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Apocalipse de Lorvão

Índice

A Iluminura ................................................................................................................................... 4
Os Beatus ...................................................................................................................................... 6
O Apocalipse de Lorvão ................................................................................................................ 8
Mapa-Mundi ........................................................................................................................... 16
Visão do Cordeiro e dos Quatro Seres ................................................................................ 18
Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse .............................................................................. 19
A mulher no Sol e o Dragão .......................................................................................... 21
Bibliografia .................................................................................................................................. 24
Webgrafia ................................................................................................................................... 25

2
3
A Iluminura

A iluminura tem no período românico um lugar de destaque, pois o


homem sentia uma necessidade de explicar o texto pela imagem, levando-
o a criar uma arte que ganha importância com o aparecimento do códice.
Este começou a parecer por volta do séc. II d.C., mas só se instalou
definitivamente a partir do séc. IV. Existe então uma ligação muito estreita
entre o texto e a imagem, que pode ter uma função de
complementaridade ou de concorrência com o texto. A imagem serve de
intermediário visível para atingir o invisível, é uma técnica diferente de
apreensão do conhecimento. Apesar de tudo, a arte de decorar uma parte
num texto sobretudo nas iniciais vem já de mais longe, sendo que certos
afirmam ter sido usada já no Egipto faraónico. Mas a miniatura como
complemento da escrita, essa só começa a ser usada na Idade Média.

No início os textos eram simples pois


os livros tinham reduzida circulação.
À medida que aumentou a sua
procura, os copistas começaram a
requintar o seu trabalho. Aumentou-
se o tamanho e deu-se cor e enfeite
às letras iniciais, depois colocaram-se
outros ornatos nas margens das
páginas; e finalmente introduziram a
iluminura (ou miniatura). As imagens
e até as cores tinham uma
simbologia.

Deve-se sobretudo aos monges a produção destas obras, pois eram essas
comunidades que detinham a leitura e a escrita. As obras eram produzidas
nos Scriptorium, onde os monges se ocupavam da cópia do texto e da sua
iluminação. Eram sobretudo manuscritos de conteúdo religioso, com uma
dimensão sagrada, exercendo assim uma dimensão de revelação. O facto
de serem caras a produzir e de pedirem muito tempo fazia com que
fossem obras raras. A sua dimensão simbólica ajudava os monges menos
preparados e analfabetos a perceber a mensagem essencial do texto.
Apesar de tudo, o iluminador não trabalhava a sós pois o seu trabalho era
4
supervisionado pelo teólogo ou o abade, que lhe dava as indicações a
seguir.

Para a execução de um grande livro era preciso abater numerosos


animais, e por isso a sua produção está relacionada com a situação
económica dos mosteiros. Quanto maiores as posses dum mosteiro, maior
a possibilidade de terem uma bela biblioteca e um bom scriptorium.

A elaboração destes manuscritos pedia muito trabalho. Depois da


extracção da pele dos animais, e do seu tratamento até serem
constituídos bifólios, as páginas eram regradas com uma régua e as linhas
para a escrita eram traçadas. Depois era copiado o texto e eram pintadas
as iluminuras nos espaços deixados vazios para tal. A cópia do texto era
feita em duas fazes, já que havia a cópia do texto propriamente dito e a
tarefa do rubricador que passava certas partes do texto, como os títulos, a
vermelho. A iluminura podia ser tratada pelo mesmo monge que para o
texto. Primeiro era traçado o desenho e depois era pintado.

Para as cores tinham de ser preparadas as tintas a partir dos pigmentos.


Primeiro eram postas as cores pálidas e camadas mais vivas, para ir depois
para as cores mais fortes, os contornos a preto ou castanho-escuro, e no
final os detalhes nas folhagens e personagens, feitos com um pincel fino.
As cores predominantes eram o vermelho, o azul e o dourado. Quando
pronto, o livro era então encadernado, com capas especialmente cuidadas
pelo seu valor único e dispendioso.

Os livros não mereciam todos a mesma atenção. Os que eram para uso
litúrgico e Bíblias ocupavam um lugar de destaque, sendo bem acabados e
iluminados. Os livros gramaticais ou de leitura espiritual são mais
austeros, com menos ornamentos.

Nos manuscritos portugueses é visível a influência dos manuscritos


hispânicos moçárabes, por exemplo na variedade cromática.

Em Portugal encontravam-se três importantes scriptoria: Santa Cruz de


Coimbra, S. Mamede de Lorvão e Alcobaça.

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S. Mamede de Lorvão é o mais antigo, mas cujas origens ainda são
incertas. A partir do séc. XI segue a regra beneditina e é um mosteiro
próspero. A sua iluminura não apresenta sinais de homogeneidade.

Os beatus

No séc. VIII houve um monge denominado de Beatus de Liebana1 que


reuniu um conjunto de comentários ao Apocalipse de São João, e juntou-
os com o texto bíblico num manuscrito. Pensa-se que o terá feito devido
ao medo do final do tempo com a aproximação do ano 1000, ou ainda por
causa da invasão árabe. Outros historiadores, porém, afirmam que poderá
ter sido para combater o Adocionismo2.

Mais tarde, esse manuscrito foi copiado por outros monges, e esses
exemplares são denominados de Beatus. A sua produção é compreendida
entre os séculos VIII e XIII, e chegaram até nós cerca de 34, entre os quais
27 iluminados.

1
Sabe-se muito pouco acerca deste monge, de quem aliás nem se tem a certeza a que ordem
pertenceria. Morreu por volta do ano 798.
2
Teologia que surgiu no séc. II. Afirmava que Jesus era o filho adoptivo de Deus, e que por isso as
pessoas só deviam ser baptizadas na sua maior idade e com plena consciência do seu acto. Beatus de
Liebana é conhecido por ter sido um dos principais contra esta doutrina.

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Facundus Beatus, O dragão dá o seu poder ao diabo

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O Apocalipse de Lorvão

O Apocalipse de Lorvão, tal como o nome indica, vem do mosteiro de


Lorvão. Em conjunto com O Livro das Aves3 (do mesmo Scriptorium), são
os manuscritos mais ricos e criativos em imagens sagradas deste período,
com um programa iconográfico desenvolvido e coerente. Este mosteiro foi
provavelmente construído em finais do séc. IX, e ambos os manuscritos
são da época dos primeiros monges. O Comentário ao Apocalipse foi
copiado por Egeas em 1198, o que é atestado pela presença do seu nome
e data no cólofon, “Iam liber est scriptus / qui scripsit sit benedictus / qua
… / ERA MCCXIIa [1189] / Ego egeas qui hunc librum scribsi si in aliquibus /
a recto tramite exivi, delinquenti indulgeat / karitas que omnia superant.”
Peter Klein, um autor que se debruçou muito sobre os Beatus, afirma
haver um copista (Egeas) e mais dois iluminadores, já que encontra
diferenças na representação de rostos e na qualidade entre o texto e a
imagem; e Adelaide Miranda, historiadora da arte medieval, reforça
dizendo que o copista e o iluminador são diferentes, pois o iluminador
precisava de uma especialização artística que o copista normalmente não
tinha. Apesar de tudo, alguns afirmam serem um só o monge copista e o
iluminador.

Este manuscrito é formado por 223 fólios com cerca de 340x247 mm, e é
considerado um dos melhores iluminados, apesar de, mais uma vez, haver
controvérsias. Alguns autores como Wilhelm Neuss considerarem as
ilustrações extremamente primitivas e infantis. É constituído por 70
histórias cada uma com uma ilustração. Constitui o único exemplo em que
sistematicamente a imagem comenta o texto.

Nos anos 30, O historiador Wilhelm Neuss estabeleceu uma árvore


genealógica entre os diferentes manuscritos conservados, em relação às
semelhanças entre as imagens. Obteve assim uma àrvore que se dividia
em 2 ramos principais, sendo que o ramo II se divide em 2 outros ramos
importantes. O grupo mais próximo do manuscrito original é o ramo I,
onde também se encontra o Apocalipse de Lorvão. Um dos beatus mais
conhecidos, o de Osma, também se encontra nesse ramo.
3
Manuscrito de Lorvão, datado de 1184 e também do monge Egeas. É uma obra moralizante sobre as
aves.

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Aqui privilegia-se o desenho à imagem, para a qual não se recorre à
realidade. As composições são resolvidas de forma original, com as
personagens a flutuar num espaço indefinido por ser sagrado, com fundos
amarelos ou não pintados. O vermelho e o preto vão pontuando
pequenos espaços. O negro é uma cor ligada às forças do mal. As cores
encontram-se ainda em bom estado de conservação, tirando o caso do
laranja que se tornou num acastanhado. Apesar de a paleta de cores só se
restringir ao preto, laranja (que com o tempo se tornou mais acastanhado)
e amarelo, não significa que o scriptorium não tivesse recursos para uma
maior variação de cores. Outros manuscritos da época que chegaram até
nós desse scriptorium utilizam uma grande variação, e até lápis-lazúli, o
pigmento mais caro. E sabemos também através de documentos que
chegaram até nós, que recebia muitos donativos, e até do próprio rei.
Terá portanto sido uma opção do iluminador, se calhar para ter uma
estética de luz que começava a despertar no Ocidente.

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As molduras das imagens praticamente nunca são ultrapassadas. A forma
quadrangular (que por vezes pode ser substituído pelo rectângulo) é a
mais utilizada, pois pretende simbolizar todos os objectos que apesar de
partilharem da natureza divina encontram-se num plano sensível entre as
esferas divinas e temporal. Visto os seus lados serem iguais, tem uma
natureza perfeita, e é associada ao nº 4. Quanto a molduras circulares,
aparecem poucas, mas normalmente aparecem como representação dos
astros ou outros elementos luminosos ou de presença divina. O sol é um
elemento muito frequente neste manuscrito, representado normalmente
por um circulo luminoso. Encontra-se sobretudo associado à imagem de
Cristo, sol da salvação e da justiça, como na iluminura d’ ”A segunda vinda
de Cristo”, onde o vemos nas nuvens, brilhante, luminoso e aureolado. Ou
seja, visível por todos como o sol.

A segunda vinda de Jesus Cristo

“Eis que vem com as nuvens, e


todo o olho o verá, até os
mesmos que o traspassaram; e
todas as tribos da terra se
lamentarão sobre ele. Sim.
Amém. Eu sou o Alfa e o
Ômega, o princípio e o fim, diz
o Senhor, que é, e que era, e
que há de vir, o Todo-
Poderoso.” ( I, 7-8 )

Outro número simbólico é o nº


1, e encontra-se associado a
Deus. Este nunca se encontra
representado mais de uma vez
(nem sobre a forma da
Santíssima Trindade), para mostrar que é único, verdadeiro e o todo
poderoso, enquanto que outras personagens (como os apóstolos) podem

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aparecer repetidos. O único outro ser que aparece só uma vez é o dragão,
principal inimigo de Deus.

Cenas que resultam de observações quotidianas revelam um significado


mais profundo. É exemplo disso a representação das vindimas. Vemos
Cristo, coma coroa da vitória - disco duplo4-, que se prepara para ceifar a
seara seca envenenada pelo pecado, e que só é boa para alimentar o fogo.

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Este é um elemento que é apenas visível em beatus do ramo II, o que pressupõem um manuscrito de
ligação entre os dois ramos.

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Isto representa a destruição total da humanidade desobediente, que é
cortada pela foice da justiça. Ao lado, o anjo corta os cachos envenenados
e atira-os para o lagar onde depois são pisados. Em baixo, uma cena típica
da época, em que os vindimeiros vestem os trajes típicos e onde até Cristo
aparece de chapéu de palha.

Ceifa e Vindima (fl 172v)

“E olhei, e eis uma nuvem branca, e assentado sobre a nuvem um


semelhante ao Filho do homem, que tinha sobre a sua cabeça uma
coroa de ouro, e na sua mão uma foice aguda. E outro anjo saiu do
templo, clamando com grande voz ao que estava assentado sobre a
nuvem: Lança a tua foice, e sega (…) E saiu do templo, que está no
céu, outro anjo, o qual também tinha uma foice aguda. E saiu do altar
outro anjo, que tinha poder sobre o fogo, e clamou com grande voz ao
que tinha a foice aguda, dizendo: Lança a tua foice aguda, e vindima
os cachos da vinha da terra (…) E o lagar foi pisado fora da cidade, e
saiu sangue do lagar até aos freios dos cavalos, pelo espaço de mil e
seiscentos estádios.” ( XIV, 14-20 )

Específico deste manuscrito são certas iluminuras aqui introduzidas como


a figura de Cristo de braços abertos ou a figura de seta cravada no peito,
sendo que esta última é uma incógnita já que não tem paralelo em
nenhum dos outros Beatus e que não aparece mencionada nem no texto
bíblico nem no comentário.

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A paleta de cores é reduzida, limitando-se a preto, laranja, amarelo e
ocres diluídos em aguadas. Isso contrasta com as cores luminosas, fortes e
opacas dos primeiros beatus. A cópia terá sido feita a partir dum
manuscrito mais antigo que poderá ter sido o próprio de Beatus de
Liebana, devido a semelhanças iconográficas. A época moçárabe está
presente nas arquitecturas de arco ultrapassado, assim como na figura
ameaçadora do dragão. A representação de Cristo adolescente reenvia-
nos para uma tradição de raízes no mundo paleocristão, e é também um
ponto em comum com o Livro das Aves. Predominam nas páginas os
motivos ornamentais e apresenta influências da iluminura francesa.

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É o único manuscrito desta época em que predomina o carácter
narrativo/simbólico e onde a representação humana ocupa um lugar de
destaque. A composição é especialmente criativa, e o texto serve de
margem à imagem. As personagens são alongadas e delicadas, a linha tem
um sentido ornamental que lembra a iluminura francesa dessa época, ou
até personagens que se podem ver nos pórticos das igrejas de
peregrinação. Apesar do artista não ser de grande qualidade, pelo facto
como resolve pormenores anatómicos do corpo humano, verifica-se uma
observação atenta do mundo que o rodeava, um traço firme, uma

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narrativa expressiva e, acima de tudo, o enquadramento do artista no
tempo e no espaço.

Os animais têm um tratamento particularmente cuidado, sobretudo o


cavalo e o dragão. Este pode surgir de forma ameaçadora, como acontece
nas ilustrações moçárabes, ou então como figura delicada capaz de
executar as intenções que lhe estão confiadas.

Alexandre Herculano diz sobre este manuscrito: “O valor deste códice está
principalmente nas suas bárbaras iluminuras, onde se encontram muitos
espécimenes autênticos de trajos, alfaias, arquitectura do séc. XII, raros
em Portugal.” Foi ele quem depositou o manuscrito na Torre do Tombo,
depois de o ter pedido às freiras de Lorvão.

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Mapa-mundi

No caso do Apocalipse de Lorvão só sobrou metade do mapa-múndi. Este


tem a forma dos primeiros mapa-múndi dos beatus, muito semelhante a
do beatus de Osma. Estas cartas são muito conhecidas, e até consideradas
como a base da cartografia da Idade Média. Podem-se ver os vários
continentes divididos pelos mares, assim como uma representação no
topo do Paraíso. No mapa distinguem-se as cabeças dos apóstolos que
identificam as áreas das suas missões. Noutra zona lê-se: “Esta região por
causa do calor do sol não nos é conhecida. E é conhecida por ser habitada
pelos Sciapodes. Eles têm uma perna e são extremamente rápidos. O
gregos chamam-nos de Sciapodes porque durante o Verão, caindo nas
suas costas, eles protegem-se do sol com o seu enorme pé.”5. Representa
a zona Antípodes, as terras desconhecidas. Nestes mapas, era prestada
mais atenção para as terras cristianizadas e menos para as terras
desconhecidas. Em volta da terra, o mar com algumas ilhas.

Beatus de Osma, séc. XI

5
Ad est regio solis ardore incognita nobis et inhabitabilis antipodes habitare ibi dicelltur I homines
pedem atum habentes. de quo pede umbra sibi ad calorem adhibetur

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O contexto histórico e as tradições artísticas marcam as ilustrações. São
exemplo disso algumas das iluminuras deste manuscrito, como a dos
quatro cavaleiros do Apocalipse e a representação do Cordeiro .

Visão do Cordeiro e dos quatro seres

“E havia diante do trono um como mar de vidro, semelhante ao cristal. E


no meio do trono, e ao redor do trono, quatro animais cheios de olhos, por
diante e por detrás. E o primeiro animal era semelhante a um leão, e o
segundo animal semelhante a um bezerro, e tinha o terceiro animal o
rosto como de homem, e o quarto animal era semelhante a uma águia
voando. (…) E olhei, e eis que estava no meio do trono e dos quatro
animais viventes e entre os anciãos um Cordeiro, como havendo sido
morto, e tinha sete pontas e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus
enviados a toda a terra. (…) E olhei, e ouvi a voz de muitos anjos ao redor
do trono, e dos animais, e dos anciãos; e era o número deles milhões de
milhões, e milhares de milhares, Que com grande voz diziam: Digno é o
Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e
força, e honra, e glória, e ações de graças.” ( IV, 6-V, 12 )

O Cordeiro que suporta a cruz é uma representação muito presente na


arte portuguesa e que se vê muito nas igrejas românicas. Neste
manuscrito é representado como um Cordeiro adulto, com os chifres
recurvados. Apesar do Cordeiro ser pequeno, o facto da composição
geométrica o colocar no centro, faz-lo dominar a imagem. Os quatro seres
representam os quatro evangelistas6. É uma das raras iluminuras onde
aparece um enquadramento circular, que serve para evidenciar o seu
carácterb cósmico, divino e transcendente, cortando assim com a
dimensão humana.

6
Mateus, representado como um anjo; Marcos, representado como um leão; Lucas, representado por
um touro; e João, representado por uma águia.

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Os quatro cavaleiros do Apocalipse

“E, havendo o Cordeiro aberto um dos selos, olhei, e ouvi um dos quatro
animais, que dizia como em voz de trovão: Vem, e vê. E olhei, e eis um
cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele tinha um arco; e foi-lhe
dada uma coroa, e saiu vitorioso, e para vencer. E, havendo aberto o
segundo selo, ouvi o segundo animal, dizendo: Vem, e vê. E saiu outro
cavalo, vermelho; e ao que estava assentado sobre ele foi dado que tirasse
a paz da terra, e que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma

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grande espada. E, havendo aberto
o terceiro selo, ouvi dizer o
terceiro animal: Vem, e vê. E olhei,
e eis um cavalo preto e o que
sobre ele estava assentado tinha
uma balança em sua mão.
(…) E, havendo aberto o quarto
selo, ouvi a voz do quarto animal,
que dizia: Vem, e vê. E olhei, e eis
um cavalo amarelo, e o que estava
assentado sobre ele tinha por
nome Morte; e o inferno o seguia;
e foi-lhes dado poder para matar a
quarta parte da terra, com
espada, e com fome, e com peste,
e com as feras da terra.” ( VI, 1-8 )

Certos autores mostravam como


erros diferenças iconográficas
existentes entre este beatus e
outros manuscritos. Mas se
tivermos em conta o contexto
histórico da época, com as
invasões árabes, pode-se
compreender a substituição da
balança pela espada para
representar a justiça, e da espada
do último cavaleiro por uma cruz,
que vêm acentuar a ideia de
salvação por parte do cavaleiro
cristão. Na altura, os quatro
cavaleiros começaram a ser associados à destruição, mas para Beatus o
cavaleiro branco significava a conquista da palavra de Deus.

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A Mulher no Sol e o Dragão

“E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua
debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça.
(…) E viu-se outro sinal no céu; e eis que era um grande dragão vermelho,
que tinha sete cabeças e dez chifres, (…) E a sua cauda levou após si a
terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra; (…) E deu à luz
um filho homem que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o
seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono.(…) E houve batalha
no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam
o dragão e os seus anjos; (...). E foi precipitado o grande dragão, a antiga
serpente, chamada o Diabo, e Satanás, (…) E, quando o dragão viu que
fora lançado na terra, perseguiu a mulher que dera à luz o filho homem.
(…) E a serpente lançou da sua boca, atrás da mulher, água como um rio,
para que pela corrente a fizesse arrebatar.” ( XII, 1-15 )

Nesta iluminura vemos o dragão que arrasta parte das estrelas do céu
com a cauda. Da boca parece sair fogo, mas na verdade é um rio de àgua,
e que lança sobre a mulher, que representa a Igreja. Temos aqui o recurso
à forma circular, com aos seus pés a Lua, e na cabeça tem uma coroa de 7
estrelas (quando no texto aparecem 12) e que representam as 7 Igrejas. A
sua posição frontal é própria das divindades, enquanto que o dragão se
encontra de perfil, posição própria das figuras demoniacas. As mãos sobre
o peito representam a incapacidade da mulher de se defender perante o
ataque do dragão, que a quer matar a si e ao filho que vai nascer. Mas a
criança é salva pela intervenção divina, que a leva para o alto,
representado na direita em cima. Em baixo, vemos o demónio
acorrentado (perceptivel pelo seu cabelo encaracolado, próprio das
figuras maléficas), com as cabeças dos outros filhos da mulher sob quem
ele já se vingou. O demónio representa o desregramento, pois invade a
esfera superior onde se encontra a mulher e que rfepresenta o espaço
celestial. Ou seja, é a invasão de algo terreno no celestial.

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Bibliografia:

VVAA, A Imagem do Tempo, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian,


2000.

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------------- Iluminura Medieval, Apocalipse do Lorvão e Livro das Aves.

MIRANDA, Maria Adelaide; SILVA, José Custódio Vieira da, História da Arte
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http://digitarq.dgarq.gov.pt/details?id=4381091, consultado em 8 de
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# 207 THE BEATUS MAPS, extraído de http://cartographic-


images.net/Cartographic_Images/207_Beatus.html, consultado em 15 de
novembro de 2014.

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