos entrevistados relataram que se colocaram em risco de lesão física arriscando até mesmo outras pessoas, porém, com o uso controlado e supervisionado estes riscos podem ser perfeitamente eliminados (CARBONARO et al., 2016). Johnson e Griffiths (2017) demonstram a eficácia da psilocibina para o tratamento de diversos sintomas/enfermidades, com dados obtidos através do uso terapêutico e controlado em humanos. A psilocibina mostrou-se como uma ótima substância para tratamento de depressão e ansiedade a longo prazo, a partir de 3 meses de uso com dose oral de 0.2mg/kg com intervalo de várias semanas entre a dose, sem apresentar qualquer evento adverso significativo. Além do tratamento acima citado, no mesmo estudo de Johnson e Griffiths (2017) são mostradas diversas outras aplicações, entre elas o uso da psilocibina para tratamento de vícios (álcool/tabaco), transtorno obsessivo compulsivo e enxaquecas, valendo-se dizer novamente que tais resultados foram obtidos através de uso com doses terapêuticas seguidas de sessões de terapia convencional.

7. TÉCNICAS DE EXTRAÇÃO A extração pode ser direcionada para psilocibina seguida da psilocina, ou psilocina

somente.

7.1. EXTRAÇÃO PSILOCIBINA E PSILOCINA

O método de extração por Gottlieb (1976) é o processo abaixo:

Triturar, pulverizar e misturar 10ml de metanol a cada 100mg de cogumelo triturado, colocar o frasco em banho maria por quatro horas, filtrar o líquido por sucção através de um

18

filtro de papel em um funil de buchner com Celite (terra diatomácea) para prevenir entupimento, coletar e guardar o filtrado, aquecer a pasta que ficou retida no filtro de papel com metanol em banho maria por quatro horas por mais duas vezes, filtrar e juntar os líquidos das três extrações. Em um béquer com o líquido extraído proceder para um banho maria ou usar um secador de cabelo para evaporar todo metanol. O resíduo apresentará por volta de 25%-50% de psilocibina/psilocina. O resíduo pode ser purificado porém necessitará de solventes e equipamento de cromatografia. Cada 100g de cogumelos secos rendem por volta de 2g de material extraído, contendo no mínimo 500mg de psilocibina/psilocina. Outro método de extração descrito por Zhuk (2015) é o seguinte processo:

Secar os cogumelos em 40ºC por 24 horas, pulverizar moer em um almofariz, transferir para um frasco de Erlenmeyer, adicionar 50 mL de metanol (para 500mg de amostra), levar para um banho ultrassônico por 3 horas, filtrar e evaporar até secagem completa. Para comprovar que os alcaloides foram extraídos siga os seguintes passos:

Pegue uma porção da pasta usada e teste com o reagente de Keller (ácido acético glacial, cloreto ferroso e ácido sulfúrico concentrado), caso a cor apresente-se violeta, os alcaloides ainda estão na pasta e necessitam de outra extração com metanol (GOTTLIEB, 1976; MUSSHOFF et al., 2000; ZHUK et al., 2015).

7.2. EXTRAÇÃO EXCLUSIVA PSILOCINA

Casale (1985) descreve o processo para extração isolada da psilocina, baseado na desfosforilação através do aquecimento do ácido acético, conforme segue:

Triturar 2-10g de cogumelos secos até obter um fino pó, misturar o pó com 100ml de ácido acético diluído em um béquer de 250ml, ajustar o pH para 4 usando ácido acético glacial, repousar 1 hora, colocar o béquer em banho maria de 8 a 10 minutos ou até a temperatura da mistura alcançar 70ºC, resfriar o béquer à temperatura ambiente com água corrente, a mistura ácida é separada do pó dos cogumelos usando lã de vidro; O filtrado é elevado para pH 8 usando hidróxido concentrado de amônio e rapidamente extraído com duas porções de 50ml de dietil éter; Misturar calmamente para prevenir uma emulsão; O éter é seco através do sulfato de sódio; Filtrar e evaporar com nitrogênio sem aquecimento para obter um

resíduo de cor esverdeada.

8. ABSORÇÃO, DISTRIBUIÇÃO, METABOLISMO E EXCREÇÃO

A psilocibina é absorvida através da ingestão dos cogumelos da espécie Psilocybe cubensis¸ podendo também ser fumegados (menos comum). Devido a psilocibina apresentar

19

um grupo fosfato altamente polar, é mais solúvel em água do que a psilocina, entretanto as duas são moderadamente solúveis em etanol e metanol. (BALLESTEROS et al., 2006), entretanto a psilocina é melhor absorvida no trato gastrointestinal (cólon e jejuno). Estudos in vivo em ratos demonstraram que a psilocibina é rapidamente desfosforilada no intestino e converte-se em psilocina, significando que a psilocibina é absorvida quase que totalmente na sua forma desfosforilada, psilocina (EIVINDVIK et al., 1989). Em humanos, a psilocibina foi detectada no plasma em quantidades significativas entre 20-40 minutos após a ingestão com o estômago vazio, enquanto a psilocina foi detectada no plasma a partir de 30 minutos. Um estudo bioquímico precoce demonstrou que a psilocina pode ser a principal, senão exclusiva, responsável pelos efeitos. Outro estudo, em tecidos de roedores, apresentou resultados que indicam que a psilocibina é convertida totalmente em psilocina antes de entrar na circulação sistêmica. Diante dos resultados assumiu-se que grande parte da conversão da psilocibina em psilocina advém do efeito de primeira passagem no fígado (PASSIE et al., 2002). Após a conversão e distribuição da psilocina para a corrente sanguínea, ela é metabolizada pela desmetilação e deaminção oxidativa catalisadas pela enzima MAO (monoamina oxidase) ou aldeído desidrogenase presentes no fígado, através deu metabólito intermediário, 4-hidroxindole-3-acetaldeído, para se obter o ácido 4-hidroxi-indol-3-acético, 4-hidroxi-indole-3-acetaldeído e 4-hidroxitriptoftol. (KALBERER et al., 1962; LINDENBLATT et al., 1998) Alguns usuários costumam usar outras substâncias para potencializar o efeito alucinógeno, consumindo juntamente com o cogumelo, inibidores de MAO, etanol e tabaco. O etanol possui como metabólito primário um acetaldeído que, in vivo, reage com aminas produzindo dois inibidores de MAO, tetraidroisoquinolinas e β-carbolinas. Já o uso do tabaco está associado a níveis diminuídos de MAO no cérebro e tecidos periféricos. (HALPERN, 2004; FOWLER et al., 1996) A eliminação de psilocibina inalterada (3-10%) ocorre através dos rins (PASSIE et al., 2002) e possui meia-vida plasmática de aproximadamente 160 minutos, enquanto a psilocina é de 50 minutos aproximadamente (HASLER et al., 1997; MARTIN et al., 2013). Um estudo controlado em humanos mostrou que em 24 horas, 2,5-4,3% da dose administrada de psilocibina é excretada na urina na forma livre de psilocina. (HASLER et al., 2002). Outros estudos farmacocinéticos e forenses revelaram que apenas uma pequena parte é excretada como psilocina livre (aproximadamente 20%), sendo a outra parte excretada como psilocina- glicuronídeo (aproximadamente 80%), sendo esse último um produto da glicuronidação,

20

importante passo para detoxificação da psilocina e possibilitar sua excreção na urina (STICHT; KAFERSTEIN, 2000) (fig. 11).

excreção na urina (STICHT; KAFERSTEIN, 2000) (fig. 11). Figura 11. Conversão e metabolização da psilocibina

Figura 11. Conversão e metabolização da psilocibina Fonte: Natural Products - Scientific Figure on ResearchGate.

9. INTERAÇÃO FÁRMACO-RECEPTOR

A psilocibina é uma indolalquilamina alucinógena derivada da dimetiltriptamina, a mediação causada nos receptores por drogas alucinógenas ainda não é suficientemente conclusiva, porém há fortes indícios de serem no receptor 5-HT2A, visto que é uma característica de todas as drogas derivadas da dimetiltriptamina (WINSTOCK, KAAR, BORSCHMANN, 2013; ZHUK et al. 2015) pois drogas de outras classes farmacológicas não produzem alucinações e drogas antagonistas à esse receptor bloqueiam os efeitos alucinógenos. Este receptor é o principal responsável pelos efeitos alucinógenos e alteração de

21

comportamento em animais. A psilocina liga-se, com afinidade moderada para alta, nos receptores 5-HT de maneira não seletiva e também nos receptores com traços de amina e σ1 (HALBERSTADT, 2015; GLENNON, TITELER, MCKENNEY, 1984). Em relação à tolerância, drogas alucinógenas produzem de maneira rápida tal efeito, citando inclusive a tolerância cruzada, indicando que tais drogas compartilham algumas características relativas ao mecanismo de ação. (HALBERSTADT, 2015) Passie et al. (2002) mostra que a psilocibina e seu metabólito ativo, psilocina, em contraste com indolaminas, não tem afinidade nenhuma com receptores dopaminérgicos D2, porém usar antagonistas de D2 antes da psilocibina reduz os efeitos alucinógenos, o que leva a crer tais efeitos podem ser uma resposta secundária para o aumento de transmissões dopaminérgicas.

9.1 EFEITOS EM ATIVIDADES NEURAIS ESPECÍFICAS

Halberstadt (2015) também cita algumas atividades neurais específicas quando do uso de algum alucinógeno que interage com receptores 5-HT, valendo citar o cerúleo, que após a administração do alucinógeno ocorreu um aumento significativo na resposta que mesmo estímulos sensoriais inócuos emitiram uma resposta; o cortéx pré-frontal, no qual os receptores de 5-HT são fortemente expressos.

10. TOXICIDADE Passie et al. (2002) demonstra em sua revisão que não foram identificados efeitos significativos de possível intoxicação, apenas efeitos somáticos esperados como alteração da frequência cardíaca, da pressão arterial, reflexos, entre outros; valendo citar que em ratos também não foi detectada nenhuma possível alteração mutagênica, porém reforça a necessidade de testes mais conclusivos. Um efeito tóxico ainda pouco conhecido é uma síndrome chamada de Transtorno de Percepção Persistente Alucinógena (HPPD, em inglês). Trata-se de uma síndrome caracterizada basicamente pela recorrência dos efeitos alucinógenos mesmo após meses sem consumir tal substância, podendo ser leves ou bem graves a ponto de incapacitar a pessoa por um período indefinido. Pode ocorrer com uso de diversas drogas, inclusive psilocibina, porém sendo mais comum com uso da dietilamida do ácido lisérgico. Existem casos documentados de pacientes que desenvolveram “HPPD” após interação de 1 ou mais drogas, citando como exemplo o consumo de cannabis com psilocibina (ORSOLINI et al., 2017).

22

Existe uma diferença entre “flashbacks” e a síndrome “HPPD”, sendo que a primeira trata-se de sintomas mais brandos, com baixa persistência e efeitos, por vezes, agradáveis. Já na “HPPD” trata de sintomas com persistência altíssimas e por vezes incapacitantes em algum grau. (HERMLE; RUCHSOW; TÄSCHNER, 2015) A DL50 estimada em ratos e camundongos fica entre 280 325mg/kg, sendo os valores mais altos derivados de extratos metanólicos, significando que uma pessoa de 60kg deveria ingerir 1,7kg de cogumelos frescos para alcançar essa dose; outros efeitos tóxicos agudos relatados incluem: problemas cardiovasculares, dores de cabeça, confusão, fraqueza, euforia, náuseas, falência renal, midríase, e acidentes fatais decorrentes de desestabilização emocional ou alucinações (ZHUK et al. 2015; DINIS-OLIVEIRA, 2017). Em um estudo com ratos usando-se psilocina sintética e extraída demonstrou que há um grande sinergismo entre as substâncias presentes no cogumelo (baeocistina, norbaeocistina, aeruginascina) e que essa interação pode potencializar os efeitos alucinógenos e diminuir os efeitos tóxicos, visto que a dose da psilocina extraída usada foi dez vezes menor do que a psilocina sintetizada para causar os efeitos esperados (ZHUK et al., 2015) Johnson, Sewell e Griffiths (2012) conduziram um estudo com indivíduos saudáveis e mostraram evidências fortes que a psilocibina pode induzir dores de cabeça por diversos mecanismos, sendo o mais aceito a liberação de óxido nítrico, porém citando também que não trata-se de uma dor de cabeça severa ou debilitante e que isso não será uma barreira para futuros estudos.

11. INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS

A psilocibina é metabolizada pela monoaminoxidase (MAO) ou aldeído dehidrogenase. Sendo assim, o consumo de inibidores de MAO aumentam os efeitos alucinógenos por aumentar sua biodisponibilidade, e o consumo associado com etanol estimula a produção de inibidores MAO (tetrahidroisoquinolina e β-carbolina) visto que o primeiro metabólito do etanol, acetaldeído, reage com aminas endógenas produzindo tais inibidores. O uso de tabaco também está relacionado com baixos níveis da enzima MAO (DINIS-OLIVEIRA, 2017). Uma série de estudos conduzidos por Vollenweider (1998) no Hospital Universitário de

Psiquiatria em Zurich, mostrou que os efeitos alucinógenos da psilocibina, numa dose 215- 260 μg/kg, foram completamente bloqueados com um pré-tratamento de cetanserina (antagonista 5-HT2A/2C) ou risperidona (antagonista 5-HT2A/D2).

23

12. PSILOCIBINA E A LEI

12.1 BRASIL

A Lei nº 11.343/06, que institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas,

define como droga, em seu Artigo 1º, como qualquer substância e/ou produtos capazes de causar dependência, assim especificados em lei ou relacionados em listas atualizadas pela União. No seu Artigo 2º proíbe em todo território nacional plantio, cultura, colheita e exploração de vegetais ou substratos dos quais possam ser extraídas ou produzidas drogas. Conforme a Lista F2 da Portaria nº 344/98 da ANVISA, a psilocibina é uma substância de uso proscrito no Brasil, sendo seu uso, produção e comércio proibidos dentro do território brasileiro. Nessa mesma portaria, na Lista E, que elenca planta que podem originar substâncias entorpecentes e/ou psicotrópicas, o Psilocybe cubensis não é citado, restando dúvidas quanto a permissão ou não do cultivo do fungo, além de haver uma confusão visto que esta lista fala de plantas porém espécies de fungos estão listadas também, vide Claviceps paspali.

12.2 INTERNACIONALMENTE

A Convenção de Substâncias Psicotrópicas de 1971 das Nações Unidas em Viena coloca a psilocibina na lista I das substâncias, porém libera o uso para aplicações científicas e médicas no seu Artigo 7º.

A Lei de Substâncias Controladas dos Estados Unidos também lista a psilocibina em

sua Lista I, visto que os Estados Unidos foi um dos que aderiram à Convenção de Viena, e também libera a substâncias para pesquisas científicas e restritos usos médicos. (USC, 1971)

24

13. DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

Cogumelos alucinógenos são usados desde os tempos mais antigos com objetivo religioso, passando, com o tempo, a serem usados de maneira recreativa, existindo relatos desde o século 16. O Psilocybe cubensis tornou-se o fungo alucinógeno mais consumido mundialmente pelo sua facilidade de adaptação, cultivo e por ter efeitos similares à outras drogas alucinógenas, porém sem os efeitos colaterais. A psilocibina, e seu metabólito psilocina, são os responsáveis pelos efeitos alucinógenos, agindo principalmente nos receptores 5-HT2A, visto que são indolalquilaminas derivadas da dimetriltriptamina (DMT), porém seu mecanismo de ação completo ainda é desconhecido. Verificou-se que restou uma dúvida entre os autores que pesquisaram a conversão da psilocibina em psilocina, sendo que Eivindvik et al. (1989) afirma que a conversão ocorre no intestino, enquanto Passie et al. (2002) afirma que ocorre no fígado. Sua toxicidade é baseada em reações de hiperestimulação de receptores de serotonina e incluem alteração de frequência cardíaca, midríase, entre outros, porém, em raros casos, pode desenvolver um Transtorno de Percepção Persistente Alucinógena. Estudos recentes demonstram um grande potencial terapêutico para a psilocibina, sendo usada para diversos fins, dentre eles enxaquecas, ansiedade e depressão, já sendo realizados testes com seres humanos, em pequenos grupos seletos, por instituições renomadas como a Universidade Johns Hopkins nos Estados Unidos. Estudos mais conclusivos são necessários para avaliar o real risco e potencial terapêutico da substância. A psilocibina usada nas pesquisas atuais normalmente é extraída de cogumelos coletados no ambiente ou através da compra de laboratórios que as sintetizam, por esse motivo as referências de produção do micélio e respectiva frutificação são antigas, porém não obsoletas. Existem outros métodos de cultivo e frutificação que não estão documentados de maneira oficial, e até de outros fungos alucinógenos, por exemplo o bolo PF-TEK”, Ambrosia” e “Grain to Grain”. O método de crescimento, colonização e frutificação pode sofrer variações em relação aos substratos, recipientes e à proteção contra contaminantes e consequente erradicação. OSS e ERIC (1976) também citam os problemas mais comuns quando do cultivo caseiro, como mau controle de aeração, aparecimento de abortos e alguns dos contaminantes mais comuns. Em relação à parte legal da pesquisa de drogas alucinógenas, o Brasil não fica atrás dos outros países que fazem parte da Convenção de Viena, estando incluído na lei de drogas,

25

mediante autorização da União, o plantio, cultura e colheita para fins medicinais e científicos. Porém, na parte prática, nota-se uma grande resistência por parte do governo no sentido de liberar, incentivar e investir quando comparamos com outros países de primeiro mundo. Em relação a metodologia usada, fica notável a falta de incentivo do governo, e consequentemente desinteresse da parte de micologistas e outros profissionais da saúde, para conduzir estudos de micologia ambiental, visando a descoberta e estudo de substâncias com potenciais terapêuticos.

26

14.

REFERÊNCIAS

ALEXOPOULOS, C. J.; MIMS, C.W; BLACKWELL. M. Introductory Mycology. New York: John Wiley & Sons, Inc. p. 856, 1996.

ANVISA. Portaria nº 344, de 12 de mai. de 1998. Aprova o Regulamento Técnico sobre substâncias e medicamentos sujeitos a controle especial. Brasília, DF, dez 1998.

BADHAM, E. R.; The Effect of Light upon Basidiocarp Initiation in Psilocybe cubensis. Mycologia, v. 72, n. 1, p.136-142, jan. 1980. JSTOR.

BALLESTEROS, S. et al. Natural sources of drugs of abuse: magic mushrooms. New research on street drugs (Cole SM ed). Nova Science Publishers. New York, 2006.

BRASIL. Lei nº 11.343, de 23 de ago. de 2006. Institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas - Sisnad; prescreve medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelece normas para repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas; define crimes e dá outras providências. Brasília, DF, ago 2017.

CARBONARO, T. M. et al.; Survey study of challenging experiences after ingesting psilocybin mushrooms: Acute and enduring positive and negative consequences. Journal of Psychopharmacology, v. 30, n. 12, p. 1268-1278, 30 ago. 2016. SAGE Publications.

CASALE, J. F. An Aqueous-Organic Extraction Method for Isolation and Identification of Psilocin from Hallucinogenic Mushrooms. Journal of Forensic Sciences, JFSCA, p. 247- 250, 1985.

CATALFOMO, P.; TYLER JR., V. E. The Production of Psilocybin in Suberged Culture by Psilocybe Cubensis. Washington, Seattle 5 (Drug Plant Laboratory, College of Pharmacy), p. 53-63, 1964.

27

CERVELLIN, G. et al. Epidemiology and clinics of mushroom poisoning in Northern Italy: A 21-year retrospective analysis. Human & Experimental Toxicology, [s.l.], p.1-7, 14 set.

2017.

DINIZ, O. G. G. Usos, bioquímica e atividade biológica do Psilocybe spp. Instituto Brasileiro de Estudos Homeopáticos. Rio de Janeiro, 1999.

DINIS-OLIVEIRA, R. J.; Metabolism of psilocybin and psilocin: clinical and forensic toxicological relevance. Drug Metabolism Reviews, v. 49, n. 1, p.84-91, 2 jan. 2017. Informa UK Limited.

EIVINDVIK, K. et al. Handling of psilocybin and psilocin by everted sacs of rat jejunum and colon. Acta Pharm Nord, 1989.

FOWLER, J. S. et al. Inhibition of monoamine oxidase B in the brains of smokers. Nature, [s.l.], v. 379, n. 6567, p.733-736, fev. 1996.

FreeSpores.com. Disponível em: <http://www.freespores.com/images/lizard_king_3.jpg>. Acesso em: 12 set 2017.

GIMENES, L. J. Fungos Basidiomicetos: Técnicas de coleta, isolamento e subsídios para processos biotecnológicos. Instituto de Botânica de São Paulo, 2010.

GLENNON, R. A.; TITELER, M.; MCKENNEY, J. d

the mechanism of action of hallucinogenic agents. Life Sciences, v. 35, n. 25, p.2505-2511,

dez. 1984. Elsevier BV.

Evidence for 5-HT2 involvement in

Google Maps. Disponível em: <

https://www.google.com/maps/d/viewer?mid=1NjFaOAETmrqUs9gBftv_JkZaGUI&hl=en_U

S&ll=-15.159403991178193%2C-47.49854356464846&z=5 >. Acesso em: 30 set 2017.

GOTTLIEB, A.; “The Psilocybin Producer’s Guide”; Kistone Press, p. 12-13, 1976.

28

GRIFFITHS, R. R. et al.; Psilocybin produces substantial and sustained decreases in depression and anxiety in patients with life-threatening cancer: A randomized double-blind trial. Journal of Psychopharmacology, v. 30, n. 12, p. 1181-1197, 30 nov. 2016. SAGE Publications.

GUZMÁN, G.; The Genus Psilocybe: A systematic revision of the known species including the his tory, distribution and chemistry of the hallucinogenic species. Veracruz: Strauss & Cramer Gmbh, 1983. P. 31, 246.

HALBERSTADT, A. L

hallucinogens. Behavioural Brain Research, v. 277, p.99-120, jan. 2015. Elsevier BV.

Recent advances in the neuropsychopharmacology of serotonergic

HALPERN, J. H. Hallucinogens and dissociative agents naturally growing in the United States. Pharmacology & Therapeutics, [s.l.], v. 102, n. 2, p.131-138, maio 2004.

HASLER, F. et al. Determination of psilocin and 4-hydroxyindole-3-acetic acid in plasma by HPLC-ECD and pharmacokinetic profiles of oral and intravenous psilocybin in man. Pharm Acta Helvetia. v. 72, p. 175-184, 1997.

HASLER, F. et al. Renal excretion profiles of psilocin following oral administration of psilocybin: a controlled study in man. Journal Of Pharmaceutical And Biomedical Analysis, [s.l.], v. 30, n. 2, p.331-339, set. 2002.

HAWKSWORTH, D. L

revisited. Mycological Research, [s.l.], v. 105, n. 12, p.1422-1432, dez. 2001.

The magnitude of fungal diversity: the 1.5 million species estimate

HERMLE, L.; RUCHSOW, M.; TÄSCHNER, K

Wahrnehmungsstörung (HPPD) und Flashback-Phänomene Differenzialdiagnose und Erklärungsmodelle. Fortschritte Der Neurologie · Psychiatrie, v. 83, n. 09, p.506-515, 30

set. 2015. Georg Thieme Verlag KG.

Halluzinogen-induzierte Persistierende

HOFFMAN, A. Minha criança problema. McGraw-hill book company. 1980.

29

HORITA, A.; WEBER, L.J

pscilocin by mammalian tissue homogenates. Biochemical Pharmacology, [s.l.], v. 7, n. 1,

p.47-54, jul. 1961.

The enzymic dephosphorylation and oxidation of psilocybin and

JOHNSON, M. W.; GRIFFITHS, R. R

Psilocybin. Neurotherapeutics, v. 14, n. 3, p.734-740, 5 jun. 2017. Springer Nature.

Potential Therapeutic Effects of

JOHNSON, M. W.; SEWELL, R. A.; GRIFFITHS, R. R.; Psilocybin dose-dependently

causes delayed, transient headaches in healthy volunteers. Drug And Alcohol Dependence,

v. 123, n. 1-3, p.132-140, jun. 2012. Elsevier BV.

MACMAINS, V. Study explores the enduring positive, negative consequences of ingesting ‘magic mushrooms’. Johns Hopkins University, 04 jan. 2017. KALBERER, F. et al. The fate of psilocin in the rat. Biochemical Pharmacology, [s.l.], v. 11, n. 4-5, p.261-269, abr. 1962.

LINDENBLATT, H. et al. Quantitation of psilocin in human plasma by high-performance liquid chromatography and electrochemical detection: comparison of liquidliquid extraction with automated on-line solid-phase extraction. Journal Of Chromatography B: Biomedical Sciences and Applications, [s.l.], v. 709, n. 2, p.255-263, mai. 1998.

MARTIN, R. et al. Determination of psilocin, bufotenine, LSD and its metabolites in serum, plasma and urine by SPE-LC-MS/MS. International Journal Of Legal Medicine, [s.l.], v. 127, n. 3, p.593-601, 27 nov. 2012.

MATHARU, M S. Verapamil induced gingival enlargement in cluster headache. Journal Of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry, v. 76, n. 1, p.124-127, 1 jan. 2005. BMJ.

MUSSHOFF, F. et al. Hallucinogenic mushrooms on the German market simple

instructions for examination and identification. Forensic Science International, [s.l.], v. 113,

n. 1-3, p. 389-395, set. 2000.

30

National Center for Biotechnology Information. PubChem Compound Database. Disponível em: < https://pubchem.ncbi.nlm.nih.gov/compound/10624>. Acesso em:

19/03/2018.

National Center for Biotechnology Information. PubChem Compound Database. Disponível em: < https://pubchem.ncbi.nlm.nih.gov/compounds/4980 >. Acesso em:

19/03/2018.

Natural Products - Scientific Figure on ResearchGate. Disponível em: <

https://www.researchgate.net/278709278_fig2_Figure-3-Scheme-183-Metabolism-

ofpsilocybin >. Acesso em: 30 set 2017.

North American Mycological Association. Disponível em: < http://namyco.org/photos/1785_05092015002844.jpg>. Acesso em: 12 set 2017

ONU Organização das Nações Unidas, Convenção de Substâncias Psicotrópicas. Viena, 1971. Disponivel em: <https://www.unodc.org/pdf/convention_1971_en.pdf>. Acesso em: 23 mar. 2018.

ORSOLINI, L. et al. The “Endless Trip” among the NPS Users: Psychopathology and Psychopharmacology in the Hallucinogen-Persisting Perception Disorder. A Systematic Review. Frontiers In Psychiatry, v. 8, p.1-10, 20 nov. 2017. Frontiers Media SA.

OSS, O. T.; OERIC, O. N. Psilocybin: Magic Mushroom Grower’s. Berkeley, Califórnia, 4ª impressão, 1976.

PASSIE, T. et al. The pharmacology of psilocybin. Addiction Biology, [s.l.], v. 7, n. 4, p.357- 364, out. 2002.

Shroomology.org. Disponível em: <

https://www.shroomology.org/uploads/monthly_2015_10/cubensis-

spores.jpg.ac29604f079a845a14747f0b6a33f7a7.jpg>. Acesso em: 27 set 2017.

31

Smithsonian Tropical Research Institute. Disponível em: < http://biogeodb.stri.si.edu/bioinformatics/dfm/metas/view/46780>. Acesso em: 15 set 2017.

Sociedade Brasileira de Química. Disponível em: < http://qnint.sbq.org.br/novo/index.php?hash=molecula.266 >. Acesso em: 27 set 2017.

STAMETS, P. Psilocybin mushrooms of the world. Berkeley, Canadá, p. 16-29, 1996.

STICHT, G; KÄFERSTEIN, H. Detection of psilocin in body fluids. Forensic Science International, [s.l.], v. 113, n. 1-3, p.403-407, set. 2000.

The Metabolomics Innovation Center. Disponível em: < http://www.hmdb.ca/metabolites/HMDB42000 >. Acesso em: 19/03/2018.

TURNER, N. W. et al. Analytical methods for determination of mycotoxins: An update (20092014). Analytica Chimica Acta, [s.l.], v. 901, p.12-33, dez. 2015.

USC Congresso dos Estados Unidos. Lei de Substâncias Controladas. Estados Unidos, 1971. Disponível em: < https://www.naabt.org/documents/Controlled-Substances-Act.pdf>. Acesso em: 23 mar. 2018.

VOLLENWEIDER, F. X. et al. Psilocybin induces schizophrenia-like psychosis in humans via a serotonin-2 agonist action. Neuroreport, v. 9, n. 17, p.3897-3902, dez. 1998. Ovid Technologies (Wolters Kluwer Health).

WEBSTER, J.; WEBER, R. Introduction to Fungi. Cambridge University, p. 521, 2007.

WINSTOCK, A. R; KAAR, S.; BORSCHMANN, R

Prevalence, user characteristics and abuse liability in a large global sample. Journal Of

Psychopharmacology, v. 28, n. 1, p.49-54, 27 nov. 2013. SAGE Publications.

Dimethyltryptamine (DMT):

ZHUK, O. et al. Research on Acute Toxicity and the Behavioral Effects of Methanolic Extract from Psilocybin Mushrooms and Psilocin in Mice. Toxins, [s.l.], v. 7, n. 4, p.1018-1029, 27 mar. 2015.