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Fichamento de: HEINICH, Nathalie.

Para acabar com a discussão sobre arte


contemporânea. In: BUENO, Maria Lúcia; CAMARGO, L. O. L. (Org.) Cultura e
consumo: estilos de vida na contemporaneidade. São Paulo, Senac, 2012.

Autoria: Bruna Raposo Tavares

Data: 17/01/2019

 "(...) deveríamos admitir que vários gêneros possam coexistir na produção artística
atual, entre os quais a 'arte contemporânea'.", o que tornaria as polêmicas
ultrapassadas. (p. 179)

 "As diferentes maneiras de fazer arte não estão mais dispostas gradativamente num
único eixo, entre polo inferior e superior, mas em vários eixos. Assim, as querelas
não dizem mais respeito somente a questões estéticas de avaliação (...) ou de gosto
(...), mas a questões ontológicas ou cognitivas de classificação (...) e de integração
ou exclusão (...)." (p. 180)

 "(...) não estamos mais numa lógica normativa contínua que estabelece graus de
qualidade estética, mas numa lógica classificatória descontínua que permite
determinar posições de entrosamento ou exclusão. O problema (ou um dos
problemas) é que, numa categoria dotada de um valor tão amplamente positivo
quanto a 'arte' é em nossa sociedade, a classificação integradora se equipara a uma
avaliação positiva e dizer 'não é arte' constitui sistematicamente não uma
constatação, mas uma tentativa de desqualificação (...)." (p. 181)

 "(...) a questão da beleza quase não está presente, dando margem a questões
ontológicas quanto à natureza do que é visto (arte autêntica ou 'bobagem', 'tolice',
'qualquer coisa'), a questões éticas sobre o valor dos atos realizados pelo artista ('Em
que medida realmente trabalhou?', 'É sincero ou cínico?') e de sua obra ('As imagens
mostradas, os atos realizados, transgridem os valores morais?') ou até a questões
políticas quanto ao apoio do poder público ('É necessário patrocinar ou mostrar esta
ou aquela proposta?')." (p. 181)

 "Vivemos num sistema plural, com princípios hierárquicos duplos e até mesmo
múltiplos." (p. 182)

 "(...) 'paradigmas' (...) uma maneira de definir o sentimento da normalidade, um


esquema estruturante que funciona de forma coletiva e inconsciente, embora
também possa se manifestar no nível consciente." (p. 182)

 "(...) três 'gêneros' da arte, três categorias heterogêneas, cada uma delas com seus
próprios critérios e suas próprias características, dando origem a diferentes
'subgêneros'. (...) pode haver coexistência de paradigmas heterogêneos somente em
momentos de crise (...)." (p. 182)

 "(...) arte contemporânea em crise hoje: uma situação de crise de paradigmas


complicada pelo fato de que os paradigmas em questão não são dois, mas três.": arte
clássica, arte moderna e arte contemporânea. (p. 183)
 "(...) não se trata de critérios normativos a priori, mas de critérios descritivos a
posteriori: motivo pelo qual nossa problemática não pertence à estética, mas à
sociologia." (p. 183)

 Arte clássica: "(...) se baseia na figuração, respeitando as regras acadêmicas de


representação da realidade." (p. 183)

 Arte moderna: "(...) compartilha com a arte clássica o respeito aos materiais
tradicionais (...), mas se afasta porque se fundamenta na expressão da interioridade
do artista." (p. 183)

 Arte contemporânea: "(...) transgressão sistemática dos critérios artísticos próprios


tanto da tradição clássica quanto da tradição moderna e posteriormente
contemporânea. Nesse sentido, distingue-se radicalmente da arte clássica, mas não
da arte moderna, que, por sua vez, experimentou uma série de transgressões
plásticas das regras tradicionais da arte. Por outro lado, a distinção em relação à arte
moderna é radical quando a transgressão se refere aos quadros estéticos (...), aos
quadros disciplinares (...) e até mesmo aos quadros morais e jurídicos." (p. 186)

 "Assim, a arte contemporânea se fundamenta essencialmente na experimentação em


todas as duas formas de ruptura com o que a precede: ruptura que pode ser recebida
como uma forma positiva de transgressão quando associada a uma subversão crítica,
ou como uma forma negativa, quando associada à moda e à busca da originalidade
a qualquer preço ou da notoriedade de baixo custo. Essa transgressão sente sua
maior rejeição quando altera os parâmetros fundamentais da arte moderna, que são
a subjetividade da expressão, como no minimalismo ou na arte conceitual, e sua
autenticidade, como nas instalações e nas performances, em que o vínculo entre o
resultado exposto e a pessoa do artista é muito midiatizado por objetos naturais ou
industriais ou por reproduções foto ou videográficas." (p. 186-187)

 "Artes clássica, moderna, contemporânea: cada uma dessas categorias possui


diferentes derivações ou 'subgêneros'. Na clássica, são os 'gêneros' tradicionais: o
histórico (...), o retrato, a paisagem, a cena de gênero e a natureza-morta. Na
moderna, são as diversas 'correntes' ou 'escolas' que se sucederam há algumas
gerações: impressionismo, fauvismo, cubismo, surrealismo, abstracionismo etc. Na
contemporânea, são os diferentes 'movimentos' que conseguiram realizar passagem
do 'estilo' ao gênero' (...)." (p. 187)

 "(...) não se trata aqui de determinar valores ou preconizar projetos, mas descrever
usos." (p. 188)

 "Assim como em qualquer categorização, há problemas de fronteira que podem


gerar dúvidas quanto à pertinência dessa divisão. Porque os gêneros não se
apresentam sempre no estado 'ideal/típico': as interferências e as contaminações são
frequentes, e isso ainda mais num setor como o da arte contemporânea, em que a
vontade de romper com as categorias admitidas e de transgredir fronteiras impede
definições com base nos conteúdos estéticos (destinados obrigatoriamente a serem
subvertidas) em prol de definições pelas posições ocupadas, neste caso, a postura
transgressora, como tentei definir anteriormente." (p. 190)
 "Essa transgressão em segundo grau, na qual as transgressões realizadas na arte
contemporânea são, por sua vez, novamente transgredidas, é uma situação cada vez
mais frequente se considerarmos o inevitável esgotamento dos critérios
transgredíveis: daí surge a tendência ao ecletismo que hoje caracteriza a arte
contemporânea. É necessário, portanto, utilizar indícios periféricos para determinar
a que categoria a obra pertence e para verificar sua capacidade de integração no
mundo da arte contemporânea, reconhecida e adquirida pelos colecionadores e pelas
instituições de arte." (p. 191)

 "Apesar da imprecisão e das incertezas na categorização, essa tripartição possui


duas grandes vantagens. Em primeiro lugar, permite compreender a violência dos
conflitos provocados hoje pela arte contemporânea: uma vez que não são mais
gostos ou graus de qualidade que se enfrentam num mesmo eixo hierárquico, mas
paradigmas ou, em outros termos, definições do que a arte deve ser quando pretende
ser arte, então tudo o que escapa ao paradigma é obrigatoriamente considerado
indigno, devendo ser recusado (e é exatamente o caso na maior parte das rejeições
da arte contemporânea). Além disso, essa concepção permite, se não resolver os
conflitos, pelo menos torná-los úteis, desde que nos coloquemos não mais no plano
descritivo da análise das reações efetivas à arte contemporânea, mas no plano
normativo de uma prescrição das concepções e das ações." (p. 192)

 "O problema reside no fato de que essa pluralidade efetiva é obrigatoriamente


hierarquizada no plano normativo: as instituições da arte (...) privilegiam hoje o
gênero da arte contemporânea, assim como no século anterior privilegiavam o
gênero da pintura histórica (...). Mas sobretudo com a falta de reconhecimento da
existência desses gêneros, estamos propensos a confundir os critérios genéricos (que
determinam a identificação com a arte moderna ou a arte contemporânea) e os
critérios avaliativos (que determinam a maior ou menor qualidade das propostas
artísticas em cada gênero). Assim, alega-se como pretexto o caráter transgressor de
uma obra (critério genérico) para considerá-la interessante (entre os defensores da
arte contemporânea) ou desinteressante (entre seus detratores) (...)." (p, 193)

 "O ideal seria que fossem reconhecidas a pluralidade dos gêneros e a pluralidade
dos princípios hierárquicos, que permitem selecionar, em cada gênero, as obras mais
válidas (...)." (p. 194)