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CAPA FidelidadESPÍRITA | Outubro 2009

Discernimento e Bom Senso

por Orson Peter Carrara

O
s espíritas devem sempre refletir Allan Kardec, O Codificador da Doutri-
sobre o que lêem, o que fazem na Espírita, é reconhecido pelos espíritas
e como fazem, e seu critério de como o “bom senso encarnado”, tamanha
discernimento e bom senso deve apoiar-se sua capacidade de refletida análise – que
na lógica. bem demonstrou em seus escritos – diante
Eis vocábulos que nunca podem faltar na dos fenômenos que teve oportunidade de
prática espírita. Uma pessoa sem discerni- presenciar e estudar. A própria aceitação
mento é alguém que age impensadamente, pessoal da realidade das manifestações este-
sem reflexão; discernimento é exatamente ve sujeita a esta característica de sua perso-
uma apreciação prévia de fatos e situações, nalidade, acostumada à análise ponderada
prudência no agir, refletindo antecipada- e cuidadosa de fatos, situações e novidades
mente. Bom senso é a faculdade de discer- que a vida lhe apresentava. É interessante
nir, de julgar, de raciocinar. ponderar sobre este aspecto da personalida-
Como espíritas somos sempre convi- de do então professor Rivail, pois o detalhe
dados a refletir sobre o que lemos, o que foi de máxima importância na organização
fazemos, como fazemos. O critério de dis- do corpo doutrinário do Espiritismo, já que
cernimento e bom senso deve estar apoiado ele tudo submetia à análise prévia da razão,
na lógica, mas especialmente ligado ao bem da lógica e do bom senso.
geral. Isto exige atenção, amadurecimento, Encarando os fenômenos apresentados
conhecimento. pelas manifestações dos Espíritos, Allan 4

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Outubro 2009 | FidelidadESPÍRITA CAPA

Kardec estudou e submeteu-os a discernir o verdadeiro do falso, aquilo estaria deslocada se o que escrevem
rigoroso método científico de ob- que é racional daquilo que é ilógico. É fosse produto de sua inteligência; é
servação, optando pela publicação por isso que nada aceitamos de olhos ridícula desde que eles não são mais
daquilo que ficou conhecido como fechados. Assim, não haveria ensino que instrumentos passivos, pois se
a “universalidade dos ensinos”, proveitoso sem discussão. Mas, como assemelham a um ator que ficaria
quer dizer: os ensinos foram os discutir comunicações com médiuns ofuscado, se nós achássemos maus
mesmos, ainda que recebidos por que não suportam a menor contro- os versos que tem de declamar. Seu
médiuns desconhecidos entre si, vérsia, que se melindram com uma próprio Espírito não se pode chocar
de diversos pontos do planeta, e observação crítica, com uma simples com uma crítica que não o atinge;
primavam pela concordância en- observação, e acham mal que não então é o próprio comunicante que
tre si. Fato notável esse, pois essa se aplaudam as coisas que recebem, se magoa e transmite ao médium
concordância é que dá garantia mesmo aquelas lançadas de grosseiras a sua impressão. Por isto o Espírito
dos ensinos. heresias científicas? Essa pretensão trai a sua influência, porque quer
Os Espíritos superiores que- impor as suas idéias pela fé cega e
rem que o nosso julgamento se não pelo raciocínio ou, o que dá no
exercite em discernir o verdadeiro mesmo, porque só ele quer raciocinar.
do falso.
Devemos ter Disso resulta que o médium, que se
Dessas reflexões, destacamos o bom senso acha com tais disposições, está sob o
trecho importante colhido na império de um Espírito que merece
Revista Espírita (1): Sabemos que de analisar pouca confiança, desde que mostra
os Espíritos estão longe de possuir mais orgulho que saber. Assim, sabe-
a soberana ciência e que se podem
criteriosamente mos que os Espíritos dessa categoria
enganar; que, por vezes, emitem tudo o que venha geralmente afastam seus médiuns
idéias próprias, justas ou falsas; que dos centros onde não são aceitos sem
os Espíritos superiores querem que dos Espíritos reservas.
o nosso julgamento se exercite em Esse capricho, em médiuns assim
atingidos, é um grande obstáculo ao
estudo. Se só buscássemos o efeito,
isto seria sem importância; mas como
buscamos a instrução, não podemos
deixar de discutir, mesmo com o
risco de desagradar aos médiuns.
(...) Aos seus olhos, os obsedados são
aqueles que não se inclinam diante
de suas comunicações. Alguns levam
a sua susceptibilidade a ponto de se
formalizarem com a prioridade dada
à leitura das comunicações recebidas
por outros médiuns. Por que uma
comunicação é preferida à sua? Com-
preende-se o mal-estar imposto por tal
situação. Felizmente, no interesse da
ciência espírita, nem todos são assim
(...). (2) 4

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Devemos ter o bom senso de característico do discernimento da Doutrina em virtude de com-


analisar criteriosamente tudo o e do bom senso –, alcançaremos portamentos equivocados de com-
que venha dos Espíritos. um degrau importante no enten- panheiros espíritas, enfim que já
Observem os leitores que a dimento de sua proposta: seremos desperta para o grave compromisso
simples citação, no início do texto, adeptos esclarecidos, conscientes, de estarmos reencarnados.
indicando que os Espíritos não sa- coerentes.
bem tudo, que podem se enganar e O espírita tem o dever de agir
emitir idéias próprias, já por si só em favor de seus irmãos, enquanto Efeitos naturais de uma cons-
convida ao bom senso de analisar ciência espírita formada pelo
criteriosamente tudo que venha estudo e embasada pelas virtudes
dos Espíritos. Este simples cuidado do discernimento e do bom senso,
é capaz de afastar toda investida O espírita tem caminhos seguros para o espírita
de misticismo que possa haver por consciente. E já que o Espiritismo
iniciativa dos Espíritos, ou mesmo o dever de agir não está restrito à prática medi-
no comportamento que venha dos única, o campo é vasto e pede
encarnados, uma vez que sabendo,
em favor de seus ponderada análise do que estamos
por antecedência, que os Espíri- irmãos, enquanto fazendo. w
tos estão ainda em patamares de
evolução e limitados em seu saber age pelo próprio
e moralidade, teremos o cuidado
de avaliar e refletir, usando o dis-
progresso Referências:

cernimento e o bom senso nessas 1. Publicação fundada por Allan Kardec


em 1858.
avaliações. 2. Trecho parcial de discurso de Allan Kar-
Por outro lado, sem envolver-se dec na Sociedade Parisiense de Estudos
Espíritas, na abertura do ano social, em
diretamente com os fenômenos age pelo próprio progresso. 1º de abril de 1862 (extraído da Revista
advindos da mediunidade, a pró- Adeptos esclarecidos, conscien- Espírita de junho de 1862, ano V, vol. 6,
edição EDICEL).
pria vida do espírita, em particular, tes, coerentes formarão a própria
suas ações e engajamento no movi- consciência espírita; esta cons-
mento espírita também solicitam ciência espírita permitirá saber
a aplicação desses dois princípios. que rumo tomar, que diretrizes
Seja na conduta, seja na vida social usar, identificar descompassos
ou familiar, pois são princípios na prática espírita – inclusive de
norteadores de uma vida equili- dirigentes, que também são seres
brada. Usando-os, sempre teremos em aperfeiçoamento e experiên-
onde nos apoiar. cias necessárias – para agir com
A continuidade do texto apre- segurança.
sentado por Kardec, acima par- Ora, é esta mesma consciência
cialmente transcrito, permite espírita que faz o espírita compre-
alargar o horizonte de observação ender o dever de agir em favor
para outro aspecto marcante de seus irmãos, enquanto age
deste tesouro espiritual chamado concomitantemente pelo próprio Fonte:
Espiritismo. É que, estudando-o progresso; é ela mesma que toma Artigo publicado originalmente no site do au-
metodicamente – com o mesmo posições, que não se deixa abater tor http://www.orsonpcarrara.k6.com.br/
sentido obser vador e crítico, pelos obstáculos, que não se afasta

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