Você está na página 1de 6

Ritos Fúnebres

Kota Nibojí

São, junto com os ritos de puberdade, as cerimônias religiosas e os ritos melhor observados e
solenizados da sociedade bantu. Como ritos de iniciação, estão cheio de conteúdo religioso,
aparato litúrgico e participação comunitária.

Nos ritos fúnebres, nos quais, sem desculpa, devem participar todos os familiares aos quais
se junta a comunidade, os bantu patenteiam as suas raízes culturais, fundamentos filosóficos,
"dogmas" religiosos e celebram com solenidade o mistério da vida participativa.

Nenhum outro rito chega a atingir a sua transcendência. Caracterizam as suas crenças e
consolidam um dos valores religiosos mais preciosos: a certeza da sobrevivência do homem
no além-túmulo.

Pelo nascimento, o bantu "passou" a este mundo e pelos ritos de puberdade à sociedade.
Pelos ritos fúnebres se restabelece a comunhão que lhe assegura a sobrevivência.

Consideram o defunto como um ser em devir, um projeto, que deve chegar à plenitude, à
realização definitiva de antepassado. Encerram tal casualidade mística, que se convertem na
única ponte de passagem entre os dois mundos.

Se realizarem segundo a tradição e o desejo dos antepassados, o defunto chegará ao seu


destino transformado na sua realidade existencial, já que se opera uma mutação ôntica.

Pelo contrário, se realizarem com descuido ou forem deformados, o defunto esquecido


vagueará sem destino, desgraçado, e o olvido dos seus acarreta desprezos e terríveis
vinganças para os vivos. Converte-se num perigo permanente e pode ocasionar males.

Estes ritos, em definitivo, são um culto à vida, o tributo mais solene que o bantu lhe rende,
porque assegura vida constante ao membro que "passou" e enriquece a sua comunidade. São
celebrações solenes do duplo nascimento para a vida mais rica, individual e comunitária.

Como exceção, parece que certos grupos bantu camitizados, porque desejam apropriar-se da
força vital dum defunto e evitar as suas possíveis cóleras, "comem o defunto em comum na
noite dos funerais, depois queimam os ossos. Apropriam-se assim das virtudes do morto e
asseguram, pelo seu desaparecimento, que não voltará a inquietá-los".

Só se "morre" verdadeiramente quando se realizaram os ritos segundo a tradição e a


comunidade tem a certeza de que o defunto foi recebido pela comunidade dos
antepassados. O defunto fica naturalizado no além-túmulo, integra-se na comunidade dos
antepassados pela ação eficaz dos vivos que o situam no seu lugar, o "fixam" evitando que
fique vagabundo e despeitado.

A solenidade dos ritos está em proporção com o prestígio social e, sobretudo, com a
influência vital do defunto. Os Chefes merecem honras especiais que se revestem da maior
solenidade, com a reunião da comunidade. Assim conservam o seu estatus social no outro
mundo e não guardam ressentimentos contra as suas comunidades que, por outro lado,
desejam prestigiar-se com pomposas festas. As comidas, bebidas e danças adquirem tal
relevo, que não há festa que as supere. Vi, nestas ocasiões, sacrificar até quinze bois! As
festas poderão prolongar-se por um mês se o Chefe for importante.

Está bastante espalhado o costume de deixar corromper o cadáver do Chefe até que a cabeça
se desprenda do tronco. O crânio deve ficar para o herdeiro como feitiço protetor. Às vezes
arrancam-lhe as unhas para fabricar poderosos feitiços ou manter viva a sua presença, já que
a sua personalidade se prolonga até aí.

O luto pelo Chefe pode durar várias semanas e obriga a todos. O trabalho é proibido.
Nalgumas partes a infração castigava-se com a morte. Os que morriam durante o luto não
podiam ser enterrados. Os escravos não tinham honras fúnebres visto que a sua nula
influência social não os tornava temidos nem havia interesse algum em os prestigiar como
antepassados.

A infâmia de certas enfermidades ou a brutalidade do rompimento da vida não oferecem


garantias duma ação benéfica. Além disso, seria um insulto aos antepassados. Assim, são
excluídos dos grupos dos antepassados os leprosos, os que morrem de acidentes, os
suicidas, os tarados psíquicos, os epiléticos e os celibatários. As crianças, sobretudo se ainda
não foram "chamadas", e os jovens recebem honras muito mais simples, e a comunidade não
precisa de lhes prestar culto. Pela sua imaturidade e pouca influência vital não preocupam.

Os que violaram com gravidade a ética comunitária, criminosos, ladrões, vítimas de ordálios,
inimigos públicos e, sobretudo os feiticeiros confessos ou acusados, não recebem honras
fúnebres. A sociedade condiciona a honra de antepassado ao comportamento ético.

Logo depois de morrer, enterram os feiticeiros, quase sempre mutilados (partindo-lhes as


pernas, por exemplo) para que não voltem, ou abandonem-nos aos animais, ou queimam-nos
e dispersam as suas cinzas ou lançam-nas à água.

Há grupos que crêem que os condenados por feitiçaria se revestem no além em um corpo
insignificante, repugnante, com um cheiro nauseabundo e com cabeleira encarnada. Levam
uma vida errante por regatos e mananciais, encarnam em bestas ou em gatos (por isso
rejeitam este animal) e comem carne humana. Castigados a não participar na vida dos seus
parentes, dedica-se a transtornar o ritmo de vida individual e comunitário.

Logo que uma pessoa morre, os seus familiares começam a chorar, a gritar e a dançar sem
cessar, com um ritmo cadenciado e monótono. Lamentam a sua perda, chamam-no pelo seu
nome, agradecem os seus favores, exaltam as suas virtudes, amaldiçoam o causador da
morte e desejam a felicidade ao defunto. Os parentes e amigos acompanham a gritaria com
gestos, contorções e danças. Assim demonstram aos antepassados a bondade do falecido,
que procuram contentar para que não regresse carregado de influências nefastas. As festas,
além disso, entretêm e dão coragem ao defunto enquanto espera a sua transformação em
antepassado.

Lavam o cadáver, vestem-lhe as melhores roupas, perfumam-no ou besuntam-no com óleo


de palma. Alguns grupos, depois de o desnudar e antes que lhe chegue a rigidez, colocam-no
na posição em que deve ser enterrado: sentado de cócoras, com os braços sobre o peito.
Cobrem-no com um pano, manto ou pele de boi e fica sentado numa cadeira ou deitado
numa esteira. Assim preside às festas. Os familiares e amigos passam pela sua frente a
saudá-lo antes de participar dos ritos.

Logo que uma pessoa morre, saem os emissários a comunicar a notícia à parentela. Todos
têm de ser avisados ainda que se encontrem distantes. É que o parente que não vai aos ritos
pode ser acusado da feitiçaria causadora da morte. Além disso, é um dos momentos em que
mais se acentua o sentimento de solidariedade comunitária já que colaboram com o parente
para que encontre paz.

Mesmo que trabalhem na cidade, deixam as obrigações e deslocam-se as suas aldeias. Só em


circunstâncias extremas podem impedir a participação nas festas fúnebres dum familiar.

As cerimônias duram dias. O cadáver costuma chegar a decompor-se. Abundam a comida e a


bebida. Matam bois, cabras, porcos e galinhas. Cada familiar contribui com algum presente.
As mulheres preparam as bebidas tradicionais, os instrumentos de música arrancam e a
dança começa.

Comendo e bebendo, conversando e dançando, passam vários dias. São as grandes festas da
sociedade bantu. E como a mortalidade é grande e a parentela extensa, encontramos o bantu
em freqüentes festas.

Não se esquecem de derramar um pouco de sangue das vítimas ao redor do cadáver para
que participe também, ou com ele aspergem as paredes da casa para mostrar ao defunto e
aos antepassados que os sacrifícios cruentos são propiciatórios e imperatórios. De vez em
quando, um dos parentes chega junto do cadáver e oferece-lhe um bocado ou um gole que
entorna a seus pés ou lhe introduz na boca. Estas comidas e bebidas tentam diminuir a
tristeza do morto para que se conforme com a mudança operada.

Suspeitamos, também, que estes sacrifícios de vítimas animais encerram um conteúdo


sagrado, sacrificial e inclusive de aliança, que hoje se perdeu ou que não conseguimos captar.
A dança e a alegria exteriorizam o prazer da participação conseguida “mistericamente”.
Assim, mundo invisível e visível funde-se na mais eficaz comunhão e o defunto honrado
torna-se definitivamente comungante-participante com os dois mundos.

A maioria dos grupos sacrifica animais, sobretudo bovinos, somente nestas festas. Embora
precisam de proteínas e sendo o bantu um apreciador incansável de carne, reservam os seus
animais para os alambramentos e para os sacrifícios propiciatórios. Os ritos fúnebres, pela
abundância de animais mortos, desempenham uma missão compensadora do desequilíbrio
alimentício e da errada dietética.

Estes ritos terminam com uma refeição que consolida a familiaridade. Decorre no meio de
muita alegria porque o defunto já está satisfeito, em companhia dos seus antepassados e
pronto a revigorar a sua comunidade.

O enterro
Muitos grupos enterram os defuntos perto de suas casas ou dentro delas e destroem-nas
quando termina o luto.

É mais comum sepultá-los junto da aldeia e à beira dos caminhos para que os vivos lhes
rendam uma pequena homenagem, todas as vezes que passam, inclinando a cabeça,
guardando silêncio ou depositando alguma oferta no túmulo.

Encontram-se cemitérios em paragens solitárias e bem defendidas nas florestas. São


cemitérios familiares, embora possam pertencer ao grupo. Normalmente cada aldeia tem um
cemitério comunitário.

Os povos pastores enterram o chefe de família reduzida no curral dos bois ou no lugar onde
se acende a fogueira, dentro da cerca de paus que rodeia a casa, onde enterram também as
mulheres. As crianças sepultam-nas no curral dos vitelos, os jovens, junto de sua casa, as
raparigas iniciadas dentro da cerca onde guardam os pilões da farinha.

Os especialistas da magia, bem como os caçadores e guerreiros, quando têm renome, são
enterrados à beira dos caminhos muito freqüentados ou nas encruzilhadas, e sempre ao pé
duma árvore para pendurar os seus instrumentos de trabalho, armas e troféus.

Normalmente cavam na terra sepulturas horizontais com quase dois metros de profundidade.
No fundo e ao lado, abrem uma câmara mortuária onde colocam o defunto deitado ou de
cócoras. Isolam-na com ramos. Quando enchem a sepultura, a terra não toca no defunto. A
esta câmara podem vir visitá-lo os seus familiares antepassados, e ajudá-lo a completar o
rito de passagem.

Outros grupos cavam as sepulturas em forma circular porque colocam o cadáver de cócoras.
Alguns enterram-nos de pé.

Os quibala de Angola depositam os chefes sobre a rocha e cobrem-nos com pedras bem
trabalhadas, formando um sarcófago retangular. Submetem os cadáveres a uma espécie de
mumificação. Introduzem-lhes pela boca, com a ajuda dum funil, óleo de palma a ferver. Esta
operação prolonga-se até que as vísceras desfeitas lhes saem pelo reto.

Os que de algum modo estiveram em contato com o cadáver, os que o transportaram e em


geral os acompanhantes, depois do enterro tem de tomar banho num rio para “tirar o cheiro
do morto” ou lavar as mãos.

Deixam sobre a sepultura algum objeto: uma cabeça de boi, uma cabaça ou garrafa com
água, mel, aguardente, alguns alimentos, um copo, uma taça, um prato, qualquer
instrumento de trabalho, os troféus de caça.

Com certa periodicidade ali depositam alimento e bebida. Quando enterram uma pessoa, os
alimentos ajudam-na a realizar a viagem para a sua nova mansão.

Não acreditam que os mortos venham a comer e a beber as suas sepulturas. Apenas tomam
“a essência das oferendas”, o seu principio vital animador, agradecem a recordação dos seus
descendentes e retribuem copiosamente.

Pela comida sacrificada ou ofertada, destruída, o bantu liberta a “vida essencial” da oferenda,
por ela entrar em comunhão vital e reafirma a vitalidade do oferente e do oferendado.

Esta sacralização do alimento compreende-se a partir da ontologia bantu. Se a vida é o valor


fundante e fundamental, manifesta-se em energia, força e fecundidade. Precisa
permanentemente do alimento-força. Em última análise, o alimento está na base da estrutura
ontológica de todos os seres criados. Por isso contém uma finalidade sacral e ele próprio, por
ser essencialmente vida-força, é sagrado. Alimento e refeição trazem sempre uma recordação
e uma concretização da ontologia e da religião.

Assim, quando o bantu deposita alimentos sobre as sepulturas realiza um ato religioso e
vivencia a sua profunda fé.

Os cemitérios e as sepulturas ocupam um lugar central na vida comunitária. Os


antepassados estão neles presentes, deles brota a causalidade mística que fortifica ou
debilita; através deles se robustece a solidariedade vertical. São também lugares que inspiram
temor, onde o receio e o mistério permanecem.

O luto pelos mortos começa depois do enterro. As mulheres costumam pintar a cara com
riscas pretas, cortam o cabelo ou soltam o penteado e até raspam todo o cabelo.

O luto obriga, sobretudo os cônjuges dos falecidos, que têm que se despojar de vestidos
luxuosos e cobrir-se de panos humildes. É normal que as mulheres tragam o tronco
descoberto, por que se trouxessem um vestido normal, o defunto poderia reconhecê-las e
atormentá-las. Aquilo em que tocar torna-se impuro e com o perigo do tabu.

A sua alimentação fica limitada e também os seus movimentos. Costumam ficarem retiradas
em suas casas ou noutras construídas para este fim onde recebem as visitas dos familiares e
a comida.

Não podem cozinhar e as proibições sexuais são taxativas. Procuram evitar assim a
contaminação impura do defunto, pois conservam, mais que qualquer outro, o "cheiro do
morto".

Em certos grupos, a viúva, antes de se unir a um novo marido, o que pode demorar de um a
três anos, deve limpar a sua impureza relacionando-se sexualmente com um parente próximo
do marido falecido. Noutros grupos, tem de seduzir um desconhecido, que ignore o tabu, e
que carrega com a impureza da mulher. Se descobrir a cilada, o adivinho submetê-lo-á a ritos
purificatórios.

Devem falar pouco, aparentar tristeza e chorar de vez em quando, até que o luto rigoroso
termina com ritos purificatórios que começam com um banho lustral no rio. Entregam-lhes
vestidos novos e os instrumentos para o trabalho. Costuma intervir o adivinho aspergindo-os.

Estes ritos conseguem "curar" os efeitos do contágio e fortificam a sua vitalidade talvez
debilitada pelo contágio com o defunto. Simbolizam isso com uma fogueira acesa depois do
banho, que "aquece" (revigora). Os banhos lustrais pretendem também assegurar à viúva um
futuro casamento feliz.

Entre os Humbi, a água lustral leva cinco ingredientes: uma unha de galinha, casca e pedaços
de certos arbustos que darão ventura ao novo casamento, pés duma erva cuja interpretação
seria: "O marido disse: fui-me embora; tu podes contrair novo matrimônio". Por fim outra
casca de árvore que significa: "Esta pobre mulher teve pouca sorte, é preciso agora afugentar
o mal que a atormentou". A adivinha, que ritualiza a purificação, entrega-lhe pequenos
enfeites e uma enxada. Marca com giz branco a viúva desnudada no peito, frente, ventre e
braços. Derrama-lhe água lustral e lava-lhe com ela o corpo, até a língua. Por fim, bebe uns
goles enquanto a adivinha vai pronunciando palavras mágicas que vivificam o rito. Depois
simula um ato sexual.

Por fim, a adivinha recolhe toda a imundice do corpo, depois de lho esfregar com pós-
vegetais, amassa com isso uma bola que enterra longe das casas. O luto e os tabus ficaram
sepultados. A viúva pode recomeçar a vida.

Os pais, filhos e irmãos também guardam luto, ainda que mais restritos na duração e
exigências. Os viúvos e a comunidade não devem pronunciar o nome do falecido até terminar
os ritos fúnebres. Como o bantu identifica o nome com a personalidade, conhecer e
pronunciar o verdadeiro nome pode acionar uma influência mágica sobre a pessoa. O nome
também pode contagiar o "cheiro do morto". Outros grupos jamais pronunciam os seus
nomes, ou então só depois de darem a um recém-nascido.

Fonte: Cultura Tradicional Banto - Raul Altuna.

As cerimônias fúnebres são chamadas em Angola de Ntambi, Mukondu ou Sirrun.


Kufunda = cerimônia fúnebre no cemitério (enterro).