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Devo retornar à palavra "sociedade".

Trata-se de um conceito aparentemente simples e


evidente porque, na maioria das vezes, nós usamos a palavra como sinônimo de
"nação". Afinal, quando os norte-americanos falam de pagar sua dívida para com a
sociedade, eles não estão pensando em suas responsabilidades em relação às pessoas
que moram na Suécia ou no Gabão. É somente o Estado moderno, com seus elaborados
controles de fronteiras e políticas sociais, que nos permite imaginar a "sociedade" dessa
maneira, como uma única entidade coesa. É por isso que projetar essa noção ao passado,
remontando-a à época medieval ou védica, sempre parecerá algo enganador, mesmo que
não tenhamos outra palavra para descrevê-la.

Parece-me que os teóricos da dívida primordial fazem exatamente isto: projetar essa
noção no passado.

Na verdade, todas as ideias das quais eles falam - a de que existe uma coisa chamada
sociedade, de que temos uma dívida para com ela, de que os governos podem falar por
ela, de que ela pode ser vista como um tipo de deus secular - formam um complexo que
surgiu mais ou menos na época da Revolução Francesa, ou logo depois dela. Em outras
palavras, essas ideias surgiram junto com a concepção do Estado-nação moderno.