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CEM TRILHÕES

DE POEMAS
DE AMOR

LCBR
SP 2019
Em 1961, Raymond Queneau publicou "Cent mille milliards de poèmes" / "Cem trilhões de poemas". O
livro tem dez sonetos e, combinando todos os versos entre si, chega-se a 1014 poemas, os 100 trilhões do
título. Queneau dizia, em seu prefácio que, à razão de 45 segundos para ler um soneto e 15 para redispor as
tirinhas, e lendo sem parar, seriam necessários 190.258.751 anos e mais alguns cacos...
Em 2011, enquanto trabalhava nos seus "Exercícios de estilo", aproveitei o ensejo para traduzir seus
poemas. Verti-os em alexandrinos e decassílabos - metro que corresponde melhor à cadência do português -
e, no mesmo impulso, fiz a mesma coisa com umas traduções para o inglês que também adaptei; ainda no
mesmo impulso, retraduzi os decassílabos para o francês - também em decassílabos e, para voltar ao metro
original, em alexandrinos... e continuei o exercício verificando os resultados obtidos com tradutores
automáticos. O trabalho sumiu com o roubo do meu computador, mas resolvi continuar o exercício
compondo, desta vez, uma série de sonetos diretamente em português.

Queneau trabalhou evitando rimas fáceis, empenhou-se em construir proposições complexas e cuidou que
todos os resultados possíveis fossem gramaticalmente corretos. Para os sonetos, escolheu temas variados,
mas cada um deles apresentava um sentido translúcido. Disse ter se inspirado "mais num livro infantil
chamado 'Têtes de rechange' / 'Cabeças de troca' que nos jogos surrealistas do gênero 'Cadavre exquis' /
Cadáver esquisito (delicioso)".
Com a variação de temas, os resultados são, sim, deliciosamente esquisitos.
Em nome da psique nacional, resolvi empregar um tema de base. Sempre quis fazer uma coisa baseada nos
"Modelos de cartas de amor", pareceu-me que esta seria uma boa oportunidade, razão pela qual os dez
sonetos giram em torno do mais caro tema à nossa disposição, o amor.
Confesso ter menos talento que o grande "escritor menor" francês... minhas proposições são praticamente
todas simples, uma por verso, e as rimas bastante banais... esta última escolha foi ditada por "amor", não é
culpa minha se a rima é fácil...
Respeitei outras restrições, como por exemplo a de não repetir as palavras de rima. São necessárias três
vezes quarenta palavras diferentes para os quartetos e a parte rimada dos tercetos, mais vinte palavras para a
rima alternada desses últimos. Com minhas rimas pobres, poderia ter continuado por muito tempo o
exercício...
Vocês encontrarão alguns pastiches espalhados pelo texto - Vinicius de Moraes, Baudelaire, Sá Carneiro,
Caetano... -, mas não me preocupei em fazê-los de maneira sistemática. São uma forma de evitar a
monotonia da leitura, a partir de textos tão semelhantes.
Bom namoro,

LCBR, SP, abril de 2019


1.

Escrevo aqui um soneto de amor

no belo estilo do Glauco Mattoso

Pra não ser óbvio rimo com bolor

meu personagem é muito peloso

Eu me lembro do mundo e da sua cor

amor escorre em teu rosto dengoso

Eu só quero beijo e me dás torpor

teu "não"me parece muito asqueroso

Louco de paixão já desesperado

do peito arranco o coração coitado

acho a vida um discutível bolero

Rima fácil me deixa exasperado

também cansa o sentido figurado

perco tanto amor neste lero-lero


2.

Eu não quero aumentar toda esta dor

lembrando quanto me foste asqueroso

Tu és todo um atentado ao pudor

teu beijo lascivo é quase insidioso

Eu me perco por um galanteador

nos meandros do teu papo guloso

Acredito que me serás mentor

só vejo mentira em tom amistoso

Agora já de mim tão exilado

preciso de um voto meu exarado

numa vingança em regra eu me esmero

Não me digam que sou eu o errado

a culpa é toda tua - ser depravado

quando sedutor te finges de austero


3.

Eu quero ser um Papu e compor

versejando um beiço espalhafatoso

Eu sou uma onça e espalho vigor

ninguém escapa do abraço orgulhoso

Eu bem sei que não sou nenhuma flor

sou um ser manchado e fico nervoso

O silêncio em volta é constrangedor

já da minha pata o gesto é jocoso

Logo mais vão dizer que sou tarado

só vem comigo um qualquer azarado

tudo isso pelo temor que eu genero

Mas na verdade sou muito avisado

só desgosto de um estilo embaçado

comigo ninguém mais vai fazer gênero


4.

Quero um paraíso conciliador

tu me sais um vigarista infernoso

Sonho conosco num píncaro excelsior

vejo-me em terra num fango seboso

O anel que me deste não tem valor

morre na garganta o nome de esposo

Sonho esta vida com tanto fulgor

tudo se esvai com teu jeito tinhoso

Quando te acercas com teu gesto airado

logo se infla meu peito mais que irado

perco meu controle, me vejo fero

Tenho horror do teu beijo constipado

do teu membro viril circuncidado

por tua causa meu passado adultero


5.

Como diz o poetinha amador

num estilo forte e pretensioso

todo amor é eterno enquanto fôr

uma lição pra todo melindroso

Eu versejo como um computador

preencho em verso meu tempo ocioso

Sonho contigo ímpar em esplendor

sonho-me contigo tempestuoso

Não me rejeites com todo este enfado

deixa-me dar-te um beijo enluarado

verás com quanto ardor eu te venero

Eu sei: pareço um mísero empregado

contando versinhos de retardado

quando por ti amor quero quanto gero


6.

Tu és como um deus grego e predador

és um raio olímpico e fragoroso

És um cisne, uma águia, és negror

me assaltas todo inteiro e prestimoso

Tenho os meus pobres membros sob o ardor

tens pressa no assalto voluptuoso

Já não posso mais - calma, por favor -

dentro vibra o teu pescoço charmoso

Assim te sente Leda aí enlevado

assim se vê Ganímedes acuado

assim me realço como um helicóptero

Mas vendo o efeito ficas pasmado

Meu Deus! este amor já é demasiado

tanto assim não vejo nem chez Homero


7.

Só no Paraíso tanto langor

luxo, beleza, clima voluptuoso

Sinto ao meu lado teu corpo e teu calor

faço-te um cafuné bem carinhoso

Sou um romântico apontador

tua carne dura apalpo esperançoso

Amo a ampla espalda de remador

descrevo teu tudo em verso rançoso

Tens aroma de café bem torrado

com cravo e canela fico extasiado

contigo na cama, eu sei, me supero

Enquanto só de teu cheiro ataviado

tu me olhas ainda estremunhado

peço-te, entre mil beijos, um sonífero


8.

Perco-me em mim mesmo ou ao meu redor

a causa é o teu humor jactancioso

Eu te admiro como a todo um senhor

tu és um bofe desatencioso

De guirlanda e grinalda trovador

teu peito ufano, noivo fabuloso

De injúria e lamento logo gestor

meu fado em teu silêncio desdenhoso

Daqui saio inteiramente ultrajado

a rigor vou pro meu leito desolado

não dá mesmo certo este amor efêmero

Ao leres no jornal o resultado

quem sabe fiques algo impressionado

mas será tarde demais - te amei vero


9.

Não posso imaginar tanto estupor

na minh'alma tudo é vertiginoso

É o lado sombrio do amor criador

cai o pobre amante em caos pavoroso

Minha paixão faz de mim sonhador

navegando só num mar tenebroso

Mas sei: no meu rumo desbravador

deve haver no fim um anjo afetuoso

Sei que no fim será um só pecado

sei que o bom pecado é sim perdoado

a lira tocará de novo - um Nero

Esperando vou então atordoado

- já disse - sigo sonhando acordado

um dia abençoado ouvirei "quero!"


10.

Escrevo um soneto arrebatador

saudoso, ansioso, meticuloso

Espero que seja compensador

tu deves vir a mim todo dengoso

Sonho com teu ímpeto fornicador

já vejo teu esgar libidinoso

Gemo : "Meu Rei, meu grande Imperador!"

gozo em teu aparato cavernoso

Escuto atônito teu alto brado

enquanto acabas meio encabulado

mas ignoramos tanto exagero

Agora descansamos lado a lado

nosso amor é fogoso e transviado

neste começo que é um eterno zero