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O culto e as divindades no tambor de mina do Maranhão

Sergio F. Ferretti - Antropólogo, Professor da UFMA.

I
O tambor de mina é o nome mais comum da religião de origem africana no
Maranhão e na Amazônia. Possui características específicas que o diferenciam de
outras manifestações similares, especialmente do candomblé e da umbanda, que
atualmente são as formas mais conhecidas dessas religiões no Brasil. O nome tambor
de mina deriva da importância desse instrumento no culto e do Forte de São Jorge
da Mina, antigo entreposto de escravos, na atual República do Gana, de onde muitos
escravos foram mandados ao Brasil.
Numerosos grupos étnicos africanos foram trazidos como escravos para o Maranhão,
muitos dos quais são citados na documentação específica e diversos são lembrados
oralmente nos grupos de culto, entre os quais: jêje, nagô, cambinda, bijagô,
balanta, nalu, manjaro, mandingas, felupe, tapa ou nupé e outros. As
tradições jêje e nagô são as mais conhecidas e das demais, atualmente,
encontramos referências a grupos extintos. Também tem sido estudado (Ferretti, M,
2000, 2001) o tambor de mina da mata, onde são cultuadas principalmente
entidades brasileiras denominadas caboclos.
Funcionam ainda hoje em São Luís duas casas de culto fundadas por africanos na
primeira metade do século XIX: a Casa das Minas Jêje e a Casa de Nagô [1]. Há
numerosos grupos de culto vinculados a outras casas surgidas ainda no século XIX ou
ao longo do século XX.
Nas casas de tambor de mina do Maranhão uma das características é o predomínio
de mulheres. As casas mais antigas e algumas mais novas só aceitam mulheres na
roda de danças. Temos notícias, no passado como hoje, de casas dirigidas por homens.
Mesmo nestas, o número de mulheres ultrapassa em muito o número de homens. Há
mesmo casas que trazem, na parede, letreiro avisando que na roda de danças só é
permitido no máximo dançarem 3 homens ao mesmo tempo. Pessoas mais velhas
indagadas sobre esse costume, afirmam que no passado não era bem visto mulher
dançando mina junto com homem, ou que o homem dançando mina pareceria ridículo
e que a função do homem no culto é tocar instrumentos e ajudar em outras atividades.
Nas casas mais modernas, sobretudo as dirigidas por homem, verifica-se também o
predomínio da mulher, mas nelas a participação masculina é mais intensa.

II
Como as demais religiões afro-brasileiras, o tambor de mina possui uma série de
características específicas e, para ser compreendido, é necessário que se entenda um
pouco estas especificidades.
O sincretismo com o catolicismo está muito presente no tambor de mina. O
catolicismo imposto ao escravo foi aceito como uma estratégia de adaptação ao
contexto local para que suas práticas religiosas pudessem sobreviver. Entre as
características do tambor de mina, destaca-se, nas casas mais antigas, a ausência de
Legba, dos fons, ou Exu, dos yorubás. Em decorrência deste afastamento de Legba,
no tambor de mina também não há o culto a Ifá, o deus yorubano da
adivinhação, nem a prática do jogo de búzios, sendo a adivinhação realizada por
outros processos. Os dirigentes do tambor de mina fazem questão de frisar que não
fazem feitiçaria e que não trabalham para o mal. Devido a essa evitação de Exu, no
tambor de mina também não é comum o culto a Oxum, cujo nome se assemelha ao
de Exu, nem cânticos são oferecidos em sua homenagem. Oxum, em muitos terreiros
é substituída por Navezuarina, que seria outro nome dessa entidade.
O calendário religioso das casas de culto adapta-se ao calendário dos santos da Igreja
católica. As práticas católicas do batismo, casamento religioso, assistência à missa,
procissões, festas, culto aos santos, missa de sétimo dia e outras devoções católicas
foram assimiladas e se encontram profundamente inseridas nas tradições dos membros
do culto. Antes das festas dos terreiros, os devotos costumam assistir à missa,
comungar e rezam ladainha em latim, no início das cerimônias. As paredes da varanda
de danças e outros cômodos dos terreiros costumam ser enfeitados com gravuras,
retratando imagens de santos católicos mais cultuados. Todo terreiro possui também,
em local de destaque, um altar com imagens dos santos de maior devoção, que são
revesadas ao longo do ano litúrgico. É comum na época do Natal, armarem presépios
e, no fim do ciclo natalino, há uma cerimônia especial onde são queimadas as
palhinhas do presépio.
Os voduns não se confundem com os santos católicos, nem são confundidos com eles
pelos devotos. Afirma-se, em geral, que cada vodum tem especial devoção a um
determinado santo e que por isso seus fiéis são também devotos deste mesmo santo.
Assim, uma pessoa que recebe determinado vodum, costuma organizar uma festa
católica no dia do santo que o vodum comemora. Entre os santos mais cultuados
encontramos: Santos Reis; São Sebastião, São Lázaro, São Roque, São Jorge, Santo
Antônio, São João, São Pedro, N. Senhora do Carmo, Santana, São Raimundo, Santa
Rosa de Lima, São Jerônimo, São Miguel Arcanjo, Santos Cosme e Damião, Santa
Bárbara, N. Sra. da Conceição, Santa Luzia, Santo Onofre e muitos outros.
Em outro trabalho (Ferretti, 1995), constatamos que no tambor de mina o sincretismo
possui características de separação, fusão, convergência ou paralelismo, que podem
ser observados nos diferentes tipos de rituais. Constatamos igualmente que muitos
pesquisadores não vêem com bons olhos a presença do sincretismo nos cultos afros,
embora, como acreditamos, a presença do sincretismo não descaracterize a
tradicionalidade da religião. Ao mesmo tempo, a questão não é gostar ou não gostar
do sincretismo e sim a constatação de que este fenômeno se encontra muito presente
na realidade religiosa afro-maranhense.
As festas religiosas católicas são comemoradas em todos os terreiros e entre elas tem
especial destaque à festa do Divino Espírito Santo, festejado com grande pompa em
quase todos os terreiros de mina de São Luís. Geralmente a festa do Divino é realizada
em homenagem a uma entidade especial, que é devota do Espírito Santo. É uma festa
muito ritualizada e, no Maranhão, se caracteriza pelo toque de caixas realizado pelas
caixeiras, que cantam, tocam e dançam músicas em homenagem ao Divino. A bandeira
vermelha e a pomba branca do Divino são símbolos importantes representados nessa
festa, que costuma durar vários dias e ser seguida por noites de toques de tambores
no terreiro. Em cada casa, a festa do Divino costuma ser comemorada na época do
aniversário de fundação ou na data da festa do santo ou entidade mais importante
cultuada. Diferenciando-se do tambor de mina, as casas que se dizem de umbanda do
Maranhão não costumam realizar festa do Divino.
Outras festas populares relacionadas com o folclore e em louvor aos santos são
realizadas no tambor de mina. Entre elas, destacam-se festas de bumba-meu-boi e o
tambor de crioula. O bumba-meu-boi é a mais importante manifestação do folclore
maranhense. Na época do ciclo junino, quando se organizam festas de boi, muitos
terreiros de mina realizam uma festa com o boi, oferecida a uma entidade que aprecia
essa manifestação popular, geralmente um caboclo cultuado na casa. Costuma haver
um dia do batizado e um dia da morte do boi, acompanhado de um almoço aos
convidados. Algumas casas possuem grupo de bumba-meu-boi e outras convidam
grupos de fora ou recebem visita de outros grupos de boi da cidade. A entidade
cultuada varia com cada casa [2] e a festa do boi se realiza entre junho e o final do
ano.
O tambor de crioula é outra manifestação da cultura popular maranhense que também
está presente nos terreiros de mina. Costuma ser realizado no dia 13 de maio, em
comemoração à libertação dos escravos, oferecida aos Pretos-Velhos. Também é
realizada em outra época, como no mês de agosto, em louvor a São Benedito ou a São
Raimundo e em devoção a uma entidade cultuada na casa, como o vodum
Averequete ou outra. Há também terreiros que possuem grupo de tambor de crioula,
sendo mais comum a presença de grupo convidado para a festa no terreiro. No tambor
de crioula nos terreiros, é comum a participação, nesta dança, de devotos da casa em
transe com sua entidade.

III
Além dessas características gerais, encontramos ainda no tambor de mina do
Maranhão, outras características que o distinguem das demais religiões afro-brasileiras.
Os instrumentos principais do culto, no estilo mina-jeje, exclusivo da Casa das Minas,
são três tambores [3] de madeira tocada com as mãos e com baquetas denominadas
aguidavi. O som é marcado por um instrumento de ferro, chamado gan, tocado
geralmente por mulher, a Ferreira ou gantó. Os toques são acompanhados por 4 ou 5
cabaças pequenas revestidas com fios de contas coloridas, tocadas por mulheres.
Na Casa de Nagô e nos demais terreiros, os instrumentos principais são dois tambores
[4] denominados abatas. Os tocadores são abatazeiros. São acompanhados por um
ferro tocado por homem ou mulher, conforme a casa, e por várias cabaças de tamanho
variada sendo uma maior, tocada geralmente por homem e as demais, menores,
tocadas por homem ou mulher, conforme a casa.
Exceto as duas casas fundadas por africanos, em diversos terreiros de mina costuma
existir também um tambor longo, semelhante ao da Casa das Minas, denominado de
tambor da mata. É tocado por homem, inclinado e geralmente amarrado à cintura,
entre as pernas do tocador. Em rituais específicos, ou em alguns locais, às vezes
aparecem outros instrumentos [5].
Na Casa das Minas, todos os cânticos são em língua jêje ou fon e as vodunsis são
capazes de cantar durante muitas horas, em diferentes rituais, com repertório variado.
Na Casa de Nagô, os cânticos são predominantemente em nagô e alguns em
português. Na maioria dos demais terreiros, cantam-se alguns cânticos em nagô ou
jêje, por cerca de meia hora ou pouco mais e depois se canta em português.
A vestimenta das dançantes geralmente é igual para todos os participantes [6]. Numa
festa de tambor de mina, todas as dançantes costumam usar saias na mesma cor [7].
Quando entram em transe, amarram na cintura uma toalha branca rendada [8]. Os
homens dançam, em geral, com calça comprida branca e camisa na cor da saia das
mulheres e usam a toalha no braço ou atravessada no pescoço. Homens e mulheres,
na maioria das vezes, trazem a cabeça descoberta, mas, em algumas casas, sobretudo
no interior, é comum o uso de chapéu para os homens e de lenço branco na cabeça
das mulheres. Todos usam colares de contas coloridas, denominadas de rosário ou
guia [9].
O transe costuma ser discreto e, muitas vezes, pessoas de fora não identificam se o
devoto está ou não no estado de transe. No início, a pessoa fica mais descontrolada,
mas a entidade geralmente se acalma com a colocação da toalha. Em outros terreiros
que não a Casa das Minas e de Nagô, geralmente, quando a entidade chega, costuma
dar uma longa rodada, girando em torno de si mesmo por algum tempo. Depois, saúda
o altar, os tocadores, a chefe da casa, os demais companheiros e os visitantes.
Diferentemente do candomblé, o transe na mina costuma durar várias horas e a
vodunsi permanece com os olhos abertos. As entidades africanas não comem, não
bebem nem satisfazem necessidades fisiológicas no estado de transe. Alguns
costumam fumar cachimbos de cano longo. Também se afirma que, no estado de
transe, a pessoa não sente dores, ficando como se estivesse anestesiada. Muitas
entidades caboclas costumam fumar e beber cerveja, chás ou outras bebidas.
No tambor de mina, não é comum o sacrifício de muitos animais. Poucas vezes ao ano
as casas oferecem, sobretudo, aves e, algumas vezes, peixes e também muitas frutas.
Na Casa das Minas, as comidas de santo têm nomes e características africanas.
Na Casa das Minas Jêje, cada vodunsi ou filha-de-santo recebe apenas um vodum. As
que haviam se submetido a um ritual especial de iniciação e eram consideradas filhas
feitas completas, denominadas de vodunsis-hunjaís, recebiam, em determinados
rituais, uma entidade feminina infantil denominada tobossi. A iniciação completa
não é mais realizada há muitos anos e as tobossis não baixam mais. Na Casa de
Nagô, as vodunsis recebem um ou dois orixás e alguns caboclos. Nos demais
terreiros os dançantes costumam receber uma entidade africana e alguns caboclos,
sendo um deles o principal, denominado de caboclo de frente.
A longevidade é uma característica dos participantes do tambor de mina como de
outras religiões afro-brasileiras. É comum as mineiras viverem por mais de 90 ou 100
anos. Muitas começam a participar da religião desde bem jovem. Muitas pessoas
procuram o tambor de mina acometido por alguma doença ou devido a sonhos e
visões. Pessoas acometidas por doença mental ou por acidente vascular cerebral,
chamado derrame, são muitas vezes levadas a terreiros de mina a procura de
tratamento, que costuma ser feito com banhos de plantas e com chás de ervas
medicinais. Atualmente, temos constatado que muitos participantes do tambor de mina
passam a ser acometidos por diabetes. Também é comum a procura aos terreiros por
pessoas afligidas por doenças mentais.
Excetuando-se a Casa das Minas e a Casa de Nagô, grande número de terreiros de
tambor de mina realiza também outros tipos de rituais. Entre esses rituais destacam-
se: as seções de cura ou pajelança, o tambor de índio e as seções de mesa branca. A
pajelança ou brinquedo de cura [10] é um ritual de origem ameríndio realizado uma ou
duas vezes por ano pela maioria dos terreiros de mina. Afirma-se, no Maranhão, que
muitos mineiros começaram como pajés e por isso realizam periodicamente uma
seção de pajelança, onde são cultuadas entidades consideradas como donos da terra.
O tambor de índio, canjerê ou borá é outro ritual, de inspiração ameríndia, realizado
também em diversos terreiros de mina, uma ou duas vezes ao ano [11]. Os iniciados
costumam, antes, participar de uma espécie de retiro, no terreiro ou em um sítio, onde
comem alimentos especiais como mel e batata doce. O tambor de índio e a pajelança
constituem rituais criados pelos Afro-descendentes, inspirados em tradições ameríndias
e que estão muito presentes no tambor de mina. A presença desses rituais nos
terreiros de culto afro nos faz lembrar as santidades ameríndias, rituais realizados em
comunidades indígenas e documentados no período colonial, em várias regiões do país,
analisado como uma das reações à catequese.
Alguns terreiros de mina e umbanda do Maranhão, que preservam influências do
espiritismo, realizam regularmente o ritual denominado de mesa branca [12], realizada
à tarde ou à noite em determinados dias. A presença de rituais de influência kardecista
e indígena nos terreiros mostram a complexidade do sincretismo presente no tambor
de mina. Esse sincretismo se processa tanto com o catolicismo popular, quanto com
tradições ameríndias e de outras procedências, como o espiritismo kardecista, de
origem européia, largamente difundida em todo o país.

IV
Entidades africanas e brasileiras são recebidas nos terreiros de tambor de mina:
voduns, tobossis, orixás, gentis e caboclos. Os praticantes do tambor de mina
não gostam de conversar muito sobre as entidades e sobre as práticas rituais.
Até a década de 1930 não se tinha referências bibliográficas à existência do culto aos
voduns no Brasil. Mário de Andrade após sua passagem por Belém em 1928, narrada
em “O turista Aprendiz”, descobre um cântico Iemanjá vodum e relata esse fato em
sua conferência sobre Música de Feitiçaria, de 1933. Durante as décadas de 1930 e
1940, foram realizadas diversas pesquisas no Maranhão e Pará e, a partir de então, a
presença do culto aos voduns começou a ser mais conhecida nessas regiões [13].
Segundo constatação simultânea de Octávio da Costa Eduardo e de Pierre Verger, na
Casa das Minas de São Luís são cultuadas diversas entidades que possuem nomes de
antigos reis do Daomé. Em artigo publicado originalmente em 1953, Verger (1990)
levantou a hipótese que a Casa das Minas teria sido fundada por uma rainha africana,
que fora vendida como escrava após a morte do rei. Identificou essa rainha como a Na
Agontimé, viúva do rei Agonglô (1789-1797) e mãe do futuro rei Ghezo (1818-1848).
Segundo Verger, muitos nomes de membros da família real do Daomé, até o reinado
de Agonglô, são cultuados como voduns no Maranhão.
Os voduns jêjes são cultuados principalmente na Casa das Minas, onde só eles são
recebidos. Outros terreiros realizam alguns cânticos em sua homenagem e alguns
voduns costumam ser recebidos com grande distinção, permanecendo pouco tempo,
no início das cerimônias, sendo depois substituídos por caboclos que permanecem
durante o restante da festa.
Na Casa das Minas, os voduns agrupam-se em cinco famílias, sendo três maiores e
principais e duas menores, com poucos voduns, que são considerados hóspedes. Cada
parte do prédio da Casa pertence a uma família de voduns. Talvez, em virtude dessa
influência, no tambor de mina os caboclos e outras entidades da mina também
costumam se organizar em grandes famílias. Na Casa das Minas, são cultuadas cerca
de meia centena de voduns, que se dividem em adultos, velhos, jovens, crianças,
homens e mulheres. A maioria pertence ao sexo masculino.
Nochê Naé, ou Sinhá Velha, é a grande ancestral, mãe de todos os voduns e não é
recebida em transe. É a dona da árvore sagrada. É comemorada duas vezes ao ano, no
Solstício, no Natal e São João, quando lhe são oferecidos um galo e uma galinha
branca. As dançantes se vestem de branco e azul e branco em suas festas.
Davice é o nome da família real, que reúne os voduns que são nobres. Subdivide-se
em duas famílias: a de Dadarro, o rei mais velho, e Zomadonu, o dono da Casa.
Entre os filhos de Dadarro, Doçu é um dos voduns mais conhecidos e mais cultuados
em outros terreiros. Os voduns mais novos são chamados toquéns [14] e são
importantes porque são eles que chamam os mais velhos. Entre os voduns hóspedes
destacam-se os da família de Savalunu [15], nome de uma região do Benin. A outra
família de hóspedes é a de Aladanu [16], nome de outra região do atual Benin, de
onde teria surgido a família que dirigiu o reino do Daomé e de onde teriam descendido
os jêjes ou Fon.
Outra grande família é a de Quevioçô, considerada nagô entre os jêjes. Seus voduns
são mudos na Casa das Minas. Dizem que, para não revelarem os segredos dos nagôs,
falam apenas por gestos e sinais, que são traduzidos pelos dois voduns mais jovens da
família [17]. É considerada a família astral, dos voduns que controlam os astros, o
fogo, as águas, os raios e trovões e combatem os ventos e tempestades. O chefe da
família é Badé Quevioçô, o dono do trovão, auxiliado por sua mãe ou irmã mais
velha, nochê Sobô, que controla os raios. Badé é comemorado no dia de São Pedro e
Sobô, no dia de Santa Bárbara. Ambas são festas de grande importância em todos os
terreiros do Maranhão. A festa de Santa Bárbara, no dia 4 de dezembro, é considerada
a festa de abertura do ano litúrgico no tambor de mina, pois se diz que para se
poderem fazer as outras festas têm que se começar tocando para Santa Bárbara. Entre
os mais conhecidos estão Averequete e Abe. Averequete é devoto de São Benedito e
padroeiro dos tambores de mina do Maranhão. Dizem que Averequete é quem traz os
caboclos para a mina.
A terceira família importante para os jêjes é a de Dambirá, o panteão da terra, são
os reis caboclos, que são pobres e poderosos, combatem as doenças e a peste. Vivem
numa parte especial da casa, em cômodos feitos no quintal. O chefe da família é
Acossi Sakapatá, seguido pelos seus irmãos Azili e Azonce [18]. São comemorados
durante três dias na festa de São Sebastião. Acossi é devoto de São Lázaro. Suas
oferendas são feitas num altar entre plantas do quintal. Os cachorros são
homenageados com um banquete em sua festa.
Alguns voduns jêjes correspondem a certos orixás nagôs. Assim considera-se que
Doçu, que é cavaleiro e tocador, corresponde a Ogum. Badé corresponde a Xangô,
Sobô corresponde a Iansã, Abe corresponde a Iemanjá, Toçá e Tocé
correspondem aos Ibeji, Boça e Boçucó correspondem a Oxumarê, Acossi
corresponde a Obaluaiê, Nanã é a mesma nas duas tradições. Dos principais orixás
nagôs, Oxum não é representada ou corresponderia a Navezuarina, vodum muito
cultuado na mina. Como dissemos antes, talvez a evitação de Exu na mina seja
responsável pelo não aparecimento do culto ao orixá Oxum no tambor de mina. É
importante destacar que numerosos voduns jêjes não possuem correspondência entre
os orixás nagôs.
As tobossis ou meninas, chamadas de sinhazinhas são entidades femininas infantis
que eram recebidas na Casa das Minas pelas vodunsis que haviam se submetido a um
ritual especial de iniciação e se tornavam vodunsis hunjaís. A última iniciação completa
foi realizada na Casa em 1914 e todas hunjaís foram falecendo até por volta de 1970.
As tobossis não vieram mais. Elas eram crianças, falavam uma língua especial. Cada
tobossi só vinha em uma hunjaí e quando esta morria ela não vinha mais, sua missão
terminava ali. Elas vinham em três épocas do ano, em festas que duravam vários dias:
no Natal, em São João, festas de nochê Naé e no Carnaval. Elas permaneciam em
transe durante até nove dias, comiam comidas especiais, tomavam banho de
madrugada, tinham uma dança com cânticos próprios, brincavam com brinquedos e
distribuíam doces aos visitantes. Também se vestiam com roupas especiais com pano
da costa, usavam uma manta de miçangas coloridas e uma trouxa de pano na cabeça.
Na Casa das Minas, são conhecidos os nomes complicados de 14 tobossis [19], que
eram recebidas e foram registrados na década de 1940, pelas pesquisas de Nunes
Pereira e de Octávio da Costa Eduardo.
Uma das funções rituais importantes das tobossis era dar um nome africano às novas
vodunsis que entravam no culto. Talvez elas possam ser comparadas com as
Nesuhue, mostradas por Verger (1999, p. 555-562), que são princesas encarregadas
do culto em memória aos reis do Daomé. Esse culto está muito relacionado com o de
Zomadonu, que estabeleceu o culto aos voduns da família real no Daomé e foi o
vodum protetor da fundadora da Casa das Minas do Maranhão. No Benim, as
Nesuhue usam vestes especiais e são agrupadas por famílias dos sucessivos reis do
Daomé. A tradição das tobossis se extinguiu na Casa das Minas, com a morte das
encarregadas de preparar a iniciação e que conheciam os detalhes dos rituais. Fala-se
que houve erros na última feitoria da Casa das Minas, por isso não foram preparadas
novas hujaís. Assim, as tobossis se extinguiram no Maranhão, provavelmente em
virtude da não renovação de contatos com a África após o término do tráfico de
escravos e a ausência de princesas reais que dirigissem os rituais de iniciação.
Em outras casas de tambor de mina do Maranhão existem festas para as princesas,
chamadas meninas ou tobossis, que possuem um culto especial, com vestes, cânticos,
danças, alimentos e brinquedos, e que são diferentes das outras entidades, mas, ao
mesmo tempo, são também diferentes das tobossis da Casa das Minas. Entre estas
entidades destaca-se Bossa Meméia, Flor de Liz, Flor do Dia, Servaninha, Moça
Fina de Otá, Princesa Clarice, Princesa Luzia, Princesa Flora, Princesa
Rosinha.

V
A Casa das Minas e a Casa de Nagô, fundadas por africanos há mais de cento e
cinqüenta anos em São Luís, apesar do grande prestígio de que desfrutam, encontra-se
em processo de acentuado declínio, contando com número reduzido de participantes e
praticamente não recebendo novos adeptos. Por outro lado, terreiros mais modernos
encontram-se em processo de expansão, alguns possuindo grande número de
seguidores. Parece provável que o culto dos voduns jêjes no Maranhão venha a
desapareça em breve, por falta de novos adeptos.
Outras divindades africanas no tambor de mina são os orixás nagôs. Eles, muitas
vezes, são tratados e chamados de voduns. Costumam se comportar como os voduns,
não recebendo o tratamento dado aos orixás no candomblé nagô. Eles falam, cantam,
permanecem de olhos abertos e ficam durante longo tempo no estado de transe,
dançam junto com os outros voduns ou caboclos e normalmente não recebem
paramentos especiais. Alguns costumam dançar no terreiro por pouco tempo, no início
das festas e depois se retiram, dando lugar aos caboclos, que são considerados como
mais comunicativos.
Vemos assim que no tambor de mina não se faz muita referência aos orixás nagôs e
seu culto encontra-se intimamente relacionado ao culto aos voduns. Os orixás mais
conhecidos que baixam no tambor de mina são: Xangô, Iemanjá, Nana, Obaluaiê e
Ogum. Algumas entidades consideradas como orixás nagôs possuem nomes que não
são comuns no candomblé nagô e entre eles encontramos: Navezuarina, Xapanã,
Euá e Nanã Burucu ou Nana Bulucu.
Existe ainda no Maranhão grande número de entidades africanas cuja origem não
são bem estabelecidas. Entre esses se incluem: Légua Buji-Buá, tido como vodum
muito conhecido como boiadeiro em Codó e que possui uma família com diversos
filhos, e Arronoviçavá, entidade muito velha, conhecida na Casa das Minas como
um vodum que se tornou cambinda. Entre muitas outras entidades consideradas
africanas, cultuadas no tambor de mina, destacam-se também: Boçujara, Boçu von
Dereji, Xadatã, Obaíla, Tombasse, Aquilital, e outros, conhecidos como
entidades não brasileiras, cujas origens não são muito precisas.
Entre as entidades caboclas, muitos são agrupados em famílias e entre inúmeros
outros caboclos temos: Caboclo Velho, Guerreiro, Tabajara, Tapindaré,
Caboclo Ita, Caboclo Maroto, Ubirajara, Juracema, Balanço do Mar, Caboclo
Guerreiro, Caboclo Roxo, Mensageiro de Roma, Batata Roxa, Caiçara, Pombo
Roxo.
Entre as demais entidades cultuadas nos terreiros de mina (excetuada a Casa das
Minas jêje), destacam-se os que são chamados gentis ou gentilheiros ou também
fidalgos. São entidades nobres, reis, príncipes e princesas, que se agrupam em
famílias. Entre eles podemos indicar: Dom Pedro Angaçu, Rainha Rosa, Rainha Dina,
Rei da Turquia, Dom Manoel, Rei Sebastião, Dom João, Barão de Guaré, Dom Luiz Rei
de França, Dom Henrique, Dom José Floriano, Rei da Bandeira, Dom Miguel, Princesa
Flora, Rainha Madalena e muitos outros. Diversos deles vêm na Casa de Nagô como
em outros terreiros. Alguns deles como o Rei da Turquia e Dom Sebastião, possuem
família numerosa.
Verificamos que nas casas de tambor de mina entidades africanas são cultuadas, mas
são recebidas em transe, sobretudo entidades não africanas, os gentis e os caboclos.
Além da Casa das Minas, da Casa de Nagô e de poucas outras casas, a maioria dos
cânticos para as divindades são em língua portuguesa e a maioria das entidades
recebidas hoje no tambor de mina em geral, não são africanas. Embora profundamente
influenciado por tradições e costumes africanos, o tambor de mina adquirindo
características locais, sendo assim uma religião afro-brasileira. A presença de rituais
com influências ameríndias e kardecistas, bem como as influências do catolicismo
popular, exemplifica a importância do sincretismo no tambor de mina. Atualmente
constata-se a presença de elementos de rituais do candomblé e da umbanda. Apesar
de todas estas influências o tambor de mina possui características que o diferenciam
de outras religiões afro-brasileiras.

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UFPA - PPGAS
Seminário Pajelança e Encantaria Amazônica
Mesa Redonda: Religiões Afro-Brasileiras: O Maranhão e o Pará
Comunicação: O culto e as divindades no tambor de mina do Maranhão
Autor: Sergio F. Ferretti

A presente comunicação mostra características específicas e dinâmicas das religiões de


origem africana no Maranhão. Destaca o predomínio de mulheres no culto e a
importância do sincretismo religioso, constatando o paralelismo entre voduns e santos
católicos e a ausência de Legba. Comenta a presença nos terreiros de festas da cultura
popular e de rituais de cura, de tambor de índio e de mesa branca. Apresenta os
instrumentos utilizados, a caracterização das vestimentas e do estado de transe.
Enfatiza as divindades cultuadas, chamadas genericamente de encantados ou
invisíveis, destacando a importância dos voduns jejes e das tobossis ou entidades
femininas infantis, bem como a presença mais reduzida dos orixás, referindo-se ao
grande prestígio das entidades chamadas gentis e dos caboclos, que são muito
numerosos. Constata a importância das casas fundadas por africanos, fazendo
referências à continuidade do culto nas outras casas.

Palavras chaves: religiões afro-brasileiras; tambor de mina; culto aos voduns, festas
religiosas, sincretismo.

Resumo do Curriculum:
Sergio F. Ferretti, natural do Rio de Janeiro, radicado no Maranhão desde 1969, é
bacharel e licenciado em História pela UFRJ. Fez curso de Especialização em Sociologia
na Bélgica. Mestre em Antropologia pela UFRN e Doutor em Antropologia pela USP.
Professor adjunto da UFMA realiza pesquisas no campo de estudo de populações afro-
brasileiras, sincretismo religioso e cultura populares. Possui livros e artigos publicados
sobre esses temas e em especial sobre a Casa das Minas do Maranhão.
São Luís, Fevereiro de 2002.
Sergio F. Ferretti
Endereço Residencial:
Avenida do Vale, 14 apt. 401 - Ed. Titanium - Bairro Renascença II.
65075-820 - São Luís - Maranhão
Fone/fax: (098) 235-1291
e.mail: Ferretti@elo.com.br

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