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Direito das Obrigações

22.09.2005
(Teórica)

Em que consistem Obrigações?


Em que consistem Relações obrigacionais?

Em toda a relação jurídica temos sempre de um lado um direito subjectivo em


sentido amplo, e do outro lado temos um dever jurídico ou estado de sujeição.

A relação jurídica abrange duas figuras:


 Direito subjectivo em sentido estrito
 Direito potestativo

O direito subjectivo propriamente dito é o poder jurídico de livremente exigir


de outrem um comportamento activo ou omissivo.

O direito potestativo é o poder jurídico de, por um acto de sua vontade, ou por
um acto de autoridade pública (entidade judicial), produzir efeitos jurídicos que se
impõem à contraparte.

O dever jurídico é a necessidade de adoptar um determinado comportamento


imposto por ordem jurídica.

O estado de sujeição é a necessidade de quem tem que suportar na sua esfera


jurídica as consequências do exercício de um direito potestativo.

O interesse deve ser considerado como exterior da relação jurídica.

Dever jurídico ≠ Ónus jurídico

O dever jurídico é imposto para satisfação de um interesse alheio. Do interesse


do titular do direito.

O ónus jurídico é imposto para satisfação de um interesse próprio. Deve definir-


se como a necessidade de adoptar um comportamento para conseguir uma vantagem
jurídica.

Desvantagens: quem viola um dever jurídico sujeita-se a uma sanção, a sofrer


uma desvantagem.
Quem infringe o ónus jurídico sujeita-se a não conseguir, a não conservar a
vantagem jurídica em causa.

Art.º 397º CC: noção de obrigação.

Os direitos resultantes das relações obrigacionais são direitos subjectivos


propriamente ditos.
A relação jurídica obrigacional estabelece-se normalmente entre duas pessoas:
* sujeito activo: credor que tem o poder de exigir uma prestação

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Direito das Obrigações

* sujeito passivo: devedor que tem o dever de cumprir a prestação

Prestação: comportamento ou conduta do devedor dirigido à satisfação de um


interesse de outrem, digno de protecção legal.

Art.º 379º CC: o credor tem o poder de exigir um comportamento de outrem.

Os direitos de crédito são direitos subjectivos propriamente ditos.


Os direitos subjectivos propriamente ditos dividem-se em:
 Direitos absolutos: há um direito absoluto quando o seu titular pode
exigir um comportamento de todos os demais membros da comunidade
jurídica. São oponíveis erga omnes, de eficácia erga omnes.
 Direitos relativos: há um direito relativo quando o seu titular só pode
exigir a conduta de determinada pessoa ou determinadas pessoas. São
oponíveis inter partes.

Direitos reais e direitos de personalidade: são um paradigma dos direitos


absolutos.
Direitos de crédito (obrigacionais): são um paradigma dos direitos relativos.
Art.º 379º CC

Os direitos de crédito são: direitos subjectivos propriamente ditos e direitos


relativos.

AUTONOMIA E PATRIMONIALIDADE

Os autores discutem se as notas de autonomia e de patrimonialidade devem


incluir-se no conceito de direito de crédito. A resposta é negativa.

Autonomia: cumpre distinguir:


 Obrigações autónomas: não pressupõem na sua constituição nenhum
vínculo jurídico existente entre as partes, ou pressupõem um vínculo
jurídico genérico.
 Obrigações não autónomas: pressupõem um vínculo jurídico.
Art.º 1411º CC: funda-se na existência duma relação de co-propriedade.
Art.º 2009º CC: obrigação de alimentos: obrigação não autónoma por se fundar
numa relação jurídica entre as partes.

Art.º 2068º CC e Art.º 2069º CC: são relações obrigacionais fundadas em


relações sucessórias.
Devem subordinar-se os Art.ºs 297º e ss.
Obrigações não autónomas encontram-se sujeitas ao regime geral: Art.º 397º CC

A prestação obrigacional deve ser sempre em dinheiro?


Art.º 398º, n.º 2 CC: a prestação não necessita de ter valor pecuniário. A
indemnização em dinheiro não é a única forma de garantia. Há um conjunto de meios
que não se esgota na indemnização. As partes podem atribuir um valor pecuniário a uma
prestação não avaliável em dinheiro.

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Direito das Obrigações

Art.º 496º CC: indemnização dos danos não patrimoniais. Este Art.º encontra-se
na parte da responsabilidade não contratual, mas deve aplicar-se por analogia à
responsabilidade contratual.
As obrigações não patrimoniais têm garantia.

Conceito de direito de crédito não abrange ou não deve abranger as notas da


autonomia e da patrimonialidade.

Na relação jurídica una ou simples há um só direito subjectivo ou um só dever.


Na relação jurídica complexa há uma pluralidade de direitos subjectivos ou
deveres por provirem do mesmo facto jurídico. As relações jurídicas complexas também
se aplicam à relação obrigacional.
As relações obrigacionais simples compõem-se de um só direito de crédito.
As relações obrigacionais complexas compõem-se de uma pluralidade de
vínculos provindos do mesmo facto jurídico.

28.09.2005
(Teórica)

Deveres acessórios de conduta


Princípio da Boa Fé

A concretização do princípio da Boa Fé fez com que a doutrina descobrisse uma


multiplicidade de dados.

Relação Obrigacional Complexa: 2 concepções acerca do seu conteúdo:


 Concepção restrita: a relação obrigacional complexa diz-nos que esta se
esgota numa relação de prestação.
 Concepção ampla:
a. Relação de prestação
b. Relação de protecção

Critério de distinção entre relação de prestação e relação de protecção: os


deveres integrados na relação de prestação destinam-se a alterar a actual situação
jurídica dos bens proporcionando ao credor as vantagens e impondo ao devedor as
desvantagens.
Os deveres da relação de protecção destinam-se a conservar a actual situação
jurídica dos bens de ambos os sujeitos da relação obrigacional, tutelando-os contra
ingerências externas lesivas contra sua pessoas, propriedade.
Os deveres da relação de prestação prestam ao credor uma vantagem e os
deveres da relação de protecção visam impedir que o devedor e credor sofram
desvantagens.
No direito civil português, a teoria dos deveres de protecção é diversa. O STJ
pronunciou-se sobre o problema em duas ocasiões: nestes casos, resolveu o problema de
formas diferentes:

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Direito das Obrigações

1. A primeira vez que se pronunciou foi no Acórdão de 14 de Janeiro de


1997: um atleta de alta competição que frequentava um ginásio onde
uma máquina lhe caiu em cima, causando lesões ao atleta. O dano
ocorreu durante a execução de um contrato. O STJ decidiu que se devia
optar pela concepção ampla da relação obrigacional complexa, e estava
infringido um dever de protecção.
2. A segunda vez em que o STJ se pronunciou foi no Acórdão de 13 de
Fevereiro de 2001: um barco de travessia embateu, ferindo os
passageiros. O STJ optou pela concepção restrita da relação obrigacional
complexa por não haver deveres de protecção. A lesão das regras de
protecção dá apenas lugar a responsabilidade extracontratual. No
primeiro caso era responsabilidade contratual.

2 elementos invocados pelos defensores da concepção restrita da relação


obrigacional complexa:
 Elemento dogmático: os interesses em jogo na responsabilidade
civil inobservância dos deveres de protecção e a responsabilidade
extracontratual são exactamente os mesmos. A responsabilidade
extracontratual visa proteger a integridade da pessoa e
propriedade contra ingerências externas lesivas. Assim, não há
diferença dogmática entre os dois.
 As diferenças entre responsabilidade contratual e extracontratual
são tão reduzidas que não se justifica introduzir a categorias dos
deveres de protecção.

O argumento dogmático está incorrecto: o direito das obrigações protege o


direito de adquirir através das regras da responsabilidade civil. O direito das obrigações
tem como diferença base os contratos de um lado, e os factos ilícitos (responsabilidade
civil) de outro. Os deveres de protecção estão entre estas duas áreas:
* aproximam-se dos contratos por se constituírem no contexto da relação
jurídica entre as partes;
* aproximam-se do direito de responsabilidade civil pela sua função de
proteger a integridade pessoal ou patrimonial das partes.
Daqui resulta que os valores em jogo na responsabilidade contratual e
responsabilidade civil não coincidem: os deveres de protecção surgem no contexto da
relação de pessoas determinadas; os de responsabilidade extracontratual surgem no
contexto de relações jurídicas entre sujeitos indeterminados.

A diferença projecta-se no regime jurídico por inobservância de deveres de


protecção:
* a responsabilidade civil não é uma responsabilidade contratual ou
extracontratual: por inobservância dos deveres de protecção, a responsabilidade civil
enquadra-se numa terceira categoria do direito de responsabilidade civil.

Qual o regime dos deveres de protecção?

Ponto de partida: diferença entre responsabilidade contratual e extracontratual.


As diferenças fundamentais são 4:

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Direito das Obrigações

1. Danos patrimoniais primários: este conceito define-se pela negativa: são


todos aqueles danos que surgem sem que tenha ocorrido a prévia
violação de um direito absoluto.
Na responsabilidade contratual, estes danos patrimoniais primários são
indemnizáveis, ressarcíveis. Na responsabilidade extracontratual por factos ilícitos, os
danos patrimoniais primários não são ressarcíveis, indemnizáveis.
Art.º 483º CC: consagra a violação de direitos absolutos de outrem: só há
responsabilidade extracontratual por factos ilícitos se forem violados direitos absolutos
de outrem.

2. Ónus da prova: na responsabilidade contratual, o devedor tem ónus de


alegar e provar que não teve culpa no não cumprimento: isto decorre do
Art.º 799º n.º 1 CC.
Na responsabilidade extracontratual, é o lesado que deve provar a culpa do
lesante: decorre do Art.487º n.º 1 CC.

3. Responsabilidade por actos de auxiliares: para a responsabilidade


contratual decorre do Art.º 800º; para a responsabilidade extracontratual
decorre do Art.º 500º.
A diferença está que no Art.º 500º exige-se uma relação de comissão
(dependência ou subordinação onde o comitente pode dar ordens ao comissário) e o
Art.º 800º não exige.

4. Prazo de prescrição: na responsabilidade contratual, aplica-se o prazo


ordinário de prescrição de 20 anos: Art.º 309º CC; na responsabilidade
extracontratual, aplica-se o prazo de 3 anos do Art.º 498º CC.

Quais destas regras se aplicam à responsabilidade civil por inobservância das


regras de protecção?

Quanto aos danos patrimoniais primários, ónus da prova e responsabilidade por


actos de auxiliares, a responsabilidade civil por inobservância das regras de protecção
subordina-se ao regime da responsabilidade contratual: Art.º 800º + 799º CC.
Quanto ao prazo de prescrição, subordina-se ao regime de responsabilidade
extracontratual: aplicação do prazo do Art.º 498º CC.

Art.º 227 n.º 2 CC: responsabilidade pré-contratual: é um caso paradigmático por


um caso de inobservância de deveres de protecção. Esta artigo diz que se aplica o prazo
de prescrição de 3 anos do Art.º 498º CC.

RETER:
* deve-se optar por uma concepção ampla da relação obrigacional
complexa;
* a inobservância dos deveres de protecção dá origem a uma
responsabilidade especial entre a contratual e extracontratual;
* regime jurídico desta responsabilidade intermédia.

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Direito das Obrigações

A relação obrigacional complexa em sentido amplo engloba:


 Direitos subjectivos
 Direitos potestativos
 Excepções
 Ónus
 Expectativas jurídicas

Deveres de prestação e deveres acessórios de conduta: o que as distingue?


O conteúdo dos deveres de prestação alcança-se através de uma interpretação do
contrato ou lei. O conteúdo dos deveres acessórios de conduta resulta da concretização
da cláusula geral da Boa Fé.

CLASSIFICAÇÃO DOS DEVERES INTEGRADOS EM CADA UMA DESTAS CATEGORIAS

Deveres de prestação: classificação com base em dois critérios:

* 1º critério: Critérios da originariedade ou originalidade: visa distinguir:


 Deveres primários: concretizam o programa de prestação de relações
obrigacionais. Constituem-se com uma obrigação relacional.
 Deveres secundários: concretizam normalmente o programa de recepção
de danos provocados pelo não cumprimento dos deveres primários.
Surgem depois: surgem se os deveres primários não forem respeitados.
Subdividem-se em:
o Deveres coexistentes com o dever primário de prestação: pex,
dever de indemnizar os danos decorrentes da mora.
o Deveres secundários sucedâneos ou substitutivos de dever
primário: pex, dever de indemnização em caso de
impossibilidade de prestação: o cumprimento do dever primário
é impossível: extingue-se, ficando o dever secundário de
indemnizar. O dever secundário sucede, substitui o dever
primário: é substitutivo do dever primário.

* 2º critério: Critério do grau hierárquico:


 Deveres principais: são os que caracterizam o tipo de relação
obrigacional. Para contratos, são aqueles que caracterizam o tipo de
contrato: Art.º 879º CC.
 Deveres acessórios: são os que apenas contribuem para preparar ou
executar o cumprimento dos deveres principais: pex, dever de embalar a
coisa que se vai vender.

Deveres acessórios de conduta: baseado no princípio da Boa Fé. Mas: o que


defende a Boa Fé?
A diferença fundamental:
 Deveres de protecção
 Deveres de promoção activa do fim da relação obrigacional
Esta é a única distinção com consequências jurídicas.

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Direito das Obrigações

É frequente indicar a característica da sua exigibilidade judicial: não se pode


fazer uma distinção entre deveres acessórios de conduta e de prestação com base na
exigibilidade judicial do seu cumprimento.
Quando o conteúdo dos deveres acessórios de conduta seja demasiado
indeterminado, não pode haver uma exigibilidade judicial. Se forem determinados com
rigor, já não será assim: o problema é saber se o conteúdo de dever acessório de conduta
é suficientemente claro para ser judicialmente exigido.

29.09.2005
(Teórica)

Relação Obrigacional Complexa: compõe-se por:

A. Direitos subjectivos propriamente ditos e dos correspondentes deveres


jurídicos:
 Deveres de prestação
 Deveres acessórios de conduta

B. Direitos potestativos e dos correspondentes estados de sujeição

C. Excepções

A “excepção” é uma figura que se encontra entre o direito civil e o direito


processual civil.
Art.º 487º CPC: o réu defende-se por impugnação quando contradiz os factos da
petição inicial.
O autor invoca um direito, o réu defende-se:
o Impugnando os factos constitutivos do direito do autor
o Invocando factos novos: quando assim age, defende-se por
excepção.

1. EXCEPÇÕES:
a. Processuais: fundam-se em razões de direito adjectivo, ou direito
processual: são factos que obstam à apreciação do mérito da acção.
b. Materiais: fundam-se em razões de direito substantivo: concretizam-
se em factos imperativos, modificativos ou extintivos do direito
invocado pelo autor.

Factos constitutivos são diferentes de factos extintivos: 2 critérios:


 Cronológico: factos constitutivos são contemporâneos da constituição da
relação jurídica; os extintivos são posteriores.
 Funcional: factos constitutivos dão origem à relação jurídica: os
extintivos põem um termo à relação jurídica.

Os factos constitutivos também são diferentes dos factos impeditivos: devido ao


critério da normalidade:

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Direito das Obrigações

 Os factos constitutivos são aqueles que dão origem ao direito invocado


pelo autor;
 Os factos impeditivos são as circunstâncias excepcionais que obstam à
construção de tal facto.

2. A nós interessam-nos as EXCEPÇÕES MATERIAIS.


Estas podem dividir-se me:
o Excepções peremptórias: opõem um obstáculo definitivo ao
direito invocado pelo autor (pex, prescrição).
o Excepções dilatórias: opõem um obstáculo temporário ou
transitório (pex, Art.º 428º CC).

3. EXCEPÇÕES:
a. Em sentido geral: são os meios indirectos de defesa que podem ser
conhecidos oficiosamente pelo tribunal (pex, nulidade de negócio
jurídico ou caducidade de um direito)
b. Em sentido específico: são os meios indirectos de defesa que têm de ser
invocados (pés, excepções de prescrição que devem ser invocadas para
produzir efeitos).

As excepções em sentido específico são contra-direitos, direitos oponíveis: o


autor tem um direito; o réu tem um direito oponível, direito de invocar a prescrição.
As excepções em sentido específico são autónomas em relação aos direitos
potestativos?
Manuel de Andrade considera as excepções em sentido específico como direitos
potestativos.

A Relação Obrigacional Complexa contém ainda:

D. Ónus

E. Expectativas jurídicas

Qual a relevância do conceito de relação obrigacional complexa?


A sua utilidade é evidente com a análise da figura das relações obrigacionais
sem deveres primários de prestação.
Nestas relações, não há deveres de prestação, mas apenas deveres de conduta:
contém exclusivamente deveres de conduta, fundados na cláusula da Boa Fé.
Art.º 227º CC: relação pré-contratual
Para estes deveres de conduta, a sua inobservância dá lugar à responsabilidade
pré-contratual.
Há 3 casos típicos de responsabilidade pré-contratual:
1) Não conclusão de um contrato por ruptura das negociações: o contrato
não chega a ser concluído.
2) Conclusão de contrato inválido ou ineficaz: o contrato é concluído, mas
ineficaz.
3) Conclusão de um contrato válido ou eficaz em que surgiram situações de
danos a indemnizar

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Direito das Obrigações

O 1) e 2) são relações obrigacionais sem deveres primários de prestação: deveres


de conduta com base na Boa Fé.

Na relação pré-contratual, há deveres de conduta antes do contrato se concluir.


Podem surgir deveres após o contrato ter sido concluído.
Para a responsabilidade pós-contratual, não há disposição análoga ao Art.º 227º
CC. Está porém no Art.º 239º e 762º n.º 2 CC.
A relação obrigacional complexa permite compreender a existência de relações
obrigacionais onde não há deveres de prestação.

ANÁLISE DAS FUNÇÕES DAS RELAÇÕES OBRIGACIONAIS COMPLEXAS

O aspecto estrutural dos direitos subjectivos concretiza-se num poder. O


aspecto funcional dos direitos subjectivos concretiza-se num interesse.

Art.º 398º n.º 2 CC: descreve o aspecto funcional dos direitos de crédito.
O texto deste artigo corresponde ao Art.º 1322º do CC italiano (que entrou em
vigor em 1942): os juízes portugueses optaram por uma interpretação restritiva: o nosso
Art.º 398º n.º 2 exige apenas que se esteja perante um interesse sério do credor.

A função das relações obrigacionais é proteger o interesse do credor. O interesse


do credor releva dos seguintes aspectos das relações obrigacionais:
1. Constituição (Art.º 398º n.º 2 CC)
2. Extinção (Art.º 790º CC)
3. Cumprimento e não cumprimento:
 Art.º 792º n.º 2 CC
 Art.º 793º CC
 Art.º 802º CC
 Art.º 803º CC

As relações jurídicas obrigacionais só se constituem se houver interesse do


credor digno de protecção legal. O interesse do credor contribui para a extinção das
relações jurídicas obrigacionais: extingue-se a relação jurídica obrigacional se o
interesse de credor desaparecer.
O interesse do credor releva para o regime de cumprimento e não cumprimento.
Art.º 792º n.º 2 CC: usa o interesse do credor para distinguir a impossibilidade
definitiva da impossibilidade temporária.
Art.º 793º CC: pronuncia-se sobre casos de impossibilidade parcial não
imputável ao devedor. O n.º 2 atribui ao credor a possibilidade de resolver o negócio.
Art.º 802º CC: casos de impossibilidade parcial de prestação imputável ao
devedor.
No Art.º 793º o credor não pode resolver o negócio e só pode resolvê-lo se não
tiver interesse no negócio.
No Art.º 802º o credor pode resolver o contrato; só não pode resolvê-lo se o
interesse que tiver tenha escassa importância. (?)
Art.º 808º: perda de interesse do credor na prestação como causa de conversão
da mora.

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Direito das Obrigações

O interesse do credor serve para cálculo do montante da indemnização. O


interesse do credor é função das relações obrigacionais. Esse interesse é amplamente
protegido, mas e o interesse do devedor?
Esse interesse é fundamentalmente o interesse em libertar-se do dever de prestar.
Em grande número de casos, a realização da prestação exige a cooperação do credor.
Nas obrigações de prestação de coisa, exige-se do credor que receba a coisa. Nas
obrigações de prestação de factos, exige-se que o devedor facilite o acesso a informação
por parte do credor.

O credor tem o dever jurídico de colaborar com o devedor no cumprimento?


O tema é controverso:
 Sim: a cláusula geral da Boa Fé impõe ao credor de cooperar com o
devedor no cumprimento;
 Não: o direito subjectivo é o poder de livremente exigir ou não, aceitar
ou não a prestação que lhe é oferecida.
A posição do credor configura, assim, o ónus: ónus de cooperar.
Por qual se opta?
A 1ª tese afigura-se mais correcta: a análise do problema exige a distinção entre
dois problemas:
 Se não há interesse relevante do devedor, o credor não deve ter um dever
de cooperação ou colaboração;
 Se há um interesse relevante do devedor, deve entender-se que o
princípio da Boa Fé impõe um dever jurídico de cooperação ou
colaboração.
O problema passa sempre por uma análise dos interesses envolvidos no caso em
concreto.
Os defensores da 2ª tese dizem que isto é absurdo: a relação obrigacional é um
direito subjectivo e dever de prestar. A defesa de que há dever de cooperação
transformaria isto em relação com deveres e direitos de ambas as partes. O direito
subjectivo do credor tem como corolário um dever de prestação; o devedor tem um
dever de conduta. O dever de cooperação é um dever acessório do dever de conduta.

A solução proposta: o credor tem um dever jurídico de colaborar com o


devedor no cumprimento sempre que exista um interesse do devedor digno de
protecção.

Elementos da Relação Jurídica Obrigacional (são os mesmos da relação


jurídica):
 Sujeito
 Objecto
 Facto jurídico
 Garantia

a. SUJEITOS: temos de um lado o sujeito activo (o credor) e de outro lado o sujeito


passivo (o devedor). Podem ser sujeitos determinados ou indeterminados.
Temos assim:

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Direito das Obrigações

A.
 Obrigações de sujeitos determinados: quando o credor e
devedor estão individualizados no momento da
constituição da relação obrigacional;
 Obrigações de sujeitos indeterminados: quando o credor e
devedor não estão individualizados no momento da
constituição da relação obrigacional. Os sujeitos
determinam-se posteriormente.
Art.º 511º CC: sujeito activo indeterminado desde que este seja determinável.
Art.º 459º CC: caso das Finanças Públicas: são casos paradigmáticos de sujeitos
activos indeterminados. O Art.º 511º permite as obrigações de sujeitos activos
indeterminados, mas não de sujeitos indetermináveis.

b.
 Obrigações singulares: quando há um só sujeito do lado
activo e um só sujeito do lado passivo: um só credor e um
só devedor.
 Obrigações plurais: quando há vários sujeitos do lado
activo e vários sujeitos do lado passivo: vários credores e
vários devedores simultaneamente.
Quando há apenas vários credores é pluralidade activa.
Quando há apenas vários devedores é pluralidade passiva.
Quando há vários credores e vários devedores simultaneamente fala-se de
pluralidade dupla.

As obrigações plurais dividem-se em:


a. Obrigações conjuntas: quando a pluralidade de sujeitos é
cumulativa: são credores A e B ou são devedores A e B.
b. Obrigações disjuntas: quando a pluralidade de sujeitos é
alternativa: é credor A ou B e é devedor A ou B.
O sujeito das obrigações disjuntas determina-se através de um acto de escolha,
passando a obrigação a ter apenas um devedor ou credor. As obrigações disjuntas são
raras.

Interessa sobretudo as obrigações conjuntas. Elas podem dividir-se em:


a. Obrigações parciárias
b. Obrigações solidárias

06.10.2005
(Teórica)

Obrigações conjuntas:
 Parciárias: a prestação é fixada globalmente, mas a cada um dos
sujeitos cabe apenas uma parte do crédito ou débito comuns.

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Direito das Obrigações

 Solidárias: cada um dos credores pode exigir a totalidade da


prestação e cada um dos devedores está obrigado a realizar a
totalidade da prestação: Art.º 512º CC

Art.º 512º CC: se a solidariedade é passiva, cada um dos devedores responde


pela prestação integral.
Se a solidariedade for activa, cada um dos credores pode exigir a prestação.

Obrigações parciárias

 Parciariedade Activa:
3 credores: A B C
1 devedor: D
Prestação (P): 3000 €
Cada um dos credores parciários só lhe pode exigir a parte que lhe cabe = 1000
€ cada um neste caso.

 Parciariedade Passiva:
1 credor: A
3 devedores: B C D
P = 3000 €
O credor só pode exigir de cada devedor a parte que lhe cabe: A só pode exigir
de B 1000 €; 1000 € de C e 1000 € de D.

 Parciariedade Dupla:
2 credores: A B
3 devedores: C D E
P = 3000 €
Nas obrigações parciárias, a obrigação divide-se pelo número de vínculos
correspondentes ao número de credores multiplicado pelo número de devedores.

REGIME DA SOLIDARIEDADE

 Solidariedade Activa:
3 credores: A B C
1 devedor: D
P = 3000 €
Cada um dos credores pode exigir do devedor a prestação integral. Feita a
prestação a um deles, a obrigação extingue-se.
A diferença é que na parciariedade cada um exigia a sua parte (1000 €); aqui,
cada um pode exigir a totalidade (os 3000 €).

 Solidariedade Parcial:
1 credor: A
3 devedores: B C D
P = 3000 €
O credor pode exigir a prestação integral de cada um dos devedores.

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Direito das Obrigações

A diferença é que na parciariedade parcial, o credor só podia exigir 1000 € de


cada um; aqui, pode exigir a totalidade a cada um deles.

 Solidariedade Dupla:
2 credor: A B
3 devedores: C D E
P = 3000 €
Cada um dos credores pode exigir a prestação integral a cada um dos devedores.

A solidariedade activa e solidariedade passiva resultam do Art.º 512º CC.

Art.º 512 n.º 2 CC: a obrigação não deixa de ser solidária pelo facto dos
devedores responderem de forma diferente.
O alcance desta regra esclarece-se assim: há um acidente de viação: A, devido a
uma falha dos travões, provoca danos numa coisa. Nos termos do Art.º 503º, A é
responsável por ser detentor do automóvel. O produtor é responsável nos termos do D-L
383/89, de 3 de Novembro.
Há uma responsabilidade solidária do produtor e do detentor: Art.º 487º e ... .
Detentor e produtor estão, todavia, obrigados em termos diferentes.
Consideremos os danos em 10000 €. O detentor responde por todos os danos; o
produtor não. O D-L 383/89 consagra uma franquia de 500 €: só responde o produtor
pelos danos em coisas de valor superior a 500 €: o produtor terá o dever de indemnizar
no valor de 9500 €.
Art.º 512º n.º 2: a solidariedade restringe-se à parte comum da responsabilidade:
relativamente aos 9500 €.

Efeitos da solidariedade

Deve-se distinguir relações:


 Externas: são as relações do credor com os devedores solidários
ou dos credores solidários com o devedor.
 Internas: são, na solidariedade activa, as relações dos credores
solidários entre si, e, na solidariedade passiva, as relações dos
devedores solidários entre si.

 Vamos estudar os efeitos da solidariedade nas relações externas.

I. Solidariedade activa nas relações externas: decorre do Art.º 512º


+ 528º CC.
Na 2ª parte do Art.º 512º n.º 1: definição de solidariedade activa: esta noção é
completada pelo Art.º 528º.
Temos diferentes credores e um só devedor: o Art.º 512º n.º 1 2ª parte diz que
qualquer um dos credores solidários pode exigir do devedor a prestação integral. O
devedor tem a faculdade de escolher o credor ao qual faz a prestação: A, B, C, ...
O Art.º 528º distingue duas situações:
 Caso o credor exija a prestação extra-judicialmente, sem recorrer aos
tribunais, o devedor tem a faculdade de lhe satisfazer a prestação a ele ou
outro credor.

13
Direito das Obrigações

 Caso um credor reclame judicialmente a prestação ao devedor: há duas


hipóteses:
o Consoante a solidariedade activa estabelecida no interesse dos
credores: aqui, o devedor terá de satisfazer a prestação integral ao
credor demandante.
o Solidariedade activa no interesse do devedor: o interesse do
devedor é o interesse de escolher a qual dos credores solidários
entregará a prestação; pode o devedor entregar-lhe a prestação
integralmente; pode também entregar-lhe a parte que lhe cabe e
as restantes partes aos outros. Tem o dever de entregar a parte que
cabe ao demandante, podendo escolher como dar o resto da
prestação: ou dá as partes aos outros ou dá o resto a uma só
pessoa.

II. Solidariedade passiva nas relações externas: Art.º 512º + 519º


CC
Art.º 512º n.º 1 1ª parte: noção de solidariedade passiva: é solidariedade quando
cada um dos devedores responde pela prestação e a estes libera.
Noção completada pelo Art.º 519º.
Temos um credor e vários devedores.
Art.º 512º: o credor pode exigir de cada um dos devedores a prestação integral.
Pode fazê-lo:
 Extra-judicialmente: se o fizer e não tiver a satisfação do crédito, pode
proceder judicialmente também contra os outros credores.
 Judicialmente: caso A demande judicialmente B; o credor que faz isto
fica inibido de proceder judicialmente contra os demais, salvo se houver
para isso uma razão atendível.

Entre as razões atendíveis encontra-se a Insolvência: 2 critérios:
o aplica-se a todos os sujeitos passivos de insolvência. É a
impossibilidade do devedor cumprir todas as obrigações
assumidas.
o aplica-se às pessoas colectivas, sociedades unipessoais e
patrimónios autónomos. É a situação de superioridade manifesta
do passivo sobre o activo avaliado consoante as regras
contabilísticas. Pex: quando o devedor tem mais dívidas que
bens.

Art.º 514º: pronuncia-se sobre os meios de defesa oponíveis ao credor.


O conceito de meios de defesa corresponde às excepções materiais peremptórias
ou dilatórias.
Este artigo distingue:
 meios de defesa pessoais: os que dizem respeito a um só credor
na solidariedade activa ou um só devedor na solidariedade
passiva.
 meios de defesa comuns: dizem respeito a todos os devedores.

14
Direito das Obrigações

 Efeitos da solidariedade nas relações internas: Art.º 533º CC

I. Solidariedade activa nas relações internas: temos 3 credores e 1


devedor.
Art.º 516º: presume-se que as partes dos credores são iguais.
A pode pedir a totalidade da prestação ao devedor e recebe-la: recebe, assim,
mais do que lhe cabia, podendo os outros credores exigir a A a sua parte: a isto se chama
direito de regresso.

II. Solidariedade passiva nas relações internas: Art.º 524º CC


Temos um credor (A) e três devedores (B, C e D).
A exige a prestação de B e ele paga-lhe a totalidade da prestação: como pagou
mais do que lhe competia, pode exigir aos outros devedores aquilo que ele pagou a
mais.
Se um dos devedores não puder pagar a A aquilo que ele pagou por ele: a quota
parte desse devedor será repartida pelos restantes devedores: regra que resulta do Art.º
526º CC.

Qual o regime regra?


Em caso de pluralidade, qual se aplica?
Resposta no Art.º 513º CC.
A parciariedade é a regra e a solidariedade é a excepção.
As obrigações plurais são, em regra, parciárias. Só há solidariedade quando
resulta da lei ou do negócio jurídico.

Resulta da lei em dois casos:


 Art.º 100º do Código Comercial: nas dívidas comerciais a regra é
a solidariedade.
 Responsabilidade civil extracontratual: Art.º 497º: na
responsabilidade por factos ilícitos, a responsabilidade é solidária.
Aplicam-se aos casos de responsabilidade por risco por remissão
do Art.º 499º.

2º ELEMENTO DAS RELAÇÕES JURÍDICAS OBRIGACIONAIS


OBJECTO:

É constituído por uma prestação: este é um conceito controverso: designa, por


um lado, a actividade ou conduta do devedor, e, por outro, a satisfação da vontade do
credor: pode ser uma acção (conceito restrito) ou resultado (conceito alargado).
Qual destes dois conceitos se adopta?
Deve haver uma distinção entre:
1. determinar qual o conceito de prestação relevante para determinar
o conteúdo ou objecto da relação jurídica obrigacional (para
efeitos do Art.º 397º): deve entender-se que o conceito de
prestação relevante é como acção ou conduta do devedor.
2. qual o conceito relevante para efeitos do direito de
impossibilidade (Art.º 790º e ss): deve entender-se que o conceito

15
Direito das Obrigações

de prestação relevante é o conceito alargado: prestação como


acção de prestação + resultado.
O objecto da relação obrigacional é só uma acção ou conduta do devedor.

Classificação das prestações:

I. Obrigação de prestação de coisa e Obrigação de prestação de facto


A obrigação de prestação de facto só tem um objecto directo (ou imediato):
acção ou conduta do devedor.
A obrigação de prestação de coisa tem um objecto directo (ou imediato): acção
ou conduta do devedor; e um objecto directo (ou imediato): que é a própria coisa.

Nas obrigações de prestação de facto deve-se distinguir:


 prestação de facto próprio: o devedor compromete-se a realizar por si a
prestação.
 prestação de facto de terceiros: o devedor compromete-se a conseguir
que outra pessoa realize a prestação.
Nos casos de obrigações de prestação de facto de terceiros podem surgir
dificuldades: pex, uma empresa distribuidora de combustíveis e o dono da bomba
celebram um contrato de exclusividade: facto próprio para exclusividade do dono; facto
de terceiros ao dizer que os utentes da bomba farão o mesmo.
Estas obrigações são válidas, mas o terceiro (o utente) não fica vinculado: só o
devedor fica vinculado a fazer tudo para que terceiros pratiquem o facto.

Esta obrigação pode ser:


 obrigação de meios: o devedor apenas se compromete a desenvolver as
diligências razoáveis para que o terceiro pratique o facto.
 obrigação de resultado: o devedor compromete-se a alcançar o resultado
e responde sempre que o terceiro não possa ou não queira praticar o
facto.

II. Prestações instantâneas e Prestações duradouras


Prestações instantâneas quando a conduta exigível do devedor se esgota num
único acto, ou num único momento.
Prestações duradouras quando a conduta exigível do devedor se prolonga no
tempo.

A prestação duradoura em sentido amplo abrange:


 prestações duradouras propriamente ditas: a duração da conduta
do devedor contribui decisivamente para a conformação da
prestação. Pex: obrigação de pagar a renda.
Nestas prestações duradouras propriamente ditas temos uma subdivisão.
 de execução continuada: a conduta exigida do devedor é
ineterrupta.
 prestações reiteradas ou com trato sucessivo: a conduta
exigível do devedor renova-se em prestações singulares
sucessivas. Estas incluem as:
 periódicas: quando as prestações singulares
sucessivas se renovam em intervalos regulares.

16
Direito das Obrigações

não periódicas: quando as prestações singulares


sucessivas se renovam em intervalos irregulares.
 prestações duradouras fraccionadas ou repartidas: a duração
influencia exclusivamente o modo de execução da prestação.
Aqui, a prestação global está previamente fixada. Pex: venda a
prestações: Art. 934º e ss: o preço está previamente fixado; o
tempo só influencia o modo de prestação.

12.11.2005
(Teórica)

A classificação de prestações instantâneas e duradouras e a classificação em


propriamente ditas e fraccionadas tem um interesse prático: Art.º 434º e 781º CC.
Art.º 434 n.º 2: obrigações cujo objecto são as prestações duradouras
propriamente ditas.
2 exemplos:
 obrigações de pagamento de renda: A arrenda casa a B; contrato de 5
anos, termina o contrato antes. A não vai ter de devolver as rendas já
pagas.
No caso de venda fraccionada: A vende algo a B que paga por prestações em 2
anos: a resolução do contrato obriga A a restituir a B todas as prestações pagas no
momento quando se põe termo ao contrato.
 Art.º 781º CC: só se aplica às prestações fraccionadas ou repartidas. Pex,
venda a prestações: preço pago em prestações durante 1 ano. O
comprador paga apenas a 1ª prestação e não as restantes. Esta artigo dá o
direito ao vendedor de exigir a totalidade do preço da coisa.
O Art.º 781º não se aplica às obrigações de prestação duradouras propriamente
ditas: inquilino que apenas paga a 1ª renda: o senhorio não pode exigir o pagamento de
todas as rendas até ao fim do contrato de arrendamento.

III. Prestações fungíveis e Prestações não fungíveis


As prestações fungíveis ocorrem quando pode ser realizada por pessoa diferente
do devedor sem prejuízo do interesse do credor.
As prestações não fungíveis são as que só podem ser realizadas pelo devedor.
Estes conceitos resultam do Art.º 767º CC.

Art.º 767º n.º 1: consagra a regra da fungibilidade das prestações.


Art.º 767º n.º 2: consagra dois desvios dessa fungibilidade:
 desvio que ocorre de um acordo das partes: infungibilidade
convencional: quando se acordou expressamente que a prestação deve
ser feita pelo devedor.
 Quando a realização da prestação de um terceiro prejudique o credor.

17
Direito das Obrigações

Requisitos do Objecto da Relação Obrigacional

Estes requisitos dizem respeito exclusivamente às relações obrigacionais


constituídas por negócio jurídico. Os requisitos correspondem aos requisitos do objecto
do negócio jurídico: Art.º 280º CC.
O artigo enuncia 3 requisitos dos objectos das relações obrigacionais:
1. possibilidade
2. licitude
3. determinabilidade

POSSIBILIDADE: a regra do n.º 1 do Art.º 280º é confirmada pelo Art.º 401º


CC.
O CC adoptou um esquema dos casos de impossibilidade particularmente
complexo.

A. Impossibilidade física e Impossibilidade legal (jurídica)


A impossibilidade física decorre das leis da natureza; a impossibilidade legal
decorre das leis civis.
O CC equipara a impossibilidade física à legal.

B. Impossibilidade absoluta e Impossibilidade relativa


Impossibilidade absoluta quando a prestação não pode de forma nenhuma ser
realizada. Há um obstáculo à realização da prestação que não pode ser superado.
Impossibilidade relativa quando a prestação pode ser realizada com esforços
desproporcionados. Há um obstáculo que, embora não impeça o devedor de cumprir,
torna a realização extremamente onerosa.
O CC não equipara a impossibilidade absoluta à relativa: para o direito civil
português, a impossibilidade absoluta á autêntica impossibilidade.
Art.º 401º e 790º e ss: referem-se à impossibilidade absoluta: são esta é autêntica
impossibilidade.

C. Impossibilidade originária e Impossibilidade superveniente


Impossibilidade originária quando é contemporânea da continuação da relação
obrigacional. Para relação obrigacional constituída por negócio jurídico, a
impossibilidade originária é quando é contemporânea à celebração do negócio.
Impossibilidade superveniente quando é posterior à constituição da relação
obrigacional. Para relações obrigacionais constituídas por negócio jurídico, é
impossibilidade superveniente quando é posterior à celebração do negócio.

Art.º 790º n.º 2


Pex, A e B celebram um contrato hoje subordinado a uma condição. O bem do
contrato é destruído quando a condição ainda não se tinha verificado. O CC considera
que é uma impossibilidade superveniente.

A diferença entre impossibilidade originária e superveniente é fundamental no


nosso sistema. O nosso CC dá consequências diferentes às duas.
O problema da impossibilidade originária é considerar no CC como um
problema de validade ou invalidade do negócio jurídico. Se a prestação é
originariamente impossível, o negócio jurídico é nulo. Se for originariamente possível e
só se torna impossível posteriormente, o negócio jurídico é válido: a impossibilidade

18
Direito das Obrigações

superveniente é só causa da extinção do negócio jurídico. O contrato é válido e a


prestação impossível extingue-se.

D. Impossibilidade objectiva e Impossibilidade subjectiva


Há impossibilidade objectiva quando a prestação não pode ser realizada nem
pelo devedor, nem por terceiros. Diz respeito ao próprio objecto da prestação.
Há impossibilidade subjectiva quando respeita à pessoa do devedor: ele não
pode realizar a prestação, mas outras pessoas podem fazê-lo: Art.º 401º n.º 3.

Na impossibilidade subjectiva devemos distinguir consoante estamos perante:


 prestações fungíveis: os regimes da impossibilidade objectiva e
subjectiva são diferentes:
 a impossibilidade objectiva tem os efeitos:
 se for originária: conduz à nulidade
 se for superveniente: conduz à extinção da
obrigação.
 impossibilidade subjectiva não produz nenhum destes
efeitos:
 se for originária: o contrato é válido
 se for superveniente: o negócio jurídico á válido; o
devedor que não cumprir a prestação ou se fez
substituir por terceiro ou se não o fizer responde
por isso.
 prestações não fungíveis: são aquelas que só podem ser
realizadas pelo devedor. Há uma equiparação entre a
impossibilidade objectiva e impossibilidade subjectiva. Os dois
regimes coincidem.

E. Impossibilidade total e Impossibilidade parcial


A impossibilidade total diz respeito a toda a prestação.
A impossibilidade parcial diz respeito apenas a uma parte da prestação: Art.º
793º e 802º CC.

F. Impossibilidade definitiva e Impossibilidade temporária


Impossibilidade definitiva se a prestação não pode ser realizada no presente
nem nunca mais no futuro.
Impossibilidade temporária se a prestação não pode ser realizada no presente,
mas pode ser realizada ,ais tarde no futuro.
Art.º 792º: n.º 2: só é impossibilidade temporária enquanto se mantiver o
interesse do credor.

G. Impossibilidade imputável e Impossibilidade não imputável


Impossibilidade imputável ao devedor se foi este a provocá-la com dolo ou
negligência.
Impossibilidade não imputável ao devedor se este não a provocou ou se,
embora a provocando, o fez sem dolo nem negligência.
Art.º 790º e ss

O legislador combina estas classificaçãoes para atribuir diferentes consequências


jurídicas.

19
Direito das Obrigações

REGIME DA IMPOSSIBILIDADE

 Impossibilidade absoluta, originária e objectiva. Esta pode ser:


 total:
o definitiva: dá origem à nulidade do
negócio: Art.º 280º + 401º n.º 1
o temporária: dá origem, em regra, à
nulidade do negócio com as excepções do
Art.º 401º n.º 2

 parcial:
o definitiva: dá origem a uma nulidade
parcial do negócio jurídico:
 nulidade do negócio jurídico: Art.º
208 n.º 1 + 401º
 nulidade parcial: Art.º 292º:
nulidade parcial do negócio não
determina a nulidade de todo o
negócio. Isto excepto se as partes
mencionarem que só concluiriam o
negócio se ele estivesse rodo em
ordem.
o Temporária: em regra, é nulidade parcial:
excepto os casos previsto no Art.º 401º n.º
2

 Impossibilidade absoluta, originária e subjectiva (para prestações


fungíveis). Nestes casos o negócio é válido. O problema não se
põe se o devedor se fizer substituir por terceiros: coloca-se se não
se fizer substituir. O devedor ou se faz representar por terceiros
ou responsabiliza-se pelas consequências. Estas impossibilidades
podem ser:
 total:
o definitiva: o devedor responde pelo não
cumprimento nos termos do Art.º 798º
o temporária: não se faz substituir: o
devedor incorre em mora: Art.º 798º +
804º: o devedor deve indemnizar.

 parcial:
o definitiva: Art.º 802º: há lugar à
responsabilidade do devedor.
o temporária: responsabilidade do devedor
fundada na conjunção do Art.º 802º e 804º

 Impossibilidade absoluta, originária e subjectiva (prestações não


fungíveis)
 total:

20
Direito das Obrigações

o definitiva: nulidade = Art.º 280º + 401º n.º


1
o temporária: regime da nulidade = Art.º
401º n.º 2


parcial:
o definitiva: nulidade parcial
o temporária: regime da nulidade parcial =
Art.º 401º n.º 2
Este é o mesmo esquema que o da impossibilidade absoluta, originária objectiva.

A regra da impossibilidade originária aplica-se em casos de transposição do


direito comunitário. É um esquema que já não se aplica em todo o direito privado. É
provável que não fique muito tempo no CC.

13.10.2005
(Teórica)

Requisitos do Objecto da Relação Obrigacional

São 3:
1. possibilidade: possibilidade originária de prestação.
2. licitude: abrange a não contrariedade do acto à lei, à ordem pública e aos
bons costumes
3. determinabilidade: o objecto da relação obrigacional deve ser susceptível
de uma concretização ou individualização.

Em relação à determinabilidade, deve conciliar-se o Art.º 280º com o Art.º 400º


CC.
Art.º 280º n.º 1: requisito da determinabilidade
Art.º 400º: como deve ser determinado o objecto da relação obrigacional.

Duas conclusões:
1. as partes devem designar pelo menos a pessoa que há-de determinar a
prestação.
2. o negócio jurídico deve conter um mínimo de determinação para que o
juízo de equidade do Art.º 400º não se converta num juízo de ...

Art.º 883º CC: o aplicador de direito deve recorrer aos critérios legais de
determinabilidade; se não forem aplicáveis, deverá recorrer a juízos de equidade.

3º ELEMENTO DAS RELAÇÕES JURÍDICAS OBRIGACIONAIS


FACTO JURÍDICO:

3 tipos de facto jurídico:

21
Direito das Obrigações

 constitutivos
 modificativos
 extintivos

Factos constitutivos de relações obrigacionais (= “fontes das obrigações”)

A sua classificação é difícil, tendo optado o CC por não os classificar, mas


apenas os enumerar:
A. contratos
B. negócios unilaterais
C. gestão de negócios
D. enriquecimento sem causa
E. responsabilidade civil

Para promover uma classificação, pode-se usar o critério da autonomia e


heteronomia.
Os que se baseiam na autonomia individual são os contratos e negócios
unilaterais.
A gestão de negócios, enriquecimento sem causa e responsabilidade civil
baseiam-se na heteronomia.
No espaço de conformação autónomo estão os contratos.
No espaço de conformação heterónomo está a responsabilidade civil.

Quanto aos CONTRATOS e NEGÓCIOS UNILATERAIS: reter conceitos.


Negócio jurídico: acto jurídico cujos efeitos se produzem por causa da vontade
das partes.
Divide-se em:
 negócios jurídicos unilaterais: existência de uma única
declaração de vontade ou de várias declarações de vontade com o
mesmo sentido.
 negócios jurídicos plurilaterais (ou contratos): existência de
duas ou mais declarações de vontade de sentidos opostos, mas
convergentes, tendentes à produção de um resultado jurídico
unilateral (?).
Para os negócios jurídicos unilaterais vale um princípio da tipicidade e
princípio de numerus clausus, por força do Art.º 457º CC. Os negócios jurídicos
unilaterais só são fonte de obrigações nos casos previstos na lei.
Para os negócios jurídicos plurilaterais não vigora qualquer princípio de
tipicidade ou numerus clausus: Art.º 405º CC di-lo expressamente. Os negócios
jurídicos plurilaterais estão sujeitos a um princípio de liberdade.

Os negócios jurídicos plurilaterais estão subordinados a um conjunto de


classificações: nestes tem importância a distinção entre:
* contratos unilaterais: são aqueles que geram obrigações apenas para
uma das partes.
* contratos bilaterais: são aqueles que geram obrigações para ambas as
partes. Estes podem ser:
* perfeitos (sinalagmáticos): geram obrigações para ambas as
partes unidas por um nexo de interdependência ou reciprocidade.

22
Direito das Obrigações

* imperfeitos: são os que não engendram esse vínculo de


interdependência ou reciprocidade.

RESPONSABILIDADE CIVIL:
Pode ser por factos ilícitos ou por riscos.
Na responsabilidade por factos ilícitos deve-se distinguir:
 há sistemas jurídicos baseados no princípio da tipicidade
 há sistemas jurídicos baseados no princípio da atipicidade dos
factos ilícitos.
Os que se baseiam no princípio da tipicidade dizem que só há responsabilidade
civil nos casos expressamente previstos na lei: caso do direito inglês.
Os que se baseiam no princípio da atipicidade têm uma cláusula geral capaz de
abranger todos os sistemas de responsabilidade civil: caso do direito francês.
O sistema jurídico alemão procurou um meio termo distinguindo 3 pequenas
cláusulas gerais de responsabilidade civil (nem tão estreitas quanto as do princípio da
tipicidade, nem tão amplas quanto as do princípio da atipicidade:
I. Parágrafo 823º n.º 1: quem violar a vida ...
II. Parágrafo 823º n.º 2: quem violar uma disposição legal de prestação deve
indemnizar os danos
III. Parágrafo 826º: alarga isto aos casos onde se provocam danos de forma
dolosa.

Art.º 483º CC: reproduz as duas primeiras regras do CC alemão: violação de


direito de outrém e violação de disposições legais que visam a protecção de interesses
alheios.

O problema é que o CC português não tem equivalente ao Parágrafo 826 do CC


alemão. O sistema de responsabilidade civil português parece incompleta: para o
completar recorre-se ao: princípio da proibição do abuso de direito: Art.º 334 CC: refere
as consequências: este artigo deve ser interpretado por forma a abranger os casos
contemplados pelo parágrafo 826º CC alemão.
O Art.º 334º revela-se mais adequado pois abrange também casos onde não
exista dolo.

Portanto, temos 3 cláusulas:


 Violação de direitos de outrém
 Violação de disposições legais de protecção de interesses alheios
 Abuso de direito

Factos modificativos da relações obrigacionais

A modificação pode ser:


 Subjectiva:
o casos de cessão de crédito: muda a pessoa do credor;
o sub-rogação de assumpção de dívida: muda a pessoa do devedor;
o cessão da posição contratual: tem, pex, um contrato de compra e
venda: o vendedor tem a obrigação de entrega da coisa e o direito
de receber o preço; o comprador tem o dever de pagar o preço e o

23
Direito das Obrigações

direito de receber a coisa. Se o vendedor transmitir a sua posição


de vendedor, transmite os créditos e as dívidas.
 Objectiva

Modificação objectiva das relações obrigacionais

Entre A e B há uma relação obrigacional, que se trona impossível por facto


imputável a B. A tem o direito a indemnização (Art.º 798º + 801º CC).
O problema é saber se o dever inicial de prestar se extingue e foi substituído
pelo dever de indemnizar, ou se não se extinguiu, mas transformou-se ou modificou-se
no direito de indemnização.

Art.º 790º n.º 1 CC: a impossibilidade não imputável conduz à extinção da


obrigação.
Esta regra aplica-se ou não aos casos de impossibilidade imputável?
Para isso, devemos saber qual a regra deste artigo = funda-se num imperativo
lógico: ninguém pode estar obrigado a realizar algo que é impossível.
Se a regra do n.º 1 do Art.º 790º se funda num imperativo lógico para casos de
impossibilidade inimputável, também se aplica aos casos de impossibilidade imputável.
A impossibilidade imputável ao devedor é um facto extintivo do dever de prestar
originário.
O dever de prestar é um dever primário e o dever de indemnizar é um dever
secundário, que fazem parte da relação obrigacional complexa.

Se a relação entre A e B é uma relação obrigacional simples, o dever de prestar


originário extingue-se (a impossibilidade superveniente é um facto extintivo). Se a
relação for encarada sob o ponto de vista das relações obrigacionais complexas, o dever
primário de transforma-se num dever secundário (a impossibilidade superveniente é um
facto modificativo).

Factos extintivos das relações obrigacionais

Em regra, a relação obrigacional extingue-se através do cumprimento.


O CC estabelece um conjunto de causas de extinção para além do cumprimento:
 Dação em cumprimento: Art.º 837º e ss CC: consiste no devedor
se livrar da obrigação mediante a realização de uma prestação
diferente do devido, com assentimento do credor.
 Consignação em depósito: Art.º 841º e ss CC: temos um devedor
e um credor: o devedor propõe entregar uma quantia de dinheiro:
o credor não aceita: o devedor pode livrar-se da obrigação
depositando o dinheiro numa conta à ordem do credor = caso
frequente em rendas de casa.
 Compensação: Art.º 847º e ss CC: A é credor de B por dívida de
1000 €; e B é credor de A por dívida de 1000 €. A compensação
destina-se a evitar estes pagamentos recíprocos: basta que um
deles emita uma declaração de compensação.
 Novação: Art.º 857º e SS CC: as partes extinguem a obrigação
antiga e criam, no seu lugar, uma obrigação nova. Esta novação
pode ser objectiva (onde muda o conteúdo ou objecto da

24
Direito das Obrigações

novação) ou subjectiva (onde muda a pessoa do devedor ou


pessoa do credor).
 Remissão: Art.º 863º e ss CC: corresponde, fundamentalmente,
ao perdão da dívida: o credor renuncia ao seu direito. O CC
português concebe a remissão como um contrato: o perdão da
dívida só se pode fazer com consentimento do devedor: contrato
entre credor e devedor.
 Confusão: Art.º 368º e ss CC: é a extinção da obrigação
relacional por se reunir na mesma pessoa as qualidades de credor
e devedor da mesma obrigação. Pex: A é credor de 50000 € de B;
A morre e B é o único herdeiro de A, sucedendo-lhe como credor.

19.10.2005
(Teórica)

4º ELEMENTO DAS RELAÇÕES JURÍDICAS OBRIGACIONAIS


GARANTIA:

É o conjunto de meios colocados ao dispor do titular de um direito subjectivo


para defesa de um interesse ameaçado ou violado.
Deve-se distinguir:
 Garantia privada: o titular do direito subjectivo defende os seus
interesses pelos seus próprios meios.
 Garantia pública: o titular do direito subjectivo defende os seus
interesses pelos meios do Estado, através de acções que são
colocadas em tribunal.
Acções: declarativas ou executivas.

Art.º 4º CPC: distingue 3 tipos de acções declarativas:


1. de simples apreciação: tem por fim obter unicamente a declaração de
existência ou inexistência de um direito.
2. de condenação
3. constitutivas: têm por fim autorizar uma modificação na ordem jurídica.
Estando em causa direitos de crédito, interessam-nos as acções declarativas de
simples apreciação e acções declarativas de condenação.
As acções declarativas constitutivas destinam-se a realizar direitos potestativos.
Sendo os direitos de crédito direitos subjectivos, as acções declarativas constitutivas não
são apropriadas.

Excepções: nas obrigações de prestação de facto jurídico, o credor dispõe de


uma acção constitutiva para a protecção do seu interesse: acção de execução específica
do Art.º 830º: se o devedor não cumpre, o tribunal cumpre em vez dele.
A acção específica do Art.º 830º aplica-se directamente nas acções constituídas
através de um acto de promessa e aplica-se indirectamente a todos os demais.

25
Direito das Obrigações

Exceptuando este caso, a garantia de um direito de crédito faz-se por acções de


simples apreciação e de condenação.
Na acção de simples apreciação, o credor pretende obter a declaração de
existência do direito de crédito.
Na acção de condenação, o credor pretende que o devedor seja condenado a
cumprir.

O Art.º 662º CPC permite que a acção de condenação seja proposta antes da
obrigação ser exigida.
Pex: A e B celebram um contrato onde A promete dar uma coisa a B em 2006.
Por qualquer razão, B tem dúvidas que A irá cumprir.
O Art.º 662º dá a possibilidade de propor já hoje uma acção que condene o
devedor a cumprir: acção de condenação.
No domínio do crédito, as acções de simples apreciação nunca serão propostas.
Neste domínio, a acção que nos interessa é a acção de condenação: Art.º 817º CC.
Nestas acções, o tribunal condena o devedor ao cumprimento. Esta condenação
pode não ser suficiente. O credor exige cumprimento e o devedor recusa-se; pode
também recusar mesmo sendo o tribunal a exigir o cumprimento.
Há meios criados e colocados à disposição do tribunal para forçar o devedor a
cumprir: um desses meios é o previsto no Art.º 829º-A CC: sanção pecuniária
compulsória.

O n.º 4 desse artigo não tem nada a ver com uma sanção pecuniária compulsória:
está aqui por engano.

O n.º 1 do Art.º 829º-A enuncia os 3 pressupostos de aplicação da sanção


pecuniária compulsiva:
1. só pode ser decretado a requerimento do credor
2. só pode ser decretado para pressionar o devedor ao cumprimento de
obrigações de prestação não fungível
3. não pode ser decretado sempre que estejam em causa especiais
qualidades artísticas ou científicas do obrigado.
Estando preenchidos os 3 pressupostos, o tribunal condena o devedor ao
cumprimento, e no caso de não cumprimento, o devedor deverá pagar uma quantia em
dinheiro por cada dia de atraso ou por cada infracção.

O n.º 3 consagra a regra estranha que o produto dessa sanção pecuniária


compulsória se destine, em partes iguais, ao credor e ao Estado.

O n.º 2 contém um esclarecimento importante: o segmento final esclarece que a


sanção pecuniária compulsória é devida, independentemente da indemnização a que
houver lugar. A sanção pecuniária compulsória não prejudica o direito à indemnização.

O alcance da sanção pecuniária compulsória é restrito: obrigação de prestação de


facto não fungível (positiva ou negativa). Na prestação fungível (prestação de coisa), a
sanção pecuniária compulsória não se aplica.
O reforço da condenação do devedor proporcionado pela sanção pecuniária
compulsória só ocorre em número reduzido de casos.
O credor terá de lançar mão de uma acção executiva.

26
Direito das Obrigações

Estas acções destinam-se a conseguir, contra ou sem a vontade do devedor, e à


custa do seu património, o mesmo benefício que contribuiria o seu cumprimento ou um
benefício equivalente.
Quando a acção executiva proporciona o mesmo benefício, estamos perante
uma execução específica: Art.º 827º e 828º e 829º CC: casos de execução específica.
Quando proporciona um benefício equivalente, estamos perante uma execução
não específica.

Para obrigações de prestação de coisa, o credor pode exigir que a coisa lhe seja
entregue. O Art.º 828º contempla o caso das obrigações de prestação de facto não
fungível: pode ser realizado pelo devedor ou por terceiros: consiste em conceder ao
credor a faculdade de pretender que a prestação seja efectuada por terceiros.

Art.º 829º: concede ao credor de uma obrigação de prestação de facto negativa


que a obra seja demolida à custa do devedor.
Pex: A e B são vizinhos e comprometem-se a não construir um muro. Mas B
constrói: A pode exigir a demolição.
O problema é aplicar quando não há facto material susceptível de demolição:
caso de estabelecimento comercial: A tem obrigação de não concorrência para com B e
A abre um estabelecimento comercial que concorre com o de B.
Poderá usar-se o Art.º 829º para o aplicar a casos onde não há obra material
susceptível de demolição?
Sim: pode aplicar-se a estes casos pois o Art.º 829º é a expressão de um
princípio geral de que quem infringir uma obrigação de prestação de facto negativo
deve responder pelas consequências desse facto. Pode ser condenado a repor as coisas
como estavam antes da prestação.
Este princípio aplica-se às obrigações de não concorrência.

A execução das obrigações de prestação de coisa é uma execução específica


directa: a prestação obriga a retirar-se a coisa do património do devedor.
A execução das obrigações de prestação de facto positivo fungível e de
obrigações de prestação de facto negativo é uma execução específica indirecta: retira-se
do património do devedor o dinheiro para fazer com que um terceiro realize a prestação.
Estes aproximam-se dos casos da execução não específica: a finalidade da execução é
obter dinheiro através do património do devedor.
Na execução específica directa, retira-se dinheiro para que seja demolida a obra.
Na execução específica indirecta retira-se dinheiro para indemnizar o credor.

Como o estado obtém o dinheiro necessário para pagar a indemnização ao credor


ou custear a demolição?
Através da execução dos bens do devedor: o estado apreende ou penhora os bens
do devedor, vende-os e com o dinheiro paga ao credor.
Quais os bens que o Estado pode executar?
* Garantia geral (comum) das obrigações: concretiza-se no direito de
executar o património do devedor.
* Garantia especial das obrigações: divide-se em:
 pessoais: o credor adquire o direito de executar o património de
um terceiro.

27
Direito das Obrigações

 reais: o credor adquire o direito de se fazer pagar com preferência


sobre os demais credores pelo valor ou rendimentos de bens do
devedor ou terceiros.

Garantia Geral das Obrigações

Composto por:
 Princípio da responsabilidade ilimitada: Art.º 601º CC: pelo
cumprimento da obrigação respondem todos os bens susceptíveis
de penhora.
 Princípio da igualdade: Art.º 604º CC: os credores encontram-se
no mesmo plano e têm o direito de ser pagos proporcionalmente
pelos bens do devedor.

A (seus bens valem 100 €):


 credor B: deu 500 € - vai receber 50 €
 credor C: deu 250 € - vai receber 25 €
 credor D: deu 2510 € - vai receber 25 €

Os dois princípios em causa comportam desvios/excepções:


 Art.º 601º: in fine derroga o princípio da responsabilidade
ilimitada em caso de autonomia ou separação dos patrimónios.
Património autónomo é aquele que responde, e responde só ele, por
determinadas dívidas.
Isto é um desvio em relação ao princípio da responsabilidade ilimitada. O credor
não pode ultrapassar o limite do património autónomo.
 Art.º 602º: admite a limitação convencional da responsabilidade
patrimonial do devedor.
 Art.º 603º: diz respeito às doações: permite que o doador de um
bem diga que ele não responde pelas dívidas do donatário.

Quanto ao princípio da igualdade: o n.º 2 do Art.º 604º consagra um desvio


quando haja causa legítima de preferência.
O Art.º 604º n.º 2 faz uma enumeração das causas legítimas de preferência
admitidas na lei: entre os não enumerados está a penhora: Art.º 822º.
Este Art.º 822º acrescenta uma causa de preferência.

A garantia geral é garantida pelo património do devedor.


Art.º 605º: concede 4 meios de preservar o património:
1. arresto: Art.º 619º e ss: apreensão judicial dos bens do devedor fundada
no justo receio que o devedor os aliene ou oculte.
2. declaração de nulidade: 605º: concretização do Art.º 286º. Esclarece
que os credores podem ser interessados na declaração de nulidade.
3. impugnação pauliana: Art.º 610º: atribui ao credor a faculdade de reagir
contra actos do devedor.
4. sub-rogação: Art.º 606º: reagir contra omissões de actos do devedor.

28
Direito das Obrigações

Garantia Especial das Obrigações

 Pessoais: caso da fiança: decorre do Art.º 627º CC: em caso de não


cumprimento, o credor pode executar o património do devedor e do
fiador (este responde com todo o seu património).
 Reais:
 Penhor: incide sobre coisas móveis.
 Hipoteca: incide sobre coisas imóveis ou sobre móveis sujeitos a
registo.

Garantia Privada
Realiza-se através de meios de coerção. Há 3 características destes meios:
 Têm por função intimidar o devedor para que cumpra
 Proporcionam ao credor a possibilidade de obter a satisfação do
seu direito sem intervenção do juiz
 Pressupõem a possibilidade de cumprimento.
Destes meios destacam-se:
o Cláusulas gerais
o Excepções de não cumprimento
o Sinal
o Resolução do contrato

20.10.2005
(Teórica)

Duas modalidades de obrigações relacionais diferentes entre si pela função


garantia:
 Obrigações civis
 Obrigações naturais

O Art.º 402º dá uma definição de obrigação natural. Dá as 3 características


essenciais das obrigações naturais:
 Obrigação natural corresponde a um dever da ordem moral ou social
 O dever da ordem moral ou social deve ser tão importante que se possa
qualificar como um dever de justiça
 O cumprimento de uma obrigação natural não pode ser judicialmente
exigido
A diferença entre obrigações civis e naturais é que, na obrigação civil, o
credor tem ao seu dispor a acção declarativa de condenação e acção executiva; na
obrigação natural, não pode fazê-lo: o cumprimento da obrigação natural não é
judicialmente exigido.

A garantia das obrigações naturais é muito ténue e decorre do Art.º 403º CC: a
sua interpretação tem de relacionar-se com o Art.º 473º + 476º CC: estes artigos dizem
que se alguém cumpre uma obrigação que não existe, tem o direito de exigir a
restituição do que entregou. “Repetição” significa “pedir de volta”.

29
Direito das Obrigações

O 403º diz que, no caso de obrigações naturais, não há lugar à repetição do


indivíduo. A garantia das obrigações naturais é a faculdade do credor reter aquilo que
recebeu.
As obrigações naturais são uma forma de deveres jurídicos.
Direito subjectivo no sentido restrito pode livremente exigir a outrém um
comportamento positivo (acção) ou negativo (omissão).
Poder de agir: diz respeito às obrigações civis.
Poder de pretender: diz respeito às obrigações naturais.

As obrigações naturais não constituem obrigações jurídicas: as obrigações


naturais seriam simplesmente deveres da ordem moral ou social juridicamente
relevantes.
Concepção incorrecta pois é incompatível com as disposições legais.
Para as obrigações naturais, o Art.º 404º diz que, em regra, todas as disposições
legais relativas às obrigações civis devem aplicar-se às obrigações naturais.
Manuel de Andrade diz que as obrigações naturais são obrigações jurídicas
imperfeitas.

O Art.º 402º define as obrigações naturais em termos muito amplos. O seu texto
abrange todos os casos em que essas 3 características se reúnem:
 Dever da ordem moral ou social
 Não judicialmente exigível
 Corresponde a um dever de justiça
Isto significa que o conceito de obrigação natural não se circunscreve aos casos
especificamente previstos na lei.
3 casos previstos na lei:
a) Dívida prescrita: deve-se distinção prevista no Art.º 303º CC: a
prescrição só é eficaz se for invocada por aquele a quem proveita. Se o
credor exige o cumprimento de uma dívida prescrita e o devedor não
invoca a prescrição, a obrigação continua a ser civil. Se o devedor
invocar a prescrição da dívida, aqui há uma obrigação natural: só nestes
casos é que é assim.
b) Dívida de jogo e aposta: Art.º 1245º CC: as dívidas de jogo e aposta são
fontes de obrigações naturais.
c) Deveres dos pais compensarem os filhos pelo trabalho prestado: Art.º
1895º CC: o cumprimento deste dever não pode ser judicialmente
exigido: é apenas uma obrigação natural.

Regime das Obrigações Naturais:

Primeiro, devemos analisar a natureza jurídica do acto de cumprimento de uma


obrigação natural.
Para a natureza jurídica do cumprimento de obrigações civis temos:
 Teses negociais: o cumprimento é um negócio jurídico.
 Teses não negociais: o cumprimento é um acto jurídico em
sentido restrito.
O critério de distinção entre elas é: os efeitos de um acto jurídico em sentido
restrito produzem-se por causa da lei, independentemente da vontade das partes.
Os efeitos de um negócio jurídico produzem-se por causa da vontade das partes.

30
Direito das Obrigações

Os actos jurídicos em sentido restrito dividem-se em:


a) Actos quase negociais: são a manifestação de uma vontade ou ideia.
b) Actos reais ou operações materiais: consistem na realização de um
determinado resultado ao qual a lei atribui determinados efeitos jurídicos.
Entre os actos reais e actos negociais há diferenças.
Art.º 295º CC: aos actos jurídicos em sentido restrito são aplicáveis as
disposições relativas ao negócio jurídico na medida que a analogia das situações o
justifica.
Esta analogia:
* actos quase negociais são quase iguais ao regime do negócio jurídico
* actos reais são iguais ao regime dos negócios jurídicos.

1. determinar se o acto de cumprimento deve considerar-se negócio jurídico ou


acto em sentido restrito.
O acto de cumprimento deve considerar-se como um acto jurídico em sentido
restrito. O acto de cumprimento tem determinados efeitos, independentemente da
vontade das partes.

2. no caso de se qualificar como acto em sentido restrito, determinar se deve


qualificar-se como um acto quase negocial ou acto real.
A resposta é controversa: solução intermédia foi estudada em TGDC: Art.º 764º
CC: para diferentes casos onde o cumprimento constitui acto de disposição ou onde o
cumprimento não constitui acto de disposição.
Nos casos onde constitui acto de disposição, estamos perante um acto quase
negocial (ou autêntico negócio jurídico).
Nos casos onde o cumprimento não constitui acto de disposição, estamos perante
um acto real.
As regras sobre capacidade só se aplicam quando estamos perante actos quase
negociais.
Quando estamos perante casos onde o cumprimento constitui acto de disposição,
pode envolver, por si só, a prática de um negócio jurídico: cumprimento de um contrato
de promessa: obrigação de emitir uma declaração negocial para cada uma das partes: a
celebração do contrato definitivo é por si só um negócio jurídico.

Face a esta qualificação, como se deve qualificar o acto de cumprimento das


obrigações naturais?
Entre estes actos e os de cumprimento de obrigações civis há diferenças. Nas
obrigações civis o devedor deve cumprir; nas obrigações naturais não sucede o mesmo.
O devedor pode ou não cumprir. Por isso a relevância da vontade do credor é
maior no acto de cumprimento das obrigações naturais do que nas obrigações civis.
Por isso, deve-se considerar que o acto de cumprimento da obrigação natural é
sempre um acto de disposição.
A construção exposta tem o apoio do Art.º 403º: exige quase sempre a
capacidade do devedor para cumprimento da obrigação natural.
A regra do 403º coincide com a regra do 764º, quando esse cumprimento é um
acto de disposição.

Requisitos do acto de cumprimento das obrigações naturais: Art.º 403º enuncia


dois princípios:

31
Direito das Obrigações

 Capacidade do devedor: explica-se pelo facto do acto de


cumprimento da obrigação natural constituir um acto de
disposição.
 Espontaneidade do cumprimento: causa dificuldades mais
importantes. O Art.º 403º diz que a prestação é espontânea
quando livre de coacção.
Outros vícios são:
 Coacção: quanto a este o Art.º 403º n.º 2 diz que a coacção é
relevante.
 Erro: entende-se que ele é relevante.
Pex: A e B têm uma dívida que prescreveu. O lesante não sabe que as dívidas
resultantes de responsabilidade civil prescrevem no prazo de 3 anos e paga. Ele não
pode invocar o erro para exigir a restituição do que pagou.
 Dolo: exclui a espontaneidade do cumprimento.
Se houver erro, o devedor que pagou não pode exigir restituição. Se houver
dolo ou coacção pode fazê-lo.

Art.º 403 n.º 1: excepção ao Art.º 476º: assim, supõe-se que quando há
incapacidade do devedor, dolo ou coacção, o Art.º 476º aplica-se.
A aplicação do Art.º 476º conduziria a resultados pouco razoáveis.
Pex: para caso de dolo ou coacção, a consequência é a anulabilidade (invocada
no prazo de 1 ano após data de cessação do vício).
Art.º 482º: no caso de dolo da obrigação natural.
Havendo incapacidade do devedor, dolo ou coacção, o devedor só tem o direito
potestativo de anulação do acto de cumprimento no prazo de 1 ano a partir da data de
cessação do vício.

Efeitos do cumprimento da obrigação natural: o cumprimento extingue-a. Os


efeitos são equiparados aos efeitos das obrigações civis. Excepto o disposto no Art.º
615º: desvio em relação à regra.
Causas de extinção das obrigações naturais, além do cumprimento: o problema
coloca-se com as promessas de pagamento. Pode haver a anulação de uma obrigação
natural transformando-a em obrigação civil?
Sim: o devedor tem faculdade de fazer o mais (cumprir) e o menos (de prometer
cumprir, transformando uma obrigação natural em obrigação civil).

Análise da diferença entre direitos de crédito e direitos reais

Conceito de direito real: as teses dividem-se: há 2 grupos:


 Teses personalistas (ou individualistas): direito real como
um poder de exclusão: poder de exigir de todos os demais
um comportamento negativo = abstenção de actos ou
ingerência de intromissão da coisa.
 Tese realista (ou clássica): poder de domínio ou
soberania: poder de usar a coisa de um modo exclusivo.
O Dr. Henrique Mesquita contrapôs estes dois direitos:
 Direito das obrigações: disciplina direitos de cooperação entre as
pessoas.

32
Direito das Obrigações

 Direito das coisas (reais): disciplina direitos de soberania entre


uma pessoa e uma coisa.
O contraste projecta-se nas normas: normas de relacionação (direito das
obrigações) e normas de ordenação (direitos reais).

O contraste entre as duas teses não deve exagerar-se. Os adeptos da primeira


aceitam que as normas de direito das coisas atribuam a uma pessoa um poder directo e
imediato sobre a coisa.
Os da 2ª tese admitem que as normas de direito das coisas conduzam à exclusão
de direitos de demais. Esse dever de abstenção é consequência do poder de uma pessoa
sobre as coisas.

Isto deve resolver-se com o conceito de direito subjectivo.


Direito real é uma espécie de direito subjectivo propriamente dito: poder de
exigir um comportamento positivo ou negativo. O direito real também terá de consistir
num poder de exigir de todos um determinado comportamento: comportamento
negativo = abstenção ou omissão de ingerência.
Entre as duas deve preferir-se a tese personalista.

26.10.2005
(Teórica)

Tese personalista: acentua o lado externo do direito real.


Tese realista: acentua o lado interno do direito real.
Deve preferir-se o lado externo: o direito real é um poder de exigir de todos os
demais membros da comunidade jurídica um determinado comportamento negativo:
abstenção ou omissão de ingerência no direito da coisa.

Direito real: é um direito absoluto; concede ao titular um poder directo e


imediato sobre a coisa.

3 diferenças fundamentais entre os direitos reais e os direitos de crédito:


I. Direitos reais são direitos absolutos; direitos de crédito são direitos
relativos.
II. Direitos reais têm como objecto imediato uma coisa; direitos de crédito
têm como objecto imediato uma prestação.
III. Princípio da tipicidade e taxatividade dos direitos reais.

I. Direitos reais são direitos absolutos e direitos de crédito são direitos


relativos.
Os direitos reais são oponíveis erga omnes; os direitos de crédito são oponíveis
inter partes.
A contraposição entre direitos absolutos e direitos relativos projecta-se em regras
de responsabilidade civil: a violação de um direito real (absoluto) faz com que o agente
incorre em responsabilidade civil extracontratual (Art.º 483º CC); a violação de direitos
de crédito (relativos) faz com que o devedor incorra em responsabilidade contratual
(Art.º 798º ss CC).

33
Direito das Obrigações

A análise da contraposição: autores associam à característica da absolutividade


os atributos de preferência/prevalência e sequela. Os direitos de crédito não têm tais
características.

ATRIBUTO DE PREFERÊNCIA/PREVALÊNCIA

Este atributo consiste em o direito real prevalecer sobre qualquer direito sobre
coisa com eficácia relativa, mesmo constituído anteriormente, e prevalecer sobre
qualquer direito sobre a coisa com a eficácia absoluta, constituído posteriormente, desde
que com ele conflitua.
Duas regras diferentes deste atributo:
 Um direito real prevalece sobre qualquer outro direito relativo sobre
a coisa, mesmo que constituído anteriormente.
 Um direito real prevalece sobre qualquer outro direito sobre a coisa
com eficácia absoluta, desde que constituído posteriormente.

O atributo da prevalência pode concretizar-se em dois tipos de regras:


 Regras de prioridade entre direitos subjectivos constituídos
através de negócios jurídicos válidos: se A constitui 2 hipotecas:
ema em favor de B e outra em favor de C; são as duas válidas,
mas B pode pretender ser pago com preferência sobre C.
 Regras de validade ou invalidade: contratos de compra e venda:
A vende a mesma coisa a B e C: a venda de C é nula (Art.º 892º).

Este Art.º 892º CC constitui a concretização do princípio segundo o qual não


pode haver dois direitos reais com o mesmo conteúdo sobre o mesmo objecto.

ATRIBUTO DA SEQUELA

Faculdade de o titular perseguir a coisa onde quer que ela se encontre, por
exemplo, reivindicando-a a um terceiro.

A regra é que os direitos reais seguem o princípio da preferência e sequela.


Excepção: há casos entre direitos reais onde não actua o princípio da
preferência do direito constituído em primeiro lugar: caso da dupla venda: A vende a
B e a C: B não regista; e C regista: vale o direito registado em primeiro lugar.
Há casos de conflitos entre direitos reais onde não actua o princípio da
sequela: A vende a B, que vende a C, que vende a D. O primeiro negócio é nulo e os
negócios seguintes são venda de coisa alheia.
Em princípio, de acordo com o princípio da sequela, A poderia reivindicar a
coisa a B. Mas pode não suceder como Art.º 291º (?).

Os direitos de crédito não têm estes dois atributos:


 Não têm o atributo da preferência: A celebra dois contratos de
compra e venda com eficácia obrigacional:
 Janeiros de 2005: promete vender a B

34
Direito das Obrigações

 Fevereiro de 2005: promete vender a mesma coisa a C.


Os dois negócios são válidos: o problema é que não podem ser ambos
cumpridos. A lei não fixa hierarquia entre os direitos de B e C: o vendedor pode
escolher o contrato que quer cumprir e a quem vai indemnizar. O atributo da preferência
não funciona, pois, aqui.
 Os direitos de crédito não têm o atributo da sequela: o credor só
pode exigir ou pretender a prestação ao devedor (e a mais
ninguém).

II. Direitos reais têm como objecto imediato uma coisa; direitos de crédito têm
como objecto imediato uma prestação

Diferença entre conteúdo e objecto das relações jurídicas:


 O conteúdo dos direitos subjectivos consiste no poder atribuído
ao seu titular.
 O objecto dos direitos subjectivos é aquilo sobre que incidem os
poderes atribuídos pelo direito subjectivo.
Quanto ao objecto, deve-se distinguir:
 Imediato do direito subjectivo: aquilo sobre que os poderes do
titular incidem de modo directo, sem que se interponha nada.
 Mediato do direito subjectivo: aquilo sobre que os poderes do
titular incidem só de forma indirecta.

Direitos Reais  Direitos de Crédito


Direitos reais: só têm um objecto imediato: os poderes do titular exercem-se
directamente sobre a coisa.
Direitos de crédito: devemos distinguir:
o Nas obrigações de prestação de facto: o direito do credor só tem
um objecto imediato (que é a própria prestação).
o Nas obrigações de prestação de coisa: os poderes do titular têm
um objecto imediato (prestação) e objecto mediato (constituído
pela própria coisa).
O credor só terá acesso directo à coisa se o devedor cumprir o dever de entregar
a coisa.

III. Princípio da tipicidade e taxatividade dos direitos reais.

Devemos distinguir duas questões:

A. Tipicidade ou taxatividade dos negócios jurídicos constitutivos de


direitos de crédito ou direitos reais.
Em TGDC, defende-se que a autonomia privada se exerce sempre através dos
tipos de negócios jurídicos aceites pela ordem jurídica. Isso implica que os princípios
toda tipicidade e taxatividade aplicam-se quer aos actos constitutivos de direitos de
crédito ou direitos reais. Não há diferença entre estes dois direitos.

B. Tipicidade ou taxatividade do conteúdo dos direitos de crédito e direitos


reais.

35
Direito das Obrigações

Há uma diferença fundamental entre os dois direitos:


 Nos direitos de crédito: as partes têm a faculdade de fixar
livremente o conteúdo do direito. Esta liberdade está consagrada
no Art.º 398º e 405º CC (o 398º é confirmado pelo 405º).
 Nos direitos reais: Art.º 1306º: consagra os princípios da
tipicidade e taxatividade dos direitos reais: neste domínio, as
partes têm somente liberdade de optar pelo número de direitos de
crédito.

DIREITOS PESSOAIS DE GOZO

Art.º 407º CC: alude à figura dos direitos pessoais de gozo (estão entre os
direitos reais e direitos de crédito, não se sabendo bem onde os enquadrar).
Duas indicações do Art.º 407º:
 Direitos pessoais de gozo proporcionam ao seu titular uso e
fruição de uma coisa.
 Contrapõe os direitos pessoais de gozo e direitos reais de gozo.
Direitos pessoais de gozo: direito do locatário: direito pessoal de gozo sobre a
coisa da casa; contrato de promessa de compra e venda com entrega imediata da coisa: o
promitente comprador tem direito pessoal de gozo sobre a coisa.
A categoria dos direitos pessoais de gozo é controversa: são direitos
obrigacionais (de crédito) ou direitos reais?
Há quem considere que são obrigacionais e há quem ache que são direitos reais.
Também há quem defende que não são nem um nem outro, mas uma categoria de meio
termo.

O primeiro passo para resolver o problema é analisar a estrutura dos direitos


pessoais de gozo: são direitos de estrutura complexa.
Englobam um núcleo central (constituído pelo poder de uso e fruição da coisa) e
zona periférica (conjunto de obrigações , positivas ou negativas, dirigidas a constituir ou
proporcionar as condições adequadas ao exercício do poder de uso e fruição da coisa).
Andrade Mesquita: designou direitos pessoais de gozo em sentido estrito (ou
direitos pessoais de gozo propriamente ditos) para se designar o núcleo central e direitos
pessoais de gozo em sentido amplo para designar o conjunto constituído pelo núcleo
central e zona periférica.

Quanto aos direitos e deveres da zona periférica, não havia dúvidas quanto à sua
classificação como direitos de crédito.
O problema está na designação dos direitos do núcleo central.
Os critérios para distinguir direitos reais ou de gozo são essencialmente o facto
dos direitos reais serem direitos absolutos e os de crédito serem direitos relativos (I) e o
facto dos direitos reais terem como objecto imediato uma coisa e os direitos de crédito
terem como objecto imediato uma prestação (II). É com base nestes critérios que se
pode dizer se o direito pessoal de gozo propriamente dito é real ou de crédito.

1. Direito pessoal de gozo é absoluto ou relativo?


O critérios de distinção são regras da responsabilidade civil.
O problema da absolutividade ou relatividade está em saber se os direitos
pessoais de gozo são direitos de outrém/absolutos para o Art.º 483º.

36
Direito das Obrigações

A resposta é afirmativa: os direitos pessoais de gozo estão protegidos pelo Art.º


483º: devem considerar-se absolutos.

2. Os direitos pessoais de gozo têm como objecto imediato uma coisa ou


prestação?
Uma coisa: os poderes de uso e fruição do titular exercem-se imediatamente
sobre uma coisa.

Os direitos pessoais de gozo são absolutos e têm como objecto imediato uma
coisa: isto leva a que se considerem como direitos reais.
O problema é que o Art.º 407º fala de direitos pessoais de gozo: p legislador
pretendeu contrapor os direitos pessoais de gozo e reais. Porquê?
Porque os direitos pessoais de gozo e reais de gozo estão subordinados a regimes
diferentes. Diferencia-os para subordinar os direitos pessoais de gozo a um regime
próprio. Os direitos pessoais de gozo são direitos de regime dualista ou misto: nem
subordinam integralmente ao regime dos direitos de crédito, nem ao regime dos direitos
reais.
O intérprete deve apreciar cada um dos aspectos dos dois regimes para
determinar as disposições em causa que se aplicam aos direitos pessoais de gozo.
Entre as disposições legais dos direitos reais aplicáveis aos direitos pessoais de
gozo estão os do Art.º 413º e 1287º CC.
Art.º 413º: as partes devem aluir eficácia real aos contratos de promessa. Deve o
interpretar-se de forma a abranger os direitos pessoais de gozo.
Art.º 1287º: usucapião: pode adquirir-se por usucapião um direitos pessoal de
gozo? Sim: este artigo aplica-se aos direitos pessoais de gozo.

Art.º 407º sobressai: causa dificuldades de interpretação: saber qual o direito


mais antigo em data para efeitos deste artigo.
Caso de duplo arrendamento do mesmo prédio:
Janeiro 2005 : A – B
Fevereiro 2005: A – C
A entrega a coisa a C imediatamente. O problema é saber qual é o direito mais
antigo em data para efeitos do Art.º 407º: o de B (contrato celebrado em primeiro) u o
de (primeiro a ocupar a coisa). A doutrina entende que é o direito de B: contrato
celebrado em primeiro lugar.
Isto causa dificuldades por causa de 3 pontos:
1. prejudica o princípio da estabilidade das relações jurídicas: a casa é
entregue a C; ele vive nela; C corria o risco de B lhe bater à porta e dizer
que o direito é dele.
2. a doutrina exposta permitiria que: quando A entregou o prédio a C não
desistiria do contrato com B; A zanga-se com C e decide expulsá-lo:
celebra em outubro de 2005 com B um contrato com data de Janeiro
2005. Proporciona a possibilidade de uma ante-datação fraudulenta.
3. não resolve o problema de saber como resolver o conflito no caso dos
dois contratos de arrendamento serem celebrados no mesmo dia, à
mesma hora.
Face a isto, deve entender-se que o direito mais antigo em data é o direito de
quem primeiro conseguiu o cumprimento da obrigação e entrega da coisa.
O direito pessoal de gozo para efeitos do Art.º 407º é só em sentido estrito ou
sentido amplo.

37
Direito das Obrigações

B nunca teve um direito pessoal de gozo em sentido estrito: o direito pessoal de


gozo mais antigo em data é o de C.
O direito pessoal mais antigo em data para efeitos do Art.º 407º é o de quem
primeiro conseguiu a obrigação de entrega da coisa.

27.10.2005
(Teórica)

Doutrina do efeito externo das Obrigações: o problema colocado é o de saber


se um terceiro que interfere na relação jurídica obrigacional, e por isso provoque a lesão
do crédito, responde extracontratualmente perante o credor.
O terceiro responde extracontratualmente perante o credor?
C ----- D

terceiro
Pex: entre C e D há um contrato exclusivo. O terceiro interfere e convence D a
violar o contrato. C pode exigir indemnização ao terceiro?
Pela lesão do direito de crédito, a responsabilidade do terceiro deverá ser
extracontratual.

CC: 3 cláusulas de responsabilidade civil extracontratual:


1. violação de direitos de outrém: Art.º 483º, n.º 1, 1ª alternativa.
2. violação de disposições legais de protecção: Art.º 483º, n.º 1, 2ª
alternativa
3. princípio da proibição do abuso de direito: Art.º 334º

Violação de direitos de outrém: Art.º 483º, n.º 1, 1ª alternativa


O artigo usa a expressão “direitos de outrém”. Os adeptos da doutrina do efeito
externo fazem uma interpretação declarativa: a expressão abrange quer os direitos
absolutos, quer os relativos.
A responsabilidade funda-se neste artigo.
A violação de direitos de outrém é abrangida por este artigo.

Os adversários dessa teoria fazem uma interpretação restritiva: embora o CC use


essa expressão, deve entender-se que o artigo diz respeito exclusivamente aos direitos
absolutos. A violação/lesão de direito de crédito por terceiros não seria abrangida pelo
artigo. O credor só poderia obter indemnização de um terceiro com fundamento nas
regras de responsabilidade civil se o terceiro incorresse em abuso de direito.

Interpretação declarativa do 483º


“Direitos de outrém”:
 direitos absolutos
 direitos relativos

Adversários: Interpretação restritiva do 483º


“Direitos de outrém”  direitos absolutos

38
Direito das Obrigações

Abuso de direito
Mais exigente: pressupõe, para ser
Art.º 483º n.º 1  Art.º 334º aplicado, um excesso manifesto dos
 limites da boa fé, bons costumes do
Menos exigente fim social.

Anteprojecto de Vaz Serra: regra: o facto do terceiro, pelo facto de quem os


direitos de crédito não satisfeitos, não incorre em responsabilidade para o respectivo
credor, salvo em caso de abuso de direito.
O CC não consagrou o Art.º 734º do anteprojecto: deixou o problema em aberto
para ser resolvido pela doutrina e jurisprudência.
A doutrina e jurisprudência quase nunca chegam a conclusões unânimes.
O STJ teve de resolver casos:
1. Caso de Francisco Balsemão que processou um terceiro (1964).
2. 1964: um cantor que celebrou um contrato de exclusividade com empresa
discográfica. Um terceiro convenceu o cantor a gravar um disco para si. A empresa
discográfica reclamou indemnização do terceiro. O STJ defendeu que não se defendia a
teoria do efeito externo das obrigações e não havia direito a indemnização.
São dois casos semelhantes com decisões diferentes.

Antunes Varela apresenta 5 argumentos retirados do CC para recusar a teoria


do efeito externo das obrigações:
1. argumento retirado do Art.º 406º n.º 2 CC: consagra o princípio da
latinidade do contrato: efeitos só nos casos e termos da lei.
A teoria do efeito externo das obrigações consagra efeitos do contrato a
terceiros. O princípio que o contrato produz efeitos a terceiros não está previsto na lei,
devendo ser considerado incompatível com o Art.º 406º n.º 2.
2. Art.º 413º e 421º CC: admitem a existência de contratos de promessa e
pactos de preferência com eficácia obrigacional de um lado e com
eficácia real por outro lado.
Devemos distinguir entre estes dois:
 Contrato de promessa e pacto de preferência com eficácia
meramente obrigacional: não são eficazes em relação a terceiros:
não são oponíveis a terceiros.
 Contrato de promessa e pacto de preferência com eficácia real:
são eficazes/oponíveis a terceiros.
O argumento invocado pelos adversários da teoria do efeito externo das
obrigações, e retirado destes artigos, é que a lei distingue contratos e pactos eficazes em
relação a terceiros e ineficazes em relação a terceiros. Não vai de acordo com a teoria
quando o crédito tem eficácia em relação a terceiros.
3. Art.º 495º n.º 3: consagra um caso de efeitos externo das obrigações.
Pex: C é credor e D devedor de uma obrigação de alimentos; um terceiro causa
morte do devedor.
Este artigo diz que o credor tem o direito de exigir indemnização ao terceiro.
Isto é claramente um caso de efeito externo das relações obrigacionais.
Os adversários da teoria do efeito externo das obrigações extraem um argumento
contrário: o artigo é uma disposição excepcional. Estando isto em causa, o intérprete
deve usar o argumento “a contrario sensu”: a regra é a rejeição de tal teoria.

39
Direito das Obrigações

4. Art.º 794º e 803º CC: diz respeito ao commudum de substituição. Pex: o


objecto de uma obrigação é a entrega de um carro (que estava na
garagem do devedor). Um terceiro incendeia a garagem destruindo o
carro.
O devedor adquire contra o terceiro um direito de indemnização: Art.º 794º: o
credor pode substituir-se ao devedor no exercício do seu direito à indemnização.
Para os adversários da teoria do efeito externo das obrigações, esta teoria da dos
efeitos externos das obrigações dá ao credor um direito próprio contra o terceiro. Os
artigos 794º e 803º não lhe atribuem nenhum direito próprio: atribuem apenas a
faculdade de se substituir ao devedor na titularidade do direito deste.
O facto de não darem um direito próprio revelaria que o legislador rejeitaria esta
teoria do efeito externo das obrigações.
5. Art.º 1306º: consagra o princípio da tipicidade e taxatividade dos direitos
reais. Estes princípios resultam da circunstância de os direitos reais
serem absolutos, oponíveis erga omnes. Por isso, devem ser facilmente
cognoscíveis pela sociedade: este artigo destina-se a assegurar isso.
A doutrina do efeito externo das obrigações atribui eficácia erga omnes aos
direitos de crédito: oponíveis a todo e qualquer terceiro que os violasse.
Esta expansão da eficácia dos direitos de crédito só seria possível se os direitos
de crédito estivessem sujeitos ao princípio da tipicidade ou taxatividade.
O CC rejeita expressamente este princípio da taxatividade e tipicidade dos
direitos de crédito: Art.º 398º n.º 1.

Estas 5 disposições levam a concluir que a teoria do efeito externo das


obrigações foi rejeitada pelo CC português. Os argumentos em causa dão uma imagem
global da orientação do direito civil português, mas não são por si só decisivos.
A resolução do problema deverá passar pelos princípios gerais do direito
privado português: sobressai o princípio da não ressarcibilidade dos danos
patrimoniais primários.
Danos patrimoniais primários são os que uma pessoa sofre sem ter havido uma
prévia violação de direitos protegidos.
Este princípio funda-se em 3 razões:
 Autonomia ou liberdade individual
 Ausência de uma notoriedade social típica dos interesses
patrimoniais: cada pessoa sabe o que é propriedade da outra; não
sabe é quais os interesses patrimoniais.
 Delimitação do círculo de credores: não se deve expandir muito:
restringe-se aos casos de lesão de direitos absolutos.
Interessa-nos sobretudo o primeiro argumento: autonomia ou liberdade
individual: cada pessoa deve dispor da liberdade de actuar sem ter de considerar sempre
os interesses patrimoniais ou interesses contratuais das outras pessoas.
A liberdade de cada um tem, em princípio, o mesmo que as relações
obrigacionais da outra.
Em caso de conflito entre liberdade de acção de um e direitos absolutos de
outrem, a lei dá prioridade aos direitos absolutos. Em caso de conflito de liberdade de
acção e direitos absolutos há direito d indemnizar.
Em caso de conflito entre liberdade de acção e direitos relativos de outrem, a
lei não estabelece prioridade a nenhum dos direitos em conflito.
Para que a violação de direitos de crédito não origine uma obrigação de
indemnizar. Só se houver um autêntico abuso de direito é que há lugar a indemnização.

40
Direito das Obrigações

Deve haver uma rejeição da teoria da interpretação declarativa do Art.º 483º.


Os casos onde a conduta do terceiro é ilícita por abuso de direitos há os casos de
dolo: nestes casos, há um autêntico abuso de direito pelo terceiro.

Art.º 334º: duas cláusulas da responsabilidade civil:


 Dolo ou mera culpa: violação de direitos absolutos: casos reconduzidos
ao Art.º 383º
 Dolo: violação de direitos relativos: casos reconduzidos ao Art.º 334º

Argumento que se usa contra a teoria da interpretação declarativa do 483º:


C ------------- D

terceiro
Contrato meramente obrigacional (promessa de compra e venda de apartamento)
O terceiro, ao propor a D de lhe vender a ele o apartamento, age na sua liberdade
contratual.
Art.º 334º refere direitos subjectivos: este artigo aplica-se ao caso onde há
apenas o exercício de uma faculdade ou liberdade (e não de um direito subjectivo)?
Em primeiro lugar, em TGDC, distinguimos 2 formas de abuso: institucional e
individual do direito subjectivo.
Quando há desconformidade entre o uso do direito e limites impostos pela boa
fé, estamos perante abuso de direito individual.
O terceiro responde por actuar contra os bons costumes.
Quando perante abuso institucional, não tem lógica aplicar a figura do abuso do
direito.
Quando perante abuso individual, faz sentido aplicar às faculdades ou liberdades
o Art.º 334º: a liberdade pode ser contrária aos bons costumes.
Não há razão para não se aplicar o princípio de abuso de direito sob forma
individual para limitar uma liberdade.
Em segundo lugar, os direitos subjectivos dão uma protecção mais forte. As
faculdades ou liberdades dão uma protecção menos forte.
Uma conduta contrária aos bons costumes no exercício do direito subjectivo
seria ilícita.
Não é lógico que se estreite o espaço de liberdade proporcionado pelo direito
subjectivo e não se estreite o espaço proporcionado pelas faculdades ou liberdades.

02.11.2005
(Prática)

Livro de casos práticos da ELSA

CASO

A, empresa fabricante de uma bebida para desportistas cuja composição obedece


a uma fórmula secreta de criação sua, constatou a presença no mercado de um produto

41
Direito das Obrigações

com iguais características comercializado, sob outra marca, por B, empresa do mesmo
ramo.
Feitas as necessárias averiguações, veio A a apurar que B tinha insistentemente
assediado um dos seus mais qualificados técnicos, C, para lhe revelar a composição e
processos de fabrico do produto em causa, ao que ele, finalmente, acedeu mediante o
pagamento de avultada importância.
Quem responde e em que termos pela indemnização dos prejuízos sofridos por
A?

Para resolução devemos:


 Identificar qual a pretensão do autor: quem responde pelos prejuízos:
indemnização.
 Ver qual o instituto jurídico em que a pretensão se pode fundar:
responsabilidade contratual ou extracontratual
 Ver qual a norma que se aplica e os pressupostos

A quer indemnização.
Qual o instituto jurídico em que se funda a indemnização?
Responsabilidade extracontratual em relação à empresa B: entre A e B não há
relação contratual (logo, não há responsabilidade contratual).
A = exige indemnização ao técnico C com base na responsabilidade contratual
de C.

Que deveres forma violados?


Dever de sigilo em relação a elementos que teve conhecimento devido à relação
contratual com A.
Dever de sigilo é um dever acessório de conduta. Isto faz lembrar o conceito
de relação obrigacional complexa, onde há vários tipos de deveres.
2 tipos de relações:
 Relação de protecção
 Relação de prestação: aqui temos:
 Deveres de prestação
 Deveres acessórios de conduta
Deveres de prestação: de acordo com o critério da originariedade temos:
 Deveres primários: são aqueles que concretizam o programa da
prestação. Estes deveres surgem no momento de conclusão do
contrato. Pex: no contrato de compra e venda, os deveres primários
são os deveres de dar a coisa e de pagar o preço.
 Deveres secundários: visam realizar o programa de reparação dos
danos do não cumprimento ou do não cumprimento perfeito dos
deveres primários.
Deveres de prestação: de acordo com o critério do grau hierárquico temos:
 Deveres principais: são os que caracterizam o tipo de contrato.
 Deveres acessórios: servem para preparar e executar os actos de
cumprimento dos deveres principais. Pex: embalar a coisa.

Deveres acessórios de conduta: fundam-se no princípio da boa fé. Temos:


o Deveres de esclarecimento
o Deveres de ...
o Deveres de lealdade

42
Direito das Obrigações

O princípio da boa fé exige que as partes tenham comportamentos que se exigem


a contraentes leais e honestos.
Obrigação de sigilo enquadra-se nos deveres de lealdade.

Quanto à empresa B: responsabilidade extracontratual: Art.º 483º.


O CC estabelece 3 cláusulas delituais:
1. violação de direitos absolutos: Art.º 483º 1ª parte
2. violação de disposições legais de protecção: Art.º 483º 2ª parte
3. abuso de direito: Art.º 334º
estamos a avaliar a eventualidade de responsabilidade de um terceiro pelo não
cumprimento das obrigações.

A - - - - - - -> C

B

Teoria dos efeitos externos das obrigações: entende que o Art.º 483º, quando fala
na violação de direitos de outrem, refere-se, não só aos direitos absolutos, mas também
aos direitos relativos.
Qualquer pessoa que tivesse conhecimento do direito do credor deveria respeitá-
lo sob pena de poder ser responsabilizado perante o credor.
A teoria do efeito externo das obrigações é lógico, pois o terceiro que quisesse
negociar teria de indagar sobre os interesses contratuais dos outros.
Temos dois interesses nesta relação:
 interesse do credor em cumprir o contrato
 interesse do terceiro de não ser prejudicado na sua actividade por
relações contratuais alheias
A rejeição é suportada pela interpretação de alguns artigos do nosso CC:
 Art.º 406º n.º 2: princípio da relatividade dos contratos: só
produzem efeitos em relação às partes. Não se coaduna com a
teoria dos efeitos externos das obrigações.
 Art.º 413º e 421º: atribuição de eficácia real aos contratos de
promessa e pactos de preferência respectivamente (normalmente,
estes só têm eficácia obrigacional). A regra será contrária a esta
excepção de eficácia real.
 Art.º 495º n.º 3: prevê o direito de indemnização a terceiros em
caso de morte ou lesão corporal. O lesante tem obrigação de
indemnizar a pessoa que recebia alimentos do lesado. Isto é o
efeito externo das obrigações, mas é um caso especial. A regra é
que as obrigações não têm efeito externo: argumento “a contrario
sensu”.
 Art.º 794º e 803º n.º 1: “commodum” de substituição. Art.º 794º:
em casos impossibilidade de cumprimento não imputável ao
devedor, o credor pode substituir-se ao devedor e exigir
indemnização ao terceiro: este é um direito exercido em
substituição do devedor: o direito não é dele.
 Art.º 1306º: princípio da taxatividade e tipicidade dos direitos
reais. As restrições que estão previstas na lei têm eficácia real em
relação a terceiros: as restrições previstas pelas partes apenas têm
eficácia obrigacional entre as partes.

43
Direito das Obrigações

A solução é de rejeitar a teoria do efeito externo das obrigações.

Como se responsabiliza um terceiro que fez com que o contrato não fosse
cumprido?
Através da figura do abuso de direito: referido expressamente no artigo do
anteprojecto de Vaz Serra.
Art.º 334º: preenchidos os seus requisitos, responsabiliza-se o terceiro.

Os argumentos da doutrina não são decisivos. Há sempre argumentos opostos. A


teoria dos efeitos externos das obrigações é rejeitada e aplicamos o abuso de direito.

CASO

A empresa A, que tem por objecto a venda de gasolina e outros combustíveis


líquidos e óleos lubrificantes, possui uma rede de revendedores que se obrigaram, por
contrato, a vender ao público em determinados locais, sob o regime de exclusivo, os
produtos da primeira, fornecendo, esta, materiais e instalação adequadas para o efeito.
Sucedeu que a empresa B, que explora o mesmo ramo de negócios, abordou
vários dos mencionados revendedores, instigando-os a romper as relações contratuais
que os ligavam a A, afim de passarem a vender, nos referidos locais, os seus próprios
produtos e ofereceu-se, inclusivamente, para suportar as indemnizações que aqueles
revendedores viessem a ficar sujeitos por virtude da violação do contrato.
Face às circunstâncias do caso, pode A exigir de B indemnização?

Pretensão: A quer saber se pode exigir indemnização de B.


Responsabilidade extracontratual: entre duas empresas: A e B.

Art.º 483º: por factos ilícitos: temos 3 cláusulas delituais:


1. violação de direitos absolutos: Art.º 483º 1ª parte
2. violação de disposições legais de protecção: Art.º 483º 2ª parte
3. abuso de direito: Art.º 334º

Para a teoria do efeito externo: “violação de direitos de outrém” engloba direitos


absolutos e direitos relativos. Aceitando isto, está em causa um terceiro que viola o
contrato e, por isso, qualquer pessoa estaria obrigada a respeitar o cumprimento de um
contrato alheio, sob pena de poder ser directamente responsabilizado perante o credor.

Não aceitamos a teoria dos efeitos externos das obrigações:


 anteprojecto de Vaz Serra
 solução da teoria dos efeitos externos não é razoável porque o
terceiro teria de ter uma preocupação exagerada e a lei não
concede prioridade a nenhum dos interesses em jogo.
 rejeição é corroborada pela interpretação de alguns artigos do
nosso CC:
 Art.º 406º n.º 1: princípio da relatividade dos contratos
 Art.º 413º e 421º: casos de eficácia real do contrato de
promessa e pacto de preferência: regra é o oposto.
 Art.º 495º n.º 3: alimentos da terceiro: caso especial: a
regra é o oposto.

44
Direito das Obrigações

 Art.º 794º e 801º: o direito do credor é um direito do


devedor: actua em substituição
 Art.º 1306º: princípio da taxatividade e tipicidade dos
direitos reais.

* Argumentos não são decisivos


* Indemnização pode ser concedida se estiverem preenchidos os requisitos do
Art.º 334º: um caso de abuso de direito é quando o terceiro se compromete a pagar as
indemnizações que o contraente teria de pagar por violação do contrato.

A pode exigir indemnização a B com fundamento no abuso de direito: 334º.

02.11.2005
(Teórica)

O cumprimento e não cumprimento das Obrigações

Há 3 significados diferentes para cumprimento:


1. pode conceber-se cumprimento como a realização voluntária ou coerciva
da prestação pelo devedor ou por terceiro: alcance máximo.
2. cumprimento como a realização voluntária ou coerciva da prestação pelo
devedor: alcance médio.
3. cumprimento como a realização voluntária da prestação pelo devedor:
alcance mínimo.

Para Antunes Varela, o cumprimento deve restringir-se à 3ª opção.


O CC defende a 1ª opção.
Art.º 762º e 768º CC usam o termo cumprimento para abranger a realização da
prestação pelo devedor e realização da prestação por terceiros.
Art.º 762º: realização pelo devedor.
Art.º 768º n.º 2: realização por um terceiro.
O Art.º 817º usa o termo do cumprimento para abranger a realização coactiva ou
coerciva da prestação.
762º + 768º + 817º: o conceito de cumprimento do legislador é a 1ª opção.

Natureza jurídica do cumprimento


Este tema foi abordado quando se tratou das obrigações naturais.
Quanto à natureza jurídica do cumprimento pelo devedor, deverá distinguir-se
consoante:
 o cumprimento seja um acto de disposição: neste caso, constituirá
um negócio jurídico/acto quase negocial
 o cumprimento não seja um acto de disposição: neste caso,
constituirá um acto jurídico em sentido estrito, ou seja, um acto
real

45
Direito das Obrigações

Quanto à natureza jurídica do cumprimento por um terceiro, deverá considerar-


se como um negócio jurídico.

A diferença é que no caso do cumprimento pelo devedor, o cumprimento é um


acto jurídico e o devedor faz o que deve fazer.
No caso de cumprimento por um terceiro, ele não está adstrito à prestação:
cumpre porque quer cumprir: é um negócio jurídico.

PRINCÍPIOS GERAIS RELATIVOS AO CUMPRIMENTO DAS OBRIGAÇÕES

1. Princípio da pontualidade: consagrado no Art.º 406º n.º 1: o contrato


deve ser pontualmente cumprido.
Pontualmente cumprido significa que deve ser cumprido ponto por ponto.
Embora o 406º só preveja este princípio para as obrigações contratuais, o seu
alcance é mais amplo: aplica-se directamente às obrigações contratuais e indirectamente
(por analogia) a todas as outras obrigações.

3 consequências do princípio da pontualidade:


 O devedor não pode exonerar-se mediante prestação de
coisa diferente da devida sem a concordância do credor:
Art.º 837º CC
 O princípio da pontualidade tem como corolário a regra
que o devedor não pode pretender um abatimento ou
desconto na dívida
 O princípio da pontualidade tem como corolário o
princípio da integralidade previsto no Art.º 763º.
Segundo este princípio, a prestação deve ser realizada por inteira, e não por
partes. Alcance deste princípio: o credor tem faculdade de exigir de toda ou apenas uma
parte da prestação.
Se o credor exigir toda a prestação, o devedor tem de realizá-la. Caso o devedor
ofereça apenas uma parte, o credor pode recusar essa parte.
Se o credor exigir uma parte, o devedor pode realizá-la por inteiro: Art.º 763º n.º
2.

2. Princípio da boa fé: Art.º 762º n.º 2.


O conteúdo deste princípio é controverso: hoje em dia, o seu alcance é muito
amplo.
Há dois subprincípios concretizadores para especificar o alcance da boa fé:
o Princípio da confiança
o Princípio da primazia da materialidade da relação jurídica: este
princípio significa a prioridade da substância sobre a forma. No
cumprimento de uma regra jurídica, deve atender-se aos fins da
regra e não apenas àquilo que ela formalmente exige.
A concretização do princípio da boa fé através destes dois subprincípios
encontra-se acolhida nos Art.º 15º e 16º da Lei das Cláusulas Contratuais Gerais
(aprovada pelo DL 446/85 de 25 de Outubro: pg. 764 CC).
Art.º 16º a): consagra o princípio da confiança.
Art.º 16º b): consagra o princípio da primazia da materialidade da relação
jurídica.

46
Direito das Obrigações

Regime Jurídico do Cumprimento

Requisitos do cumprimento:

1. Requisitos relativos ao autor da prestação

1º Problema)
O primeiro problema que se coloca é saber quem pode fazer a prestação: Art.º
767º e 768º CC.
A resposta a este problema está no Art.º 767º do CC.
Este artigo contrapõe as prestações fungíveis (que podem ser realizadas por
pessoa diferente do devedor sem prejudicar interesses do credor) e prestações não
fungíveis (aquelas que só podem ser prestadas pelo devedor).
Para as prestações fungíveis, temos o Art.º 767 n.º 1: prestação pode ser
realizada pelo devedor ou terceiro.
Art.º 767º n.º 2: consagra duas excepções à regra da fungibilidade:
 Casos de infungibilidade convencional: o credor não pode ser
constrangido a receber de terceiros a prestação quando for
convencionado expressamente que esta deve ser feita pelo
devedor. Deixa claro que o acordado deve ser expresso.
 Admite casos de infungibilidade natural: fundada na natureza da
prestação. O credor não pode ser constrangido a receber de
terceiros a prestação quando a substituição do devedor por
terceiros o prejudique.

O cumprimento realizado por terceiros coloca problemas. O Art.º 768º contem


regras sobre o cumprimento por terceiros.
Este artigo distingue duas hipóteses:
 Se o devedor não se opuser ao cumprimento por
terceiros o credor deve aceitar a prestação (Art.º 768º n.º
1). Se não aceitar incorre em mora do credor.
 Se o devedor se opuser ao cumprimento por terceiros:
 Se o terceiro puder fazer sub-rogado nos termos
do Art.º 592º, o credor deve aceitar a prestação
 Se o terceiro não puder fazer sub-rogado nos
termos do Art.º 592º, o credor pode aceitar a
prestação (ou pode recusá-la).

Art.º 768º - 592º: a sua conjugação leva a concluir que se o terceiro tiver
interesse em realizar a prestação, o credor deve aceitá-la; se não tiver interesse em
realizar a prestação, pode aceitá-la.

O devedor não realiza a prestação e o terceiro é que cumpre: coloca-se o


problema de saber quais os direitos do terceiro em relação ao devedor?
Se um terceiro actuou com intenção de fazer ao devedor uma doação, não tem
nenhum direito em relação ao devedor.

47
Direito das Obrigações

Se tal não sucede, se o terceiro não pretendeu fazer nenhuma doação ao devedor,
deve-se distinguis as hipóteses:
 Há uma sub-rogação legal nos termos do Art.º 592º: se o terceiro tiver
garantido o crédito ou se tiver interesse no cumprimento, fica sub-rogado
no interesse do credor.
Art.º 593º
Pex: entre A e B há um contrato de arrendamento. B decide subarrendar um
quarto a C.
A - - - 100€ - - - B
 30 €
C
B deixa de pagar a renda a A: A tem o direito de resolver o contrato de
arrendamento, que implica a caducidade do subcontrato de arrendamento. C tem
interesse em pagar os 100 € de renda a A.
C tem interesse directo em realizar a prestação. Ocorre uma sub-rogação prevista
no Art.º 592º: C fica investido na posição de credor.
 Não havendo sub-rogação, pode ocorrer uma cessão de créditos (Art.º
577º) ou sub-rogação voluntária pelo credor ou pelo devedor (Art.º 589º
e 590º).
A---------B

C: por qualquer razão quer realizar a prestação.
Pex: B pode dizer que C paga e cede-lhe os direitos ou paga e sub-roga-lhe
os direitos de A.

O terceiro fica também investido na posição do credor.


 Sem sub-rogação legal, e sem cessão de direitos ou sub-rogação
voluntária, o terceiro não tem qualquer direito em relação ao devedor,
excepto casos onde o pagamento da dívida corresponde a gestão de
negócios o enriquecimento sem causa.
Aplicando-se o instituto da gestão de negócios ou enriquecimento sem causa, o
caso é diferente: o terceiro adquire um direito novo.

O terceiro pode adquirir 3 tipos de direitos em relação ao devedor:


 Sub-rogação legal
 Sub-rogação voluntária ou cessão de créditos
 Se não houver nem um nem outro, o terceiro pode adquirir direitos em
relação ao devedor pelo instituto da gestão de negócios ou
enriquecimento sem causa.

2º Problema)
Capacidade do autor da prestação: distingue-se entre os casos onde:
 É o próprio devedor que realiza a prestação
 É um terceiro que realiza a prestação

Quando é o devedor que realiza a prestação: o problema da capacidade é


resolvido pelo Art.º 764º: n.º 1: distingue os casos onde a prestação constitui:
o Não é acto de disposição: não se exige a capacidade do devedor.
o É acto de disposição: a prestação exige a capacidade do devedor:
isto significa que:

48
Direito das Obrigações

 se a prestação for realizada por devedor capaz, o acto de


cumprimento é válido.
 se a prestação for realizada por devedor incapaz, o acto de
cumprimento é inválido, anulável nos termos do Art.º
125º.
Art.º 764º n.º 1 parte final: desvio em relação a esta regra.
Em regra, o cumprimento por incapaz é inválido: mas o cumprimento pode não
causar prejuízo. Se o cumprimento não exigir capacidade, será sempre válido.

Quando é um terceiro que realiza a prestação: constitui um negócio jurídico,


pelo que se aplicam as regras sobre capacidade negocial: o terceiro deve ser sempre
capaz de realizar a prestação.
O cumprimento realizado por incapaz é inválido e anulável nos termos gerais.

2. Requisitos relativos ao destinatário da prestação

1º Problema)
A quem pode a prestação ser feita?
O problema é resolvido pelos Art.º 769º e 770º.
O Art.º 769º enuncia a regra que a prestação deve ser feita ao credor ou ao seu
representante.
A prestação feita a terceiros não exonera o devedor: ele fica sujeito a ter de
realizar a prestação duas vezes: “quem paga mal, paga duas vezes”.
Exceptuam-se os casos do Art.º 770º

2º Problema)
Capacidade do credor: Art.º 764º n.º 2: exige a capacidade do credor: deve ser
capaz de receber a prestação.
Cumprimento feito por credor incapaz é inválido e anulável nos termos do Art.º
125º CC.
Anulação tem efeito que o credor restitua o que recebeu e que o devedor
continua obrigado a realizar a prestação.
Excepção: Art.º 764º n.º 2 2ª parte: o credor que deve 10000 € a uma criança de
10 anos: a criança guarda 2000 € para si e dá o resto do dinheiro ao pai. O devedor pode
opor-se ao pedido de anulação em relação aos 8000 €, devendo responder pelos 2000 €
do credor incapaz.

03.11.2005
(Teórica)

Requisitos:
1. Requisitos relativos ao autor da prestação
2. Requisitos relativos ao destinatário da prestação

3. Legitimidade do devedor para dispor do objecto da prestação.

49
Direito das Obrigações

Este requisito encontra-se no Art.º 768º CC: o devedor deve ter legitimidade
para dispor o objecto da prestação. Se prestar coisa alheia, o cumprimento será nulo.
A invalidade do cumprimento está sujeita a um regime especial.
O credor de boa fé tem o direito de impugnar o cumprimento.
O credor de má fé não tem o direito de impugnar o cumprimento.
O devedor de boa ou má fé só tem direito de impugnar o cumprimento se
oferecer uma nova prestação: Art.º 765º n.º 2.

Lugar da prestação

Regra geral está no Art.º 772º: a prestação deve ser realizada no lugar de
domicílio do devedor.
Há excepções que se aplicam:
1. quanto às obrigações de prestação de coisa móvel: aplica-se o Art.º 773º:
local onde a coisa se encontrar aquando a realização do negócio.
2. quanto às obrigações pecuniárias: aplica-se o Art.º 774º: a prestação deve
realizar-se no lugar de domicílio do credor.
Excepção às obrigações pecuniárias:
 Art.º 885º: diz respeito às obrigações de pagamento do preço no
contrato de compra e venda: o preço deve ser pago no lugar de
entrega da coisa vendida.
 Art. 1039º: pagamento de aluguer ou renda no contrato de
locação: o pagamento deve ser feito no local de domicílio do
devedor, ou seja, locatário.
Art.º 772º n.º 2: casos de mudança de domicílio do devedor.
Art.º 775º: casos de mudança de domicílio do credor.

Art.º 776º: regula os casos de impossibilidade de prestação no lugar fixado.


Deve distinguir-se duas hipóteses:
o Prestação não ser possível no lugar fixado nem nenhum outro
lugar: o negócio jurídico será nulo se a impossibilidade for
originária; ou a obrigação extinguir-se-à se for impossibilidade
superveniente (790º).
o Prestação não ser possível no lugar fixado mas é possível noutro
lugar: há duas situações:
 Resolver o caso com o princípio da boa fé: a prestação
deverá ser realizada em lugar a determinar
 Aplicar as regras supletivas do Art.º 772º a 775º: o CC
optou por esta solução.

Tempo da prestação

Devemos distinguir as:


 Obrigações puras: são aquelas onde não há uma data ou um
prazo fixado para a realização da prestação, pelo que o credor a
pode exigir e o devedor a pode realizar a todo o tempo.

50
Direito das Obrigações

 Obrigações a prazo (ou a termo): são aquelas onde há uma data


ou prazo para a realização da prestação resultante da convenção
das partes, da determinação da lei ou de uma decisão do tribunal.

Obrigações Puras

Características fundamentais:

a. São a regra por força do Art.º 777º n.º 1 CC: consagra o princípio que as
obrigações são puras.
Havendo obrigações puras, o credor pode exigir a prestação a todo o tempo. O
devedor não tem de tomar ele próprio a iniciativa de oferecer a prestação (o devedor
pode esperar que o credor lhe exija o cumprimento).
O acto pelo qual o credor intima o devedor a cumprir a obrigação é a
interpelação.
Interpelação é a reclamação do cumprimento feita pelo credor ao devedor. É um
acto jurídico em sentido restrito: dentro destes, é um acto quase negocial. Aplicam-se as
disposições relativas aos negócios jurídicos por força do Art.º 295º CC.
A interpelação pode ser: Art.º 805º n.º 1:
 Judicial: pode fazer-se através da citação do réu ou notificação
judicial
 Extrajudicial: pode fazer-se por qualquer forma: normalmente,
carta registada com aviso de recepção.
As consequências da interpelação: a principal consequência é a constituição do
devedor em mora: fica atrasado no cumprimento.

b. Devemos distinguir diferentes casos:

I. Casos onde o prazo é essencial e casos onde o prazo não é essencial


Nos casos onde o prazo não é essencial, faz com que a prestação deva ser
realizada dentro dele sob pena do devedor incorrer em mora.
Nos casos onde o prazo é essencial, se a obrigação não for cumprida no prazo,
há lugar a um não cumprimento definitivo. Este prazo faz com que a obrigação tenha
de ser cumprida nele sob pena do devedor incorrer em não cumprimento definitivo.
O prazo essencial pode resultar:
 de convenção das partes: prazo ou termo essencial
subjectivo.
 do fim a que a obrigação está adstrita: prazo ou termo
essencial objectivo: pex, uma empresa que se compromete
a fazer festa de aniversário num dia e não o faz.

II. Casos onde o prazo é estabelecido no interesse do devedor; casos onde o


prazo é estabelecido no interesse do credor e casos onde o prazo é
estabelecido no interesse do devedor e credor simultaneamente.
Quanto aos casos onde o prazo é estabelecido no interesse do devedor, o credor
não pode exigir o cumprimento antes de chegar a data ou terminar o prazo fixado. O
credor pode prescindir do prazo e fazer a prestação a todo o tempo.
Quanto o prazo é estabelecido no interesse do credor, o devedor não pode
realizar a prestação antes da chegada da data ou de terminado o prazo fixado. O credor
pode prescindir do prazo e exigir a prestação a todo o tempo.

51
Direito das Obrigações

Quando o prazo é estabelecido no interesse do devedor e credor


simultaneamente, nem o credor pode exigir a prestação nem o devedor pode realizar a
prestação antes da data ou de terminado o prazo.

Art.º 779º: consagra uma presunção de que o prazo foi estabelecido no interesse
do devedor.

Põe-se o problema de saber onde o devedor perde o benefício do prazo e onde,


por isso, o credor pode exigir imediatamente a realização da prestação: Art.º 780º e 781º
CC: 3 causas de perdas do benefício do caso ou vencimento das prestações:
 Insolvência do devedor: Art.º 780º n.º 1
 Diminuição de garantias: Art.º 780º n.º 1
 Falta de pagamento de uma das prestações nas obrigações de prestação
fraccionada ou repartida: Art.º 781º

Quanto à perda de benefício há duas consequências que devemos distinguir:


 Exigibilidade: quando o credor pode exigir a prestação
 Vencimento: quando é que o devedor deve realizar a prestação
Nas obrigações puras, o credor pode exigir a todo o tempo; o devedor só presta
quando interpelado para tal.
O Art.º 781º confunde os dois conceitos: é sim um problema de exigibilidade da
prestação, e não um vencimento antecipado. O recurso ao conceito de vencimento é
incorrecto.

INSOLVÊNCIA
Art.º 3º do Código da Insolvência: há dois conceitos:
 Aplica-se a todos os sujeitos passivos de insolvência e define-a
como a impossibilidade do devedor cumprir as obrigações
vencidas
 Aplica-se às pessoas colectivas e patrimónios autónomos ou
separados: sistema de superioridade manifesta do passivo sobre o
activo avaliado de acordo com as normas contabilísticas
aplicáveis.

Art.º 3º n.º 4: equipara a insolvência a insolvência eminente no caso de


apresentação do devedor à insolvência.

Coordenar este Código da Insolvência ao CC: deve-se distinguir 3 situações:


a. Antes da instauração do processo de insolvência: aplica-se o Art.º 780º
CC
b. Depois da instauração do processo de insolvência: aplica-se o Código da
Insolvência e Recuperação de Empresas
c. Depois da declaração da insolvência há vencimento imediato de todas as
dívidas nos termos do Art.º 91º n.º 1 do Código da Insolvência e
Recuperação de Empresas.

DIMINUIÇÃO DE GARANTIAS
Relevantes são as diminuições de garantias especiais das obrigações.
Devemos distinguir consoante diminuição das garantias:

52
Direito das Obrigações

 Imputáveis ao devedor: aplica-se o Art.º 780º: o credor pode


exigir o cumprimento imediato da obrigação. O credor dispõe de
uma faculdade alternativa: pode exigir esse cumprimento
imediato ou substituição ou reforço de garantias.
 Não imputável ao devedor: o CC não contém nenhum princípio
geral. Há regras sobre as 3 garantias especiais mais importantes
(fiança, penhor e hipoteca): Art.º 633º n.º 1, Art.º 670º a) e c) e
Art.º 701º
Art.º 633º n.º 1: no caso de fiança, o credor tem esta faculdade de exigir reforço
de garantia,
Dois aspectos destes 3 artigos:
 O direito do credor é o direito de exigir a substituição ou reforço
 Art.º 633º n.º 1, Art.º 670º a) e c) e Art.º 701º só se aplicam em
caso de diminuição qualificada das garantias.
Para o Art.º 780º basta só uma diminuição simples: para estes é necessário que a
garantia se torne insuficiente para garantir a cumprimento da obrigação.

FALTA DE PAGAMENTO DE UMA DAS PRESTAÇÕES NAS OBRIGAÇÕES DE


PRESTAÇÃO FRACCIONADAS OU REPARTIDA
Art.º 781º atribui ao vendedor o poder de exigir o valor de todas as prestações
em falta quando uma prestação não for efectuada.
Há uma observação importante: o caso mais importante de obrigações de
prestação fraccionada é o da obrigação de pagamento do preço na venda a prestações.
Aqui, o Art.º 934º restringe o Art.º 781º: a conjugação destes artigos faz concluir que,
no caso de falta de pagamento da prestação na venda por prestações, o vendedor só pode
exigir o pagamento imediato das prestações restantes:
o Se a prestação exceda a 8ª parte do preço
o Se o devedor faltar ao pagamento de duas ou mais prestações

Imputação do Cumprimento

O problema é quando o devedor entrega ao credor uma quantia que não extingue
todas as dívidas que tem para com ele: é a imputação do cumprimento: quais as dívidas
ficarão extintas pelo pagamento de uma certa quantia?
Em relação à imputação do cumprimento, há 3 espécies de imputação:
a. Imputação convencional: por acordo das partes
b. Imputação pelo devedor: Art.º 783º
c. Imputação legal: por determinação da lei

O primeiro aspecto da determinação é o devedor referir qual a dívida que quer


pagar: faculdade limitada pelo Art.º 783º n.º 1.
Art.º 784º: ver regras para saber qual a dívida paga em primeiro.
Art.º 785º

Regime Jurídico
Art.º 786º e 787º

53
Direito das Obrigações

Face às regras gerais do ónus da prova, cabe ao devedor provar que cumpriu. Por
isso, o CC atribui ao devedor a faculdade de exigir quitação (= recibo) para mostrar que
cumpriu.

09.22.2005
(Prática)

CASO: pg. 25: sujeitos da relação obrigacional; obrigações solidárias:

A é credor de B C e D numa dívida comercial de 15000 €. Tendo sido condenado


judicialmente ao pagamento integral daquele débito, B encontra-se insolvente. Indique
as consequências desse estado no plano das relações externas e das relações internas.

Obrigação plural: porque temos vários devedores: podem ser:


 conjuntas
 ou disjuntas
consoante a pluralidade cumulativa (se os devedores forem B C e D) ou
alternativa (se o devedor for ou B ou C ou D).

Obrigações conjuntas: podem ser:


 parciárias
 solidárias: Art.º 513º: a regra é da parciariedade:
só são solidárias se resultar de lei ou da vontade
das partes: Art.º 100º do Código Comercial (este
código porque estamos perante uma dívida
comercial).
Exemplos de obrigações conjuntas solidárias = Art.º 497º, 499º, 467º e 507º

Esta obrigação é solidária: significa que o credor pode exigir a qualquer um dos
devedores a totalidade da prestação.
A solidariedade passiva tem duas características:
o o credor pode exigir a totalidade da prestação a qualquer um dos
devedores: Art.º 512º n.º 1
o a realização da prestação por qualquer um dos devedores libera os
demais: Art.º 512º n.º 1

No nosso caso, A exige o pagamento da totalidade da dívida a B: B foi


condenado e está insolvente.

Consequências da insolvência no plano das relações externas e das relações


internas (= relações entre os devedores solidários)?

Nas relações externas (relações entre credor e devedores solidária), os efeitos


da insolvência são os do Art.º 519º: se o credor exigir a prestação judicialmente a um
dos devedores, fica inibido de exigir os outros devedores, salvo se houver razão
atendível.

54
Direito das Obrigações

Se o credor exigir extra-judicialmente a um dos devedores, não fica inibido de


pedir a prestação dos outros: Art.º 519º a contrario.
A insolvência é uma razão atendível nos termos do Art.º 519º, e A não fica
inibido de proceder judicialmente contra os outros devedores.

Consequências da insolvência nas relações internas: nos termos do Art.º 516º,


os devedores participam em partes iguais  Art.º 526º: pagando a totalidade da dívida,
C seria o detentor do direito de regresso (seria o credor de regresso). Mas B está
insolvente: o 526º diz que a parte do devedor insolvente é repartida proporcionalmente
pelos restantes devedores solidários, incluindo o credor de regresso.

CASO: pg. 29: sujeitos da relação obrigacional; obrigações solidárias:

A, credor de B C D e E por uma dívida comercial de 200 mil €, exigiu


judicialmente o seu pagamento a B. Este foi condenado, mas o credor não viu
judicialmente satisfeito o seu crédito por B ter, entretanto, alienado todo o seu
património, pelo que pretende obter o pagamento de C. Poderá fazê-lo? E se C vier a
pagar aquela quantia, que direitos terá em relação aos outros devedores sabendo que D
era menor à data da celebração do contrato de que resultou a dívida?

1ª parte do caso: semelhante ao anterior.

Pluralidade passiva:
o conjunta
 parciárias: o credor exige de cada um dos devedores a sua
parte.
 solidárias: dá a vantagem do credor poder exigir de cada
um dos devedores a totalidade da dívida.
o disjunta

Se um devedor pagar a totalidade da dívida, libera todos os outros devedores do


pagamento da obrigação.
Nosso caso: B está insolvente: A pode exigir:
 extra-judicialmente
 judicialmente: razão atendível
Art.º 519º: A pode exigir dos outros devedores.

2ª parte: quando um devedor paga a totalidade da dívida, tem direito de regresso:


Art.º 524º.
No nosso caso, 200000 €: Art.º 516º: presume que cada um dos devedores
participe em parte iguais na dívida:

A - - - 200 000 € - - - B = 50 000 €


C = 50 000 €
D = 50 000 €
E = 50 000 €

55
Direito das Obrigações

B: está insolvente: nos termos do Art.º 526º a parte dele é proporcionalmente


repartida pelos demais devedores, incluindo o credor de regresso.
D: é menor: Art.º 525º: os condevedores podem opor meios de defesa pessoais
ou comuns em relação ao credor de regresso (também o diz o 514º): podem invocar
meios de defesa que invocariam contra o credor (A) se a eles lhe tivesse sido exigido.
Entre estes meios de defesa está a incapacidade: a parte de D é repartida pelos
outros.

A - - - 200 000 € - - - B = insolvente


C = 50 000 € + 25 000 € + 25 000 €
D = menor
E = 50 000 € + 25 000 € + 25 000 €

CASO

A é credor de B C e D por uma dívida comercial de 3000 €. Em 1 de Agosto de


2004, A faleceu e sucede-lhe B. Este exige de C o pagamento dos 3000 €. Quid iuris?
Imagine que C paga a dívida: que direitos lhe assistem, sabendo que D alega que
a dívida estava prescrita?

Pluralidade passiva: obrigação:


 conjunta: pode ser:
o parciária
o solidária
 disjunta
Obrigação solidária: 2 características: Art.º 512º:
o o credor pode exigir a totalidade da prestação a qualquer um dos
devedores: Art.º 512º n.º 1
o a realização da prestação por qualquer um dos devedores libera os
demais: Art.º 512º n.º 1

Art.º 868º + Art.º 869º: há aqui confusão: A morre, B sucede-lhe e exige a


totalidade da prestação a C: só lhe pode exigir o pagamento de 2000 €.

D alega a prescrição: temos de fazer uma distinção: nos termos do Art.º 525º,
este é um meio de defesa: invocar a prescrição (521º):
 se a dívida tiver prescrito em relação a todos os devedores, nos termos do
Art.º 521º n.º 2, e mesmo assim C pagou, não tem direito de regresso
sobre D (que invoca a prescrição).
 Se a dívida tiver prescrito apenas a alguns dos devedores solidários,
aplica-se Art.º 521º n.º 1: aquele que paga pode exigir o direito de
regresso.

09.11.2005
(Teórica)

56
Direito das Obrigações

I. Modalidades de não cumprimento quanto à causa: deve distinguir-se:


 Não cumprimento imputável ao devedor
 Não cumprimento não imputável ao devedor

O não cumprimento imputável ao devedor dá-se quando a causa do não


cumprimento lhe pode ser atribuída a título de dolo ou culpa.
O não cumprimento não imputável ao devedor não pode ser atribuído ao devedor
ou não lhe pode ser atribuído a título de dolo ou culpa.

II. Modalidades de não cumprimento quanto ao efeito:


 Não cumprimento definitivo
 Mora
 Cumprimento defeituoso

O não cumprimento definitivo abrange duas situações:


o Os casos de impossibilidade definitiva da prestação: a prestação
foi realizada e já não o pode ser.
o Casos do Art.º 808º CC: dois casos:
 Por causa do atraso ocorrer uma perda do interesse do
credor na prestação
 Credor fixar prazo razoável para o devedor cumprir e ele
não cumprir

A mora designa o atraso na realização da prestação: a prestação não é realizada


no momento oportuno, mas pode ainda ser realizada por corresponder ao interesse do
credor: Art.º 804º.

O cumprimento defeituoso abrange:


 Cumprimento defeituoso dos devedores principais da
prestação
 Violação de deveres acessórios da prestação
 Violação de deveres acessórios da conduta integrada no
conteúdo da relação obrigacional complexa.

REGIME DO NÃO CUMPRIMENTO NÃO IMPUTÁVEL AO DEVEDOR

Os casos deste não cumprimento são os considerados. Esquema da


impossibilidade superveniente da prestação.

Questão: as disposições do CC apenas respeitam à impossibilidade absoluta da


prestação: não contempla o problema da impossibilidade relativa. O problema que se
coloca é saber se a impossibilidade relativa deve ou não ser equiparada à absoluta.
Quando há impossibilidade absoluta, o devedor fica livre do dever de prestar.
Quando há tão somente uma impossibilidade relativa que impossibilita, que dificulta
excessivamente o cumprimento, não deverá ser o mesmo?
Pex: A deve anel a B: esse anel caí ao mar: é possível recuperá-lo, mas com
custos elevados: aqui, há apenas uma impossibilidade relativa.

57
Direito das Obrigações

A impossibilidade é relativa, mas há uma extraordinária onerosidade da


prestação.

Há quem defenda a Teoria do Limite do Sacrifício: o devedor encontra-se


adstrito a realizar os esforços e gastar quantias razoavelmente exigidas de acordo com a
Boa Fé: não está obrigado a nada mais. Quando ultrapassar o limite do sacrifício, mais
esforços que os razoáveis, o devedor deveria considerar-se exonerado.
O CC rejeitou esta teoria: o anteprojecto de Vaz Serra consagrava-o, mas foi
rejeitado.
Primeiro, o legislador considerou a teoria demasiado imprecisa: insegurança
jurídica.
Depois, embora não consagrada, o CC contém 2 ou 3 institutos capazes de
corrigir os casos mais graves.
Por um lado, uma alteração/modificação anormal das circunstâncias pode dar
causa uma modificação do contrato nos termos do Art.º 437º CC. Os casos graves
cabem neste artigo.
Por outro lado, o CC contém regras sobre os conflitos de deveres que
possibilitam a resolução de problemas de casos de impossibilidade moral. No caso de
conflito de deveres, exonera-se de um dever.
O princípio da proibição do abuso de direito interditará os casos onde a
excessiva dificuldade da prestação equivale à sua impossibilidade: os meios são tão
onerosos que ninguém considera o seu uso.
Em suma, a Teoria do Limite do Sacrifício foi rejeitada pelo CC. Os casos onde
a rejeição da teoria conduz a casos pouco razoáveis, podem ser resolvidos por um destes
três meios.

Problema da impossibilidade da prestação não imputável ao devedor:

 Impossibilidade absoluta superveniente e objectiva da prestação: pode


ser:
 Total:
 Definitiva: dá origem à extinção da obrigação nos termos
do Art.º 790º CC.
 Temporária: dá origem à aplicação do Art.º 792º:
conceito do n.º 2: impossibilidade só é temporária
enquanto se mantiver o interesse do credor. Isto permite
concluir:
 Nas obrigações puras, a impossibilidade pode
ser definitiva
 Nas obrigações a prazo, deve distinguir-se
consoante o prazo seja:
 Essencial: a impossibilidade nunca é
temporária: é sempre definitiva
 Não essencial: a impossibilidade pode
ser temporária.

Art.º 792º n.º 1: impossibilidade temporária tem como consequência a não


aplicação do regime da mora do devedor.

58
Direito das Obrigações

O regime da mora está no Art.º 804º n.º 1: o devedor responde pelo seu atraso na
prestação. O Art.º 792º n.º 1 exclui essa resposta do devedor quando é por causa não
imputável ao devedor.

 Parcial:
 Definitiva: Art.º 793º: duas situações:
 Ou o credor tem interesse no cumprimento
parcial e exige o que for possível.
 Ou o credor não tem interesse no cumprimento
parcial e resolve o contrato
 Temporária: 792º + 793º: o devedor terá de +restar tudo
que puder agora, e prestar mais tarde o que puder prestar
mais tarde. O devedor não responde pelas consequências
do atraso.

 Impossibilidade absoluta superveniente subjectiva da prestação:


devemos distinguir entre:
 prestações fungíveis: o devedor não pode cumprir por si
só, mas pode ser substituído por terceiros: aplica-se o
Art.º 798º e ss: o devedor responde nos termos deste
artigo.
 prestações não fungíveis: aplica-se o Art.º 791º: enuncia o
princípio da equiparação da impossibilidade
superveniente subjectiva à impossibilidade objectiva.

Efeitos da Impossibilidade

Na impossibilidade superveniente absoluta total definitiva: quais as


consequências?

Primeiro) Extinção da obrigação: Art.º 790º n.º 1.


Segundo) “Commodum” de substituição ou de representação: Art.º 794º.
O commodum aplica-se em casos como este: A vende coisa (=carro) com
reserva de propriedade a B; um terceiro furta a carro e leva-o para Marrocos. O terceiro
deve indemnizar A nos termos do Art.º 483º. O Art.º 794º dá a B a faculdade de se
substituir ao credor no exercício do direito. Contudo, são casos extremamente
reduzidos: em Portugal, no domínio da constituição e transmissão de direitos reais,
vigoram os princípios da causalidade e ... . O instituto do commodum é para casos como
estes (venda com reserva).
Terceiro) Contratos bilaterais sinalagmáticos e perda de direito à
contraprestação: Art.º 795º.
A prestação de uma das partes torna-se impossível: por causa não imputável: o
direito extingue-se. O problema é saber o que sucede à contraparte?
Pex: A é taxista e vê-se obrigado a levar B ao aeroporto para apanhar o avião. A
vai buscar B, mas a estrada está cortada.
Coloca-se o problema de saber se o credor deve ou não pagar o preço
convencionado como taxista. O 795º faz depender da causa da impossibilidade ser ou
não imputável ao credor:

59
Direito das Obrigações

 se não é imputável: Art.º 795º: o credor fica desobrigado da


contraprestação.
 se é imputável ao credor: o credor fica adstrito ao dever de
contraprestar = deveria pagar o preço pelo transporte de taxi.

Há casos onde isto não pode acontecer: contratos de constituição ou transmissão


de direitos reais: Art.º 796º.
Quarto) Contratos onerosos de constituição ou transmissão de direitos reais e
relaciona-se com o regime do risco do Art.º 796º.
Pex: A vende coisa a B: a coisa perece: a obrigação extingue-se. Terá B de pagar
o preço?
Neste caso, não é possível alcançar solução equilibrada: A fica sem coisa e seu
valor (preço) e B fica sem a coisa e tem de pagar o preço. Este é o problema que se
chama o problema do risco:
 risco corre por conta de A se ficar sem a coisa e sem o preço
 risco corre por conta de B se tiver de pagar o preço_ risco corre
por conta do adquirente

O CC baseia-se no princípio da causalidade e consensualidade: quando se


transfere a propriedade, também se transferem os riscos: a regra é do Art.º 796º n.º 1. Há
excepções previstas no Art.º 796º n.º 2 e n.º 3: Art.º 797º: há tendência para ser
interpretado de forma muito restritiva, aplicando-se apenas aos casos doa obrigações
genéricas.

Há dois casos não contemplados no CC: casos omissos:


 Frustração do fim da prestação: pex: A é médico e compromete-se a
operar B: B morre antes da operação. A conduta do devedor não é
impossível: é possível uma operação a um cadáver: há uma frustração do
fim da prestação.
 Realização do fim da prestação por outra via: mesmo exemplo: doença
é menos grave e B cura-se por si só. Não há impossibilidade: o fim da
prestação é que já foi realizado por outra via.
Nos dois casos, não há impossibilidade da conduta: o problema é saber se estes
casos devem ser sujeitos ao regime da impossibilidade?
Há 2 aspectos:
 Classificação como casos de impossibilidade ou não: o conceito de
prestação assume diferentes sentidos: para o Art.º 790º e ss, releva o
conceito de prestação como resultado. Para o Art.º 397º e ss releva o
conceito de prestação como ---.
Os casos de frustração do fim da prestação e de realização do fim da prestação
por outra via devem ser reconduzidos para o sentido do Art.º 790º e ss: é um problema
de impossibilidade.
 Problema do regime: saber se estes dois casos devem ou não estar
sujeitos ao regime do Art.º 790º e ss.
O devedor pode ter despesas coma prestação: para Antunes Varela, nestes casos
aplica-se por analogia do Art.º 468º: o paciente não terá de pagar os honorários ao
médico, mas deve compensá-lo das despesas e prejuízos que sofreu.

60
Direito das Obrigações

10.11.2005
(Teórica)

REGIME DO NÃO CUMPRIMENTO IMPUTÁVEL AO DEVEDOR

O CC enuncia o efeito comum de todas as formas de não cumprimento


imputável ao devedor: é a responsabilidade contratual.
Em segundo lugar, o CC enuncia os efeitos específicos de duas formas de não
cumprimento imputável ao devedor:
 Art.º 801º - 803º: efeitos da impossibilidade
 Art.º 804º - 808º: efeitos da mora do devedor

Efeitos gerais do não cumprimento imputável ao devedor

Art.º 798º: cláusula geral de responsabilidade contratual.


Pressupostos:
 existência de um facto
 ilicitude do facto
 culpa
 dano
 nexo de causalidade

Existência de um facto: o facto consiste no não cumprimento.


A ilicitude do facto consiste na desconformidade entre a conduta adoptada e a
conduta devida. Exceptuam-se os casos onde há causas aceitáveis de não cumprimento:
Art.º 428º e ss e Art.º 753º.
A culpa pode ter forma de dolo ou negligência. O Art.º 799º CC consagra uma
presunção da culpa do devedor. O Art.º 799º n.º 2 diz que o critério da culpa é aplicável
à responsabilidade contratual: há dois: aprecia-se a culpa:
 em abstracto: compara-se a conduta do agente com a conduta de
um Homem médio: há culpa se usar diligências inferiores à
média.
 em concreto: compara-se a conduta do agente no caso com a sua
conduta habitual. Actua com culpa se actuou com diligências
menores que o habitual.

O Art.º 799º opta pelo critério da culpa em abstracto: remete para as regras da
responsabilidade: neste caso, é o Art.º 487º n.º 2.

Nexo de causalidade: há duas teorias em confronto:


o Teoria da condição sine qua non (ou Teoria da equivalência
das condições): a causa de um dano é toda a condição sem a qual
esse dano não se teria verificado.
Esta teoria foi abandonada pela generalidade dos países por alargar
excessivamente a responsabilidade. Os efeitos desta teoria são: Pex: caso da vaca de
Potier: um agricultor comprou uma vaca doente que morreu e contaminou todos os
outros animais. O agricultor não podia, então, pagar as suas dívidas, acabando por se
suicidar.

61
Direito das Obrigações

Segundo a teoria da condição sine qua non, seria o vendedor da vaca que pagaria
pelos danos.

Para resolver este problema há outra teoria.


o Teoria da causalidade adequada: a causa de um dano é só a
condição que segundo a sua natureza geral se revela adequada
para o produzir/provocar.
“Segundo a sua natureza geral”: são as palavras centrais desta teoria.

Condição de um dano  Causa de um dano: nem todas as condições são causa


de um dano. O conceito de condição é mais amplo que o de causa.

A teoria da causalidade adequada tem duas formulações:


1) Negativa: baseia-se na teoria da condição sine qua non: em princípio,
toda a condição sine qua non de um dano deve ser considerada como a
sua causa; exceptuam-se os casos onde a sua condição segundo a sua
natureza geral era de todo indiferente para o surgir de uma tal dano e só
se tornou condição dele em resultado de circunstâncias extraordinárias,
sendo inadequada para o dano em questão.
2) Positiva: diz que a causa de um dano é toda a condição que segundo a
sua natureza geral aumenta ou favorece o risco de produção desse dano.

Art.º 563º: consagra a teoria da causalidade por usar a palavra “provavelmente”.

Para o caso da vaca: a condição da venda da vaca doente é inadequada para o


dano em questão.

No domínio da responsabilidade contratual, deve preferir-se a formulação


negativa da teoria da causalidade.

O Art.º 800º trata da responsabilidade contratual por actos de auxiliares.


Consagra a regra da responsabilidade do devedor por actos de auxiliares.
A formulação do CC tem interesse por adoptar a Teoria da ficção: o CC ficciona
que os actos do auxiliar são actos praticados pelo devedor: tudo se passa como se fosse
o devedor a cumprir, e não o auxiliar.
A teoria da ficção é consagrada pelo nosso CC.

Disposições legais sobre a impossibilidade de prestação imputável ao devedor e


a mora do devedor

Impossibilidade de prestação imputável ao devedor: o CC distingue:


 Impossibilidade total: Art.º 801º
 Impossibilidade parcial: Art.º 802º

Consequência da impossibilidade de prestação imputável ao devedor:


1) Responsabilidade contratual do devedor (dever de indemnizar): Art.º
798º: em relação como 801º n.º 2 e 802º
2) Resolução do contrato ou direito à resolução do contrato: Art.º 801º n.º
2 e 802º

62
Direito das Obrigações

O problema é saber se o direito à indemnização do n.º 1 e do n.º 2 do 801º é a


mesma. A doutrina dominante é de que o direito à indemnização é um direito à
indemnização pelo interesse contratual negativo.
Face à doutrina dominante, o credor teria duas alternativas:
 Optar pela manutenção do contrato e pedir indemnização pelo
interesse contratual positivo: esta alternativa está no Art.º 801º n.º 1.
 Optar pela resolução do contrato e pedir indemnização pelo interesse
contratual negativo: esta alternativa está no Art.º 801º n.º 2.
A resolução do contrato só seria cumulável com a indemnização pelo interesse
contratual negativo.
A indemnização é calculada em função do interesse contratual positivo quando
visa colocar o lesado na situação em que estaria se o contrato tivesse sido cumprido.
A indemnização é calculada em função do interesse contratual negativo quando
visa colocar o lesado na situação em que estaria se o contrato não tivesse sodo
celebrado.

A consequência é que o credor, ao resolver o contrato, fica limitado a uma


indemnização pelo interesse contratual negativo.
Pex: A é proprietário de um vaso: quer trocar pelo piano de B: celebram contrato
e troca.
Vaso = 10 000
Piano = 8 000
Antes de cumprir o contrato, B teve uma proposta para vender o piano por 9
000, mas recusou-a.
O vaso partiu-se no transporte: o piano chegou sem problemas ao destino.
A actuou com negligência: impossibilidade por facto imputável a ª
Face à teoria dominante, B teria duas alternativas:
 manter o contrato (deve entregar o piano) e obter
indemnização de 10 000.
 B pode resolver o contrato e só teria indemnização pelo
interesse contratual negativo: colocar B na situação se não
tivesse sido vendido: B fica com piano e tem indemnização de
1000 (lucro que não obteve por não ter vendido o piano por
9000).

A doutrina dominante tem sido criticada: vozes opostas são cada vez mais fortes.
A alternativa a esta doutrina é que em ambos os casos há lugar a indemnização
pelo interesse contratual positivo: os cálculos é que seriam diferentes:
 B fica sem piano e recebe 8000
 Para a segunda alternativa é que é diferente: entende que B
tem direito à indemnização pelo interesse contratual positivo
que se calcularia nos seguintes termos: B teria indemnização
de todos os prejuízos deduzida da sua prestação.
Prejuízos: 10000
Prestação: 8000
B teria direito a uma indemnização de 2000

Para a teoria mais recente, a resolução do contrato tem indemnização pelo


interesse contratual positivo.

63
Direito das Obrigações

Indemnização
Teoria dominante Teoria mais recente
1ª alternativa: 10000 1ª alternativa: 10000

2ª alternativa: 1000 2ª alternativa: 2000

Entre estas duas teorias, deve preferir-se a teoria mais recente: a indemnização
cumulável com a resolução do contrato deve ser uma indemnização pelo interesse
contratual positivo.

3) Commodum de substituição

Regime da impossibilidade parcial do Art.º 802º: face ao 802º, o credor pode


optar pela resolução do contrato ou pode exigir o que for possível do contrato.

Casos de mora do devedor: 804º n.º 2 CC


Qual o momento em que o devedor fica constituído em mora?
Disposição legal: 805º: o momento depende da natureza da obrigação em causa:
 obrigações puras: o devedor só está em mora depois da
interpelção
 obrigações a prazo: o devedor está em mora depois de
chegada a data ou que termine i prazo para cumprimento.
Art.º 805º b) e c): correspondem a dois desvios:
 Alínea c): no caso do próprio devedor impedir a interpelação,
está em mora na data em que devia ser interpelado.
 Alínea b): coloca mais problemas (veremos isto mais tarde).

Consequências da Mora: são 3:


1) Obrigação de indemnizar
2) Inversão do risco
3) Conversão da mora em não cumprimento definitivo nos termos do Art.º
808º

PRIMEIRO EFEITO DA MORA DO DEVEDOR: OBRIGAÇÃO DE INDEMNIZAR


Art.º 804º n.º 1 + 806º

804º n.º 1: dever de indemnizar por danos moratórios. Em regra, esta


indemnização calcula-se em termos gerais; excepto para obrigações pecuniárias que
estão no Art.º 806º.

806º: consagra dois desvios:
 consagra a presunção inelidível de que há danos
 consagra a presunção inelidível de que os danos
correspondem aos juros devidos.
Os juros devidos são, em regra, os juros legais : actualmente de 4% ao ano.

64
Direito das Obrigações

Art.º 829º-A n.º 4: tem a ver com o problema de atraso de pagamento de


obrigações pecuniárias.
829º-A n.º 4 + 806º = 4% + 5% (dos respectivos artigos).

16.11.2005
(Teórica)

Obrigação de indemnizar: em regra, é calculada nos termos gerais.


Dois pressupostos:
 há danos
 os danos correspondem aos juros
806º n.º 3: o credor pode provar que os danos causados são superiores aos juros.

As regras do DL 32/03 de 17 de Fevereiro aplicam-se a transações comerciais:


evitar atrasos no pagamento de transações comerciais.

Quando ao dever de indemnizar, há um problema: Art.º 805º n.º 2 CC: última


parte do n.º 3: introduzido em 1983: para perceber o caso vamos colocar-nos antes de
1983.

1970 = facto ilícito


1973 = sentença

Entre as datas do facto ilícito e da sentença, aplicava-se o 566º.


Face à regra, o devedor só estaria constituído em mora no momento da
sentença: 1973: a partir daqui é que se aplicariam os Art.º 805º e 806º.
Antes de 1983, o devedor só estava em mora no momento da sentença.

2ª parte do n.º 3 do 805º: depois de 1983: o devedor está constituído em mora a


partir da data de citação. Aplicar-se-iam também os Art.º 805º e 806.

Isto causou problemas: os danos são ou poderiam ser indemnizados duas vezes:
a partir do momento da citação e a partir do momento da sentença.
O STJ pronunciou-se sobre este problema no Ac. n.º 4/2002 de 9 de Maio:
colocou-se a questão de saber se o lesado deveria ou não ser indemnizado duas vezes?
NÃO: a função do dever de indemnizar não é coloca-lo em melhor situação do
que aquela que estaria se não tivesse havido dano, mas sim colocá-lo na mesma situação
que antes.
Colocou-se também a questão de saber se o lesado pode optar pelo cálculo das
indemnizações?
NÃO: não pode optar.
O STJ optou por uma interpretação restritiva dos Art.º 805º n.º 3 e 806º n.º 1.
Sempre que a indemnização pecuniária por facto ilícito ou por risco tiver sido
objecto de cálculo actualizado nos termos do Art.º 566º n.º 2, vence juros de mora por
efeito do Art.º 505º n.º 3 e 806º n.º 1, a partir da decisão actualizada e não a partir da
citação.

65
Direito das Obrigações

O STJ afastou a 2ª parte do n.º 3 do 805º: o STJ diz que só pode aplicar-se este
artigo nos casos onde o juiz, por qualquer razão, não pode atribuir uma indemnização
actualizada nos termos do Art.º 566º n.º 2.

SEGUNDO EFEITO DA MORA DO DEVEDOR: INVERSÃO DO RISCO: ART.º 809º CC

A - - - vende carro - - - B
Devia entregar o carro em 1 de Novembro, mas não foi. Em 10 de Novembro foi
furtado. O efeito normal da perda do veículo seria a extinção da obrigação de A e B
continuaria adstrito ao pagamento do preço.
O Art.º 807º altera isto: a obrigação de A extingue-se por impossibilidade: o
dever de prestar de A converte-se em dever de indemnizar: aplicam-se, assim, as regras
do Art.º 798º e ss.

Art.º 801 n.º 2

TERCEIRO EFEITO DA MORA DO DEVEDOR: CONVERSÃO DA MORA EM NÃO


CUMPRIMENTO DEFINITIVO: ART.º 808º CC

Este artigo prevê dois casos:


 aquele onde o credor, por causa da mora, perde o interesse na
prestação.
Primeiro, o Art.º 808º exige a perda de interesse, ou seja, a diminuição do
interesse não é suficiente
Segundo, a perda de interesse do credor na prestação deve ser apreciada
objectivamente: Art.º 808º n.º 2: para apreciar a perda de interesse, o juiz deve ter em
conta condenações tidas em conta pelo comum das pessoas.
Terceiro, nexo de causalidade entre perda de interesse do credor e mora do
devedor.
 devedor está em constituição de mora e credor estabelece
prazo para cumprimento: o devedor não respeita o prazo,
convertendo-se em não cumprimento definitivo: a fixação de
um prazo razoável interessa para a resolução de contratos
bilaterais.
O problema do Art.º 808º é um problema de interpretação: problema de saber se,
depois da data, B pode exigir cumprimento de A.
No CC alemão havia o parágrafo 26 que dizia que se o credor fixasse um prazo,
não poderia exigir o cumprimento depois desse prazo: já não existe.
Depois do decurso do prazo suplementar, o credor pode exigir o cumprimento da
obrigação, uma indemnização ou resolução do contrato.

O acto pelo qual o credor fixa o prazo suplementar é a interpelação


admonitória ou interpelação cominatória: deve contar 3 elementos:
 intimação para o cumprimento
 fixação de um prazo com termo suplementar razoável

66
Direito das Obrigações

 advertência de que a obrigação se considerava como


definitivamente não cumprida se a prestação não fosse realizada
dentro do prazo suplementarmente fixado
Os dois primeiros pressupostos estão correctos; o terceiro não está: não se deve
contar advertência pois nas relações entre não juristas não se saber o que é o não
cumprimento definitivo e as suas consequências: não vale a pena criar problemas
excessivos. Por isso, o credor só deve fixar um prazo suplementar para o cumprimento.
Não há propriamente uma admonição ou cominação. O acto pelo qual se fixa o
prazo suplementar só deve contar com a intimação e fixação do prazo suplementar.

Cumprimento defeituoso

O CC só refere o Art.º 799º n.º 1.


O regime do cumprimento defeituoso é:
 o credor tem o direito de recusar a prestação imperfeita ou
defeituosa
 o credor tem o direito de exigir a reparação ou substituição do
cumprimento defeituoso
 no caso do credor reclamar a reparação ou substituição do
cumprimento defeituoso e o devedor não a realizar, o credor
pode, nos termos do Art.º 308º, converter a mora em não
cumprimento definitivo. Com isto, terá direito a reduzir a sua
contraprestação ou resolver o contrato (Art.º 802º):
impossibilidade parcial nos termos do Art.º 793.
 direito à indemnização

Cláusulas de exclusão e limitação do dever de indemnizar

O princípio de que se parte é o princípio de não exclusão ou limitação da


responsabilidade em caso de dolo ou de culpa grave.
O devedor deve responder por todas as consequências decorrentes do dolo ouy
culpa grave.
Quando em causa um não cumprimento imputável ao devedor por dolo, as
cláusulas de exclusão e limitação do dever de indemnizar não são admissíveis.
Quando por culpa grave, o situação é análoga.

Culpa grave: o que é?


Há 3 graus de culpa:
 grave: negligência grosseira: actos praticados por pessoa
extremamente descuidada
 leve: actos que não são praticados por uma pessoa normal
 levíssima: falhas em que não incorre uma pessoa
extremamente vigilante.

Os casos de culpa grave são os que nos interessam: a extinção da


responsabilidade por culpa grave seria o devedor estar obrigado a cumprir e desobrigado
da responsabilidade por uma negligência grosseira.

67
Direito das Obrigações

O direito civil português consagra o princípio da não exclusão ou limitação da


responsabilidade por dolo ou culpa grave. Assim sendo, a alternativa para os
contraentes consiste em limitar os casos de culpa leve: pode haver lugar a:
 exclusão total da responsabilidade por culpa leve: aqui,
teremos uma cláusula que exclua a responsabilidade. Em
casos de culpa leve, o devedor não responde.
 exclusão parcial da responsabilidade por culpa leve: cláusula
de limitação da responsabilidade. Pex, as partes dizem que o
devedor só responde por danos emergentes até certa quantia.

Estas duas cláusulas são válidas, sendo inválidas para o princípio da exclusão ou
limitação da responsabilidade em caso de dolo ou culpa grave.
Art.º809º: cláusulas pelas quais i credor renuncia aos direitos que lhe são
facultados, onde se inclui o direito à indemnização. O Art.º 809º proíbe todas as
cláusulas de exclusão ou limitação da responsabilidade: quer as por dolo ou por culpa
grave, como as por culpa leve.

Art.º 800º n.º 2: aplica-se à responsabilidade por actos de auxiliares: causa a


impressão que todas as cláusulas de limitação ou exclusão da responsabilidade por actos
de auxiliares são válidas, mesmo estando em causa dolo ou culpa grave ou até culpa
leve (com excepção da ordem pública)

À primeira vista, temos dois problemas:


* Primeiro: cláusulas de exclusão da responsabilidade por actos próprios do
devedor: saber se as cláusulas de exclusão por culpa leve são proibidas.
* Segundo: responsabilidade por actos de auxiliares: saber se as cláusulas de
exclusão ou limitação da responsabilidade por culpa grave são permitidas/válidas.

Primeiro problema

a) Cláusulas de exclusão da responsabilidade: Art.º 809º: problema da sua


coordenação com as cláusulas contratuais gerais = Art.º 18º c) das Cláusulas Gerais
Contratuais (pg. 764 CC).
O Anteprojecto de Vaz Serra permitia as cláusulas de exclusão da
responsabilidade por culpa leve. Não foi aceite, tendo sido feito o Art.º 809º: destinado
a proibir tais cláusulas (segundo Antunes Varela: argumentos históricos). Acontece que
os elementos sistemáticos têm prevalência sobre os elementos históricos: elemento
sistemático está contido no Art.º 18º c) das Cláusulas Contratuais Gerais: só proíbe as
cláusulas pelas quais se exclui a responsabilidade do devedor por culpa grave.
Nos contratos negociais, pressupõe-se a igualdade dos contraentes, sendo o
perigo de abuso menor.
O Art.º 809º deve ser interpretado em consonância com o Art.º 18º c) das
Cláusulas Contratuais Gerais de forma a proibir as cláusulas de exclusão ou limitação
da responsabilidade por dolo ou culpa grave.

A lei das Cláusulas Contratuais Gerais não pode permitir algo que, no domínio
dos cláusulas do direito civil, seja proibido.

68
Direito das Obrigações

b) Cláusulas de limitação das responsabilidade: os autores tendem a


considerar que as cláusulas de limitação da responsabilidade por culpa leve são válidas:
há 3 argumentos:
 Art.º 809º: proíbe a renúncia ao direito à indemnização. Nas
cláusulas de limitação, o credor não renuncia ao direito,
apenas limita esse direito. Não são abrangidos pelo 809º.
 as cláusulas de exclusão da responsabilidade por culpa leve
são tidas como admitidas: as de limitação também devem sê-
lo.
 argumento retirado do Art.º 810º CC: possibilidade das partes
fixarem por acordo o montante da indemnização; também
devem dispor de faculdade de fixar por acordo o montante
máximo dessa indemnização.

Quanto à responsabilidade por dolo ou culpa grave pelo devedor, são proibidas;
de culpa leve por actos do devedor são permitidas.

16.11.2005
(Prática)

Caso n.º 7: Obrigações parciárias e obrigações indivisíveis

D E e F, comproprietários de um carro, venderam-no a G pelo preço de 30000 €.


Face ao atraso na entrega desse carro, G dirigiu-se a D, exigindo-lhe que cumprisse
imediatamente a sua obrigação, mas D recusou-se a fazê-lo. Quid iuris?

Tipo de obrigação em causa: obrigação plural: temos uma pluralidade de


devedores (estamos a falar do dever de entrega da coisa).
As obrigações plurais podem ser, consoante a pluralidade seja cumulativa ou
alternativa:
 conjuntas
 parciárias
 solidárias
 disjuntas

Nosso caso: é uma obrigação conjunta: a obrigação não resulta nem de contrato
das partes nem da lei (= solidária): logo é parciária.

O credor exige a totalidade a D: a obrigação de entrega do carro é indivisível:


não pode ser repartida por todos os devedores.
Quando a obrigação é divisível, é necessário que seja repartida em prestações
quantitativamente homogéneas entre si e em relação ao todo e o valor de cada uma
dessas prestações seja proporcional ao valor do todo.
O que não acontece no nosso caso: logo, é uma obrigação indivisível.
Temos uma obrigação parciária e indivisível: Art.º 534º e ss: encontramos nessa
secção o Art.º 535º: não sendo obrigação solidária, e sendo obrigação indivisível, o
credor só de todos os obrigados pode exigir a prestação: G deve exigir de TODOS.

69
Direito das Obrigações

Caso n.º 5: Objecto da Relação Jurídica Obrigacional

A vendeu a B uma máquina agrícola de elevado valor, tendo-se convencionado


que a propriedade só se transferia após o pagamento integral do preço, a efectuar em 12
prestações escalonadas por um período de 2 anos.
B pagou pontualmente as 6 primeiras prestações, mas não as duas seguintes. A
pretende resolver o contrato e reter as prestações recebidas. Quid iuris?

Temos um contrato de compra e venda: nestes caos, a regra é que a propriedade


se transfere por mero efeito do contrato (Art.º 408º: princípio da consensualidade). Mas
há excepções: Art.º 409º n.º 1 1ª parte: reserva de propriedade.
Art.º 886º: falta de pagamento do preço.

Num contrato de compra e venda, se não há reserva de propriedade, uma vez


transferida a propriedade e feita a entrega da coisa, o vendedor não pode resolver o
contrato por falta de pagamento do preço.
Havendo reserva de propriedade, permite-se que o vendedor possa resolver o
contrato por falta de pagamento do preço.
No CC temos uma secção que respeita à venda por prestações: Art.º 934º ss: em
princípio, na venda a prestações com reserva de propriedade a falta de pagamento da
prestação que não exceda 1/8 do preço não dá direito à resolução. O não pagamento de
suas ou mais prestações, ou o não pagamento que exceda 1/8 do preço, já dá lugar à
resolução.

A resolução do contrato (= extinção de um vínculo contratual por acto


unilateral com eficácia retroactiva) é uma forma de extinção do contrato e tem efeitos
(tal como a declaração de nulidade) retroactivos.
No Art.º 433º refere-se a equiparação dos efeitos da resolução aos efeitos da
nulidade ou anulabilidade.

Nosso caso: pretende extinguir a relação jurídica com eficácia retroactiva. Nos
termos do Art.º 934º, A pode resolver o contrato pois B não pagou duas prestações.

Temos um contrato, cláusula de reserva da propriedade, se B faltou ao


pagamento de 2 prestações, A pode resolver o contrato.

Pode reter as prestações recebidas?


O Art.º 434º estabelece a excepção à retroactividade da resolução. Ao querer
reter as prestações recebidas, A baseia-se num excepção da retroactividade da resolução:
a resolução só não abrange as prestações efectuadas se o contrato for de execução
continuada ou periódica.
Temos de fazer uma distinção:
 prestações instantâneas: a obrigação esgota-se no momento
 obrigações duradouras: o cumprimento prolonga-se pelo
tempo

Há uma diferença entre:


 prestações duradouras em sentido estrito
 prestações fraccionadas ou repartidas

70
Direito das Obrigações

Elas são diferentes: na prestação duradoura em sentido estrito, a duração da


prestação influi na determinação do seu montante global. Na prestação fraccionada ou
repartida, a duração da prestação não influi na determinação do seu montante global
(porque o montante global já está determinado à partida: é o caso da venda a
prestações).

Nosso casso, temos uma obrigação de prestação fraccionada ou repartida.


O Art.º 434 n.º 2 diz que a resolução não abrange as prestações efectuadas: por
isso, A não pode reter as prestações efectuadas: deve ser retribuído o que foi prestado.
No contrato de arrendamento, a resolução não abrange as prestações efectuadas.

Caso n.º 9: cumprimento; princípio da integralidade; princípio da Boa Fé

A deve a B 50 sacos de farinha, 25 kg cada. No dia estabelecido, dirige-se à


padaria de B para os entregar. Depois de descarregados todos os sacos, verifica que só
trouxe 49. Poderá entregar o 50º saco mais tarde?
Ou terá de recolocar os 49 sacos na carrinha para os entregar todos ao mesmo
tempo?

Art.º 763º: a prestação deve ser realizada integralmente e não por partes:
princípio da integralidade.
A eventual recusa de B pode fundamentar-se neste princípio, segundo o qual o
credor não pode ser forçado a receber a prestação por partes e o devedor não pode ser
forçada a efectuar a prestação por partes.

Mas há o princípio da boa fé: Art.º 762º n.º 2: o princípio da integralidade deve
ser harmonizado com o princípio da boa fé, segundo o qual as partes devem adoptar os
comportamentos de contraentes honestos e leais, de forma a facilitar a execução da
prestação pela contraparte.

A recusa de B em receber os 49 sacos: não será uma recusa legítima pois não
tem motivo justificado para isso e essa recusa prejudicaria os interesses de A.
Almeida Costa aplica analogicamente a estes casos o Art.º 802º n.º 2.
Também podemos invocar o abuso de direito do 334º: o credor tem direito a
recusar a prestação, mas não em qualquer circunstância que exceda manifestamente o
princípio da boa fé.

Princípio do cumprimento: o princípio da integralidade e o princípio da boa fé


devem ser harmonizados.

Caso n.º 11: cumprimento das obrigações

Em Janeiro de 2001, B arrendou a C um apartamento, tendo sido estipulado uma


renda mensal de 300 €.
Em Outubro desse não, C, com autorização do senhorio, cedeu um quarto a D,
estudante, mediante o pagamento de uma renda mensal de 150 €.
Entrando em sérias dificuldades financeiras, C deixou de pagar a renda ao
senhorio a partir de Dezembro de 2001. D, para evitar a resolução do contrato de

71
Direito das Obrigações

arrendamento, e a consequente caducidade do subarrendamento, dirige-se ao senhorio B


para lhe pagar as rendas relativas aos meses de Dezembro e Janeiro, no valor de 600 €.
C opõe-se declarando que D não tem nada a ver com o assunto.
Quid iuris?

Art.º 64º n.º 1 a) da lei de arrendamento urbano: o não pagamento de renda é


motivo para resolução do contrato.
D pode pagar as rendas devidas? Um terceiro pode fazer a prestação?
Art.º 767º e ss: a prestação pode ser feita tanto pelo devedor como por um
terceiro interessado ou não no cumprimento: excepto nas prestações infungíveis (onde o
cumprimento por um terceiro prejudica os interesses do credor).
Nas prestações fungíveis, o Art.º 768º diz que se o devedor não se opuser ao
cumprimento por um terceiro, o credor deve aceitar esse cumprimento por um terceiro,
sob pena de incorrer em mora do credor (Art.º 768º n.º 2).
Se o devedor se opuser, pela leitura do Art.º 768º n.º 2, se o terceiro ficar sub-
rogado nos termos do Art.º 592º, o credor deve aceitar o cumprimento do terceiro, sob
pena de incorrer em mora do credor.

Sub-rogação: Art.º 592º: é a substituição do credor na titularidade de uma


prestação fungível por um terceiro que cumpra em lugar do devedor ou lhe faculte os
meios necessários ao cumprimento.

O 592º diz que o terceiro que cumpra a obrigação só fica sub-rogado nos direitos
do credor quando tiver garantido cumprimento, ou quando, por outra causa, estiver
directamente interessado na satisfação do crédito.
D está interessado no pagamento das rendas para evitar a caducidade do
subarrendamento.

Nos termos do Art.º 768º n.º 2 não é lícito ao credor recusar a prestação
efectuada por terceiro. A oposição de C é irrelevante porque pode ser sub-rogado.
D paga as rendas devidas por C e depois temos os efeitos do Art.º 593º: D fica na
posição de credor: relação obrigacional não se extingue: transmite-se!

17.11.2005
(Teórica)

Segundo problema

Cláusulas de exclusão ou limitação da responsabilidade por actos de


auxiliares: Art.º 800º n.º 2
Na doutrina encontramos 3 teses:
1. nas cláusulas de exclusão ou limitação da responsabilidade por actos
de auxiliares em caso de dolo ou culpa grave, são válidas. Nas
cláusulas de exclusão ou limitação da responsabilidade por actos de
auxiliares em caso de culpa leve, também são válidas (Antunes
Varela).

72
Direito das Obrigações

2. nas cláusulas de exclusão ou limitação da responsabilidade por actos


de auxiliares em caso de dolo ou culpa grave, são nulas. Nas
cláusulas de exclusão ou limitação da responsabilidade por actos de
auxiliares em caso de culpa leve, são válidas (Ana Prata)
O argumento invocado é que o princípio da não exclusão em caso de dolo ou
culpa grave é um princípio de ordem pública: são inválidas por excederem o limite da
ordem pública.
3. tese intermédia (Pinto Moreira): deve-se distinguir entre:
 cláusulas de exclusão ou limitação da responsabilidade por
actos de auxiliares autónomos ou independentes: para estes,
as cláusulas de exclusão por dolo são válidas.
 cláusulas de exclusão ou limitação da responsabilidade por
actos de auxiliares dependentes: para estes, as cláusulas de
exclusão por dolo são nulas. As cláusulas de exclusão por
culpa leve também seriam inválidas.
O critério de distinção oscila de trabalho para trabalho: dois critérios:
 integração do auxiliar na unidade económica de
devedor: é dependente de aí integrado
 existência de uma relação de comissão: o auxiliar
é dependente se tiver de obedecer às ordens do
comissário

Deve-se optar pela 2ª tese. O princípio da não exclusão ou limitação da


responsabilidade por dolo ou culpa grave deve considerar-se como um princípio da
ordem pública: por isso, os contraentes não o podem derrogar.

O Art.º 800º n.º 1 consagra a Teoria da Ficção: projecta a conduta do auxiliar na


pessoa do devedor. Face a esta ficção, as condições em que se deve admitir exclusão da
responsabilidade por actos do próprio devedor ou por actos de auxiliares devem ser
exactamente as mesmas. A culpa leve do auxiliar é considerada culpa leve do devedor.
Qualquer outra solução entraria em contradição com o teoria do n.º 1 do 800º.

Art.º 809º + Art.º 800º n.º 2: confirmam o princípio que as cláusulas de exclusão
da responsabilidade por culpa grave do devedor são inválidas e as de exclusão da
responsabilidade por culpa leve são válidas.

Restrição ao princípio geral: princípio da protecção do consumidor.


Segundo o Art.º 3º e) +12º + 16º da Lei de defesa do consumidor: não se pode
excluir ou limitar a responsabilidade por culpa leve: não são válidas.

CLÁUSULAS PENAIS

Cláusulas penais são uma convenção pela qual o devedor promete ao seu credor
uma prestação para o caso de não cumprir ou de não cumprir perfeitamente a sua
obrigação.
As cláusulas penais podem assumir uma função indemnizat+oria ou uma função
compulsória.

73
Direito das Obrigações

Função indemnizatória: destinam-se a fixar a indemnização devida em caso de


não cumprimento definitivo, de mora ou cumprimento defeituoso.

Função compulsória: destinam-se a compelir ou forçar o devedor ao


cumprimento. Estas dividem-se em:
o cláusulas exclusivamente compulsivo-sancionatórias: a pena
fixada pelas partes acresce ao cumprimento ou à indemnização: o
credor terá direito à indemnização ou pena ou à indemnização e
pena.
o cláusulas em sentido estrito: a pena substitui o cumprimento ou a
indemnização pelo não cumprimento.

Como distinguir estas duas?


As duas têm em comum a pena substituir a indemnização.
São diferentes porque nas cláusulas penais por indemnização, a pena
corresponde aos danos previsíveis no caso de não cumprimento (= indemnização).
Nas cláusulas penas em sentido estrito, a pena é superior à indemnização.

Nas cláusulas penais indemnizatória, a pena é igual à indemnização.


Nas cláusulas penais exclusivamente compulsivo-sancionatórias, a pena acresce
à indemnização.

O conceito de cláusulas penal abrange todas estas modalidades.

Art.º 810º n.º 1: consagra um conceito de cláusula penal diferente: o CC dá uma


noção que corresponde à noção de cláusula penal indemnizatória.
Coloca-se o problema de determinar se as cláusulas penais compulsórias serão
proibidas.
Não: a função do Art.º 810º n.º 1 é apenas determinar com maior rigor o campo
de aplicação dos Art.º 811º e 812º.
O Art.º 810º contém uma proposição jurídica aclaratória delimitadora do alcance
das restantes proposições jurídicas.
O Art.º 810º n.º 1 diz que os 811º e 812º só se aplicam às cláusulas penais
indemnizatórias e não se aplicam directamente às cláusulas penais compulsórias.

Cláusulas penais em sentido estrito: surge um problema: aqui, a pena é superior


à indemnização. A doutrina dá a esta cláusula penal em sentido estrito uma dupla
função:
 indemnizatória
 compulsória
Esta Tese da Dupla Função da Cláusula Penal é errada pois tem uma
contradição: contraria os princípios básicos do direito da responsabilidade civil. O
direito à indemnização visa apagar um dano: não há lógica falar de indemnização para
casos onde não há danos.
A cláusula penal em sentido estrito apenas tem uma função compulsória.

Como resolver os casos onde há dúvidas quanto às cláusulas penais?

74
Direito das Obrigações

Dúvidas quanto às cláusulas penais em sentido estrito e cláusulas penais


indemnizatórias: o problema resolve-se presumindo que a cláusula penal em apreço
cumpre uma função compulsória.
Quando as partes fixam uma cláusula penal, querem forçar o devedor ao
cumprimento: daí se dever presumir que tem uma função compulsória; daí ser uma
cláusula penal em sentido estrito.

Art.º 810º n.º 2: característica da acessoriedade: a cláusula penal é sempre


uma cláusula acessória ou dependente.
Cláusulas penais compulsórias destinam-se a forçar o devedor a cumprir a
obrigação. Cláusulas penais indemnizatórias e compulsórias dependem sempre da
obrigação principal. Esta dependência projecta-se em 4 casos:
 a nulidade do acto ou negócio jurídico constitutivo de
obrigações principais causa nulidade da cláusula penal.
O Art.º 810º n.º 1 diz isto de forma imperfeita. Os problemas de validade ou
invalidade só se colocam em relação a actos/negócios jurídicos e não em relação às
obrigações.
 se o cumprimento da obrigação principal não for
judicialmente exigível por ter ocorrido a prescrição, o
cumprimento de cláusulas penais também não será
judicialmente exigível
 se a obrigação principal se extinguir, pex, por impossibilidade,
a cláusula penal caduca = fica sem efeito.
 nos casos de cessão de crédito, de assunção de dívida ou
cessão da possibilidade contratual, os direitos e deveres da
cláusula penal transmitem-se para o adquirente do crédito ou
para o assunçor

Análise das cláusulas penais indemnizatórias: dois efeitos:


1. fixação do dever de indemnizar: Art.º 811º n.º 2: as cláusulas penais
indemnizatórias cumprem uma função de limitação da responsabilidade
As partes consideram os prejuízos previsíveis e fixaram pena de 10000. As
coisas correm mal e os prejuízos são de 20000.
O credor pode exigir os 20000?
O Art.º 811º n.º 2 diz que o credor só pode exigir os 10000.
Havendo cláusulas penais indemnizatórias, a indemnização não excederá a pena
convencionada. O princípio em causa no n.º 2 do 811º deve conciliar-se com o princípio
da ordem pública e não exclusão ou limitação da responsabilidade em caso de dolo ou
culpa grave.
O dolo e culpa grave do devedor fazem com que ele responda por todos os
prejuízos que causar.

2. problema do ónus da prova: as regras gerais na responsabilidade contratual


colocam a cargo do devedor lesado duas coisas:
 dever de demonstrar a existência de um dano
 dever de demonstrar a existência de um nexo de causalidade
As cláusulas penais indemnizatórias colocam fora estas duas necessidades de
provar.

75
Direito das Obrigações

Coloca-se o problema do credor não ter de provar nada: pode o devedor mostrar
ele próprio que não houve dano ou que não há nexo de causalidade adequado entre o
facto os danos?
Pode sim: fazendo esta prova, não há dever de indemnizar.

Segundo problema que se coloca: B pretende demonstrar que os danos não


foram de 10000, mas apenas de 5000.
A invocação de B de danos inferiores será relevante?
Art.º 811º n.º 3: consagra a regra que o credor exigir uma indemnização que
exceda o valor do prejuízo resultante do incumprimento da obrigação principal.
Interpretado à letra, este artigo eliminaria as cláusulas penais indemnizatórias.
Transformar-se-ia estas cláusulas penais indemnizatórias em cláusulas de inversão do
ónus da prova.
O Art.º 811º n.º 3 também não faz sentido quando confrontado com o Art.º 812º
n.º 1: prevê o 812º a redução da cláusula penal manifestamente desproporcionada ou
excessiva.
Se interpretado o Art.º 811º n.º 3 à letra, o Art.º 812º n.º 1 nunca se aplicaria.
A interpretação do Art.º 811º n.º 3 eliminaria o Art.º 812º n.º 1.

A solução mais razoável para o problema é relacionar o Art.º 811º n.º 3 com o
Art.º 811º n.º 2.
Art.º 811º n.º 2 parte final: prevê uma convenção sobre o dano excedente. O
Art.º 811º n.º 3 só deverá ser aplicado às cláusulas penais indemnizatórias onde haja
uma convenção sobre a indemnização de dano excedente.

Deve concluir-se que o devedor não pode afastar o dever de pagar a pena
demonstrando a existência de prejuízos inferiores: só deverá ser feito se houver uma
desproporção manifesta.

ANÁLISE DO Art.º 811º CC


Visa problemas de confronto ou concorrência.
Atribui ao credor 3 direitos em caso de incumprimento:
 direito ao cumprimento
 direito à indemnização
 direito à resolução do contrato
O Art.º 811º visa resolver o concurso de dano dum destes direitos e o direito à
pena.
Art.º 811º n.º 1: concurso entre o direito ao cumprimento e o direito à pena.
Art.º 811º n.º 2 e n.º 3: onde o credor tem simultaneamente direito à
indemnização e direito ao cumprimento.

Há 3 tipos de concursos:
 concurso cumulativo: no concurso cumulativo entre dois ou
mais direitos, o titular dos direitos em causa pode exercê-los
todos em simultâneo.
 concurso alternativo ou electivo: aqui, o titular dos direitos
deve optar por um ou por outro direito.

76
Direito das Obrigações

 concurso consumptivo: o titular de direitos também não os


pode exercer a todos: é a própria lei que decide qual dos
direitos deve prevalecer.
O Art.º 811º n.º 1 pronuncia-se sobre o concurso entre o direito à pena e o direito
ao cumprimento:
 cláusulas penais compensatórias: destinam-se a fixar a
indemnização devida em caso de não cumprimento definitivo
 cláusulas penais moratórias: destinam-se a fixar a
indemnização devido ao caso de mora
O concurso entre pena e cumprimento é um concurso alternativo ou electivo:
não se podem cumular os dois direitos: o credor terá de optar por um ou por outro.

Se a cláusula penal é moratória, estamos perante um caso de concurso


cumulativo: Art.º 811º n.º 1 in fine: se a cláusula penal tiver sido estabelecida para o
fim da prestação, o concurso entre o direito à pena e o direito ao cumprimento
configura-se como cumulativo.

23.11.2005
(Teórica)

Cláusulas penais indemnizatórias (Pena = Indemnização)


Cláusulas penais compulsórias:
 cláusulas penais exclusivamente compulsivo-sancionatórias
(P + I)
 cláusulas penais em sentido estrito (Pena é superior à
Indemnização)

O Art.º 810º CC define as cláusulas penais indemnizatórias: são proposições


jurídicas aclaratórias: artigo que se destina a delimitar o campo de aplicação do Art.º
811º e 812º.

Art.º 811º resolve problemas de concurso:


n.º 1: entre direito ao cumprimento e o direito à pena
n.º 2 e n.º 3: problema de concurso entre direito à indemnização e direito à pena

O credor pode reclamar simultaneamente a indemnização e a pena?


O problema é diferente consoante haja ou não convenção sobre a reparação do
dano jurídico excedente.

1ª hipótese: inexistência de convenção sobre a reparação do dano excedente.


Neste caso, aplica-se o n.º 2 do Art.º 811º CC:
pena = 1000
dano = 1500
O credor só tem direito à pena de 1000 ou à indemnização de 1500? Nos termos
do Art.º 811º n.º 2, o credor só tem direito à pena de 1000: a cláusula penal impede que
o credor exija uma indemnização.

77
Direito das Obrigações

O n.º 2 do 811º atribui às cláusulas penais indemnizatórias uma função de


limitação da responsabilidade: o devedor e credor ficam a saber com o que contam.
Quando analisamos as cláusulas de limitação da responsabilidade é relevante o princípio
da não exclusão ou limitação da responsabilidade por dolo ou culpa grave. Havendo
analogia entre as cláusulas penais e a limitação da responsabilidade, deve aplicar-se às
cláusulas penais esse princípio.
Quando culpa leve, só pode o credor exigir a pena de 1500. Com culpa grave ou
dolo, o credor podia optar entre a pena ou a indemnização.
A única forma de conciliar as cláusulas penais e a limitação da responsabilidade
é proceder a uma interpretação restritiva do n.º 2 do Art.º 811º: só se aplicará a
situações de culpa leve.

2ª hipótese: existência de convenção sobre a reparação do dano excedente.


Aplica-se o Art.º 811º n.º 2 e n.º 3.
A convenção tem como efeito atribuir ao credor a faculdade de optar entre a
pena ou a indemnização.
O n.º 2 do Art.º 811º aplica-se exclusivamente aos casos onde exista convenção
sobre o dano existente.
Optando pela indemnização, aplica-se o Art.º 811º n.º 3: o credor só tem, assim,
direito a uma indemnização: não pode obter uma quantia superior aos danos. O n.º 3 do
811º é uma concretização das regras gerais do dever de indemnizar: não traz nada de
novo.

Imaginemos que há convenção, a pena é de 1000, os danos são de 5000: o credor


opta pela indemnização. O devedor consegue provar que os danos são apenas de 750.
O credor terá, ainda, direito à pena de 1000 ou apenas à indemnização de 750?
A convenção sobre a declaração do dano excedente visa proteger os interesses
do credor: se a função da cláusula é proteger o interesse do credor, deve entender-se que
terá sempre direito à pena de 1000.
A solução proposta é a mais relevante face aos interesses em jogo: o credor
nunca ficará privado da pena de 1000.

Direito à resolução do contrato e direito à pena

Em relação a este problema, a doutrina estrangeira está dividida.


O credor pode resolver o contrato e exigir a pena (defendido pelos franceses e
ingleses) ou se o credor resolver o problema, não pode exigir a pena (segundo os
alemães).
Deve-se considerar que o credor pode resolver o contrato e pedir a pena.
As cláusulas penais são, em regra, calculadas de forma a incluir a resolução do
contrato. Exceptuam-se situações extraordinárias, sendo regra poder resolver e pedia a
pena.

Comparação entre cláusulas penais indemnizatórias e


cláusulas penais compulsórias

1. Nas cláusulas penais indemnizatórias, o dano é pressuposto da pena. Nas


cláusulas penais compulsórias, o dano não é pressuposto da pena.

78
Direito das Obrigações

A primeira diferença justifica-se: a função das cláusulas penais indemnizatórias


é liquidar ou fixar a indemnização devida em caso de não cumprimento definitivo, de
mora ou cumprimento defeituoso. A indemnização é devida se houver dano.
A função das cláusulas penais compulsórias é compelir o devedor ao
cumprimento: se não cumprir, a pena ´«e devida independentemente da existência ou
não de dano.
Nas cláusulas penais indemnizatórias, o devedor pode eximir-se da pena
alegando a inexistência de dano: nas cláusulas penais compulsórias a existência de dano
é irrelevante.

2. Indemnização do dano excedente


Nas cláusulas penais indemnizatórias, aplica-se o Art.º 811º n.º 2: o credor não
pode exigir indemnização do dano excedente. Nas cláusulas penais compulsivo-
sancionatórias, o problema não se coloca: o credor tem direito à indemnização de todos
os danos e da pena, não chegando a colocar-se o problema da pena.
Nas cláusulas penais de sentido estrito, há uma faculdade alternativa a “parte
creditoris”: são aquelas onde a prestação devida é só uma, mas o credor tem a faculdade
de exigir por essa prestação outra diferente.
Estando em causa uma obrigação com faculdade alternativa, a questão do dano
não se coloca: o credor pode exigir o cumprimento ou danos pelo não cumprimento, ou,
em alternativa, a pena. O problema do dano excedente não chega a colocar-se.

3. Nas cláusulas penais indemnizatórias, o credor só pode exigir a pena, em


regra, em caso de não cumprimento definitivo. Nas cláusulas penais compulsórias, o
credor pode reclamar a pena em caso de simples mora.
Nas cláusulas penais indemnizatórias, a pena destina-se a substituir a
indemnização devida em caso de não cumprimento definitivo.
Nas cláusulas penais compulsórias, a pena destina-se a forçar o devedor a
cumprir em tempo oportuno: o devedor não cumpre em tempo oportuno: a pena será
aplicada com função sancionatória (e não compulsória pois ele já não cumpriu).

ANÁLISE DO Art.º 812º CC


Aplica-se directamente às cláusulas penais indemnizatórias, e indirectamente
(por analogia) às cláusulas penais compulsórias.
O problema é determinar se a faculdade de redução oficiosa da pena deve ser
pedida pelo devedor ou deve ser oficiosamente aceite: problema da admissibilidade ou
inadmissibilidade oficiosa da pena.
O nosso CC diz que o tribunal pode reduzir oficiosamente a pena. O texto do
Art.º 812º corresponde a uma norma do CC italiano: debate-se o problema de saber se é
admitida a redução oficiosa da pena convencional.
Considera-se que sim porque o Art.º 812º é uma concretização do princípio geral
do abuso do direito: o credor não pode exigir uma pena convencional manifestamente
excessiva, por se tratar de abuso de direito.
Se o tribunal pode conhecer oficiosamente o abuso de direito, também pode
conhecer oficiosamente do excesso das penas convencionais.

As regras gerias do CC sobre cláusulas penais são fundamentalmente estas.

79
Direito das Obrigações

A Lei das Cláusulas Contratuais Gerais contém o Art.º 19º c): proíbe as
cláusulas penais desproporcionais aos danos a ressarcir.
O Art.º 12º diz que as cláusulas penais desproporcionais ao dano a ressarcir são
nulas.
A validade de uma cláusula penal só pode apreciar-se depois de haver dano de
não cumprimento; só pode haver não cumprimento depois da conclusão do contrato.
A norma geral, a validade de uma norma de um contrato avalia-se no momento
da sua produção. O Art.º 19º c) diz que essa validade se aprecia depois da conclusão do
contrato.
O Art.º 19º c) deve ser interpretado como se fossem cláusulas penais
desproporcionadas aos prejuízos previsíveis. Os danos a ressarcir só podem ser
determinados depois do não cumprimento. Deve haver uma interpretação extensiva do
Art.º 19º c).

o A validade deve ser apreciada no momento da conclusão ou


celebração do contrato e o Art.º 19º c) não deve constituir
excepção a esta regra.
o O segundo argumento é a diferença entre o corpo do Art.º 19º
(que exige uma apreciação em abstracto das cláusulas penais) e a
alínea c). Esta alínea criaria um desvio em relação à regra que as
cláusulas contratuais gerais são apreciadas em abstracto para o
Art.º 19º. Os danos a ressarcir da alínea c) só podem ser
determinados consoante uma análise em concreto.
Deve haver uma coerência em todo o Art.º 19º: a validade das cláusulas penais
deve apreciar-se em abstracto e o critério da alínea c) não pode destinar-se aos danos a
ressarcir.
Por estas duas razões (os dois pontos acima referidos), deve haver uma
interpretação extensiva do Art.º 19º.
As cláusulas penais podem ser:
 válidas: se forem proporcionadas aos danos previsíveis
 inválidas: se forem desproporcionadas aos danos previsíveis.

ANÁLISE DO SINAL

Relacionado com o contrato de promessa.


Devemos distinguir:
1. sinal confirmatório: destina-se a confirmar a conclusão do contrato, a
compelir o devedor ao cumprimento ou a fixar as consequências do não
cumprimento.
2. sinal penitencial: destina-se tão só a conceber ao devedor a faculdade de
se desvincular do contrato pagando um preço pelo seu arrependimento.
O CC entendeu que devia aplicar regras únicas às duas figuras. O problema é
que têm funções contraditórias. O sinal confirmatório destina-se a reforçar a obrigação
assumida pelo devedor e o sinal penitenciário destina-se a enfraquecê-lo.
O intérprete deve distinguir as regras do CC que só se aplicam ao sinal
confirmatório e que se aplicam só ao sinal penitencial.

Art.º 440º e ss: sinal

80
Direito das Obrigações

O sinal confirmatório cumpria 3 funções:


 confirmar a celebração do contrato
 compelir o devedor a cumprir
 fixar consequências do não cumprimento
estes dois últimos são cláusulas penais compulsórias.
Estas 3 funções correspondem às funções da cláusula penal. Se as cláusulas
penais podem cumprir funções diferentes, também o sinal confirmatório poderá cumpri-
las.
1ª premissa: o sinal confirmatório tem funções análogas às cláusulas penais.
2ª premissa: as cláusulas penais assumem funções indemnizatórias e
compulsórias.
Conclusão: o sinal confirmatório também pode assumir ora uma função
indemnizatória, ora uma função compulsória.

Por isso, no sinal confirmatório devemos distinguir:


 função indemnizatória
 função compulsória (apenas com funções análogas às
cláusulas penais em sentido estrito)
O CC aplica regras unitárias.
As diferenças entre o sinal confirmatório e o sinal penitencial e entre a função
indemnizatória do sinal confirmatório e a função compulsória do sinal confirmatório
têm consequências jurídicas.

1º Problema: Consequência jurídica da diferença entre o sinal


confirmatório e o sinal penitencial

Art.º 442º n.º 2 CC: distingue duas hipóteses:


1ª hipótese: temos um não cumprimento imputável à parte que constitui o sinal:
a contraparte tem faculdade de fazer sua a coisa entregue.
2ª hipótese: temos um não cumprimento imputável à parte que recebeu o sinla.
Dá lugar à restituição do sinal em dobro.
Normalmente, a coisa entregue em sinal é dinheiro.
Pex: A --- 1000 - B: se não cumprir, deverá entregar a A 2000

O Art.º 442º n.º 2 fala de não cumprimento imputável: só se aplica ao regime do


sinal confirmatório. Se o devedor se desvincula do contrato, não há cumprimento, não
há lugar a indemnização.
O Art.º 442º deve ou não aplicar-se ao sinal penitencial?

23.11.2005
(Prática)

Caso n.º 12: Impossibilidade de cumprimento não imputável:

DEVEDOR

81
Direito das Obrigações

A prestação é o objecto da relação obrigacional. Esta prestação (= comprometer-


se a actuar no concerto) é uma prestação de facto.
Estas prestações de facto podem ser:
o fungíveis: pode ser prestada por um terceiro, não prejudicando o
interesse do credor.
o infungíveis: não podem ser prestadas por um terceiro porque
comprometeria os interesses do credor.

Temos uma obrigação com prazo certo: o respeito do prazo é essencial. A


essencialidade resulta da convenção das partes.
Naquela data, o devedor estava doente: temos uma impossibilidade temporária.
Mas quando o prazo é essencial, a impossibilidade temporária convola-se/transforma-se
em impossibilidade definitiva.

Impossibilidade é imputável ao devedor?


Impossibilidade do cumprimento não imputável ao devedor: 790º: refere-se à
impossibilidade objectiva.
No nosso caso, temos uma impossibilidade subjectiva (que se refere à pessoa do
devedor).

Art.º 791º: a impossibilidade subjectiva só extingue a obrigação quando a


prestação é infungível.
É o nosso caso: a impossibilidade importa a extinção da obrigação.

A fica desobrigado de cantar.

CREDOR
Quanto a este, interessa o 795º n.º 1: impossibilidade não imputável ao devedor
nem ao credor: o credor fica desobrigado da contraprestação e a obrigação do
empresário pagar o preço extingue-se. Se já pagou, tem direito à restituição nos termos
do enriquecimento se, causa (479º) = 795º n.º 1.

Remeter: 795º n.º 1  479º

Enriquecimento patrimonial: diferença para mais entre a situação em que o


património do enriquecido se encontra actualmente (situação real actual) e a situação em
que o património se encontraria se não tivesse havido deslocação patrimonial real.

Conclusão: nosso caso temos impossibilidade não imputável nem ao devedor


nem ao credor: impossibilidade subjectiva. O credor não tem de efectuar a
contraprestação, e, caso já a tenha efectuada, tem direito à restituição.
790º + 791º + 795º + 479º

Caso n.º 13: impossibilidade de cumprimento não imputável; regime do risco

a)

82
Direito das Obrigações

Impossibilidade originária porque aquando da constituição do vínculo a


impossibilidade já existia.
Impossibilidade superveniente é quando surge depois da constituição da
obrigação.

No momento em que A e B acordam, já não havia a coisa. Esta impossibilidade


originária pode ser objectiva e subjectiva.
O nosso caso é impossibilidade objectiva.
Também é uma impossibilidade definitiva: o quadro ficou completamente
destruído.

Art.º 401º: a impossibilidade originária tem como consequência a nulidade.

Temos uma impossibilidade originária, objectiva, definitiva e nos termos do


Art.º 401º a consequência é a nulidade do negócio jurídico.

b)
Se tivesse telefonado antes do acidente, haveria impossibilidade superveniente
(mas também objectiva e definitiva).
O contrato era válido: produziria os efeitos do 408º e 409º e 879º.
Contudo, ocorre o acidente e temos uma impossibilidade superveniente.
A é devedor da entrega da coisa: impossibilidade não imputável ao devedor:
790º: a obrigação de entrega da coisa extingue-se.
Quanto á obrigação de entrega da coisa de C: impossibilidade não imputável ao
credor: 796º n.º 1: no caso anterior, tínhamos uma prestação de facto (no cantor de
rock); aqui, temos uma prestação de coisa, e, se essa coisa perece por causa não
imputável nem ao credor nem ao devedor, o risco do perecimento da coisa corre por
conta do adquirente (C).

C não tem de pagar a coisa porque o risco corre por conta dele.

Caso n.º 14: incumprimento das obrigações; realização do fim da prestação por
outra via.

Temos uma impossibilidade não imputável ao devedor: 790º n.º 1: extingue-se a


obrigação do devedor (B).
Quanto ao credor (A), tem ou não de efectuar a contraprestação: 795º: duas
situações:
 situação imputável ao credor: 795º n.º 2
 situação não imputável ao credor: 795º n.º 1

O barco desencalhou quando já B se aproximava do iate: não seria justo que não
se pagasse pelo menos as despesas de deslocação.
Antunes Varela aplica analogicamente o 468º n.º 1 (regime da gestão de
negócios). O credor (A) não tem de pagar o preço estipulado, mas não é justo que o
devedor (B) suporte as despesas do contrato que tinha combinado.

83
Direito das Obrigações

Caso n.º 15: incumprimento das obrigações; mora do devedor; inversão do


risco.

Neste caso, temos um prazo ou termo certo: nos termos do Art.º 805º, o facto da
obrigação não ter sido cumprida no prazo, faz com que tenhamos mora.
Art.º 804º: quando a prestação ainda é possível.

Temos mora do F: temos de ver os efeitos da mora do devedor:


 804º n.º 1: obrigação de reparar os danos causados
ao devedor
 807º: inversão do risco
 808º: conversão da mora em não cumprimento
definitivo

Destes três, interessa-nos o efeitos do 807º: inversão do risco.


Se o devedor não está em mora, havendo perda ou deterioração da coisa, quem
suporta isso é o devedor: o facto do devedor (F) estar em mora, ele é que suporta o
risco.
Se F tivesse entregue a coisa, não haveria perda nem deterioração da coisa.

A perda da coisa não é imputável ao devedor: nos termos do Art.º 790º, implica
extinção da obrigação do devedor  NADA DISSO: o facto de F estar em mora faz
como que haja uma perpetuação da sua obrigação.

Como há inversão do risco, tudo se passa como se houvesse incumprimento


definitivo. Isto faz com que o credor tenha duas hipóteses:
 Art.º 798º e ss  801º: ou mantém o contrato e exige indemnização nos
termos do Art.º 801º n.º 1
 ou resolve o contrato e exige indemnização nos termos do Art.º 801º n.º
2

Se mantiver o contrato, o negócio continua a produzir os seus efeitos:


indemnização pelo interesse contratual positivo (visa pô-lo na situação em que estaria se
o contrato tivesse sido cumprido). E receberia ou o automóvel ou o valor (= 125000 €).
Se resolver o contrato (801º n.º 2) dizia-se (e a maioria da doutrina ainda o
diz) que a indemnização pela resolução do contrato era indemnização pelo interesse
contratual negativo: iria receber novamente o cavalo, e as prestações voltam à situação
originária.
Indemnização pelo interesse contratual negativo visa colocar o lesado na
situação em que estaria se não tivesse sido celebrado o contrato.
Não faria sentido resolver o contrato e pedir indemnização pelo interesse
positivo.
Se resolvesse o contrato, iria reaver o cavalo e iria receber como indemnização a
diferença entre o preço do cavalo e o preço em que poderia vender o cavalo a outra
pessoa = 20000 €.

Dr. Nuo Oliveira: posição inovadora: a indemnização com a resolução do


contrato é uma indemnização pelo interesse contratual positivo. A resolução não
extingue o vínculo contratual; modifica-o simplesmente e substitui os deveres primários

84
Direito das Obrigações

por deveres secundários de prestação (= dever de indemnizar pelo não cumprimento do


contrato).

As consequências são que poderia resolver o contrato e exigir a indemnização


pelo interesse contratual positivo = neste caso, poderia resolver o contrato e exigir
indemnização de 25000€.
E poderia optar por uma ou outra hipótese: ou resolver o contrato +
indemnização ou manter o contrato + indemnização.

24.11.2005
(Teórica)

As regras do Art.º 440º destinam-se a aplicar ao sinal confirmatório e aos sinais


penitenciais.
O sinal confirmatório e o penitencial têm funções diferentes: pelo que não se
podem aplicar as mesmas regras.

1) Art.º 442º n.º 2 : 1ª regra: artigo mal formulado: começa com duas regras
para todos os sinais e continuam com regras para sinais específicos.
O Art.º 442 n.º 2 refere o não cumprimento imputável a uma das partes: sugere a
existência de regras aplicáveis ao sinal confirmatório.
Quando há sinal penitencial, não há propriamente não cumprimento: se o
contrato deixa de vincular não há propriamente não cumprimento.
Coloca-se o problema de saber quais as regras aplicáveis ao sinal penitencial.

Quando está em causa o sinal penitencial, deve-se distinguir:


 consoante o direito de arrependimento seja exercido pela parte
que constituiu o sinal
 casos onde o direito de arrependimento é exercido pela parte
que recebeu o sinal.
Quanto ao direito de arrependimento que é exercido pela parte que constituiu o
sinal, a declaração de desistência do contrato torna-se eficaz com a chegada da
declaração de desistência ao poder ou conhecimento do destinatário. O Art.º 442º n.º 2
aplica-se aqui por analogia com adaptação.
Quando o direito de arrependimento é exercido pela parte que recebeu o sinal, a
declaração de desistência do contrato só se torna eficaz com o pagamento do sinal em
dobro. Aplica-se o n.º 2 do Art.º 442 por analogia.

2) Art.º 442º n.º 4: disposição equivalente ao Art.º 811º n.º 2.


Art.º 442º n.º 2 só deve aplicar-se ao sinal confirmatório.
Quanto ao sinal penitencial, deve distinguir-se consoante haja ou não exercício
eficaz do direito de arrependimento:
 se há exercício eficaz do direito de arrependimento ou desistência:
aplica-se o Art.º 442º n.º 4 com adaptações. Este artigo diz que não
há lugar ao pagamento de outra indemnização: o contrato deixou de
ser eficaz para o devedor e o credor não pode exigir indemnização.

85
Direito das Obrigações

 se não há exercício eficaz do direito de arrependimento ou


desistência: não se aplica o Art.º442º n.º 4: este artigo aplica-se
exclusivamente aos casos de sinal. Neste caso, o devedor não desistiu
do contrato e continua vinculado. O devedor optou por não exercer o
seu direito de arrependimento, logo o credor só pode exigir-lhe o
cumprimento ou indemnização pelo não cumprimento.

3) Art.º 830º n.º 2 : execução específica do contrato-promessa.


Neste contratos, A e B celebram um contrato promessa. A promete vender a casa
a B e B promete comprar. A não cumpre.
Neste caso, o tribunal substitui-se a A na venda da casa.
O Art.º 830 n.º 2 diz que o sinal se presume cumprido: só faz sentido para o sinal
penitencial.

Sinal confirmatório: para reforçar a obrigação.


Sinal penitencial: para enfraquecer a obrigação, atribuindo ao devedor o direito
de arrependimento.

Se fosse sinal confirmatório, não faz sentido que através dele posição do credor
saísse prejudicada.
O sinal penitencial e só ele constitui ou pode constituir uma convenção em
contrário da execução específica.

Os regimes jurídicos destes dois sinais são pelo menos diferentes nestes 3
aspectos.

Diferença entre várias espécies de sinal confirmatório

O sinal confirmatório pode ter uma função indemnizatória ou função


compulsória.
Havendo dois tipos de sinal confirmatório, os seus regimes jurídicos são
diferentes.

1º aspecto: interpretação do n.º 2 e n.º 3 do Art.º 442º.


O problema é determinar se o direito à indemnização no caso de contrato
promessa sinalizados pode ser exercido no caso de simples mora ou no caso de não
cumprimento definitivo.
O problema colocou-se essencialmente por causa do n.º 3 do Art.º 442º: há quem
defenda as mais variadas teses.

A diferença entre o sinal confirmatório com função indemnizatória e o sinal


confirmatório com função compulsória conduz a uma resolução fácil.
Nas cláusulas penais indemnizatórias, o credor só pode exigir indemnização no
caso de não cumprimento definitivo. Nas cláusulas penais em sentido estrito, pode
exigir indemnização no caso de simples mora.
Ao sinal confirmatório compulsório aplicam-se as regras da cláusula penal
em sentido estrito e ao sinal confirmatório indemnizatório aplicam-se as regras da
cláusula penal indemnizatória.

86
Direito das Obrigações

Quando perante um sinal confirmatório compulsório, o credor poderá reter o


sinal ou reclamar restituição do sinal em caso de simples mora.
No caso de sinal confirmatório indemnizatório, o credor poderá reter o sinal ou
reclamar restituição do sinal no caso de não cumprimento definitivo.
Assim, o sinal confirmatório assume uma função compulsória.

2º aspecto: interpretação do n4 do Art.º 442º.


Este artigo é uma concretização do Art.º 811º n.º 2. Por sua vez, este só se aplica
às cláusulas penais indemnizatórias. Por isso, o n.º 4 do Art.º 442º só deve aplicar-se ao
sinal confirmatório com função indemnizatória (com função análoga às cláusulas penais
indemnizatórias).

CASO DE MORA DO CREDOR


ART.º 813º E SS

A mora do credor é o não cumprimento da obrigação no momento próprio,


porque o credor recusou a prestação que lhe foi regularmente oferecida ou não praticou
os actos de cooperação necessários ao cumprimento.

Art.º 813º: tem os dois requisitos da mora do credor:


a) recusa da prestação ou não realização dos actos de cooperação
necessários ao cumprimento
b) ausência de motivo justificativo

Quando há recusa da prestação exige-se que o devedor ofereça; quando há não


realização dos actos de cooperação, não há isso: o devedor constitui-se em mora,
independentemente da oferta.
A mora do credor pressupõe a ausência de motivo justificativo: não há mora do
credor se este recusar uma parte da prestação (com motivo justificativo).

Entre os requisitos da mora do credor, não está a culpa: há mora do credor


independentemente de culpa sua. A razão para não inclusão da culpa é que isso
pressupõe que a conduta do credor fosse ilícita: há casos onde isso não ocorre, onde a
conduta do credor não é ilícita.
O regime da mora do credor aplica-se em ambos os casos.

Efeitos da mora do credor: são essencialmente 3:


1) atenuação da responsabilidade do devedor: Art.º 814
2) inversão do risco (ou oneração do credor quanto ao risco): Art.º 815º
3) direito a indemnização previsto no Art.º 816

1) atenuação da responsabilidade do devedor: enunciada no Art.º 814:


consagra duas ideias:
 havendo mora do credor não há mora do devedor: a
constituição do credor em mora faz com que o devedor não
responda pelas consequências do atraso na prestação

87
Direito das Obrigações

 enuncia a regra de que o devedor só responde pelas


consequências do seu dolo: Art.º 814º n.º 1
Face a este Art.º 814º n.º 1, nem seque se exige ao devedor a diligência de um
bom pai de família.
Há o problema de saber se se deve equiparar o dolo à culpa grave: em princípio,
sim: devem equipara-se. O Art.º 814º n.º 1 deve ser interpretado extensivamente de
forma a ser equiparado à culpa grave.

2) inversão do risco: 815º: a mora do credor faz com que o credor fique
onerado quanto ao risco (o risco passa a correr por conta do credor).
Art.º 815º n.º 2: é importante: casos onde o contrato é bilateral.
O credor continua obrigado apagar ao devedor a contraprestação. O direito à
contraprestação do n.º 2 do Art.º 815º tem dois limites:
 se o devedor tiver benefício com o não cumprimento
 o devedor só fica impossibilitado pela mora do credor
Ver art.º!

Pex: A, professor, compromete-se a dar 20 explicações a B: convencionam que


cada prestação corresponderia a 100 €.
Na data marcada para a primeira prestação, B faltou.
Na data marcada para a 6ª prestação A foi atropelada e não deu mais prestações.

B só pagará as 5 primeiras prestações: caso de mora do credor.


Da 6ª para a frente, credor não terá de pagar.

3) direito à indemnização: Art.º 816º: consagra um desvio quanto aos


princípios gerais de dever de indemnizar, dever da responsabilidade civil = o credor só
responde por dois tipos de danos:
 despesas maiores com a guarda
 despesas maiores pelo oferecimento infrutífero da prestação.
A regra deste artigo explica-se pela mora do credor não pressupor ilicitude nem
culpa: o legislador entendeu que não seria razoável que o credor respondesse por todos
os riscos.
Deve-se fazer uma interpretação restritiva do Art.º 816º: aplicado aos casos
onde não há dever de cooperação do credor: não se aplicará aos casos onde haverá
ilicitude e culpa (para aqui aplicam-se as regras gerais da responsabilidade civil).

Estando em causa a mora do devedor, a lei prevê conversão da mora do


devedor em não cumprimento definitivo: Art.º 808º.
Quanto à mora do credor, não se prevê nada de semelhante: Art.º 795º n.º 2.
O devedor terá alguma forma de converter a mora do credor em alguma forma
de não cumprimento imputável ao credor?
Isso teria como consequência a aplicação do Art.º 790º n.º 1 (nos termos deste
artigo, a obrigação extinguir-se-ia: o devedor ficaria desonerado a prestar) e do Art.º
795º n.º 2 (nos termos deste artigo, o devedor teria direito à contraprestação).
A interpretação mais razoável é a que defende a aplicação analógica do Art.º
808º aos casos de mora do credor: o devedor poderá estabelecer um prazo para o credor
cumprir a prestação.

Casos de extinção da mora do credor: há 4 casos:

88
Direito das Obrigações

1) extingue-se com a aceitação da prestação ou prática dos actos de


cooperação necessários ao cumprimento
2) com a renúncia do devedor aos efeitos da mora
3) por acordo das partes
4) extingue-se por se extinguir também a mora do devedor

30.11.2005
(Teórica)
Obrigação de indemnização: Art.º 562º e ss

Funda-se na responsabilidade civil (ou extracontratual). Esta divide-se em:


 responsabilidade por factos ilícitos
 responsabilidade pelo risco
 responsabilidade por factos lícitos

Princípio da culpa: aplica-se à responsabilidade contratual e responsabilidade


por factos ilícitos.

Princípio do risco: aplica-se à responsabilidade extracontratual pelo risco ou


por factos lícitos.

Princípio da culpa: a culpa surge de duas formas:


 dolo
 mera culpa (negligência)
Qual a diferença entre o dolo e a mera culpa?

O dolo é a conjugação de dois elementos:


 intelectual: este elemento abrange o conhecimento das circunstâncias
de facto que integram a violação de um dever e por outro lado a
consciência da ilicitude de um facto
 volitivo: caracteriza-se num determinado nexo entre o facto e a
vontade do agente.

Face ao elemento volitivo, podem distinguir-se 3 tipos de dolo:


 directo: o agente quer o facto ilícito: representa no seu
espírito determinado facto ilícito e quer o resultado ilícito
 necessário: o agente prevê o facto ilícito como consequência
necessária ou segura da sua conduta e não se abstém de agir
 eventual: o agente representa um determinado resultado como
consequência eventual ou possível da sua conduta e, não
obstante isso, continua a agir, aceitando o resultado ilícito.

A mera culpa pode surgir sob duas formas:


 negligência consciente: o autor prevê a produção do facto
ilícito como possível, mas confia na sua não produção e, por
isso, não toma as providências para o evitar.

89
Direito das Obrigações

 negligência inconsciente: o autor nem sequer prevê a


produção do facto ilícito como consequência da sua conduta,
embora pudesse prevê-la se usasse do cuidado ou diligência
exigível.

Dolo eventual  Negligência consciente


O critério usado é: se o agente pensar que não vai acontecer nada, se confiar na
não produção do resultado, há negligência consciente.
Se, porém, o agente ponderar que poderá acontecer algo, se não confiar na não
produção do resultado, há dolo eventual.
O critério consiste no agente confiar ou não confiar na não produção do
resultado.
Em direito civil, esta diferenciação não tem importância: tem sim em direito
penal.

Critério de apreciação da culpa: há dois problemas:


1. contraposição entre a culpa em concreto e o critério da culpa em
abstracto
2. contraposição entre os critérios de culpa como deficiência da conduta e
critério da culpa como deficiência da vontade

1º problema:
Na culpa em concreto (ou em sentido subjectivo), há culpa quando a conduta do
agente é menos cuidadosa que a sua conduta normal ou habitual. O juízo de culpa em
concreto faz-se comparando o cuidado do agente em concreto com um parâmetro
constituído pelo cuidado normal desse agente.
Na culpa em abstracto (ou em sentido objectivo), há culpa quando a conduta do
agente é menos cuidadosa que a conduta de um Homem médio ou normal.
No primeiro caso, comparava-se o agente consigo próprio e no segundo
compara-se com a conduta do Homem médio.
Art.º 487º n.º 2: o CC aceita o critério da culpa em sentido abstracto: a conduta
do agente deve ser comparada com a conduta de um bom pai de família.
Este artigo usa algo que limita o critério do bom pai de família: deve usar o
termo com as circunstâncias em causa. Quando está em causa a apreciação da
responsabilidade de um advogado, deve-se ter como padrão o de um advogado médio, e
assim sucessivamente.
O critério da culpa em abstracto é o mais adequado: por 3 razões:
 o critério da culpa em concreto levaria a desajustes: tem em conta a
conduta da própria pessoa, o que levaria a exigir-se muito das pessoas
normalmente muito cuidadosas e menos das pessoas normalmente
descuidadas
 o critério da culpa em abstracto é o mais adequado à produção da
confiança dos indivíduos: cada pessoa deve confiar que os outros se
comportarão com o critério de normalidade válido para todos
 problema da responsabilidade civil é um problema de danos: quando
alguém causa dano usando cuidado inferior ao normal deve responder
pelos danos

90
Direito das Obrigações

2º problema:
Culpa como deficiência da vontade: há culpa sempre que o agente não se esforce
o suficiente para evitar a produção do facto ilícito.
Culpa como deficiência da conduta: há culpa sempre que o agente não se
comporte como uma pessoa média ou normal.
A culpa como deficiência da vontade exige apenas que o agente se esforce por
cumprir os seus deveres. A culpa como deficiência da conduta exige mais: ou o agente
corrige os seus erros ou o agente não deve intervir no tráfico jurídico.

Por qual destes critérios deve optar-se?


O CC não resolve o problema, mas deve preferir-se a culpa como deficiência da
conduta.
O critério da culpa como deficiência da conduta é o critério mais coerente com o
critério da culpa em abstracto, expressamente consagrado no n.º 2 do Art.º 487º.
O critério da culpa como deficiência da conduta tem um valor educativo:
estimula cada pessoa a adaptar a sua conduta às exigências do caso jurídico ou a abster-
se de intervir no tráfico jurídico.
O critério da culpa como deficiência da vontade concilia-se com as funções do
direito da responsabilidade civil, que é fundamentalmente a função de imputar danos.
Quem causa um dano por não ter aptidões exigíveis deve responder por esse dano.

Os resultados mais injustos do critério da culpa como deficiência da vontade


podem corrigir-se pela aplicação do Art.º 494º: concede ao juiz a faculdade de deduzir
equitativamente a indemnização em caso de mera culpa.

O critério da diferenciação da culpa é o critério da gravidade: visa distinguir


entre:
 culpa grave: quando se aprecia com base na conduta do
agente a conduta extremamente descuidada
 culpa leve: quando se aprecia a culpa leve, compara-se a
conduta do agente com a conduta de um Homem médio
 culpa levíssima: compara-se a conduta do agente com a
conduta de uma pessoa extremamente cuidadosa: esta culpa é,
em regra, irrelevante

Princípio do risco: o CC não acolheu este princípio em termos gerais: esta não
escolha está explícita no n.º 2 do Art.º 483º. A responsabilidade do risco só ocorre nos
casos expressamente referidos na lei.

A diferenciação do princípio da culpa e do princípio do risco está exposta a


responsabilidade por factos ilícitos e responsabilidade pelo risco.

Responsabilidade por factos ilícitos: elementos:


 facto
 ilicitude
 culpa
 dano
 nexo de causalidade
O facto, ilicitude e culpa não são exigidos na responsabilidade pelo risco.

91
Direito das Obrigações

Os pressupostos comuns entre e responsabilidade por factos ilícitos e


responsabilidade pelo risco são o dano e o nexo de causalidade.

DANO

I.
Dano patrimonial: é o que se traduz numa diminuição ou não aumento do
património
Dano não patrimonial: todo o restante. Este conceito obtém-se por exclusão.

Entre o dano patrimonial e o dano não patrimonial há diferença de regime:


decorre do Art.º 496 n.º 1 CC: os danos não patrimoniais só são ressarcíveis se, pela sua
gravidade, merecerem a tutela do direito.
O CC não formula nenhum requisito semelhante para os danos patrimoniais.

II. diferenciação enquadra-se no âmbito dos danos patrimoniais


Dano real: prejuízo sofrido pelo lesado sob a forma de destruição, deterioração
ou subtracção de um bem.
Dano de cálculo: quantia em dinheiro correspondente a esse prejuízo.

Para avaliação do dano de cálculo, deve distinguir-se:


 avaliação abstracta: atende ao valor objectivo do bem
destruído, deteriorado ou subtraído.
 avaliação concreta: atende ao valor subjectivo do bem em
causa (valor que tem para o lesado)
O CC opta por uma avaliação concreta dos danos de cálculo.

III.
Danos directos: são as consequências imediatas do facto ilícito
Danos indirectos: são as consequências mediatas ou remotas desse facto.

Pex: A parte montra de uma loja de chocolates e crianças aproveitaram isso para
roubar uns chocolates: aqui, há dano directo e indirecto.

V.
Danos presentes: são os que já se verificaram no momento da fixação da
indemnização.
Danos futuros: são aqueles que ainda não se verificaram nessa data ou momento.

Os danos futuros relevam para os Art.º 564º n.º 2 e 565º: compete ao juiz
condenar a indemnizar os danos futuros desde que previsíveis. O juiz tem, assim, duas
hipóteses:
 se os danos futuros já forem determinados, o juiz obrigará o
lesante ao pagamento da indemnização
 se não forem, o juiz obrigará o lesante ao pagamento de uma
indemnização provisória dentro do quantitativo já fixado

92
Direito das Obrigações

NEXO DE CAUSALIDADE

Cumpre duas funções:


o função de fundamentação da responsabilidade: o nexo de
causalidade constitui um pressuposto ou requisito da
obrigação de indemnizar.
o função de limitação da responsabilidade: em princípio, o nexo
de causalidade constitui a medida do dever de indemnizar:
este dever vai até onde for a causalidade.
Quanto ao nexo de causalidade, há 3 teorias:
 teoria da condição sine qua non
 teoria da causalidade adequada
 teoria do fim da protecção ...

30.11.2005
(Prática)

Caso n.º 16: incumprimento das obrigações; natureza do direito à indemnização


cumulável com a resolução

Prazo: essencial ou não essencial?


O contraente só pode resolver o contrato se houver não cumprimento definitivo:
acontece este não cumprimento definitivo quando a prestação se torna impossível
naturalisticamente ou não cumprimento normativo (que resulta do 808º: conversão da
mora em não cumprimento definitivo).
Nas situações de mora, a prestação ainda é possível: no caso do 808º, estamos
em mora, sendo ainda naturalisticamente possível o cumprimento: o credor pode perder
o interesse, tornando em não cumprimento definitivo.

Art.º 801º n.º 2

Temos de qualificar o prazo: se for não essencial, o facto do devedor não


cumprir nesse prazo há como consequência a mora: 805º n.º 1 a).
Se o prazo for essencial e se o devedor não cumprir dentro desse prazo, o credor
perde interesse na prestação, e torna-se em não cumprimento definitivo: 808º n.º 1 1ª
parte.

O prazo pode ser essencial por 2 motivos:


 porque as partes o convencionaram: prazo
essencial subjectivo
 quando resulta do fim da prestação: prazo
essencial objectivo

Nosso caso: temos um prazo essencial objectivo: aqui, a essencialidade resulta


do próprio fim da prestação. Havendo mora, há perda de interesse do credor na

93
Direito das Obrigações

prestação: nos termos do Art.º 808º n.º 1, há transformação da mora em não


cumprimento definitivo.

Resposta à primeira parte de caso: pode resolver o contrato, nos termos do Art.º
801º n.º 2 por haver não cumprimento definitivo.

2ª parte do caso:
B resolve o contrato e conclui com C outro contrato.
Neste caso, temos uma indemnização:
 pelo interesse contratual negativo: visa colocar o lesado na
situação em que estaria se o contrato não tivesse sido
celebrado
 pelo interesse contratual positivo: visa colocar o lesado na
situação em que estaria se o contrato tivesse sido cumprido.
Se o contrato tivesse sido cumprido por A, B não teria tido despesas que teve
com C: esta é uma indemnização pelo interesse contratual positivo.

Pode pedir esta indemnização?


Para os que entendem que a resolução do contrato só pode ser acompanhada por
indemnização pelo interesse contratual negativo, não pode pedir esta indemnização.
Para os outros (que defendem que a resolução do contrato pode ser
acompanhada por indemnização pelo interesse contratual positivo), pode pedi-la.

801º n.º 1: grande indemnização: tem de efectuar a contraprestação e exigir a


indemnização que o colocaria na situação se o contrato tivesse sido cumprido: mantém
o contrato: para o Dr. Nuno Oliveira: visa colocar o lesado na situação em que estaria se
o contrato tivesse sido cumprido.
801º n.º 2: pequena indemnização: indemnização deduzida do valor da
contraprestação: resolve o contrato e não perpetua a indemnização.

Nosso caso: indemnização pelo interesse contratual positivo (e referir a outra


corrente).

Caso n.º 17: cumprimento e não cumprimento; mora do devedor; conversão da


mora em não cumprimento definitivo; inversão do risco

Temos um CCV entre A e B.

a)
A deve indemnizar B por danos causados pela perda da peça?

CCV: 879º + 408º: com a transferência da propriedade, transferem-se os riscos:


796º n.º 1.

Temos aqui uma obrigação com prazo certo não essencial: se a obrigação não for
cumprida no prazo, há mora (804º).
805º n.º 2 a): em mora a partir do prazo do não cumprimento.

Consequências da mora:

94
Direito das Obrigações

 inversão do risco (é este efeito para este caso)


 danos moratórios
 conversão da mora em não cumprimento
definitivo
A está em mora, logo inverte-se o risco: o risco passa a correr por conta de A
(por conta do alienante: 807º n.º 1).

Havendo inversão do risco, é como se houvesse não cumprimento definitivo


imputável ao devedor: 801º
Pode optar:
 801º n.º 1: manter o contrato e pedir indemnização pelo interesse
contratual positivo
 801º n.º 2: resolver o contrato (não tem de realizar a contraprestação e se
já realizada tem direito à restituição) e pedir indemnização pelo interesse
contratual negativo (para uns) ou positivo (para outros)

b)
Se, na sexta-feira, o contrato já tivesse sido resolvido, B não teria de pagar o
preço a A: pode comprar a peça ao coleccionador sem ter de pagar a peça ao ª
Se não tivesse sido resolvido o contrato, A teria de pagar o preço a B.

Na sexta-feira, tínhamos uma situação de mora do devedor: só pode haver


resolução do contrato se houvesse perda do interesse ou não cumprimento no prazo
estabelecido = 808º.
O contrato estava resolvido por perda do interesse do credor?
Não: o prazo não era essencial; a perda de interesse é apreciada objectivamente;
sempre que o credor perde o interesse, deve avisar imediatamente o devedor  não
houve conversão da mora em não cumprimento definitivo por perda do interesse.

Temos a hipótese da interpelação admonitória (consiste numa intimação dirigida


ao devedor em mora para que ele cumpra a obrigação dentro de um determinado prazo,
sob pena de considerar como definitivamente não cumprida): Art.º 808º n.º 1 2ª parte: 3
requisitos:
 intimação para o cumprimento
 fixação de um prazo razoável para esse cumprimento
 declaração admonitória
Dr. Nuno Oliveira entende que basta uma simples interpelação: não é necessária
uma interpelação admonitória: não necessita dos 3 requisitos.

Há conversão da mora em não cumprimento definitivo por interpelação


admonitória neste caso?
Depende: se considerarmos o prazo estabelecido no caso como prazo razoável.

c)
1ª hipótese: neste caso, estamos a falar de indemnização pelo não cumprimento
imputável ao devedor: sempre que possível, a indemnização é feita por uma restituição
natural.

2ª hipótese: podemos considerar o restauro da peça como cumprimento do


contrato.

95
Direito das Obrigações

Custos consideráveis para esse restauro:


 o devedor ainda está obrigado a cumprir havendo excessiva
onerosidade da prestação?  Impossibilidade relativa
 Teoria do limite do sacrifício: os esforços realizados devem
ser em limite com o princípio da boa fé. Se, mesmo assim,
não é possível, a impossibilidade relativa seria equiparada à
impossibilidade absoluta.
Antunes Varela rejeita esta teoria: deve-se saber qual é o limite do sacrifício: o
devedor só estaria desonerado do cumprimento, em face das situações do caso, se o
exercício do direito do credor implicasse um abuso de direito.

Nosso caso: excede manifestamente os limites impostos pela boa fé?


Há custos consideráveis, mas nada é dito se excede manifestamente os limites
impostos pela boa fé.

Nosso caso: se a indemnização for extremamente onerosa, deverá haver


restituição por igual.

Antunes Varela: custos consideráveis: ver sebenta.


O restauro da peça é indemnização pelo interesse positivo.
Neste caso, nunca poderia ser cumulável com a resolução do contrato porque é
uma grande indemnização, que abrange todos os danos sofridos.

07.12.2005
(Teórica)

NEXO DE CAUSALIDADE

Essencialmente, são duas teorias:


 Teoria da condição sine qua non (ou da equivalência das
condições)
 Teoria da causalidade adequada

A teoria da condição sine qua non diz que causa é igual a condição sine qua
non: causa é toda a condição sem a qual o dano não se verificaria.
O problema que se coloca é determinar como se identificam as condições sine
qua non.
As condições sine qua non identificam-se através de um processo de eliminação
intelectual: o juiz deve questionar-se o que aconteceria se o agente não tivesse feito
nada.
1ª alternativa: se não tivesse intervindo, a acção do agente deve considerar-se
como condição sine qua non.
2ª alternativa: a conduta do agente não é condição sine qua non ...
A Teoria da condição sine qua non foi criticada por expandir demais a
responsabilidade: e foi corrigida pela teoria da causalidade adequada.

96
Direito das Obrigações

A teoria da causalidade adequada parte da ideia que causa e condição sine qua
non são coisas diferentes: o conceito de condição sine qua non é mais amplo e o
conceito de causa é mais restrito. A teoria da causalidade adequada diz que a condição
sine qua non só deve ser tida como causa de um dano se, segundo a sua natureza
geral, se revela apropriada para o provocar.
A teoria da causalidade adequada diferencia dois problemas:
1º problema: problema da condicionalidade: consiste em determinar se o
facto é condição sine qua non do dano.
2º problema: problema da causalidade: determinar se tal condição sine qua
non, pela sua natureza geral, é ou não apropriada à produção de dano.

A teoria da causalidade adequada foi objecto de duas formulações:


 positiva: diz que uma condição sine qua non só deve ser ida
como causa de um dano se, segundo a sua natureza geral,
favorece ou aumenta o risco de produção desse dano.
 negativa: tem como ponto de partida a teoria da condição sine
qua non: diz que, em princípio, toda a condição sine qua non
de um dano deve ser tida como sua causa: exceptuam-se os
casos onde a condição, pela sua natureza geral, é de tudo
indiferente para o surgir de um tal dano e só se tornou uma
condição sine qua non dele em resultado de circunstâncias
extraordinárias, sendo, portanto, inadequada para o dano em
questão.

A formulação que rege é a positiva porque define a adequação através da ideia


de favorecimento: diz o que é causa adequada de um dano. A formulação negativa diz o
que não é causa adequada de um dano através da ideia de indiferença.

Diferenças entre estas duas formulações

A formulação negativa é mais ampla por abranger os casos onde o facto não
favorece os riscos de produção do dano, mas os modifica.
As duas formulações conduzem a critérios diferentes de distribuição do ónus da
prova: a positiva coloca a cargo do lesado o ónus da prova da condicionalidade e da
causalidade: deve demonstrar que o facto é condição sine qua non do dano e que o
facto aumenta a causalidade do dano.
A formulação negativa conduz a critério diferente: coloca a cargo do lesado o
ónus da prova da condicionalidade: o lesado deve demonstrar que o facto é condição
sine qua non do dano; o lesante deve demonstrar que o facto, segundo a sua natureza
geral, era de todo indiferente para a produção de um dano: demonstrar que não há
nexo de causalidade.

Colocam-se duas questões:


1. entre a teoria da condição sine qua non e a teoria da causalidade adequada
qual deve preferir-se?
O Art.º 563º CC consagra a teoria da causalidade adequada: invocam-se dois
argumentos:
 argumento gramatical: o artigo usa o advérbio
“provavelmente”: a teoria da causalidade adequada joga com

97
Direito das Obrigações

um juízo de probabilidade: aprecia se uma condição é ou não


apropriada, segundo a sua natureza geral, para produzir um
dano. O critério da probabilidade coincide com a teoria da
causalidade adequada.
 argumento histórico: a fórmula do 563º foi extraída da tese do
Pr. Pereira Coelho.

2. a teoria da causalidade adequada tem duas formulações: por qual das duas
devemos optar?
O Art.º 563º não diz nada a este respeito.
O aplicador de direito tem liberdade de optar pela solução mais correcta:
acredita-se que na responsabilidade por factos ilícitos, deve preferir-se a formulação
negativa da teoria da causalidade adequada. No domínio da responsabilidade pelo risco
(independente da ilicitude e culpa) deve preferir-se a formulação positiva.

Estando em causa a teoria da causalidade adequada, o aplicador de direito deve


resolver o problema da causalidade por duas questões:
 a primeira questão que coloca ao aplicador de direito é saber se o facto é
ou não uma condição do dano.
 a segunda questão que o aplicador de direito deve formular é a questão da
causalidade: questionar se o facto, segundo a sua natureza geral, é ou não
apropriado para produzir o dano.
O juiz deve ter em conta todas as circunstâncias conhecidas pelo agente e toas as
circunstâncias cognoscíveis por um observador experimentado.
Os autores referem um juízo de prognose posterior objectivo: o juiz deve
colocar-se intelectualmente no momento da produção do facto.
Caso esteja em jogo a aplicação positiva da teoria da causalidade adequada, o
juiz deve questionar-se se o facto era ou não, segundo a sua natureza geral, apto a
favorecer ou aumentar o risco de produção desse dano.
Caso esteja em jogo a aplicação negativa da teoria da causalidade adequada, o
juiz deve questionar-se se o facto era ou não, segundo a sua natureza geral, indiferente
para o surgir de tal dano.

Diferenças entre responsabilidade contratual e


responsabilidade extracontratual

Em ambos, o dever de indemnizar pressupõe um dano e nexo de causalidade.

1ª diferença: problema da ressarcibilidade dos danos patrimoniais primários.


Danos patrimoniais primários são os que não pressupõem a prévia violação de
um direito de outrém.
Na responsabilidade extracontratual: não são ressarcíveis: Art.º 483º.
Na responsabilidade contratual: são ressarcíveis: Art.º 708º.

2ª diferença: regras relativas à capacidade ou imputabilidade.


Na responsabilidade contratual: Art.º 123º e ss.
Esta responsabilidade decorre, em regra, da conclusão de um negócio jurídico.
Para sua celebração, exige-se capacidade negocial (ter mais de 18 anos, não ser

98
Direito das Obrigações

incapacitado nem inabilitado). A pessoa só pode celebrar negócio jurídico caso tenha
capacidade negocial nos termos dos Art.º 123º e ss.
Na responsabilidade extracontratual: Art.º 488º
Para uma pessoa se vincular através da produção de um facto ilícito basta ter
capacidade de entender e querer: excepto quando menor de 7 anos.

3ª diferença: culpa e ónus da prova.


Responsabilidade extracontratual: Art.º 487º n.º 1: o ónus da prova da culpa do
lesante cabe ao lesado: deve alegar e provar que o lesante actuou com culpa: prova da
existência de culpa do lesante.
Responsabilidade contratual: Art.º 799º n.º 1: aqui, cabe ao devedor lesante
alegar e provar que a falta do incumprimento não procede de culpa sua: prova da
inexistência de culpa sua.

4ª diferença: pluralidade de responsáveis.


Responsabilidade contratual: Art.º 513º: a regra é a da parciariedade: os
diferentes responsáveis respondem pela sua parte na dívida.
Responsabilidade extracontratual: Art.º 497º, 499º e 507º: a regra é da
solidariedade.

5ª diferença: Art.º 494º: limitação da indemnização nos casos de mera culpa.


Deve aplicar-se o 494º exclusivamente à responsabilidade extracontratual: o
tribunal pode fixa r uma indemnização inferior aos danos nos casos de responsabilidade
extracontratual. Na responsabilidade contratual não pode fazê-lo.

6ª diferença: responsabilidade pelos actos de auxiliares,


Responsabilidade extracontratual: Art.º 500º: exige-se uma relação de comissão
(relação de dependência ou subordinação jurídica por força da qual o comitente tem
faculdade de dar ordens ao comissário).
Responsabilidade contratual: Art.º 800º: não se exige uma relação de comissão:
é por isso mais amplo: caso em que o devedor usa os serviços de um auxiliar autónomo
para realizar as suas tarefas.

7ª diferença: Art.º 805º n.º 3 + 806º n.º 1 2 e 3


Art.º 805º n.º 3: aplica-se exclusivamente à responsabilidade extracontratual.
Art.º 806º n.º 1 2 e 3: só se aplica à responsabilidade extracontratual.

8ª diferença: casos de prescrição.


Responsabilidade contratual: Art.º 309º: 20 anos.
Responsabilidade extracontratual: Art.º 498º: 3 anos.

Havendo todas estas diferenças, questiona-se como se resolvem os casos onde há


concurso entre as duas responsabilidades?
Existem duas teses fundamentais:
 Teoria do Não Cúmulo: concebe o concurso de responsabilidades
como um concurso consumptivo: as regras da responsabilidade
contratual consumiriam as regras da responsabilidade extracontratual
 Teoria do Cúmulo: diz que devem aplicar-se simultaneamente as
regras das duas responsabilidades: aqui há 3 possibilidades:

99
Direito das Obrigações

 sistema da situação híbrida: conceder ao lesado a faculdade


de invocar na mesma acção as regras das duas
responsabilidades.
 sistema da opção: o lesado pode optar pela aplicação das
regras de responsabilidade extracontratual ou da
responsabilidade contratual: ou um ou outro regime.
 sistema da acção dupla (ou da duplicação de acções): o
lesado teria de propor duas acções: uma fundada na
responsabilidade contratual e outra fundada na
responsabilidade extracontratual.

Qual destas é a mais adequada para o problema de conciurso de


responsabilidades?

07.12.2005
(Prática)

Caso n.º 10: cumprimento e não cumprimento; princípio da boa fé; mora do
credor

Mora do credor: 816º

813º: mora do credor consiste no não cumprimento da obrigação no momento


próprio porque o credor, sem motivo justificado, recusa a prestação que lhe é
regularmente oferecida, ou não pratica os actos de cooperação ao cumprimento.

Mora do credor: 2 requisitos:


 recusa da prestação que lhe é regularmente oferecida ou não
pratique os actos de cooperação necessários ao cumprimento
 necessário que haja motivo justificado

Ao recusar a prestação, C tem motivo justificado: a hora tardia: não estão


preenchidos os dois requisitos.
D não tem direito à indemnização que pede: a pretensão de D fundar-se-ia no
Art.º 816º: só se fundaria se estivesse em causa mora do credor: que não é o nosso caso.

C pede uma indemnização: pode fundar-se no Art.º 804º n.º 2: mora do devedor.
Foi estipulado prazo para o cumprimento, a prestação ainda é possível, mas não
foi cumprida no prazo estabelecido.
Estamos em caso de responsabilidade contratual e o direito à indemnização
depende do preenchimento dos pressupostos. Se C alegar e provar a existência de danos
em virtude do atraso, tem direito à indemnização por danos moratórios: 804º n.º 1 e 2 +
798º e ss.

805º n.º 2 a): temos uma obrigação com prazo certo: para saber a partir de que
momento está constituído em mora.

100
Direito das Obrigações

Caso n.º 18: cumprimento e não cumprimento; mora do credor; conversão da


mora em não cumprimento definitivo imputável ao credor; mora do credor

a)
Credor pode resolver o contrato nas situações de não cumprimento definitivo
imputável ao devedor: 801º n.º 2.
No dia 16/01, estamos em mora do credor: temos um não cumprimento
imputável ao credor: não é um não cumprimento definitivo.
Requisitos do Art.º 813º devem estar preenchidos para haver mora do credor.
Nosso caso, o credor não realizou os actos de cooperação necessários ao
cumprimento sem motivo justificado: C estava embriagado.

Efeitos da mora do credor:


 atenuação da responsabilidade do devedor: 814º
 responsabilidade do credor pelas maiores despesas: 816º
 815º: inversão do risco

A (devedor) poderia ter resolvido o contrato no dia 16?


A mora do credor não extingue a obrigação do devedor.
A doutrina refere a hipótese de transformar a mora do credor em não
cumprimento definitivo imputável ao credor.
808º: quanto à mora do devedor, existe essa possibilidade de transformação.

Cunha de Sá e Meneses Cordeiro entendem que se poderia aplicar


analogicamente o 808º no âmbito da mora do credor: o devedor teria a faculdade de
fixar um prazo para que o credor aceite a prestação ou pratique os actos de cooperação
necessário ao cumprimento.
Calvão da Silva entende que não se pode aplicar analogicamente o 808º aos
casos de mora do credor: não há uma situação de analogia porque, enquanto na mora do
devedor este não tem o direito ao cumprimento, na mora do credor o devedor não tem o
direito a cumprir.
Calvão da Silva defende, sim, a aplicação analógica do Art.º 777º: haverá
fixação judicial de prazo.

Nosso caso: não temos prazo fixado nem pelo devedor, nem pelo tribunal. A
mora do credor não se converteu em não cumprimento definitivo imputável ao credor.
Se houvesse fixação do prazo e conversão da mora em não cumprimento
definitivo, extinguir-se-ia a obrigação do devedor (790º n.º 1) e o credor não ficaria
desobrigado (795º n.º 2).

Nosso caso, A continua obrigado a efectuar a prestação (= entregar a égua).

b)
Quanto ao direito à cria: B torna-se proprietário da égua no dia 10/01/98: Art.º
408º.
A cria é um fruto natural da égua: 1305º CC: B é proprietário da cria, assim
como é da égua.

101
Direito das Obrigações

B considera ter direito à cria: concluímos que tem razão. B reclama uma
indemnização: até dia 20 tínhamos uma situação de mora do credor; quando morre a
égua, tem impossibilidade definitiva do cumprimento. A indemnização que B reclama
fundamenta-se numa situação de não cumprimento definitiva imputável ao devedor, que
confere o direito à indemnização: 801º n.º 1.
Os requisitos da responsabilidade contratual estão preenchidos: nos termos do
Art.º 799º presume-se a culpa.

Podemos concluir que B teria direito à indemnização se não estivéssemos


perante uma situação onde houve mora do credor: Art.º 814º: havendo mora do credor,
há uma atenuação da responsabilidade do devedor.
Para que o credor tivesse direito à indemnização, era necessário que a perda da
coisa tivesse ocorrido por dolo do devedor: nosso caso, ocorreu por negligência.

A pretende que B pague o preço estipulado.

14.12.2005
(Teórica)

i. Sistema do Cúmulo
ii. Sistema do Não Cúmulo
1. sistema da acção híbrida
2. sistema da opção
3. sistema da duplicação de acções

1º PROBLEMA: Qual se deve preferir?

O sistema do não cúmulo é defendido pelo Pr. Almeida Costa: invoca para tal
dois argumentos:
 relacionado com o princípio da autonomia privada: o direito
das obrigações é dominado por este princípio. O regime da
responsabilidade contratual está mais próximo desta ideia de
autonomia privada e o regime da responsabilidade
extracontratual está mais distantes. O aplicador de direito
deveria preferir o regime da responsabilidade contratual.
 considera o regime da responsabilidade contratual adequado à
resolução de todos os problemas de responsabilidade da
ligação existente entre o lesado e o lesante. Os deveres da
correcção destinam-se a garantir a pessoa, património da
contraparte: por isso, o regime da responsabilidade contratual
protege de forma eficaz o lesado.

O cúmulo constitui a solução natural em caso de concurso de normas. Cabe ao


lesado decidir qual a solução mais adequada.

102
Direito das Obrigações

O regime da responsabilidade contratual proporciona uma determinada


protecção aos interesses do lesado: as regras da responsabilidade extracontratual
asseguram a integridade e propriedade da pessoa.
Quando celebra um contrato, a pessoa quer uma protecção mais ampla dos seus
interesses. A única solução para isto é o sistema do cúmulo: garante ao lesado a
protecção geral das regras da responsabilidade extracontratual e a protecção especial
adicional das regras da responsabilidade contratual.
Face a estes dois argumentos, deve preferir-se o sistema do não cúmulo.

2º PROBLEMA: determinar qual das vertentes do sistema do cúmulo deve


optar-se.

O sistema da duplicação de acções deve rejeitar-se: os casos de concurso da


responsabilidade caracterizam-se pela existência de um único dano decorrente de um
único facto. Se há um único facto, não há razões para conceder ao lesado duas acções.

O problema é optar entre o sistema da acção híbrida ou o sistema da opção: deve


preferir-se o sistema da acção híbrida: o lesado deve dispor da faculdade de combinar as
regras aplicáveis ao caso: optar por uma ou outra das soluções.

Os autores apontam duas limitações a isto:


1. nos casos onde a lei exige uma culpa qualificada como
pressuposto da responsabilidade contratual: pex, o Art.º
95º n.º 1, 1134º e 1151º
A função dessas regras é excluir a responsabilidade fundada na culpa
qualificada, pelo que o agente só responderia pelo dolo ou culpa grave.
O argumento é frágil: não é adequado restringir a responsabilidade
extracontratual aos casos de culpa grave e dolo.
As regras relativas à responsabilidade contratual não se estendem ou não se
devem estender à responsabilidade extracontratual.
2. nos casos onde houve cláusulas de exclusão ou limitação
da responsabilidade: esta exclusão ou limitação abrangeria
as duas responsabilidades.
Não é uma interpretação correcta, pois os interesses em causa são diferentes.

Em ambos os casos, há um problema de interpretação dos contratos ou da lei que


não se deve resolver em termos gerais.

EFEITOS DA RESPONSABILIDADE CIVIL

Reconduzem-se à obrigação de indemnizar: Art.º 562º: quem deve reparar o


dano deve aproximar-se tanto quanto possível da situação em haveria se não tivesse
ocorrido o facto.
O Art.º 562º não diz que se deve reconstituir a situação que havia antes: diz que
deve reconstruir-se a situação que existiria se não tivesse ocorrido o dano.
A obrigação de indemnizar tem por função restituir a situação que existiria hoje
se não tivesse ocorrido o facto ou evento que obriga à reparação: não é uma
reconstituição do facto passado, mas sim uma situação hipotética actual.

103
Direito das Obrigações

Art.º 562º: princípio geral.

Deve distinguir-se algumas formas de reconstituição:

I. Art.º 562º e 566º:


Reconstituição natural: criar a situação que realmente existiria se não se tivesse
verificado o facto.
Reconstituição em dinheiro: dar ao lesado a quantia em dinheiro relativa a essa
situação.

Art.º 562º: princípio da prioridade da reconstituição natural. Este princípio é


consagrado de forma mais clara no Art.º 566º: a indemnização em dinheiro só é
admitida:
 quando a reconstituição natural é impossível
 quando a reconstituição natural não repara integralmente os
danos
 quando a reconstituição natural seja excessivamente onerosa
A reconstituição natural é excessivamente onerosa quando há uma manifesta
desproporção entre os interesse do lesado que a indemnização visa satisfazer e o custo
que essa indemnização tem para o lesante.

II. Art.º 565º


Indemnização definitiva
Indemnização provisória: relacionada com o problema dos danos futuros (Art.º
564º n.º 2).

Art.º 569º: o lesado não deve indicar o quantitativo dos danos.

III. Art.º 567º


Indemnização sob forma de renda

O problema do cálculo da indemnização em dinheiro está no Art.º 566º n.º 2:


consagra a Teoria da Diferença: a indemnização em dinheiro deve corresponder à
diferença para menos entre a situação patrimonial real actual e a situação patrimonial
hipotética actual do lesado.
SPRA – SPHA
O juiz deve questionar-se sobre qual é a situação patrimonial real actual. Quando
questiona qual seria a situação actual, questiona a situação patrimonial hipotética actual.
Esta Teoria da Diferença admite excepções:
o decorre do Art.º 494º: concede ao juiz a faculdade de fixar uma
indemnização inferior a esta diferença.
o decorre dos casos de culpa do lesado: Art.º 570º e 571º: concede ao
juiz a faculdade de limitar ou eliminar a indemnização caso haja
culpa do lesado
o cláusulas de limitação ou exclusão da responsabilidade (Art.º 809º) e
cláusulas penais (Art.º 810º e ss).
Nestes casos, a indemnização corresponde àquilo que foi fixado pelas partes.

104
Direito das Obrigações

Há ou não há desvio à Teoria da Diferença quando há causa virtual na


responsabilidade civil?
Um facto provocou um dano, mas esse dano também teria ocorrido se o facto
não se tivesse produzido. Como resolver estes casos? Que relevância deve ter a causa
virtual na responsabilidade civil?
Dois aspectos:
 relevância positiva da causa virtual: o autor da causa virtual
deverá ser obrigado a indemnizar os danos que não causou,
mas apenas teria causado se não tivesse intervindo outro
facto?
A causa virtual não tem relevância positiva: Art.º 483º e 798º: não é fundamento
da obrigação de indemnizar. Estes artigos exigem que o facto ilícito seja causa real.
 relevância negativa da causa virtual: tem ou não um efeito de
afastar ou excluir o dever de indemnizar? O autor da causa
virtual pode afastar ou excluir o dever de indemnização com
base na causa virtual?
O problema da relevância negativa da causa virtual coloca-se sob dois pontos:
a. no plano da causalidade: a causa virtual não tem relevância
negativa: a causa virtual não tira que a causa real do dano
seja outra: a causa virtual é indiferente à produção do dano.
b. no plano da determinação do dano indemnizável: a Teoria da
Diferença exigiria logicamente a relevância negativa da
causa virtual: essa teoria diz que a indemnização em
dinheiro é a diferença entre a SPRA e SPHA.
Face à Teoria da Diferença, a causa virtual parece ter um efeito de afastar ou
excluir o dever de indemnização. Deve levar-se a Teoria da Diferença até às últimas
consequências e admitir a relevância negativa da causa virtual ou não se deve?
O Dr. Pereira Coelho concluiu que a causa virtual não tem e não deve ter
relevância negativa: dois argumentos:
 função preventiva, repressiva e sancionatória da
responsabilidade civil. A responsabilidade civil tem a função
indemnizatória e uma função preventiva.
Quando há uma causa virtual, a responsabilidade civil não cumpre uma função
indemnizatória: havendo causa virtual, não há um dano no sentido da Teoria da
Diferença, um dano patrimonialmente indemnizável.
Quando há causa virtual, há sim uma função preventiva, repressiva ou
sancionatória: castigar por ter cometido um facto ilícito.
 o CC dá relevância negativa às causas virtuais em 4 artigos:
 Art.º 491º: a causa virtual afasta o dever de indemnização
 Art.º 492º n.º 1: consagra a relevância negativa da causa
virtual
 Art.º 493º
 Art.º 807º n.º 2
As disposições legais em causa são excepcionais: assim, deve retirar-se delas um
argumento a contrario sensu, no sentido da irrelevância negativa das causas virtuais
(isto é regra).

Há consenso para não atribuir relevância negativa à causa virtual.

105
Direito das Obrigações

O Dr. Pereira Coelho relaciona a regra da irrelevância negativa da causa virtual


com a função preventiva, repressiva e sancionatória: não há relevância negativa da
causa virtual porque há essa função.
O Dr. Coelho reconduz isto para a responsabilidade pelo risco, dizendo que não
se justifica atribuir uma função preventiva ou sancionatória à responsabilidade civil. Na
responsabilidade pelo risco, há relevância negativa da causa virtual (a responsabilidade
é independente da culpa e não faz sentido punir).
Antunes Varela contradiz esta tese: é uma aplicação analógica dos quatro artigos
(anteriormente referidos) à responsabilidade pelo risco: como são artigos excepcionais,
não podem ser aplicados por analogia.

Em regra, a causa virtual é irrelevante, mas o juiz pode atender à existência de


uma causa virtual para reduzir o dever de indemnização nos termos do Art.º 494º.
Para tal suceder, o juiz deve trer em conta diferentes elementos: existência de
uma causa virtual: não afasta ou exclui automaticamente o dever de indemnizar, mas
pode contribuir para que seja reduzida.

14.12.2005
(Prática)

Caso n.º 21: cláusulas penais

a)
Cláusula penal em sentido amplo é a estipulação em que qualquer das partes ou
apenas uma delas se obriga antecipadamente perante a outra a efectuar uma determinada
prestação (normalmente, em dinheiro) para o caso de não cumprimento ou não
cumprimento perfeito de uma obrigação.

Espécies:
 cláusulas penais compulsórias: visam compelir o devedor ao
cumprimento e/ou sancionar o não cumprimento.
 cláusulas penais indemnizatórias: as partes pretendem fixar
a indemnização no caso de não cumprimento: visam liquidar
de modo invariável a indemnização em caso de não
cumprimento

3 tipos de cláusulas penais:


 cláusulas penais de fixação prévia da indemnização
 cláusulas penais exclusivamente compulsivo-sancionatórias
 cláusulas penais em sentido estrito

Nosso caso: partes estipularam 5000€: cláusula penal de fixação prévia da


indemnização: visam liquidar de modo invariável a indemnização futura.

Como os danos foram inferiores, B recusa-se a pagar mais que esses danos
verificados: esta pretensão de B pode fundar-se no 811º n.º 3 ou no 812º.

106
Direito das Obrigações

Antunes Varela considera que o 811º n.º 3 aplica-se a todas as espécies de


cláusulas penais. Contudo, não é esse o entendimento seguido: o Art.º 811º n.º 3 aplica-
se apenas às cláusulas penais de fixação prévia da indemnização.
Dr. Calvão Teles e Pinto Monteiro entendem que o Art.º 811º n.º 3 só se aplica às
cláusulas penais de fixação prévia da indemnização e desde que haja convenção sobre o
dano excedente: o valor do dano que exceder o montante das cláusula penal.

Nosso caso: não estão preenchidos os requisitos para aplicação do Art.º 811º n.º
3: deve pagar o valor da cláusula penal.

Se invocar o 812º: a diferença entre o valor dos danos e p valor da cláusula penal
não é significativo: não se aplica o 812º.

B terá de pagar o valor da cláusula penal (5000€) apesar dos danos serem
inferiores (4000€).

Se fosse uma cláusula limitativa do montante da indemnização, B só pagaria


4000€ pois estas cláusulas estabelecem o limite até ao qual haverá indemnização.

Art.º 566º: Teoria da Diferença: é a regra: a cláusula limitativa do montante da


indemnização e as cláusulas penais de fixação prévia da indemnização são uma
excepção a esta teoria.

b)
O credor não tem de provar os danos, mas tal facto não faz com que o devedor
não possa provar que não houve danos: se o devedor provar que não houve danos, o
credor não pode exigir indemnização.
Tal facto apenas ocorre nas cláusulas penais de fixação prévia da indemnização:
o dano é pressuposto da exigibilidade da indemnização.
Nas cláusulas penais em sentido estrito, a pena substitui a indemnização: netas
cláusulas penais, o credor pode optar pela pena ou pela indemnização.

Danos de 7500€?
(montante dos danos superior ao montante da pena)

811º n.º 2: havendo cláusula penal de fixação prévia, o credor não pode exigir
indemnização pelo dano excedente, excepto se houver convenção sobre o dano
excedente. Se houvesse convenção, o credor poderia optar pelos 7500 € (indemnização)
ou pela pena (5000 €). Como não há convenção, só pode exigir a pena.

c)
Temos uma cláusula exclusivamente compulsivo-sancionatória (onde o credor
pode exigir a pena e a indemnização).

a): o credor poe exigir a pena + indemnização = 9000 €


b): pode exigir a pena de 5000 € + 7500 € (= valor dos danos) = 12500 €

Caso n.º 22: cláusulas penais

107
Direito das Obrigações

a)
Cláusula penal em sentido estrito: visa compelir o devedor ao cumprimento ao
mesmo tempo que satisfaz os interesses do credor. A pena substitui a indemnização: o
credor pode optar pela pena ou pela indemnização.

812º: excessibilidade manifesta


este artigo só se aplica a cláusulas penais de fixação prévia da indemnização:
estando perante uma cláusula penal em sentido estrito, a RTP não se poderia fundar
neste artigo.
No nosso entendimento, o 812º aplica-se a todas as cláusulas penais porque
contém um princípio geral de direito baseado na boa fé: visa corrigir os abusos
decorrentes do exercício da liberdade contratual ao nível da fixação das consequências
do não cumprimento do contrato.

b)
...

Caso do exame de Setembro de 2004:

Em Janeiro de 2003, A e B celebraram um contrato de empreitada pelo qual A se


comprometia a ampliar as instalações do hotel de B até ao fim de Março de 2004,
mediante o pagamento de 250000 €.
O contrato determinava que A pagasse 15000 € por cada mês de atraso na
conclusão da obra, quantia essa que correspondia aos danos previsíveis.
Não obstante a cláusula, os trabalhos terminaram no final de Agosto de 2004.
Tendo recebido uma proposta para construir um conjunto de habitações por uma quantia
mais elevada, A decidiu aceitá-la e deslocou os seus trabalhadores para essa segunda
obra, deixando atrasar a primeira.
B alega e prova que os danos decorrentes do atraso de 5 meses forma de
30000€/mês, no total de 150000 €, recusando-se a pagar a A mais de 100000€. Quis
iuris?

CP = definição
Temos uma cláusula penal indemnizatória: de fixação prévia da indemnização
(visa liquidar de modo invariável o dano futuro).
O credor não deve alegar nem provar os danos.

811º n.º 2: no caso, não há convenção, podendo concluir do artigo que o credor
só pode exigir 15000 €/mês e não os 30000€.
Só se limita ou exclui indemnização nos casos de culpa leve. Tendo em conta
isto, o 811º n.º 2 deve ser interpretado restritivamente porque a não reparação do
dano excedente confere às cláusulas penais indemnizatórias uma função de limitação da
responsabilidade do devedor: o devedor não vai responder pelo dano excedente.
Podemos aplicar no âmbito das cláusulas penais indemnizatórias o raciocínio
que se aplica às cláusulas penais de limitação ou exclusão da responsabilidade civil.
Almeida Costa diz que se deve aplicar às cláusulas penais os requisitos das
cláusulas de limitação ou exclusão da responsabilidade civil: o credor não pode exigir a
reparação do dano excedente se o devedor tiver actuado com culpa leve.

108
Direito das Obrigações

Estamos a falar de cláusulas penais e cláusulas de limitação da responsabilidade


porque, no 811º n.º 2, ao não dar ao credor a possibilidade de indemnização pelo dano
excedente é como se estivesse a limitar a responsabilidade do devedor.

Tipo de culpa do devedor: no cumprimento do contrato: nosso caso, houve


dolo: assim, o credor terá direito à indemnização de todos os danos resultantes do
atraso: 150000€.

109
Direito das Obrigações

2º SEMESTRE

01.03.2006
(Teórica)

OBJECTO

Distinção entre:

* Obrigações divisíveis e Obrigações indivisíveis


É divisível a obrigação cuja prestação é susceptível de ser fraccionada sem
prejuízo do seu valor proporcional.
É indivisível a obrigação cuja prestação não pode ser fraccionada seja por sua
própria natureza, determinação da lei ou compunção das partes: natural, legal ou
convencional.

Coloca-se o problema da indivisibilidade natural: em que circunstâncias se pode


dizer que uma prestação é naturalmente indivisível?
Devem conjugar-se duas condições para ser naturalmente indivisível:
1. ela não pode ser fraccionada ou repartida em prestações qualitativamente
homogéneas entre si e em relação ao todo.
2. o valor de cada uma das prestações parciais seja proporcional ao valor do
todo.
Uma prestação é naturalmente indivisível quando não pode ser fraccionada sem
prejuízo da sua substância ou valor.
O critério económico é o critério que nos pode dizer se uma prestação é ou não
indivisível. Pex: obrigação de entrega de um carro é indivisível.

Regime das obrigações divisíveis e indivisíveis

O problema é coordenar a indivisibilidade da obrigação com os princípios das


obrigações plurais. O princípio regra é o da parciariedade nas obrigações plurais. O
problema é que esse princípio não pode aplicar-se sem mais às obrigações indivisíveis.
Pex: a obrigação de entrega de um automóvel onde há 3 credores.
O problema está em coordenar o princípio da parciariedade com a
indivisibilidade da obrigação.

Pluralidade passiva (de devedores)


Art.º 535º a 537º CC

O credor pode exigir de cada um dos devedores uma quota-parte da prestação


total. Se o regime é o da parciariedade já é diferente: as alternativas são duas:

110
Direito das Obrigações

 ou se impõe ao credor o ónus de exigir a prestação de todos os


devedores em simultâneo
 ou se concede ao credor a faculdade de exigir a prestação por
inteiro a cada um dos devedores (aproxima-se aqui a parciariedade
da solidariedade).

O 535º CC consagra a primeira solução: havendo pluralidade passiva e estando


em causa o regime regra da parciariedade, o credor deve exigir a todos os devedores a
prestação integral.

536º CC: quando a obrigação se extingue em relação a alguns devedores.


865º n.º 1 confirma esta regra.
870º n.º 1 para os casos de confusão.

O credor tem direito de exigir a prestação dos devedores que ainda estão
obrigados, devendo os devedores em relação aos quais se extingue a obrigação
compensar os devedores que continuaram obrigados.

C (9000€) D1: mais 1500€


D2: mais 1500€
D3: X

537º CC: quando um dos devedores provoca a impossibilidade da prestação: os


outros devedores ficam exonerados.

Pluralidade activa (de credores)

Cada um dos credores não pode exigir uma parte da prestação. Se o regime regra
é o da parciariedade, cada um dos credores não pode exigir apenas uma parte da
prestação integral.
Há 3 soluções:
1. atribuir a cada um dos credores a faculdade de exigir a prestação por
inteiro
2. atribuir a cada um dos credores a faculdade de exigir a prestação por
inteiro para que o devedor a entregue a todos eles (aqui, o devedor só se
livra da obrigação fazendo-a a todos os credores em conjunto)
3. exigir aos credores o ónus de em conjunto reclamarem a prestação
integral
O CC opta pela 2ª solução: Art.º 538º CC: o devedor só se livra da obrigação
fazendo-a a todos os credores em conjunto.

* Obrigações específicas e Obrigações genéricas


A obrigação é específica quando o seu objecto está individual ou concretamente
fixado. Pex: obrigação de entrega de um carro.
A obrigação é genérica quando o seu objecto está somente determinado pelo seu
género e pela sua quantidade. Pex: obrigação de entrega de 20 litros de gasolina.

111
Direito das Obrigações

O CC contempla as obrigações genéricas no 539º e ss CC: o 539º fala em


objecto de obrigações determinado apenas quanto ao género (não refere a quantidade).
Se confrontarmos o 539º com o 207º CC, em regra, as obrigações genéricas têm
por objecto uma coisa fungível. O 207º completa o 539º.
O problema das obrigações genéricas é fundamentalmente este.

408º CC: diz que a constituição de direitos reais sobre coisa determinada dá-se
por mero efeito do contrato. O problema é saber quando se transfere a propriedade da
coisa e do risco: geralmente, transferem-se em simultâneo.
Em regra, a transferência da propriedade e do risco ocorre no momento da
concentração da obrigação: que é o acto pelo qual a obrigação genérica passa a ser
específica.

Quando se dá essa concentração?


Quanto a este problema há 3 conclusões:
1. Teoria da Escolha: a obrigação genérica concentra-se no momento em
que é escolhido: no momento em que a pessoa que pode cumprir a
obrigação a escolhe para cumprir a obrigação.
2. Teoria do Envio: a obrigação concentra-se quando a coisa sai do
domicílio do devedor.
3. Teoria da Entrega: diz que a obrigação genérica se concentra no
momento em que a coisa escolhida for entregue ao credor: no momento
do cumprimento.

Qual destas teorias deve adoptar-se?


Deve-se distinguir os casos em que a escolha cabe ao devedor ou os casos em
que cabe ao credor ou terceiros.

Casos em que a escolha cabe ao devedor: 539º CC: o CC consagra a Teoria da


Entrega: em regra, a escolha cabe ao devedor. Nestes casos, em princípio, a obrigação
só se concentra com o cumprimento. O fundamento legal está no 540º CC: enquanto a
prestação for possível, o devedor não fica exonerado pelo facto de perecerem as coisas
com que ia cumprir a obrigação. Isto afasta as teorias da escolha e do envio (teorias que
transferem a propriedade e o risco para o credor no momento da escolha e do envio).
A regra é esta.
A regra do 539º CC admite excepções: 541º CC: admite 4 excepções onde a
obrigação se concentra antes do cumprimento:
a) Acordo das partes: não envolve propriamente um desvio em relação à
teoria da entrega: é mais uma alteração do que contrato originariamente
celebrado.
b) Extinção parcial do género: a obrigação concentra-se quando o género
se extinguir a ponto de restar apenas uma coisa nele compreendido. Para
haver concentração da obrigação por extinção parcial do género, não é
absolutamente necessário que o género se extinga a ponto de restar
apenas uma das coisas nele compreendido: pode ser a ponto de restar
uma quantidade igual ou inferior às da obrigação. Pex: 30 exemplares de
um livro: milionário encomenda 20 livros: há incêndio e só restam 15
livros. A obrigação concentra-se por extinção parcial do género. Nestes
casos, há uma interpretação hábil do 541º CC.

112
Direito das Obrigações

c) Mora do credor: 813º CC: o devedor oferece a coisa ao credor e esta


recusa injustificadamente. A obrigação concentra-se na coisa que foi
oferecida. A aplicação da regra do 541º levaria a resultados pouco
satisfatórios. Logo, em rigor, a obrigação não se concentra, a propriedade
não se transmite: a única consequência da oferta da prestação ter sido
recusada pelo credor é a transferência do risco.
d) Entrega da coisa ao transportador ou expedidor nos termos do Art.º
797º CC: a concentração da obrigação genérica dá-se quando há entrega
da coisa ao expedidor.

Casos em que a escolha cabe ao credor: o CC opta pela Teoria da Escolha, que
se encontra consagrada no 542º CC: quando a escolha é feita pelo credor ela é eficaz
quando chega …: ver Art.º!

* Obrigações cumulativas e Obrigações alternativas


A obrigação é cumulativa quando compreende mais de uma prestação em termos
do devedor só se exonerar mediante a realização conjunta de todos.
A obrigação é alternativa quando compreende duas ou mais prestações em
termos do devedor se exonerar mediante a realização de uma só prestação: 543º n.º 1.

Nas obrigações cumulativas o devedor há-de realizar todas as prestações e nas


alternativas há-de realizar uma só.

O problema que se coloca é determinar quando se transfere a propriedade e o


risco: transferem-se através de um acto de escolha.
A escolha é o acto de selecção ou opressão pelo qual se concretiza a prestação
que há-de ser realizada.
544º CC: o devedor não pode escolher parte de uma prestação ou parte de uma
outra.
A escolha pode ser confiada ao devedor, credor ou terceiro.
543º n.º 2: em regra, a escolha cabe ao devedor.

Se o devedor efectuar a escolha, a obrigação concentra-se na prestação


escolhida. Se não efectuar a escolha, aplica-se o disposto no 548º CC.

Se a escolha couber ao credor ou a terceiro: 549º CC remete para o 542º CC.

Regime específico destas obrigações

Entre o momento da constituição da obrigação e o momento da escolha, uma das


prestações pode ter-se tornado impossível. Como resolver estes casos?
545º e ss CC

02.03.2006

113
Direito das Obrigações

(Teórica)

* Obrigações cumulativas e Obrigações alternativas

545º e ss: quando uma prestação se torna impossível.


A obrigação compreende duas ou mais prestações: uma delas torna-se
impossível por facto não imputável ao devedor ou credor. Pode-se escolher entre as
prestações possíveis.

546º CC: impossibilidade imputável ao devedor. Nestes casos, o 546º


distingue duas situações:
o quando a faculdade de escolha cabe ao devedor, ele terá de
realizar uma das prestações possíveis.
o quando a faculdade de escolha cabe ao credor, este tem 3
alternativas:
 pode exigir uma das prestações possíveis
 pode exigir uma indemnização pela não realização da
prestação
 pode resolver o contrato.

547º CC: impossibilidade imputável ao credor. Duas situações:


 quando a escolha couber ao devedor, ele pode considerar a
obrigação cumprida, ou se optar pela realização das prestações
possíveis, pode exigir indemnização. O devedor não fica
prejudicado.
 quando a escolha cabe ao credor, a obrigação considera-se
cumprida.

Nas obrigações alternativas, surge muitas vezes as noções de:


 Obrigação alternativa
 Obrigação com faculdade alternativa: estas podem ser:
 Obrigações com faculdade alternativa a parte creditoris: a
prestação devida é só uma, mas o credor pode exigir em
lugar dela uma outra
 Obrigações com faculdade alternativa a parte debitoris: a
prestação devida é só uma; o devedor tem faculdade de
realizar em lugar dela uma outra obrigação. Não são muito
frequentes, logo encontram-se com muita facilidade.

As obrigações alternativas são diferentes das obrigações com faculdade


alternativa: nas alternativas, o devedor está adstrito à realização de duas ou mais
prestações; nas com faculdade alternativa, o objecto da relação obrigacional
compreende apenas uma prestação: o credor é que pode exigir outra em vez da
prestação devida ou o devedor pode realizar outra.

Problema nos seguintes casos: impossibilidade em casos de obrigações


alternativas e casos de obrigações com faculdade alternativa: há diferença de regime
com alguma relevância: em relação ao objecto da relação obrigacional.

114
Direito das Obrigações

OBRIGAÇÕES PECUNIÁRIAS

São aquelas que, tendo por objecto uma prestação em dinheiro, visam
proporcionar ao credor o valor que as respectivas espécies monetárias possuem
enquanto tais.
Duas notas acerca das obrigações pecuniárias:
o têm por objecto uma prestação em dinheiro. Dinheiro consiste
nas coisas que servem como meio geral de pagamento das
dívidas.
o visam proporcionar ao credor o valor que possuem enquanto tais.
Este segundo aspecto é importante: pex, o caso do coleccionador de notas e
moedas: neste caso, não há uma obrigação pecuniária.

O CC distingue 3 tipos de obrigações pecuniárias:


1. obrigações de soma ou quantidade: são aquelas onde as partes ou
tribunal indicam somente a soma ou quantia que deve ser paga, sem
indicar o tipo de espécie monetária em que deve pagar.
2. obrigações de moeda específica: aquelas onde se concretiza o tipo de
espécies monetárias em que o cumprimento deve ser realizado.
3. obrigações em moeda estrangeira: ou obrigações valotárias.
Devemos considerar as obrigações de soma ou quantidade.

Há o problema de desvalorização da moeda: problema de saber se o devedor,


para pagar hoje, terá de pagar apenas o valor nominal da obrigação ou o valor
actualizado.
O CC consagra o princípio nominalista no 550º. A regra deste artigo é supletiva:
as partes podem optar pelo regime que consideram mais adequado aos seus interesses.
Não havendo convenção das partes, aplica-se o princípio nominalista.

O princípio nominalista do 550º tem excepções: a do 567º CC: quando há


alteração sensível das circunstâncias, a obrigação de indemnização sobre renda, pex,
pode ser actualizada (o que pode englobar uma indemnização pecuniária).

Obrigações em moeda estrangeira: as partes convencionam um pagamento em


dólar: o problema que se coloca é saber se se pode pagar em euros a mesma quantia. O
558º CC diz que é possível, desde que seja pelo valor do câmbio no dia do
cumprimento.

OBRIGAÇÕES DE JUROS

Juros são os frutos civis constituídos por coisas fungíveis que representam o
rendimento de uma obrigação de capital.
559º
559-A  1146º (usura)

115
Direito das Obrigações

560º: consagra o princípio da proibição do anatocismo (= juros de juros).


Exceptuam-se os casos em que as partes convencionam o contrário.
561º: princípio da autonomia do crédito de juros.

Constituição das Relações Obrigacionais

O CC distingue 5 factos constitutivos: contratos, …

1. Contrato: negócio jurídico plurilateral: duas ou mais declarações de vontade


(proposta ou oferta e aceitação) convergentes, tendentes à produção de efeitos …
Há 3 princípios no âmbito dos contratos:
 princípio da liberdade contratual
 princípio da boa fé
 princípio da força equitativa do contrato

PRINCÍPIO DA LIBERDADE CONTRATUAL: 405º CC: assume duas dimensões:


 liberdade de celebração ou não do contrato: faculdade de os
contraentes e as partes formularem livremente as suas propostas e se
pronunciarem livremente sobre a aceitação ou não aceitação das
propostas formuladas por outrem
 liberdade de fixação do conteúdo: compreende 3 faculdades:
 faculdade de celebração de quaisquer dos contratos
típicos previstos na lei
 faculdade de incluir nos contratos típicos previstos na
lei cláusulas mais convenientes para os interesses dos
contraentes
 faculdade de celebrar contratos atípicos ou inominados
(diferentes dos que estão na lei)

Desvios:

 em relação à liberdade de conclusão ou não do contrato: duas formas:


sob a forma de dever de contratar (pex, seguro automóvel) ou sob a
forma de um dever de não contratar (pex, 567º e 876º/877º).

Problema fundamental: problema da existência ou inexistência do dever de


contratar de quem tem negócios que oferecem bens essenciais.
Em situações de monopólio, há um dever jurídico de contratar: princípio da
igualdade, regras da lei de defesa do consumidor e princípio da proibição do abuso de
direito.

 em relação à fixação do conteúdo do contrato:


 da ordem jurídica: regras do objecto do negócio jurídico:
280º
 de ordem prática: o princípio da liberdade contratual
pressupõe uma sociedade de pessoas livres e iguais. Na vida
corrente, nem sempre é assim: pex, os contratos de cartões
de MB.

116
Direito das Obrigações

Há casos onde não há propriamente uma liberdade de fixação do conteúdo do


contrato por negociação entre as partes. Os contratos de massas não resultam da
negociação. A liberdade de quem adere a estes contratos é tão só a liberdade de os
aceitar ou não: por isso se chamam “contratos de adesão”. São uma limitação da ordem
pública.
Contratos de adesão são aqueles que se concluem através de simples aceitação
ou adesão do seu conteúdo por uma das partes.
A existência de contratos de adesão envolve dois perigos:
 a parte que aceita ou adere não conhece todas as cláusulas
 a parte que formula as cláusulas contratuais pode aproveitar para
formular cláusulas mais favoráveis aos seus interesses do que aos
interesses da contra parte.

DL 446/85 de 25.10: Lei sobre Cláusulas Contratuais Gerais


Directiva 93/13/CEE, de 5.04.1993

Estes textos não são iguais. Há diferenças entre eles.


Quanto à noção de cláusulas contratuais gerais (CCG), o texto inicial do DL
dizia que a lei em causa se aplicava apenas às CCG elaboradas de antemão onde as
pessoas se limitava a assinar/aceitar.
Características das CCG:
 pré-elaboração das cláusulas
 indeterminação dos destinatários
 rigidez: não estão sujeitas a discussão: são de conteúdo inalterável.
Estas características colidem com a noção comunitária. A directiva dizia que o
âmbito de aplicação era diferente:
o aplicação mais restrita: as CCG em contratos celebrados com
consumidores
o a directiva aplica-se a todos os contratos não negociados,
independentemente de se dirigir ou não a pessoas indeterminadas.

Contratos individuais não negociados: falta o requisito da individualização (não


se aplica o DL): a directiva aplica-se por ser um contrato não negociado.
Isto levou o legislador português a intervir: DL 220/95 de 31.08. Este DL
introduziu apenas a alteração: “sem prévia negociação individual”. O problema não
ficou resolvido: continuava a falar-se em destinatários não individualizados.

DL 249/99 de 07.06: terceira intervenção do legislador quanto a este problema:


resolve finalmente este problema.
DL 249/99: Art.º 1º: n.º 1: definição de CCG; n.º 2: o DL 220/95 também se
aplica aos contratos individualizados.

Hoje, a lei das CCG aplica-se às CCG e às cláusulas contratuais individualizadas


desde que não tenham sido negociadas.

O DL 446/85 aplicava-se a todas as CCG e a directiva aplicava-se apenas aos


contratos celebrados com os consumidores. Como o legislador alargou o âmbito de
aplicação do DL 446/85, o seu âmbito é mais amplo que o da directiva: o legislador
português vai mais longe que a directiva.

117
Direito das Obrigações

O elemento fundamental para aplicação do DL 446/85 é a ausência de


negociação.

DL 446/85
Os contratos de adesão colocavam 2 perigos:
 a parte que aceita ou adere não conhece todas as cláusulas
 a parte que formula as cláusulas contratuais pode aproveitar para
formular cláusulas mais favoráveis aos seus interesses do que aos
interesses da contra parte.
O legislador português distingue dois tipos de controlo das CCG:
 de inclusão: as CCG que o destinatário não conhece são excluídas
do contrato singular
 de conteúdo: as CCG abusivas ou excessivas são proibidas e, por
isso, são nulas

08.03.2006
(Teórica)

Contratos não negociados: dois problemas:


o desconhecimento das cláusulas para quem não as elaborou
o abuso por parte de quem elabora as cláusulas

Controlo de inclusão das CCG


O utilizador das CCG tem o dever de comunicar o conteúdo das cláusulas e o
dever de esclarecer as cláusulas contratuais.
Art.º 4º a 8º Lei das CCG
Art.º 5º: consagra um dever de comunicação
Art.º 6º: dever de informação e esclarecimento. O dever de esclarecimento é um
dever de prestar esclarecimentos espontaneamente. O dever de informação é um dever
que deve ser prestado quando é solicitado.
Art.º 8º: a consequência da inobservância do dever de informação e de
esclarecimento é a exclusão da cláusula do contrato.

Problema da coordenação das alíneas a) e d) do Art.º 8 da Lei das CCG: a aliena


a) excluí as cláusulas que não tenham sido comunicadas; a alínea d) exclui as cláusulas
inseridas nos formulários.
A alínea d) deve ser considerada como uma concretização da alínea a).
O utilizador das cláusulas deve comunicar, informar e esclarecer o aderente.

Art.º 5º da Directiva 93/13/CEE de 5 de Abril de 1993.


As cláusulas devem ser redigidas de forma clara e inteligível. A Lei das CCG
não contém nenhuma disposição deste género. Deve entender-se que o legislador
português transpôs mas a directiva?
O legislador português transpôs este Art.º 5º para o Art.º 9º n.º 2 a) da lei de
Defesa do Consumidor (Lei 24/96 de 31 de Julho).

118
Direito das Obrigações

Assim, deve sempre aplicar-se este Art.º 9º n.º 2 a) da Lei 24/96 em


conjugação com a Lei das CCG no seu Art.º 8º.

Quando existir uma cláusula que não respeite o disposto no Art.º 9º n.º 2 a) da
Lei 24/96, ela deve ser excluída do contrato (Art.º 8º a) b) c) d)).

Se as cláusulas são excluídas do contrato, como resolver este problema? Agora o


contrato fica incompleto, com falhas.
Art.º 9º da Lei das CCG: essas falhas devem ser supridas através das regras
supletivas ou regras sobre a integração dos negócios jurídicos. Mas estas regras nem
sempre são suficientes.
Art.º 9º n.º 2: tais critérios não são suficientes quando ocorra uma
indeterminação de aspectos essenciais insupríveis ou quando a aplicação das regras
supletivas conduzisse a um desequilíbrio nas prestações gravemente atentatório da boa
fá. Isto leva à nulidade da cláusula.

Controlo de conteúdo das CCG


Art.º 4º n.º 2 da Directiva 93/13/CEE.
A Lei das CCG não diz que as regras do controlo de conteúdo não se aplicam à
relação entre o preço e os bens.
Haverá uma diferença fundamental entre a lei portuguesa e a directiva?
Embora a lei portuguesa não diga nada a este respeito, deve fazer-se uma
redução teleológica.

A relação entre os preços e os produtos é impossível/impraticável e é


desnecessária. O consumidor toma sempre em conta o preço do bem para decidir se
deve ou não concluir o contrato. As regras de controlo do conteúdo não devem aplicar-
se às cláusulas que definam o preço. Devem aplicar-se às demais cláusulas.

Controlo de conteúdo feito através de:


 cláusulas gerais (proibições gerais)
 proibição específica

PROIBIÇÕES GERAIS

Art.º 15º e 16 Lei das CCG: consagram o princípio da boa fé.

Art.º 16º: duas dimensões do princípio da boa fé:


o princípio da confiança: deve ser protegida a atitude de quem …
o princípio da materialidade da relação jurídica: está em causa a
prioridade da substância

Art.º 16º Lei das CCG: o princípio da confiança e da materialidade da relação


jurídica aplicam-se a todas as relações jurídicas, independentemente de estarem ou não
em causa cláusulas contratuais gerais.

Há o perigo de desequilíbrio entre os direitos e deveres das partes. A Lei das


CCG não fala deste desequilíbrio. A directiva 93/13 fala dele no seu Art.º 3º.

119
Direito das Obrigações

O Art.º 15º da Lei das CCG deve ser interpretado à luz da directiva. Deve ter-se
em conta a existência ou inexistência de desequilíbrios entre os direitos e deveres das
partes.
O Art.º 3º da directiva 93/13 foi transposto para a lei portuguesa para o Art.º 9º
n.º 2 b) da Lei de Defesa do Consumidor.
A directiva 93/13 e a Lei de Defesa do Consumidor concretizam o princípio da
boa fé do Art.º 16º da lei das CCG através do princípio do desequilíbrio.

PROIBIÇÕES ESPECÍFICAS

Cláusulas proibidas nas relações entre empresários ou entidades equiparadas:


Art.º 18º e 19º: protecção mínima do aderente.

Cláusulas proibidas nas relações com consumidores finais: Art.º 18º, 19º, 21º e
22º, 15º e 16º.

Cláusulas absolutamente proibidas e relativamente proibidas: qual a


diferença entre elas?
Nas cláusulas absolutamente proibidas não há conceitos indeterminados. Uma
determinada cláusula é sempre proibida: Art.º 18º e 21º Lei das CCG.
Nas cláusulas relativamente proibidas há conceitos indeterminados. Implica um
juízo de valor do aplicador de direito: Art.º 19º e 22º Lei das CCG
Pex: o 19º a) e b) fala de “excessivos” e o 19º d) fala de “desproporcionados”.
Estes conceitos são indeterminados.

O 19º fala em quadro negocial padronizado: significa que as cláusulas devem ser
apreciadas em si próprias e de acordo com os padrões do comércio/sector.

Qual a consequência da inclusão de uma cláusula proibida num contrato?


Art.º 12º Lei das CCG.

09.03.2006
(Teórica)

Responsabilidade pré-contratual:
a. por ruptura das negociações
b. por celebração de contrato inválido ou ineficaz
c. por celebração de um contrato válido e eficaz em que surgiram
nas negociações danos a indemnizar

RESPONSABILIDADE PRÉ-CONTRATUAL POR RUPTURA DAS NEGOCIAÇÕES

Casos onde não chega a celebrar-se um contrato por ruptura das negociações. O
Supremo Tribunal pronunciou-se sobre isto: Ac. de 1981.

120
Direito das Obrigações

Quais os requisitos para que a responsabilidade pré-contratual por ruptura das


negociações seja considerada ilícita?
As partes podem ou não celebrar um contrato. A responsabilidade pré-contratual
por ruptura das negociações surge só em casos excepcionais onde haja 2 condições:
 existência de uma base de confiança razoável
 a ruptura deve poder ser valorada como ilegítima. Para decidir sobre
isso, o tribunal deve ponderar o motivo que originou a ruptura das
negociações e os interesses da contraparte. Pex: é ilegítima a ruptura
quando tem por única finalidade provocar danos.

RESPONSABILIDADE PRÉ-CONTRATUAL POR CELEBRAÇÃO DE CONTRATO


INVÁLIDO OU INEFICAZ

Nos casos de nulidade por vício de forma, se uma parte for culpada por isso, há
responsabilidade pré-contratual por celebração de contrato inválido ou ineficaz.
O CC contempla um caso de responsabilidade pré-contratual por celebração de
contrato inválido ou ineficaz no caso de venda de bens alheios: 892º (é nula) e 898º
(indemnização).

RESPONSABILIDADE PRÉ-CONTRATUAL POR CELEBRAÇÃO DE CONTRATO VÁLIDO


OU EFICAZ EM QUE SURGIRAM NAS NEGOCIAÇÕES DANOS A INDEMNIZAR

Estes casos relacionam-se com a inobservância de deveres pré-contratuais de


esclarecimento ou informação.

Quanto aos deveres de esclarecimento, há uma grande discussão na doutrina.


O dever contratual de esclarecimento deve estar presente quando se verificam 4
requisitos:
1. essencialidade da informação
2. assimetria informacional: entendida em dois sentidos:
 desnível de informação (este sentido é irrelevante)
 desnível na possibilidade de acesso à informação
Há assimetria informacional quando uma parte pode aceder à informação mais
facilmente que a outra.
3. observância do ónus de auto-informação: ninguém deve dizer aos outros
aquilo que eles têm o dever de saber. A observância do ónus de auto-
informação só surge em casos onde a parte não tem a dever de saber por
si própria.
4. exigibilidade da informação: a parte informada só estará obrigada a
prestar informação se tal lhe for exigido.

Responsabilidade contratual por informação: há, ainda, um aspecto relevante:


casos de indução negligente em erro. Tendo violado deveres de esclarecimento, há
responsabilidade pré-contratual; do ponto de vista da responsabilidade contratual, há
reconstituição natural (pex, desvincular-se do contrato).
Havendo dolo: prazo de 1 ano.
Não havendo dolo: responsabilidade pré-contratual: 3 anos.

121
Direito das Obrigações

Nos casos menos graves, o prazo para desvinculação do contrato seria mais
amplo que nos casos mais graves.
227º n.º 2 CC: deve haver uma redução teleológica da regra deste artigo.

ARTIGO 227º
Consagra a responsabilidade pré-contratual e refere tão só a obrigação de
indemnizar.
Esta obrigação pode calcular-se de duas formas:
1. atendendo ao interesse contratual positivo: danos que o lesado não teria
sofrido se o contrato tivesse sido cumprido.
2. atendendo ao interesse contratual negativo: danos que o lesado não teria
sofrido se o contrato não tivesse sido celebrado.
Determinar se a indemnização deve calcular-se atendendo ao interesse contratual
positivo ou negativo: é um tema controverso. A orientação mais correcta é que a
indemnização deve calcular-se pelo interesse contratual negativo.
Nos casos de responsabilidade pré-contratual por ruptura das negociações, o
dano de confiança corresponde ao interesse contratual negativo.
Quanto à responsabilidade pré-contratual por celebração de contrato invalido ou
ineficaz, não faz sentido impor a obrigação de colocar a outra parte no sentido em que
estaria se o contrato não tivesse sido cumprido.
Nos casos de responsabilidade pré-contratual por celebração de contrato válido
ou eficaz em que surgiram nas negociações danos a indemnizar, é ilógico conciliar o
direito ao cumprimento e o direito à indemnização pelo interesse contratual positivo.

Outro problema: problema da classificação: saber se a responsabilidade pré-


contratual deve integrar-se na responsabilidade contratual, na responsabilidade
extracontratual ou na terceira via de direito da responsabilidade civil.
Isto por causa do 227º n.º 2 CC.
Para quem acha que é uma responsabilidade extracontratual, este artigo confirma
a regra.
Para quem ache que é uma responsabilidade contratual, defende que este artigo é
a excepção.
A solução mais correcta é a que enquadra a responsabilidade pré-contratual na
terceira via de direito da responsabilidade civil: aproxima-se:
 da responsabilidade contratual por estar em causa violação de deveres
de boa fé
 da extracontratual por estar em causa a defesa da integridade da pessoa
ou património de cada um dos contraentes.
O aplicador de direito terá de apreciar quais as regras mais adequadas ao caso.

1ª FONTE DAS OBRIGAÇÕES: CONTRATOS

CLASSIFICAÇÃO DOS CONTRATOS

122
Direito das Obrigações

I. Típicos, atípicos e mistos


Típicos são os contratos que se encontram previstos e regulados na lei.
Atípicos são os contratos que não se encontram previstos nem regulados na lei.
Mistos são os contratos onde se reúnem regras de dois ou mais contratos: 405º CC.
A definição de contratos mistos está no 405º n.º 2.

Casos de contratos mistos: dois exemplos:


 A cede em locação a B uma quinta que envolve prédio rústico e prédio
urbano: quanto ao prédio urbano há um contrato de arrendamento urbano
e quanto ao prédio rústico há um contrato de arrendamento rústico.
 A actua de modo a beneficiar B através de um contrato de compra e
venda: elementos do contrato de compra e venda e do contrato de
doação.

3 problemas dos contratos mistos:


1. distinção entre contratos mistos e os casos de união, junção e coligação
de contratos: nos contratos mistos há um único contrato; nos outros há
dois ou mais contratos relacionados entre si por um certo vínculo:
 junção: o nexo entre os dois ou mais negócios é um nexo
acidental. Pex: vou ao ourives e levo um relógio para arranjar e
aproveito a ocasião para comprar outro.
 união e coligação: o nexo é um nexo funcional (nexo mais forte).
Pex: A quer comprar carro. Vai ao stand de B: para o pagar faz
um crédito com C: há dois contratos: o de compra e venda do
carro e o de crédito: união funcional pois o contrato de crédito é
celebrado para financiar o contrato de compra e venda com B.
2. análise das respectivas modalidades: há 3 formas de contratos mistos:
 contratos combinados: uma das partes fica adstrita a duas ou mais
prestações correspondentes a contratos de tipos diferentes; a outra
parte fica adstrita a uma prestação unitária. Pex: contrato de
arrendamento de casa mobilada o locador arrenda o imóvel e
aluga os móveis que estão na casa: há duas prestações; o locatário
obriga-se a uma prestação unitária: pagar a renda.
 contratos de duplo tipo: uma das partes vincula-se a uma
prestação correspondente a um tipo contratual e a outra parte
vincula-se a outra prestação correspondente a outro tipo
contratual. Pex: um proprietário dá ao porteiro um apartamento
para ele habitar; o porteiro compromete-se a exercer funções de
prestação de serviços.
 contratos mistos em sentido estrito: usa-se um tipo contratual pata
realizar as funções próprias de outro tipo contratual. Pex: casos
de doação mista.
3. problema do regime do contrato em causa: há 3 teorias:
a. Teoria da Absorção: o aplicador de direito deveria individualizar
no contrato misto o elemento dominante e subordinar todo o
contrato misto ao regime jurídico do elemento dominante. O
elemento dominante absorveria os demais.
Duas dificuldades:
 nem sempre há um elemento dominante

123
Direito das Obrigações

 mesmo que haja um elemento dominante, o contrato misto não


deve subordinar-se às regras de um único tipo.
A Teoria da Absorção não conduz a resultados adequados.
b. Teoria da Combinação: o aplicador de direito deveria combinar as
regras relativas aos tipos contratuais.
c. Teoria da Aplicação Analógica: considera que a regulação dos
contratos mistos está omissa na lei. O aplicador de direito deveria
regular o caso integrando a lacuna em causa a recorrer à analogia.

Como resolver o problema do regime dos contratos mistos?


Primeiro, há casos onde o legislador resolve o problema: 1028º CC: está em
causa, no n.º 1, a teoria da combinação.
1028º n.º 3 CC: está em causa a teoria da absorção.

O problema só se coloca realmente quando o legislador não resolve o problema:


deixa-o em aberto: os critérios a usar devem ser:
o se, como sucede nos contratos combinados e de duplo tipo, há
uma justaposição de elementos de contratos de tipos diferentes,
deve recorrer-se à teoria da combinação.
o se há uma subordinação de um dos tipos contratuais a outro, deve
aplicar-se a teoria da absorção.
o se não se verifica nenhum dos dois casos acima referidos, aplica-
se a teoria da aplicação analógica.

II. Unilaterais e bilaterais


Os contratos unilaterais são aqueles dos quais decorrem obrigações para apenas
uma das partes.
Os contratos bilaterais são aqueles dos quais decorrem obrigações para ambas
as partes: de dois tipos:
 perfeitos ou sinalagmáticos: as obrigações de cada um dos
contraentes estão unidas entre si por um nexo de correspondência
 imperfeitos: tal não sucede

O interesse prático desta classificação tem a ver com o sinalagma: este pode ser:
 genético: no momento da conclusão do contrato, a obrigação
assumida por cada um dos contraentes é causa ou razão de ser da
obrigação assumida pelo outro
 funcional: as duas obrigações têm de ser cumpridas
simultaneamente e as vicissitudes ocorridas na vida de cada uma
das obrigações repercutem-se na vida da outra.
Consequências:
o do sinalagma genético: relaciona-se com o 401º CC: se, no
contrato bilateral sinalagmático, uma das prestações é impossível,
o contrato é nulo. É nulo para fazer com que nenhuma das
obrigações nasça.
o do sinalagma funcional: são 3 as consequências:
a) enquanto um dos contraentes não cumprir a sua obrigação, o outro pode,
legitimamente, recusar-se e não cumprir a sua: 428º e ss CC: é a
excepção de não cumprimento do contrato.

124
Direito das Obrigações

b) se uma das partes não cumpre o contrato, a outra tem a faculdade de o


resolver: 801º n.º 2 CC: é a resolução do contrato por não cumprimento
c) se uma das obrigações se extingue porque a prestação se tornou
impossível por facto não imputável a nenhuma das partes, a outra
obrigação também se extingue: 795º CC: extinção do contrato por causa
maior.

EXCEPÇÃO DO NÃO CUMPRIMENTO DO CONTRATO

428º n.º 1 CC: dá uma noção do que seja a excepção do não cumprimento do
contrato: faculdade atribuída a qualquer das partes de um contrato bilateral
sinalagmático em que não haja prazos distintos para o cumprimento de recusar a sua
prestação enquanto a contraparte não efectuar a prestação que lhe cabe ou não oferecer
o seu cumprimento simultâneo.
O 428º enuncia os pressupostos de aplicação da excepção do não cumprimento:
o contrato deve ser bilateral sinalagmático
o inexistência de prazos diferentes para o cumprimento
Quanto a este segundo pressuposto: quando a parte que pretende invocar a
excepção é a parte obrigada a cumprir em primeiro lugar, não faz sentido que invoque a
excepção.
Se a parte for a que está obrigada a cumprir em segundo lugar, já faz sentido que
invoque o 428º.
O 429º comprova que esta interpretação do 428º está correcta.

Há um problema face ao 428º: a excepção de não cumprimento do contrato pode


ou não ser invocada em caso de cumprimento defeituoso ou de não cumprimento
parcial?
A resposta é afirmativa: a excepção do não cumprimento do contrato pode ser
invocada nesses dois casos, excepto quando a invocação do 428º colide com o princípio
da boa fé. Se o não cumprimento parcial tiver pouca ou nenhuma importância, o credor
não pode invocar o 428º.
Antunes Varela defende a aplicação analógica a estes casos do 802º n.º 2.

PRESCRIÇÃO: 430º CC
A (obrig não prescreveu)  B (obrig prescreveu)
B pode exigir a obrigação de A, mas A não pode exigir de B. Com o 430º, A tem
a possibilidade de invocar o cumprimento de B.

NOTA: o sinalagma não liga todos os deveres de uma parte a todos os deveres
da outra parte: liga apenas os deveres principais de prestação. Excepto quando os
deveres acessórios de prestação ou de conduta estejam de tal modo ligados aos deveres
principais que, separadamente, não fazem sentido.

III. Onerosos e gratuitos


Os contratos são onerosos quando a atribuição patrimonial feita por um dos
contraentes tem como correspondente uma atribuição patrimonial pelo outro contraente.

125
Direito das Obrigações

Nos contratos gratuitos tal não sucede.

15.03.2006
(Prática) (Su)

Caso I

R vinculou-se perante S para lhe entregar 1000 litros de óleo fuel.


S recusou-se a receber, sem motivo justificado. Estamos, por isso, perante um
caso de mora do credor: 813º CC.
Os requisitos da mora do credor estão preenchidos.

Efeitos da mora do credor:


o Inversão do risco
o Atenuação da responsabilidade do devedor
o 815º

O que interessa aqui para o caso é a inversão do risco.


Remos o perecimento da coisa por causa não imputável ao devedor nem ao
credor. Mas está em causa o problema do risco.
Terá o credor de pagar e não receber a coisa?
815º n.º 1
À partida teria de pagar. Mas estamos perante uma obrigação genérica (está
apenas determinada a quantia e o género).

Quando se transfere a propriedade e o risco?


A regra é que o risco corre por conta do adquirente.

Há duas teses:
 Batista Machado: temos de ver se estamos perante uma obrigação
genérica. Só podemos falar em impossibilidade superveniente se
a obrigação é específica. Neste caso, o devedor já não tem de
entregar aquela coisa específica.
Batista Machado entende que só podemos dizer que há impossibilidade
superveniente se a obrigação do devedor já se tinha concentrado em momento anterior
ao acidente.
Neste caso, se a coisa se perdeu, como a obrigação é específica, o devedor não
tem de entregar outra coisa.
541º CC: aqui, no caso concreto, o que interessa é a mora do credor que leva à
concentração da obrigação. O devedor estava apenas obrigado a entregar aquela coisa
específica.
No entanto, aqui, Batista Machado diz que a obrigação só se teria concentrado
tornando-se uma obrigação específica se o devedor tivesse oferecido ao credor os 1000
litros de óleo fuel em separado.
No caso, diz que o camião levava 3000 litros. Assim, não podemos dizer que
houve concentração e não podemos aplicar directamente o 815º CC por falta do
requisito da impossibilidade superveniente.

126
Direito das Obrigações

Mas, segundo este autor, o 815º CC tem subjacente uma ideia fundamental: se a
coisa perecer depois do credor entrar em mora, então o risco transfere-se para o credor.
Então, este terá de pagar o preço da coisa a R. Aplica-se o 815º analogicamente.
 Meneses Leitão: tem uma opinião diferente: a mora do credor não
leva à concentração.
O 408º CC diz que a propriedade se transfere por mero efeito do contrato.
Assim, o risco corre por conta do adquirente. Mas o mesmo artigo faz uma ressalva
quanto às obrigações genéricas.
541º: causas de concentração da obrigação.
Meneses Leitão diz que a mora do credor não concentra a obrigação,
continuando a obrigação a ser genérica. Este autor diz que a mora do credor referida no
541º é uma ficção do legislador.
Mesmo que exista mora do credor, o devedor continua a ter uma obrigaçã
genérica. Terá de entregar outros 1000 litros de óleo fuel.
841º CC
O devedor pode livrar-se da obrigação através de consignação em depósito
(1024º e ss CPC). Se não o fizer, continua obrigado a cumprir a obrigação. Embora haja
mora do credor, a obrigação não se concentra porque o 815º CC é uma ficção do
legislador e o devedor continua obrigado a cumprir a prestação.

Caso II

Temos uma obrigação genérica. H vendeu 5 dos 10 computadores da marca


Macintosh.
Quando se transfere a propriedade e o risco?
Com a concentração da obrigação genérica em obrigação específica.
841º CC: causas de concentração.
O que interessa para o nosso caso é a extinção parcial do género.
Quando o legislador diz que tem de restar apenas 1 das coisas, quer dizer que
basta que reste uma quantidade igual ou inferior à devida.
O estabelecimento de A foi assaltado e roubaram 6 computadores, restando
apenas 4. Esta é uma quantidade inferior á devida. Por isso, há concentração da
obrigação.
Temos também duas posições:
 Antunes Varela: há concentração da obrigação por extinção
parcial do género. A obrigação torna-se específica e o risco corre
por conta do credor. A concentração deu-se, por isso, na noite do
assalto. No dia seguinte, ocorreu um incêndio no qual a coisa
pereceu. Quem suporta o risco? Como houve concentração no dia
anterior, dia do assalto, quando ocorreu o incêndio o risco já
corria por parte de I. Este terá de pagar o preço dos computadores
e ficar sem eles.
 Almeida Costa: introduz aqui uma nuance. Só se verifica a
concentração da obrigação quando o credor conheça o facto da
concentração.
Se H tivesse comunicado a extinção parcial do género a I antes de acontecer o
incêncsio, dava-se a concentração. O risco transfere-se e depois do incêndio I terá de
pagar os computadores.

127
Direito das Obrigações

Se H, antes do incêndio, não tivesse comunicado a I a extinção parcial do


género, não haveria concentração. O risco não se transferiria e H teria de suportar o
risco do incêndio.

Caso III

Contrato-promessa: 410º CC: é a convenção pela qual ambas as partes ou


apenas uma delas se obriga, dentro de certo prazo ou verificados pressupostos, a
celebrar determinado contrato.
Contrato prometido: é aquele que as partes se obrigam a celebrar.

Contrato pode ser:


o unilateral
o bilateral
No caso temos um contrato-promessa bilateral. A é o promitente-vendedor e B é
o promitente-comprador.
Quanto à forma do contrato-promessa, o 410º n.º 1 CC estabelece o princípio da
equiparação: as disposições do contrato de compra e venda são aplicáveis ao contrato-
promessa, excepto as disposições relativas à forma (pex, escritura pública).
879º a)
O contrato de compra e venda transfere a propriedade por mero efeito do
contrato; no contrato-promessa isto não acontece.
892º CC: o contrato de compra e venda de coisa alheia é nulo; o contrato-
promessa de coisa alheia não é nulo.
Quando está em causa um bem imóvel, a forma para o contrato-promessa é
documento particular assinado pelos dois promitentes (no caso do contrato bilateral).
No caso concreto, o contrato-promessa é válido. Não é preciso nem documento
particular nem documento autêntico (410º n.º 2).

a)
A prometeu vender o automóvel antigo de um coleccionador a B. é um bem
alheio. A pensou que como a venda de coisa alheia é nula (892º), então a promessa de
venda de coisa alheia também é nula.
Mas não é assim: 410º. A promessa de venda de coisa alheia é válida. A não teria
razão.
Podemos também pensar que está em causa a venda de bens futuros. A venda de
bens futuros é válida (811º e 893º).
Se ambas as partes sabem que o bem é alheio, então podemos pensar que ambas
as partes quiseram celebrar um contrato de bem futuro. A promessa de venda de bens
futuros é válida.

b)
Há um não cumprimento definitivo do contrato-promessa por parte de A.
C vai ter direito a uma indemnização. Esta vai depender de haver sinal ou não.
No caso concreto, existe sinal. Assim, aplica-se o 442º. O não cumprimento do contrato
é devido ao promitente-vendedor. Assim, o promitente-comprador terá o direito de
exigir o sinal em dobro. No caso concreto, tem o direito a uma indemnização de 10v
000 €.

128
Direito das Obrigações

15.03.2006
(Teórica) (Su)

Tipos especiais de contratos:


 contrato-promessa
 pacto de preferência

Contrato-promessa

Aº 410 C.C. Contrato-promessa é uma convenção pela qual as partes se obrigam a


celebrar determinado contrato. É um contrato preliminar, um contrato que ainda não é
definitivo. A obrigação emergente de um contrato-promessa é a de emitir a declaração
do contrato correspondente ao contrato prometido.

Duas formas de contrato-promessa:

- unilateral: quando só uma das partes se obriga.


- bilateral : quando ambas as partes se obrigam a emitir a declaração do contrato
correspondente ao contrato prometido.

Requisitos, forma e
substancia do contrato-
promessa

Aº 410 nº 1: Princípio da equiparação. Em princípio, o contrato-promessa é


equiparado ao contrato prometido.
Este princípio comporta excepções:
- o contrato promessa não transfere por si só a propriedade ou outro direito real sobre a
coisa, não tem um efeito translativo.
- para o contrato-promessa não vale a proibição de bens alheios do Aº 892. Os
contratos-promessa de bens alheios são válidos.
- não se aplicam ao contrato-promessa as regras sobre as legitimidades conjugais,Aº
1682-A .

Aº 410 nº 2, há um desvio ao princípio da equiparação. A lei pode exigir para o contrato


prometido documento autêntico (escritura publica) ou documento particular. Ou pode
submeter o contrato prometido ao princípio da liberdade contratual.
-Quando a lei exige documento autêntico para o contrato prometido, exige documento
particular para o contrato-promessa.
- Quando a lei exige para o contrato prometido documento particular, para o contrato-
promessa também exige documento particular.
-Quando exige para o contrato prometido liberdade de forma também assim o exige
para o contrato-promessa.

O documento particular terá que ser assinado pela parte que se vincula, no caso de
contrato unilateral ou pelas duas partes no caso de contrato bilateral.

129
Direito das Obrigações

Qual a consequência da falta de assinatura de uma das partes num contrato


bilateral?
Vício de forma, logo o contrato é nulo. Aº 220

Quando o contrato bilateral é assinado apenas por uma das partes:


Duas teses
1ª- A nulidade do contrato-promessa bilateral assinado apenas por uma das partes é total
e o contrato-promessa em causa só pode ser aproveitado pelo instituto da conversão dos
negócios jurídicos do Aº 293 C.C.

2ª- A nulidade do contrato-promessa bilateral assinado apenas por uma das partes é uma
nulidade parcial e por isso este contrato-promessa pode ser aproveitado nos termos do
instituto da redução do Aº 292 C.C.
O problema é saber se se pode transformas o contrato-promessa em unilateral.

Qual a diferença entre as duas teses?


1ª tese
Aº 293- considera decisivo, para que haja conversão, a vontade hipotética ou
conjectural das partes. Aquilo que as partes teriam querido. O ónus de demonstrar a
vontade conjectural das partes cabe aquela parte que quer aproveitar a conversão.

2ª tese
Aº 292- o critério para saber se há redução é a vontade conjectural das partes. Aqui o
ónus é da parte que está interessada em não aproveitar o negócio jurídico. O critério da
redução e da conversão é por isso o mesmo. A diferença está no ónus.
Na redução em caso de dúvida o juiz deve aproveitar o negócio jurídico.
Em tais casos qual tese deve o juiz escolher?

Acento de 29 de Novembro de 1989 do Supremo Tribunal de Justiça


Este acento diz que quanto ao Aº410 o contrato-promessa bilateral de compra e venda
de imóvel visará em documento assinado apenas por uma dos contraentes é nulo mas
pode considerar-se válido como contrato-promessa unilateral desde que essa tivesse sido
a vontade das partes.
Este acento não é conclusivo!!!
O intérprete terá liberdade de optar pela solução mais razoável. Esta parece ser aquela
que corresponde á nulidade parcial com possibilidade de redução (2ª tese).

Argumentos para esta tese:


-as duas obrigações decorrentes do contrato-promessa bilateral, podem constituir o
objecto de contratos-promessa unilaterais autónomos. (Ex. A e B podem celebrar um
contrato-promessa ou podem celebrar dois contratos-promessa unilaterais autónomos,
um em que A se compromete a comprar e um em que B se compromete a vender.)
Isto dá a entender que as duas obrigações dos dois contraentes são cindíveis ou
indivisíveis. Assim, a invalidade atinge apenas uma das partes. É uma invalidade
parcial.
-redução do negócio jurídico pode ser imposta pelo princípio da boa fé e mesmo contra
a vontade conjectural ou hipotética.
-nos contratos onde existe duas partes em que uma é a parte mais fraca, a redução
protege-a.

130
Direito das Obrigações

Aº410 nº 2 (2º problema)


-Promessas unilaterais remuneradas.
Ex. A compromete-se a vender algo a B. Mas B não se compromete a comprar nada mas
paga a A1000€ pela disponibilidade deste.
Esta unilateral remunerada deve considerar-se um contrato-promessa unilateral ou um
contrato-promessa bilateral?
Se se entender que está em causa um contrato-promessa unilateral ele deve ser assinado
por uma das partes. Se se considerar que é um contrato-promessa bilateral deve ser
assinado pelas duas partes.

Duas situações:

-deve entender-se que está em causa um contrato-promessa unilateral para efeitos do


Aº410 nº 2
-deve entender-se que a promessa unilateral remunerada é um contrato-promessa
bilateral para efeitos dos Aºs 428 sgs, 795, 801.

Aº 410 nº 2 consagra o regime geral da forma do contrato-promessa.


Aº410 nº 3 consagra o regime especial.

Aº 410 nº 3 – Pressupostos:
-o contrato-promessa deve dizer respeito a um contrato oneroso;
-o contrato-promessa deve dizer respeito a um contrato oneroso de transmissão ou
constituição de um direito real.

O nº 3 do Aº 410 fala em contrato-promessa de constituição ou transmissão de direito


real. O C.C. esquece os contratos-promessa de modificação de direitos reais. Este Aº
deve por isso aplicar-se a contratos-promessa para os quais se amplia p.ex. um direito de
usufruto ou um direito de servidão.
Este nº 3 do Aº 410 fala na transmissão de direitos reais, mas deve interpretar-se
extensivamente de forma a abranger direitos reais de gozo.
O termo “edifício” abrange o conjunto imobiliário que o contrato definitivo tem por
objecto.

Qual o regime aplicável á transmissão ou constituição de um direito real sobre edifício


ou fracção autónoma?
Aº410 nº 3
O contrato referido no nº 2 do Aº 410 deve conter a assinatura de um dos promitentes. O
contrato me causa deve ter a licença de construção concedida pelo notário.

Se o Aº 410 nº 3 não for observado conduz á nulidade atípica que pode ser invocada por
qualquer interessado. Mas o Aº 410 nº 3 contém um desvio pois a nulidade do contrato
só pode ser invocada pela parte que ia transmitir se a parte que promete adquirir tenha
provocado a nulidade.

O promitente adquirente pode invocar a nulidade sem qualquer restrições. A nulidade só


pode ser invocada quando a mesma tenha sido provocada culposamente pela outra parte.

131
Direito das Obrigações

Acento de 28 de Junho de 1984


A nulidade não pode ser invocada por terceiros.

Acento de 1 de Fevereiro de 1995


A omissão das formalidades do Aº 410 nº 3 não pode ser oficiosamente conhecida pelo
tribunal.

Efeitos do Contrato-promessa

Tem que se distinguir entre contrato-promessa com eficácia real e contrato-promessa


com eficácia obrigacional.

O contrato-promessa em regra só dá origem a eficácia meramente obrigacional.


Aº 413-Este Aº permite que as partes atribuam eficácia real. Exige que haja ema
declaração expressa no sentido de atribuição de eficácia real. Embora a lei exija
declaração expressa tal não significa que as partes tenham que usar as palavras ”eficácia
real”. As partes podem usar expressões como: eficácia erga omnes…
O Aº 413 exige que a promessa conste de escritura pública ou documento particular
consoante o contrato esteja ou não sujeito aquela forma.

Aº 410 nº 2 sofre uma derrogação. Em regra, quando o contrato prometido esteja sujeito
a escritura pública o contrato-promessa esta sujeito a documento particular. Mas o Aº
413 não o exige. Caso a lei não exija escritura pública para o contrato prometido não é
necessário escritura pública para a declaração de eficácia real.
O Aº 413 nº 1 impõe a inscrição da promessa no registo. O registo é apenas condição de
oponibilidade a terceiros.

Consequências da eficácia real do contrato-promessa

-o titular de um direito emergente de um contrato-promessa com eficácia real fica com


um direito oponível a terceiros. Ele prevalece sobre todos os direitos reais e
obrigacionais constituídos posteriormente.
-o direito á execução específica não pode ser afastado por convenção das partes. O Aº
830 no seu nº 1 admite direito á execução específica. A convenção em contrário á
execução específica é incompatível com a eficácia real da promessa.
O direito do promissário deve ser considerado como um direito obrigacional reforçado
pela sua oponibilidade a terceiros ou um direito real. A tese mais defensável é a
primeira!

16.03.06
Teórica (Su)

Não cumprimento do contrato

Dá lugar a:

132
Direito das Obrigações

-execução específica: Aº 830, obtenção para beneficiário da promessa de uma sentença


que produza os efeitos de uma declaração do comitente faltoso. Este não cumpre, o
tribunal cumpre em seu lugar.
-indemnização

No regime geral dos contratos-promessa, o direito á execução específica pode ser


afastado por convenção em contrário. No regime específico dos contratos-promessa
(Aº410 nº 3 e Aº 413) tal não sucede.

Aº 830- Regra dispositiva. O direito á execução específica pode ser afastado por
convenção das partes. A execução específica só existe se não houver convenção em
contrário. Aº 830 nº 2 não deve aplicar-se ás clausulas penais propriamente ditas.
Aplica-se exclusivamente ás cláusulas penitenciais.
Razão de ser desta interpretação:
- as clausulas penais destinam-se a reforçar a obrigação do devedor , deste modo não
seria razoável que o efeito de uma clausula penal consistisse em enfraquecer tal
vinculação afastando a execução específica.
-O Aº 830 nº 2 fala em sinal. Devemos ter em conta a função do sinal confirmatório e a
do sinal penitencial, já analisados no 1º semestre. O Aº 830 nº 2 deve aplicar-se
exclusivamente ao sinal penitencial. Embora este Aº fale em clausula penal e sinal, ele
não se aplica ás clausulas penais mas apenas ás multas ou clausulas penitenciais e ao
sinal penitencial

Aº 830 nº 3 – Estando em causa contratos-promessa do Aº 410 nº 3 a execução


específica não pode ser afastada em caso algum.

A execução específica deve considerar-se incompatível com a natureza da


obrigação:
1º grupo de casos:
-quando o carácter dos interesses em jogo não se concilia com a execução específica
-quando a sentença não pode produzir os efeitos da execução específica.
Não é admissível a execução específica de um contrato-promessa de prestação de
serviços nem de um contrato-promessa de trabalho.

2º grupo de casos:
-há casos em que a lei exige formalidades especiais para a conclusão do contrato
prometido.
-há casos em que a celebração de um contrato prometido exige uma declaração de
terceiro.
Aº 1682-A – conjunto de casos em que um determinado acto carece do consentimento
de ambos os cônjuges.
-a lei configura determinados contratos civis como contratos reais quod constitucione.
P.ex. a lei exige acordo de vontades e entrega da coisa. A execução específica é
impossível ou inviável.
No caso de contratos-promessa previstos no A º410 nº 3 e de contratos-promessa com
eficácia real, a execução específica não pode ser afastada por vontade das partes.
O Aº 830 nº 3 assegura o equilíbrio da posição dos dois contraentes.

Aº 437 === Aº 830 nº 3

133
Direito das Obrigações

Aº 437 – (regime geral da alteração do contrato). A modificação do contrato só pode ser


pedida se não houver mora.
Aº 830 nº 3 – A modificação do contrato pode ser pedida mesmo que haja mora.

Principal problema
-casos em que a coisa objecto do contrato prometido é alienada na pendência da acção
de execução específica.
Se a coisa for alienada ou onerada antes da propositura da acção de execução específica
não há problema.

Ex.: Um contrato-promessa com eficácia obrigacional entre A e B celebrado em 2005.


Em 2006 A celebra com um contrato de compra e venda estando em causa o mesmo
objecto do contrato celebrado com B.A coisa é alienada antes da propositura da
qualquer acção. O direito de Com prevalece sobre o direito de B. A execução específica
é em tais casos inviável, uma vez que ela envolveria uma venda de coisa alheia. A iria
vender algo que já é de C.

Quando a coisa é alienada ou onerada durante a pendência da acção de execução


específica
O direito de execução específica não é registável. A acção de execução específica é
registável. Aº3 nº1 a) do Cod. de registo predial.(CRP)
#Pode acontecer que a alienação a terceiro aconteça depois do registo da acção de
execução específica, aqui os efeitos da sentença retroagem á data do registo.
-Aº6 nº1,nº3 e nº4 CRP
-Aº11 nº2 CRP
-Aº53 CRP/
-Aº59 nº4 CRP
-Aº 271 nº3 Cod. de processo civil
Como os efeitos da sentença retroagem os direitos do promissário prevalecem sobre os
direitos de terceiro.

# O registo da acção de execução específica é posterior á alienação do objecto


Ex.: Em Janeiro de 2005 A celebra um contrato de compra e venda com B. B em Janeiro
de 2005 propõe uma acção de execução específica. Em Fevereiro de 2006.A aliena o
objecto a C. Em Março de 2006 dá-se o registo da acção. Em Abril de 2006 C pretende
registar a sua aquisição.
Qual o direito que deve prevalecer? O de B ou o de C?
Quanto a este assunto há o Acórdão de uniformização de Jurisprudência nº4/98 de 5 de
Novembro de 1998:
- a execução específica do contrato-promessa sem eficácia real nos termos do Aº 830
não é admitida no caso de impossibilidade de cumprimento por o promitente vendedor
haver transmitido o seu direito real sobre a coisa objecto do contrato prometido antes do
registo da acção de execução específica ainda que o terceiro adquirente não haja obtido
o registo da aquisição antes do registo da acção de execução específica. Este não
confere eficácia real á promessa.
Assim, no exemplo dado o direito de C prevalece sobre o direito de B. Em Fevereiro de
2006, quando a coisa foi vendida a C, A era o proprietário. Logo, o contrato de compra e
venda entre A e C é válido. C torna-se proprietário. No caso de admitir-se uma acção de
execução específica, era admitir que o tribunal se substituiria a A numa venda de uma

134
Direito das Obrigações

coisa que já não é de A mas que já pertence a C. Em tais casos uma acção de execução
específica é inviável.

Casos em que há lugar a indemnização

Existindo contrato-promessa as partes acordam sempre a existência de sinal. Aº 442


(sinal).

Há que distinguir casos em que não há sinal e casos em que há sinal.


Quando não há sinal aplicam-se as regras gerais do Aº798 e sgs.
Quando há sinal deve distinguir-se:
1º caso: não cumprimento imputável á parte que constituiu o sinal (Aº442 nº2 1ª parte)
2º caso: não cumprimento imputável á parte que recebeu o sinal (Aº 442 nº2 2ª parte)
No 1º caso o contraente que recebeu o sinal fica com ele. O contraente que efectuou o
sinal fica sem ele e sem a coisa.
No 2º caso deve distinguir-se consoante há ou não há tradição da coisa.
Quando não há tradição da coisa há a restituição do sinal em dobro á parte que o
constituiu.
Quando há tradição da coisa o Aº 442 nº2 concede á parte que entregou o sinal que
opte por uma de duas indemnizações:
-sinal em dobro
-indemnização pelo aumento do valor da coisa.

Ex.: Em Janeiro de 2005 A celebra um contrato-promessa de compra e venda com B. O


preço da coisa é de 100.000€ e B entrega a A um sinal de 10.000€. Em Janeiro de 2006
A celebra o mesmo contrato com C pelo preço de 200.000€.
B pode optar por uma de duas situações:
- pode exigir a restituição do sinal em dobro (20.000€)
- pode reclamar uma indemnização pelo aumento do valor da coisa. Como se calcula
isto? Aº 442 nº 2
Há três parcelas a considerar para calcular a indemnização:
- deve ter-se em conta o valor objectivo da coisa á data do não cumprimento da
promessa. (200.000€)
- preço convencionado (200.000€-100.000€ = 100.000€)
- deve ser restituído o sinal ou parte do preço que tenha sido efectuada (100.000€
+10.000€ = 110.000€ )
Neste caso a indemnização pelo aumento do valor da coisa é de 110.000€.

O contraente fiel tem a faculdade de optar Aº 755 nº1 e).


Este contraente fiel tem o seu direito reforçado por uma garantia especial que é o direito
de retenção.
Direito de retenção: faculdade que tem o detentor de uma coisa de não a entregar a
quem lha pode exigir enquanto este não cumprir uma obrigação que tem para com
aquele.

Principal problema: as regras deste Aº foram pensadas para os casos de não


cumprimento definitivo do contrato-promessa. O Aº 442 nº3 vem perturbar o disposto
no Aº 442 nº 2.
-Aº 442 nº 3 tem duas afirmações que o promissário tem a faculdade de exigir
indemnização calculada nos termos do Aº 442 nº 2 em caso de simples mora.

135
Direito das Obrigações

-o contraente fiel pode propor acção de execução específica. Esta exige tão só a mora.
Este nº3 causa a impressão que o contraente fiel tem a faculdade de exigir indemnização
quando estiverem preenchidos os requisitos da execução específica.

Excepção de cumprimento do contrato-promessa: se o contraente fiel optar por uma


indemnização pelo aumento do valor da coisa (110.000€) o promitente faltoso tem a
faculdade de se opor a esse pedido oferecendo-se para cumprir a promessa (opõe-lhe a
excepção de cumprimento).
Mas o Aº 442 nº3 in fine diz ”salvo disposto no Aº 808”
O promitente faltoso não pode opor excepção de cumprimento nos casos do Aº 808
(casos de não cumprimento definitivo). Assim, só pode invocar esta excepção em caso
de simples mora. Isto significa que a indemnização lhe pode ser exigida em caso de
simples mora. A excepção de cumprimento do contrato-promessa é uma resposta ao
pedido de indemnização pelo aumento do valor da coisa. Logo, esta indemnização pode
ser pedida em caso de simples mora.

22.03.2006
(Prática)

Primeiros casos

Caso III

b)

Contrato-promessa: execução específica.


A e B fizeram um contrato-promessa: mas A celebra o contrato de compra e
venda com C. No caso temos um não cumprimento definitivo do contrato-promessa.
B poderá recorrer à execução específica do contrato-promessa?

Execução específica: 830º CC: acção declarativa constitutiva onde se pretende


obter do tribunal uma sentença que produza os efeitos das declaração negocial do
promitente faltoso.
Há execução específica quando:
o haja não cumprimento do contrato-promessa
o não haja convenção em contrário: 830º n.º 2 CC: este artigo
presume que, havendo sinal ou pena, há convenção em contrário.
Mas não é qualquer sinal que afasta a execução específica: só o
penitencial.
o a isso não se opõe a natureza da obrigação assumida (pex, quando
um marido celebra um contrato-promessa de um bem imóvel:
deve haver consentimento do outro cônjuge; depois, se o
promitente faltoso quiser propor uma acção de execução
específica, o tribunal não se pode substituir ao cônjuge)

136
Direito das Obrigações

Nosso caso: tem contrato-promessa onde B entrega 5000 €: são um sinal nos
termos do 441º CC. Havendo sinal, nos termos do 830º n.º 1 e n.º 2, há convenção em
contrário e a execução específica fica afastada.
Temos um contrato-promessa com eficácia real e nestes a execução específica é
imperativa: isto é, não pode ser afastada por convenção em contrário.

Requisitos para atribuição de eficácia real à promessa: 413º CC:


 transmissão de bem imóvel ou móvel sujeito a registo
 declaração expressa de eficácia real
 inscrição no registo
 o contrato-promessa seja celebrado por escritura pública ou documento
particular com reconhecimento de assinatura (nos casos onde não é
necessária escritura pública)

A cláusula de eficácia real permite proteger o promitente-comprador contra


actos de alienação do objecto do contrato-promessa efectuados posteriormente ao
registo de eficácia real.

Nosso caso, temos uma alienação a C, que é ineficaz em relação ao promitente-


comprador: estando em causa um contrato com eficácia real, ele tem sempre o direito à
execução específica: sendo esta execução eficaz, o bem passa ao promitente-comprador.
Este vai com a sentença à Conservatória de Registo Predial e regista o bem.

Casos de 22.03.2006

Caso I

Temos de ver se o contrato-promessa é válido pois foi assinado apenas por uma
das partes.
O contrato-promessa é bilateral quando ambas as partes se obrigam; é unilateral
quando apenas uma das partes se obriga.
Vale o princípio da equiparação: 410º n.º 1: o contrato-promessa deve ser
celebrado por documento particular, assinado pelas partes que se obrigam. Quanto à
forma; segundo o princípio da equiparação, para o contrato-promessa é necessária
escritura pública. Mas há uma excepção ao princípio da equiparação: 410º n.º 2.

Segundo o 410º n.º 2 e 220º, o contrato-promessa é nulo pois foi assinado


apenas por uma das partes.
Apesar de ser nulo, podemos aproveitar uma parte desse contrato-promessa: a
parte relativa a obrigar a pessoa que assinou. Se o contrato-promessa bilateral é nulo por
falta de forma, vamos aproveitar o contrato-promessa unilateral (que vincula a parte que
assinou): promessa unilateral de venda: resulta uma obrigação: o promitente-vendedor
deve celebrar uma venda.

Temos, nesta matéria, duas teses:


 Tese da nulidade total com possibilidade de conversão: o contrato-
promessa bilateral assinado apenas por uma das partes é totalmente nulo:
é possível de conversão nos termos do 293º CC

137
Direito das Obrigações

 Tese da nulidade parcial com possibilidade de redução: o contrato-


promessa bilateral assinado apenas por uma das partes é parcialmente
nulo: é possível de redução nos termos do 292º CC
O interesse prático das teses tem a ver com o ónus da prova:
 para a primeira teses, o ónus da prova da vontade hipotética ou eventual
das partes na manutenção do negócio recai sobre a parte interessada na
manutenção do negócio
 para a segunda tese, o ónus de provar a vontade hipotética ou eventual
das partes da não redução do negócio recia sobre a parte interessada na
manutenção do negócio

Para o nosso caso, qual das teses seguimos?


O Assento do STJ de 29 Novembro de 1989 pouco nos diz.
A tese que se segue é a da nulidade parcial com possibilidade de redução.

Ac. STJ 25.03.1993: diz que o Assento deve ser interpretado segundo a tese da
nulidade parcial do negócio jurídico com possibilidade de redução.
É a tese mais razoável porque as obrigações que resultam do contrato-promessa
são obrigações cindíveis (podemos aproveitar uma parte do negócio). É a tese mais
razoável nos casos onde o contrato-promessa é apenas assinado pelo promitente-
comprador.
Para o promitente-vendedor, a tese mais favorável seria a da nulidade total.

Seguindo os casos da tese da nulidade parcial, a posição do promitente-


comprador é protegida.

Por outro lado, esta tese é mais conforme com o princípio da boa fé: o 239º
CC consagra a prevalência dos ditames da boa fé contra a vontade hipotética ou
conjectural das partes.

Nosso caso, a obrigação de A continua válida, pois aproveita-se uma parte do


contrato-promessa unilateral: que é a obrigação de vender.

Em relação à forma há mais a dizer: deve obedecer à forma do 410º n.º 3 CC: o
contrato deve, ainda, compreender os 2 requisitos aqui enunciados: reconhecimento da
assinatura do promitente e certificação da licença. Senão há nulidade: mas é uma
nulidade atípica: essa nulidade pode ser invocada sempre pelo promitente-comprador e
não pelo promitente-vendedor. Este só poderá invocar essa nulidade se for causada pelo
promitente-comprador.
A este respeito temos:
Assento STJ n.º 3/95
Assento STJ n.º 15/95

Quanto aos requisitos do 410º n.º 3, o nosso enunciado nada nos diz.
Sabemos que o contrato-promessa é válido, mas que se reduz apenas a um
contrato-promessa unilateral.
A alienou o imóvel a C: que direitos tem o promitente-comprador?
Estes direitos dependem do tipo de contrato-promessa: de eficácia real ou
obrigacional?

138
Direito das Obrigações

Para haver contrato-promessa de eficácia real é necessário estarem preenchidos


os requisitos do 413º CC.
Nosso caso, o contrato-promessa tem eficácia obrigacional pois não foi
celebrado por escritura pública. Nestes contratos-promessa, quando o promitente-
vendedor aliena, os direitos do promitente-comprador resumem-se a uma indemnização:
isto pois o promitente-vendedor alienou um bem que era dele e C passa a ser
proprietário por mero efeito do contrato: não pode haver execução específica pois o
tribunal estaria a vender algo que não era dele (um bem alheio).

Temos de ver se há ou não sinal: se há, aplica-se o 442º; quando não há, aplica-
se o 798º e ss CC.
No nosso caso, houve sinal: mas não houve tradição da coisa: logo, a
indemnização corresponde à restituição do sinal em dobro: seria de 20 000 €.

Caso II

Temos um contrato-promessa (convenção pela qual ambas as partes ou uma dela


se obriga a celebrar um contrato). É de efeito obrigacional pois foi celebrado por
documento particular.
Perante o não cumprimento na data, o promitente-comprador (devido à mora do
devedor) intentou uma acção de execução específica (pretendendo obter com ela os
efeitos de uma declaração negocial do promitente faltoso: 830º n.º 2 CC)
Existe sinal: presume-se que se trata de sinal penitencial para se considerar a
execução específica afastada.

Há uma alienação do imóvel a terceiro na pendência da acção de execução


específica: quando há contrato-promessa com eficácia obrigacional, nos casos de não
cumprimento, o promitente-comprador tem o direito a uma indemnização. Os direitos
do promitente-comprador dependem da data do registo da acção de execução específica
(esta acção deve ser registada).
Temos de saber se o registo é anterior ou posterior á alienação do promitente-
vendedor:
o se for anterior: prevalece o direito do promitente-comprador: os
efeitos da sentença de execução específica retroagem á data do
registo da acção de execução específica: 6º n.º 1, n.º 3 e n.º 4, 11º
n.º 2, 53º, 59º n.º 4 CRPredial + 271 n.º 3 CPC
o se for posterior: prevalece o direito do terceiro: temos o Ac. n.º
4/98, de 5 de Novembro: este direito do terceiro prevalece,
mesmo que não tenha registado a aquisição.

(Se o contrato-promessa tivesse eficácia real, a alienação a C era ineficaz e


poderia haver uma execução específica do bem)

Nosso caso, temos um sinal: temos de ir ao 442 para determinar os direitos do


promitente-comprador: sinal em dobro (10000 €) caso não haja tradição da coisa.
Se há tradição da coisa, pode optar pelo sinal em dobro ou uma indemnização
pelo aumento do valor da coisa: (52000 – 50000) + 5000€ = 7000 €.
Vai optar pelo mais vantajoso: restituição do sinal em dobro.

139
Direito das Obrigações

Tendo havido tradição da coisa, nos termos do 755º n.º 1 f), tem direito de
retenção: consiste na faculdade que tem o detentor da coisa de não a entregar enquanto
o promitente-vendedor não pagar a indemnização ao promitente-comprador pelo não
cumprimento.

Caso III

Temos um contrato de compra e venda entre A e B: propriedade transmite-se por


mero efeito do contrato: 408º (princípio da consensualidade).
A – C: contrato-promessa

C registou a acção de execução específica porque B não tinha registado a acção


anterior (a sua compra). A acção de execução específica foi declarada procedente: mas,
anteriormente, tínhamos um contrato de compra e venda que transmitiu a propriedade
por mero efeito do contrato a B: daí haver uma acção de reivindicação.

Antunes Varela diz que se B não registou antes de ser proferida e registou a
acção de execução específica, prevalece o direito de C: diz que esta situação é
semelhante às situações de terceiros para efeitos de registo (invalidades triangulares).
Se C registar a sentença antes de B registar a aquisição, prevalece o direito de C.

Quando o registo da acção é anterior à alienação, nunca podemos ter uma


situação de terceiros para efeitos de registo: C nunca vai estar de boa fé.

22.03.2006
(Teórica)

Contrato-promessa: dois meios de ser cumprido:


 execução específica
 indemnização

Problema da aplicação do 442º CC em casos de simples mora.


O 442º n.º 3 CC dá a entender que se pode exigir a restituição do sinal em dobro
em casos de simples mora.
A primeira parte do n.º 3 do 442º considera a indemnização como uma
alternativa à execução específica. Esta pode ser proposta em caso de simples mora: o
facto dos dois direitos serem concebidos em alternativa faz entender que o 442º n.º 2
pode ser reclamado em caso de simples mora.

O 442º n.º 3 CC consagra a excepção de cumprimento do contrato-promessa: o


promitente não tem faculdade para se oferecer para cumprir a promessa nos casos do
808º. A excepção de cumprimento do contrato-promessa é uma excepção. Se o
promitente só se pode opor em caso de simples mora, …

140
Direito das Obrigações

O 442º n.º 2 considera a indemnização pelo aumento do valor como uma


alternativa à restituição do sinal em dobro. Dá a entender que os seus pressupostos são
os mesmos.
A parte final do 442º n.º 3 é decisiva para se saber se a indemnização pelo
aumento do valor e restituição do sinal em dobro podem ser atribuídos em caso de mora.

O assunto não é consensual. Há duas teses opostas:


1. Antunes Varela: o 442º n.º 3 é decisivo: deve aplicar-se em casos de
simples mora do promitente.
2. O 442º n.º 3 só se aplica em caso de não cumprimento definitivo

O problema que se coloca é que há uma tradição de só se poder exigir


indemnização em caso de não cumprimento definitivo. O 442º n.º 3 vai contra isso: para
casos de simples mora.

Uma tese entende que o 442º só se aplica em caso de não cumprimento


definitivo. A conversão da mora em não cumprimento definitivo deveria fazer-se em
casos diferentes do 808º CC. O Dr. Almeida Costa entende que o promissário tem
capacidade para extrair as consequências da mora e de converter a mora em não
cumprimento definitivo e, assim, exigir a indemnização tal como está no 442º CC.

1ª Tese:

a) Mora
Execução específica (830º) + indemnização pelo dano moratório (804º)
ou
Conversão da mora em não cumprimento definitivo (808º)

2ª Tese:

a) Mora
Execução específica (830º) + indemnização pelo dano moratório (804º)
ou
Indemnização pelos danos compensatórios (442º)

3ª Tese (Almeida Costa):

a) Mora
Execução específica (830º) + indemnização pelo dano moratório (804º)
ou
Conversão mediata da mora em não cumprimento definitivo (em termos
diferentes do 808º)

Na 1ª tese: ónus do promissário estabelecer um prazo para o promitente cumprir:


se não cumprisse, o promissário poderia pedir indemnização.

141
Direito das Obrigações

Na 2ª tese: o promissário ou pode exigir a execução específica ou pede


indemnização pelos danos: tem duas alternativas.
Na 3ª tese: em caso de mora, o promissário tem faculdade de propor acção de
execução específica e pedir indemnização, ou converter de imediato a mora em não
cumprimento definitivo.
Em termos práticos, a diferença é que na primeira tese há necessidade de se
estabelecer um prazo razoável para que se cumpra: nas outras teses, não há essa
necessidade.

b) Não cumprimento definitivo


1. contratos unilaterais: indemnização dos danos compensatórios
(442º)
2. contratos bilaterais: resolução do contrato (801º n.º 2) +
indemnização pelos danos compensatórios (442º)

c) Recusa de cumprimento
1. execução específica (830º) + indemnização pelos danos moratórios
(804º)
ou
2. nos contratos unilaterais: indemnização pelos danos
compensatórios (442º);
nos contratos bilaterais: resolução do contrato (801º n.º 2) +
indemnização pelos danos compensatórios (442º)

A recusa de cumprimento são casos especiais: aproximam-se da mora pelo


cumprimento ainda ser possível e do não cumprimento definitivo por haver uma recusa
definitiva do cumprimento.

O problema é sobretudo quanto aos casos de mora: o promissário deve ou não


fixar um prazo razoável para o promitente cumprir?
Para o professor, o problema só se coloca quanto aos casos onde há sinal
confirmatório; e, por outro lado, quanto aos sinais confirmatórios, os autores dizem que
têm funções análogas à cláusula penal. Se assim é, devem aplicar-se ao sinal
confirmatório o regime das cláusulas penais.
Há diferentes cláusulas penais:
 indemnizatórias: exigidas apenas em caso de não cumprimento definitivo
 compulsórias: apenas em caso de mora.

Face a contratos-promessa sinalizados, deveria distinguir-se consoante o sinal


fosse indemnizatório (para casos de não cumprimento definitivo) ou compulsório
(exigido em casos de simples mora).
Pode colocar-se o problema de distinguir os casos onde o sinal tem essas
funções. Deve haver uma presunção que o sinal tem uma função compulsória: fim de
compelir ou forçar o devedor ao cumprimento.

142
Direito das Obrigações

PACTOS DE PREFERÊNCIA
(414º CC)

A noção do 414º está incorrecta. Embora o pacto de preferência esteja


relacionado com o contrato de compra e venda, tal não sucede necessariamente.
O pacto de preferência pode ser incompatível comos contratos onerosos.
O 414º está incompleto e incorrecto: prova disso está no 423º CC: o 414º CC
define apenas os pactos de preferência relacionados com a celebração dos contratos de
compra e venda.
A noção do 414º deve ser corrigida: os pactos de preferência são os contratos
pelos quais alguém assume a obrigação de, em igualdade de condições, escolher
determinada pessoa (a outra parte ou um terceiro) como seu contraente no caso de se
decidir a celebrar determinado negócio.

Características fundamentais dos pactos de preferência:

1. o pacto de preferência constitui fonte de uma obrigação: a obrigação


típica emergente do pacto de preferência é a obrigação de, em igualdade
de condições, escolher determinada pessoa na celebração do contrato.
Daqui decorre a consequência da obrigação à preferência ficar adstrita a este
dever: o titular do direito de preferência é livre de contratar ou não: tem toda a
liberdade de celebrar ou não o contrato que lhe é proposto. O pacto de preferência é
unilateral.

2. a obrigação emergente do pacto de preferência é uma obrigação


condicionada em dois sentidos:
 o obrigado à preferência só se obriga a escolher determinada
pessoa como seu contraente se lhe surgir um projecto de contrato
 o obrigado à preferência s+o se obriga a escolher determinada
pessoa como seu contraente se esse projecto de contrato for por si
aceite

Daqui decorrem já as diferenças entre o contrato-promessa e o pacto de


preferência:
 o contrato-promessa pode ser unilateral ou bilateral; o pacto de
preferência é sempre um pacto unilateral
 o contrato-promessa dá origem a uma obrigação de contratar; o
pacto de preferência não dá origem a nenhuma obrigação de
contratar: o obrigado à preferência só se obriga a escolher
determinada pessoa caso se decida a contratar

Constituição: o direito de preferência pode ser:


 legal: preferência legal que resulta da lei
 preferência convencional: pacto de preferência

O CC tem um conjunto de referência à preferência legal: 1380º, 1409º, 1410º,


1555º, 2130º.

Há diferenças entre a preferência legal e a preferência convencional:

143
Direito das Obrigações

a. a preferência convencional funda-se num pacto de preferência; a


preferência legal funda-se na lei
b. em princípio, a preferência convencional só tem efeitos inter partes; a
preferência legal tem efeitos erga omnes.
Nas preferências convencionais, os efeitos são inter partes.
Nas legais, o titular do direito tem um direito potestativo de haver para si a coisa
alienada.
c. Nos casos excepcionais onde a preferência convencional tem eficácia
erga omnes, eficácia real, há uma diferença entre as duas figuras: no caso
de preferência legal, cada venda do objecto de preferência dá origem a
novo direito de preferência; nas preferências convencionais de eficácia
real tal não sucede: o direito de B esgota-se na primeira alienação

A - - - comproprietário - - - B (não quer)

vende
C----D

Análise do regime do pacto de preferência

Requisitos do pacto de preferência: requisitos de forma: 415º - 410º n.º 2: duas


ilações:
 Se a preferência respeitar a um contrato para o qual a lei exige
documento autêntico ou particular o pacto de preferência deve constar de
documento particular assinado pelo obrigado à preferência (visto ser um
pacto unilateral)
 Se o pacto de preferência disser respeito a um contrato sujeito ao
princípio da liberdade de forma, o contrato estará sujeito a esse mesmo
princípio

Efeitos do pacto de preferência: deve distinguir-se:


 Pactos de preferência com eficácia obrigacional
 Pactos de preferência com eficácia real

Nos pactos de preferência com eficácia obrigacional, o obrigado à preferência


fica obrigado a dar preferência a outrem na celebração de determinado contrato caso
celebre e caso o titular do direito à preferência o aceite nas condições assumidas por um
terceiro.
O exercício do direito de preferência faz-se, sobretudo, nos termos do 416º CC:
prevê a notificação para preferência. O obrigado à preferência deve comunicar ao titular
do direito duas coisas:
 Intenção de celebrar um determinado contrato: projecto de venda
 As cláusulas do contrato projectado

Quais as cláusulas que devem ser comunicadas?

144
Direito das Obrigações

Deve o obrigado comunicar todas as cláusulas relevantes para a formação da


vontade de contratar ou não: preço, prazo e condições de pagamento e identidade do
terceiro interessado na compra.
A comunicação pode ser feita:
o Judicialmente: 1458º CC
o Extra-judicialmente: a notificação extrajudicial é considerada
como uma proposta contratual: o titular do direito de preferência
ou a aceita ou não aceita

Notificação extrajudicial

proposta

Se o notificado para a proposta declara que não que preferir ou nada declara
dentro do prazo fixado:
 Renúncia
 Caducidade
Se o notificado para a proposta declara que quer preferir dentro do prazo fixado:
 aceitação

1ª hipótese: a notificação para preferência e a declaração de preferência
observam ambas a forma exigida para o contrato definitivo

declaração de preferência e conclusão do contrato definitivo

2ª hipótese: a notificação para preferência e a declaração de preferência não


observam a forma exigida para o contrato definitivo
 
Se as duas declarações constarem Se as declarações não constarem
de documento escrito (410º n.º 2 de documento escrito: obrigação
e n.º 3): contrato-promessa de contratar (esta obrigação é
bilateral bilateral)

Nestes casos deve entender-se


que se aplica por analogia o 830º
CC, havendo, por isso, lugar á
execução específica da
obrigação.

23.03.2006
(Teórica)

145
Direito das Obrigações

Pacto de preferência

417º a 419º CC contemplam 3 situações:


a) 417º CC: venda de coisa objecto da preferência juntamente com outro ou
outros por um preço global
b) 418º CC: promessa de prestação acessória
c) 419º CC: pluralidade de titulares de direito de preferência

ART.º 417º: venda de coisa objecto da preferência juntamente com outro ou


outros por um preço global
O 417º considera duas situações:
 aquela em que a separação da coisa não envolva prejuízo
apreciável para o obrigado à preferência: o titular do
direito pode exerce-lo sobre a coisa objecto de preferência
 a separação envolve um prejuízo apreciável para os
interesses do obrigado á preferência: ou fica com todos
em conjunto ou fica sem nenhuma

ART.º 418º: promessa de preferência acessória


O objecto do contrato envolve alienação da coisa e um conjunto de prestações
acessórias.
1ª hipótese: prestação acessória convencionada com intuito fraudulento 
irrelevante (418º n.º 2)
2ª hipótese: prestação acessória convencionada seriamente:
o avaliável em dinheiro: compensação em dinheiro (418º n.º 1 1ª
parte)
o não avaliável em dinheiro: há duas hipóteses:
 a prestação acessória é essencial: exclusão do direito de
preferência
 a prestação acessória não é essencial: irrelevante
É essencial quando, sem ela, o obrigado à preferência não se teria decidido a
contratar. É não essencial quando o obrigado à preferência teria decidido a contratar na
mesma.

ART.º 419º: pluralidade de titulares do direito de preferência.


Distinguem-se duas situações:
o aquela em que o direito de preferência deve ser exercido
conjuntamente por todos os seus titulares: para estes casos, o
419º diz que a extinção do direito em relação a um deles faz com
que o direito de preferência acresce ao dos outros.
o aquela em que o direito de preferência só deve ser exercido por
um deles: para estes caos, o 419º diz que se abre licitação entre
todos: há uma espécie de leilão, cada um devendo apresentar uma
proposta (que deve ser superior à proposta que tinha sido feita)

146
Direito das Obrigações

O 421º CC admite a atribuição de eficácia real ao pacto de preferência


relacionado com bens imóveis ou móveis sujeitos a registo: os seus requisitos estão
enunciados no 413º (eficácia real do contrato-promessa):
 declaração expressa no sentido da eficácia real do pacto
 escritura pública ou documento particular com
reconhecimento da assinatura
 inscrição no registo
As consequências da atribuição de eficácia real ao pacto de preferência estão no
421º n.º 2 CC: atribui ao titular do direito o poder de propor a acção.

Coloca-se a questão de determinar se o pacto de preferência com eficácia real dá


origem a um direito real de aquisição ou um direito obrigacional com eficácia
equiparada ao direito real: opta-se pela segunda via: direito obrigacional com eficácia
equiparada ao direito real.

Análise do regime do não cumprimento do pacto de preferência

a) pode suceder que o obrigado á preferência omite a notificação ao titular


do direito

b) pode suceder que A cumpra defeituosamente a obrigação de notificar B

c) pode suceder que A cumpra bem a obrigação de notificar, mas não


cumpra o prazo necessário para que B diga se que preferir

d) pode suceder que A notifica B, este diz que quer preferir: A não se
importa e vende a coisa a C

e) pode suceder que A cumpra a obrigação de notificar, mas vende em


condições mais favoráveis do que as acordadas

A consequência do não cumprimento da obrigação de preferência depende se o


pacto de preferência tem:
 eficácia meramente obrigacional: as consequências reconduzem-
se ao dever de indemnizar: nos termos gerais do 798º e ss
 eficácia real: o titular do direito de preferência pode exigir
indemnização por danos moratórios e pode propor uma acção de
preferência (1410º)

A acção de preferência tem dois requisitos:


o deve ser proposta nos 6 meses subsequentes à data em que o
titular do direito teve conhecimento dos elementos essenciais da
alienação
o o preço deve ser depositado nos 15 dias subsequentes à
propositura da acção
A acção de preferência deve ser intentada contra o obrigado à preferência e o
terceiro: litisconcórcio necessário passivo.

147
Direito das Obrigações

Efeitos da acção de preferência: consiste em o titular do direito haver para si a


coisa alienada: o titular do direito substitui-se ao terceiro.
A - - - 01.1996 - - - B = acção de preferência em 02.2006
|- - - CCV - - - C
É como se o contrato entre A e C não existisse e tivesse sido celebrado entre A e
B.

Contratos: tipos especiais: contrato-promessa e pacto de preferência

EFEITOS DO CONTRATO

Ter em conta que no nosso sistema jurídico, o contrato tem efeitos obrigacionais
e reais.
Quanto aos efeitos obrigacionais: a ideia fundamental resume-se no princípio da
força vinculativa do contrato. Este projecta-se:
o nas relações entre as partes: concretiza-se em 3 princípios:
 princípio da pontualidade (406º n.º 1 CC): o contrato
deve ser pontualmente cumprido
 princípio da intangibilidade do conteúdo (406º n.º 1 CC):
o contrato só pode modificar-se por mútuo consentimento
das partes ou por força da lei
 princípio da irretractabilidade ou irrevogabilidade do
vínculo (406º n.º 1 CC): o contrato só pode extinguir-se
por mútuo consentimento das partes ou por força da lei
o nas relações com terceiros: o princípio da força vinculativa
concretiza-se no princípio da relatividade do contrato (406º n.º
2): o contrato não produz efeitos em relação a terceiros.

No direito civil português, os contratos dirigidos à constituição ou transmissão


de direitos reais têm eficácia real: 408º.
O 409º CC admite a conclusão do contrato com cláusula de reserva da
propriedade.

2ª FONTE DAS OBRIGAÇÕES: NEGÓCIOS UNILATERAIS

Os negócios jurídicos podem ser:


o bilaterais (ou contratos)
o unilaterais: há um só declaração de vontade ou várias declarações
de vontade no mesmo sentido

457º CC: princípio do contrato: os negócios jurídicos unilaterais só são fonte de


obrigações nos casos previstos na lei.
Fundamentos do 457º CC: o negócio jurídico unilateral é onde se emite uma
declaração de vontade que não é aceite por nenhuma contraparte: neste caso, não faria
sentido que o declarante (A) ficasse vinculado.

148
Direito das Obrigações

Os negócios unilaterais só vinculam nos casos previstos na lei.


A consequência do princípio do contrato é o princípio da tipicidade dos negócios
jurídicos unilaterais: só constituem fonte de obrigações nos casos previstos na lei. O CC
só contempla um caso de negócio jurídico constitutivo de relações obrigacionais: 459º e
ss: promessa pública.
A promessa de pagamento é tão só a inversão do ónus da prova: não constitui
nem cria uma obrigação: faz tão só com que se presuma a existência de uma obrigação
anterior.
462º CC: caso de concurso público.
O único negócio jurídico unilateral previsto na lei é a promessa pública = 459º:
consiste na declaração feita mediante anúncio divulgado entre os interessados pelo qual
se promete gratificação ou recompensa a quem se encontre em determinada situação ou
pratique determinado acto, positivo ou negativo.
A obrigação constituída por promessa pública não implica aceitação pelo credor:
459º n.º 2.
460º e 461º: prazo de validade da promessa e sua revogação.
A relevância dos negócios jurídicos unilaterais é pouca.

3ª FONTE DAS OBRIGAÇÕES: GESTÃO DE NEGÓCIOS

464º CC: noção de gestão de negócios: caracteriza-se pela entrada de uma


pessoa na esfera jurídica sob o signo da cooperação com ela. Pex: não me posso
inscrever num exame, um amigo meu vai lá fazê-lo por mim, no meu interesse.
Conciliar dois direitos: direito que não pretende que haja interferência abusiva
(tendência restritiva), mas pretende favorecer actos de cooperação ou solidariedade
(tendência expansiva).
Face ao 464º, para haver gestão de negócios devem conjugar-se 3 requisitos:
a) o gestor deve assumir a direcção do negócio alheio
b) a direcção do negócio alheio deve ser feita no interesse e por conta do
respectivo dono
c) a direcção do negócio alheio deve ser feita sem autorização

a) tem significado específico: abrange negócios jurídicos, actos em sentido


restrito e actos materiais (como a reparação da casa). Para o 464º, negócio alheio é
sinónimo de assunto ou interesse alheio.

b) é o requisito da intencionalidade da gestão: o gestor deve ter a consciência e


intenção de actuar no interesse e por conta de outrem. Se há danos, aplicam-se as regras
da responsabilidade civil. Se não houver danos aplicam-se as regras do enriquecimento
sem causa: 472º CC. Se agir na convicção da gestão do negócio, aplica-se o 472º.

Há duas formas de intervenção do gestor:


 pode intervir actuando em nome próprio: há uma gestão não
representativa
 pode intervir actuando em nome alheio: há uma gestão
representativa
471º CC

149
Direito das Obrigações

c) Inexistência de qualquer relação jurídica que atribua ao gestor o direito ou lhe


imponha o dever de dirigir os assuntos ou interesses do dono do negócio. Assim, se há
representação, aplicam-se as regras da representação, e não da gestão de negócios.

29.03.2006
(Teórica)

Efeitos:
1. relação entre o dono do negócio e o gestor
2. relação entre o dono do negócio e terceiros

Relação entre o dono do negócio e o gestor: devemos distinguir dois grupos de


direitos e deveres:
a. deveres do gestor para com o dono do negócio (465º e 466º):
b. deveres do dono do negócio para com o gestor.

 Deveres do gestor para com o dono do negócio: enunciam um conjunto de


deveres: sobressaem dois:
 dever de fidelidade ao interesse e vontade do dono do negócio:
465º a)
 dever de continuar a gestão: 466º in fine
465º a): o gestor deve conformar-se com a vontade real ou presumível do dono
do negócio: dá-nos um duplo padrão para avaliar a conduta do gestor:
 conformar-se com o interesse e vontade do dono do negócio
 deve afastar-se desse interesse quando contrário à ordem pública e bons
costumes
O 466º consagra implicitamente um dever de continuar a gestão: dizendo que o
gestor é responsável pelos prejuízos.
O gestor não está obrigado a iniciar a gestão, mas iniciando-a, não é livre de a
interromper.

Razões de ser de continuar a gestão: são 3:


o evita as indefinições irreflectidas nos assuntos ou interesses
alheios
o a entrada de uma pessoa na esfera jurídica de outra tem como
consequência afastar outras: justifica-se que quem toma a
iniciativa de agir se responsabilize
o os prejuízos do abandono são mais graves dos que ocorrem da
não gestão
Face a isto, o 466º consagra aquele dever.

O 466º disciplina a responsabilidade do gestor: diz que responde pelos danos


que der causa por culpa sua. O n.º 2 do 466º usa a conformidade da gestão com o
interesse do gestor do negócio como critério de culpa.

150
Direito das Obrigações

O 466º n.º 2 resolve um problema de ilicitude: a conformidade da gestão com o


interesse do dono do negócio é o critério de licitude ou ilicitude da gestão. Resolve
apenas o problema da ilicitude: fica em aberto o problema da culpa.

Quanto à gestão de negócios, há duas teses:


 quem diz que a culpa do gestor deve ser apreciada em abstracto: o
gestor deve dar prova da diligência de um Homem médio na
gestão de assuntos de interesse alheio
 quem diz que a culpa do gestor deve ser apreciada em concreto:
deve usar o gestor os cuidados habituais na direcção dos seus
próprios assuntos como na direcção dos seus próprios interesses

Para Antunes Varela, deve ser apreciada a culpa em concreto: o gestor entra na
esfera jurídica de outrem sob o signo da cooperação: para auxiliar o dono do negócio.
Não seria razoável exigir-se ao gestor mais cuidado do que aquele que usa para cuidar
dos seus próprios assuntos e interesses.
Na responsabilidade civil, aplica-se o critério da culpa em abstracto: 487º,
aplicável à responsabilidade contratual.
Na gestão de negócios, aplica-se o critério da culpa em concreto.
Entre responsabilidade civil e gestão de negócios haveria esta diferença.

A tese que diz que a responsabilidade do gestor há-de ser aplicada em concreto é
correcta: há duas restrições:
a. nos casos onde a gestão de negócios corresponde à actividade
profissional do gestor, deve aplicar-se o critério da culpa em abstracto
b. quando a gestão de negócios de uma pessoa faz com que outras se
afastem ou retirem, o gestor deve actuar com a diligência de uma pessoa
média ou normal

 Deveres do dono do negócio para com o gestor: devemos distinguir


consoante:
1ª hipótese: há aprovação da gestão: 468º e 469º e 470º
2ª hipótese: não há aprovação da gestão:
 gestão regular: 468º n.º 1
 gestão irregular: 468º n.º 2

Aprovação consiste num juízo global, genérico ou indiscriminado de


concordância com a actuação do gestor emitida pelo dono do negócio.

A 1ª hipótese tem 3 consequências:


1. a aprovação da gestão implica a renúncia do dono do negócio ao direito à
indemnização dos danos decorrentes da culpa do gestor: 469º n.º 1
2. a aprovação da gestão implica o reconhecimento de dois direitos do
gestor (ou dois deveres do dono do negócio).
 O dever de reembolsar o gestor de toas as despesas que este
fundadamente tenha considerado indispensáveis
 O dever de indemnizar o gestor dos prejuízos qu8e ele tenha
sofrido por causa da gestão

151
Direito das Obrigações

3. quando a gestão corresponda ao exercício da actividade profissional do


gestor, a aprovação implica o reconhecimento do dever de remuneração
do gestor: 468º

2ª hipótese: a gestão é regular quando está de acordo com o interesse ou vontade


real ou presumível do dono do negócio; é irregular quando não está.
Caso seja regular, aplica-se o 468º n.º 1: a gestão regular tem os efeitos
equivalentes da gestão aprovada: não há dever de indemnização; o dono do negócio
deve reembolsar o gestor e indemnizar pelos prejuízos da gestão; o dono do negócio tem
o dever de remunerar o gestor.
Quando é irregular: o 468º n.º 2 remete para o regime do enriquecimento sem
causa.

Relação entre o dono do negócio e terceiros: temos de distinguir diferentes


situações:
1ª hipótese: gestão representativa: 471º  268º
2ª hipótese: gestão não representativa: 471º  1180º e ss

A gestão é representativa quando o gestor actua em nome do dono do negócio


(aplicam-se as regras do 268º); é não representativa quando o gestor actua em nome
próprio (aplicam-se as regras do 1180º e ss).

1ª hipótese: o 268º distingue duas situações.


o Caso o dono do negócio o ratifique, o negócio jurídico produz
efeitos na esfera jurídica do dono do negócio como se tivesse sido
praticado por si
o Caso o dono do negócio não o ratifique, o negócio jurídico não
produz efeitos na sua esfera jurídica

Coloca-se o seguinte problema: quando não ratifica, o negócio não produz


efeitos em relação nem ao dono do negócio, nem em relação ao gestor. O gestor só
responderá nos termos da responsabilidade pré-contratual: o terceiro só terá protecção
dos seus interesses com a aplicação das regras dessa responsabilidade.

2ª hipótese: a aplicação do 1180º e 1181º faz com que se diga que o dono do
negócio, actuando em nome próprio, adquire os direitos e obrigações emergentes da
gestão com duas restrições:
 o gestor tem o dever de transferir para o dono do negócio os
direitos adquiridos
 o dono do negócio pode substituir-se ao gestor no exercício dos
direitos em causa contra terceiros

Nas relações entre gestor e dono do negócio fala-se de aprovação; aqui, fala-se
de ratificação.
Aprovação consiste num juízo de conformidade da actuação do gestor com o
interesse e vontade do dono do negócio.

152
Direito das Obrigações

Ratificação consiste numa declaração de vontade pela qual alguém chama a si


ou faz seu um negócio jurídico realizado por outrem em seu nome, mas sem poderes de
representação.
O âmbito de aplicação é diferente: a aprovação abrange actos materiais,
negócios jurídicos, actos jurídicos em sentido estrito; a ratificação só diz respeito a
negócios jurídicos.
Coloca-se o problema de saber se, quando a gestão envolve a contenção de
negócios jurídicos, será admissível uma aprovação sem ratificação ou uma ratificação
sem aprovação?
Em termos lógicos, nada obsta a que haja um sem o outro: ambos os casos são
possíveis. Mas deve-se ter em conta o princípio da boa fé: ratificar sem aprovar ou
aprovar sem ratificar pode ir contra os princípios da boa fé.

ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA


473º e ss

O 473º contém uma noção aproximada de enriquecimento sem causa: há


enriquecimento sem causa quando o património de uma pessoa se desvaloriza à custa de
outrem sem que para tal exista uma causa justificativa.
O enriquecimento sem causa é um facto constitutivo das relações jurídicas
obrigacionais: gera uma obrigação de restituir: é imposta a quem enriquece à custa de
outrem sem causa justificativa.
O enriquecimento sem causa assume a função de evitar a consolidação definitiva
no património do enriquecido de uma vantagem patrimonial que não está de acordo com
a ordenação da ordem jurídica dos bens.
Obtendo uma vantagem patrimonial sem causa justificativa, deve-se restituir o
que foi atribuído.

Requisitos do enriquecimento sem causa:


1. enriquecimento
2. à custa de outrem
3. sem causa justificativa

ENRIQUECIMENTO: consiste na obtenção de uma vantagem de carácter


patrimonial, seja qual for a forma que revista. Consiste num aumento do activo, ou
numa diminuição do passivo.
Coloca-se o problema relacionado com a diferença entre:
 enriquecimento patrimonial: tem a ver com o valor subjectivo dessa
coisa ou direito, com a repercussão dessa vantagem no património do
enriquecido. Corresponde à diferença entre a situação em que o
património do enriquecido se encontra hoje (situação real) e a situação
em que esse mesmo património se encontraria se não se tivesse
verificado o evento que obriga à restituição (situação hipotética)
 enriquecimento real: corresponde ao valor objectivo da coisa ou direito
A qual dos dois enriquecimentos deve atender-se?
A orientação preponderante é a de que deve atender-se ao enriquecimento
patrimonial.

153
Direito das Obrigações

À CUSTA DE OUTREM: não coloca dificuldades: em regra, as situações de


enriquecimento sem causa têm a ver com alguém que enriquece e alguém que
empobrece.
O problema surge quando o enriquecimento de uma pessoa se dá sem ninguém
empobrecer: pex, quero arrendar casa e vou viver para a casa de um amigo que não
estava de todo interessado em arrendar o apartamento: vou enriquecer sem que o meu
amigo empobreça. Nestes casos, pode dizer-se que há enriquecimento sem causa?
A resposta é dada pela teoria do conteúdo de afectação ou destinação dos bens
absolutamente protegidos: diz que o titular de uma coisa ou direito absolutamente
protegido deve receber, em princípio, todas as vantagens que essa coisa ou direito lhe
pode proporcionar. Quando alguém usa essa coisa ou direito em proveito próprio,
desviando as vantagens patrimoniais do proprietário ou titular, consegue um
enriquecimento à custa de outrem.
Embora não haja empobrecimento, há enriquecimento à custa de outrem.

SEM CAUSA JUSTIFICATIVA: o enriquecimento diz-se sem causa justificativa


quando, de acordo com a correcta ordenação jurídico-económica dos bens, ele deve
pertencer a outrem. Face a um caso de enriquecimento, o aplicador de direito deve
considerar os critérios legais relacionados com a correcta ordenação dos bens para saber
se há ou não causa justificativa.

A estes 3 requisitos devem acrescentar-se mais dois:


 imediação: não está prevista na lei
 subsidiariedade da obrigação de restituir fundada no enriquecimento sem
causa: 474º CC

30.03.2006
(Teórica)

Os requisitos do 473º devem ser completados por mais dois:


 imediação: não está prevista na lei
 subsidiariedade da obrigação de restituir fundada no enriquecimento sem
causa: 474º CC

IMEDIAÇÃO: diz que o enriquecimento há-de ser obtido imediatamente à custa


de outrem.
A acção de enriquecimento sem causa pode ser usada para enriquecimentos
obtidos indirecta ou imediatamente?
Não: o enriquecimento sem causa só deve ser usado para obter restituição de
enriquecimento obtido directa ou mediatamente.
O argumento é a contrario senso do 481º CC: em caso de alienação gratuita, o
adquirente é obrigado a restituir. O artigo 481º constitui uma disposição excepcional:
extrai-se a contrario senso um regime regra oposto: o 481º admite excepcionalmente
uma obrigação de restituir: o regime regra é o oposto: inadmissibilidade de restituir o
enriquecimento obtido mediatamente através de ___ patrimoniais.

154
Direito das Obrigações

604º: princípio da igualdade dos credores: os credores encontram-se todos, em


princípio, na mesma posição.

Outro argumento extraído do princípio da protecção do enriquecido contra um


enriquecimento forçado: não é certo o senhorio pagar as obras realizadas pelo inquilino.

O enriquecimento por vantagens patrimoniais indirectas não deve ser objecto de


restituição.

SUBSIDIARIEDADE DA OBRIGAÇÃO DE RESTITUIR FUNDADA NO


ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA: 474º CC
O 474º distingue 3 casos onde não há restituição nestes moldes:
 aquele onde a lei atribui ao empobrecido outro meio de ser indemnizado
ou restituído
 lei nega o direito à restituição
 lei atribui outros efeitos ao enriquecimento
O primeiro é o mais importante: o 474º afasta a acção de restituição fundada em
enriquecimento sem causa quando a lei dá ao empobrecido outro meio de ser
indemnizado ou restituído.
Quando estão preenchidos os pressupostos do regime da invalidade e do
enriquecimento sem causa, as regras do regime da invalidade afastam as regras do
enriquecimento sem causa.
Quando há resolução do contrato, as suas regras afastam as regras do
enriquecimento sem causa.
Quando há gestão de negócios, as regras relativas à gestão de negócios afastam
as regras do enriquecimento sem causa.
No caso de concurso entre enriquecimento sem causa e responsabilidade civil o
problema é mais complexo: há duas formas:
 pode suceder que os danos indemnizáveis pela responsabilidade civil
seja inferiores ao enriquecimento: o empobrecido deverá propor uma
acção fundada simultaneamente na responsabilidade civil e no
enriquecimento sem causa
 se o enriquecimento é igual ou inferior ao dano: a intervenção do
enriquecido na esfera jurídica de outrem causa danos de 1000 e dá lucros
de 100. Nestes casos, o empobrecido deve invocar as regras da
responsabilidade civil a título principal e regras de enriquecimento sem
causa a título secundário. As razões para isso são 3:
1. o autor fica protegido para o caso de não conseguir provar o
preenchimento dos pressupostos da responsabilidade civil
2. a invocação de um duplo fundamento faz com que o enriquecido
fique protegido para o caso da obrigação de indemnizar fundada
na responsabilidade civil prescrever sem que a obrigação de
restituição fundada no enriquecimento sem causa tenha prescrito
O prazo da indemnização e de restituir é igual: 3 anos. O modo como se conta é
que é diferente: 482º.
498º: entre estes artigos há uma diferença: no 482º o prazo conta-se a partir da
data em que o autor teve conhecimento do seu direito e da pessoa responsável. No 498º,
o prazo conta-se a partir do momento em que o credor teve conhecimento do seu direito,
independentemente de conhecer ou não a pessoa responsável.

155
Direito das Obrigações

Face a isto, o direito a indemnizar pode prescrever sem que o direito a


indemnizar fundado no enriquecimento sem causa prescreva.
3. no domínio da responsabilidade civil aplica-se o 494º: obriga o
juiz a fixar a indemnização em montante inferior aos danos. Pex:
danos de 1000 e enriquecimento de 900. O 494º autoriza o juiz a
fixar a indemnização em 800.

3 casos especiais de enriquecimento sem causa previstos na lei

473º n.º 2: prevê dois casos de enriquecimento sem causa:


1. repetição do indivíduo
2. enriquecimento por falta do resultado previsto: 483º

Repetição do indivíduo:
 476º a 478º: 2 casos de repetição do indivíduo:
 476º: casos de cumprimento de obrigações objectivamente inexistentes: o
empobrecido paga uma obrigação que não existe
 477º/478º: cumprimento de obrigações subjectivamente inexistentes: o
empobrecido paga uma dívida alheia:
 Julgando que era uma dívida própria: 477º
 Na convicção de estar obrigado a pagá-la: 478º
 473 n.º 2: diz que a obrigação de restituir fundada em enriquecimento sem
causa tem por objecto o que foi indevidamente recebido

476º n.º 1: 3 requisitos da repetição do indivíduo por cumprimento de obrigações


objectivamente inexistentes:
o intenção de cumprir uma obrigação
o inexistência da obrigação no momento de prestação. Pode
verificar-se 3 coisas:
 obrigação não existe
 obrigação existe e tenha um conteúdo inferior à prestação
realizada
 obrigação existe mas esteja sujeita a uma condição ou
termo e a prestação foi efectuada antes do preenchimento
de condições ou vencimento do termo (476º n.º 3: casos
onde há erro desculpável)
O empobrecido só pode exigir a restituição daquilo com que o credor haja
enriquecido por consequência do cumprimento antecipado: o devedor pode exigir os
dividendos da acção.
o inexistência de uma obrigação natural do autor da prestação por
detrás do cumprimento

477º e 478º contemplam 2 hipóteses diferentes: cumprimento de obrigações


alheias:
1. na convicção que é própria: previsto no 477º. Pex: A morre e tem como
único familiar um sobrinho; o património de A está onerado por duas
dívidas: 10000 € e 20000 €. O sobrinho, convencido que é o herdeiro,
paga as duas dívidas. A fez um testamento e não lhe deixou nada: neste

156
Direito das Obrigações

caso, houve cumprimento de obrigação alheia na convicção que é


própria.
O 477º enuncia a regra que quem, por erro desculpável, cumprir obrigação
alheia julgando-a própria goza de direito de repetição: excepto o previsto no 477º 2ª
parte: 2 requisitos:
 desconhecimento do erro
 o 477º n.º 1 2ª parte exige que o direito do credor se tenha
tornado mais fraco/precário
Exclui-se o direito à restituição quando o crédito se tenha tornado mais fraco.
2. na convicção que se está obrigado a cumpri-la: pex: alguém que julga
que é fiador de outrem, e, na realidade, não é. Nestes casos, há duas
pessoas que ficam enriquecidas: o credor e o devedor (que ficou
exonerado da dívida).
O 478º diz que, neste caso, o fiador não tem um direito contra o credor: apenas
tem um direito contra o devedor; exceptuam-se os casos onde o credor sabia que o
fiador não estava obrigado a cumprir aquela dívida.

Enriquecimento por falta do resultado previsto:


Pex: A compra e paga viagem para um determinado país; há golpe de estado
nesse estado e desiste da viagem: há enriquecimento sem causa do agente.

483º: 3 requisitos:
I. a prestação deve ter-se realizada em vista de um especial resultado futuro
II. o resultado deve corresponder ao conteúdo do negócio
III. o resultado em causa não deve produzir-se
Quando preenchidos os 3 requisitos, o empobrecido tem direito à restituição,
excepto nos casos do 475º CC.

479º CC: diz 2 coisas:


 a regra é da restituição em espécie; se não for possível a
restituição em espécie, deve fazer-se uma restituição por
equivalente
 a obrigação de restituir compreende tudo quanto se tiver obtido à
custa do empobrecido
O 1º limite é “tudo quanto se tiver obtido” e corresponde ao enriquecimento: é o
enriquecimento patrimonial, o enriquecimento efectivo e o enriquecimento actual: 480º
CC.
O 2º limite é “à custa do empobrecido”: causa mais problemas: nos casos de
ingerência ou intromissão em coisas ou direitos alheios.
Pex: um atleta faz uma campanha para telemóveis por 100 000 €. Os lucros
obtidos são de 200 000 €.
Há duas teorias:
o Teoria do duplo limite da obrigação de restituir: Dr. Pereira
Coelho e Almeida Costa: os princípios do enriquecimento sem
causa obrigam o interventor a restituir o lucro da intervenção ao
titular do direito até ao limite do dano real sofrido por este.
Na parte excedente, o lucro não tem de ser restituído, pertencendo ao
interventor.
O dano real é o valor objectivo ou de uso dos bens consumidos ou alienados.

157
Direito das Obrigações

o Antunes Varela: os princípios do enriquecimento sem causa


obrigam o interventor a restituir todo o lucro da intervenção;
exceptua-se a medida do lucro da intervenção decorrente das
qualidades patrimoniais do enriquecido.

Deve preferir-se a segunda teoria: por 3 razões:


1. o 479º n.º 1 usa as palavras “tudo quanto se tenha obtido”  causa a
impressão que todo o enriquecimento deve ser restituído
2. a primeira teoria teria resultados indesejáveis: faria com que fosse lícito
interferir nos bens jurídicos de outrem obrigando o proprietário a
arrendá-los ou vendê-los: incompatível com o princípio da autonomia
privada
3. o instituto do enriquecimento sem causa tem por objectivo apagar o
enriquecimento obtido por conta de outrem: a segunda teoria é mais
compatível com esta ideia.

05.04.2006
(Teórica)

Prescrição:
482º: prazo especial
309º: prazo ordinário

O prazo de 3 anos do 482º começa a contar-se na data em que o credor teve


conhecimento do seu direito.
O prazo de prescrição ordinário de 20 anos começa a contar-se na data em que
a restituição pode ser exigida.
Os dois prazos funcionam independentemente um do outro e a obrigação de
restituir fundada no enriquecimento sem causa termina quando um deles prescrever.

Pex: deslocação patrimonial ocorreu em 10.01.1985.


O empobrecido só teve conhecimento do seu direito em 10.01.1995
O direito à restituição prescreve em 1998: 3 anos após o conhecimento do
direito.

Pex: 10.01.1985: deslocação patrimonial


10.01.2003: conhecimento do seu direito
A obrigação de restituir prescreveria em 2005: nos termos do 309º: 20 anos após
1985.

158
Direito das Obrigações

Responsabilidade por factos ilícitos


Responsabilidade pelo risco
Responsabilidade por factos lícitos

RESPONSABILIDADE POR FACTOS ILÍCITOS

Face ao CC, a responsabilidade por factos ilícitos exige o preenchimento de 5


pressupostos:
1. facto
2. ilicitude
3. nexo de imputação do facto ao lesante
a. imputabilidade
b. culpa
4. dano
5. nexo de causalidade entre o facto e dano

FACTO: pode surgir sob duas formas:


o acção
o omissão
O facto é uma conduta controlável ou dominável pela vontade humana. Pode
ser:
 positiva (= acção)
 negativa (= omissão)

Responsabilidade por omissões: 486º CC: para haver esta responsabilidade, é


necessária a existência de um dever de agir: o 486º enuncia duas fontes desse dever de
agir:
 lei: este conceito de lei deve ser interpretado em termos amplos
para abranger normas de direito privado e de direito público (pex,
normas de direito penal)
 negócio jurídico

A formulação do 486º é uma violação demasiado estranha, restritiva: por isso


desenvolveu-se a Doutrina dos Deveres de Prevenção do Perigo (ou de Segurança no
Tráfico): diz que quem crie ou controle uma situação de perigo para os direitos ou
interesses de outrem tem o dever de adoptar todas as medidas de segurança necessárias
para evitar a consumação dos danos decorrentes de tal situação de perigo.
Pex: quem atropela uma pessoa não pode deixá-la abandonada na estrada.
O dever de agir poderá fundar-se ou na lei, ou no negócio jurídico, no dever de
segurança do tráfico.

12.04.2006
(Prática)

159
Direito das Obrigações

Caso I

Temos um contrato de promessa de arrendamento entre A e B. A celebrou outro


contrato-promessa sobre o mesmo imóvel com C.
Poderá B intentar uma acção de execução específica?

Contrato-promessa: 410º CC: contrato bilateral pois os dois se comprometem a


celebrar o contrato prometido.
Quanto à forma: contrato escrito e assinado por ambas as partes: 410º n.º 2: a
forma foi cumprida.

Acção de execução específica: com ela pretende-se obter uma sentença que
substitua a declaração negocial do promitente faltoso: 830º.
Requisitos da execução específica:
o que não haja declaração em contrário
o que a execução específica não se oponha á natureza da obrigação
assumida
o que haja não cumprimento do contrato-promessa (que pode ser
sob a forma de mora ou não cumprimento definitivo)

Mora: consiste num atraso no cumprimento: 804º CC.


No nosso caso, não temos prazo. Não havendo prazo, o devedor constitui-se em
mora depois da interpelação do devedor: no nosso caso não se verifica!
Resta-nos saber se há não cumprimento definitivo: quando há contrato por um
terceiro A não se encontra impossibilitado de arrendar a B.
O promitente-vendedor pode comprometer-se quantas vezes quiser.
Pelo facto de haver um contrato-promessa de arrendamento, há não
cumprimento definitivo.
Estas situações indiciam por parte do promitente-vendedor uma intenção de não
realizar a promessa: logo, equipara-se a não cumprimento definitivo do contrato-
promessa.

Depois é necessário que não exista convenção em contrário: 830º n.º 1: existe se
houver sinal ou se tiver sido fixada uma pena para o caso de não cumprimento.
O sinal é uma coisa entregue (dinheiro ou outra coisa fungível ou infungível)
por parte de um dos contraentes a outro como prova da seriedade do seu propósito
negocial e garantia do cumprimento (sinal confirmatório) ou como antecipação da
indemnização devida no caso de se arrepender de celebrar o negócio (sinal penitencial).

441º: nos contratos-promessa de compra e venda, este artigo presume que a


quantia entregue tem carácter de sinal: como estamos perante um contrato-promessa de
arrendamento não se aplica a presunção deste artigo: não se presume que o dinheiro
entregue seja um sinal.
Se é ou não sinal depende da interpretação da vontade das partes. Se se concluir
que as partes lhe deram carácter de sinal, temos ainda de diferenciar duas hipóteses:
 sinal penitencial: esse sinal afasta a execução específica
 sinal confirmatório: não afasta a execução específica: a presunção
do 830º n.º 2 fica elidida: o 830º n.º 2, ao afastar a execução
específica, presume que o sinal é penitencial.

160
Direito das Obrigações

Se se concluir que os 2000 € não são sinal, não temos obstáculo à execução
específica.

3º requisito: que a execução específica não se oponha à natureza da obrigação


assumida: neste caso, não se coloca problemas.

Que direitos teria C?


Indemnização por não cumprimento definitivo, calculado nos termos do 798º e
ss.
Não se aplica o 442º, mas sim nos termos gerais do 798º e ss porque não há
sinal: entre A e C não há sinal: se houvesse, a indemnização seria calculada nos termos
do 442º.

E se fosse C a pretender recorrer a este meio jurídico, poderia B, com base no


407º, opor-lhe a prioridade temporal do seu direito?

407º: para direitos pessoais de gozo: prevalece o mais antigo em data.


Através de contratos-promessa constituem-se direitos pessoais de gozo?
Para invocar o 407º, B baseia-se no princípio da equiparação do contrato-
promessa: o 407º aplica-se ao contrato de arrendamento: pelo princípio da equiparação
também se aplicará ao contrato-promessa de arrendamento.
Será mesmo assim?
Discute-se na doutrina a natureza jurídica do direito do locatário: se é ou não um
direito pessoal de gozo. Há divergências porque o 407º refere direitos pessoais de gozo.
Antunes Varela diz que o direito do locatário é um direito pessoal de gozo e tem
natureza obrigacional.
Meneses Cordeiro diz que é um direito real.
Andrade Mesquita diz que é um direito pessoal de gozo, mas estes são direitos
específicos que tem características de direitos reais (devido à característica da
imediação) e características de direitos obrigacionais (porque são direitos relativos).
Os direitos pessoais de gozo têm uma estrutura complexa formada por um
núcleo central constituído pelo direito de retirar determinada utilidade da coisa, e uma
zona periférica constituída pelas obrigações.
O direito pessoal de gozo em sentido estrito seria apenas o núcleo central.

Para quem entende que o direito do locatário é um direito real, entendem que o
407º não é aplicável ao contrato de arrendamento.
Aqueles que entendem que é um direito pessoal de gozo concluem que o 407º se
aplica ao contrato de arrendamento.
Aplicando-se o 407º ao contrato de arrendamento, também se aplicará ao
contrato-promessa de arrendamento, pelo princípio da equiparação ou não?

Andrade Mesquita diz que o 407º refere-se apenas aos direitos pessoais de gozo
em sentido estrito: ao núcleo central dos direitos pessoais de gozo. Quando o 407º diz
que prevalece o direito mais antigo em data, é o direito daquele que, em primeiro lugar,
retira certas utilidades da coisa. Existindo contrato-promessa, o que significa?

161
Direito das Obrigações

Se não houver tradição da coisa objecto do contrato-promessa, considera-se que


o 407º não se aplica ao contrato-promessa de arrendamento (por não haver um direito
pessoal de gozo em sentido estrito).
Se houver tradição da coisa, o promitente-locatário tem um direito pessoal de
gozo em sentido estrito: o 407º aplica-se ao contrato-promessa de arrendamento.

No nosso caso, temos de ver se houve ou não tradição da coisa. Como não houve
tradição da coisa, B não pode opor a C a prioridade temporal do seu direito com base no
407º.

Que direitos teria B?


Indemnização: com base no 798º e ss ou no 442º? Depende se houve ou não
sinal.
B entregou 2000 € a A: mas não sabemos se tem ou não carácter de sinal.
Como não é um contrato-promessa de compra e venda, não podemos presumir
que tem carácter de sinal: irá depender da vontade das partes.
Se não trem carácter de sinal, B poderá ser indemnizado nos termos do 798º e ss.
Se tiver carácter de sinal, restituição do sinal em dobro.

Caso II

a)

Temos de dizer que estamos perante um contrato-promessa: no que consiste:


convenção onde ambas as partes, ou uma delas, se compromete a celebrar um contrato.
O contrato-promessa é um contrato bilateral: A e B comprometem-se. Nos
termos do 410º n.º 2, o contrato-promessa deve constar de documento escrito assinado
por ambas as partes.
No nosso caso, apenas uma das partes assinou: temos o problema da forma:
temos de ver qual foi a parte que assinou!
A validade do contrato-promessa é nula por falta de forma: 220º + 410º n.º 2. Há
uma possibilidade de converter ou reduzir esse contrato-promessa por falta de forma a
uma promessa unilateral válida: duas teorias:
 Teoria da nulidade total com possibilidade de conversão: a
nulidade é total e pode haver conversão nos termos do 293º
 Teoria da nulidade parcial com possibilidade de redução: o
contrato-promessa é parcialmente nulo e susceptível de redução
nos termos do 292º

Em ambas as teses há um aproveitamento do contrato. A diferença tem a ver


com o ónus da prova:
1. na teoria da nulidade total, o ónus de provar a vontade hipotética
ou conjectural das partes no sentido da conversão recai sobre a
parte interessada na conversão, manutenção do negócio = 293º:
promitente-comprador
2. na teoria da nulidade parcial, o ónus de provar a vontade
hipotética ou conjectural das partes no sentido da redução ou
sentido contrário à redução recai sobre a parte interessada na não
manutenção do negócio: promitente-vendedor.

162
Direito das Obrigações

Optamos pela teoria da nulidade parcial com possibilidade de redução:


argumentos: o contrato-promessa bilateral nulo pode reduzir-se a uma promessa
unilateral válida: as obrigações são cindíveis.
Por outro lado, é a solução mais equilibrada nos casos onde o contrato-
promessa é assinado apenas pelo promitente-vendedor: este fica vinculado à promessa:
protege-se o promitente-comprador.
É a solução mais conforme com o princípio da boa fé: o problema da resolução
do negócio jurídico é um problema de integração da declaração negocial. O 239º
consagra a prevalência da boa fé sobre a vontade hipotética ou conjectural das partes.

Apesar do contrato-promessa ser apenas assinado por uma das partes, ficamos
com uma promessa unilateral válida: se A não provar a vontade das partes no sentido da
manutenção do negócio, o promitente-vendedor continua vinculado.

Quanto à forma: promessa unilateral.


Estamos perante um contrato-promessa sobre transmissão de direitos reais sobre
imóvel: aplica-se o 410º n.º 3: seus requisitos.
Na falta de um deles há uma nulidade, mas é uma nulidade atípica: 286º (regime
geral). No entanto, esta é uma nulidade atípica: o promitente-vendedor só pode invocar
a falta destes requisitos se tiver sido culposamente causada pela outra parte: não pode
ser conhecido oficiosamente pelo tribunal e não pode ser invocada por terceiros.

Quanto à execução específica: obtenção de uma sentença que visa produzir os


efeitos da declaração negocial do promitente faltoso.
Requisitos:
 não cumprimento do contrato-promessa: está preenchido
 que a execução específica não se oponha à natureza da obrigação
assumida: está preenchido
 inexistência de convenção em contrário: nos termos do 441º,
presume-se que os 50 000 € têm carácter de sinal.
Neste caso, mão era preciso ver se o sinal é confirmatório ou penitencial: temos
um documento particular (e não com eficácia real): não temos escritura pública.
830º n.º 3: como estamos perante um contrato-promessa onde se aplica o regime
especial do 410º n.º 3, não temos de explicar a natureza do sinal porque a execução
específica não pode ser afastada por vontade das partes: a execução específica é
imperativa nos termos do 830º n.º 3.

B pode exigir a execução específica.


Poderá optar pela resolução do contrato e indemnização pelo não cumprimento?
Temos uma situação de não cumprimento e de mora: 804º e 805º n.º 2 a).
Poderá B optar por uma indemnização pelo não cumprimento?
(Não pode optar pela execução específica e resolução do contrato +
indemnização porque não pode exigir o cumprimento e o não cumprimento +
indemnização)
Temos 3 teses:
1. Antunes Varela: a indemnização do 442º pode ser exigida nos casos de
simples mora
2. Calvão da Silva e Galvão Teles: o 442º só se aplica nos casos de não
cumprimento definitivo do contrato-promessa: havendo mora, deverá ser

163
Direito das Obrigações

transformada em não cumprimento definitivo através do 808º: perda do


interesse ou não cumprimento da obrigação no prazo suplementar fixado
pelo credor.
3. Almeida Costa: o 442º também se aplica aos casos de não cumprimento
definitivo mas para converter a mora em não cumprimento definitivo não
têm de se verificar os requisitos do 808º. Pode converter-se
imediatamente em não cumprimento definitivo por se exigir a
indemnização do 442º.

Se seguirmos a orientação de Antunes Varela, pode resolver o contrato e pedir


indemnização.
De acordo com Calvão da Silva e Galvão Teles, B pode exigir execução
específica e indemnização por danos moratórios ou terá de converter a mora em não
cumprimento definitivo nos termos do 808º, e só depois indemnização nos termos do
442º.
Nos termos da teoria defendida por Almeida Costa, pode transformar de
imediato a mora em não cumprimento definitivo e exigir a indemnização do 442º ou ...
(ver sebenta).

Como se calcula a indemnização do 442º?


O valor da coisa à data do não cumprimento menos o preço estipulado mais o
sinal: 442º n.º 2.
Se optar pela restituição do sinal em dobro, terá direito a 150 000 €.
Se optar pela indemnização do aumento do valor, não sabemos o valor da
indemnização porque não sabemos o valor da coisa à data do não cumprimento: neste
caso, temos de referir como se calcularia.

O promitente-comprador tem, ainda, o direito de retenção: 755º n.º 1 f): não


entregar ao proprietário enquanto não pagar a indemnização do 442º.

b)
temos um contrato-promessa com eficácia obrigacional: temos de ver se a
alienação da coisa foi na pendência da acção de execução específica. Se assim foi, os
direitos do promitente-comprador vão depender do registo da acção de execução
específica:
 Se foi anterior à alienação da coisa de A a C, prevalecem os
direitos de B: do promitente-comprador. Os efeitos da acção de
execução específica retroagem à data do registo da acção de
execução específica
 Se foi posterior á alienação da coisa, prevalecem os direitos do
terceiro, ainda que não tenha registado a sua aquisição: resulta do
Acórdão uniformizador de jurisprudência n.º 4/98.

Se prevalecerem os direitos do terceiro, que direitos tem o promitente-


comprador?
Terá o direito a uma indemnização: como há sinal, a indemnização será
calculada nos termos do 442º:
 restituição do sinal em dobro

164
Direito das Obrigações

 indemnização pelo aumento do valor: terá direito a 175 000 €


(250 000 – 150 000 + 75 000)

c)
temos um pacto de preferência: pacto pelo qual alguém se obriga, em igualdade
de situações, a escolher determinada pessoa como seu contraente no caso de se decidir a
celebrar determinado negócio.
No caso de A se decidir a vender o apartamento, D terá preferência: 414º e ss.

Temos um pacto de preferência com eficácia real: o 421º tem os mesmo


requisitos: preenchidos os requisitos, o pacto de preferência tem eficácia real.
No nosso caso, não sabemos se foi registado: vamos presumir que os requisitos
estão todos preenchidos.

A eficácia real permite ao titular do direito de preferência lançar mão de uma


acção de preferência (1410º): haver para si a coisa alienada a um terceiro.
Aplica-se o 1410º por remissão do 421º+ n.º 2: prazo de 6 meses e tem de
depositar o preço nos 15 dias seguintes a ter sido intentada a acção de preferência.

Nosso caso, D não foi notificado de qualquer negócio ulteriormente celebrado.


Pode reaver para si através de uma acção de preferência e terá de depositar o preço: 150
000 € (relativamente ao primeiro negócio) ou 250 000 € (relativamente ao segundo).
O prazo começa a contar a partir do conhecimento dos elementos essenciais.

A acção deve ser proposta contra o obrigado à preferência (A) r contra o


terceiro: litisconcórcio necessário passivo.

Não está na sebenta:


Não se tem certeza se poderá haver acção de preferência no caso do primeiro
negócio porque o 1410º refere a venda. No nosso caso, A vendeu a C: no espaço de
tempo que temos o contrato-promessa, enquanto não houver venda, não é certo que se
possa lançar mão de uma acção de preferência.

12.04.2006
(Teórica)

Matéria termina dia 27 abril.

Duas aulas abertas:


27 abril: indemnização pela perda de chances na responsabilidade de venda
3 maio: acidentes de viação: 14h

165
Direito das Obrigações

Pressupostos da responsabilidade civil por facto ilícitos:


1. Facto
a. acção
b. omissão: 486º CC
2. Ilicitude
3. Nexo de imputação do facto ao lesante
4. Dano
5. Nexo de causalidade entre o facto e o dano

ILICITUDE: 3 elementos:
 violação de direitos de outrem: consagrado no 483º CC
 violação de disposições legais de protecção: consagrado no
483º CC
 abuso de direito: consagrado no 334º CC

483º CC: quando à violação de direito de outrem colocam-se dois problemas:


1. determinar quais são os direitos de outrem relevantes para efeitos de
aplicação do 483º: os direitos de outrem em causa são direitos
absolutos
2. problema das relações entre a violação de direitos de outrem e ilicitude
Quando o 483º fala de violação ilícita de direitos de outrem causa a impressão
que pode haver violação lícita de direitos de outrem.
Quanto a este problema há duas teorias:
 Teoria da ilicitude da conduta: a violação de direitos de outrem
só é ilícita se houver dolo ou negligência
 Teoria da ilicitude do resultado: diz que a violação de direitos
absolutos de outrem é ilícita, excepto nos casos onde há cláusulas
de exclusão da ilicitude ou causas de justificação
Há uma construção intermédia entre estas duas teorias: teoria que considera que
há uma violação:
o directa ou imediata: se há esta violação, deve distinguir-se se essa
descrição é feita através:
 de tipo aberto: recurso a conceitos indeterminados ou
cláusulas gerais: a ilicitude resultaria numa ponderação de
interesses
 de tipo fechado: aplica-se a teoria da ilicitude do resultado
o indirecta ou mediata: a violação só seria ilícita se houvesse
violação de deveres de prevenção de perigo (ou deveres de
segurança no tráfico).

Qual a relevância prática da segunda modalidade da ilicitude: violação de


disposições legais de protecção?
O seu alcance é reduzido pelo facto do direito civil português consagrar um
direito geral de personalidade. Assim, lesões de bem jurídicos pessoas caem quase
sempre na primeira modalidade de ilicitude (= violação de direitos de outrem).
A relevância autónoma da segunda modalidade relaciona-se com a violação de
bens jurídicos patrimoniais. Uma de duas funções:

166
Direito das Obrigações

 se os bens patrimoniais estão protegidos como bens absolutos, a


segunda modalidade de ilicitude cumpre a função de esclarecer a
prestação proporcionada da primeira modalidade.
O contributo da segunda cláusula delitual do 483º é relevante: a existência de
uma violação de disposições legais de protecção faz presumir a culpa do agente ou do
lesante
 se os bens jurídicos patrimoniais não são protegidos como bens
absolutos, a segunda cláusula cumpre uma função de alargamento
das regras da responsabilidade. A segunda modalidade de
ilicitude alarga o alcance da primeira modalidade: fica a abranger
os danos patrimoniais primários.

3 requisitos cumulativos da 2ª cláusula delitual do 483º:


1. que a lesão dos interesses do particular corresponda à violação de uma
norma legal
2. que a protecção dos interesses do particular constitua um dos fins da
norma legal
3. que o dano deve verificar-se no círculo de interesses que a norma visa
proteger

1. que a lesão dos interesses do particular corresponda à violação de uma


norma legal
Pex: advogado verdadeiro e advogado falso: há responsabilidade do falso
advogado perante o verdadeiro?
Temos de ver se os requisitos se encontram preenchidos: o primeiro está, mas o
segundo e terceiro não estão. Não pode dizer-se que a protecção dos interesses do
advogado em causa constitua um fim da norma violada.

Nos casos de violação de disposições legais de protecção, o ónus da culpa


inverte-se: o lesado não tem o ónus de provar a culpa do lesante. As disposições legais
de protecção são uma concretização do dever de cuidado que deve ser adoptado por um
homem médio: presume-se a sua culpa.

Relação entre as modalidades de ilicitude: a violação de disposições legais de


protecção cumpre a função de limitar a primeira modalidade (violação de direitos de
outrem)?
As leis de protecção do ambiente fixam um limite máximo de ruído: mesmo que
esteja abaixo desse nível, causa danos. Qual das disposições legais deve prevalecer? A
que pela qual se atribui o direito de propriedade (e não a que fica o nível de ruído).
A segunda modalidade nunca tem função de limitar o alcance da primeira.

Abuso de direito: não causa problemas.

As 3 modalidades de ilicitude invocadas constituem 3 cláusulas gerais. O CC


contém duas disposições sobre responsabilidade civil com alcance mais restrito: 484º e
485º.

167
Direito das Obrigações

O 484º considera anti-jurídico a divulgação de um facto que provoque a ofensa


de crédito ou do bom nome.
Ofensa de crédito: quando se divulga um facto capaz de diminuir a confiança na
pessoa, na capacidade de cumprir as suas obrigações.
Ofensa do bom nome: quando se afirma ou divulga um facto capaz de diminuir
a consideração ou prestígio da pessoa no meio social em que vive ou exerce a sua
actividade.
Saber se afirmação ou divulgação de factos deve considerar-se anti-jurídico.
Antunes Varela: sim.
Outros: não, porque o crédito e bom nome da pessoa são definidos através de
cláusulas gerais. Quanto a estes direitos, a apreciação da existência de ilicitude faz-se
através de uma ponderação de interesses.

485º causa a impressão que os conceitos abordados no artigo são irrelevantes


para a responsabilidade civil. Este artigo deve interpretar-se de forma a dizer tão só que
só há responsabilidade por conselhos ... quando os princípios gerais da responsabilidade
o impuserem.

NEXO DE IMPUTAÇÃO DO FACTO AO LESANTE


1. imputabilidade
2. culpa

Imputabilidade é a capacidade natural das pessoas para prever os efeitos e


medir o valor dos seus actos e para se determinar de harmonia com o juízo que faça
acerca destes.
Este conceito abrande dois elementos:
 intelectual: capacidade de entender: capacidade natural das
pessoas para prever os efeitos e medir o valor dos seus actos
 volitivo: capacidade de querer: capacidade para se determinar de
harmonia com o juízo que faça acerca destes.
O 488º consagra a regra da irresponsabilidade dos inimuptáveis. Alude ao
conceito de imputabilidade. O n.º 2 presume a inimputabilidade dos menores de 7 anos
e interditos por anomalia psíquica.
Esta presunção pode ser afastada por prova em contrário.

Quais as consequências da inimputabilidade?


Duas hipóteses:
1. o inimputável encontra-se sujeito à vigilância de outras pessoas: aplica-
se o 491º: pede-se indemnização à pessoas obrigadas à vigilância
2. não há pessoas obrigadas à vigilância ou havendo não podem pagar: em
regra, o dano fica sem indemnização. Este regra pode conduzir a
resultados injustos.

O 489º prevê tais casos: consagra um desvio em relação à regra: 4 requisitos do


489º:
 devem encontrar-se preenchidos os requisitos da responsabilidade
por factos ilícitos independentes da imputabilidade

168
Direito das Obrigações

 o facto deve ter sido praticado em condições de ser considerado


culposo e, nas mesmas condições, tiver sido praticado por uma
pessoa imputável. O inimputável não pode ficar em situação pior
que aquela em que ficaria o imputável nas mesmas circunstâncias
 o 489º só se aplicará se a indemnização não puder ser concedida à
custa das pessoas obrigadas à vigilância do inimputável. Isto
pode suceder por duas razões:
 se os abrigados á vigilância alegarem e provarem que
cumpriram o seu dever
 se os obrigados à vigilância alegarem e provarem que os
danos se teriam produzido ainda que tivessem agido
 o 491º exige que haja razões de equidade para que se pune o
inimputável. O juiz não tem o dever de condenar o inimputável;
tem tão só a faculdade de o fazer.

Culpa: duas formas:


o dolo:
 directo: o agente quer o dolo
 necessário: o agente prevê o resultado do ilícito como
uma consequência necessária da sua conduta, e mesmo
assim age
 eventual: o agente representa o resultado ilícito como
consequência eventual da sua conduta e aceita-o: não
confia na não produção desse resultado
o negligência:
 consciente: o agente representa a produção do resultado
ilícito como possível e actua de forma cuidada
 inconsciente: o agente não chega a representar a produção
do ilícito como possível, embora a pudesse representar
caso actuasse com cuidado, segundo as diligências de um
Homem médio

Culpa em concreto: compara-se a conduta do agente na situação concreta com a


sua conduta geral/habitual.
Culpa em abstracto: compara-se a conduta do agente com a conduta de um
Homem médio normal.
487º: o nosso legislador adoptou a culpa em abstracto.

491º/492º/493º contêm 3 presunções de culpa. O lesante tem o ónus da culpa:


aqueles artigos enunciam 3 presunções legais:
1. 491º: presunção de culpa das pessoas obrigadas à vigilância de outrem
2. 492º
3. 493º
Estas presunções, e sobretudo o 493º n.º 2 é muito importante por não haver uma
cláusula geral de responsabilidade pelo risco.
Em caso de actividades perigosas há uma presunção de culpa contra quem
exerça essa actividade: 493º n.º 2.

169
Direito das Obrigações

493º n.º 1 foi para resolver os casos de cães que entravam na auto-estrada: a
BRISA tem uma coisa móvel em seu poder e, consequentemente, tem um dever de
vigilância.
Há uma tendência moderna para redescobrir as presunções de culpa.

DANO:
o patrimoniais
o não patrimoniais: 496º CC

NEXO DE CAUSALIDADE ENTRE O FACTO E O DANO

Há duas teorias:
 teoria da causalidade adequada: causa de um dano é só a
condição que segundo a sua natureza geral se revela apropriada
para o produzir: duas formulações:
 positiva
 negativa (ver apontamentos)
 teoria da condição sine qua non (ou da equivalência das
condições): toda a condição sem a qual o dano não se produziria
deve ser considerada como causa do dano.

26.04.2006
(Prática)

Caso n.º 1

Temos um pacto de preferência: contrato (= é um negócio jurídico unilateral: há


duas ou mais declarações de vontade em sentidos opostos, mas convergentes) unilateral
pelo qual alguém assume a obrigação de, em igualdade de condições, escolher
determinada pessoa (a outra parte ou um terceiro) como seu contraente no caso de se
decidir a celebrar determinado negócio.
Qual a sua eficácia?
Obrigacional porque não estão preenchidos os requisitos do 421º ( 413º):
atribuição de eficácia real ao pacto de preferência.
Como o pacto de preferência foi celebrado por documento particular, falta a
escritura pública: deduz-se que a sua eficácia é meramente obrigacional.
A consequência disso é não poder haver acção de preferência: 421º n.º 2 e 1410º.
Se o pacto de preferência tiver eficácia real, nos casos de não cumprimento,
pode-se lançar mão de uma acção de preferência.
Se o pacto de preferência tiver eficácia obrigacional, em caso de não
cumprimento, apenas se pode pedir uma indemnização.

170
Direito das Obrigações

C aliena a sua quota-parte a F: temos um não cumprimento de um pacto de


preferência: mas como não tem eficácia real, E não pode lançar mão de uma acção de
preferência.
Mas neste caso, mesmo que o pacto de preferência tivesse eficácia real, acontece
que há dúvidas sobre se o titular do direito de preferência poderá ou não lançar mão de
uma acção de preferência. Tem a ver com o facto de se dizer que C aliena a sua quota-
parte por um valor superior ao seu valor real: há simulação (240º CC).

Requisitos da simulação: divergência entre a vontade real e a declarada com


intuito de enganar terceiros e há um acordo declaratório: a simulação pode ser absoluta
ou relativa.
Há uma simulação relativa objectiva sobre o valor do bem.
Negócio simulado: venda por 50000 €.
Negócio dissimulado: venda por 25000 €.
240º n.º 2: o negócio simulado é nulo; e o negócio dissimulado vem no 241º: a
validade do negócio dissimulado não é prejudicada pelo negócio dissimulado.
Nos termos do 241º n.º 2, se o negócio dissimulado constar de forma, só é válido
se cumprida a forma.

Duas posições:
 Para a maioria da jurisprudência, o negócio dissimulado é válido se
cumprida a forma: basta que o CCV do imóvel conste de escritura pública e é óbvio que
o preço que lá vai constar não é o preço real: isso não prejudica a sua validade.
Para eles, o único facto que afasta a acção de preferência é não ter eficácia real.
 Para o Dr. Horster, o negócio simulado é nulo e o dissimulado também será
nulo por não constar o valor real na escritura pública: o negócio dissimulado será nulo
por falta de forma.
Temos aqui dois argumentos para afastar a acção de preferência:
 não tem eficácia real
 mesmo que tivesse eficácia real, o titular do direito de preferência não
pode lançar mão da acção de preferência porque não existe um
condicionalismo válido que é necessário para nascer um direito
potestativo de preferência.
Poderá, então, intentar uma acção de nulidade e intentar acção de preferência
quando houver uma venda a um terceiro válida.

A preferência legal do comproprietário é sempre mais forte do que a do


arrendatário: 1409º n.º 1 CC.
Na preferência legal, se o senhorio resolver vender a casa, o arrendatário pode
preferir: e assim sucessivamente sempre que haja venda da casa: sempre que se realizar
uma venda, ele pode sempre preferir.
Ao passo que na preferência convencional, se o titular do direito de preferência
decidir não preferir, o seu direito extingue-se para sempre.

 A acção de preferência deve ser intentada contra o obrigado à preferência e o


terceiro.

171
Direito das Obrigações

Caso n.º 2

a)
Pacto de preferência: contrato unilateral onde uma pessoa se obriga, em
igualdade de circunstâncias, a escolher determinada pessoa como seu contraente caso se
decida a fazer negócio.
J envia a L carta registada com AR comunicando a sua intenção de contratar
com M  comunicação para preferência através de notificação extrajudicial.

De acordo com Antunes Varela, a notificação extrajudicial deve ser entendida


como uma proposta contratual.
No caso de não preferir, o direito extingue-se.

No nosso caso: o titular do direito de preferência declarou que queria preferir =


isto significa uma aceitação da proposta: devemos distinguir duas coisas:
 se a comunicação para preferência e declaração de preferência
observaram a forma exigida para o contrato definitivo, a declaração para
preferência leva à celebração do contrato definitivo
 se a comunicação para preferência e a declaração de preferência não
observaram a forma exigida para o contrato definitivo: ocorrem duas
situações diferentes:
 se constarem de documento escrito e cumpriram os requisitos
do 410º n.º 2 e 3, temos um contrato-promessa
 se não constarem de documento escrito conforme o 410º n.º 2 e
3, não há contrato-promessa, mas temos uma obrigação de
contratar: J e L estão reciprocamente obrigados a celebrar o
CCV.

Quando J não comparece na data estipulada, temos não cumprimento sob forma
de mora: 804º/805º.

Como temos uma obrigação de contratar, entende-se que ele é susceptível de


execução específica por aplicação analógica do 830º.
Neste caso, L poderá intentar acção de execução específica e pedir indemnização
por danos moratórios, ou, se não quiser, pode pedir indemnização pelo não
cumprimento nos termos do 798º e ss.

b)
A solução seria a mesma porque, havendo comunicação e notificação para
preferência, houve uma obrigação de contratar que é para os dois: é recíproca.
Se fosse L a desinteressar-se, também haveria não cumprimento e também
haveria mora: J poderia lançar mão de uma acção de execução específica por aplicação
analógica do 830º.

Caso n.º 3

Caso de gestão de negócios: 464º e ss.

172
Direito das Obrigações

Requisitos da gestão de negócios:


o negócio alheio (= negócio jurídico e também actos materiais)
o no interesse e por conta do respectivo dono
o sem autorização

A pode reclamar de B o valor do seu trabalho?

470º: em regra, a gestão não dá direito a qualquer remuneração. Excepto se ela


corresponder ao exercício da profissão do gestor.

No nosso caso, não o sabemos. Por isso deve-se considerar os dois casos.
Vemos considerar que corresponde (até porque para mudar as telhas de uma casa
é preciso saber fazê-lo): por isso, terá direito a remuneração nos termos do 470º.
Mas essa remuneração é um dos efeitos da aprovação do negócio: consiste num
juízo global onde o dono do negócio concorda com a actividade do gestor.
Se o dono do negócio aprovar a gestão, terá de remunerar o gestor: 469º + 470º.
Se o dono do negócio não aprovar a gestão, temos de distinguir se a gestão é:
 regular: 468º n.º 1: há remuneração nos mesmos termos que
haveria se houvesse aprovação
 irregular: 468º n.º 2: o dono do negócio responde apenas pelas
regras do enriquecimento sem causa.

Quem deve pagar as telhas e materiais de construção a C?

Este problema situa-se entre o dono do negócio e um terceiro e não interessa


aqui se houve ou não aprovação, se foi ou não regular, …
Temos de saber é se a gestão é:
 representativa: o gestor actua em nome do dono do negócio
 não representativa: o gestor actua em nome próprio

471º: negócio celebrado pelo gestor em nome do dono do negócio (gestão


representativa) o 471º 1ª parte manda aplicar o regime da representação sem poderes
(268º).
Se a gestão representativa, temos de saber se houve ou não ratificação do
negócio (celebrado pelo gestor) pelo dono do negócio.

Ratificação: negócio jurídico unilateral onde alguém chama à sua esfera jurídica
o negócio celebrado por outrem em seu nome sem poderes de representação.

No âmbito da gestão de negócios, se o dono do negócio ratificar o negócio: os


negócios celebrados pelo gestor produzem efeitos na esfera jurídica do dono do
negócio. Os contratos que A celebrou com C produzem efeitos na esfera jurídica de B.
Logo, C terá de exigir o pagamento ao dono do negócio e não ao gestor.
Se não ratificar os negócios celebrados pelo gestor: não se produzem efeitos
na sua esfera jurídica: C não pode exigir o pagamento a B: e não pode exigir o
pagamento ao gestor: a única coisa que pode fazer é exigir uma indemnização por
responsabilidade pré-negocial: 260º.

173
Direito das Obrigações

Se a gestão for não representativa, o 471º 2ª parte remete para o mandato sem
representação: 1180º e ss.

26.04.2006
(Teórica)

RESPONSABILIDADE PELO RISCO

O legislador considera que a existência de ilicitude é sempre uma razão válida


para inverter o princípio casum sentit dominus: para que os danos fiquem com quem os
causou.
Quando não há ilicitude, nem sempre é uma razão bastante para isso.

483º n.º 2: responsabilidade pelo risco cinge-se aos casos expressamente


previstos na lei.

1º CASO DE RESPONSABILIDADE PELO RISCO: responsabilidade do comitente:


500º CC.
Face ao 500º, a responsabilidade objectiva do comitente funda-se em 3
pressupostos:
1. existência de uma relação de comissão
2. na prática de facto no exercício da função
3. responsabilidade do comissário

1. existência de uma relação de comissão


Comissão: actividade ou serviço realizado por conta ou no serviço de outrem.
A relação de comissão exige uma relação de dependência ou subordinação entre
o comitente e o comissário onde o comitente tem o poder de dar ordens ou instruções ao
comissário.

2. na prática de facto no exercício das funções


O 500º n.º 2 permite duas conclusões:
 o comitente responde pelos factos do comissário que
directamente revela o exercício de comissão
 não responde pelos factos do comissário que não tem relação
nenhuma com o exercício das suas funções.
Coloca-se o problema de resolver os casos intermédios entre estas duas
situações: recorrer à Teoria da Causalidade Adequada: o comitente responde pelos
factos que o comissário pratique por causa das suas funções e não responde pelos factos
praticados só por ocasião do exercício das suas funções.
Face à Teoria da Causalidade Adequada, o comitente responde quando o
exercício da comissão, segundo a sua natureza geral, aumenta ou favorece o risco de
produção de um dano; e não responde quando o exercício da comissão, segundo a sua
natureza geral, não aumenta ou favorece o risco de produção daquele dano.

174
Direito das Obrigações

3. responsabilidade do comissário
Pode consistir em:
 responsabilidade por factos ilícitos
 responsabilidade pelo risco
 responsabilidade por factos lícitos
500º n.º 1 in fine designa este terceiro requisito.

500º n.º 3: pressupõe que a responsabilidade do comitente e comissário é uma


responsabilidade solidária: o fundamento legal está no 497º + 499º.
Estando em causa uma responsabilidade solidária, os seus efeitos são:
 no plano das relações externas: o lesado pode exigir indemnização ao
comitente, ao comissário, ou aos dois ao mesmo tempo: 512º n.º 1
 no plano das relações internas (entre o comitente e comissário): há
direito de regresso nos termos do 524º
No que toca ao plano interno, o 500º n.º 3 tem duas regras:
o se há apenas culpa do comissário, o comitente tem direito de
exigir reembolso de tudo quanto tenha pago
o se há culpa dos dois, aplica-se o 497º n.º 2 por remissão do 500º
n.º 3.

2º CASO DE RESPONSABILIDADE PELO RISCO: responsabilidade do Estado e


pessoas colectivas públicas: 501º CC.

Esta responsabilidade pode ser:


 por actos de gestão privada: 501º CC
 por actos de gestão privada: quando estão em causa, aplica-se o
DL 48051/67, de 21 Novembro
O 501º remete para o 500º

3º CASO DE RESPONSABILIDADE PELO RISCO: responsabilidade por danos


causados por animais: 502º CC.

O 502º enuncia os 3 requisitos desta responsabilidade:


1. utilização de quaisquer animais
2. no seu próprio interesse
3. relação de causalidade entre o perigo especial envolvido na utilização de
animais e os danos

1. utilização de quaisquer animais: utilização material ou jurídica

2. no seu próprio interesse: a responsabilidade objectiva do detentor de animais


só se justifica se os usa no seu próprio interesse.

Quais as pessoas em relação às quais estão preenchidos os 2 primeiros


pressupostos:
 titulares de um direito de gozo de animais
 titulares de um direito pessoal

175
Direito das Obrigações

A utilização de animais por contrato de locação tem vantagens para o locador e


locatário. Nos casos de locação, há duas pessoas em relação às quais estão preenchidos
os pressupostos.

3. relação de causalidade entre o perigo especial envolvido na utilização de


animais e os danos: o círculo dos danos indemnizáveis determina-se em função do
perigo especial. Nos termos do 502º, há responsabilidade objectiva se há relação de
causalidade; se não há essa relação de causalidade, não se aplica o 502º.
Exemplos: alguém que tropeça num animal ou alguém que use um animal como
arma.

4º CASO DE RESPONSABILIDADE PELO RISCO: responsabilidade por danos


causados por instalações eléctricas e de gás: 509º e 510º CC.

509º: 3 pressupostos:
1. direcção efectiva da instalação: domínio de facto, com ou sem domínio
jurídico, sobre a instalação
2. utilização da instalação no seu próprio interesse
3. relação de causalidade entre o perigo especial da condução ou
distribuição de energia eléctrica ou gás e os danos

O 509º faz uma distinção entre dois tipos de danos ou prejuízos:


 resultantes da condução ou distribuição de energia eléctrica ou gás: há
uma responsabilidade puramente objectiva que só é afastada em caso de
força maior (esta é uma noção que consta do 509º n.º 2)
 danos decorrentes da própria instalação: responsabilidade objectiva
atenuada: o detentor da instalação de energia eléctrica ou gás não
responde pelo risco em duas situações:
 se os danos são provocados por causa de força maior
 se provar que ao tempo do acidente a instalação estava de
acordo com as regras em vigor e em perfeito estado de
funcionamento
510º: limites da responsabilidade.

O CC inclui a responsabilidade por acidentes de viação na responsabilidade pelo


risco. O problema é complexo porque é uma responsabilidade onde pode haver
responsabilidade por factos ilícitos, pelo risco, e o número de pessoas envolvidas é
enorme: é uma matéria extremamente complexa.
Vamos analisá-la por passos.

I. Responsabilidade por factos ilícitos: casos onde há culpa: 5 pressupostos do


483º CC.
O problema suscitado por esta responsabilidade nos acidentes de viação vem do
493º n.º 2 CC: consagra uma presunção de culpa para actividades perigosas pela sua
própria natureza ou pela natureza dos meios usados.
É o problema de saber se a circulação de automóveis é uma actividade perigosa
pela sua própria natureza ou por causa da natureza dos meios usados.
Se fosse uma actividade perigosa, o condutor teria contra si a presunção de culpa
do 493º n.º 2: responsabilidade por factos ilícitos fundada na culpa presumida.

176
Direito das Obrigações

O Assento n.º 1/80 de 5 de Dezembro de 1979, publicado no DR de 29 de


Janeiro de 1980 defende que o disposto no 493º n.º 2 não tem aplicação em matéria de
acidentes de circulação terrestre.
O STJ entendeu que, embora a condução de automóveis é uma actividade
perigosa, o legislador tem para isso o 503º: não é razoável duplicar a protecção dos
lesados.
O raciocínio do STJ é errado: as duas formas de protecção podem cumular-se. O
problema é que o Assento é de 1980 e foi sempre seguido até hoje: constitui uma regra
enraizada na prática dos tribunais.
O direito como deveria ser interpretado conduziria à aplicação do 493º n.º 2 aos
acidentes de viação.
Ainda que se dê valor ao assento, ele deve, pelo menos, ser interpretado
restritivamente de modo a se considerar como actividade perigosa para o 493º n.º 2 a
condução em circunstâncias especiais.

II. Responsabilidade pelo risco


Há dois tipos:
 responsabilidade pelo risco do detentor do veículo de circulação terrestre
 …

 Responsabilidade pelo risco do detentor do veículo de circulação terrestre:


503º: n.º 1 tem 3 requisitos da responsabilidade objectiva do detentor:
1. direcção efectiva
2. utilização do veículo no seu próprio interesse
3. danos provenientes dos riscos do próprio veículo

1. direcção efectiva: domínio de facto, com o sem domínio jurídico, sobre o


veículo.
O requisito da direcção efectiva exclui a responsabilidade do detentor pelo uso
não autorizado do veículo por outrem.
O pressuposto da direcção efectiva é colocado em causa pelo 8º n.º 2 do DL
522/85 (seguro obrigatório sobre responsabilidade civil de seguro automóvel): diz que
as seguradoras respondem em caso de furto ou roubo do veículo.
No caso de não ter seguro, o Fundo de Garantia Automóvel paga e depois exige-
me o pagamento, mesmo que não tenha a sua direcção efectiva,

2. utilização do veículo no seu próprio interesse


Tanto pode ser interesse material como judicial, egoísta ou altruísta: qualquer
interesse é relevante para efeitos do 503º.
A função do segundo requisito é excluir a responsabilidade de quem usa o
veículo no interesse de outrem: pex: do comissário.

A pessoa em relação à qual estejam reunidos estes 2 primeiros requisitos é o


detentor do veículo: pessoa que retira as vantagens do uso do veículo e sobre quem recai
a obrigação de controlar o seu bom estado e funcionamento.

3. danos provenientes dos riscos do próprio veículo


3 tipos de riscos:

177
Direito das Obrigações

 riscos resultantes de factores relacionados com o próprio veículo: pex,


falha de travões
 riscos resultantes de factores relacionados com os meios de circulação:
pex, estradas
 riscos resultantes de factores relacionados com o condutor: pex, o risco
de um colapso cardíaco.

O 503º abrange danos causados por veículos em circulação e veículos


estacionados.
Só não abrange danos causados por veículos de circulação terrestre que também
poderiam ter sido causados por qualquer outro meio.

O 503º faz referência a veículos de circulação terrestre sem distinguir: abrange


veículos de circulação rodoviária e ferroviária.

Preenchidos os pressupostos do 503º, aplica-se o disposto nos artigos 504º a


508º.
O 504º diz quais são os beneficiários da responsabilidade objectiva: a
responsabilidade do 503º abrange exclusivamente:
 terceiros: este conceito abrange em primeira linha as pessoas que se
encontram fora do veículo; e em segunda linha as que se encontram
dentro de veículo ocupados na actividade profissional que exercem.
 pessoas transportadas: o 504º distingue dois tipos:
 em virtude de contrato oneroso: quando o transporte tem
uma contraprestação
 em virtude de contrato gratuito ou simples cortesia:
quando o transporte não tem uma contraprestação.
Nos casos de contrato oneroso, deve incluir-se o médico que é transportado por
familiar do doente até sua casa.
O CC dá consequências ao nível dos efeitos jurídicos:
o a responsabilidade objectiva abrange:
o danos que atingem a própria pessoa: a função desta
forma legal é excluir as pessoas do 495º n.º 2 e 3 e 496º
n.º 2 e 3.
o danos nas coisas transportadas
o os danos que atingem a própria pessoa

504º n.º 4: consagra a proibição das cláusulas de exclusão ou limitação da


responsabilidade extracontratual por danos pessoais; quanto aos danos das coisas
transportadas, já se pode excluir ou limitar a responsabilidade.

505º: causas de exclusão da responsabilidade pelo risco: são fundamentalmente


3:
1. acidente imputável ao lesado
2. acidente imputável a terceiro
3. acidente resultante de causa de força maior estranha ao funcionamento
do veículo
Os 2 primeiros requisitos dão-se quando o acidente é imputável ao lesado ou
terceiro.
O conceito de imputabilidade do 505º não corresponde ao conceito do 488º/489º.

178
Direito das Obrigações

O 503º usa o termo imputabilidade no sentido de causalidade.

Há um problema em relação ao 505º: problema de concurso entre a


responsabilidade pelo risco e a culpa do lesado. Como os resolver?
Deve dar-se ao lesado uma indemnização ou não? Ou deve procurar-se uma
solução de equilíbrio?
O 505º inclina-se para a exclusão do concurso entre responsabilidade pelo risco
e culpa do lesado: aparentemente, o 505º consagra a regra que a culpa do lesado exclui a
responsabilidade pelo risco.

3. acidente resultante de causa de força maior estranha ao funcionamento do


veículo
Causa de força maior é uma força da natureza estranha às forças ou
maquinismos que o agente usa.
Abrange as circunstâncias imprevistas em relação às quais não se pode fala de
risco próprio do veículo.

A responsabilidade pelo risco fundada no 503º é uma responsabilidade limitada


nos termos do 508º: a regra do 508º tem hoje um alcance prático reduzido.

27.04.2006
(Teórica)

Automóveis conduzidos por comissários



Responsabilidade do comitente: pode fundar-se no 500º ou 503º.

500º: 3 pressupostos:
1. existência de uma relação de comissão
2. na prática de facto no exercício da função
3. responsabilidade do comissário

Esta responsabilidade do comissário é uma responsabilidade por factos ilícitos:


em relação á culpa do 503º n.º 3 consagra uma presunção de culpa do comissário.
O 503º n.º 3 levanta duas questões:
 se a presunção de culpa do 503º n.º 3 se aplicava só nas relações internas,
só nas relações externas (relações com o lesado) ou em ambas.
Assento n.º 1/83 de 29 de Abril de 1983 (publicado no DR de 28.06.1983):
assento do STJ que diz que a 1ª parte do 503º n.º 3 estabelece uma presunção de culpa
do condutor do veículo pelos danos que causar, aplicável nas relações entre ele com o
lesante e o(s) titular(es) do direito à indemnização,.
Face ao assento, a presunção do 503º n.º 3 aplica-se às relações externas: entre
lesante e lesado. Continua o problema de saber se se aplica às relações internas.
Para Antunes Varela: sim (posição dominante).
 Saber se a responsabilidade fundada na presunção de culpa do comissário
está sujeita aos limites do 508º.

179
Direito das Obrigações

Assento n.º 7/94 de 2 de Março de 1994 (publicado no DR de 28.04.1994)


resolve a questão: a responsabilidade por culpa presumida do comissário nos termos do
503º n.º 3 CC não tem os limites fixados no 508º n.º 1 do mesmo diploma.
A responsabilidade do 503º n.º 3 é uma responsabilidade por factos ilícitos e o
508º aplica-se exclusivamente à responsabilidade pelo risco.
A solução do assento deve considerar-se correcta.

Quando estão em causa acidentes de viação também se deve considerar a


responsabilidade do produtor: DL 283/89 de 6 de Novembro (alterado pelo DL 131/01
de 6 de Abril).

Esta complexidade agrava-se nos casos de colisão de veículos: 506º CC.


O conceito de colisão de veículos abrange:
 Choque de veículos em circulação
 Abalroamento de um veículo estacionado por um veículo em circulação

I. Quando não há culpa de nenhum dos condutores: aplica-se o 506º n.º 1


Este artigo distingue duas hipóteses:
o danos causados por um dos veículos: só o detentor desse veículo
é obrigado a indemnizar.
o danos causados pelos dois veículos: o n.º 1 do 506º diz que a
responsabilidade é repartida na proporção em que o risco de cada
um deles tiver contribuído para os danos.
Como se calcula a responsabilidade de cada um?
Faz-se de acordo com os seguintes critérios:
1. somam-se todos os danos resultantes da colisão
2. reparte-se a responsabilidade total na proporção em que o risco de cada
um dos veículos tiver contribuído para os danos.

O 506º n.º 1 e n.º 2 colocam dois problemas:


 texto do 506º: fala em “danos em relação aos veículos”: a
interpretação literal circunscreve a aplicação das regras aos danos
causados no próprio veículo.
O 506º deve ser interpretado extensivamente de modo a abranger todos os danos
resultantes da colisão e indemnizáveis nos termos do 503º e 504º.
 conexão objectiva entre o 506º e 504º n.º 3: o 504º n.º 3 exclui os
danos nas coisas transportadas.
Há 3 teses:
1. os danos nas coisas transportadas pelas pessoas a título gratuito não
são indemnizáveis  tese incorrecta: em relação ao veículo que
colide, a pessoa no outro veículo é um terceiro. O detentor do
veículo que colide pode responder pelos danos nos termos do 504º
n.º 1.
2. o detentor do veículo que não transportou a pessoa é responsável
pela totalidade dos danos
3. o detentor do veículo que não transportou a pessoa só é obrigado a
indemnizar os danos nas coisas transportadas na proporção em
que o risco do veículo tiver contribuído para o acidente.
A terceira tese é a mais razoável.

180
Direito das Obrigações

II: No caso de haver culpa dos dois condutores: devemos distinguir 3


situações:
a) casos onde há uma culpa comprovada de ambos os condutores: neste
caso, aplica-se o 570º: são casos onde ambos são lesantes e ambos são
lesados.
Aqui, o tribunal deve determinar equitativamente a indemnização a atribuir
segundo os critérios do 570º.
Deve aplicar-se o 570º com a presunção do 506º n.º 2: deve considerar-se igual a
medida de contribuição da culpa de cada um dos lesantes.
b) culpa comprovada de um dos condutores (A) e culpa presumida de
outro condutor (B) - (presumida nos termos do 503º n.º 3).
Aqui, aplica-se o 570º n.º 2: a culpa provada de A afasta a culpa presumida de B:
A deverá indemnizar todos os danos.
c) culpa presumida dos dois condutores: aqui, parece que se deve resolver
nos termos do 570º n.º 1.
O problema está que este artigo diz que o tribunal deve atender à gravidade de
ambas as culpas: mas no caso, não há elementos para apreciar a gravidade das culpas
em causa e as consequências daí provenientes. Logo, não se afasta a regra do 506º n.º 2:
consideram-se culpados em partes iguais: dividem-se os danos a meias.

III: Há culpa de um dos condutores (provada ou presumida) e não há culpa


do outro condutor.
Só o condutor culpado responde pelos danos.
O problema está que nos casos de culpa presumida relevantes para este efeito
está a culpa presumida do comissário, nos termos do 503º n.º 3. Esta presunção de culpa
aplica-se aos casos de colisão?
Assento n.º 3/94 de 19 de Março de 1994: o STJ diz que a responsabilidade por
culpa presumida do comissário do 503º n.º 3 1ª parte é aplicável no caso de colisão de
veículos, previsto no 506º n.º 1 do mesmo código.
É uma solução claramente injusta: a única diferença entre os dois veículos é que
um é conduzido por um comissário e outra pelo proprietário: o comissário é que terá
toda a culpa.

O 507º contempla os casos de pluralidade de responsáveis.


Esta pluralidade pode surgir por diferentes razões:
 danos causados por diferentes veículos
 danos causados por um único veículo mas haver diferentes tipos
de responsabilidade
O 507º distingue duas hipóteses:
1) onde não há culpa de nenhuma das pessoas responsáveis: nas relações
externas, há uma responsabilidade solidária (507º n.º 1); nas relações
internas, há um direito de regresso (quanto a este direito, aplica-se o 507º
n.º 2 1ª parte).
Em caso de dúvida, deve presumir-se que o interesse de cada uma das pessoas
na utilização do veículo é igual (por aplicação analógica do 506º n.º 2).
2) onde há culpa de alguma ou algumas das pessoas responsáveis: nas
relações externas, há uma responsabilidade solidária (507º n.º 1); nas
relações internas, há direito de regresso, mas nos termos do 507º n.º 2 2ª
parte: este artigo diz que, neste âmbito das relações internas: nas

181
Direito das Obrigações

relações internas só os culpados respondem; nas relações externas


aplica-se o 497º n.º 2.

SEGURO OBRIGATÓRIO DE RESPONSABILIDADE CIVIL AUTOMÓVEL

Seguro é um contrato jurídico pelo qual a seguradora se obriga a cobrir o risco


que certa parte constitui para outra, mediante o pagamento de uma prestação certa e
periódica. Esta prestação certa e periódica é o prémio.
DL 522/85, de 31 de Dezembro (actualizado quase todos os anos).
Capital mínimo para ligeiros: era de 600 000 € (segundo a Directiva, terá
passado para 5 000 000 €).

As acções destinadas a efectivar a responsabilidade civil decorrente de acidentes


de viação devem ser propostas só contra a seguradora se o pedido for inferior aos 600
000 €, e deve ser proposta contra a segurador e o civilmente responsável quando o
pedido ultrapassar os limites do capital mínimo.

Caso dos causadores de danos não terem seguro: 22º e ss do DL 522/85: Fundo
de Garantia Automóvel: o lesado pode pedir-lhe indemnização quando:
o o condutor do veículo causador de danos não é conhecido
o quando o condutor do veículo causador de danos é conhecido,
mas não tem seguro obrigatório

Responsabilidade civil do produtor: DL 383/89, de 6 de Novembro (alterado


pelo DL 181/01 de 24 de Abril)
O Art.º 1º do DL 383/89 consagra uma responsabilidade objectiva do produtor: é
responsável, independentemente de culpa, por defeito dos produtos que põe em
circulação.
3 conceitos:
o produtor: desenvolvido no Art.º 2º
o produto: desenvolvido no Art.º 3º
o defeito: desenvolvido no Art.º 4º

Face ao Art.º 3º, “produto” é qualquer coisa móvel, ainda que incorporada noutra
coisa móvel ou imóvel.
Face ao Art.º 4º, “defeituoso” é quando não oferece q segurança com que
legitimamente se pode contar, tendo em conta todas as circunstâncias, nomeadamente a
sua apresentação, o uso que pode ser feito dele e o momento de entrada em circulação
do produto.
O critério relevante é o critério de segurança.
913º CC também fala em coisas defeituosas: mas o conceito do DL 383/89 e
deste artigo são diferentes:
 para o 913º CC, o critério relevante para apreciar um defeito é a
aptidão da coisa para realização do fim a que está destinado
 para o DL 383/89, o critério relevante é a segurança do produto.
Estes critérios podem levar a resultados diferentes.
O legislador indicou 3 tipos de circunstâncias relevantes para apreciar o defeito:
 apresentação do produto

182
Direito das Obrigações

 uso que dele pode ser feito


 momento de entrada em circulação do produto
Um produto não se torna defeituoso por entretanto ter surgido um produto mais
seguro.

A doutrina distingue 4 tipos de defeitos:


 defeito de concepção
 defeito de fabrico
 defeito de informação (no caso de medicamentos: referir os perigos)
 defeito de desenvolvimento

Art.º 5º: causas de exclusão da responsabilidade

Art.º 8º: danos ressarcíveis: distingue dois tipos de danos ressarcíveis:


 danos em coisas: o 8º do DL 383/89 circunscreve os danos
ressarcíveis aos danos em coisa diversa da coisa defeituosa
 danos em pessoas

3 requisitos cumulativos para haver responsabilidade do produtor:


 danos em coisa diferente do produto defeituoso
 que a coisa seja destinada ao uso ou consumo provado
 que o lesado lhe tenha dado principalmente esse destino

Art.º 9º: franquia de 500 €.


Danos causados em coisas só são indemnizáveis se excederem essa franquia. 2
ilações:
 só são indemnizáveis se superiores a 500 €
 danos só são indemnizáveis na medida que excedem os 500 €.

04.05.2006
(Prática - Professor)

CASO

J, domo de um terreno arenoso perto de um rio, verificou que L tinha daí retirado
500 camionetas de areia, tendo-as vendido por 25 000 €, ainda que o seu valor normal
de mercado fosse apenas 20 000 €.
J vem exigir a L a restituição desse montante, ao que L se opõe alegando que J
não sofreu prejuízos pois a corrente renovou, entretanto, a areia extraída do leito do rio,
depositando outra areia em seu lugar.

Caso de enriquecimento sem causa: 473º CC.


3 requisitos:
1. enriquecimento: há duas concepções:
 enriquecimento real: valor objectivo
 enriquecimento patrimonial: valor subjectivo

183
Direito das Obrigações

O enriquecimento patrimonial calcula-se pelo diferença da situação patrimonial


em que o enriquecido se encontra e a situação patrimonial em que se encontraria se não
se tivesse verificado a deslocação patrimonial.
2. à custa de outrem: deve distinguir-se duas situações:
 quando o enriquecimento de uma pessoa causa dano a outrem não
há dúvida que foi à custa de outrem.
 Quando não provoca dano: quando o enriquecimento de um não
provoca o empobrecimento de outrem: L enriquece e J não
empobrece: recorre-se à Teoria do Conteúdo de Afectação ou
destinação dos Bens Absolutamente Protegidos.
Segundo esta teoria, o titular de um bem ou direito absolutamente protegido
deve retirar dele todas as vantagens patrimoniais que ele deve proporcionar. Quando
alguém desvia essas vantagens, enriquece à custa de outrem.
3. sem causa justificativa: quando, segundo a correcta ordenação jurídico-
económica dos bens, ele deveria pertencer a outra pessoa: deveria
pertencer a J e não a L.

474º: poderia aplicar-se o regime da responsabilidade civil como outro meio de


indemnizar: não se aplica neste caso pois não há dano.

Efeitos: 473º + 479º: obrigação de restituir.


Face ao 479º, quais os dois limites da obrigação de restituir?
 tudo quanto se tenha obtido: respeita ao enriquecimento em sentido
patrimonial
 à custa do empobrecido: duas teses:
 Almeida Costa e Pereira Coelho: o interventor tem o dever de restituir do
lucro até ao limite do dano real.
Dano real = valor objectivo do bem ou direito.
Aplicando esta primeira tese: L tem lucro de 25 000 €; o dano real corresponde a
20 000 €: 20 000 € seriam restituídos ao proprietário da areia e os 5 000 € restantes
ficariam com o interventor.
 Antunes Varela: restituição de todo o lucro.
O interventor teria de restituir todos os 25 000 €.

Deve preferir-se a segunda tese: por duas razões fundamentalmente:


 o texto do 479º CC diz “tudo quanto tenha sido obtido”
 a construção da primeira tese levaria a resultados injustos: tudo se
passaria como se fosse lícito ao interventor entrar na esfera jurídica
de outrem, tendo de lhe pagar apenas o valor normal.

CASO

A, fabricante de software, exportou, para diferentes países, programas de


computador defeituosos, não tendo observado na produção as regras impostas pelas
normas vigentes.
O facto foi divulgado nos media estrangeiros e, em consequência disso, os
fabricantes portugueses de produtos tecnologicamente sofisticados viram, durante vários
meses, as suas exportações fortemente diminuídas, só conseguindo vender os seus
produtos a preços muito inferiores ao normal.

184
Direito das Obrigações

Os empresários prejudicados pretendem pedir a A, que agiu culposamente, a


indemnização dos danos que sofreram.
Podem fazê-lo?

Este é um problema de responsabilidade civil extracontratual por factos ilícitos:


previsto no 483º.

FACTO: conduta controlável ou dominável pela vontade humana. Pode ser por
acção ou por omissão.
No nosso caso, está preenchido.

ILICITUDE: 3 modalidades:
 violação de direitos de outrem
 violação de disposições legais de protecção
 abuso de direito

Violação de direitos de outrem: os danos em causa são danos patrimoniais


primários: são os danos que se sofre sem que tenha havido uma prévia violação de
direito absoluto.
No nosso caso, não foram violados direitos absolutos dos demais empresários:
não estão preenchidos os pressupostos da 1ª modalidade de ilicitude.

Violação de disposições legais de protecção: 483º n.º 1: 3 requisitos:


1. a lesão dos interesses do particular deve corresponder à lesão de uma
norma legal: no nosso caso, está preenchido
2. qua a protecção dos interesses do particular corresponda a um dos fins da
norma violada
3. o dano deve registar-se no círculo de interesses que a norma visa
proteger.

Em regra, as normas que fixam regras de qualidade têm como finalidade a


protecção dos interesses dos consumidores: a protecção dos interesses dos consumidores
não se encontra nos fins de protecção da norma nem no círculo de interesses: 2. e 3. não
estão preenchidos.
Logo, não se aplica a 2ª modalidade de ilicitude.

Abuso de direito: parece não haver abuso de direito.

Logo, em relação a este caso, por não haver ilicitude, não há indemnização dos
empresários por factos ilícitos.

Coloca-se a questão de haver responsabilidade pelo risco: poderia haver regras


da responsabilidade do produtor: haverá responsabilidade civil extracontratual do
produtor?

DL 383/89 alterado pelo DL 121/01: consagra o princípio da responsabilidade


objectiva do produtor por defeito dos produtos. Não se aplica por duas razões:
 o 4º do DL usa o critério da segurança: um produto é defeituoso
quando não oferece a segurança com que legitimamente se pode
contar.

185
Direito das Obrigações

O enunciado apenas nos diz que os programas eram defeituosos.


 Mesmo que se aplicasse o regime da responsabilidade objectiva do
produtor, os empresários portugueses não teriam direito a
indemnização: o 8º do DL diz que apenas são ressarcíveis os danos
decorrentes de morte ou lesão pessoal e danos em coisa diversa do
produto defeituoso: nada disso se verifica no nosso caso.

10.05.2006
(Prática – Pr Júlia – 4h)

CASO

I, motorista profissional ao serviço da empresa J, despista-se, indo o autocarro


por si conduzido chocar com um veículo que se encontrava correctamente estacionado.
Do acidente, resultou a morte de um dos passageiros, cuja viúva, L, em seu
nome e no dos seus 2 filhos menores, vem a juízo requerer uma indemnização de 30 000
€.
O proprietário do veículo estacionado reclama, por seu turno, a reparação dos
danos avaliados em 15 000 €.
Diga qu4em é civilmente responsável e em que termos considerando as
seguintes hipóteses:
a) não se sabe qual a causa do acidente
b) o acidente deveu-se ao gelo que cobria o pavimento
c) o acidente deu-se devido ao facto de se ter partido a direcção do carro, facto
relativamente comum em veículos dessa marca.

a) não se sabe qual a causa do acidente


L e seus dois filhos têm pretensões indemnizatórias:
o pode ser contra I: com fundamento na responsabilidade por factos ilícitos
o pode ser contra J: com fundamento na responsabilidade do comitente

Quanto a I
483º e ss: pressupostos:
o facto: acção ou omissão controlável pela vontade humana
o ilicitude: temos 3 modalidades: neste caso é violação de direitos
absolutos de outrem
o nexo de imputação do facto ao lesante: desdobra-se em:
 imputabilidade: pressupõe-se que é imputável
 culpa: há ou não presunção de culpa?
Na responsabilidade por factos ilícitos, o lesado deve provar a culpa: mas se
houver presunção, esse ónus inverte-se: no nosso caso, temos o 503º n.º 3: presume-se a
culpa de I.
Como não se sabe a causa do acidente, quer dizer que a I não consegui ilidir a
presunção de culpa.
Assento do STJ de 14 de Abril de 1983: sobre este 503º: a primeira parte do 503º
n.º 3 CC estabelece uma presunção de culpa que é aplicável nas relações externas entre
lesante e lesado.

186
Direito das Obrigações

o danos: patrimoniais e quanto aos passageiros temos danos não


patrimoniais: 496º: dano de morte.
o nexo de causalidade

 Só devemos explicar a teoria da causalidade adequada se no caso estiver em


causa um problema de causalidade.

Quanto a J
Requisitos do 500º:
 relação de comissão
 prática do facto no exercício das funções
 responsabilidade do comissário: este requisito está preenchido pois já
vimos que responde nos termos da responsabilidade por factos ilícitos.

Comissão: actividade realizada pelo comissário onde o comitente pode dar


ordens e instruções ao comissário.
Pode consistir num acto isolado ou duradouro.

Facto praticado no exercício das funções: não basta que tenha sido praticado
por ocasião do exercício das funções.

No nosso caso, todos os pressupostos estão preenchidos.


A responsabilidade do comitente e comissário é solidária: nos termos do 497º n.º
1 ex vi 499º.
Nas relações externas, cada um dos devedores responde pela prestação integral.
Nas relações internas, aquele que pagar terá direito de regresso nos termos do
500º n.º 3.

Se só houver culpa do comissário, o comitente que pagou pode exigir a


totalidade do que pagou.
Se for culpa dos dois, pode ser culpa in eligendo, in instruendo, …

Esta obrigação de indemnizar, como se funda na responsabilidade por factos


ilícitos, não está vinculada aos limites do 508º: os seus limites não são significativos
pois, hoje em dia, é de 600 000 € (capital mínimo).

Assento do STJ de 28 de Abril de 1994: a responsabilidade por culpa presumida


do comissário nos termos do 503º não tem os limites fixados pelo 508º.

 Danos no veículo estacionado: será indemnizado por todos os danos = 15 000


€.

 Dano de morte: 495º e 496º.Deverão ser indemnizados os danos não


patrimoniais sofridos pela vítima nos termos do 496º n.º 3 2ª parte.
496º n.º 2 + 496º n.º 3 última parte: danos sofridos pelas pessoas com direito á
indemnização.
Os danos não patrimoniais indemnizáveis são os sofridos pelo lesado e por estas
pessoas do 496º n.º 2.

187
Direito das Obrigações

495º n.º 1: despesas feitas para salvar o lesado também são indemnizáveis,
incluindo despesas com o funeral.
495º n.º 3: têm indemnização aqueles a quem o lesado prestava alimentos.

b) o acidente deveu-se ao gelo que cobria o pavimento


503º e ss: acidentes causados por veículos: estamos no âmbito da
responsabilidade pelo risco.
Temos uma colisão de veículos: 506º CC: só a empresa J será obrigada a
indemnizar os danos porque a colisão foi provocada apenas pelo veículo ao serviço da
empresa J.

Temos de ver os pressupostos do 503º n.º 1:


1. direcção efectiva do veículo: domínio de facto, com ou sem domínio
jurídico, do veículo. Será o detentor. Normalmente, o detentor é a pessoa
que retira as vantagens do veículo e sobre quem recai o encargo de o ter
em bom estado de conservação.
2. utilização do veículo no próprio interesse: visa excluir a
responsabilidade objectiva do comissário. Esta responsabilidade é
sempre do detentor, e nunca do comissário (o comissário nunca usa o
veículo no seu próprio interesse). Pode ser um interesse egoísta ou
altruísta, económico ou não.
3. riscos do próprio veículo: incluem:
 riscos resultantes de factores relacionados com a estrada: é o
nosso caso
 riscos resultantes de factores relacionados com o condutor
 riscos resultantes de factores relacionados com o próprio veículo
Estão preenchidos os requisitos da responsabilidade do detentor.

Quem beneficia desta responsabilidade?


504º: aproveita a terceiros ou pessoas transportadas.
Os terceiros são pessoas que estão no exterior do veículo e as que estão no seu
interior e exerçam uma actividade dentro do veículo.

Danos de 15 000 €: o proprietário é terceiro para efeitos do 504º: a


responsabilidade da empresa J abrange os danos do proprietário: serão indemnizados na
totalidade pois não excedem o limite do capital mínimo obrigatório de 600 000 € do
508º.
O capital mínimo para transportes colectivos é de 1 197 500 € por sinistro com o
limite por lesado de 600 000 €: Art.º 6º n.º 2 do DL 522/85 pela redacção que lhe foi
conferida pelo DL 301/01 de 23 de Novembro.

Quanto ao passageiro: é uma pessoa transportada nos termos do 504º.


504º n.º 2: responsabilidade abrange só os danos que atinjam só a própria
pessoa: significa que não são indemnizáveis os danos sofridos pelas pessoas do 495º e
496º.

Em relação ao valor dos danos: 30 000 €: não excede o capital mínimo, logo será
procedente: 508º + Art.º 6º da redacção actual do DL 522/85.

188
Direito das Obrigações

c) o acidente deu-se devido ao facto de se ter partido a direcção do carro,


facto relativamente comum em veículos dessa marca.
Os pedidos de indemnização podem ser dirigidos contra a empresa J nos
mesmos termos que para a alínea b) ou contra o produtor (devido aos dados que nos são
dados no enunciado)  DL 383/89 do 6 de Novembro = responsabilidade do produtor.

Indicia-se a existência de um defeito: Art.º 4º do DL 383/89: por não oferecer a


segurança com que legitimamente se pode contar, é um produto defeituoso.
Art.º 8º do DL 383/89 refere os danos ressarcíveis: redacção do DL 131/01 de 24
de Abril: quanto aos danos causados em coisas, só são indemnizáveis desde que:
 se trate de coisa diversa do produto defeituoso
 seja normalmente destinado ao uso ou consumo privado
 o lesado lhe tenha dado principalmente esse fim

Art.º 9º: em relação aos danos causados em coisa devem estar preenchidos os
requisitos e esses danos só são indemnizáveis no que exceder 500 € (estabelecimento de
uma franquia: os 500 € são suportados pelo lesado).

Danos no passageiro: 8º 1ª parte: dano de morte é indemnizável e não se


estabelece qualquer limite.

A obrigação de indemnizar do produtor abrange todos os danos que vimos (do


495º e 496º).
A responsabilidade do detentor e do produtor é solidária: 497º n.º 1 ex vi 499º
(conforme o Art.º 13º do DL 383/89).

 Em todas as alíneas, em termos processuais, a acção será intentada apenas


contra a seguradora se os danos não ultrapassarem os valores estipulados como capital
mínimo, nos termos do Art.º 29º do DL 522/85.
Quando não houver seguro válido ou eficaz, a acção deverá ser intentada contra
o Fundo de Garantia Automóvel.

CASO

F, motorista da empresa X, conduzindo um automóvel ligeiro ao serviço daquela


empresa, no percurso Faro – Braga, despistou-se e atropelou mortalmente um peão.
Considere as seguintes hipóteses:
a) provou-se que se deu ao estado de sonolência de F, provocado pela ingestão
de bebidas alcoólicas, mas igualmente ao cansaço resultante do grande número de
horas de condução feitas por imposição da empresa X.
b) provou-se que o despiste se deu, em exclusivo, à quebra da direcção do
automóvel.

a)
Contra F com base na responsabilidade por factos ilícitos: 483º
Contra X com base na responsabilidade do comitente: 500º

189
Direito das Obrigações

Pressupostos do 500º:
 relação de comissão: dar definição de “comissão”: preenchido
 prática do facto no exercício das funções: preenchido
 sobre o comissário deve recair uma obrigação de indemnizar: resulta
da responsabilidade por factos ilícitos do 483º e ss: pressupostos:
- facto voluntário
- ilicitude: violação de direitos absolutos de outrem: direitos de
personalidade
- nexo de imputação:
- imputabilidade
- culpa: presunção do 503º n.º 3 que recai sobre o
comissário  efeitos do álcool: houve negligência do
condutor: culpa apreciada nos termos do 487º
- danos: X e F devem indemnizar danos não patrimoniais sofridos
pelo lesado, danos não patrimoniais sofridos pelas pessoas com
direito a indemnização nos termos do 496º n.º 2, despesas para
salvar o lesado (495º n.º 1), despesas com o funeral (495º n.º 1),
pessoas do 495º n.º 3 podem exigir indemnização também.
- nexo de causalidade: apreciado nos termos da teoria da
Causalidade Adequada (563º)

Responsabilidade do comitente e comissário é solidária: 497º n.º 1 ex vi 499º:


nas relações internas: 500º n.º 3: se só há culpa do comissário, o comitente tem direito a
tudo que pagou; se há culpa de ambos, o 500º n.º 3 manda aplicar o 497º n.º 2: culpas
presumidas iguais.

No nosso caso, o enunciado revela a culpa do comitente: culpa in instruendo:


não terá direitos de regresso na totalidade, mas sim na medida das respectivas culpas.

b)
Responsabilidade do detentor nos termos do 503º: domínio da responsabilidade
pelo risco.

Pressupostos do 503º:
 direcção efectiva
 utilização do veículo no seu próprio interesse (material, económico,
intelectual ou manual e não necessita ser interesse digno de protecção
legal).
 danos provenientes do risco: no nosso caso, factores relacionados
com o veículo.

504º: quem beneficia?


No nosso caso, o peão é terceiro para efeitos do 504º.

Quando a responsabilidade é por factos ilícitos, é ilimitada.


Na responsabilidade pelo risco, está limitada pelo 508º: 600 000 € nos termos do
DL 522/85. Os danos cabem nestes limites, logo, serão ressarcíveis na sua totalidade.

190
Direito das Obrigações

Art.º 29º do DL 522/85: acções intentadas apenas contra a seguradora.

Nestes casos de acidentes, trabalha-se sempre com dois institutos:


responsabilidade por factos ilícitos e responsabilidade do comitente.

CASO

D, residente em Braga, professor em Viana do Castelo, combinou com o seu


colega E, no início do ano lectivo, transportá-lo todos os dias nos percursos de ida e
regresso, comprometendo-se E ao pagamento de metade do preço da gasolina.
Quando seguia para Viana no seu automóvel com E e F, colega de ambos que
tinha pedido acidentalmente a d o favor de a transportar, D despistou-se em
consequência de uma grave avaria no sistema de direcção do veículo, que foi embater
contra uma viatura pesada de F, estacionada no lado direito da faixa de rodagem,
tendo, de seguida, ido colher G que circulava um pouco mais à frente de bicicleta.
Do acidente resultou a morte imediata de E e, alguns dias mais tarde, a de G,
ambos casados e com filhos menores.
F sofreu várias lesões que a incapacitaram para o trabalho durante 30 dias.
D saiu ileso do acidente, mas tanto o seu carro como o de F ficaram seriamente
danificados.
Diga quem response e em que termos pelos danos causados.

503º e ss: causa do acidente é uma avaria

No caso, temos uma colisão de veículos (506º) que foi causada apenas por um
deles. Neste caso, só é obrigado a indemnizar a pessoa responsável por esse veículo:
506º 2ª parte.

Pressupostos do 503º:
 direcção efectiva do veículo
 usado no seu próprio interesse
 danos resultantes de riscos próprios do veículo
Todos os requisitos estão preenchidos.

504º: beneficiários desta responsabilidade: terceiros e pessoas transportadas.

Danos de F e G: são terceiros para efeitos do 504º: pessoas que se situem no


exterior do veículo e no interior do veículo ocupadas com uma actividade profissional.

Danos indemnizáveis: G morreu: dano de morte: incluem:


- danos não patrimoniais sofridos por G
- danos não patrimoniais das pessoas do 496º n.º 2 e 3
- despesas para salvar o lesado
- despesas com o funeral
- quem tem direito a alimentos (495º n.º 3)

E e F: pessoas transportadas para efeitos do 504º: danos na própria pessoa e nas


coisas transportadas.

191
Direito das Obrigações

Em caso de transporte gratuito, não abrange os danos em coisas: apenas nas


pessoas.
E e F são pessoas transportadas em virtude de mero acordo: negócio de pura
obsequiosidade: apesar de se mencionar que um deles se comprometeu a pagar metade
da gasolina.
Aplica-se o 504º n.º 3: danos pessoais das pessoas transportadas. Exclui-se a
legitimidade das pessoas do 495º e 496º.

D tem obrigação de indemnizar os filhos e cônjuge de E pelos danos


patrimoniais sofridos pelo lesado (e não sofridos por eles próprios).

Danos de E, F e G: sujeitos aos limites do 508º.

A acção deverá ser intentada apenas contra a seguradora nos termos do 29º do
DL 522/85.

CASO

D é atropelado por um veículo conduzido por E, ficando inconsciente e


gravemente ferido. Em circunstâncias normais, D necessitaria de 1 ano para recuperar
as lesões. A ambulância, ao serviço de uma clínica médica privada, que o transportava
até ao hospital., choca, contudo, com um autocarro conduzido por F, motorista
profissional ao serviço da empresa X.
O acidente causa a morte imediata do condutor da ambulância e o agravamento
das lesões de D, pelo que este precisará agora de, pelo menos, 3 anos para recuperar e
para regressar ao trabalho.
O tribunal deu como provado que o primeiro acidente se ficou a dever à quebra
da direcção do veículo conduzido por E, mas não se conseguiu determinar a causa do
segundo acidente.
Diga quem response e em que termos pelos danos causados.

Temos dois acidentes.

Quanto ao primeiro acidente: a pretensão indemnizatória de D pode dirigir-se


contra E nos termos do 503º e ss.
Ver se os pressupostos do 503º estão preenchidos: estão todos.

D será terceiro para efeitos do 504º.


Como se trata de responsabilidade pelo risco, a responsabilidade do detentor está
limitada pelo 508º.

Haverá outra forma de limitar a responsabilidade de E relativamente aos danos


sofridos por D?
E é responsável pelos danos que se curam no prazo de 1 ano ou de 3 anos?

Temos de saber qual o âmbito da responsabilidade de E  trata-se de um


problema de causalidade. Devemos dizer no que consiste a teoria da causalidade
adequada para aferir o âmbito da responsabilidade de E.

192
Direito das Obrigações

Esta teoria diz que uma condição só é causa de um dano se, segundo a sua
natureza geral, se revela apropriada para o provocar.
Tem duas formulações:
 positiva: de TRAEGER: um facto só será causa adequada do dano se,
segundo a sua natureza geral, favorecer a produção desse dano.
 negativa: de ENNECCERUS: parte da teoria da equivalência das
condições: em regra, toda a condição sine qua non de um dano deve
ser considerada como sua causa, exceptuam-se os casos em que a
condição, segundo a sua natureza geral, era de todo indiferente para o
surgir daquele dano e só se tornou uma condição desse dano em
virtude de circunstâncias extraordinárias, sendo, portanto, inadequada
para a produção desse dano.

Em relação à responsabilidade por factos ilícitos, segue-se a formulação


negativa.
Na responsabilidade pelo risco, segue-se a formulação positiva.
No nosso caso, estamos no âmbito da responsabilidade pelo risco. Temos de ver
se o primeiro acidente favoreceu a produção do segundo acidente ou se resultou de
circunstâncias extraordinárias.
Resposta: não, o segundo acidente é uma circunstância extraordinária. Logo, a
responsabilidade de E limita-se aos danos relativos à recuperação do lesado no prazo de
1 ano.

A pretensão de d poderia ser deduzida contra o detentor e/ou produtor.


A responsabilidade do produtor está no DL 383/89 de 16 de Novembro.
O Art.º 4º deste DL dá o conceito de defeito: critério da segurança.

Nos termos do seu Art.º 8º, os danos indemnizáveis são os danos resultantes da
morte.
Existe uma franquia da 500 €.

497º n.º 2 ex vi 499º e Art.º 13º do DL 383/89: a responsabilidade do detentor e


do produtor é solidária.

Quanto ao segundo acidente: a sua causa é indeterminada.

Temos uma presunção de culpa nos termos do 503º n.º 3.


Temos dois comissários:
 condutor da ambulância
 condutor da empresa
Respondem ambos, salvo se provarem não terem culpa.

506º: colisão de veículos.


Podem responder na medida das culpas: 570º e 506º n.º 2.

Temos responsabilidade por factos ilícitos: ver os pressupostos do 483º (como


foi visto no primeiro caso da aula).

193
Direito das Obrigações

Estabelecida a responsabilidade do comissário com base na responsabilidade por


factos ilícitos, os comitentes respondem com base na responsabilidade do comitente:
500º: ver os seus pressupostos.

497º n.º 2 ex vi 499º


Responsabilidade do comitente e comissário é solidária: cada um dos
responsáveis responde pela prestação integral e nas relações internas tudo depende da
culpa: ver atras.

 Danos de morte do condutor da ambulância: a pretensão pode ser dirigida


contra a empresa X com base na responsabilidade do comitente e contra E com base na
responsabilidade por factos ilícitos.

Como há culpa dos dois condutores no acidente, aplicamos o 570º: culpa do


lesado.
Haverá danos provocados pelo condutor que terão de ser suportados por ele
próprio.
Cabe ao tribunal determinar em que medida contribuem para a culpa.
O 506º diz que em caso de dúvida, presume-se que as culpas são iguais.

Sempre que os valores dos danos se situarem dentro dos 600 000 €, a acção deve
ser intentada apenas contra a seguradora: 29º DL 522/85.

11.05.2006
(Prática – Pr. Nuno Oliveira)

CASO

A, comerciante de madeira, vendeu um lote de pinheiros por 15 000 €, que


estava depositado num baldio confinante com o terreno de B, igualmente produtor.
Foi acordado que A se encarregava de colocar a madeira em casa de C. Para o
efeito, A contratou os serviços de D, a quem pagou 100 €.
Afinal, contra o convencimento de A, veio a verificar-se que o lote era
propriedade de B.
Ao tomar conhecimento da venda, B pretende exigir a C o pagamento dos 100
€.
O preço corrente do mercado da madeira em causa era de 23 000 £€.
Quid iuris?

Caso de gestão de negócios: 3 requisitos: o requisito da intencionalidade não


está preenchido.

472º: deve distinguir-se consoante há ou nã aprovação.


A aprovação é um juízo global de concordância do dono do negócio com a
gestão.
Há ou não aprovação da gestão?

194
Direito das Obrigações

B diz implicitamente que concorda com aquilo que A fez aprovação tácita de
gestão de negócios.

O primeiro problema que se coloca é saber se A pode exigir de B o reembolso


dos 100 € que pagou para o transporte da madeira.
Enquadra-se no plano das relações entre o gestor e o dono do negócio.
No caso, já sabemos uma coisa muito relevante: houve aprovação. Logo, aplica-
se o 469º.
Tem direito ao reembolso dos 100 €.

Coloca-se o problema de saber se B pode exigir de C directamente o pagamento


dos 100 €.
Estamos no domínio das relações entre o dono do negócio e terceiros: aplica-se
o 471º.

471º: 2 tipos de gestão:


 representativa: quando é exercido pelo gestor em nome do dono do
negócio
 não representativa: quando tal não ocorre: quando o gestor a exerce em
nome próprio.
No nosso caso, a gestão é não representativa: aplicamos a estes casos as regras
do 1180º e ss.
1181º n.º 2: B tem direito de exigir directamente a C o pagamento do preço.

CASO

D, interdito por anomalia psíquica, evadiu-se das instalações do hospital


psiquiátrico privado onde estava internado, aproveitando a desatenção do vigilante, e
correu para a estrada onde foi atropelado por uma camioneta conduzida por E,
motorista da empresa de transportes F.
Em consequência, D sofreu graves lesões corporais.
Diga quem é civilmente responsável pelos danos.

Considere a hipótese de E não ter podido evitar o acidente por se term partido
os travões da carrinha que era nova e apenas tinha percorrido 100 km.

 Responsabilidade do vigilante: as pessoas potencialmente responsáveis são


o hospital: aplicamos a este caso o 165º, que remete para o 500º.

Pressupostos do 500º:
 relação de comissão
 prática do facto no exercício das suas funções
 sobre o comissário deve recair a obrigação de indemnizar

A relação de comissão é a relação de dependência ou subordinação jurídico


onde o comitente tem poderes de dar ordens ou instruções ao comissário: está
preenchido.

195
Direito das Obrigações

O segundo requisito também se encontra preenchido.


Quanto à responsabilidade do comissário: seria uma responsabilidade por factos
ilícitos: 483º: pressupostos:
 facto: consiste numa omissão: para este caso temos o 486º. No nosso
caso, o dever de agir é fundado no negócio jurídico.
 ilicitude: parece estar em causa a violação de direitos de outrem: 483º n.º
1: seria uma violação indirecta ou mediata (que é considerada ilícita
quando há violação do dever geral de cuidado)
 nexo de imputação do facto ao lesante: divide-se em:
 imputabilidade
 culpa
Neste caso, há uma presunção de culpa do vigilante?
491º: só se aplica para os casos onde o incapaz causa danos a terceiros. Não se
pode aplicar ao caso concreto.
 danos
 nexo de causalidade entre o facto e o dano: deve apreciar-se nos termos
da Teoria da Causalidade Adequada: consagrada no 563º.

Temos uma responsabilidade solidária entre a responsabilidade do hospital e a


do vigilante: isto significa que:
 no plano das relações externas, a prestação integral pode ser exigida a um ou
outro, ou a ambos: 512º
 no plano das relações internas, haverá direito de regresso para quem pagou:
504º

Direito de regresso entre o comitente e comissário: 500º n.º 3: que remete para o
497º n.º 2:
 se há culpa apenas do comissário, o comitente tem direito de exigir o
reembolso de tudo que tenha pago
 se há culpa dos dois, a responsabilidade é repartida nos termos do
497º n.º 2

 Responsabilidade da empresa de transportes: responsabilidade civil de uma


pessoa colectiva: 165º que remete para o 500º.
Pressupostos do 500º:
 relação de comissão: preenchido
 no exercício das funções: preenchido
 responsabilidade do comissário: deve ser analisada nos termos da
responsabilidade do condutor.
O fundamento desta responsabilidade seria a responsabilidade por factos ilícitos:
483º: pressupostos:
- facto: sob a forma de acção
- ilicitude: violação de direitos absolutos de outrem: 483º n.º 1
- nexo de imputação do facto ao lesante: desdobra-se em:
- imputabilidade
- culpa: há presunção de culpa do 503º n.º 3: presunção
de culpa do comissário.
Quanto á aplicabilidade desta presunção, há um problema controverso: saber so
o 503º n.º 3 se aplica só no domínio das relações internas, só no domínio das relações
externas ou em ambos os domínios.

196
Direito das Obrigações

No nosso caso, estamos no domínio das relações externas: entre o condutor e


lesado(s).
O Assento do STJ de 29 de Abril de 1983: diz que a primeira parte do 503º n.º 3
CC estabelece uma presunção de culpa do condutor do veículo por conta de outrem
pelos danos que causar, aplicável nas relações entre ele com o lesante e o titular ou
titulares do direito á indemnização.
O enunciado não tem elementos que afastem a culpa de E.
- danos
- nexo de causalidade entre o facto e os danos: é apreciado nos
termos da Teoria da causalidade Adequada: 563º
O facto do lesado ter corrido para a estrada leva-nos, ainda, a considerar que
pode haver culpa do lesado nos termos do 570º.
Interpretação do termo “culpa” do 570º: há duas teorias:
- subjectivista: a culpa em causa pressupõe a imputabilidade
- objectivista: a culpa em causa pressupõe apenas uma conduta
contrastante com as normas positivas e de normal prudência: não
se exige a imputabilidade, mas apenas uma conduta imprudente.

A teoria subjectivista faz com que, no caso concreto, não haja culpa do lesado: o
lesado é inimputável por ter anomalia psíquica. Não há culpa para efeitos do 570º.

Para a teoria objectivista, há culpa do lesado e aplicar-se-ia o 570º n.º 2: não


haveria responsabilidade do condutor nem da empresa nos termos do 500º porque
quando há culpa provada do lesado e do lesante ao mesmo tempo, a culpa do lesado
afasta a culpa do lesante.

Deve preferir-se a teoria subjectivista: não haverá culpa do lesante e não se pode
afastar o dever de indemnizar nos termos do 570º n.º 2.
A teoria subjectivista deve, contudo, ser corrigida pela aplicação do 494º.

No nosso caso, haverá responsabilidade do comitente nos termos do 500º e


responsabilidade do comissário nos termos do 570º n.º 2.
A sua responsabilidade é solidária: a responsabilidade do comissário é ilimitada
por não se lhe aplicar a limitação do 508º.

 Falha de travões
Neste caso, o condutor será responsável?
Consegue ilidir a presunção de culpa: o enunciado diz que não conseguiu evitar
o acidente por causa da falha de travões.
Se não há responsabilidade do comissário nos termos do 483º, também, não
haverá responsabilidade do comitente nos termos do 500º.
Haverá responsabilidade do detentor: responsabilidade da empresa não nos
termos do 500º, mas sim nos termos do 503º.
Pressupostos do 503º:
1. direcção efectiva do veículo: preenchido
2. no seu próprio interesse: preenchido
3. conexão causal entre os danos procedentes dos riscos do próprio veículo:
de 3 tipos:
 relacionados com o próprio veículo

197
Direito das Obrigações

 relacionados com a estrada


 relacionados com o condutor
Os pressupostos do 503º estão preenchidos.

O detentor do veículo é responsável?


Temos de confrontar o 503º com o 505º: este artigo refere a “causa de força
maior”: é uma força da natureza.
No 505º diz-se que é imputável ao lesado: como deve ser interpretado?
No sentido deste artigo, constitui uma resposta em termos de causalidade:
equivale a um acidente causado pelo próprio lesado.
É o nosso caso: em consequência, aplica-se o 505º nos termos que a empresa
detentora do veículo não é responsável.

 Responsabilidade do produtor: é apreciada nos termos do DL 383/89 de 6 de


Novembro.
Conceito de defeito tem em conta o critério da segurança: Art.º 4º do DL 383/89:
considera o produto defeituoso quando não oferece a segurança com que legitimamente
se possa contar.

Art.º 7º do DL 383/89: concurso do lesado e do terceiro: mesmo que houvesse


facto culposo do lesado, isso não afastava de imediato o direito à indemnização.
Na responsabilidade civil do produtor, a culpa do lesado não afasta a culpa do
lesante.
Os danos indemnizáveis, nos termos do DL 383/89 (Art.º 8º), são os danos
decorrentes de morte ou lesão corporal e danos em coisa diferente do produto
defeituoso.

198