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Ancha Amade

Cassimo Aiuba Abudo


Marieta Adelino
Rabia Armando Mareha
Tingas Eusébio Fernando

A reforma do pensamento
(licenciatura em ensino de filosofia com habilitações em ética)

Universidade Rovuma
Nampula
2019
Ancha Amade
Cassimo Aiuba Abudo
Marieta Adelino
Rabia Armando Mareha
Tingas Eusébio Fernando

A reforma do pensamento
(licenciatura em ensino de filosofia com habilitações em ética)

Trabalho de carácter avaliativo a ser


apresentado na cadeira de ética ambiental do
curso de filosofia 4º ano leccionada por PhD
Felizardo A. Pedro.

Universidade Rovuma
Nampula
2019
Introdução
O mundo de acordo com Morin (2003:15):
“Durante dezenas de milhares de anos, as sociedades "arcaicas" de caçadores-
colectores se espalharam pelas terras. Tornaram-se estranhas umas às outras pela
distância, a linguagem, os ritos, as crenças, os costumes. Diferenciaram-se, umas
abertas e liberais, outras fechadas e coercitivas, umas com autoridade difusa ou
colectiva, outras com autoridade concentrada”.
Este foi o início da história, neste período as sociedades caracterizavam-se como ignoradoras
das outras sociedades portanto esta era não era a era planetária. E o motor que deu este
desenvolvimento foi através de extensão das sociedades históricas que varreu as sociedades
arcaicas para as florestas e os desertos, onde os exploradores e prospectores da era planetária
as descobrem para em seguida aniquilá-las. (Idem:16)
E dai houve formidável metamorfose sociológica, as pequenas sociedades sem agricultura, sem
Estado, sem cidade, sem exército, dão lugar a centros urbanos, reinos e impérios de várias
dezenas de milhares, depois centenas de milhares e milhões de súbditos, com agricultura,
cidades, Estado, divisão do trabalho, classes sociais, guerra, escravidão, mais tarde grandes
religiões e grandes civilizações.
Com a nova historia, a historia da era planetária, isto é, uma era em que o contacto das
sociedades entre si é um fenómeno exorbitante em relação aos contactos dos antepassados e
pergunta-se por conta da acção humana, ate que ponto esta acção fará permanecer as espécies do
planeta e a sua própria espécie? Essa nova história, hoje bastante envelhecida, acreditou revelar
a verdade do devir no determinismo econômico-social. (idem:16)
O Ocidente europeu, essa pequena extremidade da Eurásia, durante sua longa Idade Média,
recebeu do vasto Extremo-Oriente as técnicas que lhe permitirão reunir os conhecimentos e os
meios de descobrir e de chamar à razão a América.
Assim, uma fermentação múltipla, em diversos pontos do globo, prepara,
anuncia, produz os instrumentos e as ideias do que será à era planetária. E, no
momento em que o império otomano, após ter conquistado Bizâncio e atingidas
as muralhas de Viena, ameaça o centro da Europa, eis que seu Extremo-
Ocidente se lança aos mares e vai inaugurar a era planetária. (Idem:19)
Morin afirma que “Hoje, o destino da humanidade nos coloca com insistência extrema a questão
chave: podemos sair dessa História? Essa aventura é nosso único devir?” (Idem:17)
Isto por razões éticas.
A reforma do pensamento
“Há uma profunda cegueira sobre a natureza mesma do que deve ser um
conhecimento pertinente. Segundo o dogma reinante, a pertinência cresce com a
especialização e com a abstracção. Ora, um mínimo de conhecimento do que é o
conhecimento nos ensina que o mais importante é a contextualização”
(idem:151)

De acordo com esta concepção o conhecimento é pertinente enquanto for abstractamente


especializado. Em contrapartida o autor afirma que esta concepção tem como resultado :
“O conhecimento especializado é em si mesmo uma forma particular de abstracção. A
especialização abstrai, ou seja, extrai um objecto de um campo dado, rejeita suas ligações e
intercomunicações com seu meio, o insere num sector conceituai abstracto que é o da disciplina
compartimentada, cujas fronteiras rompem arbitrariamente a sistemicidade (a relação de uma
parte com o todo) e a multidimensionalidade dos fenómenos; ela conduz à abstracção
matemática que opera automaticamente uma cisão com o concreto, por um lado ao privilegiar
tudo o que é calculável e formalizável, por outro ao ignorar o contexto necessário à
inteligibilidade de seus objectos”
O autor não nega que o conhecimento utilize a abstracção, por consequência afirma o seguinte
“O conhecimento deve certamente utilizar a abstracção, mas procurando construir-se por
referência ao contexto, e, sendo assim, deve mobilizar aquilo que o sujeito que conhece sabe do
mundo”.(Idem:152)
Isto porque O conhecimento do mundo enquanto mundo torna-se necessidade ao mesmo tempo
intelectual e vital. E o problema universal para todo cidadão: como ter acesso às informações
sobre o mundo, e como adquirir a possibilidade de articulá-los e organizá-los. Mas, para articulá-
los e organizá-los, e deste modo reconhecer e conhecer os problemas do mundo, é preciso uma
reforma de pensamento. Essa reforma, que comporta o desenvolvimento da contextualização do
conhecimento, reclama ipso facto a complexificação do conhecimento”.

A falsa racionalidade
Na era actual, os efeitos nefastos que a conjunção dos pareceres de especialistas, das comissões e
das administrações exerce sobre a decisão podem chegar à tragédia. Por exemplo
“as aplicações maciças de adubos empobrecem os solos, as irrigações que não
levam em conta o terreno provocam uma erosão igualmente empobrecedora, a
acumulação de pesticidas destrói as regulações entre espécies, elimina espécies
úteis juntamente com as nocivas, provoca às vezes a multiplicação desenfreada
de uma espécie nociva imunizada contra os pesticidas; além disso, as
substâncias tóxicas contidas nos pesticidas passam para os alimentos e alteram a
saúde dos consumidores”. (Idem: 155)
A falsa racionalidade (inteligência parcelada, compartimentada, mecanista, disjuntiva e
reducionista) rompe o complexo do mundo em fragmentos soltos, fracciona os problemas, separa
o que está ligado, unidimensionaliza o multidimensional. Ela destrói no ovo todas as
possibilidades de compreensão e de reflexão, eliminando assim todas as chances de um
julgamento correctivo ou de uma visão a longo prazo. Assim, quanto mais multidimensionais os
problemas, tanto maior a incapacidade de pensar sua multidimensionalidade; quanto maior a
crise, tanto maior a incapacidade de pensá-la; quanto mais planetários os problemas, tanto menos
eles são pensados. Incapaz de considerar o contexto e o complexo planetário, a inteligência cega
produz inconsciência e irresponsabilidade, tornando-se assim mortífera.

Restaurar a racionalidade contra a racionalização


Na verdade, o modelo racionalista a que obedecem é mecanista, determinista, e exclui como
absurda toda contradição. Não é um modelo racional, mas racionalizador. A verdadeira
racionalidade está aberta e dialoga com o real que lhe resiste. Ela opera uma ligação incessante
entre a lógica e o empírico; ela é o fruto de um debate argumentado de ideias, e não a
propriedade de um sistema de ideias. A verdadeira racionalidade conhece os limites da lógica, do
determinismo, do mecanismo; sabe que o espírito humano não poderia ser omnisciente, que a
realidade comporta mistério.

Pensar o contexto e o complexo


A Terra é uma totalidade complexa física/biológica/antropológica, na qual a vida é uma
emergência da história da Terra e o homem uma emergência da história da vida – terrestre.
A relação do homem com a natureza não pode ser concebida de forma redutora nem de forma
separada.

O pensamento do contexto:
Devemos pensar em termos planetários a política, a economia, a demografia, a ecologia, a
salvaguarda dos tesouros biológicos, ecológicos e culturais regionais não basta inscrever todas as
coisas e os acontecimentos num "quadro" ou "horizonte" planetário. Trata-se de buscar sempre a
relação de inseparabilidade e de inter-retroação entre todo fenómeno e seu contexto, e de todo
contexto com o contexto planetário.

O pensamento do complexo:
Há necessidade de um pensamento que ligue o que está separado e compartimentado, que
respeite o diverso ao mesmo tempo que reconhece o uno, que tente discernir as
interdependências;
 De um pensamento radical (que vá à raiz dos problemas);
 De um pensamento multidimensional;
 De um pensamento organizador ou sistémico que conceba a relação
 De um pensamento ecologizado que, em vez de isolar o objecto de estudo, o considere
em e por sua relação auto-eco-organizadora com seu ambiente-cultural, social,
económico, político, natural;
 De um pensamento que conceba a ecologia da acção e a dialéctica da acção, e seja capaz
de uma estratégia que permita modificar e até mesmo anular a acção empreendida;
 De um pensamento que reconheça seu inacabamento e negocie com a incerteza,
sobretudo na acção, pois só há acção no incerto.

A restauração do pensamento
Há filósofos, cientistas que pensam, há não-cientistas e não-filósofos que pensam, mas o
pensamento parece uma actividade subsidiária da ciência, da filosofia, quando ciências e
filosofias deveriam se dedicar a pensar o homem, a vida, o mundo, o real, e o pensamento
deveria retroagir sobre as consciências e orientar o viver.
A reforma de pensamento requer uma reforma do ensino (primário, secundário, universitário)
que por sua vez requer uma reforma de pensamento. Obviamente, a democratização do direito a
pensar requer uma revolução paradigmática que permitiria a um pensamento complexo
reorganizar o saber e ligar os conhecimentos hoje compartimentados nas disciplinas.
Conclusão
“Ainda até os anos 1950-1960, vivíamos numa terra desconhecida, vivíamos numa Terra
abstracta, vivíamos numa Terra-objecto. Nosso fim de século descobriu a Terra-sistema, a Terra
Gaia, a biosfera, a Terra parcela cósmica, a Terra-Pátria”. (Morin: 175)
E é através dessas tomadas de consciência que podem convergir futuramente mensagens vindas
das fontes mais diversas, umas da fé, outras da ética, outras do humanismo, outras do
romantismo, outras das ciências, outras da tomada de consciência da idade de ferro planetária.

O homem transformou a Terra, domesticou suas superfícies vegetais, tornou-se senhor de seus
animais. Mas não é o senhor do mundo, nem mesmo da Terra. Esse homem deve reaprender a
finitude terrestre e renunciar ao falso infinito da omnipotente técnica, da omnipotência do
espírito, de sua própria aspiração à omnipotência, para se descobrir diante do verdadeiro infinito
que é inominável e inconcebível. Seus poderes técnicos, seu pensamento, sua consciência devem
doravante ser destinados, não a dominar, mas a arrumar, melhorar, compreender. E por ultimo o
autor concluía com seguintes princípios de esperança na desesperança da era planetária: O
primeiro é um princípio vital: assim como tudo o que vive se auto-regenera numa tensão
incoercível voltada para seu futuro, assim também o que é humano regenera a esperança ao
regenerar seu viver; não é a esperança que faz viver, é o viver que faz a esperança, ou melhor: o
viver faz a esperança que faz viver. O segundo é o princípio do inconcebível: todas as grandes
transformações ou criações foram impensáveis antes de se terem produzido. O terceiro é o
princípio do improvável: tudo o que aconteceu de bom na História sempre foi a priori
improvável. O quarto é o princípio da toupeira, que cava suas galerias subterrâneas e transforma
o subsolo antes que sua superfície seja afectada. O quinto é o princípio do salvamento por
tomada de consciência do perigo. Segundo a frase de Hõlderlin: "Lá onde cresce o perigo, cresce
também o que salva."
O sexto é um princípio antropológico: sabemos que o Homo sapiens utilizou até o presente
apenas uma pequeníssima parte das possibilidades de seu espírito/cérebro. Portanto estamos
longe de ter esgotado as possibilidades intelectuais, afectivas, culturais, civilizacionais, sociais e
políticas que são as da humanidade.

Bibliografia: MORIN, Edgar. Terra-patria. Sulina, Porto alegre: 2003.