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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE - UFRN

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES - CCHLA


DEPARTAMENTO DE LETRAS – LÍNGUA PORTUGUESA
TEORIA DA LITERATURA II

Fragmentos do espelho de Machado de Assis:


Um mosaico do gênero narrativo “conto”

DOCENTE: HENRIQUE EDUARDO DE SOUZA


DISCENTE: GABRIEL SALES DUARTE BEZERRA

Natal, RN
Setembro de 2017
A quebra do espelho

Este tópico traz algumas orientações para a leitura deste ensaio. A


princípio, o objetivo deste trabalho é apresentar características que permitam a
definição do gênero narrativo “conto” em consonância com a observação delas no
conto “O espelho”, de Machado de Assis. Contudo, essas características não foram
dispostas e apontadas de forma linear. Estão topicalizadas dentro do texto conforme
a necessidade de apresentação (tendo como foco o trabalho com a história secreta),
espalhadas como os fragmentos de um espelho que acaba de ser quebrado. Recolha
os fragmentos e monte seu mosaico!
O conto “O espelho”, de Machado de Assis, foi publicado em 1882, ano
seguinte à publicação, pelo mesmo autor, de “Memórias póstumas de Brás Cubas”,
livro considerado o marco do realismo no Brasil. Percebemos, portanto, que se trata
de um conto da fase realista de Machado e que traz fortes características desse
movimento (em especial a representação de um ambiente social e urbano, crítica aos
valores sociais da época, e a forte densidade psicológica dos personagens). A fábula
de “O espelho” narra a história de Jacobina (ou Joãozinho, para os íntimos): um jovem
de família pobre que aos vinte e cinco anos alcança o cargo de Alferes, patente da
guarda nacional que o provem determinado prestígio social. A trama do conto é
iniciada com a apresentação de uma casa no morro de Santa Teresa, bairro do Rio
de Janeiro que abrigou, no passado, a aristocracia do estado. Lá, quatro (ou cinco)
homens debatem sobre questões de alta transcendência, investigam coisas
metafísicas e resolvem os mais árduos problemas do universo. De fato haviam cinco
homens na sala, mas a abstenção de Jacobina de participar das discussões fazia dele
uma figura invisível, quase imperceptível.
Na noite narrada, Jacobina aceita participar da conversa com os
companheiros desde que não fosse contestado. Ele inicia, então, a explicação de sua
tese sobre a alma humana: nós não possuímos apenas uma, mas duas almas: uma
que olha de fora para dentro e outra que olha de dentro para fora, denominadas por
ele almas externa e interna. A alma interna, já conhecida por todos, é quem você é, e
a externa, introduzida pela personagem, é como você é visto. Nesse sentido, a alma
externa pode ser representada por um objeto trivial, uma profissão ou algo de alto
valor material. Apesar da descrição aparentemente simples, a alma externa, ao lado
de sua contraparte, completa o homem como duas fatias de uma laranja. Nas palavras
de Joãozinho: “quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da
existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da
existência inteira”. É levantada, posteriormente, a possibilidade de troca de alma
exterior: em diferentes momentos da vida ela pode assumir diferentes representações.
Para exemplificar sua tese, Jacobina conta o caso de quando se tornou
alferes. A ascensão ao cargo gerou grande alegria dentro da sua família e inquietação
em alguns conhecidos que também concorriam à vaga. A mãe, orgulhosa, passou a
chamá-lo de “seu alferes” e tios e primos compartilhavam da mesma felicidade. Como
tal, uma tia que morava em um sítio distante mandou convidá-lo para visitá-la. Embora
pedisse que fosse tratado por ela como “Joãozinho”, a tia insistia em chamá-lo “senhor
alferes” e dava a ele todas as regalias dignas de sua posição social. Chegou, inclusive,
a abrir mão do objeto mais valioso da casa, um grande espelho que pertenceu à coroa
portuguesa, para que fosse colocado no quarto de Jacobina. O tratamento
diferenciado que Jacobina recebe por todos instaura a intriga na trama. Todos os
mimos recebidos por ele fizeram com que, pouco a pouco, a existência de Joãozinho
fosse apagada e o alferes tomasse seu lugar. O espelho recebido pela tia é quase a
personificação do prestígio e da importância do alferes, objeto digno de ser usado por
ele.
Eventualmente, a tia Marcolina (assim chamada) precisou ausentar-se do
sítio para visitar uma filha doente. Levou consigo o cunhado e pediu que Jacobina
tomasse conta da casa. Isso foi o bastante para abalá-lo, embora estivesse na
presença dos escravos, que mantinham grande respeito pelo “nhô alferes”, como
chamavam-no. Em uma manhã, contudo, Jacobina viu-se sozinho no sítio. Os
escravos planejaram uma fuga e, sem ninguém para alimentar o ego de sua alma
exterior, ficou desolado. Alimentava-se mal e encontrava paz apenas no sono. As
descrições de Jacobina apontam para um tempo que não passa, um estado de
inquietação e solidão comparável ao que hoje conhecemos como depressão. Durante
todo o período em que esteve só, Jacobina não se atreveu a olhar para o espelho.
Apenas após oito dias tomou tal decisão, e para sua surpresa, o espelho não exibia
sua imagem, apenas traços distorcidos e difusos. Com medo, Joãozinho atribuiu o
fenômeno ao nervosismo que sentia e resolveu partir dali. Enquanto se trocava, ele
olhava de relance para o espelho e enxergava sempre as mesmas linhas confusas.
Teve a ideia de vestir a farda de alferes e assim o fez. Apenas nesse momento o vidro
refletiu sua imagem completa, sem um único traço a menos. Jacobina passou a
sentar-se de frente ao espelho todos os dias, com sua farda de alferes, para encontrar
sua segunda alma, a outra metade do seu ser, e assim conseguiu passar por mais
seis dias sozinho. Terminada a história, Jacobina sai da sala antes que seus
companheiros “voltem a si”.
Em uma análise inicial, poder-se-ia dizer que o clímax do conto se dá
quando a personagem olha para o espelho pela primeira vez e vê sua imagem
deforme: “Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo;
não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de
sombra”. Essa situação causa um choque tamanho em Jacobina que o excita a ir
embora: “Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava;
receei ficar mais tempo, e enlouquecer”. O desfecho é apresentado em seguida,
quando o Jacobina decide vestir sua farda:

“Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei


os olhos, e.... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral;
nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes,
que achava, enfim, a alma exterior”.

Verifica-se o fechamento da unidade dramática nesse ponto. O ápice da


tensão seria, portanto, o momento em que Jacobina se sente confuso, sem saber por
qual motivo o espelho não reflete sua imagem e procura explicações lógicas para isso:
o nervosismo causado pela solidão e pela espera sem fim da chegada do cunhado de
sua tia. Quando ele veste sua farda e vê sua figura no espelho, parece entender a
situação e começa a interagir com o objeto e com o reflexo da segunda alma como
uma espécie de válvula de escape daquela solidão. Como uma obra realista, “O
espelho” traz uma forte crítica à valorização das aparências, ao apagamento do “eu”
em detrimento do prestígio social. Como diz Jacobina, “O alferes eliminou o homem”.
Essa é, no entanto, uma explicação óbvia à qual o leitor pode chegar no
momento da primeira leitura do conto. É óbvia porque é explícita, ou seja, uma
conclusão esperada. Píglia (1994) coloca que o conto narra, ao mesmo tempo, duas
histórias. A primeira, mais explícita, aparece em primeiro plano, enquanto outra é
desenvolvida nas entrelinhas. Essa ideia está em consonância com Moisés (2012),
que afirma que gênero dispõe de um pequeno número de páginas e essa marca
estrutural impede que o autor alongue descrições desnecessárias, pois uma palavra
a mais ou a menos é capaz de comprometer a obra como um todo. O autor dá atenção
especial para a introdução do conto: as primeiras linhas entregam o curso da narrativa
e desde que o leitor seja preso por elas, fará a leitura até o fim. Agora, com as ideias
dos dois autores em mente, pensemos sobre a história secreta contida em “O
espelho”.
A situação inicial do conto apresenta a noção espaço onde estão as
personagens iniciais: “a casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena,
alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora”. A
narrativa segue trazendo algumas ambiguidades: “entre a cidade, com suas agitações
e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera
límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores [...]”. Os
detalhes narrados até então podem parecer desconexos a princípio, mas são
justificados conforme a história secreta emerge. Em continuidade, como já foi dito,
Jacobina é convidado para o debate com os colegas, expõe a sua tese sobre a alma
humana e a exemplifica contando um caso de sua vida.
Chamamos atenção agora para alguns pontos peculiares do conto que
servem como cruzamento entre os elementos da história explícita e da história
secreta. Em primeiro lugar, desde o segundo parágrafo é reforçada uma característica
peculiar de Jacobina: ele não gosta de ser contrariado. Evita entrar nas discussões
para não ser contestado, e quando entra, deixa claro que não aceita réplica: “Se me
replicarem, acabo o charuto e vou dormir”. A personagem aceita participar da
conversa, mas sob a condição de apenas contar uma história de sua vida, o que, a
princípio, não geraria questionamentos.
Observemos em segundo lugar alguns recursos linguísticos utilizados na
fala de Jacobina. Questionamentos como: “Custa-lhes acreditar, não?”, “se forem
capazes de adivinhar qual foi minha ideia...” e “Não, não são capazes de adivinhar”.
Revelam tentativas de envolver os ouvintes na história contada. As respostas dadas,
convenientemente, demonstram um encanto gradual e hipnotizador: “mas não
comia?”, “Na verdade, era de enlouquecer”, “diga”. O envolvimento chega ao ápice
quando Jacobina está prestes a introduzir o desfecho da história por ele narrada: “Mas
diga, diga”, pedem os ouvintes. No início do conto também aparecem marcas desse
envolvimento:

“Os quatro companheiros, ansioso de ouvir o caso prometido, esqueceram a


controvérsia. Santa curiosidade! Tu não és só a alma da civilização, és
também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele
pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e metafísica, é
agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que concertava a
ponta do charuto, recolhendo as memórias”.

Esse excerto ilustra a curiosidade gerada nos ouvintes pelo discurso de


Jacobina e quão presos ficaram pela história prestes a ser contada. Há, inclusive,
referência ao pomo da discórdia da mitologia grega como pomo da concórdia (apesar
da controvérsia estabelecida anteriormente, a curiosidade se sobressaiu e todos
ficaram concentrados à espera da história de Jacobina).
A partir da reunião desses pontos já se torna possível elaborar uma
hipótese sobre as entrelinhas: a história secreta gira em torno do ato de contar
histórias. Além das estratégias utilizadas pela personagem para prender a atenção do
público (facilitadas pela descrição da personagem como alguém inteligente, astuto e
cáustico), o fato de Jacobina não gostar de ser questionado levanta o questionamento:
o caso contado é realmente verdadeiro? Caso não seja, há então uma justificativa
para o horror à réplica expresso por Jacobina. A partir do levantamento de nossa
hipótese podemos retornar à situação inicial do conto: “a sala pequena, alumiada a
velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora”. Entendemos
esse trecho como uma referência aos antigos rituais de contação de histórias descritos
por Schermack (2015), em que o conhecimento e cultura de povos e vilas era
transmitido pela oralidade, em torno de uma fogueira, à luz do luar. É descrita também,
“entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu em que as estrelas
pestanejavam” a criação de “uma atmosfera límpida e sossegada” onde as
personagens faziam suas discussões, onde Jacobina estava prestes a contar sua
história e encantar seus companheiros, atmosfera que estava “prestes a se
transformar em um mar morto”.
O epílogo do conto também contribui para a nossa hipótese: “quando os
outros voltaram a si, o narrador estava descendo as escadas”. Esse é, provavelmente,
um fim inesperado e que pode parecer uma frase perdida para muitos leitores, já que
não possui conexão evidente com a história explícita. No entanto, como afirma
Cortázar (2013), no conto não há espaço para o supérfluo, elementos gratuitos. Nada
no texto é em vão. O contista deve eliminar toda situação intermediaria e aproveitar o
(pequeno) espaço que possui. A partir disso levantamos a importância do epílogo
nesse conto: o narrador (Jacobina), talvez por não ter contado uma história verdadeira,
causou no público o impacto que buscava e deixou a sala para evitar
questionamentos.
Dentro da perspectiva da história secreta descrita, as noções de clímax e
desfecham são alteradas: o clímax parece ocorrer, na verdade, em conjunto com o
clímax da história secreta, quando o público pede a Jacobina, ansiosos pelo desfecho
da história narrada: “Mas, diga, diga”. O desfecho vem em seguida, no momento em
que Jacobina deixa a sala com seus companheiros ainda perplexos, “fora de si”.

Referências bibliográficas
 ASSIS, Machado de. O espelho. In: Obra completa. São Paulo: Nova Aguilar,
2015.v.2.p.313-318.
 CORTÁZAR, Júlio. Valise de Cronópio. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2006.
 DIANA, Daniela. Realismo no Brasil. Acesso em: 02 de setembro de 2017.
Disponível em: <https://www.todamateria.com.br/realismo-no-brasil/>
 FRANCO JUNIOR, Arnaldo. Operadores de leitura da narrativa. In: BONNICI,
Thomas; ZOLIM, Lúcia Osana. (ORG.) Teoria literária: abordagens históricas
e tendências contemporâneas. Maringá: Ed. EDUEM, 2009. P. 33-58.
 MASSAUD, Moisés. A criação literária. Ed. rev. e atual. São Paulo: Cultrix,
2012.
 PIGLIA, R. Teses sobre o conto. In: O laboratório do escritor. Tradução:
Josely Vianna Baptista. São Paulo: Iluminuras, 1994. p 37-41.
 SCHERMACK, Keylla de Quadros. A contação de histórias como arte
performática na era digital: convivência em mundos de encantamento.
2015. Acesso em: 02 de setembro de 2017. Disponível em:
<http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/IIICILLIJ/Trabalhos/Trabalhos/S10/keila
schermack.pdf>