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Um Estudo Sobre a Psicologia Infantil

Brasília-DF.
Elaboração

Cesar Augusto Leitão

Produção

Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração


Sumário

APRESENTAÇÃO.................................................................................................................................. 4

ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA..................................................................... 5

INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 7

UNIDADE I
PSICOLOGIA INFANTIL E SEU VASTO UNIVERSO........................................................................................ 9

CAPÍTULO 1
PSICOLOGIA INFANTIL............................................................................................................... 9

UNIDADE II
JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO........................................ 23

CAPÍTULO 1
JOGOS................................................................................................................................... 23

UNIDADE III
O DESENHO INFANTIL........................................................................................................................... 70

CAPÍTULO 1
DESENHO INFANTIL: O OLHAR DA ARTETERAPIA........................................................................ 70

UNIDADE IV
SONHOS DE CRIANÇAS........................................................................................................................ 76

CAPÍTULO 1
SONHOS DE CRIANÇAS.......................................................................................................... 76

PARA (NÃO) FINALIZAR...................................................................................................................... 96

REFERÊNCIAS................................................................................................................................... 97
Apresentação

Caro aluno

A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se


entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade.
Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela
interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da
Educação a Distância – EaD.

Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos


conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da
área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que
busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica
impõe ao mundo contemporâneo.

Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo


a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na
profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira.

Conselho Editorial

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Organização do Caderno
de Estudos e Pesquisa

Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em


capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos
básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar
sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta, para
aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares.

A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de
Estudos e Pesquisa.

Provocação

Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes
mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor
conteudista.

Para refletir

Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita
sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante
que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As
reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões.

Sugestão de estudo complementar

Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo,


discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso.

Praticando

Sugestão de atividades, no decorrer das leituras, com o objetivo didático de fortalecer


o processo de aprendizagem do aluno.

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Atenção

Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a


síntese/conclusão do assunto abordado.

Saiba mais

Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões


sobre o assunto abordado.

Sintetizando

Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o


entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos.

Para (não) finalizar

Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem


ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado.

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Introdução
A psicologia infantil comporta várias abordagens. De acordo com o espírito da psicologia
freudiana, este Caderno de Estudos e Pesquisa poderia ter um ponto de vista puramente
hedonístico, em que o processo psíquico seria interpretado como um movimento
determinado pelo princípio do prazer. Os motivos seriam então, o desejo e a busca
daquela atuação da fantasia que proporcionasse o maior prazer e satisfação possíveis.

Se por outra abordagem, o mesmo material poderia ser visto à luz do princípio do poder,
que vem a ser uma maneira tão válida em psicologia como o princípio do prazer. Ou, de
uma forma mais lógica, acompanhar o desenvolvimento do processo lógico na criança.

Após esta breve introdução, esperamos que o conhecimento embutido neste Caderno
de Estudos e Pesquisa seja útil para todas as outras disciplinas relacionadas a esta e
esperamos que você venha a contribuir com sua participação, com opiniões, práticas
e vivências em diferentes âmbitos, pessoal e profissional, seja em qual área atue, e
contribuir neste processo de ensino-aprendizagem.

Objetivos
»» Apresentar trechos da obra de Jung sobre o desenvolvimento da
personalidade.

»» Conhecer alguns dos conflitos que apresentam a alma infantil.

»» Disponibilizar vários jogos utilizados no desenvolvimento infantil.

»» Compreender como a criança se comunica por meio de seus desenhos.

»» Conhecer o método de Jung para a interpretação dos sonhos infantis.

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PSICOLOGIA INFANTIL E UNIDADE I
SEU VASTO UNIVERSO

CAPÍTULO 1
Psicologia infantil

Psicologia infantil
A Psicologia é uma ciência que trata do ser humano numa perspectiva biopsicossocial
ao interagir com várias áreas do saber e práticas sociais.

A psicologia infantil é o estudo do comportamento infantil, do nascimento à adolescência,


incluindo características físicas, motoras, cognitivas, emocionais, sociais, entre
outras. Em outras palavras, como se comportam e porque se comportam desta ou
daquela maneira. Partindo dessa premissa, os psicólogos infantis utilizam os métodos
para prever e resolver os problemas na saúde mental das crianças. Os estudos
apontam que os pais exercem bastante influência sobre o comportamento dos filhos.
Desde o nascimento, existem condições que irão mudar a personalidade de uma pessoa.
Por exemplo, o comportamento. Nessa fase a criança apresenta comportamento
próprio, um jeito particular de ser e, com o seu crescimento e o aprendizado, essas
características iniciais serão influenciadas pelo ambiente em que vive e, os pais serão o
modelo a ser observado e aprendido.

Tem seu foco em duas variáveis que podem vir a incidir no desenvolvimento da criança:
o fator ambiental, como a influência dos seus pais ou dos seus amigos, e o fator biológico,
determinado pela genética.

No que diz respeito às suas principais teorias, a psicologia infantil baseia-se na descrição
da personalidade e na percepção desenvolvida pelo Austríaco Sigmund Freud e nos
conceitos do saber cognitivo propostos pelo Suíço Jean Piaget.

Para a teoria freudiana, o desenvolvimento de uma personalidade sã é imprescindível


para satisfazer as necessidades instintivas da criança. Freud afirma que as três etapas

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UNIDADE I │ PSICOLOGIA INFANTIL E SEU VASTO UNIVERSO

estruturais da personalidade são o “id” (a fonte de todos os instintos), o superego


(representa as regras sociais e morais) e o ego (a fase intermédia entre o “id” e o superego).

Piaget, por sua vez, concentra-se no conhecimento inato da criança, que aparece desde
o nascimento e que permite a aprendizagem sem necessidade de recorrer a estímulos
externos.

Os transtornos psicológicos mais comuns nas crianças são aqueles que estão
relacionados com o sono, os temores noturnos, os medos em geral, a alimentação, a
atividade (agitação excessiva, tiques) e a linguagem (gaguejo, afasia e outros).

O desenvolvimento da personalidade
(Seminários de Jung)

Conflitos da alma infantil

Jung (AMARAL, 2013. p. 17), em determinado momento, recebeu diversas colocações


apresentadas por um pai, conhecedor de psicanálise, cujo foco era sua filha. Sobre a
menina, consta o fato de ser alguém sadio e bem-disposto, de índole temperamental.
Não sofreu de quaisquer doenças graves e, nada foi evidenciado cuja consequência
poderia advir do sistema nervoso.

Por volta dos três anos de idade, desenvolve-se entre esta e sua avó, um diálogo onde a
criança questiona a razão dos olhos murchos da idosa que, lhe responde ser por causa
da velhice. Em retorno, a primeira indaga se a outra ficará jovem novamente. Não diz
esta, você sabe que envelhecerei mais ainda até a minha morte. A menina complementa:
e depois? Depois, me torno um anjo, diz a avó. E depois ainda, você vai ser de novo,
uma criancinha?

A menina procura dar solução a um problema que a acompanha: ela gostaria de ter
uma boneca “viva”. Além disso, perguntas sobre a origem dos bebês se sucediam sem
despertar a atenção dos pais para algo mais do que mera curiosidade infantil. Em algum
momento, estes passaram a estória sobre cegonhas trazendo bebês. No entanto, a
criança já conhecia outra explicação para o caso: crianças são anjos e moram no céu,
até que sejam trazidas pela cegonha.

Desta forma, juntando as informações obtidas, a menina consegue solucionar o


problema da morte e da origem dos bebês. Sua inferência é a de que morremos, viramos
anjos e reaparecemos como crianças. Vê-se um paralelo com a estória de “Joãozinho”
(Freud), onde o âmago da questão aparece com o nascimento da irmã e, neste caso,

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PSICOLOGIA INFANTIL E SEU VASTO UNIVERSO │ UNIDADE I

nossa menina “ganha” um irmão aos quatro anos de idade. Em princípio, a criança não
teria percebido a gravidez da mãe, mas na véspera do parto, o pai lhe pergunta o que
acha da ideia de ter um irmão. Sua resposta foi – eu mataria ele. Não se entenda aí,
o sentido real da palavra matar, pois para a mente infantil ela significa afastamento,
como Freud já o demonstrara.

Após ter sido informada do nascimento do irmão, a menina, em presença da mãe e do


menino, não manifestou quaisquer sinais de alegria com o fato e nem houve aproximação
com a mãe senão, posteriormente, ao encontrá-la só, enlaçou a mãe pelo pescoço e
perguntou: não devias morrer agora?

Fica então, evidenciado, parte do conflito existente. Não houve uma total adesão à ideia
da cegonha, mas sim à da encarnação, onde se torna necessária a morte de alguém
para o nascimento de outro. No entanto, a mãe não morreu e a criança nasceu e então,
como explicar esse nascimento ou, por extensão, todos? Há um retorno à teoria da
cegonha, mas uma explicação permanece oculta aos pais, pois a criança encontrar-se,
por algumas semanas, na casa da avó.

Lá, as conversas sobre o tema cegonha retornaram. Como explicar o pressuposto de


que as crianças venham a interessar-se por tais? A resposta encontra-se na evidência
de terem elas muito interesse nos acontecimentos que as rodeiam e os sentidos podem
percebê-los. Os infindáveis e seguidos “por quê?” a respeito de tudo e todos são a
representação mais evidente deste interesse. Voltando a menina para a casa dos pais, o
comportamento observado no dia do nascimento do irmão se repete, o acanhamento e
desconfiança na presença da mãe e, embora significativo aos pais tal comportamento,
estes não conseguem interpretá-lo. Em relação ao bebê, o comportamento era normal.

A chegada de uma freira, como ama-seca teve grande impacto na menina por conta
de sua vestimenta e a menina lhe opunha feroz resistência. Não permitia que esta
lhe colocasse a roupa para dormir e nem que a conduzisse à cama. O motivo dessa
resistência esclareceu-se posteriormente quando, junto ao irmão, esta gritou para a ama
que o irmãozinho era dela e não da outra. Passada a fase de resistência à ama, a menina
passou a demonstrar ares de tristeza, sentava-se embaixo da mesa onde cantarolava e
rimar histórias em torno do tema “ama”.

Percebe-se então, a existência de divagações, tentativas de poesia, acessos de tristeza,


coisas que seriam encontradas na adolescência, onde o desejo de viver a própria vida,
afastando-se do lar paterno. É a época em que se cria na imaginação aquilo do que se
sente falta, por compensação. As divagações tristonhas explicitam que uma parte do
amor, antes pertencente a um objeto real se introverteu, voltou para o próprio sujeito
produzindo um aumento da atividade imaginativa. Como explicar essa introversão?

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UNIDADE I │ PSICOLOGIA INFANTIL E SEU VASTO UNIVERSO

A menina passa a mostrar-se teimosa e desobedecendo à mãe e diz que voltará para a
casa da avó. A mãe retruca que ficará triste se ela o fizer e esta, responde que a mãe já
tem o irmão. Escondia-se nestes procedimentos, a intenção infantil de saber o que a
mãe pretendia com ela se o irmão já a havia desbancado de seu afeto.

A menina podia ver e sentir que não houve tal subtração com a existência do irmão, é
uma acusação injustificada e já seria suficiente para que alguém experiente identificasse
o tom afetado. Tais entonações são comuns também em adultos, onde não se espera
que seja considerada e por este motivo, torna-se recorrente. A mãe, não carece de levar
a sério a acusação, pois esta é precursora de outras que irão advir, e mais fortes.

Segue-se uma cena posterior:

»» Mãe: “Escuta, vamos agora até o jardim”.

»» Menina: “Estás mentindo, toma cuidado se não disseres a verdade”.

»» Mãe: “Que ideia é essa? Eu estou dizendo a verdade”.

»» Menina: “Não! Não estás dizendo a verdade”.

»» Mãe: “Já vais ver que estou dizendo a verdade; agora vamos ao jardim”.

»» Menina: “Será verdade? Será mesmo verdade? Não estás mesmo mentindo?

Tais acontecimentos se repetiram, com mais entonação e insistência, com ênfase na


palavra “mentir”. Mais uma vez, os pais não atentaram que poderia haver nisso um
significado importante, restringindo-se ao que consideravam ser obrigação fazer com
relação à educação. É comum não se dar valor ao que as crianças dizem nas diversas
fases de idade por as considerarem, ainda, irresponsáveis às coisas essenciais.
As resistências sempre escondem um problema, um conflito.

Apresenta-se nova cena:

»» Menina: “Eu gostaria de ser ama-seca quando for grande”.

»» Mãe: “Eu também queria quando criança”.

»» Menina: “E por que não foi?”

»» Mãe: “Porque me tornei mãe e já tenho filhos para cuidar”.

»» Menina (pensativa): “Será que vou ser uma mulher diferente de ti? Será
que vou morar em outro lugar? Será que ainda vou conversar contigo?”

Na verdade, a menina queria também um bebê para cuidar, assim com a mãe e
como a ama-seca. No entanto, como a mãe tinha um bebê sem haver sido ama-seca?
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PSICOLOGIA INFANTIL E SEU VASTO UNIVERSO │ UNIDADE I

De certo, ela também poderia ter um bebê, mas como seria? Como se tornaria igual à
mãe quanto ao modo de ter um bebê. Explica-se então a pergunta “Será que eu vou ser
uma mulher diferente de ti? “ Pois, se a teoria da cegonha é falha, morrer também não,
logo a maneira de se ter um bebê é sendo ama-seca. Mas a mãe tem um é não é? De que
forma o obteve? Veja que existe a intenção de se obter uma resposta fazendo perguntas
indiretas evitando a maneira direta que seria como ela conseguiu o bebê.

A menina encontra-se com um problema: afinal, de onde vêm os bebês? A cegonha não
trouxe, a mãe não morreu e não o ganhou da mesma forma que a ama-seca. Resumo, o
pai mente, a mãe mente e todos mentem, daí as acusações contra a mãe e desconfiança
por ocasião do parto. E, por esta razão, deles é que havia sido retirado o amor, por
esta razão a resistência contra a mãe, ou melhor, contra a resistência da mãe que lhe
ocultava, talvez por ser algo obscuro ou perigoso, a explicação sobre o aparecimento
de bebês.

Supõe-se ser muito pouco desenvolvido, em uma criança de quatro anos, a capacidade
de sublimação, mas esta irá se manifestar como gritos noturnos, chamados pela mãe,
como forma de compensação, para forçar o amor, que retornam após terem sido
utilizados nos primeiros anos de vida.

Por essa época, houve uma catástrofe que foi comentada na presença da menina, que
despertou seu interesse e que a fazia pedir, repetidas vezes, que se contassem os fatos.
Marca do aparecimento do medo durante as noites. Já não ficava mais sozinha, a mãe
precisava estar com ela para que a catástrofe não se repetisse em sua casa. E este temor
a acompanhava mesmo durante o dia, assim como as perguntas sobre a possibilidade
da casa não existir quando voltassem, se o pai estaria vivo.

Este medo virá a se transformar, pelo mesmo mecanismo de sublimação, em desejo


da ciência. E as perguntas continuam: por que a irmã menor é mais nova do que ela?
Onde estava antes meu irmão? Se estava no céu, o que fazia lá? Por que só desceu
agora e não antes?

Percebendo a situação, o pai pede à mãe que explique à menina a verdade sobre os
nascimentos. Voltando a ser indagada sobre a questão, a mãe conta que a estória da
cegonha é falsa e que o irmão foi crescendo em sua barriga. Mas, ele saiu sozinho?
Sim. Mas ele não sabe andar. Ora, saiu engatinhando, responde a irmã.

Tal resposta é ignorada pela menina que, apontando o seio da mãe questiona:
Haverá ali algum buraco? Ou ele terá saído pela boca? Quem terá saído da ama-seca?
E, interrompendo-se: “já sei, a cegonha buscou o irmão no céu”. E sem esperar por uma
resposta da mãe, atira-se a outra atividade.

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UNIDADE I │ PSICOLOGIA INFANTIL E SEU VASTO UNIVERSO

Por que a menina não procurou a explicação nas aberturas inferiores naturais do corpo
por onde continuamente, saem coisas? Por que procurar possibilidades absurdas como
buraco no peito ou saída pela boca? Explica-se pelas experiências que esta obteve, à
época em que questionava a mãe, sobre tais aberturas e os seus produtos, independente
do interesse sobre higiene ou boa educação e, percebeu que era assunto sensível, algum
tabu existente sobre a questão. Assim, tais aberturas estavam fora de cogitação para
quaisquer assuntos.

E assim, a pequena se acomodou e (pelo que ela mesma disse), somente em último
lugar pensou na coisa mais simples. Teorias erradas colocadas em substituição às
verdadeiras tendem a manterem-se indefinidamente até que, externamente, apareça,
repentinamente, um esclarecimento. O resultado é que, posteriormente, essas teorias
colocadas e desenvolvidas por pais e educadores venham a se mostrar como fonte de
sintomas na neurose ou, até mesmo, de delírios na psicose.

Embora não ainda esgotado o assunto “por onde saem os bebês”, apresenta-se novo
problema: da mãe saem filhos, mas como acontece com a ama-seca? Saiu alguém dela,
também? A seguir, mudança de rumo: Não, pois a cegonha buscou o irmão no céu.
A importância deste questionamento tem impacto pelo desejo anterior da menina de ser
ama-seca e quer também um bebê. No entanto, se o irmão cresceu na barriga da mãe,
como resolver a questão?

Outra questão que é abandonada em benefício de outra já antiga; a teoria da


cegonha-anjo que é também descartada, mas deixando perguntas ainda em suspenso:
por onde sai o bebê? Como a mãe tem filhos se a ama-seca e os demais serviçais não os têm?

A menina surge com uma declaração nova, sem qualquer conexão com algo: “meu
irmão está na Itália e tem uma casa feita de pano de vidro e essa casa não pode cair”.
Há tempos, as duas meninas vinham fantasiando a existência de um irmão crescido,
um para cada uma, que tudo sabe, que tudo pode, que tudo tem. Este já esteve em
diversos lugares onde elas não foram e ainda está lá.

Verifica-se aí, que a fonte de tal fantasia é o pai, que se assemelha a um irmão da mãe
e, que cria a necessidade de ambas também tenham um. Esta figura poderosa vive no
lugar onde ocorreu a catástrofe, mora em casa que não pode desmoronar e assim, cria-se
para a menina um desejo significativo: a catástrofe deixou de representar um perigo.
O medo e a fobia realmente desaparecem. Já não chama mais o pai, à noite, para que
este espante seus medos.

Os dias da criança são agora preenchidos em verificar mais acuradamente como


o irmão cresceu dentro da mãe, após ela e a irmã, o pai dentro da mãe dele e assim

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PSICOLOGIA INFANTIL E SEU VASTO UNIVERSO │ UNIDADE I

sucessivamente até as empregadas. Sua desconfiança carecia de confirmações para


essas dúvidas.

Algum tempo depois, um evento vem a perturbar a menina. Encontra-se o pai gripado
na cama quando esta o encontra, coisa a qual não está acostumada. Espanta-se e
mantém distância da cama, sentindo-se intimidada e desconfiada. Explode em uma
pergunta: Por que estás de cama? Tens também uma planta na barriga? O pai rindo,
explica que ter bebês é apenas para mulheres, homens não podem. A criança parece
aceitar a explicação, mas internamente, os problemas se avolumam. Em outra ocasião,
mais adiante, uma nova colocação: “Esta noite sonhei com a arca de Noé”. O pai a
questiona a respeito do sonho, mas esta esquivou-se, respondendo bobagens. A menina
retorna: “Esta noite sonhei com a arca de Noé, e que lá dentro havia muitos bichinhos”.
Após nova pausa: Esta noite sonhei com a arca de Noé, e que lá dentro havia muitos
bichinhos, e que a tampa se abriu, e que os bichinhos caíram todos para fora”.

De forma sutil, se faz no sonho referência ao problema: o nascimento pela boca ou pelo
peito não está certa, já se entrevendo como se dá – é por baixo que sai. As crianças
tinham mesmo uma arca de brinquedo, apenas a abertura ficava no telhado e não na
parte de baixo.

Por várias semanas nada ocorreu que justificasse atenção até a ocorrência de novo sonho:
“Sonhei com papai e mamãe, e que eles ficaram muito tempo ainda na sala de trabalho
do pai, e que nós, crianças, também estávamos lá”. Examinado superficialmente, nas
entrelinhas encontrar-se-á apenas, o desejo natural das crianças de ficarem acordadas
ao mesmo tempo que os pais. No entanto, neste caso, este desejo mascara outro que é o
de estar presente quando os pais se juntam à noite.

A sala de trabalho é o local onde é possível encontrar resposta para o problema “de
onde veio o irmão”, onde existem os livros já vistos pela menina e onde aplacou sua
necessidade de saber.

Em episódio posterior, a menina acorda aos gritos de que o terremoto está chegando, a
casa está tremendo e é acalmada pela mãe. Continuando, em tom insistente, a menina
diz: “sabe, eu queria agora ver a primavera, como brotam todas as florezinhas, e como
a campina fica toda coberta de flores – eu queria ver também meu irmão, pois ele
tem uma carinha tão querida – que está fazendo papai? – que é que ele está dizendo?
É informada pela mãe que “ele” está dormindo e não está dizendo nada. A menina
acrescenta, com ironia: “Certamente, ele amanhã vai estar doente outra vez!”.

Se lido de trás para frente, a ironia pode ser desconsiderada, mas a mãe pode ter um
bebê (o pai ainda que “doente” não o pode fazer). Mas de onde ela pode ter um bebê?

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UNIDADE I │ PSICOLOGIA INFANTIL E SEU VASTO UNIVERSO

Qual o papel do pai, se não pode ter bebês? Ela precisa saber como o irmão veio ao mundo,
precisa ter seus problemas esclarecidos. Questionada pela mãe, na manhã seguinte,
sobre a noite anterior, a menina havia esquecido tudo e achava que tinha sonhado:
“Eu sonhei que podia fazer o verão, e então alguém jogou um boneco Gasparzinho
no sanitário”.

Apresentam-se mais de um cenário para este sonho permeados pela partícula “então”.
O primeiro cenário é uma variante do segundo: fazer o verão sucede-se a ver a primavera
ou florezinhas brotarem, ou seja, fazer as florezinhas brotarem, fazer um bebê.
O segundo cenário, aponta para a dinâmica do ato: é bem como se faz para evacuar (cair
no vaso – assim deve sair o bebê).

A visita de uma mulher grávida é motivo de uma nova brincadeira para as meninas:
apanharam jornais velhos e os colocaram por baixo das roupas. A noite seguinte traz
novo sonho: “Eu sonhei com uma mulher da cidade, e que ela tinha a barriga muito
grande”. A personagem central do sonho é sempre aquele que sonha, dissimulado sob
outra aparência.

Dias após, a menina surpreende a mãe com nova apresentação: havia enfiado uma
boneca por baixo do vestido e agora a retirava, lentamente, de cabeça para baixo, e
completava “olha! O bebê está saindo agora e, já acabou de sair todinho”. Oculta, estava
a pergunta para a mãe: É assim que imagino que seja, o que tens a dizer? Está certo?”.
Nota-se que uma confirmação ainda se faz necessária.

E seguidos acontecimentos demonstraram que a questão se encontrava, ainda, em aberto.


A mesma encenação foi repetida utilizando um ursinho. Em outra oportunidade, com
a avó: “Estás vendo, a rosa vai ter um bebê”. Esta não entendeu a referência até que a
menina mostrou o cálice um pouco intumescido: “Estás vendo, aqui já está bem grosso”.

Em outra ocasião, estavam à mesa, a menina pediu uma laranja que segundo ela, seria
engolida inteira até chegar a barriga e depois, ela teria um bebê. A questão agora era a
solução do problema de como os bebês entram na barriga da mãe. Uma nova forma de
questionamento.

A questão de como o bebê entra no corpo da mãe é de difícil solução. A via normal
para a entrada de tudo no corpo é a oral, logo a mãe deve ter ingerido algo que
posteriormente cresceu em seu corpo. Mas uma dificuldade ainda maior se apresenta:
já se sabe o que é produzido pela mãe, mas não a função do pai. Tem-se uma velha regra
de tornar independentes duas coisas desconhecidas esperando-se que ao se conhecer
uma, se solucione a outra. A menina estava convicta de que o pai tinha que ter alguma
participação em tudo isso, seja qual fosse ela. Mas, qual seria essa participação?

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PSICOLOGIA INFANTIL E SEU VASTO UNIVERSO │ UNIDADE I

Certa manhã, esta entra correndo no quarto onde estão os pais e, pulando na cama,
deita-se de bruços, põem-se a bater as pernas e diz: “Não é assim que o papai faz?”.
Sem saber o que responder, apenas sorriem para a menina. Posteriormente, se deram
conta do significado da representação da menina. E assim, as coisas pareciam haver
se acomodado.

E assim foi pelos próximos cinco meses, nada havia sido notado de significativo no
comportamento da menina, quando então surgiram sinais de que algo aconteceria.
Por essa ocasião, morava a família em uma residência no campo, próximo a uma
lagoa, onde as crianças brincavam na companhia da mãe. O pai, sabedor que a menina
demonstrava medo de entrar na água quando esta alcançava a altura dos joelhos, o pai a
colocou sentada dentro da água, o que fez com que ela fizesse uma tremenda algazarra.
À noite, ao deitar-se, perguntou à mãe: “O papai não queria me afogar?”

Passam-se os dias e nova algazarra. Por haver estado em pé um bom tempo em frente
ao jardineiro, por brincadeira, ele a colocou dentro de um buraco que havia cavado.
A menina, aos prantos, gritava que este queria enterrá-la. À noite, a mãe vai ao quarto
da menina que gritava e disse que tinha sonhado que um trem estava passando lá em
cima e caiu. Nota-se uma barreira existente no processo de direcionamento do amor
para os pais e, dessa forma, parte dele, convertido em medo.

O objeto de sua desconfiança, agora, é o pai. Ele é que devia ter conhecimento das
coisas, mas nunca se pronunciou a respeito. Os pensamentos dela se voltam para saber
o que o pai trama ou faz secretamente. Ela precisa se cuidar para o pior que possa vir
do pai.

Conforme crescia, a menina desenvolvia um interesse pelo pai, misto de


carinho/curiosidade que ficava transparente em seu olhar. Surge uma nova brincadeira
entre as duas: as bonecas maiores tornaram-se avós e o tema da brincadeira era hospital,
situado no caramanchão, para onde as “avós” foram transportadas e lá esquecidas.
A personagem avó nos reporta aquele “irmão crescido” de outrora. Talvez, apenas uma
substituta para a mãe, da qual estaria assim, se afastando. E, para este afastamento,
também concorreu a mãe que, em uma oportunidade foi questionada pela menina sobre
“como os olhos cresceram na cabeça” e esta disse não saber e que a menina procurasse
o pai. Aos olhos da criança, somente o pai e Deus sabiam de tudo. Na primeira
oportunidade, ela questionou o pai: “Como os olhos nasceram para dentro da cabeça?”

»» Não nasceram entrando, nasceram junto com ela.

»» A boca e as orelhas também?

»» Sim, tudo cresce assim.

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UNIDADE I │ PSICOLOGIA INFANTIL E SEU VASTO UNIVERSO

»» Cabelos, também? Como é que os ratinhos vêm a esse mundo sem pelos?
Onde estavam antes os pelos? Temos que botar sementinhas para isso?

»» Não, os pelos nascem pequenos grãos como as sementes e já estavam lá.

É nesse momento que o pai se verifica cercado e adivinhando para onde a conversa
se dirigia.

A criança, decepcionada: “Como o irmão entrou na mamãe? Quem fez com que ele
ficasse lá dentro? Por onde saiu?”

O pai considerou mais fácil, responder a mais recente: “Pense, meninos e meninas
crescem e se tornam homens e mulheres, mas só as mulheres podem ter filhos, por
onde seu irmão deve ter saído?”

Visivelmente empolgada, a menina aponta a genitália e diz:

»» Foi por aqui, então?

»» Certamente, lhe diz, não havia pensado nisso?

A menina ignora a pergunta e replica: “Como ele entrou lá? Alguém o colocou?
Colocaram uma sementinha”?

Não havendo como esquivar-se, o pai explica a menina que ele dá a sementinha para
a mãe.

A vingança veio na manhã seguinte. A menina procura a mãe e lhe diz que o pai lhe
contou tudo! Que meu irmão era um anjinho e que a cegonha foi no céu e trouxe-o.

»» Não foi isso que seu pai lhe disse, tenho certeza.

A menina não lhe deu resposta, desatou a rir e foi-se. Se a mãe fingiu ignorar tudo o que
ela lhe havia perguntado, possivelmente ela mesma acreditava no que dizia.

Agora, problema resolvido, um relacionamento maior com o pai e alma sossegada.


Quanto a este, não sabia se agira corretamente ao passar para a menina uma informação
que normalmente se ocultava de crianças com quatro anos de idade. O que ela faria
de posse dessa informação? Mas, a menina não voltou ao assunto, no entanto, o
inconsciente ainda tentava trabalhar a incógnita da criação. Após semanas, novo sonho
apresenta-se: estava no pomar e vários jardineiros estavam urinando junto às árvores e
que o pai estava entre eles. Ou seja: como é que o pai faz isso?

Por esta mesma época, um marceneiro foi chamado para consertar uma gaveta
emperrada, no que foi observado pela menina ao aplainar a madeira. Nesta noite, outro
sonho: “O marceneiro aplainava os órgãos sexuais dela”.

18
PSICOLOGIA INFANTIL E SEU VASTO UNIVERSO │ UNIDADE I

Entenda-se, “será que dará certo comigo?” “Será que preciso fazer algo parecido com
o que o marceneiro fez? Desta forma, o mecanismo pormenorizado do nascimento
continua um mistério. Em outra ocasião, apresenta-se novo sonho: “Sonhei que estava
no quarto de dormir do tio e da tia. Os dois estavam deitados na cama. Eu retirei a
coberta do tio, sentei-me em cima do estômago dele e dei uma volta brincando
de cavalinho”.

Aparentemente, o sonho não teria ligação com algo significativo, mas as crianças
haviam estado na casa dos tios por um breve período e o pai, afastado com os negócios.
Este, ao voltar, perguntou a menina se ela viajaria com ele à noite para a cidade como
gracejo. Ela respondeu que sim e se poderia dormir com ele na cama? E se reclinou com
meiguice nos braços do pai, conforme o fazia a mãe. O pai falou que ela poderia dormir
no quarto ao lado. Foi quando, logo após, contou o sonho que tivera.

Parece haver uma semelhança entre o conteúdo sonhado e a conversa anterior com
o pai. Era criado um substituto, na verdade, ela estava na cama do pai. A decepção
sofrida com a resposta do pai trouxe um esclarecimento: isso acontece na cama e com
movimentos parecidos.

Por fim, encerram-se as observações nas quais foram baseadas esta explanação.
A menina, hoje, com pouco mais de cinco anos, já conhece fatos significativos sobre
a sua sexualidade sem que isso tenha concorrido para quaisquer efeitos prejudiciais
sobre sua atitude moral ou desenvolvimento do caráter. Presume-se que, para a irmã,
será necessário um esclarecimento adequado a ela, conforme a necessidade apareça.

Encerra-se com uma conclusão pessoal, que as crianças devem ser tratadas como são e
não como se gostaria. A educação deve seguir as orientações naturais do desenvolvimento
e não se prender a prescrições ultrapassadas.

Da formação da personalidade

Em uma de suas conferências, Jung (1932) discorre sobre a importância da educação


infantil, mas ressalta a necessidade de, primeiramente, educar a quem quer educar.
“Fala-se que a criança deve ser educada para adquirir uma personalidade”. O autor
admite o elevado ideal da educação, mas questiona: “Quem educa para a formação da
personalidade? E, ao mesmo tempo, responde: são pais incompetentes que permanecem
a vida inteira meio crianças ou totalmente crianças”.

Enfim, quem poderia esperar dos pais comuns que fossem, de fato, “personalidades”,
e quem já pensou alguma vez em inventar métodos com os quais se pudesse ensinar
“personalidade” aos pais?

19
UNIDADE I │ PSICOLOGIA INFANTIL E SEU VASTO UNIVERSO

Por isso, naturalmente se espera mais do pedagogo, que é especialista formado e a quem
se ensinou, bem ou mal, a psicologia. Mas tal psicologia apresenta-se do ponto de vista
desta ou daquela orientação, em geral, completamente opostos, a respeito de como se
supõe que a criança deve ser dotada e de como deve ser tratada.

Com relação às pessoas jovens que escolheram a pedagogia como profissão, deve-se
pressupor que elas próprias tenham sido educadas, mas que todas elas já sejam
personalidades, não se ousaria informar. De modo geral, tiveram a mesma educação
defeituosa que as crianças às quais devem educar e, geralmente, não são personalidades,
como as crianças também, não o são.

Todo o nosso problema educacional tem orientação falha: vê apenas a criança que deve
ser educada sem considerar a carência dessa educação no educador adulto. Fala-se da
criança, mas se deve falar da criança que existe no adulto (uma criança eterna, algo
ainda em formação e que jamais estará terminado, que precisa de atenção e educação).
Esta é a parte da personalidade humana que deveria desenvolver-se até alcançar
a totalidade.

O homem atual, por se achar longe dessa totalidade, se apodera da educação da criança
e se entusiasma com a psicologia infantil. A razão disso é que ele admite que alguma
coisa devia estar errada com relação a sua própria educação e, ao seu desenvolvimento
e assim, deseja que o erro não se perpetue na geração seguinte. A intenção é válida, mas
como corrigir na criança erros que ainda cometo?

Crianças não são tolas como se pensa, percebem o que é e o que não é verdadeiro. O conto
de Anderson (KEJSERENSNYE KLÆDER, 1837) sobre as roupas novas do rei encerram
uma verdade. Pais que tentam poupar os filhos de suas experiências na infância, mas que
na realidade não superaram esses erros. Se educados com severidade excessiva, estragam
hoje os filhos com exagerada tolerância. Se fatos lhes foram escrupulosamente ocultados
anteriormente, hoje é manifestado de forma esclarecedora a eles. Ou seja, caíram no
extremo oposto e nunca o perceberam. Tudo o que se quer mudar nas crianças, deve ser
primeiro verificado se não é melhor mudarmos em nós mesmos.

A personalidade se desenvolve no decorrer da vida, a partir de germes, cuja interpretação


é difícil ou até impossível; somente pela nossa ação é que se torna manifesto quem somos
de verdade. Esta, no sentido da realização total de nosso ser, é um ideal inatingível.
O fato de não ser atingível não é uma razão a se opor a um ideal, pois os ideais são
apenas os indicadores do caminho e não as metas visadas.

Assim como a criança precisa desenvolver-se para ser educada, a personalidade deve
inicialmente desabrochar, antes de ser submetida à educação. Há que se lidar com

20
PSICOLOGIA INFANTIL E SEU VASTO UNIVERSO │ UNIDADE I

algo imprevisível, pois não se sabe em que sentido se desenvolverá a personalidade


em formação.

Psicólogos esclarecidos e materialistas como Freud dão uma ideia muito negativa
acerca do que permanece latente nos últimos redutos e abismos da natureza humana.
Assim, é quase ousadia se falar em prol do desenvolvimento da personalidade, visto que
o espírito humano é repleto de contradições curiosíssimas.

Ninguém desenvolve sua personalidade porque alguém lhe disse que seria bom e
aconselhável fazê-lo. A natureza jamais se deixa impressionar por conselhos dados com
boa intenção. Somente algo que obrigue atuando como causa irá movê-la e também,
a natureza humana. Se não há a necessidade, nada muda e menos ainda. Essa última,
pois é imensamente conservadora, senão inerte.

Do mesmo modo, o desenvolvimento da personalidade não atende a qualquer desejo,


ordem ou consideração, mas somente à necessidade: precisa ser motivada pela
coação de acontecimentos internos ou externos. Qualquer outro desenvolvimento
seria individualismo, que não é um desenvolvimento natural por desabar à primeira
dificuldade encontrada. Portanto, seria um insulto ao desenvolvimento natural da
personalidade a inclusão deste.

A personalidade jamais poderá se desenvolver se a pessoa não escolher seu próprio


caminho, de maneira consciente e por uma decisão consciente e moral. A força para o
desenvolvimento da personalidade não provém apenas da necessidade, que é motivo
causador, mas também, da decisão consciente e moral. Se faltar a necessidade, esse
desenvolvimento não passará de uma acrobacia da vontade; se faltar um a decisão
consciente, o desenvolvimento seria apenas um automatismo indistinto e inconsciente.

Somente será possível que alguém se decida por seu próprio caminho, se esse caminho
for considerado o melhor. Se qualquer outro caminho fosse considerado melhor
então, em lugar da própria personalidade, haveria outro caminho para ser vivido e
desenvolvido. Tais caminhos são as convenções de natureza moral, social, política,
filosófica e religiosa.

O fato de as convenções, de algum modo, sempre florescerem, prova que a maioria


esmagadora das pessoas não escolhe seu próprio caminho, mas a convenção. Assim, não
desenvolve a si mesma, mas segue um método, que é algo de coletivo em prejuízo de sua
totalidade própria.

A vida psíquica e social dos homens que se encontram em uma etapa primitiva é
exclusivamente a vida do grupo, ao mesmo tempo em que o indivíduo permanece num

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UNIDADE I │ PSICOLOGIA INFANTIL E SEU VASTO UNIVERSO

alto grau de inconsciência, de modo análogo, o desenvolvimento histórico posterior é


geralmente assunto da coletividade e assim continuará sendo por certo. Assim, pode-se
presumir que a convenção seja uma necessidade coletiva, um expediente e não um ideal,
moral ou religioso, uma vez que a submissão a ela implica em renúncia da totalidade e
fuga diante de suas próprias e últimas consequências.

Enfim, o que impulsiona alguém a escolher seu próprio caminho e a se elevar acima da
identidade com a massa humana? Não pode ser a necessidade, pois esta atinge a muitos
e todos esses se salvam pelas convenções. A decisão moral também não pode ser, pois
geralmente todos se decidem pela convenção. O que dá o último impulso a favor de algo
fora do comum?

É o que se denomina designação, um fator irracional, traçado pelo destino, que impele a
emancipar-se da massa gregária e de seus caminhos desgastados pelo uso. Personalidade
verdadeira sempre supõe designação e nela acredita. A designação ou o respectivo
sentimento, não constitui apenas uma prerrogativa das grandes personalidades, também
aparece nas pequenas e mesmo na menor delas, só que acompanhada do decréscimo de
intensidade, tornando-se mais inconsciente. Quanto menor for a personalidade, tanto
mais imprecisa e inconsciente se torna a voz, até confundir-se com a sociedade, sem
poder distinguir-se dela, privando-se da própria totalidade para diluir-se na totalidade
do grupo.

Certamente, todos os homens são iguais uns aos outros, pois de outro modo, não
sucumbiriam à mesma ilusão. Também é certo que a camada psíquica mais profunda,
sobre a qual se firma a consciência individual, é de natureza universal e da mesma
espécie, pois de outro modo, os homens não poderiam se entender mutuamente.
Sob esse aspecto, a personalidade e suas propriedades psíquicas peculiares não
representam algo de absolutamente único e singular.

A singularidade se refere apenas à individualidade que a personalidade tem, como em


geral a qualquer individualidade. Tornar-se personalidade não é prerrogativa exclusiva
do homem genial, podendo mesmo alguém ser genial sem ter ou ser personalidade.
Uma vez que cada indivíduo tem sua lei de vida que lhe é inata, pode seguir esta lei
acima das outras e assim tornar-se personalidade, o que significa atingir a totalidade.

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JOGOS E PERCURSOS
DA PSICOMOTRICIDADE: UNIDADE II
CRIANÇAS EM MOVIMENTO

CAPÍTULO 1
Jogos

O ato de jogar tem impacto para o amadurecimento e o aprendizado. Os movimentos


realizados em um jogo ou aqueles realizados em uma atividade física são vivências que
permanecerão como registros na mente das crianças. É a forma pela qual encontram a
satisfação de suas necessidades de expressarem-se e relacionarem-se.

Serão apresentados alguns dos jogos extraídos da obra de Giovana Paesani 120 Jogos
e percursos de psicomotricidade. Os jogos são indicados para serem utilizados com
crianças na faixa de 3 a 5 anos, mas podem ser estendidos. Deve-se considerar, também,
além da idade, o nível motor em que se encontram as crianças. Um jogo pode ser fácil e
chato para alguns e muito difícil para outros.

Devem ser os exercícios adaptados às crianças com que se trabalha partindo da observação
e experiência em saber o que elas necessitam e não o que se pretende que tenham.

Jogos de percepção corpórea


Abrange uma série de exercícios físicos que objetivam a aquisição e reforço da
consciência do próprio corpo. O conhecimento do esquema corpóreo é perceber
o corpo de maneira sistêmica e, posteriormente, de maneira analítica, em suas
partes componentes.

Antes dos exercícios de maior complexidade, é imprescindível que exista a


familiaridade da criança com seu corpo, o que possibilitará a realização com maior
desenvoltura dos esquemas motores propostos. Melhorando não só a autoconfiança
e segurança nos movimentos, como também a postura, o equilíbrio e a coordenação
motora em geral.

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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

Jogo 1 – Toca, toca...

Idade: 3 a 4 anos

Objetivo: perceber o corpo integralmente

Dificuldade: fácil

Materiais: um livro a respeito do corpo humano

Tempo: 20 minutos

Desenvolvimento:

»» as crianças folheiam o livro e mencionam suas várias partes;

»» o educador as convida a ficarem de pé e tocarem com as mãos, as várias


partes, uma de cada vez (partindo da cabeça para o pescoço, ombros,
braços, até os pés);

»» para cada movimento será dito: “vamos jogar o toca, toca... a cabeça!”.
Agora, vamos tocar de alto a baixo todas as partes do corpo, do rosto
aos pés”.

»» “Agora, a parte de trás do corpo”.

»» as crianças são convidadas a fechar os olhos e o exercício se repete de


olhos fechados, parando no instante em que o educador chama à atenção:
“Toca, toca... o nariz”.

»» por fim, em duplas, uma criança por vez tocará as partes do corpo do
companheiro à sua frente, indicadas pelo educador.

Jogo 2 – Descubra quem é

Idade: 3 a 8 anos

Objetivo: reforçar a percepção corpórea

Dificuldade: fácil

Materiais: um lenço ou tira de pano

Tempo: 20 minutos

Desenvolvimento:

24
JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

»» as crianças sentam-se em círculo;

»» o educador chama uma delas e cobre seus olhos com uma venda;

»» em silêncio, o educador indica uma criança que deverá aproximar-se e


convida a criança vendada a reconhecer o companheiro tocando-o com
as mãos;

»» a criança poderá ser ajudada com perguntas do tipo: “Descubra se é alto


ou baixo, se tem cabelos compridos ou curtos, se usa óculos etc.”

Jogo 3 – Com a bola

Idade: 4 a 6 anos

Objetivo: descobrir o contorno do corpo por meio de um objeto

Dificuldade: média

Materiais: bola grande ou pequena

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

»» as crianças, sentadas no chão, farão a bola deslizar em volta do próprio


corpo começando pela cabeça, lentamente, sem deixá-la cair;

»» o educador conduzirá as crianças a sentirem as diversas partes do corpo


pelas quais a bola desliza;

»» sucessivamente, em duplas, uma criança por vez deslizará a bola sobre o


companheiro estendido por terra, primeiro por cima, depois pelas costas.

Jogo 4 – Parados como estátuas

Idade: 3 a 8 anos

Objetivo: perceber o corpo em duas situações: estática e dinâmica

Dificuldade: fácil

Materiais: espaço amplo e música

Tempo: 15 minutos

25
UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

Desenvolvimento:

»» o educador convida as crianças a moverem-se ao ritmo da música,


variando frequentemente o ritmo: andante, lento, corrida, passo salteado,
caminhada a pé e de gatinha, salto com os pés juntos;

»» a cada pausa na música, as crianças devem parar na posição em que


se encontram, imobilizando-se. “Somos exatamente como estátuas de
pedra”. Quanto mais longo for o tempo maior a dificuldade;

»» com os mais velhos pode-se alternar movimentos sempre mais velozes


entre uma pausa e outra para aumentar a agilidade dos reflexos das
crianças.

Jogo 5 – A sombra

Idade: 5 a 8 anos

Objetivo: representação gráfica do perfil corporal

Dificuldade: complexo

Materiais: lanterna forte ou projetor, cartolina branca, lápis ou giz

Tempo: 60 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador escurece o máximo possível a sala, depois de colar nas paredes,


folhas de cartolina brancas;

»» as crianças estão sentadas de frente para a parede;

»» acende-se a lanterna/projetor, direcionados para a parede e convida-se


uma ou duas crianças a moverem-se diante do foco de luz, de forma a
observarem suas sombras para então comentar: “Vejam como as sombras
se movem conforme vocês mudam de posição ou se afastam. O que elas
mostram de vocês?”;

»» em seguida, em duplas, as crianças desenharão o contorno, umas das


outras com um lápis na cartolina. Pode-se ainda, preencher o papel
desenhando o rosto e as vestes com cores e colagens;

»» Às maiores, se pode pedir, também, que desenhem os perfis ou o corpo


em diferentes posições.

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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

Jogo 6 – Como troncos de árvores

Idade: 3 a 5 anos

Objetivo: exercitar o movimento rotatório do corpo

Dificuldade: fácil

Materiais: espaço amplo

Tempo: 25 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador convida as crianças a ficarem com o corpo esticado e rígido;


em pé, braços para o alto, pés juntos, dizendo: “Nos transformamos em
troncos de árvores, somos árvores fortes e grandes, difíceis de dobrar,
duras como madeira”;

»» em grupos de três ou quatro, as crianças rolarão por terra, começando


de costas com os braços estendidos para cima, enquanto o educador as
orienta com frases do tipo: “agora vocês são troncos no rio, levados pela
correnteza e vão rolando até a margem.

O mesmo exercício pode ser realizado com leve inclinação, com auxílio de um tapete
levantado de um lado. O educador nesse caso dirá: “agora os troncos descem colina abaixo
rolando até o vale”. Desta maneira, é possível fazer notar como o corpo é veloz e pesado.

Jogo 7 – A bola

Idade: 4 a 6 anos

Objetivo: exercitar novos esquemas motores

Dificuldade: média

Materiais: bola leve, espaço amplo

Tempo: 20 minutos

Desenvolvimento:

»» O educador convida as crianças a jogarem com a bola que lhes é entregue


(uma para cada um), fazendo-a quicar no chão, rolar no chão, girar sobre
si mesma, atirá-la para o alto e pegá-la novamente.
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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

»» Em seguida, dirá às crianças para se transformarem na bola e fazerem os


mesmos movimentos.

»» “Somos bolas que pulam”, as crianças saltam.

»» “Somos bolas que rolam”, as crianças se agacham com os joelhos no peito


e rolam sobre as costas.

»» “Somos bolas que giram”, as crianças se sentam com as pernas dobradas


sobre o peito e tentam girar sobre si como um pião, dando impulsos com
a mão no chão.

Este último exercício é aconselhável aos maiores, devido à maior dificuldade de


realização.

Jogo 8 – A serpente

Idade: 3 a 6 anos

Objetivo: exercitar novos esquemas motores e perceber as partes anterior e posterior


do corpo

Dificuldade: fácil

Materiais: espaço amplo

Tempo: 30 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador convida as crianças a se arrastarem livremente pelo piso,


dizendo: “Somos todos serpentes!” – “As serpentes se arrastam sobre a
barriga e depois dormem totalmente enroladas.” As crianças se põem em
repouso agachadas no chão;

»» repete-se o mesmo exercício, mas, agora, as crianças se arrastam de


costas, utilizando as pernas, com a regra de não encostar nos outros –
“Atenção! As outras serpentes são venenosas”;

»» por fim, as crianças, em grupos de quatro, realizam uma aposta arrastando-se


com a barriga para baixo até uma linha de chegada pré-estabelecida.
“Quem será a serpente mais rápida?”.

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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

Jogo 9 – Encontre a parte


Idade: 3 a 6 anos

Objetivo: reconhecer e perceber partes individuais do corpo

Dificuldade: fácil

Materiais: nenhum ou tira de pano

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

»» as crianças ficam espalhadas, com os olhos fechados ou vendados;

»» o educador as convida a tocar uma parte do corpo: “toque o seu nariz,


agora o joelho esquerdo, agora os pés”.

No começo, os comandos serão lentos e simples, podendo-se em seguida, acelerar o ritmo


com comandos repetidos e velozes e com partes mais detalhadas como bochechas, cotovelo
ou tornozelo em lugar de rosto, braço e perna. Para aumentar mais a dificuldade, o comando
pode ser de uma combinação, do tipo: “Com uma mão toque o nariz, com a outra o joelho”.

Jogo 10 – Jogo dos apoios


Idade: 4 a 8 anos

Objetivo: reforçar a consciência analítica do esquema corpóreo

Dificuldade: média

Materiais: música, espaço amplo

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador, depois de passar às crianças ordens bem precisas que deverão


ser seguidas quando começa a música e, no stop, imobilizar-se sobre
apoios diferentes dos dois pés, dirá: “Corram, quando a música parar
vocês devem parar apoiados em dois pontos: “mão e pé!”;

»» as crianças se apoiarão paradas, com uma só mão e um só pé no chão ou,


então, dirá:

›› “Quando eu der o stop na música, um apoio só, a barriga!”

E assim por diante, as seguintes combinações de apoio podem ser indicadas: “bunda”,
“joelho e testa”, “pé e costas”, “um só pé”.
29
UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

Depois de ter experimentado todas as combinações de apoio, o educador pode pedir a


uma criança para conduzir o jogo em seu lugar.

Jogo 11 – Mão, mão no...


Idade: 3 a 5 anos

Objetivo: reforçar a consciência de cada arte do corpo

Dificuldade: fácil

Materiais: música, espaço amplo

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador convida as crianças a formarem duplas que se moverão juntas


ao ritmo da música;

»» a cada pausa dada à música, serão passadas ordens bem específicas às


duplas, do tipo: “Tocar com a mão o...nariz!”, “Tocar com a mão o...”.

Jogo 12 – Cuidado com o gigante faminto


Idade: 3 a 5 anos

Objetivo: perceber o relaxamento corporal

Dificuldade: fácil

Materiais: conto de fadas, espaço amplo

Tempo: 30 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador pode ler ou contar uma fábula, por exemplo, a do Pequeno


Polegar ou outra qualquer em que haja a personagem do gigante para
introduzir o jogo;

»» deve-se escurecer a sala e as crianças deverão deitar no chão e fingirem


dormir;

»» o educador, com um dos alunos maiores, deve fazer o papel do gigante


que passará entre os corpos estendidos, dizendo: “Lá vem o gigante!” ou
“inha, inha, inha, sinto cheiro de criancinha!”;
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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

»» neste momento, as crianças devem cuidar para não fazerem qualquer


barulho ou movimento, permanecendo imóveis e com os olhos fechados;

»» o gigante, passando entre elas, irá tocá-las e sacudi-las, levantando o braço


ou uma perna para depois, deixá-las cair. Se a criança conseguir ficar
inerte, o gigante irá embora. Caso contrário, a levará embora puxando-a
pelos pés.

Jogo 13 – Como robôs

Idade: 3 a 5 anos

Objetivo: reforçar o domínio do corpo por meio de novos esquemas motores

Dificuldade: fácil

Materiais: músicas com ritmos diferentes

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

»» se apresenta às crianças um robô de brinquedo ou um boneco que tenha


movimentos apenas nas principais articulações;

»» as crianças devem observar seus movimentos e perceber como são


limitados;

»» em seguida, o educador dirá: “agora vamos imitá-lo. Somos todos como


esse robô”;

»» liga-se a música e se convida as crianças a moverem-se lentamente como


pequenos robôs, com gestos rígidos e mecânicos.

Recomenda-se variar os ritmos das músicas para aumentar, gradualmente, a dificuldade


do jogo.

Jogo 14 – O balão

Idade: 3 a 5 anos

Objetivo: perceber as fases da respiração

Dificuldade: fácil

Materiais: um balão grande


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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador enche o balão na frente das crianças sentadas, dizendo: “Agora


vou colocar ar aqui dentro”. O que acontece com o balão?”;

»» em seguida, deixa o balão esvaziar lentamente, depois soltando o balão,


para que voe: “o que aconteceu com o balão agora?”;

»» o educador convida as crianças a serem como balões. Ao convite “balão


cheio!” as crianças devem puxar o ar para dentro inspirando pelo nariz e
fingindo inflarem-se;

»» “o balão fica mais cheio!”. Pode ser feita uma pausa mais ou menos longa
segurando o ar no pulmão;

»» ao convite “balão vazio!”, as crianças soltam o ar pelo nariz e boca,


deixando-se cair ao chão.

Pode-se ainda, imitar o movimento rotatório que o balão faz ao esvaziar-se rapidamente.
Esse exercício é útil, também, como relaxamento depois dos jogos que envolvam
exercícios físicos muito cansativos.

Jogo 15 – A praia

Idade: 5 a 8 anos

Objetivo: perceber o relaxamento físico

Dificuldade: complexa

Materiais: tapete, música relaxante (barulhos do mar) ou ambiente silencioso

Tempo: 20 minutos

Desenvolvimento:

»» faça as crianças deitarem-se de costas em cima de um tapete, em um


ambiente confortável, sem barulhos incômodos e, com frases pronunciadas
em voz baixa, ajude-as a visualizarem imagens;

»» com os olhos fechados, deverão imaginar-se próximas ao mar;

»» o educador dirá: “Vocês estão na praia em um dia de sol. Estão deitadas


na areia macia e quente. Sintam seu corpo na areia e o calor do sol. Na
frente de vocês está o mar”.
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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

Deve-se falar lentamente e guardando pausas entre as frases:

»» “Ouçam o som das ondas que chegam, aumentam, depois quebram na


praia”, “agora sintam seu peito enchendo-se de ar e se esvaziando como o
mar”. “Seu corpo está relaxado: pés, pernas, barriga, peito, mãos, braços,
o rosto, todo o corpo de vocês está quente e relaxado”.

Cada frase deve ser dita muito lentamente, abaixando o tom de voz pouco a pouco.
Para um bom resultado, será oportuno preparar, anteriormente, as crianças para esse
exercício. Ao final, é importante fazer as crianças levantarem-se lentamente e passar
em seguida às atividades tranquilas.

Jogo 16 – O sopro

Idade: 4 a 8 anos

Objetivo: tomar consciência e reforçar as capacidades respiratórias

Dificuldade: média

Materiais: materiais leves (pedaço de papel, pena etc.), canudos

Tempo: 25 minutos

Desenvolvimento:

»» colocam-se à disposição das crianças objetos bem leves, como penas,


pedaços de papel, bolinhas de ping-pong. Elas podem jogá-los, sentir seu
peso, deixá-los cair no chão;

»» em seguida começa o jogo: duas ou três crianças, de cada vez, devem


transportar o próprio objeto até a linha de chegada, soprando com a boca
ou com a ajuda do canudo;

»» as crianças movem-se de joelhos e mãos no chão, mas não podem tocar o


objeto com as mãos, porque serão eliminadas do jogo;

»» o jogo termina quando todas as crianças, em grupo de duas ou três,


tiverem participado da competição.

Deve-se falar lentamente e guardando pausas entre as frases:

»» “Ouçam o som das ondas que chegam, aumentam, depois quebram na


praia”, “agora sintam seu peito enchendo-se de ar e se esvaziando como o

33
UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

mar”. “Seu corpo está relaxado: pés, pernas, barriga, peito, mãos, braços,
o rosto, todo o corpo de vocês está quente e relaxado”.

Cada frase deve ser dita muito lentamente, abaixando o tom de voz pouco a pouco.
Para um bom resultado, será oportuno preparar, anteriormente, as crianças para esse
exercício. Ao final, é importante fazer as crianças levantarem-se lentamente e passar
em seguida às atividades tranquilas.

Jogo 17 – Vamos nos colar

Idade: 4 a 8 anos

Objetivo: experimentar novos esquemas motores

Dificuldade: média

Materiais: música ou tambor

Tempo: 25 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador forma duplas que deverão ter de preferência, a mesma altura;

»» em seguida as convida a realizar deslocamentos no espaço com a música


ou ao ritmo do tambor;

»» as duplas deverão deslocar-se com uma parte do corpo “colada”, conforme


a ordem: “agora vamos correr com uma mão colada”. As crianças correm
segurando-se pelas mãos coladas;

»» o jogo termina quando todas as crianças, em grupo de duas ou três,


tiverem participado da competição.

A cada vez, o educador aumentará a dificuldade dos deslocamentos, ou seja, da


mão passará ao braço, depois um ombro, depois a barriga, as costas, um pé e assim
por diante.

Com os maiores pode-se utilizar um lenço para amarrar as partes.

Os deslocamentos podem variar conforme a dificuldade das partes amarradas, desde


caminhar até correr, saltar ou arrastar-se; pode-se ainda, colocar um objeto entre as
partes para que seja transportado sem cair. Por exemplo, uma bolinha em um “testa a
testa” tornando o jogo mais divertido e desafiador.

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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

Jogo 18 – A face
Idade: 3 a 5 anos

Objetivo: representar o próprio rosto

Dificuldade: fácil.

Materiais: folhas de papel branco, canetas coloridas

Tempo: 30 minutos

Desenvolvimento:

»» as crianças são convidadas a tocar o próprio rosto. Se oportuno, com


orientação do educador, reparando com os dedos cada uma de suas partes;

»» “sinta sua cabeça, como é redonda, depois a testa, logo abaixo estão as
sobrancelhas, depois os olhos;

»» depois de acariciar e perceber seu próprio rosto, as crianças devem


representá-lo em uma folha de papel colocada no chão e utilizando uma
caneta ou lápis coloridos. Se possível, utilizar um pequeno espelho no
qual podem observar apenas o rosto.

As crianças maiores podem também fazer o retrato de um companheiro sentado à


sua frente.

Jogo 19 – Este sou eu


Idade: 3 a 5 anos

Objetivo: representar o esquema corpóreo

Dificuldade: fácil.

Materiais: folhas grandes de papel, canetas, tintas e pincéis

Tempo: 60 minutos

Desenvolvimento:

»» colocam-se à disposição das crianças folhas brancas muito grandes, tintas


e pincéis ao lado de cada uma no chão;

»» começa o jogo desenhando o rosto na própria folha, no alto; depois


seguem-se as indicações do educador: “agora vamos tocar o pescoço,
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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

sentir como está ligado à cabeça e como fica acima dos ombros.
Vamos desenhá-lo”;

»» as crianças, depois de tocarem cada parte a cada vez, vão desenhando-a


na folha de papel com as canetas coloridas até terminar de desenhar o
corpo inteiro, traçando apenas a linha de contorno;

»» em seguida, poderão personalizar o próprio autorretrato colorindo a


parte interna com cabelos, vestes, calçados e, se quiserem, um enfeite
preferido, uma assinatura e o quadro está pronto.

Jogo 20 – Jogando de cabeça

Idade: 3 a 8 anos

Objetivo: perceber o movimento de cada parte do corpo

Dificuldade: fácil

Materiais: balões grandes, espaço amplo

Tempo: 30 minutos

Desenvolvimento:

»» as crianças ficam de pé, espalhadas;

»» o educador as convida para que mexam apenas uma parte do corpo:


a cabeça;

»» “o que podemos fazer com a cabeça?” Podemos dizer sim e não, podemos
fazê-la girar: as crianças irão imitar os movimentos de flexão e de rotação;

»» o mesmo exercício deve ser repetido com todos sentados: “Podemos fazer
os mesmos movimentos agora?” E, finalmente, deitados no chão: “e
agora, o que muda?”.

»» depois, em duplas, cada criança levanta com as mãos a cabeça do


companheiro que fica deitado de barriga para cima: “Sentem como a
cabeça de vocês pesa?

»» enfim, cada criança terá à disposição um balão ou um para cada dupla


para jogar e cabeceá-lo. “Atenção para não deixá-lo cair sem usar as mãos
para segurá-lo!”

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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

Jogos de percepção espacial


São jogos destinados ao desenvolvimento da percepção do espaço, do senso de
orientação, conhecimento de conceitos topológicos básicos. O jogo motor permite
descobrir o espaço circunstante em relação ao próprio corpo e reforçar a segurança e o
domínio da criança de maneira espontânea e agradável.

A criança, sobretudo aos três anos, carece de perceber um espaço limitado e


paulatinamente, poderá explorar e orientar-se em ambientes mais amplos. A consciência
espacial é adquirida por meio dos sentidos, do movimento e de toda a vivência corpórea
da criança.

Os exercícios ajudarão a criança a mensurar um espaço, a comparar os objetos entre


si, a perceber sua própria posição, a dosar a energia de uma ação em relação ao espaço
circunstante. Desenvolverá a consciência do espaço, sua abstração e representação
gráfica somente a partir do espaço físico, preenchendo-o de significados emotivos
e motivadores.

Jogo 1 – Vamos ocupar o espaço

Idade recomendada: 3 a 5 anos

Objetivo: perceber o espaço circunstante

Dificuldade: fácil

Materiais: música, espaço amplo

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador convida as crianças a moverem-se livremente pelo espaço


com a ajuda da música, mudando de direção e ficando atentos para não
esbarrarem nos outros;

»» ao pausar a música, o educador dará ordens precisas: caminhar, rolar,


arrastar-se, saltar, correr, caminhar para trás, engatinhar etc.

A regra principal de não encostar nos outros será um convite para que procurem,
sempre, novos espaços vazios, bem como para mudar de direção ocupando
seu espaço.

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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

Jogo 2 – Slalom entre os aros


Idade recomendada: 3 a 6 anos

Objetivo: conhecer o espaço por meio do uso de objetos

Dificuldade: fácil

Materiais: aros, espaço amplo

Tempo: 25 minutos

Desenvolvimento:
»» o educador espalha uma dúzia de aros no chão, a 30 cm de distância um
do outro, criando um percurso com um começo e um fim;

»» as crianças se colocam em fila e atravessam, um a cada vez, o percurso


seguindo as indicações do educador.

As possibilidades são diversas: realizar um slalom (percurso sinuoso) em volta dos aros,
saltar dentro dos aros com um só pé ou dois. Aumentar ou diminuir a distância entre os
aros conforme a idade das crianças e a dificuldade que se deseja criar.

Pode-se mudar a disposição dos aros para realizar variações de percurso colocando-os,
por exemplo, em uma linha concêntrica ou deslocados de modo alternado à direita e à
esquerda ou de modo que formem um circuito fechado e, assim por diante. As próprias
crianças podem variar a posição dos aros, criando um percurso personalizado.

Jogo 3 – Círculo, fila, linha


Idade recomendada: 4 a 6 anos

Objetivo: orientar-se no espaço em relação aos outros

Dificuldade: média

Materiais: espaço amplo, música

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador convida as crianças a moverem-se pelo espaço disponível com


diversos tipos de andadura e ao ritmo da música;

»» ao “pare”, deverão dar as mãos e formar um círculo no menor tempo


possível. É recomendável fazer as crianças começarem com o círculo
formado, para depois o desfazerem e reconstruí-lo;
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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

»» quando estiverem preparados para formar o círculo com rapidez, muda-


se a ordem: “ao pare, todos alinhados lado a lado” e, depois, “ao pare,
todos em fila”.;

»» em seguida, podem-se alternar os três comandos ao mesmo tempo entre


uma andadura e outra.

O jogo pode ser repetido mais vezes ao longo do tempo disponível, porque é importante
para criar, mais adiante, desenhos e deslocamentos mais complexos.

Jogo 4 – A folha de papel

Idade recomendada: 3 a 8 anos

Objetivo: experimentar o espaço em relação a um objeto

Dificuldade: fácil

Materiais: folhas de papel, música e fita adesiva

Tempo: 60 minutos

Desenvolvimento:

»» entrega-se a cada criança uma folha de papel que é colocada no chão ao


lado da criança;

»» liga-se a música e a cada “pare” se ouvem as ordens que devem ser


realizadas quando a música é religada: “caminhar ao redor da folha”,
“saltar à direita e à esquerda da folha”, “correr ao redor da folha”, “pular
por cima”, “caminhar segurando a folha para cima”.

Pode-se repetir os mesmos comandos várias vezes.

»» cada criança deixa, depois, sua folha no chão;

»» religa-se a música e todos correm no ambiente sem pisotear as folhas;

»» ao “pare”, cada criança deverá estar sobre uma folha que não é,
necessariamente, a sua. Repetir várias vezes e depois podem caminhar
apenas pisando nas folhas sem tocar no chão;

»» “agora, vamos fazer as folhas voarem o mais alto possível”. Com essa
ordem, as crianças atiram suas folhas para o alto.

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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

»» ao final, se formará uma bola gigante de papel, que deve ser colada com fita
adesiva para que todos joguem juntos. Cada ação deve ser acompanhada
por música.

Jogo 5 – Lebres e tartarugas

Idade recomendada: 3 a 6 anos

Objetivo: perceber medidas no espaço

Dificuldade: fácil

Materiais: fita adesiva colorida ou giz

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

»» com a ajuda de uma fita adesiva colorida ou de um giz, desenha-se no


chão dois quadrados: um muito grande (3 ou 4 m de lado) e um pequeno
(1 ou 2m de lado);

»» o educador convida as crianças para moverem-se velozmente dentro do


quadrado maior sem, porém, ferir ou outros ou ultrapassar o perímetro
do quadrado;

»» ao sinal, as crianças passarão para o quadrado pequeno, movendo-se


muito lentamente.

»» “Este é o campo das lebres, o outro é o campo das tartarugas”. A cada


sinal de mudança de campo, as crianças passam de uma área para outra,
mudando a velocidade de movimento continuamente.

Pode ser acrescentado um terceiro quadrado, de tamanho médio, a ser chamado “campo
das lagartas”, onde as crianças se deitam por terra.

Jogo 6 – Serpentes venenosas

Idade recomendada: 3 a 5 anos

Objetivo: adquirir domínio do espaço

Dificuldade: fácil

Materiais: espaço amplo


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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador guia as crianças rumo a uma aventura perigosa: “Imaginem


ter que atravessar um campo coberto de serpentes venenosas! Vocês
devem prestar muita atenção para não pisar em alguma, senão.”;

»» as crianças se deitam no chão transformando-se em serpentes;

»» uma criança a cada vez, deve atravessar a área rapidamente sem encostar
em alguém.

Poderá passar por cima, ao lado das serpentes, que se arrastarão lentamente por baixo
de seus pés.

O jogo termina quando todos tiverem realizado o percurso.

Jogo 7 – Em grupos de...

Idade recomendada: 3 a 8 anos

Objetivo: Aprender quantidades numéricas

Dificuldade: fácil

Materiais: espaço amplo, música

Tempo: 20 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador convida as crianças a realizarem todos os tipos de andadura


possíveis ao som de música segurando-se pelas mãos. “Não podem se
soltar umas das outras”;

»» primeiro as crianças se moverão no espaço em duplas, depois em grupos


de 3, 4 e 5;

»» juntos deverão conseguir arrastarem-se, caminharem, correrem e


saltarem sem que soltem a mão do companheiro;

»» o educador poderá repetir a quantidade mais vezes e as crianças devem,


em pouco tempo, organizarem-se em grupos, contando-se a cada vez.

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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

Jogo 8 – Caminhando no escuro

Idade recomendada: 3 a 6 anos

Objetivo: orientar-se no espaço sem auxílio da visão

Dificuldade: fácil

Materiais: espaço amplo música

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

»» as crianças se organizam em duplas, à sua escolha;

»» uma das duas, de cada vez, guiará a outra, posicionada atrás de olhos
vendados segurando-a pelas mãos;

»» as crianças da frente se deslocam, primeiro, lentamente e depois cada vez


mais rápido em direções diferentes eles deverão cuidar de que os colegas
guiados não se machuquem;

»» a criança de olhos vendados deverá confiar no companheiro, procurando


acompanhar seus movimentos.

O educador deve estar atento para que as crianças não se machuquem e não esbarrem
umas nas outras.

Jogo 9 – Percurso guiado

Idade recomendada: 4 a 8 anos

Objetivo: orientar-se no espaço por meio de sinais sonoros

Dificuldade: média

Materiais: tambor, apito, giz, bola, tira de pano

Tempo: 20 minutos

Desenvolvimento:

»» traça-se no chão um percurso com um alvo a ser alcançado (por exemplo,


uma bola a chutar). O jogo se desenvolve em duplas, com uma criança

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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

tendo os olhos cobertos por uma venda e outra fazendo o papel de


guia sonoro.

Enquanto a primeira criança caminha ao longo do percurso, a outra a guiará rumo ao


objetivo por meio dos sons do tambor ou usando um apito. O jogo termina quando
todas as duplas tiverem realizado o percurso e atingido o alvo.

Jogo 10 – O tapete voador

Idade recomendada: 3 a 5 anos

Objetivo: compreender conceitos espaciais

Dificuldade: fácil

Materiais: um grande pedaço de tecido leve, música

Tempo: 20 minutos

Desenvolvimento:

»» as crianças seguram, cada uma com uma mão, um pano do tamanho de


um lençol;

»» quando o educador liga a música, devem correr segurando-o bem alto e


bem esticado, agitando-o no ar;

»» ao parar a música, ele grita: “todos embaixo!”;

»» as crianças deverão ir todas para debaixo do pano, que as encobrirá.


Quem ficar fora será eliminado. Por outro lado, à ordem “Todos em cima”,
as crianças tentarão colocar-se em cima do pano o mais rapidamente
possível, sendo a última eliminada.

Jogo 11 – As caixas divertidas

Idade recomendada: 3 a 8 anos

Objetivo: mover-se no espaço em relação a um objeto

Dificuldade: fácil

Materiais: caixas de papelão de sapato ou maiores, música

Tempo: 60 minutos
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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

Desenvolvimento:

»» o educador distribui as caixas (sem tampa) às crianças, uma para cada;

»» cada criança encontra um espaço e se coloca ao lado da sua caixa;

»» liga-se a música e o jogo das caixas começa: a cada parada da música o


educador irá dar um comando diferente que as crianças devem executar
ao ritmo da música: “correr em redor da caixa!”, “saltar dentro!”, “pular
para fora!”, “chutar a caixa!”, “correr embaixo da caixa!”, “arremessá-la
para o alto e pegá-la novamente!”;

»» sucessivamente as crianças largam sua caixa e começam a correr em


redor dela no espaço disponível, sem tocá-las;

»» o educador coloca as caixas na frente das crianças a uma certa distância e


lhes distribui bolinhas: “agora vamos acertar a bolinha dentro da caixa!;

»» as crianças devem lançar as bolinhas dentro de sua caixa;

»» convidam-se as crianças a construir uma torre com todas as caixas e a


atirar a bola, uma de cada vez, para derrubá-la.

Jogo 12 – O jogo do lenço

Idade recomendada: 3 a 8 anos

Objetivo: descobrir o espaço utilizando um objeto

Dificuldade: fácil

Materiais: lenço, música

Tempo: 30 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador distribui um lenço a cada criança, liga a música e as convida


a mover-se no espaço com ordens bem específicas. A cada parada da
música, se muda o movimento;

»» os comandos serão os seguintes: “correr e fazer com o lenço as ondas do


mar”, “começou a chover, vamos nos esconder embaixo do lenço”, “é um
tapete voador, vamos subir nele”, “vamos amarrar com ele os tornozelos
e tentar pular” etc.;

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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

»» depois, em duplas, um lenço para cada uma amarra-se a dupla pela cintura
para que andem livremente, primeiro lentamente, depois correndo, ao
ritmo mais agradável;

»» por fim, segurando o lenço no chão de modo que forme um retângulo:


“agora vamos construir nossa cama e deitar em cima para descansar”.

Jogo 13 – O jogo dos travesseiros

Idade recomendada: 3 a 8 anos

Objetivo: identificar rapidamente a posição certa

Dificuldade: média

Materiais: almofadas de chão, música

Tempo: 20 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador forma com as almofadas, que devem em quantidade igual ao


dos participantes menos uma, um círculo no chão. A almofada que falta
fará com que uma criança fique sem lugar e seja eliminada a cada disputa;

»» as crianças correm ou caminham ao redor do círculo ao som da música


e, quando o educador interrompe a música todas devem tentar sentar
rapidamente sobre as almofadas;

»» a criança que ficar sem lugar é eliminada.

Para animar o jogo pode-se solicitar ritmos e modos de deslocamentos variados.

»» a cada disputa, uma almofada é retirada e o jogo continua até que fiquem
apenas dois jogadores e uma almofada e, um deles, seja o ganhador.

Jogo 14 – Gato e rato

Idade recomendada: 4 a 8 anos

Objetivo: adquirir destreza nos movimentos

Dificuldade: média

Materiais: aros, apito, máscaras de gato, fita adesiva


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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

Tempo: 20 minutos

Desenvolvimento:

»» escolhe-se uma criança que será o gato e colocará a máscara de papelão,


os demais serão ratos;

»» espalham-se aros grandes no chão afastados um dos outros;

»» os ratos se colocam dentro dos aros, que representam tocas;

»» delimita-se com fita adesiva uma ampla área de jogo de onde não se
pode escapar.

O jogo começa:

»» ao som do apito, os ratos saem das tocas e fogem do gato correndo entre
os aros;

»» quando o gato captura um rato, esse se torna mais um gato colocando


a máscara;

»» a cada som do apito, o jogo recomeça e termina quando houver mais


gatos do que ratos.

Variante: gatos e ratos só podem andar engatinhando.

Jogo 15 – Atenção à distância

Idade recomendada: 4 a 8 anos

Objetivo: adquirir conceitos espaciais (próximo/distante)

Dificuldade: média

Materiais: bolinhas leves

Tempo: 30 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador forma duplas homogêneas de crianças, depois distribui uma


bolinha a cada uma delas;

»» propõe que comecem a lançar a bolinha ao colega com as mãos de uma


distância muito curta, não inferior a um metro.

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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

Pode-se utilizar fita adesiva para demarcar as distâncias-limite.

»» o educador dirá: “Atire a bola bem devagar para que seu amigo consiga
pegar facilmente”;

A bola pode ser atirada de modo normal, para a frente, muito alto, formando uma
parábola, para o chão repicando para o companheiro. O educador sugere o tipo de lance
de acordo com a distância em que se encontram as crianças.

»» aumenta-se a distância, aos poucos até fazê-los lançar a bola bem distante,
dizendo: “agora caprichem para atirar a bola com força para que chegue
até seu companheiro”.

As crianças aprenderão, desse modo, a medir força e dosar a energia para cada jogada.

Jogo 16 – A teia de aranha

Idade recomendada: 3 a 8 anos

Objetivo: reforçar a agilidade e destreza nos movimentos

Dificuldade: fácil

Materiais: um rolo de barbantes, música.

Tempo: 60 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador, com a ajuda das crianças, constrói uma teia de aranha


gigante com o barbante, de aproximadamente 3 m x 3 m. Basta encontrar
pontos aos quais fixar os ângulos da teia, como por exemplo, as pernas de
cadeiras para amarrar o barbante.

Os ângulos podem ser seis ou oito e devem ser afixados a mesma altura, a 35 cm do chão.

Quando a teia de aranha é concluída, coloca-se sobre ela em um ângulo, uma aranha
gigante (de plástico, papel ou espuma) e o jogo começa.

»» cada criança deve atravessar a teia de um lado ao outro arrastando-se


pelo chão;

»» o educador dirá: “cuidado para não encostar na teia nem de leve, pois
senão a aranha desperta e pega vocês”;

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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

»» a criança que tocar a teia fazendo-a mexer-se é eliminada;

»» depois disso, a dificuldade aumenta e as crianças devem atravessar a teia,


em pé, pelos espaços vazios;

»» por fim, os maiores devem fazer o mesmo em duplas, com as mãos unidas
ou com um elástico prendendo-os pela cintura.

Jogo 17 – O elástico

Idade recomendada: 3 a 8 anos

Objetivo: conhecer figuras geométricas

Dificuldade: fácil

Materiais: fita elástica, música, espaço amplo

Tempo: 30 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador forma duplas de criança e entrega a cada uma um elástico


(aprox. 2 m de comprimento);

»» as crianças se moverão ao ritmo da música com o elástico colocado na


altura da cintura, primeiro uma de costas para a outra, depois uma de
frente para outra. Os elásticos não devem enlear-se com os das outras
duplas;

»» na sequência, o educador convida as crianças a formarem figuras


geométricas sempre com o elástico na cintura, em grupos de três ou de
quatro crianças;

»» em três formarão um triângulo e, em quatro, um quadrado ou retângulo;

»» o educador orienta as crianças a deslocarem-se para encontrarem o


ângulo e a distância correta e as convida a descrever as formas;

»» por fim, em trios, pode-se brincar de pular o elástico. Duas o mantém


esticado na altura da cintura e a terceira, no centro, salta dentro e fora
aumentando a cada vez a altura do elástico;

»» ao primeiro erro, perde a vez e outra criança vai para o centro.

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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

Jogo 18 – Brincando com giz


Idade recomendada: 5 a 8 anos

Objetivo: desenvolver a coordenação motora em espaços delimitados

Dificuldade: complexo

Materiais: gizes coloridos

Tempo: 30 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador desenha com giz ou fita adesiva colorida um percurso


composto de casas quadradas, com um ponto de partida e um de chegada.
O tamanho do percurso dependerá do espaço à disposição;

»» em cada casa se desenha um círculo colorido com até quatro cores


diferentes. Cada cor indica a posição que a criança deve assumir naquela
casa;

»» o educador mostrará o percurso às crianças sentadas de frente;

»» quando vocês estiverem na casa com o círculo vermelho, deverão ficar


equilibradas em um pé só;

»» no círculo verde, com os dois pés;

»» no amarelo, deverão ficar com os dois pés e mãos no chão;

»» no círculo azul, devem equilibrarem-se em um pé com uma mão no chão.

Para que as crianças memorizem melhor os comandos, deve-se começar utilizando


apenas círculos de duas cores, vermelho e verde e, se faz cada criança realizar o percurso
por vez, depois se acrescentam outras duas cores.

As crianças serão os juízes enquanto observam os companheiros. A cada erro se pode


recomeçar, do início, uma vez apenas.

Jogo 19 – Jogando com aros

Idade recomendada: 3 a 6 anos

Objetivo: adquirir conhecimentos espaciais

Dificuldade: fácil
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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

Materiais: aros, música.

Tempo: 25 minutos

Desenvolvimento:

»» as crianças se colocam de pé espalhadas a boa distância umas das outras,


cada uma tem um aro na mão;

»» o educador liga a música e as crianças devem mover-se de acordo com as


indicações que, a cada pausa na música, o educador faz.

Os comandos são os seguintes:

»» caminhar dentro do aro;

»» caminhar fora do aro;

»» caminhar em volta do aro;

»» caminhar em cima do aro;

»» saltar para dentro e para fora do aro;

»» segurá-lo acima da cabeça;

»» segurá-lo às costas;

»» segurá-lo do lado esquerdo, do lado direito.

Cada criança pode deslocar o seu aro, ficando imóvel o mantê-lo imóvel enquanto ela se
desloca conforme for solicitado pelo educador.

»» “Agora segure o aro à sua frente use-o como se fosse um volante”.

As crianças cainharão fingindo estar dirigindo um caminhão com as mãos ao volante.


Com as crianças maiores, se pode experimentar fazer o aro girar sobre si mesmo no
chão e pular por dentro dele quando ainda está girando.

Jogo 20 – Jogando com balões

Idade recomendada: 3 a 8 anos

Objetivo: reforçar a coordenação motora e a orientação em um espaço delimitado

Dificuldade: fácil

Materiais: fita adesiva, balões


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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

Tempo: 30 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador desenha um quadrado no chão com fita adesiva colorida


(2mx2m), depois entrega um balão a cada criança sentada;

»» quatro crianças são chamadas a cada vez para jogar dentro do quadrado.
Não devem sair desse espaço delimitado e devem cuidar para que seu
balão não caia no chão, do lado de fora;

»» o educador diz: “Cuidado! Dê uma palmada no balão lançando-o para o


alto, não o deixe cair no chão”;

»» cada vez que um dos balões cai no chão ou sai do quadrado, o grupo todo
sai e dá lugar a novo grupo.

Todos os grupos podem repetir o jogo, ao menos duas vezes, para pegarem prática.
Ao final, quatro crianças escolhidas entram no quadrado e as outras formam ao redor
delas. As do centro devem bater nos balões lançando-os para fora do quadrado, enquanto
quem está ao redor, bate tentando fazê-los retornar para dentro do quadrado.

Jogo 21 – Boliche

Idade recomendada: 4 a 8 anos

Objetivo: reforçar a agilidade e destreza nos movimentos

Dificuldade: média

Materiais: um rolo de barbantes, música

Tempo: 30 minutos

Desenvolvimento:

»» prepara-se, com dois bastões de madeira, uma pista de boliche mais ou


menos longa, de acordo com a dificuldade que se deseja aplicar ao jogo;

»» no fim da pista, posicionam-se os pinos ou, então, latas vazias em forma


de pirâmide;

»» as crianças formam uma fila e, uma de cada vez, lançará sua bola para
derrubar o máximo de pinos ou latas possível;

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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

»» a primeira partida pode ser realizada com uma distância pequena de


lance, para ir aumentando-a em seguida;

»» também se pode variar os tipos de bola utilizados par aumentar o grau de


dificuldade, por exemplo, de bolas de futebol a bolas de tênis. Quando a
criança derruba apenas um pino ou lata, tem direito a um novo arremesso.
Vence quem derrubar todos em sua jogada.

Jogo 22 – Como flocos de neve

Idade recomendada: 3 a 6 anos

Objetivo: reforçar o domínio dos deslocamentos

Dificuldade: fácil

Materiais: souvenir, música

Tempo: 20 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador convida as crianças a observar um daqueles souvenires


com neve falsa e, agitando-o, as faz verem como os flocos de neve em
movimento, vão caindo por toda a superfície de maneira homogênea;

»» o educador diz: “Nós somos como esses flocos de neve e quando nos
movermos vamos ocupar todo o nosso espaço, sem deixar nenhum lugar
vazio”;

»» as crianças ficam de pé e aguardam o comando do educador que, ao som


da música, as faz caminhar, correr, saltar ou arrastarem-se;

»» as crianças devem mover-se preenchendo todos os espaços vazios,


mudando constantemente de posição e direção.

Jogo 23 – Um, dois, três... estrela!

Idade recomendada: 4 a 8 anos

Objetivo: reforçar o senso de orientação espacial

Dificuldade: média

Materiais: papel branco, canetas, venda.


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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

Tempo: 25 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador prepara uma cartolina grande para prender na parede, no


centro, desenhará uma estrela bem grande;

»» na frente da cartolina, deve haver um espaço de, ao menos, 4 metros para


ser percorrido sem obstáculos;

»» uma criança por vez se coloca a distância, no ponto de partida, diante


da estrela;

»» em seguida, será vendada e deve caminhar com os braços abertos para


frente, rumo à estrela até tocá-la. Quem toca o ponto mais central é
o vencedor.

Sobre a cartolina será marcado o nome de cada criança e o ponto exato onde tocou,
para verificar e comparar os resultados. É importante que cada criança, antes de ser
vendada, tenha tempo de visualizar e memorizar o espaço a percorrer.

Jogo 24 – Minigolfe

Idade recomendada: 4 a 8 anos

Objetivo: adquirir coordenação ocular e manual

Dificuldade: média

Materiais: bastões, bolinhas e arcos de papelão.

Tempo: 60 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador pode criar um campo de minigolfe com arcos, túneis,


triângulos de papelão, cadeiras ou outros materiais. Os obstáculos
devem permitir que a bolinha possa facilmente superar, para as tacadas
utilizam-se bastões de madeira e bolinhas de plástico duro ou borracha),
suficientemente pesadas;

»» começa o jogo;

»» cada criança, em fila, espera por sua vez para jogar;

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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

»» se conseguir superar o primeiro obstáculo, pode continuar com o segundo


e, assim por diante até terminar o percurso.

Caso contrário, aguardará novamente por sua vez para continuar do mesmo lugar.
Vence quem consegue chegar ao final com o menor número de tacadas.

Jogo 25 – O detector

Idade recomendada: 3 a 5 anos

Objetivo: adquirir conhecimento do espaço (grande – pequeno)

Dificuldade: fácil

Materiais: bastõezinhos, papelão e giz.

Tempo: 20 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador prepara dois detectores de metal com um bastãozinho e


um círculo de papelão, um com um círculo muito grande, outro com
um pequenino. Em seguida, desenha no chão, com um giz, um círculo
bastante amplo e, um pouco distante, um círculo pequeno;

»» começa o jogo;

»» as crianças correm fora dos círculos formando um oito em volta deles;

»» ao som do apito, o educador levanta um detector: se for o grande,


as crianças devem parar no círculo grande e, se for o outro, devem
posicionar-se no círculo pequeno. Quem erra é eliminado e o jogo continua
com as crianças restantes.

Jogos de equilíbrio
O jogo de equilíbrio é um divertimento para a criança à medida que possibilita que
esta experimente posições com as quais não está familiarizada. É importante para a
capacidade de regular a tonicidade muscular, saber dosar a energia motriz, melhorando
a segurança, os reflexos e a coordenação em geral.

As posições de equilíbrio proporcionam melhorias à capacidade de autocontrole


e, a percepção do eixo de simetria corporal reforça a lateralização. Os exercícios se
subdividem em equilíbrio estático e dinâmico.
54
JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

Jogo 1 – O flamingo

Idade recomendada: 3 a 6 anos

Objetivo: treinar uma posição de equilíbrio estático

Dificuldade: fácil

Materiais: música

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

»» educador explica o jogo às crianças organizando-as em pé e espalhadas a


sua frente;

»» “Vocês sabem como dorme o flamingo”? Dorme equilibrando-se em uma


só perna, mantendo a outra dobrada perto do abdômen. Experimentem
descansar como flamingos!”;

»» depois de experimentar mais de uma vez na posição, de ambos os lados,


o educador liga a música e faz com que as crianças se movam no ritmo;

»» quando interrompe a música, as crianças devem assumir a posição de


equilíbrio;

»» se a música for agitada, naturalmente será mais difícil a parada repentina


em equilíbrio;

»» gradualmente, o educador aumentará o tempo de mobilidade, de 3 a 10


segundos.

Jogo 2 – O funâmbulo (acrobata)

Idade recomendada: 3 a 5 anos

Objetivo: experimentar o equilíbrio dinâmico

Dificuldade: fácil

Materiais: fita adesiva, giz

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

»» o educador desenhará uma linha longa com fita adesiva colorida no


centro do espaço;

»» as crianças devem caminhar em fila, um pé na frente do outro, em cima


da linha;

»» o educador dirá: “Somos como funâmbulos, estamos caminhando em


cima de um fio! Vamos abrir os braços, mantendo o olhar para a frente;

»» o educador desenha uma linha ondulada com giz e convida as crianças


para caminhar em cima. “É mais fácil ou mais difícil?” Por que, na opinião
de vocês?”

Jogo 3 – Um caminho perigoso

Idade recomendada: 3 a 6 anos

Objetivo: reforçar o equilíbrio dinâmico

Dificuldade: média

Materiais: cubos ou bancos de madeira ou plástico

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

»» no centro da sala, o educador traçará um caminho imaginário com cubos


ou bancos (com menos de 20 cm de altura), de um lado a outro da sala;

»» dirá: “Agora crianças, devemos atravessar o rio caminhando sobre essas


pedras, cuidem para não molhar os pés”;

»» caminhando lentamente, as crianças fazem o percurso várias vezes, uma


depois da outra, mantendo uma distância adequada.

Jogo 4 – O manuseador de fantoches

Idade recomendada: 3 a 5 anos

Objetivo: experimentar posturas diversas

Dificuldade: fácil

Materiais: um fantoche de madeira


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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

Tempo: 20 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador convida as crianças, colocadas espalhadas a sua frente, a


imitar as posições que o fantoche em suas mãos assumirá;

»» o próprio educador, de vez em quando, também muda de posição dizendo:


“Devemos fazer tudo que o boneco faz, prestem atenção às suas posições.
As posições serão:

›› ficar em um pé só, com a perna esticada para frente;

›› ficar em um pé só, com a perna dobrada para frente;

›› ficar em um pé só, com a perna esticada para a lateral etc.

Experimentam-se diferentes posições com ambas as pernas, acrescentando-se também


aposição dos braços (para o alto, frente etc.)

Jogo 5 – Os garçons

Idade recomendada: 4 a 8 anos

Objetivo: experimentar coordenação e equilíbrio em movimento

Dificuldade: média

Materiais: fita adesiva, pratos de plástico, objetos (comida de brinquedo), mesas e cadeiras

Tempo: 25 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador prepara um percurso retilíneo com duas linhas paralelas de


fita adesiva colada no chão;

»» entrega a cada criança, dois pratos com objetos leves dentro;

»» convida as crianças a caminharem dentro do percurso traçado, segurando


os pratos sobre as duas mãos. “Vocês são garçons e devem entregar a
comida sem deixar nada cair”. “Se alguma coisa cair, tem que recomeçar
todo o percurso”.

Na chegada, podem apoiar os pratos sobre uma mesa. Com as crianças menores
pode-se utilizar um só prato.

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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

Jogo 6 – O jogo do estropiado

Idade recomendada: 4 a 6 anos

Objetivo: experimentar equilíbrio em movimento

Dificuldade: média

Materiais: tamborim

Tempo: 25 minutos

Desenvolvimento:

»» as crianças ficam em fila espaçadas umas das outras e, ao ritmo do tamborim,


deverão saltar com um pé, mudando de perna quando o educador der
o sinal: “Vamos contar até dois e mudar de perna. Atenção ao ritmo.
Um, dois, mudando...”;

»» o educador aumentará a dificuldade à medida que as crianças vão


adquirindo confiança e segurança no jogo.

De dois saltos pode-se chegar até dez, saltando com um pé só. Por fim, pode-se fazer
uma disputa, duas por vez, vence que atinge a linha de chegada sem encostar o pé
no chão.

Jogo 7 – A bolinha na colher

Idade recomendada: 5 a 8 anos

Objetivo: aumentar a destreza e coordenação motora com uso de objetos

Dificuldade: complexa

Materiais: colheres de plástico, bolinhas de pingue-pongue

Tempo: 30 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador traça uma linha de chegada com fita adesiva, entrega a cada
criança a colher e a bolinha, dizendo: “vocês devem segurar a colher
com a boca e colocar em cima a bolinha, cuidado para não a deixar cair”.
Proibido usar as mãos.

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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

As crianças, em grupo de quatro, devem percorrer o trajeto até a linha de chegada com
a colher na boca, andando de gatinhas. Em um segundo momento, pode-se tentar o
trajeto em pé com as mãos atrás das costas.

Jogo 8 – Duplas em equilíbrio

Idade recomendada: 4 a 8 anos

Objetivo: reforçar o equilíbrio estático

Dificuldade: média

Materiais: nenhum

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador forma duplas, se possível da mesma altura, depois diz: “agora


fiquem uma de frente para a outra e deem as mãos”;

»» as crianças deverão levantar uma perna de cada vez esticada para trás ao
mesmo tempo, sem cair e sem fazer cair o colega;

»» a mesma coisa, com a perna esticada para o lado;

»» à medida que adquirem segurança, devem manter as posições por mais


tempo;

»» em seguida, o educador dirá: “agora coloquem-se de costas, uma contra a


outra, segurando-se pelos braços entrelaçados”.

O educador mostra a posição. Nessa posição, levantam uma perna para frente e depois
a outra.

Jogo 9 – O muro

Idade recomendada: 4 a 8 anos

Objetivo: reforçar a capacidade de manter uma posição estática

Dificuldade: média

Materiais: nenhum

Tempo: 10 minutos
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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

Desenvolvimento:

»» o educador coloca as crianças espalhadas e explica o exercício


colocando-se diante delas, dizendo: “somos como muros, os muros não
se mexem, mas são fortes”. Depois acrescenta: “agora levantem os braços
perto das orelhas com as palmas viradas para a frente”;

»» nessa posição, as crianças são convidadas a ficarem na ponta dos pés e


permanecerem paradas.

Tentar várias vezes convidando as crianças a ficarem eretas e, ao mesmo tempo,


esticarem-se para o alto.

Jogo 10 – Os pássaros

Idade recomendada: 4 a 8 anos

Objetivo: reforçar o equilíbrio estático usando posições não rotineiras

Dificuldade: média

Materiais: nenhum

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador em pé, na frente das crianças, mostra-lhes a posição estática


do pássaro e diz: “façamos de conta que estamos voando no céu, como os
pássaros no ar”.

Primeiro as crianças experimentarão posições simples, com os braços abertos, uma


perna recolhida atrás, mantendo a posição assumida; depois tentarão levantar uma
perna esticada para trás um pouco mais. Por fim, esticarão a perna para trás projetando
o peito para frente.

Quando tiverem adquirido segurança com ambas as pernas, podem experimentar a


posição definitiva.

»» o educador dirá: “agora, crianças, vamos tentar levantar a perna e dobrar o


joelho, projetando o peito para a frente e os braços abertos virados para trás;

»» “agora somos verdadeiros pássaros. A perna de trás é a cauda e os braços


as nossas asas”.

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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

Pode-se fazer uma competição para ver quem mantém a posição por mais tempo.

Jogo 11 – Os elefantes

Idade recomendada: 3 a 5 anos

Objetivo: experimentar novos esquemas motores

Dificuldade: fácil

Materiais: música (calma)

Tempo: 10 minutos

Desenvolvimento:

»» as crianças caminham com ajuda da música como se fossem grandes


elefantes: mãos e pés no chão, braços e pernas esticados;

»» o educador diz: “os elefantes são muito pesados e se movem lentamente”;

»» quando para a música, as crianças se detêm, levantam um braço e mantêm


a posição;

»» o educador diz: “os elefantes balançam a tromba”.

Jogo 12 – A vela

Idade recomendada: 4 a 8 anos

Objetivo: reforçar o equilíbrio e a tonicidade muscular

Dificuldade: média

Materiais: nenhum

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

»» as crianças deitam de costas no chão e devem levantar as pernas juntas,


esticadas para o alto e depois retorná-las;

»» em seguida, levantam também a bacia com a ajuda das mãos, glúteos e


abdômen contraídos para manter a posição;

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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

»» o educador ajudará as crianças a esticarem-se com os pés para o alto e


enrijecendo o corpo enquanto diz: “vamos ver qual é a vela mais alta:
estiquem os pés para perto do teto!”;

»» em seguida, dirá: “agora vamos fazer o jogo das velas. Quando digo ‘velas
acesas’, vocês esticam os pés para o alto, quando digo ‘velas apagadas’,
vocês baixam as pernas.

Jogo 13 – Circuito interrompido

Idade recomendada: 3 a 6 anos

Objetivo: reforçar o equilíbrio dinâmico

Dificuldade: fácil

Materiais: fita adesiva

Tempo: 20 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador traça com a fita adesiva um circuito quadrado interrompido em


alguns pontos. Pode ser também concêntrico para aumentar a dificuldade;

»» as crianças, em fila, deverão caminhar colocando um pé, ante pé e saltando


quando há pontos de interrupção da linha, cuidando para pisar sempre
nesta. O mesmo pode ser feito caminhando na ponta dos pés. A distância
dos saltos será com base a dificuldade que se quer imprimir ao jogo
(de 30 a 60 cm ou mais).

Jogo 14 – A roda bamba

Idade recomendada: 4 a 6 anos

Objetivo: aumentar os reflexos e a capacidade de adaptação postural

Dificuldade: média

Materiais: nenhum

Tempo: 15 minutos

Desenvolvimento:

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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

»» as crianças ficam de pé e formam um círculo segurando-se pelas mãos;

»» o educador mostrará posições diferentes de equilíbrio que todos devem


assumir juntos e dirá: “agora vamos levantar a perna para a frente e
permanecer assim. Vamos tomar cuidado para não perder o equilíbrio e
não soltar as mãos”;

»» agora a outra perna, se alguém estiver caindo, os outros devem ajudá-lo


a equilibrar-se.

Pode-se tentar também, com uma perna esticada para trás ou dobrando o joelho e
erguendo a perna e abaixando-a ou, ainda, saltarem todos juntos.

O mesmo exercício pode ser realizado segurando-se pelas mãos sobre os ombros dos
companheiros do lado. Mais difícil é tentar sentar no chão com as pernas cruzadas e
conseguir levantarem-se todos juntos.

Jogo 15 – A luta dos pintinhos

Idade recomendada: 5 a 8 anos

Objetivo: reforçar destreza e resistência

Dificuldade: complexa

Materiais: nenhum

Tempo: 30 minutos

Desenvolvimento:

»» as crianças sentam-se no chão em forma de círculo;

»» em duplas, irão ao centro da roda para desafiarem-se na luta dos pintinhos;

»» os dois participantes ficam de cócoras e devem saltar de modo a


desequilibrar o adversário e fazê-lo cair;

»» ao sinal do educador, começa a disputa.

Os lutadores devem dar pequenos impulsos de lado com a parte externa do braço
dobrado, mantendo-se em equilíbrio ao saltar sem levantar da posição de cócoras.
Cada vez que uma criança cair, passa-se a outra dupla.

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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

Jogo 16 – Enchendo a cesta

Idade recomendada: 5 a 8 anos

Objetivo: adquirir destreza e novas habilidades motoras

Dificuldade: complexa

Materiais: bolas de tênis, cestos, recipientes grandes (lixeiras), pinos de boliche,


obstáculos, aros e outros materiais para fazer percursos.

Tempo: 30 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador prepara dois percursos paralelos, com cestos contendo


bolinhas, com cerca de 2 m de distância entre si. Divide as crianças em
dois times e cada time entrega um cesto para segurarem;

»» a primeira criança da fila tem nas mãos seu cesto para encher;

»» ela irá apanhar tantas bolinhas quanto puder, saltando em um pé, até
alcançar a linha de chegada onde derramará as bolinhas no cesto do time.

A bola pode ser atirada de modo normal, para frente, muito alto, formando uma
parábola, para o chão repicando para o companheiro. O educador sugere o tipo de lance
de acordo com a distância em que se encontram as crianças.

»» entre um cesto e outro poderá trocar de pé;

»» quando os dois primeiros participantes tiverem enchido seu cesto podem


partir os dois seguintes e assim, até todos da fila.

Vence a equipe que conseguir mais bolinhas, descartando-se as que caírem no chão.

Jogo 17 – A ponte

Idade recomendada: 3 a 5 anos

Objetivo: reforçar o equilíbrio dinâmico

Dificuldade: fácil

Materiais: mesas, colchonetes

Tempo: 20 minutos
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JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

Desenvolvimento:

»» o educador prepara uma rota de mesas em sequência e próximas e um


colchonete de chegada, depois coloca as crianças em fila diante do ponto
de partida e diz: “agora crianças atravessaremos uma ponte perigosa.
Embaixo há um grande precipício. Não olhem para baixo!;

»» uma criança a cada vez, com a ajuda do educador, caminhará por cima das
mesas até o ponto de chegada, onde deverá lançar-se sobre o colchonete.

Das mesinhas, se pode passar para um eixo de equilíbrio. As crianças menores podem
dar a mão ao educador para se sentirem mais seguras, até que adquiram a confiança
necessária.

Jogo 18 – O desfile

Idade recomendada: 4 a 8 anos

Objetivo: adquirir uma postura correta e equilíbrio em movimento

Dificuldade: média

Materiais: livros

Tempo: 35 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador coloca as crianças em fila entrega à primeira um livro ou outro


objeto para colocar sobre a cabeça;

»» cada criança deve caminhar até uma linha de chegada e retornar para a
fila com o objeto na cabeça, sem deixá-lo cair;

»» se cair, deve repetir o percurso e, na volta, entrega o livro à próxima da


fila, que fará o mesmo trajeto e, assim por diante, até que todas tenham
conseguido fazer seu desfile corretamente;

»» em seguida, o educador divide as crianças em duas filas para que desfilem em


duas de uma vez. Aquela que for e voltar em menos tempo será a vencedora.

Jogo 19 – salto em altura

Idade recomendada: 3 a 8 anos

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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

Objetivo: adquirir destreza, elevação e equilíbrio

Dificuldade: fácil

Materiais: elástico

Tempo: 30 minutos

Desenvolvimento:

»» as crianças ficam em fila espaçadas umas das outras e ao ritmo do tamborim


deverão saltar com um pé mudando de perna quando o educador der o
sinal: “Vamos contar até dois e mudar de perna. Atenção ao ritmo. Um,
dois, mudando...”;

»» o educador aumentará a dificuldade à medida que as crianças vão


adquirindo confiança e segurança no jogo.

Jogo 20 – O baile da bola

Idade recomendada: 4 a 6 anos

Objetivo: melhorar a atenção e a destreza utilizando um objeto

Dificuldade: média

Materiais: música, bola

Tempo: 25 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador forma duplas de crianças da mesma altura e entrega a cada


uma uma bola;

»» as duplas deverão se posicionar segurando a bola na altura da testa


evitando usar as mãos;

»» a bola deve ser equilibrada apenas se usando a testa de uma contra a da


outra;

»» as crianças devem deslocar-se de acordo com o ritmo da música, mantendo


a bola firme no alto, sem deixa-la cair;

»» depois de alguns minutos de treino, o educador dá início ao jogo;

66
JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

»» quando a música para se pode pegar a bola com as mãos, quando recomeça,
se retorna à dança.

Cada vez que a uma dupla deixa a bola cair ou a segura com as mãos é eliminada e as
outras prosseguem até que sobre uma dupla, a campeã.

Jogo 21 – As pegadas

Idade recomendada: 4 a 6 anos

Objetivo: desenvolver coordenação e lateralidade

Dificuldade: média

Materiais: folhas de papel colorido, lápis, tesoura, fita adesiva

Tempo: 45 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador convida as crianças a tirarem os calçados e desenharem nas


folhas de papel colorido seus próprios pés uma vez traçado o contorno,
os recorta com tesoura;

»» o educador posiciona os pés de papel colorido colando-os no chão, de


modo que forme um longo trajeto. Naturalmente, colocará os pares
próximos (esquerdo e direito);

»» as crianças, uma após a outra, deverão caminhar sobre seus pés de papel,
cuidando para não pisar fora do caminho das pegadas;

»» em fila, caminham lentamente diversas vezes sobre as pegadas no chão;

»» em seguida, o educador as convida a aumentar a velocidade e, por fim,


a correr e, inclusive, saltar com os pés juntos pisando a cada vez um par
de pegadas.

Jogo 22 – Sobe e desce

Idade recomendada: 4 a 6 anos

Objetivo: melhorar a destreza e o equilíbrio dinâmico

Dificuldade: média

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UNIDADE II │ JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO

Materiais: barras de equilíbrio, colchonetes, mesinhas, cadeiras, cubos, aros ou outros


objetos e materiais.

Tempo: 20 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador com a ajuda das crianças constrói um trajeto com mesas,


cadeiras, colchonetes, barras de equilíbrio, aros e outros materiais: o
importante é formar um sobe e desce contínuo.

Por exemplo, partir subindo numa cadeira e saltar para dentro de um aro no chão, subir
a barra de equilíbrio e pular sobre um colchonete, subir em uma mesa e descer pisando
em cubos etc.

»» as crianças, em fila, percorrerão, com muito cuidado, o percurso, uma


por vez, primeiro lentamente e depois cada vez mais rápido. Repete-se
várias vezes.

Jogo 23 – De olho na cor

Idade recomendada: 5 a 8 anos

Objetivo: reforçar agilidade e destreza

Dificuldade: complexa

Materiais: giz colorido, papelões coloridos, canetas hidrocor, fita adesiva

Tempo: 60 minutos

Desenvolvimento:

»» o educador prepara o espaço-jogo com gizes coloridos ou papelão.


Deverá desenhar ou recortar quadrados fixando-os com fita no chão.
Depois, prepara cartas com as cores correspondentes aos quadrados do
espaço-jogo.

Um maço onde será representado o pé e um maço onde será representada a mão. Em


seguida passa à explicação das regras do jogo:

»» podem jogar apenas três ou quatro crianças de cada vez;

»» para cada criança será pescada uma carta “mão” e outra “pé”;

68
JOGOS E PERCURSOS DA PSICOMOTRICIDADE: CRIANÇAS EM MOVIMENTO │ UNIDADE II

»» cada uma na sua vez, se moverá sobre o espaço-jogo depois de identificar


suas cores;

»» deverá apoiar uma mão na cor indicada pela carta (por exemplo mão no
vermelho) e um pé na cor indicada na segunda carta;

»» a criança é quem escolhe se usa a mão ou o pé esquerdo ou direito para


apoiar no quadrado das cores indicadas pelas cartas, conforme a posição
em que se encontra.

O importante é que tenha dois apoios nas caselas coloridas indicadas (a mão e o pé
restantes ficam apoiados fora das caselas):

»» à medida que o educador pesca as cartas, as crianças precisam decidir


quais novas posições adotar para alcançar suas cores;

»» para passar de uma posição para outra, porém, devem manter sempre
dois apoios nas caselas.

A partida termina quando a primeira criança cai ou não consegue mais alcançar as
posições indicadas pelas cartas.

69
O DESENHO INFANTIL UNIDADE III

CAPÍTULO 1
Desenho infantil: o olhar da arteterapia

A criança, o desenho, a criatividade e


os símbolos
Ao desenhar a criança está passando para o papel imagens mentais. Transforma o que
está em sua mente em arte como forma de linguagem. Tem como objetivo, demonstrar
alguma coisa. São diversos os estágios pelos quais passa a criança até que possa desenhar
e usar essa linguagem.

Pode-se conceituar o desenho como representação ímpar visto que cada qual tem um
traçado, uma maneira de repassar uma ideia com o uso de imagens, signos e símbolos.

Quem essa criança que desenha? É uma criança que gosta de brincadeiras com objetos
diversos transformando tudo que a rodeia em objetos lúdicos. Não se detém em uma
única atividade e irá se interessar pelos desenhos e os fará em qualquer lugar.

O desenho para as crianças é algo sem compromisso. Nota-se que, normalmente,


enquanto o fazem estão alheias ao ambiente, se falam, é com o próprio desenho. Mas,
não nos enganemos, nos desenhos há quase sempre uma história a ser contada. Podem
se referir há momentos que passou, está passando ou gostaria de passar e que, com o
tempo, os desenhos não serão mais espontâneos, procurarão desenhar formas mais
perfeitas preocupadas com a avaliação que será feita.

A criança faz suas primeiras tentativas de se comunicar com os adultos por meio
de garatujas e rabiscos. O tema abordará a família, seus brinquedos, locais aonde
vai ou gostaria de ir. Mas, até então, não é possível compreender o que ali está
representado, pois se parecem uns com os outros, embora para ela, cada desenho tem um
significado único.

70
O DESENHO INFANTIL │ UNIDADE III

Tais desenhos têm o objetivo de ser um divertimento solitário, talvez mesmo pela
característica comum da idade, o egocentrismo. No entanto, os desenhos refletem
suposições, aglomera conhecimentos, apresenta relações e vivências.

Ao desenhar está criando cenários, as próprias histórias, se comunicando, seu mundo


particular e o contato com o mundo que a rodeia e como forma de estar nele. Há uma
mistura daquilo que realmente são fatos de seu consciente, com aqueles que vêm
inconscientemente pela falta de maturidade para se expressar.

Ainda que haja uma situação comum a várias crianças, os desenhos não serão os
mesmos. Os objetos desenhados, casas, árvores, pessoas terão características próprias
a cada uma delas. Não se tolde, pois, a criatividade inata de cada um com comentários
como “não é dessa forma que se faz”...”vou mostrar como é...”. Para um adulto, pode não
ser a representação correta deste ou daquele objeto, mas para a criança que o desenhou,
está impecável.

O processo criativo deve ser desenvolvido com desenhos de tema livre, não estamos nos
referindo aos desenhos impressos para colorir. Como aprendizagem, esses não agregam
absolutamente nada à criança. O arteterapeuta deve saber olhar o que aparece no
desenho, entrever os traços da imaginação e dos sonhos ali inseridos, os dois mundos,
real e social, do autor.

Segundo Jung (in FURTH, 2006), os desenhos são portadores dos símbolos do
inconsciente, podem esses serem representados e trazido à luz pelas imagens e símbolos
que estão nos desenhos.

Etapas do desenho

O desenvolvimento das etapas de desenho independe da cultura, local ou etnia da


criança. Segundo Marthe Berson (apud RABELLO, 2014, p.55), as etapas são em
número de 3 e acontecem por volta de dois anos de idade:

1. estágio vegetativo motor – caracteriza-se pelo surgimento de um traçado


mais autêntico e pessoal. Isso acontece por volta de um ano e seis meses
quando surgem movimentos como se fossem descargas motoras, que se
assemelha às dos rabiscos onde o motor é dominante.

2. estágio representativo – surge por volta de dois a três anos e se


caracteriza pelo surgimento de algumas formas, mesmo que não muito
consistentes. O traçado agora não é mais uma descarga motora, são
traçados descontínuos, que acontecem separadamente. Nesta etapa, as

71
UNIDADE III │ O DESENHO INFANTIL

produções são mais lentas, isso porque a criança tenta fazer a reprodução
de algum objeto e requer mais observação. Juntamente com esse desenho
acontecem os comentários sobre ele.

3. estágio comunicativo – surge mais tarde, por volta de três a quatro anos.
Caracteriza-se por uma imitação das produções adultas, podendo ser
entendida como uma forma de escrever por meio de seus desenhos, com
representações verticais e onduladas ou ainda, com bicos angulares.

Segundo Luquet (apud RABELLO, 2014, p.56), registra-se algumas fases do desenho
infantil: realismo fortuito, estágio que acontece quando a criança já tem por volta de
dois anos de idade e surge logo após a etapa dos rabiscos e garatujas.

Esta etapa é bastante significativa por caracterizar-se pelo reconhecimento das


formas que desenha, apesar de não haver a intenção anterior à realização do desenho,
ainda não tem a noção exata de como fazer as formas para as suas representações,
ao olhar seus desenhos, a criança começa a nomeá-los. Os desenhos são mais
figurativos, embora os rabiscos não desapareçam de vez, por vezes complementando
o desenho. O início da configuração traz o surgimento das figuras humanas.
Existe uma fase de permeio que segue a esta e antecede a seguinte, a do realismo fracassado,
com produções diversas em busca da representação de objetos, mas nem sempre com
sucesso.

A etapa subsequente denomina-se realismo intelectual por volta dos quatro anos se
estendendo até os dez, caracterizada pela representação dos desenhos, fazendo o que
conhece sobre o objeto e não o que visualiza. Utilizam-se dos recursos do plano deitado
e da transparência. O primeiro não apresenta perspectivas, é como uma planta baixa,
ou seja, o observador está em um plano acima daquele para o qual olha. O uso da
transparência revela-se ao mostrar o que deveria estar dentro, por exemplo, da casa ou
do corpo que é coberto pelas roupas.

A etapa que se segue é aquela em que a criança alcança o realismo visual, próximo aos
doze anos de idade. Aparecem as perspectivas, é o final do grafismo infantil e início à
produção adulta, desaparece a espontaneidade e aparece a crítica às próprias produções.

O desenho como uma representação simbólica

Jung (1968) afirmava que os desenhos trazem muitos conteúdos simbólicos residentes
em nosso inconsciente. O desenho, por si mesmo, é uma representação simbólica e assim,
vamos conceituar o que seja símbolo. O autor entende que os símbolos, diferentemente
dos sinais, vão além do que se vê, visto serem esses últimos, convenções criadas pelo

72
O DESENHO INFANTIL │ UNIDADE III

homem sem um significado em si mesmo, representam objetos, ordens comuns a uma


cultura ou grupo social.

A interpretação de símbolos não pode ser feita apenas considerando-se um único


desenho, precisam ser vistos como um todo, dentro do contexto de quem os desenhou.
Um símbolo nunca é o mesmo para todos os indivíduos sendo compreendido pela
percepção, intuição e não pelos meios racionais. Jung (2002) defende que os símbolos
apresentam aspectos e direções diferentes daqueles possíveis de perceber apenas com
a mente. Para se realizar então, a interpretação de desenhos, deveria focar o espaço
utilizado par estes, seus tamanhos, a pressão que é exercida nos traços, bem como as
cores predominantes.

O espaço

No início, fase das garatujas, os espaços são ocupados aleatoriamente normalmente


ocupando quase inteiramente e, por vezes, saindo do espaço da folha. Pelo olhar da
arteterapia, verifica-se a posição dos desenhos em relação ao espaço do papel, se o
lado preferido é o superior, inferior ou o centrado. Existem as linhas delimitam o
que é céu e o que chão? As figuras estão soltas no papel? As lateralidades usadas
nas folhas ou a centralização pode ser uma indicação de posturas perante a vida.
Obviamente, a criança não desenha da mesma forma que um adulto o faria, pois
ainda não tem o entendimento sobre formas e espaços, tamanhos e proporções para
representar o que deseja.

Na visão de Rabelo (2014, p. 68), a criança, no início, tem como espaço aquele que
abrange seu gesto tão amplo quanto o movimento de seus braços. À medida que vai
colocando as figuras de acordo com a emoção ou carinho que tem pelos personagens
faz surgir o espaço, que é o afetivo ou emocional, que lhe permite a colocação de cada
elemento desenhado em diferentes locais da folha, mais perto ou longe delimitando
níveis diferentes de afetividade com eles.

Crotti e Magni (2011- apud.) fazem considerações sobre a localização das figuras na
folha, afirmam que esta forma de interpretar os desenhos pode ser entendida como
“simbolismo espacial”, onde cada área do papel tem um simbolismo. É de suma
importância enfatizar que ao se considerar desta forma, deve-se observar um conjunto
de produções e não apenas, uma única do mesmo autor.

Os desenhos podem estar distribuídos por diferentes espaços na folha. Alguns autores
observam que a parte inferior da folha é utilizada por crianças muito pequenas.
Segundo Rabelo (2014, p. 70), a área superior pode indicar aquela referente ao
pensamento ou intelecto, se do lado esquerdo, nesta mesma área, algo referente a
73
UNIDADE III │ O DESENHO INFANTIL

situações de recordação, se no meio, imaginação e, no lado direito os sonhos, o que


se deseja.

O espaço predominante nos desenhos é a área média que simboliza realidade e


naturalidade, se no meio ou à esquerda da folha. No meio, egocentrismo e no direito,
o futuro. A área inferior responde pela atitude ou maneira de ver o mundo, seu lado
esquerdo, pelo medo, o meio pela insegurança e, o direito pelo desejo.

Significado das cores


É notório que todos temos determinada cor como a preferida, aquela que, de alguma
forma ou razão, temos alguma identificação. O mesmo se dá com as crianças. Estas
também contêm alguns simbolismos que vão da agressividade à serenidade, embora
por si só, não são suficientes para que se façam afirmações.

A arteterapia analisa esses simbolismos com base no dicionário dos símbolos de


Chevalier e Gheerbrant (1982). Estamos cercados por cores, fazem parte de nossa vida.
Procuramos usar aquelas que por algum motivo gostamos e, quando determinada cor
não nos agrada, pode estar relacionado ou não a alguma passagem desagradável que
ficou no inconsciente. Diversos cientistas estudaram o relacionamento da luz com o
nosso psiquismo, mas não é objeto de nossa disciplina. Conforme alguns estudiosos,
cores como o vermelho e o amarelo são consideradas “adutoras” que podem propiciar
a extroversão. O azul e o vermelho se classificam como “abdutoras”, trazendo a
introversão. Isto nos leva à identificação das crianças intro e extrovertidas baseadas,
também, nessas informações e complementadas por todos os pormenores do desenho.
Em arteterapia, as relações com as cores, são as seguintes:

»» vermelho – relaciona-se ao elemento fogo e à função do sentimento por


ser a cor da paixão, do amor e do sangue;

»» azul – está relacionado à água e à função pensamento por ser a cor do


céu, do espírito e do plano psíquico;

»» amarelo – relaciona-se ao elemento ar e à função da intuição por ser a cor


da luz, do ouro e do sol;

»» verde – está relacionado à terra e à função da sensação por ser a cor da


natureza e do crescimento. Assim, os desenhos e suas pinturas podem ser
vistos por meio destas classificações e suas relações enriquecendo esta
visão sobre eles.

As cores usadas nos desenhos, devem ser vistas como sinais, possibilidades e uma
afirmação relacionada ao comportamento da criança. Assim, deve-se considerar se são

74
O DESENHO INFANTIL │ UNIDADE III

usadas sempre as mesmas cores, o que é constante e o que se repete etc. É possível se
deparar com desenhos sempre de uma mesma cor, mas deve-se considerar que haviam
outras cores à disposição e não foram utilizadas apenas por não querer ou, se algo está
sendo mostrado para que seja visto.

75
SONHOS DE CRIANÇAS UNIDADE IV

CAPÍTULO 1
Sonhos de crianças

Método de interpretação dos sonhos – Jung


Muitos dos sonhos trabalhados são relatados por adultos e não experimentados
diretamente pelas crianças. A impossibilidade de se interrogar diretamente as crianças
cria a dificuldade com os sonhos recordados e torna-se necessário a utilização de outras
maneiras para ampliar o material onírico e compreender o sonho.

No entanto, quando se consegue a informação diretamente das crianças outra dificuldade


surge: é provável que elas não forneçam quaisquer informações ou não faça associações
por conta do medo. A falta de associações advém da origem dos sonhos infantis, que é
a manifestação de parte do inconsciente que se encontra fora do tempo. Esses sonhos
primeiros são, especialmente, significativos, pois vêm do âmago da personalidade e,
normalmente, apresentam uma antecipação do destino.

Os sonhos posteriores se apresentam paulatinamente menos significativos salvo venham a


se tratar de um destino especial do sonhador. Há um ganho de significância dos sonhos
entre a puberdade e os vinte anos, mas que a partir daí perdem a importância que só
irá retornar por volta dos trinta e cinco anos de idade. Não é uma regra, mas maioria.

Sobre o sonho, ele não é um fenômeno natural, não é fruto de uma intenção. Não se explica
partindo de uma psicologia originada na consciência. Trata-se de uma forma específica
de funcionamento que independe de vontade ou desejo, de intenção ou objetivo
do “Eu” humano. Apenas acontece e há que se assimilá-lo. Todavia, jamais se tem
a certeza de acerto e, pode-se criar uma suposição com relação ao sentido de um
sonho verificando a seguir se tal significado explica outro sonho, ou seja, se tem um
significado mais geral.

76
SONHOS DE CRIANÇAS │ UNIDADE IV

A forma como os sonhos são explicados é, primeiramente, causal. Porém, surgem várias
dificuldades para a explicação, pois se faz necessária a comprovação do relacionamento
de causa e efeito. Essa relação só se torna viável quando se consegue isolar fenômenos
e submetê-los a experimentos. Mas, não com relação aos fenômenos biológicos, é difícil
estabelecer uma disposição que conduza a determinados efeitos, principalmente com o
material complexo com o qual se trabalha.

Assim, o termo “condicional” é mais adequado. Ou seja, determinadas condições


podem provocar determinados resultados. É uma tentativa de se diluir a casualidade
engessada juntando-se condições, ampliar a relação unívoca de causa e efeito por meio
dos vários significados que essa relação possa ter.

Segundo Jung (1936), existem diversas formas de significar os sonhos, conforme segue:

1. O sonho representa a reação inconsciente frente uma situação consciente.


Uma determinada situação consciente é seguida por uma reação do
inconsciente na forma de um sonho, trazendo conteúdos que – de
modo complementar ou compensatório – apontam claramente para a
impressão que se obteve durante o dia. É evidente que o sonho jamais
teria se formado na ausência de uma determinada impressão obtida no
dia anterior.

2. O sonho representa uma situação que é fruto do conflito entre consciência


e inconsciente. Nesse caso, não existe uma situação consciente que pode,
em maior ou menor grau, ser responsabilidade pelo mesmo, e sim,
lidamos aqui com certa espontaneidade do inconsciente. O inconsciente
acrescenta a uma determinada situação consciente.

3. outra situação, a qual difere de tal modo da situação consciente que se


forma um conflito entre ambas.

4. O sonho representa a tendência do inconsciente cujo objetivo é uma


modificação da atitude consciente. Nesse caso, a posição oposta
assumida pelo inconsciente é mais forte do que a posição consciente:
o sonho representa um declive que se origina no inconsciente e vai em
direção à consciência. Trata-se de sonhos especialmente significativos.
Podem transformar alguém que assume uma determinada atitude
por inteiro.

5. O sonho representa processos inconscientes que não evidenciam uma


relação com a situação consciente. Sonhos dessa espécie são muito
peculiares e, devido ao seu caráter estranho, não podem ser interpretados

77
UNIDADE IV │ SONHOS DE CRIANÇAS

facilmente. O sonhador se admira um tanto por sonhar algo assim, pois


nem mesmo uma relação condicional pode ser estabelecida. Trata-se de
um produto espontâneo do inconsciente que porta toda atividade e é
altamente significativo. São sonhos imponentes. Sonhos que os primitivos
designam de “sonhos grandes”. São de natureza oracular, “somnia a
deo missa” (sonhos enviados por Deus). São experimentados como
iluminação. Sonhos dessa espécie se manifestam, igualmente, antes da
eclosão de uma doença mental ou de neuroses graves nas quais irrompem
subitamente um conteúdo que impressiona o sonhador profundamente,
mesmo quando não o compreende.

Casos reais (Seminários de Jung)


O sonho de um menino por volta dos nove anos

O sonho com as três mulheres jovens

Apresentação: Dr. Markus Fierz

Tive um sonho: A rua me levava a um estranho estabelecimento comercial. Richard e


eu descemos. Três mulheres jovens estavam sentadas em uma mesinha atrás do balcão.
Davam-nos bastonetes vermelhos, sem que tivéssemos que pagar por isso e que se
pareciam com lacre de cera que pode ser fumado. Colocamos os bastonetes na boca e
começamos a fumar. Cambaleei para fora do estabelecimento comercial, estava tonto
e enjoado.

Dr. Fierz: Dividi o sonho da seguinte maneira:

1. Início e local: essa parte do sonho se estende até o momento onde as três
mulheres jovens são mencionadas.

2. Desenvolvimento: entrega dos bastonetes vermelhos.

3. Peripécia: fumar.

4. Lýsis: cambalear para fora, tontura, enjoo.

O local: a rua é o mundo da consciência coletiva. O que acontece aqui é de ordem


cotidiana, é comum. A rua então faz um desvio e conduz a um estranho estabelecimento
comercial. O estabelecimento comercial é descrito como estranho e por isso merece
nossa atenção.

Um estabelecimento comercial é um local de troca de mercadorias: em troca de


dinheiro toma-se posse de determinados objetos. Objetos que não possuímos.
78
SONHOS DE CRIANÇAS │ UNIDADE IV

Normalmente essas mercadorias não são fabricadas no estabelecimento comercial


e sim, o estabelecimento intermedeia entre o consumidor e o produtor. Devido ao
fato de o estabelecimento se encontrar abaixo da rua, quer dizer, em um espaço
subterrâneo, podemos considerá-la o lugar onde as mercadorias, isto é, os conteúdos
do inconsciente, são agenciados.

Não quero identificar esse estabelecimento comercial simplesmente como o


inconsciente. Fala-se em um balcão, as jovens estão sentadas em uma mesinha.
O balcão lembra um local onde se come e bebe, uma taverna, um bar. Aqui, o adulto
desfruta de bebidas inebriantes, as consequências são semelhantes àquelas que o
nosso menino sofre. O lugar análogo para a criança seria a confeitaria, onde doces
são consumidos em excesso.

Pessoas: o amigo Richard pode ser considerado uma duplicação, a sombra do sonhador.
Parece-me, entretanto, essencial que uma companhia desse tipo, nessa aventura,
aponte simultaneamente para o lado comum inofensivo para a natureza coletiva dessa
experiência. Além disso, desobriga o sonhador de sua responsabilidade, seguindo o
princípio: “Não só eu, ele também”. (Sou inocente, pois o outro também participou).

No estabelecimento, estão as três mulheres jovens. Se estabelecermos uma analogia


entre elas e as três parcas (moiras), elas seriam uma nova versão da “mulher de
ferro” de um sonho anterior (veja a série onírica). O paralelo com Hécate nos parece
especialmente importante para a compreensão do mesmo. Hécate se manifesta de três
formas, é uma deusa triforme.

Série onírica

1. Sonho (idade: três anos e dez meses)

À noite afastei-me de você e voei com um aeróstato até as virgens. As


virgens me trouxeram (até elas). Em seguida, lavamos uma tina.

Mas eu não voo até as virgens com asas que nem o menino Jesus e sim,
como num aeróstato. É preciso entrar no aeróstato através de uma barra,
ele não tem portas.

2. Sonho (idade: três anos e onze meses)

Mamãe, hoje à noite (no sonho), eu estive com uma mulher que tinha
um filho e uma casa de neve. Eu queria entrar na casa e o malvado
“Stuttgarter (uma boneca) olhou pela janela. Achava que era um papai
malvado e fiquei com medo.

79
UNIDADE IV │ SONHOS DE CRIANÇAS

3. Sonho (idade: quatro anos e onze meses)

Sonhei com algo terrível: queria buscar Helene e trazer um passarinho


para ela. Enfiei as mãos em uma sebe e senti algo nojento: um animal
que beliscava semelhante a um caranguejo.

4. Sonho (idade: cinco anos e quatro meses)

Em sonho vi uma mulher – uma mulher malvada – que era toda de ferro.
A mulher era velha. Possuía uma tesoura longa que era movida por uma
pequena máquina de ferro – fazia assim (movimento de pedalar). Você
mamãe, tinha saído para fazer compras. Eu estava com medo.

5. Sonho (idade: cinco anos e quatro meses)

Sonhei que estava deitada com Verônica em uma tarimba. Então um


cachorro veio e pulou na cornija. Fazemos troça dele e depois descemos
pulando pela escada da tarimba. O cachorro nos seguiu, mas trancamos
a sala.

6. Sonho (idade: sete anos e nove meses)

Mãe, tive um sonho engraçado: havia uma casa perto do rio. Estou do
outro lado, posso ver tudo. Dois homens grandes – acho que são gigantes
– estão presentes. Eles sobem no telhado e deixam cair um cesto na água.
Em seguida os dois acabam caindo. Isso faz as ondas na água, pois os
gigantes são tão grandes. Encheram o cesto com que pescaram e em
seguida o puxam para fora.

Prof. Jung: o fato de a “mulher de ferro” do sonho anterior significar a ideia do destino.
Nos permite supor que o significado das três mulheres seja semelhante – justamente
em função da tríade. O número três também é “numinoso”, é um atributo sinônimo.
O motivo da pinça, presente naquele sonho anterior juntamente com o “destino”
alude às três parcas1 (Neste sentido, a figura da Hécate triforme parece ser igualmente
importante).

Dr. Fierz: ela abre e fecha o mundo subterrâneo, possui a chave para tal, algo que
combina com a ideia do estabelecimento comercial, pois, segundo nossa concepção, o
estabelecimento representa um acesso ao inconsciente. Seu animal é o cão; lembrem-se
do sonho com o cão – o sacrifício oferecido a ela consistia em peixes; no sonho anterior,
os gigantes que pescavam eram de importância central. Hécate era a patrona dos

1 Na mitologia grega, as três divindades Cloto, Láquesis e Átropos que presidiam a vida e o destino dos humanos

80
SONHOS DE CRIANÇAS │ UNIDADE IV

pescadores. Existem três santuários da Antiguidade consagrados à Hécate e que, ao


mesmo tempo, eram os templos de Príapo, um deus itifálico do rio.

Prof. Jung: no Egito existem até hoje figuras de Príapo nos campos.

Dr. Fierz: Diana-Luna-Hécate, é esta a antiga equação e, sendo assim, consideraremos


ainda Diana. Em Esparta, eram consagrados a ela os cultos fálicos mal afamados da
Antiguidade.

A partir desse Caderno de Estudos, podemos igualmente interpretar os bastonetes de


lacre de cera como símbolos fálicos. Sendo assim, o ato de introduzi-los na boca e
fumá-los poderia ser compreendido como coito.

Prof. Jung: se os bastonetes de lacre de cera não tivessem por si só um significado


sexual, o próprio contexto mitológico nos levaria a esta suposição.

Dr. Frierz: algo semelhante se aplica ao número três. Deveríamos mencionar igualmente
as Graias, que juntas possuem um olho e um dente só (genitália feminina e masculina).
Outro paralelo possível seria as três damas da Flauta Mágica de Mozart que entregam a
flauta e o belíssimo retrato ao jovem.

As três damas da Flauta Mágica são as criadas da rainha da noite, apresentam-se como
caçadoras e por isso podem ser equivalidas à Diana. A Flauta Mágica ainda revela outros
paralelos peculiares para nossa série onírica a perseguição através da cobra, o caçador
de passarinhos, as três damas, o batismo pelo fogo e pela água – são estas as imagens
do libreto. Na série onírica, isso corresponde à perseguição pelo cão, pescador, as três
damas, o fogo na clínica e a água.

Em relação ao ato de fumar: “seja homem, fume charutos e cigarros!” Trata-se de uma
propaganda conhecida. Até então fumar é, ou pelo menos foi assim durante muito
tempo algo estritamente masculino: “A mulher alemã não fuma”. O fato de nesse caso
os meninos fumarem bastonetes de lacre de cera revela que não se trata de um ato
de fumar comum, talvez possamos interpretá-lo como uma atividade especificamente
masculina, como procriação. Esta se encontra vinculada a fortes emoções, pois envolve
o desencadeamento de instintos inconscientes. O acesso de tontura, o cambalear para
fora e o enjoo são as consequências desta dominação pelo inconsciente.

Resumo: neste sonho o menino é familiarizado com os efeitos estranhos da sexualidade


por meio de uma deusa significativa (Anima).

Prof. Jung: aqui o menino é iniciado, pela primeira vez, na sexualidade. Por meio de
mulheres de natureza mitológica, mulheres que substituem a mãe. A procriação, no

81
UNIDADE IV │ SONHOS DE CRIANÇAS

entanto, ainda se encontra em um estágio infantil onde as crianças se empanturram


com doces. Ela corresponde ao estágio nutritivo da libido. A sexualidade permanece
ainda inconsciente, manifesta-se apenas indiretamente de um modo que é típico para o
inconsciente, a partir do enjoo, da tontura e do cambalear.

O paralelo com Hécate é inteiramente válido. Mas por que são justamente três jovens
mulheres? Quando a tríade se manifesta, isto significa que se trata de um momento
decisivo para o destino, quer dizer, algo inevitável ocorrerá.

As três Normas, Parcas ou Graias aparecem. As tríades divinas costumam assumir um


papel significativo em todos os lugares, como, por exemplo: Brahma-Vishnu-Shiva.
Osíris igualmente partilha o ventre de sua mãe com suas duas irmãs Ísis e Néftis e,
inversamente, os dois irmãos Jagannaht e Balarama com sua irmã Subhadra.

A tríade remonta a uma antiguidade tão remota que é difícil afirmar algo mais definitivo
a respeito dela. Uma das estruturas mais prováveis é “pai, mãe, filho”. A trindade cristã
parece basear-se, originalmente, nesta simbologia. Originalmente, o espírito santo era
feminino. O símbolo do spiritus sanctus é a pomba, o animal da deusa do amor. Outra
origem provável é a tríade muito antiga – e, sem dúvida, de plasticidade anatômica –
do órgão da procriação. A transformação na tríade divina é realizada, por exemplo, por
meio do culto Lingam.

Figura 1. Símbolo do culto Lingam.

Fonte: <https://sp.yimg.com/ib/th?id=OIP.M58aac570ef944f99ccd877918a46c269H0&pid=15.1&w=163&h=108&p=0>

Fica igualmente claro que se trata de algo dessa espécie pelo fato de as Graias
possuírem um dente e um olho só. Nos contos de fada alemães também encontramos
esta imagem, por exemplo, a partir das três “fiandeiras”: a primeira possui um
polegar grande, a segunda um lábio inferior grande, a terceira um dedão grande.
As Graias são as deusas do mundo subterrâneo, procedem dos reinos mais obscuros
da mitologia. É possível que imagens arcaicas dessa espécie estejam envolvidas aqui;
precisamos considerar este único dente declaradamente fálico e o olho, o símbolo
feminino correspondente.

82
SONHOS DE CRIANÇAS │ UNIDADE IV

O texto do sonho diz que os meninos colocam esses bastonetes na boca. Esta, sem dúvida,
é uma alusão de natureza sexual, onde a boca representa o órgão sexual feminino.
O aparecimento concomitante dos órgãos masculino e feminino é um arquétipo, o
arquétipo da coabitação constante. Outro aspecto do mesmo tipo é o hermafrodita ou,
segundo Winthuis, o ser bissexual. Devo dizer que não concordo totalmente com o livro
de Winthuis Das Zweigeschlechterwesen.

Winthuis exagera em relação a este motivo, mas tem razão com sua ideia central de que
no caso de muitas imagens arcaicas, existe uma determinada ideia básica: a ideia de um
ser que se autofecunda masculino e feminino, ao mesmo tempo em que abriga a garantia
de sua perpetuidade, de sua própria eternidade, e que todo ser humano originalmente
se identifica com este ser arcaico e anseia tornar-se novamente “um” com este ser por
meio da iniciação. Muitos ornamentos e símbolos artísticos de natureza primitiva
provavelmente remetem a isso.

É estranho o fato de estas imagens aparecerem, igualmente, em um lugar onde não


suspeitei que estivessem presentes, isto é, na Alquimia. O símbolo básico é o dragão que
morde sua própria cauda, o Uroboros.

Os alquimistas sabiam que o “comedor de cauda” era um símbolo sexual: o Uruboros


se autofecunda. Há uma semelhança com Ptah, criador de seu próprio ovo que
ele inclusive choca. A Fênix ressuscita de suas próprias cinzas ou das de seu pai.
Todas essas imagens referem-se a um ser que se recria. O dragão que se auto
emprenha por meio da cauda fálica que introduz na boca “se ipsum impregnat” – Ra,
o deus solar que se fecundou com seu próprio sêmen por meio da boca e, em seguida,
vomitou o mundo. A parte interior de seu corpo seria o útero que ele mesmo fecundou.
Ele reproduziu o mundo na forma de uma criatura.

Desse modo, a maioria dos seres primordiais cosmogônicos é hermafrodita, algo que
deve ter a ver com o fato de o homem intuir desde os primórdios sua sexualidade dupla.
Possuímos de fato um gênero duplo, pois é somente a preponderância das células
masculinas que decide se o embrião tornar-se-á masculino. Os genes femininos não
morrem dentro do homem, encontram-se presentes em sua estrutura e funcionam de
acordo com sua feminilidade.

Isto leva ao estranho fato de podermos perceber, nos homens, alguns traços femininos que
correspondem ao ideal feminino (inversamente existem traços masculinos na mulher).
Existem pessoas que se gabam de sua bissexualidade por tratar-se de um arquétipo:
“Carrego Eva dentro de mim, por isso sou um deus”. Deus carrega a sua mulher dentro
de si. Na Índia, as deusas são apenas a forma feminina de um deus masculino: Shiva é
um ponto ou um falo e seu invólucro é Shakti.

83
UNIDADE IV │ SONHOS DE CRIANÇAS

A presença ativa deste arquétipo ou de outros parecidos no inconsciente da criança


pode, em condições especiais, causar “perversidades”. As crianças então fazem coisas
estranhas, asquerosas que, ao mesmo tempo, possuem um significado simbólico. Por um
lado, revelam um comportamento demasiadamente puro e, por outro, demasiadamente
sujo. Um menino de nove anos, por exemplo, devora sapos, pois é algo que o enoja; uma
criança de quatro anos, que vive na cidade, come excrementos quando está no campo.
Uma criança do meio rural jamais faria algo assim. Apenas crianças bem-educadas da
cidade fazem coisas dessa espécie. A busca inconsciente por uma unidade original gera
ações desse tipo. Não devemos considerá-las perversidades e sim, falhas na educação que
acabam sendo compensadas mais tarde.

Essa imagem arcaica então, não conduz apenas às satisfações mais estranhas, dolorosas e
asquerosas e sim, atua igualmente como proteção, por exemplo, no caso de pessoas que
mexem com o dedo no nariz ou que copulam com a caneta tinteira na boca. Coisas assim
funcionam como proteção, pois nessas horas formamos um anel com nós mesmos.
À medida que nos autofecundamos, provamos que somos inteiramente redondos
– o ser primordial foi cortado em dois. As duas partes, entretanto, pertencem ao
mesmo ser.

No final do sonho ocorre a estranha embriaguez. Isso se refere ao domínio, ao surgimento


do inconsciente. Corresponde ao fenômeno de estar marcado. Sentir enjoo é o sentimento
de nojo que está associado ao acesso de tontura. Nos casos patológicos, então, precisam
ser feitas justamente aquelas coisas repugnantes no intuito de restabelecer novamente
o equilíbrio. Repugnante é o outro que não pode ser aceito.

Quando estas crianças conseguem incorporar este outro, tornam-se inacessíveis, quer
dizer, alcançam uma independência “divina”. Os doentes mentais também fazem algo
semelhante ao que estas crianças fazem. Isto lhes dá o sentimento de que ninguém
pode se aproximar deles e de que se encontram emocionalmente isolados. Na medida
em que incorporam aquilo que é repugnante, tornam-se inacessíveis e fortes perante
os outros. Os unguentos e poções mágicas dos curandeiros contêm substâncias nada
apetitosas. Quando os tomamos, incorporamos o que há de mais repugnante e assim,
nos tornamos imunes.

Não devemos considerar imoral o primeiro autoerotismo infantil e sim, devemos


tolerá-lo. Este se revela a partir de tentativas de autofecundação com o intuito de
se autotransformar; em seguida, estas se tornam tentativas de fecundar os outros.
Sob o disfarce do cuidado e da preocupação, as crianças são levadas pelos educadores à
masturbação e coisas parecidas. Pois é totalmente errado as crianças serem marcadas
pela sexualidade consciente pelo fato de os adultos tocarem nesses assuntos.

84
SONHOS DE CRIANÇAS │ UNIDADE IV

No sonho discutido antes, trata-se de uma antecipação da puberdade. O número três


pertence à idade juvenil e aos primeiros dias da humanidade. Enquanto número ímpar,
é (por exemplo, na China e Grécia, compare também com nossa Idade Média um
número masculino e aponta para o atributo masculino e sua função). As especulações
medievais acerca dos símbolos numéricos se ocupam com o número três, com o Ternário
enquanto trindade divina. Mesmo assim, as conexões existentes com a representação
primitiva da sexualidade são bastante evidentes. Assim como todo arquétipo, a tríade
ou o Ternário pode ser representado ou de modo primitivo, a partir de imagens sexuais,
ou então de forma filosófica, via conceitos abstratos.

Um arquétipo não é nem abstrato nem concreto. Pode se expressar por uma primitiva
“linguagem dos instintos” (por exemplo, de forma sexual) ou então, de modo “espiritual”.
Um pode substituir o outro, assim como a terminologia sexual pode ser substituída
pela nutritiva. O “Cântico dos Cânticos” é prova cabal para tal. Este arquétipo em si é
puramente “ternário” e pode ser preenchido com qualquer tipo de conteúdo.

O sonho com a clínica em chamas

Apresentação: Prof. Jung

Esta noite sonhei que a Clínica Hirnsladen pegou fogo de repente, no porão, por causa
do aquecedor. Queríamos descer pela escada perto do elevador para cargas, mas ela
terminava inesperadamente. Subimos de elevador, mas não conseguimos retirar
os leitos do primeiro andar onde ficavam as crianças pequenas. Acredito que foram
resgatadas através da janela.

Proj. Jung: o local da ação é a Clínica Hirnsladen. A criança foi paciente da clínica.
O lugar onde somos cuidados costuma assumir um significado materno – em um sentido
figurado. Estabelecemos uma relação pessoal com ele, assim como se fosse uma mãe.
Sendo assim, o lugar assume algo de ordem imediatamente pessoal. A casa onde somos
cuidados e envolvidos psíquica e fisicamente torna-se uma extensão da teia familiar.
Por isso, a clínica pode se tornar uma figura onírica para o menino e sua psicologia que
se configura neste lugar.

No caso de crianças neuróticas, o ambiente novo pode ser relacionado diretamente


com a mãe. A escola, a igreja etc. Se transformam na mãe, porém, em um sentido
demasiadamente pessoal. Desse modo, ele assume dimensões desproporcionais dentro
da criança. A relação com a mãe real acaba se tornando impossível, pois a criança passa
a ter exigências inviáveis em relação a esta. Este, no entanto, já é o caso de um estado
neurótico, trata-se da exigência neurótica típica em relação ao outro que deve ser
simplesmente tudo para mim.
85
UNIDADE IV │ SONHOS DE CRIANÇAS

No momento em que fazemos esta exigência, as relações deixam de funcionar. É algo


que acontece com frequência. Mal conhecemos uma pessoa um pouco melhor, o caos se
instala. Incluímo-la em nossa esfera psíquica pessoal, ela se torna uma figura do nosso
tabuleiro de xadrez psíquico, até que reclame ou algum mal-entendido se configure.
Por isso, às vezes, mantemos afastadas determinadas pessoas, caso contrário nos
tornamos um objeto psicológico de sua psique. Algo inconsciente toma conta de nós;
somos incluídos em algo que é de ordem familiar, quer dizer, precisamos encarnar o
pai, avô ou alguém parecido. Isto pode ser muito desagradável.

Em relação ao nosso sonho: no porão, o aquecedor provoca um incêndio.

O porão é um mundo subterrâneo, o ventre do menino. Lá se encontram o aquecedor,


o estômago, o sistema digestivo. O calor é gerado assim. Em função desse tipo de
aquecimento surge o fogo que ameaça destruir todo o sistema, incendiar a clínica.
Um incêndio, como por exemplo no caso da expressão idiomática “Telhado em
chamas”, trata-se de um problema que requer atenção imediata, significa uma explosão
emocional que ameaça acabar com todo o sistema psíquico. Nesse caso a emoção vem
de baixo. Possivelmente, podemos considerar aqui igualmente uma preocupação com
questões sexuais. “Algo escaldante se derrama sobre mim” é o que acontece quando
somos tomados por um pensamento tal como se fosse fogo. Enrubescemos quando
tomamos consciência de determinadas coisas. Muitas vezes somos pegos em uma
situação embaraçosa ou então nós mesmos nos pegamos nessa situação ou, quem sabe,
nos damos conta de que um pensamento foi mais longe do que havíamos imaginado.

O menino desce. A escada termina. Ele não consegue chegar ao porão. O elevador
somente sobe. O menino não consegue salvar as crianças pequenas que estão no primeiro
andar. As crianças pequenas estão correndo perigo. Na época do sonho, o menino ainda
se encontrava na clínica. Quando, num determinado lugar, somos mantidos em um
estado demasiadamente infantil, o inconsciente tende a destruir esse lugar. Por um
lado, a clínica deve ser queimada, pois não queremos mais ser tão infantis. Por outro,
sentimos compaixão pelas criancinhas, isto é, pela natureza da criança que faz parte de
nós e esperamos que esta qualidade seja salva.

Sonho de escola

Apresentação: Dr. Pitsch

Tive um “sonho de escola”.

Um dia de manhã derramei nanquim – não, foi tinta –, a manga do meu pulôver e
minha camisa ficaram totalmente sujas. Tive que tirar o pulôver; tinha esparadrapo

86
SONHOS DE CRIANÇAS │ UNIDADE IV

grudado por toda a minha camisa. Em seguida voltei para casa com Ehrhard – pegamos
um desvio e chegamos a um estábulo; estava totalmente escuro. Havia uma escada na
lateral, mas estava tão escuro que não achei o primeiro degrau. Ehrhard conhecia bem
esse estábulo.

Em seguida entrou um homem com um cão, a parede agora se transformou em uma


parede de vidro, por detrás dela havia legumes e frutas e muitas pessoas comprando.
Ehrhard foi para casa – eu também. Quando passei correndo pelo serralheiro S., vi um
pai com dois filhos em um jardim. Eles queriam fazer um poço. Fincaram uma estaca
no chão. Percebi subitamente que estava sem a minha pelerine; estava com frio e voltei
para pegá-la.

De repente surge a imagem de Gl. (lugar da residência anterior) na parte superior do


vilarejo próximo ao “Strendgen Bach” (riacho desenfreado). Regula Z. se aproxima.
Pergunto a ela que horas são. Regula não sabe, está sem relógio. Em seguida Ellen
chega, ela sim tem um relógio de pulso que de início é muito pequeno, mas de repente
cresce tanto que precisa ser carregado. Ellen diz que faltam trinta minutos para as três.

Sendo assim, voltei correndo para casa.

Quando estava à mesa – de repente era novamente a mesa de Z. (lugar da residência


atual) –, quis começar a contar algo e disse dois nomes estranhos que nem em “Mil e
uma noites”, quis dizer que um deles era eu e – pronto – acordei!

Dr. Pitsch: O sonho pode ser dividido nas seguintes partes:

»» a cena na escola;

»» a cena com Ehrhard no estábulo;

»» o homem com o cachorro e a transformação;

»» o pai com os meninos que constroem um poço;

»» a cena de Gl. com as duas meninas;

»» a cena em Z. na mesa da casa dos pais.

O sonho começa: “Tive um sonho de escola”. Trata-se na verdade de um sonho de


escola ou de aprendizado. O conteúdo real é: o sonhador derramou tinta, de início fala
em nanquim, em seguida se corrige e diz tinta. A diferença entre nanquim e tinta é que
o nanquim – o material para escrita do Extremo Oriente – é mais preto do que a tinta.
A tinta não é tão preta assim e pode ser removida com certo esforço. Trata-se de um
tipo de atenuação, uma discreta nuance. A manga do pulôver e a camisa estão cheias

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UNIDADE IV │ SONHOS DE CRIANÇAS

de tinta. Formou-se uma mancha escura que com certeza pode ser relacionada a certo
sentimento de culpa que surgiu por conta de os processos sexuais serem muitas vezes
associados diretamente ao pecado.

O sonhador precisa tirar o pulôver. Em suíço alemão se diz “prendi a minha manga”, o
que significa que alguém teve má sorte, porém, em parte por culpa própria.

Havia esparadrapos grudados por toda a camisa. Talvez se trate de processos sexuais da
puberdade tardia. Pensem na polução noturna. No sonho há uma relação entre a tinta,
a camisa grudenta e, com certeza, os processos sexuais.

O sonhador carrega certo sentimento de culpa. A coisa mencionada anteriormente é


tabu. Não se diz explicitamente se ele continua sem pulôver; mais tarde, porém, isso
acaba se confirmando no momento em que sente frio subitamente e procura pela sua
pelerine. De qualquer modo, tirar o pulôver significa despir-se de uma parte de si
mesmo, quer dizer, de uma capa especialmente quente que talvez possa ser considerada
um símbolo da mãe. O menino que entra na fase da puberdade terá que viver mais e
mais sua própria vida. Uma vida que se torna cada vez mais masculina.

Agora ele deseja voltar para casa com Ehrhard. Ehrhard, provavelmente, um amigo
seu, é idêntico ao sonhador, é seu outro eu. Os dois, porém, não vão, como deveriam,
diretamente para casa. Tomam um desvio. Meninos frequentemente tomam desvios, o
que não agrada em nada a seus pais apavorados. Sua fantasia, sua sede de descobertas
muitas vezes faz com que esqueçam que em casa uma mesa farta lhes aguarda.
Conheço o sonhador e sei que pontualidade não é exatamente seu forte. Ele não pertence
ao grupo dos assim chamados meninos obedientes, é um menino de verdade.

A escola da vida é sempre um desvio. Quantas coisas que aspiramos alcançamos


somente a partir de desvios!

Em seguida chegam a um estábulo totalmente escuro. O estábulo escuro equivale à


floresta escura, às cavernas, ao “Lócus” (WC). São lugares muito atraentes para os
meninos e estimulam muito sua fantasia. Surge então, uma escada lateral, provavelmente
na parte interior do estábulo. O sonhador, porém, não encontra o primeiro degrau, mas
Ehrhard o encontra com facilidade. Ehrhard representa o lado instintivo que encontra
o caminho certo mesmo na escuridão do estábulo – no inconsciente. Os dois parecem
completar-se. Na vida real são tipos totalmente diversos. Acredito que Ehrhard seja o
mais equilibrado dos dois.

Precisamos considerar ainda, o motivo do primeiro degrau. Provavelmente, este


representa o primeiro passo que conduz da infância à personalidade em formação.
Esse passo precisa ser dado às escuras, sem que sejamos guiados, de modo natural.

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SONHOS DE CRIANÇAS │ UNIDADE IV

No caso da criança saudável, devemos interferir o mínimo possível em seu desenvolvimento.


Se lançarmos mão de “artifícios”, ela não será capaz de encontrar o primeiro degrau.

Em seguida, surge o homem com o cão. “O mundo existe através da mente do cão”, é o
que diz Vendidad, a parte mais antiga do Zend-Avesta (escritos sagrados dos Persas).
Desde os tempos mais remotos é impossível imaginar o homem sem o cão em qualquer
lugar do mundo. Segundo Brehm, o homem e o cão se complementam cem vezes, mil
vezes. O homem e o cão são os mais fiéis companheiros. Não há animal no mundo que
seja mais digno da pena consideração, da amizade e do amor do ser humano do que o cão.
É parte integrante do ser humano, imprescindível para seu crescimento e bem-estar.
“O cão, diz Friederich Cuvier, é a mais peculiar, a mais completa e a mais útil das
conquistas humanas”.

O cachorro, descendente dos chacais ou lobos, tornou-se de fato nosso “irmão animal”;
falta-lhe apenas a fala para que se torne um substituto à altura de muitos companheiros
humanos. Ocupei-me bastante com os animais. Muitas vezes o olhar inteligente e
questionador de um cão me fez tirar algum tipo de idiotice ou ideia ou então me fez
descer do pedestal que eu mesmo criei. Meu cão é sempre parte de minha própria
personalidade. Conhece a língua de seu dono, observa os mais sutis sentimentos de seu
mestre, sabe quando o dono está triste, alegre ou mal-humorado. Participa da alegria e
do sofrimento de seu dono.

Observei que os cães idosos assumem a postura e os traços de seu dono e vice-versa.
Como simpatizante do cão me permito dizer que ele é uma parte do homem, um tipo
de sombra. Muitas personalidades famosas se tornam inteiras somente ao lado de seu
cão. Existem também exemplos menos ilustres: o vizinho aposentado com seu pincher
ou o alcoólatra cujo cão de aparência igualmente decadente acompanha fielmente seu
dono de bar em bar.

No sonho em questão, o homem e o cachorro parecem formar uma dupla. Na mitologia,


o cão assume responsabilidades extraordinárias. Remeto à obra do Prof. Jung,
Transformações e Símbolos da Libido. O cão é o coveiro que elimina os cadáveres
conforme acontecia na Pérsia Antiga. Lá havia igualmente, o costume de elevar um
cão ao leito de morte das pessoas, pois estas tinham que lhe oferecer um bocado
provavelmente para apaziguá-lo para que poupasse seu corpo. Também Cérbero é
amansado pelos bolinhos de mel de Héracles. No relevo de Mitra um cão pula em cima
do touro que foi morto. Cérbero é o guardião que se encontra na fronteira entre a vida
e a morte. Anúbis com sua cabeça de chacal ajuda Ísis a juntar os pedaços do cadáver
dilacerado de Osíris para que possa ser incorporado por ela e renascer. O cão auxilia na
hora da morte e, sendo assim, também no momento da ressurreição. No caso presente,
surge um homem com um cão e o aparecimento destes, causa a transformação.

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UNIDADE IV │ SONHOS DE CRIANÇAS

A unidade, a união e o equilíbrio podem fazer milagres. O homem e o cão representam


uma união harmoniosa entre homem e animal, isto é, entre consciência e menos
consciência – para nos expressarmos de modo cuidadoso. Aliás, é um tanto estranho
o fato de por vezes, falarmos de características humanas quando, na verdade, nos
referimos às características animais. Nessa dupla homem-cão o inconsciente (o cão
conscientemente domesticado) se encontra, por assim dizer, vinculado e desse modo o
milagre pode se realizar.

Aquilo que era escuro e opaco de repente se torna transparente, surge uma parede
de vidro e com ela a claridade – a luz – o menino olha pela janela tal como uma
criança ansiosa que aperta o nariz contra uma vitrine. O sonhador já esteve em um
estabelecimento comercial durante um sonho, um estabelecimento subterrâneo, onde
sentiu náuseas porque “fumou bastonetes de lacre de cera”. Aqui, o vidro o separa
do estabelecimento, ele olha para dentro, porém é sensato e ainda não entra, pois
provavelmente ainda não precisa comprar nada. Vê muitas pessoas que adquirem
legumes e flores. A transformação se realizou perante seus olhos. Foi o cão, aquele que
presta auxílio na hora de morrer e de ressuscitar que provocou isso – do inconsciente
para o consciente.

A partir do eterno ciclo da natureza, os produtos da terra surgiram perante os olhos do


sonhador – outrora ele viu um rato transparente no sonho, um microcosmo dentro do
macrocosmo, agora ele vê a criação, uma síntese. Nosso corpo que se decompõe após
a morte encontra-se novamente a serviço da criação da beleza e daquilo que é útil, dos
produtos da terra e, nesse sentido, novamente da vida. A escuridão, o primeiro degrau,
foi superada.

O sonho continua: “Ehrhard volta para casa e eu também”. Isso significa que eles
se separam. O sonhador está com pressa, pois passa correndo pela propriedade do
serralheiro. Serralheiros e ferreiros encarnam símbolos arquetípicos que para os
adultos podem significar uma regressão, para o menino, porém, tendem a ser mais o
“bicho papão”.

Em seguida, regiões superiores são alcançadas. Mas, imediatamente, algo novo aparece.
Três pessoas – um pai e dois meninos, talvez um grupo de Laocoonte sem serpentes,
querem construir um poço. Já falamos sobre o número três. Devemos considerar o
duplo sentido dessa expressão no texto do sonho: “queriam fazer um poço” (em alemão
suíço pode significar urinar).

“Fincaram uma estaca no chão”. Nesse caso, trata-se de um símbolo fálico. Como no
caso dos bastonetes de lacre de cera. O “masculino” é incorporado pela mãe terra.
Forma assim uma fonte, um poço. Ideias semelhantes aparecem com frequência na

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SONHOS DE CRIANÇAS │ UNIDADE IV

mitologia. Wotan, Baldur e Carlos Magno fizeram brotar as fontes dessa maneira. Uma
batida com o bastão sagrado – ou com o casco do cavalo – atrai água do solo. Um santo
finca um galho no chão, Pégaso fez a Hipocrene (fonte do cavalo). Na Arcádia, Reia fez
brotar uma fonte com um bastão, assim como Moisés o fez para os judeus sedentos.
Em alemão antigo, a fonte é chamada de Urspring. Ur= original e spring= saltar). O que
significa que algo salta para fora. Isso significa que o sonhador vê o ato da procriação
em uma linguagem simbólica.

Agora, porém, ele comeu da árvore do conhecimento e percebe que está “nu”. Assusta-se
de tal modo que sente frio. Arrepia-se diante da realidade. Precisa buscar sua pelerine.
Veste novamente uma capa materna e passa prontamente por um rebaixamento da
orientação e atenção, encontra-se subitamente no lugar onde vivia em sua primeira
infância em GL, onde uma água selvagem se derrama ainda sem nenhuma inibição
sobre as pedras. Lá, Regula e Ellen vão ao seu encontro quando na verdade deveriam
estar no lugar onde ele vive atualmente.

Regula, para quem o sonhador pergunta a hora, não tem um relógio. Ellen, porém,
possui um relógio especial que cresce cada vez mais. Cresce tanto que precisa ser
carregado, o que provavelmente significa que precisa ser segurado com as mãos.
Quando algo em um sonho assume um tamanho não natural, o símbolo em questão
deve ser considerado especialmente. O relógio é aquele que adverte em relação ao
fluxo do tempo. Estabelece as subdivisões do dia e, as nossas tarefas.

Dizem: “Você vai saber quando chegar a sua hora”. O relógio do sonho, que se encontra
impressionantemente inflado, diz: faltam trinta minutos para as três. As duas meninas,
entretanto, mostram para ele que na verdade deveria estar em Z. Mas em relação ao
sonho anterior, faz sentido o fato de o sonhador simplesmente se atrasar, como tantas
vezes, para o almoço. Por isso ele corre, isto é, culpado para casa. Tudo que vivenciou
até então desmorona de modo patético, pois agora precisa sentar-se à mesa em casa,
à mesa do pai que tem um significado na medida em que é preciso se submeter a ele
enquanto se é jovem.

Vem-lhe a mente apenas dois nomes de “Mil e uma noites”, talvez ele se identifique
com Aladim, quem sabe para consolar-se, pois um pequeno homem imprestável pode
acabar tornando-se rei. A maioria desses contos acaba com um “happy end” que, por
fim, nos redime.

Prof. Jung: manchas de tinta ocorrem por causa de um deslize. É algo escuro, opaco, pelo
qual eventualmente somos punidos. Trata-se do segredo da puberdade que, naquela
época, já se anunciava. É algo normal, mas, ao mesmo tempo, uma antecipação.

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UNIDADE IV │ SONHOS DE CRIANÇAS

Esparadrapo: é uma imagem altamente moderna. Refere-se, provavelmente, à qualidade


colante, aquilo que cola em algo ou alguém.

O sonhador ainda possui poucas experiências mais específicas, ainda é muito pequeno,
mas ele sabe que o esparadrapo é usado para feridas. A qualidade colante, algo que
gruda em nós e do qual não nos livramos facilmente, poderia igualmente referir-se às
manchas. Estas devem, conforme mencionado pelo palestrante, ser relacionadas com
a esfera sexual.

O jovem Ehrhard, companheiro de suas aventuras: aqui deveríamos saber de que tipo
de menino se trata. O papel que este assume no sonho parece indicar uma personalidade
um pouco mais equilibrada e adulta. Suponhamos que o sonhador projeta um líder,
uma figura ideal como seu amigo, alguém que faz aquilo que jamais teríamos coragem
de fazer.

Ehrhard representa esse papel. É a figura interna do sonhador que é um pouco mais
adulta e que já sabe a respeito das coisas. Segundo a mãe, ele é um ou dois anos mais
velho que o sonhador.

Estábulo: a relação com Cristo parece um pouco mais remota. O nascimento no


meio do boi e jumento significa: nascido no reino animal. Nós somos descendentes
dos habitantes das cavernas. As manchas negras de tinta são as memórias obscuras
desse mundo das cavernas, onde ainda não havíamos alcançado a consciência.
É absolutamente necessário ascendermos dessa inconsciência. O líder-menino
Ehrhard indica o caminho ascendente; em seguida as coisas se tornam transparentes.
Desse modo, forma-se a parede de vidro.

A parede de vidro é um símbolo típico, isto é, frequentemente encontrado. Essa imagem


é usada quando nos encontramos emocionalmente separados do objeto. Podemos enxergar
através dela, mas nada passa por ela. O sonhador encontra-se separado daquele
estabelecimento comercial subterrâneo onde recebeu os bastonetes de lacre de
cera das parcas. A ideia é que agora há uma parede entre ele e o mundo mitológico
primordial. Ele vê flores e legumes. As flores, normalmente, representam sentimentos,
os legumes, por sua vez, geram todo tipo de insinuação erótica.

No estábulo, um adulto precisa assumir o papel de líder: o homem e o cão. Ele é o


dono do animal e este o obedece. O inconsciente ocupa seu devido lugar. O homem
acompanhado pelo cão forma uma unidade, assim como o cavalo e o cavalheiro.
O homem é a consciência, o cão o obedece, o cavalo o carrega. Esta é a solução ideal
para a relação com o inconsciente animal.

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SONHOS DE CRIANÇAS │ UNIDADE IV

O serralheiro: ele, de fato, se encontra no lugar do ferreiro. É uma figura mágica;


o homem preto que lida com o fogo, o homem mau que sabe como fazer as coisas,
o feiticeiro, o curandeiro, o homem misterioso que atua no mundo subterrâneo, que
pratica artes secretas. Muitas vezes ele é posto no lugar do diabo.

O pai com os dois meninos: nesse caso, faz sentido pensarmos em Lacoonte e seus
dois filhos. Lacoonte aproximou-se demasiadamente do mar, do inconsciente, e foi
abarcado por este na forma de uma serpente. Formulado de modo sexual-primitivo:
o masculino sucumbiu ao feminino (coito); de modo abstrato: o inconsciente subjugou
a consciência.

O que importa aqui é o número três e, mais adiante, o horário trinta minutos para as
três. Isso poderia significar: ainda não são três horas, falta meia hora. O número três
possui no mundo inteiro um significado masculino, o que tem a ver com a anatomia
masculina. O número três ainda não está completo; o fruto ainda não amadureceu, a
maturidade sexual ainda não foi alcançada.

A estaca que faz surgir um poço: trata-se do motivo de fazer brotar uma fonte,
compreendido como um ato de fertilização. Existe aqui um paralelo com as diversas
tradições relacionadas à fertilização do solo, com o arado fálico, os deuses da fertilidade
que devem fertilizar o campo.

Nos arrepiamos quando intuímos relações que apontam para um futuro longínquo.
Esses insights são horripilantes, geram uma sensação de frio. Dizem que a aparição
de um espírito é sempre antecedida por uma corrente de ar frio. Quando alguém nos
leva para uma região mental onde não nos sentimos mais em casa, falamos das “alturas
gélidas do intelecto” ou então que se trata de “uma pessoa fria”.

A ideia de frieza surge sempre quando algo vai longe demais. Quando somos incapazes de
um sentimento mais humano perante algo, experimentamos logo uma sensação de frio
ou tristeza. Quando nos vem um pensamento que ainda não conseguimos compreender
totalmente, um sopro frio nos envolve; instintivamente tememos as ideias novas, pois, de
alguma forma, elas nos levam para muito longe e nos fazem imediatamente sentir medo
de enlouquecer. E com o medo surge o frio. Sentimos um frio descendo pela espinha,
nossos pés e mãos ficam igualmente gelados.

Essa sensação faz o sonhador se envolver com a pelerine.

O que lhe causa arrepios é o reconhecimento ou a visão de um futuro no qual ele mesmo
ainda não se encontra. A pelerine é uma capa protetora que lhe aquece e protege, onde
ainda se encontra cercado pelo aspecto feminino e maternal. O aspecto feminino é

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UNIDADE IV │ SONHOS DE CRIANÇAS

representado pelas duas irmãs Regula e Ellen. Novamente nos deparamos com a
questão de Osíris!

As duas meninas possuem temperamentos diversos, quer dizer, são opostas (informações
dos pais), algo que costuma ocorrer no caso de irmãs. Trata-se de diferenças
compensatórias. As duas meninas têm um relógio e este se torna grande e pesado.
Pesado é igual à gravis (latim: pesado, grávido, sério), o que significa que é algo
sério, uma questão difícil. Essas figuras de linguagem contêm questões importantes.
O relógio incha. Se fizermos uma redução em um sentido sexual, podemos interpretar
a inchação como uma primeira sensação de intumescência. Mas trata-se igualmente de
uma imagem que descreve como algo de pouca importância adquire peso.

O que pesa tanto no caso do relógio?

É o problema do tempo; um problema que com o tempo se torna importante. As duas


meninas são as duas figuras de Anima. É a Anima cindida em uma parte positiva e ativa
e outra, mais negativa e passiva. O relógio está em posse da Anima. O relógio é algo que
olha para muito além: é o relógio que carregamos dentro de nós, o si-mesmo. É a roda de
ferro, a máquina do destino. Somente um relógio de pulso! Mas é ele que anuncia o tempo
que o destino carrega em seu ventre. É uma mandala, ilustra o dinamismo do destino, é o
relógio celeste, o zodíaco, os doze signos que indicam as casas celestiais. É onde o destino
está inscrito. Desde os tempos mais remotos, esta é uma convicção humana.

Essas duas figuras de Anima carregam o destino. São personificações do inconsciente


que abrigam nosso destino peculiar.

A mulher é o destino do homem. Caso contrário, o homem fica suspenso no ar. Sem raízes.
A mulher é sempre aquela que gera o destino; a mulher a qual o homem está preso é o
destino. Ela faz com que ele se enraíze na terra.

E é deste mundo que o destino vem ao encontro do menino, na forma de um vislumbre.


A menina tornar-se-á seu destino; algo imprevisível, improvável, incompreensível.
Ele deseja falar sobre, pensa em “Mil e uma noites”, em histórias muito antigas.
Isso aponta, novamente, para a impressão que obteve do relógio e da menina enquanto
Anima. São temas mitológicos, vislumbres de algo que ocorreu há muito tempo.

Esses temas mitológicos afastam o sonhador da realidade. Por isso precisa falar em
“contos de fada” para se retrair disso. É semelhante ao caso da parede de vidro! Já não
sabe mais nem qual era o nome das pessoas. Os dois nomes parecem referir-se somente
às duas meninas. O nome real, porém, é o ser real, presente no inconsciente desde o
nascimento. Mas existe, também, o relógio; pois o caráter humano é determinado pelo

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SONHOS DE CRIANÇAS │ UNIDADE IV

momento do nascimento. É algo maravilhoso, é como no caso do conhecedor de vinhos


que sabe onde o vinho “nasceu”.

O relógio pequeno representa seu destino que se desenvolve através do tempo. De início,
seu destino parece leve, no entanto, somente para no fim tornar-se insuportavelmente
pesado. Nós mesmos somos nosso destino, é o que Seni diz para Wallenstein:
“As estrelas do teu próprio destino jazem em teu peito”. O si-mesmo que se revela a
partir do tempo é representado pelo instrumento que determina o tempo e o destino,
isto é, o relógio.

Como mandala, o círculo expressa igualmente a divindade que se desdobra no espaço.


Daí vem a metáfora do círculo de Santo Agostinho quando ele fala da divindade:
“Deus é um círculo cujo centro se encontra em toda parte e cuja periferia não está em
lugar algum”. O arquétipo do círculo, o mandala, refere-se à concentração em um centro
que representa ou o si-mesmo ou a divindade ou, os dois ao mesmo tempo.

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Para (não) Finalizar

Durante a disciplina, você avaliou conceitos, viu casos reais e compreendeu, por diversos
pontos de vista, como conhecer e trabalhar.

Esperamos ter concorrido para sua reflexão sobre as vantagens desses conhecimentos,
lembrando-lhe que você deve sempre estar preparado para compreender os avanços
tecnológicos do mundo moderno. Para isso, reflita, faça relações entre dados, informações
e ideias, desafie o senso comum, pesquise, troque ideias.

Em pouco tempo você estará surpreendido. Verá que, além de ter alcançado maiores
conhecimentos, a aprendizagem foi um acontecimento natural e que sua capacidade
de estudos terá sido ampliada pelo exercício e pela satisfação em sentir o próprio
crescimento.

Por tudo isso, lembre-se de que o assunto não termina aqui. Há muito o que aprender.
O que foi visto nesta etapa é um caminho apontando para fontes inesgotáveis de estudos
e experimentações.

Caminhe sempre, rumo à descoberta. Dessa forma, seus horizontes se ampliarão e,


consequentemente, seu desempenho profissional.

Desejamos-lhe sucesso!

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Referências

AMARAL, Waldemar. O desenvolvimento da personalidade: obra completa de


Carl Gustav Jung. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

JUNG, Lorenz.; GRASS, Maria-Meyer. Seminários sobre sonhos de crianças:


sobre o método da interpretação psicológica. Petrópolis: Vozes, 2011.

PAESANI, Giovanna. 120 jogos e percursos de psicomotricidade: crianças em


movimento. Petrópolis: Vozes, 2014.

PUVIANI, Vanna. O uso do desenho no trabalho clínico com crianças: teoria e


técnica. 2. ed. Belo Horizonte: Artesã Editora, 2013.

RABELO, Nancy. O desenho infantil: entenda como a criança se comunica por meio
de traços e cores. 2. ed. Rio de Janeiro: Wak, 2014.

97