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Francisco Pereira da Silva

TEATRO COMPLETO
Organização de Virgílio Costa

VOLUME I

FUNARTE
2009
© Virgílio Costa 2009

Os direitos autorais da obra de Francisco Pereira da Silva


foram por ele deixadas, por testamento, a Virgilio Costa.
As peças deste livro só podem ser apresentadas ou reproduzidas, total ou parcialmente,
profissional ou amadoristicamente, em teatro, cinema, rádio, televisão ou quaisquer
outros meios, com licença expressa do proprietário dos direitos, por intermédio da
Sociedade Brasileira de Autores Teatrais - SBAT (Av. Almirante Barroso, 97; Rio de
Janeiro; CEP; email; tel.)

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TEATRO COMPLETO DE FRANCISCO PEREIRA DA SILVA
VOLUME I
1- Viagem, 1945.
2- Lazzaro, 1948.
3- O Caso do Chapéu (comédia),1951.
4- Memórias de um Sargento de Milícias, 1956.
5- Graça e Desgraça na Casa do Engole-Cobra (comédia), 1957.
6- A Nova Helena (comédia), 1958.
7- Uma Carga de Laranjas (comédia), 1958.
8- Cristo Proclamado, 1958.
9- Romance do Vilela, 1959.
1O- O Vaso Suspirado (comédia), 1959.
VOLUME II
11- Chapéu de Sebo, 1961.
12- O Chão dos Penitentes (drama), 1964.
13- A Caça e o Caçador, 1965(?).
14- No País da Antropofagia (Hans Staden), 1966.
15- O Desejado, 1966/69.
16- O Parque (drama), 196O(?).
17- Aquário (drama), 1967.
18- Transistor, (drama) 1968.
19- 3 x 4 (drama), 1968.
2O- Um Dia de Sol no Kilimanjaro (drama), 1969.
21- A Jumenta (comédia), 1969.
VOLUME III
22- Amo por Amar, que é Liberdade (Gregório de Matos), 1971.
23- Navalha, Tesoura e Pó (comédia), 1972.
24- Esta Noite se Improvisa Il Guarany (comédia) , 1972.
25- Raimunda Jovita Cansada de Guerra ou De Pucela a Mignon (comédia), 1972.
26- Raimunda Pinto Sim Senhor (comédia), 1972.
27- O Trágico Destino de Duas Raimundas ou Os Amores Secretos e só Agora
revelados de Lampião (comédia), 1972.
28- Ramanda e Rudá (tragédia), 1972.
29- Coco Verde e Melancia (infantil) , 1972.
3O- Reino do Mar sem Fim (tragédia), 1972.
31- Mariana Alcoforado, 1973.
32- O Cego e Sua Dona ou Tadeu e Moreana, 1976.

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SUMÁRIO DESTE VOLUME:

1- Viagem, 1945...............................................................................................5

2- Lazzaro, 1948...............................................................................................21

3- O Caso do Chapéu (comédia),1951................................................................54

4- Memórias de um Sargento de Milícias, 1956................................................68

5- Graça e Desgraça na Casa do Engole-Cobra (comédia), 1957.......................119

6- A Nova Helena (comédia), 1958....................................................................132

7- Uma Carga de Laranjas (comédia), 1958......................................................144

8- Cristo Proclamado, 1958..............................................................................158

9- Romance do Vilela, 1959.................. ....................................................201

1O- O Vaso Suspirado (comédia), 1959.............................................................235

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BIBLIOGRAFIA

Teatro:
Chapéu de Sebo, Coleção Teatro Moderno n2 19, AGIR, Rio de Janeiro, 1966.
Speckhut, tradução para o alemão de Andreas Klotsch, em Brasilianische Dramen,
Verlag Volk und Welt, Berlin, 1971.
A Caça e o Caçador, edição fora do comércio, Prêmio Coroa de Teatro.
O Vaso Suspirado, Coleção Dramaturgia Brasileira, Serviço Nacional de Teatro, Rio
de Janeiro, 1973.
O Desejado - Romance do Vilela , Coleção Teatro Moderno n 224, AGIR, Rio de
Janeiro, 1973.
Speckhut, tradução de Andreas Klotsch, Volksbühne, Berlin, 1974.
Cristo Proclamado - O Chão dos Penitentes, Coleção Teatro Moderno n 227, AGIR,
Rio de Janeiro, 1975.

Biografias históricas:
Castro Alves, biografia, Editora Três, São Paulo, 1974.
Villa-Lobos, biografia, Editora Três, São Paulo, 1974.
Santos Dumont, biografia, Editora Três, São Paulo, 1974.

Ficção
Revocata, romance-cordel, 1982. Inédito.
Um dia de sol no Kilimanjaro, contos, 1982. Inédito.

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APRESENTAÇÃO

Francisco Pereira da Silva bem mereceu o nome Francisco. Como o poverello de


Assis, ele via sempre nos homens e nas coisas luta e alma, poesia e consciência. Muito
mais que a estéril falta de sentido da cidade grande — coisas sem gosto, palavras sem
sentido — ; muito mais sutil e mais e profundo que a inchada cidade grande brasileira,
que nossa falsamente moderna sociedade.
Francisco saiu de seu Campo Maior, de seus campos sem fim onde o capim tem
pequenas flores amarelas e foi para Rio.
No mafuá das cidades grandes ainda há maravilhosos embora pobres circos
instalados em terrenos baldios; como o que um dia vi, menino, levado por sua mão, e
deslumbrei-me. Mas há muita gente nas cidades grandes que não gosta nem entende de
circo ou da poesia e profundidade das coisas simples profundas como circo.
As armas frágeis de Francisco: sensibilidade, poesia, depurada língua. Contador
de histórias, encontrou nas palavras sua realidade. Representou sua fantasia,
transplantou seus ventos, seu rio, seus currais, suas carnaúbas. Recriou seu
mundo, o mundo de sua infância e o de adulto, feito de sangue, riso, flores do campo
e exemplares criaturas. Invenção e tragédia.
Um contador de histórias. Antes de tudo, um contador de histórias. As
histórias que eu ouvia, pequeno, em seu apartamento, histórias maravilhosas do
João Grilo, da Carochinha, da Vaca Titiringô, das palavras proibidas. Em seu
refinado, discreto e isolado mundo eu tive um mágico particular a vida inteira.
Mas num país onde a cultura, quando não é chique, é miserável, onde não há
classe média rica ou pobre com hábitos culturais, onde o capital na industrial cultural é
tão pouco que os cinemas, teatros, galerias, etc. lutam apenas para sobreviver (como o
nordestino na seca?), onde o governo de ano a ano piora sua área de apoio à cultura por
não dar verbas, não ter pessoal preparado, nem ter uma política definida onde alta e
baixa cultura sejam a apenas duas faces da mesma moeda; não é fácil ser um homem de
teatro.
Assim, um dramaturgo, um homem dos campos do Piauí dono de refinado sentir e
elaborada, pura e clara linguagem — torna-se um enjeitado, um marginal mesmo. E,
caramujo, entra em sua concha e seu silêncio, para morrer em solidão e pobreza, é em

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descrédito, sem conseguir encenar suas peças.
Francisco Pereira da Silva voltou, em seu ultimo ato, a usar a prosa, como
fizera algumas vezes no inicio de sua obra, e deixou um romance e um livro de
contos, inéditos como grande parte de suas peças.
Em prosa, mais uma vez e com a mesma lavada linguagem, limpa como quem
se banha no rio da infância, Francisco realizou mais uma vez o mistério e o milagre
do seu teatro: o de transformar a vida no pão da poesia.

Virgilio Costa1

1 Pesquisador da Casa de Rui Barbosa; Ph.D., Arts & Humanities, New York
University; doutor em História Social da Cultura (reconhecimento UFRJ).
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VIAGEM
1945

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PERSONAGENS:
LUZIA
RAPAZ
VELHO
MORTE
MAROQUINHA
LUDUÍNA
PASTORA
NEGRO
ADOLESCENTE
RAIMUNDINHA
1ª LUZIA
2ª LUZIA
MULHER QUE AJUDA
MULHER QUE VESTE
BONECOS: Elvira, Rose, homens, outra mulher, velha e duas crianças. (Vozes do elenco.)

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Ação: Nordeste, 1940

Um portão. Um jardim. No fundo, fachada de um casarão antigo, de sobrado, com três


arcadas e quatro janelas no segundo andar. Na arcada do meio está um velho numa
cadeira de embalo. Uma lâmpada, ainda sem luz, pende perpendicular a essa cadeira.
Banco no centro do jardim. Tarde de verão, senta–se que a luz vai se acabando, há nas
coisas um misto de distância e melancolia.

LUZIA ESTÁ SENTADA NO BANCO, DE COSTAS. FAZ TRICÔ. O RAPAZ, TAMBÉM DE


COSTAS, TEM A POSIÇÃO DE QUEM, AO TRANSPOR O PORTÃO, PARASSE DE SÚBITO.
OUVEM–SE VOZES QUE PARTEM DAS JANELAS.

1ª VOZ (MULHER) - Sabe dona Rosa pois não é mesmo que a menina morreu?
2ª VOZ (MULHER) - Orra, saber dona Rose, la demoiselle morreu.
1ª VOZ (HOMEM) - Aquela do vestido roxo?
1ª VOZ (CRIANÇA) - O velho de barba branca?
2ª VOZ (MULHER) - Mademoiselle du sentier de narcises?
1ª VOZ (MULHER) - 57 anos! Na minha idade já tinha netos.
2ª VOZ (MULHER) - Vieille? La demoiselle?
3ª TERCEIRA VOZ (MULHER) - Quem?
2ª VOZ (HOMEM) - Quem, então, terá morrido?
2ª VOZ (MULHER) - Personne saber.

AS VOZES EMUDECEM. RAPAZ, APROXIMANDO–SE DO BANCO ONDE ESTÁ LUZIA.

RAPAZ - Sabe o que trago? Não olha? Muito bem, os comerei sozinho.
LUZIA (fazendo tricô, sem levantara vista) - O que traz?
RAPAZ (sentando–se no banco, de frente) - Figos. (Tenta beijar Luzia, mas esta,
discretamente, recua). Sim, figos.
LUZIA (levanta e vai sentar–se de frente, ao lado do Rapaz) - Ahn...
RAPAZ - Sabe de onde os tirei?
LUZIA (sorrindo) - Dalgum quintal alheio.
RAPAZ - Do quintal da tua casa. Se estavam maduros, os passarinhos a bicar?
Pulei a cerca do fundo, depois, corretamente, entrei por este nobre portão teus.
LUZIA (recebendo os figos) - Podia ter colhido mais.
RAPAZ - Por que não vamos nós até lá, na figueira?
LUZIA - Não vamos?
RAPAZ - Por que não nos sentamos à sombra da figueira? O sol da tarde
emudecendo os campos, tu e os teus cabelos, nós a nos abraçar pois que nos amamos.
LUZIA - Impossível seu doido lindo. Que idéia!
RAPAZ - Teus cabelos ainda são os que brincaram na infância?
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LUZIA - Naquele tempo eram soltos, hoje, eu os tranço.
RAPAZ (desprendendo os cabelos de Luzia) - Tão fácil...
LUZIA - Soltos? E se meu pai assim os visse? Ai, que estranha doçura...
RAPAZ - Vamos?
LUZIA - Impossível. A noite chega.
RAPAZ - Cheiros de mel. Aromas! Há figos de lua cheia!
LUZIA - De lua cheia? Não acredito.
RAPAZ - Não acredita naquele que foi o teu companheiro de infância?
LUZIA - Sim, que importa? Que importa ao amor a tarde que vai chegando? a lua
que se faz cheia?
RAPAZ - Vamos? Não vê que este jardim é frio? não percebe o meu desesperado
amor? E que é curto o tempo? A vida foge, Luzia, voemos, voemos sob o Carreiro de
San’Tiago!
LUZIA - Quem dá cordas no relógio? quem acende a luz da vela? quem vela a vida
de meu pai? Se Fernando é o meu noivo destinado...
RAPAZ - Aceita, porque sou o noivo destinado.
LUZIA - Enquanto passa este dia
RAPAZ - A morte bem perto está.
LUZIA - Depende a vida de mim?
RAPAZ - Cabe a você decidir.
LUZIA - Vê, escurece, meu pobre pai está só. (Levanta–se.)

Ouvem–se pancadas de um relógio: sete horas. Mais escuro. A lâmpada, sob a cadeira
onde está o Velho, solta um clarão intenso.

RAPAZ - Luzia, Luzia, está parada?


VELHO - Não vem me dar o jantar? Já esqueceu o teu pai?

LUZIA ENCAMINHA-SE PARA JUNTAR–SE AO PAI. O RAPAZ DESAPARECE NO ESCURO.


LUZIA E O PAI FORMAM UM GRUPO BRANCO, IMOBILIZADO. VOZ DA MORTE.

VOZ - Apareçam estrelas do céu, vinde ver a minha dor. Este banco é a minha
espera, narcisos velam–me o corpo.
Aparecem estrelas do céu, lua nova passeante, venham o perfume das murtas, a
música dos campos distante.
Sim, decerto vêm sem tardar, mas quando, onde?
Apareçam as flores da noite, brancas flores laminadas, meus canteiros de
narcisos!
O amor que recende a murtas bravas, não toque nos meus narcisos...
- Noiva querida entre canteiros, ainda relembra aqueles figos de lua cheia?

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- A quem fala? Não vê que está sozinho?
- Verdade. Só me resta partir. Não sente minhas mãos geladas? Dá–me, pois, o teu
beijo em despedida.
Nobre lua que desce dos ramos das mangueiras, guarda o riso de Fernando.
Nobre luz que desce dos ramos das mangueiras, ela espera, espera.

O RELÓGIO BATE UMA PANCADA. A LUZ SE APAGA. OUVE–SE O TIC–TAC E


NOVAMENTE, O BATER DO RELÓGIO: 6 HORAS. LUZIA, NO BANCO, A FAZER TRICÔ. O
VELHO JÁ NÃO É VISTO NA CADEIRA. DUAS MULHERES ESTÃO SENTADAS AO LADO DO
PORTÃO; UMA, DE COSTAS, AMAMENTA UMA CRIANÇA. LUZ SOBRE AS MULHERES.

1ª MULHER - A luz do escurecer e a do amanhecer é uma só luz. Tristeza e alegria


são a mesma coisa. Tanto faz.
2ª MULHER - Que comparação mais sem sentido!
1ª MULHER - Pois é, ouvi da boca de um engraxate.
2ª MULHER - Bobagem Maroquinha. Alimpe sua cabeça de tudo quanto é
besteira.
1ª MULHER - Fiquei cismada, logo um engraxate com essas conversas? "A morte
nasce com a gente, vem pelos pés, esfria, um suor gelado..."
2ª MULHER - Cruzes! Esconjuro.
1ª MULHER - “... no último momento se alembra de toda a vida na terra..."
2ª MULHER - Tou desconfiando desse tal de engraxate... Será que ele andou
segurando o pé da freguesa, foi indo e descobriu a perna?
1ª MULHER - O homem era sem maldade, mulher. E ainda disse: "se se morre
falando é morte bonita, se caladinho, que morreu como um passarim."
2ª MULHER - Acabe com isto, Maroquinha. A gente deve é de se distrair.
1ª MULHER - Uma casa desta, hoje em dia, tá valendo um dinheirão.
2ª MULHER - Tudo carcomido... Virou foi cabeça–de–porco. Sinto é sobrosso nesta
calçada. Por que a gente veio logo se sentar aqui?
1ª MULHER - Queria dar de mamar ao menino.
2ª MULHER - É certo que os donos inda moram nela?
1ª MULHER - Dona Luzia e o pai. Vivem tão só, dizem até... (Cochicha.)
2ª MULHER - Virge!
1ª MULHER - Ai, Luduína, o que não diz a boca do povo...Tudo mentira, invenção.
A coitada perdeu foi o gosto. Não chega nem neste portão. As mulheres só vêm aqui para
encomendar sapatinhos, quando estão de barriga. E tocam palmas: “dona Luzia, dona
Luzia..." Então ela, com voz, sumida, responde: "Empurre o portão..."
2ª MULHER - Tristeza. É um sobrado de séculos. Tudo fora do tempo, até parece
um cemitério.
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1ª MULHER - Dona Luzia é boa menina. Três vezes já encomendei sapatinhos a
ela. E pensa que ela cobra? nem um vintém. Ela diz que é uma lembrancinha dela. Beijo
a mão da menina, mas me vem como um arrocho, que nem posso chorar. Boa moça.
2ª MULHER - Parece que foi um jardim bonito.
1ª MULHER - Inda é. Tem flores de deixar a gente tonta, tonta. E um folharal seco
onde correm lagartixas. De deixar tonta, entende?
2ª MULHER - Tou sentindo um cheiro de jasmim...
1ª MULHER - Vambora, Luduína.

AS DUAS MULHERES SE LEVANTAM.

2ª MULHER - Espia aquela mulher que vai correndo, e dois homens atrás dela.
1ª VOZ (HOMEM) - Luciana, Luciana me espera.
2ª VOZ HOMEM) - Não adianta correr, mulher, mulher de duas palavras.
1ª MULHER - Deus do céu, é a parteira Luciana!
2ª MULHER - Mulher da vida, credo! Será que tem mãe que ainda se assujeite a
lhe entregar o filho?
1ª MULHER - Vambora, Luduína, já ouço cantar as Pastoras.
2ª MULHER - Ai, ai, uma é ver outra é contar.

AS DUAS MULHERES SAEM.

LUZIA (fazendo tricô) - Meu sapatinho de amor, estou à espera de meu noivo,
sabia? Quem me atormenta o pensamento dizendo que ele se foi? Não é verdade, não é
verdade! Fernando? (Música ao longe.) Ali, está a soltar foguetes, o meu malvado! (Sorri.)
31 de dezembro? Justo. Daí tanta alegria nas ruas. Esta música me lembra, me lembra...
Quem sabe não está no carrossel, o levado? E, se eu fosse lá? Mas não sei onde fica o
carrossel. Bobagem. Nem pai aprova. Falta de recato. Tem tempo, muito. Somos dois
petizes levados da breca! (Sorri.) Olhe o meu vestido novo. De organdi! E o laço de fita
amarela. Não estou bonita? Depois, dizem que amarelo dá sorte na Entrada do ano. Ah,
Nando, este seu boné azul também é lindo! Vamos correr? (A música, seguida de
cantoria, parece mais próxima.) Fernando, Fernando, onde você? E se eu for ao carrossel
e nos desencontramos? É um Pastoril. Deus, venham eles cantar aqui.

POR TRÁS DAS GRADES DO JARDIM SURGEM VULTOS DOS INTEGRANTES DO


PASTORIL. CANTAM:

CORO - "Oi de casa oi de fora


menina vai ver quem é
oi menina vai ver quem é.
PASTORA - "São os reis do Oriente
que suas esmolas pedem
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CORO - oi, que suas esmolas pedem.
PASTORA - "Aqui estou na sua porta
em figura de raposa.
CORO - oi em figura de raposa.
PASTORA - "Não vim lhe pedir nada
mas me dê alguma coisa
CORO - oi mas me dê alguma coisa.
PASTORA (recitando) - "O sol entra pela porta
a lua pela janela
CORO - oi, a lua pela janela
PASTORA (recitando) - "Esta casa é bem feita
por dentro, por fora não.
Por dentro cravos e rosas
por fora manjericão.
PASTORA - "Rosa branca desfolhada
no jardim do beija–flor
CORO - Ano Bom Festas e Reis
eu te peço, meu amor!"
PASTORA (destacando–se do grupo) - Acorda a menina que está dormindo no
banco de pedra, ao luar. Os pastores cantam à sua porta, ouvi–los.
LUZIA (colocando a mantilha) - O portão está aberto, pode entrar.
PASTORA (aproximando–se de Luzia) - Viemos cantar para você.
LUZIA - Stela! (Levanta–se e abraça a Pastora.) Stela, que surpresa! Senta um
instante.
PASTORA - Sou pastora, esta noite eles me esperam.
LUZIA - Senta aqui, a meu lado. Conta–me as novidades. Eu de nada sei. Viste
Fernando?
PASTORA (sentando–se) - Não, não o vi. Casei–me com o José. O José de seu
Ribeiro. Lembra–se dele?
LUZIA - Casada, Stela?
PASTORA - E já tenho filhos!
LUZIA - Filhos, Stela?
PASTORA - Dois meninos.
LUZIA - Duas crianças lindas!
PASTORA - Luzia...
LUZIA - Stela da minha infância!
PASTORA (levantando–se e beijando a amiga) - Sou Pastora esta noite, devo voltar.

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LUZIA - Oh querida entre as pastoras!
PASTORA - Por que não vens cantar conosco?
CORO - Sim, Luzia, por que não vens cantar conosco?
LUZIA - Sim, por que não seguir com vocês. (Levantando–se do banco.) Vou.

O VELHO SURGE DO INTERIOR DA CASA E, VAGAROSAMENTE, SE ENCAMINHA PARA


LUZIA. FICA–LHE ÀS COSTAS, DE PÉ. LUZIA SENTA–SE PASTORA E MÚSICOS
DESAPARECEM.

VELHO - Não, minha filhinha, por que você está nessa alegria?
LUZIA - Vou passear.
VELHO - Não saia esta noite, minha filha pequenina.

OUVEM–SE OS CANTOS DO PASTORIL. ESCURECE. O TIC–TAC E O BATER DAS HORAS.


AMANHECER. ADOLESCENTE, MULATO E RAIMUNDINHA SENTADOS NOS DEGRAUS
SOB UMA DAS ARCADAS.

NEGRO (levantando–se aborrecido) - Anda, decide. Ou eu ou ele.


ADOLESCENTE (levantando–se) - Um há de escolher.
RAIMUNDINHA (levantando–se e abraçando os dois, dengosa) - O Pedro, Emanuel,
estou nos braços de vocês dois, benzinhos.
NEGRO - Não me faça subir rua e descer rua, já não é possível esperar.
ADOLESCENTE - Eu espero. Por ti subirei todas as ladeiras.
RAIMUNDINHA - Cala a boca, Emanuel, sabe lá o que é ladeira.
NEGRO - Se ele não sabe, eu sei, tu bem sabes.
RAIMUNDINHA - Não te aborreça, benzinho, bebeu tanto na casa da finada...
ADOLESCENTE - Que sentinela tão triste...
RAIMUNDINHA - Fiz o que pude, a mulher era colega, até a banda contratei para
tocar uma valsa por despedida.
NEGRO - Diz colega quando era uma parteira.
RAIMUNDINHA - Oxente, que mal fazia ter dois ofícios? E depois, tinha um bom
traseiro.
ADOLESCENTE - Coitada, que vida levava.
RAIMUNDINHA - Não fala assim, benzinho, não me assombra com o inferno.
NEGRO - Vai embora, Emanuel, tu não tem costume desta vida.
RAIMUNDINHA - Fica, bem, teu abraço é tão gostoso... Limpinho... Fica?
NEGRO - Te decide. já não sou de aturar.
ADOLESCENTE (indiferente) - Todas têm a mesma sorte, e viste no seu
semblante?
RAIMUNDINHA (tapando a boca do Adolescente com a mão) - Não diz. É bonita,

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tua fala, mas me mete medo.
NEGRO - Medo... Tá a mentir pro garoto. Bom, tenho mais que fazer do que ficar
aturando tuas frescuras com o merda dum cabaço. (Sai.)
RAIMUNDINHA (passando a mão no rosto do Adolescente) - Adoro penugem. Vem.
Te ensino tudo. Mas será só meu. Vai ser o meu xodó.

OS DOIS SE ABRAÇAM AMOROSOS E DEPOIS PARTEM. BONECOS SURGEM NAS


JANELAS. ÁS VEZES TORNAM A VOLTAR. AS VOZES SÃO AS DO ELENCO.

(Abrindo uma janela) - Ih, que noite mais comprida. Enfim, chegou o sol.
(Virando–se.) Acorda, Januário... Tou cansada da sentinela...
- Bom dia, dona Elvira.
- Como vai?
- Vou bem, não, minha filha, tem me doído muito o braço esquerdo. Aquela dor
sonolenta, gostosa pra gente gemer.
- Reumatismo. Tome iodoreto.
- Me ensinaram que bom é a banha da cascavel.
- Então use e se lambuze. O rabo também.
- Credo! Não sei quando a lua é nova, vivo a toa neste mundo. (Sai.)
- Bom dia, dona Rosa, como passou?
- Non passar bem. Imagina levar noite cantando a Gabriel.
- Que tem o menino?
- Febre.
- Intestinal? diarréia?
- Non preocupar: sarampô ir saindo.
(Duas vozes.) - Sarampo?
- "... ao romper do segundo sigilo, ouvi o segundo ser vivo dizer: Vem! Nisto
apareceu outro cavalo, cor de fogo, e ao que nele estava montado foi dado o poder de
tirar a paz da terra, para que os homens se trucidassem uns aos outros. Pelo que Lhe
entregaram uma espada."
- Qual, não foi nada! Achava–se o meu avô em Lomas Valentina...
- E o negro Henrique Dias Felipe Camarão André Vidal de Negreiros?
- Forja de heróis!
- Desastre de aeroplano! Falece um barão que ia a um baile!
- Valsa, uma valsa uma valsa!
- Pai, a professora disse que é pra gente levar vinte centavos para uma lista.
- Paizim, é para ser feita a estátua do presidente.
- Levai ó vós, levai–me, matai–me e afogai–me no rio Tibre!
- Um abuso. Esse homem começa a beber de cedo e eu que passei a noite na
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sentinela.
- Quem morreu, comadre?
- Jesus, ainda não sabia? A parteira Luciana.
- Saber Júlio dizer dela? Um prostitute.
- Valei–me!
- Non saber?
- Sabia, mas era uma parteira. E agora, como vão as mulheres se arranjar?
- Erra une prostitute, Júlio dizer
- Para dentro, crianças. Verdade?
- Dizer e provar.
- Foi? E carecia provar? Coitada de dona Rose.
- Cabelos lisos ao vento, olhar parado, distante... Vi–te e não...
- Sabe, dona Rose, felizmente sou viúva.
- Heureuse femme.
- E agora, dona Rosa, você está pesadona, quem vai pegar o menino?
- Non precisar curriosa, fazer seulement. Mim.
- No entanto as mãos jeitosas de uma parteira aliviam muitas dores. Quando a
gente se vê só e o marido é sempre ausente...
- Orra senhorra Mância, parrecer parrir primeiro vez.
- Já teve cinco, comadre?
- Tive seis, um morreu.
- Tem um anjinho no céu. Chamava–se?
- Luís.
- O meu... Natanael...
UM MOMENTO
- "Vem! Olhei; e eis um cavalo baio, e quem nele vinha montada chamava–se
Morte".
- Se falai de resistência dizei: Stalingrado!
- O povo de um ilha suportou confiante. Fleugma!
- Ai, loira, loira Albion!
- Mais que o nosso, nunca! Coragem, desprendimento, honra à terra em que
nasceu! Machos!
- Quem a visse não diria...
- Chamo–me Emanuel, vi–te, mas não te possuí. E era um branca flor! Vi–te
- Está na hora da aula. tenho de ir para a escola.
- Maria Luisa e Maria Helena não vão hoje à escola. Acorda Januário, hoje tudo
vai se atrasar.

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- Enterro ir passar nesta rua? Abominable.

ANOITECE. LUZ NO INTERIOR DO SOBRADO. PENUMBRA NO BANCO. LUZIA,


ACOMPANHADA DE DUAS MULHERES, EM FILA (1ª E 2ª LUZIA), CAMINHAM
APRESSADAS, DO FUNDO CENTRO PARA O BANCO. LUZIA SENTA–SE DE FRENTE, AS
DUAS OUTRAS, QUE A LADEIAM, SENTAM–SE DE COSTAS. TODAS USAM VÊUS NEGROS;
PRESENTE–SE QUE O VELHO ESTÁ NA SUA CADEIRA DE EMBALO, TAMBÉM EM
PENUMBRA.

1ª LUZIA - As minhas pernas brancas, as minhas pernas brancas...


2ª LUZIA - Põe termo. Sufoca os humores.
1ª LUZIA - Querem ver, meninos da rua, as minhas pernas brancas?
2ª LUZIA - Até onde chegamos...
LUZIA (no tricô) - Eu, Luzia.
1ª LUZIA - Eu, Luzia, que me envergonho do meu corpo, que perdi todo meu
corpo, intacto.
2ª LUZIA - Passo os dias no mais inocente dos ofícios.
LUZIA - Os ofícios.
1ª LUZIA - Perdido corpo, perdidos dias.
2ª LUZIA - O dever cumprido. Sinto sorrisos íntimos.
1ª LUZIA - Vou ao campo. Estou resolvida. E me entrego aos meninos anjos,
Devem ser lindos na sua casta nudez. E me cobrirão, os amores!
2ª LUZIA - Horror! É o Demônio.
VOZ - Em busca de quem andas, ó pálida menina, que música suave vem da tua
cabeleira!
LUZIA - Música?
1ª LUZIA - Música suave? Ai voz morna a me envolver!
2ª LUZIA - É o Tentador. Cortai os meus cabelos.
- Luciana, Luciana...
- Lucienne prostitute.
- Para dentro, crianças.
- Onde moravas essa mulher?
- Dois quarteirões acima, a casa dos jasmins caianos.
- Caminho mulher fácil nossos marridas saber
- Chamo–me Emanuel, não te possuí.
- Luís, um anjinho do céu!
- Natanael o meu chamava–se
2ª LUZIA - Levar a coroa e a palma das Onze Mil Virgens!
1ª LUZIA - O deserto, o deserto.
18
2ª LUZIA - Sinto a compensação das puras!
1ª LUZIA - Idiota.
2ª LUZIA - Espelho- me nos olhos daquela que eram castos e se deixaram
arrancar.

1ª E 2ª LUZIA LEVANTAM–SE DO BANCO E SE AFASTAM, DESAPARECENDO NO


ESCURO.

LUZIA - Este, o exemplo que me prendia? Não. Seria uma hipócrita. A escolha foi
minha. Passei.
Luz no banco, penumbra nas janelas. Sob o véu negro, percebe–se que a
personagem está de máscara. Aparece a MORTE. Ouve–se uma "incelência ".
"Uma incelência das almas
Maria da Soledade,
a nossa Mãe é Bendita
ó Dolorosa
ó Mãe Imaculada."
MORTE (doce e de longe) - Luzia!
LUZIA - Quem me chama?
MORTE - Tua companheira.
LUZIA - Companheira? Não me lembro.
MORTE - Não lembra daquela noite entre narcisos? Dos olhos tão claros do teu
noivo, a te contemplar?
LUZIA - Seu estranho odor...seu sorriso puro...ombros tão fortes...
MORTE - Onde pousou a minha mão.
LUZIA - Que frio vem dessa noite... Não me perguntes, já sei. Ai, voz muda das
coisas.
MORTE (sentando–se no banco, ao lado de Luzia) - Luzia!
LUZIA - Assim, tão andrajosa? Uma mendiga?
MORTE - Uma velha. Tarde foi o nosso encontro. Tantos moços já se foram. Mira–
me.
LUZIA - Velha, sem se aperceber. Olhos cansados, meus cabelos... (rápida,
procurando os cabelos por baixo do véu) ... não os tenho mais. Ai, Luzia dos dias todos
iguais. Tricô. Triste sapatinho de lã azul que vai ficar incompleto. (Sorrindo,) Menino de
um pé calçado outro descalço. Que tem soluço e as faces rosadinhas, os dedos
rosadinhos.
MORTE - Morreu esse menino, morreu sem se gerar.
LUZIA - Ai do meu ventre que murchou sem conceber. As horas passaram mudas.
Tudo foi tão rápido.
19
MORTE - Enganas–te, a ti cabia fazer o teu destino, e não esperar.
LUZIA (ingênua) - Eu sei, a escolha foi minha. E agora, o que me resta?
MORTE - Ora, meu amor.
LUZIA - Bela foi a morte de Fernando, dizes.
MORTE - Bela, dou–te a tua cabeleira.

A MORTE RETIRA A SUA MÁSCARA DE VELHA. LUZIA, MAQUINALMENTE, TAMBÉM


RETIRA A SUA. A MORTE DEIXA CAIR O VÉU DE LUZIA E COLOCA–LHE UMA
CABELEIRA.

LUZIA (contemplando a máscara) - Vincos tão fundos... os olho vazios...


(Encarando o rosto belo da Morte.) Que imagem o teu rosto!
MORTE - A tua imagem, Luzia.
LUZIA (alisando as faces, como se mirasse num espelho) - Como outrora!
MORTE - Muito mais formosa, muito mais perfeita, e o aveludado do teus olhos?
Só resta agora o teu noivo. Bem cedo o encontrarás. Uma grinalda de flores, de narcisos,
talvez...
LUZIA - Não, não me fales dessas flores.
MORTE - Não queres nelas te contemplar?
LUZIA - Te tenho, que importa a minha estrela?
MORTE - Noivos e flores. Eu sou a morte.
LUZIA - Mãos alisando os meus cabelos, pernas se estreitando às minhas pernas.

AS DUAS SE ABRAÇAM. OUVE–SE UMA INCELÊNCIA.

"O Miguel, ô Miguel


chama um anjo a tua guia
vai buscar aquela alma
para a minha companhia.
Ô de casa, ô de fora
o Inferno estremeceu
não te dou aquela alma
pois quem manda é a Mãe de Deus."

ENTRAM A MULHER–QUE–AJUDA E A MULHER–QUE–VESTE.

LUZIA (percebendo a aparição das duas Mulheres, sem olhar para trás) - Quem és
tu?
MULHER–QUE–AJUDA - Chamo–me Maria Reinalda, sou a mulher que ajuda.
LUZIA - E tu?
MULHER–QUE–VESTE - Branca de Azevedo, a mulher que veste! (Desdobra uma
peça de tecido branco e rasga–o em partes. Atitude solene.)
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MULHER–QUE–AJUDA (alto) - Lembra–te do nome de Deus, irmão das almas!
Despede da tua gente, do dia, da luz.
MULHER–QUE–VESTE - Sou a mulher que rasga as mortalhas.
MULHER–QUE–AJUDA - Rezo um bendito de cortar coração, os parentes do
defunto resistem, às vezes.
MULHER–QUE–VESTE - E eu os visto nos trajes santos para a viagem eterna.
MULHER–QUE–AJUDA - Se é a morte de um caçador encomendo: diz adeus a tua
espingarda, irmão das almas! De um roceiro: a tua enxada! De um pescador: tua tarrafa
de pescar!
MULHER–QUE–VESTE - Se é um anjo amortalha–se de Menino Deus.
MULHER–QUE–AJUDA - Se é um anjo cantarei outra incelência!
MULHER–QUE–VESTE - Se a mulher é casada vai nos trajes da Mãe dos Homens.
Viúva: Nossa Senhora da Soledade - mortalha roxa, galões dourados Uma mulher
perdida veste–se de Madalena se na hora se arrependeu.
MULHER–QUE–AJUDA - Luciana vestiu–se assim.
MULHER–QUE–VESTE - Mas, se é virgem, põe–se vestido branco e faixa azul, nas
mãos uma palma, na cabeça, uma coroa!

MÚSICA. INCELÊNCIA.

É meia–noite
o galo cantou
tocai o sino
em sinal dobrado
para a moça
entre narcisos
que a vida entregou.
LUZIA (à Morte) - Estás muda? não falas? Onde está o teu alfange, o teu alfange
de prata?

O NOVELO DE LÃ CAI DAS MÃOS DA LUZIA E ROLA PELO CHÃO.

MORTE - Teu corpinho é leve, menina, nem precisa de alfange.


LUZIA - Vejo, vejo...

A LÂMPADA ILUMINA-SE. O VELHO LEVANTA-SE DA CADEIA. PARECE IMENSO SOB A


LUZ.

MORTE - O que vês?


LUZIA - Vejo um homem que vem crescendo, crescendo...
MORTE - É o teu pai, Luzia.
LUZIA - Tão velho, precisando de auxilio...
21
MORTE - Parece até que nos devora, é maior que nós, maior!
LUZIA - A Eternidade.
MORTE (abraçando–a) - Dá–me o teu beijo.
LUZIA - O meu beijo... nos séculos.
- final -

22
LAZZARO

1948

À lembrança de Pascoal Carlos Magno

23
PERSONAGENS:
LURDES
PERPÉTUA
ANSELMO
1ª LAVADEIRA
2ª LAVADEIRA
3ª LAVADEIRA
ALMERINDA
MARTIM
LAZZARO
MULHER

24
PARTE I

Seca numa velha cidadezinha do Nordeste. Sente-se que tudo amarelece e o sol, um
sol terrível e belo, varre a terra do nascente ao poente. É o amanhecer - quase madrugada -
e lençóis estendidos em arame escondem o fundo de um casarão antigo. O ano é de 1940.
Lurdes, de branco, em frente aos lençóis brancos, está em posição rígida. Ouve-se o canto
de Perpétua, a demente:

"A morte acabou

seus pés e suas mãos

a luz de seus olhos

e as cordas do coração”.

Perpétua aparece por trás e acima da roupa estendida. Está sobre uma pilastra de
velho muro em ruínas. O diálogo que se segue é mais um monólogo. Ambas têm o rosto
parado, como se olhassem para um ponto distante.

PERPÉTUA - Ouço uma flauta perdida. Tenho para ele um maracá, tenho um pé
de alecrim.
LURDES - As ossadas esperam a chuva e, por sobre elas, o capim vai renascer.
PERPÉTUA - Eu me lembro, eu me lembro, meu corpo se encurvou e meus braços
se arquearam para deitar na cova a minha Hilda. A chuva caía quente molhando as
pedras.
LURDES - A poeira se levanta em rodamoinho.
PERPÉTUA - Quantos anos tem o meu menino?
LURDES - Era uma menina. Tua Hilda.
PERPÉTUA - Onde está a minha Hilda? Quem lhe pôs a mortalha? Plantei para ele
um jasmineiro. Lá vem o sol, as estrelas se desmancham.
LURDES - Tu deliras e eles dormem. Uma vela ilumina a imagem de seus santos e
ela, tranqüila, a dormir tranqüila. Não! As aranhas tecem fios na noite e esta casa
perdida se vai tomando em ruínas.
PERPÉTUA - Onde andará ele?
LURDES, voz baixa, sonâmbula - As avoantes voam no vento e as acauãs caem
mortas. Uma névoa envolve Monte Azul... Naquela noite eu o tive entre meus braços e
tantas vezes o beijei. E então partiu... Sentir o ter perdido, sentir como uma mãe o vazio
de uma noite eterna, imensa... Meu coração te busca e não te encontra, como se me
houvesse despojado de ti naquela manhã sonolenta, atirando-te à correnteza, os teus
bracinhos sumindo, sumindo...
PERPÉTUA, saindo - Meu menino brinca. Vou te caçar, seu fazedor de nuvens.

25
LURDES - Esta ausência - corda que me aperta o peito.

(Anselmo aparece de súbito, num riso de deboche e servilismo. Traz uma combuca às
costas.)

LURDES - Até que enfim!


ANSELMO - Sou o fio da meada, um fio que vai da casa da patroa ao lixo. Estava
dormindo, o fio deu sinal. Pois é...
LURDES - E agora?
ANSELMO - Uma menina me pagou para eu levar ele, se lembra? Agora, a paga,
para trazer ele de volta.
LURDES - Será bem pago, já te disse. Mas repete, repete para que eu possa
acreditar.
ANSELMO - Então eu tive um sonho de pressentimento. Aí me alevantei. As
jibóias se assanhavam no quintal. Uma, de bote armado numa pomba. (Ri.) Não pude
salvar a pássara, achei tão bonito as asinhas batendo, batendo... Quando dei fé tava
rindo.
LURDES - E a pomba, morta.
ANSELMO, vexado - Sá dona Lurdes... Aquilo era um aviso, ou não era? Daí tomei
o "Horário" e fui ao porto ver as novidades.
LURDES - Fala do meu irmão, fala. E foi lá...
ANSELMO - E foi lá, à noitinha, entre sal e a marujada... lá estava o menino.
LURDES - Te havia dito que ele era marinheiro.
ANSELMO - Hoje vai ter a paga. E paga muito maior que as das alvíssaras que eu
lhe dei, antonte.
LURDES - E quem garante que era ele? Todo marinheiro se parece.
ANSELMO - Lhe conto. Dois deles eram abraçados num botequim pelas raparigas.
Um tinha cabelo caído sobre a testa e os olhos embaçados de sono. E o gato passava o
pente no seu cabelo e dizia: conta, benzinho, conta. E ele mal respondia: sou de Monte
Azul, de Monte Azul.
LURDES - Demônio... Por que não arrancou ele daquele lugar? Não, o prazer é me
maltratar. E saber que tão perto de mim esteve...
ANSELMO, alto - Menino Lazzaro! O rapazinho se espantou, mode que me
reconheceu e veio falar comigo. Os gatos só faltaram me azunhar. Até se riu. Só não veio
comigo porque tinha trabalho no barco. Hoje, ao depois do meio-dia, ele tá aqui, garanto.
Vou indo.
LURDES - Espera... trouxe? (Anselmo desembainha um punhal.) Devagar...
ANSELMO, mirando o punhal - Bom ferro esta prenda do Pajeú. Tio macio... nem
maltrata. Por que a mocinha quer um punhal?
26
LURDES - Para mim é uma bandeira!
ANSELMO - Um punhal. (Entrega-o a Lurdes e esta sai apressada, por trás dos
lençóis.)

(Anselmo encontra-se com as três lavadeiras que vêm recolher a roupa estendida.)

ANSELMO - As donzelinhas...
1ª LAVADEIRA - Sujo, sujo!
2ª LAVADEIRA - Virador de bicho.
3ª LAVADEIRA - Arreda imundícia.

(As lavadeiras caem sobre Anselmo que consegue fugir às gargalhadas.)

1ª LAVADEIRA - Empautado!
2ª LAVADEIRA - Criador de cobras, credo.

(As lavadeiras sentam-se, antes da retirada dos lençóis.)

1ª LAVADEIRA - Sabe, Rolinha, já vi pessoa dormindo que sai caminhando pelo


campo a noite toda. Tem uma direção que eu não sei, mas tem uma direção.
3ª LAVADEIRA - Nervosidade pura.
1ª LAVADEIRA - Sabe, Rolinha, já vi uma acauã, cantando, cantando. Nisso caiu
morta. Ah, minha prima, me passou um arrepio pelo corpo... Uma acauã, Rolinha, uma
acauã.
3ª LAVADEIRA - E daí?
2ª LAVADEIRA - Elas agouram, Balbina.
3ª LAVADEIRA - Então não adiantou, foi a bichinha que morreu.
1ª LAVADEIRA - Eu nunca vi um passarinho morrer assim sem mais nem menos.
Cai dum galho e puf!
3ª LAVADEIRA - A seca. Não têm mais o que comer. Tá tudo varrido, torrado,
revirado. Morreu de fome a bichinha e depois delas, minhas primas, será a nossa vez. (A
2ª LAVADEIRA se levanta e retira um lençol estendido, como se o desfraldasse ao vento.) O
sol amanhece como se pôs, parece uma fogueira a queimar tudo. As avoantes voam para
o poente e neste sertão os espinhaços dos bois se estiram procurando água.
2ª LAVADEIRA - O vento morde e grita como um cachorro doido. As avoantes vão
se embora e as acauãs caem mortas.
1ª LAVADEIRA - Sabe, Rolinha, já vi os calcanhares do finado major Rafael.
3ª LAVADEIRA - Tonta, eram os calcanhares do prefeito.
1ª LAVADEIRA - Sabe, Rolinha, já vi...
3ª LAVADEIRA, irritada - Que você viu mais?
2ª LAVADEIRA - Rosa branca desmaiada
no jardim do beija-flor.
27
1ª LAVADEIRA - Este nosso amor já tarda
tu bem sabe, meu amor.
3ª LAVADEIRA - Do jeito que as coisas andam, lhes digo, se um cristão não tiver
um arrimo...
1ª LAVADEIRA - Já vi dois gatos em cima daquele muro, miando, miando.
3ª LAVADEIRA - Vê tudo e nada sabe.
1ª LAVADEIRA - Sei sim. Ó meu Jesus, onde andará o João?
2ª LAVADEIRA - Não anda cortando rama para o gado?
3ª LAVADEIRA - A gente já não encontra um angico branco com folha, esses
boiadeiros cortam tudo que nem formiga de roça.
1ª LAVADEIRA - No macambiral as cobras se aninham. E o que a gente escuta são
chocalhos da cascavel.
1ª LAVADEIRA - Minha Virgem Maria e o Joãozinho no macambiral!
3ª LAVADEIRA - Ora, Santa, deixa de soberba. Eu, no teu caso, nem trabalhava.
Menina, Joãozinho nem sabe o que tu vale. Espia aí, tuas mãos se rachando de tanto
bater roupa. Manda o teu noivo às favas. E deixa de bondades. De que vale honra com
este estio?
2ª LAVADEIRA - Balbina, não ande mais comigo, sua peste.
3ª LAVADEIRA - Duas cabaçudas e a miséria esfregando roupa.
2ª LAVADEIRA - Temos a nossa honra. E a casa? de que valeu aquela titica de
casa que ele te deu? Não vive a bater roupa?
3ª LAVADEIRA - Bom, se recusam o arrimo de quem pode dar arrimo, vão
encontrar o quê? um da mesma laia? E vão parir meninos sem carne e as mãos, apenas
duas mãos pretas cavacando a terra à procura de raiz.
1ª LAVADEIRA - Rosa branca e amarela
encarnada lá no monte.
2ª LAVADEIRA - Este nosso amor é velho
não é de hoje nem de ontem.
3ª LAVADEIRA - Cantar no vento, secar a goela. Lhes digo: o prefeito é sem
orgulho, gosta da gente pobre... E é de uma finura...
1ª LAVADEIRA - O maldito!
3ª LAVADEIRA - Tamanha empáfia... Pois sou capaz de jurar como Joãozinho e Zé
Raimundo, eles mesmos, entregam vocês ao homem, e com muito orgulho.
2ª LAVADEIRA - Peste, fecha esta boca!
3ª LAVADEIRA - Só tava aconselhando. O que desejo é o bem de vocês.
2ª LAVADEIRA - Arrenego.
1ª LAVADEIRA - Sabe, Rolinha, vi uma garça voando nos mofumbos, da lagoa.

28
2ª LAVADEIRA - A garça põe o pé nágua
pode estar quarenta dias,
1ª LAVADEIRA - Eu longe de meu benzinho
não posso estar nem um dia.
2ª LAVADEIRA - A garça...
3ª LAVADEIRA, interrompendo - Não era garça, era uma menina de branco.
2ª LAVADEIRA - Garça parda leviana
pescoço de espada nua.
1ª LAVADEIRA - Quem me trouxe nesta terra
foi pena e saudade tua.
3ª LAVADEIRA - De branco, uma garça, espada nua, uma espera. É isso.
1ª e 2ª LAVADEIRAS - O quê?
3ª LAVADEIRA - A garcinha nova quer o amor da garça velha.
2ª LAVADEIRA - Não entendi.
3ª LAVADEIRA - Ora, a Lurdes e a velha Almerinda. Quando o sol se encobre no
poente ela se estira neste muro que a nossa roupa esconde. E espera. Espera o quê? (Ri.)
Quem sabe...
1ª LAVADEIRA - Dona Lurdes vem olhar o sol se pôr.
2ª LAVADEIRA - O vôo das avoantes.
1ª LAVADEIRA - Acho dona Lurdes esquisita...
2ª LAVADEIRA - Suspiro que vai e vem
dá-me novas de meu bem.
3ª LAVADEIRA - Se está morto se está vivo
se vive em braços de alguém.
1ª LAVADEIRA - Não está morto nem está vivo
nem vive em braços de alguém.
2ª LAVADEIRA - Vive suspenso nos ares
a mãe lhe querendo bem.
1ª LAVADEIRA - Meu Joãozinho tarda.
2ª LAVADEIRA - Zé Raimundo já assobia.
3ª LAVADEIRA - Quem está morto já não vive...

(As lavadeiras têm apanhado toda a roupa, descobrindo o fundo do casarão.)

1ª e 2ª LAVADEIRAS, saindo - Cravo roxo e arroxeado


não tem mais que arroxear...

(Surge Lurdes do interior da casa. Senta-se no muro. Olhar distante.Silêncio. Uma névoa
quente, amarelada, parece envolver toda a cena.)

29
LURDES - Purificado pelo mar e eu, aqui, mergulhada em eterno fel. (Silêncio.)
Espero-te, meu irmão. Teu punho forte estará a meu lado, eu sei. Ai... Os dias se
arrastam frouxos como carroças atravessando a bruma. Um céu vazio a me envolver.
(Cobrindo o rosto com as mãos.) Tu chegarás, amor, vejo tuas mãos que se deslocam
arrebentando artérias. Um sol brilhará, terrível, sem ocaso.

(Surge Almerinda e posta-se um pouco atrás de Lurdes.)

ALMERINDA - Sim Lurdes, mas tenho a impressão de que esse dia não chegará
jamais. Também eu o amo.
LURDES - A me vigiar?
ALMERINDA - Sua mãe, Lurdes.
LURDES - É?… E se eu, ao invés da verdadeira, escolhesse Perpétua, a postiça,
não seria uma escolha mais justa?
ALMERINDA - É, você pensa assim.
LURDES - O que está sentindo? não anda bem de saúde?
ALMERINDA - Não podia me dar uma trégua, pelo menos?
LURDES - Ah, posso. Você me fez descobrir a farsa. Não é formidável?
ALMERINDA - Desconhece a doçura.
LURDES - Disse doçura?
ALMERINDA - É. Mas há um lado, pelo menos, em que os nossos sentimentos se
encontram: Lazzaro. Sabia que nos correspondemos? Um dia destes me prometeu uma
visita.
LURDES - Você é realmente surpreendente! A verdade é que nunca vi carta de
meu irmão chegar aqui.
ALMERINDA - Dei-lhe outro endereço.
LURDES - Mentira! E... e ele, perguntou por mim?
ALMERINDA - Não, nunca pergunta, o que é uma pena.
LURDES - É porque não existe essa tal correspondência. E agora, aqui, toda
insinuante, a me falar de Lazzaro. Então se correspondem? Bom proveito.
ALMERINDA - Eu quero o meu filho. E não se esqueça, foi você que o jogou longe
de mim. De que lhe valeu o capricho? Lazzaro é livre, ambas perdemos.
LURDES - Ai, conheço este seu olhar... Capaz de enganar a luz do amanhecer.
ALMERINDA - Lurdes?
LURDES - Mas não foi você que consentiu? E quando o viu partir deu-lhe o
convencional beijo e suspirou. Não houve vazio para você, houve alívio. Certamente
pensou, como Zeladora que é, que Deus lhe estava a ajudar. Uma pobre viúva... um tio
distante vinha a calhar na responsabilidade de um menino.
ALMERINDA - Você diz.
30
LURDES - Por quê? Por que não o mandou buscar? Mas não se lembra mais do
feliz achado - a distância. Bem tinha de quem cuidar. Você desejava, se sentia amada,
não havia o silêncio, você se reabilitava, dormia descansada e feliz, pois dormia com o
seu amor! Sim, bem certo diz: Lazzaro é livre.
ALMERINDA - Filha...
LURDES - Livre.
ALMERINDA - Meu filho...
LURDES - E as noites são eternas, mãe. O silêncio volta a lhe beliscar o coração?
VOZ DE PERPÉTUA - Meus braços se arquearam na hora da entrega. A chuva
quente molhava o chão.
ALMERINDA, triste, a propósito de Perpétua - A sonâmbula... (Reagindo, a Lurdes.)
Olha, vamos ter vatapá, para o almoço. Que tal, hem? Vem almoçar comigo, tá? (Sai.)
LURDES, depois de um momento - Perpétua, onde se escondeu você? (Sai)

(Lurdes sai de cena e Almerinda é vista abrindo portas e janelas do último plano; vêem-se
algumas coroas de flores de papel dependuradas pelas paredes. Almerinda apanha caixas
e uma das coroas ainda em acabamento. Martim desce a escada assobiando; veste calças
e camiseta do uniforme de sargento da polícia. Pára de assobiar ao atingir o piso. Não liga,
absolutamente, para Almerinda. Sai de cena mas logo ouve-se a volta de seu assobio.
Reaparece trazendo duas gaiolas: um ainda em preparo, a outra, com um casal de
canários. Examina os canários contra a luz, depois põe a gaiola de lado, senta-se no chão,
perto da mesma e recomeça a trabalhar a nova gaiola.)

ALMERINDA - Até que enfim sentou-se em casa. Vai almoçar com a gente, não
vai?
MARTIM - Vou.

(Almerinda, de sua cadeira austríaca, contempla Martim no infantil trabalho.)

ALMERINDA - Martim...
MARTIM - Que foi?
ALMERINDA - Já está aborrecido?
MARTIM - Oxente! Eu? Por quê?
ALMERINDA, levanta-se e, com ternura, vai encostar seu rosto na cabeça de
Martim - Te amo tanto... Diz que me ama também, diz.
MARTIM - Já vem me perturbar o trabalho. Poxa... Há dez anos e ainda nesta
cegueira. Juízo, mulher.
ALMERINDA, voltando a seu lugar - Há dez anos? E eu nem me apercebia.
MARTIM - Quando “ele” ainda era vivo a gente já vivia a rolar pelo capim.
ALMERINDA - Morria de tanto amor!

31
MARTIM - E no teu descontrole me apertava os rins e me obrigava a repetir: eu te
amo, eu te amo. (Silêncio.) É, pra tudo há um tempo.
ALMERINDA - Te aborreço? Acabou-se.
MARTIM, vexado - Mulher, apenas comentei...
ALMERINDA - É que tenho medo. Há dez anos este silêncio me sufoca.
MARTIM - Silêncio? A casa cheia de gente... E eu? também sou silêncio?
ALMERINDA - Não, não é isso. Penso num filho que há anos não vejo e nem sei do
seu paradeiro. Talvez me despreze. Sei lá... Martim, só conto com o teu amor.
MARTIM - E não chega?
ALMERINIDA - Se me abandonas…
MARTIM, interrompendo o trabalho - Que idéia! Será por que não vivo a te bolinar o
dia inteiro? Tem dó. Depois já me sinto envelhecendo. Trinta e oito anos, querida!
ALMERINDA - Malvado, me magoa falando-me de idade.
MARTIM, sorrindo - Tua filha parece não ter outra ocupação senão a de observar a
gente. (Levantando-se.) Até a este Martim - macho! - ela consegue inibir. Bem sabe quem
é ela.
ALMERINDA - Se sei... Sua frieza me apavora.
MARTIM - Puxou o pai.
ALMERINDA - É toda o pai, crescendo e me desafiando, como se eu fosse uma
impostora e lhe devesse explicações.
MARTIM - Moça que não é bonita e não namora, que bicho vai dar? Num
tamarindo azedo, de fazer porco gritar.
ALMERINDA - E quando fala do irmão é como se pertencesse só a ela e não fosse
ele o meu filho.
MARTIM - Foi sem proveito a companhia das religiosas, a educação, enfim. Será
que ela sabe dar um beijo?
ALMERINDA - Num colégio, penso, nunca entrou rancor mais disfarçado. E veja,
as irmãs a queriam muito, tirava as melhores notas; e comportamento exemplar.
MARTIM - É, tem alguma coisa que a gente não consegue entender.
ALMERINDA - E eu só tenho a ti.
MARTIM - Fiteira... E teu filho? Um rapagão bonito, claro que é. Você anda
gastando, à toa, é muita elegância... Ah, existe ainda alguém, grande, sério, todo
poderoso, a quem tu rende homenagens.
ALMERINDA - Levo-lhe coroas, mas sempre o odiei. Sempre.
MARTIM - Todos os anos aquela fita roxa amarrando as flores. E os mesmos
dizeres: da saudosa Esposa para o sempiterno R. M. (Ri.)
ALMERINDA - Hábito. Habituei-me a dar-lhe flores. Ele mesmo nunca me pareceu

32
mais que um pote de flores.

(Martim volta a mexer com as gaiolas.)

ALMERINDA - Martim, o padre...


MARTIM - O reverendo? Uma seda de santo. Atualmente chega a me bajular. Ele
vem aí?
ALMERINDA - Ele foi sempre um amigo leal. E não esqueça de incluí-lo entre os
ilustres de Monte Azul. O padre e o juiz são nossos amigos.
MARTIM - Enquanto você se esquece de que aqui só há um ilustre, o prefeito, e
que esta cidade já não se chama Monte Azul. (Pernóstico.) Mas pelos altos serviços a ela
prestados - por um adventício - houve por bem mudarem-na para Martinópolis!
ALMERINDA, sonhadora - A minha cidade...
MARTIM - Martinópolis quer dizer Cidade de Martim. Sabia? É troço importante.
ALMERINDA - Sim, mas o padre sugeriu…
MARTIM - O padre me corteja, me bajula. O que foi que ele te sugeriu?
ALMERINDA - Tocou naquele velho assunto...
MARTIM - Perguntou quando a gente se casa? Muito natural. Não disse que a
gente tá se preparando?
ALMERINDA - Este “se preparando” não parece uma desculpa? Uma batida
desculpa?
MARTIM - E que seja?
ALMERINDA - Respondi-lhe que no fim do ano. Então ele disse: escolha o dia e me
mande a resposta, está bem? Falta só um mês, minha filha, não é? Baixei o rosto, não
soube mais lhe responder. Andei mal?
MARTIM - Não é que tenha andado mal. (Sai com as gaiolas, voltando em seguida.)
Mas por que todo esse arrodeio para contar esta bobagem? Cadê o vatapá? Vamos
almoçar. Já!

(Almerinda deixa coroa e petrechos e sai, seguindo Martim. Vai entardecendo. A sala em
penumbra. Lazzaro e Anselmo aparecem em frente ao muro. Anselmo põe-se de cócoras,
colocando, de lado, a cumbuca que ele traz sempre às costas.)

LAZZARO - Estou na minha casa! Não parece um sonho? É como se eu tivesse


morrido e ressuscitado. O tempo parado... Dez anos? vinte anos, um século? Lá, ainda
no muro, o velho leão de louça, agora sem cabeça, sem juba. Meu telhado escuro... Pai
dizia: o teto; mãe: o nosso lar. Lá está o pé de abiu carregado de abiu. Vamos tirar abiu,
Lazzaro? (Esfregando a terra com a ponta do sapato.) Este barro onde brinquei... Por que
minha irmã pediu isso? Por que esperar as duas neste fundo de muro quando sei que lá
dentro... Por que não correr para abraçá-las?

33
ANSELMO - Sei não. Em negócio de família, branco que se entenda.
LAZZARO - Surpreendê-las e, de braços abertos: o vosso filho!
ANSELMO - Bonito, mas não é pra ser assim. A moça me recomendou bem.
LAZZARO - O que anda acontecendo? Ah, não, não sou idiota. (Salta o parapeito
do muro.)
ANSELMO - Desça, lhe peço! Ande...
LAZZARO, descendo do muro - Me diz, que mistério é este? O que está
acontecendo? Anda, fala.
ANSELMO - Meu amo, cadê o bilhete?
LAZZARO - Bilhete... Sei lá. (Tira o bilhete do bolso e o relê em silêncio. Depois,
senta-se, desanimado.) O que está havendo? O que houve?
ANSELMO - Nada de importância. Mas dona Lurdes quer é assim, não é? Olhe, lhe
conto, dona Lurdes tem a cabeça cheia de invenções. Ela não quer assim? Pois dê este
gosto a ela, viu?
LAZZARO - Minha alegria já não é alegria, uma coisa me aperta como um soluço?
ANSELMO - O sol está vermelho como fogo. É o mato queimando.
LAZZARO - Vermelho como sangue, o sol... São roceiros botando fogo.
ANSELMO - Nhor não, é a tal cachorra da seca.
LAZZARO - Caem cinzas sobre Monte Azul...
ANSELMO - Olhe, os bichinhos andam morrendo de fome. Os corrupiões deixam o
mato e vêm procurar comida no quintal das casas. Aí caem em gaiolas, e pronto! Brabos,
ficam se jogando contra os arames, as asas sangrando... Não aturam mais que dois dias,
amanhecem de perna estirada. Seu Lazzaro...
LAZZARO - Tudo quieto, e este céu de alumínio engolindo moscas.
ANSELMO - Não são moscas, são avoantes. Já não existe semente pelo campo, as
pombas esfomeadas comem tudo.
LAZZARO - Esta cor pardacenta...
ANSELMO - Martinópolis cresce. Isto aqui não é mais vila, porém cidade. Tem
fome, muita fome, mas é cidade adiantada. A gente agora tem um campo de futebol no
Curral do Conselho e dia de domingo o Capitão Prefeito vai ver o jogo acompanhado pela
banda da Prefeitura. Aliás, o Curral do Conselho já não se chama Curral do Conselho, é
Matadouro Municipal.
LAZZARO - Capitão Prefeito? Quem é ele? É gente de fora?
ANSELMO - Aqui pra nós, o sargento Zé Martim.
LAZZARO - Zé Martim? Ah, sim, era pequeno mas me lembro dele vendendo na
loja de meu pai. (Levanta-se.)
ANSELMO - Vendia, não vende mais.

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LAZZARO - Uma vez ele se cortou nos vidros deste muro para pegar um ladrão.
ANSELMO - Não era ladrão...
LAZZARO - Lembro-me que ele atirou, atirou para cima, sem dúvida, não ia matar
o ladrão.
ANSELMO - E a bala pegou no seu próprio calcanhar, é engraçado.
LAZZARO, irritado - Então, foi ele que pulou o muro?
ANSELMO - Pulou, hoje não pula.
LAZZARO - O que está querendo dizer?
ANSELMO - Não digo, diziam. Hoje, não se diz mais.
LAZZARO, fingindo não perceber as insinuações de Anselmo - Lembro-me de uma
rosa, uma rosa vermelha, que minha mãe colheu no jardim, e aqui, no muro, a oferecer a
alguém, a meu pai, decerto.
ANSELMO - Verdade...
LAZZARO, aborrecido - Tá esquisito... Que que há?
ANSELMO - O prefeito pode ser seu amigo, é da casa ... mora na casa...
LAZZARO - Na casa de meu pai?
ANSELMO - Há tanto tempo... Até se fala que ele vai casar ...
LAZZARO - Casar, casar com quem?
ANSELMO - Ouvi comentários, mas não me deram o nome da noiva.

(Um momento. Lazzaro retira um lenço do bolso e o desdobra.)

LAZZARO - Anoitece. As sombras se prolongam... Todas as tardes ensaiamos


morrer. Sobretudo me lembro deste pôr do sol. Lurdes apontava: lá está o horizonte e por
trás do horizonte o sol vai boiar como no mar. Podemos, Lazzaro, assistir o sol descer. A
gente amarra um lenço nos olhos (Lazzaro venda os olhos.) e caminha em linha reta. (O
portão do muro se abre. É Lurdes.) De repente a gente vai encontrar um patamar sem fim,
onde encalham velhos navios de velhos reis. Então aparecem as linhas de mil colunas e
todas elas sustentam um globo de luz - é o Palácio do Sul! E nesse patamar, no bater do
sino, as nuvens descerão para dormir. Tudo morre! (A sombra de Lazzaro vai se
alongando à medida em que ele caminha para o primeiro plano, centro.)

(Anselmo sai resmungando.)

LURDES, tirando a venda dos olhos de Lazzaro - Lazzaro!…


LAZZARO, tentando alisar os cabelos de Lurdes - Tu?

(Lurdes desmaia)

LAZZARO, segurando Lourdes - Lurdes, Lurdes!


LURDES, despertando - Meu querido… (Passa as mãos pelo rosto de Lazzaro, como
a fixar-lhe os traços. Fecha os olhos, sorrindo.) E neste patamar as nuvens descerão para
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dormir… (Rápida, levantando.) Não, não! Lazzaro, precisamos agir, andar pela cidade.
(Puxa a mão de Lazzaro que continua sentado.)
LAZZARO, levantando - E a mãe? Onde está nossa mãe?
LURDES - Quero te mostrar a tua cidade. Quero que todos te vejam. Sim, venha
ver a nossa cidade.

(Saem. E quando estão a desaparecer entram Martim seguido de uma mulher. Martim
percebe a saída dos dois. Senta-se no muro. A mulher vem postar-se a seu lado.)

MULHER - Mandou me buscar. Lá, eu tinha de tudo, inclusive podia escolher o


meu bonitão.
MARTIM - Fala baixo.
MULHER - Baixo nada! Se tivesse ficado lá tinha feito uma fortuna. Andar bem,
com dinheiro no banco.
MARTIM - Mais esta! Um gato sem eira nem beira a querer enricar. Imagine…
Acha pouco ser o gato do prefeito?
MULHER - Merda quer um escândalo? Se não sou uma boazuda, porque me
mandou me buscar? Para me alojar naquele quarto ordinário? Sabe o que todo macho
me diz? “Pensei que ele fosse te alojar num palacete…”
MARTIM - Ora, não aporrinha.
MULHER - Em Longazinho eu era querida e adorada. A mulher mais chique de lá.
Tinha uma sombrinha azul natié. Linda! Depois, onde já se viu um vestido de soarê por
aqui? Vou botar minhas soarês naquele teu cabaré?
MARTIM - Besteira. Oxente, que diamante é este? Um traseiro apenas acima do
razoável...
MULHER - Que que tu entende de traseiro? Ai, ai... Vivo oxigenando o cabelo -
para quê? para ser cantada pelos teus polícias? Cabrão...
MARTIM - Te cala.
MULHER - Calar? Te digo: não temo nada! Posso morrer, mesmo apanhar, mas tu
vai ficar sujo nesta maldita cidade. Juro. Quero é o meu dinheiro e a passagem. Volto
para fazer a minha vida em Longazinho. Prefeito... Ora sai dessa. Um broxa...
(Gargalhada.)
MARTIM - Cala-te, ou te matarei.
MULHER, saindo - Prefeito... (Nova gargalhada.)

(É quase noite. Martim ganha o interior da casa.)

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INTERMEZZO

(Luz comum a palco e platéia. Entra o ator, ainda retirando a maquilagem de “Anselmo”)

ATOR - Pois é. Como vocês viram, fui o escolhido, pelo Diretor, para fazer o
Anselmo, bolação do Autor para o fio condutor de uma estória que estou farto de ouvir.
Trata-se, como vocês logo manjaram, de uma transposição, para o Nordeste, da tragédia
dos Átridas. Sonho alto do principiante nordestino, não? Então foi escolhido um Lixeiro
para condutor deste Lazzaro. E quem melhor para conhecer o lixo de cada casa? Mas o
lixeiro é um homem como outro e ser lixeiro é uma profissão, como ser capitalista, não?
Talvez mais humana, até. Eu, pelo menos acho assim. O que toma o Anselmo um ser
repelente é que ele é também Domador de Cobras, lida com jibóias. Ah, isto é repelente
mesmo. Mas numa cidadezinha, naqueles idos de 1940, ser lixeiro é lidar com vísceras e
espalhar o fedor da matéria apodrecida.
E por que - voltando aos Átridas Nordestinos - me pergunto, e por que este
inoportuno estudo da condição humana quando a seca está a destroçar toda uma
região? Animais e pássaros desapareceram. As fazendas bateram os paus da porteira dos
currais. O gado cai, aos montes. A urubuzada sobrevoa. As cambaxirras perdem o grito.
Os desconfiados corrupiões invadem a cidade e os quintais das casas, tangidos pela fome
e pela sede. Só as avoantes, em altas e sucessivas esquadrilhas pelo céu de aço. Dias
após dias, elas conseguem atravessar o estirão ressequido em busca do verde vale do
Mearim.
Por que o particular ao invés do geral? Por que não mostrar o sofrimento desses
homens em bandos, os chamados retirantes, cegos de sol e sede, a andar desorientados,
a trambecar os cambitos na piçarra escaldante? Presumo que o iniciante Autor recuou
ante o horror desse painel goiesco que, com raras exceções, é tema sempre rebaixado
pelo clichê, pelo lugar-comum do tipo “o sol, no Ocaso, é uma fogueira e etc. e tal.”
Enfim, como o mar não está para peixe nos consolemos com a frase: que é uma mancha
no solo pátrio, que Ele vai redimir este sofrer e mais e isto e aquilo. Infelizmente nada,
até hoje, e desde os tempos dos diamantes da coroa de papai Pedro, apesar da
verbosidade e dos chás-de-caridade.
Foi por isto, creio, que o nosso esforçado aprendiz, sob o domínio dos deuses -
digo - dos gregos, tão antigos quanto atuais, resolveu aproveitar a sujeira de uma família
dita importante, numa cidadezinha que de tão desimportante nem figura - ouço dizer -
no mapa do Nordeste. Da seca só aproveitou, a bem dizer, o sol. Volto a me perguntar: a
tragédia é parte da nossa cultura? Somos dados a especulações metafísicas sobre o
destino do homem? Negativo. Somos um povo novo, alegre e que sabe usar, como numa
pelada, aqueles dribles que nos aproximam da Burleta. Mas o Autor insiste na tragédia, e
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mais terrível que a seca, diz, é o sufoco da Liberdade.
Bom, para terminar, comunico que a missão do lixeiro se esgota no momento em
que ele traz o tal rapazinho que se há de deleitar com os docinhos que só mamãe sabe
fazer. Não seria um final ameno? Caso ele concorde com o final ameno, espero, para a
segunda parte, uma reviravolta. Que o caldeirão não venha a ser entornado, livrando-nos
do fedor das tripas. Enfim, prevaleça a Burleta. E até mais ver.

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PARTE II

(Acendem-se as luzes da sala. Almerinda surge, inquieta)

ALMERINDA, gritando - Martim? Martim? Onde está você?


MARTIM, entrando na sala - Que foi? Não está passando bem?
ALMERINDA - Onde estava?
MARTIM - No muro.
ALMERINDA - No muro? Fazendo o quê?
MARTIM - A pensar, a refrescar as idéias. Ando trabalhando muito.
ALMERINIDA - E no escritório? Lá podia descansar e pensar melhor.
MARTIM - Não, não gosto de me sentir preso. Prefiro sentar no muro, sentir a
brisa, o céu coberto de estrelas. Respiro aliviado.
ALMERINDA - Ouvi vozes. Com quem conversava?
MARTIM - Eu? Não, lá o silêncio era total. E se ouviu vozes, como diz, não teve
medo? Não pensou em ladrão? (Ri.)
ALMERINDA - Os ladrões não conversam e você estava conversando.
MARTIM - Certo. Então adivinha com quem?
ALMERINDA - Não sei adivinhar.
MARTIM - Com Lurdes...
ALMERINDA, surpresa - O quê?… Parabéns.
MARTIM - É verdade, a menina me cativou, mas por favor não vá fazer a
enciumada.
ALMERINDA - Fique tranqüilo. Uma pergunta: por que essa conversa nos fundos
da casa, quando temos a porta da rua para nos reunir em palestras, como antigamente?
MARTIM - Ora, eu sempre fui do portão. Não foi assim, como dizia Lurdes, que eu
entrei nesta casa?
ALMERINDA - As situações mudam, você agora é o dono, não fosse,
principalmente, o prefeito da cidade.
MARTIM - Pois olha, no muro, feito um gato, eu me sinto bem. E, se havia rodas
na porta da rua, a luz batendo no seu belo colo e as cadeiras embalando as palestras,
certamente não era comigo.
ALMERINDA - Com o outro não havia palestras, e se as pessoas mudam, as rodas
continuam, as cadeiras de embalo são as mesmas e você sabe conversar. O outro só
sabia fazer discursos, discursos que me aborreciam.
MARTIM - E eu, insistindo para ser prefeito, tenho que justificar a escolha. Ou
não tenho? Não vê que tudo já começa a prosperar nesta cidade. E olhe que há muito a
fazer. Vou mandar pintar de cores alegres toda a zona. Nem imagina como aquilo é
freqüentado por caixeiros-viajantes e varões austeros. Quero que eles sintam, ali, todo
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conforto. E que passem a divulgá-la. É cartaz para Martinópolis, além de levar aos cofres
da Prefeitura uma ajuda valiosa.
ALMERINDA - Tremo só de pensar que te poderão matar um dia. Bem sabe das
tramas dos inimigos. (Suspirando.) Mas o que te dizia Lurdes? Estava só ou
acompanhada?
MARTIM - Naturalmente, só. Conversamos sobre muitas coisas: canários, milagres
de santo, eclipses... E por falar em céu, sabe que ela me deu uma verdadeira aula sobre
constelações? Fantástico!
ALMERINDA - Lurdes tem andado mais irritada, e agora vocês se encontram no
muro a conversar banalidades. Constelações? A do Escorpião?
MARTIM - Por que Escorpião?
ALMERINDA - Não ia acusá-la se não tivesse provas. Sei, de qualquer modo, que
ela anda tramando alguma coisa.
MARTIM - Bobagem.
ALMERINDA - Ela espera o irmão. Paguei o Anselmo e ele me deu o serviço: que os
dois se comunicaram através dele, Anselmo. Que tem um navio no porto e a qualquer
hora o rapaz pode bater aqui.
MARTIM - Parabéns. Vai conhecer o teu filho feito homem.
ALMERINDA - Eu tremo, Martim, eu tremo. (Agarra-se a Martim, medrosa.) Ele
estará a meu lado, ele me ama... Martim, você sabia? (Sorrindo.) Eu sentia... eu sinto, eu
sinto.
MARTIM, desprendendo-se de Almerinda - Vem me calçar as perneiras.
ALMERINDA - Ainda vai sair?
MARTIM - Tratar de problemas.
ALMERINDA - Que problemas?
MARTIM - Uma reunião de políticos, na casa de um amigo. Deu prá entender?
Anda, vem me calçar.

(Almerinda, humilhada, vai calçar Martim. Depois, volta a sentar-se e a tecer a coroa com
flores de papel-de-seda. Martim levanta-se, põe a túnica, penteia-se, perfuma-se.)

MARTIM - Não te canse tanto pelo “velho”. Volto logo, mas não me espere. (Chega-
se a ela, encostando-lhe a face.) Beija-me e vá dormir. (Sai, fechando a porta.)
ALMERINDA - Existo, apenas. E viver assim é como viver morta. Mas me vem a
dor de ser desprezada. Dor? Que é a dor para mim, criminosa? (Sai, apagando a luz da
sala.)

(Lazzaro e Lurdes aparecem ao lado do muro. Lurdes traz o irmão junto a si, numa
tentativa de domínio. Lazzaro parece cansado.)

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LAZZARO, tentando-se desprender de Lurdes - Não é possível, Lurdes, não é mais
possível, quero ver a minha mãe.
LURDES - Espera mais um pouco, meu irmão, e você a terá.
LAZZARO - O que a gente tinha a contar, já contou. Todas as lembranças foram
reavivadas.
LURDES - Elas não estavam mortas.
LAZZARO - Passeamos pelo rio, seu cheiro de peixe, seus barrancos de areia
branca.
LURDES - Seco. Só lajedos.
LAZZARO - E de lá avistamos este casarão branco e triste com seu penacho de
fumo. Vimos, de lá, o mundo todo, o mundo de Monte Azul: essa nuvem de poeira onde
nasci.
LURDES - Onde nós nascemos. E ele nos sentava nos seus joelhos, eu à esquerda,
tu, à direita. E minha mão percorria seu rosto. Gostava de sentir os fios da barba a
crescer.
LAZZARO - Lembranças recordadas, depois, nos cansamos logo. As coisas
continuam iguais. A alegria do encontro já nos fartou. Não é?
LURDES - Quer dizer, já está farto de mim.
LAZZARO - Não, não é isto. Mas não sente que apesar da alegria do encontro nos
falta alguma coisa?
LURDES - Falta, sim. Precisamos matar todas as nossas frustrações. Com elas eu
me sinto sem ar.
LAZZARO - Afinal, o que aconteceu ou está acontecendo de tão grave? Me parece
reservada, misteriosa... O que é, minha irmã.
LURDES - É melhor que você volte, se depois vem o desencanto. Por que insiste
em querer ver a sua mãe se depois, também, vai se fartar dela? Mas a mamãezinha virá,
você a terá entre os seus braços e ela o encherá de lisonjas.
LAZZARO - É possível que eu veja tudo de modo diferente.
LURDES - Dia e noite eu te esperava.
LAZZARO - Também pensava em vocês. (Boceja)
LURDES - Está enfadado. Deita um pouco nas minhas pernas. (Lurdes senta-se
no chão e Lazzaro deita-se, colocando a cabeça nas pernas da irmã.) Então, está melhor
assim?
LAZZARO, novamente bocejando - Desculpa, sinto um peso nas pálpebras...

(Surge Perpétua no alto do muro. É apenas um vulto. Lurdes acaricia o rosto de Lazzaro a
dormir.)

PERPÉTUA, cantando - A morte acabou


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seus pés e suas mãos
a luz de seus olhos
e as cordas do coração.
LURDES - Tu não me abandonarás, estou junto de ti. (Segurando a mão do irmão
adormecido.) Não foi nenhuma surpresa nem desencanto, eu te esperava assim mesmo.
Mas, cabe a ti o dever de lutar pela honra de nosso nome. Conheço a tua reação. Eu te
ajudarei.
PERPÉTUA - Eu me lembro, eu me lembro. A chuva caía quente molhando as
pedras.
LURDES - Somos os desmamados... As estrelas se desmancham em contínuo
brilho e as artérias latejam. Dormir. A doçura de poder dormir.

(Aparece Almerinda. Surpreende-se com o rosto branco de Lazzaro, a dormir.)

ALMERINDA, num grito abafado - Lazzaro!


LURDES - Não se atreva.
ALMERINDA, recuando ante a reação de Lurdes - Meu filho?
LURDES, em surdo rancor - Cale-se.
ALMERINDA, afastando-se mas reagindo - Está louca?
LURDES, levantando-se em defensiva - Que quer você aqui?
ALMERINDA - É demais... Mas é o meu filho, sabia?
LURDES - Veio pedir desculpas?
ALMERINDA - Eu não me desculpo, mesmo porque não há de que me desculpar.
LURDES - Abandonou o seu filho, já esqueceu?
ALMERINDA - Mentira! E é você, logo você, que pretende me julgar? Não respeita
nem o sono de meu filho.
LURDES - Não queria despertá-lo com seus arroubos? E o caso Perpétua?

(Percebe-se que Lazzaro está acordado.)

ALMERINDA - Adoeci quando você nasceu...


LURDES - Deu-me para Perpétua, para que a sugasse, matando de fome seu
neném.
ALMERINDA, numa alegria histérica - Que culpa tenho eu de sua ganância?
Verdadeiramente é o retrato do pai.
LURDES - Ainda ousa falar de meu pai.
ALMERINDA - Teu pai, sim. Ele me deu dois filhos mas foi José Martim que me
revelou o amor.
LURDES - Nunca perdoou o seu fracasso.
ALMERINDA - Não consegue me humilhar. Nisto, teu pai era mestre!

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LURDES - Não foi humilhação, antes uma procura de sono, com você ele não
podia dormir. Pressinto o desencanto de meu pai na sua noite de núpcias. A alegria que
ele lhe procurou dar, a flor de sua boca que lhe ofereceu, mas você fugia, sua boca se
fechava, você cerrava os olhos e adormecia.
ALMERINDA - Sufocada de véus, de cortinas, de cansaço. Sua percepção é
maravilhosa, filha! ou é conhecimento de cama? De qualquer modo há um defunto a lhe
provocar sensações.
LURDES - Seja.
ALMERINDA - Você de nada sabe. É uma louca com visões deformadas.
LURDES - O que se pode encobrir? Sei mais, sei da volúpia com que quebrava
cacos de vidro e os moía.
ALMERINDA - Lurdes?
LURDES - Moía, moía... um leve pó, tão fino... misturando-se ao leite, no café da
manhã, no açúcar. Açúcar, açúcar, açúcar...
ALMERINDA - Infame!
LURDES - E meu pai se aniquilava, os intestinos se desmanchavam vermelhos, os
olhos mal continham espanto e horror. Meu pai me apertava, corria as mãos nas minhas
frontes, seus dedos entravam nos meus cabelos, sentia que se esforçava por um segredo,
um segredo que não queria revelar.
ALMERINDA, cansada - Matei-o, matei-o.
LURDES - Afinal confessa. Perpétua é uma louca e Lazzaro dorme. Eu, só eu, a
única testemunha.
ALMERINDA - Em tudo isso a humilhada fui eu. Mas há razões que você não pode
compreender.
LURDES - Que é você para o tal de Zé Martin senão uma arca de moedas? E ele
lhe esbanja, porque meu pai lhe deixou rica. E acaso não foi ele, esse seu amante, que
concebeu o plano? não foi esse execrável caixeiro que lhe ajudou a moer os vidros?
ALMERINDA - Não, esse plano foi só meu, também tenho amor próprio.
LURDES - Você não o merecia e hoje não merece para o seu amante. Ele corteja
mulheres a sua vista.
ALMERINDA - É mentira!
LURDES - Mentira? Não, não minto.
ALMERINDA - Tem ciúmes e quer me insultar. Tenho um filho, o meu filho, e você
não tem ninguém. Entendeu?
LURDES - Sou mais rica, mãe, porque tenho uma obsessão. Alguém nos há de
vingar.

(Lazzaro, fingindo acordar-se, ergue os olhos para a mãe.)

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ALMERINDA, sai a correr para abraçar o filho - Meu filho!
LURDES, detendo o movimento de Almerinda - Meu filho... Tão tarde se pronuncia
a mãe.

(Lazzaro levanta-se, rápido, e abraça-se com a mãe. Lurdes sai. Lazzaro ainda abraçado
com Almerinda, saem logo depois, como um casal amoroso. Ouve-se a voz de Perpétua a
cantar.)

VOZ DE PERPÉTUA - Cravo roxo e arroxeado


não tem mais que arroxear
nunca botei e nem boto
outro cravo em seu lugar.
Então meu corpo se encurvou, meus braços se arquearam para botar a minha
criança no seu bercinho. A chuva caía quente molhando a terra.

(Lazzaro desce a escada. Senta-se no sofá.)

LAZZARO - É difícil... Nunca as imaginara assim. (Um momento.) Lurdes usava


tranças, o corpo magro e esperto - “Lazzaro me ajuda a consertar a asa desta
andorinha”... isso mesmo, mas não é certo, minha lembrança... a casa era esta, sim, lá
está o retrato de meu pai, lá estão os seus bigodes, a sua seriedade... não me lembro,
acostumei-me a ele apenas no retrato - “Onde está meu pai?” (De olhos fechados.) “Ali, na
parede, à direita de quem entra, com toda a sua austeridade”. Sempre sempre como um
retrato e como um retrato, eterno - “Meu pai vai bem, obrigado”... (Ri.) Minha mãe.
Lembro-me dos cílios de minha mãe, tinha um jeito de se mover como asas que se abrem
para voar... seu colo, o seu sorriso... (Cada vez mais angustiado.) Mas não, não é certo.
Onde me jogaram? Que vim fazer aqui? Ainda amo essa gente?... Meus gestos são
puramente mecânicos. Porque está escrito que eu sou o irmão e o filho e que... (Passeia
pela sala.) Por que estou agora neste dilema? Onde está o meu navio, o mar? Já é tempo
de voltar - e nem bem cheguei - mas volto levando a alma arrebentada, porque tudo se
foi. Então? Tinha mãe e irmã, sabia os gestos de cada uma, e as trazia a meu lado, eram
os meus fantasmas e eu lhes tinha amor. Agora sou obrigado a nova revisão, e depois,
onde fica o amor? (Olhando para o retrato.) Tu não mudas, continuas o mesmo, percebo a
tua vigilância, teus bigodes, a energia que o fotógrafo te botou no olhar. Truques. (Lurdes
desce a escada, atenta ao comportamento de Lazzaro.) É partir apenas, nada mais tenho
a fazer.

(Ouve-se o bater dos horas de um relógio. Lurdes surge na sala para surpresa de Lazzaro.)

LURDES - Foi uma decepção, hem? Lamento. E por que atacar o retrato de meu
pai? Quer uma desculpa para a tua vidinha. Lamento...
LAZZARO - Esta casa é sufocante. Pesada. Abrigo de fantasmas. Por que foi me
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contar aquilo tudo?
LURDES - Será que os homens demoram tanto a despertar? Era necessário que
soubesse.
LAZZARO - Não sei... Tudo me é estranho. Aquele mundo que levei comigo não
mais existe. Por que eu havia de detestar a minha mãe? Por que acreditar em fantasias?
Isso, se aconteceu, foi com outra gente. Meu passado, agora, está no mar.
LURDES - Deixa o mar por um momento, ao menos. Acorda, te peço. E ontem, ali,
você não dormia, juro! E além dos olhos de pássaro também se enfeitiçou com o
modulado de sua voz...
LAZZARO - Compaixão, também te peço.
LURDES - Te entendo, a bela palavra compaixão te deixa tranqüilo...
LAZZARO - Mas foi para “aquilo” que você me esperava?
LURDES, em desespero, sem ver Almerinda entrar - Sim, também como gritou a
tua mãe: para matar! Para matar!
LAZZARO, interrompendo - Mãe, você está linda!
ALMERINDA - Matar o quê? o que Lurdes está dizendo?
LAZZARO - Lurdes não quer que eu me vá.
ALMERINDA - Nem eu, meu filho, lá você poderá morrer e não matar.
LAZZARO - Como marinheiro, cumpro ordens.

(Almerinda senta-se no sofá, junto a Lazzaro.)

LURDES - É mentira, não morrerá nunca.


ALMERINDA - Deus te ouça, Lurdes.
LURDES - É da raça dos que envelhecem. (Sorrindo amarga.) Mas isso me
aborrece.
ALMERINDA - O que tem, querida? Sente-se aqui, vem.
LAZZARO - Vem, Lurdes. (Vai buscar a irmã, senta-a no sofá, ficando entre as
duas.)
ALMERINDA - Então, meu filho, pensei que vinha para morar conosco, mas você
fala em partir para a guerra?
LAZZARO - Verdade. Mas nesta casa não há, também, uma guerra surda,
permanente?
ALMERINDA - Guerra?

(Lazzaro se levanta. Lurdes faz o mesmo, alerta)

LAZZARO, vacilante - Mãe, que faz esse homem na nossa casa?


ALMERINDA - Homem? Oh, você me espanta. Fala de Martim?
LAZZARO - Sim, é. Ele mora aqui?

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ALMERINDA - Ih, é uma história antiga... José Martim, seu primo, foi educado na
nossa casa, desde rapazinho.
LURDES - Era o nosso caixeiro de secos-e-molhados.
ALMERINDA - Quando teu pai morreu já era ele gerente dos seus negócios. Aqui
sempre viveu, não era justo que eu fechasse a loja e o mandasse ir embora pela razão da
morte de Rafael. Foi sempre nosso amigo.
LURDES, com mofa - Exato.
ALMERINDA - Assim tem sido. E se ele não tivesse méritos não chegava a ser
prefeito, como chegou.
LAZZARO - Deve ser um homem simpático. Onde anda ele que não veio jantar
conosco?
ALMERINDA - Foi à fazenda. Havia um trabalho urgente a ser feito. Pediu-me que
o desculpasse. E eu, tomada pela alegria da tua chegada, esqueci de lhe dar as
desculpas.
LAZZARO - Mas agora, que o assunto é o nosso primo, quero estar a par de tudo,
ou há coisas que um filho não deve saber?
ALMERINDA - Claro que não, meu anjo.
LAZZARO - Por exemplo, quero uma razão para gostar de José Martim. Diga-me,
você o ama?
ALMERINDA, tomada de surpresa com a pergunta, parece confundida, depois
demonstra uma tranqüila segurança - Amo.
LAZZARO - Vive com ele?
ALMERINDA - Vivo.
LAZZARO - Penso que só nós, de casa...
LURDES - Eu não minto. Sabemos nós, sabem os criados, sabe toda a cidade.
LAZZARO, perturbado - Mãe, por que foi logo acontecer dessa maneira?
ALMERINDA - Se sabe? No momento só sei te dizer que, para você, meu coração
está aberto.
LURDES - Mas é impossível! É um bandido!
LAZZARO - Cale-se. Não a ofenda. Sim, nossa mãe deve casar. Anunciemos o seu
casamento! (Vai beijar a mãe.)
ALMERINDA, abraçando Lazzaro - Eu lhe agradeço, meu filho!
LURDES - Não, ela não pode se casar, nunca! Você viveu sempre longe. Não teve a
má sorte de suportar a baixeza dessa família decadente. E depois, ganha a Marinha,
enquanto eu fico, eu fico...
ALMERINDA - Por que tudo isso, Lurdes?
LURDES - No mundo só você existe. E meu pai? (Chora.)

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ALMERINDA - Teu pai?
LAZZARO - Lurdes, você vive envolvida por fantasmas! Melhor que o choro é correr
no campo, sentir o sol, o vento, deitar-se à sombra de uma oiticica. Melhor sentir o rio, o
correr de suas águas, o cheiro de suas moitas.
LURDES - Palmas, dona Almerinda. Seu filhinho foge da realidade e faz literatices.
Pensei que um atarracado marinheiro só soubesse manejar cordas. Enganei-me. Na Arca
tem de tudo.

(Lazzaro baixa o rosto. Almerinda deixa o filho que volta a sentar-se a seu lado e vai
abraçar Lurdes, tentando consolá-la. Lurdes a repele.)

LURDES - Não me beije. Meu rosto fica a queimar a noite inteira. Imagino o
sofrimento de meu pai diante de tanta meiguice.
ALMERINDA - Não há razão. Lurdes anda nervosa.
LURDES - Eu nunca tive razão. Ela me vence.
ALMERINDA - Não posso vencer ninguém. Qualquer vitória que eu tivesse, quero
dizer, a do amor, seria de vocês. Mas, no caso, por que haveria de querer te vencer?
Vencer o quê? Compreensão, te peço.
LURDES, numa gargalhada - Compreensão? Minha mãe não é sempre um modelo
de bom senso? Está bem. Case-se. Você tem um homem que é a sua medida. Um belo
cafajeste. Mas não pense que estou a dar o meu consentimento. Não sou uma idiota. O
problema é seu.
LAZZARO - Então, esta proposta: amanhã, nós três, sairemos juntos. Nos
alegremos que a seca vai passar. Relampeja, e eu sinto o cheiro da chuva! Iremos ao
velho açude... (Ouve-se o barulho do vento, as cortinas balançam.) O vasto campo, os
carnaubais...
ALMERINDA - Sim, sim. Falaremos de tudo, de vocês meninos...
LAZZARO - Chove.
ALMERINDA - Vou subir. Quero, eu mesma, arrumar a cama de meu filho. Meus
amores, não demorem. Lazzaro deve estar numa grande fadiga. (Levanta-se, ajeita os
cabelos e sorri para os filhos que parecem distantes. Sai;)
LAZZARO - Este cheiro de terra molhada, a goteira pingando, a minha infância...
Ai Lurdes, Lurdes, minha irmã... A inútil volta. Pra que voltar? Para saber que tenho
uma mãe assassina? E assassina de meu próprio pai... Por que voltar? Para aprender a
fingir? Eu, a fingir. Como o fingir é terrível! Logo para quem? Tão bela, tão bela... Seu
olhar a penetrar, fundo, no meu, a buscar compreensão. (Chora. Lurdes vem abraçá-lo,
acarinhando-o. O choro se toma convulso.) Lurdes, minha irmã, te peço: piedade, piedade
para ela. Mãe, a minha mãe...
LURDES - É isto. E agora, acalme-se. Felizmente descarregou a tensão. Vamos
47
subir. (Saem.)

(O barulho da chuva vai aumentando. A porta do fundo se escancara e uma rajada de


vento invade toda a sala. Martim entra seguido de uma mulher, ambos completamente
molhados.)

MULHER - Não será muita ousadia? Eles vão achar ruim.


MARTIM, embriagado - Deixa de conversa.
MULHER - Tu ontem não queria que eu chegasse nem no muro, e hoje me faz
entrar pela porta da frente, e pra dormir contigo.
MARTIM, tirando a túnica - Não amola.

(A mulher olha as coroas. Martim joga a túnica no chão, retira as perneiras e as botas.)

MARTIM, contemplando um sapatinho da prostituta - Só te trouxe pra dormir por


causa dos saltos destes teus sapatinhos. Bonitos como quê.

(A mulher se senta. Martim tira-lhe os sapatos, contempla os mesmos por um momento,


jogando-os, depois, de lado. Segura o rosto da mulher, lhe despenteia os cabelos.)

MARTIM - Borboletinha tonta...


MULHER - Ah, não, tira este cinto de cartuchos de tua cintura, e este revólver,
assim não durmo contigo.

(Martim tira o cinto com o revólver, dependurando-os num gancho da parede.)

MULHER - Pra que tanta coroa, Martim?


MARTIM, fazendo voz lúgubre - Para dormir em cima delas.
MULHER - Cruzes! Vai agourar o diogo.
MARTIM, lendo os dísticos das coroas de flores de papel e jogando-as ao chão - “À
presença eterna de meu pai, Lurdes”. (Ri.) “A Rafael de Mendonça, o abraço amigo do
prefeito José Martim”. (Solta uma gargalhada.) Tudo...
MULHER, horrorizada com o que vê - Falta de respeito... Um cavalo...
MARTIM - Tudo isso porque amanhã é dia de Finados e o “velho” precisa de uma
boa ração, sabe, é só uma vez por ano... (Segurando outra coroa.) Esta tem a vantagem de
durar mais, é de pano e perfumada, cheira.
MULHER - Pra lá, azarento.
MARTIM - A patroa é caprichosa, tudo dela é muito bem-feito. Cheira, sua besta...
As outras, amanhã, estão logo desbotadas, esta não, esta dura muito tempo. “Ao
Sempiterno Rafael de Mendonça, o carinho da Esposa amada”, (Ri, segura a mulher, tenta
deitá-la por cima das coroas. Ri.) ... Almerinda...

(Lurdes e Lazzaro descem a escada, Almerinda aparece em seguida, por trás deles.)

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MULHER, assombrada - Não, não! (Martim aperta-lhe os braços.) Ai, não, socorro!

(Almerinda grita. Martim e a mulher ficam um momento atônitos, surpresos.)

LAZZARO - Infame. Porco!

(Martim faz um movimento para se apossar do revólver que se acha na parede, mas é
impedido por Lazzaro, que lhe desfecha um soco. A mulher foge pela porta do fundo,
fechando-a atrás de si. Lurdes, impassível, digamos, alegre, assiste à cena. Almerinda em
desespero. Trava-se a luta, ambos rolam pelo chão. No segundo momento da luta, Lazzaro,
sentando-se em cima de Martim, desfecha-lhe golpes com o braço. Lurdes tira o punhal que
trazia escondido no vestido, Almerinda grita, procura impedir o gesto de Lurdes.)

LURDES - Contenha-se. Você não gritou quando ele quis apanhar o revólver.
ALMERINDA - Não! Não!

(Lurdes põe o punhal na mão de Lazzaro, mas a mão trêmula de Lazzaro é impedida por
Almerinda que tenta se colocar entre os dois. Martim melhora de posição e procura
arrancar o punhal das mãos de Lazzaro.)

LURDES, - Você prefere ver o seu filho morto.


ALMERINDA, afastando-se aos gritos - Piedade!

(Lazzaro e Martim rolam por baixo da escada, a superioridade é então de Lazzaro, vendo-
se apenas o brilho do punhal e a descida deste que irá alcançar Martim. Ouve-se um grito
surdo.)

ALMERINDA - Malditos, eu o amava! Ó, os criminosos, mil vezes!


LURDES - Ele não a amava, a mim, sim, amava o seu amante. De que vai você
viver agora? Não pintará mais os seus cabelos, seu corpo não se apertará mais em
cintas, acabaram-se as vaidades, você amanhã estará transformada e Lazzaro vai ver
uma velha decaída. Então?
ALMERINDA, com as mãos no rosto - Não é possível, não é possível!
LURDES - Sabe que seu tempo se encerrou? Vamos lhe jogar flores, não é?
ALMERINDA, enfrentando o rosto de Lurdes - Possessos, possessos!

(Almerinda sobe a escada em exclamações.)

LURDES - Você não tem coragem?

(Lazzaro se levanta como um sonâmbulo, deixa o punhal cair e fica olhando, boquiaberto,
para a escada.)

LAZZARO - Mãe... mãe! Estou aqui, mãe... aqui.

(Lazzaro sobe a escada, atrás de Almerinda. Lurdes torna-se parada, em alheiamento. Um

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momento.)

LURDES - Ela é feliz, Lazzaro, ela é feliz... Está perdendo toda a mediocridade.
Tem agora uma aparência serena, discreta... Lazzaro, nossa mãe nos orgulhará, não
seremos mais fantasmas, nossos braços não restarão mais brancos nem nossas bocas
geladas, já não firmamos um grupo que se retira. Quem ouvirá os sinos à meia-noite?
Ninguém, ninguém... Seus cabelos jamais esbranquecerão, ela não será uma mulher
medíocre... (Num suspiro.) Nós a amamos.

(Lazzaro desce a escada a passos lentos, a cabeça baixa.)

LAZZARO - Eu a matei. Eu a matei.


LURDES - Eu te escuto.
LAZZARO - Não, não, foi sem querer, Lurdes, foi sem querer.
LURDES - Sim, mataste-a.
LAZZARO - Cala-te!
LURDES - Eu te escuto.
LAZZARO - Eu a amo muitíssimo, Lurdes, muitíssimo... quis convencê-la, pedir-
lhe perdão, mas não, ela amava mais o outro e me virou a face. Ela caiu, segurei-a pelo
pescoço, minha boca beijava os seus olhos e eu lhe pedia perdão - foi sem querer, mãe,
perdoa.
LURDES - Procuraste, à força, convencê-la do seu arrependimento. Mataste=a.
LAZZARO - Minhas mãos foram se despregando... Não, não, que vim fazer aqui?
LURDES - Estamos vingados, Lazzaro.
LAZZARO - Tu podes dizer isso?
LURDES - Acostumei-me, como uma gata faminta, a comer restos. Agora não,
agora posso encarar a todos. Me orgulho de ti.
LAZZARO - Um punhal... antes tivesse sido eu o morto.
LURDES - Aí está, a imagem da frouxidão. Tristeza ... (Num tom áspero.) Eu te
revelei, eu te revelei!
LAZZARO, possuído de intenso ódio torce uma coroa, tenta quebrá-la - Me revelaste
o quê? o quê? (Quebrando a coroa.) Meu coração está frio, entendeu? Ah... tudo é uma
loucura, não é possível... (Ri.) Arrebentemos tudo! (Arrebenta toda a coroa.) Anda, vem me
ajudar a quebrar, a destruir. Vem, peguemos os fios desta lâmpada... Quero quebrar
todos os vidros, os quadros, ali, aquele maldito retrato! Fui enganado, vamos, quero me
vingar, vingar! (Ri.) Tu?... Arrebentemos tudo, vamos, caminha. (Esmaga as coroas com
os pés.) Fala!
LURDES - A revelação está a esmagar o pobrezinho. Fiz, porque eras o meu irmão.
Me enganei, não pertences ao meu sangue... Onde está a tua fortaleza, a bravura de um
irmão que eu devia ter? (Lazzaro chora.) Amofinado. Está aí o pobre arrependimento,
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talvez o medo. Parte. (Ouve-se um apito distante, Lazzaro estremece. Lurdes vai à porta do
fundo, escancarando-a. Um leve clarão do dia entra pela casa.) Parte, antes que te
prendam. Transpõe a porta da rua ao menos para fugir. Nunca soubeste entrar pela
porta da rua... Corre, ganha a estrada de Monte Azul que te leva ao mar, deixa a minha
cidade porque eu saberei responder. Anda, parte.
LAZZARO - É fácil, para ti, partir.
LURDES - Responderei por tudo e pedirei justiça. Me levarão para a cadeia. (Com
um sorriso frio.) A cadeia, aquela casa onde o sol é uma pequenina fresta no tijolo.
Algumas vezes passei pela frente da cadeia, segurava com força o braço de meu pai,
tinha medo. Agora é como se lá houvesse passado a infância, reconheço todos os seus
cantos, o seu sujo piso de tijolos. Irei, e o meu coração leve será repartido entre eles, nem
todos os presos são ladrões e mentirosos. E de lá avistarei esta casa, esperarei trinta
anos para voltar aqui, mandarei caiá-la de novo, abrir todas as janelas e cuidarei de um
jardim, um jardim como não haverá outro em Monte Azul. Parte, tua presença me
importuna.
LAZZARO - É muito fácil partir. E o que fica? o que fica?
LURDES - Joga ao mar o teu desespero. É maravilhoso o mar!
LAZZARO - Não estamos com os vivos e os soluços banharão as noites até o fim.
Partirei sem ver o fogo que há de consumir estas paredes sem teto.

(Lazzaro sai pela porta do fundo.)

LURDES - Tenho muito a fazer, tu, não, nunca soubeste o que fosse esperar. Por
que agora desistir? Nunca, e o meu silêncio, todos os anos que se foram? Poderei ver o
céu entre grades, poderei ser enterrada viva, mas, o pensamento que é só meu há de
fugir para admirar o campo, essa grandeza, esse azul de promessa que tem o céu de
dezembro.

(A luz da lâmpada se apaga, um leve clarão invade toda a sala, Lurdes tem uma forma
branca, de estátua A luz se torna mais viva. É o amanhecer. As lavadeiras voltam para
estender a roupa branca, lavada, cobrindo, à proporção que conversam, todo o fundo da
casa)

1ª LAVADEIRA - O nascente esbranquece como flor serenada, choveu!


2ª LAVADEIRA - A babugem vai brotar nos campos.
3ª LAVADEIRA - Quero abraçar vocês duas, suas medrosas!
1ª LAVADEIRA - Choveu. O gado não morrerá de fome.
3ª LAVADEIRA - Ninguém mais vai se retirar.
1ª LAVADEIRA - Zé Raimundo plantará melancia no seu roçado.
2ª LAVADEIRA - Joãozinho vai vaquejar o gado.

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1ª LAVADEIRA - A prima bordará de bastidores, eu cuidarei dos labirintos.
3ª LAVADEIRA - As duas se casarão em maio enquanto eu fico a bater roupa.
1ª LAVADEIRA - Choveu. As acauãs vão fazer seus ninhos.
2ª LAVADEIRA - Não voltarão para agourar.
1ª LAVADEIRA - As águas encherão o açude e haverá um grande inverno!
3ª LAVADEIRA - Alegria! Muita chuva! As formigas criam asas e se perderão
voando!
2ª LAVADEIRA - Alegria! Muita chuva para o capim que vai nascer!
1ª LAVADEIRA - Para as salsas que vão enramar nos tabuleiros. Alegria!
2ª LAVADEIRA - Alegria para as flores que vão brotar da terra!
3ª LAVADEIRA - Não haverá mais ódio. O mundo é grande. Alegria!
1ª LAVADEIRA - E o sol é belo!
2ª LAVADEIRA - Não ouviremos os gritos nem mais avistaremos os calcanhares do
falecido senhor Rafael.
3ª LAVADEIRA - E os criminosos responderão pelos seus crimes e por eles serão
julgados.
2ª LAVADEIRA - E a terra há de ser limpa, lavada, sem manchas.
1ª LAVADEIRA - Não há manchas no céu.

(As lavadeiras saem, deixando estendidos os seus brancos lençóis. O sol resplandece.)

Fim

52
O CASO DO CHAPÉU

1951

Inspirado no conto de Machado de Assis


“Capítulo dos chapéus”.

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PERSONAGENS:
MARIANA
CONRADO
SOFIA
DOUTOR VIÇOSO
UM CAIXEIRO DE LOJA

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Gabinete de trabalho do advogado Conrado Seabra, marido de Mariana. Manhã após o
almoço.

MARIANA - Conrado, vou lhe pedir uma coisa...


CONRADO (enrolando um cigarro de palha) - Que é, meu anjo?
MARIANA - Você é capaz de fazer-me um sacrifício?
CONRADO - Dez, vinte...
MARIANA - Pois então não vá mais à cidade com aquele chapéu.
CONRADO - Por que? É feio?
MARIANA - Não digo que seja feio, mas é cá para fora, para andar na vizinhança, à
tarde ou à noite, mas na cidade, um advogado, não me parece que...
CONRADO - Que tolice, Iaiá!
MARIANA - Pois sim, mas faz-me este favor, faz?
CONRADO (acendendo o cigarro) - Ora, Iaiá, tolice... (ri)
MARIANA - É um pedido meu, Conrado.
CONRADO - A manhã está bonita... Não fosse a obrigação de rever hoje aquele
processo, o da viúva Fidélis, você se lembra?
MARIANA - Oh!...
CONRADO - Iríamos a Petrópolis... Deve ser agradável a subida da serra, nesta
manhã...
MARIANA - Mas Conrado...
CONRADO - Daríamos grandes passeios, você é excelente amazona!
MARIANA - Não, isso não é chapéu para um advogado, digo isso porque...
CONRADO (suspirando) - Infelizmente há que ver o processo da viúva...
MARIANA - É para fora, para andar na vizinhança...
CONRADO - Já descobri que você anda com vontade de passear... Também, a
minha vida de advogado, o Foro, a viúva Fidélis... Isso posto vai me esquecendo o anjo
que tenho em casa precisando de se distrair... Desculpe-me, Iaiá, sou um marido
atarefado... Entretanto hoje à noite poderíamos ir à Lírica... Vou mandar reservar
camarote, dizem que o barítono é bom e aquele trecho dos Huguenotes...
MARIANA - Você sabe que não exijo muito, mas um pedido que...
CONRADO - Ah, ia me esquecendo, encomendei na Garnier o Paulo e Vírgínia,
para você.
MARIANA (exasperada) - Mas senhor, meu marido, não quero nenhum Paulo e
Vírgínia, você está mofando de mim; pois lhe digo, leve-o de presente à viúva do tal
processo, viu?
CONRADO - Iaiá?
MARIANA - Basta de desconsideração!

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CONRADO - Tolice, ouviu? Vá ler o seu Ivanhoé até enjoar (ri sarcasticamente), e a
sua Moreninha... À viúva darei outro livro...
MARIANA (levantando-se da poltrona, deixa cair o livro que trazia ao colo) - Tenho
lhe suportado calada até hoje. em atenção às suas qualidades, mas estou enganada, sou
uma boba.
CONRADO (segurando-lhe os pulsos, obriga-a a sentar-se) - - Iaiá?
MARIANA (exaltada) - Sou uma boba, uma boba, não é possível!...
CONRADO (aparentando calma) - Escute.
MARIANA (tentando novamente se levantar, recua subjugada pelo olhar do
marido) - Não...
CONRADO (sorrindo) - Olha, Iaiá, tenho uma razão filosófica para não fazer o que
você me pede. Nunca lhe disse isso, mas agora confio-lhe tudo. (Mariana morde os lábios,
pega uma espátula e entra a bater com ela nos móveis, devagarinho, para fazer alguma
coisa, mas nem isso consente o marido, que lhe tira a espátula, delicadamente.) A escolha
do chapéu não é uma ação indiferente, como você pode supor, é regida por um princípio
metafísico. Não cuide que quem compra um chapéu exerce uma ação voluntária e livre, a
verdade é que obedece a um determinismo obscuro. A ilusão da liberdade existe
arraigada nos compradores, e é mantida pelos chapeleiros que, ao verem um freguês
ensaiar trinta ou quarenta chapéus, e sair sem comprar nenhum, imaginam que ele está
procurando livremente uma combinação elegante. O chapéu é a integração do homem,
um prolongamento da cabeça, um complemento decretado ao eterno, ninguém o pode
trocar sem mutilação. É uma questão profunda que ainda não ocorreu a ninguém. Os
sábios têm estudado tudo, desde o astro até o verme, ou, para exemplificar
bibliograficamente, desde Laplace... Você nunca leu Laplace? Desde Laplace e a
Mecânica Celeste até Darwin e o seu curioso Livro das Minhocas, e, entretanto, não se
lembraram ainda de parar diante de um chapéu e estudá-lo por todos os lados. São nove
horas e três quartos, não tenho tempo de dizer mais nada, mas você reflita consigo, e
verá... Quem sabe? Pode ser até que nem mesmo o chapéu seja complemento do homem,
mas o homem do chapéu... (Apanha o chapéu e o coloca na cabeça.) Até logo, Iaiá.
MARIANA (vencida, esforça-se para não chorar) - Um pedido tão simples para tão
grande sarcasmo... É verdade que fui um pouco exigente, mas não acho justificativa para
tais excessos... (Vai de um lado para outro, sem poder parar, chega à janela, meio aberta.)
Lá está ele, de costas, à espera do bonde, com o eterno e torpíssimo chapéu na cabeça...
Odeio essa peça tão ridícula, não compreendo como pude suportá-la por tantos anos...
(Triste, inconscientemente arrumando os móveis.) Há cinco anos era uma menina boba...
Sempre procurei aquiescê-lo em todas as suas vontades e caprichos e tenho que é essa
justamente a causa do seu excesso de ainda agora. Sou uma tola, uma moleirona, se

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tivesse feito como tantas outras... Como a Clara, a Sofia, que tratam os maridos como
eles devem ser tratados, não me aconteceria nem a metade, nem a sombra do que me
aconteceu. E ainda desconversar, falando de passeios a cavalo, me chamando de
amazonas... Amazonas e por quê? É fazer muito da minha bondade, me ridicularizando
assim... E ainda a Lírica, o barítono, os Huguenotes... Sabia muito aquele que
considerava ser apenas o meu marido; não, decididamente Conrado morreu... Ou talvez
nunca houvesse existido... E ter de aturar todos os dias a humilhação insólita daquele
chapéu... (Chega à janela, descobre o vulto de Sofia que se dirige para sua casa) Deus do
céu, aí vem a Sofia, uma serpente, ela não levará de mim a menor confissão. (Senta-se,
ajeita o penteado, o vestido, abre o Ivanhoé fingindo uma atitude serena absorvida pela
leitura. Ouve-se a voz alta de Sofia que está sendo recebida no vestíbulo.)
VOZ DE SOFIA - Mariana!
MARIANA (fingindo assustar-se deixa o livro cair no chão, à vista de Sofia que
aparece à porta do gabinete) - Sofia querida! (Beijam-se.)
SOFIA (espalhafatosa) - Você sempre alheia, mergulhada nas suas leituras, então,
o que lê agora? (Sem esperar resposta, já desinteressada da pergunta.) Que novidade me
conta a amiga?
MARIANA (triste, incapaz de fingir) - Nenhuma... Só algumas recordações do tempo
de solteira...
SOFIA - Recordações de quem? Pensei que você estivesse mergulhada nos seus
livros...
MARIANA - Recordações, você também não recorda?
SOFIA (sorrindo) - A nossa pombinha... Se você está se lembrando do tempo de
solteira não vai mal que lhe pergunte por alguém que esteve na presidência de uma
província do sul.
MARIANA - Não posso saber, Sofia, são tantos os presidentes e tantas as
províncias...
SOFIA - Refiro - me a um do sul... Não faz mal, mas, que houve com o doutor
Conrado que passou ainda agora por baixo de minha janela e não me cumprimentou?
Viu - me ou fingia não ver - me, o certo é que esperava o bonde com muita gravidade.
MARIANA - Ele não a viu, com certeza.
SOFIA - O que há, Mariana?
MARIANA (quer chorar) - Sofia...
SOFIA - Já sei, já sei, houve arrufos nesta casa.
MARIANA (chorando) - Por causa de um chapéu, Sofia...
SOFIA - Que horror!
MARIANA - Pedi que ele trocasse aquele chapéu baixo por um outro, mais

57
elegante... Mofou de mim, zombou, disse que não o trocaria, que o chapéu faz parte da
personalidade de cada um, falou de Laplace, você conhece Laplace, Sofia?
SOFIA - Já ouvi falar no nome desse senhor. (Pensativa.) Laplace, Laplace... O
nome não me é estranho. É amigo do doutor Conrado? É amigo do doutor Conrado?
MARIANA - Quero crer, falou no seu nome com tanta intimidade...
SOFIA - Que maravilha, Mariana, ó, vocês têm amigos importantes e no entanto...
É capaz de ser da embaixada francesa, hoje mesmo hei de apurar esse caso, o Mariana
querida, Laplace!
MARIANA - É escritor.
SOFIA - Escritor?
MARIANA - Escreveu a história das minhocas.
SOFIA (alegre) - Esses franceses... que idéia!
MARIANA - Se não fosse o aborrecimento do chapéu, iria pedir ao Conrado o tal do
livro.
SOFIA - Mas é um absurdo. Mais do que nunca seu marido deve se apresentar de
chapéu alto, Mariana, ouvir um francês!...
MARIANA - Fico um tanto embaraçada, meu ouvido não está muito afeito à
língua...
SOFIA - Tolice, não é preciso entender, basta a gente ouvir aquele som nasalado,
que graça, hein? Não, minha querida, isso eu não admitiria, ou eu ou o chapéu. Ora, sua
boba, a culpa não é do doutor Conrado.
MARIANA - Bem sei, é minha.
SOFIA - Não seja tola, Iaiá, você tem sido muito mole com ele, não lhe fale tão
cedo (amigo de Laplace!), e se ele vier fazer as pazes, diga-lhe que mude primeiro o
chapéu.
MARIANA - Veja você por uma coisa de nada...
SOFIA - No fim de contas ele tem muita razão, tanta como os outros. Olha a
pamonha da Beatriz, não foi agora para a roça só porque o marido implicou com um
inglês que costumava passar a cavalo, de tarde? Coitado do inglês! Naturalmente nem
deu pela falta... Olhe, eu cá vivo muito bem com o meu marido Ricardo, temos harmonia,
não lhe peço uma coisa que ele não me faça logo, mesmo quando não tem vontade
nenhuma, basta que eu feche a cara, obedece de pronto. Não era ele que havia de teimar
assim, por causa de um chapéu! Tinha que ver! Pois não? Onde iria ele parar? Mudava
de chapéu, quer quisesse, quer não. Quer saber de uma coisa, Iaiá? Vamos passear, ver
as lojas, contemplar a vista de outros chapéus bonitos e graves.
MARIANA (fascinada) - Vamos... Também estou cansada de viver em cativa...
Quero gozar um pouco.

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SOFIA - Então vá se vestir, rápida.

(Enquanto Mariana sai para vestir-se Sofia examina a sala, irrequieta e contente consigo
mesma. Vai à janela.)

SOFIA - Lá vai um a cavalo... Não é o inglês da Beatriz, pobre Beatriz... Será o tal
de Laplace? Laplace na terra e eu sem saber de nada? Impossível... Essa raça
masculina... Faço uma exceção para aquele rapaz a cavalo... (Deixando a janela.) Ih,
Mariana parece que morreu. (Alto) Vamos, Iaiá (Volta à janela.) Na verdade aquele é
afetado demais... Estica as pernas no estribo com vaidade das botas... Aquele ar de
figurino com a mão dobrada na cintura... São dois defeitos, mas o chapéu compensa,
naturalmente não é um chapéu alto, como quer Mariana para o marido, é baixo, mas
próprio do aparelho eqüestre. Não é a cabeça de um advogado que vai circunspecto para
o seu escritório, mas a de um rapaz que espairece, matando o tempo. Ah, os rapazes
Iaiá? (Mariana aparece. Veste traje simples e elegante, contrastando com o ar vistoso e
dominante de Sofia.)
MARIANA - Onde vamos nós?
SOFIA - Que tolice! Vamos à cidade... Agora me lembro, vou tirar o retrato, depois
vamos ao dentista. Não, primeiro vamos ao dentista. Você não precisa de ir ao dentista?
MARIANA - Não.
SOFIA - Nem tirar o retrato?
MARIANA - Já tenho muito. E para quê? Para dá-lo "àquele senhor”?
SOFIA - Escute, embora pareça difícil ainda é tempo de libertar-se. Não convém ir
logo de um salto, mas devagar, com segurança, quando ele der por si já você lhe tem
posto o pé no pescoço. Negócio de algumas semanas, três a quatro, não mais. Estou
pronta a lhe ajudar, Iaiá, mas não seja mole, Iaiá, você não é escrava de ninguém.
Vamos. (Saem.)

Tarde. Vitrine de uma loja de chapéus na rua do Ouvidor

MARIANA (constrangida) - Esta rua do Ouvidor...


SOFIA (voltando a cabeça para ela e os olhos para a platéia, como se buscassem
um rapaz que estivesse na calçada em frente) - Sim?
MARIANA - Sofia...
SOFIA - Olha aquela dama, quem diria, hein? Você viu aquelas jóias?
MARIANA - Ih! Como olham para a gente.
SOFIA - Pois foi assim, Iaiá, como eu ia lhe dizendo (Sorri para alguém.), tomei o
bonde... Você não avalia o meu susto ... Ah, aquele doutor Galvão... Olha, está vendo
aquela dama?
MARIANA - Aonde?

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SOFIA - Lá, aquela que está junto a de amarelo... Passou, viu?
MARIANA - Não, não vi.
SOFIA - Pois não importa, é a viúva Barcelos, sei de uma. (Cochicha, Mariana
sorri.)
MARIANA - Sofia...
SOFIA - É como estou lhe dizendo... Aquele doutor Galvão... Sim senhora.
MARIANA - Oh, Sofia, estou morta de cansaço.
SOFIA - Lá vai a Camila Tavares, quer que lhe diga uma coisa? (Cochicha.) É um
caso, todas as quartas e sábados, entre duas e três horas, com o (Cochicha)...
MARIANA (espantada) - Lindo?
SOFIA (baixo) - Deolindo... Passou. Está vendo?
MARIANA (aturdida) - Sofia.
SOFIA - Na verdade o chapéu é bonito, traz uma bela gravata e um ar elegante e
pelintra, mas... Não juro, ouviu? Mas é o que se diz.
MARIANA - Olham - nos com tanta insistência... (Sofia sorri, não ouve
absolutamente as observações de Mariana.)
SOFIA - Olha aqui esta vitrine. Está vendo?
MARIANA (assustada e súplice) - Onde fica o dentista? Estou tão cansada...
SOFIA (sem despregar os olhos da figura que experimenta os chapéus) - O que?
MARIANA - Sofia, o dentista...
SOFIA - Oh, já passamos da casa, era no começo da rua, não há de ser nada,
vamos voltar (Com os olhos no desconhecido.) Iaiá, está me parecendo ser o doutor
Conrado...
MARIANA (agarra - se à cintura de Sofia, quase a desmaiar.) - Sofia...

(O cavalheiro da vitrine põe o novo chapéu na cabeça, diz qualquer coisa ao empregado
que o escuta silencioso. Volta - se para sair.)

SOFIA (alvoroçada) - Doutor Viçoso!... Na terra, depois de tamanha ausência!

(Doutor Viçoso cumprimenta - as com muita cerimônia, apesar do alvoroço de Sofia.


Mariana mal pode controlar - se, tão confusa ainda do susto que pregara a amiga.)

DOUTOR VIÇOSO - Muito prazer, minhas senhoras!


SOFIA - Então, que novidades nos conta o caro presidente?
DOUTOR VIÇOSO - Quase nenhuma, dona Sofia, a não ser o grande prazer de
encontrá-las aqui.
MARIANA (discretamente a Sofia) - Não será melhor adiar o negócio dos dentes?
SOFIA (baixo) - Não, não, negócio de meia hora.
DOUTOR VIÇOSO - Como?

60
MARIANA - É que nós temos dentista, mas já é tarde...
SOFIA (reprova Mariana com o olhar; ri para o doutor Viçoso) - Está mais gordo,
doutor.
DOUTOR VIÇOSO - Não, dona Sofia, estou mais magro, adoeci quando estive no
sul.
SOFIA - Não quero crer, doutor, dizem tão bem das sulistas...
DOUTOR VIÇOSO - Creia - me, senhora, as cariocas...
SOFIA - Mariana, o doutor Viçoso teima que está mais magro, você não acha que
está mais gordo do que no ano passado? Não se lembra dele no ano passado?

(Mariana responde negativamente, com a cabeça.)

DOUTOR VIÇOSO (a Mariana) - Na verdade não a vejo desde algum tempo.


(Encara - a com um certo olhar triste e profundo. Mariana desvia os olhos.) E a Lírica, que
me dizem dela? (A Mariana.) Não a tenho visto por lá, mas, que me dizem? (Silêncio.) Na
minha opinião, a temporada é excelente, menos o barítono, o barítono me parece
cansado.
SOFIA - Oh, doutor Viçoso, acho o barítono formidável.
DOUTOR VIÇOSO - Pois em Londres... Sim, em Londres onde o ouvi pela primeira
vez, já me parecera a mesma coisa. As damas, sim senhora, tanto a contralto como a
soprano são de primeira ordem... A Traviata foi excelente, também a Carmem... Agora me
lembro (A Mariana.), parece - me que a vi na última noite, no quarto ou quinto camarote
da esquerda, não é verdade?
MARIANA (com ênfase) - Fomos.
DOUTOR VIÇOSO - No Cassino é que não a tenho visto.
SOFIA - Está ficando um bicho do mato. (Ri.)
DOUTOR VIÇOSO - Gostei muito do último baile... A alta sociedade em peso!
SOFIA - A nata!
DOUTOR VIÇOSO - Sim senhora, e que a toaletes!
SOFIA - As Tavares estavam divinas. Pudera, modelos de Paris, que quer o
senhor?
DOUTOR VIÇOSO - São as filhas do presidente do Senado, no que dizem, muito
açúcar... (Sorri.) E depois... (A Mariana.) E as corridas do Jóquei Clube?
MARIANA - Não fomos este ano ao Jóquei.
DOUTOR VIÇOSO - Foi pena, a antepenúltima, principalmente, esteve
animadíssima, e os cavalos eram de primeira ordem. As de Epsom, que vi, quando estive
na Inglaterra, não eram melhores do que a antepenúltima do Prado Fluminense.
SOFIA - Realmente, a antepenúltima honra o Jóquei Clube. Gosto muito, dá
emoções fortes...
61
DOUTOR VIÇOSO - E Petrópolis? Imaginem que dois diplomatas me fizeram as
despesas da estada... O casamento de um... Muita pompa...
SOFIA - Por favor, já que a conversa está na Diplomacia, o doutor se dá com
Monsieur Laplace?
DOUTOR VIÇOSO - Laplace? Este nome não me é estranho.
SOFIA - Nem a mim, pois olhe, esse francês freqüenta a casa dos Seabras... (Sorri
olhando a cara espantada de Mariana.)
DOUTOR VIÇOSO - Seabra? Um advogado que tem escritório na rua da Quitanda?
SOFIA - Sim, senhor, marido aqui da nossa amiga.
DOUTOR VIÇOSO - O quê? Dona Mariana casou - se? Meus parabéns embora
tardios... Há cinco anos, quando a conheci... (Mariana enrubesce.) Francamente, chequei
tarde, há cinco anos... (Suspira.)
SOFIA - Pois é, Mariana não mudou nada... Hoje mesmo ela esteve relembrando
"aqueles tempos"...
MARIANA (balbuciando) - Sofia...
SOFIA - Mas, voltando ao assunto do francês... É um grande escritor, muito
conceituado na França, conferencista, só que escreveu um livro com um nome muito
engraçado... (Ri.) Originalidades francesas...
DOUTOR VIÇOSO - Como se chama o livro?
SOFIA - Eu ainda não o li, Mariana vai fazer o favor de me emprestar... Imagine
que o exemplar dela é autografado...
DOUTOR VIÇOSO (despeitado) - Que novidade, Dona Mariana... Como se chama a
obra?
MARIANA (vexada) - Sofia...
SOFIA (rindo) - Não posso me conter. (Gargalhada.) O nome é tão esquisito...
MARIANA - Sofia...
SOFIA - Minhocas! Livro das Minhocas!
MARIANA - Oh!
DOUTOR VIÇOSO - Ah, sei, sim (Ri.). A boutade é ótima e não faz mal a ninguém,
perfeitamente anódina.
SOFIA - Então, se dá com ele? Diga.
DOUTOR VIÇOSO - Oh, dona Sofia, não seja mordaz, não me encabule, a não ser
que seja um parente... Mesmo assim não o conheço... Mas, ligando a obra no autor, digo
que a boutade é leve e engraçada, muito original, todavia, há um pequeno engano: a obra
em questão, creio, é da autoria de Darwin, cientista de renome, mas com muito espírito,
muito engraçada! (Ri.)
MARIANA - Sofia...

62
SOFIA - Olhe, doutor, se é piada não me compete julgá-la. Pelo amor de Deus...
Mariana, você não deve contar os ditos do doutor Seabra, que cômico... E agora, doutor
Viçoso, quem está encabulada sou eu, por favor, lhe peço, leve o dito por não dito.
MARIANA (aniquilada) - Vamos.
SOFIA - Você está com muita Pressa. (Voltando - se para Viçoso.) Que horas são?
DOUTOR VIÇOSO (puxando o relógio) - Perto das três.
MARIANA - É tarde já, precisamos voltar.
SOFIA - E o dentista?
DOUTOR VIÇOSO - Tenho de ir à Câmara, se dona Mariana não estivesse tão
cansada...
SOFIA - À Câmara? Vamos também à Câmara, Mariana? Podemos deixar os
dentes para amanhã.
MARIANA - Não, não posso, estou tão cansada.
SOFIA - Vamos, um bocadinho só, eu também estou cansada...
MARIANA - Sofia...
SOFIA - Vamos.
DOUTOR VIÇOSO - Se querem me dar esse prazer... Arranjarei uma tribuna para
as senhoras.
SOFIA - Encantada doutor ... Vamos, Mariana.

Volta ao primeiro quadro.

Gabinete do advogado Conrado Seabra.

(Entra Mariana, cansada e triste. Senta - se na sua cadeira preferida e instintivamente


apanha o livro que está na mesinha de lado.)

MARIANA - Como foi terrível toda aquela história de Laplace, meu Deus, que
confusão mais ridícula... Também eu... Que fraqueza a minha, que me leva a contar e a
fazer tudo o que sugere essa desalmada Sofia? E quando ela me empurrou para a
Câmara, e eu, aproveitando a saída daquele insolente, lhe disse que não me pregasse
outra - que outra? Respondeu - me com o ar mais inocente desta vida, depois agitando o
leque para provocar em cheio o sorriso de um dos secretários, e fingida, como se
estivesse a dizer - me uma coisa muito engraçada, a cabeça virada para mim, porém
representando para outros, disse - me, ferina, que se eu achava que ela me aborrecia...
Uma chantagem! Realmente, tudo foi muito desagradável, andar de um lugar para o
outro, feito maluca... Mostrando - me o ministro da Justiça, falando - me de discursos do
orador governista... Tudo isso para dar saída a uma porção de gestos graciosos... O,
Conrado, meu querido... (Chora.) E tive de ir até o fim... Quis sair, mas sentei - me... Que
podia fazer? (Chora alto.) Tinha razão no meu pedido, mas era para tamanho

63
espalhafato? As suas ironias foram tão mordazes... Laplace... (Suspira.) Que desalmada
Sofia, arrancou tudo e ainda inventou... Irá contara outras a minha confissão... Não me
faz comentários tão cruéis a respeito das amigas? Aquelas histórias de ingleses... Meu
Deus, Conrado... (Olha para a sala com amor, revê peça por peça, alisa as dobras das
cortinas.) Minha casinha tão em ordem... Menos esta garrafa. João trocou o jarro de
posição... (Põe o jarro em seu antigo lugar.) E aquele ridículo Viçoso.

(Vai à sala contígua. Entra Conrado com chapéu novo, alto, traz um pequeno embrulho e
um buquê de violetas. Senta - se no sofá. Mariana reaparece, acabrunhada, não o vê logo
de entrada porque o sofá fica sob a proteção da mesa. Veste o mesmo traje da primeira
cena.)

MARIANA - Tudo tão ridículo... Vou ver a cara com que ele vem... (Vai à janela,
espiando pela vidraça. Volta, acende um abajur que se encontra sobre o aparador, senta
- se na sua cadeira e abre o livro de leitura. Tenta ler, fecha o livro, procura melhor
posição, torna a abri-lo.) Bem pesadas as coisas, vejo que a culpa foi minha... Que diabo
de teima por causa de um chapéu que Conrado usou há tantos anos? (Conrado se
levanta, Mariana, assustada, também se levanta, derrubando o livro.) Conrado!

(Conrado, delicadamente, apanha o livro e lhe põe nas mãos o presente com o buquê de
violetas, abraçando-a.)

CONRADO - O Paulo e Virgínia que te prometi.


MARIANA (feliz) - Conrado (Desprende-se do marido e se senta no cadeira, com
dificuldade.) Pelo amor de Deus, Conrado, (Olhando o chapéu.) este não, põe fora... Antes
o outro...

(Cortina lenta.)

CONRADO - E a Lírica, Iaiá, aquele trecho dos Huguenotes?...

Fim

64
MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS

1956

Baseado no romance de Manuel Antonio de Almeida

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PERSONAGENS:
LEONARDO
COMADRE
PADRINHO
VIZINHA
DONA MARIA
JOSÉ MANUEL
VIDINHA
VIDIGAL
LUISINHA
MÃE DE VIDINHA
1º PRIMO
2º PRIMO
TOMÁS DA SÉ
MOÇA
FREGUÊS
GRANADEIROS, MUCAMAS, ETC...

66
AÇÃO: Rio de Janeiro sob a regência de D. João VI

ATO - 1

1º QUADRO - ERA NO TEMPO DO REI

CANTO DOS MEIRINHOS - Casas com calçadas de degraus, à direita e esquerda; um


chafariz no centro. Dona Maria e Luisinha moram na casa da direita, que é um sobrado
(porta principal entre dois postigos, pequena porta lateral e três janelas no andar de cima);
também à direita, segundo plano, pequena casa da Vizinha; à esquerda uma barbearia,
onde moram Padrinho e Leonardo. Um "frade" (marco de pedra) na calçada da barbearia.
Quando a cortina se levanta, vemos uma faixa com o título do quadro.

Vultos ao redor do chafariz; afinação de violas e uma voz a cantar:

"Quando estaca em minha terra,


acompanhado ou sozinho
cantava de noite e de dia
ao pé dum copo de vinho.”

Vozes indistintas, barulho de garrafa quebrada, tinir de copos, resmungos e um grito


enorme, reboante. - "Olha o Vidigal!" Correrias. Silêncio. Cantar de galos. Amanhece.
Padrinho, à porta da barbearia, está preocupado. Vai até o chafariz. espiando a rua.
Vizinha abre a rótula da janelinha de sua casa.

VIZINHA - Então, vizinho, nada?


PADRINHO - Nada, vizinha,
VIZINHA - Ora, quando eu lhe digo que aquele rapaz tem maus bofes.
PADRINHO - Vizinha, isto não são coisas que se digam.
VIZINHA - Digo–lhe e repito–lhe - tem maus bofes... Deus permita que não, mas
aquilo não terá bom fim.
PADRINHO - Oh, senhora ... que tem a senhora com a minha vida e mais das
coisas que me pertencem? Meta–se consigo e deixe a vida alheia.
VIZINHA - (Numa gargalhada.) - Tira–te lá ó Leonardo! O Vidigal deu com a mão no
patusco, isso sim.
PADRINHO - Vizinha?
VIZINHA- Andava a me quebrar o telhado, a me botar a língua ...
PADRINHO - O coitadinha ... Não precisa guardar–lhe rancor. O passado, passado.
Leonardo era uma criança quando fazia dessas.
VIZINHA - Criança?... Inda ontem o danado estava a ... Cruzes! Tenho até
vergonha de dizer.
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PADRINHO - O coitadinho do Leonardo, sem pai nem mãe ... Não vizinha, o
menino é bem nascido e no futuro há do ser um bom padre.
VIZINHA - Padre?... Tamanho homem daquele, de fala já mudada... Ora tinha
graça o novo senhor cura... (Ri). Vizinho está a morrer de amores pelo dito afilhado e não
enxerga que o filho de um meirinho com uma saloia que fugia com o capitão de um
barco... (Gargalhando). Tinha graça ... Não venha ele meter–se com a minha gente.
PADRINHO - Pois você tem gente? Ora, cuide nos seus bilros, na sua renda.
VIZINHA - Pau que nasce torto só o Vidigal há de consertar. (Bate a rótula da
janela).
PADRINHO - Um dia faço urna estralada com essa mulher... É sempre assim,
parece um agouro. (Voltando para a porta de casa.) Onde se meteu o Leonardo? E a
comadre, não o terá encontrado? Ai menino dos meus pecados.

(Aparece a comadre, ágil, nervosa.)

COMADRE - Então, com que o tal do rapaz pregou–nos o mono? Veja o que são
doidices...
PADRINHO- Não sei, comadre, parece castigo. A vizinha já anda aí, gozando ...
COMADRE - Meteu–se em patuscadas, nalguma súcia, decerto lá pelo Campo dos
Ciganos.
PADRINHO - Comadre, o menino é ainda inocente.
COMADRE - Inocente? Benza Deus. Mas vive a bater pernas, o que não é bom.
(Caminha inquieta, entra na barbearia, apanha uma vassoura, varre as calçadas). O
compadre bem que devia ir pensando numa ocupação pro rapaz. O oficio do pai não lhe
vai mal, ganha–se muito.
PADRINHO - Meirinho?... Ora, ganha–se muito quando se tem jeito, porém sempre
se há de dizer - ora, é um meirinho! Nada por este lado, não.
COMADRE - O ofício do padrinho! O rapaz parece ter jeito para tesoura e navalha.
PADRINHO - O meu ofício?...É... fui sangrador de navio, hoje, barbeiro ...Não,
comadre, não o quero fazer escravo dos quatro vinténs dos fregueses. Podia mandá–lo ao
estudo...
COMADRE - Para que diabo serve o estudo? Verdade é que ele parece ter boa
memória.
PADRINHO - Coimbra! ... Tenho algumas patacas, estou velho, não tenho filho
nem outros parentes... Mas que vai ele fazer em Coimbra? Licenciado? Não - é mau
ofício. Letrado? Era bom, sim, letrado. Mas não, tenho zanga a quem lida com papéis e
demandas.
COMADRE - Clérigo! ... Um senhor clérigo é muito bom. é uma coisa muito séria,
ganha–se bem, pode vir um dia a ser cura ...
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PADRINHO (Alegre.) - Adivinhou! justamente, comadre, este é o meu pensar. O
menino há de ser clérigo!
COMADRE - Hei de ter ainda o gostinho de o ver dizer missa, de o ver pregar na
Sé!
PADRINHO - E eu de mostrar a esta gentalha aqui, da vizinhança - que não gosta
dele - que eu tinha razão em querer–lhe bem.
COMADRE - Pois compadre trate logo de o ir desasnando. Olhe que ele está
ficando homem. Como vai indo na escola de mestre Custódio?
PADRINHO (Orgulhoso.) - Já desempacou do F! A palmatória do mestre não
engana.
COMADRE - Pois olho nele, compadre. O rapaz é também meu afilhado, está sob
minha bênção, mas, se se junta com os patuscos, lá se vai. E depois, o compadre que já
foi moço, sabe...uma cigana daqui, outra dali,um fado, a jinjibirra ... Não será espanto,
para mim, se já anda, nisso tudo, algum rabo–de–saia. O menino não furta, herda, o pai
também era assim...
PADRINHO - Que Santa Engrácia o afaste das manhas do tinhoso. Não, o menino
há de ser padre - um reverendo da Sé!
COMADRE - Reverendo da Sé... Ah, o compadre me abriu os olhos. Isso mesmo! A
conversa que ouvi de madrugadinha, na missa da Lapa ... Um bando de beatas estava a
queixar–se das diabruras de dois patuscas - ontem - na procissão do Divino. Os peraltas
não contentes com os barbantes que amarravam no capim, por onde elas deviam passar
- e tropeçar - ainda derramaram pingos de vela nas suas mantilhas! Aí está o Leonardo!
Foi ele tão certo como estes olhos que a terra ...
PADRINHO (Embevecido.)- O coitadinho tem vocação... Desapareceu mesmo à
boquinha da noite, quando por cá passava o Divino. Ele gosta muito das coisas da
Igreja... há de ser um padre, estou certo.
COMADRE - Dormindo na rua? Acompanhando essa súcia? Não faço fé.
PADRINHO - Oh, comadre.
COMADRE - Padre... seria bom, mas um ofício na Conceição seria melhor. Enfim,
que Santo Antônio o guarde. Bem, compadre, vou ter de voltar à casa da Mariazinha. A
pobre andou esperneando a noite toda e a oração de Santa Bárbara ainda não deu jeito.
O primeiro parto é sempre assim. Agora é tentar o sopro da garrafa. Bem, que o
afilhadinho não demore. (Sai resmungando.) Um vadio e o compadre a pensar em
clérigo... Ora, ora...

(Leonardo aparece, caviloso; ri da Comadre que se afasta sem o perceber).

PADRINHO (Avistando o menino.) - Menino dos trezentos, onde te meteste tu?


LEONARDO - Fui ver um oratório... Não diz que eu hei de ... ser padre?
69
(O Padrinho não resistindo ao "ar de ingenuidade”- do afilhado, desata a rir.)

PADRINHO - Pois farte–se das travessuras por este resto de semana. É preciso que
aprenda alguma coisa para vir um dia a ser gente. De segunda–feira em diante começarei
de novo a recordar–lhe o bê–a–bá.
LEONARDO- Não gosto da escola da rua da Vala.
PADRINHO - Pois é lá que hás de aprender. A palmatória de mestre Custódio que
o vá logo desasnando. Então, já desempacou do F?

(Dona Maria aparece na janela de seu sobrado.)

DONA MARIA - Bom dia, vizinho. Afinal, venci a demanda! A menina chegou esta
noite para a minha tutela. O tal velhaco do compadre de meu mano não levou a sua
avante.
PADRINHO - Muitos parabéns, muitos parabéns!
DONA MARIA (Virando–se para o interior da casa.) - Luisinha... ô Luisinha...

(Luisinha aparece ao lado de Dona Maria.)

DONA MARIA - Aqui está a moça! Fala com o senhor Vizinho...

(Cumprimentos de cabeça.)

PADRINHO - Bonita moça, Dona Maria.


DONA MARIA - Pois é corno lhe digo, vizinho. Ah ninguém me passa o pé. Ainda
não nasceu procurador, para me enganar.
PADRINHO - Dona Maria é rica, pode questionar...
DONA MARIA - Não é isso, vizinho... Mas não suporto velhacarias. Pois olhe, meu
letrado já fez os últimos provarás nos autos da demanda de minhas terras da Água–
Branca. Esta é a outra novidade que tinha para lhe contar.
PADRINHO - Ah, muitos parabéns, Dona Maria!
DONA MARIA - Também consegui o depoimento das testemunhas naquele antigo
processo de venda das casas da rua dos Ourives e se acha em andamento uma citação
contra o miserável inquilino que me havia passado um crédito de vinte doblas e que
agora negava a dívida...

(Chega a Vizinha .)

VIZINHA - Então, como vai o seu “reverendo"?

(Leonardo senta–se num degrau da calçada, espiando a Luisinha e fazendo caretas para a
Vizinha.)

PADRINHO (Aborrecido.) - Oh! senhora Vizinha ...


VIZINHA - Bom dia, Dona Maria. Esta é a menina Luisinha? Uma tetéia!

70
DONA MARIA - Hoje estou de peito lavado, vizinha, afinal ganhei a minha
campanha. Luisinha deixou a roça pela Corte! Havia de ver a cara do tal compadre de
meu mano, pois não?
VIZINHA - Muitas novidades nesta manhã! O nosso bom vizinho ia perdendo o
senhor seu cura ...(Ri.)
DONA MARIA - Quem é ele?
VIZINHA - Está aí de volta não é vizinho?
PADRINHO - O menino foi acompanhar o Divino e se perdeu, o coitadinho.
DONA MARIA - O Leonardo? Esteve perdido, vizinho?
VIZINHA- Padre amigo do fado, tem que ver... Quando vai ele outra vez à casa dos
Ciganos!
LEONARDO - O menino dormiu nos batentes da Sé - órfãozinho ... É vocação. Ele
gosta muito de tudo que cheira a igreja.
DONA MARIA - Amém.
VIZINHA - O Vidigal esta madrugada, quase que o apanha. Foi o que me
disseram...
PADRINHO - Ora. vizinha, tinha graça.
DONA MARIA - Vamos ter demandas, pelo que vejo.
VIZINHA - Então, ele já encarrilha o padre–nosso?
PADRINHO - Já, já, senhora intrometida. Já sabe o padre–nosso e eu o faço rezar
um todas as noites, pelo seu defunto marido que nesta hora anda aos coices no inferno.

(Risos e persignações.)

VIZINHA - Hum ... e que você diz, senhor rapa–barba? Você mete terceiros na
conversa? Olhe que esse de quem você fala nunca foi sangrador nem viveu de aparas de
cabelo.

(Entra a Comadre, com estardalhaço.)

COMADRE - Pariu, felizmente! Não houve reza que apressasse!


DONA MARIA - Quem, senhora?
COMADRE - A Mariazinha. A pobre mulher esperneou a noite toda. Mandei o
molenga do marido apanhar uma garrafa. Foi a conta. Foi só soprar. Ora viva o meu
afilhadinho de volta! Muito bom dia, senhora Dona Maria, vizinha... Ah! É a menina
Luisinha?
DONA MARIA - Justamente, é a Luisinha. Fala com ela, menina... Só estou
pensando na cara do falso tutor. Não, comadre, meti–lhe uma demanda... Aqui está a
moça!
COMADRE - É moça bonita! ... O compadre e a vizinha estão calados, com cara de

71
missa de sétimo dia... Será que atrapalhei alguma conversa?
VIZINHA - Poucas e boas estava ele a ouvir. Comigo é e assim. Quem tiver seus
doidos que os amarre.

(Dona Maria e Luisinha deixam, apressadas, a janela; aparecem à porta da rua. As


mucamas trazem cadeiras.)

PADRINHO - Ora dá–se cada uma... Meta–se com a sua vida, ouviu?
VIZINHA - E falar do meu defunto esposo, tinha que ver... Ainda hei de pôr–lhe os
podres na rua... Coices no inferno! Ora, um santo homem... Coices no inferno...
COMADRE - Mas o que foi, gente?
VIZINHA - Pois agora saiba, porque eu cá não tenho papas na língua. O tal de seu
afilhado das dúzias é um pedaço de malcriadão que há de desonrar as barbas de quem
não o soube criar!
COMADRE - Vizinha?
PADRINHO - Esta mulher é o agouro do menino!
VIZINHA - É de má raça. ouviu? E não se meta comigo!
COMADRE - Calma, senhora!
PADRINHO - E você, por que se mete com o que não é da sua repartição?
COMADRE- Compadre!...
VIZINHA - Ora, Dona Maria, se o mariola não me deixa parar os telhados, com
pedras, e vive a fazer–me caretas quando me vê na janela? O vizinho, por mais bem que
lhe queira não pode negar isto!
PADRINHO - São doidices de menino, senhora, mas já anda mais ajuizadozinho e
há de saber reconhecer os cuidados do padrinho. Tem bom coração.
VIZINHA - Bom coração ...Tem maus bofes, Dona Maria. Ontem, enquanto rezava,
na Sé é ele mais o filho do sacristão jogaram–me pingos de cera na mantilha e incenso na
cara. Maus bofes!
DONA MARIA - Realmente, a função da cera na mantilha e do incenso no rosto é
para dar o cavaco, porém, bem diz o mestre, qual a criança que não faz travessuras? Isso
tudo há de passar com a idade. (A Leonardo.) Venha cá, senhor travesso, venha
defender–se do que aqui estão dizendo a seu respeito.

(Leonardo posta–se entre Dona Maria e a Vizinha; pisa na barra da saia da Vizinha,
quando esta vai se levantar.)

DONA MARIA - Então, como vamos de escola?


COMADRE - (Observando o comportamento de Leonardo.) - Menino de Deus!
VIZINHA (Gritando.) - Ai! ... Veja o que ele me fez! (Mostra a Dona Maria a saia
rasgada.) Desventurado!

72
(O Padrinho ri disfarçadamente.)

DONA MARIA - Ora, ele estava descuidado, não foi por querer.

(A Vizinha sai resmungando.)

COMADRE - Senhora, o menino...


DONA MARIA - Vai brincar com a Luisinha, meu filho.

(Leonardo sai com Luisinha; sentam–se no chafariz. Ela, encabulada, de cabeça baixa; ele
arriscando a mão no ombro da menina. Risos de ambos.)

DONA MARIA - O menino já está bem crescido, vizinho. O que planeja para ele?
PADRINHO Vai ser clérigo. Tem muita vocação.
COMADRE - Ora veja, Dona Maria, seria bom, mas, pensando bem, acho que o
Leonardo devia ir para a Conceição aprender um ofício.
PADRINHO - Não, comadre, há de ser um bom padre, já lhe disse. Não sai da Sé,
tomando amizade com o sacristão, ajudando–o na arrumação da igreja ... É um gosto
que só vendo, parece chamado de Deus.
COMADRE - O menino é meu afilhado também, compadre, mas olhe que ele não é
seu filho, o sangue é do Pataca - que era doido por uma saia –, e da Maria Saloia - que
era doida por um capitão.
PADRINHO - Qual, comadre, não quero que me roubem esse gosto. Comecei a
minha obra, hei de acabá–la.
COMADRE - O compadre é de muito boa–fé... Veja a senhora Dona Maria se tenho
ou não razão - aquilo tem cara de padre? Já passou dos quinze e o compadre ainda vive
a mimoseá–lo, a fazer–lhe todo capricho.
DONA MARIA - Melhor pai o Leonardo não podia encontrar.
PADRINHO- Pois senhora...
COMADRE- A vizinha tem razão de sobra quando se queixa, escute esta ...
(Cochicha.)
DONA MARIA - Verdade?
COMADRE- Pois eu logo dou fé... (Ri.)
PADRINHO- Ora, comadre, são criancices.
COMADRE- Criancices ou não, bote o rapaz na Conceição.
PADRINHO - Qual, hei de ir adiante com a coisa. Acertei o alvo, dei–lhe com a
balda!
DONA MARIA - Se fosse comigo havia de pô–lo em um cartório, e o transformaria
num bom procurador de causas.
PADRINHO - Oh, não, perdoe–me, senhora Dona Maria, perdoe–me se lhe ofendo
com isso, mas eu tenho uma birra dos diabos com as tais demandas.
73
DONA MARIA - Pois olhe, não tem razão. Elas dão–me que fazer, mas já estou
acostumada. Por exemplo, aquela questão das terras tem sido um nunca acabar. Os
herdeiros de meu compadre João Bernardo, que ainda não estavam habilitados em juízo,
mandaram–me aqui citar, e...
PADRINHO - Não, Dona Maria, há de ser clérigo, isto é que sim!
COMADRE - Melhor é mandar para a Conceição, para aprender um ofício.
DONA MARIA - Ponha o rapaz a praticar num cartório...
COMADRE - Na Conceição, para um ofício.
DONA MARIA - Um letrado.
COMADRE - Um ofício.

(Mucamas aparecem nas janelas do sobrado.)

DONA MARIA - Letrado. Letrado!


COMADRE - Ofício !
PADRINHO - Oh, senhoras! Há de ser um clérigo. Levo–o a Coimbra. Está
resolvido - Coimbra!

(Leonardo abraça a Luisinha; está apaixonado.)

(Escurece.)

2º QUADRO - A COMADRE EM EXERCÍCIO

Tarde. Padrinho está à porta da barbearia quando entra Leonardo, em batina e sobrepeliz.
No sobrado está Luisinha tímida. Leonardo vai arrancando fora a batina.

PADRINHO (Afiando uma navalha.) - Que é isto menino? Isto são horas e modos?
LEONARDO - Ah.

(Leonardo joga a batina na porta da barbearia e volta o olhar para Luisinha.)

PADRINHO (Apanhando a batina.) - Escolhe... se queres Coimbra tens as minhas


patacas. O que não aprovo é vadiação. Rasgaste a sobrepeliz... Foi queda?
LEONARDO - Tomei abuso de padre.
PADRINHO- O quê? Pois isto é muito mal, nunca se diz assim. Se não tens
vocação, nada feito, mas tomar abuso de padre é pecado.
LEONARDO - O senhor sabe de alguma uma coisa?
PADRINHO - Só tendo sido as pragas da vizinha, aquela maldita mulher.
LEONARDO - Então o senhor sabe ou não sabe?
PADRINHO - As pragas que ela rogou... e logo num inocente.
LEONARDO (Gritando.) - Sabe ou não sabe?

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PADRINHO (Espantado.) - O que é isto, menino?
LEONARDO - O senhor sabe.É porque não quer dizer.
PADRINHO - O que é que eu sei? (Suspirando.) Arranjei–me neste ofício, é
verdade...
LEONARDO - Se o senhor não ficasse zangado eu dizia...
PADRINHO (Absorto.) - Não faça descaso dos meus conselhos, menino.
LEONARDO - Pois eu lhe digo... (Segurando o paletó do padrinho.) O senhor não
sabe, mas...
PADRINHO - Não me ponhas a perder a paciência.
LEONARDO (Gritando.) - Eu quero, eu quero muito bem a Luisinha.
PADRINHO - O quê? O quê? A menina daí?
LEONARDO - É.
PADRINHO (Ri nervoso.) - Afinal, és ainda uma criançola!
LEONARDO - Mas padrinho...
PADRINHO - Uma criança - pode–se dizer nos cueiros - a pensar em casamento...
(Ri.)
LEONARDO - É cá um troço que eu sinto...
PADRINHO - Na verdade a sobrinha de Dona Maria é um meio de vida excelente...
(Revoltado.) Mas é negócio tinhoso, praga daquela mulher que não me quer dar o prazer
de te ver um dia na Sé.
LEONARDO - Arrenego.
PADRINHO - Sê temente, meu menino, sê temente...
LEONARDO (Zangado.) - Não me chame de menino que me dá zanga.
PADRINHO- Ahhn! ...
LEONARDO - Sinto um abalo por dentro ... Uma agonia ... Não, o que eu quero é
me casar.
PADRINHO - Já se vê formiga com tosse? Pois olhe, Dona Maria não há de ter
prazer em te dar a mão da sobrinha.
LEONARDO - Ora...
PADRINHO - Rapaz que não tem futuro, que não tem ofício... Bem razão tinha a
comadre quando me falava em te mandar para a Conceição. Lá estarias aprendendo
alguma coisa.
LEONARDO - Mas não está tarde para aprender.
PADRINHO - Serás então meu discípulo. Vem, segura a broxa e a navalha.
LEONARDO - Não, não quero profissão de barbeiro.

(Entra a Comadre.)

COMADRE- Ora viva, que Deus os guarde!


75
PADRINHO- Amém.
LEONARDO - Bênção...
COMADRE- Que Deus te abençoe, afilhadinho.
PADRINHO- Em muito boa hora aqui chegou...
COMADRE- Ora viva! Então, o que está acontecendo?
PADRINHO - Leonardo perdeu o gosto pela batina.
COMADRE- Leonardo?
LEONARDO - Para ser padre como o reverendo mestre–de–cerimônias, não serve.
COMADRE - Menino das brecas, o que me estás a dizer?
LEONARDO- Ora, madrinha, não se faça de santa.
PADRINHO - Pedaço de mariola, respeita a tua madrinha.
LEONARDO - Todo mundo sabe que o reverendo mestre–de–cerimônias foi pegado
pelo Vidigal na casa da Cigana - em ceroulas e de solidéu na cabeça.
COMADRE - Deus me perdoe!
PADRINHO - Pois aquilo é que anda a pregar? Arrenego!
COMADRE - Que horror o que esta criança anda a saber! São as más companhias,
anda metido com esses capadócios! ... (Ri nervosa.) Ai o reverendo mestre–de–cerimônias
...
LEONARDO - Ai o senhor meu padrinho sabe...
COMADRE - O Compadre já sabe de quê?
PADRINHO - Do que me acaba de confessar o seu afilhado - quer casar...
COMADRE - (Numa gargalhada.) - Casar? O menino está me saindo... É bem o
filho do Pataca o amor chega–lhe ainda ao colo! E a noiva, quem é?
PADRINHO- A sonsinha daí defronte.
COMADRE (Espantada) - A sobrinha de dona Maria?
PADRINHO - É o que ele diz.
COMADRE - Pois senhor meu afilhado, quando eu dizia ao compadre que te
arranjasse um ofício... Aí está, o homem põe e Deus dispõe!
PADRINHO (Dramático.) - Um clérigo, um clérigo!... Minha intenção era boa,
comadre. Mas, se o Senhor Bom Jesus não permite... que se case, então.
COMADRE - Casar de que jeito? Dona Maria, além de rica é letrada entende muito
de demandas e não há de ser ela que faça gosto nesse casamento.
LEONARDO - Minha madrinha...
COMADRE - Menino, eu te quero como se tu fosses, meu filho, eu só te desejo o
bem. Fui eu quem te pegou, eu quem te banhou na água de alecrim, quem botou
galhinho de arruda no teu cinteiro, mas, te digo uma verdade - homem sem profissão
não pode dar bom marido.

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PADRINHO - Comadre, ele está disposto a abraçar a mesma profissão do
padrinho. Há de ser um bom barbeiro.
COMADRE - Pois te apegas a um ofício se estás resolvido a casar. Não é com viola
ao peito que vais dar comida a Luisinha. Aí, ai ... que esta agora ... (Decidida.) Olha,
menino, eu vou sondar a Dona Maria. Deixa comigo que eu te arranjo.

(Aparece um freguês para fazer a barba.)

FREGUÊS - Boas tardes.


PADRINHO e COMADRE - Boas.
PADRINHO - Barba? Olhe senhor Manuel que a barba está custando um vintém.
Mas, o moço Leonardo, aí, faz por um dê–réis. O rapaz tem mão leve e boa vista. Vamos,
Leonardo, segue o senhor Manuel.

(Leonardo, contrariado, leva o freguês para a cadeira de barbear.)

PADRINHO (Baixo.) - Vamos, comadre, fazer uma visitinha a Dona Maria?


COMADRE - Ah bom. Conversa daqui. conversa dali, vamos metendo uma cunha.
PADRINHO - Pois é, comadre, o menino quer...(Alto.) Senhor Manuel, tenha
confiança rapaz. É um barbeiro de truz.

(Padrinho e Comadre batem palmas à porta de Dona Maria e gritam o "ó de casa". Uma
escrava abre a porta. Entram. Luisinha volta à janela e Leonardo deixa o freguês na
cadeira e vem contemplar, embevecido, a Luisinha. O freguês deixa a cadeira com o rosto
ensaboado.)

FREGUÊS - Deixou–me o maroto com o rosto ensaboado para ir tornar fresca cá


fora! Ora vá um desprevenido confiar–lhe a cara!
LEONARDO (Gritando.) - Padrinho, ô padrinho ...
VOZ DO PADRINHO - O que vem lá?
LEONARDO - Padrinho...
PADRINHO (À porta de Dona Maria.) - O que foi?
LEONARDO - Ele não quer que eu lhe faça a barba, diz que não tem cara pra
Picadinho.
PADRINHO - (Irritado.) Ora, freguês ...

(O Padrinho entra com o freguês na barbearia. Leonardo recebe um mamão que Luisinha
lhe atira. Sorrisos de ambos. Surge a Vizinha.)

VIZINHA - E que tal?... Deus vos guarde.


LEONARDO (Com as mãos para trás, tentando esconder a fruta) - Eu sou cura e
hei de te curar...
VIZINHA - Ora dá–se... isso na igreja é um pecado.

77
LEONARDO - Melhor farias sentada na tua almofada.
VIZINHA - Veja quem me ensina trabalho...
LEONARDO - Toma conta da tua vida.
VIZINHA - Dona Maria que abra o olho, se não... Vão se os mamões ... (Ri.)

(Luisinha. encabulada, esconde–se atrás da janela. O Freguês sai e o Padrinho fica na


calçada assistindo à discussão da Vizinha.)

LEONARDO - Ainda te dou uma ensinadela...


PADRINHO - Devias estar a rezar, a pedir perdão...
VIZINHA - Veja quem me aconselha... Pensa ganhar o céu com o seu novo cura?
(Ri.)
PADRINHO - Não se meta com a nossa vida.
VIZINHA - Hei de me meter. Não é da sua conta e nem venha cá ditar regras, que
eu não preciso dos seus conselhos.
PADRINHO - E o que tem você que entender com uma criança inocente?
VIZINHA - Inocente?
PADRINHO - É uma birra...
VIZINHA - Pois se me trata como se eu fosse uma saloia ou mulher de barbeiro?
Digo–lhe que hei de birrar.
PADRINHO - Está bom, senhora, basta de rezingas, olhe a vizinhança.
VIZINHA - Ora, tomara a vizinhança ver–se livre de tal diabo.

(Luisinha, tímida, volta à janela.)

LEONARDO (Imitando a vizinha.) - Livre de tal diabo...

(Padrinho e Luisinha riem.)

VIZINHA - Ah, agradece a boa vontade, meu diabo em figura de rapaz. Tu não tens
culpa, a culpa é de quem te dá ousadias. (Entra em casa batendo a porta.)

(A Comadre sai da casa de Dona Maria.)

COMADRE - Leonardo, estou a precisar de ti, meu rapaz. Quero que me escrevas
uma missiva, agorinha mesmo. Vem.
LEONARDO (Espantado.) - Missiva?
COMADRE - Sei que aprendeste a fazer missivas como ninguém. És um letrado.
Anda, vem.

(Leonardo, Comadre e Padrinho entram na barbearia. Dona Maria vem sentar–se à porta
da rua com Luisinha. As mucamas trazem, cadeiras e esteiras. A Vizinha passa de
mantilha.)

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DONA MARIA - Já vai para a sua novena?
VIZINHA - É verdade, senhora, vou fazer as minhas orações. Pedir saúde e
paciência para aturar certa vizinhança que Dona Maria bem conhece...
DONA MARIA - Reze por mim, vizinha, peça pelo meu caso.
VIZINHA - Pedirei. senhora Bom Jesus dos Passos é o nosso guia. É ele que nos dá
consolo.
DONA MARIA - Amém. Ele nunca me falta, quando tarda, está chegando.
VIZINHA - Amém. Ele escreve certo por linhas tortas. Mas, senhora, olho vivo...

(A Vizinha sai pela direita, encontrando–se com José Manuel, que se dirige à "roda" de
Dona Maria. O Padrinho e a Comadre trazem cadeiras para as calçadas. Sentam–se.
Leonardo, com uma violinha na mão, vai sentar–se no chafariz. Todos observam a recém–
chegado José Manuel.)

JOSÉ MANUEL- Muito boa–tarde, minhas senhoras.


DONA MARIA - Senhor José Manuel por estas bandas? Bons olhos o vejam! Aqui,
a minha sobrinha Luisinha , aquele caso da tutela... Creio que ainda deve estar
lembrado. Fala com o moço, menina... É muito acanhada, coitadinha, criada na roça...
(Ri.)

(A Vizinha, que observava a entrada de José Manuel, sai.)

JOSÉ MANUEL (Sentando–se) - Então, está gostando da Corte, senhora Luisinha?


LUISINHA (Tentando vencer a timidez.) - Estou...
DONA MARIA - Com o tempo há de se ir acostumando. Por enquanto é muito
desbotada. Mas eu cá estou sempre procurando distraí–la. Ainda ontem fomos ver os
fogos no Campo. Imagine que ela não conhecia os foguetes de lágrimas. ... (Ri.) Não são
bonitos mesmo, Luisinha?

(Luisinha concorda com um movimento de cabeça.)

JOSÉ MANUEL - Dona Luisinha vai se acostumar logo. É muito moça, com os
dias...

(As duas cenas - roda de Dona Maria e roda de barbearia passam a ser alternadas. Os
diálogos dos dois grupos se fundem quando a Comadre grita: "Infelizes por quê?”.)

COMADRE - Eu o conheço de sobra. É fino como alfenim.


LEONARDO - Mas eu hei de pregar–lhe uma...
PADRINHO - Calma, menino, não te metas em estraladas.

(Leonardo volta ao chafariz. Roda da Dona Maria.)

DONA MARIA - Só o senhor vendo como ela se animou quando viu passar a Folia

79
com o Imperador do Divino sentado no trono. Lembrou–me a cara de dona Francisca
Brites... (Ri.)
JOSÉ MANUEL - Conheci muito a dona Francisca de Brites. Era mulher do João
Brites, filho bastardo do capitão Sanches. Em tempo de casada diziam coisas... e a culpa
tinha Pedro d'Aguiar, sujeito que não gozava de boa nota, principalmente depois que se
meteu aí na alhada de um testamento falso que atribuíram a Lourenço da Cunha, que...

(Roda da barbearia.)

COMADRE - Só vejo nisso um fim oculto: Dona Maria é rica e não tem outro
herdeiro senão a sobrinha. Se morre Maria, a Luisinha fica arranjada.
PADRINHO - Hum. estou entendendo
COMADRE - A menina mostra ser simples. É esposa conveniente para qualquer
esperto.

(Roda de Dona Maria.)

JOSÉ MANUEL - ...que, em abono da verdade era bem capaz disso, pois não era
sujeito de mãos limpas. Foi até ele quem furtou de casa a filha de dona Úrsula, que foi
moça de Francisco Borges, a quem deixou para seguir a Pedro Antunes, que, por sinal,
lhe deu bem má vida.
DONA MARIA - Assim?
JOSÉ MANUEL- Também ela não devia esperar outra coisa dele, porque homem
que se atreveu a fazer o que ele fez a três filhas que tinha, e capaz de tudo. Chegou a...

(Roda da barbearia. Leonardo vem juntar–se ao Padrinho e à Comadre.)

LEONARDO (Fora de si.) - Mas não fica assim! Um dia eu apanho uma de suas
navalhas e faço nele o serviço!
COMADRE - Valha–te Deus, minha criança! Tua ira é justa, mas este pensar é
assassino!
LEONARDO - É o que eu digo. E acabe de me chamar de criança!
COMADRE - Ah, está vendo? Está aí no que dá o lucro de se andar com viola ao
peito!

(Leonardo volta ao chafariz.)

COMADRE (Ao Padrinho.) - Agora, se Dona Maria o recusa e prefere o vizinho, não
está de todo sem razão.
LEONARDO - Não quero saber disso coisa nenhuma. Se ele se meter, já sabe ...
COMADRE - Ai, ai, ai, vamos deixar de muita foba. O Vidigal anda por aí mesmo,
catando tudo que é desocupado e a Casa da Guarda não é lá boa situação.
PADRINHO - A comadre não vai reparar, são criancices...

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COMADRE - Pois se eu até já tomei a peito esses arranjos... E juro pôr qualquer
fora de chapa. Ora se ponho...

( Roda de Dona Maria.)

JOSÉ MANUEL - . . chegou a por pela porta fora, com um pau, as pobres moças e
depois de as ter espancado desapiedadamente. Entretanto, uma delas foi bem feliz -
achou um capitão de navio que tratou dela. As outras não, coitadas...

(Leonardo, impaciente, vai afinando a viola.)

JOSÉ MANUEL - E só podiam ser mesmo infelizes...


COMADRE (Metendo–se na conversa.) - Infelizes por quê?
JOSÉ MANUEL - Casaram–se, é verdade, porém que maridos...
LEONARDO - Vou dar um estouro ...
JOSÉ MANUEL - Um tomava moafas de todo o tamanho...
LEONARDO - Já disse, já disse...
JOSÉ MANUEL - O outro gastou tudo quanto tinha no jogo. Conheci–os a ambos,
e muito bem.
COMADRE - Ah, senhor José Manuel. Já se viu? É para pôr–se os miolos a ferver!
LEONARDO - Eu estouro!
COMADRE –O que há, Leonardo?
LEONARDO - Ninguém tem nada com isso. Nem eu nem ela. (Gritando.) Eu
estouro!
COMADRE - Pois estoure, com trezentos diabos! Mas pelo menos diga pelo que
estoura!
PADRINHO (Apaziguador.) - Ora, Deus vos guarde,meu menino.

- CORTINA –

Fim do Primeiro Ato

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ATO II

3º QUADRO - A SÚCIA

Tarde. Dona Maria e Luisinha sentadas à porta da rua; ao lado, duas cadeiras vazias. Na
barbearia: o Padrinho à porta e a Comadre à janela.

PADRINHO (Aproximando–se da comadre.) - Veja lá se ele não chega primeiro ...


COMADRE - Ele é astuto demais, não corre, voa, mas eu também não cochilo.
PADRINHO - A comadre, se quiser, poderá arcar com José Manuel, pois goza de
boa fama de ter jeito para essas coisas...
COMADRE - Ora está de cor o tal sujeito. Hei de mostrar–lhe para quanto presto.

(A Comadre dirige–se à casa de Dona Maria; o Padrinho fica amolando uma navalha.)

COMADRE - Boas–tardes para todas... Só tencionava sair à boquinha da noite,


para a novena, mas a tarde está tão limpa que resolvi fazer uma visita ao meu afilhado
Leonardo - que já está um rapagão ajuizado - e aqui, à minha velha e preciosa amiga
Dona Maria, naturalmente.
DONA MARIA - O prazer é todo nosso. Abanque–se.
COMADRE (Sentando–se.) - E dona Luisinha, como vai? Mais acostumada com a
vida barulhenta da Corte? E natural, não acha Dona Maria? Moça gosta de distração.
Pois lhes digo, se não fosse a igreja trocaria a vida da Corte pela roça. Lá se vive mais ,
tudo é muito mais calmo não é verdade, Dona Maria?
DONA MARIA - É isso mesmo, comadre.
COMADRE (Misteriosa.) - Então, que me diz, senhora, do caso do Oratório de
Pedra?
DONA MARIA - Foi horrível, comadre!
COMADRE (Faz um gesto para que dona Maria mande a Luisinha sair.) - É...
DONA MARIA - Luisinha, vá brincar com as crias, no quintal...

(Luisinha sai.)

DONA MARIA (Curiosa.) - Conte–me, comadre...


COMADRE - Que quer, senhora? Pois foi ali, nas barbas de todos.
DONA MARIA - A gente a criar uma rapariga com todo zelo e no fim ter aquela
recompensa... No nosso tempo não se viam coisas destas.
COMADRE - Não fazia um instante que ela havia chegado com a velha, e que se
tinham, ambas, ajoelhado ao pé de mim. .
DONA MARIA - Ao pé da comadre? Pois a comadre estava lá?
COMADRE - Estava...que antes não estivesse...
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DONA MARIA - Mas o diabo, senhora, é ninguém saber quem foi o maldito que
roubou a moça. Tenho perguntado a todos e ninguém sabe dizer–me.
COMADRE (Numa risadinha.) - É porque todos estavam cegos...
DONA MARIA - Como?
COMADRE - Mas não o estava eu, por mal dos meus pecados.
DONA MARIA - Pois viu, e sabe quem foi? Mas então quem foi? Vamos, quero
saber quem foi o ladrão da moça.
COMADRE (Hesitando.) - Só direi se me prometerdes guardar todo o segredo, que
o caso é muito sério.
DONA MARIA - Ora,bem sabe que eu... é o mesmo ,que cair num poço.
COMADRE (Baixo.) - Foi o nosso grande camarada... a boa peça do José Manuel.
DONA MARIA - O que me diz, senhora?
COMADRE (Com os dedos nos olhos.) - Vi com êstes olhos que a terra há de comer.
Se eles estavam ao pé de mim.
DONA MARIA - Que horror, senhora! Pois nunca pensei nunca me passou pela
mente ser aquele homem a praga que é.
COMADRE - A quem dávamos a vida, em galochas vai à missa!
DONA MARIA - Opa, comadre, que esta não lembra ao diabo... Por isso sigo a
regra antiga de me não fiar em coisa que traz calções... Safa...que esta,pôs–me sal na
moleira.
COMADRE - Pois também o que se havia de esperar de um sujeito como aquele?
De um homem que não abre a boca que não solte uma mentira? Que tem uma língua de
Lúcifer?
DONA MARIA - É verdade, comadre, nunca vi mentiroso nem maldizente maior.
COMADRE - Quem contasse com aquilo era mesmo para se perder.
DONA MARIA - Se eu fosse parente da rapariga havia de pôr uma demanda ao tal
diabo que o ensinaria sempre. Por isso é que ele não me aparece por cá há três dias...
Anda cuidando dos meus arranjos.

(Aparece José Manuel, pelo proscênio.)

COMADRE - Ih, falai no Mendes, à porta o tendes!


DONA MARIA - Senhora!
COMADRE - Segredo não quero que saiba que fui eu...
DONA MARIA - Fique descansada, eu cá para isso sou boa!
JOSÉ MANUEL - Boas–tardes, senhoras.

(José Manuel é recebido friamente por Dona Maria que não sabe dissimular; comadre faz–
lhe um rasga do cumprimento.)

83
COMADRE - Seja bem aparecido, bons olhos o vejam!
JOSÊ MANUEL - Já sei que a senhora Dona Maria vai reclamar a minha ausência
É que tenho andado ocupado com alguns arranjos. (Senta–se.)
DONA MARIA (Trocando com a Comadre um olhar significativo.) - Arranjos?
JOSÉ MANUEL - Sim, uns arranjos... Houve um negócio muito sério em que me vi
metido e que me ia dando bem que fazer. Sinto não lhes poder contar, porque é
segredo...
DONA MARIA - Hum, entendo...
COMADRE - Ah, senhor José Manuel, conte–nos. Garanto como há de ser uma
história interessante. As suas histórias são tão interessantes...
DONA MARIA - Isso mesmo.
JOSÉ MANUEL - Pois bem, se me prometem toda a discrição contarei.
COMADRE - Ora, nem tem que recomendar isso!
JOSÉ MANUEL - Pois não é que, de algum modo, vi–me envolvido no caso de
Oratório de Pedra?
COMADRE (Um grito exagerado.) - Ui!
DONA MARIA - Aí está o resultado! Mas não se pagam na outra vida, é mesmo
nesta!
JOSÉ MANUEL (Surpreso.) - Resultado de quê?
DONA MARIA (Enigmática.) - De nada. Continue...
COMADRE (Ao ouvido de Dona Maria.) - Não me com prometa... (Alto.) Então?
JOSÉ MANUEL (Perturbado.) - Então?
DONA MARIA - O senhor José Manuel esqueceu a história que nos ia contando. ...
que fora envolvido...
JOSÉ MANUEL - Ah, sim. Realmente, minhas senhoras, é para arrebentar
corações o caso do Oratório de Pedra...ou melhor daquela filha ingrata e da pobre mãe
martirizada.
COMADRE (Fingindo choro.) - Oh, senhor, não prossiga, peço–lhe, meu coração
também não agüenta...
JOSÉ MANUEL - Que sina, coitada...
DONA MARIA - Mas o senhor José Manuel não...?
JOSÉ MANUEL - Ainda hoje a pobre mãe continua debulhando as suas lágrimas e
está fininha assim... A filha, não menos desventurada, teve afinal o seu mal remediado.
E sabem por quem?
DONA MARIA - Eu imagino o descaramento desse tipo.
JOSÉ MANUEL (Vitorioso.) - Por mim!
COMADRE - O que nos diz, senhor José Manuel?...

84
DONA MARIA - Homem de Deus,mas o senhor ainda vem se pabular?
JOSÉ MANUEL - Não é pabulagem, senhora Dona Maria. Digo–lhe que remediei o
mal, fiz, portanto, o que fiz poucos fazem...
DONA MARIA - Que horror!
COMADRE - Veja só o que é fiar–se em certos tipos...
JOSÉ MANUEL (Triunfante.) - E dizem que a moça - dizem - não juro, pois há
pessoas que sabem mais de certas particularidades - coisas muito íntimas, por exemplo -
que só ao casal interessa e é lá com eles - não é? Pois bem dizem que a moça já estava de
seis meses!
COMADRE - Ôrra!
DONA MARIA - Comadre de Deus, veja a ousadia de um sedutor!
JOSÉ MANUEL - Um sedutor...(Ri.); E foi então que me vi envolvido... E, lhes
afianço, deu–me que fazer para safar–me.
COMADRE - E o senhor safou–se?
JOSÉ MANUEL - E não é este o primeiro. Já resolvi outros casos mais sérios. E
sempre triunfei!
DONA MARIA - E o Vidigal? Ah,o Vidigal já me não parece aquele dos meus
tempos, pois deixa um homem destes na rua?
JOSÉ MANUEL - Pois, como ia lhes dizendo, o tal sedutor era - adivinhem,
adivinhem!...
DONA MARIA - Senhora?
COMADRE - Minha boa Dona Maria!
JOSÊ MANUEL (Arrebatado.) - Um meu conterrâneo!

(A Comadre e Dona Maria se abraçam, emocionadas.)

JOSÉ MANUEL - Moço, aliás, de boa família baiana. E o valdevinos, sabendo do


prestígio que desfruto na Corte (Benze–se.) - graças a Deus - veio procurar–me logo na
manhã seguinte, após o roubo, para que o ajudasse no justiça.
DONA MARIA (descrente) - Assim?
COMADRE - Deveras?
JOSÉ MANUEL - Felizmente, tudo saiu para melhor. Providenciei tudo e só
descansei mesmo quando os levei ao pé do altar como testemunha. Uf! (Tira um lenço e
passa–o no rosto levanta–se, dá alguns passos.) - Deu–me que fazer o tal roubo do
conterrâneo. Coitado...
COMADRE (Maliciosa.) - Na verdade senhor José Manuel, o caso não era para
menos. Daí sua ausência por estas bandas...
DONA MARIA - Cuidava de uma procuração, veja só...
JOSÉ MANUEL - Não é querer gabar–me, não, mas não sei negar auxílio a quem
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me pede. Se até lhes digo que consegui, para a moça véu e grinalda! (Ri.) É a vida...
DONA MARIA - Livrou–se desta.
COMADRE - Corno no caso dos potes...
JOSÉ MANUEL - E, por falar em potes, pois não fui chamado a palácio para
contar o tal naufrágio?
COMADRE - "O Naufrágio dos Potes"?
JOSÉ MANUEL - De que fui aliás, a única testemunha!
DONA MARIA - Assim?
COMADRE - Conte lá, senhor José Manuel. o senhor fala como bem poucos...
JOSÉ MANUEL (Sentando–se.) - Bem, foi na minha última viagem à Bahia.
Estávamos quase a chegar ao ancoradouro; viajava ao lado do meu navio um enorme
“peru" carregado unicamente de potes. De repente, armou–se um temporal, que parecia
vir o mundo abaixo; o vento era tão forte, que do mar, apesar da escuridão, viam–se
contradançar no espaço as telhas arrancadas da Cidade Alta. Nisto, veio uma onda com
tal força que jogou uma embarcação contra a outra. E abriram–se ambas de meio a meio.
O navio vazou toda a sua carga e passageiros, e o "peru" todo o carregamento de potes.
DONA MARIA - Que horror!
COMADRE - Puxa...
JOSÉ MANUEL - O mar, em pouco, ficou coalhado de potes, tal a quantidade. Os
marinheiros e passageiros trataram de agarrar–se a tábuas, caixões e outros objetos para
se salvarem; porém, o único que se escapou fui eu. E sabem como?
COMADRE - Puxa!
DONA MARIA (Curiosa.) - Ah senhor José Manuel,como foi?
JOSÉ MANUEL - Devo à feliz lembrança que tive, do pedaço do navio em que tinha
ficado dei um salto sobre o pote que boiava mais perto. Com o meu peso o pote
mergulhou, e enchendo–se dágua desapareceu meus pés; porém, isto não teve lugar
antes que eu, percebendo o que ia acontecer, não saltasse imediatamente desse pote
para outro. A este outro e a todos os mais aconteceu a mesma coisa, porém servi–me do
mesmo meio, e assim, como a força das ondas os impelia para a praia, vim, de pote em
pote, à terra, sem o menor acidente!
COMADRE - Que língua, safa...
JOSÉ MANUEL - É o que lhes digo.
DONA MARIA - Foi um herói!
JOSÉ MANUEL - Obrigado. Mas agi apenas com a cabeça. Os outros não
raciocinavam e por isso tiveram a paga. Que se há de fazer? (Ri.) É a vida.
DONA MARIA - Coitados...
JOSÉ MANUEL - É a vida, senhora, a ingrata vida... (Levantando–se.) Bem, vou

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passando, pois prometi uma visita àquela pobre mulher - a mãe da moça roubada -
consolada com o casamento da filha, é verdade, mas, ainda assim, debulhando em
lágrimas.
DONA MARIA e COMADRE (Levantando–se.) - É cedo...
JOSÉ MANUEL - Obrigado, minhas senhoras, é tarde. Prometo, para amanhã -
mais descansado desse arranjos - uma visita demorada. Adeus.

(Sai José Manuel. As duas se entreolham.)

COMADRE- Viu a lábia? Fino como os trezentos!


DONA MARIA - Nem sei como agradecer–lhe. Onde, ia caindo eu, senhora? E
quando cuidasse - braz!
COMADRE - Ora, Dona Maria, cá estava eu vigilante. Mas veja o que é saber ser
mentiroso! E ainda chamado a palácio para contar tamanha pêta!
DONA MARIA - Uma bisca.
COMADRE - Uma boa bisca, pode dizer. Ih, está escurecendo. Também já vou–me
indo. Adeus.
DONA MARIA - Isto não! A comadre vai provar um franguinho tostado no espeto!
MADRE - Senhora Dona Maria, não tenteis a minha gula.
DONA MARIA - Nada de cerimônias. E também vai provar uns sequilhos,
habilidade da nossa Luisinha!
(Leonardo aparece. Senta–se na calçada da barbearia. Luisinha surge também à
janela do sobrado.)
COMADRE - A menina?
DONA MARIA - Moça comigo aprende logo os serviços de uma boa dona de casa -
cozinha e bordado. Depois esse negócio de moça em janela não é meio de vida não,
comadre.
COMADRE - É isso, mesmo, Dona Maria - reza, cozinha e labirinto. (Entram.)

(Luisinha deixa a janela. Aparece o Padrinho.)

PADRINHO - Então?

(Leonardo não volta para o Padrinho. Escurece. O Padrinho sai. Surge um acendedor de
lampiões. Entram pelo proscênio: Vidinha, Tomás da Sé, Primeiro e 2º PRIMO e uma Moça.
Sentam–se no banco do chafariz. Trazem violas. Conversam de modo inaudível; vez por
outra uma gargalhada de Vidinha seguida de um saboroso “qual”. Leonardo aproxima–se,
descobre no grupo um conhecido. Abraçam–se.)

LEONARDO - Tomás! Pensei que o diabo tivesse lambido os teus ossos, pois
nunca mais te vi depois daquele dia em que estivemos em pancas por causa de duas
beatas!
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TOMÁS - Escorropicha esta garrafa que aqui resta e vê se o vinho tem o mesmo
gosto daquele que escorropichávamos das galhetas da Sé...(Rindo.) com desespero de
meu pai e furor do mestre–de–cerimônias.
LEONARDO (Baixo.) Então, que gente é esta com que te achas aqui de súcia?
TOMÁS - É minha gente.
LEONARDO - Tua gente?
TOMÁS - Sim, pois não vês aquela que ali está?
LEONARDO - E então?
TOMÁS - Ora!...
LEONARDO - Pois tu casaste?
TOMÁS - Não, mas que tem isso?
LEONARDO - Ah!...estás de moça!
TOMÁS - E tu?
LEONARDO - Eu? Ora, nem te digo estão me atrapalhando...
TOMÁS - Já sei,estás sem nenhuma.
LEONARDO - Bem... eu ia ver...
TOMÁS - Ver o quê?
LEONARDO - Ver por aí...
TOMÁS - Aí por onde?
LEONARDO - Homem, nem mesmo eu sei... (Riem.)
TOMÁS - Sabes que mais? ... Vem conosco e não hás de arrepender.
LEONARDO - Mas com vocês, para onde?
TOMÁS - Para onde? Sem dúvida algum partido melhor tens a escolher?
(Apontado para Vidinha.) Queres fazer cerimônias?
LEONARDO (Boquiaberto.) - Ahn!...
TOMÁS (Alto.) - Vamos levantar a súcia?
VIDINHA - Sim, vamos.
1º PRIMO - Ainda não. Vidinha vai cantar uma moquela: "Quando as glórias que
eu gozei".
TOMÁS - Não, essa não, cante antes aquela: "Se os meus suspiros pudessem".
VIDINHA (Voz aflautada e lânguida.) - Vamos lá, decidam. (Afina a viola.)
TOMÁS - "Se os meus suspiros...”
VIDINHA (Cantando.) - Se os meus suspiros pudessem.
Aos teus ouvidos chegar,
Verias que uma paixão
Tem poder de assassinar.

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Não são de zelos
Os meus queixumes,
Nem do ciúme
Abrasador;
São das saudades
Que me atormentam
Na dura ausência
De meu amor.”
TODOS - Muito bem, muito bem! –

(Leonardo está fascinado.)

VIDINHA - Vamos, minha gente.


LEONARDO - É cedo ainda
MINHA - Qual! Não venha o Vidigal aparecer por cá.
MOÇA - Não fala nesse nome, Vidinha.
LEONARDO - Aconteceu alguma?
TOMÁS - O Vidigal carregou um dos nossos companheiros de súcia, o Teotônio.
MOÇA - Coitado do moço
VIDINHA - Qual, o Vidigal é homem de más entranhas!
LEONARDO - Cante outra, Vidinha.
VIDINHA - Qual, estou já tão cansada... que nem posso!
TOOS - Ora, ora ...
VIDINHA - Qual ... pois se eu também já cantei tudo que sabia. Qual, meu Deus!
Nem eu posso mais!
MOÇA - Ainda não cantou a minha favorita.
1º PRIMO - Nem a minha.
TOMÁS - Eu também ainda não lhe pedi aquela cá do peito.
VIDINHA - Qual, meu Deus! Aonde é que isto vai parar!
2º PRIMO - Ora, prima, não se faça de rogada.
VIDINHA - Estou sem voz, qual!
MOÇA - Ai criatura, quereis que vos reze um responso para cantardes uma
modinha?
TOMÁS - Foi o nosso amigo Leonardo que pediu,
TODOS - Hum!...
VIDINHA - Qual, são uns teimosos... Vou cantar ... “Moda dos Homens”.
TODOS - Muito bem, muito bem!
VIDINHA (Cantando.)
- “Astuciosos os homens são
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Enganadores por condição;
Os homens querem sempre enganar
Nós nos devemos acautelar;
Iludem sempre nossa inocência
Dizem–se amigos só na aparência"
RAPAZES - Não concordo! Não concordo!
MOÇA - É uma cantora de truz!
VIDINIHA - Qual! Vamos, minha gente.
TOMÁS (Voltando–se para Leonardo.) - Você não vem?
LEONARDO (Abismado.) - Eu?... (Acompanha o grupo.) .

(Sai a Comadre da casa de Dona Maria.)

COMADRE (Voltando–se para o interior da casa.) - Pois já está escuro...Até


amanhã, senhora Dona Maria. Amanhã trarei novas do caso...

(A Comadre encontra–se com o Padrinho à porta da barbearia.)

COMADRE - Cadê o afilhadinho?


PADRINHO (Surpreso.) - O menino não estava com a comadre?
COMADRE - Pois compadre, você ainda não se emendou?...
PADRINHO - Então a criança não estava lá?
COMADRE - Mas homem de Deus, você não vigia o menino? Pensei que estivesse
cá, a estudar a cartilha.
PADRINHO - Não diga, comadre, bem que ouvi ponteio de viola no chafariz.
COMADRE - Santa Bárbara nos acuda, ele é doido por essas coisas!
PADRINHO (Gritando.) - Leonardo, ô Leonardo.
COMADRE - Você sabe, homem, que ele tem sangue de saloia. E agora, com essa
ciganada que anda por aí...
PADRINHO - Com os trezentos!
COMADRE - Rabo–de–saia, é o que eu digo! E veja, acabo de preparar o terreno...
menina boa, arranjada...filha cá da terra...não!
PADRINHO - Só tem fraco por gentinha ordinária.
COMADRE - E o que elas querem é toma lá, da cá, debaixo do arco–cruzeiro!
PADRINHO - Senhora, e o Vidigal?
COMADRE (Nervosa.) - Leonardo, ô Leonardo...
PADRINHO - Sai do sereno, menino. Tua madrinha te chama...
COMADRE (Chorosa.) - Leonardo, Nardinho, é a tua madrinha...
PADRINHO - Ô menino, não nos faça raiva... Vem cá, Vem escutar uma coisa...
COMADRE - Não te escondas, Leonardo.

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PADRINHO - Vem escutar o que tua madrinha acaba de fazer por ti...
COMADRE - Rapaz dos trezentos coletes! Leonardo, ô Leonardo...

(Ouve–se, distante, a modinha de Vidinha - “Se os meus suspiros pudesse...”)

- escurece -

4º QUADRO - TRANSTORNO

Manhã. Vizinha vem da missa; Comadre, preocupada, está encostada ao”frade” da


calçada da barbearia.

VIZINHA - Deus vos salve, comadre.


COMADRE - Deus vos salve, vizinha.
VIZINHA- Pelo que vejo a comadre está preocupada...
COMADRE - Tenho cá os meus motivos.
VIZINHA - O nosso vizinho está adoentado?
COMADRE - Graças a Deus, não.
VIZINHA - Quando passei para a missa não o vi, corno de costume, a amolar a sua
navalhinha, e agora volto e encontro a comadre preocupada... por isto perguntei. Então é
o menino!... Experimente um banhozinho de ervas que é bom para botar toda mazela pra
fora. Ou tome–se o pescoço de um galo bom e feroz, corte-se-lhe ao vivo e depene–se e se
torre ao forno e se reduza a pó e se dê ao enfermo em caldo ou chá...
COMADRE - Ora, vizinha, não me venha cá ensinar o padre–nosso.
VIZINHA - Não é para ofensa, foi cuidado meu...
COMADRE - Não repare, vizinha, é que tenho motivo, e forte motivo, para estar
preocupada. Imagine que o menino...
VIZINHA (Alegre.)- Não disse?
COMADRE - Disse o quê, vizinha? Pois a vizinha ainda não sabe do que se trata ...
VIZINHA - Aí está foi por isso que o vizinho madrugou!
COMADRE - Sabia?
VIZINHA (Triunfante.) - Pois logo no entrar da igreja - no patamar - foram me
dando a nova. Ah, comadre, quando eu dizia...
COMADRE - Dizia o quê, vizinha? Diga–me então como foi.
VIZINHA - Pois uni cristão destinado ao clero... É preciso que salvemos aquela
criatura do inferno onde ela se está metendo em vida!
COMADRE - Vizinha?
VIZINHA - Tanta moça distinta para o matrimônio, não é?... Pois "o nosso cura"
meteu–se com uma moreninha da rua da Vala...
COMADRE - Não diga!
VIZINHA - Disseram–me que o nosso amigo é visto as noites, em funções, ao lado
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dos piores capadócios. E o vizinho, coitado, ainda acredita que o afilhado fica em casa,
deitadinho, a sonhar com os serafins...
COMADRE - Mulher...
VIZINHA - A função desta noite era das boas - lá nos Cajueiros... Ah, mas
deu numa estralada... Dizem até que o Vidigal andou cercando a casa, com os
granadeiros. Não vi, me contaram, mas sou capaz de jurar, e lhe digo por essas e outras
que hão de vir, não irei me espantar.
COMADRE - Mulher, não deite sua alma a perder, fazendo tão mau juízo.
VIZINHA - A comadre só enxerga nos outros. Na louça de casa ninguém toque...
COMADRE - Bom, vizinha, Leonardo nasceu para coisa melhor, e não para andar
no bico de qualquer uma...
VIZINHA - Pois a comadre há de ficar sabendo em que bico ele anda, não no meu,
que para isso não sirvo, e nem tenho bico e muito menos língua dobrando quina de rua,
como a de uma que eu conheço.
COMADRE - Ora, tenho mais que fazer. Esse negócio de vida dos outros não serve
para mim, não!
VIZINHA - Nossa Senhora nos guarde,porque sei de uma... aí tem comadre o
castigo da soberba... Pois também lhe digo que os granadeiros do Vidigal estiveram,
nesta madrugada, rondando a barbearia do vizinho - para quê - já se sabe... Não sou de
vangloriar–me com os infortúnios dos outros, mas, vamos esperar...
COMADRE - Senhora dos Aflitos!
VIZINHA (Gritando.) - Veja quem vem lá!

(A Comadre, assustada, entra na barbearia, batendo porta e janela. Aparecem Leonardo e


o padrinho; a Comadre vai pouco a pouco abrindo a rótula da janela, e quando descobre os
dois, abre a porta e desce lentamente.

PADRINHO (Sem notar a presença das duas mulheres.) - Assim não hás de ser
gente. Onde já se viu? Então não vivo eu poupando as minhas patacas para te deixar
arranjado? Para te dar educação? E continuas a dar maus pagos pelo que te venho
fazendo, Se queres casar, rapaz, estás a proceder muito mal. (Descobrindo as duas
mulheres.) Oh! Senhoras,não sei onde tenho o juízo. Este que aqui está anda a pôr–me os
miolos a ferver.

(Leonardo, de cabeça baixa, senta–se no banco do chafariz.)

COMADRE (a Leonardo.) - Nem o “Deus te salve”?... Melhor cara traga o dia de


amanhã.

(Leonardo apanha pedrinhas no chão e as atira na Vizinha.)

VIZINHA - Ora, dá–se... um desaforo de tamanha grandeza!


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PADRINHO - Pedaço de mariola, já para dentro!
VIZINHA - Vem da rua com os seus azeites, todo esfogueteado e de propósito -
muito de propósito - fazer–me o que estão vendo. E só para desfeitear–me!
LEONARDO (Entrando na barbearia.) Não se meta com minha vida, porque eu
também não me importo com a sua. Se estou com os azeites - “pírolas”. (Entra.)
VIZINHA - Ah! Bom côvado e meio! Ah! Bordo da nau! Ah! Major Vidigal!
COMADRE - Também a vizinha...
VIZINHA - Qual, nem meio já lhe disse! (Gritando.) Namorado sem ventura!
PADRINHO - Mulher, retire–se.
VIZINHA - Não me retiro que a rua é pública! Mas o culpado mesmo é quem não te
soube dar educação!
PADRINHO - Perco–lhe o respeito! Eu nunca lhe dei confiança!
VIZINHA - Ora dá–se que um rapa–barba...
PADRINHO - Se me diz mais uma...
COMADRE (Abraçando o padrinho.) - Moderação,moderação! (Correndo a abraçar a
vizinha.) Não faça caso, vizinha, o homem tem toda razão de estar agoniado...
VIZINHA (Forçando o choro.) - Nunca pensei, nunca pensei na vizinhança viesse a
sofrer semelhante afronta...
PADRINHO - Pois vá tomar suas moafas e curti-las na cama.

(O Padrinho entra, batendo a porta e janela; a Comadre, aflita, entra na cada de Dona
Maria, a Vizinha põe–se a chorar no banco do chafariz. Pelos fundos surge o Vidigal,
acompanhado por dois granadeiros. Vidigal põe a mão, de leve, no ombro da Vizinha.)

VIDIGAL - Senhora...

(A Vizinha, ao ver Vidigal a seu lado, tem um desmaio, não chegando mesmo a gritar. Os
granadeiros a socorrem.)

VIDIGAL (Irritado.) - Ora.Vamos.

(Vidigal faz sinal aos granadeiros, para que siga pela direita e o outro pela esquerda, como
se tratasse de um cerco; sai pelos fundos. A vizinha, passando o desmaio, põe–se a
tremer, segurando o seu rosário. Entra José Manuel, também pelos fundos; cauteloso
aproxima–se da Vizinha, tocando–lhe, de leve, ao ombro.)

VIZINHA (Gritando.) - Uai!

(José Manuel espanta–se, pulando de lado. A Vizinha, vendo José Manuel, tenta reanimar–
se.)

JOSÉ MANUEL - Senhora vizinha, o que tendes? Deus vos salve!


VIZINHA (Limpando o rosto com a mantilha.) - A...a...mém, Jesus...

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JOSÉ MANUEL - Passei pela porta da vizinha, estava fechada... A boa vizinha não
se sente bem?
VIZINHA - Não, não... es... estou bem, meu filho... estou bem...
JOSÉ MANUEL - A vizinha assustou–se?
VIZINHA (Já reanimada.) - É que estava distraída, por isso assustei–me. (Com a
mão no coração, fingindo cansaço.) Vinha da missa, senhor José. Sentei–me neste
instantezinho para consertar o meu rosário que arrebentou um mistério. Já ia seguindo
para casa, que não sou de andar mexericando na rua. É da casa para a igreja, dos meus
bilros para a oração.
JOSÉ MANUEL - Disso estou eu informado, e, justamente, por tratar–se de quem
se trata é que pensei pedir–lhe os préstimos. Naturalmente...saberei recompensar–lhe o
trabalho.

(A Vizinha, ainda assustada, olha para os cantos da pracinha.)

VIZINHA - O que estiver em minha posses...


JOSÉ MANUEL - Sei que a senhora Dona Maria dedica–lhe um grande apreço. Ela
mesma tem gabado, para mim, a boa vizinha que tem, e...
VIZINHA - Vejo que o senhor José Manuel está preocupado...
JOSÉ MANUEL - Negócios do coração... Um sentimento delicado que no momento
me aflige...
VIZINHA - Oh!
JOSÉ MANUEL - Dona Maria nutria pela minha pessoa uma grande simpatia. Já
tinha mesmo por hábito uma palestra em sua casa, todas as tardes. Pois não é que indo
lá, ontem, ela recebeu–me friamente? E digo–lhe mais, até com indiretas.
VIZINHA - Senhor José Manuel?
JOSÉ MANUEL - Sim senhora... E a vizinha talvez não ignore a minha
consideração pela sobrinha de Dona Maria, a moça Luisinha. Desejo, aliás, desposá–la, e
creia–me, estou sendo correspondido nessa afeição. Mas...
VIZINHA - Ora, a Luisinha gosta muito do senhor, tenho certeza.
JOSÉ MANUEL - E hei de levá–la ao altar, se Deus quiser. Mas andaram me
intrigando com a senhora Dona Maria.
VIZINHA - Senhor Manuel, que peça lhe armaram?
JOSÉ MANUEL - Foram dizer à velha que tinha sido eu o autor do roubo da moça
do Oratório. Já se viu maior? Tenho um rival, um rival perigoso!
VIZINHA (Numa casquinada.) - Já atinei com o caso, já sei com quem me tenho
que haver!
JOSÉ MANUEL - Então com quem é?
VIZINHA - Vá descansado que eu resolvo.
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JOSÉ MANUEL - Mas senhora, olhe que é preciso muito cuidado, porque, quem
quer que é, é fino.

(A Vizinha segue para casa; José Manuel a acompanha.)

VIZINHA - Qual, histórias dessas entendo eu, dormindo.


JOSÉ MANUEL - Olhe, que a tala intriga foi de mestre!
VIZINHA - Eu também, sou mestra, e veremos quem ensina melhor.

(Saem. Aparece a Comadre se despedindo de Dona Maria.)

COMADRE - Ah, minha senhora Dona Maria, só vendo o gosto que ela anda a lhe
dar. Primeiro, toma–lhe a bênção quando vai dormir e quando se levanta, de
manhãzinha. Ajuda–o na barbearia, já corta cabelo, faz barba, ih, só se vendo a
atividade. Limpa toda aquela ferramenta, varre o chão, está sempre pronto para tudo. É
homem de trabalhar. Deus protege os caridosos, Dona Maria, hoje aquele padrinho bom
está sendo recompensado.
DONA MARIA - Assim seja.
COMADRE - Se o rapaz não teve vocação para a vida sacerdotal, que se há de
fazer? Só vejo nisso um desígnio da Providência, que certamente o reserva para a ventura
do matrimônio.
DONA MARIA - Todo bom filho é bom esposo, digo sempre.
COMADRE - Não é por ser eu a sua madrinha, não, a moça que casar com o
Leonardo pode dizer que uma barra de ouro. Muito diferente desses que vivem por aí a
bater com a língua, e a cheirar herança dos outros, a desviar donzelas em portas de
igreja, como o tal do nosso amigo. Credo! Aquilo é que é saber ser nojento.
DONA MARIA - Isso mesmo, comadre. A entregar uma filha a um tipo como esse
José Manuel é melhor antes uma boa morte.
COMADRE - Pois é isso, senhora. Adeus.
DONA MARIA - Adeus, comadre.

(A Comadre sai, cruzando–se com a Vizinha que se encaminha para a porta de Dona
Maria; Luisinha na janela com os “adeusinhos” de Leonardo, que está na calçada da
barbearia. Mas ambos se aborrecem com a presença da Vizinha, e saem de cena.)

VIZINHA - A comadre anda apressada... coitada, tem razão...


DONA MARIA - Acabou–me de narrar o acontecido. O vizinho é um bocado severo
para com o afilhado. Afinal, são criancices.
VIZINHA - Dona Maria tem bom coração... mas não creio na sorte daquele rapaz.
Também culpa tem a comadre que vive a pôr–lhe panos quentes. Já sabe da maior
novidade? Olhe que esta é nova...
DONA MARIA- Novidade? Conte–me, vizinha!
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VIZINHA - Pois não é que a pobre moça do Oratório...
DONA MARIA - Qual, pois então pensa que eu ando atrasada nestas coisas? Ora,
sei quem foi, e sei muito bem. É um pedaço de sonso que só me há de morar em casa se
eu algum dia for carcereira!
VIZINHA - Isso! Mas Dona Maria não conhece o homem, digo–lhe eu que também
ando ao fato deste negócio todo.
DONA MARIA - Bem sei, bem sei... mas olhe que eu também soube de parte muito
certa. E é fácil ver quem de nós duas anda enganada. Diga lá quem foi.
VIZINHA - Isso nunca! Eu cá não quebro segredo de ninguém. Já que a senhora
não sabe...
DONA MARIA - Ah. vizinha, diga.
VIZINHA (Desconversando.) - Pois é, senhora, estou fazendo uma renda que só
vendo... A renda é bonita e já encontrei quem me encomendasse dez braças.
DONA MARIA - Mas vizinha, se sabe, conte–me, estou aflita! Vamos entrar.
VIZINHA - Aflita? Por quê?
DONA MARIA - Vamos entrar, vizinha, conte–me...
VIZINHA (Entrando, abraçada por Dona Maria.) - Pois senhora, não digo senão
aquilo que vejo, e não o que me contam. Ia dar–lhe a nova da moça porque estive na casa
da mãe dela, no largo do Capim. O mal foi remediado, a infelicitada conseguiu casar–se
e...(Entram.)

(Surgem os dois granadeiros, encostados às paredes, de cada lado do proscênio. Com o


barulho de vozes que se aproximam, desaparecem, mas repetem o mesmo jogo até o final
da cena. Aparecem Vidinha, a mãe e dois primos. Entram fazendo barulho. Dona Maria e
Vizinha voltam à porta, espantadas; o Padrinho, da janela, espreita os desconhecidos;
Leonardo, cauteloso, põe, de vez em quando, o rosto na porta.)

VIDINHA (Exaltada.) - Qual, já lhe disse... isto põe a cabeça da gente como uma
cebola podre. Não tem lugar nenhum...Ir–me por lá comprar frutas com ares de
santarrão!
MÃE - Rapariga de Deus, você não se explica?
VIDINHA - Qual explicar coisa nenhuma! Pois então por ser a gente rapariga vai
ele pregar–nos o mono?
1º PRIMO - Urna traição se paga com outra traição...
MÃE - O mono? Aonde, moça de Deus?
2º PRIMO - Deixou–me pela conversa do baiano - bem–feito –, queimou–se com a
safadeza do segundo!
VIDINHA - Qual, ainda mais esse par de mariolas! Ora, Severo, vai–te com os
demos, e tu também, porcaria de frangote!
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1º PRIMO (Segurando Vidinha.) - Você vai é voltar.
2º PRIMO (Idem.) - Nem baiano nem Leonardo.
VIDINHA (Desprendendo–se dos primos.) - Qual, era só o que faltava! Esses dois
infelizes!
1º PRIMO - Está vendo, minha tia? Ela renega a família.
2º PRIMO - Meta–lhe fogo, minha tia, e aí está a paga.
MÃE - Cala essa boca, Baltasar, e tu, Severo. Eu não posso obrigar Vidinha a
escolher. Vocês todos acabam me matando, é o que querem.
VIDINHA - Qual, minha mãe, isto lá é gente para mim? Qual, esta gente não se
enxerga!
1º PRIMO - Deixa de grandeza que o major Vidigal é quem te vai mostrar o noivo!
MÃE - Senhor Bom Jesus, calma, calma! Onde já se viu tamanha confusão?

(Os dois primos cochicham e correm para os extremos do palco, como se aguardassem,
nervosos, a chegada de alguém.)

VIZINHA - Mas quem foi que pregou monos em você?


VIDINHA - O tal do Leonardo, aí, da barbearia.
MÃE - O mariola andou prometendo casamento e agora...

(Os primos correm, juntando–se ao grupo. Os granadeiros observam.)

1º PRIMO - Ora, minha tia, pois se a Vidinha tinha ajuste era comigo!
2º PRIMO - Te explica, Vidinha, era comigo ou com o Severo?
VIDINHA - Coa breca e eu não os agüento mais! Minha mãe, ponha–os hoje de
casa para fora, hoje, ouviu?
PADRINHO (Descendo a calçada.) - Casamento? Que casamento? Com quem?
VIDINHA - Ai, ai, ai, que cá me anda a cabeça como uma nora solta! Pois o tal de
seu afilhado das dúzias...
PADRINHO - Ahn!...Leonardo, ô Leonardo...

(Leonardo aparece. Desce a calçada, desconfiado.)

DONA MARIA - Senhora do Céu, é possível?


VIZINHA - Veja se tenho ou não razão;;;
PADRINHO (Exaltado.) - Bravo, seu Zé Nabo, isto é proceder de gente?
MÃE - Pois o senhor tem mesmo razão para estar aborrecido. Então ele faz
promessas e depois corre com a sela.
1º PRIMO - Ora, minha tia, trabalho eu para sustentar a casa e vem a senhora
alcovitar pra Vidinha!
2º PRIMO - Tinha graça esse rabicho pelos de fora...
VIDINHA - Qual, Leonardo, era preciso vir te buscar?
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MÃE - Da rua da Vala até aqui, e com estes dois a brigar... Só sendo mesmo sina.
VIDINHA (Junto a Leonardo.) - Qual, isto não é trato. Vamos!
PADRINHO - Pois para casar, só com o meu consentimento. Aí está o que é não
saber escutar os bons conselhos.
LEONARDO - Mas Vidinha, eu te prometi?

(Os Primos correm para os extremos do palco, encontram–se com os dois granadeiros.)

VIDINHA - Não me diga mais nada. Qual! Qual! Qual!

(Os granadeiros saltam sobre Leonardo. Confusão geral, gritos. Os Primos, Vidinha e mais
atrás, a Mãe, saem apressados. O Padrinho, tremendo, mal consegue subir os degraus da
calçada. Leonardo é preso pela gola do casaco. Luisinha chorando, segura–se na saia de
Dona Maria. Vidigal, entra solene.)

DONA MARIA - Virgem Santíssima!


LUISINHA- Minha tia, minha tia...
LEONARDO - Senhor major, não fui eu... não fui eu...

(Os granadeiros iniciam a marcha pelo centro, Vidigal, descobrindo Dona Maria, fica a
contemplá–la, embevecido.)

VIDIGAL (Sem tirar os olhos de Dona Maria.) - Pára.


PADRINHO (Trêmulo.) - Senhor major, o menino é inocente.
VIDIGAL - (Ainda voltado para Dona Maria.) Então, em que se ocupa?
PADRINHO - É ajudante de barbeiro, trabalha, aqui, 'com o padrinho que o cria na
sã doutrina...
VIDIGAL (Voltando–se para Padrinho.) - Pois homem, isso é maneira de criar
ninguém? Isto é um vadio de marca.
COMADRE - Ai, ai, ai! (Senta–se, espalhafatosa, no banco do chafariz.) Piedade!
Santa Bárbara e São Jerônimo, valei–me!

(Com os gritos da Comadre, o Vidigal e os Granadeiros se voltam, e Leonardo,


aproveitando a confusão, foge, rodeando casas, pulando janelas, fazendo todo um zigue–
zague em cena. Nessa espécie de dança é seguido pelos Granadeiros. Vidigal, impassível,
caminha a passos largos e lentos, sendo, muitas vezes, envolvido pelos soldados e fugitivo.
A Vizinha e Dona Maria correm a socorrer a Comadre, no banco do chafariz. Leonardo
consegue despistar os Granadeiros escondendo–se no chafariz, por baixo das saias das
três mulheres. Os Granadeiros aparecem desapontados.)

VIDIGAL - Cadê o homem?


PRIMEIRO GRANADEIRO - Não passou por aqui, senhor major?
VIDIGAL - Quero o homem.

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SEGUNDO GRANADEIRO - Tem manhas do tinhoso, só sendo mesmo encantador.
VIDIGAL - Pois procurem o homem, quero ele.

(Ouvem–se vozes alternadas: “passarinho foi–se embora, deixou–me as penas na mão...”


Vidigal sai compassado (fundos); Os Granadeiros saem pelo proscênio. A vizinha grita.
Leonardo mexe–se debaixo do banco; sai correndo para a barbearia. Satisfação geral.)

DONA MARIA- Virgem Senhora!


COMADRE - Ó filho de uma pisadela e de um beliscão!
PADRINHO (De braços abertos.) - Meu menino, uma boa estrela te guie!
VIZINHA - Debaixo de nossas saias, e ainda mordeu–me a perna!

- Fecha a cortina –

Fim do Segundo Ato

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ATO III

5º QUADRO - FOI MALSINAÇÃO

Meio–dia. Dona Maria aparece na janela do sobrado. Está inquieta, e logo deixa a janela.
José Manuel, a fumar despreocupado, aparece por um instante na mesma janela. Vizinha,
sentada no chafariz, cochila. Pela esquerda, surge, cauteloso, o Major Vidigal. Aproxima–se
do sobrado e bate, de leve, na pequena porta lateral. Vai até a esquina e avista Dona
Maria, que voltou à janela. Presta–lhe uma “continência”, e a dama, assustada, faz gestos
para que ele a espere na porta. A Vizinha desperta, e percebendo tão estranho
acontecimento procura esconder–se melhor, no chafariz. Sai apressada, aproveitando o
encontro do Major com Dona Maria, mas, a meio caminho resolve, encostar–se à esquina
do sobrado, para escutar a conversa dos dois.

DONA MARIA - Senhor...


VIDIGAL - A vida nos apartou, senhora, mas cá estamos.
DONA MARIA - Aqui está o senhor (Ri nervosa.), o mesmo cabeçudo doutrora...
VIDIGAL (Agarrando a mão de Dona Maria.)- Ai, dona...
DONA MARIA - É uma temeridade, senhor Major, uma temeridade. Mas homem do
céu, não me exponha e não se exponha às línguas da vizinhança. E olhe que estou com
visita em casa, o letrado José Manuel!
VIDIGAL (Afastando–se.) - Então, adeus...
DONA MARIA (Agarrando Vidigal pelo braço.) - Entre, seu teimoso, e fique nesta
sala que eu já volto para atendê–lo. Ai ai, bem prega frei Tomás, façamos o que ele diz e
não que ele faz.

(José Manuel volta à janela do sobrado; surpreende a Vizinha com o ouvido colado à
parede.)

VIDIGAL(Sem ser visto por José Manuel.) - Se não é mais possível...se tudo foi um
sonho.
DONA MARIA - Ora por quem sois. Entrai!

(Entram o Major e Dona Maria , e esta, cautelosa, ofegante, fecha a porta.)

JOSÉ MANUEL - É a boa Vizinha?...


VIZINHA (Assustando–se.) - Ai!... ai, senhor José Manuel... Estava agarrada nesta
quina de parede para não cair. Senti uma escuridão na vista e um suor frio...por pouco
não me faltaram as pernas...Vivo assim, meu senhorzinho - vou andando, vou andando e
lá me vem uma vertigem... Na igreja mesmo, vez por outra, estão me acudindo...(José
Manuel deixa a janela.) Acho que é o coração, senhor José Manuel...(Gemendo). O meu
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finado e santo esposo já dizia...(Percebendo que estava falando só). Ora que está para
cegar qualquer cristão... (Vai para casa às gargalhadas). Bem prega frei Tomás,
Tomás...Tomás...

(Vidigal, cuidadoso, espia o movimento da rua através do postigo. Na porta principal, Dona
Maria e José Manuel.)

JOSÉ MANUEL - Adeus, senhora.

(Entra a Comadre.)

COMADRE (À parte.) - Ih, falai no mal, aparelhai o pau! (A José Manuel). Quem
vejo! Ah, senhor José Manuel, esteve adoentado ou viajando? Ou anda desgostosos com
a nossa vizinhança? Toda essa gente me vem perguntando se não tenho visto o senhor
José Manuel, que anda sumido, talvez pela Corte, que esqueceu os amigos de cá e
outras... Mas não, aqui está o nosso amigo, corado e bonito, graças a Deus!
JOSÉ MANUEL (Com desprezo.) - É... não desgosto dessa gente, mas também não
digo senão aquilo que sei, ou melhor, aquilo que vejo. Falo, e falo muito, meus pais eram
Algarves e eu não quero destoar da minha paternidade, mas... soube de uma que me
pregaram e que era preciso desmentir com provas...
COMADRE - Então já sei que hoje desenterraram–se mortos e enterraram–se
vivos... Bons olhos o vejam.
JOSÉ MANUEL - Bem diz o brocado: Mateus, primeiro os teus... (Sai.)

(Dona Maria resolvem a contragosto, despachar a Comadre. Abre a mão, ao lado do


postigo, em sinal a Vidigal, para que a espere. Não manda a Comadre entrar e esta,
ressabiada, senta–se na calçada.)

DONA MARIA - Então, o rapaz já não está em casa? Aquilo é gênio, nasceu com
ele e com ele há de ir à sepultura. Bem me diziam do malcriadão que era, apesar do ar
sonso.
COMADRE - Adeus eu me está a senhora a pôr culpas em que não as tem. O
rapaz desta vez tem toda razão.
DONA MARIA - O próprio Padrinho é o primeiro a fazer–lhe a vontades.
COMADRE (Fingindo choro.) - Mas se o bruto do Padrinho até chegou a corrê-lo de
casa, e de navalha na mão.
DONA MARIA - Que tal não faria ele!
COMADRE - Com a Virgem Santa! Que culpa teve o menino? Que homem, no
mundo, é escapo às tentações de mãe Eva? E por isto botá–lo para fora a pontapés e de
navalha na mão? E agora, para onde foi aquele cristão? (Chora.)
DONA MARIA - Para onde foi não sei, mas se ainda não lhe bati a porta é porque
desejo dizer–lhe - na bochecha - que temos contas a ajustar...
101
COMADRE - Contas?
DONA MARIA - E mais, quando for à confissão trate de desobrigar–se de um
grande pecado que cometeu...
COMADRE - E eu que já não tenho poucos... Mas então, o que foi?
DONA MARIA- Foi um aleive, senhora, um aleive muito grande que levantou a
pessoa que tal não merecia. Tudo quanto me disse a respeito de José Manuel, naquela
história do roubo da moça, é falso. Soube de tudo, e de parte muito certa.
COMADRE (Tossindo.) - Não me dá nada de novo, senhora!
DONA MARIA - Tinha–lhe eu dado todo crédito. Tanto que havia rompido por um
excesso com o pobre do homem. Mas não caio mais noutra.
COMADRE - Sei de tudo muito bem, era o que tinha a dizer–lhes! O homem está
no negócio como Pilatos no Credo.
DONA MARIA - Mas lembre–se que me havia dito ter visto com os próprios olhos.
COMADRE - Ah, senhora, era o diabo por ele, nunca vi coisa tão parecida. Outro
dia, porém, soube de tudo e agora estou arrependida...
DONA MARIA - Mandei, por isso, chamar o pobre do homem e, de ofendido que
estava com o modo por que eu o tratara, custou muito a vir. Mas abri–me com ele. E
uma coisa lhe digo: a senhora não está bem no negócio. Ele expôs–me certos pontos... a
que eu, enfim, não quis dar crédito.
COMADRE - Pois então a senhora disse–lhe que eu é que...
DONA MARIA (Com mofa.) - Ele já sabia, e não era possível negar–lhe.
COMADRE - Como foi então o negócio? Quero ver se combina cá com o que sei.
DONA MARIA - O homem ficou de trazer, ainda hoje, a própria mãe da moça para
contar–me tudo. Sei até que o tal do sedutor chama–se Crisóstomo e a rapariga, Lucinda.
COMADRE - Aí está, exatamente o que eu soube depois! Foi tudo assim mesmo!
Veja, senhora, a que está sujeita a gente nesta vida - a levantar falsos aos mais! (Dona
Maria dispõe–se a entrar). Um instante senhora, que “certos pontos” são esses que o José
Manuel lhe andou expondo?
DONA MARIA - Ah... parece que a comadre advogava uma causa para o seu
afilhado das dúzias...Daí o afastamento premeditado do moço! E logo com aquela do
Oratório...
COMADRE - Isto também é um aleive, senhora! Mas, o José Manuel é está com
intenções?
DONA MARIA - Deu–me a entender alguma coisa a respeito de Luisinha, o que não
me desagrada. Afinal, o senhor José Manuel é um homem sisudo.
COMADRE - E a menina?
DONA MARIA - Ora...

102
COMADRE - Gente, pois aquela criança já está para essas cousas?

(Dona Maria entra, batendo a porta. A Comadre se levanta. Entra a Mãe de Vidinha;
encontro no chafariz com a Comadre.)

COMADRE - Senhora, quem vejo!


MÃE - Vim para dar–lhe notícias de seu afilhadinho.
COMADRE - Não diga! Pois o menino foi se abancar por lá?
MÃE - E é muito estimado por todos nós. Somos pobres, mas na casa cabe mais
um.
COMADRE - Rapaz de Deus, valham–te os serafins! Aquilo tem pedras na cabeça,
ao invés de miolos, o sol não cobre criatura mais renegada!
MÃE - Não diga, senhora. O moço é bom e vai fazer a felicidade de Vidinha, apesar
dum primo que não gostou muito do nosso hóspede e, parece, anda de birra.
COMADRE - Hóspede? Valham–te os anjos, credo! Então deixa a casa do
padrinho, onde nunca lhe faltou o pirão, para ser mais uma boca na casa de uma viúva?
É demais.
MÃE - Senhora, o moço quer fazer parte da família. Foi por isso que vim procurar
o senhor seu Padrinho.
COMADRE - Jesus, aquilo é um vira–mundo, anda feito, um valdevinos, sem eira
nem beira nem ramo de figueira, sem ofício nem benefício, sendo pesado a todos nesta
vida!
MÃE - Se é cá conosco que fala, deixe–os estar onde está que está muito bem.

(Aparece o Padrinho.)

COMADRE - O pobre do Padrinho anda amarelo que nem flor de algodão. Qual,
pois vai então levantar poeira na casa alheia? Aquilo é um galo de briga!
MÃE - Ora, isso é lá entre rapazes e raparigas.
COMADRE (Vendo o Padrinho.) - Aí está o pobre do homem! Venha cá sentar–se
compadre, para ouvir o que a mãe de sua futura nora está a relatar–me.
PADRINHO - Nora?
COMADRE - Aquela rapariga, a da súcia...
MÃE - Oh senhora, minha filha é boa moça.
COMADRE - Acredito...
MÃE - Foi um mau passo, é verdade, mas o senhorzinho está resolvido a...
PADRINHO - Pois o menino lhe fez algum mal?
MÃE - Em mim? Deus me guarde! Foi na Vidinha minha filha.
PADRINHO - Em lugar melindroso?
COMADRE- Veja! Veja!

103
PADRINHO - Esta é para me matar! Que fiz eu, Senhor, para receber tamanha
paga?
COMADRE - É o sangue da saloia!
PADRINHO - Desventurado padrinho! Se foi pecado o desejo de vê–lo um dia na
Sé...
COMADRE - Deus sabe que o seu pensamento era bom. Mas não morra, home
justo, que o meu coração também sangra!
MÃE - O que a Vidinha me contou... só pode ser remediado com o casamento...
PADRINHO - Pois senhora, se o valdevinos correr, estou pronto a sanar o malfeito
- caso–me eu!
COMADRE (Gargalhando.) - Compadre, não se aventure! É um morenaço de voar e
revoar, de deixar tonto qualquer cristão! (Chora.) Coitadinho do Leonardo, tão
fraquinho...
PADRINHO (Choroso.) - Morando lá? Dormindo? Meu Santo Antônio!... Se não dava
para clérigo, se sua inclinação era para a vida matrimonial, já estava conformado. A
comadre é testemunha.
COMADRE - Desde pequenininho no batente da Sé... (Irada.) Mas das tentações
nem as pedras escapam, inda mais quando a modinha era cantada por aquele peito.
MÃE - Vai ver que a comadre chegou a gabar–se...
COMADRE - Gabei–me, gabei–me muito. O compadre também gabou–se. Aí está,
fomos castigados.
PADRINHO - Castigado por desejar a santidade de um...
MÃE - Não fique triste, senhor... E depois a Vidinha não é nenhum castigo. Não é
um sem sorte, aí, á toa... Deu um asso, mas, quem de nós não o deu também?

(Barulho de choro, lamentações. Vidinha e 1º PRIMO aparecem. Vidinha chora com o rosto
oculto por uma mantilha.)

1º PRIMO - Aí está, minha tia, aí está o lucro que se tira em meter–se para dentro
de casa um par de pernas que não pertence à família...
MÃE (Desdenhosa.) - Onde é? Onde é que está pegando fogo?
1º PRIMO - Fogo? Mas ali já pegou fogo e não houve água que apagasse... e olhe o
que lhe dizia... ali estava se juntando lenha para isso.
VIDINHA (Chorosa.) - Qual, qual, qual...
MÃE - Filha de Deus, o que aconteceu?
VIDINHA - Qual...
1º PRIMO - O tal do Leonardo embeiçou–se pela mulher do Toma–Largura e por lá
entornou um caldo.
MÃE - Menino o que dizes?
104
COMADRE - Outra mulher? Santíssima Mãe do Céu, valei–me. (Chora).
PADRINHO - Que mal fiz eu? Ai triste sina!
MÃE - Moça de Deus, que desatino é este? Aonde é que ides?
VIDINHA - Me acompanhe ou eu vou sozinha. Vou fazer o que faz qualquer mulher
que tem sangue na guelra - vou provar daquele caldo!
MÃE - Ora, isso foi coisa que vos fizeram...
VIDINHA - Quero ir à ucharia del–rei, onde vive a tal mulher, para dizer–lhe na
cara que é preciso não ter a pinga de vergonha - que Deus o fez e o Diabo os juntou -
uma toma caldo e o outro diz- Ora...
MÃE - Jesus!
VIDINHA - Quero ir...seja lá à casa do rei. Hei de ir, hei de procurar a zinha para
fazer–lhe cá duas perguntas e, ou o Menino Jesus não é filho da Virgem ou na tal
ucharia não fica hoje coisa sobre coisa!
MÃE - Que loucura, rapariga, que desatino!
VIDINHA - Vamos ou eu vou só. Porque ou o menino...

(Aparece José Manuel.)

VIDINHA - Qual, essa agora é que vai ser bonita! Qual, pois quem vejo...

(José Manuel, surpreso, apressa–se a entrar em casa de Dona Maria.)

1º PRIMO - O baiano! O baiano!


VIDINHA - Qual, faça o favor de se aproximar... pelo que vejo anda com muita
pressa... qual, faça–me o favor de chegar aqui...
JOSÉ MANUEL - Creio que não é comigo - não conheço essa gente... Deve ser
engano. (Bate a porta de Dona Maria.)
VIDINHA - Isso mesmo. O senhor José Manuel prometeu–me e, depois... Ou não
se lembra? Qual!

(José Manuel, nervoso, bate à porta com mais força.)

1º PRIMO (Aproximando–se de José Manuel.) - Então?

(Uma escrava abre a porta e José Manuel entra apressado. A porta é novamente fechada.)

COMADRE - Ai, que faro o meu!


PADRINHO - A comadre não se engana!

(José Manuel põe o rosto na janela do sobrado.)

COMADRE (Descobrindo José Manuel.) - Vejam a cara do tipo!

(José Manuel deixa a janela.)

MÃE - Santa Mãe!


105
VIDINHA - Qual, mas o mal não fica sem reparo! O senhor Vidigal vai já ser
avisado! Vou à casa da Guarda!
MÃE - Então foi ele, menina?
COMADRE - Ainda pergunta?
VIDINHA - Foi ele.

(A Mãe vai bater em Vidinha com o guarda–chuva, mas o primo segura.)

MÃE - E tu, culpando os que pegaram a sobra! Vergonha, vergonha!


VIDINHA - Qual, é tudo uma cambada muito ordinária! Mas vou também quebrar
a cara daquela dona da tal ucharia. Não fica assim não, quero ver os três na casa da
Guarda!

(O Vidigal põe, de vez em quando, a cabeça na rótula do postigo.)

VIDINHA - Não têm sentimento, digo–lhes, e ninguém me há de desdizer! E este tal


de José Manuel que eu não sei para que traz a barba na cara!

(Vidinha toma o guarda–chuva da mãe.)

VIDINHA - Quebro tudo!


MÃE - Vamos deixar de asneiras, menina! Olhe que o bruto do major Vidigal, de
momento, pode saltar aqui e - zás!

(Com o grito de “zás” o Primo se assusta, pulando para trás.)

VIDINHA - Qual, quisera eu, aqui, o Vidigal! Mas o desavergonhado este é de


rodaque e tamanco na casa da Regalada.
MÃE - Que Regalada menina? Não calunia o homem.
VIDINHA - Pois vamos, minha mãe, vamos que eu vou procurar o Vidigal. E tu,
Severo, fica pra vigiar o tipo. Qual, qual, qual!

(Saem Vidinha e a Mãe; O Primo senta–se no chafariz. A Comadre, às gargalhadas, bate à


porta de Dona Maria. O Padrinho volta para a barbearia.)

PADRINHO - O tal de José Manuel é mesmo fino...


COMADRE (Batendo.) - Ih, a mulher parece que morreu... e com esse José Manuel
aí dentro... Dona Maria... (Batendo.) Ai se o Vidigal bate por aqui... O Vidigal... Pois não é
mesmo que o Vidigal está na casa da Regalada passando à canja de galinha?

(O rosto de Vidigal volta a aparecer no postigo.)

COMADRE - José Manuel na casa de Dona Maria e o Vidigal, de rodaque e


tamanco no regaço da Regalada! Ah bom côvado e meio! (Batendo com força). Senhora
dona Maria... Senhora, o Leonardo é inocente, é o que eu quero dizer–lhe. É inocente, um
inocente!
106
(Entra correndo, ofegante o 2º Primo e, às gargalhadas, abraça–se com o irmão, no
chafariz.)

2º PRIMO - Prenderam o Leonardo!

(A Comadre grita, O Padrinho segura–se no “frade” para não cair. Os Primos saem rindo.)

2º PRIMO - Cadê Vidinha? E minha tia?


1º PRIMO - Pois foram atrás do Vidigal!
COMADRE - Santa Filomena, Santa Bárbara, todas as onze mil virgens da corte
do Céu!... Uai!... Foi malsinação, foi malsinação...
- Escurece -

6º QUADRO - EMPENHO OU AS TRÊS EM COMISSÃO.

Um mês depois da prisão de Leonardo. Em cena: Padrinho, Comadre e Vizinha.

VIZINHA - O menino me atormentou muito, é verdade, mas estou sempre ao lado


da justiça, pois assim procedia o meu finado esposo. Comadre, o menino não merecia
tamanho destino - granadeiro...
COMADRE - Pode dizer - malfadado.
PADRINHO - Chicotearam o coitadinho... (Chora.)
VIZINHA - E foi sem razão.
COMADRE - Mas vizinha, aquilo é uma natureza desesperada, pois além de se ter
metido com a Vidinha ainda foi rondar a casa do Toma–Largura.
VIZINHA - A Vidinha era uma espevitada.
COMADRE - Que diabo queria ele na ucharia del–rei, onde vivia o tal de Toma–
Largura com sua mulher?
VIZINHA - Também, coitada da moça... Segundo me contaram, faz pena a sua vida
nas mãos do Toma–Largura.
COMADRE - Assim, vizinha?
VIZINHA - O home é um macachaz do pior tipo. Toma moafas e a espanca
desapiedadamente.
COMADRE - Coitado do Leonardo que tem o coração compadecido... Naturalmente
vendo aquele sofrimento todo...
VIZINHA - Pois foi o que me contaram. Que ele tinha ido à ucharia, mas não com
más intenções.
COMADRE - Vizinha... (Põe o dedo no olho.)
VIZINHA - Pelo contrário, antes para levar uma tigela de caldo à pobre moça, pois
a coitadinha andava muito enfraquecida.
PADRINHO - Uma ação louvável, vizinha.
107
VIZINHA (Tossindo.) - É. Não havia nada de censurável. E depois, a moça, num
extremo de civilidade, o convidou a tomar o caldo.
COMADRE - Caldo, vizinha?
PADRINHO - O coitadinho... Seria muita grosseria não aceitar tão distinto
oferecimento.
VIZINHA - Justamente, mas aí é que entra o Toma–Largura.
COMADRE - O monstro!
VIZINHA - A mulher vendo aquele gigante enfurecido, entornou o caldo, e o
Leonardo disparou a correr, perseguido pelo furioso.
COMADRE - AI, grande assassino!
VIZINHA - Aconteceu que o Vidigal ia passando e - braz! O resto é o que nós
sabemos - prisão... (Chorosa.) Meteu–lhe agora uma farda ao corpo e dessa nem Santo
Antônio o tira.
PADRINHO - Mas a vizinha nos ia falar de uma ajuda - será possível?
VIZINHA - Bem, eu não aprovava as brincadeiras do Leonardo, mas quando vi
aquele que surgia por cá com ares de santarrão...
COMADRE - O tal de José Manuel? Ora, casou–se com a Vidinha. O Vidigal não
cochilou - igreja ou cadeia.
VIZINHA - Ai senhora que cá me roncava qualquer coisa quando o via...
COMADRE - Uma bisca que ia ser para a senhora Dona Maria.
VIZINHA - E ele tinha bofes para tanto.
PADRINHO - Mas vizinha, e agora como é que vamos fazer para que Leonardo...
VIZINHA - Pois era o que eu queria dizer. O caso está nas mãos de Dona Maria.
PADRINHO E COMADRE - De Dona Maria?
VIZINHA - Sim senhor.
COMADRE - Mas o que pode fazer Dona Maria se já são tantas as suas
demandas?
VIZINHA - Pode pedir ao Major Vidigal.
COMADRE (Chorando.) - Ai, pobre rapaz... É sina, coitado. Não nasceu em bom
dia, não, vizinha.
VIZINHA (Também chorando.) - Também eu tive culpa, pelas pragas que lhe roguei.
COMADRE - Não, vizinha, culpa nenhuma, mais ele lhe fazia.
VIZINHA - Culpa, sim, sou capaz de jurar pela alma do meu santo esposo, que era
um manso de coração...
PADRINHO - Que a terra lhe seja leve.
COMADRE - Que Deus o tenha na sua santa paz.
VIZINHA - Amém. Olhe, comadre, eu até procurei o Major...

108
COMADRE - E foi embalde...
PADRINHO - O que lhe disse ele, vizinha?
VIZINHA - Que o rapaz é dos bons. Está na sua guarda. É granadeiro do Major.
PADRINHO - Coitadinho...
COMADRE - Nunca mais... nunca mais...
VIZINHA - Não suspire, comadre, não se amofine. Dona Maria é que vai nos
ajudar. Não viram naquele dia? Não foi ele que prendeu o Leonardo...
COMADRE - Mulher, não faça mistério... Que dia? Quem?
VIZINHA - Ele até tomou um cafezinho...
PADRINHO - Ele quem vizinha?
COMADRE - Aonde? Quem?
VIZINHA - Ora quem havia de ser... o Vidigal na casa de Dona Maria!
COMADRE e PADRINHO - Na casa de Dona Maria?
VIZINHA - Dizem que na mocidade...dizem. O certo é que voltaram, e eu estou a
par de tudo! Ainda hoje...Vamos lá!
COMADRE (Exaltada.) - Mulher?... Aqui nas minhas barbas? E eu feito lançadeira
cega! Ai, senhor,a que já não sirvo para nada! Então o Vidigal?...
PADRINHO - Comadre...
VIZINHA - E olhe que a visita é diária. O homem entra como uma sombra e o
cafezinho ali, comadre, demora...
COMADRE - Mulher de Deus, estou tonta - ôpa! A uns morrem as vacas a outros
parem os bois!
VIZINHA - Vamos lá?
PADRINHO e COMADRE - Vamos.
VIZINHA - Não, vizinho, tranque–se na sua barbearia que é melhor. Dizem não ser
bom agouro, nestas ocasiões, ouvir–se voz de homem.
COMADRE - É verdade. Mulher se entende é com mulher. Espere lá dentro,
homem de Deus, e ponha um raminho de arruda na orelha.
VIZINHA - Então vamos, comadre.

(A Vizinha e a Comadre batem à porta de Dona Maria e começam a chorar alto. O Padrinho
põe o rosto na janela, mas vendo o fingimento das duas bate a cabeça, pessimista.

COMADRE e VIZINHA - Ai, ai, ai...

(Dona Maria aparece na janela do sobrado.)

DONA MARIA - Meu Deus, o que foi?

(Dona Maria deixa a janela e as duas, aumentam o choro. As mucamas aparecem nas
janelas e Dona Maria, nervosa, escancara a porta da rua.)
109
DONA MARIA - Que tendes, criaturas de Deus? Que tendes? Santo Cristo, o que
foi? Falai!
COMADRE - Ai senhora Dona Maria do meu coração! Que desgraça!
DONA MARIA - Falai, senhora, falai, que isso me põe numa aflição!...
COMADRE - Veja o que lhe sucedeu por ter praticado uma boa ação...além das
chibatadas que levou, levou cadeia! Um mês, já! Todo um mês de sofrimentos e aflições e
agora... (Chora.) é granadeiro do Major. Ai, ai, ai...
VIZINHA (Fingindo.) - Meu Deus, o Leonardo?... Pobre moço. Mas não falou com o
Major Vidigal, comadre?
COMADRE - Duro como o coração de uma pedra! A nada se moveu. Pedi–lhe pelas
Cinco Chagas, pela Senhora Santíssima... tudo embalde, em vão... pobre rapaz!
DONA MARIA - Não se aflija, comadre. Ainda há um meio que eu penso não
falhar. Em todo caso, não garanto...
VIZINHA - Sei que Dona Maria goza de muita influência junto ao Major... É só
pedir...
DONA MARIA - Eu? De influência?
VIZINHA - Sim senhora!
DONA MARIA - Ora, eu já não presto para nada, isso era bem noutros tempos... O
Major...as coisas estão mudadas, vizinha. Depois que ele entrou para a polícia...
Senhora, fiquei com as minhas demandas. Envelheci.
VIZINHA - Dona Maria... olhe que depois daquele dia ele deu de aparecer por cá,
para tomar cafezinho... Olhe que ainda ontem o cafezinho demorou...
DONA MARIA - Nada, nem mais nem ontem. Mas, não sei dizer não a ninguém.
Tenho o coração assim, e sempre o tive.

(Aparece Luisinha.)

LUISINHA - Ah, peça, minha tia, peça para ele salvar o Leonardo...
DONA MARIA - Menina?... Para dentro. Já se viu?
VIZINHA - A menina está me parecendo...
COMADRE - Os órfãozinhos gostam um do outro - um nasceu para o outro...
DONA MARIA - Bem, senhoras... mas olhem que o caso da ucharia era grave.
VIZINHA - Estou informada de tudo e lhe digo - o rapaz está inocente.
COMADRE - Pagou por praticar uma boa ação.
DONA MARIA - Quero saber de tudo como foi, vizinha, com todos os efes e erres.
VIZINHA - Prometo–lhe, pois sei de tudo muito bem.

(As mucamas trazem cadeiras.)

DONA MARIA - Vamos sentar, senhoras, que este é um fato que merece muita

110
atenção. (Senta–se.)
COMADRE - Ainda mais com uma criatura que desta vez não teve nenhuma
culpa. Se o senhor Major Vidigal nos atendesse...
DONA MARIA - Bem, farei o que puder. Não desejo ser empecilho à felicidade dos
outros. Talvez que ele me queira atender...
COMADRE - Há de atender, senhora. Ele não está tão velho que se tenha
esquecido, e... e depois, senhora, aquele fino do José Manuel...
DONA MARIA - Nunca pensei, criatura, nunca pensei que o José Manuel fosse
capaz daquela... Ia caindo direitinho.
COMADRE - Homem pequenino, ou embusteiro ou bailarino.
VIZINHA - Enfim, casou–se.
DONA MARIA - A força, senhoras, pois o que ele pretendia era a minha Luisinha.
Ah, mas eu me vingaria dele, os desembargadores me haveriam de dar esse gosto!
VIZINHA - Ora se davam.
COMADRE - Oh, senhora, tudo passou, e o Leonardo era um inocente!
DONA MARIA - Um inocente, pode dizer.

(Aparece o Vidigal. Surpreso com aquela reunião, tenta recuar, mas, como já foi visto,
resolve, juntar–se ao grupo. Um granadeiro o aguarda a distância. O Padrinho entreabre a
janela, fechando–a, depois, cuidadosamente.)

TODAS - Oh!...
VIZINHA - O senhor Major Vidigal? Bons olhos o vejam!
VIDIGAL - Obrigado.
VIZINHA - Mas o Major não mudou nada, o mesmo homem daqueles bons tempos.
É um garbo que dá gosto!
VIDIGAL - Senhora, o bom tempo passou. (Senta–se.)
COMADRE - Dona Maria que o diga...
DONA MARIA - É verdade, senhor Major, o bom tempo já lá foi e Deus perdoe a
quem dele tem saudades...
VIDIGAL - É.
DONA MARIA - O passado, passado.
COMADRE - Ai criatura, deixa cada um relembrar o seu tempo. Isso consola...
VIZINHA - Eu gosto quando acho um que me lembre o meu. Em se me tocando cá
nas feridas antigas...
DONA MARIA - Pois é mesmo por me lembrar dessas feridas antigas que eu queria
pedir um favor ao senhor Major - negócio muito sério...
VIDIGAL - Hum...
DONA MARIA - O seu granadeiro Leonardo é um bom rapaz. (O Major franze a
111
testa.) Não me comece já com coisas, senhor Major...Pois ele é muito bom rapaz.
VIDIGAL - É.
COMADRE - Ah, senhor Major, clemência para ele!
VIDIGAL (Levantando–se.) - Um soldado é um soldado.
COMADRE - Ai, pobre Leonardo - granadeiro!...
VIZINHA - Senhor major...
COMADRE - Peço–lhe, senhor Major, pela sua mãezinha...
VIDIGAL - Não...
COMADRE,VIZINHA e DONA MARIA (Fingindo choro.) - Ai, ai, ai... triste sorte,
coitado...
VIDIGAL - Basta! Deixem de lamúrias, senhoras (Aproximando–se do granadeiro
que o espera.) Granadeiro, escolte até aqui o 19.

(O granadeiro faz continência e se retira. Vidigal passeia de um lado para outro.)

TODAS - Pobre Leonardo! Infeliz criança! Ai, ai, ai...!

(Vidigal, comovido, tira do bolso um lenço e limpa os olhos. O choro das mulheres torna–se
então mais alto. Vidigal soluça.)

VIDIGAL (Ainda soluçante.) - Que diriam de mim se me vissem aqui, nestas


choramingas de criança? Eu, o Major Vidigal, num coro de mulheres... (Reagindo, grave.)
Senhoras donas, o rapaz está engajado. A disciplina antes e acima de tudo! Não pode ser!
DONA MARIA (Baixo.) - Ainda não está tudo perdido - nunca perdi uma
campanha... (Alto.) Bom, senhor Major, águas passadas não movem moinhos...
VIDIGAL - Qual passadas, senhora dona!
DONA MARIA - Seja lá o que for, sinto ter perdido os meus rogos e não servir a
quem desejava... Verdade é que eu já contava com esta, e também não prometi. Mas, em
último lugar, quero dizer–lhe uma coisa em particular.
VIDIGAL - Vamos ver.
DONA MARIA - Ali.

(Dona Maria e Vidigal se afastam do grupo.)

VIZINHA - Agora vai...


COMADRE - Que Santa Engrácia a inspire!
VIDIGAL (Voltando com Dona Maria.) - Ora esta...
DONA MARIA - Graças que se lhe acabaram os sestros.
VIZINHA - Eu bem dizia! O senhor Major inda é o mesmo dantanho - brioso e
varonil!
COMADRE - E eu nunca duvidei...
VIZINHA - Então, Dona Maria? Quem foi rei sempre tem majestade...
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VIDIGAL - Hão de ficar mais contentes... não lhes digo porque...
VIZINHA - Esta agora é que é grande!
DONA MARIA - Vamos ver o que será!
COMADRE - Já sei, é...

(Leonardo surge fardado e de granadeiro. Usa bigodes e suíças. Exclamação geral. Entram
o Padrinho, Luisinha, granadeiros , escravas, etc.)

COMADRE - Leonardo!
LEONARDO (Fazendo continência.)- Pronto, senhor Major!
VIDIGIAL (Empertigado.) - Descansar!

(As mulheres e o Padrinho abraçam Leonardo, este procura o olhar de Luisinha.)

COMADRE - Senhor Major, visto tratar–se de um moço...


VIDIGAL - Granadeiro, alto! ( Tira do bolso medalhinhas ou divisas, ou as duas
coisas. Vai até Leonardo e coloca–lhe o braço a divisa e no peito a medalha.) Sargento
Leonardo, à vontade.

(Palmas, risos. Leonardo afasta–se com Dona Maria, voltando ambos em seguida.)

DONA MARIA - Senhor Major Vidigal, a mão de minha sobrinha Luisinha acaba de
ser pedida pelo sargento Leonardo... (Palmas.) No caso, teria muito gosto se...
COMADRE - Oh, senhora por quem sois, por que este se? Onde está o mal?
Aonde?
DONA MARIA - ... se não se tratasse de um sargento de linha. E, como sargento de
linha não pode contrair matrimônio... Não é verdade, senhor Major?
TODOS - Oh!...
DONA MARIA - E depois, se fosse possível uma demanda... Como vêem, com o
batalhão do senhor Major eu não posso abrir uma campanha...
VIDIGAL - Oh, senhora, em se tratando da felicidade de vossa sobrinha...
TODOS - Viva o senhor Major!
VIDIGAL - O rapaz vai ter baixa na tropa de linha, passando, no mesmo posto,
para as milícias.

(Pela esquerda e direita entram Vidinha e José Manuel; depois, a Mãe de Vidinha, os
Primos, etc.)

TODOS - Um Sargento de milícias!


VIDIGAL - Mas senhora, o prometido?...
DONA MARIA - O prometido, prometido. Aqui está a minha mão.

(Dona Maria dá a mão a Vidigal. Leonardo a Luisinha. A Comadre chora. Espanto geral.)

113
DONA MARIA - Que tendes, senhora?
COMADRE (Depois de alguns soluços.) - Saudades, Dona Maria, Saudades.
DONA MARIA - Mas ninguém se vai embora...
COMADRE - Qual, Dona Maria, Leonardo casado, missão cumprida. Fez–me rodar
algumas vezes os miolos, mas confesso que até gostava, eram doidices de criança...
Agora vou arrumar os meus trens e voltar às minhas missas, começando logo pela
madrugada da igreja da Lapa, às oito na Sé e às nove em Santo Antônio. (Chorando.) Vou
consagrar–me de corpo e alma às coisas da Igreja, senhor Vidigal, já que não me fica bem
- não acha, vizinha? - Freqüentar, sem o afilhadinho, a casa deste bom homem (Aponta
para o Padrinho.), que vive sozinho, praticando a castidade.
PADRINHO - Oh, comadre a casa é vossa.
COMADRE - Compadre, e as más línguas? Eu, uma devota?
VIZINHA - Tem razão, senhora.
DONA MARIA - Ah, não, a comadre não nos pode abandonar.
LEONARDO - Padrinho... madrinha... se quisessem...
DONA MARIA - O dia é para casamentos, não acha, compadre?
VIZINHA - Não se acanhe, vizinho.
LEONARDO - Padrinho, madrinha...
PADRINHO - É, valham–te os anjos, meu menino.
VIDIGAL (Impaciente.) - Homem, você ainda não entendeu?

(Música do início da peça.)

PADRINHO (Segurando a mão da Comadre.) - Ai que as minhas pernas estão


trêmulas...
COMADRE - Cristão de Deus, se lhe dá prazer, aceito, mas não se amoleça antes
do fim
- CORTINA –

114
GRAÇA E DESGRAÇA NA CASA DO ENGOLE–
COBRA

1957

115
PERSONAGENS:
CANTADOR
VELHO
VELHA
MIQUILINA
CHIQUINHO
VIZINHA
DOIS SOLDADOS

116
Fachada de pequena casa na paisagem do sertão nordestino. Vem o Cantador, abanca-se
no terreiro e canta acompanhado da viola.

CANTADOR - Tenho um caso pra contar


digno de dar-se atenção
de um pobre casal de velhos
que morava no sertão
tinha uma filha danada
eram três cobras do Cão.

Esse velho de quem falo


se chamava Zeferino

ENTRA O VELHO.

- ói ele aí...
mais ruim do que pecado
imundo que nem suíno
um desse que vem ao mundo
por capricho do destino.

Tinha o velho as pernas tortas


a boca grande aleijada
o pau da venta quebrado
uma orelha era cortada
o bucho grande e peludo
barba vermelha assanhada.

Feiúra mais safadeza


o velho tinha de sobra
valente mas só brigava
com a mulher e a sogra
por ser feio horrivelmente
era chamado Engole–Cobra.

ENTRA A VELHA.

- tão vendo? eita bicho feio...


Era mulher desse velho
uma velha debochada
117
que se chamava Damiana
enredeira e malcriada
onde morava vivia
com os vizinhos intrigada.
Então a filha dos velhos
se chamava Miquilina

ENTRA MIQUILINA.

- eita cabrita azougada!


com treze anos de idade
ainda quase menina
muito bonita porém
malcriada e libertina.

Miquilina amava muito


um filho de seu padrinho
que se chamava Francisco

ENTRA CHIQUINHO

- ói ele aí...
mas no apelido Chiquinho
e os velhos não sabiam
do namoro dos bichinhos.

SAEM OS QUATROS PERSONAGENS.

Saíram? Pois é. Então


vamos ficar no sereno
com bastante precaução
pois o amor quando chega
causa muita congestão
e ninguém sabe se os velhos
concordam com tal paixão
e abrandar a tal coceira
com uma santa união
ou
se não vão é botar lenha
e atiçar o fogueirão
mode assar a macacheira
na brasa viva do chão
118
e tudo virar folguedo
praza Deus o Diabo não.

AFASTA-SE O CANTADOR. MIQUILINA ESTÁ NA JANELA, À ESPERA DE CHIQUINHO.

MIQUILINA (cantando) - Rosa branca e amarela


encarnada lá nos montes
esse nosso amor é velho
não é de hoje nem de ontem.
VOZ DA VELHA - Miquilina ô Miquilina
MIQUILINA - Não vou não mãe.
VOZ DA VELHA - Vem cá, raça de cobra caninana.
MIQUILINA - Racha a cabeça, chaleira velha, que eu lá não vou, não vou não, não,
não vou porque não quero. (Canta:)
Macaco no mato
não tem que fazer
trepado no pau
comendo dendê
oi
macaco no mato
não tem que fazer
trepado no pau
comendo dendê.

SURGE CHIQUINHO MONTADO NUMA BURRINHA.

CHIQUINHO - Cravo branco na janela


certamente é pra vender
quem tem seu amor defronte
nunca se cansa de ver.
MIQUILINA - Manjericão miudinho
salpicado de a b c
meu coração só me pede
que eu me case com você.
CHIQUINHO - Rosa branca dilurida
no ramo a se balançar
hei–de ter muito desgosto
se contigo não casar.

CHIQUINHO SALTA DA BURRA E APROXIMA-SE DE MIQUILINA

CHIQUINHO - Miquilina meu benzinho


119
vim pedir a tua mão.
MIQUILINA - Aqui estou meu alecrim
me pede toda inteirinha.

MIQUILINA E CHIQUINHO SE ABRAÇAM E CANTAM UM BAIÃO.

MIQUILINA - Êh Chiquinho como é que se namora?


CHIQUINHO (tonto pelo cheiro de Miquilina) - A moça do lado de dentro
o rapaz do lado de fora.
MIQUILINA - A moça chama pra dentro
CHIQUINHO - O rapaz chama pra fora –
viu bem?
MIQUILINA - Êh baião, baião, baião!
CHIQUINHO- Êh baião, baião, baião!

O VELHO, TODO ENTREVADO, APARECE NO TERREIRO.

VELHO- Este animal é do compadre Zé Socó Sossendo. (A burra tenta escoicear o


Velho.) Te arreda pra lá burra velha! Ih, lá está grudado o Francisco do compadre. Ei,
que missiva traz, menino? Eu tou é aqui, não é na janela não. Ou tu não tá me vendo?
Vamos, desembucha.

MIQUILINA SOLTA CHIQUINHO E DESAPARECE.

CHIQUINHO - Sua benção, meu padrinho.


VELHO –Teja abençoado. Ih, tá vermelho, descoroçoado, com cara de quem andou
se esforçando... Vamos lá. Arrota. Ou tu viu aparição?
CHIQUINHO - E vi mesmo! E estou numa fogueação...
É que eu gosto de sua filhinha
de todo o meu coração
aqui vim só decretado
para lhe pedir a mão.

ENTRA A VELHA.

VELHO (tossindo) - Pra que tu quer a minha mão?


CHIQUINHO - Nhor não, é a mão dela, de Miquilina.
VELHO - A mão de Miquilina? Tá bestando, menino? Isso não!
CHIQUINHO (raivoso) –Aqui estou seu Zeferino
seja agora positivo
já que faltou a meu pedido
me diga logo o motivo.
VELHO- É porque os moços d'hoje

120
vivem só de molecagem
de jogo, farra e cachaça
preguiça e malandragem
velhacaria e pilhéria
mentira e pabulagem.
CHIOU INHO - Menos eu, meu padrinho.
VELHO - Começa no tal sapinho
que ela acha gostoso
ela aí dá sapo nele
dizendo totó cheiroso
ele apalpa... o rosto dela
tem calafrio nervoso.
CHIQUINHO - Meu padrinho, deixe disso!
VELHO- Daí começa a intimidade
na maior devassidão
e o que ele ansiava
era saciar a paixão
termina assim o namoro.
VELHA- E a moça?
VELHO- Virando pé de mamão.
CHIQUINHO - Isto é um falso! um falso!
VELHO- Os namoros de hoje em dia
são aulas de corrupção
cujo mestre é o cinema
onde há descaração
se aprende tudo que é feio
como única diversão.
VELHA - Isto mesmo Zeferino!
Pois sabe o que me contaram?
que a Zulmirinha Feitosa
foi no quarto de Zé Garcia
junto com a Sinforosa
tomar um livro emprestado
que ensina cena amorosa,
VELHO - Virge! Que coisa mais horrorosa!
VELHA - Vou prender a Miquilina!

A VELHA SAI.

121
VELHO- E assim senhor Francisquinho
estamos já conversados
eu não tenho a minha filha
pra dar a cabra safado
se você pensava nisso
estava muito enganado
e desde já finalmente
comigo fique intrigado.

O VELHO DÁ AS COSTAS PARA CHIQUINHO E SAI ARRASTANDO AS MULETAS.


CHIQUINHO MONTA NA BURRA COM RAIVA DE CACHORRO DOIDO E PENSA ROUBAR
MIQUILINA.

CHIQUINHO - Ai diabo...
Vou montado desse jeito
quase dando a hidrofobia
pensando raptar a moça
antes que chegue outro dia
sem ter falado com ela
como é que poderia?

CHUIQUINHO SAI. O VELHO VOLTA GRITANDO.

VELHO - Miquilina ô Miquilina!

ENTRA MIQUILINA, SARACOTEANDO.

MIQUILINA - Que é meu pai?


VELHO- Ou calangra, tu já pensa em se casar?
MIQUILINA - Já.
VELHO- Vem cá, lagartixa atrevida
que eu quero te matar!

O VELHO TENTA PEGAR MIQUILINA, E ESTA, CONTINUANDO NOS SARACOTEIOS, GRITA:

MIQUILINA - Ai, ai, ai!

A VELHA OUVINDO OS GRITOS CORRE PARA O TERREIRO.

VELHA- Zeferino ando cismada


há dias com esse assunto
e pelo jeito que veio
hoje aqui fede a defunto.
- Miquilina tá embeiçada pelo Francisco do compadre

122
Zé Socó Sossendo?
VELHO- Tá.
VELHA- Pois ela vai é entrar na peia!
MIQUILINA - Dê o caso no que der
mas eu me caso é com ele
haja aqui o que houver
pode me matar de peia
porém mata é uma mulher!
VELHO- Ô cabrita malcriada
não te dei educação?
porque saiu tão danada
puxando a tua mamãe
surucucu assanhada?
VELHA- Ela puxou foi a tua
raça de serpente pura
mas se ela não deixar
essa malvada quentura
eu baixo–lhe o pau pra riba
e lhe quebro a rapadura.
MIQUILINA - Escute aqui minha mãe
faça outra coisa essa não
eu caso embora a senhora m
e negue a sua bênção
se casar fosse quentura
mamãe já era um carvão.

OS VELHOS DÃO UMA SURRA EM MIQUILINA PRENDENDO-A NA CASA. ESCURECE.


MIQUILINA ARROMBA O TELHADO E SAI DA PRISÃO

MIGUILINA (gritando) - Raça de traíra dos diabos! Vou para os braços de


Chiquinho ou então vou para a morte. Falei!

CHIQUINHO APARECE MONTADO NA BURRA.

MIOUILINA - Chiquinho me acode e me salva!

CHIQUINHO SALTA DA BURRA E ESTENDE OS BRAÇOS PARA RECEBER MIQUILINA.

CHIQUINHO - Pula!

MIQUILINA PULA NOS BRAÇOS DE CHIQUINHO.

MIQUILINA - Ai!

123
CHIQUINHO - Que foi?
MIQUILINA - A unha nasce do dedo
o dedo nasce da mão
a mão nasce do braço
o braço nasce do vão.
CHIQUINHO - O fogo nasce da pedra
a pedra nasce do chão
o amor nasce de dentro
do intrior do coração.
MIGUILINA - Ai!
CHIQUINHO - Que foi?
MIQUILINA - Nada não. O intrior.
CHIQUINHO - Miquilina, vim te roubar.
MIQUILINA - Me leva toda inteirinha
sou tua noiva fiel
até antes de casar.

APARECE A VIZINHA COM AS MÃOS NA CADEIRAS.

VIZINHA - Xiporra! Tou besta! Tou abestada!


Minha gente venha ver
a vidinha do preá
morando nas macacheiras
comendo sem trabalhar!
- Ai, ai, ai, ai! (Sai.)
MIQUILINA - Ih, a Vizinha viu tudo! E agora? E agora o que é que vão dizer de
mim, hem? Tou numa vergonha...
CHIQUINHO- Salta na garupa Miquilina.

OS DOIS MONTAM NA BURRA.

CHIQUINHO - E vamos pros pés do padre, já!


MIQUILINA - Moço educado e distinto
vai levando Miquilina
para com ela se casar.
CHIQUINHO - Mas antes primeiramente
lhe pergunto Miquilina
cadê aliança e véu
grinalda e rosa menina?
MIQUILINA - Miquilina, pobre de ti, menina... Ah, tá refugando, não é? Comeu,

124
agora tá enfarado.
CHIQUINHO - Tou não. Tou é querendo mais.
MIQUILINA - Isso de véu e grinalda
posso botar qualquer dia
mas antes primeiramente
é pra enganar freguesia.
CHIQUINHO (fustigando a burra) - Upa, vai lá!
MIQUILINA - Vai lá, upa, upa!
CHIQUINHO - Estrelinha miudinha
corre logo numa linha
MIQUILINA - Mais depressa corre o beijo
de tua boca para a minha.

A BURRA SE AFASTA CARREGANDO OS NOIVOS. ENTRA A VIZINHA.

VIZINHA - Credo!
Na mocidade de hoje
campeia a devassidão
tamanha a libertinagem
que só sendo arte do Cão
- pílulas! tou tonta!
fui cagar dentro do cofo
me esqueci caguei na mão.

A VIZINHA DANÇA EXALTADA.

VIZINHA - “Pinião pinião pinião


eita pinto correu co medo do gavião!
por isso mesmo sabiá cantou
bateu asa avoou
foi comer melão
pinião pinião pinião".

A VIZINHA SAI. O COCORICÓ DE UM GALO. AMANHECE.ENTRA A VELHA

VELHA (gritando) - Zeferino, ô seu Zeferino, Miquilina se soltou e fugiu e avoou!

ENTRA O VELHO, RAIVOSO.

VELHO- Avoou? Avoou pra donde?


VELHA- E eu sei lá? Pras moitas, pras ribanceiras, feito cachorra no cio.
VELHO- A culpa é tua alcoviteira
troço de ponta de rua

125
biscaia velha fouveira
ou tu me dá conta dela
ou eu te mato chaleira.
VELHA - Alcoviteiro é tu - safado
barba de pai de chiqueiro
troço é tu - engole cobra
perna de urubu cangueiro
boca de fole rasgado
viado velho galheiro.

O VELHO PARTE PRA VELHA E LHE DÁ UM MURRO TÃO DANADO QUE A POBRE SE
ESBORRACHA NO CHÃO. A VELHA SE LEVANTA ESPIRRANDO COMO UM BODE.

VELHA - Zeferino - velho doido


você comigo não pode
te passo as unhas na cara
e te arranco o bigode.

A VELHA ARRANCA O BIGODE DO VELHO.

VELHO - Damiana ô dor malvada!


te mato velha do Cão!

OS VELHOS SE AGARRAM DE MURRO, COICE E EMPURRÃO,QUEBRAM POTE PANELA E


FOGÃO, VIRAM UMA SACA DE FARINHA E ESBAGAÇAM UMA GALINHA CHOCA. A
VELHA AGARRA O VELHO COM OS DENTES NO CACHAÇO E SE O VELHO NÃO SE FAZ
DE LIGEIRO ACABA SENDO MASTIGADO.

VELHO - Arre! você me mordeu


ô cachorra mordedeira
espera que já te pego
e te passo uma rasteira.

MAS É A VELHA QUE PASSA UMA RASTEIRA NO VELHO.

VELHO - Damiana velha do Cão


hoje te mato cadela!

O VELHO DÁ UM COICE NA VELHA POR CIMA DO ESPINHAÇO. A VELHA SE LEVANTA


COM O DIABO NOS COUROS, PEGA UMA MÃO DE PILÃO E ESBAGAÇA A CABEÇA DO
VELHO. NISSO CHEGA A VIZINHA QUE, VENDO AQUELA CENA DE SANGUE COMEÇA A
GRITAR:

VIZINHA - Acudam! Apareça um cristão de coragem! A urubuzada tá abaixando, é

126
uma sangueira doida, uma salmoura só, mode que até parece mais o abate dum boi,
uma matolotagem! Acudam todos que Damiana acaba de esbagaçar a cabeça do Engole-
Cobra! Eu disse: Engole-Cobra!

CHEGAM DOIS SOLDADOS. A VELHA CONTINUA PULANDO METENDO RABOS-DE-


ARRAIA, FUMAÇANDO. A VIZINHA PULA NUMA PERNA SÓ.

VELHA- Essa canalha ou corre ou morre ou se dana!


SOLDADO- Esteja presa, velha malvada, bandida!

A VELHA LUTA COM OS SOLDADOS, MAS É PRESA E ARRASTADA. A VIZINHA TAMBÉM


SAI. ENTRA O CANTADOR. SENTA-SE. ABANA-SE

CANTADOR - É...
A Velha custou a se entregar
mas afinal foi rendida
foi descansar na cadeia
devido a luta renhida
porém bordando uns cueiros
enquanto aguarda a saída.
Assim findou-se esta cena
transcorrida no sertão
se dela ninguém faz caso
se não dá pra diversão
é que tem dia que a gente
se encontra inspirado não.

Fim

127
A NOVA HELENA

1957

128
PERSONAGENS:
ENGRÁCIA
MANUEL
SANTANA
PEDRO
COQUINHA
GERTRUDES
ROSAMUNDA
VIZINHA
VIZINHO
AVÔ
SEGUNDA VIZINHA
SOLDADO
DELEGADO
PREFEITO
PADRE

129
Numa cidadezinha do Nordeste. Fachada de casas à direita e esquerda. Ao centro, um
banco. Noite. Ponteio de viola. Uma voz a cantar –
“Todo mundo quer ser bom
ruim ninguém não quer ser,
todo mundo quer matar
porém ninguém quer morrer.”

(Manuel - 16 anos - está em cena. De uma das casas sai dona Engrácia)

ENGRÁCIA - Manuel... ô Manuel... Gente, tu não responde não?


MANUEL - Nhora...
ENGRÁCIA - Achou Helena?
MANUEL - Nhora não.
ENGRÁCIA - Aí, parado, não pode mesmo encontrar nada.
MANUEL - Pai não saiu com Pedro?
ENGRÁCIA - Bonito! Teu pai batendo mato com uma criança de dez anos e tu aí,
na leseira. Pois eu quero Helena. Anda. Te mexe.
MANUEL - Tá escuro, mãe.
ENGRÁCIA - Tamanho marmanjo... Me dá conta dela.

(Entram Pedro e Santana.)

ENGRÁCIA - É Santana?
SANTANA - Eu mesmo, mulher.
ENGRÁCIA - Nada?
SANTANA - Nem rastro, nem cheiro. Abriu-se o chão e ela se meteu dentro.
PEDRO - Sumiu. Só sendo mesmo empautada.
ENGRÁCIA - Empautada coisa nenhuma! Gente, e tu já sabe de coisas de pauto?
Se tivessem mais cuidado isso não tinha acontecido.
SANTANA - Pois agora eu quero é a janta. Amanhã se torna a bater caminho.
ENGRÁCIA - Vou descobrir o paradeiro dela. É capricho!
SANTANA - Nosso, mulher, mas vamos pra janta.

(Engrácia, Santana e Pedro entram em casa. Coquinha surge à porta de casa que faz
frente à de Santana. Traz um embrulho nas mãos.)

COQUINHA - Manuel...
MANUEL (correndo para abraçar Coquinha) - Coquinha...
COQUINHA - Meu Manuelzinho, você me quer bem, mesmo?
MANUEL - Mesmo muito.
COQUINHA - Muito, muito?
MANUEL - M - u- i - t - o .
130
COQUINHA - O que você aperta aí? (Manuel mostra-lhe a mãos aberta.) Um
carvão, Manuel?
MANUEL - Pra riscar um coração. (Risca no chão um coração.) E você, o que você
traz neste embrulho?
COQUINHA - Ah, Manuel, adivinha.
MANUEL - Gente, e eu sei adivinhar?

(Coquinha abre o embrulho que escondia uma patinha branca.)

MANUEL - Helena, Helena! Mãe vai ficar é satisfeita! Onde estava ela, Coquinha?
Aonde?
COQUINHA - Sabe, ela está chocando. Uma ninhada de dez ovos! E sabe onde? No
nosso quintal. Na moita das ervacidreiras!
MANUEL - Oi, me dá ela.
COQUINHA - Não, Manuel.
MANUEL - Coquinha, a mãe...
COQUINHA - Não dou não.
MANUEL - Escute, ela é da gente.
COQUINHA - Agora é minha, ouviu? A bichinha...
MANUEL - Coquinha, entenda, a Helena é nossa.
COQUINHA (levantando-se, para entrar em casa) - É minha, é minha. Você não diz
nada não, Manuel? Você jura?

(Ambos se encaminham para suas casas. Manuel, indeciso, tenta dizer qualquer coisa.
Entra, porém, sem dizer nada. Escurece.)

“Eu sou pior do que onça,


porém não pego à treição,
gosto de avisar o brabo
e pegar ele na mão.”

(A ação vai do meio-dia até o anoitecer. Movimento de vizinhos que entram e saem das
casas de Coquinha e Manuel. Gertrudes a mãe de Coquinha, está à porta, a tia
Rosamunda, à janela. À porta da casa de Manuel estão Santana e Engrácia. Rosamunda
bate a janela para desfeitear os vizinhos. Engrácia solta uma gargalhada. Chega um casal
de vizinhos.)

VIZINHA - Meus pêsames.


GERTRUDES - Ah, minha comadre, é na desgraça que a gente conhece os amigos!
VIZINHO - O que foi mesmo? Ouvi dizer, assim por alto, mas não assuntei bem. O
que foi?
GERTRUDES - Um desaforo, compadre. Um desocupado aí, que teve a ousadia de
131
pular a cerca do meu quintal, nesta madrugada. E para quê, hem? Aí é que está...
ENGRÁCIA - Não tem cristão que dê jeito. A ferro ou a fogo ela vai sair.
ROSAMUNDA - Pois se tu for mulher, experimenta. (Bate a janela.)
ENGRÁCIA - Vai pro teu caritó, que eu já tou é enfezada!
GERTRUDES - Entra comadre, entra compadre.

(Entram. Aparece o Avô de Coquinha, de roupa branca e chapéu de palha. Distrai-se


tirando fitas do bolso.)

ENGRÁCIA - Vejam só a cara deste velho mijão!

(O Avô cumprimenta, risonho, os “novos inimigos". Continua a tirar fitas do bolso. Pedro
vem de rua. Traz, às costas, uma espingarda. Coquinha aparece e, medrosa, agarra-se ao
Avô. O velho tenta brincar com a menina, com suas mágicas de fitas saindo dos bolsos.)

COQUINHA - Eles vão matar a Helena. Eles juraram...

(Surgem duas Vizinhas. O Avô e Coquinha entram em casa.)

1ª VIZINHA - O que foi? O que sucedeu?


2ª VIZINHA - Tiro!
1ª VIZINHA - Tiro? Não assuntei, gente!
2ª VIZINHA - Tiro? Quem falou em tiro?
1ª VIZINHA - Ai-vai, não foi você?
2ª VIZINHA - Eu? Eu falei em tiro?
ENGRÁCIA - É hoje o desenraba!
2ª VIZINHA - Aonde, dona?
1ª VIZINHA - Contra quem, dona Engrácia?
ENGRÁCIA - Um bagaço ali, de vizinhança...
SANTANA - Ou entregam ou se danam!
1ª VIZINHA - Roubaram algum bodinho de vosmecê?
SANTANA - Bode? Que elas não se atrevam...
PEDRO - Roubaram mas foi a nossa pata.
2ª VIZINHA - Pata? Pata que anda nágua?
ENGRÁCIA - Pata, mulher. Que havia de ser?
VIZINHAS (espantadas) - Oi, virgem das Dores nos assista! Credo! (Saem
correndo.)
(Santana, Engrácia e Pedro entram em casa. Gertrudes e Rosamunda aparecem
com o casal de Vizinhos.)
GERTRUDES - A ira toda, compadre, é contra duas mulheres desamparadas...
ROSAMUNDA - Raça de cascavel...
GERTRUDES - Por isso é que eu tou pedindo esse favor ao compadre - o favor de
132
me emprestar a sua espingardinha, pois só temos uma, a da Rosamunda, e a espingarda
da Rosamunda anda é enferrujada...
VIZINHO - Pois mode não é?
ROSAMUNDA - Pois não viram ainda agora? Fui disparar a diacha, em revide, e a
porqueira da lazarina o que fez foi bater catolé.
GERTRUDES - Combinado, compadre?
VIZINHO - Combinado.
GERTRUDES (para a Vizinha.) - Ah, Maria, você podia ficar pra nos dar um
adjutório. Hoje não botei nem fogo nas trempes, e não vai ter comida mesmo, Maria, pois
a Rosamunda não tem feito outra coisa senão preparar cartuchos, e eu também, com
razão. E com Coquinha não conto, que é manteiga derretida, a chorar, e pai é aquela
negação. Não toma conhecimento de nada, nem da honra das filhas. É só com o diogo
das mágicas.
VIZINHA - Ai dona, mas eu não posso ficar. E os meninos que eu deixei em casa?
GERTRUDES - Tá bom, menina. Mas quero que o compadre me garanta a
espingardinha. É um favor.
VIZINHO - Nhora sim. Vamos chegando, Maria.

(Os Vizinhos saem. Ouve-se um tiro. Entra um Soldado. Santana aparece, seguido de
Engrácia e dos filhos. O Soldado - tímido - presta acanhada continência.)

SOLDADO - Vosmecê, seu Luís Santana, pode me informar donde tá vindo como
que um baruínho de tiro?
SANTANA - O quê?
SOLDADO - Releve a pergunta, mas é que seu Delegado mandou pôr reparo nesse
negócio. Assim como se diz, pra assuntar.
SANTANA - Que negócio?
SOLDADO - Uns tirinhos que o chefe andou escutando... assim como, que
respondendo lá de debaixo da terra.
SANTANA - Vai dizer a teu Delegado pra ele vir cá, que quem tá atirando é o
reconhecido coronel Luís Santana e os seus meninos.
ENGRÁCIA - É a mulher do coronel Santana. Entendeu?
SOLDADO - A gente cumpre ordem, não foi pra ofensa não.
SANTANA - E tinha muita graça se fosse pra ofensa. Ora, suma do meu terreiro,
seu impaludado.

(O Soldado sai. Santana, Engrácia e Pedro soltam gargalhadas. Manuel, cabisbaixo, não
participa da excitação da família.)

ENGRÁCIA - Gente, vocês viram a vitalina da Rosamunda, de espingarda na mão?

133
PEDRO - Êta canhão véi na marca federal!

(Risos. Todos, com exceção de Manuel, entram em casa. O Vizinho, com uma espingarda,
surge cauteloso. O Avô aparece. Tira uma fita e dá um laço na espingarda do Vizinho. O
Vizinho se assusta. O Avô sorri. Faz um cumprimento e logo reinicia o jogo das fitas.
Gertrudes e Rosamunda aparecem.)

GERTRUDES - Opa, compadre, que esta é das boas. Vai ouvir falar da pontaria de
sua comadre. Dê cá a fumegante.
(Saem. O Avô continua no seu brinquedo. Entra Coquinha.)
COQUINHA - Manuel
MANUEL - Coquinha! (Corre a abraçara menina.)
COQUINHA - Estou com medo, Manuel.
MANUEL - Ora, Coquinha.
COQUINHA - A Helena desapareceu. Foi roubada. Vocês são maus...
MANUEL - Pois ela não está em casa, te garanto. Se estivesse...trazia para você.
COQUINHA - Trazia nada. Jura?
MANUEL - Juro.
COQUINHA - Jura mesmo?
MANUEL - Juro mesmo.
COQUINHA - Jura o quê? Você está mas é jurando falso. Você está mas é com a
sua mãe, que é uma mulher danada.
MANUEL - E você com a sua, e com a sua tia Rosamunda, que é uma cobra de
chifre.
COQUINHA - E teu pai? e o malvado do teu irmão? Foi ele que pulou o nosso
quintal, para roubar a Helena.
MANUEL - Pois a pata não está em casa. Senão... mãe já tinha se aquetado.

(Um tiro. Os dois se separam. Chegam as Vizinhas e, em seguida, o Delegado e o Soldado.)

DELEGADO - Oi de casa, oi de casa!

(Santana, Engrácia, Pedro e dois Empregados aparecem. Na casa defronte, Gertrudes e


Rosamunda. Coquinha e o Avô saem.)

DELEGADO - Estejam todos presos, e vamos pra Chefatura, para o depoimento


das partes.
SANTANA - É caçoada com a família Santana?

(Pedro atira. As Vizinhas se espantam. Rosamunda tenta atirar, mas a espingarda nega
fogo.)

DELEGADO - É um covil! Vamos, se entreguem! Estejam rendidos!

134
SANTANA - Escuta, seu boneco de melancia, não se meta em negócio de bicho
macho. Vá chamar o Prefeito, diz pra ele trazer mais dez delegados, mais reforço e
munição. Ouviu bem?
DELEGADO - Ora, vamos deixar de foba. Isto aqui não é mais lugar pra cangaço e
o homem já anda é enjoado de vocês, e não quer conversa fiada não. Fim de valente é
cova em beira de estrada.

(Pedro atira. Correrias. O Delegado procura defesa. Entra o Prefeito sem ser notado pelos
brigões, apesar do porte imponente, de pose de chefe político, de guarda-chuva aberto.)

SANTANA - Diz a teu chefe que ele não conte mais com a família Santana, com o
eleitorado do Olho dágua das Pombas, com os Melo da Serra Grande, com os Andrade da
Varginha, os Castro, os Pires, o Santaninha, os Araújo, os...
PREFEITO - Boas tardes...
SANTANA - ... que eu já tou é farto, que já deixei de mão esse tal de PSD. Ouviu?
PREFEITO - Coronel Santana, não se aborreça...
SANTANA - Ah, aí está o homem! Como não me aborrecer, senhor Prefeito? Então
é esta a paga do meu eleitorado? Então um homem da minha elevação é desacatado
assim, por um qualquer?
PREFEITO - O Delegado é novo no município e por isso não entendeu as minhas
ordens. Abusou, aliás. (Ao Delegado.) Ora, seu Rufino, então quais foram as minhas
ordens?
DELEGADO - O senhor Prefeito disse...
PREFEITO - Não, não. Não adianta argumentar. Desde já considere-se demitido.
DELEGADO - Pois se vosmecê mandou pôr cobro no tiroteio?
SANTANA - Que tiroteio? Uns chumbinhos aqui, dos meninos. Coisa mais pra
espantar ladrão de galinha.
PREFEITO - Estrelinhas de São João, estou vendo. Espanta-coiós, traques... Essa
gente, coronel, para pra aforismar as coisas.
GERTRUDES - Aforismar nada, doutor Alencar. Isso aí é coito de cangaceiros.
ROSAMUNDA - É gente que vive solta porque enfim...
ENGRÁCIA - Ora que esta sirigaita...
PEDRO - Caritó arrenegado!
ROSAMUNDA - Arrenegado é tu e a tua...
SANTANA - Vamos parar, mulher.
ROSAMUNDA - Não paro. A boca é minha. É forra!
PREFEITO - Mas que desespero é este? que bicho mordeu a senhora?
ENGRÁCIA - Já lhe digo, doutor, é que elas nos roubaram uma pata, uma pata de
estimação - a Helena - e daí ela é nossa, a Helena. Está no direito da gente reclamar o
135
que é nosso.
SANTANA - E dê lá no que der. Se o bicho é nosso...
GERTRUDES - Era. Agora está na nossa casa o veio com os pesinhos dela. Daqui
não sai. A não ser que ela queira voltar por sua livre e espontânea vontade.
PREFEITO - Pois não está certo. Bicho não sabe o que faz. Se o pato não pertence
às senhoras... Já se viu? (Ao Soldado.) Ô João, vai me chamar o senhor Juiz de Direito.
(O Soldado sai correndo.) Já se viu? Um pé de vento - e com razão - por causa de uma
penosa. Mas como foi o acontecido? É verdade que, pelo que estou vendo, o amigo
Santana - como não podia deixar de ser - está com a razão.
PEDRO - A pata é nossa!
ROSAMUNDA - Vírgula.
PREFEITO - Senhorita, vamos deixar de esquentação.
GERTRUDES - Doutor, se a pata preferiu a nossa casa... Se aqui comeu do meu
bom e do meu melhor...
ROSAMUNDA - Ali, coitada, a pobrezinha não comia.
SANTANA - Quem nos fala de comida... (Ri.)
ENGRÁCIA - Umas secas de borralho varrido.
GERTRUDES - Mas nunca fomos te pedir nada. Somos pobres, mas honestas.
ENGRÁCIA - Honestas... e o gado miúdo da vizinhança, sumindo.
ROSAMUNDA - Acabo fazendo uma desgraça!
PREFEITO - Calma, calma, calma!
ENGRÁCIA - Estão vendo? A pata é nossa e está na casa delas. Então?
GERTRUDES - E como soube, diga que eu quero saber, como soube que a patinha
estava aqui?
SANTANA - Doutor Alencar, o caso é este. Há uns quinze dias, Helena - ou melhor,
o diabo da pata - vinha se escondendo e só aparecia por cá na hora da ração. Tá vendo?
E elas dizem que não damos comida aos nossos bichos. Pois o certo é que, de quatro dias
para cá o sumiço foi completo. Cadê pata? Procura daqui, procura dali, nada, e a mulher
se enfezando e me enfezando. Sai Pedro no rastro. Sai Manuel - que vive mode que
dormindo em pé - nada. Nem faro de cachorro. E a mulher me aperreando, me
desesperando... Onde diacho se meteu a pata? E saio de casa a indagar pela vizinhança,
a bater mato, a me rasgar nos espinhos do capão... Nada. E tinha quem me informasse?
Foi então que o Pedro - que é muito atilado - desconfiou. Pulou a cerca de uma tal de
vizinhança e deu com a infeliz chocando uma ninhada.
ROSAMUNDA - Quem pula o cercado dos outros, o que é que é?
GERTRUDES - No nosso quintal só se vendo o estrago que fizeram. Quebraram o
milhinho que estava brolhando, reviraram rama de melancia com figuinha nova

136
vingando... uma lástima.
SANTANA - Está vendo o desaforo?
ROSAMUNDA - Quem pula cerca de madrugada, o que é que é?
ENGRÁCIA - Ô cascavel de vitalina! E o diogo da pata, onde está?
SOLDADO (voltando esbaforido) - Doutor, o doutor Juiz de Direito tá dormindo! E
que o homem não gosta de ser acordado quando tá dormindo.
PREFEITO - Eu vou acordar o Juiz, mas de já lhe afianço, coronel Santana: a
causa é sua. Adeus. E, se continuar a teima, se houver sangue, lavo as minhas mãos.
Tranqüilize-se, coronel, vence o Direito!

(Saem Prefeito, Delegado e Soldado. Engrácia, Pedro e os dois empregados perfilam -se ao
lado de Santana, em posição de ataque. Ajeitam as espingardas)

SANTANA - Ou entregam, ou correm ou se danam! Fogo!

(Atiram. Gertrudes, Rosamunda e Coquinha batem portas e janelas. Gritos de Gertrudes e


Rosamunda - "assassinos, cangaceiros.” Com o barulho, chega o Padre. Junta-se ao grupo
de Santana. Está afrontado e tenta conter os ânimos.)

PADRE - Homo homini lupus! Em nome de Deus e da Virgem de Fátima, cessar


fogo!

(Vozes de Gertrudes e Rosamunda -"bandidos!")

PADRE (pelo meio da pracinha, inquieto.) - Alguém está ferido? Que desatino,
meus caros paroquianos! Fiat lux! Um fósforo para tanta escuridão! Aqui está o Vigário, ó
filhos de Nínive e Babilônia, ó herdeiros de Nabucodonosor! Está alguém in extremis?
Apareçam, falem, confessem-se!
(Gertrudes e Rosamunda aparecem.)
PADRE - Vem cá. Rosamunda, quid novi? Se estás ferida vem confessar-me os
pecados.
ROSAMUNDA - Confessa aquelas onças, primeiro.
ENGRÁCIA - O senhor Vigário já viu tamanha ignorância? Bruta!
ROSAMUNDA - Bruta é tu!
PADRE - Rosamunda, Rosamunda, delenda Carthago!
SANTANA - Mas que tem seu Vigário com esta disputa? Isto é negócio de honra e
não de latim. E ainda não nasceu...
PADRE - Mas é a guerra? de bello Gallico? Digam, digam e eu os absolverei!
ENGRÁCIA - Não se cuida de galo, senhor Vigário. A coisa desandou quando
Helena sumiu, ou melhor, quando foi descoberto o rapto.
PADRE - Raptaram a moça? Mas estão em mancebia? Quis, quid, ubi, quibus
auxiliis, cur, quomodo, quando?
137
SANTANA - Seu Vigário embaraça tudo. Até parece de propósito.
PADRE - Filha de quem? quem a infelicitou?
ENGRÁCIA - Isto é, uma pata... É que ela atende por esse nome.
PADRE - O quê? Nome de gente em bicho? Um pato chamado Helena? O tempore!
PEDRO - Pato não, pata.
PADRE - Uma pata? (Benze-se.) O nome de Santa Helena, o nome de uma Santa, o
nome de uma grande Santa, o nome numa pata? Servum pecus, sceleratus! Herejes, digo!
GERTRUDES - Pois se eles são uns...
ENGRÁCIA - Hereje é a tua raça. Este velho aí que te botou no mundo, este
preguiçoso de marca, vadio sem remissão, inimigo de quem trabalha. Credo, isto aí tem
pauta com o Diabo!
PADRE - Paciência, meus caros paroquianos, mas nunca se deve botar nome de
gente, que é nome de santo, em bicho. Repito, nome de gente, que é nome de santo, em
bicho. Inda mais em pato que, dizem, é bicho excomungado.
PEDRO - Pata, seu Vigário. Ainda não entendeu?
PADRE - Pato ou pata, menino, é tudo o mesmo maneluís, in aeternum. Se o
macho é sem pudor, a fêmea não lhe fica atrás.
ENGRÁCIA - Até que não. Helena é pata e das boas, e é nossa, seu Vigário, nossa!
Prefiro ver ela morta e eu morta - ouviu? - a concordar com esse roubo.
ROSAMUNDA - Ladrona é tu.
PADRE - Veritas odium parit. Cala esta boca, Rosamunda, ou eu nunca mais
absolverei os teus pecados que - seja dito - não são poucos. E os de dona Engrácia
também. Então? Guerrear por causa de um pato... Também com esse nome de gente e de
santo - Santa Helena - vade retro!
PEDRO - Pato não, pata!
PADRE - Não atrapalha, seu corninho.
SANTANA - Ai, ai... que vosmecê fala fala e não resolve coisa nenhuma.
PADRE - Veni vidi vici, enfim... Mas por causa de uma pata? Vamos então pelo
princípio - pro patria semper - para chegarmos ao meio e depois ao fim. E então eu direi
quem está pecando. A pata era...
ENGRÁCIA - Era não, é minha.
PADRE - E está com a Rosamunda.
GERTRUDES - Está na nossa casa e é nossa. Daqui só sairá...
PADRE - Para a casa de Santana e...
ROSAMUNDA - Não senhor, seu Vigário, já é capricho. Daqui só sairá com o meu
caixão!
PADRE - De quem é o pato, afinal?

138
(Os Santana reiniciam o tiroteio. Gertrudes, Rosamunda e Coquinha saem. As Vizinhas
põem-se em guarda.)

PADRE - Acabou-se! Deixo os campos ubi Troja fuit! (Sai correndo.)

(O Avô aparece, puxando, do bolso, um grande lenço preto que se transforma, no mesmo
instante, em branco. Sacode-o para cima, como uma bandeira. Cessa o tiroteio. Todos
ficam admirados, ou melhor, assombrados com a “presença” do Avô. E vão fazendo um
círculo em tomo do velho. É quase noite.)

AVÔ - Helena... uma patinha branca... De quem era Helena?


ENGRÁCIA - Minha. Se pergunta é porque se faz de desentendido.
AVÔ - Sua?
ENGRÁCIA - Bem, para dizer com franqueza, a pata foi dada ao Manuel, inda
franguinha. Digo minha porque é nossa, é da casa.
AVÔ - Da casa... Vivia feliz na casa?
SANTANA - Que pergunta mais idiota. Quero lá saber se pato é feliz ou infeliz.
AVÔ - Pata. Coitadinha...
SANTANA - Come milho, como os outros. Solta bolachadas no chão...
AVÔ - Os outros também soltam?
ENGRÁCIA - Os outros bichos, ora essa.
AVÔ - Que outros bichos?
ENGRÁCIA - Ah bom.
AVÔ - Comer milho é bastante para uma pata?
SANTANA - Ora que conversa mais fiada...
AVÔ - E lá foi ela se aninhar na casa de Gertrudes, a minha filha.
ENGRÁCIA - Que foi, foi.
AVÔ - E por que ela fez isso?
ENGRÁCIA - Porque é uma mal-agradecida. Comeu do meu milho, emporcalhou o
meu terreiro e foi botar ovos para umas...
AVÔ - Jararacas. Concordo. A Rosamunda e Gertrudes são duas jararacas.
GERTRUDES - Virgem Maria, meu pai!
ROSAMUNDA - Um pai arrenegando as filhas!
AVÔ - Paciência, meninas, mas Helena não ia se livrar de uma para cair no papo
de outra se...
ENGRÁCIA - E que papo!
AVÔ - ... se uma razão mais forte não fizesse ela abandonar um quintal pelo outro.
SANTANA - Que razão? Bicho tem lá juízo.
AVÔ - Pois lhes digo a razão: Coquinha.
SANTANA E ENGRÁCIA - O quê?
139
AVÔ - Helena procurou as moitas de ervas-cidreiras por causa de Coquinha. Não
foi um pato que a desviou, como seria natural, pois eles não existem por aqui.
ENGRÁCIA - Tivemos vários. Comemos. Eram nossos.
AVÔ - Também não foi uma lagoa, que não possuímos lagoa. Aí ela tinha um
tanque e tinha milho.
SANTANA - Tinha e tem, graças a Deus.
AVÔ - Tinha. Também não foi o céu, que céu azul tem em toda parte. Portanto,
Helena escolheu Coquinha, para ela botou uma ninhada de doze ovos. Não, não a
chamem de ingrata, foi antes caso de afeição.
GERTRUDES - Que miolo mais mole tem meu pai.
AVÔ - É assim, nem Gertrudes nem Rosamunda, nem vocês aí, mas Coquinha.
Coquinha é a legítima dona de Helena. Não concordam?
SANTANA - Era só o que faltava!
ENGRÁCIA - Havia de ser muito engraçado. Pois prefiro ver ela morta. Digo-lhe
mais - comia, com prazer, todo o sobrecu daquela infeliz. Ai, com que satisfação
estraçalhava agora o pescoço da cretina! E lhe juro - ela hoje será ceia nesta casa!
AVÔ - E você, Gertrudes, e você, Rosamunda, vocês não vão entregar a pata a seu
dono?
ROSAMUNDA - A ceia é nossa. Asa nunca foi o meu pedaço preferido, mas hoje
vou comer as asas dessa sujeita.
AVÔ - Todos então preferem ver a pata morta?
SANTANA - Morta e estraçalhada!
COQUINHA - Não, avô, não!
AVÔ - Agora é tarde, Inês é morta!
TODOS - Oh!
AVÔ - Ou melhor, Helena está morta e assada. Eu a matei, eu a levei ao forno.
Está assada e cheirosa!
COQUINHA (Chorando.) - Não, avô... por que fez isso?
(O Avô entra em casa e logo volta com uma caçarola. Abre-lhe a tampa e aparece,
fumegante, um pato assado.)
TODOS - Oh!
AVÔ (Animado.) - Quem se habilita, quem se habilita!

(O Avô vai atirando pedaços do pato à direita e esquerda: coxas, pescoço,asas, peito etc.
Depois de ter aparentemente esvaziado a caçarola, retira, de dentro da mesma, viva, a
patinha branca, e a entrega a Coquinha. Exclamação geral. Uma lua grande, vermelha, vai
clareando a cena. Coquinha corre com a pata para o proscênio. Manuel junta-se a
Coquinha, e a abraça num misto de ternura e timidez.)

140
MANUEL - Coquinha...
COQUINHA - Que é?
MANUEL - Me dá a Helena...
COQUINHA - Não, Manuel, é minha.
MANUEL (Tentando segurar a pata.) - Mas Coquinha... você me ama?
COQUINHA - Te amo.

(Os dois se abraçam.)

ROSAMUNDA - Credo! Todo mundo emudeceu. Já se viu? Estou abismada!

(Em cima do banco, dominando a cena, o Avô atira fitas e ramos verdes, que se fixam no
chão e desabrocham em flores. Sorrindo, e também respeitosamente, tira, para todos, o
chapéu.)

Fim

141
UMA CARGA DE LARANJAS

1958

142
PERSONAGENS:
MANUEL
SOLDADO
MARIA
VELHA, mãe de Maria
CHIQUINHA, 10 anos
DELEGADO
INÁCIO MATEIRO
JOSÉ MANEIRO
SIÁ DONANA
SEUTÔNIO
PROCISSÃO (4 crianças vestidas de anjo e 4 músicos)

143
Fachada de Cadeia Pública, numa cidadezinha do Nordeste. Em cena: Manuel e o
Soldado. Manuel, de pé, cabisbaixo, com o seu chapéu de vaqueiro na mão; o Soldado,
sentado num banco tosco, conserta uma gaiola. Barulho de choro. Entram Maria, a
Velha, mãe de Maria e Chiquinho, este, de 10 anos.
MARIA (chorando) - Por que querem te prender, Manuel? que perseguição é esta?
Ai, ai... (Ao menino.) Toma a bença a teu pai menino.
CHIQUINHO (estendendo a mão) - Bença?

Manuel faz apenas um gesto, em resposta ao menino.

MARIA - Meu Santo Antônio de Campo Maior, me retire deste sobrosso! Ai, ai, ai...
VELHA - Te aqueta, Maria, que isso só pode ser fuxico desses diachos que têm
raiva do compadre Manuel.
MARIA - Mas como foi, Manuel? Que a gente tava na fonte quando foram avisar
desta desgraça. Ai que eu estou desadorada!
VELHA - Te aqueta, Maria, toma tenência. (Com doçura na voz.) Fala. meu
compadre.

Manuel, depois de um momento.

MANUEL - Eu tava acabando de enchiqueirar os bezerros, quando vi, lá pela


Pitombeira, um soldado. Então eu disse pro compadre Joaquim Quiba - que tava sentado
ao meu lado, no mourão do curral - até eu disse assim: "O que que aquele soldado anda
fazendo no rumo de cá? Eu não devo nada a ninguém." E lá vem o soldado, chega e
pergunta: "quem é aqui Manuel Pereira?" E eu respondo: "Sou eu." E ele diz: "Pois esteja
preso de ordem do Delegado."

Manuel passa a mão na testa, Maria chora. Chiquinho agarra–se à saía de Maria. A velha
enxuga os olhos com o pano que traz na cabeça. O Soldado, indiferente, conserta a gaiola.

MANUEL - Mas o que foi que eu fiz? Eu não roubei, não matei, como é que eu vou
preso? E ele aí diz que não sabe, que quem sabe desse embrulho é o Delegado, que já
vem.
MARIA - Mas Manuel, você não fez nada! Ai meu Santo Antônio, como é que vão
prender um homem inocente? Logo no dia da festa do Padroeiro? Só sendo mesmo sina...

Entram Delegado e Inácio Mateiro. O Soldado se levanta, faz continência e vai dependurar
a gaiola na parede da cadeia. Todos amedrontados com a presença do Delegada Maria
reinicia o choro, agora mais alto.

DELEGADO - Vamos acabar com isso, que isto aqui não é lugar de choro não. É
Cadeia, lugar de ladrão de bode, que é o que mais dá neste Campo Maior - ladrão e bode.
VELHA - Vige! O capitão Ari que diga se a gente já roubou alguma vez. A gente tá

144
lá no Araím desde que o compadre Manuel casou aqui, com a Maria. Se o Chiquinho
ainda não era nem nascido...
DELEGADO - Está bem. Não preciso dessa explicação. (A Manuel.) Como foi o caso
da carga de laranja que o senhor achou lá no Olho Dágua das Pombas?
VELHA - Laranja, fruita?...
DELEGADO - Me conte esta história bem contada. O que andava fazendo por lá?
MANUEL - Eu não roubei nada, seu Delegado. Antonte eu saí dali, do Araím, de
tardezinha, mais o Chiquinho. Fui dormir no Olho Dágua das Pombas, onde eu ia pegar
uma vaca parida. Me arranchei até na casa do compadre Lili. De manhã saí pro campo.
Lá na chapada eu vi mesmo um jumento com uma cangalha, e eu fiquei pensando até
que era gente apanhando piqui. Nunca nem fui lá.
DELEGADO - Pois aqui está, com a queixa, o dono das laranjas, seu Inácio
Mateiro.
MANUEL - Ah, nhor não! Como era que eu ia apanhar a carga desse homem se eu
andava no cavalo velho castanho de dona Esposária? Um cavalo que todo mundo
conhece aqui na vila, seu Delegado, aquele que caminha assim... (Fez com as mãos - de
munheca mole - o jeito do cavalo caminhar.) Como era que eu num animal daquele podia
trazer uma carga de laranja e mais o Chiquinho na garupa? O senhor não vê que essa
história é fuxico pra riba dos pobres?
DELEGADO (ao Mateiro) - Diga, homem, como soube do caso.
MATEIRO (tirando o chapéu) - Nhor sim. Hoje, de manhãzinha, encontrei o
compadre Florêncio lá pelo Deusdará. Tava eu ainda caçando o diabo das laranjas - que
o jumentinho eu já tinha achado. O compadre Florêncio me deu bom dia. Parou o seu
animal - uma besta alazã - e me perguntou como era que eu ia. Eu disse que ia meio
aperreado, mode que tinha perdido um jumento com uma carga de laranja, que o
jumento eu já tinha achado, mas de carga, nem sinal. E aí o compadre Florêncio se riu, e
me disse, assim como quem não quer: "Pois meu compadre, eu, de gente com carga de
jacá só vi, ontem, o compadre Manuel Pereira. Até pensei que ele andasse apanhando
piqui na chapada. Mas - me diz Florêncio - onde já se viu piqui no mês de junho?"
MANUEL - Só podia ser mesmo história do compadre Florêncio, que quer me fazer
mal. Aquele homem vive de impetica comigo desde o acontecido lá com a poldrinha dele.
MARIA - Aquilo é teu irmão e meu compadre, mas é homem inticante.
VELHA - E que culpa teve o pobre do Manuel se a poldrinha dele não vingou?
DELEGADO - Poldra? Que poldra que não vingou?
VELHA - É que o compadre trocou a poldrinha - que era até do Chiquinho - pelo
cavalo baio do compadre Florêncio. Cavalo já mudando de cor, como cobra muda de
casca. Pois vai, logo depois da troca, a poldrinha deu de amolecer nas juntas, assim

145
como cria enjeitada, com caganeira. E deram no sovaco - lá dela - uma sangria, e
mandaram rezar de aplaca. Ou coisa que a sangria foi forte ou coisa que a lua tava em
minguante, o certo é que meu padrinho José da Reza não conseguiu cortar o mal da
bichinha, que amunhecou logo ali no terreiro, e não teve oração que desse jeito.
DELEGADO - Quer dizer que o Manuel meteu uma bucha no Florêncio?
MARIA - Ai, e tem quem se livre de quebranto?
VELHA - Vai ver foi lá pela Distração que botaram o quebranto nela.
DELEGADO - Mas eu não estou com queixa de seu Florêncio, não. O negócio é o
das laranjas do Mateiro. (Ao Mateiro.) Disse que Florêncio estava aonde?
MATEIRO - No Deusdará.
DELEGADO - É lá que ele mora?
VELHA - Nhor não. É nas Cabaceiras.
MATEIRO - Mas o homem vinha pra vila, trazendo pra vender, numas sacas, uma
carga de jerimum - lá do quintal dele - me dizendo quando eu perguntei se era cera de
carnaúba que ele carregava.
MARIA - Minha mãe já viu rama de jerimum no quintal do compadre Florêncio?
VELHA - Adeus, que aquilo nem quintal tem... Jerimum ali só sendo pedra de
jacaré. (Solta uma risadinha.)
DELEGADO (ao Soldado) - Vai me procurar o tal de Florêncio, na feira.
(O Soldado sai.)
MARIA (batendo no boca) - Deus me perdoe se é aleive que estou levantando. Mas
uma coisa tá me dizendo que foi arte do meu compadre, e vai, lança a culpa no Manuel.
VELHA - Só pra agoniar o irmão, credo.
MANUEL - Eu, seu Delegado, nunca roubei laranja nem pra comer quanto mais
pra vender. Se eu roubasse eu hoje tava era arrumado, eu hoje era dono deste Campo
Maior. Todinho!
DELEGADO - E o menino que andava com você?
MARIA - O Chiquinho?
VELHA - É este. Fala, menino! Mode que tem medo de gente!
CHIQUINHO (estendendo a mão, gaguejando.) - Bem-ça...
DELEGADO - Deus te abençoe. Vem cá, Chiquinho...

Chiquinho, medroso, se aproxima do Delegado. Este passa-lhe a mão na cabeça.

DELEGADO (amigo) - Chiquinho é muito sabido... Ajuda o Manuel a pegar vaca


parida, não é Chiquinho? Chiquinho vai hoje à festa do Padroeiro, vai ver a procissão,
não é? (Tira uma moeda do bolso.) Olhe, Chiquinho, cinco tostões pra você comprar de
pirulito!

Chiquinho recebe o dinheiro.


146
VELHA - Agradece, meninão besta!
DELEGADO - Chiquinho, as laranjas estavam em sacas de carnaúba ou em jacás?
CHIQUINHO - Em jacá.
MARIA - E tu viu, menino? tu anda contando o que não viu?
DELEGADO - Ora, o meu amigo disse porque viu, não é, Chiquinho? Não era saca,
era jacá. Mas Chiquinho, aquela laranja que você chupou não prestava, era azeda como
o diabo, não era?
CHIQUINHO - Nhor não. Era docinha–docinha.
MARIA - Tu anda inventando história, menino?
CHIQUINHO - Nhora não. Era docinha mesmo.
MANUE L - Só se ele comeu foi na casa do compadre Lili. Não foi lá?
CHIQUINHO - Nhor não, meu pai, foi no agreste.
MARIA - Larga de conversa, coisa espritada.
DELEGADO - É melhor não atrapalhar. E a velha tranque também o bico.
VELHA - Cruz!
DELEGADO (a Chiquinho) - E como foi então que vocês acharam a carga?
CHIQUINHO - Assim que a gente saiu da casa, e andou um pedaço, a gente viu o
jumento deitado, pelejando pra se levantar. Então eu ajudei pai a tirar as aselhas da
cangalha e a puxar os jacás pra debaixo dum pé de crioli. E depois a gente cobriu tudo
de folha.
MARIA - Ô Chiquinho...
DELEGADO - Calma. Não se metam que minha conversa é com o Chiquinho. E o
que era que tinha mais na carga, hem?
CHIQUINHO - Tinha um couro de bode e um saco de frito de carne, e uma
rapadura também.
DELEGADO - E isso vocês deixaram na carga?
CHIQUINHO - Não.
DELEGADO - E o que fizeram, então?
CHIQUINHO - O frito e a rapadura a gente comeu lá na Passagem da Formiga. E o
couro nós trouxemos.
DELEGADO - E o jumento?
CHIQUINHO - O jumento nós tangemos bem pra longe das laranjas.
DELEGADO - Ahn...
MANUEL - Ô meu filho, não condena o teu pai... que a história assim contada só
tá certa pelo meio, que ninguém podia adivinhar o que teu pai tava maginando naquela
hora.
MARIA - Oi, menino, não condena a tua alma!

147
VELHA - Credo, parece que bênção não pegou nele, Maria.
MARIA - Não diz uma coisa desta que teu pai nunca pegou no alheio. Seu
Delegado, não acredite, que este menino tá é com sezão, só sendo, pois como é que ele
conta uma invenção desse jeito? (Chora.)

Chiquinho se afasta, desconfiado.

DELEGADO (a Manuel) - Então, "tava maginando naquela hora", hem?


MANUEL - É... Enquanto botava os jacás no chão eu dizia de mim pra mim: se
não aparecer o dono já sei quem é de verdade o dono delas - Santo Antônio! - que é dono
de nós todos deste Campo Maior." Pensei: O animal a gente solta, aliviando o pobrezinho
do peso da carga. Pego a minha vaca parida e amanhã, no quebrar da barra, volto pra
ver. Se a carga ainda tiver lá é porque não tem dono mesmo. Então eu levo as frutas, de
jóia, pro leilão do Glorioso.
DELEGADO - Bem contada! E quanto apurou na venda?
MANUEL - Pois seu Delegado me diga - e o dono da carga também - onde eu vendi
essas laranjas? quem me viu vendendo laranja?

Entra o Soldado.

SOLDADO - Encontrei o tal de Florêncio, na feira, vendendo mesmo jerimum. Diz


que os jerimuns são dele, que ele comprou duns roceiros do Alvarenga. E enquanto não
aparecer roceiro para se queixar... a gente não pode dizer que o homem é ladrão.
VELHA - Tá vendo, Maria, tu com as tuas suposições? Galinha que cisca muito
borra tudo e quebra o caco!
MARIA - Deus me perdoe se maldei do compadre Florêncio. Mas também quem
manda ele - só de inticante - culpar o irmão? Pois ele viu Manuel com algum jacá?
SOLDADO - É, mas eu ainda nem tive tempo de dizer tudo, seu Delegado, que
essas duas donas falam por demais. Eu ia também dizer que o homem das laranjas está
aqui, com voz de prisão.
MATEIRO - Eu? Mas eu não roubei nada de ninguém. Como é? Agora é que eu
quero ver!
DELEGADO - E eu também!
SOLDADO - Não é preciso esquentação de sua parte, que não é você o homem das
laranjas.
MATEIRO - Não sou eu? Elas não são minhas?
SOLDADO - Se são suas não sei, mas quem estava vendendo laranja no mercado
era um tal de José Maneiro, da Chapadinha. (Gritando.) Entra, caboclo!

José Maneiro aparece.

MARIA e VELHA - Compadre Maneiro?!


148
O Soldado sai e volta em seguida com um cesto de laranjas, coloca–o em meio de cena.
José Maneiro, de olhar corrido, desconfiado, tira o chapéu.

MANEIRO - Boas tardes...


DELEGADO (irritado) - Vá se explicando logo!
MANEIRO - Bem, as laranjas não eram minhas, que eu nem tenho em casa pé de
laranja. Mas havia de sair gritando, que as laranjas não eram minhas? Se ninguém me
perguntou, se o dono não aparecia, se elas já andavam até murchinhas?
DELEGADO - É, tem lá sua esperteza. E como achou a tal carga?
MANEIRO - Vinha pra vila vender umas sacas de carnaúba, que a mulher fez, me
alembrando ela: "olhe, seu José, o dinheiro apurado tem de ser todo para o santo
padroeiro, de esmola, pra pagar a promessa que eu fiz quando tu levou aquela estrepada
no solado do pé direito." (Mostra o pé.) A estrepada era feia, apostemou, mode parecia
ferida braba, e se a mulher não se vale com o santo eu tava era cortando um dobrado.

Toque de sinos.

DELEGADO (impaciente) - Vamos, vamos, que não estou aqui pra perder tempo,
não. Desembucha logo, cabra, que o diabo deste negócio está me fazendo perder a
procissão.
MARIA (chorando) - Ai, Manuel, é a chamada da procissão, e a gente este ano não
vai ver é nada.
VELHA - Nem roupa nova vestimos, nem comer comemos. Vige, meu Glorioso!
DELEGADO - Vamos, vamos.
MANEIRO - Pois bem. Vinha eu no chouto miúdo, com as minhas sacas, quando
dei com a carga debaixo duma moita de crioli, lá no meio da chapada.
DELEGADO - E que diabo queria você debaixo de moita de crioli?
MANEIRO - Hum, seu Delegado...
DELEGADO - Fala, homem.
MANEIRO - Vosmecê não se aborreça, mas eu não posso dizer, não...
DELEGADO - Ah, é assim? não pode dizer? Então o senhor me diz que não pode
dizer?
MANEIRO - É que eu tou meio acanhado...
.
DELEGADO - O senhor está desrespeitando a autoridade!
MANEIRO - É que... que eu tinha ido verter água... Por isso procurei a moita...
DELEGADO - Ahn!... Não podia fazer na estrada, como todo mundo, hem,
caboclo?
MANEIRO - Muita vez podia aparecer u’a mulher... Então eu vi as laranjas, já
murchinhas, e pensei enquanto vertia: homem, se isto tão aqui é que uma criatura
149
escondeu o que não era dela. Eu pego - já que tou com as sacas - levo as laranjas, apuro
tudo e levo o dinheiro pra Santo Antônio, que eu não fico com dinheiro de coisa que não
é minha. Mas nem chequei a vender as fruitas e nem botar o dinheiro apurado nos pés
do Padroeiro.

Novo toque de sinos.

DELEGADO - Ai, ai, quem vai e quem não vai pra cadeia! Vão os dois, é que é o
mais certo!

Maria e a Velha choram alto. O Delegado, irritado, caminha de um lado para outro.

DELEGADO - Diabo, perdi a festa! Inácio Mateiro, é você o dono das laranjas?

Mateiro confirma com uma batida de cabeça.

DELEGADO - Responde alto. De devéras? Olha, caboclo, você tem laranjeira no


quintal ou de quem comprou as laranjas? Eu agora estou enfezado, como quem viu o
Cão. E desconfio de todo o mundo, até de santo, que Deus me perdoe. Jura?
MATEIRO - Bom, seu Delegado, jurar eu não juro, que as laranjas eu tinha
comprado, mas, também como se diz, não tinha comprado...
DELEGADO - O quê?... Anda, que já estou pelo gogó!
MATEIRO - As laranjas eram do pé de laranja que fica no pátio da fazenda de Siá
Donana, do Poço Redondo. Um dia fui lá pra fazer negócio com a branca, pedir pra ela
me vender as laranjas, que já tavam madurinhas, que tavam em risco até de se estragar.
Mas a branca, que é um bocado agoniada, foi logo me dizendo que não tinha laranja nem
pra dar nem pra vender. Se o finado homem fosse vivo eu negociava as frutas com ele,
mas com mulher viúva o caso já é mais difícil. Trasantonte apanhei as laranjas, dizendo
comigo: eu vendo elas e com o dinheiro apurado dou metade pra viúva e fico com a outra
metade. Não vou dizer que prometi dinheiro a santo, que isso eu não prometi e nem
santo precisa de dinheiro. De ladrão, porém, é que ninguém me pode chamar, pois quede
que ela ia me dar licença? Siá Donana é mulher rica e teimosa.
DELEGADO - O negócio é cada vez mais complicado. Vai um? vão os dois? vão os
três? Quem é mais ladrão? Quem é mais arteiro? Até onde Deus riscou e o Diabo
apagou?

O Delegado examina as laranjas do cesto. Chega a apanhar duas, sopesando–as, e de


repente grita:

DELEGADO - Ah, é isto! Se as laranjas não têm dono. (Apanha o cesto e atira as
frutas ladeira abaixo.) Lá se vão elas, meu Santo Antônio! Lá se vão elas!

Repique de sinos. Ouve–se a música de um dobrado. Entra Siá Donana - matuta


rica, cinquentona, cheia de jóias e rendas.
150
SIÁ DONANA (esbaforida) - Seu Delegado, seu Delegado, me atenda um
instantezinho só, que eu estou é vexada, que ainda quero acompanhar a procissão. É
que eu, - vindo à festa, não podia voltar pro meu Poço Redondo sem lhe deixar uma
grave queixa... (Abana–se.)
DELEGADO - Já sei, já sei. Acabaram de descer a ladeira agorinha mesmo.
Correndo, ainda encontra elas.
SIÁ DONANA - As laranjas? E eu não vi as bichinhas vindo a meu encontro? Ah,
seu Delegado, quando eu penso na minha laranjeirinha carregada de lembranças...
(Chora.)
DELEGADO - Viu o que fizeram? E vá eu agüentar novo choro de mulher! Calma,
senhora, se acalme.
SIÁ DONANA - Foi debaixo dela que meu Seutônio me viu...
MATEIRO - Se o finado homem fosse vivo, eu negociava as frutas com ele, como no
ano passado. Agora, com mulher viúva o caso é mais difícil.
SIÁ DONANA - Viúva, fui, hoje, sou uma noiva desadorada. Antônio foi o noivo que
o Santo me mandou. E Antônio - o meu Seutônio, seu Delegado - era apaixonado por
aquele pé de laranjeira, pois foi à sombra das suas folhagens que ele me viu sozinha e
triste. Aquilo era mais que uma laranjeira, era uma aliança, uma jóia, um ninho, enfim.
Tinha, para ele, enorme valor estimativo. Não tinha preço.
MATEIRO - Caprichos de gente rica. Laranja é coisa que a gente vende a quem
tem dinheiro de sobra. Nada de estimação. Tem preço.
SIÁ DONANA - Pois foi debaixo dela que ele me pediu a minha mão. E eu
consenti... no pedido da mão.
VELHA - Siá Donana inda pensa em se casar?
SIÁ DONANA - Debaixo dela a gente botava uma esteira e se sentava ali, ao meio-
dia. As galinhas d'angola cantando longe, o carro de boi chiando, e ela, branquinha de
flor. Num perfume...
VELHA - Credo, parece até conversa de menina nova.
SIÁ DONANA - Beija–flores e abelhas avoando, tontos, ao redor dela e... de nós...
tontos...

Maria suspira fundo.

MANUEL - Essa gente vê coisa em que eu nunca botei reparo. Uma beija–fulô
avoando. Coisinha à toa...
MARIA - Ai, Manuel, é bonito... tudo! Pois bote reparo...
VELHA - E por que Siá Donana não aproveitou a fuloração da laranjeira e não fez
uma grinalda e não casou logo?
SIÁ DONANA - Por ele, já tinha casado. Pois em pedir a minha mão ele atava me
151
considerando digna de botar uma grinalda.
VELHA - Donzela? Gente, esse seu Antônio não é seu Antônio de Mel, aquele
baixinho, marelinho?
MANEIRO - Homem de boa fé só sendo Antônio de Mel!
SIÁ DONANA - Boa fé, sim, e é o que falta a vocês.
MATEIRO - Inda penso que casamento de viúva não carece de tanto enfeite.
SIÁ DONANA (sonhadora) - Aí então eu disse, cheirando um botão de flor que ele
me deu: "deixa que venham as frutas." Vieram. Mas ainda estavam verdinhas, puro
sumo. E ele querendo, querendo. Eu disse: "Tão verde, deixa madurarem." E ele:
"Donana..." E eu: "madurarem." E ele: "sazonadas? Doiradinhas?" Eu disse: "escuta, meu
Seutônio, eu sei que foi Santo Antônio, o seu xará, quem te trouxe para mim. A gente
leva as laranjas maduras para ele, de jóia, e depois..."
MANUEL - Vosmecê também pensou em dá elas a ele?
SIÁ DONANA - Mas veio um espírito maligno e desmanchou tudo. "Um furacão!
Um jardim destroçado! Duas almas destroçadas!" Foi o que Seutônio disse. E,
esmorecido, estatelado, sumiu... E eu, de enxoval pronto! Veja a minha situação, seu
Delegado!
DELEGADO - O que que a senhora quer que eu faça? Não já lhe disse que as
laranjas desceram a ladeira agorinha mesmo? Não vá me dizer que lhe roubaram
também o seu Seutônio!
SIÁ DONANA - Qual, o homem desanimou, mas está vivo. O que me roubaram,
seu Delegado, foi a laranjeira. Todinha!

Espanto geral.

MATEIRO - Seu Delegado, não vá me culpar pela laranjeira, que agora eu juro,
arrisco a minha salvação!
SIÁ DONANA - Pois me arrancaram a dita pela raiz. Se até o buraco, taparam?
MANUEL, MANEIRO e MATEIRO - O buraco, taparam?
DELEGADO (exasperado) - Pois foi Santo Antônio, está–se vendo! E foi bem feito! E
vá... e vá se embora senão perde é a festa toda!

Siá Donana, espantada, sai apressada.

DELEGADO - Sabe–se lá da intenção dessa gente... (Gritando.) Cadê o noivo dela?


De boas intenções o inferno também anda é cheio!
MATEIRO - Eita branca de gênio tirano - nem dava nem vendia nem dizia que era
noiva. E as bichinhas já madurando para o podre. Agora, laranjeira foi coisa que eu
nunca arranquei. Juro.
MANEIRO - Se não tinham dono - pois era o que parecia - mal não fazia que eu

152
ensacasse elas e levasse elas pra feira, e o dinheiro apurado era, jóia para o Santo.
Compadre Manuel Pereira escondeu a carga, cobriu tudo de capim. Logo...
MANUEL - De seu Inácio Mateiro elas também não eram. Fiz foi uma caridade
aliviando o jumentinho daquela carga. Não gosto de ver judiação com as criaturas de
Deus. Cobri de capim mode o sol não murchar as frutas.
MARIA - Gente, mas quem garante que elas eram de Siá Donana? Pois se no Poço
Redondo não tem nem marca de laranjeira?
MANUEL, MATEIRO e MANEIRO - Ah, verdade!
DELEGADO - Verdade, não é? Fui eu então o ladrão, hem?
VELHA - Se não eram de seu Delegado... não carecia derramar as fruitas ladeira
abaixo.
DELEGADO - Fui eu, hem?

Aparece o noivo de Siá Donana. Baixo, magrinho, segurando um jarro com uma enorme
laranjeira. O jarro está enfeitado com papel frisado, à maneira de prendas de leilão (jóias).

SEUTÔNIO - Donaninha... Donaninha... Onde Donaninha se meteu?

(Sai.)

VELHA - Credo em cruz! Consumido que só ele!...

O repique dos sinos é mais forte, também a música do dobrado.

DELEGADO - Cheio, ouviram? Cheio!

Surge a procissão de Santo Antônio. Quatro crianças (duas a duas), vestidas de anjo,
seguram as pontas de duas fitas vermelhas (como se se tratasse de um andor); mais atrás,
quatro músicos. A procissão passa lentamente. O Delegado e demais personagens se
ajoelham.

MARIA - Ai, meu glorioso Santo Antônio!


VELHA - Meu santo, a bença, a bença.
MANUEL - Meu santozinho aparecido!
A procissão pára em meio de cena; um anjinho vai ao encontro de Chiquinho e lhe
dá uma laranja. Chiquinho, espantado, demora a receber o presente.
MARIA - Ô meninão abestado. Agradece...

Chiquinho recebe a laranja. O anjinho volta e a procissão continua.

VELHA - Toma a bença ao Santo, coisa...

O dobrado continua. Atrás dos músicos, Siá Donana, que dá o braço ao Delegado, e atrás
destes, em fila: Inácio Mateiro, José Maneiro, Manuel, a Velha, Maria, Chiquinho, o
Soldado e, aturdido, com o seu pé de laranjeira, Seutônio.

153
CRISTO PROCLAMADO

1958

O vos omnes qui transitis per viam,


Attendite, et videte
Si est dolor sicut dolor meus.
Jeremias

154
PERSONAGENS:
PINTASSILGO
ROSA
SOARES
CAÇOTE
OLIVEIRA
CREMILDA
ARAGÃO
ANDRADE
MELO
ALVARENGA
PRIMEIRA MOCINHA
SEGUNDA MOCINHA
MARLENE
ARABELA
EMPREGADO
FEITOSA
PREFEITO
1º RETIRANTE
2º RETIRANTE
1ª RETIRANTE
2ª RETIRANTE
3º RETIRANTE
VELHO
RAIMUNDA
PREÁ
PROSTITUTA
MORAIS
ADELAIDE
PADRE
1º SOLDADO
4º RETIRANTE
Retirantes, prostitutas, soldados, músicos, empregados, etc. ...

155
Ação: uma cidadezinha no Nordeste, 1950
PRIMEIRO ATO

FACHADA DA PENSÃO CENTRAL, CASA DE PINTASSILGO. Pintassilgo (50 anos, baixo,


gordo, rosto infantil e extremamente jovial) está sentado num banco, costurando uma
fantasia de cetim branco e vermelho. Um cesto de costura, ao lado. Também uma bicicleta.

PINTASSILGO (ao público): Chamo-me Demóstenes de Albuquerque, por alcunha -


Pintassilgo. Albuquerque de ramo ilustre - pobre - porém honrado. Tive, na mocidade,
como todo mortal - aventuras. Apaixonei-me pela mulher de um aramista - também
aramista emérita - e por causa dela engajei-me num circo. Trinta anos passei fora de
Guaxinim - esta minha cidade. Bati poeira de estrada. Fome. Uma bala passou-me de
raspão. O aramista um dia morreu. Fiz-lhe um discurso à beira-túmulo, mas, a
aramista... Bem, a traição ao aramista me torturava. Por isso fiz penitência e abandonei
as vaidades do mundo. Minha voz. que recebia aplausos quando cantava a Granada, no
picadeiro, passou a servir, apenas, ao bom Deus. Assim voltei para a minha terra, para o
coro da Matriz da Conceição. Percebi, também, que não podia continuar solteiro, pois
não sou homem de lupanar. Meu casamento com dona Rosa - a dona da Pensão -
mulher sem o mínimo resquício de sensibilidade, foi mais um ajuste - por conveniência -
como diz o vulgo do casamento onde não entra o amor ou o dinheiro. Mas, dirão vocês,
por que diabo está Pintassilgo costurando e não cantando? Esta é outra história, uma
história que já, agora, não é mais minha, mas da cidade. O Drama da Paixão sempre me
fascinou e, há cinco anos, com a ajuda do povo, venho me especializando na sua
representação pelas ruas desta vila. Lutei muito. Não me foi fácil conseguir a
participação dos grandes da terra. Foi preciso, aliás, que eu lhes dissesse que a
topografia da Jerusalém de Herodes pouco diferençava da nossa Guaxinim. Ali, no
açude, temos o Horto; a elevação pitoresca do Outeiro da Velha - um soberbo panorama,
aliás - o Gólgota. Os grandes, porém, tiravam o corpo de banda: "Nada de soberbo
panorama, que vista não enche barriga." Assim, nem dinheiro nem participação. Mas,
com os milagres que vêm ocorrendo - pois graças ao meu trabalho isto aqui está virando
centro de romaria - aderiram finalmente. Todos, este ano, vão representar. Grandes e
pequenos - dinheiro e participação! Vem um e me diz: "Olhe, eu quero um papelzinho no
seu espetáculo - um Soldado Romano, um Homem do Povo, um Centurião, um Apóstolo -
qualquer coisa serve." Cai-me o queixo... Será por causa da seca? o medo do flagelo? Na
verdade anda tudo morrendo que é um desadoro. Legume foi plantado já três vezes, mas
nem um pingo de chuva para segurar a plantação. A terra está como se vê - é uma
nuvem de pó. (Levanta-se, veste o manto vermelho que estava costurando, retira do cesto
uma cabeleira cacheada e a coloca na cabeça). Será a seca com os seus flagelados?
156
(Entra dona Rosa.)

ROSA: Ô seu Demóstens, faço comida pra quantos? Ai, ai, que fazer comida na
Semana Santa é um bocado acochado, pois se não tem verdura nem peixe nem ovos e o
bacalhau de barrica anda pela hora da morte?
PINTASSILGO: Ora, mulher, não me venha incomodar...
ROSA: Adeus, homem, você inventa as suas marmotas e na hora do aperto sou eu
que pago.
PINTASSILGO (impaciente): Demóstens... Não passa mesmo de uma
grandissíssima cozinheira. Pois dê um jeito, compre o que tiver e compre muito que a
Pensão vai é encher . Se é por dinheiro não morra (ao público) - rezina que só o diabo - ,
que o doutor Feitosa paga tudo. Pode comprar no nome do homem que é comprar com
crédito.
ROSA (saindo): Isto é lá figura de gente...
PINTASSILGO: E fartura, mulher, à lavra! (Ao público) Quem sou eu, quem sou
eu, apesar de Albuquerque... Gostaria de continuar no papel do Cristo... Ainda ontem
recebi, de um roceiro, um carneirinho magro, e não faz muito recebi de outros - galinhas,
capões e até velas, como pagamento por graças alcançadas, que Jesus me perdoe. Este
ano porém já não farei o Crucificado, que o papel me foi pedido pelo doutor Laurindo
Feitosa, filho do coronel Feitosa, moço de muito futuro, muito brilho, deputado estadual
e orgulho da terra, da qual - aqui para nós - é um dos donos. Ele quer ser o Cristo, veio
diretamente da Capital para isso. Gesto, aliás, que me calou profundamente. Depois, eu
com este corpo, talvez um pouco gordo, não poderia viver, realmente, a figura ideal do
Nazareno. (Retirando manto e cabeleira). Não, não poderia...

(Entra Soares).

SOARES: Oi, Pintassilgo, isto é visagem? Homem de Deus, cadê os moleques que
estão perdendo esta? (Ri).
PINTASSILGO: E eu ando rezando pra moleque, seu Soares? Mas, quem vai fazer o
Cristo não é mais este seu criado, porém Feitosinha.
SOARES: O quê, gente?
PINTASSILGO: É a vitória da minha Paixão! Este ano você não vai mais mangar...
SOARES: E eu algum dia manguei? Então eu não sou um bom Apóstolo? Pois se
deixei até a mulher em casa, escovando o diabo do uniforme...
PINTASSILGO: Tenha mais respeito, seu Soares.
SOARES: Se tenho... Mas olhe, escute esta notícia. Como telegrafista lhe digo, a
coisa aqui não está boa não, está até muito preta... Com a estiagem... não afirmo, mas
olhe aqui (mostrando-lhe um telegrama), ameaça de revolta, de saque... Vim agorinha da
casa do doutor Juvêncio, onde fui levar um telegrama da cidade de Santa Rita e adivinhe
157
você o que o prefeito de lá avisava pro de cá: que a nossa vila está ameaçada pelos
retirantes, que um bando de uns duzentos flagelados se encaminha no rumo de
Guaxinim, para assaltar os barracões da firma Feitosa!
PINTASSILGO: Não diga, homem, não venha me aforismar. Vai ver você não
entendeu bem a sinalização do telégrafo.
SOARES: Eu? Ora meu mimoso Pintassilgo!
PINTASSILGO: Não vê que estamos esperando muita gente do sertão, e até mesmo
da Capital, para assistir à minha Via-Sacra? Vai ver que o que devia dizer aí era pedido
de hospedagem, era reserva de aposentos no meu hotel.
SOARES: Será que você está me chamando de bêbedo?
PINTASSILGO: Homem, beber uma pinga, uma vez por outra, para evitar
constipação, até eu bebo, mas daí pra chamar você de cachaceiro vão léguas.
SOARES: Pois é o que lhe digo.
PINTASSILGO: Você já vem ou ainda vai pro barracão de Feitosa?
SOARES: Neste instantinho. Já vou indo é voando.
PINTASSILGO (segurando manto e cabeleira e saltando na bicicleta): Pois eu
também vou lá, que tenho de fazer as provas deste manto. (Saindo na bicicleta ao lado do
telegrafista). Homem, você é mesmo um correio da má notícia. A gente está quieta e feliz
e lá vem você com o diabo dos telegramas.
SOARES (suspirando): Se eu pudesse atalhar essas notícias... (Saem).
(Entra o cego Caçote; carrega um bastão e uma cuia de esmoler. Canta:)

“Há uns três anos atrás


Guaxinim era elevada,
Apareciam serviços
de aterro e de estrada,
hoje, não se vê nada disso,
é uma cidade emborcada.

A praça é uma buraqueira,


quem vê tem má impressão,
já morreu até palmeira
e a grama do pavilhão,
e quando o povo se queixa
dizem eles - não tem razão...

A carne de criação

158
que era de quatro e quinhento,
já hoje é quinze cruzeiro
por não ter regulamento
e os fiscais fecharam os olhos
ante tal atrevimento.”

(Sai).

NA CASA DE JUIZ OLIVEIRA. O Juiz e sua mulher Cremilda.

CREMILDA: Sou, sempre fui. O que tenho de dizer, digo. Não me agrada, nunca
me agradou, aliás detesto, abomino este teu jeito de dizer as coisas, ou melhor, de não
dizer as coisas. Manda chamar um deputado para vir ser ator do Pintassilgo. Bonito! Um
homem larga a Câmara para vestir uma fantasia em Guaxinim!
OLIVEIRA: Toda a cidade delirou com a chegada de Feitosinha. Você foi a exceção.
Estranho. Logo você que é a franqueza em pessoa...
CREMILDA: Preferia ver Laurindo, de volta, por outros motivos, nunca por
chamado teu. Os foguetes atroaram. Quase fiquei surda. Quem pagou os foguetes? e o
delírio?
OLIVEIRA: A Municipalidade, é óbvio. Digo-lhe que a nata de Guaxinim está
vibrando com o drama de Pintassilgo. Pintassilgo é um gênio! As elites, neste momento,
têm os olhos voltados para o grande painel que é o sertão da Borborema. Daqui sairá
aquele que vai polarizar as multidões!
CREMILDA: De olhos voltados para o sertão? por quê?
OLIVEIRA: Querida, que é que você acha deste teu Oliveira vestido de Caifás,
hem? (Sorri).
CREMILDA: Lindo! Uma palhaçada que só podia sair da tua cabeça.
OLIVEIRA: Não diga... E depois, não foi idéia minha, ou melhor, só minha. Todos
pensaram ao mesmo tempo. Então, todos falaram em coro: “Queremos um Cristo!” Aí
está como se fez realidade o sonho de Pintassilgo.
CREMILDA: Que queres de Feitosinha? Este teu jeito de soprar a fumaça me deixa
inquieta. Por que não trabalhas para ti mesmo?
OLIVEIRA: Simplesmente porque nem todo mundo pode ser o Papa.
CREMILDA: Foi uma pergunta idiota. Eu devia saber que nem todo mundo pode
ser o Papa.
OLIVEIRA: Não chegou a magoar-me, querida. Idiota seria se eu mesmo me fizesse
a pergunta. Mas, sou também um escravo das belas-letras. Descrever a natureza é um
dos meus vícios. A seca. por exemplo, é quadro digno da pena de um Desembargador.
Veja este início de composição: "A região crestada pelos raios ardentes do Astro-Rei que é
a Fonte da Vida, mas também pode ser a Fonte da Morte..." E passo a descrever os
159
famintos. Em termos de ficção, é claro, pois se o leitor percebe que, na realidade, os
famintos existem, a composição já não logrará o desejado efeito de entretenimento.
Interessa-me, sobretudo, a forma.
CREMILDA (a se mirar num pequeno espelho): O que me dana é a preferência de
vocês por esta terra tão sem atrativos. Calor e poeira. Detesto. Meu rosto está que é só
manchas. (Suspira) Ah, devíamos estar, todos, na Capital.
OLIVEIRA: Filha, aqui bebemos o leite mungido. O saboroso leite mungido. É uma
força terrível, a infância.
CREMILDA: Que sensibilidade... Mas, vem cá - o que aconteceu a Laurindo? De
repente mudou. A cara dele, ontem à noite, era a de um chateado. Quando lhe disse que
estaria ótimo, no Cristo, respondeu-me que ainda ia pensar. Não estava tudo certo?
Aquiles, você disse a ele alguma coisa. Não disse?
OLIVEIRA: Eu?
CREMILDA: Aquiles...
OLIVEIRA: Sim, justamente, ele me perguntou o que eu achava do papel. Disse-
lhe que só três pessoas podiam ser indicadas: padre Eusébio, ele ou Morais. Padre
Eusébio tem uma hérnia... O papel ficaria entre ele e Morais.
CREMILDA: Morais? E você não podia, também?
OLIVEIRA: Foi o que ele me perguntou. Respondi-lhe que me sentiria ridículo.
CREMILDA: Aí está... Você estragou a festa!
OLIVEIRA: Eu não lhe disse, absolutamente, que não fizesse o Cristo. Falei de
mim, que me sentiria meio cômico, no papel. Mas de mim, entendes?
CREMILDA: Ele é uma criança. Te segue em tudo. Uma lástima.
OLIVEIRA: Feitosa não pode desistir, minha querida. Nem deve! Perderíamos um
espetáculo que promete ser soberbo. Então ele vai desistir em favor de Morais? (Sorri.
Cremilda sai) Exato. O importante, agora, é traumatizar. Ou melhor, polarizar. (Sorri)
Laurindo Feitosa é o padrão, ideal, da criatura. (Sai)

NA RUA. Entram Aragão, Andrade, Melo e Alvarenga.

ALVARENGA: Mas veio pra cá fazer o quê? Ah bom, meu doutorzinho, isto é terra
de gente braba.
ARAGÃO. Veio a convite meu. Advogar.
ALVARENGA: Advogar o quê? Caboclo não tem causa. E lhe digo mais, nem
adianta ninguém aqui ter causa, que não ganha.
ARAGÃO: Sim, meu coronel, mas nós temos a nossa. Ou não temos?
ALVARENGA: Sei lá...
ARAGÃO: E havemos de ganhá-la. Havemos de livrar a cidade dessa corja
ordinária.
160
ALVARENGA: Tá bom. Eu aprecio muito a conversa desses doutorzinhos. Doutor
só não presta quando começa a engordar. Aí ele se esquece do que aprendeu nos livros.
E é bicho veloz na hora de enricar. (Risos)
ARAGÃO (abraçando Alvarenga): Isto aqui, seu Andrade, é sertanejo legítimo! É
jatobá da chapada! Então, estamos entendidos?
ALVARENGA: Nem tem dúvida, nem se discute! Larguei aquela gente de mão.
Cansei de engordar ladrão. Cansei. Agora tou com vocês Podem contar com o velho
Tomás Alvarenga.
ARAGÃO: Vamos vencer a oligarquia. Desta vez a situação é esplêndida!
ALVARENGA: Que situação que é esplêndida, meu prezado? Pois se a seca tá
matando tudo? Ontem mesmo bati a porteira do curral. Me dá pena ver morrer o gado, e
eu - de braços cruzados - sem nada poder fazer. Pior ainda, perdi até meus agregados,
que se foram pela Rio-Bahia. E isto é situação esplêndida? (Risos)
ARAGÃO: Justamente, meu coronel.
ALVARENGA: Não entendi.
ARAGÃO: Pense bem: a situação é de desespero e...
ALVARENGA: Se é de desespero como é que é esplêndida?
ARAGÃO: Veja, a Prefeitura nada pode fazer para remediar a crise. A cidade está
cheia de retirantes e o descontentamento é grande. Logo ...
MELO: Um clamor. O comércio anda é ruim. Uma quebradeira como nunca se viu.
ARAGÃO: Logo... a quem vêm eles pedir socorro? Ao grupo Feitosa, dono do
queijo. E o que arranjam?
MELO: Nada.
ARAGÃO: Estou seguramente informado de que algumas cidades já foram mesmo
saqueadas.
MELO: E aqui, na custa. Já tomei minhas precauções. É fechar tudo, é esconder o
que se tem. É estocar.
ALVARENGA: Então, tá estocando? Faz muito bem.
MELO: As feiras se acabaram, coronel, e cereais, agora, só nos barracões de
Feitosa, só com os caminhões do homem.
ANDRADE: Os caminhões do Departamento de Estradas.
ARAGÃO: Verbas e mais verbas e lindas casas em lindas praias.
ALVARENGA: Hum... tão gordos que só capado em chiqueiro. Gente, me disseram
que Feitosinha deu dinheiro a Pintassilgo para os gastos do tal drama e que até os
almoços na pensão tão sendo pagos por ele. É verdade?
ARAGÃO: Verbas, verbas!
ALVARENGA: Bicho bom é governo!

161
MELO: Ali, porém, só encontra trabalho quem assina uma ficha de compromisso.
E trabalhador, meu coronel, só pode comprar nos barracões da firma. E dinheiro de
Feitosa é vale.
ARAGÃO: E não dá nem para a meizinha. Não contasse a pobreza com o doutor
Alberto Morais.
MELO (completando): Que este sim, é homem caridoso!
ARAGÃO: Aliás, doutor Morais deve entrar para o nosso partido.
MELO: Era bom, muito bom mesmo. Mas lhe afianço que o homem não aceita.
Não quer saber de política. O negócio dele é tratar de doente. Só. É desinteressado.
ARAGÃO: Faço um apelo. Não se negará, estou certo.
MELO: Acho difícil.
ARAGÃO: Um apelo em nome da pobreza. Que tal, hem? Mas Feitosa quer ser o
Cristo dos pobres! (Ri)
ALVARENGA: E o Cristo não é o Pintassilgo?
ARAGÃO: Estou informado. Será ele, Feitosa. Ganha-se dinheiro com o flagelo e
ganha-se poder divino!
MELO (apontando): A casa de Pintassilgo é aquela.
ANDRADE: A da pensão?
ARAGÃO: Justo. Pois seu Andrade, vamos fazer figuras de papelão.
ANDRADE: Carnaval na Semana Santa!
ALVARENGA: Carnaval - entrudo? Qual o quê! Vamos virar é gente de circo.
Tomás Alvarenga, que sempre gratificou os mágicos que fazem sair, num levantar de
coxa, moedinhas de dez tostões... O coronel que sempre pagou os terços da sua capela, a
jinjibirra, o rojão... Velho que mal caminha, com um rim deslocado, agora aqui, para
brincar feito menino. Tou variando!
MELO: Mas não podemos deixar de entrar no pagode. Se eles entram...
ALVARENGA: Em todo caso. pode ser até que chova.

(Batem palmas à porta de Pintassilgo. Rosa e duas mocinhas aparecem. Estas costuram
fantasias.)

ARAGÃO e ALVARENGA: Boa tarde.


ROSA: Boa tarde. Vão entrando...
ARAGÃO: Não se incomode, estamos só de passagem. Pintassilgo, está?
ROSA: Gente, ele tava aqui indagorinha mesmo. Mas já sumiu, credo.
ARAGÃO: Queríamos saber sobre a procissão de amanhã...
ROSA: Vosmecês me desculpem. Eu, na minha labuta, não sei informar. Seu
Demóstens é um homem como eu nunca vi...
1ª MOCINHA: Minha tia, ele disse que vai ter uma reunião, à boquinha da noite,
162
na Prefeitura.
2ª MOCINHA: Que ele vai distribuir os papéis.
ALVARENGA: Que papel, menina? Pintassilgo já cobra imposto?
2ª MOCINHA: Nhor não. É papel que cada um vai representar. Que ele também vai
dizer os lugares por onde o cortejo vai passar.
ALVARENGA: Meninazinha expedita ...
ARAGÃO: Então desculpem o incômodo. Vamos passando. Adeus.
ALVARENGA e ANDRADE: Adeus, donas. (Saem)
(Rosa sai.)
1ª MOCINHA: Ah, minha prima, eu queria sair era de Verônica, segurando aquela
toalha, tão bonita, com a imagem de Nosso Senhor, e cantando. Cantando com a voz
bem fina, assim de jeito a fazer cortar os corações.
2ª MOCINHA: Ora, minha prima, que este papel não é para nós. Vai ver tio
Demóstenes já deu ele foi para a filha do Prefeito. Papel da gente não tem nome. É
qualquer coisa.
1ª MOCINHA: Ah, se eu pegasse ao menos o da Madalena...
2ª MOCINHA: Credo, Socorro... Madalena pra mim nem arrependida. A gente fica
falada, siazinha.
1ª MOCINHA: Ora, prima, assim ninguém nos olha. Eu queria ir era bem pintada!
2ª MOCINHA: Ôrra! Só se você quer fazer a mulher do Judas. Bom papel tem
minha tia Rosa, que é a Samaritana. Ela aproveita bem. Todos os anos leva o pote cheio
dágua para casa, mas sem esquecer, antes, de molhar a cara de tio Demóstenes, fingindo
que lhe dá de beber. (Risos)

(Aparecem, de sombrinhas, Arabela e Marlene.)

MARLENE: Nossos trajes já estão prontos?


ARABELA: Minha cabeleira está bem cacheada?
1ª MOCINHA: Você viu a cabeleira dela, minha prima?
2ª MOCINHA: Eu não. Não sou encarregada de cabeleira de ninguém.
MARLENE: Cadê Pintassilgo, meu bem?
1ª MOCINHA: Tio Demóstenes?
ARABELA: Pintassilgo, menina. Será que você não conhece o Pintassilgo?
2ª MOCINHA: Tio Demóstenes não está.
MARLENE: Pois digam a ele que dona Marlene e dona Arabela estiveram aqui, que
ele mande, hoje, sem falta, os nossos trajes. Vamos Arabela?

(Arabela e Marlene aproximam - se do proscênio. As Mocinhas saem.)

MARLENE: Não sei porque se meteu a nossa família em festas de gentinha de

163
segunda.
ARABELA: Pra sair de anjo - feito uma inocentinha - preferia ter ficado no colégio
das irmãs.
MARLENE: Eu gostaria de fazer a Madalena, bem apaixonada! Mas eles dizem que
não tenho idade... (Risos) E teu irmão, vai ser o Cristo?
ARABELA: Acho que sim.
MARLENE: Fico um bocado tarada.
ARABELA: Calma, que meu irmão também não é de ferro...
MARLENE: Dizem que perto dele não há mocinha que escape. Vai ver que aquelas
sonsinhas do Pintassilgo...
ARABELA: Não gabo o gosto de Laurindo. Elas devem cheirar a brilhantina.
MARLENE: Viu o Andrade? É carioca!
ARABELA: Bacana.
MARLENE: Você bem podia namorar ele.
ARABELA: Pois é. Mas Laurindo rompeu com o doutor Aragão... Mas, mesmo
assim, vou namorar ou o Aragão ou o Andrade. Brigam hoje, amanhã estão unidos, não
é?
MARLENE: Eu, pra fazer ciúme a teu irmão, sou capaz de dançar a noite toda com
o Aragão. Também Laurindo nem me olha... Inda mais agora que vou sair de anjo.
Detesto!
ARABELA: Foi idéia da Cremilda, pra nos diminuir.
MARLENE: Ela, uma mulher casada, é que devia dar-se ao respeito.
ARABELA: Também, com o marido que tem... chega a me dar engulho.
MARLENE: Você viu, ontem? Descarada...
ARABELA: Com o Laurindo? Ih, é coisa antiga. Olha... (Vão saindo) um dia, eu fui
abrindo a porta da alcova e... (Cochicha)
MARLENE: Que horror! (Saem)

BARRACÃO PARA VENDA DE MANTIMENTOS AOS FLAGELADOS DA SECA. De um lado,


um grupo de Retirantes; do outro - espécie de escritório - estão: Feitosa, Oliveira, o Prefeito,
Pintassilgo e Soares.

EMPREGADO (a Feitosa): Patrão, eles estão é descontentes. Um queixume, uma


reclamação sem fim.
FEITOSA: O quê? O quê?
EMPREGADO: Que a diária é uma no nome mas é outra a que recebem. Dizem
que estão sendo roubados numa metade...
FEITOSA (gritando): Quem é aqui que é ladrão?
EMPREGADO: Ninguém, mas eles dizem. Dizem também que venderam feijão a
164
cinqüenta a saca e que agora estão comprando o mesmo feijão a vinte, o quilo.
OLIVEIRA: Venderam a cinqüenta, ano passado, e venderiam este ano - se ainda
tivessem - a quinhentos. Agora se queixam de suas imprevidências. Bicho ingrato é
caboclo.
EMPREGADO: Que eles querem é a diária sem desconto.
OLIVEIRA: Instigados pela gente do Aragão. É o quinta-colunismo! Olha, diz a eles
que o Juiz está aqui. Pra caboclo ordinário o remédio é cadeia.
FEITOSA: Feche o barracão. Mande acabar com a fila.
OLIVEIRA: Isto. Amanhã estarão mais calmos. A noite é boa conselheira.

(O Empregado sai.)

FEITOSA (a Pintassilgo): Por que este ar de amuo, minha pérola? Ora, não fique
contrariado não. Morais será um Cristo legal!

(A fila dos retirantes se dispersa.)

EMPREGADO (aos Retirantes): Vamos. Só amanhã. O barracão fechou. Amanhã.


1º RETIRANTE: Mas eu não posso ficar sem a minha cuia de farinha.
2º RETIRANTE: Ainda não vi hoje um taco de rapadura. Não tá certo.
1º RETIRANTE: E os meninos no rancho, que ainda não quebraram o jejum? Oi
derrota, minha Santa Mãe!
3º RETIRANTE: Dez tostões de fumo, não é pedir muito.

(Os Retirantes saem.)

FEITOSA (a Soares): E não pense mais nos telegramas. Essas notícias não me
assustam. Que devo eu, um representante do povo, para temer ataques da Oposição?
PREFEITO: Mas eu ainda penso que não é só a gente do Aragão contra a lisura do
nosso governo. É que também a crise...
FEITOSA: Pois comigo é na bala!
OLIVEIRA: Feitosa está com a razão. Se é tão mais cômodo pedir e reclamar...
SOARES: Talvez se pedissem a Deus... Afinal os homens não são nuvens para
fazer chover.
FEITOSA: Não sou nuvem nem pasto pra boi comer pra vaca dar leite. Entendeu?
PREFEITO: Coitados... a resistência deles porém é pouca. A fraqueza, a doença...
A Prefeitura, infelizmente, nada pode fazer.
FEITOSA: Prezado, nós não somos Ministro da Saúde e nem nos mandaram
drogas para distribuir. Também eles comem o que devem e o que não devem. Se
envenenam com porcarias. Já lhe passou pela cabeça que caroço de mucunã é alimento?
E que raiz de macambira dá cuscuz?
OUVEIRA: Gente de imaginação prodigiosa! Ora se eu algum dia ia me lembrar de
165
cozinhar espinho de macambira...
SOARES: É, doutor, fome faz a gente imaginar.
FEITOSA: E você sabe o que é fome, Soares? Fome passei eu uma vez, numa
caçada. Levei um dia todo perdido num boqueirão de serra. Te lembras, Oliveira?
(Gargalhada)
OLIVEIRA (também numa gargalhada): Se foi... Mas o que estamos vendo, hoje, é o
que se chama a exploração da fome. É a grita dos fazedores de seca. Dos caça-votos da
Capital. Só.
FEITOSA (a Pintassilgo): Pois, meu prezado Pinta, vamos tratar da nossa Semana
Santa. Como é, ainda está zangado?
PINTASSILGO: Ah bom, doutor... Então o doutor paga a despesa, bóia,
hospedagem, paga tudo, e larga o papel para outro?
FEITOSA: Não é bem isso, meu grande artista...
PINTASSILGO: Pois toda a cidade já sabe que eu este ano vou deixar de fazer o
Cristo só para ceder o lugar ao doutor Laurindo Feitosa. E até para o deputado Aragão e
esses outros graúdos, da inimizade do doutor, tive de dizer, quando me perguntaram -
espantados - a causa de minha desistência. É que eu - foi o que lhes disse - me sentia
um pouco gordo para o papel. Que este só assentava no doutor Laurindo, e que eu
mesmo - como o Soares aí é testemunha - já lhe tinha feito o convite.
FEITOSA: E eu lhe agradeço. Mas acho que Morais fará melhor. Lembre-se - ele é
venerado pelo povo...
SOARES: Eita, que água só corre mesmo é pro mar!
PINTASSILGO: Mas doutor Morais já não é moço. E depois, gordo por gordo...
SOARES: Padre Eusébio não será mais indicado?
OLIVEIRA: Padre Eusébio não agüenta. É rendido.
FEITOSA: Então, não acha justa a minha escolha? (Jogando o manto no chão)
Toma a fantasia, leva-a ao Morais. Ele não se negará. É um apelo que a cidade lhe faz.
PINTASSILGO (apanhando o manto): Assim, que papel vai o doutor escolher?
(Suspira) Quer Pilatos?
FEITOSA: Não. Pilatos fica bem no Aragão. Prefiro um Soldado Romano.
PINTASSILGO: Um soldado?
SOARES: Quem sabe se um Apóstolo...
PINTASSILGO: Um Simples soldado? É uma pena... E o senhor Juiz, vai fazer o
Sumo Sacerdote?
OLIVEIRA (sorrindo): Caifás!
FEITOSA: E até amanhã, na Prefeitura, quando discutiremos os detalhes.
PINTASSILGO (triste): E o senhor Prefeito?

166
PREFEITO: Qualquer coisa, Pintassilgo, qualquer coisa. Chega.
FEITOSA: Adeus. E fique mais uma vez avisado, Soares, que esse negócio de
ameaça de retirante não tem a mínima importância. Um cachaceiro passou os
telegramas. Pronto. Não se fala mais nisso.
SOARES: Boas tardes.

(Pintassilgo e Soares se afastam)

SOARES (baixo): Então ele dá o papel pro Morais? Pois seu Pintassilgo, laranja
madura em beira de estrada ou é azeda ou tem marimbondo. (Saem)
PREFEITO: Eu também já me vou. Vou, pelo menos, mandar limpar as ruas por
onde o cortejo deve passar. Adeus. (Sai)
FEITOSA: Está aí um Prefeito modesto.
OLIVEIRA: É. Modesto e falido.
FEITOSA: Um bom homem.
OLIVEIRA: É. Um bom homem. Mas, Feitosinha, uma coisa me deixou com a
pulga na orelha... Se você arca com este despesão todo, por que vai deixar que outro tire
proveito de uma situação rara, esplêndida, oportuna, e que vem a calhar para você? Se
quer popularidade, por que desistir do papel?
FEITOSA: Olha, quando se trata de uma farra, de um banho à noite, no açude,
com o mulherio, eu topo. Mas não sou de me embonecar, que isso de representação é
coisa de baitola.
OLIVEIRA: Você tem razão. Mas, a popularidade que dá voto, esta você não
arranja com os piqueniques do açude. Você sabe que até o idiota do Pintassilgo passa
por santo no meio dessa gente só porque andou representando o Salvador. Agora, se a
coisa é com Morais, então vai ser um Deus-nos-acuda.
FEITOSA: Não se esqueça de que sou amigo de Morais. Logo...
OLIVEIRA: Eu sei, eu sei. Mas ele? Não é ele, também, amigo do deputado Aragão?
E o povo? Você já pensou - com esta seca - no que pode dar uma multidão de fanáticos a
gritar o nome de Alberto Morais, a lhe pedir milagres? E quem melhor para fazer milagres
com uma bandinha de aspirina? Você vai enfrentar uma campanha - para isso empresou
esta festa - e agora, se não faz o Cristo, cadê o proveito que podia tirar? Tudo irá
depender de Morais, tudo estará nas mãos do doutor da pobreza.
FEITOSA: Se ele é dos meus... será melhor assim.
OLIVEIRA: Melhor é o seguro. Nunca sabemos por quem torce o vizinho. Cuidado,
cuidado para não comer da banda podre.
FEITOSA: Mas Oliveira, não foi você que sugeriu o Morais?
OLIVEIRA: Eu? Eu disse: escolha o Morais?
FEITOSA: Diretamente, não. Mas...
167
OLIVEIRA: Em todo caso, com Cristo ou sem Cristo, ele é um líder. O único líder
natural.
FEITOSA: Você acha que eu não conseguirei...
OLIVEIRA: Não conseguirá. Perdoe-me a franqueza. Mesmo fazendo o Cristo. No
momento, não.
FEITOSA: Você me ofende.
OLIVEIRA: Pelo contrário. Desejo te ajudar. Um líder não é imposto. É preciso que
se desenvolva uma série de circunstâncias para que, então, surja o líder. Mas não te
entristeças. Foi melhor assim. Eu não poderia ser um líder, e isso não me entristece. Em
compensação, me alegra criar - do nada - a figura. As coisas se encaminham
naturalmente. Morais será o Cristo. Esplêndido! As cartas estão aqui...
FEITOSA: Não te entendo.
OLIVEIRA: Deixa o jogo por minha conta. É um prazer, jogar... (Sorri)
FEITOSA: Mas, afinal. chamo ou não chamo o Pintassilgo? Fico com o papel, ou
não fico?
OLIVEIRA: Do nada ele surgirá. Não, não o chame. Deixe que a ação. agora, se
desenvolva.
FEITOSA: Mas Oliveira, eu não entendi nada.
OLIVEIRA: Não se preocupe.

(Aparecem o Velho Retirante e Raimunda)

VELHO: Boas tardes, meus brancos.


FEITOSA: O que ordena?
VELHO: Quem sou eu, meu branco, pra ordenar... Isto é coisa que já esqueci
desde que a finada se foi... Lá pras minhas bandas quem ordena mesmo é a estiagem e
quem executa ordem é urubu. Mas minha demora é curta. Vim, porque me falaram que
na casa do doutor pode ter emprego pra esta menina, que é minha neta e...
FEITOSA: E quanto pede pelo emprego da menina?
VELHO: Vosmecê dê o que vê que ela vale. (Arrancando o pano que encobre o rosto
da menina.) Tira este pano, mode o homem ver tua cara... Espavorida como nunca vi
igual.
OLIVEIRA: Veja se se lembra também de mim, meu velho, pois também careço de
quem me sirva. Pago o ouro que o doutor Feitosa está pagando.
VELHO (quase ajoelhado, numa reverência): Eu vou procurar, doutor, lhe prometo.
FEITOSA: Toma cem cruzeiros. Vai-te embora. Some.
VELHO: O Santo Anjo da Guarda o afaste de toda traição. Amém. (Sai)
OLIVEIRA: Garanto que não vai hoje à Preá, conforme combinamos. Olha, eu
passo pra te apanhar. Adeus. (Sai)
168
FEITOSA (a Raimunda, mostrando-lhe o banco): Sente-se.
(Raimunda senta-se timidamente. Feitosa senta-se a seu lado e tenta descobrir-
lhe as pernas, o rosto, os braços.)
FEITOSA (sorrindo): Então, lá pra suas bandas quem executa ordem é urubu?
(Raimunda chora) Por que está chorando? Eu sou o bicho-fera? Você, meu bem, está com
medo de mim?
RAIMUNDA: Nhor não...
FEITOSA: Olhos agateados... Como é o teu nome?
RAIMUNDA: Raimunda.
FEITOSA (admirando-lhe o rosto): Raimunda... Qual é a tua idade?
RAIMUNDA: Tou dentro dos quinze.
FEITOSA (carinhoso): Então?...
RAIMUNDA (chorando): É que eu não sou nem neta daquele velho, que me fez
mal... Que eu nem sou mais...
FEITOSA (mais carinhoso): Não há de ser nada... não há de ser nada...

CORTINA

(Entra o cego Caçote, cantando)

“De noite na casa alegre


tem bebida e tem pagode,
cada um faz o que quer.
De dia são os negócios,
cada um faz sua fé,
de dia negociam o pobre
de noite - no cabaré.

“Tocador de concertina
que tem filha pra devassar
hoje em dia é muito rico
não precisa trabalhar,
bota as meninas no samba
convida a turma pra dança
abraçando o lupanar.”

Noite no cabaré da Preá. Duas mesas com copos e garrafas. Música de rádio (boleros).
Sentados ao redor da 1ª mesa estão: Soares, Alvarenga, e a 1ª Prostituta; na segunda
mesa: Aragão, Andrade e Melo. De lado, duas Prostitutas. Quando a cortina se abre, Preá
169
está acabando de jogar uma bacia dágua no cego.

CAÇOTE (sai resmungando): Por causa desta malvada todo mundo é castigado...

(Risos dos freqüentadores do cabaré.)

PREÁ: O diabo deste cego termina acabando com a minha freguesia. (A Alvarenga)
Como é, meu genro, vai ou não vai dançar? (Ri) Toma uma biazinha, meu genro, que é
pra esquentar o sangue.

(A 1ª Prostituta faz cócegas na orelha de Alvarenga. Gargalhadas.)

ALVARENGA: Danou-se. Matuto na praça é isto. Arreda daí, tentação.


PREÁ: Vai ver o coronel anda é com saudade de casa...
ALVARENGA: Que saudade, comadre Preá, pois a velha lá já nem se lembra
dessas bobagens. Tou com saudade é das minhas garrotas, que tá tudo se acabando que
é um despotismo. Oi seca desesperada.
PREÁ: Homem de Deus, não fala de coisa ruim não. Esta casa é de alegria. Olhe aí
a menina, hem?
ALVARENGA: Ih, matuto na praça vai logo depenado. Fica com ela, compadre
Soares...
PREÁ: Que Soares, meu coronel... A menina é sua.

(Gargalhadas. Melo dança com a 1ª Prostituta. As duas Prostitutas saem dançando, uma
com a outra. No proscênio surgem Feitosa e Oliveira.)

OLIVEIRA: Veja como eles se divertem...


FEITOSA: Mas pra que diabo você quer o revólver do Aragão?
OLIVEIRA: É cá um plano que tenho.
FEITOSA: Que plano?
OLIVEIRA: O importante é o revólver. E você o conseguirá, facilmente, com a
rapariga dele. É só soltar o dinheiro.
FEITOSA: Vamos lá. (Afastam-se atravessando o proscênio.)

(Pára a música. A Prostituta volta para a mesa de Alvarenga.)

PREÁ: Então?
ALVARENGA: Só me queixo dessa raça desesperada que me carregou pra este
furdunço. Quando eu entrei aqui vocês deviam ter botado um fato de ovelha na minha
cabeça, que só tando doido. Já amanhã vou pra procissão de Pintassilgo. A gente sai das
brasas pra cair nas labaredas. Tou frito, no sem jeito.

(Gargalhadas. Entra Feitosa. Todos se movimentam.)

SOARES: Viva o doutor Feitosa e viva o doutor Aragão!

170
FEITOSA (abraçando Aragão): Nesta casa reina a união!
SOARES: Viva a boa união!
TODOS: Viva!
(Feitosa senta-se.)
PREÁ (a Feitosa): A Junilsa te espera...
FEITOSA (abrindo os braços): Eu hoje estou enfadado...

(Feitosa levanta-se, aproxima de uma Prostituta. Sai a dançar com esta.)

FEITOSA: Está com o Aragão? (A mulher confirma com a cabeça) Escuta, tem dois
mil cruzeiros para ir embora nesta madrugada.
PROSTITUTA: Eu? ...
FEITOSA: É uma ordem. Mas antes você vai me trazer o revólver dele. A porta do
meu quarto fica encostada. Pode entrar sem bater. E toma cuidado com a tua vida. Sê
boazinha... (Alto) Obrigado. Estão me esperando.

(A Prostituta saí abraçada com Aragão. Os outros vão saindo.)

FEITOSA (a Preá): O Juiz está ai, no sereno. (Ri) Leva-o para o reservado...

(Alvarenga se levanta com a 1ª Prostituta.)

FEITOSA: Isto, meu coronel... (Sai)


ALVARENGA: Pois é, esta raça me carregou pra cá, não é? (Sai com a mulher)
PREÁ (passando com Oliveira): Por aqui, excelência, por aqui...

(Preá volta em seguida. Apaga as luzes. No primeiro plano surgem os vultos de quatro
Retirantes: um casal e duas crianças.)

1º RETIRANTE: Nesta calçada se dorme bom que faz gosto. Mariazinha, pegue
essa trouxa e faça cabeceira pro Manuelo, que tá doente. Eu vou ver se tiro uma
madorna, que tou é bambo.
1ª RETIRANTE: Também você é um homem não sei que diga... Fazer a gente
lapear dez léguas! Eu também tou me vendo, tou toda banida.
1º RETIRANTE: Eu não sei andar na maciota não. Amanhã é Sexta-Feira Maior e a
gente tem de pagar a promessa ao Santo e levar o menino pro doutor receitar. Depois a
gente ganha a estrada. A questão é não medir fogo.
1ª RETIRANTE: Mas, homem, você não magina. Este negócio de se chegar de noite
nos povoados é o Cão. A esta hora tá tudo dormindo regalado. Eu só queria achar uma
criatura que me arrumasse uns panos. O melhor é a gente se demorar uns dois dias,
depois então seguir caminho. Homem, não se esqueça de perguntar se o Governo vai
mandar serviço.
1º RETIRANTE: Tu ainda acredita em lembrança de Governo? Isto é que é mulher

171
besta! Governo se embaraça lá com pobre! Se acaba tudo e ele nem coisa. Pobre que
escapar desta pode bater nos peitos que é pior que cascavel. Eu lá acredito em cantiga de
Governo. Tu cuida que ainda estamos no tempo de papai Pedro?
1ª RETIRANTE: Eu não. Mas podia ser que Nosso Senhor abrandasse a natureza
dos homens.
1º RETIRANTE: Abranda lá nada.
1ª RETIRANTE: É só este céu estrelado por riba de nós, e o latido dos cachorros.
Me dá uma agonia...
1º RETIRANTE: Tá chorando? Não vê que tu acorda o povo? Deixa de besteira.
1ª RETIRANTE: Tá bom, tratemos de dormir, que se a gente for maginar em
desgraça acaba tudo é doido do juízo. Homem, tu te deita sem fazer o Pelo Sinal?
1º RETIRANTE: É porque eu já vivo é lesado. Também se o Pai do Céu for se
importar com esses esquecimentos...

(Escurece.)

2º ATO

NUM SALÃO DA PREFEITURA

Alberto Morais e Oliveira, este, vestido de Sumo Sacerdote. Ao lado, numa cadeira,
o manto e a cabeleira do traje de Cristo.
MORAIS: Não me fica bem, o papel. Você compreenda...
OLIVEIRA: Ora, Morais, assim você está a me criticar no Sumo Sacerdote.
MORAIS: Não, não é isso. Mas eu não tenho jeito para essas coisas. Nem no meu
tempo de menino... (Ri)
OLIVEIRA: E eu, por acaso, tenho? Prezado, a escolha é uma homenagem que a
cidade lhe presta. Presta ao médico do povo, ao filho bem amado do sertão. Ao homem
que cura nestes descampados da Borborema!
MORAIS: Que exagero.
OLIVEIRA: Eu, exagerando? Mas se a porta de sua casa até parece pátio de
milagres? Se sua fama, hoje, só pode ser comparada àquela que alcançou o Santo de
Juazeiro? A quem estes retirantes vêm pedir socorro?
MORAIS: A nós todos eles pedem socorro. Mas, meu caro Juiz, não confunda a
minha profissão com a de curandeiro...
OLIVEIRA: Absolutamente! Mas seu prestígio - justo, aliás - é de tal maneira que
se hoje mesmo eu gritasse ao povo - aos doentes e romeiros que estão nesta cidade - se
eu gritasse que o médico, o doutor Morais, é candidato ao Governo do Estado - creia-me,
172
o alvoroço seria de ensurdecer. E você, prezado, não teria forças para me desmentir, ou
melhor, para retirar a sua candidatura. Estaria eleito!
MORAIS (sorrindo): Você não faria isso...
OLIVEIRA: E por que não?
MORAIS: Nem o momento é oportuno, nem eu...
OLIVEIRA: Não é oportuno? Por quê?
MORAIS: Não, não é isso. O que eu quero dizer é que é cargo que não me tenta.
OLIVEIRA: Ora, convenhamos, quando se trata da salvação de um povo... Então
você não se sacrificaria?
MORAIS: De sacrifício já tenho a minha profissão. E este, agora, que vocês me
impõem: um Cristo balofo, ridículo... (Veste-se na fantasia.)
OLIVEIRA (sorrindo): É o próprio Enviado!
MORAIS (arrancando a cabeleira): Supinamente ridículo.
OLIVEIRA: Prezado, o povo não aceitaria outro. Veja bem, na distribuição dos
papéis você ganhou por unanimidade. Aliás, o sacrifício não é só seu, é de todos nós.
Mas, se a minha fantasia vale como uma prova de humildade cristã... Neste ponto eu não
tenho respeito humano.
MORAIS: É verdade.
OLIVEIRA: Se você se candidatasse a Governador, hem? Coisa, aliás, certíssima.
Então, não seria o candidato natural do nosso partido? Laurindo ficaria felicíssimo...
MORAIS: Não me tente. Pelo amor de Deus, não me tente. (Sai)

(Entram Cremilda e Adelaide.)

CREMILDA: Adoro o papel de Verônica. Pena que tenha de afagar o rosto de um


Cristo tão fora do modelo.
ADELAIDE: Na verdade, Cremilda, seria mais interessante que nestas cenas a
gente abraçasse o próprio marido.
CREMILDA: Não entendi.
ADELAIDE: Quero dizer, meu bem, que em cenas mais intimas... Sim, porque
nessas horas ninguém venha me dizer que está realmente sentindo a grandeza do
espetáculo. Não, o que eles querem ver é o abraço e se a gente demorou muito no abraço
e etc.... olho vivo! Penso que Pintassilgo não andou acertado quando separou os casais.
CREMILDA: Terá sido de propósito? Será que Oliveira?... (Gargalhada) Não,
ciúmes em Oliveira seria ridículo.
ADELAIDE: O quê?
CREMILDA: Nada não.
ADELAIDE: Inda bem que vou fazer a Virgem, que é papel de respeito, me dizendo
Pintassilgo que é só chorar, chorar, abrir os braços e olhar para o céu, como se estivesse
173
mesmo sentindo a dor de sete punhais a me entrar no coração. Agora eu lhe pergunto -
como posso sentir essa dor se o Cristo não é um filho ou, pelo menos, o meu marido?
Que sentimento posso ter pelo doutor Morais, além de respeitosa amizade e
reconhecimento pelos dez filhos que me pegou?
CREMILDA: Dez? Me desculpe a franqueza, Adelaide, mas você é uma mulher
insaciável! Pois olhe, isto foi coisa que eu proibi ao Oliveira... Credo, você já teve dez?
ADELAIDE: Dez, meu bem, e se lhe disser que já... Ah bom, o Juvêncio é brabo.
(Ri) Pois se o Cristo fosse o doutor Oliveira garanto que você estaria muito mais à vontade
na sua Verônica.
CREMILDA: Penso que não. Ah, Adelaide, nada é perfeito neste mundo...
ADELAIDE: Chi, olha aí o doutor Oliveira!
CREMILDA: Credo, homem, você me assustou!
OLIVEIRA (sorrindo): Caifás...
CREMILDA: Cruzes... Isto é que é o meu marido? Parece alma de jaraguá! Um
cavalo. Escritinho.
OLIVEIRA: Pois vou mandar abrir processo contra Pintassilgo, que foi quem me
apalhaçou. (Ri)

(Entram Feitosa e o Prefeito; o primeiro vestido de Soldado Romano, o segundo de


Apóstolo.)

PREFEITO: E já andam dizendo por aí que o Prefeito é o rei da folia!


OLIVEIRA: Pois você vai se importar com o que dizem por aí? Isto é ato de fé que
oferecemos ao povo! Sua senhora, por exemplo, está muito contente no papel da Virgem.
Não é verdade, dona Adelaide?
ADELAIDE: Contentíssima! (Ao Prefeito) Ora, meu filho, deixe de encabulamento.
FEITOSA: Depois, se há culpa, a culpa é de Pintassilgo - o inventor da Semana
Santa de Guaxinim!
OLIVEIRA (ao Prefeito): E nós, prezado Apóstolo - João ou Tiago? - estamos neste
compromisso sem um só tostão dos cofres da Municipalidade!
PREFEITO: Se a Prefeitura já não tem nem mais cofres... (Sorri) Não fosse a
prodigalidade de Feitosa...
FEITOSA: Ora, Guaxinim, afinal, não é uma aldeia!

(Entram Aragão. Alvarenga, Andrade, Melo, Arabela e Marlene, nas fantasias de Pilatos,
Herodes, Apóstolo, Soldado Romano e Anjo, respectivamente.)

OLIVEIRA (ao Prefeito): Por favor, acabe com este ar assustado, pois não se trata
de exibição, mas, como já frisei, de uma parada de fé. Fé nas nossas riquezas, nesta
nação de agricultores e pecuaristas! O país precisa de homens como o nosso deputado

174
Laurindo Feitosa - de visão, de arrojo, de novos ideais!
ADELAIDE: Muito bem!

(Arabela e Marlene batem palmas.)

CREMILDA (a Oliveira): Muito bem, Aquiles, muito bem!

(Alvarenga aproximando-se do grupo de Oliveira.)

ALVARENGA: Deixei minha fazenda, justamente, para entrar neste ato religioso, e
não quero que ninguém me chame de ateu, de incréu. Mas eu quero também perguntar,
ao senhor Prefeito, o que se vai fazer, lá pelas minhas bandas, para conter o desespero. É
uma enrascada, pois ninguém quer ficar por lá...
PREFEITO: Coronel Alvarenga, pessimismo só serve para atrasar a nação.
OLIVEIRA: Vem tudo logo mais, vem trabalho para todos. Ninguém vai ter de
ganhar a estrada. De hora em hora Deus melhora.
PREFEITO: O governo não está dormindo, coronel!
ALVARENGA: Lhe digo que bati, ontem, a Porteira da Oiticica. O grito é de salve-se
quem puder. E é neste extremo que me vejo aqui vestido de Chico-tira-língua...
OLIVEIRA: Perdão, meu coronel, mas não estamos em festa de Boi. Isto é Semana
Santa, é ato piedoso.
ALVARENGA: Piedade tenho eu de minhas vaquinhas.
OLIVEIRA: Não vamos agora discutir o caso de suas vacas, coronel, que o
momento não é oportuno. A procissão está em marcha, coronel, em marcha! Vamos!

(Música. de um "dobrado". Entra Pintassilgo, seguido do padre. Pintassilgo, numa fantasia


de cetim roxo, é o Cronista da Via-Sacra).

PINTASSILGO (ajeitando ora o manto de um ora a cabeleira de outro): Ai, que eu já


nem sei mais o que faço. Meus amigos, estou exausto. E nervoso. Nervoso e com razão
para estar nervoso, pois tudo sai errado. Assim não, assim trabalho nenhum pode
render. Mas não me ouve esta gente que está aí (aponta para um dos lados do palco).
Tudo tão simples... Mas eles complicam e se queixam por qualquer palavrinha mais alta.
Ora, eu não sei cochichar, não sou homem de cochichos. (Gritando para o fundo do palco)
Pára, pára com este dobrado horroroso! (A música pára) Bem, meus amigos... (Dirigindo-
se ao fundo do palco) Eu não quero este dobrado festivo, mestre Zuza, pois nós vamos
reviver o Caminho do Gólgota, da Cruz, da Esponja e do Cilício! Entendeu? Toque antes
aquele "No Céu, no Céu, com minha Mãe estarei..." Me ouviu mestre? Bem, meus
amigos, como ia lhes dizendo, vamos recordar mais uma vez: o primeiro quadro será
“Jesus e a Samaritana" - local, todos já sabem, é o do velho catavento. Rosa, a minha
patroa, fará a Samaritana. De lá marcharemos para a beira do açude - cena do "Horta
das Oliveiras." Suprimimos, motivo força maior, os episódios: "Entrada de Jerusalém" e a
175
"Ceia Larga." Alguns dos participantes não ficaram satisfeitos, eu soube, com a saída da
Ceia, mas a verdade é que esse belo quadro iria tomar muito tempo e provocar o
desespero dos jejuadores. O pão! O peixe! Foi mais prudente suprimi-lo. O “Encontro
com Pilatos" será na frente da Prefeitura; o da "Virgem", na esquina de dona Mundoca
Chaves; a "Terceira Queda", na praça Rui Barbosa; a "Verônica", em frente ao bangalô do
doutor Oliveira; "Jesus consola as filhas de Jerusalém", no largo do Matadouro e,
finalmente, no Outeiro da Velha - o "Gólgota". Estamos entendidos? E mais uma vez o
que já lhes recomendei: o pessoal do "Cristo", sempre que puder, uns ao lado dos outros;
os "Judeus", esbravejando, ameaçando, e os "Juízes e Romanos", mais afastados, mais
imponentes. Então, podemos começar?
TODOS: Muito bem, muito bem!
PADRE: Um momento, meus caros paroquianos... Sei que vocês estão cônscios do
grande drama que vão viver. Drama que deve merecer todo respeito. Portanto, com
espírito verdadeiramente piedoso. Amém.
PINTASSILGO: Vamos começar.

Todos se retiram, com exceção de Feitosa e Cremilda.

CREMILDA: Você anda seco, distante... O que eu te fiz? (Feitosa lhe dá as costas)
Mas o que foi que eu te fiz? É assim, não é? ... (Sai)

(Entra Oliveira.)

OLIVEIRA (olhando para Cremilda, que se retira; sorrindo): É uma criança esta
minha mulher. Inocente como não pode haver outra. Alienada total... Agora anda
amuada - amuadíssima - porque discorda de Morais, no Cristo. Leva muito a sério a
nossa representação. Ah, se você a visse em casa, batendo o pezinho... (Sorri) Está
calado... Pois olha, eu não dizia? Morais está com toda a corda... Falou-me até - veja - de
sua admiração pelo deputado Aragão. Carregando bem na palavra "deputado". “Porque o
deputado Aragão, etc. e tal." Aí está o bom, o justo Morais. O posto era seu. E agora,
beleléus. Caboclo quer lá saber quem pagou a música ... Caboclo quer é milagre!
FEITOSA: Mas não foi você, Oliveira, que sugeriu para ele o tal papel? Agora me
atira a culpa, não é?
OLIVEIRA: Eu? Eu nunca imaginei isso, Deus me livre! Mas, se você quiser,
Feitosinha, nem tudo ainda está perdido...
FEITOSA: Pare de me chamar Feitosinha.
OLIVEIRA: Não se aborreça. Acho até que foi melhor assim. Se você quiser é agora
o momento de lhe armar o bote. Em Política é confiar desconfiando. Ora, antes se alegre,
pois vamos arrancar as asas dele enquanto é tempo: Vamos. (Saem)

(Pintassilgo com o rosto molhado e Rosa com a moringa na mão. Música ao longe.)
176
PINTASSILGO: Mulher desesperada, ao Cristo você mata a sede, a mim você taca
água na cara.
ROSA: De tuas besteiras, de tuas palhaçadas eu já ando é bofando. (Sai)
PINTASSILGO (ao público): Com a incompreensão de todos e - a mais triste - a
incompreensão do lar! (Sai)

(Música mais forte. Entra o grupo da "Via-Sacra”, e mais romeiros, retirantes, etc. Cena do
"Horto". No proscênio, Feitosa e Oliveira.)

FEITOSA: Mas ele te disse alguma coisa?


OLIVEIRA: Na verdade ele não se manifestou claramente, mas, ficou assim, de
boca aberta, quando eu lhe soltei a mosca azul. Desconfio sempre dos desinteressados.
No fundo, adoram as louvaminhas, os panegíricos de cegos e cantadores. Coisas que
pareceriam ridículas a um espírito menos ambicioso...
FEITOSA: Você acha que Morais seria capaz de me negar apoio?
OLIVEIRA: Apoio? Mas como apoio? Em que sentido? (Ri) Ele parece tímido, é
verdade, mas é uma timidez trabalhada, onde se esconde muita astúcia. É modesto, mas
precisa de louvores para não morrer. Você não viu o ABC do cantador Passarinho
exaltando a sua caridade? Quem pagou a impressão do folheto laudativo? Fui eu? Você?
Foi Passarinho? A cupidez sob o manto de São Vicente de Paula - eis o homem.

(A cena do "Horto" se desfaz.)

FEITOSA: É o diabo.
OLIVEIRA: Uma força que você desencadeou. E contra quem? Ele é teu amigo,
mas não o é, também, do Aragão? Lembre-se Feitosa, é toda uma região - dois terços do
Estado, lhe digo eu - que o tem de hoje em diante como o seu Santo, o seu Líder...
FEITOSA: Amigo do Aragão...
OLIVEIRA: E por falar em Aragão, não é que eu ia me esquecendo de te devolver a
arma dele? (Mostra-lhe um revólver)
FEITOSA: Pra que este revólver? (Saem acompanhando a procissão)

(Entram as duas Mocinhas.)

1ª MOCINHA: Ah, siazinha, as ruas estão cheias de povo de fora. E não é só de


romeiro não. É de gente escovada, de pracianos de todas as paragens. Ah, siazinha, eu
ando é sem jeito de caminhar, com estas roupas...
2ª MOCINHA: Ora, Socorro, pois eu acho é bom. Todo mundo fica olhando mas é
com respeito, com vontade de estar no lugar da gente. Vamos, siá ... (Saem)

(Entra a "Via-Sacra". Cena de "Pilatos". Música. Feitosa e Oliveira no proscênio.)

FEITOSA: Ainda não atinei... Por que você me pediu aquilo? O nosso Pilatos deve

177
estar pensando aonde diabo a mulher se meteu, e porque lhe furtou o revólver. Então,
para que vai te servir?
OLIVEIRA: Nunca se sabe, não é? ...
PINTASSILGO (ao fundo): "Ecce Homo”! Cristo ou Barrabás? E a multidão
enfurecida clamou: Barrabás! Barrabás! Pilatos, lavando as mãos, entregou Jesus à
turba: Crucificai-o, crucificai-o! Ó condenação iníqua, ó gesto desumano!

(Música. O cortejo sai. Cremilda e Adelaide aparecem.)

CREMILDA: Você viu a Madalena da Sônia Maria?


ADELAIDE: Coitada, muito gorda!
CREMILDA: Horrorosa! Ah, eu ainda não me conformo com o Cristo do doutor
Morais... Como poderei vibrar na Verônica, com aquele homem? É impossível demonstrar
sentimentos, quando seria outra a figura ideal!
ADELAIDE: Realmente, Cremilda, penso que você - que é uma verdadeira artista -
estaria melhor no papel se o Nazareno fosse o doutor Oliveira.
CREMELDA: Nada. Meu marido é muito magro, ossudo...
ADELAIDE: O que vale é que eu só tenho mesmo é que chorar e botar os braços
para cima. E chorar, meu bem, ah, isto eu choro, sou que nem manteiga derretida. É só
ouvir a música.

(Entram Arabela e Marlene.)

MARLENE: Mamãe e dona Cremilda, está na hora. Vai ser já já a cena do


Encontro!
ADELAIDE: Oh, meu bem, você esteve um amor, com aquele cálice na mão. Um
amor!
ARABELA: Vamos. minha gente, vamos. (Saem)

(Cena de "Encontro". Entram Aragão e Melo.)

ARAGÃO: Eles pagaram a festa mas o lucro vai ser nosso. Amanhã, bem cedo,
conversarei com Morais - nosso futuro Prefeito! Ah, seu Melo, vamos tirar um proveito
enorme com este Cristo!
MELO: Achou a tua arma?
ARAGÃO: Não é estranho? Ninguém sabe onde aquele gato se meteu, e porque
diabo apanhou o meu revólver.
MELO: Vamos. (Saem)

(Entram Oliveira e Feitosa.)

OLIVEIRA: Está vendo como choram e rezam? E como se ajoelham na pedra dura?
Estão crentes que isto é mesmo a Jerusalém de Herodes...

178
FEITOSA: Viu a pose do Aragão? Sujeito mais besta.
OLIVEIRA: Não só a dele, mas a do velho Alvarenga, a do Andrade e outros biltres.
FEITOSA: E Morais, que tal?
OLIVEIRA: Não te dizia? Morais está canonizado! É levantar o dedo e mandar
nesta pinóia toda. Está vendo como é que se atira com a pólvora alheia?
FEITOSA: É o diabo. Uma oportunidade que eu perdi...
OLIVEIRA: Estamos na várzea sem cachorro...
FEITOSA: É, mas eu não vou dar festa pra engordar urubu.
OLIVEIRA: Foi até melhor assim, porque... se morre Morais...
FEITOSA: Se morre? Por quê?
OLIVEIRA: Morto Morais, quem - nesta terra - seria capaz de concorrer contigo?
FEITOSA: Você acha Morais, assim tão poderoso? E a minha força?
OLIVEIRA: Realismo, prezado, realismo. Morais morre e você ganha os romeiros de
Morais... (Lhe dá o revólver)
FEITOSA: Este, o teu plano? Não, não preciso, tenho o meu. Mas você não vai
pensar que...
OLIVEIRA (guardando o revólver): Eu não vou pensar, que o momento não é mais
para pensar. Vamos. (Mudam de posição)

(Música. Cena da "Verônica”.)

OLIVEIRA: Morais não deve ser morto nem amanhã nem daqui a um mês. É
preciso que a representação não esfrie. O povo gosta de violência.
PINTASSILGO (do fundo): Uma piedosa mulher, de nome Verônica, rompe a
multidão dos judeus enfurecidos, e com uma branca toalha de linho enxuga o rosto
sacrossanto. Vede-a...

(Cremilda desdobra uma tela, onde está impresso o rosto do Cristo. Canta:)

“O vos omnes qui transitis per viam,


Attendite, et videte
Si est dolor sicut dolor meus.“
OLIVEIRA: É quase noite. Você aproveita o barulho das matracas, e pronto.

(Música. Desfaz-se a cena da “Via-Sacra”. Oliveira e Feitosa saem.)

PINTASSILGO (aos acompanhantes): Por ali, ali. Vamos. Silêncio. (Suspira) Cena
tão pungente... Vamos. Ordem, todos em ordem, Silêncio (Sai)

(Entram Aragão e Soares.)

ARAGÃO: Você vai telegrafar agora mesmo, Soares. Eu exijo. Em alguma cidade
destas ela chegou ou deve estar chegando. Quero a minha arma. Alguma coisa houve

179
para aquela mulher furtar o meu revólver. Alguém, certamente, lhe deu dinheiro para
isso.
SOARES: Mas doutor Aragão, já já não é possível. Vou logo depois da
representação.
ARAGÃO: Estão armando uma cilada, para mim. Tenho certeza. Olha, eu te espero
na porta do Telégrafo. (Sai)

(Entram Feitosa e Oliveira. Este, segurando uma matraca.)

SOARES: Estou que não me agüento com esta alpercata... Mas quem teria
mandado fazer isso? Pois, se não foi assim, por que diabo ela desapareceu? Alguém lhe
deu dinheiro, estou certo...
OLIVEIRA (aproximando-se de Soares): O quê, Soares? Você está fazendo o papel
de Judas? Que história é essa de dinheiro e mulher, em plena Via-Sacra?
SOARES: Ah, doutor Oliveira, pois não é que um gato lá da zona desapareceu com
a arma do doutor Aragão?
OLIVEIRA: O quê?...
SOARES: Pois sim senhor... Mas tenho que foi coisa a mando de alguém. Algum
inimigo do homem, é claro. Agora, veja a situação de um pobre telegrafista! Não tenho
folga nem num dia como o de hoje. Já vou para a Estação, pois preciso mandar avisos
aos delegados de Santa Rita e Croatá. Que eles detenham a mulher.
OLIVEIRA: Garanto a você que hoje não saiu nenhum caminhão da cidade. E nem
poderia sair, com esta festa. Ora, venha conosco, vamos assistir, juntos, à Crucificação.
Você poderá me ajudar a bater esta matraca. Vamos (Saem)

(Anoitece. Entram a 1ª e 2ª Mocinha.)

1ª MOCINHA: Ah, minha prima, quando tio Demóstenes gritou o “não choreis
sobre mim, chorai sobre vós e sobre os vossos filhos”, foi como se os meus olhos se
transformassem, num instante, em dois minadouros. Me veio um abalo por dentro...
2ª MOCINHA: Eu também, siá, eu também.

(Entram retirantes, rezando.)

1º RETIRANTE: Meu Jesus, dai-nos chuva, um bom inverno, que ainda é tempo.
2º RETIRANTE: Uns chuviscos, ao menos, meu Santo Crucificado, para ajudar a
nossa fé...
1ª RETIRANTE: Oh, que tanta judiação... Tanto sofrimento por nossos pecados...
2ª RETIRANTE: Não pense nos nossos pecados, meu Jesus, mas na nossa
misericórdia!

(Ouve-se o bater de matracas.)

180
1ª RETIRANTE: É agora, compadre, lá se vão eles alevantando a cruz!
2ª RETIRANTE: Gente, eu vim pra cá mode não ver de perto. Estou fria...
1ª RETIRANTE: Eu fico até doída com tanto sofrimento.
1º RETIRANTE: É de lanhar o coração!
1ª RETIRANTE: Tadinho, tadinho...
2ª RETIRANTE: Minha Mãe da Soledade!
1º RETIRANTE: A cruz!
2º RETIRANTE: A cruz, a cruz!
1ª RETIRANTE: Tende piedade de nós, tende piedade de nós!

(Ouvem-se dois tiros, depois, gritos, correrias, etc.)

1º RETIRANTE: Que clamor é este?


2ª RETIRANTE: Que desadoro!
2º RETIRANTE: Estão correndo!
1ª RETIRANTE: O povo tá correndo! Um alvoroço!
2ª RETIRANTE: E eles vêm no rumo de cá... O que será?

(Vozes: "mataram, mataram!...)

2º RETIRANTE: É briga!
1ª RETIRANTE: Gente, é briga mesmo, e vêm pra cá! Valei-me!
1º RETIRANTE: Nos agachemos aqui, aqui...
2ª RETIRANTE: Meu Sangue de Cristo, valei-me!

(Os Retirantes procuram abrigo. Entram Cremilda, Adelaide e outros acompanhantes da


"Via-Sacra”.)

CREMILDA (gritando): Que horror, mataram o doutor Morais... na cruz! Adelaide,


Adelaide!
ADELAIDE: Meu Deus, o meu marido, onde está? Onde está?
CREMILDA: Mas é impossível, meu Deus, é impossível!

(Entram Arabela e Marlene.)

MARLENE: Mamãe, mamãe, o criminoso também foi morto! Horrível! Eu vi o


homem estendido, mamãe, quase aos meus pés! Ai, ai, eu não agüento, não agüento...
(Abraça-se com Adelaide)

(Entram dois Soldados.)

ADELAIDE: E o Juvêncio? Onde está o Juvêncio? E os meninos? Os meus filhos?


CREMILDA: Valei-nos, valei-nos!
1º SOLDADO (aos Retirantes): Afastem-se, afastem-se todos. Vamos.

181
CREMILDA: Quem foi o assassino? Quem foi? Algum desconhecido? Quem foi?
2º SOLDADO: O telegrafista.
CREMILDA e ADELAIDE: O Soares? Meu Deus, por quê? Por quê?

CORTINA

(Entra o cego Caçote, recitando:)

“Satanaz cresceu as vistas


botou fora a cavilação
formou a sua política
preparou a sua eleição
no fim de toda a contenda
teve grande votação.

A vergonha foi-se embora


ficou só a confusão.”

(Escurece.)

ABRIGO DOS RETIRANTES. NOITE. Choro de criança. Uma cantiga de ninar:

“Adonde vai, seu Manuel,


de guarda-peito e gibão?
Vou à casa de meu pai
pra ele botar-me a benção,
de lá, se Deus for servido,
vou comprar o Alazão.”
1º RETIRANTE: De noite relampeia. Amanhece bonito de chuva, nublado. Promete.
Mas depois se arrepende. Quem vê os torreames diz que vem água muita. Mas qual, é
esse solzão doido e esse vento solto no mundo.
2º RETIRANTE: Eu já ando é derrotado.
3º RETIRANTE: Dia de São José foi o que se viu. Seco. Tem jeito não. O rebentão
tá decretado.
2º RETIRANTE: Acho que a gente devia era fazer caminho.
1ª RETIRANTE: Pra onde, seu João Luca?
2º RETIRANTE: E eu sei lá... Ganhar a barra do mundo.
2ª RETIRANTE: Ah, marido, sair assim sem destino... E os meninos? Eles não
botam mais nem meia légua.
1º RETIRANTE: Isto é terra amaldiçoada... Pois o que fizeram com o doutor...
182
2ª RETIRANTE: E eu que me toquei no rumo de cá, com tanta luta, só pra receitar
os meninos...

(Ouve-se o canto.)

“Adonde vai, seu Manuel,


de guarda-peito e gibão?
3ª RETIRANTE: Ai, que eu nem sei o que vai ser da gente, no desamparo...
2º RETIRANTE: Por mim já tava de viagem, nem que fosse pra deixar o couro no
meio da estrada.
1º RETIRANTE: Pois o que tá me retendo é só mesmo o que tá retendo a nós todos
- é a visita de cova do finado homem.
3º RETIRANTE: E é. Não fosse a morte do doutor eu também não tava mais aqui,
que eu prefiro entrar na massa de mucunã a ter de esmolar.
1ª RETIRANTE: E já vi gente! Gente de toda paragem. Tudo por aí, aos magotes.
Tudo chorando, se lastimando.

(Choro de criança.)

2ª RETIRANTE: Tudo como bezerro enjeitado, tudo desarvorado.


3º RETIRANTE: Mas não fica assim não, que a morte do homem tem de ser
vingada!
1º RETIRANTE: Quando não vale mais a justiça o jeito é a desforra.
1ª RETIRANTE: Credo...
2ª RETIRANTE: Ave Maria, meu Deus'
1ª RETIRANTE: Dizem, Manuel, que aquela alma já anda é obrando milagre. Que o
menino dum retirante tava como morto, só esperando ser lançado na terra, quando a
mãe dele se valeu com a alma do santo doutor. E pois não foi preciso mais nada, logo ali
o menino tornou, e já tá bonzinho.
2º RETIRANTE: Se você visse, comadre Filó, o despotismo de vela que botam lá no
Santo Cruzeiro, onde o homem foi baleado... Cheguei a ficar tonto com o cheiro do sebo
derretido.
1º RETIRANTE: Daí o alvoroço, este pé de guerra. Ou o Delegado dá conta do
mandante do crime ou a gente avança. Pois aquele que era bom já não vive.
2º RETIRANTE: Homem, eu não vi, mas falam que foi o tal de Aragão - que deseja
ordenar feito governo - quem mandou atirar no homem.
1ª RETIRANTE: Ô ente desalmado!
2º RETIRANTE: Mandou pelo desgraçado do telegrafista, que foi logo ali
chumbado. Não é que ele trazia na cintura a arma desse Aragão?
3º RETIRANTE: A valença é que tava lá o doutor Feitosa, que é homem mesmo, e

183
lapeou fogo no tal de Soares.
2º RETIRANTE: Dizem que o delegado tem é se empenhado na captura do
criminoso. Mas aquele diacho só sendo empautado. pois não vê que um praça saiu
correndo atrás dele e num abrir e fechar de olho o homem se virou num pé de mofumbo?
1ª RETIRANTE: Credo!
4º RETIRANTE: Gente, mas quem garante que o cabra atirou no meu padrinho?
Pois se o tal telegrafista nem pôde falar? Se foi morto ali mesmo?
2ª RETIRANTE: Aí está, vai ver não foi ele.
2º RETIRANTE: Ora, mulher, sabe lá o que é gente malvada?
2ª RETIRANTE: Mas logo com o meu Padrinho Morais, que não era homem de
ofender cristão? Um inocente?
1º RETIRANTE: Mais inocente era Nosso Senhor Jesus Cristo, e não foi Nosso
Senhor tão judiado?
3º RETIRANTE: Eu, pelo doutor, vou até pro inferno, quanto mais pro cemitério
que é lugar sagrado.
1º RETIRANTE: Aquele Aragão tem pauto com o Diabo. Ele é quem vai mandar
mesmo, depois das eleições.
1ª RETIRANTE: Que Nossa Mãe das Dores nos defenda.
3º RETIRANTE: Quando Aragão for governo eu nem sei o que lhe diga. Eu quero
que falte chão pro meu enterro! Homem, você quer saber duma coisa? Aquele delegado é
um banana. Se eu fosse chefe quem tava mandando aqui era nó de peia! Eu nunca vi
tanto desaforo em Oposição. Comigo até as pedras já tinham botado luto. Bom era no
tempo do velho Rosendo - fanhoso mas macho!
1º RETIRANTE: Governo e Oposição? Tudo é o mesmo traste.
4º RETIRANTE (mostrando um punhal): Na hora em que eu plantar este, no couro
dum, é até onde não custar mais dinheiro!

(Canto:)

“de lá, se Deus for servido,


vou comprar o Alazão.”

(Escurece. Continua o canto. Amanhece.)

NA RUA. Alvarenga, Andrade e Melo.


ALVARENGA: Não, doutor. Agora, depois do que aconteceu... Nada meu compadre,
me acredite que ainda tou tonto.
ANDRADE: O coronel havia tomado um compromisso... Agora, parece-me, está
roendo a corda...
ALVARENCA: Roendo a corda? E eu sou homem de roer corda, doutor Andrade?

184
ANDRADE: O coronel dizia acompanhar Aragão e...
ALVARENGA: Chega! Tou com as barbas de molho. Aquele Aragão é um estradeiro
de marca.
ANDRADE: O senhor desconfia dele?
ALVARENGA: Ah bom...
ANDRADE: E seu Melo, que diz?
MELO: Matar, ele não teve coragem mas que mandou...
ALVARENGA: E a maior prova é que estralou nas juntas.
ANDRADE: E o coronel queria que ele estivesse aqui? Mas como, se não há
garantia? Com quem está o Prefeito? Quem manda no Delegado? Com que segurança ele
conta, aqui, para se defender? Então um morto pode se defender?
MELO: Pelo menos o bom doutor Morais - apesar de morto - está encontrando
quem lhe faça justiça.
ANDRADE: A justiça do Oliveira?
MELO: Não esteja a insinuar que foram eles os mandantes.
ALVARENGA: Nem menino ia engolir esta... E a maior prova foi aquele revólver
nas mãos de Soares.
ANDRADE: O coronel deve estar lembrado que Aragão chegou a se queixar do
desaparecimento da arma dele.
MELO: Para confundir, depois.
ALVARENGA: Malvado e loroteiro como ele só.
ANDRADE: Por que haveria de matar logo o doutor Morais?
MELO: Por isto: os romeiros tornavam a morte do homem como castigo do Céu.
Logo, Feitosa - que pagou o espetáculo de Pintassilgo - passava por autor de um
sacrilégio.
ALVARENGA: E foi o que se viu, sem tirar nem por.
ANDRADE: E quem está se aproveitando do crime? Quem já viu a alma do morto
pedindo vingança?
ALVARENGA: Eu não vi que eu não sou de ver visagem.
ANDRADE: Justamente, nem o senhor e nem eu.
ALVARENGA: Mas a povo acredita. E sou eu que vou dizer a caboclo que visagem
não existe?
MELO: Ora, doutor Andrade, não se ponha a enxovalhar os outros para defender o
seu amigo. Enquanto se tratava de apoiar um nome honrado, muito bem, mas agora,
não. Não conte comigo para coiteiro de bandido.
ANDRADE: E era o senhor dos que mais esbravejavam contra a ladroeira que vem
desgraçando esta terra. Dantes o senhor sabia que as verbas do Governo iam

185
desembocar nos barracões da firma Feitosa. E o coronel Alvarenga também sabia que os
reprodutores do Ministério da Agricultura iam para as soltas da poderosa família. E
ambos sabem que o então alegre Feitosinha já não quer ser apenas um deputado
estadual. Agora, é um apressado chefe político... E ambos sabem que foram eles que...
ALVARENGA: E aqui paramos, meu patrício, que eu não tenho couro para bombo
de furiosa. De perseguição já me basta a seca. Mas, tenho idade para lhe dar um
conselho. Procure uma menina rica, da terra e case-se. Feitosinha tem uma irmã. É
moça bonita e viçosa. Eu entendo a sua animação. É da idade. Todo doutorzinho é assim
mesmo, azogado. Vem com uma sede doida de justiça. Depois vira genro e engorda.
Pronto. Uma rede no alpendre e a boiama no campo. Eita sertão bonito, no inverno!...
ANDRADE: Se o senhor não tivesse, realmente, a idade de me dar conselhos...
ALVARENGA: Digo-lhe mais, não dou um mês pra ver Aragão ao lado de Feitosa.
Tudo é uma só família. Então?
ANDRADE: Bom e honesto como o Aragão a gente conta é nos dedos. E foi esse
homem que vocês perderam. (Sai)
ALVARENGA: Ora, eu nunca vi veado baleado que não fosse grande e gordo!
Vamos, seu Melo. E eu, seu Melo, com a minha experiência, quero lá passar tempestade
debaixo de cajazeira? Tarei doido? (Saem)

NA CASA DE FEITOSA: Este e Oliveira. Durante parte da cena Feitosa examina um


revólver. Oliveira está à porta, despedindo-se de Alvarenga.

VOZ DE ALVARENGA: Também vamos marchando. Pois eu aqui, e o Pedro Melo.


estamos com o doutor, para o que der e vier. Adeus.
OLIVEIRA: É preciso, de qualquer modo, que evitemos o pânico. Adeus. (Volta-se
para Feitosa, sorrindo) Pedir que evitem o pânico é pedir: "Corram, acordem a cidade
toda, espalhem todos os boatos! Vamos, cavalo velho do Alvarenga, e este Pedro Mucura,
e este Prefeito Banana, vamos, espalhem os boatos e voltem correndo para o beija-mão!"
Veja que a história do saque, que eu fiz espalhar, está dando resultado. Que tal a fila
para hipoteca de solidariedade? O senhor seu Vigário nos abençoando, o Alvarenga se
babando de medo... Eita nação de vivente! (Segurando um rebenque) Mas o certo é que a
nossa cabroeira conseguiu instigar os retirantes contra a cidade. Nossas ordens foram
cumpridas. Portanto, a cidade está praticamente cercada... Você ouviu o que disse o
Prefeito? Que não há mais tempo para pedido de tropas? No Cruzeiro tem mais de
trezentos homens armados. E o velho Alvarenga, não é engraçado? "Em que fogo vim me
meter, ai se eu pudesse esquipar agorinha..." Cabe a você, agora, aplacar-lhes a fome.
Comida, para a fome. E amanhã, de manhã, você estará vitorioso!
FEITOSA: Eu não quero saber de mais nada. Chega! (Põe as mãos no rosto).
OLIVEIRA: Homem, eu fazia você mais forte. O velho Feitosa, aliás, nunca negou
186
fogo. Era duro como um jucá. De qualquer modo o certo é que estamos agora num
dilema - ou você vai madrugar no Cruzeiro, para conter os retirantes com oferecimento
de seus barracões, ou eles assaltarão a cidade. Desencadeamos a tempestade, agora, é
dominá-la. Uma empreitada que talvez possa gorar, mas, você não é homem de ter medo.
FEITOSA: Você ainda me fez chumbar o Soares...
OLIVEIRA: Preferia então a cadeia, como qualquer idiota? Aquilo foi apenas um
ato de limpeza. Queremos lá saber quem matou um rato? Um rato é morto e pronto. Você
já tem idade para conhecer melhor os homens. E eu, se estou aqui,
desinteressadamente, é porque lhe reconheço as altas qualidades, as sobejas provas de
acendrado amor que você vem dando à causa pública.
FEITOSA (batendo na mesa): Acabe com o seu palavreado. Não quero. Acabou-se!
(Põe novamente as mãos no rosto).
OLIVEIRA: Que diabo tem você que está feito menino em calundu? Na hora de
atirar não vacilou. Foi toc-toc. Ora, quem morreu está dormindo. O que você viu agora?
Você, com aquela história de planos, quase chegou a se denunciar e, naturalmente, a me
comprometer. E logo para aqueles imbecis. Será que estou lidando com criança? Quer
estragar o seu sonho? Ou o que pensa você que é um sonho?
FEITOSA (descobrindo o rosto): Mas eu não posso me conformar com o que
aconteceu. Não havia motivo.
OLIVEIRA: Não havia motivo? A causa pública não é motivo? Que veio fazer aqui,
hem? Não era uma oportunidade? Você chorou? É uma criança...
FEITOSA: Estranho... Tem certeza que eles tramavam a minha morte? Jura? Você
jura? Preciso que você repita. Tramavam?
OLIVEIRA: Tramavam.
FEITOSA: Mais uma vez. Diga.
OLIVEIRA: Tramavam. Iam te matar. Pronto.
FEITOSA: Tudo, conforme você planejou, saiu...
OLIVEIRA: Ainda bem que agora me acredita. Mas não será bom mandar vir outro
telegrafista? Porque o Soares, coitado, se foi com os telegramas. (Ri) Como é? Você não
ri? Olha que Morais tinha um prestígio que até eu estava longe de adivinhar...
FEITOSA: Quisesse ele concorrer...
OLIVEIRA: E quem diz que ele não queria? Ah, Feitosinha, você ainda não conhece
a cobiça dos homens. É só atiçar... É só atiçar...
FEITOSA (bocejando e distendendo os braços): Enfim, os mortos não arrotam.
OLIVEIRA: Não arrotam? Olha, nada de mandar vir outro doutor. O médico, de
agora em diante, será você.
FEITOSA: Eu? Mas eu não entendo disso.

187
OLIVEIRA: Não é preciso entender. Quem morre não volta pra contar, e quem
escapa ... Bom, pelas poções de Morais você deve saber o que vale uma cura.
FEITOSA: Ele era um bom médico.
OLIVEIRA: Vamos mandar fazer folhinhas com o retrato dele e com o teu,
naturalmente. A mão do bom doutor no ombro do jovem deputado. Os votos de bom
inverno com sementes para a lavoura. Ah, os roçados que vamos plantar, hem?
FEITOSA: É um desembargador e tanto! Eita bicho bargado! Sabe? Eu não
contava com esta. É um desalmado!
OLIVEIRA: Lembre-se que deve, ao amanhecer de hoje, encontrar-se com o seu
povo. O Guia de toda a região da Borborema! Foi por isso que sugeri o local do Cruzeiro.
Você entrará escoltado por dois anjos. Veja que belo efeito! As meninas, vendo você
passar, suspirarão - bonito que é um desespero! E eu direi - está mesmo um zebu
importante!
FEITOSA: Você tinha raiva de Morais?
OLIVEIRA: Eu?... Mas se ele era trunfo no teu jogo... (Sai)
FEITOSA (sem se aperceber da saída de Oliveira): Bicho sem ambição é você,
Oliveira. Você me faz, num instante, Governador do Estado. E eu, o que te dou, em
troca? Pois te garanto que, se tudo sair conforme, você também não há de ficar
rastejando em Guaxinim. Que tal se eu te arranjar um lugar de juiz num daqueles
Supremos lá do Rio de Janeiro?
(Entra Cremilda.)
CREMILDA (abraçando Feitosa): Ingrato, você já não tem mais tempo para ver a
sua Cremilda!
FEITOSA: Está vendo, Oliveira?
CREMILDA: Que Oliveira? Ah, aquela alma do atólo não se desgruda mais de você.
E você, meu bem, me esquecendo...
FEITOSA (sorrindo desapontado): Brincadeira, brincadeira...
CREMILDA: Agora ele não te larga mais, não é? Que que ele quer?
FEITOSA: Criança, uma verdadeira criança! (Abraça Cremilda) Doida!
CREMILDA (desprendendo-se de Feitosa): Farsante... Prefere se enlamear com
aquelas vagabundas.
FEITOSA: Deixa de besteira.
CREMILDA: Você ri? (Abraçando-o) Oh, Laurindo. Laurindo... Você já não me
escuta... Está longe... Noutro crime? O Oliveira já marcou o próximo? Paspalhão...
Laurindo...
FEITOSA (distante): Não é verdade, não é verdade. O quê? O que você disse?
CREMILDA: Eu sei que não é verdade. Foi aquele visguento. Mas, se tu fosses

188
comigo, para bem longe, eu... eu te salvava.
FEITOSA: Impossível, impossível.
CREMILDA: Não me quer mais? Não vê que está sendo levado por aquele monstro?
FEITOSA: Não é verdade. Faço o que quero. E pronto.
CREMILDA: Por que essa idéia de ir madrugar no Cruzeiro? É simplesmente
ridículo o que aquele decrépito anda inventando. (Afasta-se) Então, acha bonito ir falar
ao povo com duas moças vestidas de anjo? Arabela e Marlene estão furiosas. Imagine o
que diriam as amiguinhas do colégio se soubessem de que família elas vêm. E você
concorda? E a que povo vai você falar? E o que lhe vai dizer? (Alisando-lhe o rosto) Você
pensa que vai encontrar o quê? Meia dúzia de pobres flagelados. Vai fazer um comício
para mendigos, e isso porque aquele sabujo te segredou, estou certa. (Afasta-se gritando)
Vai dizer a eles o quê? (Entra Oliveira) O quê?
OLIVEIRA: Já está tudo determinado, meu bem, e você sabe disso. As meninas
vão sair de anjo. Pintassilgo já as está preparando. A viúva também vai. Os romeiros vão
nos escutar, e é só.
CREMILDA: Romeiros? Vocês estão loucos?
OLIVEIRA: Cremilda, meu benzinho, por favor...

(Cremilda sai. Feitosa senta-se, com as mãos no rosto.)

OLIVEIRA: Não pense, meu prezado, não pense. Cremilda é completamente


desatinada. Não desejo para você, nem por sonho, a minha sorte - a sorte de aturar uma
mulher desatinada. Pense antes em você, que não nasceu para vegetar, e também nesta
gente toda que, agora, só espera em você, só conta com você, que o escolheu para chefe.
É bem verdade que o sertão preferia Morais, que sabia tão bem se insinuar... Mas, se
você ainda não era conhecido? - ou melhor, era pouco conhecido? Dantes você só
contava com o eleitorado do velho Feitosa - os seus agregados. Agora não, agora você é o
líder. Quero um discurso bonito como aqueles que só você sabe fazer. Fale dos nossos
campos no inverno - dos nossos campos esmeraldinos! Diga-lhes da beleza de nossas
lagoas, do trinado de nossos pássaros, de suas plumagens multicores! Guaxinim é a
terra do som, do perfume das boninas, dos ocasos doirados! Guaxinim - a princesinha do
sertão - embalada, a dormir, na cantiga dos rios! Nesgas de céu azul, taful, cicios, anil -
são palavras que ressoam bem fundo na nos’alma. Aliás, lhe recomendo frases por
recomendar, pois sei que estou na presença de um orador inflamado, fogoso, brilhante!
(Beijando-lhe a mão) Meu eleito, meu eleito...

(Feitosa sai bruscamente.)

OULIVEIRA: É assim, como o carvão. Ora se apaga, ora se torna incandescente.


Mas estes altos e baixos me fascinam...

189
(Escurece. Uma voz a cantar:)

“Na hora em que o caixão


sobre a janela pousou
e quem estava de parte
atentamente o olhou,
e foi logo estremecendo
bradando vivas e dizendo
- o meu padrinho tornou.

Aí então houve um estrondo


de vivas do pessoal
que piamente esperava
por esta hora divinal,
quando outra voz porém gritou
- ele não se levantou...
Foi um pranto universal.”

Madrugada. Os Retirantes ao redor do Cruzeiro.

1ª RETIRANTE: Acho que tem muita gente enlutada.


1º RETIRANTE: E muita gente se rindo.
1ª RETIRANTE: Mas pra mim, marido, este negócio de vingança não serve não. E
quem é o culpado?
1º RETIRANTE: Ah bom, basta.
1ª RETIRANTE: Este mundo não está conforme ordenou Deus Nosso Senhor.
2º RETIRANTE: Não está não.
1ª RETIRANTE: Este mundo podia também ser da gente.
2ª RETIRANTE: Podia, bem que podia.
1ª RETIRANTE: Pedimos chuva e nem terra temos.
2ª RETIRANTE: Nem sonhar sonhamos.
1º RETIRANTE: Eu não faço conta de sonho.
2º RETIRANTE: Não quero sonho nem milagre.
2ª RETIRANTE: João Luca, toma tenência, bate na boca, olha o castigo.
2º RETIRANTE: Castigado vivo, desde que me entendo. É terra dura, mulher, que
a gente pisa. Larga de sonho. É terra dura, e debaixo dela a gente enterrou dois meninos.
Tu, que anda ouvindo coisas, não escutou o grito dos meninos?
2ª RETIRANTE: João Luca, João Luca ...
2º RETIRANTE: Não chora, que tu ainda vai ter vinte.
1º RETIRANTE: Também não quero mais promessa. Tou farto de olhar pro
190
nascente, pra este quebrar de barra, vermelho.
3º RETIRANTE: Eu não vou mais em cantiga de promessa.
2ª RETIRANTE: Ave Maria!
2º RETIRANTE: Promessa não adianta. Ninguém quer mais saber.
2ª RETIRANTE: Misericórdia...
3º RETIRANTE: Tem pra mais de cem cabras. Tudo de acordo. Tão só esperando o
sinal...
Os homens se põem de pé, formando uma barreira. Desembainham os punhais.
2º RETIRANTE: Tudo determinado.
3º RETIRANTE: E ninguém se lembrava, dona. Ninguém se lembrava...
2º RETIRANTE: A gente olhava como se não fosse...
2ª RETIRANTE: Ah, João Luca, e os soldados? Pobre é que vai baleado. Soldado só
pune por branco.
3º RETIRANTE: Agora não tem branco que se atreva a negar. O que queremos?
Queremos que nos dêem trabalho. Trabalho e comida. É querer muito?
2ª RETIRANTE: João Luca, pobre tem lá querer...
1º RETIRANTE: Aí vem gente, pessoal!
2ª RETIRANTE: Êh, êh, o que é?
1ª RETIRANTE: Parece procissão... Vem até anjo!

(Entram Feitosa, Oliveira, a viúva Morais, Cremilda, Arabela, Marlene, Pintassilgo, Prefeito,
Adelaide, Alvarenga, Melo, Empregados dos Feitosas e Padre. Ouvem-se dobres de sinos.
Choro da viúva. Silêncio.)

FEITOSA: Meu povo - povo de minha terra - meus irmãos... Aqui estamos,
sofrendo como vocês, para homenagear, para reverenciar a memória do nosso saudoso
Alberto Morais que - "como o cedro que tomba na mata, sob o raio que em cheio o feriu,
assim ele ante a fúria insensata, de um feroz inimigo, caiu..." Foi-se aquele que era bom,
foi-se o paizinho adorado da pobreza... (Choro e lamentações) Mas nós, os seus amigos,
estamos aqui, não para vingar, mas para perdoar, conforme o seu desejo. Meus irmãos,
vocês não ficarão no desamparo, porque mais forte é a lembrança daquele justo que se
foi. Estarei sempre com vocês, meus irmãozinhos, porque foi um pedido que ele me fez,
quando agonizava - que eu seria o seu sucessor, que eu não abandonasse nunca o seu
povo. Sou um homem simples, sem besteira. Um homem como vocês, um sertanejo que
diante deste Cruzeiro Santo jura não os abandonar.
1º RETIRANTE: Muito bem!
FEITOSA: Não me aplaudam, que eu não mereço...
EMPREGADO: Não apoiado, não apoiado, o doutor merece!
FEITOSA: Obrigado, obrigado... Estou apenas cumprindo... e cumprirei até o fim...
191
o pedido daquele que, para vocês, e para mim, não era só um amigo, um pai, porque era
também um santo!
RETIRANTES: Amém, amém...
FEITOSA: Ao meu lado - vejam - está a inconsolável viúva... estão os amigos do
grande amigo que partiu... (Choro) Mas não chorem para que nós, também, não
choremos, porque... o que é preciso fazer... em memória daquele... é pôr mãos ao
trabalho, é agir. Prometo a vocês que neste ano de carência, de terrível estiagem, não há
de faltar o trabalho honesto, o trabalho bem remunerado, para o sustento de cada um.
RETIRANTES: Viva! Amém!
FEITOSA: Mandarei construir um grande hospital - o Hospital Alberto Morais!
RETIRANTES: Muito bem, muito bem!
FEITOSA: Não há de faltar abrigo para os doentes e desamparados! As portas dos
meus barracões, hoje, estarão abertas para fornecer, a todos, os feijão, a farinha, o
querosene e a rapadura!
1º RETIRANTE: Eita doutor de bom falar!
FEITOSA: Não é esmola, é lembrança... Vou mandar abrir estradas, fazer açudes!
E, antes dos primeiros trovões de janeiro todos terão enxadas e sementes para os seus
roçados! Deus nos há de dar fartura!
RETIRANTES: Viva, viva!
FEITOSA: Não carecerão abandonar as suas casas para ganhar o mundo, sem
destino, feito pombas de bando...
RETIRANTES: Amém, amém!
FEITOSA: Mas, meus amados irmão, para que eu possa cumprir todas estas
promessas, é preciso também que me ajudem. E como? Como vocês poderão me ajudar?
Pois lhes direi - com o voto. Com o voto de vocês, nas próximas eleições. Nosso desejo era
fazer de Alberto Morais o Governador do Estado! Mas, agora, já não podemos sonhar com
essa felicidade... Quem poderia tomar o lugar do grande amigo sacrificado? Quem?
(Silêncio) Quem?... Respondam-me... (Chora)
EMPREGADO:Viva o doutor Feitosa!
FEITOSA: Eu? Eu? Mas poderei contar com todo o sertão? e não será uma cruz
por demais pesada para os meus pobres ombros? Mas será, meu Deus, será que vocês
vão ter a alegria de eleger um Governador que é ao mesmo tempo um sertanejo como
vocês?
RETIRANTES: Viva o nosso chefe! Viva o doutor Feitosinha!
FEITOSA: Pois lhes garanto que, de seca, nunca mais sofrerão. É uma promessa,
uma promessa!
RETIRANTES: Muito bem, viva, muito bem!

192
FEITOSA: E agora, meus irmãos, me encaminharei ao cemitério, para a visita de
cova. E depois estarei no meu escritório para atender a todos que me procurem.
RETIRANTES: Amém! Viva, vivas!
OLIVEIRA (arrastando o cego Caçote): Um momento, um momento! Meus amigos,
vamos aliviar um pouco os nossos corações ouvindo o ceguinho Caçote - o notável poeta
- cantador do sertão!
RETIRANTES: Muito bem, muito bem!
CAÇOTE (cantando):
“Eu tenho aqui no meu bolso
e lhe vou presentear
uma antiga profecia
para o doutor publicar,
quem me deu foi meu padrinho
quando eu lhe fui visitar.

48 e 49
o nó aperta inda mais
UDN lança um projeto
PSD logo desfaz,
um partido contra o outro
só progride para trás...

CORTINA

50 e 51
tomam nova direção
aqui e no Rio de Janeiro
em São Paulo e Maranhão
aderem a Getúlio Vargas
no dia da eleição!

52, 53,
u'a mina é explorada
lá no lugar Tubarão
da Serra Grande falada,
trabalhando três mil pessoas
pela Nação contratadas.
193
54, 55,
o Getúlio mandará
ligar estrada de ferro
Piauí com Ceará
Campo-Maior - Campina-Grande
passar trem para o Pará.

No ano de 56
pode o pobre trabalhar,
as terras vão ser libertas
para quem quiser plantar,
o pobre já sofreu muito
não pode mais suportar.”

(Sai)

(Entra Pintassilgo, de bicicleta, carregando alguns trajes de sua “Paixão”. Vai falar, mas
detém-se escutando dois Retirantes que passam )

1º RETIRANTE: Agora sim, eu vi promessa... Estamos com o homem. O homem


prometeu!
2º RETIRANTE: Eu só tou com os antigos que diziam: 19, 20 ou 21. Pra mim se
não for seca braba este ano, é pro ano, e se não for pro ano será no outro pro ano...
(Saem)
PINTASSILGO (ao público): Cansado o corpo, não nego, porém no peito a mesma
chama, o mesmo fulgor de um sonho que me fez correr terras. Sei que a incompreensão é
grande, mormente a de Rosa. Mas, que seria do homem se se deixasse vencer pela
incompreensão dos que o cercam? Artista também eu não seria se tivesse renunciado ao
amor da aramista. Foi-se aquela Musa pelos caminhos do mundo - ainda estará viva?
nalgum convento? ou quem sabe, consumida pelo mal gálico? De qualquer modo o toldo
do circo dilatou as dimensões de minh’alma! Cansado, não nego, mas quem não se
cansaria com o espetáculo desses grandes, de deslavado despudor? (Distendendo o manto
vermelho) O povo, naquela noite que nunca mais sairá da minha retina, julgou-me
culpado e por pouco não fui linchado. Pergunto-lhes: por que foi ele o morto e não eu?
Eu, que desejei ardentemente interpretar o Nazareno para a multidão de romeiros? Pois
não fui eu que transformou isto num centro de romaria? No entanto, abri mão do
protagonista e, para me convencer da impropriedade, aleguei as minhas banhas. Ironia
do destino, o doutor era também banhudo... Felizmente a tempestade passou e o povo,
agora, está tranqüilo, ou melhor, está esperançoso. Foram cativantes as promessas de
194
Feitosinha. (Sorri) Mas este seu Pintassilgo não vai se abater com a primeira decepção -
nem esta foi a primeira - e pelo muito amor que tem a sua cidade, um dia, ainda - com a
ajuda desses mesmos grandes –, promete fazer Roma, a Incendiada.

(Escurece.)

FIM

195
ROMANCE DO VILELA

1959

196
PERSONAGENS:

Cambraia
Nonato
Vilela
Cangaceiro I
Cangaceiro II
Correio
soldados
Mãe de Nonato
Pai de Nonato
Dadá
Mãe de Dadá
pai de Dadá
1º Cantador
2º cantador
Coronel Dantas
Delegado
cangaceiros
sertanejos

197
Ação - Nordeste, 1959.
Ação descrita pelo cantador Cambraia: Nordeste, 1920.

1º ATO

No Proscênio aparecem o cantador Cambraia e Nonato. Cambraia é alto, magro, de voz


rouca e olhar febril apaixonado. Traz uma viola ao peito e uma rede, enrolada, a tiracolo.
Nonato, de quatorze anos, é o secretário de Cambraia. Traz uma maleta fabricação
popular. Cambraia enxuga o rosto com um lenço, tempera a garganta e põe óculos rayban.
O menino também enxuga o rosto com um lenço, tempera a garganta e põe óculos rayban.

CAMBRAIA - Distinto auditório... Está aqui diante de tão seleto auditório, o


cantador José das Cambraias - este vosso criado. Aliás, sem falsa modéstia, o mais
afamado cantador do sertão. Palmo a palmo palmilhei aquela terra toda - o sertão - terra,
aliás, das mais encantadoras do universo. Terra de gente valente, de gente de mais força
no muque que nem o bom rei Davi. Lá, para se botar um nas atmosferas, nem é preciso
funda. É mesmo no muque, como diz cego Sinfrônio respondendo a Canarinho:
"Canarim se eu te apanho
tenho pena de você,
cai o corpo pruma banda
e a cabeça - pode crer –
passa das nuvens pra cima,
só volta quando chover."
Então? Cego Sinfrônio, com o braço, era capaz de fazer da cabeça de Canarim...
satélite! Agora, se cai chuva por lá, hem? Deus do céu, acho que eles enchiam este
espaço sideral com os mais estradeiros esputiniques! (Afina a viola.) Mas, é justamente a
estória de um valente que eu vou cantar. Do Valente Vilela, que foi meu íntimo amigo e
que, numa noite de luar, no Cariri, me relatou seus planos para o futuro. Planos, quem
diria! Pois bem, perguntei a muita gente boa do sertão, que tinha visto Vilela, como era o
rosto do homem e a cor de seus olhos. Ninguém nunca soube, porém, me responder. E
isto porque ninguém nunca se atreveu a encarar aquele cabra feroz que até o vento
respeitava. Pois lhes digo que eu encarei Vilela. Seu rosto era branco chamuscado e seus
olhos eram castanhos e eram verdes, e eram da cor do fogo, conforme as ocasiões. E digo
mais, eram olhos assim, como os da criança. Bicho desencontrado é o homem. (Canta
com Nonato)
"Deixaram as armas de fogo
cada qual o mais ligeiro,
pegaram–se aqueles dois homens
198
em luta pelo terreiro,
os punhais davam faíscas
que nem forja de ferreiro."

Mas, vamos começar pelo começo :

“Meu povo preste atenção


vou contar como se deu
o Romance do Vilela
que pelo sertão correu,
ninguém fique duvidando
juro como aconteceu”.

(O Cantador e Nonato se retiram. Escuro. Ouve-se um tiroteio e, em seguida, o barulho de


ferro sobre pedras e um grito enérgico,reboante: "Corta... cortado! ... Luzes.)

1. Manhã na caatinga

Em cena, três corpos, deitados, de soldados e, mais ao longe, num plano superior três
cangaceiros, de pé, rígidos. Dos três, um se sobressai pela imponência da figura e beleza
do traje (roupa de zuarte, o peito cruzado por cartucheiras, punhal no cinto, rifle, e o
chapéu de couro cintilante de medalhas e espelhinhos) é Vilela, o chefe do bando. Novo
barulho: o trote de um cavalo que se aproxima, Vilela e os dois cangaceiros estendem-se no
chão, tornando–se visíveis, apenas, os seus chapéus. O trote do cavalo estaca de súbito.
Ouve–se a voz de um homem a gritar, a resmungar: "Diabo, o que viu o diabo desta besta?
O besta espantada, minha Nossa Senhora!" Surge o homem - o Correio - que se esforça a
puxar um cabresto, tentando arrastar o animal que empacou.

CORREIO- Esta quenga ou viu o Cão ou viu o Vilela. Não vai não. Se espantar por
uns tirinhos... Não vê, ó égua besta, que é tiro de caçador de marreca? (Sai, voltando em
seguida com uns alforjes) Caçador de marreca? Mas se aqui não tem lagoa? Se estou é
num sovaco de serra? Diogo, isto não tá me cheirando bem. Só fico mais descansado
porque sei que o bando de Vilela atravessou o São Francisco. Então não sei? Pois não
sou o Correio de Trapiá? De Trapiá para Conceição do Azevedo? Ai ai que tou vendo fio
cortado... (Deparando com os corpos dos soldados) Santa Mãe de Jesus Cristo, valei-me!
Frito! No mato sem cachorro! (Corre atordoado) O melhor é abrir caminho no rumo de
casa. E dar meia-volta e marchar na mesma batida. Pois não é que a bestinha tava com a
razão? Gente, também não custa olhar a cara dos finados. (Aproxima-se, cauteloso, dos
soldados.) Ih, tudo com o ar de quem morreu antes da hora. (Revista os uniformes dos
soldados) Já vasculharam na ligeireza, não deixaram nem um vintém pra indez. Eu

199
podia até carregar estes liformes, pois defunto não carece de luxo.

(Os três cangaceiros se levantam)

VILELA - E, é verdade, Correio, pra que defunto luxento?

(O Correio, a tremer, vai aos poucos se esparramando no chão.)

VILELA - Perdeu a fala? Não me responde não, seu frouxo? (A um dos cangaceiros)
Compadre Açucena, vigie se isto aí é homem mesmo...
CORREIO - Meu padrim, meu padrinzinho... (corre a abraçar as pernas de Vilela,
mas este o derruba com um pontapé) Ai, ai, ai...
VILELA - Que diabo de água você quer beber pra se acalmar? Mijo? Compadre
Zuza, me verta uma aguinha na cara dele.
CORREIO (Com o braço a esconder a boca.) - Ai, ai, ai, meu padrim, ai...
VILELA - Vamos deixar de femeação. Levante-se, que aqui ninguém não é visagem.

(O Correio se levanta. Um cangaceiro apanha os alforjes.)

VILELA - Então, o que me traz nestes alforjes?


CORREIO - Cartas. É a correspondência de Trapiá para Conceição do Azevedo.
VILELA - Me rompa os alforjes, compadre Açucena.

(O cangaceiro abre os alforjes e retira, deles, envelopes que espalha pelo chão.)

VILELA (Ao Correio) - E você se ponha logo a soletrar este papel todo. Quero saber
o que de mim andam dizendo.
CORREIO - Meu patrãozinho, meu ofício é levar o que me dão para levar. Lá na
vila é que os carteiros soletram.
VILELA - Ai ai que eu já não tou gostando.
CORREIO - Ai, ai ver que tudo aí é carta das mães para os filhos.
VILELA - Mãe de quem? da tua? Ou é agravo?
CORREIO - Não é agravo não, meu capitão. Vai ver então que é dos filhos para as
mães.

(Os dois cangaceiros vão abrindo os envelopes.)

VILELA - Homem, você não se faça de doido. Então é só essa raça de gente que
escreve carta? Diabo, e as mentiras que dizem de mim, na papelada? E as que correm
pelo fio do telégrafo? Agora porém não correm mais, que o capitão Vilela, aqui, é quem
ordena. (A um do cangaceiros.) Achou alguma coisa, compadre Açucena ?
PRIMEIRO CANGACEIRO (Cheirando os envelope) - Capitão, mode que esta, esta e
esta.
VILELA (Abrindo os envelopes que o cangaceiro lhe entrega) - Isto! O meu compadre

200
tem um faro dos diabos! Ôpa, uma jararaca de vinte mil-réis! Aqui tem mais cinco!
(Rasgando outro envelope) Eita sucuruiú criada! Cinqüenta, compadre, cinqüenta! Abriu
tudo?
PRIMEIRO CANGACEIRO - Tudo meu capitão.
VILELA - Mestre Zuza, arrume esta trouxa e me toque fogo nela. Queime tudo.

(O Segundo Cangaceiro sai com os alforjes.)

VILELA - Compadre Açucena, me traga uma enxada, que é para abrir umas
covas.

(Um dos soldados que parecia morto vai aos poucos se levantando. Apanha um casquete
vermelho e uma corneta. Perfila–se, faz continência)

CORREIO (Boquiaberto) - O corneteiro Flausino!


CORNETEIRO - Pronto,senhor tenente ! Ordinário, marcha! Um dois, um dois...

(O Corneteiro vai andando em ziguezague e tocando a corneta.Sai. Os dois cangaceiros


voltam-se para o Corneteiro, apontando os rifles.)

VILELA- Deixem o coitado do amarelo. Danou–se...Vai acordar a caatinga toda.


Então, Correio, você queria deixar os defuntos nus? Isto é que é cristão! Pois pegue a
enxada, vá abrir duas covas. E se me disser mais um ai trate logo de abrir a terceira. (O
Correio sai com a enxada.) Mestre Zuza, avise o bando que eu não quero tiro no
Corneteiro. O Corneteiro doravante, vai ser o meu galo-de-campina. Compadre Açucena,
apanhe a bestinha do Correio. (Alto, ao Correio:) E depois da tarefa acabada, dos defuntos
enterrados estrada é sua, Correio. Todinha. (Saem)

2. Casa de um roceiro. Noite

Nonato, os pais de Nonato e dois soldados.

1º SOLDADO (Apontando o rifle) - Ou desocupam as terras do homem, agorinha


mesmo, ou tudo se dana.
PAI - Já provei, no cartório, que este pedaço de terra é meu, que herdei do finado
meu pai e será do meu filho. Aqui nascemos, aqui nos criamos, e não há de ser o poderio
do coronel Dantas que vai me arrancar daqui. Só morto.
2º SOLDADO - Deixa de foba, coiteiro do Vilela.
PAI - Não sou coiteiro do Vilela, não senhor.
MÃE - Marido, te aqueta pelo amor de Deus.
NONATO- Meu pai tá certo. É ladroagem mesmo.
1º SOLDADO - Oi cabrinha atrevido, quem te deu educação? Foi esta velha
debochada?

201
NONATO- Debochada é a tua, é a raça de vocês todos.
2º SOLDADO - Ora que eles estão com muita soberba. Amanhã, isto já é pastagem
pro gado do homem. E vamos sapecar fogo neste oco de cascavel. Já!

(Os soldados atiram. Os velhos caem fuzilados)

NONATO (Gritando) - Amarelo miserável!

(Nonato sai correndo e o 2º SOLDADO o persegue. Ouve-se um tiro. Um momento.)

2º SOLDADO (Voltando) - Escapou. Também não vou me meter em atoleiro nesta


hora da noite. Amanhã ele pega a sua carguinha de chumbo. Coiteiros mais
descarados...
1º SOLDADO - Agora tá o coronel Dantas com mais uma terrinha. Eita que pé de
cana só procura mesmo é canavial!
2º SOLDADO - Até se perder de vista - canavial! ...
1º SOLDADO - Neblina, siô, vamos marchando. (Saem.)

3. Amanhecer no campo

Nonato, no centro do palco e de costas para a platéia. Ouve-se música de viola e alguém a
cantar. Nonato afasta–se cauteloso. No alto (fundo do palco) surge o cantador Cambraia.

CAMBRAIA (Cantando):
"Senhora dona da casa
minha flor de melancia
daquelas mais serenadas
quando vem nascendo o dia."
NONATO (Correndo para o Cantador) Seu Cambraia ...

(Cambraia desaparece de um salto. Mas logo em seguida reaparece por trás do menino.)

CAMBRAIA - Menino, tu me deste um susto... Do fundo do barranco já estava


dizendo com os meus botões –"taí, Cambraia desesperado, taí o que andas a arrumar
com a tua inspiração e as cordas da tua viola..." É que eu não resisto com este quebrar
de barra, vermelho, do dia que vem rompendo. Tudo fica assim mais diferente, maneiro...
Ai lugar desesperado de bonito! Menino, tu não és o filho do velho João da Ingazeira? O
Nonato? (Abraçando o menino) Também não era pra te reconhecer, pois se no ano
passado te deixei menino e agora te encontro de voz mudada... Pensei até que fosse
rastrejador do Vilela. (Afasta-se para observar melhor o menino, que está com as mãos no
rosto) Andas todo esquisito... roupa enlameada... Tu já andas rondando a casa da Luzia
Tote? Nalguma vadiação te meteste, menino...
NONATO - Seu Cambraia, pai e mãe foram baleados esta noite. Mas eu só fugi

202
porque não adiantava mais... (Chora)
CAMBRAIA - Menino, não me diz esta... O compadre João da Ingazeira?
NONATO - Dois praças, a mando do coronel Dantas. Pai disse que dali não
arredava, que tinha por ele a justiça. E aí...
CAMBRAIA - Virge, minha Nossa Senhora! Homem esgalamido é aquele coronel
Dantas. Quer mais terra, menino, mais terra. Coisa bonita é um canavial pendoando ...
prateado... sem fim... Mas, nesta hora, a vontade que me dá é tocar fogo em todo esse
verderume amaldiçoado. Desencanto!
NONATO - Eu tinha pensado em ir lá na vila do Brejo, fazer a comunicação.
CAMBRAIA - É bom, menino, é bom. Mas, pensando melhor, vamos deixar a vila e
procurar a vizinhança, que não nos há de faltar nesta hora de tanto sobrosso. (Senta-se
no chão) Me deixa cantar pra ver se consigo aliviar o peito. Oi minha Santa Mãe...
(Canta:)
"Quando eu planto melancia
a bicha se estende demais
a rama navega à frente
as frutas deixando atrás."
Oi dia enevoado... oi dia enevoado...

(Saem.)

4. Na entrada da vila de Trapiá.

Vilela tira, de um saco, um chapéu de palha e um chiqueirador. Põe no saco o chapéu de


cangaceiro, o cinturão de balas, rifle, anéis, etc. Transforma–se, então num tangerino.
Passa em seguida, em marcha, um destacamento da polícia (cinco soldados).

1º SOLDADO - Alto! (Dirigindo–se a Vilela) Caboclo, tu não é daqui...


VILELA - Sou tangerino.Trouxe uma boiada do lado do Piauí, mas já tou de volta.
E vosmecês, tão de quartel aqui, no Trapiá?
1º SOLDADO - De passagem. Já vamos indo. Homem, nessa viagem, não ouviu
falar se houve ataque do bando? E onde?
VILELA - Seu tenente, eu até ouvi falar, sim senhor. Que o bando atravessou o
São Francisco, na direção do Raso da Catarina.
1º SOLDADO - Vilela é bicho empautado,só sendo. A notícia que tivemos é de que
ainda anteontem o bando atacou Conceição do Azevedo, e que por lá fez foi uma
mortandade. Também já tocamos um bocado de fogo. Esses coiteiros preferem trabalhar
pro bandido. De puro medo.
VILELA - Me disseram que a cabeça do homem já tem preço? É certo?

203
1º SOLDADO - Vinte contos-de-réis! Ah, caboclo, se eu descubro a toca daquela
cascavel... se eu tiro a sorte grande desses contos... De prevenido já trago o formol. Boto
a cabeça do bruto numa lata de querosene e vou bater a palácio! Eita dia feliz na vida!
VILELA - Muita vez tá perto. Muita vez tá topando com o homem... e pronto!
1º SOLDADO - Falou pela boca dum anjo, tangerino! Deixa que eu te dê um
abração. (Abraça Vilela.)
VILELA - Pois até um dia destes, quando a gente se encontrar de novo. (Sai.)
1º SOLDADO - Tangerino mais esquisito... Não me abraçou também... Senti foi o
corpo dele esfriar e fugir. Será que ele maldou de mim? (Os soldados riem.) Também não
sou de abraçar macho, não. Foi aquela pinga que eu tomei no entrar da vila. Só sendo.
Quando dei por mim tava nessa situação de abraçar. Ou o tangerino não será algum
coiteiro, hem?
2º SOLDADO - Nada não. Foi o negócio dos vinte contos-de-réis. Por vinte contos-
de-réis - por um conto mesmo, seu cabo - a gente abraça e beija até as pedras.
1º SOLDADO - Ordinário, marcha! Um dois, um dois... Alto! Direção sul - Raso da
Catarina! Um dois, um dois... (Saem marchando.)

5. Na casa de Dadá

Dadá traz uma máquina de costura, e a coloca em cima de um caixote. Inicia a costura,
Surge Vilela, com o chapéu quase a lhe cobrir os olhos.

VILELA - Boas tardes... A doninha pode me alcançar um copo dágua? (Dadá vai
buscar o copo d'água) Agradecido. A doninha está só?...Moça corajosa, já vi. Nem pra dar
um sorriso?
DADÁ - O que o senhor deseja? (Vilela tira o chapéu e sorri) Antônio! (Abraçando
Vilela) Meu Jesus... Não tem medo de ser morto? Antônio!
VILELA - Por você, não.
DADÁ - Neste instante passou por aqui um destacamento. Minha Nossa Senhora
do Amparo!
VILELA - Vim pra ajustar o casamento, conforme teu bilhete. Podia ser amanhã.
(Dadá chora) Tá arrependida? Não quer mais? Me trocou por outro? Não precisa chorar
por isso. Eu sei...
DADÁ - Eu te quero, Antônio. Eu quero te seguir pelo mundo todo.
VILELA - Minha madrinha tá de acordo? e o velho?
DADÁ - Ninguém tá de acordo Só eu que gosto muito, muito. Mãe foi na venda,
não demora. Melhor não se encontrar com ela. E pai tá no roçado. Antônio... dizem tanta
coisa de você... Dizem que você tem um chapéu assim, todo estrelado, e um lenço de
guerra no pescoço...
204
VILELA (Desprendendo–se de Dadá) - Amanhã, de manhã, te espero no largo da
Igreja. O vigário vai ser informado.
DADÁ - Melhor eu ter visto você assim mesmo... (Abraçando) Deixa eu te olhar,
muito, muito.
VILELA (Saindo rápido)- Adeus, Dadá.

(Dadá chora. Vai, aos poucos, escurecendo. Uma voz a cantar.)

"Queria achar quem dissesse


onde o pesar mais aumenta:
se no peito de quem fica
se na alma de quem se ausenta.

Não sei se vá ou se fique,


não sei se fique ou se vá:
partindo, não fico aqui,
ficando aqui, não vou lá ..."

(Noite. Dadá continua sentada ao lado da máquina. Chora ainda, quando entra a mãe.)

MÃE (Debulhando vagens.) – Dadá, que que tu viu? Que choro é este, menina?
DADÁ –Nada não.
MÃE - Choro é bom, alivia. Taí porque eu não ando gostando deste teu jeito
trancado, sem abrir a boca pra vivente nenhum. Hoje fiquei até com dó de seu Argemiro.
Então isso é modo de tratar um noivo? Se não tou aqui o homem ia falar pras paredes,
ou então ficava de boca cosida, ouvindo o zinir desta máquina que tu não parou um só
pedacinho. Nem pra mandar o homem se sentar. Credo... Inda bem que ele reparou que
tu anda é agarrada no enxoval.
DADÁ - Na suposição de que vou me casar com ele?
MÃE - Adeus, Dadá, e não é? E onde, menina, onde encontrar melhor marido?
Homem sério, trabalhador, gavado por toda esta redondeza. Mas tu agora me espantou,
pois se a gente já tinha até assentado o dia de São José para o casamento? O pobre do
moço saiu foi esmorecido, inventando uma constipação. Pois te digo que Jesuíno também
já vive é desconfiado com este teu semblante. Inda ontem o velho me disse assim:
"Mulher, será que a nossa filha Dadá anda pensando naquele anticristo?" Achei que era
pergunta de aluado, e fui logo dizendo: "Tu parece que anda com o miolo mole, seu
Jesuíno?"
DADÁ - Dantes levavam muito gosto no nosso casamento. Era moço de todo
conceito.
MÃE - Era, menina,era. Mas, danou-se. O governo tá oferecendo vinte contos-de-

205
réis pela cabeça dele. Hoje, só este nome de Vilela faz tremer uma banda do mundo.
Tivesse se entregado, quando fez aquela primeira vadiação, podia ter ido a júri. Muita vez
já tava solto.
DADÁ - Ou debaixo da terra.
MÃE - E é como se estivesse debaixo da terra. Dizem que o rosto dele ficou assim,
chamuscado.E tão branco que era, que eu bem me lembro... Menina, quando eu voltava
da venda, me pareceu ver um caboclo parado aqui na porta. O que era?
DADÁ - Um tangerino que me pediu um copo d'água.
MÃE - Taí porque eu não gosto de morar em ponta de rua, inda mais nesta vila de
Trapiá, que é caminho de tudo quanto não presta. Dadá, tu andas com alguma camofa.
Então eu te criei - tão bem criadinha - para mulher de cangaceiro ? Fala.

6. Na feira de Trapiá. Manhã.

Com a cena ainda no escuro, ouvem-se tiros, vozes de uma multidão (feirantes a anunciar
os seus produtos), barulho de patas de cavalo, relinchos, o balido de um carneiro,etc.

VOZES DOS FEIRANTES - Olhe o milho verde, o milho verde!


- Rapadura da puba, mais doce que o coração das meninas!
- Trestões - a braça deste fumo da serra!
- Punhais, punhais do Pajeú! Bom ferro! Chega a furar até visagem!
- Olha a mangaba, meu patrãozinho, tá chega tá serenada!
- Mulher é como mangaba - uma é boa a outra é amarga!
- Patrão, tou vendendo um cavalinho baio, sestroso, bom de carreira!

(Ouve–se o acompanhamento de uma maraca, e uma voz a cantar:)

"Meus irmãos me dêem uma esmola


por obra de caridade,
quem pede - pede chorando,
quem dá - carece bondade."
- Este cego só pede por vício. Oi bicho lamuriento só é cego!
- São Bento lhe feche o corpo para toda traição e mordida de cobra.
- Amém, cego.

(Luzes sobre dois cantadores que estão sentados à esquerda e direita. Sentados no
proscênio, de costas para a platéia, Cambraia e Nonato.)

1º CANTADOR –
"Eu sou o José Maneiro
assombro deste sertão,
sou inimigo da paz
206
gosto da revolução,
dou tudo por uma intriga
sou comprador de questão.
2º CANTADOR –
E eu pra beber o sangue
sou mesmo que canguçu
furo a goela e grudo o beiço
como se chupa caju,
lasco o bucho - cai o fato
rasgo o bofe e como cru.
1º CANTADOR –
Maneiro quando se dana
desaponta e perde a calma
emboca no cemitério
laça visão, pega alma,
toca pífaro com os olhos
e as orelhas batem palmas.
2º CANTADOR –
Riachão tando com raiva
até o sol desanima
faz as estrelas baixarem
e a lua transformar o clima,
vira o mundo, emborca a terra
derrama o que tem em cima!”

(Ouvem–se tiros e repique de sinos. Do fundo do palco surgem Vilela e Dadá, de braços
dados. Dadá vestida de noiva e Vilela numa farda branca, de gala. O chapéu de
cangaceiro branco, adornado de espelhos e fitas. Vilela lembra uma figura de rei do folclore
alagoano. Atrás, os cangaceiros de Vilela)

VILELA - Padre Rosendo nos casou. E, a meu pedido, confessou os presos da


cadeia, mas não quis me dizer da culpa dos homens. Porém as culpas foram perdoadas
pelo padre Rosendo. Estão livres. (Dirigindo–se a Cambraia.) Gente, tu não é o cantador
José das Cambraias?
CAMBRAIA - Vosso criado, Capitão.
VILELA - Criado seja de Deus. E este menino, é teu filho?
CAMBRAIA - É não senhor. Este menino é filho do finado João da Ingazeira.
VILELA- E tu estás tomando conta dele?
CAMBRAIA - É meu discípulo.
207
VILELA - Vai ser cantador?
CAMBRAIA - É o que eu sei ensinar.
1º CANTADOR - Veja capitão, que mestre que ele arranjou ... Seu Cambraia, o que
vosmecê canta não paga nem o feijão...
2º CANTADOR - E Cambraia algum dia foi repentista?
CAMBRAIA - Aliás, nunca fiz questão de ser repentista. Não sou cantador - desses
- desses que andam por aí, aos magotes, choramingando em feira, tomando profissão de
cego. Sou cantador–poeta. Sou convidado pra cantar nas casas–grandes, em salão de
gente de elevação. Não sou daqui nem dacolá, sou de todas estas paragens - do Piauí -
Ceará pegando por Mossoró, Campina Grande, Serra Talhada, chegando até nas Alagoas!
VILELA (A Nonato) - Canta, menino.
CAMBRAIA (Carinhoso) - Nonato me cante o Jaú. (Acompanha, o menino com a
viola)
NONATO
"Mamãe cadê Jaú
Jaú foi se banhar...
Este banho de Jau
inda faz mamãe chorar..."
VILELA - Já vi cristão bom no desafino.
CAMBRAIA - Me acompanha, menino... (Cantando)
"Este banho de Jaú
inda faz mamãe chorar ... "
Tu tens de dar uma entonação bem triste, fanhosa, como se Jaú estivesse se
desgarrando de todos, e nunca mais voltasse. Vamos.
VILELA - Isto não dá pra cantoria, não, seu Cambraia. Mal empregado, menino,
que tu podias ser era um cangaceiro. Mas qual, o bicho parece frouxo por demais. Te
vejo é sem futuro. (Retira uma cédula do bolso e a atira a Nonato). Compra umas coisas,
por aí, e vai mascatear. Quem sabe tu não dá mesmo é pra feirante? (Continuam os tiros
e repique de sinos.) Até repicar o sino, mandei... paguei... para mostrar a todos que
Vilela, não é nenhum boi fujão.
VOZES - Viva o capitão Vilela! Viva!
VILELA - Doravante ninguém bula com o povo de Trapiá, que está sob minha
guarda e proteção. Volante não se meta com o meu povo. Vilela, aperreado, é capaz de ir,
sozinho - lá na ponta do mar - quebrar a pabulagem de cinco governadores! Da mira do
meu rifle até as estrelinhas do céu se resguardam.
VOZES - Viva Vilela! Viva o nosso capitão!

(Vilela mete as mãos nos bolsos e atira e moedas de prata. Os cantadores repinicam as

208
violas. Tiros e sinos. Escurece)

7. Caminho na caatinga.

Ouve-se marcha de soldados. Logo depois surgem, medrosos, os pais de Dadá. Carregam
trouxas e outros petrechos.

MÃE - Ôi, meu velho, tou banida de tanto andar.


PAI - Pois descansemos debaixo deste umbuzeirinho. (Sentam-se)
MÃE - Tu ouviu aquilo?
PAI - É a Força Volante.
MÃE - A gente vive a se agachar - ora a volante, ora o bando.
PAI - Do bando a gente não tem mais sobrosso. O chefe é teu genro ... (A mulher
chora.) Ora, mulher, o que tem de ser tem muita força.
MÃE - A minha filhinha.
PAI - Cangaceira.
MÃE - Não diz, seu Jesuíno, te peço pelas Cinco Chagas.
PAI - Por isso estamos na lapa do mundo.
MÃE - Vai ver, a volante já tocou fogo nas nossas coisas.
PAI - O roçado que eu larguei... O milho embonecando e a fulô de feijão chega
prometia... Logo neste ano de bom inverno.
MÃE - Tenho muita saudade, seu Jesuíno. De tudo.
PAI - Tá bom. Daqui pra Campina Grande tem é estirão de terra. Vamos.
MÃE - Deixa ao menos o sol pender. Tou que não me agüento.

(Cambraia e Nonato aparecem. Cambraia com a viola e a rede dobrada, a tiracolo, Nonato
com um surrão na cabeça.)

CAMBRAIA - Boas tardes.


PAI (Assustado) - Boas.
NONATO- Bença, bença.
PAI E MÃE- Deus te abençoe.
CAMBRAIA - Vamos parar por aqui, menino, que o solão tá de rachar. Mesmo,
aqui estão dois cristãos com quem a gente pode se entreter. (Aos velhos) Dão licença?
(Sentam–se.) Pelo que vejo estão de mudança.
PAI - É.
CAMBRAIA - É...
MÃE - A gente tá de mudança.
CAMBRAIA - Se mal pergunto, donde vêm e pra onde vão ?
PAI - É...Vamos.
209
CAMBRAIA - Vamos...Vamos não diz nada. Onde?... Sou de paz. Cantador. Um
cantador. José das Cambraias!
PAI - Sei. A gente sabe. Muito conhecido. De muita fama e ciência.
CAMBRAIA - A pura verdade! De donde vêm?
PAI - A gente vem do Trapiá, e vai tocando assim, sem destino muito acertado.
CAMBRAIA - Trapiá... boa cidade. Lugar que pode se gabar de ser lugar adiantado.
Mas vêm de Trapiá? Pois ainda lá estivemos na semana passada, no dia mesmo em que
se casou o famoso capitão Vilela. Até lhes conto que Vilela quando topou comigo, na casa
do coronel Salu, que me hospedava, foi um abração de quebrar costela! Nunca me vi
mais adulado, por todos - todo mundo! Também, com a fama de cantador que eu tenho...
Vilela até me pediu assim: "compadre Cambraia, vosmecê pode me dedicar um ABC?"
Ainda ontem cantei, na feira de São Mamede, o referido ABC. Não foi, Nonato? Escutem
só:
"Atenção, meu povo, atenção
ao caso que eu vou contar,
de um homem muito valente
que morava num lugar
e até o próprio governo
tinha medo de o cercar.

Bem nascido e natural


do sertão pernambucano,
porém desde pequenino
Vilela é gênio tirano,
comete o primeiro crime
com a idade de dez anos.

Com quinze anos de idade


numa véspera de São João
Vilela mais o seu mano
tiveram uma altercação,
só por causa dum cachimbo
Vilela mata o irmão."
Já disse o A o B e o C. Não está ficando bonito?
PAI - Cantador, tua cantiga pode ser bonita, mas Vilela não é isso que tu anda
espalhando.
CAMBRAIA - Taí este menino que não me deixa mentir.

210
PAI - Cantador, eu conheci Vilela desde menino. Hoje... hoje ele tem a alma
enegrecida pelas mortes que carrega. Mas dantes, não. Era moço disposto e bem
mandado.
MÃE - Cantador, tua cantiga não tá certa. Vilela não tinha gênio tirano nem
matou irmão, que nem irmão ele não tem.
CAMBRAIA - Bem, eu carreguei nos versos por artes do ofício. Para tornar o ABC
mais frocado. É a liberdade que tem o poeta. Se o homem é cangaceiro a gente diz logo
que é cangaceiro desde verdinho, ainda nos cueiros. Se mata um gato a gente diz que
matou uma tigre. Assim, só pra ficar mais procurada a estória, nos folhetos. E muito
mais bonita!
MÃE - Bonita é a nossa tristeza, mais comprida que esta estrada. Faz uma trova,
cantador, com a nossa tristeza.
CAMBRAIA - Perderam algum ente?
PAI - Uma menina.
CAMBRAIA - Finou–se? ... Me desculpem pela cantoria. Vosmecês me desculpem.
Vamos chegando menino. (Nonato se levanta) Aliás, por falar em morte, não é que uma
mocinha, lá na Meruoca, enforcou-se? Dizem que o mal dela era paixão roxa pelo Vilela,
e quando soube que o homem tinha casado ficou sem querer comer nem beber. Nem
falar falava. Terminou nesse desgosto. Porém lhes conto: morreu donzela. Ia com uma
coroa na cabeça, e toda de branco e azul.
MÃE - Malvado! Desgraça assim só em 10, quando pelo céu cruzou o cometa. Vi
muita gente endoidecer.
CAMBRAIA - Cometa? Nonato, me lembra esta passagem, pra eu botar num verso:
Na esteira de Halley faiscante e bela
passa Vilela pelo céu da noite...
NONATO - Mestre, ali vêm vindo uns soldados ...

(Os pais de Dadá se levantam, medroso s)

MÃE - Valei–me meu bom Jesus! Sei que a minha hora chegou! Seu Jesuíno, seu
Jesuíno!
CAMBRAIA - O que foi?
PAI - Perseguição por causa de nossa filha Dadá!
CAMBRAIA - Virgem Nossa Senhora, onde eu me meti! Eu não sabia que estava
palestrando com os pais de Dona Dadá! Desculpem as pabulagens que eu possa ter
soltado. (Nervoso) Mas que jeito que eu vou dar?
MÃE - Nos acode, cantador, pelo amor de Deus!
CAMBRAIA - Se agachem lá dentro daquele mata–pasto, que eu vou ver se desvio
os praças. Depressa!
211
MÃE - Cantador, me faz mais este favor: se um dia tu encontrar a minha filha
Dadá diz que nós tamos em Campina Grande, esperando por ela.
CAMBRAIA - Dona, corra! Nonato, tu deixa eles no mata-pasto e volta, assim -
muito pausado - como quem não sabe de nada.

(Os pais de Dadá saem com Nonato.)

CAMBRAIA (Afinando a viola e cantando) –


Lá–rá–lá–rárá...

Afino a viola e canto


para o céu e a terra inteira
Tenente Gato é orgulho
da volante brasileira!

(Aparecem dois soldados)

1º SOLDADO- Boas tardes.


CAMBRAIA (Fingindo assustar-se) - Ah! ... Boas tardes.
1º SOLDADO- Cambraia cantando à toa ?
CAMBRAIA - Sou um cativo da inspiração! Quando ela chega é assim, não pede
hora nem lugar - almoça. Aliás, abanquem–se. Esta é a minha casa: terra sem fim,
acinzentada. E este céu, da cor de anil, rima com o meu Brasil! Estava justamente
compondo um hino para o bravo tenente Gato - o tigre das volantes brasileiras!
1º SOLDADO - Cantador, pra mim tu não estavas aqui, sozinho. Ou me enganei?
CAMBRAIA - Enganou–se não. Está comigo o Nonato, que negocia com queijos de
coalho e é meu discípulo. Saiu inda agorinha pra fazer uma precisão. Mas, vêm de onde
e para onde vão?
1º SOLDADO - Não vai dizer que não viu, ou que eles não estavam aqui ...
CAMBRAIA - Eles quem?
1º SOLDADO - Um velho e uma velha.
CAMBRAIA - Aqui?...
1º SOLDADO - Deus te livre de trabalho de coiteiro. Senão...
CAMBRAIA - Seu cabo, eu me chamo José das Cambraias. Sou da intimidade do
coronel Dantas, privo da amizade do coronel Salu, sou amiguíssimo do tenente Gato. E
agora seu cabo me embatucou com este senão ... Senão o quê?
1º SOLDADO (Ao segundo) - Bom, eu penso então que era voz de menino.
CAMBRAIA - Nonato! Hum, aquilo é cristão renitente. Discute comigo que só o
Cão. (Alto.) Nonato!
SOLDADO - Então está fazendo uma cantiga Para o tenente Gato?

212
CAMBRAIA - Cantiga, não. Um hino!

(Nonato aparece.)

NONATO - Bença, bença.


1º SOLDADO - Deus te abençoe.
CAMBRAIA - Menino, que dor de barriga mais demorada. Acho que o jeito é
entrares na folha da goiabeira, mode ver se estanca. Oferece um queijinho aos oficiais...
Devem de estar com fome.

(Nonato entrega um queijo ao 1º SOLDADO.)

1º SOLDADO - Agradecido. Pois vamos embora, seu João.


CAMBRAIA - Aliás, pra dizer que não vi, vi. Sou sempre pela verdade. Hoje, de
manhãzinha, topei com um casal de velhos que me pareceu do Trapiá. Levavam até um
papagaio no meio da carga e mais uma cachorra do rabo cotó. Iam nesta direção (aponta
para o lado oposto à saída dos velhos), numa marcha bem arrastada, me parecendo que
pro Limoeiro.
1º SOLDADO - Pois até um dia.

(Os soldados saem pelo lado em que saíram os velhos.)

CAMBRAIA - Se Deus quiser. Bicho desconfiado é soldado. Eu apontei no rumo de


cá, os pestes vão no rumo de lá. E os velhos, menino?
NONATO- Tão agachados.

(Ouve-se um tiro.)

CAMBRAIA - Desgraçados! Chumbaram os coitadinhos! Pestes! (Os soldados


voltam. Um traz uma perdiz morta.) Infelizes, tomara que peguem também uma carga de
chumbo! Cangaceiros! (Vendo os soldados.) Ai, meu Deus!
1º SOLDADO - Que diabo te mordeu, cantador?
CAMBRAIA - Ah. seu cabo, pensei que era a minha despedida deste mundo que eu
tanto adoro! Pensei que era o bando!
1º SOLDADO - É mesmo um aluado. (Jogando a perdiz a Nonato.) Pega a jaó,
menino. (Sai, com o companheiro, pelo outro lado.)
CAMBRAIA - Arre! (Limpa o suor do rosto e canta:) –
Afino a viola e canto
para o céu e a terra inteira...
NONATO - Mestre...
CAMBRAIA - Vamos. Diabo, acho que eu estou mais doente do que tu. Só
entrando no olho da goiaba.
NONATO (Saindo atrás de Cambraia.) - Mestre, eu não estou doente.

213
CAMBRAIA - Ah, não estás, hem? (Saem.)

8. Na Vila de Bezerros

Escuro. Tiros, tropel, exclamações. ouvem-se vozes atirando objetos a uma multidão.

VOZ DE HOMEM - Lá vai peça de morim!


2ª VOZ DE HOMEM - Café, bolacha, bombom Beija-Flor!
VOZES DA MULTIDÃO - Oi, minha comadre, este pedaço é meu, aquele é seu!
- E a sombrinha? Todo mundo ganhou sombrinha!
- Menos eu, que cheguei atrasada!
- E eu! Cadê a minha!
- Viva, viva o Capitão Vilela! Viva!
VOZ DE HOMEM- Loja da peste! Lá vai mais chita!
VOZ DE HOMEM- Tem coisa como o diogo! Lá vai sedinha!
VOZES DA MULTIDÃO
- E o açúcar? Eita açúcar mais alvo!
- E esta chita, toda fulorada!
- Viva, viva Vilela!
(Luzes. O Coronel Dantas traz um tamborete para Vilela sentar–se. Vilela senta–
se. O Coronel lhe vai fazer a barba. Dois cangaceiros ladeiam Vilela e o Coronel.)
Vilela - Coronel, pare de tremer a mão, veja se não vai torar a minha cara. O
coronel não gosta de se rir? (O Coronel força o riso.) Um bom barbeiro, para agradar.
precisa ser maneiroso e ter a mão macia. Nada de tremuras. Mão bem macia pra botar
pó no rosto da gente, pra derramar cheiro no cabelo da gente, Chega a gente cochila, de
tão agradável ... (A um dos cangaceiros.) Mestre Zuza, me alcance aí um frasco de jasmim
e uma lata de pó ladi.

(O cangaceiro entra e volta em seguida com o pedido de Vilela. Fica ao lado deste.)

VOZ DE HOMEM - Uma grosa de linha "Corrente"!


VOZES DA MULTIDÃO - Apanha! Apanha menina, ajuda tua mãe a apanhar!
- Viva o Capitão Vilela! Viva!
VILELA - Coronel Dantas, eu sei que vosmecê é dono de toda esta vila de Bezerros.
Ninguém, por estes brejos, tem os canaviais que vosmecê tem. Cuidado com a navalha,
coronel ... É canavial por demais, chega-chega a azular nos baixios. Ora, ainda ontem me
relataram um que porém muito me desagradou. É verdade? Cuidado pra não me
arranhar a cara.
VOZES DA MULTIDÃO –Viva o Capitão! Viva!
VILELA - Mandei abater uns boizinhos para o almoço da minha tropa. Sei que o

214
coronel já me aprovou esta resolução. E depois, para quem tem dois mil pastando ... É
verdade que é vosmecê, em pessoa, que ferra todo esse gadinho? Garanto que tem calo
na mão só de fazer chiar o ferro no lombo da rês. Agora me ponha o pó, que a barba já
está sofrível.

(O Coronel recebe do cangaceiro a lata de pó-de-arroz e o vidro de perfume. Com uma


pluma de arminho passa o pó no rosto de Vilela.)

VILELA - Por hoje a sua vila está fora do mundo. Cortamos os fios do telégrafo.
Mas o coronel é testemunha de que não somos o que dizem por aí. Nenhum dos meus
cabras é besta de tocar em moça donzela. Mulher e criança a gente respeita. Mas traição
é coisa que ninguém agüenta (Levantando-se.) Agora a gente vai embora. Aqui está a
chave da cadeia. Solte os seus praças. Mas, cuidado. Não nos atraiçoe. (A um dos
cangaceiros.) Menino, tem aí um vintém de cobre? (Recebendo o vintém do cangaceiro.) E
aqui está o pagamento da barba.

(O Coronel Dantas, trêmulo, recebe o dinheiro. Vilela e os cangaceiros saem pelo fundo. O
Coronel, acabrunhado, senta-se na cadeira. Silêncio.)

Coronel (num repentino furor)- Gatunos! Ô Raimundo, Ô Pedro, Ô Sebastião!


Gatunos! Estão me roubando! Corram aqui, socorro! Ô Raimundo, Sebastião! Corram,
me acudam!

(Do fundo do palco chega, correndo, o cantador Cambraia. O Coronel, amedrontado, sai
também correndo. Cambraia, com chapéu de cangaceiro, é tomado por um dos cabras de
Vilela.)

CAMBRAIA (Arquejante.) - Gente de minh'alma, que aforismo é este? No entrar da


vila foram logo me dando a notícia, que Vilela esteve aqui e que fez foi um estrago, que
não poupou nem moça donzela! Que arrasou a fortuna do Coronel Dantas! Que chega
tocou fogo em tudo, baleou boi, baleou um cachorro, baleou até galinha! Um escangalho!
Vou já compor um ABC! Um ABC que amanhã vai abalar toda a feira da Meruoca!
(Recitando:)
ABC canta por mim
e não me deixa mentir
tampouco exagerar
e, se exagero, me faz sentir
caso que é muito grave
deu-se em Bezerros do Prado
no Reino da Branca Aurora
onde a princesa deusa Flora
em sua alcova dormia!
215
Onde a princesa deusa Flora
em sua alcova dormia! (Sai.)

(Fim do Primeiro Ato)

2º ATO
9. Chefatura de Polícia

Toque de corneta. Delegado e Soldado entram em cena. Do lado oposto chega outro
Soldado.

1º SOLDADO - Seu delegado, está na loja do capitão Cazuza Lopes um tipo que -
no meu fraco entender - é de muita foba. Estava ele dizendo que veio à Conceição do
Azevedo se oferecer para comandar uma volante, na captura de Vilela.
DELEGADO - Mais um que quer prender Vilela. Como se chama o homem?
1º SOLDADO - Estava ele dizendo que tem patente de alferes - Alferes Narciso. É
um gaiolão, alto, laranjo, de olho azul como pedra-lispe. Me parece ser gente do Ceará.
2º SOLDADO - Pois lá vem o dito.

(Do fundo para o centro, lentamente, entra o alferes Narciso.)

ALFERES - Boas tardes.


DELEGADO - Boas tardes.
ALFERES - Se bem pergunto, não é vosmecê o delegado?
DELEGADO - Sim senhor.
ALFERES - Eu sou o Alferes Raimundo Narciso. Sou das bandas do Quixadá.
Minha missão, aqui, é porém oferecer os meus préstimos na captura do Vilela.
DELEGADO - Cinco Estados estão empenhados nessa captura. Estão mandando
volantes muito bem armadas - e isso já vai para alguns anos - mas tudo até agora deu
em nada.
1º SOLDADO - O homem tem o corpo fechado.
2º SOLDADO - Dizem que ele apara as balas com a mão.
1º SOLDADO - Se ri de nós todos. É bicho duro que nem jatobá.
DELEGADO - O delegado de Currais Novos escreveu pra Capital, pedindo tropa de
linha e cavalaria. O chefe então lhe mandou trinta praças e graduou um tenente.
1º SOLDADO - Morreram.
2º SOLDADO- Não escapou um só homem para lhe trazer o recado.
DELEGADO - Da Paraíba vieram quarenta homens escolhidos, comandados pelo

216
tenente Gato.
1º SOLDADO - Que este era bicho destemido!
2º SOLDADO - Morreram da forma que os outros tinham morrido.
DELEGADO - Pernambuco mandou um contingente embalado.
1º SOLDADO - Escapou o corneta–mor, porém ficou aluarado.
2º SOLDADO - A Força levava tiro sem saber donde partia.
DELEGADO - A resolução do alferes é questão de honra? De família?
ALFERES - Não.
DELEGADO - Raiva moída no peito?
ALFERES - Também não.
DELEGADO - Desprendimento da vida?
ALFERES - Tenho mulher e seis filhos para criar.
DELEGADO - Então, não sei o que lhe perguntar.
ALFERES - Basta, como justificativa, andar Vilela fora da lei. Porém é antes a
impaciência do caçador - a agonia do caçador - pois só o cheiro dessa tigre, seu
Delegado, chega a me dar calafrio, como a sezão.
DELEGADO (Sorrindo.) - Ah, já sei... são os vinte contos do prêmio.
ALFERES - Não é dinheiro o que procuro. Procuro o bicho-homem, seu Delegado,
para com ele medir a minha força.
DELEGADO - Seu Alferes, a coisa é medonha.
ALFERES - Só preciso de um mandado de prisão, e hei de mostrar a todos se
Vilela visita a cadeia ou não!
DELEGADO - Já que se oferece, acho bom que se disponha. Vamos o que o Alferes
vai e não traz o homem - então? - chega aqui, me faz vergonha.
ALFERES - Se eu não trouxer o Vilela - preso ou morto - nunca mais eu apareço.
Não peço um batalhão, seu Delegado, vinte ordenanças me chegam.
DELEGADO - Seu Alferes Narciso, o negócio ainda não está fechado, e por isso lhe
dou este conselho - volte. Volte pra sua terrinha.
ALFERES - Seu delegado, eu não tomo o seu conselho como ofensa. Outros, que
tomam a fresca da tarde, - sem ser também para ofensa - já me disseram o mesmo: “o
melhor é o senhor voltar...”
"Mas, este pedaço de homem
que Deus consentiu nascer
não morre antes do tempo
nem corre sem ver de quê."
DELEGADO (Retirando um papel do bolso) - Pois, seu Alferes, aqui está o
mandado.

217
(O Alferes recebe o papel. Toque de corneta Os dois soldados atravessam a cena,
marchando. O Alferes acompanha os soldados. O Delegado sai pelo lado oposto. Escurece.)

10. Refúgio de Vilela, na caatinga.

Dadá, em adiantada gravidez, está sentada num caixote. Faz sapatinhos de croché. A seu
lado está Vilela.

VILELA –
"Se pedra fulorará
eu lhe digo num repente,
ao despois de Deus querer - fulora,
fulora e bota semente."
Ele pulou para trás, com a ligeireza dum gato, Então eu gritei: "Bandido, segura o
punhal, não faz coisa de menino!" Então ele gritou. "Estou ferido!" E eu vendo o jato de
sangue, gritei: "Pois cuide da vida!" Os outros correram logo, e eu deixei que eles
corressem.
DADÁ (Triste, de cabeça baixa) - Pois quem corre quer viver.
VILELA - Covardia é mal que me enoja.
DADÁ - Antônio, será que as nossas conversas têm de ser só estas ? Tiro, morte,
correria... Me fale de sua vida, Antônio, de sua vida de menino.
VILELA (De cócoras.) - Minha vida de menino, de menino besta... Nasci num ano
de inverno forte, na era - deixe eu ver - de 98. Meu avô foi muito abastado, meu pai
porém ficou só com uma ponta de mato - pequena - mas tão bonita com seu capão de
mororó.
DADÁ - Você podia ter sido um homem muito civilizado.
VILELA - Ali ainda se aprecia um cantador um vaqueiro, um cabra que mate onça
ou então...
DADÁ - Não, não me diga.
VILELA - Dadá, será que você está com saudade da sua gente?
DADÁ - Saudade de você, vaqueiro. De você quando vinha, todo encourado, tomar
a bênção a mãe... E eu então ia esperar você lá no canto do cercado, e era nos dias das
primeiras chuvas, a babugem nascia nos tabuleiros, e você se estirava nos loros da sela,
se inclinava como se fosse saltar do cavalo, e me sorria nos olhos. E eu cuidava que todo
o sertão era uma flor.
VILELA - Dadá... por que - depois - ainda me quis assim? Tem vez que eu penso
que até este chapéu te mete medo. Você não gosta de me ver no meio do bando, chega a
não falar com os cabras. Até do meu compadre Açucena você desconfia.
DADÁ - Não está em mim Antônio. Minha natureza repuna esta vida e esta gente.
218
VILELA - Dadá...
DADÁ - Eu sei que você só atira por necessidade, pra se defender. Mas rogo a
Deus que me livre de ver você sangrar um cristão, porque - depois - se você viesse me
abraçar, eu gritaria...
VILELA - Você acaba de me dar um cerco mais duro que o das volantes - de todas
as volantes juntas.
DADÁ - Prefiro não ver nunca esse dia.
VILELA - Prefere me ver morto, então?
DADÁ - Eu sei que você é só um perseguido.
VILELA - Sou também um perseguidor. Mas, você anda é cansada, devido a seu
estado. São antojos. Eu gostava de voltar, por você e pelo menino que vai nascer. Mas,
voltar para onde? Vilela tornado defunto ainda era bem bom, mas este seu Antônio,
rendido, será cuspido na cara.
DADÁ - E agora, a volante desse Alferes Narciso anda farejando a gente como
cobra que perdeu o veneno. É um desassossego.
VILELA - Por isso mesmo, Dadá, escolhi para sua moradia esta crista de serra que
é chamada Tombador. Aqui Força Volante não se atreve a subir. Lá embaixo estão os
grotões, tão escuros que até visagem tem medo de atravessar. Cavalo, aqui, só subiu com
você e com todo o meu cuidado. Aqui o sol é claro e daqui você tem a vista mais bonita
pra todo o sertão. O abismo do Tombador, onde tudo azula. A força do vento, lá no
fundo, é tão forte que se eu jogar um tronco de pau ele dá volta, voando, feito graveto no
redimunho. Aqui não lhe vai faltar nada, nem cangaceiro você verá, que a tropa ficou lá
na descida, botando sentinela. Dadá, já tratei com urna parteira, que vem chegar
amanhã, para partejar o nosso filhinho.
DADÁ (Limpando os olhos) - Só sinto muita falta é da minha máquina sínger,
Podia estar costurando uns cueirinhos.

(Vilela se afasta, voltando em seguida com um embrulho.)

VILELA - Esta encomenda para você.Veja.

(Dadá abre o embrulho que contém um enxoval para recém–nascido.)

DADÁ (Maravilhada, exibe camisinhas e toucas)- Cambraias e rendas finas! Um


bragal de príncipe! (Abraça Vilela.) Meu menino!
VILELA - Mandei também fazer um berço igual com um que vi na casa dum
fazendeiro. Vem de Maceió, todo coberto de renda.
DADÁ - Antônio, meu adorado!
VILELA (Apalpando o ventre de Dadá) - Um menino.
DADÁ - Vai ser mulher. Você duvida?

219
VILELA - Não é barriga pra fêmea. É homem, eu aposto a vida.
DADÁ - Eu só rogo a Deus que desvie o meu cabrinha desta vida.
VILELA - Dadá, eu também tenho pensado muito. E até já tomei providências pra
ele ser criado longe de nós, sem saber que é meu filho, pra não ser um renegado.
DADÁ - Longe de nós, Antônio?
VILELA - Padre Pinheiro, do Estanhado, é meu amigo, e será o padrinho e protetor
do menino. Vai ele carregar andor na rua, viver entre santo e santa, no meio de incenso e
flor. Não é assim, Dadá, que você quer o nosso filhinho?

(Dadá abraça-se com Vilela.)

11. Na caatinga.

O marchar de tropas. Silêncio. Luzes. Passa o bando de Vilela em retirada apressada. Em


cena: Vilela, Dadá e cinco cangaceiros. Um dos cangaceiros traz, às costas, um berço.
Desaparecem. Em movimento contrário, a volante do Alferes Narciso. Cinco soldados em
fila indiana, comandados pelo alferes. Saem. Aparecem Cambraia e Nonato. Sentam-se.
Cambraia em cima de sua rede. Nonato ao lado do surrão. Cambraia afina a viola.

CAMBRAIA - Pra cantador tu não dá. Olha, eu também podia andar bem de vida,
arrumadão mesmo, se não fosse esta minha sina de cantador. Podia ter sido um carpina,
um ferreiro, um alfaiate, ou, o mais certo - um negociante voraz. Quando eles querem
um terço, uma dança, um forró, me mandam positivos de todos os lados.E até cavalos-
de-sela me mandam. Me mimam de todos os jeitos, e as meninas só me tratam de
Cambrainha. Mas depois, função acabada,me desconhecem com a maior sem–cerimônia.
Ensaco a viola e vou curar a rouquidão debaixo de um juazeiro. É assim que eles tratam
o poeta. Agora, se eu fosse um comerciante voraz.
NONATO - Mas feirar também não é bom ofício. Fiscal de feira só sabe é perseguir
os cristãos. Eu só queria era parar num lugar e achar uma criatura que me ensinasse a
cartilha.
CAMBRAIA - Menino, um dia Deus ajuda. Dizem que na Marinha é muito bom.
Ah, menino, se eu um dia visse o mar... Olha, da manhã em diante eu vou te ensinar a
cartilha.
NONATO - Tirante o mestre, que é cantador no mundo, em coisa de boniteza, só
tem mesmo Vilela. E de coragem, já vi...Vilela se mete numa farda e entra no meio dos
praças, só de inticante. Se faz de cego, de mouco, de aleijado. Vira caixeiro–viajante, vira
até fiscal de feira. Navega por onde quer, e ninguém cuida. Já foi visto na capital de
Fortaleza conhecendo o mar! É homem poderoso na marca. Chega se parece com o sol!
Mestre, se torno a encontrar o bando, me engajo nele.

220
CAMBRAIA - Deixa de capilossadas, Nonato, Deus te livre! Pois, pra ti, só a
Marinha. Ou então um circo. Não querendo te desfazer, acho que tua vocação é pra
charuto de circo. (Afina a viola e canta:)
"Falei com ele e depois
da minha apresentação
perguntei–lhe me conhece?
conheço–o por tradição,
não é você o poeta
que faz a obra completa
do famoso Capitão?"
NONATO - Mestre...
CAMBRAIA - Toma atenção, Nonato. F: falei com ele, lá–rá–lá–lá... G: grande coisa
é a memória, lá–rá–lá–lá.

(Ouvem–se vozes. Cambraia e Nonato se levantam.)

NONATO - Mestre... é uma rede.


CAMBRAIA - Já vi. Te cala.

(Surge um grupo de cinco homens carregando um morto numa rede. Os homens param.
Limpam o suor do rosto. Um deles tira uma garrafa de cachaça e bebe no gargalo,
passando a garrafa aos companheiros.)

CAMBRAIA (Alto) –Doente, ou...?


1º HOMEM - Já entregou a alma a Deus!

(Cambraia e Nonato tiram os chapéus.)

CAMBRAIA (Aproximando–se do grupo) - Quem é o morto?


1º HOMEM - José de Sousa Leão. Sou o pai dele. Deixei a família numa
lastimação só. Era muito moço, era um menino. Coisa de rapaz. No diabo dum forró. Um
desmantelo. Sou o pai. Vou enterrar ele e vou denunciar. Sei onde eles se escondem.
Vadiação, vadiação. (Cambraia recebe a garrafa e bebe um trago.) É o cantador
Cambraia?
CAMBRAIA - Seu criado. Mas, não foi morto pelo bando do Vilela? (Os homens
sacodem a cabeça, em negativa.) Nem pela volante? (Negativa.) Têm certeza ? Não é
possível... Morte, hoje em dia, na violência, só do bando ou da volante. Doutro jeito, pra
mim, é morte morrida. (Ao 1º Homem.) E vosmecê não é seu Zé Alexandre?
HOMEM - Já nem sei o que eu sou. Esta me deixou estatelado.
CAMBRAIA - Dizem que um vosso filho engajou no bando?
1º HOMEM - É mentira! Olha pra cara dele. Vê se ele tem a marca do cangaceiro.
Olha pro meu filho! Vadiação, vadiação, vadiação. Cantador, tu podia nos dar um
221
djutório. Este solão acaba com a resistência do pessoal. Vamos chegando, meu povo,
vamos chegando.

(Os homens se dispõem a sair, com a rede, quando entram três cangaceiros. Cambraia e
Nonato se afastam.)

1º CANGACEIRO - O que fugir morre. (Aos homens da rede.) Levem o defunto. (Ao
1º Homem.) Você, não. Você fica.

(Sai o grupo da rede. Dois cangaceiros ladeiam o 1º Homem.)

CANGACEIRO - Então, está estatelado? De medo ou de vergonha? De vergonha,


não. Teu filho não era o Ventania? O valente Ventania? Vai ver foi tu mesmo que meteu
uma emboscada nele, descarado. E na vila, vai contar que foi vadiação num forró. Quer
te alimpar, dizendo que teu filho morreu num forró. Torou o cabelo maracajá do menino,
lhe banhou o corpo e lhe deu mortalha de santo. Renegou a disposição de teu filho e vai
enterrar, ele, duas vezes o corpo e a alma.

(O velho é como uma estátua, o rosto lívido.)

2º CANGACEIRO - Estatelado?
3º CANGACEIRO - Zé Alexandre esmorecido?

(Os dois cangaceiros retiram correias e dão chicotadas no velho. Nonato esconde-se por
trás de Cambraia.)

1º CANGACEIRO - Canta, velho, canta! (Barulho das correias!) Canta uma


incelença pra teu finado morto. Canta pra teu finado Ventania! Parem! Carreguem o
velho.

(Os dois cangaceiros seguram o velho pelos pés e ombros. Saem.)

1º CANGACEIRO - E que volte para casa como nasceu. Nu! (Faz uma reverência a
Cambraia.) Com a licença de vosmecê, meu grande Cantador... (Sai.)
CAMBRAIA (Enxugando o rosto com o lenço.) - Nonato, tu viu? Enfim, sou um
cantador que impõe respeito!

Cambraia e Nonato estão a sair, quando passa o bando de Vilela, apressado. Vilela e
Dadá à frente. Saem. Cambraia e Nonato mudam de posição. Cambraia enxuga o rosto,
tenta dedilhar a viola, quando passam os soldados da volante do Alferes Narciso.

ALFERES (Trazendo um menino pelo braço.) - Vai me mostrar Vilela, quer você
queira, quer não.
MENINO -
“O que é que hei de fazer?
Eu vou mostrar–lhe o Vilela
222
mas na certeza de que
tropa que cerca o homem
o resultado é morrer.”
ALFERES (Soltando o menino.) -
“Siga, siga, rapazim,
quando avistar o lugar
chegue pra perto de mim,
fale baixo, que eu entendo,
depois eu lhe arranjo um canto
onde bala não lhe ofenda.”

(Sai o grupo do Alferes.)

CAMBRAIA - Contando, ninguém acredita o negócio é exagerado. Vamos. menino,


tá chegando a noite. (Saem. Escurece.)

12. No Tombador. Noite.

(Dadá e Vilela, e, ao lado, um berço.)

DADÁ (Cantando): -
“Dorme, dorme, meu menino,
foi–se o sol, nasceu a lua,
qual será o teu destino?
Qual será a sorte tua?

Se um crime tens de fazer,


antes fique vago um trono,
antes um palácio a arder
do que uma enxada sem dono."
Dois meses, Antônio, que andamos assim, de déu em déu, com a volante no
calcanhar da gente. Nem água achamos para banhar o menino, nem tempo, credo minha
Mãe Maria. Às vezes a criança vai mamar quando começa o pipoco, e me foge o leite.
Antônio... Inda ontem, quando subimos, ouvi assim como um grito de menino a pedir
socorro. Me veio uma coisa... Será que o nosso filho vai-se acabar neste desterro?
VILELA - Não é ninguém chamando o nosso filho. É a mim que eles chamam.Tem
gente me rastrejando. Porém, seja o Alferes Narciso, seja essa alma de menino, o que
aparecer não escapa do meu punhal.
DADÁ - Tu podia dizer aos cabras que ia amanhã, comigo, deixar a criança na
casa de Padre Pinheiro, no Estanhado. A gente saía, e então, no meio do caminho, a

223
gente quebrava no rumo de Campina Grande... (Vilela sorri.) Chegando perto da cidade a
gente enterrava este teu chapéu, as armas, a munição.
VILELA - E lá chegando - ou mesmo na marcha pela estrada - você ainda tinha
coragem de olhar para mim?
DADÁ - Mas é pelo nosso filhinho que eu peço.
VILELA - Você tinha coragem de olhar para mim?
DADÁ - Mas eu não quero que esse mal aconteça a meu filho. Quero, para ele,
proteção, justiça. Não quero viver feito bicho. Não agüento mais.
VILELA - Pra me acompanhar, deixou os teus velhos. Sabia que ia ser chamada de
mulher de cangaceiro. Sabia que eu sangro, que sou o mais feroz, por isso sou o chefe.
Inda ontem fiz, num cabra, uma janela, pra alma sair mais folgada. Mas, aqui, sou um
rendido, sou só o teu Antônio... (Abraça-a.)
DADÁ (Gritando.) - Não, não me toque! Nunca mais.
VILELA - Pois nossa vida está difícil. Ou bem Vilela ou bem um defunto. De frouxo
é que ninguém me chamará.

(Escurece. Silêncio. Ouvem–se pisadas (primeiro plano), divisam-se vultos. É a volante do


Alferes Narciso. No alto (para efeito de distância) tremula uma luzinha vermelha.)

MENINO - A casa do homem é aquela.

(Os soldados se agrupam ao lado do Alferes. A luzinha vermelha se apaga.)

VOZ DE VILELA - Dadá, Dadá... Esconde o menino. Estou cercado.

(O vulto do Alferes, no primeiro plano.)

ALFERES -
“Acorda, que está cercado
Vilela, tem paciência,
me vá entregando as armas,
eu não quero é violência,
trate de compor a casa
- seu Vilela -
pra eu fazer a diligência.
VOZ DE VILELA -
Do tamanho que é a cozinha
também pode ser a sala,
da grossura do revólver
também pode ser a bala,
olho e não vejo ninguém
- seu Alferes -
224
quem diabo é que me fala?
ALFERES -
Se quer ser preso com honra
se renda, não faça ação.
Vim buscá–lo - preso ou morto -
não quero escutar sermão,
ou você me abre a porta
- seu Vilela -
ou vai ver ela no chão!
VOZ DE VILELA -
Seu Alferes Delegado
Vá procurar seu caminho
vá criar sua família,
deixe eu criar meu filhinho.
porque, se saio lá fora
- seu Alferes -
sei que o encontro sozinho.
ALFERES -
Vilela, tem paciência,
vigie que eu falo sério,
desta feita você segue
- isto eu quero porque quero -
ou em corda pra cadeia
- seu Vilela -
ou em rede pro cemitério.
VOZ DE VILELA -
Seu Alferes, eu carrego
comigo uma opinião
boi solto se lambe todo...
eu não me entrego à prisão!
Quero mesmo é que se diga
- seu Alferes -
morto, sim, mas preso, não!
ALFERES -
Vilela, me abra a porta,
você só tem é relaxo,
se você não abre, diga,

225
que é pra eu botar ela abaixo.
No cruzar dos batentes
- seu Vilela -
o sangue desce em riacho.

(Os soldados vão saindo.)

VOZ DE VILELA
- Seu Alferes Delegado,
esta razão me agradou:
você diz que é muito homem,
se é por homem, eu também sou!
Previna o destacamento
- seu Alferes -
se prepare que eu já vou.

(O Alferes volta–se para os soldados, gritando: "preparem-se" - mas desaponta–se por não
encontrar os seus comandados.)

VOZ DE VILELA -
Seu Alferes Delegado,
sua canalha correu,
e o senhor o que é que faz
que não ganha os marmeleiros?
Mesmo aqui só canta um galo
- seu Alferes -
que sou eu neste terreiro!

(No alto, avista–se o vulto de Vilela. Inicia–se o tiroteio entre os dois homens.)

VILELA -
Seu Alferes Delegado,
cadê a Força que tinha?
Só o senhor não correu,
tanto soldado que vinha...
Quem chegou aqui de galo
- seu Alferes -
vai voltar feito galinha.

(O tiroteio cessa. Vai amanhecendo.)

VILELA -
Seu Alferes Delegado,

226
bote fora o clavinote!
Pensa o senhor que me ofende?
Isto é bala de bodoque!
Hoje nem Jesus o livra
- seu Alferes -
da ponta do meu estoque!

(Os dois homens avançam armados de punhais. Atracam–se. Do alto, onde se encontram,
descem até o proscênio, voltando, em seguida, para o centro do palco. Por fim o Alferes é
dominado por Vilela. Quando este vai levantando o punhal surge, à distância, Dadá.

DADÁ - Não mate o homem, marido.


VILELA -
Saia-se daqui, mulher,
com o diabo dos seus conselhos,
se o Alferes me matasse
você não achava feio,
como estou matando ele
- sem-vergonha -
tu vens te meter no meio.
DADÁ -
Marido, não mate o homem
que ele nem lhe deu motivo,
Jesus foi mais judiado,
sofreu, não foi vingativo.
Se é de matar o Alferes
- marido -
me mate - deixe ele vivo.
VILELA -
Certamente lá em casa
não tem mais o que fazer,
pra punir por um qualquer
ninguém melhor que você
mas em briga de dois homens
- descarada -
mulher não tem que vir ver.
DADÁ -
Marido, não mate o homem
que é casado e tem família,
227
você matando o Alferes,
os inocentes - quem cria?
Veja que temos um filho
- Antônio -
cê pode precisar um dia...
VILELA -
Pois então diga ao Alferes
que corra pelas estradas,
senão ele sai daqui
vendendo azeite às canadas.
Diga que a minha mulher
- seu Alferes -
foi a sua advogada!

(Vilela solta o Alferes e vai até o fundo do palco (que sugere o abismo do
Tombador),recuando, depois, alguns passos.)

VILELA -
Mulher: eu fiz seu pedido,
não matei aquele homem,
mas me vou, de mato adentro
me acabar de sede e fome,
vou comer das frutas brabas
- porque quero -
daquelas que os brutos comem."

(Vilela atira-se no abismo.)

DADÁ - Antônio!

Dadá põe a criança ao colo. Apanha o berço vazio e o atira no abismo. Depois, com a
criança, desce vagarosamente. O Alferes desce também, mas em sentido oposto. Escurece.
Luzes novamente. E, como no início da peça, Cambraia e Nonato estão no proscênio.
Cambraia limpa o suor do rosto com o lenço; o mesmo faz Nonato. Cambraia afina a viola e
Nonato arruma, num cavalete, exemplares das estórias, em verso, dos cantadores
nordestinos.

NONATO (Ao público) - Quem vai comprar o Romance do Valente Vilela? Amor,
Paixão, Ódio, Sedução, Luta, Lágrimas e Glória! Tudo por dois cruzeiros, apenas, meus
conterrâneos! O Valente Vilela na sua Paixão e Glória! O Valente...
CAMBRAIA (A Nonato) - Um momento. (Ao público.) Bem, como vocês viram, o final
da estória não foi conforme prometera o Alferes ao delegado - trazer Vilela preso ou
228
morto. E porque ele tinha se apalavrado com o homem, o certo era pegar de uma corda e
armar o laço no galho de uma imburana. Ou não era? Mas... (Nonato cochicha ao ouvido
de Cambraia.) Vai...
NONATO - Aonde?
CAMBRAIA - Ali, detrás daquele oitizeiro. Vai, que que tem? (Nonato sai com a
maleta.) Menino besta. Ficou comigo mesmo, como bezerro desmamado. Largou de
mascatear. Não dá para o comércio. Aliás, doutorzinho Cavalcanti, de Campo Maior, me
disse que esse menino é um inadaptado. Não sei. Agora, que é palavra muito bonita, é.
Portanto, o menino que vocês estão vendo, me secretariando, é um inadaptado. Bem,
voltando ao caso do Alferes. Como vimos, o homem não se enforcou, preferindo ganhar
os marmeleiros. Também, justiça se lhe faça, não ficou com a viúva do finado, que não
era amor de um pelo outro, que eles nem se conheciam. Mas, já que lhe escapou Vilela,
podia, pelo menos, ter carregado a viúva e o órfãozinho, como presas de guerra. Não é a
praxe? O Alferes foi porém decente, preferindo voltar ao lar, para contar, mais tarde, aos
netos - o tempo vai passando e a pabulagem aumentando na memória da criatura - para
contar, mais tarde, aos netos, que Vilela, desarmado na luta, espatifou-se no abismo. No
entanto, se o Alferes tem esperado um pouquinho mais (Nonato, vestido em trajes de
Vilela, e de braços abertos, surge no fundo do palco), teria visto Vilela, que vinha avoando
lá das profundezas, carregado pela força do vento! Vilela, voltando, ainda pôde ver, ao
longe, a figura de sua amada Dadá, que descia a serra com a criança no colo - "lá
embaixo eles serão mais felizes" - disse, certamente. E então, muito triste, apanhou uma
lembrancinha qualquer de Dadá e (canta:)
"e saiu por detrás da casa
e nos matos escolheu um canto
e ninguém nunca pensou
que ele vivesse tanto
e ao cabo de muitos anos
- penitente -
morreu Vilela e foi santo"
Bom, se o enredo não está entoado, me desculpem. (Nonato já está ao lado de
Cambraia.) É que um filisteu, ali na venda, me ofereceu uma talagada de Cinco Estrelas.
A estória do Valente Vilela eu a ouvi da boca do cego Sinfrônio, que por sua vez a ouviu
da boca do cantador Jaqueira. E está até no livro do mestre Leonardo Mota. E é a certa,
a boa, a legítima, de Braga. Depois... muito vento correu, muita água secou. E de
novidade, no Nordeste, só mesmo a Rio–Bahia com seus paus-de-arara. No mais a
terrinha continua naquele mesmo queixume, no mesmo cinzentão abandonado. Não
fosse o consolo de umas chuvinhas vasqueiras que ainda caem por lá, e este destino de

229
cantador que a gente carrega no peito... Pois me despeço arrematando a sextilha final do
Romance - na versão verdadeira... (Canta com Nonato:)
"Alvíssaras, meu povo todo,
que a minha estória acabou-se,
o Alferes foi valente e,
de valente, enforcou-se!
Mais valente foi Vilela,
morreu, foi santo e salvou-se!"

Rio, maio de 1959.

230
O VASO SUSPIRADO

1959

231
PERSONAGENS:
INÁCIA RANHETA, alta, magra, 5O anos
JOANINHA MOURÃO, baixa, gorda, 5O anos
O BISPO, 8O anos e extremamente frágil
1º. SEMINARISTA, 18 anos
2º. SEMINARISTA, 18 anos

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CENÁRIO:

Sala de casa paroquial, ao fundo uma cama com dossel e cortinas em volta, vendo-se
também, debaixo dela, um urinol de louça; uma mesinha servindo de aparador; nas
paredes um ou dois quadros de santo; portas laterais. Sentadas em cadeiras belle époque,
quase no proscênio (o proscênio deve sugerir uma varanda de segundo andar), estão
Inácia Ranheta e Joaninha Mourão. Joaninha embrulha rebuçados em papel - de - seda
frisado; Inácia retoca um ramo de cravos de papel crepom. Ao levantar da cortina ouve-se o
arremate de um desafio entre dois cantadores:

1ª. Voz - “Já fiz estrela correr


Já fiz o sol esfriar
já segurei uma onça
para um moleque mamar.”
2ª. VOZ - “Passarim, se eu te bato
tenho pena de você,
cai o corpo pruma banda
e a cabeça- pode crer-
passa das nuvens pra cima
só volta quando chover.”
INÁCIA - Raça desconforme a destes cantadores... Só se calam mesmo quando a
gente manda um positivo dizer, lá embaixo, que eles estão incomodando o sossego dos
justos. Deus me dê paciência, senhora dona Joaninha.
JOANINHA - Não vê, dona Inácia Ranheta, que eles estão cantando - assim como
se diz lá na linguagem deles - para louvar o Senhor Bispo, que vai-se embora (levantando
- se e olhando para baixo). Veja como a rua está fervilhando de gente que quer ver a saída
do nosso Santo.
INÁCIA - A maioria, lhe garanto, é de fuxiquentos. E depois, a louvação destes
cantadores chega a dar agonia na gente. Um diz que já fez o sol esfriar, e isto não é coisa
que se diga, não senhora dona Joaninha, isto é heresia, e das grandes.
JOANINHA - Se os coitados não aprenderam as rezas... Ah, minha boa dona Inácia
Ranheta, sorte foi a nossa, que estamos aqui há quinze dias, servindo o Senhor Bispo.
Quantas quiseram estar, nesta hora, no nosso lugar?
INÁCIA - Foi uma graça, dona Joaninha Mourão. Mas, lhe pergunto - quem o
senhor vigário iria encontrar aqui de mais competência do que eu?
JOANINHA - Nós, senhora dona Inácia Ranheta.
INÁCIA - A senhora dona Joaninha tem sido um braço forte na cozinha, na
lavagem dos pratos e da roupa branca do santo visitante, porém, na direção dos serviços
da casa, na preparação dos sonhos e de outros manjares de fino paladar, quem, senão a
233
cabeça e as mãos de dona Inácia?
JOANINHA - Não se pabule, que a pabulagem leva as almas ao fogo eterno...
INÁCIA - Minha boa Joaninha, não estou me pabulando, estou dizendo uma
verdade, e a amiga não deve se sentir diminuída pela humildade de seus préstimos aqui
na casa. Não, senhora dona Joaninha, uma alma verdadeiramente piedosa não deve se
envergonhar por lavar os pratos de um leproso, inda mais que não se trata de um
leproso, mas do nosso Senhor Bispo!
JOANINHA - Uma graça... (suspira). - Dona Inácia Ranheta, me perdoe pela ponta
de inveja, de raiva mesmo, que senti quando vi a senhora dando o ponto no doce,
quando eu, que tive o trabalho de mexer o tacho a tarde toda... Me perdoe o desespero
quando vi a senhora toda não - me - toques fazendo os sonhos de que tanto gosta o
nosso doentinho, enquanto a mim tocava a lavagem das gamelas... (Chora)
INÁCIA - Oh, dona Joaninha Mourão, então a senhora teve raiva de sua amiga?
Ainda bem que está arrependida e me relata o caso. Eu nunca lhe quis humilhar,
mulher... Se a senhora fosse dar o ponto nos sonhos estragaria os sonhos - perderíamos
ovos, manteiga e farinha de trigo - pois dona Joaninha mesma me confessou não saber
fazer sonhos.
JOANINHA - Saber eu sabia, mas...
INÁCIA - Pensei até em dividir a tarefa com a senhora, que eu não desejo o céu só
para mim, porém, Dona Joaninha, tudo já vem escrito desde que o mundo é mundo:
umas para o forno, outras para o fogão e todas para a salvação (Joaninha chora alto).
Mas por que o diabo deste choro, criatura? Que desadoro é este? Olhe que a senhora
perturba o sossego do nosso paizinho... (Levanta - se, vai até a porta da E, volta em
pontas de pé.). Ele ainda está deitado na rede, tomando o seu banhozinho de sol...
JOANINHA (assoando o nariz) - Deus que me perdoe, mas tenho que isso só pode
fazer é mal. Um santo fraquinho daquele tomando nos peitos este solão de rachar.
INÁCIA - Mas é sol da manhã, dona Joaninha. E depois a receita não é minha, é
do Dr. Batista.
JOANINHA - Ora, o Batistinha... um toco que eu vi nascer... Hum-hum, e o nosso
paizinho a seguir o que diz o menino.
INÁCIA - Se viu o Batistinha nascer, não é vantagem, que eu também vi. E de lá
pra cá, senhora, conte vinte e cinco anos. Batistinha estudou na Bahia e já é até pai de
família.
JOANINHA - Mas eu não faço fé em conselho de gente que eu vi nascer.
INÁCIA - Para lhe ser franca, eu também não vou lá muito com as recomendações
do nosso doutor. Sou até hoje o que sou porque nunca andei tomando sol e sereno. Não
fosse um reumatismo que me ferroa aqui na ponta do cotovelo...

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JOANINHA - Pois o santo remédio é banha de cascavel!
INÁCIA - Ora, dona Joaninha, não me venha ensinar padre-nosso. E depois, não é
no meu reumatismo nem na ciência do doutor que devemos pensar, mas na despedida
daqui logo mais, do nosso paizinho. (Joaninha chora) Chore, criatura, chore e chore
muito, alivie o seu peito, que não teremos tão cedo a sorte de tratar de um Bispo. Ele,
agora que está bom, vai deixar - e meu coração só me diz que para sempre - esta vila de
São Francisco de Icó... (Limpa uma lágrima).
JOANINHA - Chego até a pensar que foi uma graça de Deus a doença de Dom
Nonato. Onde algum dia eu pensei em lavar as roupinhas de um santo?
INÁCIA - Mas lembre-se que está aqui por chamado meu. Tive carta branca do
vigário para escolher as minhas auxiliares.
JOANINHA - É, mas eu também até lembrei ao Padre José o seu nome.
INÁCIA - O meu nome? E precisava, dona Joaninha Mourão? E precisava? Quem
neste Icó - sem querer me gabar - seria capaz de arcar com um Bispo? A mulher do
coronel Paulino? Aquele bando de sirigaitas lá do coro? Precisava lembrar o meu nome?
Quem sabe receber nesta terra? quem entende de aqui de pratos delicados?
JOANINHA - Coitadinho do Santo... pegou uma disenteria...
INÁCIA - Porém, culpe não a terra, que é abençoada, mas os importantes desta
terra, que são uns acavalados. Atocharam comida gorda e bruta no velhinho, que foi um
horror. O senhor Bispo gosta de carne assada com pirão de leite? Pois haja carne assada
e pirão de leito pra cima do pobre. Gosta de panelada, gosta de sarapatel? e mais
coalhada e mais requeijão? Credo, aí está no que deu. Quase matam o Santo. Justiça se
faça ao doutor Batista, que me chamou logo para tratar do nosso Pastor. E de ordem dele
- com todo o meu apoio - aqui ninguém mais entrou com comidinhas. Inácia Ranheta
não gosta de se gabar, não, mas aí está o Bispo, curado.
JOANINHA - Curado, pode dizer. E agora vai - se embora um santinho que casou
tanta gente que vivia por ai, aos magotes, em mancebia, que batizou meninão taludo,
que crismou homem de barba já cerrada, e que despotismo de milagre andou obrando...
INÁCIA - Não vê a quantidade de pedidos que ele recebe por dia? São queixumes
de todos estes arredores.
JOANINHA - Eu mesma sou testemunha de duas curas, senhora dona Inácia
Ranheta. Uma, no menino de Josefa Coati, que dava como que uns ataques e foi só ele lá
chegar, foi como água no braseiro, chiou e serenou. Pois ainda ontem, à boquinha da
noite, eu não vi o diabo do moleque comendo uma talhada de melancia? Sãozinho como
Deus quer as almas. A outra foi o caso da mão de seu Antenor...
INÁCIA - Chiu... (ouvem - se passos) É ele...
(Aparece o Bispo. Inácia a Joaninha correm a segurá-lo, e o ajudam a

235
sentar-se numa cadeira de balanço).
BISPO - Obrigado, obrigado... Os seminaristas já chegaram?
INÁCIA - Já estiveram aqui, com o Padre José e o senhor Vigário de Vila Formosa,
mas como o nosso paizinho estava repousando, eles aproveitaram para a arrumação das
bagagens, lá embaixo.
BISPO - Muito bem, muito bem. Então, dentro de uma hora o seu velho Pastor
estará dizendo adeus a São Francisco do Icó... Agradecendo de todo coração - e Deus os
recompensará - o tratamento carinhoso que me dispensaram. (Inácia e Joaninha
choram.) Por que choram, minhas ovelhinhas? Nunca me esquecerei do desvelo com que
me trataram, das sopinhas que me estimularam o apetite, feitas por dona Inácia Ranheta
- tão leves e tão delicadas, e que nenhum mal fariam ao estômago do mais sensível
querubim... E como esquecer as mãos carinhosas de dona Joaninha Mourão, que
transformaram os meus trapos velhos, encardidos, em linho alvo como o lírio? (Joaninha
chora; Inácia vai apanhar a correspondência que está sobre a mesa e a entrega ao Bispo)
Não chore, dona Joaninha, antes se alegre e agradeçamos a Deus a minha cura.
JOANINHA - Mas é que o nosso Santinho nunca mais voltará a Icó...
BISPO - Eu, santinho? (Sorri). Santinho aqui é São Francisco e este não
abandonará nunca o povo bom desta vila.
JOANINHA - Mas o senhor é também um santinho. Então eu não vi curado o
menino de Josefa Coati?
INÁCIA - Dona Joaninha está com a razão. O senhor, nosso paizinho, é um Santo.
BISPO - Oh, minhas boas diocesanas, não digam semelhante coisa. Eu nunca fiz e
nem desejo, na vida, fazer milagres.
JOANINHA - Ah, não negue, não negue. Diga só para nós, diga...
BISPO - Aspirar à santidade é dever de todo cristão, mas longe estou de
semelhante graça - pobre e imperfeito mortal que sou.
JOANINHA (tapando os ouvidos) - Que horror, meu paizinho! E eu? E nós, dona
Inácia Ranheta? Nós, onde estamos?
INÁCIA - Pois quer ver a fama de sua santidade? (Tirando uma carta que traz à
cintura). Esta carta me escreveu uma amiga da Chapadinha. Ela esteve aqui, durante as
Missões - é a Celeste Borges, dona Joaninha - pois bem, ela manda me perguntar, se eu
me lembro onde ela engomou aquele seu vestido branco, se foi na sala ou se foi no
quarto, aqui ao lado. Porque, se foi nesta sala, onde agora está dormindo o nosso
paizinho, o vestido continuará no baú, branco e engomadinho, até o dia de sua morte,
quando lhe servirá de mortalha. Que aquele vestido vai-se tornar para ela uma relíquia.
JOANINHA - Pois foi nessa sala, me lembro como se fosse hoje.
BISPO - Pois não foi nesta sala, não. Mande dizer à moça que ela deixe de ser

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boba, que vista o vestido dela nos passeios, que deixe de abusão, de doidice. Ora que isso
até me dá raiva...
JOANINHA - Virgem, meu senhor Dom Nonato! Deixe de brincadeiras que eu sei
que meu paizinho não guarda raiva de ninguém.
INÁCIA - Todo mundo daqui destas bandas tem o Senhor Bispo na conta de
Santo. E é verdade. Eu e dona Joaninha Mourão somos testemunhas, podemos jurar...
BISPO - Jurariam em vão, o que é um pecado. E eu não consentirei que se diga
tamanha tolice. Fiquem vocês sabendo que sou apenas um pastor de almas, mais
esclarecido que vocês, mas por isso mesmo, mais sujeito às tentações e à perdição.
Procuro, como vocês, a santidade, mas longe estou de alcançá-la.
JOANINHA - Virgem Maria, meu paizinho delira!
INÁCIA (gritando) - Dom Nonato! Dom Nonato!
BISPO - Que se afaste de mini mais esta tentação do Maldito... Sou um homem de
carne e osso, imperfeito, mortal imperfeito que procura separar o Bem do Mal. Estou
chegando ao fim e minha luta não tem sido fácil. A infecção intestinal, que me ia
levando, não foi uma prova da minha intemperança? Não resisti aos queijos do sertão e à
sua carne seca de sol... Ah, o úbere de uma novilha gorda... (sorri desalentado) - Agora
me vem mais esta provação. Não sou santo. Não faço milagres. Nunca fiz milagres.
INÁCIA - De que vamos viver então? Não nos diga isso, Dom Nonato...
JOANINHA - Nós não temos nada. E agora até os santos já se põem a tirar o corpo
de banda.
BISPO (sorrindo) - O corpo de banda... Sei que é difícil pregar a amor àqueles que
têm fome e sede de justiça. Não quero, porém, confundir os meus irmãos com falsas
aparências. Não se trata de abandono, senhora dona Joaninha, mas sou e serei sempre
contra os exploradores de milagres (levantando-se). - Esta, a lembrança que lhes deixo.
(Inácia e Joaninha levam o Bispo para a cama).
BISPO - Vou repousar um pouco até a hora da partida.
(O Bispo deita-se. Inácia o Joaninha baixam a cortina da cama. Voltam chorosas a
sentar-se nos seus lugares).
JOANINHA (assoando o nariz) - Coitadinho, tanta bondade...
INÁCIA - Tamanha humildade nunca se viu... Nem São Geraldo Magela!
JOANINHA - E ele se vai, e dele não nos vai ficar nenhuma lembrancinha.
INÁCIA - É verdade.
JOANINHA - Se ao menos estes rebuçados fossem presente dele para mim, e não
de mim para ele... Garanto, dona Inácia, que guardaria todos, não comeria um só...
INÁCIA - O mesmo lhe digo eu destes cravos que estou fazendo. Só que estas
flores ficariam para sempre, enquanto que os seus rebuçados melariam logo.

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JOANINHA - Podia ser que não. Não vê que a gente botando dentro da goma, e
lacrando bem a lata...
INÁCIA - É verdade, mas dele não nos vai ficar nenhuma lembrança. Se ao menos
nos sobrasse... Não, o que ele carrega é apenas o estritamente necessário
JOANINHA - Coitadinho, ele é mais pobre que rato de igreja, E ainda não quer que
a gente nem pense que ele é santo.
INÁCIA - É assim mesmo, dona Joaninha, todo santo é exagerado.
JOANINHA - Quando lavava a sua roupinha ficava dizendo de mim para mim: eu
pego e guardo, como lembrança dele, esta meia. Mas me vinha assim como uma coisa
que me dizia lá dentro - se você fica com a meia, o par ficará incompleto e se você guarda
os dois pés, o pobrezinho ficará sem o seu único par de meia. Ah, se pudesse, cortava
um pedacinho da meia. Mas dava no mesmo, dona Inácia. Uma meia ficava estragada
ou, no mínimo, remendada. E por isso não tive coragem de levar avante o meu plano.
INÁCIA - Eu também tenho pensado, pensado... E assim (olha para o alto) vai-se
um santo que esteve nas nossas mãos... E vai-se sem nos deixar recordação.
JOANINHA - Pensei em pedir a ele uma mechinha de cabelo. Mandava encastoar
e...
INÁCIA - Você tinha coragem de tosquiar o cortadinho?
JOANINHA - Não, não linha coragem. Mesmo, nem cabelo ele tem... Foi só
pensamento. Também me lembrei - Inácia - de uma coisa que podia ficar para mim, mas
que não é dele, é traste da casa de Coronel Paulino...
INÁCIA - Se não é dele não me interessa. Que me importa a riqueza do Coronel
Paulino?
JOANINHA - Porém o coronel não vai mais querer, porque já foi usado. E gente
rica é sempre cheia de baldas e laudas. Pensei naquele... Veja, tenho até acanhamento
de lhe dizer... Não é dele, mas foi usado por ele... e porque foi usado por ele, para mim, é
uma relíquia.
INÁCIA - Ora, fale, mulher.
JOANINHA - Pois em pensei em ficar com aquele vaso de louça que está lá debaixo
da cama...
INÁCIA - O quê? Ora, dona Joaninha, mas este pensamento já era o meu, de
muito tempo!
JOANINHA - Ah, dona Inácia...
INÁCIA - Tinha graça! Então eu lhe dou a honra de vir para cá, como minha
ajudante, e me quer a senhora carregar o vaso?
JOANINHA - Quem tira ele três, quatro vezes por dia?
INÁCIA - Não faz mais que a sua obrigação.

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JOANINHA - É, com você as coisas delicadas... Comigo é que há de ser no pesado?
INÁCIA - Já vi que a senhora não é a alma piedosa que aparentava ser, mas uma
interesseira. Quer o seu aluguel, não é?
JOANINHA (levantando-se) - Não tenho o vaso na conta de aluguel, Deus me livre!
Mas quem, senão eu, ia querer um traste usado? Ah, Inacinha, ele é meu!
INÁCIA (levantando-se) - É meu, já lhe disse. E vamos deixar de muita intimidade,
de muita confiança.
JOANINHA - Oxente, que negócio é este de confiança? (Põe-se de gatinhas, rumo à
cama do Bispo).
INÁCIA - Uma Joana Capão...
JOANINHA (levantando-se) - Senhora dona Inácia Ranheta, discuta se quiser, mas
não me chame de Capão que isto eu não agüento. Se quiser me ver doida, já já, repita o
diabo deste nome.
INÁCIA (sentando-se) - Ora, mulher, não vá acordar o senhor Bispo.
(Joaninha, em desafio, põe as mãos na cintura, respira fundo, dar alguns passos e
volta a se por de gatinhas, rumo à cama. Inácia levanta-se e também se põe de gatinhas,
ao lado de Joana. Esta apressa o andar e a outra segura-lhe a cintura).
JOANINHA - Me largue, mulher.
INÁCIA - O vaso é meu.
JOANINHA - É meu.
INÁCIA - É meu, conheça o seu lugar.
JOANINHA - Conheça o seu.
INÁCIA - Sua Capão.
JOANINHA - Capão é você, seu diabo.
INÁCIA - Fubana.
JOANINHA - Fubana é tu, jararaca velha.
INÁCIA grita - Capão, Capão!
(As duas se agarram, mas Joaninha segura o urinol, apesar dos esforços de
Inácia. O Bispo grita, abrindo o reposteiro da cama. Inácia e Joaninha saem atracadas,
pela porta da E).
BISPO - Socorro! Socorro!
(Ouve-se o barulho do urinol partido e logo depois aparecem, espantados, dois
Seminaristas).
1º. SEMINARISTA - O que foi? O que foi? Alguma lacraia?
2º. SEMINARISTA - O Senhor Bispo foi mordido?
(O 1º. Seminarista corre à mesinha, enche d’água um copo o leva-o ao Bispo).
1º. SEMINARISTA - Beba, beba, Senhor Bispo!

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2º. SEMINARISTA - O que foi, meu Senhor Bispo? Aonde foi, aonde foi?
1º. SEMINARISTA (gritando) - Dona Inácia Ranheta, dona Joaninha Mourão,
corram aqui!
2º. SEMINARISTA - Onde estão as senhoras? As senhoras?
BISPO (depois de beber a água). - Calma, meus meninos, calma... Foram
justamente elas...
1º. SEMINARISTA - Elas?
2º. SEMINARISIA - O que foi? Um atentado? Socorro!
BISPO - Não gritem... Elas... saíram engalfinhadas... com o vaso na mão...
1º. SEMINARISTA - O vaso? que vaso?
BISPO (apontando para baixo da cama) - O urinol...
1º. SEMINARISTA - O vaso? Ah, o vaso?
SEGUNDO SEMINARISTA - Gente, que diabo elas viram?
BISPO - Para mim iam virar tudo. A voz me faltou. Mal pude ver pela fresta da
cortina... lá elas se iam...
2º. SEMINARISTA - Gente mais estrompa!
BISPO (sorrindo desajeitado) - Dona Inácia... dona Joaninha... venham cá...
(O Bispo sai à procura de ambas, pela E. Os Seminaristas riem.)
VOZ DO BISPO - Ora, não foi nada. Venham. Venham se despedir de mim...
(O Bispo aparece trazendo as bandas do urinol partido).
BISPO - Minhas boas diocesanas... Se eu fosse o santo que me dizem ser,
prestaria agora, a vocês, a homenagem de um milagre porque lhes devoto um grande
bem... Foram os dois anjos exaltados de minha cura.
(Inácia e Joaninha aparecem, encabuladas. Inácio de véu na cabeça e Joaninha
com o braço escondendo o rosto. O Bispo junta as bandas do vaso, uma na outra,
tornando-o aparentemente perfeito).
BISPO (com o urinol na mão) - Vejam...
INÁCIA e JOANINHA (ajoelhando-se) - Milagre! Milagre!
BISPO - Não se exaltem, não se exaltem... Aqui está um objeto que não é nosso,
porém propriedade do coronel Paulino. De louça, mas certamente não é porcelana de
Sèvres. Se se tratasse de uma relíquia da Guerra do Paraguai, se tivesse servido a algum
Barão do Império... Não creio nas duas hipóteses. A louça me diz não ter mais de vinte
anos. Assim sendo não adianta levá-lo à Bahia para as mãos milagrosas de um “Ao Faz
Tudo”. Um vaso na sua função humilde apenas. (Ouve-se a buzina de um carro. Vozes
aclamam o Bispo).
BISPO - Levantem-se.
(Inácia e Joaninha se levantam. O Bispo separa as batidas do vaso).

240
INÁCIA e JOANINHA - Oh! Ai!
BISPO - Aqui está a sua parte, minha boa Inácia (entrega uma banda do urinol a
Inácia), e a sua, minha extremosa Joaninha (idem).
(Os Seminaristas apanham as flores de Inácia e os rebuçados de Joaninha, e se
afastam).
BISPO (aproximando-se da proscênio) - Ah, sertão grande e cinzento... Vila de São
Francisco do Icó.
(O Bispo abençoa o seu povo. E ouve-se a voz de um cantador:)
São Francisco de Icó
é terra de nossa inleição
hospedando o Senhor Bispo
tem toda sublimação
no trato tem dona Inácia
e tem Joaninha Mourão
Inácia mexendo o tacho
e Joaninha o caldeirão!

CORTINA

241
FIM DO VOLUME I

242

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