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OS 100 anos DA PROTEÇÃO

AO ACIDENTE DE TRABALHO
NO BRASIL
Adriane Bramante de Castro Ladenthin
Melissa Folmann
Marco Aurélio Serau Junior
(Coordenadores)

OS 100 anos DA PROTEÇÃO


AO ACIDENTE DE TRABALHO
NO BRASIL
Copyright © IBDP
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro, protegido
por copyright, pode ser reproduzido, armazenado ou transmitido
de alguma forma ou por algum meio, seja eletrônico ou mecânico,
inclusive fotocópia, gravação ou qualquer sistema de armazenagem
de informações, sem a permissão expressa e por escrito do IBDP.

Título: O
 s 100 anos da proteção ao acidente de trabalho no Brasil
Autor: Adriane Bramante de Castro Ladenthin, Melissa Folmann e Marco Aurélio Serau Junior
Projeto gráfico e Diagramação: Carla Lemos

FICHA CATALOGRÁFICA
Bibliotecária Responsável Elisabete de Barros Barbosa Silva / CRB 917

Os 100 Anos da Proteção ao Acidente de Trabalho no Brasil/ Coordenação


Adriane Bramante de Castro Ladenthin, Marco Aurélio Serau Junior, Melissa Folman.
– Curitiba: Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário – IBDP, 2019.
316 f.

ISBN 978.85-86744-01-3
Inclui Bibliografia

1. Direito do Trabalho – Acidentes 2.Prevenção de acidentes 3. Ambiente de


trabalho I. Ladenthin, Adriane Bramante de Castro, coord. II. Serau Junior, Marco
Aurélio, coord. III. Folman, Melissa, coord.
CDD – 342.61
CDU – 349.2
APRESENTAÇÃO

Nos dias 03 a 05 de Outubro de 2019, na bela cidade de Fortaleza/CE, o IBDP


– Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário realiza o XV CONGRESSO BRA-
SILEIRO DE DIREITO PREVIDENCIÁRIO, maior evento dedicado ao tema do
maior segmento do Direito Social no país.
Todos os anos é elaborada e distribuída dentro do referido Congresso uma co-
letânea jurídica que elege um importante tema do Direito Previdenciário. Para 2019
o tema escolhido foi “Os 100 anos da Proteção ao Acidente de Trabalho no Brasil”.
A coletânea, dentro da missão precípua do IBDP em fomentar os estudos cien-
tíficos sobre o Direito Previdenciário, pretende instigar a reflexão deste importante
tema do Direito Social, no apanágio dos 100 anos da primeira norma jurídica a
albergar essa modalidade de proteção social.
A concretização da obra com a excelência costumeira somente foi possível
com a contribuição de autores reconhecidos pela profunda dedicação ao estudo do
Direito Previdenciário e dos Direitos Sociais.
O livro que se encontra em suas mãos foi composto em três distintas partes.
A Parte I se destina aos aspectos históricos e conceituais a respeito da proteção
contra os acidentes do trabalho, reflexão necessária para propiciar aos profissionais
do Direito Previdenciário subsídios para compreensão dos prováveis futuros cami-
nhos da proteção contra a infortunística.
A Parte II contempla questões processuais e de direito material sobre benefí-
cios decorrentes do acidente do trabalho e reflexos previdenciários dos benefícios
acidentários, outro tema de grande repercussão prática.
Por fim, a Parte III se dedica ao exame do Meio Ambiente do Trabalho e da
Prevenção dos riscos laborais, sob perspectivas tão distintas como o uso da tecno-
logia e do Direito Ambiental.
Os diversos artigos apresentam uma variada gama de opiniões e correntes
doutrinárias, não refletindo ou representando necessariamente a posição do IBDP.
Convidamos todas e todos à leitura desta obra.

OS COORDENADORES
Curitiba, julho de 2019.
SUMÁRIO

Parte I
ASPECTOS HISTÓRICOS E CONCEITUAIS
DA PROTEÇÃO CONTRA OS ACIDENTES DO TRABALHO

A COBERTURA DOS ACIDENTES DE TRABALHO NOS PAÍSES DO


MERCOSUL – Antonio Bazilio Floriani Neto e Fábio Zambitte Ibrahim .......... 11
DIÁLOGOS ECOSSOCIALISTAS COM A PREVIDÊNCIA SOCIAL – Gus-
tavo Seferian .............................................................................................................. 33
A PROTEÇÃO ACIDENTÁRIA NO CONTEXTO DA EVOLUÇÃO DOS
DIREITOS DE PROTEÇÃO SOCIAL – José Antonio Savaris .......................... 53
OS 100 ANOS DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO
BRASIL – Valber Cruz Cereza e Gissele Carraro .................................................. 71
ACIDENTE DO TRABALHO: RISCO SOCIAL OU INCERTEZA – Wagner
Balera e Fábio Lopes Vilela Berbel........................................................................... 85

Parte II
BENEFÍCIOS DECORRENTES DO ACIDENTE DO TRABALHO: ASPEC-
TOS DE DIREITO MATERIAL, PROCEDIMENTAL E PROCESSUAL
A EXCLUSÃO DO SEGURADO CONTRIBUINTE INDIVIDUAL DO ROL
DE BENEFICIÁRIOS DO AUXÍLIO-ACIDENTE E O PRINCÍPIO DA ISO-
NOMIA – Adriano Mauss e Artur Lazzari Cavalheiro ........................................ 103
A VISTORIA TÉCNICA E SUA IMPORTANTE RELAÇÃO COM A INS-
TRUMENTALIDADE DO PROCESSO ADMINISTRATIVO PREVIDEN-
CIÁRIO ACIDENTÁRIO – Alexandre S. Triches ................................................ 127
MILITAR TEMPORÁRIO, ACIDENTE EM SERVIÇO E LICENCIAMEN-
TO ARBITRÁRIO: A VIOLAÇÃO DO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA
PESSOA HUMANA – Ariani Maidana Zanardo ................................................. 137
JUSTIÇA FEDERAL E BENEFÍCIOS PREVIDENCIÁRIOS ORIUNDOS DE
ACIDENTE DE TRABALHO – Fabio Luiz de Oliveira Bezerra ....................... 151
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

A IMPLICAÇÃO DA NATUREZA ACIDENTÁRIA DO BENEFÍCIO PRE-


VIDENCIÁRIO PARA A CONTAGEM DO PERÍODO INTERCALADO
DE SUA FRUIÇÃO COMO TEMPO CONTRIBUTIVO E DE CARÊNCIA
– Igor Henrique dos Santos Luz................................................................................ 171
O PRINCÍPIO DA ACTIO NATA E A RELEVÂNCIA DOS BENEFÍCIOS
POR INCAPACIDADE NAS AÇÕES DE RESPONSABILIDADE CIVIL
POR ACIDENTE DO TRABALHO – Leonardo Ziccarelli Rodrigues e
Pedro Pannuti............................................................................................................ 193

Parte III
MEIO AMBIENTE DO TRABALHO
E PREVENÇÃO DE RISCOS LABORAIS

REFORMA TRABALHISTA X (DES)PROTEÇÃO AO MEIO AMBIENTE


DO TRABALHO SALUBRE DA GESTANTE E LACTANTE: O PAPEL DA
JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL NA VEDAÇÃO AO RETROCESSO
SOCIAL – Aline Medeiros Almeida Cadé............................................................... 213
A POTENCIAL UTILIZAÇÃO DA TECNOLOGIA BLOCKCHAIN PARA A
PREVENÇÃO DE ACIDENTES DE TRABALHO – Antonio Bazilio Floriani
Neto, Lara Bonemer Rocha Floriani e Isadora de Brida Santi.............................. 229
O IMPACTO PREVIDENCIÁRIO DO ACIDENTE DE TRABALHO NA
TRAGÉDIA DE BRUMADINHO – Emerson Costa Lemes e Monica Cameron
Lavor Francischini...................................................................................................... 243
ACIDENTE DE TRABALHO NO MEIO RURAL: ABORDAGEM ACERCA
DOS AGENTES CAUSADORES DOS ACIDENTES NO MEIO RURAL –
Jane Lúcia Wilhelm Berwanger e Fernanda Dutra................................................. 263
MEIO AMBIENTE DO TRABALHO ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO
– Maria Rejane Sampaio dos Santos Vieira............................................................ 281
DESVELANDO AS BRUMAS PREVIDENCIÁRIAS SOBRE MARIANA/
MG – Victor Roberto Corrêa de Souza.................................................................... 299

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Parte I
ASPECTOS HISTÓRICOS E
CONCEITUAIS DA PROTEÇÃO CONTRA
OS ACIDENTES DO TRABALHO
A COBERTURA DOS ACIDENTES DE
TRABALHO NOS PAÍSES DO MERCOSUL

ANTONIO BAZILIO FLORIANI NETO1


FÁBIO ZAMBITTE IBRAHIM2

1. INTRODUÇÃO
Com o advento do Decreto 3.724/1919, o ordenamento jurídico pátrio re-
gulamentou, pela primeira vez, a questão acidentária. Desde então, passaram-se
100 anos e houve diversas modificações não só no conceito de acidente laborativo,
mas também no seguro instituído em 1919, destinado a custear indenizações aos
empregados.
Inicialmente de índole privada, o seguro de acidentes do trabalho (SAT) foi
estatizado em 1967, pela Lei 5.316. Tecidas estas considerações preliminares e
buscando atender aos objetivos desta obra, o presente artigo pretende apresentar
uma reflexão sobre o conceito de acidente de trabalho e compará-lo no âmbito dos
países do MERCOSUL.

1 Doutorando em Direito Econômico pela PUC/PR. Mestre pela PUC/PR, advogado e professor
universitário da Faculdade de Educação Superior do Paraná − FESP. Email: antonio@rochae-
floriani.com.br. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoa-
mento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de financiamento 001.
2 Advogado, Professor Titular de Direito Previdenciário e Tributário do Instituto Brasileiro de
Mercado de Capitais (IBMEC), Professor Adjunto de Direito Financeiro da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Professor e Coordenador de Direito Previdenciário da Escola
de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (EMERJ). Doutor em Direito Público pela UERJ,
Mestre em Direito pela PUC/SP. Foi auditor fiscal da Secretaria de Receita Federal do Brasil e
presidente da 10ª Junta de Recursos do Ministério da Previdência Social.
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

A delimitação do tema decorre do fato de que no Brasil, a proteção da saúde e


da segurança do trabalhador, sob a ótica previdenciária, consiste em um conceito
alargado de acidente de trabalho, na majoração da responsabilidade do emprega-
dor, além do manejo de ações de regresso e do instrumento tributário com vistas a
moldar o comportamento dos agentes econômicos.
Não há dúvidas de que o obreiro tem o direito de exercer seu ofício com dig-
nidade, em um ambiente salubre, sendo este um objetivo a ser atingido em nosso
país. De outro giro, o sistema protetivo deve atuar de forma a conferir os devidos
estímulos para ambas as partes: proteger o trabalhador, incentivar a contratação de
empregados e fomentar a indústria.
Neste contexto, buscou-se a comparação do conceito de acidente de trabalho
com os países do MERCOSUL. Esta escolha adveio da redação do parágrafo único
do artigo 4º, da Constituição de 1988 que orienta a busca da integração econômica,
política, social e cultura dos povos da América Latina.
Assentas estas premissas iniciais, o presente trabalho, inicialmente, apresenta
um breve panorama sobre a proteção ao trabalhador. Em seguida, expõe o concei-
to de acidente de trabalho. Posteriormente, aborda os reflexos decorrentes de um
acidente do trabalho.
Por fim, buscando apresentar propostas de aprimoramento ao caso brasileiro,
será abordada a proteção ao trabalhador nos países do MERCOSUL: Paraguai, Uru-
guai e Argentina. A Venezuela não foi incluída em virtude da sua suspensão do bloco.
Quanto ao método, utilizou-se o dedutivo, partindo-se de premissas gerais
para casos mais específicos, de modo a melhor embasar as conclusões, apresentadas
ao final do artigo.

2. A PROTEÇÃO DO TRABALHADOR – UMA QUESTÃO DE


INTERVENÇÃO ESTATAL
A preocupação com condutas abusivas no meio ambiente de trabalho, es-
pecialmente no que concerne as consequências para os trabalhadores, em certa
medida, sempre existiu3. Contudo, pode-se afirmar que adquiriu maior evidên-
cia quando os efeitos da revolução industrial passaram a ser vivenciados pela
sociedade.

3 RAMÍREZ, María Ascensión Morales. Aproximación al acoso laboral desde la legislación com-
parada. Boletín Mexicano de Derecho Comparado nueva serie, año XLIX, núm. 147, septiem-
bre-diciembre de 2016, pp. 71-98. p. 72.

12
A cobertura dos acidentes de trabalho nos países do mercosul

O figurino liberal, predominante até o final do século XIX, colocava o traba-


lhador em uma elevada vulnerabilidade, inexistindo salário mínimo, controle de
jornada, preocupação com agentes nocivos presentes no local de trabalho, tampouco
proteção social, por meio de um sistema assecuratório como existe hoje em nosso
país, formado pela previdência, assistência e saúde, fazendo com que o obreiro
dependesse única e exclusivamente de seu salário, do seu vigor físico e do auxílio
de seus familiares em caso de infortúnios4.
Nesse momento o princípio da ampla liberdade do trabalho dominava o
ambiente empresarial, ideologia que colocava o trabalhador como subordinado ao
direito comum e, desta forma, presumia-se que, ele próprio, seria o garantidor de
seu bem-estar e independência5.
Sob a perspectiva da empresa, o laissez faire, laissez passer indicava que maiores
fossem as restrições, maiores seriam os custos. Consequentemente, regular a carga
horária ou estabelecer direitos mínimos, geraria o aumento de preços, afetando di-
retamente a competitividade. Tal premissa decorre da ideia de que a intervenção de
um terceiro, estranho à atividade produtiva, afetaria a ordem natural da economia,
pautada na concorrência6.
Ocorre que os altos índices de acidentalidade, a presença de trabalho infantil,
a sobrecarga de serviço e o surgimento de doenças, evidenciou a contraposição do
poder econômico com a realidade. Eros Roberto Grau comenta ter sido exposta a
inaptidão do mercado em se autorregular7.
Assim, ganhou espaço a regulação estatal e o Estado passou a intervir no do-
mínio econômico, moldando condutas, estabelecendo regras, exercendo seu papel
de ator. Um novo cenário emergiu, a fim de que interesses fossem direcionados em
prol da coletividade8, não sendo diferente no Brasil.
Em âmbito nacional, Evaristo Moraes foi o pioneiro a abordar a questão
acidentária no meio ambiente de trabalho. Sua obra “Os accidentes no trabalho e
sua reparação” adveio no mesmo ano do primeiro ato normativo responsável por
disciplinar o tem, o Decreto nº 3.724/1919.

4 IBRAHIM, Fábio Zambitte. Aspectos Polêmicos na Cobertura de Acidentes do Trabalho no


Brasil. Revista Brasileira de Direito Previdenciário, v. 08, p. 58-76, 2012. p. 59.
5 MORAES, Evaristo. Os acidentes no trabalho e sua reparação. São Paulo: LTr, 2009, p. 6.
6 MOREIRA, Vital. A ordem econômica do capitalismo. Coimbra: Centelho, 1978, p. 38-40.
7 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na constituição de 1988: interpretação crítica. São
Paulo: Malheiros, 2010, p. 19-20.
8 MORAES, Evaristo. Op. cit., p. 19.

13
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Desde então, a proteção da saúde e da segurança dos obreiros sofreu intensa


modificação9. Atualmente, o sistema protetivo é moldado em torno de uma contri-
buição social, incidente sobre a folha de salários, denominada seguro de acidentes
do trabalho (SAT).
O SAT é pago pelas empresas e suas alíquotas variam de acordo com o grau de
risco da atividade preponderante exercida: quanto maior a possibilidade de colocar
os trabalhadores a riscos, mais acentuado será o tributo. Os sujeitos passivos da
relação tributária são, portanto, enquadrados com base na atividade econômica,
fazendo com que concorrentes possuam a mesma alíquota. Trata-se de uma tribu-
tação generalista, incapaz de individualizar o empresário.
De qualquer forma, observa-se a opção legislativa de conferir a proteção ao
trabalhador com base no instrumento tributário, acreditando que a elevação da
exação desestimulará condutas abusivas ou irregulares.
E esse raciocínio foi aprofundado com o Fator Acidentário de Prevenção (FAP),
um multiplicador do SAT que pode tornar o tributo mais oneroso, em até 100%,
ou reduzi-lo em até 50%.
A variação do tributo é definida com base nos acidentes de trabalho havidos nas
empresas. Nessa esteira, o empregador que investir na segurança de seus obreiros,
tem a promessa de que sua carga tributária pode ser reduzida.
Nota-se, aqui, a importância do conceito de acidente de trabalho, pois este
infortúnio definirá o montante a ser pago pela empresa. E há lógica em focar as
atenções nos acidentes laborativos: o afastamento de um obreiro gera: (i) despesas
ao sistema único de saúde (SUS), cujo acesso é gratuito, universal e descentraliza-
do; (ii) despesas ao instituto nacional do seguro social (INSS), pois o emprego lhe
torna segurado da Previdência Social e, mesmo que o acidente tenha ocorrido no
primeiro dia de trabalho, sem que o trabalhador jamais tenha contribuído para os
cofres previdenciários, fará jus a um benefício, eis que dispensada a carência10; (iii)

9 Não é objetivo desse artigo comentar sobre esse histórico evolutivo. Para este tema, recomen-
da-se a leitura de FLORIANI NETO, Antonio Bazilio. Seguro de acidentes do trabalho: vora-
cidade fiscal, empresas e economia. São Paulo: LTr, 2015.
10 Lei 8.213/91, Art. 26. Independe de carência a concessão das seguintes prestações:
[...]
II − auxílio-doença e aposentadoria por invalidez nos casos de acidente de qualquer natureza
ou causa e de doença profissional ou do trabalho, bem como nos casos de segurado que, após
filiar-se ao RGPS, for acometido de alguma das doenças e afecções especificadas em lista ela-
borada pelos Ministérios da Saúde e da Previdência Social, atualizada a cada 3 (três) anos, de
acordo com os critérios de estigma, deformação, mutilação, deficiência ou outro fator que lhe
confira especificidade e gravidade que mereçam tratamento particularizado;.

14
A cobertura dos acidentes de trabalho nos países do mercosul

danos ao acidentado, podendo lesioná-lo de forma permanente, feri-lo ou causar o


seu óbito; (iv) em caso de falecimento, a família poderá ajuizar demanda buscando
reparação pelos danos morais e materiais em virtude da perda.
O corte metodológico foi realizado nos países do Mercosul, por dois motivos:
inicialmente, porque a Constituição de 1988, em seu artigo 4o estabelece que o Brasil
“buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América
Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”; outro
motivo decorre das diretrizes contidas no tratado de Assunção, como por exemplo
promover a integração entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, o aproveita-
mento mais eficaz de recursos, a preservação do meio ambiente, o melhoramento
das interconexões físicas e a coordenação de políticas macroeconômicas. Não foi
incluída a Venezuela nesse estudo em razão de sua suspensão do bloco econômico.
Por conta disso, o estudo da proteção do trabalhador nos países que compõem
o Mercosul pode ser de grande valia não só para o aprimoramento do sistema pá-
trio, como também para unificar procedimentos no âmbito do grupo econômico.
Identificar aspectos positivos e negativos da legislação dos países vizinhos
formará o caminho necessário para formar as primeiras convicções acerca do rumo
que o Brasil tem tomado na matéria acidentária.

3. A COBERTURA ACIDENTÁRIA NO BRASIL


Os acidentes do trabalho, diferentemente do que possa se imaginar, não estão
listados e definidos na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), mas sim na Lei
8.213/91, responsável por dispor sobre o plano de benefícios da Previdência Social,
mais especificamente em seus artigos 19 a 23.
Ao examinarmos esses dispositivos, observa-se que os acidentes laborativos
podem ser descritos como os infortúnios havidos no exercício do trabalho, a serviço
da empresa ou do empregador doméstico, responsáveis por gerar lesão corporal
ou perturbação funcional que ocasione morte ou perda ou redução da capacidade
laborativa11.
Essa é a redação do artigo 19, da Lei 8.213/91, alterado em 2015, por meio da
Lei Complementar 150, que incluiu, no conceito mencionado, a possibilidade dos

11 Art. 19. Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço de empresa ou
de empregador doméstico ou pelo exercício do trabalho dos segurados referidos no inciso VII
do art. 11 desta Lei, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou
a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.

15
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

empregados domésticos fazerem jus a prestações decorrentes de um infortúnio


laboral.
Do dispositivo, verifica-se que o legislador elaborou o conceito de acidente
do trabalho em 3 núcleos: a subordinação, o distúrbio ou lesão e a incapacidade. A
subordinação decorre do fato de o acidente ser considerado como tal desde que o
obreiro esteja realizando seu ofício ou esteja a serviço da empresa ou do empregador
doméstico, “[...] ainda que se encontre fora do local e horário de trabalho, seja por
culpa exclusiva da vítima, fato de terceiro, caso fortuito ou força maior”12.
A lesão ou distúrbio é outro requisito, ou seja, não será considerando como
acidente do trabalho o evento que não causar ao trabalhador perturbação funcional.
Esse requisito é objeto de críticas por parte da doutrina, pois retira do rol acidentes
biológicos, os quais devem ser notificados, como por exemplo a perfuração de agulha
ou o respingo de sangue que pode ocasionar AIDS ou hepatite13.
Por fim, ao se falar em acidente do trabalho, exige-se a incapacidade. Estará
fora do rol desse conceito, portanto, o evento que não incapacite o trabalhador.
Nesse contexto, Paulo Rogério Albuquerque de Oliveira comenta que se o acidente
de São José, no Chile, em 2010, que deixou 33 mineiros a 700 metros abaixo da
superfície por mais de um mês, tivesse ocorrido no Brasil, não seria considerado
como do trabalho14. Consequentemente, o infortúnio poderia acarretar em danos
civis, mas não previdenciários.
No artigo 20, da Lei 8.213/9115 o legislador traz as espécies do gênero acidente de
trabalho, a saber: doença profissional e a doença do trabalho. A primeira, pressupõe
uma relação intrínseca entre atividade profissional e doença. Em outros termos, há
“[..] presunção absoluta do liame, pois o trabalho é causa necessária; há relação de
causa e efeito direta, pois com a supressão do agente a doença deixa de existir”16.

12 CABRAL, Lenz Alberto Alves. Abre a CAT? Nexo causal no acidente do trabalho. 3 ed. São
Paulo: LTr, 2013, p. 69.
13 Ibid., p. 72
14 OLIVEIRA, Paulo Rogério Albuquerque de. Uma sistematização sobre a saúde do trabalha-
dor: do exótico ao exotérico. São Paulo: LTr, 2011, p. 67-68.
15 Art. 20. Consideram-se acidente do trabalho, nos termos do artigo anterior, as seguintes enti-
dades mórbidas:
I − doença profissional, assim entendida a produzida ou desencadeada pelo exercício do traba-
lho peculiar a determinada atividade e constante da respectiva relação elaborada pelo Ministé-
rio do Trabalho e da Previdência Social;
II − doença do trabalho, assim entendida a adquirida ou desencadeada em função de condições
especiais em que o trabalho é realizado e com ele se relacione diretamente, constante da relação
mencionada no inciso I.
16 IBRAHIM, Fábio Zambitte. Curso de direito previdenciário. Niterói: Impetus, 2014, p. 257

16
A cobertura dos acidentes de trabalho nos países do mercosul

Dentre os exemplos estão a silicose, doença desenvolvida pelo trabalhador que


exerce seu ofício exposto a sílica ou, então, a asbestose, decorrente da inalação da
poeira contendo amianto17. Ambos os casos conjugam doenças de evolução lenta,
gradativa e vinculadas ao trabalho profissional. Importante notar que, uma vez
removido o agente causador, não há que se falar na enfermidade. Por conta disso
que anteriormente se falou na relação de causa e efeito.
Já a doença do trabalho é mais difícil de ser caracterizada, inexistindo uma
relação necessária e tão evidente quanto a doença profissional. De acordo com o
inciso II, do artigo 20, essa espécie desencadeia-se em razão de condições especiais
em que o trabalho é exercido. A doença do trabalho advém de “[...] condições de
agressividade existentes no local de trabalho, que agiram, decididamente, seja para
acelerar, eclodir ou agravar a saúde do trabalhador”18. Como exemplo, estão as
lesões por esforço repetitivo (LER) e os distúrbios osteomusculares relacionados
ao trabalho (DORT).
Interessante observar que a dificuldade na aferição da doença do trabalho
decorre da possibilidade de o trabalhador possuir uma predisposição genética para
a doença ou, então, praticar uma atividade que nada guarda relação com o trabalho.
É o caso do trabalhador que desenvolve LER por tocar um instrumento musical,
como uma guitarra, por exemplo.
O mencionado artigo, em seu parágrafo § 1º também lista as doenças que são
excetuadas do conceito de acidente de trabalho, vale dizer, por mais que o conceito
seja abrangente, os seguintes eventos não podem ser correlacionados com a prática
de uma atividade laborativa: a doença degenerativa; a inerente a grupo etário; a que
não produza incapacidade laborativa, conforme já mencionado, e a doença endê-
mica adquirida por segurado habitante de região em que ela se desenvolva, salvo
comprovação de que é resultante de exposição ou contato direto determinado pela
natureza do trabalho.
Há, contudo, certas hipóteses que, a princípio, podem não parecer estarem
relacionadas ao ofício, contudo, foram equiparadas como sendo acidentária. São
os casos listados no artigo 21:

Art. 21. Equiparam-se também ao acidente do trabalho, para efeitos desta Lei:
I − o acidente ligado ao trabalho que, embora não tenha sido a causa única,
haja contribuído diretamente para a morte do segurado, para redução ou perda

17 ARAÚJO JUNIOR, Francisco Milton. Doença ocupacional e acidente trabalho: análise multi-
disciplinar. 2. ed. São Paulo: LTr, 2013, p. 65.
18 COSTA, Hertz Jacinto. Manual de acidente do trabalho: abordagem inédita do interesse judi-
cial do empregador nos benefícios dos empregados. Curitiba: Juruá, 2013, p. 90.

17
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

da sua capacidade para o trabalho, ou produzido lesão que exija atenção médica
para a sua recuperação;
II − o acidente sofrido pelo segurado no local e no horário do trabalho,
em conseqüência de:
a) ato de agressão, sabotagem ou terrorismo praticado por terceiro ou
companheiro de trabalho;
b) ofensa física intencional, inclusive de terceiro, por motivo de disputa
relacionada ao trabalho;
c) ato de imprudência, de negligência ou de imperícia de terceiro ou de
companheiro de trabalho;
d) ato de pessoa privada do uso da razão;
e) desabamento, inundação, incêndio e outros casos fortuitos ou decorrentes
de força maior;
III − a doença proveniente de contaminação acidental do empregado no
exercício de sua atividade;
IV − o acidente sofrido pelo segurado ainda que fora do local e horário
de trabalho:
a) na execução de ordem ou na realização de serviço sob a autoridade da
empresa;
b) na prestação espontânea de qualquer serviço à empresa para lhe evitar
prejuízo ou proporcionar proveito;
c) em viagem a serviço da empresa, inclusive para estudo quando financiada
por esta dentro de seus planos para melhor capacitação da mão-de-obra,
independentemente do meio de locomoção utilizado, inclusive veículo de
propriedade do segurado;
d) no percurso da residência para o local de trabalho ou deste para aquela,
qualquer que seja o meio de locomoção, inclusive veículo de propriedade do
segurado.
§ 1º Nos períodos destinados a refeição ou descanso, ou por ocasião da
satisfação de outras necessidades fisiológicas, no local do trabalho ou durante
este, o empregado é considerado no exercício do trabalho.
§ 2º Não é considerada agravação ou complicação de acidente do trabalho
a lesão que, resultante de acidente de outra origem, se associe ou se superponha
às conseqüências do anterior.

Das hipóteses acima, destacam-se os seguintes casos.


Os acidentes havidos no local e horário de trabalho resultantes de atos de
agressão, sabotagem ou terrorismo, praticados por terceiro ou companheiro de
trabalho. Interessante notar, portanto, que eventual briga, decorrente de desavença
entre dois empregados, que resultar na incapacidade destes, será considerada como
acidente de trabalho.

18
A cobertura dos acidentes de trabalho nos países do mercosul

Os casos de desabamento, inundação, incêndio e outros casos fortuitos ou de-


correntes de força maior. Nessas situações, a empresa, portanto, será responsabilizada
pelo acidente, mesmo que o infortúnio tenha sido decorrente de uma inundação,
causada por temporal na região onde a atividade é desenvolvida.
O acidente sofrido fora do horário de trabalho, quando o obreiro estiver exe-
cutando ordem ou realizando serviço para a empresa; quando estiver em viagem a
serviço ou para fins de qualificação profissional. Para esta última, exige-se que os
estudos sejam financiados pelo empregador e quando estiver a caminho do trabalho,
seja qual for o modo de locomoção. Esta última hipótese refere-se aos acidentes
de trajeto, também denominados in itinere. Assim, se o trabalhador estiver em seu
carro, motocicleta, bicicleta, estiver fazendo uso de transporte público ou até mes-
mo se direcionando para casa ou para o trabalho a pé e, nesse período, sofrer um
acidente, este será considerado como decorrente do trabalho.
No § 1º, do artigo 21, o legislador ainda determinou que nos períodos de refei-
ção, descanso e até mesmo para satisfação de necessidades fisiológicas, o empregado
é considerado como no exercício de seu labor.
Por fim, o artigo 21-A19 elenca a última forma de constatação de um acidente
de trabalho, decorrente do nexo entre trabalho e doença20. Trata-se do nexo técnico
epidemiológico previdenciário (NTEP). Por meio do NTEP, a Previdência estabelece
uma relação de causa e efeito entre a enfermidade apresentada pelo trabalhador e
a atividade desenvolvida.
De acordo com Paulo Rogério Albuquerque de Oliveira, o NTEP, implementado
em 2006, alterou substancialmente a sistemática de concessão dos benefícios por
incapacidade21. Explica o autor que antes adotava-se um procedimento automáti-
co: sem a comunicação de acidentes do trabalho (CAT), a prestação era comum;
com a CAT, acidentária. Ou seja, os peritos da autarquia sequer consideravam a
hipótese de correlacionar uma enfermidade com o trabalho. Esse modo de agir
desconsiderava, por completo, o ambiente no qual ele labora, relegando a segun-

19 Art. 21-A. A perícia médica do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) considerará carac-
terizada a natureza acidentária da incapacidade quando constatar ocorrência de nexo técnico
epidemiológico entre o trabalho e o agravo, decorrente da relação entre a atividade da empresa
ou do empregado doméstico e a entidade mórbida motivadora da incapacidade elencada na
Classificação Internacional de Doenças (CID), em conformidade com o que dispuser o regula-
mento.
20 OLIVEIRA, Paulo Rogério Albuquerque de. Uma sistematização sobre a saúde do trabalha-
dor: do exótico ao exotérico. São Paulo: LTr, 2011, p. 82.
21 Ibid., p. 81-82.

19
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

do plano as dimensões que igualmente podem ter conduzido ao evento danoso.


Consequentemente, as atenções são dirigidas à empresa, como possível adoecedora
do trabalhador22.
Nesse compasso, o ambiente de trabalho foi sintetizado pela classificação
nacional de atividades econômicas (CNAE)23. Já as enfermidades são listadas na
classificação internacional de doenças (CID). Assim, o INSS elaborou uma lista
de intervalos CID-10 com determinadas classes de CNAE no Decreto 3.048/99,
anexo II, lista C.
Tecidas essas considerações, observou-se nesse tópico que acidente de traba-
lho é um gênero que comporta espécies: doença profissional e doença do trabalho.
Para se falar em acidente do trabalho é indispensável a existência de três núcleos:
subordinação, lesão ou distúrbio e incapacidade. Além disso, a Lei 8.213/92 exce-
tuou 4 hipóteses do conceito de acidente laborativo (art. 20, § 1º), bem como previu
determinadas situações que, por mais improvável que sejam, são equiparadas ao
acidente de trabalho (art. 21), sendo um dos exemplos o acidente de trajeto. Fi-
nalmente, importante ressaltar a existência do NTEP, que alterou a sistemática de
concessão de benefícios por incapacidade no âmbito do INSS.
Dito isso, o presente artigo passa a examinar, brevemente, as consequências
para o empregador da ocorrência desse infortúnio.

4. AS CONSEQUÊNCIAS DE UM ACIDENTE DO TRABALHO


PARA O EMPREGADOR
Até o presente momento, expôs-se a importância do papel interventor do estado
na promoção da saúde e da segurança do trabalhador, situação essa incompatível com
um figuro liberal. De outro giro, nesse item, passa-se a demonstrar o lado oposto,
ou seja, os reflexos para os empregadores da ocorrência de um acidente laborativo.
O primeiro aspecto a ser destacado é a estabilidade no emprego por 12 (doze)
meses. Essa previsão está contida no artigo 118, da Lei 8.213/9124 e assegura,

22 OLIVEIRA, Paulo Rogério Albuquerque de. Uma sistematização sobre a saúde do trabalha-
dor: do exótico ao exotérico. São Paulo: LTr, 2011, p. 108.
23 OLIVEIRA, Paulo Rogério Albuquerque de. Nexo técnico epidemiológico previdenciário
NTEP e o fator acidentário de prevenção FAP: um novo olhar sobre a saúde do trabalhador.
2008. 244 f. Tese (Doutorado em Ciência da Saúde) – Universidade de Brasília, Brasília, 2008,
p. 109.
24 Art. 118. O segurado que sofreu acidente do trabalho tem garantida, pelo prazo mínimo de
doze meses, a manutenção do seu contrato de trabalho na empresa, após a cessação do auxílio-
-doença acidentário, independentemente de percepção de auxílio-acidente.

20
A cobertura dos acidentes de trabalho nos países do mercosul

portanto, ao obreiro acidentado a manutenção do seu contrato por um ano. Esse


período passa a valer a contar da cessação do auxílio-doença acidentário, não
exige o recebimento de auxílio-acidente e, vale reiterar, está restrito aos acidentes
de trabalho.
A segunda consequência decorre da aplicação do artigo 7o, XXVIII, da Cons-
tituição de 198825. O dispositivo assegura o direito do empregado a ser indenizado
quando sua incapacidade, lesão, decorrer de dolo ou culpa do empregador. Desse
modo, a negligência da empresa autoriza a Previdência Social ingressar com uma
ação, denominada regressiva, buscando o ressarcimento dos valores pagos a título
do benefício concedido em razão de um acidente de trabalho26. Por exigir a compro-
vação do dolo ou culpa, tem-se que a responsabilidade do empregador é subjetiva.
De qualquer forma, essas ações amparam-se na responsabilidade civil, partindo da
ideia de que a coletividade não pode ser prejudicada pela negligência de um empre-
gador quanto a adoção de normas de segurança e higiene do trabalho. Ademais, o
próprio trabalhador pode buscar reparação por danos morais e materiais em face
do empregador, como consequência do sinistro.
A terceira consequência refere-se a majoração da carga tributária. Aqui, chega-
-se ao SAT e FAP. Conforme explicado brevemente na parte inicial desse trabalho, o
SAT é uma contribuição social, incidente sobre a folha de salários. Possui previsão
constitucional e legal.
Na Carta Magna, o SAT está expressamente previsto no artigo citado no pa-
rágrafo acima, artigo 7o, XXVIII. Em âmbito legal, foi a Lei 8.212/91, artigo 22, II27,
a responsável por disciplina-lo.

25 Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de
sua condição social:
XXVIII − seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregador, sem excluir a indeniza-
ção a que este está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa;
26 Art. 120. Nos casos de negligência quanto às normas padrão de segurança e higiene do trabalho
indicados para a proteção individual e coletiva, a Previdência Social proporá ação regressiva
contra os responsáveis.
27 Art. 22. A contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social, além do disposto no
art. 23, é de:
[...]
II − para o financiamento do benefício previsto nos arts. 57 e 58 da Lei nº 8.213, de 24 de julho
de 1991, e daqueles concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa de-
corrente dos riscos ambientais do trabalho, sobre o total das remunerações pagas ou creditadas,
no decorrer do mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos:
a) 1% (um por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante o risco de acidentes
do trabalho seja considerado leve;

21
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Em resumo, o SAT pode ser definido como uma contribuição previdenciária


patronal devida em virtude dos danos causados à saúde dos trabalhadores. Além
disso, financia o benefício chamado de aposentadoria especial. No que se refere a
base de cálculo, esta é o total das remunerações pagas ou creditadas, no decorrer
do mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos. A alíquota é variável
de 1% a 3%, o sujeito ativo é a União e o passivo as empresas.
O artigo 22, II, estabelece que as alíquotas serão definidas conforme o risco
da atividade preponderante da empresa: se leve, terá a menor (1%), ao passo que
o risco médico acarreta na alíquota de 2% e, o grave, 3%. Para definir esse risco, a
Previdência se vale da CNAE, ou seja, a atividade econômica desenvolvida. É um
mecanismo bastante criticável, pois impede de discriminar uma empresa específica
dentro de sua atividade. Ou seja, independe a forma com que, duas empresas atu-
antes no mesmo segmento econômico, investem na promoção do meio ambiente
de trabalho. Se uma firma adquire maquinário mais seguro, compra equipamentos
de proteção individual e coletiva e, consequentemente, acidenta menos seus traba-
lhadores, terá alíquota idêntica a de sua concorrente. Por conta disso, comete uma
injusta fiscal ao não privilegiar o bom empregador.
Visando aprimorar o sistema protetivo adveio o FAP, por meio da Lei 10.666/2003,
artigo 1028. O FAP pode ser definido “[...] multiplicador variável num intervalo con-
tínuo de cinco décimos (0,5000) a dois inteiros (2,0000) [...] a ser aplicado à respec-
tiva alíquota do seguro de acidentes (1, 2 ou 3%)”29. É composto por 3 coeficientes:
frequência, gravidade e custo30, definidos com base nos índices de acidentalidade das

b) 2% (dois por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja consi-
derado médio;
c) 3% (três por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja consi-
derado grave.”
28 Art. 10. A alíquota de contribuição de um, dois ou três por cento, destinada ao financiamento do
benefício de aposentadoria especial ou daqueles concedidos em razão do grau de incidência de
incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho, poderá ser reduzida, em
até cinqüenta por cento, ou aumentada, em até cem por cento, conforme dispuser o regulamento,
em razão do desempenho da empresa em relação à respectiva atividade econômica, apurado em
conformidade com os resultados obtidos a partir dos índices de freqüência, gravidade e custo,
calculados segundo metodologia aprovada pelo Conselho Nacional de Previdência Social.
29 IBRAHIM, Fábio Zambitte. O custeio dos acidentes do trabalho no Brasil controvérsias sobre a
regulação administrativa. In: GOMES, Marcus Lívio; VELLOSO, Andrei Pitten (Org.). Sistema
constitucional tributário dos fundamentos teóricos aos hard cases tributários. 1. ed. Porto
Alegre: Livraria do Advogado, 2014, p. 580-596, p. 587, v. 1.
30 Explicados de forma minuciosa por FOLMANN, Melissa; VIANNA, Cláudia Salles Vilela. Fa-
tor acidentário de prevenção (FAP): inconstitucionalidades, ilegalidades e irregularidades.
Curitiba: Juruá, 2012, p. 42-45.

22
A cobertura dos acidentes de trabalho nos países do mercosul

empresas. Logo, quanto maiores forem os acidentes de trabalho, maior será o FAP e,
consequentemente, o SAT. Essa é a razão pela qual entende-se que a ocorrência de
um infortúnio laborativo acarretará na majoração da carga tributária.
Nesse cenário, observa-se que o SAT, apesar de estatal e do nome, não é um
seguro, mas sim uma contribuição social, cujo recolhimento não exime que sejam
manejadas ações de regresso contra os empregadores.
Contudo, o ponto atual de maior controvérsia refere-se ao amplo conceito de
acidente de trabalho, como por exemplo a questão dos acidentes de trajeto. Se é
considerado como acidentário o infortúnio havido no caminho em que o trabalhador
esteja se deslocando de sua casa para o trabalho e vice-versa, independentemente do
meio de locomoção, por mais que a empresa invista substancialmente na compra de
maquinário mais seguro, promova a segurança e a saúde dos trabalhadores, sofrerá
consequências para fins de FAP.
Recentemente, o Conselho Nacional de Previdência Social (CNPS), retirou,
do cômputo do FAP, esses acidentes31. Contudo, eles permanecem no conceito de
acidente do trabalho, ou seja, geram a estabilidade, além de abrirem margem para
eventual reclamatória trabalhista com indenização por danos morais e materiais.
Além disso, pela lei 8.213/91 ainda considerar os acidentes in itinere e a mudança
referir-se apenas em âmbito administrativo, eventual posicionamento jurispruden-
cial pode ainda manter esses eventos como acidentários.
A questão envolvendo os acidentes in itinere no âmbito do conceito de acidente de
trabalho merece reflexão, ainda, pelas inovações ocorridas na CLT. O artigo 58, §2º, com
a redação dada pela Lei 13.467/2017, expressamente afastou, do cômputo da jornada de
trabalho, o período de deslocamento do trabalhador para o seu emprego e vice-versa.
Pois bem, examinados os reflexos de um acidente de trabalho para os em-
pregadores, o estudo passa a dirigir suas atenções para o direito comparado, mais
especificamente para como os países do Mercosul disciplinam a matéria envolvendo
acidentes laborativos.

5. A QUESTÃO ACIDENTÁRIA NO ÂMBITO DO MERCOSUL –


PARAGUAI, URUGUAI E ARGENTINA
A importância da integração econômica, social e cultural dos países da Améri-
ca Latina é reconhecida pela Constituição de 1988, logo em seu artigo 4o, parágrafo
único. Esse dispositivo estabelece como objetivo da República Federativa do Brasil a

31 Disponível em <http://www.previdencia.gov.br/2016/11/cnps-conselho-aprova-alteracoes-no-
-calculo-do-fator-acidentario-de-prevencao/> Acesso em 26.jan.2019.

23
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

formação de uma comunidade latino-americana de nações. Visando atingir esse anseio,


em 26/03/1991, Brasil, Paraguai e Uruguai uniram-se com a finalidade de formar um
mercado comum do sul, denominado MERCOSUL, firmando o tratado de Assunção.
A formação do MERCOSUL baseia-se na cooperação, acreditando que a
integração proporciona um processo mais eficiente de desenvolvimento, gera
melhor aproveitamento de recursos naturais, pode ser mais eficaz na preservação
do meio ambiente, além de melhoras as interconexões físicas e facilitar políticas
macroeconômicas.
O tratado de Assunção foi promulgado em solo pátrio pelo protocolo de Ouro
Preto (Decreto n. 1.901/1996). Nesse documento, verifica-se a estrutura institucional
do MERCOSUL.
No âmbito previdenciário, escopo do presente artigo, foi firmado o Acordo
Multilateral de Seguridade Social do Mercado Comum do Sul em 1997, o qual restou
promulgado pelo brasil em 2006, por meio do decreto n. 5.722/2006.
No artigo 2o, o acordo determina que os direitos inerentes à Seguridade Social serão
reconhecidos aos trabalhadores que prestem ou tenham prestado serviços em
quaisquer dos Estados Partes, sendo-lhes reconhecidos, assim como a seus familiares
e assemelhados, os mesmos direitos e estando sujeitos às mesmas obrigações que
os nacionais de tais Estados Partes com respeito aos especificamente mencionados
no presente Acordo.
Outro aspecto interessante é a submissão do trabalhador à legislação do
Estado Parte em que exercer a atividade laborativa (art. 4o). Esse artigo ressalta a
importância de uniformizar a legislação dos países do grupo, especialmente para
melhorar a adaptação dos trabalhadores.
Tecidas essas considerações introdutórias sobre o MERCOSUL, passemos a
abordar especificamente.

5.1. Paraguai
A matéria acidentária é regulamentada pela Lei 1.860/195032. Em seu artigo
40, o ato legal considera os riscos profissionais como gênero do qual acidentes de
trabalho e enfermidades profissionais são espécies.

32 Disponível em <http://www.hacienda.gov.py/web-hacienda/archivo.php?a=c4cfc8dcc8d683dc83
c6d2d1d9c8d1ccd2d683ccd1d7c8d5d1c4c6ccd2d1c4cfc8d692c7c8c6d5c8d7d283cfc8dc
83949b999390989383d0d2c7ccc9ccc6c483c7c8c6d5c8d7d283cfc8dc83949a939a9490979
683c7c883c6d5c8c4c6ccd291d3c7c9c4063&x=10100ae&y=808001f>. Acesso em 02.jan.2019.

24
A cobertura dos acidentes de trabalho nos países do mercosul

No que tange ao acidente de trabalho, este é considerado como toda lesão


orgânica que o trabalhador sofra por ocasião ou consequência do trabalho que
execute para seu empregador e durante o tempo que o realiza ou deveria realiza-lo.
A lesão deve ser produzida por uma ação repentina e violenta de uma coisa exterior.
Deste conceito, observa-se que o acidente de trabalho, assim como no caso
brasileiro, exige subordinação e lesão ou distúrbio. Contudo, o Paraguai não inclui
no conceito de acidente laborativo a incapacidade. Assim, uma torção de tornozelo,
por exemplo, que lesione o trabalhador, mas não o impeça de exercer seu ofício, será
considerado como acidente de trabalho. Aqui, esse evento não poderia ser reconhecido
como tal, justamente pela ausência de incapacidade. Outra situação seria a perfuração
de um dedo, pelo uso de objeto cortante ou manuseio de agulha. Por mais que tenha
sido superficial a lesão, no Paraguai seria considerada como um acidente de trabalho.
Vale mencionar, ainda, que o governo paraguaio faz questão de enfatizar
que o acidente pode ocorrer durante a atividade realizada, dentro da empresa, ou
fora dela. Nesse contexto, o acidente de trajeto, ou in itinere, é reconhecido como
acidente de trabalho33.
Já enfermidade profissional é conceituada como todo estado patológico que so-
brevém de uma causa repetida por longo tempo, como consequência de uma classe de
trabalho que desempenha o trabalhador ou do meio em que exerce seu labor e provoca
no organismo uma perturbação funcional, permanente ou transitória, podendo ser
originada esta enfermidade profissional por agentes físicos, químicos ou biológicos.
Esse conceito abrange tanto a doença profissional, quanto a doença do trabalho.
No que se refere ao estado patológico decorrente de causa repetida, pode-se citar
o caso da LER (doença profissional), já quando o artigo menciona a influência do
meio, especialmente a interação com agentes físicos, químicos ou biológicos, tem-
-se a proximidade com o que denominamos de doença do trabalho (ex: o contato
com sílica acarreta na doença silicose).

5.2 Uruguai
Para que uma doença seja considerada como sendo profissional, esclarece o
Ministério de Trabalho e Seguridade Social, ser indispensável que tenha origem nos
trabalhos que envolvem riscos34.

33 Disponível em <https://portal.ips.gov.py/sistemas/ipsportal/archivos/materiales/1509373890.pdf>.
Acesso em 3.jun.2019.
34 Disponível em <https://www.mtss.gub.uy/web/mtss/accidentes-de-trabajo> Acesso em
07.jun.2019.

25
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Nesse país os acidentes de trabalho e doenças profissionais são regulados pela


Lei 16.074/9035. Há um seguro obrigatório sobre os acidentes laborativos e enfermi-
dades profissionais, além disso os empregadores são civilmente responsáveis pelos
infortúnios ou enfermidades ocorridas com seus empregados por conta da atividade
exercida ou em decorrência desta36.
É interessante destacar que a adesão ao seguro obrigatório, isenta o empregador
da responsabilidade decorrente de um infortúnio decorrente do trabalho exercido.
De acordo com o artigo 7, da Lei 16.074/90, quem arcará com os custos será o Banco
de Seguros do Estado. A exceção está nos casos em que for comprovado dolo ou
culpa grave do empregador quanto ao cumprimento das normas de segurança e
prevenção. Nessa hipótese, deverá reparar integralmente o dano, inclusive os gastos
com assistência médica e o montante desembolsado pelo Banco para atender as
indenizações previstas na lei37.
No Uruguai, portanto, é o Banco de Seguros do Estado quem presta a assistên-
cia médica e financia as indenizações correspondentes aos acidentes de trabalho.

35 Disponível em <http://www.impo.com.uy/bases/leyes/16074-1989> Acesso em 05.jun.2019.


36 Artículo 1. Declárase obligatorio el seguro sobre accidentes del trabajo y enfermedades profe-
sionales previsto en la presente ley
Artículo 2. Todo patrono es responsable civilmente de los accidentes o enfermedades profesio-
nales que ocurran a sus obreros y empleados a causa del trabajo o en ocasión del mismo, en la
forma y condiciones que determinan los artículos siguientes.
37 Artículo 7. Las personas amparadas por la presente ley y, en su caso, sus derecho-habientes, no
tendrán más derechos como consecuencia de accidentes del trabajo y enfermedades profesio-
nales que los que ella les acuerda, a no ser que en estos haya mediado dolo o culpa grave por
parte del patrono en el incumplimiento de normas sobre seguridad y prevención. Acreditada
por el patrono la existencia del seguro obligatorio establecido por esta ley, la acción deberá
dirigirse directamente contra el Banco de Seguros del Estado, quedando eximido el patrono
asegurado de toda responsabilidad y siendo inaplicables, por lo tanto, las disposiciones del
derecho común. Todo ello sin perjuicio de la excepción establecida en el inciso anterior. Si
hubiera mediado dolo o culpa grave del empleador en el incumplimiento de normas sobre
seguridad y prevención, este deberá reparar integralmente el daño causado, en todo cuanto
no hubiere sido cubierto por el seguro de conformidad con las disposiciones de la presente
ley. En este caso además, el Banco excluirá el siniestro y recuperará los gastos generados por la
asistencia médica prestada y las sumas de dinero necesarias para atender la totalidad de las in-
demnizaciones previstas en la presente ley. Constatado el dolo o la culpa grave del empleador
en el accidente del trabajo o enfermedad profesional, los funcionarios actuantes del Banco de
Seguros del Estado deberán dar cuenta de tal circunstancia al Inspector General del Trabajo y
de la Seguridad Social, quien deberá bajo su estricta responsabilidad funcional, denunciar ante
el Juzgado competente en materia penal, los hechos que configuren un presunto delito contra
la vida o la integridad física de los trabajadores, con remisión de testimonio de los antecedentes
administrativos disponibles

26
A cobertura dos acidentes de trabalho nos países do mercosul

Trata-se de um seguro privado, similar ao de um seguro mercantil. As empresas


contribuem conforme a probabilidade de ocorrência de um sinistro no setor de
atividade ao qual pertence38.
A sistemática com base na atividade econômica exercida pela empresa guarda
relação com o parâmetro fixado pelo SAT em nosso país, cujas alíquotas irão variar
conforme o grau de risco.
Contudo, a diferença está na presença da iniciativa privada. No Uruguai, há,
de fato, um seguro de acidente de trabalho, obrigatório para todas as empresas.
Aqui, em que pese o nome, não há esse caráter de seguro, tratando-se de uma
contribuição social.
Outro aspecto que merece destaque é a responsabilidade do empregador: sendo
segurado, somente responderá quando houver comprovação de que tenha agido
com dolo ou culpa grave. No Brasil, o pagamento do SAT igualmente não exime a
responsabilidade da empresa quando, comprovada a negligência às normas padrão
de segurança e higiene.

5.3 Argentina
A Constituição argentina, de 1994, em seu artigo 14, assegura a todos os
habitantes direito de trabalhar, de comerciar, de peticionar, de entrar, transitar
e sair do território argentino, de publicar suas ideias sem censura prévia, dentre
outros.
No artigo 14-bis, o texto constitucional abordar especificamente a relação
trabalhista, garantindo que o labor será protegido por leis que assegurem o
trabalhador a condições dignas e equitativas de trabalho, além de uma jornada
limitada, descanso e férias remuneradas, uma retribuição justa, um salário
mínimo e etc.
Há uma previsão constitucional, portanto, do direito do trabalhador a um meio
ambiente do trabalho sadio e equilibrado. Em âmbito legal, é a Lei 24.557/199539 a
responsável por disciplinar a questão, tratando sobre a prevenção dos riscos ocu-
pacionais, contingências e situações cobertas, responsabilidade do empregador e
outras questões inerentes a matéria.
No artigo 6, da mencionada lei, há o conceito de acidente de trabalho,
considerado como todo evento súbito e violento ocorrido durante o trabalho

38 Disponível em <https://www.mtss.gub.uy/web/mtss/accidentes-de-trabajo> Acesso em 07.jan.2019.


39 Disponível em <http://servicios.infoleg.gob.ar/infolegInternet/anexos/25000-29999/27971/
texact.htm> Acesso em 15.jun.2019.

27
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

ou no trajeto, desde que a vítima não tenha interrompido ou alterado o seu


caminho40.
Nota-se, assim, a presença dos acidentes in itinere no conceito, da mesma
forma com que ocorre no Brasil.
Na Argentina, assim como no Uruguai, as empresas devem contratar um se-
guro privado, destinado a cobrir os riscos decorrentes de um acidente de trabalho,
cabendo aos empregadores escolherem uma “aseguradora de riesgos del trabalho
(ART)”41. As ART’s são responsáveis por aconselhar, treinar e fornecer assistência
técnica aos empregadores visando a prevenção de riscos.
Aqui, verifica-se uma importante tarefa das seguradoras: a atuação com vis-
tas ao aprimoramento, à capacitação dos empregadores. Essa interação é bastante
benéfica, pois pode ser de grande valia para evitar acidentes, possuindo caráter
preventivo, o que não se observa no Brasil.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A questão acidentária é abordada com a devida atenção nos países do MER-
COSUL, todos possuindo leis que responsabilizam empregadores por infortúnios
havidos no meio ambiente do trabalho.

40 Artículo 6. Contingencias
1. Se considera accidente de trabajo a todo acontecimiento súbito y violento ocurrido por el
hecho o en ocasión del trabajo, o en el trayecto entre el domicilio del trabajador y el lugar de
trabajo, siempre y cuando el damnificado no hubiere interrumpido o alterado dicho trayecto
por causas ajenas al trabajo. El trabajador podrá declarar por escrito ante el empleador, y éste
dentro de las setenta y dos (72) horas ante el asegurador, que el itinere se modifica por razones
de estudio, concurrencia a otro empleo o atención de familiar directo enfermo y no conviviente,
debiendo presentar el pertinente certificado a requerimiento del empleador dentro de los tres
(3) días hábiles de requerido.
2 a) Se consideran enfermedades profesionales aquellas que se encuentran incluidas en el lis-
tado que elaborará y revisará el Poder Ejecutivo, conforme al procedimiento del artículo 40
apartado 3 de esta ley. El listado identificará agente de riesgo, cuadros clínicos, exposición y
actividades en capacidad de determinar la enfermedad profesional.
Las enfermedades no incluidas en el listado, como sus consecuencias, no serán consideradas
resarcibles, con la única excepción de lo dispuesto en los incisos siguientes:
2 b) Serán igualmente consideradas enfermedades profesionales aquellas otras que, en cada
caso concreto, la Comisión Médica Central determine como provocadas por causa directa e
inmediata de la ejecución del trabajo, excluyendo la influencia de los factores atribuibles al
trabajador o ajenos al trabajo.
41 Disponível em <http://www.srt.gob.ar/index.php/derechos-y-obligaciones-2/> Acesso em
20.jun.2019.

28
A cobertura dos acidentes de trabalho nos países do mercosul

Contudo, a proteção não ocorre de forma harmônica. No Brasil, o sistema é


construído em volta do SAT, uma contribuição social devida pelo empregador. O
SAT é estatal e não exime as empresas de serem responsabilizadas quando agirem de
forma negligente. Dentre as consequências de um acidente de trabalho, observou-se
que o evento gera a estabilidade para o empregado por um ano, o aumento da carga
tributária e pode servir como fundamento para ação regressiva.
No Paraguai, o governo é quem arca com as despesas decorrentes de um aci-
dente de trabalho, o qual prevê em seu conceito, os acidentes de trajeto. No Uru-
guai, há um seguro privado, de adesão obrigatória para as empresas, cujo valor é
definido com base na atividade econômica da empresa: se colocar os trabalhadores
a maiores riscos, o valor é mais alto. Nesse país, portanto, a cobertura ocorre por
meio da iniciativa privada.
Na Argentina a importância de um ambiente de trabalho sadio e equilibrado é
prevista na Constituição e, assim como no caso uruguaio, existe um seguro privado.
A diferença é que em solo argentino, os acidentes in itinere são considerados como
decorrentes do trabalho exercido.
Analisando as peculiaridades desses sistemas dos países do MERCOSUL,
observa-se que os casos argentino e uruguaio, em que o seguro é privado, podem
ser um caminho a ser seguido no Brasil. Outro aspecto que merece melhor reflexão
está nos acidentes de trajeto.
Não é justo punir o empregador pelo acidente havido pelo empregado no
caminho do trajeto para casa e vice-versa, quando não é a empresa quem fornece
esse transporte. Trata-se de responsabilidade demasiadamente elastecida, que foge
da alçada de qualquer empresa, eis que impossível fiscalizar se seus empregados
dirigem de forma adequada, cumprem as leis de trânsito e etc. Ademais, o infortúnio
pode ser decorrente de culpa de terceiro, que furou o sinal vermelho ou, ainda, de
um erro do motorista do transporte coletivo.
Recentemente, inclusive, o Conselho Nacional de Previdência Social (CNPS)
aprovou a retirada dos acidentes de trajeto no cálculo do FAP, corrigindo este lapso
que impedia o desconto mesmo quando a empresa investia fortemente na promoção
do meio ambiente de trabalho.
Há de se ressaltar, também, a reforma da CLT, que no artigo 58, parágrafo
2º, afastou o tempo de deslocamento para o trabalho e vice-versa como tempo à
disposição do empregador.
Contudo, a Lei 8.213/91 não foi alterada e os acidentes in itinere permanecem
no conceito de acidente de trabalho, ensejando uma reflexão sobre o tema.
Por fim, o seguro privado poderia reduzir os custos do empregador, eis que
o SAT incide sobre a folha de salários, além de proporcionar um poder maior de

29
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

fiscalização nas empresas. Atualmente, a Previdência Social não possui funcioná-


rios suficientes para controle e fiscalização dos empregadores quanto a adoção de
regras de higiene e segurança do trabalhador. Apresenta-se a hipótese se essa prática
auxiliaria de forma a reduzir sinistros? Seria benéfica tanto para o segurado, para
a autarquia previdenciária e para os empregadores? Estes questionamentos devem
integrar a agenda de discussão, mormente neste momento de reflexão dos 100 anos
da cobertura acidentária.

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARAÚJO JUNIOR, Francisco Milton. Doença ocupacional e acidente trabalho: análise
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CABRAL, Lenz Alberto Alves. Abre a CAT? Nexo causal no acidente do trabalho. 3 ed. São
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31
DIÁLOGOS ECOSSOCIALISTAS
COM A PREVIDÊNCIA SOCIAL

GUsTAVo seFerIAN1

“Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento


do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático,
como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consuma-
ção dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar
dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes
que se torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da
sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre
os Estados e o poder econômico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo
que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as
misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples
seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos.”
José Saramago, no encerramento do Fórum Social Mundial de 2002

1. INTRODUÇÃO
Propomos com o presente texto, feito com ganas de uma vez mais contribuir
com as construções coletivas animadas pelo Instituto Brasileiro de Direito Pre-

1 Gustavo Seferian Scheffer Machado é Professor Adjunto do Departamento de Direito do Tra-


balho e Introdução ao Estudo do Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (DIT-U-
FMG). Foi Professor de Direito e Processo do Trabalho da Universidade Federal de Lavras-U-
FLA (2016-2019). Bacharel em Direito (2008), Mestre (2012) e Doutor (2017) em Direito do
Trabalho pela FDUSP. Pesquisador convidado, em sede pós-doutoral, do CéSor/EHESS/CNRS,
sob supervisão de Michael Löwy (2018). Pesquisador-Líder do GPTC-USP, membro da RE-
NAPEDTS. Membro do Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais – IPDMS. E-mail:
seferian@ufmg.br
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

videnciário – a quem direcionamos especial agradecimento às colegas Adriane


Bramante de Castro Ladenthin e Melissa Folmann, bem como ao amigo e parceiro
Marco Aurélio Serau Júnior –, iniciar diálogos previdenciários2 com a estratégica
ecossocialista.
O trabalho se inscreve na tradição de um materialismo histórico e dialético
heterodoxo – que se reconhece menos como uma doutrina fechada e mais como
um processo aberto e em permanente construção3 –, e se dispõe a formular pontos
de partida que articulem os principais elementos que servem à crítica da economia
política, do direito, da cultura moderna e da civilização burguesa ocidental para
uma reformulação taticamente anticapitalista4, ecologica e humanamente pautada
da Previdência Social e do Direito Previdenciário.
A discussão ora trazida se assenta fundamentalmente em aspectos de ordem
teórica, amparados todavia não apenas em elaborações textuais e bibliográficas,
mas também em experiências históricas e leituras de conjuntura, caminho único
que nos parece possível a fim de formular uma teoria de natureza revolucionária,
indispensável a uma práxis de igual sorte.
Para tanto, se fará fundamental (i) formular uma definição acerca do ecos-
socialismo como alternativa estratégica revolucionária; (ii) passar por uma etapa
inicial de exposição conjuntural, diagnosticando a presente etapa da sociedade oci-
dental como assolada por uma crise de civilização, em que o componente ecológico
apresenta decisivo papel e do qual o ecossocialismo exsurge como possibilidade de
sua superação; para só então desenvolvermos as específicas articulações entre a
Previdência Social e o ecossocialismo, tendo em conta (iii) que a crise civilizacional
se expressa também na crise da Previdência Social; (iv) que o Estado Social não é,
historicamente, um antípoda à tônica de predação natural, sendo em verdade um

2 Destaca-se de início que trataremos a Previdência Social enquanto instituição e o Direito Previ-
denciário enquanto sua forma de regulamentação jurídica de forma indissociada, indissociável
e comum, sendo que as referências válidas a uma das expressões fenomenológicas alcançará
necessariamente a outra.
3 “A obra de Marx foi freqüentemente apresentada como um edifício monumental, de arqui-
tetura impressionante, cujas estruturas se articulavam harmoniosamente, dos alicerces até o
telhado. Mas não seria melhor considerá-la como um canteiro de obras, sempre inacabado,
sobre o qual continuam a trabalhar gerações de marxistas críticos?” LÖWY, Michael. “Por um
marxismo crítico”, Trad. José Corrêa Leite, in: LÖWY, Michael. BENSAÏD, Daniel. Marxismo,
modernidade e utopia. São Paulo: Xamã, 2000.
4 SEFERIAN Scheffer Machado, Gustavo. Direito do Trabalho como barricada: sobre o uso tá-
tico da proteção jurídica dos trabalhadores. Tese (doutorado) defendida junto à Faculdade de
Direito da FDUSP, 2017.

34
Diálogos ecossocialistas com a previdência social

de seus aprofundadores, dado seu caráter essencialmente capitalista; (v) trazen-


do à discussão a importância transicional de afirmação de uma conformação da
Previdência Social pública, radicalmente democrática e socialmente referenciada no
interesse das trabalhadoras e trabalhadores, com vistas de (vi) construção de uma
nova Previdência Social, ecologicamente preocupada e comumente gerida; tudo
para, por fim, (vii) denotar em concreto alguns espaços em que essa preocupação
ecológica pode fazer resultar desde logo um novo, tático e revolucionário olhar
para a lida da Previdenciária.

2. CRISE CIVILIZACIONAL E SUA RESPOSTA ANTICAPITALISTA,


O ECOSSOCIALISMO
Uma definição prévia sobre o ecossocialismo – etapa necessária trazida tam-
bém em outros textos que versamos sobre o assunto – surge como nossa primeira
tarefa expositiva.
Em síntese gerais, o ecossocialismo se coloca como uma alternativa político-
-estratégica de caráter anticapitalista, afirmada por um conjunto de lutas sociais
ao redor de todo globo e expresso em um corpo teórico que nutre profundas raízes
no campo do marxismo – ainda que outras aspirações libertárias também possam
se combinar a tal tradição – e da ecologia crítica. Tais lutas sociais servem de sub-
sídio constitutivo necessário destes marcos teóricos, a elas ligados dialeticamente
enquanto indutoras condicionadas.
Antepõe-se, bem dizer, não só às expressões do trato ambiental nas mais
diversas formas de gestão políticas capitalistas – como as de caráter liberal, social-
-democrata, social-liberal, “Verde” e fascistas –, reconhecendo ser “impossível [um]
capitalismo verde”5, mas também como “uma crítica profunda, uma crítica radical
das experiências e das concepções tecnocráticas, burocráticas e não ecológicas de
construção do socialismo”, o que “nos exige (...) uma reflexão crítica sobre a herança
marxista, o pensamento e a tradição marxista, sobre a questão do meio ambiente”6.

5 TANURO, Daniel. L’impossible capitalisme vert. Paris: La decouverte, 2010.


6 LÖWY, Michael. “Crise ecológica, crise capitalista, crise de civilização: a alternativa ecosso-
cialista”. Caderno CRH, Salvador, v. 26, 67, p. 79-86, Jan./Abr.2013, p. 82. Diz Löwy que esta
crítica a uma leitura vulgar do marxismo deve passar pelo enfrentamento de uma costumeira
abordagem das forças produtivas como se neutras fossem, denotando sua profunda determina-
ção social, econômica e política, que reclama ser recomposta Cf. LÖWY, Michael. “Cenários do
pior e alternativa ecossocialista”. In: Serviço Social & Sociedade, São Paulo, n. 104, p. 681-694,
out/dez 2010, p. 690.

35
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Reclama, assim, revolucionariamente um ainda não experimentado modo de pro-


dução7.
Tal alternativa estratégica se coloca de forma ainda mais urgente quando con-
frontada a atual conjuntura, no sentido de que vivemos uma crise de civilização8,
que ao revés das crises sistêmicas que a antecederam, guarda não só uma dimensão
econômica como também frentes éticas, morais, familiares, e – o que merece des-
taque – ecológicas evidentemente marcadas.
Os efeitos da devastação ecológica que tanto particularizam a crise ora expe-
rimentada são o ápice das consequências da ação antrópica no planeta, colocados
em marcha acelerada pela afirmação com ganas universais do modo de produção
capitalista. Certo é que mesmo em arranjos produtivos pré-capitalistas já se sentiam
as consequências das ações humanas na natureza – inerente a toda atividade laboral
–, por vezes resultando graves impactos e desequilíbrios naturais – o exemplo da
civilização Rapa, da Ilha de Páscoa, é emblemático nesse sentido9. Ocorre que é
apenas com o ascenso da burguesia como classe politicamente dominante em di-
versas realidades sócio-históricos que se passa a perceber o aprofundamento de tais
violências ao meio ambiente, fundamentalmente pela intenção – e efetivação – da
mercantilização ampliada de tudo e todos.
Indiferente da realidade em que se vive, as intervenções daninhas da humani-
dade junto à natureza se dão pelo instalar de uma lógica de produção desenfreada,
invariavelmente ligada a valores de uso duvidosos. Sejam os Moai colossais da Ilha

7 “Uma reorganização do conjunto do modo de produção e de consumo é necessária, baseada


em critérios exteriores ao mercado capitalista: as necessidades reais da população e a defesa do
equilíbrio ecológico. Isto significa uma economia de transição ao socialismo, na qual a própria
população – e não as ‘leis do mercado’ ou um Comitê Politico autoritário – decide, num pro-
cesso de planificação democrática, as prioridades e os investimentos. Esta transição conduziria,
não só a um novo modo de produção e a uma sociedade mais igualitária, mais solidária e
mais democrática, mas, também, a um modo de vida alternativo, uma nova civilização, ecos-
socialista, mais além do reino do dinheiro, dos hábitos de consumo artificialmente induzidos
pela publicidade e da produção ao infinito de mercadorias inúteis” (cf. LÖWY, Michael. “Crise
ecológica, crise capitalista, crise de civilização: a alternativa ecossocialista”, Caderno CRH,
Salvador, v. 26, 67, p. 79-86, Jan./Abr.2013, p. 83).
8 Para nos esgotar em apenas duas principais referências, o já mencionado LÖWY, Michael. “Cri-
se ecológica, crise capitalista, crise de civilização: a alternativa ecossocialista”, Caderno CRH,
Salvador, v. 26, 67, p. 79-86, Jan./Abr.2013,. e BENSAÏD, Daniel. Marx, o Intempestivo: gran-
dezas e misérias de uma aventura crítica. Trad. Luiz Cavalcanti de M. Guerra. Rio de Janeiro:
Civilização brasileira, 1999, p. 431-495.
9 Vide WRIGHT, Ronald. Uma breve história do progresso. Trad. Carolina Araújo. Rio de Ja-
neiro: Record, 2007.

36
Diálogos ecossocialistas com a previdência social

de Páscoa, cujo papel político e religioso se colocava com proeminência, sejam as


necessidades fictas e a lógica de produção e circulação a todo custo que determina
a sociedade do capital, o desequilíbrio entre a sociabilidade humana e as tempora-
lidades do metabolismo natural se manifestam em tais circunstâncias. Constata-se,
porém, que a experiência Rapa Nui – evidência de uma profunda crise também de
matiz civilizacional – teve seus efeitos circunscritos ao da vivência insular do Pa-
cífico, enquanto o dimensionamento da superprodução capitalista assume não só
índices de irracionalidade qualitativamente distintos e aberrantes, como também
um dimensionamento territorial que abarca a totalidade do planeta.
A agudização da intervenção humana na natureza passa a se verificar, assim,
com o gérmen da industrialização capitalista. O processo de organização da grande
indústria – que pressupõe e reafirma a concentração populacional nos espaços urba-
nos, enseja a crescente emissão de poluentes no ar, água e solo e resulta na produção
de bens diversos ao consumo e descarte, reclamando a intensificação de práticas
extrativas para subsídio material de tal processo produtivo – e o aprofundamento
da contradição entre cidade e campo são dois desses sinais, que resultaram em seu
moto ampliado de afirmação em consequências catastróficas ao meio ambiente.
O processo de industrialização iniciado nos países centrais da ordem capitalista
ainda no séc.XVIII, que funcionalizou a lógica extrativa tanto em tais países como
nas realidades dependentes e periféricas do capitalismo − certamente ali dadas
de forma mais intensa e violenta – faz-nos chegar a uma realidade em que o aque-
cimento global é aberrante quando comparado com outras etapas históricas, as
estações do ano não guardam qualquer previsibilidade, toneladas e toneladas de
lixo são dispensadas pela simples lógica da obsolescência programada e da publi-
cidade, e, mais grave, que parte expressiva da população humana se vê assolada
pelos efeitos da inconstância climática motivada pelo homem, seja pelo aumento
do nível dos oceanos, secas, aumento de temperaturas, tempestades e outros fatores
que ensejam, sobremaneira às populações mais pobres, o corroer dos seus meios
elementares de vida.
Mesmo que o arranjo produtivo capitalista não coloque a si qualquer obstáculo,
é certo que a natureza – não só pelo horizonte de imprevisíveis consequências de
suas respostas à ação humana, que rompe com a lógica de expectativas indispensável
à boa consecução da relação do capital, mas sobretudo pela finitude de seus subsí-
dios à predação mercantil – desponta como uma barreira absoluta à afirmação do
modo de produção. Dessa forma, tal faceta da crise civilizacional compõe relevante
ponto à reflexão de todos os outros campos de afirmação do modo de produção,
dos quais a Previdência Social, como relevante instituição constitutiva deste modo
produtivo, não passa ao largo de seus impactos.
37
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

3. PREVIDÊNCIA SOCIAL E A ALTERNATIVA ESTRATÉGICA


ECOSSOCIALISTA
Dado tal contexto conjuntural e explanadas as intencionalidades revolucioná-
rias do ecossocialismo, nos é agora permitido lançar algumas considerações sobre o
papel que a Previdência Social – e o Direito Previdenciário enquanto sua forma de
regulamentação jurídica – acaba por cumprir em um processo tático e transicional
para consecução destas indispensáveis tarefas que intentam construir uma nova
sociedade e minorar os impactos antrópicos sobre a natureza.

3.1 Crise da Previdência Social como dimensão da crise


civilizacional
É de se ter em conta, de início, um inescapável diagnóstico de que a Previdência
Social se encontra em crise. Este reconhecimento nos leva à necessidade de revê-la
de forma destrutiva? Jamais. Mas certamente aponta para um horizonte de refor-
mulações, recomposições, que devem ser guiadas justamente pelas forças sociais
que a constituíram, e não pelas que sempre a detrataram, como veremos a seguir.
O diagnóstico em menção parte da constatação de Ernest Mandel no sentido
de que “uma crise em um setor [da sociedade capitalista, G.S.] repercute em todos
os demais setores” da ordem social10, da qual a Previdência, como compreendemos,
não se vê isenta, por sua existência estar indissociavelmente ligada a esta civilização.
Sendo a Previdência Social uma instituição da sociedade moderna, burguesa e
capitalista, a crise da civilização moderna, burguesa e capitalista é também a sua crise.
Ordinariamente, porém, a ideia da crise da Previdência acaba por ser abordada
pelas classes proprietárias – sobremaneira pelas suas frações burguo-financistas
– projetando um horizonte de inexorável desmonte do arcabouço de proteção
social e concessão de renda às classes trabalhadoras. Amparadas em discursos de
ordem economicista que sobretudo tomam a ideia de equivalência e as dimensões
da atuária para reclamar inflexões no âmbito do Direito Previdenciário, objetivam
fundamentalmente a atenção crescente aos seus interesses, com fomento à lógica
de lucro e rentabilidade de títulos públicos e privados.
Ora, reconhecer esta crise implica em também reconhecer a sua abertura e
dinamicidade, que aos sabores da luta de classe não obedece vetor único ou line-

10 MANDEL, Ernest. From class society to communism: an introduction to marxism. Trad. Lou-
isa Sadler. Londres: Ink Link, 1977, p. 51.

38
Diálogos ecossocialistas com a previdência social

aridade aparente. A Previdência Social passa em seu processo de constituição por


reformas e contrarreformas, estas fundamentalmente postas pelas distintas classes
que se portam em ofensiva no nosso tempo histórico.
Desse modo, a discursividade dominante acerca da Previdência Social, si-
nalizando a necessidade de que passem seus fundos a crescentemente servir à
atenção do interesse rentista e financista, expressa apenas uma das formas com que
tal dinâmica pode se dar. Não se trata de um único caminho, mas sim o colocado
pela agenda proprietária no atual período, caracterizado pelo aprofundamento da
contrarrevolução preventiva burguesa instalada em escala internacional, que toma
o programa e ideologia neoliberais como bandeiras maiores11.
Esta resposta das classes proprietárias – que assola todo o mundo, assumindo
feições bastante mais profundas e avassaladoras na nossa realidade dependente
e periférica – ao cenário da crise civilizatória se dá por conta de diversos fatores.
Em parte, estes decorrem dos traços típicos das crises cíclicas do capital e da cres-
cente participação do capital constante, quando comparado ao capital variável,
na composição dos processos de produção. Mas, assumem cada vez mais vulto os
reflexos oriundos da barreira ecológica, virtualmente absoluta, que coloca às di-
nâmicas de reprodução e exploração do capital outro patamar de desafios em sua
sanha expansiva, que passa a dar preponderância às dinâmicas de expropriação
das classes trabalhadoras. E é justamente neste campo – da relação profundamente
contraditória entre capital e trabalho, e no horizonte da acumulação flexível12 – que
a Previdência Social se insere e assume vulto na discussão. Se não se faz possível
avançar a dominância mercantil, ao menos sem riscos cataclísmicos, junto ao front
posto pela natureza que nos é externa – o que convencionalmente tratamos por
meio ambiente –, passa a busca de alguma sobrevida do capital pela destituição dos
meios públicos e comuns de garantia da vida das classes trabalhadoras, sendo os
fundos da Previdência Social um espaço impar para este avanço.
Isso não elide, porém, a constatação de que mesmo que a Previdência Social,
juntamente com outros Direitos Sociais – trabalhistas, de assistência, saúde, educação
e outros que componham fundos públicos para sua efetivação – estejam na mira
privilegiada do capital em seu esforço contínuo de expansão, o meio ambiente segue
também sendo um campo de ofensiva do capital. A continuada mercadorização do
não mercadorizado – da água, do ar, do solo –; a criação do direito de poluir e o
seu correspondente mercado de autorizações poluentes; a ampliação das dimensões

11 ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão. São Paulo: Boitempo, 2018.


12 HARVEY, David. A condição pós-moderna. Trad. Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gon-
çalves. São Paulo : Loyla, 1992.

39
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

extrativas nos mais diversos rincões do mundo, com traços mais profundos nos
países dependentes e periféricos da África, América Latina e Ásia; a interdição da
demarcação de territórios indígenas e áreas de preservação ambiental; a condescen-
dência com as novas políticas de cercamento13 promovidas pelo avanço das patentes;
a condução de políticas econômicas pautadas necessariamente pelo “crescimento”,
que nada tem de neutro, já que representa o crescimento da própria abrangência
do espectro do capital, revelam que estas desesperadas medidas de afirmação da
mercadoria e da relação social do capital acabam por expressar as contrarreformas
previdenciárias e o ecocídio como faces de uma mesma moeda.
Assim, a propugnada crise, em dupla dimensão – tanto a civilizacional, quanto
“atuarial”, aparente justificadora de seu desmonte –, conecta aspectos ecológicos à
Previdência Social. Ou seja, pela comum origem da crise sistêmica e da crise Pre-
videnciária, e pela indução de elementos ecológicos que levam o capital a não mais
buscar seu front de expansão junto à natureza, mas sim à expropriação das classes
trabalhadoras pelo esfacelamento de Direitos Sociais, esse conectivo se percebe e
nos leva a voltar olhares críticos à Previdência desde perspectivas ecossocialistas.

3.2 Estado Social e Ecossocialismo


Destas considerações pode despontar ao leitor ou à leitura a questão: de que
modo então podemos buscar articular a solução de impasses ecológicos e da Previ-
dência Social, que guardam origem comum mas que aparecem aos olhos do capital
como em campos de ofensiva distintos? Como puxar a coberta da renda pública
para manter e ampliar a proteção previdenciária sem descobrir o pé da proteção
ambiental, ou vice versa?
A resposta mais intuitiva pareceria, por certo, o fomento à lógica do Estado
Social e o avolumar das medidas de intervenção no mercado para salvaguarda dos
interesses das coletividades trabalhadoras, buscando uma conformação dentro de
quadratura que se convencionou tomar como de “bem-estar”, modeladas sobretudo
desde as realidades europeias.
Referido modelo, porém, comporta todo um conjunto de profundas contradições
quando abordado não só desde um registro anticapitalista mas sobretudo quando
tomado desde olhos ecossocialistas. Pretendemos assim expor algumas das mais
pulsantes contradições que exsurgem deste regime de organização política do capital,
sobretudo com fito de denunciar suas insuficiências para o aporte ecossocialista.

13 BOYLE, James. “The second enclosure movement and the Construction of the public domain”.
In: Law and contemporary problems, v. 66, n 1 e 2, 2003.

40
Diálogos ecossocialistas com a previdência social

Primeiramente, é de se ter em conta que nossa abordagem do Estado Social


passa por reconhece-lo como a melhor conformação arranjada, até o presente mo-
mento histórico, para gestão dos interesses burgueses. O arranjo do Capitalismo
Tardio, como nominará Ernest Mandel14, sinaliza toda uma série de mecanismos
aptos a proporcionar e garantir não só a afirmação mas a reprodução ampliada da
relação do capital em condições nunca antes experimentadas. Com base no citado
Mandel, Elaine Behring expõe o processo social que nele resultou:

Para esse trânsito, houve o pressuposto da enorme destruição de forças


produtivas da crise de 1929-1932, a emersão do nazi-fascismo, duas guerras
mundiais e a expansão do socialismo a partir de Outubro de 1917. Tratava-se
agora, com a recuperação econômica pós-crise de 1929 e pós-guerra, de dis-
ciplinar a classe trabalhadora – com fortes instrumentos de luta e experiências
revolucionárias na sua trajetória, com destaque para a Revolução Russa de 1917
e a Revolução Espanhola de 1936 – à revolução tecnológica, e ao fordismo, que
combinado ao keynesianismo, ao Estado Social e ao militarismo da guerra fria,
asseguraram uma onda longa expansiva ao capitalismo, tendo como elemento
central nessa lógica um Estado que, além das funções de coerção e legitimação,
age no sentido da garantia das condições gerais de produção 15

Estas implicam diretamente no conferir de Direitos Sociais em sentido amplo


(tal qual inscritos no art. 6º, da Constituição Federal, Previdência Social inclusa),
na forma de salário indireto16, decorrentes seja de bandeiras reivindicatórias de
movimentos de caráter reformista, seja como mediação de intento pacificador
manejada pelas classes proprietárias ante movimentos de natureza revolucionária.
Assim, “ao incorporar tais demandas, o Estado” – instrumento de dominação de
classe e gestor, na atual quadra histórica, dos interesses burgueses – “seria tensionado
pelas reivindicações imediatas dos trabalhadores, o que alargou o escopo das políticas
sociais, processo esse decorrente da luta de classes” 17.

14 MANDEL, Ernest. O capitalismo tardio. Trad. Carlos Eduardo Silveira Matos, Regis de Castro
Andrade e Dinah de Abreu Azevedo. São Paulo: Abril Cultural, 1982.
15 BEHRING, Elaine Rossetti. “Estado no Capitalismo: notas para uma leitura crítica do Brasil
recente”. In; BOSCHETTI, Ivanete, BEHRING, Elaine, LIMA, Rita de Lourdes de (org.).Mar-
xismo, política social e direitos. São Paulo: Cortez, 2018, p. 43-44.
16 BEHRING, Elaine Rossetti. “Estado no Capitalismo: notas para uma leitura crítica do Brasil
recente”. In; BOSCHETTI, Ivanete, BEHRING, Elaine, LIMA, Rita de Lourdes de (org.).Mar-
xismo, política social e direitos. São Paulo: Cortez, 2018, p. 45.
17 BEHRING, Elaine Rossetti. “Estado no Capitalismo: notas para uma leitura crítica do Brasil
recente”. In; BOSCHETTI, Ivanete, BEHRING, Elaine, LIMA, Rita de Lourdes de (org.).Mar-
xismo, política social e direitos. São Paulo: Cortez, 2018, p. 45.

41
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Em suas diversas conformações – mais complexas e protetivas, como as euro-


peias, ou moduladas pela lógica de superexploração e pelas marcas da colonialidade,
como nas realidades dependentes e periféricas −, o Estado Social guarda uma fun-
cionalização indispensável às dinâmicas do capital, como afirma Ivanete Boschetti:

O Estado Social (...) busca designar a regulação das relações econômico-


-sociais capitalistas por meio de políticas sociais, e atribuir ao Estado capitalista
suas determinações objetivas, sem mistificações, ou seja, quer mostrar que a
incorporação de feições sociais pelo Estado não retira dele sua natureza essen-
cialmente capitalista18

Desse modo, “ainda que inserido e resultante da luta da classe trabalhadora por
melhores condições de vida e de trabalho”, coloca no ”reconhecimento da legislação
social que garantiu a expansão dos direitos sociais tem uma funcionalidade política
e econômica para o capital” 19 , sem deixar de se ter em conta que “ao reconhecer e
estender direitos sociais amplos, o Estado Social contradiz as requisições diretas do
sistema de acumulação, daí sua natureza contraditória” 20. Afora as pretensões e
dinâmicas contrarreformistas que assolaram todas as manifestações do Estado
Social, é certo que indiferente de sua conformação – seja intencionando a garantia
da reprodução da força de trabalho, seja ao destinar os fundos públicos a uma fun-
cionalização financista, salvaguardando renda e juros aos investidores da dívida
pública –, a Previdência Social cumpre um papel ímpar na lógica de afirmação e
reprodução do capital.
Desta sorte, estamos diante de um construto que, em que pese repleto de
contradições, coloca em seu horizonte estratégico a perpetuação da sociedade
do capital – ou seja, em essência, jamais poderá guardar natureza anticapitalista.
Todavia, por estas mesmas contradições – fundamentalmente ao se perceber que a
garantia da reprodução a força de trabalho é uma segurança quanto aos meios de
sobrevivência das trabalhadoras e trabalhadores, dando-lhes melhores condições
de vida e afirmação política –, pode ser apropriado taticamente para, conferindo

18 BOSCHETTI, Ivanete. “Crítica marxista do Estado Social e dos Direitos no Capitalismo Con-
temporâneo”. In; BOSCHETTI, Ivanete, BEHRING, Elaine, LIMA, Rita de Lourdes de (or-
g.).Marxismo, política social e direitos. São Paulo: Cortez, 2018, p. 77.
19 BOSCHETTI, Ivanete. “Crítica marxista do Estado Social e dos Direitos no Capitalismo Con-
temporâneo”. In; BOSCHETTI, Ivanete, BEHRING, Elaine, LIMA, Rita de Lourdes de (or-
g.).Marxismo, política social e direitos. São Paulo: Cortez, 2018,p. 78.
20 BOSCHETTI, Ivanete. “Crítica marxista do Estado Social e dos Direitos no Capitalismo Con-
temporâneo”. In; BOSCHETTI, Ivanete, BEHRING, Elaine, LIMA, Rita de Lourdes de (or-
g.).Marxismo, política social e direitos. São Paulo: Cortez, 2018,p. 80.

42
Diálogos ecossocialistas com a previdência social

aberturas potenciais aos saltos necessários no processo das lutas das classes traba-
lhadoras, servir de alicerce a um programa estratégico revolucionário.
É no acirrar destas contradições e no alinhavar das bandeiras estratégicas ecos-
socialistas que a leitura do Estado Social – e dos arranjos previdenciários – deve se
inscrever caso desejemos a instrumentação da Previdência Social em um projeto de
transformação social pautado pelos interesses das pessoas que trabalham, sobretudo
diante da natureza da crise ora experimentada.
E aqui indagamos: historicamente, a conformação do Estado Social necessa-
riamente apontou para uma agenda ecologicamente responsável, articuladora dos
interesses humanos e da natureza? Nossa resposta parece se todo negativa.
Esta posição não se escora apenas na natureza capitalista do Estado Social e
no eco de Tanuro, uma vez mais trazido à baila, no sentido de ser impossível um
capitalismo verde. Podemos também amparar nossa constatação no sentido de que
as próprias perspectivas históricas e econômicas das forças constituintes do Estado
Social também nos levarem a esta conclusão.
É inegável que o Estado Social, tal qual concebido nos países centrais da Europa,
teve seu principal indutor político os programas e as ações da Social-Democracia
– já degeneradas ou por degenerar no curso do Séc. XX –, bem como por suas
franzinas variações experimentadas nas realidades dependentes e periféricas da
ordem do capital. E pode se encontrar também aqui, no conjunto de concepções
políticas, econômicas e sociais pautadas pela Social-Democracia, as chaves para
reconhecer a sua interdição como guia de sustentação de um uso tático ecossocia-
lista da Previdência Social.
Para alcançarmos tais conclusões, nos amparamos naquela que certamente
é a mais profunda das críticas lançadas ao projeto estratégico de “humanização”
capitalista – da mesma sorte impossível! – promovido pela Social-Democracia,
que é promovida por Walter Benjamin nas suas teses expostas em Sobre o conceito
de História21.
Na sua magistral leitura das teses, Michael Löwy22 aponta como referência
que une a crítica conduzida por Benjamin ao Estalinismo e à Social-Democracia
às crenças comuns que tais políticas se alinham, fundamentalmente amparadas em
um sentido único da história – ou, no caso, História – e na crença do Progresso
tido desde registros de neutralidade. Amparadas em uma empobrecida, mecânica

21 BENJAMIN, Walter. “Sobre o conceito da história”. In: Obras escolhidas I: Magia e técnica, arte
e política. Trad. Sérgio Paulo Rouanet, São Paulo: Brasiliense, 1994.
22 LÖWY, Michael. Walter Benjamin, aviso de incêndio: uma leitura das “Teses sobre o conceito
de História”. São Paulo: Boitempo, 2005.

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OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

e economicista leitura do marxismo, típica da vulgata de então – a obra de Benja-


min sintetiza reflexões por si realizadas na virada das décadas de 1930 para 1940 –,
acabam por fazer tábula rasa de todos os malefícios potencialmente ínsitos às forças
produtivas que se colocam em crescente, sobretudo quando se tem em conta que
a tecnologia passa a cumprir papeis bastante distintos de acordo com os agentes
que com ela lidam e controlam. Essa neutralidade se mostra ainda menos evidente
quando nos confrontamos com um arranjo que as tensões de classe se colocam de
forma tal como é a sociedade capitalista, que em seu ímpeto por produzir e circular
mercadorias acaba por varrer parcelas e mais parcelas da humanidade para a consa-
gração dos interesses de classe burgueses. Ou seja, em que a luta de classes aparece
de tal sorte violenta, despessoalizada e mediada, passando a dimensão tecnológica
a assumir um papel impar nesse tocante.
E aqui não apenas podemos remeter ao desdém benjaminiano em uma crença
no desenvolvimento pacífico da Luftwaffe e da IGFarben23, mas também em todo
um conjunto de discussões que envolvem o domínio da natureza, original e em-
brionariamente expostas na Tese XI. Nessa, Benjamin exporá:

“O conformismo que, desde o início, sentiu-se em casa na socialdemocracia,


adere não só à sua tática polítca, mas também às suas idéias econômicas. Ele
é uma das causas do colapso ulterior. Não há nada que se tenha corrompido
tanto o operariado alemão quanto a crença de que ele nadava com a corren-
teza. O desenvolvimento técnico parecia-lhe o declive da correnteza em cujo
sentido acreditava nadar. Daí era um só passo até a ilusão de que o trabalho
fabril, que se inserisse no sulco do progresso técnico, representaria um feito
político. A velha moral protestante do obrar celebrava, em forma secularizada,
a sua ressurreição entre os operários alemães. O programa de Gotha em si traz
as marcas dessa confusão. Ele define o trabalho como ‘a fonte de toda riqueza
e de toda cultura’. Pressentindo funestas consequências, Marx replicou que o
homem que não possui outra propriedade a não ser sua força de trabalho ‘tem
que ser escravo dos outros homens que (..) se fizeram proprietários’. Malgrado
essa advertência, a confusão continua a difundir-se e, pouco depois, Josep
Dietzgen proclama: ‘Trabalho chama-se o salvador dos tempos recentes. No (...)
aperfeiçoamento (...) do trabalho consiste a riqueza, que pode, agora, cosnumar
o que nenhum redentor até hoje consumou.’ Esse conceito marxista vulgar do
que é o trabalho não se detém muito na questão de como os trabalhadores tiram
proveito do seu produto enquanto dele não podem dispor. Esse conceito só quer
se aperceber dos progressos da dominação da natureza, mas não dos retrocessos
da sociedade. Ele já mostra os traços tecnocráticos que serão encontrados, mais

23 desigua

44
Diálogos ecossocialistas com a previdência social

tarde, no fascismo. A esses pertence um conceito de natureza que, de maneira


prenunciadora de sinistros, se destaca do conceito de natureza das utopias so-
cialistas do Pré-Março [de 1848]. O trabalho, como será compreendido a partir
de então, se resume na exploração da natureza, que é, assim, com satisfação
ingênua, contraposta à exploração do proletariado. Comparadas com essa
concepção positivista, as fabulações de um Fourier, que deram tanta margem
para escarnece-lo, revelam o seu surpreendente bom senso. Segundo Fourier, o
trabalho social bem organizado deveria ter por consequência que quatro luas
iluminassem a noite terrestre, que o gelo se retirasse dos pólos, que a água do
mar não fosse mais salgada e que os animais de rapina se pusessem a serviço
do homem. Tudo isso ilustra um trabalho que, longe de explorar a natureza, é
capaz de dar à luz as criações que dormitam como possíveis em seu seio. A
esse conceito de trabalho pertence, como seu complemento, a natureza que,
segundo a expressão de Dietzgen, ‘está aí grátis’.”24

As dimensões de riqueza, progresso e desenvolvimento imanentes aos progra-


mas social-democratas e suas variáveis – dentre os quais se insere o social-liberalismo
que no Brasil experimentamos na guia do Governo Federal entre 2003 e 2016 – são
completamente contrapostas a uma perspectiva ecológica, que dirá ecossocialista.
Sob o argumento de que o crescimento econômico – que não pode ser outro em
nossa ordem social que não o crescimento da dominância da mercadoria e do capi-
talismo – seria o remédio a reparar as mazelas sociais, fundamentalmente por meio
de medidas redistributivas, acabou-se por acobertar todo o conjunto de impactos
ambientais que ampliação da sociedade do mercado resultam. E não se está aqui
falando apenas daquilo que é o aparente, individualmente percebido no cotidiano,
como é o caso da produção de dejetos, de lixo. As medidas mais daninhas ao meio
ambiente resultam da ampliação das atividades extrativas – de todo insustentáveis,
ecocidas e, como percebido exemplarmente na recente história mineira, extrema-
mente arriscada – e da necessária produção energética para fomento a outros ramos
de atividade econômico.
Neste último caso, mesmo as fontes tidas por de menor impacto ambiental – a
exemplo do que foi, até os grandes desastres de Three Mille Island, Chernobyl e
Fukushima, o trato da energia nuclear, e a energia hidrelétrica – é possível verificar
todo uma ampla gama de efeitos deletérios ao meio ambiente, e também a práticas
tradicionais de sociabilidade e reprodução da vida pelo fomento a todo custo da
produção energética. O caso brasileiro, com a implementação das usinas de Jiráu e
Belo Monte, são exemplares nesse sentido.

24 LÖWY, Michael. Walter Benjamin, aviso de incêndio: uma leitura das “Teses sobre o conceito
de História”. Trad. Wanda Nogueira Caldeira Brandt. São Paulo: Boitempo, 2005.

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OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

3.3 Direito Previdenciário entre o decrescimento, a


desmercadorização e radicalização democrática desde a
lógica dos Comuns
Nossa denúncia ao Estado Social não se coloca desde uma perspectiva vazia,
sem qualquer sugestão de utilização dos registros protetivos (das trabalhadoras e
trabalhadores) pelo Estado burguês, desde uma referência tática, não possam ser
campeadas. Reconhecido este fato, aparecem três elementos que nos parecem fun-
damentais a serem trazidos à discussão para uma abordagem radical da Previdência
Social desde o ecossocialismo, quais sejam, o decrescimento, a desmercadorização
e democratização do controle político dos fundos públicos pela afirmação dos
Comuns.
É nesse contexto que as perspectivas de um bem-viver amparado na desmerca-
dorização das relações sociais e da vida, bem como em uma perspectiva afrontosa à
afirmação econômica e política capitalistas, devem servir de amparo à reformulação
da lida econômica e política, perspectivas das quais a Previdência Social não pode
se desvaler.
Há quem possa se questionar: de que modo é possível pensar na Previdência
Social em uma conjuntura de decrescimento econômico, se a arrecadação, dada
pelos meios de custeio, é condição sine qua non da concessão de benefícios? Como
ter em conta a desmercadorização da vida ligada ao Direito Previdenciário, que
coloca em seu cerne conceber condições de consumo para pessoas distantes do
mundo do trabalho?
Pois bem, algumas premissas e naturalizações no trato da matéria deverão ser
quebradas para que possamos avançar no trato ecossocialista da Previdência Social
e do Direito Previdenciário de forma adequada, pelo que instrumentaremos o trato
das teorias do decrescimento e dos Comuns como aliadas no projeto estratégico
que nos serve de principal baliza para reflexão e prática de transformação social.
No que se refere ao primeiro caso, a ruptura com a perspectiva de crescimen-
to econômico – que implica em necessária ampliação da dominância capitalista,
em sentido estrito – seria o primeiro passo decisivo para a tomada tática desde e
referência ecossocialista da Previdência Social. As contemporâneas discussões que
envolvem seu déficit – tido por muitos, ou ao menos em muitos anos, por apenas
suposto – reclamariam crescimento econômico, incremento produtivo e seus con-
sequentes saldos arrecadatórios.
Primeiramente, esta reflexão não se revela como única e inexorável saída
para um impasse econômico em uma sociabilidade típica capitalista. Remete, em
verdade, a uma opção política específica, que projeta ao sacrifício do interesse das
46
Diálogos ecossocialistas com a previdência social

classes trabalhadoras e ao ampliar do interesse capitalista uma “salvação” dos cofres


previdenciários. Bem sabemos, porém, que existem outros tantos caminhos para
ampliação dos componentes do fundo público previdenciário, que passam desde a
execução, pela União, dos devedores previdenciários à ampliação das alíquotas da
Previdência destinadas ao setor patronal.
Se a primeira das alternativas pode soar menos conflitiva com a discursividade
burguesa – já que resultaria da simples exigência do cumprimento legal, ainda que
esta tenha sido aviltada por representantes desta mesma classe –, a segunda tende
a ser tomada com maior rechaço pelo pragmatismo economicista, que projeta na
desoneração do empresariado um suposto impulso para a empregabilidade e, logo,
para arrecadação da Previdência Social. Fato este que, historicamente, se mostra
falso, deve ser abandonado, conduzindo-se medidas que recaiam em sentido com-
pletamente oposto, qual seja, o da ampliação da oneração empresarial.
Tal se diz em razão de que uma alternativa de custeio da Previdência Social
pautada pelo decrescimento deva necessariamente se guiar pela minoração das mar-
gens de lucro das classes proprietárias, ou não existirá. Como frisamos e repetimos,
a alternativa ecossocialista se coloca em uma perspectiva estratégica revolucionária,
sendo certo que medidas políticas de grande radicalidade seriam por ela exigidas.
A ampliação das alíquotas previdenciárias do setor patronal, ainda que com
potencial antissistêmico de contenção de lucros, por certo sozinha não resultaria na
perspectiva de decrescimento. Isolada, poderia inclusive resultar em crescimento
econômico capitalista com a impulsão das margens de lucro a novos patamares. Daí
se fazer necessário, aliado a tais perspectivas, a condução de medidas de Direito
Social ligadas à regulação de preços, mercados e produtos supérfluos, para além
da contenção da própria dinâmica financeira, a ser inibida em seus arroubos de
expansão ficta e interditada em alguns campos, como a previdência complementar
ou privada.
Essa regulamentação poderia, inclusive, levar a medidas que são de suma
importância para o trato da Previdência Social, com vistas à homogeneização do
trato material de seguradas e segurados – sobretudo no que se refere aos valores
de benefícios, em larga maioria balizados no salário mínimo legal, alçando-os
em massa a patamares maiores –, e, suprimindo práticas históricas de privilégio,
levando assim a redução da base de consumo de bens desnecessários à reprodução
das necessidades humanas, e tão somente úteis à reprodução ampliada da relação
social do capital, bem como à inibição do rentismo.
A medida pode parecer alarmante ou flexibilizadora aos olhos de um classi-
cismo “protecionista” que não comporta retrocessos, mas nesse caso, a interdição
que se pretende é ao excesso tomado desde referenciais comunistas e atentos aos
47
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

limites do planeta, bem como à constituição e reprodução de extratos classistas de


caráter aristocrático que, pela renda exorbitante, apenas alimentam a produção de
bens desnecessários.
Claro, que, como já mencionamos, essa redução de patamares de renda e ho-
mogeneização dos benefícios previdenciários deve vir acompanhada de políticas de
estatização produtiva, controle de preços e outras que viabilizem a atenção de bens
indispensáveis à reprodução da vida de pessoas seguradas e suas famílias. Não se
trata de justificativa de redução de gastos públicos. Muito pelo contrário. Prima sua
ampliação, com perspectivas de distribuição de renda e interdição de constituição
de apartamentos daninhos à identidade e consciência das classes trabalhadoras.
Contrariamos, assim, a sugestão de nosso amigo e parceiro Flávio Roberto
Batista, lançada em sua tese de doutoramento e livro Crítica à tecnologia dos Direi-
tos Sociais25, no sentido de que a radicalização anticapitalista da Previdência Social
passaria pela ampliação vertiginosa dos importes concedidos a título de benefícios.
Estes poderiam ser facilmente incorporados pela reafirmação da lógica de consumo
do supérfluo, do passível de obsolescência, do desnecessário, trazendo aprofunda-
mentos ainda maiores às dimensões ecológicas da crise de civilização. Antissistêmica
e anticapitalista nos parece, pois, a resposta diametralmente oposta: a diminuição
dos benefícios aliada ao controle dos preços dos bens necessários à reprodução da
vida social, tomado da forma mais ampla e referenciada nas plurais necessidades
humanas. Isso por afrontar a lógica de reprodução do capital e salvaguardar as
necessidades ecológicas que possuímos.
Aliada a essa medida, caminha a perspectiva de desmercadorização que a Pre-
vidência Social pode assumir. Essa toada deve passar necessariamente pela concessão
in natura de bens necessários à vida das seguradas e segurados, como pelo fomento
a moradias sociais, alimentação, remédios etc, retirando da dimensão do mercado
a mediação social para obtenção de tais bens, isso pelo câmbio pelo equivalente
universal – o dinheiro – que acede os bolsos dos beneficiários e beneficiárias da
Previdência Social na forma de transmissão de renda do Estado.
Desse modo, far-se-ia indispensável constituir todo um aparato produtivo que
se voltasse à atenção desses bens que, pela intenção desmercadorizadora, não passasse
pela compra de itens no mercado Ou seja, deveria o Estado, por si só, incorporar
setores da burguesia produtiva, a expropriando, ou constituir meios de produção.
E isso em razão de que mesmo se buscando meios que sejam não-empresariais para

25 BATISTA, Flavio Roberto. Crítica da tecnologia dos direitos sociais, São Paulo: Outras Ex-
pressões, Dobra Editoria, 2013.

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Diálogos ecossocialistas com a previdência social

a produção desses bens (como, por exemplo, convênios com cooperativas), tais não
se desvestem do traço da mercadorização.
A essa necessidade, adere o projeto estratégico dos Comuns, que projetam a uma
dimensão não mercadorizada e radicalmente democrática de gestão da produção
e da política, que não só proporcionaria meios adequados a uma produção voltada
à atenção das necessidades materiais daquelas e daqueles que não se encontram
aptos – por motivos físicos, morais, etários etc – para o trabalho, bem como viabi-
lizaria propriamente a possibilidade de assunção de consciência da necessidade de
uma organização produtiva distinta, estranha e afrontosa ao arranjo de produção
capitalista, em que todas as etapas do processo de produção passariam por arranjos
coletivos de decisão e que desde a lógica do trabalho social se viriam apartadas da
dinâmica de exploração típica do modo de produção capitalista.

3.4 Outras contradições e exemplos de incisão concreta


É de se destacar, ademais, que mesmo apartadas das chaves supra expostas,
outras problemáticas concretas despontam na interlocução de temas ecossociais e
a Previdência, motivo pelo qual devem ser destacadas, a titulo de exemplo e inau-
gural problematização, visando futuros aprofundamentos em cada um dos tópicos.
A primeira das situações concretas a que destinamos nosso olhar inicial liga-se
a todo o conjunto de ônus que a Previdência Social acaba por atrair a si em decor-
rência da degeneração ambiental motivada pela ação humana.
Podemos dizer que se existe uma crise da Previdência Social – motivada pela
crise civilizacional a que estamos insertos, como já exposto, mas também decor-
rente de sua insustentabilidade econômica considerando os crescentes índices de
desemprego (que inviabilizam a efetivação dos meios de custeio e a atenção aos
requisitos individuais à condição de segurados e seguradas) –, esta é agravada pela
elevação dos índices de morbidade decorrentes da flexibilização das condições da
saúde, higiene e segurança do trabalho, assim como pelo aumento da emissão de
poluentes na atmosfera, água e solo.
Tendo que a Previdência Social atende pessoas seguradas que se encontram em
quadros de adoecimento grave e incapacitante – isso para não falar de suas famílias,
tanto nesses casos como em caso de falecimento do segurado ou segurada –, e que
é a poluição é um dos maiores fatores de adoecimento e morte em nosso tempo,
bem como um dos que mais cresce proporcionalmente26, por certo a necessidade

26 MINISTÉRIO DA SAÚDE. “Mortes devido à poluição aumenta 14% em dez anos no Bra-
sil”. Disponível em: http://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/45500-mortes-devido-

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OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

de adoção de medidas mais drásticas para inibir os efeitos que o impacto ambiental
enseja nos trabalhadores e trabalhadoras destas indústrias poluentes, bem como
no restante da população, se faz medida de urgência. A regulamentação jurídica –
não necessariamente previdenciária – pode cumprir papel decisivo nesse tocante,
inibindo danos ao meio ambiente e aplicando sanções econômicas (expropriatórias
inclusive) em casos em que estes ocorram. De toda sorte, até mesmo no âmbito
previdenciário medidas podem ser tomadas, a exemplo da ampliação radical de
alíquotas previdenciárias destinadas a empresas com alta emissão de poluentes, da
mesma sorte em que se colocam as modulações de alíquotas sociais em casos em
que o grau de acidentalidade é elevado.
Um segundo caso, este direta e necessariamente conectado à matéria previden-
ciária, está ligado aos grandes desastres empresariais de efeitos sócio-ambientais.
A matéria assume destaque no último período ante as práticas empresariais da Sa-
marco, em Mariana-MG, e da Vale, em Brumadinho-MG, que por certo se colocam
como os mais alarmantes já experimentados no país, mas que não se resumem aos
únicos. Destes desastres empresárias, diversos efeitos previdenciários são verificados
e não se limitam aos empregados e empregadas de tais empresas (bem como das
terceirizadas que a elas prestavam serviços), alcançando também as pessoas a elas
não ligadas diretamente, que por falecidas, incapacitadas e afetadas nos meios de
reprodução da sua vida social pelo oceano de lama oriundo das barragens cedidas
acabam por ser tangenciadas pela Previdência Social, reclamando um discussão
complexificada dentro de referências políticas, econômicas, sociais, jurídicas e
ecológicas para uma adequada compreensão e enfrentamento.
Já um terceiro conjunto de impactos, que reclama inclusive uma leitura de
dimensão internacional do Direito Previdenciário, bem como às tensões postas pela
reserva do possível à afirmação de Direitos Sociais, liga-se à perspectiva de atenção
universal às demandas previdenciárias de refugiados ambientais.
Sendo evidente a imensa dimensão da crise migratória e de refugiados ex-
perimentada em escala global – sendo esta, bem dizer, também uma dimensão da
crise civilizacional que assola a modernidade ocidental –, é de se ter em conta que
aliada às guerras imperialistas motivadas pelos anseios destruidores e criativos de
revigoração do capital, muitas destas ondas migratórias forçadas são atualmente
motivadas por razões ambientais. A fome, o desalojamento e as doenças motivadas
por grandes secas, ampliação das fronteiras de desertos, aumento do ciclo e intensi-

-a-poluicao-aumentam-14-em-dez-anos-no-brasil, publicado em 05.06.2019, acessado em


28.06.2019.

50
Diálogos ecossocialistas com a previdência social

dade de tempestades e outros fernômenos meteorológicos, bem como o assassinato


de rios, a inutilização de largas parcelas de terra pela apropriação insustentável do
capital e o já sensível aumento do nível dos oceanos têm resultado em que parcelas
imensas da população global desloquem seu espaço tradicional de vida para outras
localidades, sendo, como usual no curso da história, os países centrais da ordem
produtiva capitalista o destino magnético de tais fluxos. De todo modo, as dinâmicas
do subimperialismo fazem com que países como o Brasil, que no último período
cumpriu papel importante no agenciamento econômico capitalista de países depen-
dentes e periféricos – sobretudo na África sub-sahariana e na América Latina – seja
também um espaço de destino de amplas parcelas de migrantes.
Desta forma, percebe-se como são diversos os pontos de interlocução de te-
mas sócio-ambientais com o Direito Previdenciário, reclamando desde logo, para
um adequado e estrutural enfrentamento aportar-se nos registros estratégicos e
revolucionários do ecossocialismo como guia para um processo de adequado en-
frentamento e superação.

4. CONCLUSÕES
Diante de todo o exposto, pudemos perceber a ampla gama de contatos que
o Direito Previdenciário e a Previdência Social enquanto tal estabelecem com a
alternativa estratégica ecossocialista. Pela própria natureza do escrito, porém, a
expressiva maioria dos pontos de tangência não puderam receber devido aprofun-
damento, merecendo cada um deles reflexões mais aprofundada e detida em estudos
específicos para cada um deles.
Foi possível notar que as perspectivas de afirmação ecossocialistas, tomadas
desde um registro tático, da Previdência Social devem ser construídas desde sua
abordagem referenciada em uma visão social de mundo das trabalhadoras e traba-
lhadores, e por estes próprios agentes sociais e de classe. Ecoamos assim o chamado
feito por José Saramago ao cabo do Fórum Social Mundial de 2002, que projeta não
só à necessidade de consideração dos temas urgentes de nosso tempo – do qual a
questão ambiental assume vulto –, mas também à radicalidade democrática, tomada
desde novas referências – e não desde o formalismo interditor burguês – como seu
caminho indispensável e único para efetiva consecução.

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BATISTA, Flavio Roberto. Crítica da tecnologia dos direitos sociais, São Paulo: Outras
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OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

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TANURO, Daniel. L’impossible capitalisme vert. Paris: La decouverte, 2010.
WRIGHT, Ronald. Uma breve história do progresso. Trad. Carolina Araújo. Rio de Janeiro:
Record, 2007.

52
A PROTEÇÃO ACIDENTÁRIA NO
CONTEXTO DA EVOLUÇÃO DOS DIREITOS
DE PROTEÇÃO SOCIAL

JosÉ ANToNIo sAVArIs1

Sumário: 1. Introdução. 2. Era Pré-Revolução Industrial. 2. A Assistência Pública e a


Lei dos Pobres. 3. As técnicas inespecíficas de proteção social. 4. As técnicas espe-
cíficas de proteção social. Os seguros sociais do final do Século XIX. 5. As técnicas
específicas de proteção social. A seguridade social. 6. Conclusão. 7. Referências
Bibliográficas

INTRODUÇÃO
É de se reconhecer nos cercamentos das terras comuns e sua conversão em
pastagens, no período compreendido entre os séculos XVI e XVIII, o primeiro forte
abalo à segurança social dos trabalhadores do campo.
A questão acidentária relaciona-se com a ocorrência de acontecimento que por
vezes é inevitável e decisivamente agrava de modo efetivo as necessidades reais do
indivíduo, causando-lhe danos imprevistos ou prejuízos materiais não calculados2.

1 Doutor em Direito (USP). Mestre em Direito Econômico e Social (PUC-PR). Docente Perma-
nente do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu da UNIVALI. Juiz Federal. Presidente de
Honra do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário.
2 Nossa atual compreensão do significado de acidente do trabalho pode partir da regra inserta
no art. 19 da Lei nº 8.213/91: acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho
a serviço de empresa ou de empregador doméstico ou pelo exercício do trabalho do segurado
especial, “provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda
ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho” (Redação dada pela Lei
Complementar 150/2015)
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Desde a perspectiva de proteção previdenciária, o acidente do trabalho, con-


substancia ocorrência de uma eventualidade nuclear, qual seja, a existência de um
estado de necessidade e de ameaça à subsistência digna do indivíduo; uma contin-
gência a que todos os trabalhadores estão expostos e, em face da qual, a garantia de
um padrão de vida adequado se faz ainda mais necessária, consubstanciando, por
essa razão, inescapável exigência de justiça.
A compreensão da proteção acidentária desde uma perspectiva histórico-
-sistemática joga luzes sobre facetas negligenciadas deste complexo problema, suas
consequências sociais, econômicas, políticas e jurídicas.
O objetivo fundamental do presente texto é analisar a emergência histórica da
proteção acidentária no processo de desenvolvimento do universo industrial e da
consequente necessidade de mecanismos de proteção, não apenas do trabalhador,
mas do tecido social abrangentemente considerado.
Com essa finalidade, buscou-se dar um passo atrás e apontar, de modo pano-
râmica, o universo da proteção social no período anterior à Revolução Industrial,
marco histórico que fez surgir o mundo do trabalho tal como hoje o conhecemos, e
ao mesmo tempo fez impactar decisivamente a existência e os meios de subsistência
de pessoas que dependiam exclusivamente de sua força do trabalho.
A análise das técnicas de proteção social (inespecíficas e específicas) são objeto
de tratamento subsequente, técnicas essas que pavimentaram o cenário internacional
que hoje conhecemos.
Ainda que o presente artigo sugira uma progressão/evolução no quanto se
relaciona à temática de proteção acidentário, seria ingenuidade assim expressar. A
proteção social está longe de se caracterizar como um processo contínuo, evolutivo,
progressivo.
Trata-se, com efeito, de um campo social marcado por embates ideológicos,
sociais, marchas e contramarchas, um típico produto da clivagem de classes.
A inevitável consequência disso é a necessidade de se reconhecer a possibilidade
de períodos de retrocesso e de menor consideração aos danosos efeitos da exploração
do trabalho pelo capital, de um lado. E a importância de se analisar criticamente
as instituições e políticas sociais desde uma concepção adequada de justiça social

2. ERA PRÉ-REVOLUÇÃO INDUSTRIAL. A ASSISTÊNCIA


PÚBLICA E A LEI DOS POBRES
É de se reconhecer nos cercamentos das terras comuns e sua conversão em
pastagens, no período compreendido entre os séculos XVI e XVIII, o primeiro forte
abalo à segurança social dos trabalhadores do campo.

54
A proteção acidentária no contexto da evolução dos direitos de proteção social

Com o propósito de aumentar os rendimentos de suas propriedades e devida-


mente autorizados pelo parlamento inglês, os senhores e os nobres promoveram a
expulsão dos camponeses de terras das quais retiravam o sustento e que, até então,
por força de antigos costumes, estes consideravam como suas e de seus herdeiros.
Promovendo o cercamento dos campos abertos (enclosures) e a conversão da terra
arável em pastagens, alcançava-se a valorização da terra cercada e o acesso à alta-
mente lucrativa ocupação de criação de carneiros e venda de sua lã aos novos cen-
tros de indústria lanígera. O desenvolvimento da indústria lanígera, de outra parte,
constituiu importante recurso para a Inglaterra, conduzindo ao estabelecimento da
indústria têxtil o veículo da Revolução Industrial.
Por outro lado, colocava-se o povo em desgraça:
O tecido social estava sendo destruído; aldeias abandonadas e ruínas de mora-
dias humanas testemunhavam a ferocidade da revolução, ameaçando as defesas do
país, depredando suas cidades, dizimando sua população, transformando seu solo
sobrecarregado em poeira, atormentando seu povo e transformando-o de homens
e mulheres decentes numa malta de mendigos e ladrões.3
Poderiam os despojados ajustar-se às novas condições sem prejudicar de
modo fatal a sua substância humana e econômica, física e moral? Encontrariam eles
novos empregos nas áreas de oportunidade indiretamente ligadas às mudanças? A
alteração do cenário econômico permitiria àqueles que perderam seus empregos
encontrar novas fontes de subsistência?4 Essa índole de questões levantadas por
Polanyi não tocou – e geralmente não toca – os projetistas sociais que lançam sua
visão ao mundo a partir do ponto de vista meramente econômico.
A perda do bem que assegurava a subsistência aos trabalhadores do campo
seria o primeiro grande abalo à sua segurança social5.

3 OLANYI, Karl. A grande transformação: as origens da nossa época. Trad. Fanny Wrobel. 2. ed.,
14. reimp. Rio de Janeiro: Elsevier, 2000; BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo a outra mo-
dernidade. Trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: Ed. 34, 2010. p. 53.
Como observa o mesmo historiador, ainda que isso ocorresse apenas em determinadas áreas,
tais pontos negros ameaçavam fundir-se numa catástrofe uniforme.
4 POLANYI, Karl. A grande transformação..., p. 56-57. “A Inglaterra suportou, sem grandes da-
nos, a calamidade dos cercamentos apenas porque os Tudors e os primeiros Stuarts usaram o
poder da Coroa para diminuir o ritmo do processo de desenvolvimento econômico, até que
ele se tornou socialmente suportável – utilizando o poder do governo central para socorrer as
vítimas da transformação e tentando canalizar o processo de mudança de forma a tornar o seu
curso menos devastador”.
5 “A guerra contra as habitações do campo, a absorção das hortas e terrenos que rodeavam essas
habitações, o confisco dos direitos sobre as terras comuns, privaram a indústria doméstica de

55
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Cada vez mais era sentida a necessidade de um sistema de caridade institu-


cionalizado que buscasse suprimir a mendicância, propiciando ajuda aos carentes,
tornando o trabalho obrigatório e confinando indigentes e crianças carentes em
áreas específicas.
É famosa, no particular, a série de normas inglesas que compunham um sistema
de ajuda legal aos pobres (Poor Law)6. Essas normas foram compiladas durante o
reinado de Elizabeth I (também chamada de Isabel I) e deram origem à primeira
lei oficial dos pobres, conhecida como The 1601 Act for the Relief of the Poor. Esse
diploma legal estabeleceu os princípios de um sistema nacional de ajuda legal e
obrigatória aos pobres e constituiu a base do que mais tarde se conheceria pela
Antiga Lei dos Pobres. O financiamento se dava fundamentalmente por impostos
e taxações locais que incidiam sobre todos os donos de casas e arrendatários, ricos
ou não, levando-se em conta o aluguel das terras ou casas que ocupavam7. O auxílio
da paróquia dependia da condição do pobre (esmolas e asilos para os velhos e en-
fermos (inválidos), aprendizagem de ofício para órfãos e crianças carentes, arranjo
de emprego para homens capazes ou prisão para os que podiam e se recusassem a
trabalhar)8.

seus dois esteios: os rendimentos familiares e o ‘pano de fundo’ agrícola. Enquanto a indústria
doméstica era suplementada pelas facilidades e amenidades de um canteiro de horta, um peda-
ço de terra ou direitos de pastagem, a dependência do trabalhador aos rendimentos monetários
não era absoluta. Fazia uma diferença enorme ter um lote de batatas ou de ‘gansos teimosos’,
uma vaca ou até mesmo um burro pastando nas terras comuns, e os ganhos familiares eram
uma espécie de seguro contra o desemprego. A racionalização da agricultura desenraizou ine-
vitavelmente o trabalhador e solapou a sua segurança social” (POLANYI, Karl. A grande trans-
formação..., p. 115).
6 Note-se que eram consideradas pobres todas as pessoas que não possuíam renda suficiente
para manterem-se ociosas. Em outras palavras, “pobre” era praticamente sinônimo de “povo
comum” (POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens da nossa época..., p. 110). Na
formulação de Bentham, pobreza é o estado de todos que, para alcançar sua subsistência, são
forçados a recorrer ao trabalho. Já a indigência é o estado de quem, sendo destituído de pro-
priedade, é ao mesmo tempo incapaz para trabalhar e incapaz de obter a provisão que deseja
(BENTHAM, Jeremy. Writing on the poor laws. Oxford: Ed. Michael Quinn, Clarendon Press,
2001. v. 1, p. 3). É importante registrar que Bentham considerava também indigente a pessoa
que embora fosse proprietária, por exemplo, da casa em que vive, de mobília, roupas e ferra-
mentas, fosse encontrada, todavia, em uma situação de carência alimentar. A noção de destitui-
ção que Bentham pretende enfatizar é a que corresponde à ausência de recursos para a imediata
satisfação de uma dada necessidade.
7 POLANYI, Karl. A grande transformação..., p. 110.
8 “Os velhos, os enfermos os órfãos deviam receber cuidados numa sociedade que proclamava
haver lugar para qualquer cristão em seu âmbito. Acima de todos, porém, estavam os pobres ca-
pacitados, a quem poderíamos chamar de desempregados, presumindo que poderiam ganhar

56
A proteção acidentária no contexto da evolução dos direitos de proteção social

Buscando evitar o fluxo de indigentes para as paróquias bem-sucedidas, foi


decretado em 1662 o Act of Settlement and Removal (Lei de Domicílio), relativo ao
domicílio legal das pessoas, que restringia ao máximo a mobilidade geográfica do
povo. Como articula Polanyi:
Um homem só podia ficar fora de sua paróquia se contasse com a boa vontade
do magistrado local e das autoridades paroquiais. Em qualquer outro lugar, ele era
passível de expulsão, mesmo estando em boa situação e empregado. O status legal
do povo era, portanto, o de liberdade e igualdade, mas sujeito a limitações incisivas.
Eles eram iguais perante a lei e livres como pessoas, mas não eram livres para es-
colher suas ocupações ou a de seus filhos, não eram livres para se estabelecer onde
quisessem e eram forçados a trabalhar.9
Sob a pressão das necessidades da indústria, o Act of Settlement de 1662 foi
parcialmente revogado em 1795, quando a Revolução Industrial já estava a cami-
nho. Foi então abolida a servidão paroquial e restaurada a mobilidade física do
trabalhador, sem o que não poderia ser estabelecido um mercado de trabalho em
escala nacional. No mesmo ano de 1795 foi introduzido pela Speenhamland Law
uma renda mínima na administração da Poor Law, que significava o inverso do
princípio do trabalho obrigatório.
A preocupação da Speenhamland Law era a condição econômica dos pobres.
Seu propósito era evitar o estabelecimento de uma economia de mercado que tra-
tasse a força de trabalho como mercadoria e, assim, fizesse a classe trabalhadora
refém da motivação de lucro do capital industrial. A estratégia de emergência era,
portanto, a de conceder um rendimento mínimo a qualquer pessoa pobre, mesmo
que empregada, desde que o salário fosse menor do que a renda familiar estabelecida
pela tabela. E assim proclamando, o Speenhamland Law tornou-se, na expressão de
Polanyi, o “paraíso de todos”10.

a vida com seu trabalho manual, se pudessem encontrar emprego. A mendicância era severa-
mente punida; a vagabundagem era uma ofensa capital, em caso de reincidência […] os pobres
capacitados deveriam trabalhar para ganhar seu sustento, e a paróquia deveria providenciar
este trabalho” (POLANYI, Karl. A grande transformação..., p. 110).
9 POLANYI, Karl. A grande transformação..., p. 111.
10 “Nenhuma outra medida se popularizou mais amplamente. Pais não precisavam cuidar dos
filhos; filhos não dependiam mais dos pais; os empregadores podiam reduzir os salários a
bel-prazer e os trabalhadores não passavam fome, quer fossem diligentes ou preguiçosos. Os
humanitaristas aplaudiam a medida como ato de piedade, senão de justiça, e os egoístas se
consolavam com o pensamento de que se tratava de um gesto de caridade e não de um ato li-
beral. Mesmo os contribuintes dos impostos custaram a compreender o que aconteceria a esses
impostos num sistema que proclamava o ‘direito de viver’ quer um homem trabalhasse por um
salário vivo ou não” (POLANYI, Karl. A grande transformação..., p. 102).

57
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

A emergente economia de mercado com o seu sistema de salários exigia, contu-


do, a abolição do “direito de viver” nos termos proclamados pela Speenhamland Law,
pois desestimulava o trabalho, uma vez assegurada a subsistência sem a submissão
do trabalhador às exigências do empregador. Em tais condições, o trabalhador
não tinha interesse material em satisfazer seu empregador, dado que sua renda
era a mesma qualquer que fosse o seu salário. Por menos que recebesse, o subsídio
advindo dos impostos elevava a renda do trabalhador até o nível disposto pelo “sis-
tema de abonos”. Por outro lado, o declínio da produtividade do trabalho oferecia
outro motivo para não elevação dos salários para além da tabela. Estavam postos
os ingredientes para que o “direito de viver” constituísse uma armadilha mortal:
quando de sua revogação em 1834 pela Poor Law Reform, os salários encontravam-
-se muito baixos, os trabalhadores estavam desarticulados e os desempregados
surpreendidos pela competição em um mercado de trabalho que funcionava sem
qualquer regulamentação11.

3. AS TÉCNICAS INESPECÍFICAS DE PROTEÇÃO SOCIAL


O desenvolvimento das máquinas, acrescido da gravidade e quantidade dos
acidentes de trabalho, bem como o risco de desemprego decorrente da crise eco-
nômica, resultou em um estado de excepcional insegurança econômica para todos
aqueles cujos recursos de existência dependiam da possibilidade de alugar sua força
de trabalho a um empregador.
Somente a percepção de quanto a Revolução Industrial representou em termos
de ameaça à vida e ao bem-estar do país que a engendrou permite a compreensão
da emergência dos direitos sociais como instrumento de socorro das vítimas da
transformação por ela imposta. De fato, o vasto movimento de progresso tecnológico
e econômico fez desabar sobre a Inglaterra uma avalanche de desarticulação social:
Antes que o progresso tivesse ido suficientemente longe, os trabalhadores já se
amontoavam em novos locais de desolação, as assim chamadas cidades industriais
da Inglaterra; a gente do campo se desumanizava em habitantes de favelas; a família
estava no caminho da perdição e grandes áreas do país desapareciam rapidamente
sob montes da escória e refugos vomitados pelos “moinhos satânicos”.12

11 POLANYI, Karl. A grande transformação..., p. 101. A nova lei dos pobres restabeleceu a assistência
pública nos albergues para os pobres sem condições de trabalhar e reinstituiu os trabalhos força-
dos para os que se encontravam aptos ao trabalho, relegando à própria sorte um enorme contin-
gente de pobres e miseráveis sujeitos à exploração sem lei do capitalismo que emergia (p. 50).
12 POLANYI, Karl. A grande transformação..., p. 58. Polanyi denomina “moinho satânico” o es-
pantoso progresso dos instrumentos de produção que, possibilitando uma economia de merca-

58
A proteção acidentária no contexto da evolução dos direitos de proteção social

A ajuda familiar deixava de ser uma realidade quando o trabalhador rompia


com a cultura pré-capitalista e passava a depender exclusivamente de sua força de
trabalho para suprir suas necessidades mais elementares.
Os riscos vitais se generalizam contra os trabalhadores por conta do modo de
produção capitalista e da relação de trabalho assalariado que ela consagra. O sistema
de produção capitalista segue o imperativo da maximização do lucro da empresa.
O outro lado da moeda é a exploração do trabalhador, que passa a ser percebido
como elemento necessário na cadeia de produção que apresenta suas exigências de
manutenção – como uma máquina exigiria óleo, por exemplo13.
É mesmo como consequência da Revolução Industrial que, no Século XIX,
se verifica grave repercussão de contingências que impediam uma pessoa de obter
recursos pelo exercício de sua atividade profissional. Essas situações de risco de
subsistência e os estados de necessidade decorrentes passaram a ocupar o centro da
agenda política de vários países. Começava a ser necessária a intervenção estatal para
a conciliação dos interesses e necessidades dos capitalistas e da classe trabalhadora.
São os trabalhadores assalariados industriais que aparecem como principal
contingente de pessoas a ser protegido pelas modernas políticas sociais, na medida
em que se dissolviam as redes tradicionais de solidariedade.
A história da proteção social registra primeiramente, contudo, a adoção de
técnicas inespecíficas de proteção, assim consideradas porque correspondiam às

do, teve como efeito uma catastrófica desarticulação na vida das pessoas comuns, mecanismo
este que “triturou os homens transformando-os em massa”, destruindo o antigo tecido social
e tentando, sem sucesso, uma nova integração homem-natureza (Idem, p. 51). Não é demais
observar que “Escritores de todas as opiniões e partidos, conservadores e liberais, capitalistas e
socialistas, referiam-se invariavelmente às condições sociais da Revolução Industrial como um
verdadeiro abismo de degradação humana”, de tal sorte que “a história da civilização do século
XIX consistiu, na sua maior parte, em tentativas de proteger a sociedade contra a devastação
provocada por esse mecanismo (Idem, p. 58).
13 E aí está a principal razão da desarticulação social: o mercador deve auferir lucro e, então, os
preços devem ter liberdade se autorregularem. Nesse sistema em que a motivação do lucro
passa a substituir a motivação da subsistência, o que é comprado pelo mercador “são matérias-
-primas e trabalho – natureza e homem. Na verdade, a produção das máquinas numa sociedade
comercial envolve uma transformação que é da substância natural e humana da sociedade em
mercadorias. Embora fantástica, a conclusão é inevitável – nada menos do que isto servirá aos
seus propósitos. Obviamente, a desarticulação causada por tais engenhos deve organizar as
relações humanas e ameaçar de aniquilamento o seu habitat”. Mas a suposta mercadoria “força
de trabalho” não pode ser “impelida, usada indiscriminadamente, ou até mesmo não-utilizada,
sem afetar também o indivíduo humano que acontece ser o portador dessa mercadoria pecu-
liar” (POLANYI, Karl. A grande transformação..., p. 61 e 95).

59
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

“técnicas do direito comum”14, especialmente a poupança individual, o seguro privado


e a previdência coletiva, que guardavam a nota da facultatividade.
A cobertura dos riscos sociais se dava com a proteção, por sociedades de so-
corros mútuos, criada pela iniciativa dos trabalhadores e desenvolvida por diversas
formas de seguros. O Estado se limitava a encorajar tais esforços de previdência
pela criação dessas instituições. De outra parte, as vítimas de acidente de trabalho
buscavam a reparação do dano sofrido pelas regras da responsabilidade civil, ao
passo que os desempregados, os idosos e os inválidos carentes contavam apenas
com a caridade privada ou com a assistência pública.
Na medida em que a economia individual, o mutualismo e o seguro pressupu-
nham uma iniciativa pessoal, os sistemas não se apresentavam sustentáveis e tam-
pouco alcançavam a todos os trabalhadores. Já a responsabilidade civil, atribuindo
ao empresário o dever de reparar o dano, fazia a proteção depender de sua solvência,
comprometendo o sistema especialmente pelo número de acidentes do trabalho.
A acrescentar, a assistência constituía socorro facultativo e limitado que im-
punha frequentemente condições humilhantes a seus pretendentes. Lembre-se que
a Lei de Elizabeth (1601), alterada pela The 1834 Poor Law Amendment Act (Nova
Lei dos Pobres), trazia como inovação o trabalho forçado nas casas de trabalho
(workhouses), trabalhos estes em condições mais desagradáveis que as existentes
em qualquer emprego.
Mas a cobertura dos riscos sociais não poderia ser deixada à “ação errática e
desigualitária da beneficência” e tampouco submeter a pessoa que pretende o auxílio
a provas deprimentes de sua necessidade, considerando-se necessitado apenas aquele
que logra demonstrar a carência mediante seus lamentáveis signos de miséria15.

4. AS TÉCNICAS ESPECÍFICAS DE PROTEÇÃO SOCIAL.


OS SEGUROS SOCIAIS DO FINAL DO SÉCULO XIX
A insuficiência e a inadequação das “técnicas de direito comum” deram ensejo
a elaboração de três técnicas específicas de cobertura dos riscos sociais: a) uma
nova espécie de seguro, representado pelos seguros sociais; b) um novo sistema de

14 DENIS, Pierre. Droit de la securite sociale. 2. ed. Louvain: Précies de la Faculté de Droit de l’Uni-
versite Catholique de Louvain, 1973. p. 4.
15 Afinal, a concessão de benefício pela comunidade, caracterizando a assistência pública em
complementação à privada, corporativa ou confessional, era entendida como “ajuda graciosa
e discricionária ao indigente que demonstre sê-lo” (OLEA, Manuel Alonso; PLAZA, José Luis
Tortuero. Instituciones de seguridad social. 17. ed. Madrid: Civitas, 2000. p. 28).

60
A proteção acidentária no contexto da evolução dos direitos de proteção social

responsabilidade adaptado aos acidentes de trabalho; c) um regime de compensação


pelos encargos da família, representado pelas prestações familiares16.
As primeiras legislações que adotaram essas técnicas constituíam adaptação do
direito comum e foram elaboradas sem um plano geral de cobertura, caracterizando-
-se pelo seu fracionamento. A lei que considerasse determinado risco como objeto
de proteção era a mesma que estipularia o modo de financiamento do regime de
indenização e criaria as instituições correspondentes.
Inicialmente, o campo de aplicação dessas leis era estreito. Geralmente, elas
visavam aos trabalhadores de rendas menores e, por vezes, excluíam da proteção
trabalhadores de determinados setores de atividade. Nesse contexto, os trabalhadores
independentes eram geralmente excluídos dos regimes de proteção. Posteriormente,
o campo de atuação dessas leis foi alargado progressivamente, seja quanto às pessoas
protegidas, seja quanto aos riscos cobertos.
Esse processo, que predominaria do final do século XIX até a Segunda Guerra
Mundial, foi marcado pela introdução da responsabilidade sem culpa, em matéria
de acidentes de trabalho, pelos seguros sociais obrigatórios e pela indenização em
face de encargos familiares.
De início, percebia-se no final do século XIX a inauguração de um regime
específico de reparação às vítimas de acidentes do trabalho. Tal regime se orientava
pela noção de que a responsabilidade do empregador independeria de sua culpa, pois
era fundada no “risco profissional”. O dever de reparação decorreria da circunstância
de o trabalhador ser exposto ao risco pelo empregador em sua busca pelo lucro.
Nessa verdadeira revolução na história de proteção do trabalhador, deve ser
destacado o fato de ela ter encontrado impulso fundamental na jurisprudência.
Mediante entendimento marcadamente favorável à proteção dos trabalhadores, a
jurisprudência francesa definiu um dever de reparação por acidente de trabalho,
baseado no risco profissional independentemente de qualquer alteração legislativa.
Guindada pela jurisprudência é que se tem a instituição legislativa do Regime de
Acidentes do Trabalho, em 09.04.1898, primeiro texto francês de proteção inspi-
rada na técnica dos seguros sociais. Ao lado dessa responsabilidade automática do
empregador, vários países europeus impunham a contratação de seguro obrigatório
em favor dos trabalhadores.
Não é necessária muita imaginação para ligar o início das políticas sociais de
proteção ao trabalhador aos problemas estruturais do sistema de produção capita-
lista. De outra parte, a proteção do trabalhador contra uma exploração exagerada e

16 DENIS, Pierre. Droit de la securite sociale..., p. 6.

61
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

imprevidente poderia significar a proteção do interesse em longo prazo do capital.


Essa é a tese da explicação do desenvolvimento político social a partir de impera-
tivos do processo de produção capitalista, a qual identifica na política social uma
exigência funcional da produção capitalista17.
De qualquer sorte, a implementação do seguro social obrigatório somente
foi possível pela conjugação de três fatores: uma nova corrente de pensamento
econômico-social, um ambiente econômico propício e um homem de Estado que
acolhesse a ideia e tivesse força suficiente para vencer qualquer resistência18.
Foi no final do século XIX que tiveram sua origem os sistemas de seguros sociais.
Na Alemanha do conservador Otto von Bismarck, as Leis de 15 de junho de 1883, 6
de julho de 1884 e 22 de junho de 1889 dispuseram, respectivamente, seguro-doença,
seguro contra os acidentes de trabalho e seguro contra invalidez e velhice.
A sociedade liberal instaurada na Alemanha não foi o resultado de uma luta
radical contra a ordem do feudalismo, mas estabelecida por força de reformas im-
postas pela elite político-intelectual. Essa particularidade contribuiu para a formação
de uma mentalidade de submissão e confiança no Estado paternalista19, favorecendo
a consolidação dos sistemas de proteção social nesse país. Nada obstante, é preci-
so destacar que a principal razão da sua emergência foi o receio do crescimento
do movimento obreiro, insuflado pelo socialismo revolucionário, pois o partido
socialista alemão havia obtido relativo êxito nas eleições parlamentares de 187720.

17 Nesse sentido, as organizações operárias “obrigariam” o capital a agir de acordo com seu “auto-
-interesse bem compreendido”: “Isso pelo menos no sentido de que o capital seria compensado
em longo prazo pelos custos, possivelmente pesados a curto prazo mas absorvíveis a médio
prazo, resultantes das concessões feitas, através das vantagens de uma força de trabalho física
e profissionalmente intacta, e de uma paz social assegurada, que seria mantida por uma for-
ça de trabalho crescentemente “imunizada”, inclusive do ponto de vista ideológico”. A tese é
objeto de crítica de Claus Offe, porque não explicaria as políticas “não-relacionadas de forma
inquestionável com a preservação de substância material da força de trabalho” e igualmente
porque pressupõe que as agências estatais dispõem, ao mesmo tempo, de ampla capacidade de
análise para diagnosticar as exigências funcionais do capital e de habilidade para implementar
as políticas identificadas com essas exigências (OFFE, Claus; LENHARDT, Gero. Teoria do
Estado e política social. In: OFFE, Claus; LENHARDT, Gero. Problemas Estruturais do Estado
Capitalista. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984. p. 34-35).
18 VENTURI, Augusto. Los fundamentos científicos de la seguridad social. Colección Seguridad
Social, Madrid, Ministerio de Trabajo y Seguridad Social, n. 12, 1994, p. 104-105.
19 FLICKINGER, Hans-Georg. A trajetória das políticas sociais na Alemanha. In: FLICKINGER,
Hans-Georg (Org.). Entre Caridade, Solidariedade e Cidadania: história comparativa do serviço
social Brasil / Alemanha. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000. p. 45-46.
20 Destaca Russomano que o Chanceler alemão era um homem de larga visão que compreendera
que apenas a repressão não o sustentaria no poder, tendo buscado esvaziar o conteúdo da pre-

62
A proteção acidentária no contexto da evolução dos direitos de proteção social

A célebre trilogia legislativa de Bismarck destinava-se, inicialmente, aos traba-


lhadores das indústrias do carvão e aço com salários inferiores a certo montante,
segundo o princípio do teto de filiação. A um só tempo, a ação protetiva na Alemanha
defendia a indústria têxtil do país da poderosa concorrência inglesa e alavancava a
produção do aço, fator chave do ciclo econômico assentado na indústria pesada e na
eletricidade. De outro lado, o seguro tornava-se obrigatório, com o que se logravam
condições efetivas de realizar a proteção de determinados riscos sociais, além de
propiciar um equilíbrio satisfatório do custeio desses riscos. De sua parte, o cus-
teio era financiado pelos empregadores e pelos segurados, mediante contribuições
proporcionais ao salário; nada obstante, as contribuições eram subvencionadas
pelo Estado, ao menos para o seguro invalidez e velhice. Cumpre acrescentar que
os três regimes de seguro eram inteiramente independentes, do ponto de vista de
sua estrutura administrativa21.
O seguro social alemão engendrou o que seguia sendo fundamentalmente
uma operação de seguro, mediante a fixação dos riscos cobertos, aleatoriedade ou
incerteza individual do sinistro, formação de um fundo mútuo comum para aten-
dimento e tratamento matemático-financeiro da cobertura. Apresentava, contudo,
características especiais que decorriam de sua amplitude e obrigatoriedade22.
Na classificação de Esping-Andersen, o modelo de proteção social adotado por
Bismarck é visto como corporativista e conservador23. Ademais, teria sido explicita-
mente uma forma de política de classe, seja na busca da consolidação das divisões
entre os assalariados, aplicando programas distintos de acordo com a classe e status,
seja com o propósito de vincular as lealdades do indivíduo diretamente à monar-
quia ou à autoridade central do Estado. Essa teria sido a motivação de Bismarck ao
promover o pagamento estatal direto de pensões e aposentadorias.
A instituição de benefícios previdenciários privilegiados para o funcionalismo
público derivaria da tradição das antigas corporações, tradição que era vista pelos
“autocratas neo-absolutistas, como Bismarck”, como forma de combater os crescentes

gação socialista mediante a instituição dos seguros sociais obrigatórios e gerais, embora não
abrisse mão do emprego da força para o enfrentamento do movimento operário (RUSSOMA-
NO, Mozart Victor. Curso de previdência social. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1983. p. 9).
21 A índole obrigatória do seguro, os modos particulares de financiamento e a ausência de total
seleção dos riscos faziam do seguro de Bismarck uma adaptação dos mecanismos clássicos do
seguro e do mutualismo (DENIS, Pierre. Droit de la securite sociale..., p. 7).
22 OLEA, Manuel Alonso; PLAZA, José Luis Tortuero. Instituciones de Seguridad Social..., p. 28.
23 ESPING-ANDERSEN, Gosta. As três economias políticas do Welfare State. Trad. Dinah de
Abreu Azevedo. Lua Nova – Revista de Cultura e Política, n, 24, p. 85-116, set. 1991.

63
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

movimentos de trabalhadores24. Os trabalhadores “evidentemente” desconfiavam


das reformas promovidas por um Estado hostil e viam suas próprias organizações
não só como base para a mobilização da classe, mas como embriões de um mundo
alternativo de solidariedade e justiça. Mas o modelo de sociedade fraternal frustrou
o objetivo de mobilização da classe trabalhadora, pela sua divisão interior. A Alema-
nha, a Áustria, a Itália e a França adotaram esse modelo de corporativismo estatal
antissocialista que resultou “muitas vezes num labirinto de fundos previdenciários
de status diferenciados”25.
Embora a técnica dos seguros sociais tenha sido logo adotada em vários países
europeus, cabe a anotação de que o princípio da filiação obrigatória não foi admitido
senão com dificuldades em outros países26.
No pertinente à indenização pelos encargos familiares, as primeiras legislações
se deram na Bélgica (1930) e na França (1932). É que, durante a primeira guerra,
alguns empregadores, espontaneamente, proporcionaram um suplemento de salário
aos trabalhadores com filhos, iniciativa que, levando-se em conta a situação econô-
mica, permitiu que se evitasse um aumento generalizado dos salários, auxiliando,
por outro lado, os trabalhadores pelo aumento de seu custo de vida. Na sequência,
os empregadores empreenderam pleito de compensação de tais valores, sendo que,
no início da década de trinta, a filiação dos empregadores a uma caixa de compen-
sação tornava-se obrigatória.

24 O desenvolvimento das políticas sociais não decorre de pura manifestação de solidariedade em


relação aos destituídos. Não há, de fato, um arranjo de todos contra um inimigo comum, qual
seja a fome e a exclusão. Percebe-se, antes, um modelo evolutivo das estratégias e inovações de
política social do Estado orientado a desenvolver as estratégias sociopolíticas e modernizar as
instituições existentes, “de modo que satisfaçam, simultaneamente, no contexto dos direitos
políticos existentes da classe operária, as exigências políticas admitidas e as necessidades pre-
visíveis do processo de acumulação, levando em conta, ao mesmo tempo, os pré-requisitos da
economia do trabalho e as possibilidades orçamentárias” (OFFE, Claus; LENHARDT, Gero.
Teoria do Estado e política social..., p. 36).
25 ESPING-ANDERSEN, Gosta. As três economias políticas do Welfare State. Trad. de Dinah de
Abreu Azevedo. Lua Nova – Revista de Cultura e Política, n, 24, p. 85-116, set. 1991. p. 105.
26 O seguro social obrigatório tinha diante de si a resistência nascida da imprevidência e da falta de
solidariedade dos homens, além da falta de capacidade de poupança de muito deles. Em razão
disso é que o seguro social em algumas partes se manifestou, inicialmente, como voluntário e por
vezes com subvenções públicas, assim denominando-se o regime de liberdade subsidiada, que
ao não impor ao trabalhador a obrigação de filiação, garantia o sistema por meio de subsídios a
cargo do Estado (OLEA, Manuel Alonso; PLAZA, José Luis Tortuero. Instituciones de Seguridad
Social..., p. 28). Por não permitir a imposição de contribuição financeira aos empregadores e por-
que possibilitava ao empregado o esforço de previdência no gozo de seus rendimentos, os países
que adotaram este sistema alinharam-se progressivamente ao princípio do seguro obrigatório.

64
A proteção acidentária no contexto da evolução dos direitos de proteção social

A proteção social então assegurada correspondia essencialmente ao chama-


do modelo bismarckiano dos seguros sociais, fundado em uma noção fraca de
solidariedade, pois simplesmente organizava o pagamento de prêmios pelos traba-
lhadores por determinado período para que estes tivessem assegurado o direito a
um benefício quando da ocorrência dos riscos sociais protegidos. Jogava-se com a
aversão aos riscos27.
Esse modelo bismarckiano era marcado por dois traços fundamentais: nenhu-
ma proteção a quem antes não tivesse contribuído e, logo, nenhuma compensação
possível para uma invalidez de partida que impedisse a pessoa de cotizar, ou, mais
geralmente, nenhuma compensação por uma desvantagem decorrente de um fator
genético ou de uma origem social menos favorável. Não há lugar, em tal modelo,
para proteção ou compensação ex ante (momento anterior ao ingresso no mercado
de trabalho), mas apenas ex post28.
Os avanços obtidos pelos seguros sociais não escondiam a insuficiência da
proteção que, emanada de leis esparsas inspiradas em princípios e técnicas distintas,
se aplicava a apenas uma parte da população.
Essa lógica seria finalmente superada pelo modelo universalista beveridgiano,
que contempla a hipótese de compensação acima apontada, como passaremos a
analisar.

5. AS TÉCNICAS ESPECÍFICAS DE PROTEÇÃO SOCIAL.


A SEGURIDADE SOCIAL
A noção de universalidade deve consubstanciar diretriz fundamental para a
definição de políticas públicas em matéria de segurança social. É elementar que uma
política social destinada a garantir condições dignas de subsistência à pessoa atingida
por determinada contingência social deve orientar-se pelo critério da abolição de
todas as formas de privação de recursos para subsistência.
Para tanto, faz-se necessário que um sistema de proteção social incorpore com-
ponente mais forte de solidariedade, de modo a estender seu campo de aplicação a
pessoas que jamais contribuíram diretamente para o fundo público.
Nos anos que precederam a Segunda Guerra Mundial, a preocupação centrou-
-se na “abolição do estado de necessidade e a garantia a todo cidadão de uma renda
suficiente que lhe permitisse subsistir e prover a subsistência de sua família” e, ao

27 PARIJS, Philippe van. Refonder la solidarité. Paris: Les Éditions Du Cerf, 1999. p. 17-22.
28 Idem. Ibidem, p. 17-22.

65
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

mesmo tempo, na efetivação de medidas de prevenção de certos riscos sociais,


ordenadas pelas políticas de pleno emprego e de saúde29.
Estavam armados os alicerces para a renovação da concepção de proteção so-
cial que é encontrada na origem da seguridade social. Os primeiros delineamentos
jurídicos se deram após a Grande Depressão, pela Lei de 14 de agosto de 1935, dos
Estados Unidos, pelo regime neozelandês de seguridade social instituído em 1938
e pelo Relatório Beveridge de 1º de dezembro de 1942, que inspirou a legislação
britânica do pós-guerra.
O Social Security Act (1935), como parte das medidas adotadas pelo Presidente
Franklin D. Roosevelt contra a miséria deixada pela crise econômica de 1929, criava
um seguro por velhice e por morte, em favor dos trabalhadores assalariados, previa
auxílio financeiro aos Estados que organizassem um sistema de indenização por
desemprego na forma fixada pela lei, e dispunha várias medidas assistenciais em
favor das categorias menos favorecidas, independentemente de sua condição pro-
fissional (deficientes visuais, idosos, viúvas, crianças portadoras de deficiência)30.
O combate à miséria por meio de diversas prestações de seguro e assistência,
organizadas de modo sistemático, constituem relevante evolução no processo de
proteção social.
De outra parte, com o sistema neozelandês de seguridade social de 1938, se
reconhece a todo cidadão um crédito alimentar junto à coletividade, desde que seu
rendimento seja inferior ao mínimo estabelecido pela lei. A atribuição de direito à
assistência demove a ideia de facultatividade na concessão do benefício assistencial.
Outrossim, esse regime assegura a cobertura de todos os riscos sociais, indepen-
dentemente de sua natureza emergencial. O núcleo de preocupação desse sistema
é a garantia de um mínimo vital ao beneficiário, assegurando o financiamento do
regime por um imposto sobre as rendas.
Mas é a partir do Relatório Beveridge, realizado em 1941/1942 sob encomen-
da do governo britânico e na intenção de se apontar como a Inglaterra deveria ser
reconstruída após a II Guerra Mundial, que se observam os princípios que devem
nortear a estruturação do recomendado sistema de seguridade social:

29 DENIS, Pierre. Droit de la securite sociale...., p. 9 (tradução livre).


30 Segundo o preâmbulo dessa Lei, a medida consistia “um ato destinado a fornecer o bem-es-
tar geral estabelecendo um sistema federal de benefícios por velhice, e habilitando os estados
a proporcionarem as mais adequadas provisões para pessoas idosas, pessoas cegas, crianças
dependentes e portadoras de deficiência, bem-estar maternal e da criança, a saúde pública, e a
administração de suas leis da compensação de desemprego; para estabelecer uma plataforma
da segurança social; para levantar o rendimento; e para outras finalidades”, tradução livre. (DE-
NIS, Pierre. Droit de la securite sociale..., p. 9)

66
A proteção acidentária no contexto da evolução dos direitos de proteção social

a) a seguridade social deve proteger toda população da totalidade dos


riscos sociais;
b) as prestações devem ser fixadas em valor uniforme que corresponda ao
suprimento das necessidades vitais, sem prejuízo do complemento advindo dos
esforços de previdência;
c) o financiamento da seguridade social se dá pelos impostos, no que diz
respeito aos abonos de família e ao tratamento de saúde, e pelas contribuições
no que tange às demais prestações;
d) a gestão da seguridade social é confiada a um serviço público único,
sob autoridade do Ministério da Seguridade Social;
e) essas medidas deveriam ser complementadas por uma política de pleno
emprego e por uma política sanitária, sugerindo a criação de um serviço nacio-
nal de saúde, financiado pelos impostos de maneira a assegurar a gratuidade
do atendimento a toda população, seja pelo ângulo do tratamento, seja pelo
ângulo da prevenção31.

O conteúdo do relatório de Beveridge iria influenciar decisivamente a legis-


lação inglesa ao final da Segunda Guerra Mundial e vários projetos de reforma em
outros países. No continente europeu, porém, os legisladores não foram tão longe
na via da generalização da seguridade social e da uniformização das prestações.
Willian Henry Beveridge, em seu segundo relatório ao governo britânico de
1944, definia a seguridade social como o “conjunto de medidas adotadas pelo Estado
para proteger os cidadãos contra aqueles riscos que se concretizam individualmente
que jamais deixarão de configurar-se, por melhor que seja a situação do conjunto
da sociedade em que vivam”32. A principal preocupação do Relatório Beveridge
era garantir a cada indivíduo uma renda mínima básica abaixo da qual ninguém
poderia se encontrar.
Em tal definição, seguridade social constitui “prevenção e remédio de sinistros
que afetam o indivíduo enquanto membro da sociedade, os quais esta é incapaz de
evitar em sua primeira fase de risco” e, de outra perspectiva, “um mecanismo inter-
posto entre uma situação potencial sempre presente de risco e uma situação corrigível,
e quiçá evitável, de sinistro, arrecadando recursos que garantam o mecanismo”33.
A Segurança Social pode ser compreendida como “um sistema de protecção
social tendencialmente generalizante, por vezes universalizante, mesmo nos mo-

31 DENIS, Pierre. Droit de la securite sociale..., p. 11.


32 BEVERIDGE, Willian, Full Employment in a Free Society. London: George Allen and Unwin,
1944. p. 11.
33 OLEA, Manuel Alonso; José Luis Tortuero. Instituciones de Seguridad Social..., p. 19.

67
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

delos que tradicionalmente se baseiam na relação de trabalho ou no exercício de


actividade profissional para enquadrar as pessoas protegidas e definir os relativos
direitos sociais”34.
A expansão da seguridade social muito se deve, porém, às declarações e con-
venções internacionais, especialmente a Declaração da Filadélfia, de 10.05.1944, que
constituiu a nova carta da Organização Internacional do Trabalho, a Declaração
Universal dos Direitos do Homem de 10.12.1948, e as convenções e recomendações
da OIT, pessoa jurídica de Direito Público Internacional, de caráter permanente.
Dentre elas, merece destaque a Convenção de 102, de 28.06.1952, que dispôs a cha-
mada “Norma Mínima de Seguridade Social”, qualificada como uma das fontes de
maior influência na formação e desenvolvimento da seguridade social em muitos
países do mundo.
Em análise da evolução das técnicas de proteção social, pode-se afirmar que
após a segunda grande guerra os direitos positivos, de maneira progressiva, deixa-
ram as concepções antes empregadas e adotaram o sistema de seguridade social,
presidido pelas ideias de extensão do sistema de proteção35, emprego de técnicas
próprias de proteção social36 e de gestão pública das instituições37.
Uma noção mais ampla de universalização do direito de proteção social e
que implicaria mesmo o alargamento do conceito de proteção social pode levar
à outorga de direitos prestacionais de conteúdo patrimonial a qualquer cidadão,
independentemente de ele se encontrar em contingência de risco de perda ou re-
dução de renda (risco central dos modelos bismarckianos e beveridgianos). Nessa
concepção mais ampla, o acesso dos indivíduos a direitos sociais prestacionais de

34 NEVES, Ilídio das. Direito da segurança social: princípios fundamentais numa análise prospec-
tiva. Coimbra: Coimbra, 1996. p. 55.
35 O campo de atuação antes limitado a alguns trabalhadores assalariados é estendido a grande
número de pessoas, como os trabalhadores independentes e, em certa medida, à totalidade da
população. De outra parte, a cobertura é estendida a outras eventualidades não previstas ini-
cialmente.
36 As técnicas do direito comum cedem a técnicas originais, pelas quais (i) a indenização pelos
acidentes de trabalho deixa de ser posta como responsabilidade individual do empregador para
demandar um sistema de seguro obrigatório, (ii) a concepção salarial dos abonos familiares é
progressivamente abandonada, (iii) os seguros sociais se distanciam das regras tradicionais de
seguro, pelo que os mecanismos de repartição substituem-se geralmente ao sistema de capita-
lização e é corrigida a proporcionalidade entre a prestação e a renda profissional pela garantia
de um valor mínimo (DENIS, Pierre. Droit de la securite sociale..., p. 13).
37 Em razão das medidas pressuporem solidariedade, a Seguridade Social se afirma progressi-
vamente como serviço público, operando-se uma publicização das estruturas administrativas
(DENIS, Pierre. Droit de la securite sociale..., p. 13).

68
A proteção acidentária no contexto da evolução dos direitos de proteção social

conteúdo patrimonial independe da ocorrência de riscos, como a doença, o acidente,


o desemprego, a cessação de atividade em razão da idade. Trata-se de alternativa ao
capitalismo de welfare state, consistente na garantia incondicional a todos de uma
renda básica (a maior sustentável)38.

6. CONCLUSÃO
Há uma visão romântica segundo a qual os sistemas de proteção social se de-
senvolvem com o alcance de determinados estágios civilizatórios, constituindo-se
e aperfeiçoando-se desde uma consciência de coesão social, de reconhecimento
da importância de uma justiça na distribuição de bens, honras e posições sociais.
Como se procurou demonstrar no presente texto, porém, os direitos sociais
são o outro lado da moeda do surgimento do modelo capitalista e pressuposto do
desenvolvimento deste.
Decisivamente, o crescimento econômico e a acumulação de bens e capital
não trazem como consequência necessária providências relacionadas à instituição
de mecanismos sociais para a proteção dos mais vulneráveis, entre os quais se en-
contram, em uma dada medida, aqueles que dependem de sua força de trabalho
para subsistir.
Antes, é inevitável perceber as enormes complicações que o sistema capitalista
oferece para a sociedade, o impacto negativo que pode causar ao tecido social e, de
modo muito mais marcante, às pessoas que não possuem reservas para subsistir
independentemente de uma diuturna venda de sua força produtiva.
A proteção acidentária no universo ocidental surge não como ato de consciên-
cia ou generosidade daqueles que mais possuem, ou como um reconhecimento da
necessidade de proteção dos trabalhadores. As técnicas de proteção social mundo
afora surgem e são aprimoradas como uma condição para a coesão do tecido so-
cial, tudo de modo a permitir a continuidade de um modelo que se expressa, mais
positivamente, com a revolução industrial.
Toda a análise da história da proteção social, incluindo-se aqui a tutela dos
trabalhadores em face dos acidentes do trabalho, nos desperta a atenção para dois
pontos. Primeiro, a constante possibilidade de retrocessos, se isso se revelar conve-
niente a quem tem em suas mãos poder econômico ou político para tanto. Segundo,
a necessidade de se pensar as políticas sociais de proteção dos trabalhadores a partir

38 Da perspectiva da filosofia política, Philippe van Parijs é o marco teórico de tal proposta de pro-
teção social destinada a assegurar, como denomina, liberdade real para todos (PARIJS, Philippe
van. Real Freedom for All. Oxford: Claredon Press, 1995).

69
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

de uma noção de sociedade justa que se comprometa com a dignidade da pessoa


humana e, por conseguinte, com a diminuição da miséria e das desigualdades que
não se justificam desde uma perspectiva de justiça social que mescle, adequada-
mente, liberdade e igualdade.

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BEHRING, Elaine Rossetti; BOSCHETTI, Ivanete. Política Social: fundamentos e história.
São Paulo: Cortez, 2006. (Biblioteca básica de serviço social; v. 2.
BENTHAM, Jeremy. Writing on the poor laws. Oxford: Ed. Michael Quinnt, Clarendon
Press, 2001. v. 1
BEVERIDGE, Willian, Full Employment in a Free Society. London: George Allen and Unwin,
1944.
DENIS, Pierre. Droit de la securite sociale. 2. ed. Louvain: Précies de la Faculté de Droit de
l’Universite Catholique de Louvain, 1973.
OFFE, Claus; LENHARDT, Gero. Teoria do Estado e política social. In: OFFE, Claus; LE-
NHARDT, Gero. Problemas Estruturais do Estado Capitalista. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1984.
ESPING-ANDERSEN, Gosta. As três economias políticas do Welfare State. Trad. de Dinah
de Abreu Azevedo. Lua Nova – Revista de Cultura e Política, n, 24, p. 85-116, set. 1991.
FLICKINGER, Hans-Georg. A trajetória das políticas sociais na Alemanha. In: FLICKINGER,
Hans-Georg (Org.). Entre Caridade, Solidariedade e Cidadania: história comparativa
do serviço social Brasil / Alemanha. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000.
NEVES, Ilídio das. Direito da segurança social: princípios fundamentais numa análise pros-
pectiva. Coimbra: Coimbra, 1996.
OLANYI, Karl. A grande transformação: as origens da nossa época. Trad. Fanny Wrobel. 2.
ed., 14. reimp. Rio de Janeiro: Elsevier, 2000; BECK, Ulrich. Sociedade de risco: rumo
a outra modernidade. Trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: Ed. 34, 2010.
OLEA, Manuel Alonso; PLAZA, José Luis Tortuero. Instituciones de seguridad social. 17. ed.
Madrid: Civitas, 2000.
PARIJS, Philippe van. Refonder la solidarité. Paris: Les Éditions Du Cerf, 1999.
____________. Real Freedom for All. Oxford: Claredon Press, 1995.
RUSSOMANO, Mozart Victor. Curso de previdência social. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1983.
VENTURI, Augusto. Los fundamentos científicos de la seguridad social. Colección Seguridad
Social, Madrid, Ministerio de Trabajo y Seguridad Social, n. 12, 1994.

70
OS 100 ANOS DA PROTEÇÃO
AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

VALBer CrUZ CereZA1


GIsseLe CArrAro2

INTRODUÇÃO
O presente artigo tem por finalidade apresentar a efetividade da proteção ao
acidente de trabalho no Brasil, bem como discorrer a sua importância na sociedade
e sua função em reparar parcialmente o dano sofrido.
Neste momento se comemora(?) 100 anos de proteção ao acidente de trabalho
no Brasil, haja vista que a primeira legislação sobre o tema foi o Decreto 3.724, de
15 de janeiro de 1919.
O avanço e abrangência da proteção acidentária acompanha o desenvolvimento
histórico das relações industriais.

1 Advogado, sócio do escritório Real e Cereza Advogados, mestrando em políticas públicas pela
EMESCAM, especialista em Direito do Trabalho e Previdenciário, professor de Direito Previ-
denciário, Coordenador Regional e Estadual do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário,
coordenador da Comissão de Direito Previdenciário da 2ª Subseção da OAB/ES.
2 Atualmente atua como Docente do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Desen-
volvimento Local da Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia (EMESCAM),
Vitória, ES. Doutorado em Serviço Social pela PUCRS (2016). Pós-Doutora em Serviço Social,
PUCRS (2016-2019). Integra o Grupo de Estudos sobre Teoria Marxiana, Ensino e Politicas
Públicas ? GTEMPP-PUCRS. Principais temas de estudos: Famílias, Metodologia de Trabalho
com Famílias, Serviço Social (formação e trabalho profissional), Planejamento, Monitoramen-
to e Avaliação de Políticas Públicas, Política Pública de Assistência Social. Tem experiência na
área de Serviço Social, atuando principalmente em atividades de ensino (graduação e pós-gra-
duação stricto sensu − especialização), pesquisa e extensão (capacitações e assessorias) na área
da política pública de assistência social. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3143-9708
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Chama-se a reflexão neste momento a efetivação da proteção social acidentária


para preservar a ordem social e os objetivos da democracia.
Iniciaremos o artigo apresentando a evolução da proteção social acidentária,
bem como a necessidade de políticas públicas de prevenção a acidentes de trabalho
para manter a ordem democrática brasileira, não permitindo retrocesso social nas
alterações legislativas.
Em um Estado Democrático de Direito, a proteção social encontra sustentá-
culo no mínimo existencial, não permitindo que as classes menos favorecidas ficam
desamparadas e sem dignidade.
Posteriormente vamos abordar com gráficas a realidade brasileira e a norma-
tização internacional sobre a matéria.
Por fim, analisaremos a eficácia da proteção social, bem como a monetização
dos riscos em relação a saúde do trabalhador.

SURGIMENTO DA PROTEÇÃO SOCIAL ACIDENTÁRIA NO


BRASIL
A proteção social no brasil começou a ganhar destaque com a promulgação do
Decreto n° 9.912-A, de 26 de março de 1888, que regulou o direito à aposentadoria
dos empregados dos Correios. Fixava, tal decreto, em 30 anos de efetivo serviço e
idade mínima de 60 anos os requisitos para a aposentadoria.
Posteriormente, a Lei n° 3.724, de 15 de janeiro de 1919, tornou compulsório
o seguro contra acidentes do trabalho em certas atividades, sendo a primeira legis-
lação brasileira a trazer referida proteção social, sendo que antes do seu advento
tais questões eram solucionadas pelas regras vigentes do direito comum.
A legislação acidentária citada, traz em seu bojo, de forma autêntica e con-
temporânea, a teoria do risco empresarial, surgindo para o empregador o dever de
reparação em razão de este dispor de benefícios e lucros advindos das atividades
laborativas, sendo responsável por qualquer risco inerente seu empregado.
Até no momento não havia previsão de qualquer tipo de previdência ou de
seguridade social para tal finalidade, ficando o empregado a margem de qualquer
ressarcimento.
Inspirado pela pelo avanço da legislação em dar proteção social a determi-
nado risco social, Eloy de Miranda Chaves3, conhecimento como Eloy Chaves,

3 Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/El%C3%B3i_Chaves, acesso em 05/07/2019

72
Os 100 anos da proteção ao acidente de trabalho no brasil

proprietário rural e político brasileiro, foi o proponente da legislação precursora


da Previdência Social (Lei Eloy Chaves), percorrendo o território Nacional nos
transportes ferroviários, o que, possivelmente, observou situações alarmantes que
necessitava de amparo social.
O Decreto n° 4.682, de 24 de janeiro de 1923, Lei Eloy Chaves, determinou
a criação de uma Caixa de Aposentadoria e Pensões para os empregados de cada
empresa ferroviária. É considerada o ponto de partida, no Brasil, da Previdência
Social propriamente dita.
Veja-se que a Lei 3.724/1919, bem como o Decreto 4.684, retratam o cenário
político brasileiro pós primeira Guerra Mundial, visando dar proteção social àqueles
trabalhadores que estavam a margem da sociedade e sem qualquer tipo de reparação.
O objetivo da proteção social acidentária foi minimizar os efeitos do acidente
ao empregado e de seus familiares, permitindo que as empresas adotassem políticas
de prevenção a acidentes de trabalho.
A Constituição Federal de 1946 tornou obrigatório o seguro pelo empregador
contra acidentes de trabalho4.
Ainda na referida Constituição, previa no art. 191, §3º que “Serão integrais os
vencimentos da aposentadoria, quando o funcionário, se invalidar por acidente ocor-
rido no serviço, por moléstia profissional ou por doença grave contagiosa ou incurável
especificada em lei”.
Nota-se que a legislação brasileira sempre buscou deixar em sintonia o trinômio
saúde, trabalho e doença, buscando diálogo entre as ciências humanas e sociais para
amparar o trabalhador de forma que sua “dor” fosse amenizada com o pagamento
de indenização e implementação de políticas públicas adequadas.

A PROTEÇÃO SOCIAL ACIDENTÁRIA NO ESTADO


DEMOCRÁTICO DE DIREITO
O atual Estado Democrático Brasileiro foi instituído em 05 de outubro de 1988
pela Assembleia Nacional Constituinte, cuja instalação se deu em 1º de fevereiro
de 1987 por meio da Emenda Constitucional n. 26, com o objetivo de “assegurar
o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o
desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade

4 CF 1946 − Art 157 − A legislação do trabalho e a da previdência social obedecerão nos seguin-
tes preceitos, além de outros que visem a melhoria da condição dos trabalhadores: XVII − obri-
gatoriedade da instituição do seguro pelo empregador contra os acidentes do trabalho.

73
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida,


na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias”, conforme
preâmbulo que consta no texto constitucional.
A Constituição Federal de 1988 nasce como um resgate histórico de um passado
que anulou a democracia do País.
A primeira Constituição Federal Brasileira, em 1824, tinha a forma de governo
de Monarquia Hereditária, inexistindo, até então, a forma democrática, a qual se
idealiza na soberana vontade do povo.
O Brasil aderiu à democracia em 15 de novembro de 1889 com a proclamação
da República, até que em 1964 iniciou a Ditadura Militar.
A Carta Magna de 05 de outubro de 1988, assim denominada pela sua impor-
tância no sistema legislativo brasileiro, é fruto de um clamor latente da sociedade pelo
fim do Regime Militar ocorrido em 1985 com a posse de José Sarney a presidência da
república, onde, com 330 artigos, logo recebera os devidos méritos a corrente alcunha
de “Carta Cidadão” por Ulisses Guimarães, por estar comprometida com a defesa e
proteção da pessoa humana, com fundamento do Estado Democrático de Direito.
A Carta Cidadão, Constituição da República do Brasil de 1988, identifica-se
os fundamentos do Estado Democrático de Direito já em seu início no artigo 1º:

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos


Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático
de Direito e tem como fundamentos:
I − a soberania;
II − a cidadania
III − a dignidade da pessoa humana;
IV − os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V − o pluralismo político.
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de
representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.

A Constituição de 1988 elevou a dignidade da pessoa humana e o trabalho à


condição de princípio fundamentais do Estado brasileiro, primando pela preservação
da vida e das condições de trabalho, vejamos o texto constitucional:

Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que
visem à melhoria de sua condição social:
XXII − redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de
saúde, higiene e segurança;

74
Os 100 anos da proteção ao acidente de trabalho no brasil

XXVIII − seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregador, sem


excluir a indenização a que este está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa;

Curioso que o mesmo legislador que demonstrou a preocupação com a proteção


acidentária, dispõe que “Lei disciplinará a cobertura do risco de acidente do trabalho,
a ser atendida concorrentemente pelo regime geral de previdência social e pelo setor pri-
vado” (§10, art. 201, CF/88), e até o momento nenhuma lei foi editada nesse sentido.
Ainda veja-se a preocupação da Carta Magna no que se refere ao ambiente do
trabalho e a proteção social acidentária:

Art. 200. Ao sistema único de saúde compete, além de outras atribuições,


nos termos da lei:
II − executar as ações de vigilância sanitária e epidemiológica, bem como
as de saúde do trabalhador;
VIII − colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do
trabalho.
Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado,
bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se
ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as
presentes e futuras gerações.

Assim, a Consolidação das Leis Trabalhistas, CLT, no art. 157, dispõe que
cabe às empresas:

I − cumprir e fazer cumprir as normas de segurança e medicina do trabalho;


II − instruir os empregados, através de ordens de serviço, quanto às
precauções a tomar no sentido de evitar acidentes do trabalho ou doenças
ocupacionais;
III − adotar as medidas que lhes sejam determinadas pelo órgão regional
competente; (...).

No Estado Democrático de Direito adota-se a teoria do risco mínimo para o


trabalhador, sendo necessária a proteção social de forma bem ajustada no caráter
trabalhista e previdenciário.

ALGUNS ASPECTOS DE CONVENÇÕES INTERNACIONAIS


RATIFICADAS PELO BRASIL
A Organização Internacional do Trabalho, OIT, foi instituída como uma agência
da Liga das Nações Unidas após a assinatura do Tratado de Versalhes (1919), que

75
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

deu fim à Primeira Guerra Mundial. A sua Constituição corresponde à Parte XIII
do Tratado de Versalhes5,
No que se refere a criação da OIT6:
Fundada em 1919 como parte do Tratado de Versalhes, que pôs fim à
Primeira Guerra Mundial, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) tem
como objetivo promover a justiça social. Ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em
1969, a OIT é a única agência das Nações Unidas que tem estrutura tripartite,
na qual representantes de governos, de organizações de empregadores e de
trabalhadores de 183 Estados-membros participam em situação de igualdade
das diversas instâncias da Organização.
A OIT é responsável pela formulação e aplicação das normas internacionais
do trabalho (Convenções e Recomendações) As Convenções, uma vez ratificadas
por decisão soberana de um país, passam a fazer parte de seu ordenamento
jurídico. O Brasil está entre os membros fundadores da OIT e participa da
Conferência Internacional do Trabalho desde sua primeira reunião.

Como mencionado na Constituição da OIT “...Se alguma nação não adotar con-
dições humanas de trabalho, esta omissão constitui um obstáculo aos esforços de outras
nações que desejem melhorar as condições dos trabalhadores em seus próprios países”.
No contexto social de criação da OIT, destaca-se a precariedade das relações
de trabalho, o que foi potencializado com a Primeira Guerra Mundial, exigindo
proteção social a esses trabalhadores.
As lutas sociais marcaram o desenvolvimento da proteção acidentária, pas-
sando, em 1923, mesmo que de forma tímida, a ter um amparo com o surgimento
da Previdência Social no Brasil.
As Normas Internacionais de Direito do Trabalho e Previdenciário visam ga-
rantir proteção social a esta classe que está sujeita a condições precárias de trabalho
e exposto ao perigo diário.
A convenção 155 da OIT, promulgada pelo Decreto 1.254/1994, dispõe que:
Artigo 4
1. Todo Membro deverá, em consulta às organizações mais representativas
de empregadores e de trabalhadores, e levando em conta as condições e a
prática nacionais, formular, por em prática e reexaminar periodicamente uma
política nacional coerente em matéria de segurança e saúde dos trabalhadores
e o meio ambiente de trabalho.

5 https://pt.wikipedia.org/wiki/Organiza%C3%A7%C3%A3o_Internacional_do_Trabalho, aces-
so em 05/07/2019
6 https://www.ilo.org/brasilia/conheca-a-oit/hist%C3%B3ria/lang--pt/index.htm, acesso em
05/07/2019

76
Os 100 anos da proteção ao acidente de trabalho no brasil

2. Essa política terá como objetivo prevenir os acidentes e os danos à saúde


que forem conseqüência do trabalho, tenham relação com a atividade de trabalho,
ou se apresentarem durante o trabalho, reduzindo ao mínimo, na medida que for
razoável e possível, as causas dos riscos inerentes ao meio ambiente de trabalho.

Artigo 14
Medidas deverão ser adotadas no sentido de promover, de maneira conforme
à pratica e às condições nacionais, a inclusão das questões de segurança, higiene
e meio ambiente de trabalho em todos os níveis de ensino e de treinamento,
incluídos aqueles do ensino superior, técnico, médico e profissional, com o
objetivo de satisfazer as necessidades de treinamento de todos os trabalhadores.

Assim, em cumprimento a Norma Internacional, em 07/11/2011, foi editada a Lei


7.602 que dispõe sobre a Política Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho − PNSST.
Segundo as estatísticas da OIT, hoje, 4 bilhões de pessoas no mundo carecem
de proteção social. Apenas 29% da população mundial tem cobertura de segurança
social adequada e 55% não tem cobertura alguma7.

EFICÁCIA(?) DA PROTEÇÃO SOCIAL ACIDENTÁRIA


Conforme exposto no tópico anterior, o objetivo da proteção acidentária sempre
foi contribuir para amenizar os efeitos dos danos ao trabalhador.
Abaixo um gráfico dos acidentes de trabalho registrados nos anos de 2007 a 20118:

7 Disponível em https://www.ilo.org/100/en/story/protection. Acesso em 05/07/2019


8 http://www.tst.jus.br/web/trabalhoseguro/dados-nacionais, acesso em 05/07/2019

77
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Conforme quadro apresentado, o número total de acidentes de trabalho


registrados no Brasil aumentou de 709.474 casos em 2010 para 711.164 em 2011.
Em análise Macrorregional, o site do TST divulgou os seguintes dados:

Conforme exposto no site de busca do referido gráfico “Analisando isolada-


mente os Estados, apresentaram aumento no número de acidentes de trabalho somente
estados das regiões Norte e Nordeste: Rondônia (de 5.101 em 2009 para 5.280 em
2010), Maranhão (de 5.957 em 2009 para 5.969 em 2010), Piauí (de 3.118 em 2009
para 3.226) Paraíba (de 4.914 em 2009 para 4.957 em 2010), Pernambuco (18.629 em
2009 para 19.936 em 2010), Alagoas (9.065 em 2009 para 9.185 em 2010)”.
O site oficial da Previdência Social9 apresenta uma diminuição dos acidentes
de trabalho nos últimos anos, vejamos:

9 http://sa.previdencia.gov.br/site/2018/09/Apresentacao-AEAT-2017-Alexandre-Zioli.pdf,
acesso em 05/07/2019

78
Os 100 anos da proteção ao acidente de trabalho no brasil

Ainda relata que “A queda registrada pela publicação segue a tendência de diminui-
ção dos últimos dez anos. No período de 2008 a 2017, a taxa de incidência de acidentes de
trabalho no país caiu de 22,98 para 13,74 acidentes a cada mil vínculos empregatícios”10.
Observa-se que no período de diminuição dos acidentes de trabalho, o Brasil
enfrentou uma das maiores crises de desemprego, o que certamente influenciou
nos números. Aliás, menos trabalhadores, consequentemente, menos acidente de
trabalho.
Vejamos o censo do desemprego divulgado pelo IBGE11:

Veja-se a conclusão do gráfico:

De 2014 para 2017, foram quase 6,5 milhões de desempregados a mais, um


crescimento de 96,2%, chegando a 13,2 milhões de pessoas. O Coordenador
de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azeredo, explicou que, nesses três
anos, o país perdeu muitos postos de trabalho, sobretudo formalizados. “O
número de trabalhadores com carteira assinada, que já chegou a 36,6 milhões
em 2014, agora ficou em 33,3 milhões. Em três anos, perdemos 3,3 milhões
de postos de trabalho com carteira”. Já em relação a 2016, a queda no número
de trabalhadores com carteira foi de quase um milhão de pessoas.

10 http://www.previdencia.gov.br/2018/09/acidentes-de-trabalho-apresentam-queda-de-
-62-em-2017/, acesso em 05/07/2019
11 https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/
19759-desemprego-recua-em-dezembro-mas-taxa-media-do-ano-e-a-maior-desde-2012,
acesso em 05/07/2019

79
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Só de 2016 para 2017, o número de trabalhadores sem carteira de traba-


lho no setor privado cresceu 5,5%, o que representa 560 mil trabalhadores.
Em relação a 2014, o aumento médio foi de 3,2%, ou 330 mil pessoas. Já o
número de trabalhadores por conta-própria cresceu 0,7% no último ano, um
contingente de 159 mil pessoas. Em três anos, o aumento foi de 6,5% ou 1,3
milhão de trabalhadores nesta categoria.

Assim, não se pode “comemorar” a diminuição de acidente de trabalho, sem


comparar o índice do fluxo empregatício.

MONETIZAÇÃO DOS RISCOS NO AMBIENTE DE TRABALHO


Para amenizar o impacto do acidente de trabalho na vida do trabalhador, ao
longo da trajetória legislativa, o dano foi monetizado, ou seja, foi atribuído valor
de compensação.
Ressalta-se que essa monetização é característica da sociedade capitalista desde
o início da industrialização século XX, como sistema de troca. O trabalhador entrega
a saúde ao meio produtivo em troca de uma remuneração.
Essa linha capitalista de troca da saúde pela remuneração, deu origem aos
adicionais trabalhistas como: periculosidade, insalubridade, adicional noturno,
sob o principal argumento que auferindo maior rendimento, o trabalhador irá se
alimentar melhor e, consequentemente, maior resistência e defesa do organismo,
proporcionando uma maior entrega no ambiente de trabalho.
Os adicionais referidos tem o condão de compensar o trabalhador pelo desgaste,
ao ponto que, em retrato ao quadro social nacional, crise de desemprego, inflação e
economia instável, o trabalhador prefere se manter no local insalubre e ganhando
20, 30 ou 40% sobre o salário mínimo, do que optar por mais qualidade de vida e
abrir mão de tal adicional.
Recentemente com a reforma trabalhista, Lei 13.367/2017, grandes alterações
foram introduzidas dentro do aspecto da monetização dos riscos.
Uma das principais alteração foi a possibilidade da mulher gestante ficar
exposto a trabalhos insalubres, com afastamento apenas diante de apresentação de
atestado médico, um retrocesso social para a trabalhadora, o que foi sabiamente
invalidado pelo STF12, conforme resumo abaixo:

12 http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=412571, acesso em
05/07/2019

80
Os 100 anos da proteção ao acidente de trabalho no brasil

O Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), por maioria de votos, julgou


procedente a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5938 para declarar
inconstitucionais trechos de dispositivos da Consolidação das Leis do Trabalho
(CLT) inseridos pela Reforma Trabalhista (Lei 13.467/2017) que admitiam a
possibilidade de trabalhadoras grávidas e lactantes desempenharem ativida-
des insalubres em algumas hipóteses. Para a corrente majoritária, a expressão
“quando apresentar atestado de saúde, emitido por médico de confiança da
mulher”, contida nos incisos II e III do artigo 394-A da CLT, afronta a proteção
constitucional à maternidade e à criança.

Outra situação que prejudica o ambiente de trabalho, é a possibilidade de


negociar o enquadramento do grau de insalubridade, abrindo de estudo técnico de
impacto na saúde do trabalhador (art. 611-A, XII, CLT)13.
Ainda, no aspecto previdenciário, temos a aposentadoria especial e o auxílio-
-acidente como formas de compensar o trabalhador pelos danos.
A aposentadoria especial é devida pela exposição a agentes químicos, físicos
ou biológicos, com a intenção do legislador de retirar do mercado de trabalho esse
trabalhador, em razão de sua diminuição da capacidade somada a possibilidade de
ter um prejuízo a sua saúde em razão da exposição14.
O auxílio-acidente, conforme art. 86 da Lei 8.213/91, “será concedido, como
indenização, ao segurado quando, após consolidação das lesões decorrentes de acidente
de qualquer natureza, resultarem sequelas que impliquem redução da capacidade
para o trabalho que habitualmente exercia” e “corresponderá a cinquenta por cento
do salário-de-benefício”.
Nesta esteira, o trabalhador escolhe exercer atividade penosa ou insalubre no
ilusório incentivo salarial, haja vista a agressão direta na saúde.
A realidade brasileira tem se demonstrado, pelos gráficos apresentados e
pelos aspectos sociais vividos, ineficiente em relação as políticas públicas, o que se
justifica pelo modo de produção capitalista, em que a competitividade impõe nova
modalidade de gestão com mais agressividade a saúde do trabalhador.

13 CLT, Art. 611-A. A convenção coletiva e o acordo coletivo de trabalho têm prevalência sobre a
lei quando, entre outros, dispuserem sobre: XII − enquadramento do grau de insalubridade;
14 Lei 8.213, Art. 57. A aposentadoria especial será devida, uma vez cumprida a carência exigida
nesta Lei, ao segurado que tiver trabalhado sujeito a condições especiais que prejudiquem a
saúde ou a integridade física, durante 15 (quinze), 20 (vinte) ou 25 (vinte e cinco) anos, confor-
me dispuser a lei.
§ 3º A concessão da aposentadoria especial dependerá de comprovação pelo segurado, perante
o Instituto Nacional do Seguro Social–INSS, do tempo de trabalho permanente, não ocasional
nem intermitente, em condições especiais que prejudiquem a saúde ou a integridade física,
durante o período mínimo fixado.

81
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

CONCLUSÃO
As transformações ocorridas na produção capitalista, em especial a partir de
1970, deram novos contornos as relações de trabalho.
Observa-se que a proteção social acidentária, nos 100 anos de existência, ainda se
mostra frágil, pois trabalhadores trocam a qualidade de vida por adicionais que acres-
cem a remuneração que, ao logo da trajetória, sentirão a agressividade em sua saúde.
Ainda a competitividade das empresas permite que trabalhadores sejam
exigidos para uma maior produção, gerando doenças psíquicas que assombram
nosso século.
Desta forma, o Brasil avançou na proteção social acidentária trabalhista até o
momento da edição da Reforma Trabalhista, que transformou o ambiente de tra-
balho em mesa de negociação, como um verdadeiro retrocesso social e, no aspecto
previdenciário, presencia-se a crise em razão de elevação nos benefício acidentários,
bem como o índice de pensões concedidas em razão de falecimento de trabalhador
pelo risco da atividade e, muitas vezes, sem o Equipamento de Proteção Individual
ou Coletivo devido.
Proteção Social é Direito Humano, como dispõe a Declaração Universal dos
Direitos Humanos, Artigo 25 (1):

“Toda pessoa tem direito a um padrão de vida adequado à saúde e ao bem-


-estar de si mesmo e de sua família, incluindo alimentação, vestuário, moradia
e assistência médica e serviços sociais necessários, além do direito à segurança
em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outras formas
de subsistência em circunstâncias fora de seu controle. ”

Ainda tem muito que aperfeiçoar no que se refere a proteção social dos tra-
balhadores. Destaca-se que as constantes reformas no cenário político brasileiro,
não pode configurar retrocesso social, sob pena de impactar de forma negativa as
políticas públicas locais, em especial saúde e Assistência Social, mas não se pode
negar o avanço legislativo nesses 100 anos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Planalto. Disponível em: <https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1910-1919/
decreto-3724-15-janeiro-1919-571001-publicacaooriginal-94096-pl.html> Acesso em:
05 de julho de 2019
BRASIL. Organização Internacional do Trabalho. Disponível em: <https://www.ilo.org/100/
en/story/protection> Acesso em: 05 de julho de 2019

82
Os 100 anos da proteção ao acidente de trabalho no brasil

OLIVEIRA, Sebastião Geraldo. Proteção jurídica à saúde do trabalhador. 6. ed. rev. São
Paulo: LTR, 2011.
BRASIL. Eloi Chaves. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/El%C3%B3i_Chaves>
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BRASIL. Agência de Notícias. Disponível em: <https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-
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-mas-taxa-media-do-ano-e-a-maior-desde-2012> Acesso em: 05 de julho de 2019
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/cms/
verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=412571> Acesso em: 05 de julho de 2019

83
ACIDENTE DO TRABALHO:
RISCO SOCIAL OU INCERTEZA

WAGNER BALERA1
FÁBIO LOPES VILELA BERBEL2

I. INTRODUÇÃO, OBJETIVO E METODOLOGIA


A investigação teórica encontra dificuldades quando se pretende conectar com
a realidade, na medida em que a teoria científica se limita a poucos aspectos do
sistema real. É por essa razão que o cientista, ao contrário do prático, não maneja
perfeitamente os sistemas reais, criando apenas idealizações dos mesmos. A con-
jectura não retrata o real, ou o acontecimento, limitando-se a construções lógicas
que utilizam elementos conceituais, hipóteses e relações lógicas paralelas à realidade
que se deseja representar.
O investigador dos sistemas reais e o teorizador devem recorrer à utilização
de modelos se desejam obter uma representação aproximada de certos aspectos
fenomênicos. Popper já dizia que toda tomada de decisões se realiza a partir de
modelos, pois as teorias científicas tratam de modelos ideais que supõe representar
certos aspectos dos sistemas reais.
O conceito e a utilização de modelos estão generalizados em todos os âmbitos
do conhecimento, contudo onde esse método adquire uma inapreciável utilização é
nas ciências sociais, nas quais o plano da experiência tem limitada aplicação.
Seguindo esse dogma, desenvolvemos, com o auxílio de diversas gerações de
alunos e colaboradores, no âmbito dos cursos de doutorado e mestrado em direito

1 Professor Titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.


2 Doutor em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

previdenciário da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP modelo


para a compreensão da relação jurídica de proteção previdenciária, que vincula em
torno de prestações (benefícios e serviços) segurados, dependentes e a entidade
responsável pela gestão da previdência social.
Esse modelo, conjecturado, criticado e testado, será novamente utilizado
para uma nova empreitada: a identificação do acidente do trabalho no modelo de
proteção social vigente.
Na primeira parte do estudo, em conformidade com o tópico relativo à efemé-
ride do centenário da lei que por primeiro cuidou de um tema de cunho previden-
ciário, registraremos a historiografia, sem maior abordagem crítica.
De seguida, pretendemos definir o conceito de risco social, sobretudo para
verificarmos se se mostra aderente à definição do conceito de acidente do traba-
lho. Essa missão se justifica na intuição, porque não raros são as conjecturas que
atribuem ao acidente do trabalho a qualidade de core da proteção previdenciária
social.
Na sequência, pretendemos investigar o instituto da carência. A ideia é com-
preendê-lo a partir da regra matriz de incidência desenhada por Geraldo Ataliba
3
, e integrada ao longo dos anos no modelo de aferição da relação jurídica de pre-
vidência social. O saldo será outra conclusão: se o acidente do trabalho interessa a
esse aspecto, ou se realmente é o objeto central da proteção previdenciária.
Dada a característica desse estudo, não pretendemos exaurir o tema, tampouco
aceitar que o acidente do trabalho não poderia ser aferido por outro método ou
hermenêutica. A intenção é meramente introdutória; inserir uma dúvida sobre um
assunto que parecia consolidado na doutrina brasileira.

II. NOTÍCIA HISTÓRICA


As obrigações resultantes de acidentes do trabalho foram reguladas, de início,
pela Lei n. 3.724 de 15 de janeiro de 1919, representando o primeiro diploma de
caráter especificamente social em trinta anos de regime republicano 4.
Com efeito, até a promulgação da referida lei, a responsabilidade por acidentes
do trabalho era regida pela legislação civil da época, lembrando-se que o Código
Civil vigorava desde 1o de janeiro de 1917.

3 GERALDO ATALIBA. Hipótese de incidência tributária. 5. ed. São Paulo: Malheiros. 1995, p.
61 e seguintes
4 Francisco Alexandre, Estudos de Legislação Social. Rio de Janeiro, 1930, p. 113.

86
Acidente do trabalho: risco social ou incerteza

O caminho percorrido para o abandono da teoria aquiliana, baseada na culpa


como forma de indenização de acidentes sofridos pelo empregado, foi tortuoso.
O operário está frequentemente sujeito ao poder lesivo dos meios de produção.
Nesse contexto, assim como faltava indenização pela culpa do operário, baseada
na culpa do patrão era ínfima porque difícil a apuração da responsabilidade de um
ou do outro na causa do acidente5.
Verifica-se, pois, a dificuldade do modelo aquiliano, pautado exclusivamente
pelas instituições de direito civil, que fazia recair sobre o operário a prova da res-
ponsabilidade do patrão na ocorrência do infortúnio.
Por força dos entraves da responsabilidade subjetiva, que impunha ao traba-
lhador o ônus de provar o dano e a culpa patronal, divisou-se uma segunda solução:
a da responsabilidade contratual. Semelhante à primeira, por calcar-se na culpa do
empregador, divergia daquela ao inverter o ônus da prova, deixando o empregado
de ter que comprovar a responsabilidade do patrão pelo acidente.

O patrão, para se exonerar da responsabilidade, é que deveria comprovar


que não agira culposamente. Em outras palavras, havia uma presunção juris
tantum de que o empregador era culpado ante a ocorrência acidentária, visto
que era sua obrigação zelar pela integridade de seus trabalhadores e mantê-los,
durante toda a atividade laboral e até o fim do contrato, em idênticas condições
de validez....6

A sistemática regida pelo Código Civil foi modificada e, a partir desse momento,
surge o direito infortunístico, baseado no conceito de risco profissional que fora
delineado pela Lei 3.724, de 1919. Desde aquele momento, por responsabilidade
objetiva, o empregador deveria ressarcir os danos sofridos pelo empregado em razão
do contrato de trabalho e do risco da relação de trabalho.
Com tal configuração o acidente do trabalho começou a ser identificado como
risco inerente à profissão, com despesas lançadas na conta do empregador, que pa-
gava os trabalhadores de conformidade com suas conveniências, guardando para si
as probabilidades de lucro. Como natural desdobramento do negócio e, portanto,
do risco que o negócio gera, deveria reparar acidentes do trabalho, lançando em
despesas gerais a conta que decorresse de tal risco.
Posta a questão nesses termos:

5 Oswaldo Opitz e Silvia Opítz. Acidentes do Trabalho. São Paulo: Editora Saraiva, 1977, p. 11.
6 Tupinambá Miguel Castro do Nascimento, Curso de Direito Infortunístico, 2ª. edição. Porto Ale-
gre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1983, p. 14.

87
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

.... através da responsabilidade objetiva, não mais se examinava a culpa


de quem quer que fosse 7.

Aliás, melhor dizendo:

Falar-se em culpa, na infortunística do trabalho, atualmente, é uma heresia.8

Naquele diploma assim se definia o acidente do trabalho:

Art. 1o
...
a) o produzido por uma causa súbita, violenta, externa e involuntária no
exercício do trabalho, determinando lesões corporais ou perturbações funcionais,
que constituam a causa única da morte ou perda total ou parcial, permanente
ou temporária, da capacidade para o trabalho;
b) a moléstia contraída exclusivamente pelo exercício do trabalho, quando
este for de natureza a só por si causá-la, e desde que determine a morte do
operário, ou perda total, ou parcial, permanente ou temporária, da capacidade
para o trabalho.

O dever de indenização, se as hipóteses previstas no dispositivo anterior fossem


verificadas, assim se explicitava:

Art. 2º O acidente, nas condições do artigo anterior, quando ocorrido pelo


fato do trabalho ou durante este, obriga o patrão a pagar indenização ao ope-
rário ou à sua família, excetuados apenas os casos de força maior ou dolo da
própria vítima ou de estranhos.

O direito à reparação acidentária era decorrência do fato do trabalho e, por-


tanto, identificado como risco profissional.
Alterações normativas ocorridas em nossa ordem legal após o Decreto Legisla-
tivo n. 3.724, de 1919, seguiram encampando, até 1967, a teoria do risco profissional.
A primeira dessas alterações fora veiculada por intermédio do Decreto-lei n.
24.637, de 1934, enquanto a segunda decorreu do Decreto-lei n. 7.036, de 1944.
O primeiro desses Diplomas cuidou de ampliar o conceito de operário nos
termos do seu artigo 3o, bem como de criar o mecanismo do “auto-seguro”, fundo
a ser mantido pelo empregador, nos moldes especificados em lei.

7 Nascimento, citado., p. 15.


8 Opitz, citado, p. 11.

88
Acidente do trabalho: risco social ou incerteza

O sistema do auto-seguro, mantido no Decreto-lei n. 7.036, de 10 de novembro


de 1944, é apontado pela doutrina como aperfeiçoamento do sistema9.
A partir de 1967, o seguro de acidentes do trabalho ingressa em novo ciclo
histórico. É que, com a promulgação da Lei 5.316, de setembro daquele ano, o SAT
passa a fazer parte do regime geral de previdência social (RGPS). Assim explica essa
inovação um dos maiores especialistas no assunto:

A integração na previdência social deveu-se a duas circunstâncias de relevo


e que exigiam imediata modificação. Necessidade da reparação acidentária
ser na forma de prestações mensais reajustáveis, que o empregador não tinha
condições de enfrentar (...). Ademais, possibilitou-se a prestação de reabilitação
profissional, que o empregador não tinha condições de assegurar e não vinha
prestando, possibilitando o aumento de inválidos do país 10.

A norma em comento configurou a proteção social acidentária aos moldes


previdenciários, mediante concessão de prestações mensais, concedidas pelo órgão
gestor do RGPS, o INPS, substituindo a indenização que, até então, era devida − em
pagamento único − pelo empregador.
Tal sistemática aproximou o SAT do risco social. Neste, determinadas con-
tingências, previstas em lei, geram o pagamento de benefício tanto que concreti-
zadas. No seguro social, em contraste com o modelo da culpa aquiliana − adotada
inicialmente para os acidentes do trabalho − a causalidade é irrelevante para que
o beneficiário faça jus às prestações devidas quando e se a contingência vier a se
concretizar.
Sublinhe-se que o diploma em comento dispunha a respeito de três benefícios
assemelhados aos da previdência social que eram: a] auxílio-doença; b] aposenta-
doria por invalidez e; c] pensão por morte. Tais benefícios, porém, tinham valores
melhores quando comparados com aqueles previstos na LOPS, de 1960. Ademais,
a lei acidentária concedia outro benefício de prestação continuada, o auxilio-

9 “Em 1944, com o Decreto-lei n. 7.036, aperfeiçoa-se um sistema que dá segurança a um aciden-
tado no sentido de se ter de quem cobrar a indenização. Por quê? Porque a lei determina ao pa-
trão que faça seguro numa companhia seguradora. Não com qualquer companhia seguradoa,
mas com companhias seguradoras autorizadas a operar no ramo de seguros contra acidentes
do trabalho. Essas seguradoras já vinham há muitos anos trabalhando nisso, pois desde 1934
se preparava o sistema. É claro que, se o empregador não tivesse o seguro, responderia direta-
mento, mas a fiscalização do trabalho era acionada para verificar a existência do contrato de
seguros preventivamente. Já não se tratava de auto-seguro” Anibal Fernandes, Comentários à
Consolidação das Leis da Previdência Social. São Paulo Atlas, 1987, p. 186.
10 Nascimento, citado, p. 16.

89
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

-acidente, sempre que ocorresse a redução permanente da capacidade de trabalho


do acidentado e, ainda, o benefício de pagamento único denominado pecúlio, em
caso de invalidez ou de morte.
Conquanto as prestações revestissem a natureza previdenciária, o respectivo
estudo revelava a intensidade maior da proteção social do acidente do trabalho. É
que, como assinala TUPINAMBÁ MIGUEL CASTRO NASCIMENTO:

Primeiro, na lei acidentária, a reparação é mais ampla. Assim as reduções


de capacidade que, após a consolidação das lesões, não impedem a volta ao
trabalho, dão direito a benefícios de prestação continuada específicos: auxílio-
-suplementar e auxílio-acidente. (...) Segundo, os benefícios acidentários são
em maior valor pecuniário, normalmente representando uma manutenção
salarial, enquanto nos simplesmente previdenciários o valor é inferior, porque
percentuais de uma média de salário-de-contribuição, denominada de salário-
-de-benefício.11

Com a promulgação da Lei n. 6.367, de 197612, foi mantida a noção de risco


social que a lei anterior albergara.

III. RISCO E SEGURIDADE


A palavra risco está associada à possibilidade de sucessão de acontecimentos
infortunados que ocasionam perdas. A seguridade, pelo oposto, identifica-se com
a situação de cobertura de risco, ou seja, de prevenção das perdas ou remediação
dos sinistros. Ambos são os extremos entre os quais se movem as decisões dos
indivíduos no curso da respectiva existência.
A amplitude e gravidade dos riscos levaram as sociedades a se organizarem
para reduzir a distância existente entre os indivíduos na proteção. O progresso das
técnicas permitiu a combinação da prevenção dos riscos com certo grau de segu-
ridade. Quase todos os riscos são suscetíveis de seguridade, seja através dos meios
privados, seja pela via das estruturas estatais.
Na noção de risco está implícita a incerteza acerca do sucesso possível. Tal
incerteza pode referir-se ao acontecimento do evento (evento), ou se limitar ao
tempo-espaço do fato (morte). A manifestação do risco, contudo, ocasiona com

11 Op. loc. cit., pp. 18/19.


12 Os trabalhadores rurais eram regidos pela Lei 6.195/74, possuindo proteção inferior em relação
aos trabalhadores urbanos até o advento da Constituição Federal de 1988, que conferiu o mes-
mo tratamento às duas categorias nos termos do artigo 194, parágrafo único, II.

90
Acidente do trabalho: risco social ou incerteza

frequência uma perda econômica traduzida na falta de meios para cobrir as neces-
sidades mínimas da dignidade.
Paul Durand classifica os riscos em cinco espécies: i) provenientes do meio
físico, ii) procedentes do meio social, iii) derivados dos grupos familiares, iv) fi-
siológicos, v) profissionais. A primeira espécie depende dos fenômenos naturais:
geológicos ou meteorológicos. O segundo grupo decorre do ambiente social: das
guerras, das alterações de regimes políticos, da aplicação de uma nova norma jurí-
dica, da desigualdade das condições sociais, etc13.
Os riscos derivados dos grupos familiares encetam a elevação do custo familiar
e a consequente diminuição do padrão econômico. A invalidez como o nascimen-
to podem se caracterizarem em causas desse risco. A invalidez do arrimo causa a
diminuição dos rendimentos e o desequilíbrio econômico. O nascimento de novo
membro impõe a elevação dos custos familiares e a necessidade de elevação de
rendimentos à manutenção do molde financeiro.
Os riscos fisiológicos, para Durand, afetam diretamente o indivíduo, reduzindo
ou extinguindo sua capacidade de obter rendimentos. Os riscos da vida profissional
relacionam-se com a conjuntura laboral, compreendendo as inseguranças do contra-
to bem como as lesões corporais proveniente da atividade desenvolvida no trabalho.
Donati também classifica os riscos, atentando para critérios diversos dos
selecionados por Durand. A classificação proposta compreende os riscos através
de quatro enfoques: i) causa; ii) efeito; iii) forma de manifestação; iv) processo de
produção. Quanto a causa, os riscos podem derivar de eventos naturais, materiais
ou humanos (voluntário ou involuntário)14.
No âmbito do efeito, Donati observa riscos suscetíveis de reiteração (incên-
dio), os de efeitos múltiplos e difusos (catástrofes) e os que se esgotam em um ato
(morte). Sob a percepção da forma, os riscos podem se consistir numa ação (situa-
ção preexistente) ou em uma omissão (ausência de modificação). Com respeito ao
processo de produção do risco, o evento pode ocorrer instantaneamente ou num
período de tempo.
A validade dessas classificações é limitada ao método de identificação das
espécies. Nenhuma, porém, está ajustada ao interesse deste estudo, pelo que me
trabalharei com classificação específica. A identificação não age sobre a estrutura
do risco (R = p x D), mas tão-somente sobre o aspecto que o adjetiva, isto é: o dano.

13 DURAND, Paul. La Política Contemporánea de La Seguridad Social. Madrid: Ministerio de


Trabajo y Seguridad Social. 1991, p. 57 e 58.
14 DONATI, Antonio. Los Seguros Privados. Barcelona: Bosch. 1960, p. 45.

91
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Os riscos, aqui, estão classificados em sociais e privados, não no sentido de


obrigatórios e facultativos, mas na conotação de relevância. Os riscos que importam
efeitos, diretos ou tangenciais, à sociedade são identificados como sociais, enquanto
aqueles que encetam consequências meramente individuais são classificados como
riscos privados.
Essa classificação se detém sobre o risco em si, deixando de lado a relação
de proteção (securitária, previdenciária, assistencial, etc.) e os sujeitos posicio-
nados.

a.  Risco Social


Os seguros sociais foram introduzidos através de sociedades de ajuda mútua;
passando, posteriormente, a serem subvencionados e convertidos em obrigatórios
e estatutários, na medida em que se centravam em riscos perfeitamente definidos.
De fato, para os trabalhadores assalariados, as situações de invalidez, desemprego
ou velhice significavam automaticamente a perda da sua única fonte de renda,
criando, por extensão, uma situação de necessidade econômica quando não a
miserabilidade.
A necessidade é presumida; aferida por meio da constatação do risco. A subs-
tituição da necessidade pelo risco alterou a perspectiva acerca do tempo. Tal como
argumentou Alfandari, o risco se orienta através de um acontecimento incerto e
futuro, de maneira que os seguros baseados no risco não se centram numa neces-
sidade presente, mas em uma possibilidade. O risco (R) coberto por um seguro
combina duas variáveis: a probabilidade (p) e o dano (D)15.
O dano (D) é instrumento eficaz à diferenciação de risco social. O dano se
compõe de três fatores: i) valor; ii) tempo; iii) espaço. O valor se refere à quantida-
de econômica perdida. O tempo relacionado com o custo do dano, vincula valor à
temporariedade da contingência. Quando mais tempo durar a contingência, maior
será o valor do dano.
Os efeitos dos danos cobertos pela Seguridade Social não se limitam à pes-
soa atingida. Os danos são reflexivos a terceiros com os quais o principal afetado
interage direta ou indiretamente. O terceiro fato, enfocado na reflexão do dano, é
o que caracteriza o risco como social, vinculando-o à Seguridade Social. O reflexo
do dano é a razão pela qual alguns riscos são obrigatoriamente cobertos pela Se-

15 ALFANDARI, Elie. L´Évolution de la Notion de Risque Social: les Rapports de L´Économi-


que et du social, in Revue Internationele de Droit Économique n. 1. 1997, p. 22

92
Acidente do trabalho: risco social ou incerteza

guridade Social, caracterizando-se como riscos sociais. Esses riscos “... de los que
la comunidad se hace cargo ... ”16 justificam a ação social na proteção dos danos
aparentemente individuais.
Assim, ainda que o objetivo do sistema de Seguridade Social seja cobrir a ne-
cessidade, a forma estrutural pela qual a necessidade econômica pode ser associada
com determinados riscos é o dado permissivo de compreensão dos riscos como fun-
damento de redistribuição. Em qualquer caso, os sistemas de Seguridade Social não
cobrem todos os riscos, mas, apenas, aqueles cujos danos reflexos ensejam controle
mediante políticas determinadas, de acordo com os interesses da coletividade, por
meio de sistemas obrigatórios de proteção social.
A caracterização do risco como social está relacionada com a teleologia do
sistema. Inobstante as teorias que negam a teleologia do Estado, considero que a
aferição da natureza social do risco é estabelecida pela conexão entre dano e inte-
resse social, consolidado na finalidade estatal de proteger os interesses individuais
que são comuns, ou seja, os interesses sociais.
Não é oportuno catalogar os riscos sociais. Entendemos que o arrolamento seria
efêmero, pois afeto à relatividade temporal. Aqui se formula certa teorização geral;
a elaboração de um tópoi adequado à natureza caótica do sistema de Seguridade
Social. Sem que, contudo, se pretenda atingir a verdade infinita, posto existirem
dúvidas quanto a essa possibilidade.
Os riscos sociais, enquanto contingências, são aqui classificados pelo gênero.
A classificação não é geral ou atemporal, mas válida dentro do método eleito. O
risco social somente pode ser inferido pela conexão do evento a prejuízo social.
O risco tipo é a invalidez. Não aquele fato tido como imponível da aposentadoria
por invalidez ou auxílio-doença, contudo o fenômeno na sua máxima ampliação
pragmática e semântica. Discordamos daqueles que conhecem a idade ou o tempo
de trabalho como riscos sociais. Tais situações são instrumentos de constatação
dessa realidade.
Entendemos, com o auxílio de Pulino17, que invalidez é a incapacidade
substancial para o trabalho, ou seja, a impossibilidade fenomênica ou ficcional
de manter-se no labor. Essa circunstância pode ser comprovada ou presumida. A
espécie fenomênica deriva da realidade. Sua aferição demanda prova, pois o fato
deve ser atestado dentro da realidade concreta.

16 Idem, p. 23.
17 PULINO, Daniel. A Aposentadoria por Invalidez no Direito Positivo Brasileiro. São Paulo:
LTr. 1999, p. 45.

93
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

A invalidez presumida não é imaginação legal, mas constatação estatística da


probabilidade. Sem prejuízo da realidade, a norma seleciona fato que representa,
abstratamente, ideário de invalidez; reputando sua materialização quando da
ocorrência concreta. Isto é, quando o sujeito comprova a idade está, em verdade,
provando, por meio da presunção, a invalidez substancial para o trabalho (risco
social).
Não se trata de ficção, mas de processo lógico; juízo que confere suposta causa-
lidade a dois fatos que meramente demonstram correlação. A presunção decorrente
é absoluta, não admitindo prova em contrário. Constatado o fato – tempo e/ou
idade – presume-se iuris et de iure a invalidez. Tal característica impõe a vitalicie-
dade ao benefício concedido, haja vista a impossibilidade de provar, como ocorre
na invalidez real, a reabilitação substancial ao trabalho.
O modelo adotado pela legislação brasileira é inadequado ao enunciado na
Convenção n. 102 da Organização Internacional do Trabalho – OIT.18 O item 3 do
artigo 26 relativiza a presunção conferida à idade, admitindo prova em contrário
da capacidade de trabalho. Não obstante apropriada, a eficácia do modelo interna-
cional exigiria alteração legal, de modo a adequar o sistema nacional à concepção
pós-moderna do risco, que eleva o não trabalho (invalidez) à qualidade de dano
protegido.
Há outros fatos individuais que implicam em danos sociais. Essas situações
podem se originar de sem número de circunstâncias, que serão relevadas ou não
mediante o processo de escolha (seleção) legislativa. Aquelas situações selecionadas
são tidas como riscos sociais normativos. Isso não importa na descaracterização
social dos riscos não escolhidos. Manter-se-ão nessa qualidade, em que pese não
ensejarem a incidência.
Os riscos não selecionados, inobstante sua qualidade social, são indiferentes ao
direito. A indiferença não decorre do positivismo, sobretudo porque essa metodo-
logia afere somente a Ciência do Direito. A impassibilidade provém da legalidade,
que blinda através do devido processo legal consequências jurídicas decorrentes de
fatos não submetidos ao labor normativo. Não vemos empecilhos em compreender
os riscos não selecionados como sociais, desde que, contudo, a conjectura esteja
pautada em métodos racionais ou naturalistas.
Sob a percepção positiva, não há alternativa senão conferir essa qualidade
apenas e tão somente aos riscos sociais eleitos como tais pelo ordenamento
jurídico.

18 O Brasil aderiu a essa Convenção internacional por meio do Decreto Legislativo n. 269, de
2008.

94
Acidente do trabalho: risco social ou incerteza

IV. CARÊNCIA COMO MECANISMO DE AFERIÇÃO DA


PROBABILIDADE

a.  Equilíbrio Financeiro e Atuarial


Há quatro espécies de normas jurídicas de Seguridade Social (repertório): i)
vinculação, ii) custeio, iii) proteção e iv) manutenção . A primeira espécie não en-
seja, ordinariamente, relação jurídica, atribuindo, apenas, existencialismo jurídico
ao sujeito ativo. Há vinculação normativa em que o sujeito é discriminado pelo
sistema recebendo determinada qualidade jurídica.
A última espécie decorre da temporariedade do direito, resultando em mani-
festação específica do ato jurídico perfeito; efetiva o princípio da irredutibilidade,
mantendo o status quo instaurado com o exercício do direito subjetivo à proteção
previdenciária.
As regras de custeio e de proteção constituem os principais objetos do re-
pertório da Seguridade Social. No plano teleológico, tratam, respectivamente, das
receitas e das despesas do sistema, garantindo, simultaneamente, a aplicabilidade
da proteção constitucional e os meios econômico-financeiros para sua efetivação
e extensão.
A relação entre essas duas espécies normativas não se resume à identidade sis-
têmica. A estrutura colide internamente com esses dois elementos, equilibrando-os
perante a ordem interna. O equilíbrio no repertório não ocorre somente no presente.
As regras de estrutura modelam a relação, estabelecendo premissas deterministas
(atuariais).
A natureza caótica do sistema jurídico impede sua equação linear. O deter-
minismo é momentâneo, podendo se frustrar no futuro. A regeneração age nesse
momento ajustando o sistema à evolução externa. As informações colhidas e não
suportadas pela nomogênese ensejam a autogerarão de elementos estruturais ou
do repertório necessários à ordenação sistêmica.
A ausência de determinismo e a necessidade constitucional de equilíbrio no
repertório fizeram com que o sistema se estruturasse de tal forma a mitigar os efeitos
do caos, estabelecendo ordens continuadas dirigidas à regeneração e à aplicação
dos elementos protetivos do repertório.
As premissas atuariais são sobremaneira incertas. São típicas circunstâncias
afetadas pelo caos. A natureza contextual, impura e indeterminada da ciência atuarial,
relativiza suas certezas, estabelecendo verdades verificáveis por meio de mecanismos
quânticos. Interferências externas prejudicam o determinismo, exigindo constante
adequação das verdades firmadas.

95
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

A relação de proteção social não é, necessariamente, imediata. Fosse assim,


a premissa seria meramente financeira, apurada por meio de equação linear. A
mediatez impõe incertezas que são mensuradas por meio de técnicas atuarias. A
certeza atuarial é quântica, verdadeira dentro de determinada conjuntura (método).
Alterado o ambiente, seu ajuste se impõe.
Os sistemas de proteção social, privado ou público, organizados sob premissas
atuarias não são lineares e estáticos, mas não-lineares e dinâmicos. A relação com
o caos justifica sua constante adequação, impossibilitando, v.g., a atribuição da
estática – ato jurídico perfeito – aos negócios jurídicos previdenciários privados.
A alteração do ambiente, portanto, impõe a regeneração sistemática, ajustando-
-o ao seu contexto fenomênico. Essa auto geração é estrutural, decorrente da premissa
de equilíbrio que ordena o sistema. A escolha do método é axiomática, pois o exi-
gido é a manutenção do equilíbrio. Podemos admitir nesse contexto, por exemplo,
a redução de despesas ou a elevação de receitas, justificadas nos feedbacks externos.
O caos não nega a eficácia do planejamento. Atribui, apenas, mecanismos para
a manutenção do planejado ante a alteração das premissas imaginadas. O sistema
nasce equilibrado e assim deve ser mantido. A manutenção provém da adequação,
aferida por meio de feedbacks externos19.

b. Carência
Não objetivamos o conhecimento da carência na sua acepção técnica. Sequer
pretendemos analisá-la dentro da estrutura normativa ou como requisito à incidên-
cia. Interessa-nos, nesse artigo, apenas pela sua importância sistêmica, vinculando-a
ou não como instrumento do equilíbrio financeiro e atuarial.
Os manuais de direito previdenciário descrevem a carência como elemento de
incidência, alocando-a paralelamente à contingência como requisita à fruição da
prestação. Em relação à sua natureza, há convergência técnica na conclusão, conhe-
cendo o fenômeno como espécie de tempo de contribuição efetivamente contribuído.
Não discordamos tecnicamente dessas conclusões. Ocupamo-nos, porém,
apenas da vinculação desse fenômeno à aquisição do direito à proteção e o efeito
do acidente do trabalho na sua comprovação, mormente ante a antinomia com o
princípio da universalidade. Se a concessão da prestação prescinde a carência, a

19 ALEXY, Robert. Derechos Sociales y Ponderación. Madrid: Fundación Coloquio Jurídico Eu-
ropeo. 2007, p. 58: “Cuanto mayor es el grado de no satisfacción, o perjuicio, de un principio,
tanto más importante es satisfacer el otro”.

96
Acidente do trabalho: risco social ou incerteza

universalidade é relativa, haja vista que os sujeitos protegidos não serão os contin-
genciados, mas os contingenciados que cumpriram a carência.
Tal antinomia poderia ser resolvida pela relatividade da universalidade,
entendendo-a como princípio sistêmico. Essa solução não nos parece ideal, pois
a discriminação pelo caráter contributivo não se adéqua à teleologia do sistema.
Poderia admitir a relatividade da universalidade pela discriminação operada por
meio da filiação, que não utiliza a contribuição como discriminem, mas o exercício
ou não do trabalho.
Negada essa solução, como poderia resolver o paradoxo estabelecido entre
a carência e a universalidade? Não vemos a necessidade de aplicar a proporcio-
nalidade ou a razoabilidade, pois, inobstante o conflito técnico, ambos os fenô-
menos coexistem sem colisão. A compreensão dessa tese é demasiado complexa,
exigindo elevado grau de abstração na teorização das relações e situações jurídicas
previdenciárias.
A universalidade outorga a todos os sujeitos o direito à proteção social. Isso
não quer dizer que todos os sujeitos são beneficiários hipotéticos da saúde, da
assistência e da previdência. A universalidade não se pormenoriza no repertório,
apresentando-se, diversamente, como princípio sistêmico.20 A distributividade
proporcionaliza a universalidade, selecionando os sujeitos efetivamente protegidos.
A distributividade age sobre o risco social, aferindo o direito por meio da ocor-
rência do fato jurídico. Esse aspecto não se interessa pelo sujeito, discriminando a
proteção por meio da identidade pessoal. Tal tarefa é atribuída à carência que atua
na discriminação dos sujeitos da proteção por meio da verificação do equilíbrio
financeiro e atuarial.
O risco se equaciona por meio da proporcionalidade e do dado. A carência
representa o custo financeiro desse risco; o montante de recurso necessário à quita-
ção da probabilidade do dano. Satisfeita a exigência da carência, o segurado adentra
em classe específica; categoria que compreende os sujeitos passíveis de proteção.
É que, como pondera ALMANSA PASTOR, a prévia cotização objetiva dar
suporte ao equilíbrio financeiro do sistema. 21
A sinalagmaticidade não opera em toda relação de filiação, mas tão-somente
no período de carência. Nessa etapa, inobstante a ocorrência do risco, o segurado

20 Vide, sobre este ponto, WAGNER BALERA. Noções Preliminares de Direito Previdenciário. 2ª
edição. São Paulo: Quartier Latin. 2010, páginas 22 e 23.
21 PASTOR, José Manuel Almansa. Derecho de la seguridad social. 2. ed. Madrid: Tecnos, 1977.
p. 483.

97
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

fica à margem da proteção, ante a dívida com o risco. Passada essa fase, o segurado
torna-se apto à proteção, inobstante a descontinuidade da sinalagmaticidade.

c.  Acidente do Trabalho e Isenção de Carência


A carência, como antecedente de incidência, funciona como mecanismo
de aferição do equilíbrio financeiro e atuarial, evitando que o sistema assuma
compromissos desproporcionais. Satisfeita a carência, presumir-se-ia, sob a
ótica do equilíbrio, que o sistema estaria habilitado à satisfação do compromisso
protético.
Isso não significa que a carência gera o direito à proteção; essa decorre exclu-
sivamente da incapacidade para o trabalho, como fato antagônico à prestação. A
carência é suposto; suposto de equilíbrio, de adequação entre as relações de proteção
e de custeio.
A carência é definida pela probabilidade do dano. Quanto maior for a pro-
babilidade do risco social acontecer, maior será a carência exigida. Esse paralelo é
inexorável a esse aspecto, que, associada à regra da contra partida, funciona como
mecanismo de manutenção da estabilidade econômica, financeira e atuarial do
sistema.
Essa característica é comprovada pela estatística. O Instituto Nacional do Se-
guro Social – INSS, na qualidade de gestor do Regime Geral de Previdência Social
– RGPS, concede muito mais aposentadorias por idade ou tempo de contribuição
do que por invalidez. Isso ocorre simplesmente porque o dado inerente a esse risco
é sobremodo inferior ao daquele, exigindo, dessa forma, carências também sobre-
modo desproporcionais.
Enquanto o RGPS exige 180 (cento e oitenta) contribuições para satisfazer
a carência da aposentadoria por idade e por tempo de contribuição, exige apenas
12 (doze) contribuições para a aposentadoria por invalidez. Isso denota a maior
probabilidade daquele risco em relação a esse; conjectura facilmente comprovada
a partir das estatísticas divulgadas pelo INSS.
Sem embargo da já reduzida carência (se comparada à exigida para as aposen-
tadorias por idade e tempo de contribuição), a carência para a aposentadoria por
invalidez é dispensada se comprovada, dentre outros, que a incapacidade substancial
para o trabalho decorreu do acidente do trabalho. Nesse caso, a prestação é conferida
independente de carência, porque, em tese, presume-se improvável.
A constitucionalidade o artigo 26 da Lei nº 8.213/91 que admite a concessão
de aposentadoria por invalidez independentemente de carência, se devidamente

98
Acidente do trabalho: risco social ou incerteza

comprovada que a causa da incapacidade foi o acidente do trabalho, pressupõe sua


aderência ao princípio do equilíbrio financeiro e atuarial.
A única hipótese para essa aderência é a improbabilidade desse evento; a incer-
teza que justifica a dispensa sem prejuízo à saúde econômica, financeira e atuarial do
sistema. Ou seja, o modelo admite que acidentes do trabalho são tão improváveis,
se comparadas a outras causas, que o dano decorrente deve ser protegido indepen-
dentemente de custeio, sem que isso desequilibre o sistema.

V. CONCLUSÃO
Observando a matriz de risco social utilizada nesse artigo, o acidente do
trabalho não deve ser considerado dano ou risco social, mas apenas elemento de
identificação da probabilidade da sua ocorrência. Sua existência justifica a constitu-
cionalidade do artigo 26 da Lei nº 8.213/91, que, dentre outros, dispensa a carência
na concessão de prestações decorrentes de acidente do trabalho, sem prejudicar o
princípio do equilíbrio financeiro e atuarial.
Assim, entendemos que atualmente o acidente do trabalho interessa apenas
ao suposto da proteção previdenciária, interagindo com o aspecto da probabi-
lidade do risco social. Aderente ao princípio do equilíbrio financeiro e atuarial
isenta a carência quando a incapacidade substancial para o trabalho dele decorrer,
simplesmente porque o sistema admite que a probabilidade de sua ocorrência não
pressupõe custeio prévio.

VI. BIBLIOGRAFIA
ALEXANDRE, Francisco. Estudos de Legislação Social. Rio de Janeiro, 1930.
ALEXY, Robert. Derechos Sociales y Ponderación. Madrid: Fundación Coloquio Jurídico
Europeo. 2007.
ALFANDARI, Elie. L´Évolution de la Notion de Risque Social: les Rapports de L´Économique
et du social, in Revue Internationele de Droit Économique n. 1. 1997.
ATALIBA. Geraldo. Hipótese de Incidência Tributária. São Paulo: Malheiros. 5ª edição. 1995.
BALERA, Wagner. Noções Preliminares de Direito Previdenciário, 2ª ed., São Paulo: Quartier
Latin, 2010.
CASTRO DO NASCIMENTO, Tupinambá Miguel. Curso de Direito Infortunistíco. 2ª Edição.
Porto Alegre: Sergio Fabris Editor. 1983
DURAND, Paul. La Política Cotemporánea de La Seguridad Social. Madrid: Ministério de
Trabajo y Seguridad Social. 1991.

99
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

DONATI, Antonio. Los Seguros Privados. Barcelona: Bosch. 1960.


ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Convenção n. 102. Normas Mí-
nimas da Seguridade Social. Decreto Legislativo n.269, de 2008. https://www.ilo.org/
brasilia/convencoes/WCMS_235192/lang--pt/index.htm
OPITZ, Oswaldo e OPITZ, Silvia. Acidentes do Trabalho. São Paulo: Editora Saraiva, 1977,
p. 11.
PASTOR, José Manuel Almansa. Derecho de la seguridad social. 2. ed. Madrid: Tecnos, 1977.
PULINO, Daniel. A Aposentadoria por Invalidez no Direito Positivo Brasileiro. São Paulo:
LTr. 1999.

100
Parte II
BENEFÍCIOS DECORRENTES
DO ACIDENTE DO TRABALHO:
ASPECTOS DE DIREITO MATERIAL,
PROCEDIMENTAL E PROCESSUAL
A EXCLUSÃO DO SEGURADO
CONTRIBUINTE INDIVIDUAL DO ROL
DE BENEFICIÁRIOS DO AUXÍLIO-ACIDENTE
E O PRINCÍPIO DA ISONOMIA

ADRIANO MAUSS1
ARTUR LAZZARI CAVALHEIRO2

resUMo: O presente artigo trata da exclusão do contribuinte individual do rol de


beneficiários do auxílio-acidente. Busca-se averiguar, sob a ótica do princípio da iso-
nomia, se tal exclusão é ou não constitucional. A metodologia utilizada foi a pesquisa
bibliográfica, através da coleta, leitura e reflexão crítica do material selecionado. O
estudo perpassou as origens históricas do benefício, as primeiras legislações sobre o
tema e sua evolução no Brasil, as disposições legais que atualmente regulamentam
sua concessão, as mais recentes iniciativas do Poder Legislativo de inclusão do contri-
buinte individual e o entendimento jurisprudencial dos Tribunais pátrios. Do exposto,
pode-se dizer que a restrição deste benefício a determinadas categorias profissionais
contraria o princípio da isonomia, pois implica em diferenciação arbitrária e abusiva
entre os segurados do Regime Geral de Previdência Social.
PALAVrAs-CHAVe: Auxílio-acidente. Contribuinte Individual. Princípio da Isonomia.
ABsTrACT: This article deals with the exclusion of the individual taxpayer from the
right to the benefit of accident aid. It seeks to ascertain, from the point of view of the
principle of isonomy, whether such exclusion is constitutional or not. The metho-
dology used was the bibliographical research, through the collection, reading and

1 Professor orientador. Bacharel em Direito pela Universidade de Passo Fundo (UPF). Especia-
lista em Direito do Trabalho pela Universidade de Passo Fundo (UPF). Especialista em Direito
Previdenciário pela IMED. Mestre em Desenvolvimento pela Universidade Regional do No-
roeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ). Professor em Pós-Graduações de diversas
instituições de ensino. Advogado. Endereço eletrônico: adriano.mauss@bol.com.br.
2 Bacharel em Direito pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul
(UNIJUÍ). Acadêmico do Curso de Pós-Graduação em Direito Previdenciário e do Trabalho da
Faculdade CNEC Santo Ângelo. Advogado. Endereço eletrônico: artcavalheiro@gmail.com.
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

critical reflection of the selected material. The study covered the historical origins
of the benefit, the first legislation on the subject and its evolution in Brazil, the legal
provisions that currently regulate its grant, the most recent initiatives of the Legis-
lative Branch to include individual taxpayers and the jurisprudential understanding
of the Courts. From the foregoing, it can be said that the restriction of this benefit to
certain professional categories contradicts the principle of isonomy, since it implies
arbitrary and abusive differentiation among the insured persons of the General Social
Security System.
Keywords: Accident-aid. Individual Taxpayer. Principle of Isonomy.

INTRODUÇÃO
A Previdência Social foi criada com o intuito de proteger determinados indiví-
duos, chamados de “segurados”, bem como aqueles que dependem financeiramente
deles (dependentes), de riscos sociais que possam colocá-los em situação de vul-
nerabilidade econômica e social, tais como velhice, doenças, acidentes, invalidez,
morte, dentre outros. Na prática, funciona como um seguro, que garante aos seus
integrantes a percepção de alguns benefícios quando preenchidos os requisitos
exigidos pelo sistema.
No Brasil, as espécies de benefícios do Regime Geral de Previdência Social
(RGPS) e os requisitos necessários à sua concessão estão previstos na Lei nº 8.213/91,
também chamada de Lei de Benefícios da Previdência Social. O art. 86 da referida
norma instituiu o benefício denominado “auxílio-acidente”, devido ao segurado
quando, após a consolidação de lesões ocasionadas por acidente de qualquer natu-
reza, permaneçam sequelas que determinem a redução da capacidade de exercer
suas atividades laborais habituais.
A Lei nº 8.213/91 divide os segurados da Previdência Social em obrigatórios
e facultavos. Os primeiros, por sua vez, estão subdivididos em diversas categorias
profissionais: empregados, empregados domésticos, contribuintes individuais, tra-
balhadores avulsos e segurados especiais (art. 11). Ocorre, porém, que o art. 18, §
1º, da Lei de Benefícios excluiu os contribuintes individuais do direito à percepção
do auxílio-acidente, dessa forma, inúmeros segurados obrigatórios da Previdência
Social se encontram desamparados em relação aos riscos sociais decorrentes de
acidentes pelo simples fato de pertencerem a determinada categoria profissional.
O presente trabalho objetiva averiguar se a exclusão do contribuinte indivi-
dual do direito ao auxílio-acidente é contrária ou não ao princípio constitucional
da isonomia, que proíbe diferenciações abusivas ou arbitrárias pela lei. A pesquisa
bibliográfica foi utilizada como método de estudo do tema, com a busca, análise e
reflexão crítica da doutrina, legislação e jurisprudência atinentes à matéria.

104
Exclusão do segurado contribuinte individual do rol de beneficiários do auxílio-acidente

1. ORIGEM HISTÓRICA DO SEGURO CONTRA ACIDENTES


E A EVOLUÇÃO DA LEGISLAÇÃO SOBRE A MATÉRIA NO
BRASIL
De forma geral, as leis são fruto de eventos sociais. Da relação entre os sujeitos
de uma sociedade urge a necessidade de regramentos para tornar tal convivência
mais harmônica e, por assim dizer, possível3. O Direito Previdenciário, assim como
o Direito do Trabalho, teve origem na relação do homem com o capital, e sua neces-
sidade tornou-se mais patente no século XVIII, com a eclosão do fenômeno social
e econômico historicamente conhecido como Revolução Industrial.
A invenção de máquinas capazes de realizar tarefas para as quais era necessá-
ria mão de obra de vários trabalhadores fez com que muitos deles fossem dispen-
sados. Aqueles que permaneceram trabalhando tiveram seus salários reduzidos
de forma drástica em virtude da diminuiçao das vagas de emprego nas fábricas
e da abundância de pessoas à procura de trabalho. Não bastasse tudo isso, os
obreiros eram obrigados a fazer jornadas extenuantes, em ambientes insalubres
e/ou perigosos, aumentando, assim, a ocorrência de acidentes e o desenvolvi-
mento de doenças4.
Sobre a origem da proteção legal ao trabalhador vítima de acidentes, leciona
Martins5:

O estudo da infortunística começou a surgir com a Revolução Industrial,


em que foi substituído o trabalho manual pelo uso de máquinas. O tear e a
máquina a vapor eram os causadores dos acidentes do trabalho. A partir desse
momento é que começa a haver preocupação com o acidentado.
A primeira legislação a tratar do tema acidente do trabalho foi a alemã,
em 6-7-1884, por intermédio de Bismark. Estabeleceu-se ampla definição de
acidente do trabalho, incluindo o ocorrido no curso do contrato de trabalho.
Havia a assistência médica e farmacêutica. Determinava-se o pagamento de
um valor pecuniário para compensar o fato de que o empregado iria ficar sem
receber salário, assim como assegurava-se auxílio-funeral, caso ocorresse o aci-
dente fatal. O empregado recebia uma prestação correspondente a 100% de seu
salário em quanto durasse a incapacidade. Pagava-se pensão em caso de morte.

3 BAGATINI, Idemir Luiz. Direito das obrigações: parte geral. 3. ed. rev. e ampl. Ijuí: Ed. Unijuí,
2002, p. 13.
4 GIGLIO. Wagner Drdla. Direito processual do trabalho. 5. ed. rev. ampl. e atual. São Paulo:
LTr, 1984, p. 21.
5 MARTINS. Sergio Pinto. Direito da seguridade social. 20. ed. São Paulo: Atlas, 2004, p. 414.

105
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

No Brasil, segundo Russomano6, o primeiro ensaio para a criação de uma


legislação sobre acidentes de trabalho se deu no século XX, mais precisamente no
ano de 1904, através da apresentação, no Congresso Nacional, do Projeto de Lei
nº 169, pelo então Deputado Federal Medeiros e Albuquerque. Como o referido
projeto não prosperou, em 1908 foram apresentados os Projetos de Lei nº 273 e nº
337, o primeiro encabeçado pelo Deputado Graco Cardoso, com o apoio de outros
parlamentares, e o segundo de autoria Depudato Venceslau Escobar, todavia, ne-
nhum deles foi aprovado.
Somente no ano de 1919, com a publicação do Decreto nº 3.724, finalmente
o Brasil teve sua primeira lei versando sobre acidentes do trabalho. Nela estava
prevista a obrigação, por parte do patrão, de pagar ao empregado acidentado ou à
sua família uma indenização, calculada conforme a gravidade do acidente, além de
prestar-lhe socorros médicos, farmacêuticos e hospitalares. Como visto, a referida lei
adotou a chamada “teoria do risco profissional”, segundo a qual a responsabilidade
pela indenização e assitência ao empregado vítima de acidente do trabalho compete
única e exclusivamente ao empregador7.
A Lei 3.724/19 sofreu diversas alterações, sendo sucedida pelo Decreto nº
24.637 e pelo Decreto-Lei nº 7.036, respectivamente, nos anos de 1934 e 1944, os
quais mantiveram a responsabilidade exclusiva do empregador pelos danos decor-
rentes de acidentes do trabalho8. Em 28 de fevereiro de 1967, com a entrada em
vigor do Decreto-Lei nº 293, a responsabilidade do patrão/empresa com relação
aos acidentes laborais foi transferida, mediante seguro obrigatório, às seguradoras
privadas, em regime de concorrência com o Insituto Nacional de Previdência Social
(INPS), criado pelo Decreto-Lei nº 72, de 21 de novembro de 19669.
Meses depois, no dia 19 de setembro 1967, foi sancionada a Lei nº 5.316, através
da qual o seguro de acidentes do trabalho foi integrado à Previdência Social. Neste
momento, o Estado passou a responder objetivamente pela reparação dos danos
decorrentes do acidente do trabalho, através da Previdência Social10. Logo após,

6 RUSSOMANO, Mozart Victor. Curso de previdência social. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense,
1988, p. 359.
7 RUSSOMANO, Mozart Victor. Curso de previdência social. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense,
1988, p. 361.
8 RUSSOMANO, Mozart Victor. Curso de previdência social. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense,
1988, p. 364.
9 RUSSOMANO, Mozart Victor. Curso de previdência social. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense,
1988, p. 362.
10 MARTINS. Sergio Pinto. Direito da seguridade social. 20. ed. São Paulo: Atlas, 2004, p. 422.

106
Exclusão do segurado contribuinte individual do rol de beneficiários do auxílio-acidente

entrou em vigor a Lei nº 6.367, de 19 de outubro de 1976, que manteve o seguro


contra a acidentes do trabalho no âmbito exclusivo da Previdência Social11.
O Decreto nº 83.080, de 24 de janeiro de 1979, aprovou o Regulamento dos
Benefícios da Previdência Social e revogou os Decretos pretéritos que versavam
sobre infortunística. O Regulamento previa, no art. 24012, o benefício denominado
“auxílio-suplementar”, devido ao trabalhador acidentado que, após a consolidação das
lesões, necessitasse expender maior esforço na realização de suas atividades habituais.
A Constituição Federal de 1988, ainda em vigor, elencou, no artigo 7º, inciso
XXVIII, dentre os direitos dos trabalhadores urbanos e rurais o “seguro contra
acidentes de trabalho, a cargo do empregador, sem excluir a indenização a que este
está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa”.O texto original da Carta Magna
também previa, no inciso I do art. 201, que a Previdência Social seria destinada à
“cobertura dos eventos de doença, invalidez, morte, incluídos os resultantes de aci-
dentes do trabalho, velhice e reclusão”. A redação do artigo foi alterada pela Emenda
Constitucional nº 20/1988, que excluiu a parte referente aos riscos decorrentes de
acidentes do trabalho e incluiu o § 10º, delegando sua disciplina à lei ordinária e
seu atendimento ao Regime Geral de Previdência Social (RPGS), em concorrência
com o setor privado.
Em 24 de julho de 1991 adveio a Lei nº 8.213, em vigor até os dias atuais. A Lei
de Benefícios da Previdência Social, como também é conhecida, dispõe, dentre outras
coisas, sobre as espécies de segurados, benefícios e requisitos necessários à concessão
dos mesmos. O art. 86 da referida norma previa, em sua redação original, que o be-
nefício de auxílio-acidente seria devido no caso de “acidente do trabalho”, entretanto,
desde o advento da Lei nº 9.032, de 28 de abril de 1995, que alterou sua redação, o
aludido benefício passou a ser devido nos casos de “acidente de qualquer natureza”.

2. ACIDENTE DE TRABALHO NO DIREITO PREVIDENCIÁRIO


BRASILEIRO
O conceito de acidente do trabalho no Direito Previdenciário foi modificado ao
longo dos anos, através das sucessivas legislações que dispuseram sobre a matéria. As

11 RUSSOMANO, Mozart Victor. Curso de previdência social. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense,
1988, p. 365.
12 Art. 240 – O auxílio-suplementar é devido, a contar da cessação do auxílio-doença, ao aci-
dentado que, após a consolidação das lesões resultantes do acidente, apresenta, como seqüela
definitiva, perda anatômica ou redução a capacidade funcional constante do Anexo VII, a qual,
embora sem impedir o desempenho da mesma atividade, acarreta permanentemente maior
esforço na realização do trabalho.

107
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

modificações se deram, principalmente, com relação à abrangência dos eventos e das


categorias de segurados. Atualmente, tal conceito se encontra disposto no art. 19 da
Lei nº 8.213/91, com redação dada pela Lei Complementar nº 150/15, segundo o qual:

Art. 19. Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a


serviço de empresa ou de empregador doméstico ou pelo exercício do trabalho
dos segurados referidos no inciso VII do art. 11 desta Lei, provocando lesão
corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução,
permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.

Este é o conceito do que a doutrina chama de “acidente típico”, de “causalida-


de direta” ou “acidente-tipo”. Trata-se do acidente no sentido literal da palavra, do
acontecimento inesperado, não planejado, fortuito. Nas palavras de Martins, “O
acidente-tipo ocorre apenas com um único evento, que é totalmente imprevisto e
de conseqüências imediatas.”13
Conforme disposto no artigo 21 da Lei de Benefícios, também são considera-
das acidente do trabalho as doenças ocupacionais (profissionais e do trabalho). A
doença profissional é aquela que decorre do exercício de atividades laborais inerentes
à determinada categoria de trabalhadores. Já a doença do trabalho é aquela que se
manifesta em razão do exercício de atividades em condições especiais, seja pela
exposição a agentes nocivos ou pela exigência de postura inadequada, movimentos
repetitivos etc.14
Por sua vez, o art. 21 da Lei nº 8.213/91 traz o rol de eventos que se equiparam
ao acidente de trabalho, como os ocorridos no local e horário de trabalho, decor-
rentes de atos de terceiro ou colega de trabalho, os advindos de casos fortuitos ou
força maior, além daqueles que, embora fora do local e horário de trabalho tenham
se dado em virtude do seu exercício. O referido dispositivo legal também equipara
ao acidente do trabalho aquele em que o exercício da atividade laboral tenha agido
como concausa para sua ocorrência.

3. REQUISITOS NECESSÁRIOS À CONCESSÃO DO


BENEFÍCIO DE AUXÍLIO-ACIDENTE
Como visto, atualmente a lei que regulamenta a concessão dos benefícios pre-
videnciários é a Lei nº 8.213/91 e, a partir da entrada em vigor da Lei nº 9.032/95, o

13 MARTINS. Sergio Pinto. Direito da seguridade social. 20. ed. São Paulo: Atlas, 2004, p. 426.
14 CASTRO, Carlos Alberto Pereira de; LAZZARI, João Batista. Manual de direito previdenciá-
rio. 21. ed. rev., atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2018, 689.

108
Exclusão do segurado contribuinte individual do rol de beneficiários do auxílio-acidente

benefício de auxílio-acidente é devido ao segurado que sofrer acidente de “qualquer


natureza”, não sendo mais necessária sua vinculação ao trabalho. A redação atual
do art. 86 da Lei de Benefícios, que dispõe especificamente sobre o benefício em
questão, foi dada pela Lei nº 9.528/97, e possui o seguinte teor:

Art. 86. O auxílio-acidente será concedido, como indenização, ao segurado


quando, após consolidação das lesões decorrentes de acidente de qualquer
natureza, resultarem seqüelas que impliquem redução da capacidade para o
trabalho que habitualmente exercia.

Da leitura do dispositivo legal, é possível extrair os requisitos exigidos pela


lei para que o segurado tenha direito ao benefício de auxílio-acidente, que, como
lecionam Castro e Lazzari, são: “(a) a qualidade de segurado; (b) a superveniência
de acidente de qualquer natureza; (c) a redução parcial e difinitiva da capacida-
de para o trabalho habitual; e (d) o nexo causal entre o acidente e a redução da
capacidade de trabalho” 15. Passar-se-á, então, à análise pormenorizada de cada
um deles.
Antes de adentrar no conceito de “qualidade de segurado”, é necessário escla-
recer quem são os segurados da Previdência Social, pois somente estes é que podem
ser detentores tal atributo. A Lei 8.213/91 divide os segurados em obrigatórios e
facultativos. Os primeiros são os empregados, empregados domésticos, contribuintes
individuais, trabalhadores avulsos e segurados especiais (art. 11), os segundos são
os maiores de 16 (dezesseis) anos que não se enquadram em nenhuma das catego-
rias de contribuintes obrigatórios e que vertem contribuições ao Regime Geral da
Previdência Social – RGPS (art. 13).
A qualidade de segurado pressupõe a vinculação do indivíduo com a Previ-
dência, que se dá através da filiação. A filiação, no caso dos segurados obrigató-
rios, se dá com o início do exercício do trabalho que o enquadre como tal, e não
das contribuições. Já, com relação aos segurados facultativos, a filiação ocorre
no dia em que efetuada sua inscrição e o pagamento da primeira contribuição,
pois neste momento é manifesta sua intenção de se filiar ao RGPS16. O art. 15 da
Lei nº 8.213/91 trata do chamado “período de graça”, que nada mais é do que o
interregno de tempo em que o segurado mantém a qualidade de segurado mesmo
sem contribuir.

15 CASTRO, Carlos Alberto Pereira de; LAZZARI, João Batista. Manual de direito previdenciá-
rio. 21. ed. rev., atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2018, p. 873.
16 CASTRO, Carlos Alberto Pereira de; LAZZARI, João Batista. Manual de direito previdenciá-
rio. 21. ed. rev., atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2018, p. 195.

109
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Com relação à “superveniência de acidente de qualquer natureza”, que é o


segundo requisito que o segurado deve preencher para ter direito ao benefício de
auxílio-acidente, mister destacar que o acidente deve ser superveniente, ou seja,
posterior à filiação no RGPS. Caso o infortúnio tenha ocorrido em momento an-
terior ao ingresso na Previdência Social, o benefício não será devido, pois à época
o acidentado não possuía qualidade de segurado.
Também merece destaque o fato de que não é necessário que o acidente
tenha ligação com o trabalho exercido pelo segurado. Isto porque, como já men-
cionado alhures, com a alteração do art. 86 da Lei 8.213/91, pela Lei nº 9.032/95,
o benefício de auxílio-acidente passou a ser devido nos casos de “acidente de
qualquer natureza”. Assim, até 29 de abril de 1995, data da entrada em vigor da
Lei nº 9.032, somente os acidentes decorrentes do exercício do labor estavam
cobertos pela Previdência.17
O terceiro requisito exige que o acidente (de qualquer natureza) implique em
“redução parcial e difinitiva da capacidade para o trabalho habitual”. Deste requisito
se depreende que não basta a ocorrência de um sinistro para que o segurado tenha
direito ao benefício, sendo necessário que ele acarrete na incapacidade laboral, que
deve ser parcial (e não total) e definitiva (que permanece mesmo após a consoli-
dação das lesões). Caso a incapacidade seja total e definitiva, o segurado não fará
jus ao auxílio-acidente, e sim à aposentadoria por invalidez. Por outro lado, sendo
temporária, terá direito ao benefício de auxílio-doença.
Pelo quarto (e último) requisito, a incapacidade parcial e definitiva deve ser
oriunda de acidente de qualquer natureza ocorrido após a filiação ao RGPS. Em
outras palavras, deve haver um liame, um nexo, entre o infortúnio e a redução da
capacidade laborativa. Preenchidos os requisitos, de forma cumulativa, o segurado
terá direio a perceber o auxílio-acidente.

4. PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA ISONOMIA


Em termos gerais, a palavra “princípio” possui o significado de início, começo,
aquilo que vem antes de algo e que lhe serve de base, de fundamento, dessa for-
ma, o que vier depois dele não pode contrariá-lo sob pena de comprometer toda
a estrutura. Como exemplo, pode-se citar o caso de um prédio cujo alicerce foi
projetado para suportar cinco andares, caso construído um andar a mais, todo ele

17 CASTRO, Carlos Alberto Pereira de; LAZZARI, João Batista. Manual de direito previdenciá-
rio. 21. ed. rev., atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2018, p. 873.

110
Exclusão do segurado contribuinte individual do rol de beneficiários do auxílio-acidente

correrá o risco de desabar, causando inúmeros danos e prejuízos a um conjunto


indeterminado de pessoas.
No direito, os princípios são o ponto inicial do sistema jurídico e servem de
base para a criação, interpretação e aplicação das normas jurídicas, sendo também
responsáveis pela sua unidade. Na lição de Barroso, “Os princípios constitucionais
consubstanciam as premissas básicas de uma dada ordem jurídica, irradiando-se por
todo sistema. Eles indicam o ponto de partida e os caminhos a serem percorridos” 18.
Mello19, por sua vez, define princípio da seguinte maneira:

Princípio – já averbamos alhures – é, por definição, mandamento nuclear


de um sistema, verdadeiro alicerce dele, disposição fundamental que se irradia
sobre diferentes normas compondo-lhes o espírito e servindo de critério para
a sua exata compreensão e inteligência, exatamente por definir a lógica e a
racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere a tônica de lhe dá
sentido harmônico.

Enquanto as normas referem-se a situações específicas, tendo, assim, uma área


de atuação restrita, os princípios possuem maior grau de generalidade e abstração,
podendo servir como norteadores de diversas normas. Em regra, os princípios basi-
lares de um dado sistema jurídico se encontram positivados, expressamente previstos
em lei escrita, no entanto, sua existência prescinde a previsão legal, e sua validade
não está a ela condicionada. Em outras palavras, os princípios, diferentemente das
normas, não necessitam constar expressamente em documento normativo escrito
para existirem, serem válidos ou terem sua aplicação legitimada20.
Uma vez que o princípio constitui um objetivo a ser alcançado pela norma
jurídica, e, portanto, lhe serve de fundamento, não pode ela se desviar do caminho
que por ele foi traçado, nem ser interpretada de forma a desvirtuá-lo, pois, uma
vez que o que dá sentido à norma é o princípio, ferido este, morta estará aquela.
Meirelles resume bem esta ideia ao afirmar que “A norma deve adequar-se aos
princípios”21. Tamanha a importância da observância dos princípios, que Mello

18 BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e aplicação da Constituição: fundamentos de uma


dogmática constitucional transformadora. 7. ed. rev. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 157.
19 MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de direito administrativo. 21. ed. rev. e atual. Até
a Emenda Constitucional 52 de 8.3.2006. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 912.
20 BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e aplicação da Constituição: fundamentos de uma
dogmática constitucional transformadora. 7. ed. rev. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 157-158.
21 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro. 39. ed. atual. São Paulo: Malhei-
ros, 2013, p 50.

111
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

refere que “Violar um princípio é muito mais grave do que transgredir uma norma
qualquer. A desatenção a um princípio implica em ofensa não apenas a um específico
mandamento obrigatório, mas a todo o sistema de comandos”22.
Dentre os princípios constituicionais de maior destaque na Constituição Federal
de 1988 está o princípio da isonomia ou igualdade, insculpido no art. 5º, caput e
inciso I, da Carta Magna, cujo teor se reproduz abaixo:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabili-
dade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade,
nos termos seguintes:
I − homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos
desta Constituição;

Observa-se que o texto constitucional refere que a igualdade entre os cidadãos


se dá “perante a lei”, ou seja, todos devem ter os seus direitos garantidos, devendo a
lei deve ser aplicada sem distinção. Isso não significa, porém, que os direitos serão
iguais para todos, eis que, para se chegar ao fim traçado pelo princípio da isonomia,
é necessário que as pessoas desiguais sejam tratadas de forma desigual, pois só assim
poderão se igualar. Nas palavras de Moraes23:
A Constituição Federal de 1988 adotou o princípio da igualdade de direitos,
prevendo a igualdade de aptidão, uma igualdade de possibilidades virtuais, ou seja,
todos os cidadãos têm o direito de tratamento idêntico pela lei, em consonância com
os critérios albergados pelo ordenamento jurídico. Dessa forma, o que se veda são as
diferenciações arbitrárias, as discriminações absurdas, pois, o tratamento desigual dos
casos desiguais, na medida em que se desigualam, é exigência tradicional do próprio
conceito de Justiça, por o que realmente protege são certas finalidades, somente se
tendo por lesado o princípio constitucional quando o elemento discriminador não se
encontra a serviço de uma finalidade acolhida pelo direito, sem que se esqueça, porém,
como ressalvado por Fábio Konder Comparato, que as chamadas liberdades materiais
têm por objetivo a igualdade de condições sociais, meta a ser alcançada, não só por
meio de leis, mas também pela aplicação de políticas ou programas de ação estatal.
Para melhor compreensão, cita-se como exemplo a diferença nas regras para
concessão do benefício de aposentadoria por idade ao segurado que desenvolve ati-
vidade urbana e ao trabalhador rural. Dispõe o art. 48, caput e § 1º, da Lei 8.213/91:

22 MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de direito administrativo. 21. ed. rev. e atual. Até
a Emenda Constitucional 52 de 8.3.2006. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 913.
23 MORAES, Alexandre de. Direito constitucional. 6. ed. rev., ampl. e atual. São Paulo: Atlas,
1999, p. 61.

112
Exclusão do segurado contribuinte individual do rol de beneficiários do auxílio-acidente

Art. 48. A aposentadoria por idade será devida ao segurado que, cumprida
a carência exigida nesta Lei, completar 65 (sessenta e cinco) anos de idade, se
homem, e 60 (sessenta), se mulher.
§ 1o Os limites fixados no caput são reduzidos para sessenta e cinqüenta
e cinco anos no caso de trabalhadores rurais, respectivamente homens e mu-
lheres, referidos na alínea a do inciso I, na alínea g do inciso V e nos incisos
VI e VII do art. 11.

A lei é clara no sentido de que para que os segurados urbanos tenham direito ao
benefício de aposentadoria por idade é necessário que, além da carência, o homem
possua 65 (sessenta e cinco) e a mulher 60 (sessenta) anos de idade, enquanto que
os segurados rurais necessitam de 5 (cinco) anos a menos, sendo 60 (sessenta) anos
para os homens e 55 (cinquenta e cinco) anos para as mulheres. Embora nítida e
expressa, tal diferenciação no requisito etário não afronta o princípio da igualdade,
eis que a redução é justificada pelo fato de que os trabalhos campesinos, em regra,
exigem mais força física do que os desenvolvidos no meio urbano, sendo certo que
o vigor físico diminui com o passar dos anos. Nesse caso, desigual seria exigir que
o trabalhador rural permanecesse trabalhando até a mesma idade que o urbano.
Desta feita, o simples fato de a lei tratar os jurisdicionados de forma distinta
não implica, por si só, em afronta ao princípio da isonomia, pelo contrário, muitas
vezes, tal como nos exemplos mencionados acima, o tratamento diferenciado se
demonstra necessário justamente para preservar a igualdade entre os sujeitos. Por
outro lado, se a diferenciação constante no texto legal não for pautada em justifica-
tiva razoável, isto é, se situações análogas forem tratadas de forma distinta pela lei
sem que haja um motivo plausível, aceitável e racional para tanto, se estará diante
de um caso de ofensa ao princípio da igualdade.

5. EXCLUSÃO DO CONTRIBUINTE INDIVIDUAL DO ROL


DE BENEFICIÁRIOS DO AUSXÍLIO-ACIDENTE FRENTE AO
PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA ISONOMIA
Como já mencionado, todos aqueles que exercem atividade remunerada
são segurados obrigatórios da Previdência Social. Ocorre que a Lei nº 8.213/91
subdividiu estes segurados em categorias profissionais: empregados, empregados
domésticos, segurados especiais, e, é claro, contribuintes individuais. Na categoria
dos contribuintes individuais estão inseridas diversas atividades profissionais, como
assevera o art. 11, V, da Lei de Benefícios:

Art. 11. São segurados obrigatórios da Previdência Social as seguintes


pessoas físicas:

113
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

V − como contribuinte individual:


a) a pessoa física, proprietária ou não, que explora atividade agropecuária,
a qualquer título, em caráter permanente ou temporário, em área superior a
4 (quatro) módulos fiscais; ou, quando em área igual ou inferior a 4 (quatro)
módulos fiscais ou atividade pesqueira, com auxílio de empregados ou por
intermédio de prepostos; ou ainda nas hipóteses dos §§ 9o e 10 deste artigo;
b) a pessoa física, proprietária ou não, que explora atividade de extração
mineral − garimpo, em caráter permanente ou temporário, diretamente ou por
intermédio de prepostos, com ou sem o auxílio de empregados, utilizados a
qualquer título, ainda que de forma não contínua;
c) o ministro de confissão religiosa e o membro de instituto de vida
consagrada, de congregação ou de ordem religiosa;
d) Revogada;
e) o brasileiro civil que trabalha no exterior para organismo oficial
internacional do qual o Brasil é membro efetivo, ainda que lá domiciliado e
contratado, salvo quando coberto por regime próprio de previdência social;
f) o titular de firma individual urbana ou rural, o diretor não empregado e o
membro de conselho de administração de sociedade anônima, o sócio solidário,
o sócio de indústria, o sócio gerente e o sócio cotista que recebam remuneração
decorrente de seu trabalho em empresa urbana ou rural, e o associado eleito
para cargo de direção em cooperativa, associação ou entidade de qualquer
natureza ou finalidade, bem como o síndico ou administrador eleito para
exercer atividade de direção condominial, desde que recebam remuneração;
g) quem presta serviço de natureza urbana ou rural, em caráter eventual,
a uma ou mais empresas, sem relação de emprego;
h) a pessoa física que exerce, por conta própria, atividade econômica de
natureza urbana, com fins lucrativos ou não;

Assim, por determinação legal, o contribuinte individual é segurado obrigató-


rio da Previdência Social. Não obstante a isso, o art. 18, § 1º, da Lei de Benefícios o
exclui do direito à percepção do auxílio-acidente ao asseverar que “Somente poderão
beneficiar-se do auxílio-acidente os segurados incluídos nos incisos I, II, VI e VII
do art. 11 desta Lei”. O objetivo do presente trabalho é averiguar se essa exclusão
constitui ou não afronta ao princípio da igualdade ou se há, de fato, algum motivo
razoável que a justifique.
Em seu texto original, previa a Constituição Federal de 1988 (art. 201, I) que
a Previdência Social se destinaria à “cobertura dos eventos de doença, invalidez,
morte, incluídos os resultantes de acidentes do trabalho, velhice e reclusão”. A Emen-
da Constitucional nº 20, de 15 de dezembro de 1998, suprimiu o trecho referente
aos acidentes do trabalho e incluiu o § 10º, com o seguinte teor: “Lei disciplinará a

114
Exclusão do segurado contribuinte individual do rol de beneficiários do auxílio-acidente

cobertura do risco de acidente do trabalho, a ser atendida concorrentemente pelo


regime geral de previdência social e pelo setor privado”.
A partir do advento da Lei nº 9.032/95, que deu nova redação ao art. 86 da
Lei nº 8.213/91, o auxílio-acidente, antes devido apenas nos casos de “acidente do
trabalho”, passou a ser devido com relação aos acidentes de “qualquer natureza”.
Tal alteração segue a lógica de que o fato gerador do benefício é a incapacidade
parcial e permanente para o exercício da atividade habitual do segurado, pouco
importando as circunstâncias em que ocorrido o acidente, se vinculadas ou não à
atividade profissional do acidentado.
O fato é que o benefício de auxílio-acidente integra o Regime Geral da Previ-
dência Social, do qual, como já mencionado, o contribuinte individual é segurado
obrigatório, sendo que a Constituição Federal, ao tratar do tema, não fez nenhuma
alusão no sentido de excluí-lo de seu âmbito de cobertura. Nesse sentido, as palavras
de Castro e Lazzari24:
A Constituição Federal não estabelece distinção entre os segurados da Previ-
dência Social no tocante ao auxílio-acidente. Portanto, entendemos que deve ser
reconhecido o tratamento isonômico entre os segurados do RGPS. Por outro lado,
a ausência de previsão legal na Lei 8.213/1991 não impede a concessão do auxílio-
-acidente ao contribuinte individual, pois a contribuição que financia esse benefício
não é de responsabilidade dos segurados.
Destaca-se ainda que a alíquota de contribuição do contribuinte individual
é de 20% sobre sua remuneração (art. 21 da Lei nº 8.212/91), enquanto que, por
exemplo, a do segurado empregado, categoria a qual a lei confere direito ao bene-
fício de auxílio-acidente, varia entre o mínimo de 8% e o máximo de 11%. Assim,
sua exclusão da percepção do auxílio-acidente implica em dupla oneração, já que
contribui mais aos cofres do INSS do que determinadas categorias que têm acesso
a esse benefício.
Por outro lado, evidente que a simples menção pela lei de que o contribuinte
individual não possui direito ao auxílio-acidente não o torna imune aos acidentes,
ou seja, não muda a realidade de que todos os segurados da Previdência Social
estão sujeitos a infortúnios que possam implicar na redução permanente de sua
capacidade laborativa. Como assevera Farias25:

24 CASTRO, Carlos Alberto Pereira de; LAZZARI, João Batista. Manual de direito previdenciá-
rio. 21. ed. rev., atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2018, p. 874.
25 FARIAS, Luciana Moraes de. Auxílio-acidente. 2010. 208 f. Dissertação (Mestrado em Direi-
to) − Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010, p. 139. Disponível em:
<https://tede2.pucsp.br/handle/handle/5363>. Acesso em: 10 jun. 2019.

115
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

O risco de acidente de qualquer natureza não tem ligação com a atividade


laborativa do segurado; é um risco que qualquer pessoa está sujeito, desde o empre-
gado que não esteja no local e horário de trabalho, como qualquer outro cidadão:
a dona de casa, o médico, o aposentado; todos são suscetíveis de sofrer acidente
sem ligação laboral.
É necessário, também, que se tenha em mente que a questão ultrapassa os
limites da lei escrita, conforme adverte Russomano26:
O acidente de trabalho e a enfermidade profissional têm aspectos chocan-
tes. Não é possível, por isso, sustentar-se a limitação tradicional dos benefícios
assegurados em lei, nesses casos, apenas, aos empregados e a algumas categorias
profissionais específicas.
De fato, qualquer segurado que exerça atividade remunerada e que tenha sido
vítima de acidente do qual decorra redução de sua capacidade laborativa estará ex-
posto aos riscos sociais daí advindos, independentemente da categoria profissional
a que pertença. Sobre o tema, leciona Aguiar27:

[...] qual seria a razão apta a justificar que o contribuinte individal não
possa ter estendido o direito a este benefício e o dever de contribuir para sua
manutensão?
A verdade é que não há justificativa para tal discriminação. Neste quadro,
em que o auxílio-acidente é uma prestação previdenciária que visa a eliminação
de um risco social e não mais uma simples indenização fundamentada no risco
profissional de responsabilidade do empregador, sendo o contribuinte individual
igualmente um trabalhador, que está contribuindo para o desenvolvimento da
sociedade, não há razão para que ele não possa participar do custeio do auxí-
lio-acidente e a fazer jus ao benefício.

Diante disso, parece não haver razão lógica para excluir o contribuinte indi-
vidual do rol de beneficiários do auxílio-acidente, não se justificando, portanto,
o tratamento diferenciado dado pela norma a pessoas em situação de vulnerabi-
lidade social idêntica pelo simples fato de pertencerem a categorias profissionais
distintas. Considerando que o contribuinte individual é um segurado obrigatório
da Previdência Social, deve ter acesso à universalidade de seus benefícios e ser-

26 RUSSOMANO, Mozart Victor. Curso de previdência social. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense,
1988, p. 378.
27 AGUIAR, Rafael Perales de. Auxílio-acidente: uma análise da estrutura de sua norma jurídi-
ca. 158 f. Dissertação (Mestrado em Direito) − Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
São Paulo, 2016, p. 60. Disponível em: <https://tede2.pucsp.br/handle/handle/5363>. Acesso
em: 10 jun. 2019.

116
Exclusão do segurado contribuinte individual do rol de beneficiários do auxílio-acidente

viços, assim, negar-lhe o benefício de auxílio-acidente, mesmo quando preen-


chidos todos os requisitos legais, constitui afronta ao princípio constitucional
da isonomia.

6. CONTRIBUINTE INDIVIDUAL E AUXÍLIO-ACIDENTE:


O QUE DIZ A JURISPRUDÊNCIA?
Dentre as fontes formais do Direito se destacam, no ordenamento jurídico
brasileiro, as leis, os princípios, a doutrina, e, nos últimos anos, a jurisprudência.
Assim, tem-se que, no estudo de temas de relevância jurídica e social, sua análise
seja imprescindível. Nos tópicos anteriores, abordou-se o tema sob os vieses nor-
mativo (princípios e regras) e doutrinário. Cumpre, então, analisá-lo do ponto de
vista jurisprudencial.
Jurisprudência é o termo utilizado para se referir a decisões já proferidas
pelos julgadores singulares ou pelos tribunais. São precedentes que servem de
base, de exemplo, a casos semelhantes que venham a ser julgados posteriormente.
A jurisprudência pode ter maior ou menor grau de importância, a depender do
sistema jurídico em que se insere: no sistema da Common Law, preponderante nos
Estados Unidos e Inglaterra, os precedentes jurisprudenciais são a fonte principal
do direito, enquanto que na Civil Law, vigente na Europa continental e na América
Latina, incluindo o Brasil, tal posição é ocupada pela lei28. Entretanto, nos últimos
anos, a jurisprudência tem assumido papel de extrema relevância no ordenamento
jurídico brasileiro, subjugando, em muitos casos, a própria lei. Acompanhando tal
mudança, a legislação vem se moldando cada vez mais à Common Law. Exemplo
disso é o art. 927 da Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015, Código de Processo Civil
(CPC), que determina que os juízes e tribunais observem as decisões e súmulas do
Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça.
Nas sociedades atuais, em que as relações interpessoais estão em constante
mutação em virtude do avanço tecnológico e das ciências, a jurisprudência constitui
importante ferramenta de adequação da lei às novas realidades. As leis, enquanto
estáticas, não conseguem acompanhar a dinâmica social. Dessa forma, nem sempre
o julgador encontrará no texto legal a solução adequada para o conflito que lhe
está diante dos olhos. Em outros casos, a norma, por ser baseada em premissas
ultrapassadas, não mais serve de remédio ao problema jurídico que se apresenta.
Daí a necessidade de o magistrado adequar o direito ao caso concreto, de forma

28 GUSMÃO, Paulo Dourado de. Introdução ao estudo do direito. 25. ed. rev. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p. 103.

117
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

que a questão seja dirimida da forma mais justa possível. O exemplo trazido por
Gusmão29 ilustra esta função da jurisprudência:

Pode ocorrer que o caso submetido ao juiz não seja previsto em nenhum texto
legal. Assim, por exemplo, na França, no fim do século passado, prescrevendo o art.
1.382 do Código Civil francês a responsabilidade fundada na culpa provada pelo
lesado, muitos acidentes de trabalho ficaram, antes da lei de 9 de abril de 1898,
sem reparação, por não poder o operário acidentado provar a culpa do patrão. O
que fez a jurisprudência francesa? Decidiu pela responsabilidade do patrão, salvo
se ele provasse a culpa exclusiva do empregado. Vemos aí um caso em que a lei,
anterior a fatos criados pela industrialização, não dava solução para inúmeros
acidentes deixando a parte economicamente mais fraca desamparada, quase
sempre com sua capacidade de trabalho reduzida para toda a vida, quando per-
manente a lesão. A jurisprudência encontrou solução, invertendo o ônus da prova.

Obviamente que o juiz não pode decidir ao seu bel prazer, pois embora lhe
seja conferido interpretar a lei de forma discricionária, tal discricionariedade não
é absoluta, encontrando limites nos princípios e em regras imutáveis, as chamadas
cláusulas pétreas. É necessário à validade da decisão judicial que ela obedeça a de-
terminados preceitos fundamentais. Exemplo disso é a determinação constitucional
(art. 93, IX), reproduzida em leis ordinárias como o CPC (art. 489, II), de que as
decisões judiciais sejam fundamentadas, sob pena de nulidade. De toda forma, é
possível ao julgador decidir de forma contrária à lei quando ela, segundo critérios
de interpretação admitidos pelo direito, se revelar contrária aos princípios ou a
direitos assegurados por outros diplomas legais.
No que concerne ao tema objeto do presente estudo, a jurisprudência dominante
dos tribunais tem aplicado o § 1º, do art. 18, da Lei nº 8.213/91 em sua literalidade,
ou seja, não tem reconhecido o direito do contribuinte individual de receber o
auxílio-acidente, a exemplo do decidido pelo Egrégio Tribunal Regional Federal da
Quarta Região (TRF4) nos autos da Apelação Cível nº 5016238-06.2018.4.04.999930,
cuja ementa se transcreve abaixo:

EMENTA: PREVIDENCIÁRIO. LAUDO PERICIAL. AUXÍLIO ACIDENTE.


REDUÇÃO DA CAPACIDADE LABORATIVA EM CARÁTER DEFINITIVO. CON-

29 GUSMÃO, Paulo Dourado de. Introdução ao estudo do direito. 25. ed. rev. Rio de Janeiro:
Forense, 1999, p. 229.
30 BRASIL. Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Apelação Cível nº 5016238-06.2018.4.04.9999.
Relator: Juíza Federal Taís Schilling Ferraz, Julgado em 02 de outubro de 2018. Disponí-
vel em: <https://jurisprudencia.trf4.jus.br/pesquisa/inteiro_teor.php?orgao=1&documen-
to=9456412>. Acesso em: 10 jun. 2019.

118
Exclusão do segurado contribuinte individual do rol de beneficiários do auxílio-acidente

TRIBUINTE INDIVIDUAL. LEGISLAÇÃO EXCLUDENTE. IMPROCEDÊNCIA. 1.


São requisitos para a concessão do benefício de auxílio-acidente: (a) qualidade
de segurado; (b) a superveniência de acidente de qualquer natureza; (c) a redução
parcial e permanente da capacidade para o trabalho habitual, e (d) o nexo causal
entre o acidente a redução da capacidade. 2. Presente a sequela que autoriza
o deferimento do benefício de auxílio-acidente, conquanto ocasiona redução
da capacidade de trabalho do segurado. 3. Todavia, indevida a concessão do
benefício de auxílio-acidente, uma vez que se trata de contribuinte individual,
categoria de segurado que não faz jus ao auxílio-acidente, conforme artigo 18,
§1º, da Lei 8.213/91.

O entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) não difere do acima


consignado, como se pode compreender da ementa do acórdão prolatado no Agravo
Regimental no Recurso Especial nº 1.171.779-SP31:

PREVIDENCIÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. AU-


XÍLIO-ACIDENTE. BENEFÍCIO INDEVIDO AO TRABALHADOR AUTÔNOMO.
PROVIMENTO NEGADO. 1. Nos termos do art. 18, I, § 1º, da Lei n. 8.213/91,
com a redação dada pela LC n. 150/2015, “somente poderão beneficiar-se do
auxílio-acidente os segurados incluídos nos incisos I, II, VI e VII do art. 11 desta
lei”, ou seja, o segurado empregado, o empregado doméstico, o trabalhador
avulso e o segurado especial, não figurando nesse rol o trabalhador autônomo,
atualmente classificado como contribuinte individual pela Lei n. 9.876/1999.
2. Os trabalhadores autônomos assumem os riscos de sua atividade e, como
não recolhem contribuições para custear o acidente de trabalho, não fazem
jus ao auxílio-acidente. Precedente da Terceira Seção. 3. Agravo regimental
não provido.

Embora escassa, existe jurisprudência alicerçada no princípio da isonomia,


apontando para o reconhecimento do direito do contribuinte individual de perceber
o benefício de auxílio-acidente sempre que presentes os demais requisitos. Nesse
sentido, decisão da 1ª Turma Recursal do Juizado Especial Federal de Santa Catarina
no Recurso Cível nº 5000361-91.2012.404.720032:

31 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Agravo Regimental no Recurso Especial nº 1.171.779


– SP. Relator: Ministro Rogerio Schietti Cruz, Julgado em 10 de novembro de 2015. Disponí-
vel em: <https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/inteiroteor/?num_registro=200902381037&-
dt_publicacao=25/11/2015>. Acesso em: 10 jun. 2019.
32 SANTA CATARINA. 1ª Turma Recursal do Juizado Especial Federal. Recurso Cível nº
5000361-91.2012.404.7200. Relator para acórdão: Juiz Federal João Batista Lazzari, Julgado em
13 de novembro de 2012. Disponível em: <https://jurisprudencia.trf4.jus.br/pesquisa/inteiro_
teor.php?orgao=3&documento=4765483>. Acesso em: 10 jun. 2019.

119
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

EMENTA: PREVIDENCIÁRIO. AUXÍLIO-ACIDENTE. SEGURADOS. TRATA-


MENTO ISONÔMICO. CONTRIBUINTE INDIVIDUAL. DIREITO RECONHE-
CIDO. 1. A Constituição Federal não estabelece distinção entre os segurados
da Previdência Social quanto o direito ao auxílio-acidente. 2. Reconhecimento
do direito ao tratamento isonômico entre os segurados do RGPS. 3. A ausência
de previsão na Lei n. 8.213/91 não impede a concessão do auxílio-acidente ao
contribuinte individual, pois a contribuição que financia esse benefício não é
da responsabilidade dos segurados.

Na mesma senda, o acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina


na Apelação Cível nº 2005.016900-033:

APELAÇÃO CÍVEL − ACIDENTE DO TRABALHO − SEGURADO AUTÔNO-


MO − INCAPACIDADE PARA O EXERCÍCIO DAS ATIVIDADES LABORATIVAS −
“AUXÍLIO-ACIDENTE” DEVIDO − MARCO INICIAL − CESSAÇÃO DO “AUXÍLIO
DOENÇA” − INSS − AUTARQUIA FEDERAL − CUSTAS DEVIDAS PELA METADE
(ART. 33, PARÁGRAFO ÚNICO, DA LC N. 156/97) − HONORÁRIOS − SÚMULA
111 DO STJ − RECURSO PROVIDO. Em razão de todos os cidadãos possuírem
tratamento idêntico pela lei, o segurado autônomo que contribui para os cofres
da Previdência também deve ter o direito de perceber o benefício “auxílio-aci-
dente”. “Tendo em vista que o obreiro ficou com sua capacidade de trabalho
reduzida a partir do acidente, conforme comprovado pela perícia judicial, é de
lhe ser concedido o auxílio-acidente nos termos do art. 86 da Lei n. 8.213/91,
conforme consta do decisum a quo, uma vez que este será concedido “quando,
após consolidação das lesões decorrentes de acidente de qualquer natureza,
resultar seqüelas que impliquem redução da capacidade para o trabalho que
habitualmente exercia” (AC n. 1999.017242-2, de Braço do Norte, rel. Des.
Anselmo Cerello). Havendo pagamento de “auxílio-doença”, a concessão
do benefício “auxílio-acidente” é devida a partir da cessação daquele, ou seja,
o dia seguinte ao da alta médica. Os honorários advocatícios, nas ações
acidentárias movidas contra o INSS, devem ser fixados no percentual de 10%
sobre as parcelas vencidas até a data da prolação da sentença, conforme a
Súmula 111 do STJ. O Instituto Nacional do Seguro Social − INSS, quando
demandado e vencido na Justiça Estadual, deve ser condenado ao pagamento
de custas processuais pela metade, consoante dispõe o parágrafo único do art.
33 da LC n. 156/97, alterada posteriormente pela LC n. 161/97.

33 SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina. Apelação Cível nº


2005.016900-0. Relator: Desembargador Rui Fortes, Julgado em 30 de agosto de 2005. Dis-
ponível em: <http://busca.tjsc.jus.br/jurisprudencia/html.do?q=&only_ementa=&frase=&i-
d=AAAbmQAABAAER66AAD&categoria=acordao>. Acesso em: 10 jun. 2019.

120
Exclusão do segurado contribuinte individual do rol de beneficiários do auxílio-acidente

No voto proferido no julgado34 cuja ementa foi acima transcrita, referiu o


Desembargador Presidente, Pedro Manoel Abreu, que:

[...] as normas que criam diferenciações abusivas e arbitrárias, via de regra


são incompatíveis com a Constituição Federal, devendo o Poder Judiciário,
no exercício de sua função jurisdicional, dizer o direito no caso em concreto,
utilizando os mecanismos constitucionais necessários a interpretar de forma
única e igualitária as normas jurídicas.
In casu, verifica-se que o benefício foi indeferido porque a categoria da
qual fazia parte o obreiro estava ausente na legislação previdenciária. Con-
tudo, em razão de todos os cidadãos possuírem tratamento idêntico pela lei,
o segurado autônomo também deve ter o direito de percepção do benefício
“auxílio-acidente”.

Assim, em se tratando de um direito fundamental abrangido por uma legislação


hierarquicamente superior, afigura-se inarredável o direito de qualquer cidadão
que contribua para os cofres da Previdência, todos benefícios por ela garantidos.
Como visto, a jurisprudência dos tribunais é quase uníssona no sentido de
que o contribuinte individual não possui direito ao auxílio acidente em virtude de
a Lei de Benefícios excluí-lo expressamente, entretanto, em alguns poucos casos,
o entendimento foi pela possibilidade de o contribuinte individual, portador de
sequela decorrente de acidente de qualquer natureza que implique em redução da
capacidade laborativa, perceber o aludido benefício.

7. INICIATIVAS DO PODER LEGISLATIVO COM RELAÇÃO À


MATÉRIA
Como referido no tópico anterior, em virtude de as mudanças na sociedade
serem rápidas e imprevisíveis, é impossível que as leis acompanhem, em tempo real,
essas alterações. Isso porque, para entrarem em vigor, elas necessitam ser aprovadas
pelas duas casas do Congresso Nacional (Senado e Câmara dos Deputados), e, pos-
teriormente, sancionadas pelo Presidente da República. Esse processo, na maioria
das vezes, é deveras lento, de forma que entre a apresentação de um Projeto de Lei
(PL) e sua entrada em vigor podem decorrer anos.

34 SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina. Apelação Cível nº


2005.016900-0. Relator: Desembargador Rui Fortes, Julgado em 30 de agosto de 2005. Dis-
ponível em: <http://busca.tjsc.jus.br/jurisprudencia/html.do?q=&only_ementa=&frase=&i-
d=AAAbmQAABAAER66AAD&categoria=acordao>. Acesso em: 10 jun. 2019.

121
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Não obstante, iniciativas do Poder Legislativo com o intuito de corrigir a


discrepância gerada pelo art. 18, § 1º, da Lei nº 8.213/91 são de suma importância
para ampliar o debate sobre o tema, e fortalecem nossa convicção de que o referido
dispositivo legal é contrário ao princípio da isonomia. Nesse sentido, dentre as ações
mais recentes do legislador, destaca-se o PL nº 6.870/13, de autoria do então Depu-
tado Federal Acelino Popó, que dispõe sobre a extensão do direito ao benefício do
auxílio-acidente ao contribuinte individual, dentre outras categorias de segurados.
Na justificação do Projeto, o autor refere que há “[...] discriminação contra o
contribuinte individual e ao segurado facultativo, com relação a não concessão do
auxílio-acidente, uma vez que esse benefício decorre de acidente de qualquer natu-
reza e não somente de trabalho”35. Tal PL foi apresentado em 03/12/2013, todavia,
como o mandato do Deputado findou no ano de 2014, foi arquivado em 31/01/2015,
nos termos do art. 105 do Regimento Interno da Câmara dos Deputados (RICD),
aprovado pela Resolução nº 17/89, que dispõe que “Finda a legislatura, arquivar-se-
-ão todas as proposições que no seu decurso tenham sido submetidas à deliberação
da Câmara e ainda se encontrem em tramitação [...]”36.
Ainda mais recente, o PL nº 1.347/15, de autoria do Deputado Federal Carlos
Bezerra, também versa sobre a alteração do § 1º do art. 18 da Lei nº 8.213/91 e do
art. 21 da Lei nº 8.212/91, para que o contribuinte individual passe a integrar o rol
dos segurados abrangidos pelo auxílio-acidente mediante contribuição adicional
de 0,5%37. Arquivado em 31/01/2019, também nos termos do art. 105 do RICD, e

35 BRASIL. Projeto de Lei nº 6.870, de 2013 (da Câmara dos Deputados). Dispõe sobre a ex-
tensão do direito ao benefício do auxílio-acidente ao trabalhador autônomo − contribuinte
individual e ao segurado facultativo − donas de casa, estudantes, síndicos de condomínio
não remunerados, concedido pelo Regime Geral de Previdência Social. Diário da Câmara
dos Deputados, Brasília, 17 dez. 2013, p. 59794-59795. Disponível em: <https://www.camara.
leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=27E9B68B98982C56F216FEFC-
5652DBAF.proposicoesWebExterno2?codteor=1201484&filename=PL+6870/2013>. Acesso
em 10 jun. 2019.
36 BRASIL. Resolução nº 17, de 1989. Aprova o Regimento Interno da Câmara dos Deputados.
Disponível em: <https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/regimento-in-
terno-da-camara-dos-deputados/arquivos-1/RICD%20atualizado%20ate%20RCD%206-2019.
pdf>. Acesso em: 10 jun. 2019.
37 BRASIL. Projeto de Lei nº 1.347, de 2015 (da Câmara dos Deputados). Altera a redação do §
1º do art. 18 da Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, e do art. 21 da Lei nº 8.212, de 24 de julho
de 1991, para dispor, respectivamente, sobre a concessão do auxílio-acidente ao segurado con-
tribuinte individual do Regime Geral de Previdência Social e a alíquota contributiva adicional
para financiamento deste benefício previdenciário. Diário da Câmara dos Deputados, Brasília,
13 mai. 2015, p. 449-450. Disponível em: <https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_
mostrarintegra?codteor=1327655&filename=PL+1347/2015>. Acesso em 10 jun. 2019.

122
Exclusão do segurado contribuinte individual do rol de beneficiários do auxílio-acidente

desarquivado em 12/03/2019 mediante requerimento do autor, conforme parágrafo


único do referido dispositivo, atualmente, o Projeto se encontra em tramitação na
Câmara dos Deputados.
Em que pese tais esforços, é inaceitável que os contribuintes individuais fiquem
desprotegidos enquanto aguardam uma solução da questão pelo moroso viés le-
gislativo, o princípio da isonomia precisa ser respeitado, mesmo que isso implique
em contrariar a lei em vigor, afinal, esta é que deve respeito àquele, não o contrário.
Diante disso, é preciso que os representantes do Estado lancem mão de soluções
alternativas e imediatas para o problema, garantindo tratamento isonômico a todos
os segurados do RGPS.

CONCLUSÃO
Como visto, a exclusão do contribuinte individual do direito ao auxílio-acidente
pela legislação atual é resquício de sua origem histórica, eis que o benefício surgiu
em virtude dos acidentes de trabalho envolvendo os operários das fábricas do século
XVIII, auge da Revolução Industrial. Naquela época, o pagamento do seguro contra
acidentes do trabalho era de responsabilidade do empregador, assim como previam
as primeiras legislações brasileiras que versavam sobre a matéria.
Ocorre, porém, que, com o passar dos anos, tal responsabilidade passou a
ser do Estado, sendo que hoje, no Brasil, o benefício integra o Regime Geral de
Previdência Social e é pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social, Autarquia
do Governo Federal. Além disso, a partir da Lei nº 9.032/95, que deu nova redação
ao art. 86 da Lei de Benefícios, o benefício de auxílio-acidente passou a ser devido
nos casos de acidente de qualquer natureza, e não mais apenas nos relacionados ao
trabalho, rompendo, assim, com a antiga dogmática.
Diante da análise feita no presente trabalho, conclui-se que o texto do § 1º
do art. 18 da Lei nº 8.213/91 não encontra justificativa racional na conjuntura
atual do ordenamento jurídico pátrio, uma vez que o contribuinte individual, por
determinação do art. 11, V, do mesmo diploma legal, é contribuinte obrigatório da
Previdência Social e, portanto, integrante do RGPS, razão pela qual deve ter acesso
a todos os seus benefícios e serviços. Dessa forma, negar-lhe o benefício de auxílio-
-acidente pelo simples fato de não pertencer a determinada categoria profissional
implica em discriminação abusiva, afrontando, assim, o princípio constitucio-
nal da isonomia.
Não se pode, por simples formalismo, tolher do contribuinte individual a ga-
rantia do mínimo existencial e, por assim dizer, de uma vida digna, fundamento do
Estado Democrático de Direito (art. 1º, III, da Constituição Federal de 1988). Sua
123
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

exclusão do rol de segurados que fazem jus ao benefício de auxílio-doença, além de


implicar em diferenciação arbitrária, se revela injusta e cruel para com aqueles cujo
sustento próprio (e, não raro, de seus familiares) advém única e exclusivamente da
sua própria força de trabalho, como é o caso do trabalhador autônomo e do pequeno
empresário individual.
Por outro lado, a história demonstra o relevante papel exercído pela jurispru-
dência na construção de uma sociedade mais justa e igualitária, assim, entendemos
que, diante da inércia legislativa com relação ao tema, os julgadores possuem em
suas mãos importante ferramenta para corrigir essa distinção absurda oriunda da
lei e, mais uma vez, garantir que a justiça seja feita.

REFERÊNCIAS
AGUIAR, Rafael Perales de. Auxílio-acidente: uma análise da estrutura de sua norma
jurídica. 158 f. Dissertação (Mestrado em Direito) − Pontifícia Universidade Católica
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124
Exclusão do segurado contribuinte individual do rol de beneficiários do auxílio-acidente

BRASIL. Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991. Dispõe sobre os Planos de Benefícios da Pre-
vidência Social e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/
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providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9032.htm>.
Acesso em: 10 jun. 2019.
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do § 1º do art. 18 da Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, e do art. 21 da Lei nº 8.212,
de 24 de julho de 1991, para dispor, respectivamente, sobre a concessão do auxílio-
-acidente ao segurado contribuinte individual do Regime Geral de Previdência Social
e a alíquota contributiva adicional para financiamento deste benefício previdenciário.
Diário da Câmara dos Deputados, Brasília, 13 mai. 2015, p. 449-450. Disponível em:
<https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=132765
5&filename=PL+1347/2015>. Acesso em 10 jun. 2019.
BRASIL. Projeto de Lei nº 6.870, de 2013 (da Câmara dos Deputados). Dispõe sobre a
extensão do direito ao benefício do auxílio-acidente ao trabalhador autônomo − con-
tribuinte individual e ao segurado facultativo − donas de casa, estudantes, síndicos de
condomínio não remunerados, concedido pelo Regime Geral de Previdência Social.
Diário da Câmara dos Deputados, Brasília, 17 dez. 2013, p. 59794-59795. Disponível
em: <https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=2
7E9B68B98982C56F216FEFC5652DBAF.proposicoesWebExterno2?codteor=120148
4&filename=PL+6870/2013>. Acesso em 10 jun. 2019.
BRASIL. Resolução nº 17, de 1989. Aprova o Regimento Interno da Câmara dos Depu-
tados. Disponível em: <https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/
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Relator: Juíza Federal Taís Schilling Ferraz, Julgado em 02 de outubro de 2018. Dispo-
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CASTRO, Carlos Alberto Pereira de; LAZZARI, João Batista. Manual de direito previden-
ciário. 21. ed. rev., atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2018.

125
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

FARIAS, Luciana Moraes de. Auxílio-acidente. 2010. 208 f. Dissertação (Mestrado em


Direito) − Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010. Disponível
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SANTA CATARINA. Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina. Apelação Cível nº
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Disponível em: <http://busca.tjsc.jus.br/jurisprudencia/html.do?q=&only_ementa=&fr
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126
A VISTORIA TÉCNICA E SUA
IMPORTANTE RELAÇÃO COM A
INSTRUMENTALIDADE DO PROCESSO
ADMINISTRATIVO PREVIDENCIÁRIO
ACIDENTÁRIO

ALEXANDRE S. TRICHES1

INTRODUÇÃO
O processo administrativo previdenciário tem sido constantemente redimen-
sionado para atender as demandas da previdência em matéria de benefício. Se for
computado desde 1988 quando o devido processo legal no âmbito administrativo
passa a fazer parte do texto constitucional as transformações não são poucas.
Recentemente, mais especificamente durante o ano de 2015 foi publicado
resolução do Instituto Nacional do Seguro Social para fins de regulamentação da
vistoria técnica: trata-se da resolução INSS/PRES nº 485/2015 que dispõe sobre
procedimentos a serem adotados pela perícia médica na inspeção no ambiente de
trabalho dos segurados.
Vistoria técnica é um meio de prova do processo administrativo previdenciá-
rio que tem como objetivo realizar uma avaliação técnica no ambiente de trabalho
visando dirimir dúvidas sobre atividade de trabalho, características do ambiente de
trabalho e cumprimento de normativas trabalhistas e previdenciárias. Ela é sempre
realizada por perito médico previdenciário do INSS.

1 Mestre em Direito Previdenciário pela PUC-SP. Advogado. Coordenador e professor dos cur-
sos G4 atualização previdenciária.
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

A vistoria é diferente da pesquisa externa, situação a qual o servidor adminis-


trativo é autorizado a comparecer em local previamente determinado para confirmar
dados alegados pelas partes no processo. A pesquisa está prevista no artigo 103 da
Instrução Normativa INSS PRES nº 77/2015.
A vistoria técnica é o meio de prova cabível no processo administrativo para
avaliar o meio ambiente de trabalho, em especial no que se refere a análise de do-
cumentos laborais como ppra, pcmso, ltcat, dentre outros, bem como se a empresa
promove o fornecimento de equipamentos de proteção individual e coletiva, está
apta para reabilitação profissional, dirimir dúvidas sobre data de início da incapa-
cidade, dentre outras hipóteses previstas na legislação.
Acontece que o procedimento da vistoria ainda não é devidamente praticado
pelas agências da previdência social e até mesmo no âmbito do Conselho de Recursos
da Previdência Social seu deferimento é muito raro. Em face disso as ações judiciais
em desfavor o INSS que tratam sobre os temas controversos tornam-se sobrepostas
a um procedimento administrativo que se devidamente instruído poderia evitar a
instauração do processo judicial.
As mortes, acidentes e doenças relacionadas ao trabalho são uma questão de
saúde pública, questões estas que estão diretamente vinculadas a previdência, uma
vez que o artigo 194 da Constituição Federal de 1988 instaura uma interpretação
sistêmica da Seguridade social através do enlace de três subsistemas: previdência,
assistência e saúde.
O objetivo do presente artigo é, nessa linha, analisar a vistoria técnica e sua
aplicabilidade nos processos previdenciário acidentários junto ao INSS, com enfoque
em seu regime jurídico, hipóteses de cabimento e efetividade.
Os benefícios acidentários da Previdência social.
São quatro as espécies de benefícios acidentários na Previdência Social: auxílio-
-doença, aposentadoria por invalidez, pensão por morte e auxílio-acidente. Elas
terão reconhecimento acidentário quando restar caracterizado os nexos técnicos
previstos na legislação. Segundo artigo 3º da Instrução normatiza nº 33/2008 do INSS:

Art. 3º O nexo técnico previdenciário poderá ser de natureza causal ou


não, havendo três espécies:
I − nexo técnico profissional ou do trabalho, fundamentado nas associações
entre patologias e exposições constantes das listas A e B do anexo II do Decreto
nº 3.048/99;
II − nexo técnico por doença equiparada a acidente de trabalho ou nexo
técnico individual, decorrente de acidentes de trabalho típicos ou de trajeto,
bem como de condições especiais em que o trabalho é realizado e com ele
relacionado diretamente, nos termos do § 2º do art. 20 da Lei nº 8.213/91;

128
Vistoria técnica e sua importante relação com a instrumentalidade do processo administrativo previdenciário

III − nexo técnico epidemiológico previdenciário, aplicável quando houver


significância estatística da associação entre o código da Classificação Interna-
cional de Doenças-CID, e o da Classificação Nacional de Atividade Econômi-
ca-CNAE, na parte inserida pelo Decreto nº 6.042/07, na lista B do anexo II do
Decreto nº 3.048/99.

O auxílio-acidente é um benefício de natureza indenizatória pago ao segurado


do INSS quando, em decorrência de acidente, apresentar sequela permanente que
reduza sua capacidade para o trabalho. Essa situação é avaliada pela perícia médica
do INSS. Como se trata de uma indenização, não impede o cidadão de continuar
exercendo atividade remunerada.
O auxílio-doença é um benefício por incapacidade devido ao segurado do INSS
que comprove, em perícia médica, estar temporariamente incapaz para o trabalho
em decorrência de doença ou acidente.
A pensão por morte é um benefício destinado aos dependentes (cônjuge,
companheiro, filhos e enteados menores de 21 anos ou inválidos, desde que não
tenham se emancipado; pais; irmãos não emancipados, menores de 21 anos ou
inválidos) de beneficiário que era aposentado ou trabalhador que exercia sua ati-
vidade. O benefício é devido aos dependentes do trabalhador que vier a falecer ou,
em caso de desaparecimento, tiver sua morte presumida declarada judicialmente
(for declarado oficialmente morto) .
A aposentadoria por invalidez é um benefício devido ao trabalhador per-
manentemente incapaz de exercer qualquer atividade laborativa e que também
não possa ser reabilitado em outra profissão, de acordo com a avaliação da perícia
médica do INSS. O benefício é pago enquanto persistir a invalidez e o segurado
pode ser reavaliado pelo INSS pelos programas de revisão da autarquia.
O reconhecimento acidentário é tradicionalmente reconhecido na Previdência
Social pela apresentação da CAT – comunicação de acidente de trabalho. A legislação
atual mantém essa exigência no artigo 22 da lei 8.213/91, que define o prazo para
a emissão do documento: até o primeiro dia útil seguinte ao da ocorrência ou, no
caso de morte, a necessidade de comunicação imediata.
Em 2006 foi incluído o artigo 21-A na lei nº 8.213/91 criando o NTEP que a
partir do cruzamento das informações de código da Classificação Internacional de
Doenças – CID-10 e do código da Classificação Nacional de Atividade Econômica
– CNAE aponta a existência de uma relação entre a lesão ou agravo e a atividade
desenvolvida pelo trabalhador.
Por outro lado, o fato do reconhecimento pelo NTEP se dar por presunção, do
tipo relativa, fez com que a empresa fosse recepcionada no processo administrativo
129
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

previdenciário para poder postular a não aplicação do nexo técnico epidemiológico


previdenciário, bem como para manejo das etapas recursais.
A vistoria técnica no processo administrativo previdenciário
A vistoria técnica no processo junto ao INSS, conforme já referido, foi regu-
lamentada no ano de 2015 e informa que a inspeção terá as seguintes finalidades:

Art. 4º A inspeção no ambiente de trabalho terá por finalidade:


I − reconhecer tecnicamente o nexo entre o trabalho e o agravo;
II − verificar se existe, por parte da empresa, cumprimento quanto às normas
de segurança e higiene do trabalho;
III − verificar a adoção e o uso das medidas coletivas e individuais de
proteção e segurança da saúde do trabalhador;
IV − constatar se a doença ou lesão invocada como causa do benefício junto
ao INSS é pré-existente ou não ao ingresso no Regime Geral de Previdência
Social, excetuando-se os casos de progressão ou agravamento;
V − verificar se as informações contidas no PPP estão em concordância com
o LTCAT utilizado como base para sua fundamentação, com fins à aposentadoria
especial;
VI − confirmar se as informações contidas LTCAT estão em concordância
com o ambiente de trabalho inspecionado, com fins à aposentadoria especial; e
VII − avaliar a compatibilidade da capacidade laborativa do reabilitando
frente ao posto de trabalho de origem e frente ao posto de trabalho proposto
pelo empregador.

O tema tem uma íntima relação com a matéria acidentária, pois todos os
incisos do artigo acima citada são procedimentos de grande importância para o
reconhecimento do caráter acidentário dos benefícios. Serão situações dos mais
diversos tipos, tais como contestação por parte da empresa no enquadramento do
NTEP, segurado com discorda da não consideração do acidente, discussões sobre
existência de concausas, excludentes, etc. Ou seja, muitas poderão ser as situações
nas quais a vistoria técnica poderá ser realizada e elas serão sempre promovidas
pela perícia médica do INSS.
A vistoria visa confrontar as provas apresentadas na perícia médica com o
meio ambiente do trabalho e com os documentos histórico laborais mantidos pela
empresa. Devem ser observadas as normas gerais, aquelas contidas no manual de
perícias médicas da previdência social, bem como decreto nº 3.048/99 (regulamento
da Previdência Social) e instruções normativas.
Dispõe o manual de periciais medicas da previdência social que os dados
obtidos no exame médico pericial devem ser registrados no Laudo Médico Pericial
130
Vistoria técnica e sua importante relação com a instrumentalidade do processo administrativo previdenciário

– LMP, que é a peça médico legal básica do processo, quanto à sua parte técnica.
Aqui, no caso específico da vistoria teremos o relatoria técnico da vistoria.
O perito previdenciário deve ter em mente que o documento respondido por
ele tem valor probante de suma importância, no que tange aos benefícios por in-
capacidade. É decisivo para o interessado e para o INSS, destinado a produzir um
efeito na via administrativa, podendo transitar na via recursal do INSS ou mesmo
em Juízo. Por isso também a importância de que a linguagem seja clara e objetiva,
com todos os dados técnicos preenchidos e fundamentados.
Com relação ao formulário da vistoria deverá conter:

Art. 7º O Formulário de Inspeção no Ambiente de Trabalho (Anexo V) deverá


conter, obrigatoriamente:
I − identificação da empresa, dos acompanhantes, do segurado e dos
documentos solicitados para análise;
II − descrição da atividade (registrar as atividades desenvolvidas pelo
segurado em cada função e setor, incluindo a atual e as pregressas);
III − riscos ambientais (agentes físicos, químicos, biológicos), fatores
ergonômicos, psicofísicos e riscos de acidentes;
IV − comentários complementares (elementos eventualmente existentes e
não apontados anteriormente, mas necessários ao esclarecimento da matéria
em questão);
V − conclusão final que deverá conter, conforme o caso:
a) o reconhecimento ou não do nexo entre o trabalho e o agravo;
b) o enquadramento de condições especiais (relatar a existência de efetiva
exposição ao agente nocivo, habitualidade e permanência da exposição);
c) a capacidade laborativa do reabilitando frente ao posto de trabalho de
origem e ao posto de trabalho proposto pelo empregador; e
d) encaminhamentos adicionais que venham a ser realizados, tais como
Representações Administrativas − RA a outros órgãos.

Compete ao perito médico o registro das informações declaradas pelo segurado,


referentes à profissão ou ocupação do examinado, devendo ser realizado de forma
a caracterizar adequadamente o tipo de atividade por ele exercida. Inicialmente a
função profissional e seu histórico laboral, evitando-se expressões vagas ou gené-
ricas, como ajudante, operário, servente, bancário, comerciário.
O Perito necessita investigar cuidadosamente o tipo de atividade, as condi-
ções em que é exercida, se em pé, se sentado, por quanto tempo, com qual grau de
esforço físico e mental, atenção continuada, a mímica profissional (movimentos e
131
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

gestos para realizar a atividade, etc.). As condições do ambiente em que o trabalho


é exercido podem, também, fornecer subsídios importantes à avaliação.
Para isso fundamental a observância da Resolução INSS/PRES nº 485/2015:

Art. 2º Para inspeção no ambiente de trabalho, deverão ser observados os


elementos inerentes à história clínica e ocupacional, descritos nos seguintes
documentos:
I − Prontuário Médico;
II − PPP e demais dados da Análise de Função;
III − Laudo Técnico das Condições de Ambiente de Trabalho − LTCAT;
IV − Programa de Prevenção de Riscos Ambientais − PPRA;
V − Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional − PCMSO;
VI − Carteira de Trabalho, para análise dos vínculos empregatícios
anteriores; e
VII − Comunicação de Acidente do Trabalho − CAT (se houver).
Parágrafo único. Para que a Perícia Médica disponha dos documentos
relacionados neste artigo, que sejam de responsabilidade da empresa, deverá
solicitá-los por meio do Formulário de Solicitação de Documentos Médicos
(Anexo I).

Deve-se registrar, ainda, dados da empresa, os servidores responsáveis pela


inspeção se há acompanhantes com o médico perito e a relação dos documentos da
empresa solicitados para análise. Após deve haver a descrição da visita.
A descrição deve ser o mais pormenorizada possível, enfatizando principal-
mente os elementos que guardam relação direta com as queixas ou os motivos do
afastamento e a atividade laborativa, descrevendo os sinais negativos e positivos de
forma clara e objetiva. Sempre que possível, esses dados devem ser qualificados e
quantificados com descrição das manobras e contramanobras.
São as considerações acerca da conclusão da inspeção que deve ser bem funda-
mentada, uma vez que se trata de matéria médico legal com repercussão na esfera
administrativa do INSS, recursal e judicial. O Perito deve caracterizar a existência
ou não do nexo acidentário.
Por fim deve fazer a fixação das datas do início da doença (DID) e da inca-
pacidade (DII) é de extrema importância para gerar, ou não, o reconhecimento do
direito ao benefício, segundo enquadramento nos critérios de qualidade de segurado
e cumprimento de carência.
Na realização do exame médico pericial, o Perito deverá informar se a doença
que motivou o afastamento guarda nexo com o trabalho, conforme orientações

132
Vistoria técnica e sua importante relação com a instrumentalidade do processo administrativo previdenciário

contidas no Manual de Acidente de Trabalho, aprovado pela Resolução n° 535/


PRES/INSS, de 2016.
Da decisão do perito poderá ser interposto recurso ao Conselho de Recursos da
Previdência Social (CRPS) até trinta dias após a data em que tomar conhecimento
da concessão do benefício em espécie acidentária por nexo técnico profissional
ou do trabalho, conforme art. 126 da Lei nº 8.213/91, quando dispuser de dados
e informações que demonstrem que os agravos não possuem nexo técnico com o
trabalho exercido pelo trabalhador.
Da aplicabilidade da vistoria técnica nos processos previdenciários acidentários
Dentro da fase de instrução de qualquer processo administrativo, a doutrina
moderna ensina que a realização de avaliações técnicas é um direito do administrado,
bem como um dever da administração de promover a sua execução.
WASHINGTON leciona que:

A inspeção administrativa é o tipo de prova consistente na visão direta do


julgador sobre determinado fato administrativo de interesse do processo. Por in-
termédio dele aquele que vai julgar obtém um convencimento direto do conflito
ou de determinada circunstância fática a ser provada que não obteria com tanta
precisão através do depoimento das partes ou da colheita da prova testemunhal.2

Segundo o autor ela deve ser em dia e hora determinada com a intimação prévia
das partes, a autoridade administrativa ou os componentes do órgão processante,
se dirigirá ou se dirigirão ao local em que se verificara a inspeção, lavrando-se ter-
mos circunstanciado do que foi observado, com a assinatura de todos os presentes,
podendo ser instruídos com desenho, gráfico ou fotografia.
A diligencia possui previsão inicialmente na Lei nº 9.784/99:

Art. 2o A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da


legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralida-
de, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência.
Parágrafo único. Nos processos administrativos serão observados, entre
outros, os critérios de:
(...)
X − garantia dos direitos à comunicação, à apresentação de alegações fi-
nais, à produção de provas e à interposição de recursos, nos processos de que
possam resultar sanções e nas situações de litígio;

2 BARROS, Wellington Pacheco. Curso de processo Administrativo. Porto Alegre, Livraria do Ad-
vogado Editora. 2005.

133
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

A instrução normativa INSS PRES nº 77/2015 prevê norma similar:

Art. 680. As atividades de instrução destinadas a averiguar e comprovar os


requisitos legais para o reconhecimento de direito aos benefícios e serviços da
Previdência Social serão realizadas pelo INSS, seja o processo constituído por
meio físico ou eletrônico.
Parágrafo único. O não cumprimento de um dos requisitos legais para o
reconhecimento de direitos ao benefício ou serviço não afasta o dever do INSS
de instruir o processo quanto aos demais.

Por fim, nunca é demais reproduzir o texto constitucional que determina a


observância do devido processo legal também nos processos administrativos. A
norma tem status de direito fundamental:

Art. 5º.
LV − aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados
em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e re-
cursos a ela inerentes;

Provar é segundo LESSA a fase do processo em que as partes procuram de-


monstrar o que objetivam, sobretudo para demonstrar a veracidade ou falsidade
da alegação e das circunstancias que possam influir no julgamento. No caso dos
benefícios acidentários da Previdência social essa prova é relevante pois será através
dela que se buscará a verdade material.3
BERMAN refere que a recusa na produção de prova pericial deve se dar apenas
nos casos excepcionais de desnecessidade, prescindibilidade e impraticabilidade da
prova. Segundo a autora a prova será desnecessária quando a questão não depender
de conhecimento técnico ou não tiver a mínima utilidade probatória, será prescindí-
vel na hipótese de existirem outras provas suficientes no processo que demonstrem
o fato que se pretenda provar e será impraticável quando não puder ser realizada
sob o ponto de vista técnico.4
Nesses termos verifica-se a plena compatibilidade da vistoria técnica com a
matéria que é objeto do processo administrativo previdenciário acidentário. Aliás
nunca é demais referir que o benefício da previdência social possui garantia cons-
titucional, conforme preconiza o texto:

3 LESSA, Sebastião José. Direito administrativo disciplinar interpretado pelos tribunais. Minas Ge-
rais, Editora Forum, 2008.
4 BERMANN, Vanessa Carla Vidutto. Processo administrativo fiscal previdenciário. São Paulo, Ltr,
2010.

134
Vistoria técnica e sua importante relação com a instrumentalidade do processo administrativo previdenciário

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho,


a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção
à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta
Constituição.

Por sua vez a proteção do trabalho, inclusive no que tange a acidente é :

Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que
visem à melhoria de sua condição social:
XXII − redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de
saúde, higiene e segurança;

CONCLUSÃO
Desde o advento da Constituição Federal de 1988 a evolução do processo
administrativo previdenciário é uma realidade. Apesar disso o reconhecimento
do benefício na autarquia previdenciária ainda está muito restrito aquelas hipó-
teses em que os dados sobre o segurado estão devidamente cadastrados no INSS.
Quando a previdência não possui previamente em seus sistemas informatizados
os dados relacionados a prestação postulada pelo segurado torna-se muito difícil
o reconhecimento do direito.
Diante do indeferimento do INSS o acesso ao poder Judiciário tem sido a
medida mais rápida e efetiva para solucionar o erro administrativo. As restrições
orçamentárias vividas pelo país tem demandado uma maior atenção para proce-
dimentos administrativos que se fossem melhor utilizados poderiam permitir o
reconhecimento do benefício na instância administrativa, evitando-se a provo-
cação desnecessária do Poder Judiciário. É nesse contexto que surge a disposição
de promover a análise contida no presente artigo, dentro da temática do acidente
de trabalho.

BIBLIOGRAFIA
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mentos a serem adotados pela Perícia Médica na inspeção no ambiente de trabalho
dos segurados.
BRASIL. Instrução Normativa INSS/PRES nº 77 de 21 de janeiro de 2015. Estabelece rotinas
para agilizar e uniformizar o reconhecimento de direitos dos segurados e beneficiários
da Previdência Social, com observância dos princípios estabelecidos no art. 37 da
Constituição Federal de 1988.

135
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

BARROS, Wellington Pacheco. Curso de processo Administrativo. Porto Alegre, Livraria do


Advogado Editora. 2005.
BERMANN, Vanessa Carla Vidutto. Processo administrativo fiscal previdenciário. São Paulo,
Ltr, 2010.
LESSA, Sebastião José. Direito administrativo disciplinar interpretado pelos tribunais. Minas
Gerais, Editora Forum, 2008.

136
MILITAR TEMPORÁRIO, ACIDENTE EM
SERVIÇO E LICENCIAMENTO ARBITRÁRIO:
A VIOLAÇÃO DO PRINCÍPIO DA
DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA

ARIANI MAIDANA ZANARDO1

INTRODUÇÃO
A atividade castrense realizada no âmbito das Forças Armadas possui peculia-
ridades que se diferenciam do âmbito civil e, da mesma forma que ocorre no meio
privado, o militar não está isento de infortúnios durante a prestação do serviço.
O trabalhador civil, quando sofre um acidente de trabalho vai ter o amparo da
legislação trabalhista e previdenciária, cujo acesso é ao Regime Geral da Previdência
Social e aos benefícios previstos, seja a incapacidade temporária ou definitiva, bem
como nos casos em que restar comprovada a redução da capacidade, independente
de quanto tempo possuir de vínculo com a empresa.
Já no serviço militar, os militares temporários – não estáveis, estão obrigados
ao cumprimento de todas as regras atinentes ao mundo castrense e vinculados ao
Regime Próprio dos Militares das Forças Armadas, possuindo Estatuto específico,
e ao sofrerem acidente em serviço devem ser amparados por este, ainda que não
sejam militares com estabilidade ou de carreira.
No entanto, assim como os segurados do RGPS passam por avaliações médicas
inverídicas ao caso clínico apresentado no momento da perícia, com o militar no

1 Possui Pós-especialização em Direito Previdenciário pela IMED-RS. Especialista em Direito Pre-


videnciário pela Esmafe-RS em convênio com a UCS-RS. Especialista em Direito Público pela
FMP-RS. Advogada atuante no RGPS e “RPPS” – Militares das Forças Armadas. Membro da
Comissão Especial de Direito Previdenciário da OAB/RS. E-mail: arianimzanardo@hotmail.com
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

âmbito castrense não é diferente, havendo diversos casos em que as inspeções de


saúde não condizem com a realidade apresentada pelo militar.
Embora a Administração Militar tenha o dever de prestar toda a assistência
ao militar, dependendo da situação a qual ele se encontra, por vezes, acaba ocor-
rendo um licenciamento indevido e arbitrário quando seria caso de manutenção
de tratamento ou até mesmo a reforma por incapacidade.
No entanto, antes de qualquer diferenciação entre o âmbito civil e âmbito
militar, de suma importância lembrarmos que o constituinte, ao positivar como
fundamento do Estado Democrático a dignidade da pessoa humana, tutelou como
direito fundamental o direito à saúde e o dever do Estado de garantir este, sem
distinção entre os membros da sociedade e suas funções perante o Estado.

1. CONSIDERAÇÕES SOBRE O INGRESSO NO SERVIÇO


MILITAR
Nos termos da Constituição Federal de 1988, o serviço militar nas Forças
Armadas é obrigatório, exceto para mulheres e eclesiásticos que são isentos do
mesmo, em tempo de paz.2 Podemos dizer que o serviço militar se divide em inicial
obrigatório e voluntário, classificado em temporário ou de carreira.
Desde o 1º dia do ano em que completa 18 (dezoito) anos de idade, todo bra-
sileiro nato, do sexo masculino, possui obrigação de alistar-se nas Forças Armadas
e a partir do momento que é recrutado, passa pelas etapas da seleção, convocação,
incorporação ou matrícula.
Os convocados são brasileiros que foram considerados aptos nos aspectos físico,
psicológico, cultural e moral quando da seleção e que completam 19 (dezenove)
anos de idade entre 1º de janeiro e 31 de dezembro, do ano da incorporação ou
matrícula, nos termos do art. 3º da Lei n. 4.375/1964. Possuem obrigação de presta-
rem o serviço militar inicial no período de 12 (doze) meses, ressaltando-se que este
poderá ser reduzido até 2 (dois) meses ou prorrogado até 6 (seis) meses através de
ato dos Ministros da Guerra, Marinha e Aeronáutica (atualmente Comandantes),
possuindo outras ressalvas como o ato do Presidente da República, conforme art.
6º e parágrafos da referida Lei.
Passado o período obrigatório da prestação do serviço militar, sem nenhum
infortúnio, pode ser requerido pelo incorporado, ou seja, pelo soldado do efetivo
variável – EV (os que estão no cumprimento do serviço militar obrigatório e são

2 Art. 143 e parágrafos da CF/1988;

138
Militar temporário, acidente em serviço e licenciamento arbitrário

considerados não engajados – “recruta”), a prorrogação do tempo como engajado


ou reengajado, seguindo os prazos e condições para tanto, nos termos do art. 33,
da Lei do Serviço Militar.
Ressalta-se, que a prorrogação se dará segundo a conveniência da Força Armada
interessada e pode totalizar até 8 (oito) anos3, razão pela qual, após ser engajado
(soldado do efetivo profissional − EP) ou reengajado4, passa a ser militar temporário,
tratando-se de Exército Brasileiro, podendo alcançar outra graduação como praça.5
Outrossim, além do serviço militar inicial obrigatório há a figura do volun-
tário, onde a lei fixa que é permitida a prestação do serviço militar a partir dos 17
(dezessete) anos de idade, inclusive, sendo permitida para as mulheres e depende
de cada Força Armada.
Há doutrinadores que entendem que a modalidade “voluntária” também se
aplica para os médicos, farmacêuticos, dentistas e veterinários, que mesmo na
reserva, demonstrem interesse em prestar o serviço militar, o que não se aplica
quando estes profissionais não tenham prestado o serviço militar obrigatório ini-
cial quando da convocação e devem prestar o serviço militar no ano seguinte ao
da conclusão do curso.
Após análise dos sítios das Forças Armadas, não restam dúvidas que voluntário
é o ato pelo qual, homem e mulher, por vontade própria, se submetem aos certames
e processos seletivos que visam a seleção de voluntários para a prestação do serviço
militar, sabendo que a prestação será temporária, sem expectativa de permanência
e estabilidade, podendo o militar concorrer com civil.
Tais processos seletivos acontecem anualmente e o candidato pode optar em
servir a Marinha, Exército ou Aeronáutica, tanto na condição de praças como na
de oficiais, de acordo com os requisitos exigidos. Alguns deles, não possuem provas

3 Portaria n. 380-Cmt Ex, de 29 de maio de 2012 − altera e revoga dispositivos das Instruções
Gerais para a Prorrogação do Tempo de Serviço Militar de Cabos e Soldados (IG 10-06), apro-
vadas pela Portaria do Comandante do Exército nº 257, de 30 abril de 2009.
4 PORTARIA Nº 046 − DGP, DE 27 DE MARÇO DE 2012. Aprova as Normas Técnicas para a
Prestação do Serviço Militar Temporário
Art. 149. As prorrogações de tempo de serviço têm caráter voluntário e visam a atender
ao interesse do Exército, possuindo as seguintes denominações: I − engajamento é a primeira
prorrogação de tempo de serviço militar do Cb/Sd; II − reengajamentos são as prorrogações
de tempo de serviço militar do Cb/Sd, após o engajamento; e III − prorrogação de tempo de
serviço é a continuidade de tempo de serviço do Of Tmpr e Sgt Tmpr.
5 Havendo vaga na OM – Organização Militar, cumprindo os requisitos internos objetivos e sub-
jetivos (há realização de Curso, por exemplo), o Soldado pode vir a ser Cabo e 3º Sargento.
Aqui trata-se de caso de Recruta engajado e reengajado, tendo em vista que há outras formas de
acesso a praça de Sargento ou de Oficiais, em concorrência com civis.

139
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

como num certame/concurso, mas apenas análise de documentação e cumprimento


de outras etapas internas (processo seletivo simplificado).
Neste caso, a contratação é por um prazo determinado e mais curto e pode
ocorrer com base na Lei n. 8.745/1993, alterada pela Lei n. 9.849/1999.6 Já nos ca-
sos em que os indivíduos passam por provas, o prazo de permanência nas Forças
Armadas pode ser de até oito anos, de acordo com o edital, como por exemplo,
sargentos técnicos temporários, oficiais técnicos temporários e abrangem diversas
áreas de formação: técnicos em enfermagem, enfermagem, fisioterapia, informática,
administração, tecnologia, direito, dentre outras.

1.1 Classificação do Serviço Militar e Militares da Ativa


No tocante a classificação, o serviço militar pode ser temporário ou de carreira
e a característica predominante refere-se à estabilidade deste, quando alcançar 10
(dez) anos de efetivo serviço, se Praça ou após serem declarados 2º ou 1º Tenente,
quando oficiais (ocorre somente após a conclusão da escola), enquanto àquele
possui um prazo determinado para manutenção da atividade nas fileiras das Forças
Armadas, sabendo da transitoriedade do vínculo.7
O militar de carreira ingressa através de concurso público destinado a praças
ou oficiais, cumprindo inúmeros requisitos, destinados as Escolas de Formação, de
acordo com o certame escolhido e após o ingresso seguem a carreira militar, podendo
através de promoção alcançar outro posto superior, possuindo direitos e deveres.
Em relação a classificação dos militares da ativa há divisão em duas categorias,
conforme Kayat

Militares efetivos são aqueles que ingressaram nas Forças Armadas através de
concurso público para provimento de cargo efetivo. Já os militares temporários
são os que ingressaram por meio diverso do concurso público, vale dizer, os
prestadores do serviço militar obrigatório ou inicial (artigo 143 da Constituição

6 Dispõe sobre a contratação por tempo determinado para atender à necessidade temporária de
excepcional interesse público, nos termos do inciso IX do art. 37 da Constituição Federal, e dá
outras providências.
7 Lei 6.391/1976 − Art. 3º O Pessoal Militar da Ativa pode ser de Carreira ou Temporário. I − O
Militar de Carreira e aquele que, no desempenho voluntário e permanente do serviço militar,
tem vitaliciedade assegurada ou presumida. II − O Militar Temporário é aquele que presta o
serviço militar por prazo determinado e destina-se a completar as Armas e os Quadros de Ofi-
ciais e as diversas Qualificações Militares de praças, conforme for regulamentado pelo Poder
Executivo.

140
Militar temporário, acidente em serviço e licenciamento arbitrário

de 88, Lei 4375/74, Decreto 57654/06), os que optaram pela prorrogação deste
serviço, através de engajamento e reengajamento previstos no artigo 33 da Lei
4.375/64, e os cidadãos reservistas convocados em situações excepcionais
(guerra, etc.), todos sempre por prazo determinado (no âmbito do Exército,
artigo 3º, II, da Lei 6391/76). Conforme própria nomenclatura faz antever, os
temporários não terão estabilidade, a menos que, como praças temporárias,
consigam perfazer dez anos de serviço militar (nos termos da Lei 6880/80,
artigo 50, IV, “a”).8

Além disso, no entendimento consolidado do Superior Tribunal de Justiça,


entre os efetivos há subdivisão em estabilizados e não estabilizados9, ressalvando
que “efetividade e estabilidade são institutos jurídicos distintos” (AREsp 138.409-MG,
Rel. Min. Humberto Martins).
Outrossim, denota-se que a semelhança entre o conceito de militares tempo-
rários e militares da ativa não estabilizados é a transitoriedade do vínculo, sendo a
distinção a forma de ingresso, isto é, um pelo engajamento após o serviço militar
obrigatório e outro por concurso público.

2. ACIDENTE EM SERVIÇO NO ÂMBITO MILITAR


No serviço militar, assim como no âmbito civil acontece infortúnios relacio-
nados as atividades desempenhadas no âmbito da prestação laboral, que geram
consequências à saúde do indivíduo atingindo a capacidade para manutenção das
atividades.
A definição de acidente de trabalho típico no Regime Geral de Previdência
Social está no art. 19, da Lei 8.213/9110 , já no tocante a prestação do serviço mi-

8 KAYAT, Roberto Carlos Rocha. Inatividade Remunerada e Pensão dos Militares das Forças
Armadas. In: Coleção Prática de Direito Previdenciário/Coord: Frederico Amando e Marcelo
Borsio. Salvador: JusPodivm, 2014, p. 21-22.
9 [...] Os militares da ativa efetivos não estabilizados são os pertencentes ao círculo de praças com
menos de 10 (dez) anos de tempo de serviço, ou de oficiais, que ingressaram nas forças arma-
das por meio de concurso público, porém, no caso dos oficiais egressos dos quadros comple-
mentares, técnicos, engenheiros, médicos, etc., somente podem adquirir a estabilidade após o
cumprimento devido das normas condicionantes específicas para o prosseguimento na carreira
(AREsp 138409-MG, STJ, Rel. Min. Humberto Martins, DJe 01/08/2012).
10 Art. 19. Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço de empresa ou
de empregador doméstico ou pelo exercício do trabalho dos segurados referidos no inciso VII
do art. 11 desta Lei, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou
a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.

141
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

litar nas Forças Armadas o conceito de acidente em serviço pode ser encontrado
no Decreto 57.272/65, art. 1º , norma específica, enquanto o disposto no Estatuto
dos Militares, Lei 6.880/80, constitui norma geral e refere-se aos fatores que acar-
retariam a incapacidade.
Quando da incorporação11 nas Forças Armadas o militar passa por inspeção
de saúde e apresentação de exames complementares, sendo obrigatório ter aptidão
física e mental para o exercício das atividades, ou seja, capacidade plena para o
exercício das atividades castrenses. Portanto, se ocorreu o ingresso nas Fileiras
das Forças Armadas já há presunção de que o militar possuía todos os requisitos
necessários, dentre eles gozava de capacidade e saúde.
Isso porque, diferente das atividades civis, a atividade militar possui peculia-
ridades como por exemplo, a obrigatoriedade de treinamento físico como parte
do serviço castrense, assim como os treinamentos de tiros, missões, atividades em
campo com carregamento de armamento e mochilas, vez que o militar é preparado
para servir à Pátria. Por essa razão, os processos seletivos, seja serviço militar obri-
gatório ou concurso público ou interno para alcançar outra graduação/posto, exige
plenas condições físicas e mentais, não sendo selecionado militares com quaisquer
problemas e sequelas, pois não se aceita um militar incompleto.
Salienta-se que até para as atividades administrativas é necessária plena higidez
física e mental, pois o militar com grau superior, como por exemplo administrador,
jornalista, analista de sistemas, embora trabalhe com atividades burocráticas é sub-
metido aos treinamentos, vez que independente da função administrativa possui
a missão de estar fisicamente e mentalmente ativo, como forma de preparação a
quaisquer chamados da Pátria, afinal, antes de tudo é um militar.
Em razão disso, sendo uma das principais atividades os inúmeros treinamen-
tos de ordem física, por vezes, na execução ocorrem lesões e até mesmo acidentes.
Importante ressaltar, que dentro da Caserna também há o surgimento de doenças
relacionadas as atividades, assim como ocorre no âmbito civil, vez que alguns mi-
litares, desempenham atividades com rotinas de repetição, por exemplo.
Dito isso, para a configuração do acidente em serviço no âmbito militar há a
necessidade de registro do acidente, sendo instaurada sindicância para apuração
do ocorrido e confirmação de acidente em ato de serviço, posteriormente, deve ser
lavrado o atestado de origem.

11 É o ato de admissão do convocado ou do voluntário em uma organização militar da ativa ou


em órgãos de formação de reserva. Já a convocação é o ato pelo qual brasileiros são chamados
para a prestação do Serviço Militar, quer inicial, quer sob outra forma ou fase (art. 3, Dec.
57.654/66).

142
Militar temporário, acidente em serviço e licenciamento arbitrário

Cabe ressaltar que para a configuração do acidente em serviço na caserna,


ato que levou ao acontecimento do infortúnio e a devida prestação de amparo ao
militar, deve ficar comprovado que o acidente não é resultado de crime, transgressão
disciplinar, imprudência ou desídia do militar acidentado.
Outrossim, é dever do militar a disciplina e o respeito à hierarquia, bem como
o rigoroso cumprimento das obrigações e ordens, como preceitua o inciso IV e V
do art. 31, da Lei 6.880/80.
Não é incomum que durante a prestação do serviço militar, em cumprimento
de alguma ordem superior, o subordinado venha a sofrer acidente em serviço, oca-
sionando lesão ou sequela definitiva, razão pela qual, a instauração da sindicância
administrativa é de suma importância para resguardar os direitos do militar.
Além disso, diante do acidente em serviço o militar deve passar pelo atendi-
mento médico para verificação do tratamento que será prescrito, sendo expedida
a ata de inspeção de saúde contendo o diagnóstico e o parecer médico apontando
o tempo de afastamento do serviço e instrução, podendo ocorrer a prorrogação do
tempo de afastamento mediante inspeção de saúde.
Quando da alta médica o militar passa por inspeção de saúde cujo parecer é
de aptidão ou aptidão com restrição, quando em tese, o militar poderia retornar as
atividades desempenhadas, mas com ressalva de alguma atividade até a reversão
total do quadro.
Dos acidentes em serviço, por vezes o militar fica com uma incapacidade
temporária, passível de recuperação, mas há também os quadros irreversíveis em
que há incapacidade definitiva e até mesmo quadros em que há sequela e redução
da capacidade, fazendo com que o militar não tenha mais a higidez física, tal qual
ao ingresso na caserna.
O Estatuto dos Militares resguarda tais acontecimentos, no entanto, assim
como ocorre com os segurados do RGPS, há casos em que uma avaliação médica
equivocada ou em obediência a ordens superiores, principalmente no tocante a
terceira hipótese supramencionada, resta atestada uma “falsa aptidão”, o que em
alguns casos agrava o quadro apresentado pelo militar que retorna para as atividades
e em outros, “devolve” ao meio civil um indivíduo com restrições laborais, sem o
resguardo de qualquer direito12.

2.1 Licenciamento arbitrário


O término do tempo de serviço do militar temporário tem como consequência o
licenciamento e pode ocorrer a pedido ou ex officio. Uma das hipóteses se dá quando

12 No presente caso, estamos tratando exclusivamente dos militares temporários.

143
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

a critério da Administração Pública, não houver conveniência na permanência do


militar na atividade castrense, como disciplina o art. 121, II, § 3º da Lei 6.880/80,
sendo um ato discricionário da Administração Militar.
No entanto, até mesmo quando o militar está quase completando o tempo de
serviço máximo dentro das Forças Armadas (não estável/temporário) e é afastado
sob tal fundamento, não significa que referido ato administrativo, por ser discri-
cionário da Administração Militar não seja arbitrário.
Isso porque, o ato pode conter vício, seja uma desídia ou negligência por
parte das Forças Armadas, que decorre de uma aptidão inexistente, por exemplo,
cabendo colacionar

[...] Contudo, o exercício desse poder discricionário está adstrito a deter-


minados limites, um dos quais, necessariamente, se refere à higidez física do
militar a ser desligado. Por conta disso, não é cabível o término do vínculo, por
iniciativa da Administração, quando o militar se encontrar incapacitado para o
exercício das atividades relacionadas ao serviço militar, hipótese em que deve
ser mantido nas fileiras castrenses até sua recuperação ou, não sendo possível,
eventual reforma. Impende não esquecer que o licenciamento, por sua vez,
só tem fundamento quando o militar está apto, e não quando está incapaz,
tanto é que todos os conscritos passam por inspeção de saúde para fins de
licenciamento, exame que tem a finalidade de averiguar se o militar pode ser
dispensado ou se necessita de cuidados médicos13.

Nos termos da lei, o militar temporário, não estável, pode ser licenciado ex
officio sem direito a qualquer remuneração posterior, mas para isso necessita gozar
de aptidão, ou seja, possuir higidez física ou mental quando do desligamento.
Estando incapacitado ou com sequela decorrente da atividade castrense, deve
ser mantido nas fileiras da Força Armada a qual pertença até sua efetiva recuperação
e não havendo recuperação, deverá ser reformado.
Tanto a reforma quanto o licenciamento são formas de exclusão do serviço
ativo das Forças Armadas, conforme disciplina o art. 94 do Estatuto dos Militares,
combinado com os artigos 121 e 104, respectivamente.
Por sua vez, a reforma também pode ocorrer a pedido ou ex officio e tem como
requisito o alcance da idade prevista em lei que assegura o direito ao afastamento
das atividades, como se fosse a “aposentadoria” com diferenciações específicas da
atividade castrense ou quando houver enquadramento nas hipóteses do art. 106, II
combinado com o art. 108.

13 EDv no EREsp 1.123.371-RS, STJ, Min. Rel. OG Fernandes, DJe 10/09/2015.

144
Militar temporário, acidente em serviço e licenciamento arbitrário

No entanto, os casos em que a Administração Militar extrapola muitas vezes o


limite do poder discricionário são justamente aqueles em que o militar se vê numa
situação de incapacidade, redução da capacidade ou sequela advinda de acidente
em serviço, onde a assistência médica prestada não fora suficiente para reverter o
quadro de incapacidade apresentado, tornando-se definitiva.
Contudo, em virtude de inúmeras peculiaridades internas da Administração
Militar, dentre elas o fato de um militar que está incapacitado por muito tempo
com prorrogações de licenças vir a exceder o tempo máximo permitido dentro do
serviço castrense ou ocupar a vaga que poderia ser de um indivíduo com higidez
física e mental plena, faz com que em inúmeros casos, a inspeção médica seja ei-
vada de vício e até mesmo negligência, com aptidões inexistentes para que ocorra
o licenciamento.
E, são nessas circunstâncias que o ato de licenciamento pode ser irregular
e arbitrário, violando preceitos constitucionais, assim como a própria legislação
militar, enviando para o âmbito civil um militar sem assistência suficiente ou até
mesmo sem as mesmas condições de aptidão a qual possuía quando do ingresso
nas fileiras castrenses.

3. O LICENCIAMENTO ARBITRÁRIO DO MILITAR


TEMPORÁRIO – NÃO ESTÁVEL E A VIOLAÇÃO DO
PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA
O militar temporário, ainda que não seja estável está vinculado ao Regime Pró-
prio e vinculado a todos os deveres impostos, cabendo frisar que o Regime Jurídico
que se aplica ao servidor público civil não é o mesmo que se aplica ao militar e não
pode ser confundido, até mesmo pelas especificidades da carreira castrense14 e, por
conseguinte, este possui um microssistema de seguridade social especial, conceito
majoritário entre os poucos doutrinadores da área.
Se o militar temporário está inserido dentro do contexto dos mesmos deve-
res e obrigações dos militares de carreira, não haveria sentido não ser concedido
os mesmos direitos e respeitado, inclusive, os direitos constitucionais previstos a
qualquer cidadão, vez que antes de tudo, o militar é um indivíduo que possui as
mesmas garantias constitucionais que os trabalhadores do âmbito civil, ressalvada

14 [...] II − O regime a que submetem os militares não se confunde com aquele aplicável aos servi-
dores civis, visto que têm direitos, garantias, prerrogativas e impedimentos próprios. [...] (ARE
709270 AgR-ED, Relator(a): Min. LUIZ FUX, Primeira Turma, julgado em 19/03/2013, PRO-
CESSO ELETRÔNICO DJe-066 DIVULG 10-04-2013 PUBLIC 11-04-2013)

145
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

as vedações da própria classe (direito a greve, sindicalização, filiação partidária,


restrições trabalhistas).
Assim, não se pode negar que o direito à saúde, previsto no art. 6º, elevado ao
status de direito social fundamental na Carta Magna de 1988, é também uma garantia
ao militar, que antes de tudo é um cidadão, sendo dever do Estado referida prestação.
Além disso, o próprio Estatuto dos Militares prevê a assistência médico hos-
pitalar como direito inafastável

Art. 50 − São direitos dos militares:


[...]
e) a assistência médico-hospitalar para si e seus dependentes, assim entendi-
da como o conjunto de atividades relacionadas com a prevenção, conservação
ou recuperação da saúde, abrangendo serviços profissionais médicos, farma-
cêuticos e odontológicos, bem como o fornecimento, a aplicação de meios e
os cuidados e demais atos médicos e paramédicos necessários.

Verifica-se, portanto, que o direito à saúde é assegurado também ao militar,


não sendo uma mera opção da Administração, tanto é que o Regulamento Interno
e dos Serviços Gerais (RISG)15, disciplina no art. 430, que o militar deve ficar como
adido até plena recuperação de sua higidez física

Art. 430. À praça temporária, que não estiver prestando o serviço militar
inicial, considerada incapaz temporariamente para o serviço do Exército (incapaz
B1 ou incapaz B2) aplicam-se as seguintes disposições:
I − se a causa da incapacidade estiver enquadrada em uma das hipóteses
elencadas nos incisos I a V do art. 108 da Lei nº 6.880/80, NÃO SERÁ EX-
CLUÍDA DO SERVIÇO ATIVO ENQUANTO ESSA SITUAÇÃO PERDURAR,
PASSANDO À SITUAÇÃO DE ADIDO À SUA UNIDADE ao término do tempo
de serviço militar a que se obrigou, término de engajamento, reengajamento
ou prorrogação de tempo de serviço, para fins de continuação do tratamento
médico, até que seja emitido um parecer que conclua pela aptidão (apto A) ou
pela incapacidade definitiva (incapaz C), quando será licenciada ou reformada,
conforme o caso, na forma da legislação em vigor.

Se a incapacidade é decorrente de acidente em serviço, aplica-se o art. 106


combinado com o art. 108, III da Lei 6.880/80 (Estatuto dos Militares), quando

15 PORTARIA Nº 749, DE 17 DE SETEMBRO DE 2012. Altera dispositivos do Regulamento In-


terno dos Serviços Gerais − (RISG), aprovado pela Portaria do Comandante do Exército nº 816,
de 19 de dezembro de 2003, e dá outras providências

146
Militar temporário, acidente em serviço e licenciamento arbitrário

for insuscetível de recuperação, sendo caso de reforma e não de licenciamento,


tratando-se unicamente de incapacidade para as atividades castrenses, já que se
restar inválido, isto é, impossibilitado total e permanentemente para qualquer tra-
balho, haverá aplicação do § 1º, do art. 110, cuja remuneração será calculado com
base no soldo do grau hierárquico superior.
Ao ser dispensado do serviço castrense, através do ato de licenciamento, pos-
suindo ainda a necessidade de tratamento de saúde ou restando com redução da
capacidade ou sequela definitiva, age arbitrariamente a Administração Militar ao
atestar uma aptidão inexistente e ao enviar para o âmbito civil um indivíduo que
precisaria ainda do amparo do Regime ao qual estava vinculado.
Referida arbitrariedade demonstra desídia, descaso e desrespeito a condição
humana violando assim um dos fundamentos do Estado Democrático, qual seja, a
dignidade da pessoa humana, merecendo destaque

O princípio da dignidade da pessoa humana representa o epicentro axio-


lógico da ordem constitucional, irradiando efeitos sobre todo o ordenamento
jurídico (...) pode ser dito que o princípio em questão é o que confere unidade
de sentido e valor ao sistema constitucional, que repousa na ideia de respeito
irrestrito ao ser humano – razão última do Direito e do Estado16.

Ainda, em relação a dignidade da pessoa humana

Quando o Texto Maior proclama a dignidade da pessoa humana, está con-


sagrando um imperativo de justiça social, um valor constitucional supremo. Por
isso, o primado consubstancia o espaço de integridade moral do ser humano,
independentemente de credo, raça, cor, origem ou status social. O conteúdo do
vetor é amplo e pujante, envolvendo valores espirituais (liberdade de ser, pensar
e criar etc.) e materiais (renda mínima, saúde, alimentação, lazer, moradia,
educação, etc.). Seu acatamento representa a vitória contra a intolerância, o
preconceito, a exclusão social, a ignorância e a opressão.17 (grifei)

Neste sentido, quando a Administração Militar pratica um ato eivado de arbi-


trariedade está afrontando um valor que fundamenta e dá validade ao sistema cons-
titucional do Estado Democrático de Direito, demonstrando total desrespeito pela
condição humana de um integrante de seus quadros, ainda que temporário, quando
este tenha sofrido limitações funcionais em razão da própria atividade castrense.

16 SARMENTO, Daniel. A ponderação de interesses na Constituição Federal. 1ª ed. – segunda


tiragem. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2002, p. 58-60.
17 BULOS, Uadi Lammêgo. Curso de Direito Constitucional. 2.ed. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 392.

147
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

CONCLUSÃO
Embora as Forças Armadas sejam consideradas uma instituição séria em
nosso País, ela ainda faz parte da Administração Pública e como tal, através de seus
agentes pode ocorrer vícios nos atos sob sua competência, sendo esses passíveis de
nulidade ou anulação.
Ainda que também seja ato discricionário da Administração Pública, manter
o militar temporário, não estável, nas fileiras da caserna, tendo em vista a conve-
niência, por vezes, o licenciamento do militar ex officio é indevido e se torna um
ato arbitrário perante a situação em que se encontra a capacidade física do militar.
Por mais que a Administração Militar tenha ofertado a assistência médica e o
devido tratamento ao militar, quando do acidente em serviço, não pode a mesma
agir de forma negligente ou com desídia ao caso clínico concreto para satisfazer
interesses alheios da Organização Militar, licenciando o militar que estiver ainda in-
capacitado ou que reste com sequela definitiva para as atividades castrenses, quando
deveria obrigatoriamente manter o militar com o devido tratamento e recebimento
do soldo e, não havendo reversão do quadro, encaminhá-lo para a reforma.
Se ao adentrar as fileiras das Forças Armadas o militar foi considerado apto
com a higidez física e mental em plenas condições de servir a Pátria, gozando de
saúde e capacidade, vindo a sofrer um acidente em serviço, não pode simplesmen-
te ser descartado pela Administração Pública, vez que tal ato viola o princípio da
dignidade da pessoa humana e o próprio direito à saúde.
Outrossim, viola o princípio da isonomia o tratamento diferenciado ofertado
ao militar temporário, não estável em relação ao militar de carreira, quando aquele
venha a restar incapacitado ou com redução da capacidade decorrente de lesão ou
sequela advinda do acidente em serviço, forçando uma falsa aptidão para evitar que
o militar temporário permaneça vinculado as fileiras castrenses em tempo posterior
ao limite permitido ou acabe sendo reformado.
Dito isso, embora o Estatuto dos Militares seja anterior a Carta Magna de
1988 e não tenha sofrido alterações relevantes para amparar de forma adequada
as questões relacionadas a incapacidade do militar temporário, com base nos dis-
positivos constitucionais e na própria legislação infraconstitucional, deve haver o
devido amparo ao militar temporário quando venha a sofrer acidente em serviço e
em decorrência desse fique incapacitado, perdendo sua higidez física.

REFERÊNCIAS
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de Janeiro: Forense, 2015.

148
Militar temporário, acidente em serviço e licenciamento arbitrário

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149
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

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150
JUSTIÇA FEDERAL E BENEFÍCIOS
PREVIDENCIÁRIOS ORIUNDOS DE
ACIDENTE DE TRABALHO

FABIo LUIZ de oLIVeIrA BeZerrA1

sUMÁrIo: 1. Introdução. 2. Entendimento sumulado, seus fundamentos e alguns efeitos


indesejáveis. 3. Relevantes aspectos econômicos, sociais e jurídicos que minam o
entendimento sumulado. a) Alteração da legislação ordinária unificando os benefícios
previdenciários “strito sensu” com os acidentários. b) Alteração significativa do bloco
de constitucionalidade após EC n° 45/2008, com a transferência para Justiça do
Trabalho das causas de responsabilidade civil decorrentes de acidente de trabalho.
c) Ampliação e interiorização da Justiça Federal e criação dos Juizados Especiais
Federais. 4. Revisão informal do art. 109, I, da CF/1988. 5. Conclusão. Referências
Bibliográficas.

1. INTRODUÇÃO2
Há muito se firmou jurisprudência dos Tribunais Superiores em relação ao
artigo 109, I, da Constituição Federal de 1988, especificamente quanto às causas

1 Doutor em Direito pela Universidade de Coimbra, Mestre pela Universidade Federal de Per-
nambuco (UFPE), onde também fez Bacharelado em Direito, tendo concluído ainda Especia-
lização em Direito Tributário pela Faculdade de Alagoas e MBA em Finanças pela UFPE. Juiz
Federal Titular da 7ª Vara Federal, em Natal/RN, e Diretor do Núcleo Estadual da Escola da
Magistratura Federal (ESMAFE/RN).
2 A presente tese vem sendo defendida pelo articulista desde 2008, por ocasião do debate em
torno da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 278/2008, resultando não apenas em
trabalho doutrinário (BEZERRA, Fabio Luiz de Oliveira. Mutação constitucional do art. 109,
I, da CF/88. Revista de Informação Legislativa, v. 192, p. 137-146, 2011), como também em
diversas sentenças de mérito sobre benefícios previdenciários decorrentes de acidente do traba-
lho, especificamente no período de 2008 a 2018 na Seção Judiciária do Estado do Rio Grande.
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

previdenciárias decorrentes de acidentes de trabalho, ajuizadas contra autarquia


pública federal (INSS), no sentido de que a competência para apreciação dessas
demandas não é da Justiça Federal, mas sim da Justiça Estadual (Súmula nº 501 do
Supremo Tribunal Federal − STF, de 10/12/1969;3 Súmula nº 15 do Superior Tribunal
de Justiça − STJ,4 de 08/11/1990).
Apesar dessa consolidação, ocorreu, a partir de meados dos anos 2000, certa
flexibilização na aplicação de tal entendimento, especialmente pelo STJ. Esse Tri-
bunal passou a afastar a aplicação das duas súmulas (e, por conseguinte, afirmar a
competência da Justiça Federal para a causa), em situações em que não se discutia
a questão do acidente de trabalho em si, sob o fundamento de que não se cuidaria
de ação de natureza acidentária, mas de natureza previdenciária: a) revisão e con-
cessão de pensão por morte, independentemente das circunstâncias do falecimento
do segurado;5 c) quando o requerente se caracteriza como segurado especial.6
O STF, por seu turno, se manteve basicamente adstrito ao entendimento ante-
rior, assentando a competência da Justiça estadual inclusive para ações de reajuste
de benefício oriundo de acidente de trabalho.7 Mesmo assim flexibilizou o entendi-
mento sumulado em algumas situações, como, por exemplo, em ações judiciais com
pedido de acumulação de proventos da aposentadoria com o auxílio suplementar,
mesmo decorrente de acidente de trabalho, por entender que a matéria “não cuida
exclusivamente de acidente do trabalho”.8
Como instrumento de reforma formal da constituição, com intuito de trans-
ferir para a Justiça Federal a competência para julgamento de ações de benefícios

do Norte. O pensamento então desenvolvido merece novas reflexões e especialmente atua-


lização, em face dos novos debates que surgiram com a PEC 127/2015, cuja ementa é a se-
guinte: “Altera o art. 109 da Constituição Federal, para dispor sobre a competência da justiça
federal para o julgamento de ações decorrentes de acidentes de trabalho em que a União,
entidades autárquicas, empresas públicas ou sociedades de economia mista federal forem
interessadas”
3 Súmula nº 501/STF (10/12/1969): Compete à Justiça Ordinária Estadual o processo e o jul-
gamento, em ambas as instâncias, das causas de acidente do trabalho, ainda que promovidas
contra a União, suas autarquias, empresas públicas ou sociedades de economia mista.
4 Súmula nº 15/STJ (08/11/1990): Compete à Justiça Estadual processar e julgar os litígios decor-
rentes de acidente do trabalho.
5 STJ, 3ª Seção, CC 62.531/RJ, Rel. Ministra Maria Thereza de Assis Moura, julgado em
28.02.2007, DJU 26.03.2007.
6 STJ, 3ª Seção, CC 86.797/PE, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 22.08.2007, DJ
03.09.2007 p. 119.
7 STF, 1ª Turma, RE 351.528/SP, Rel. Min. Moreira Alves, julgado em 17.09.2002, DJ 31.10.2002.
8 STF, 1ª Turma, RE 461.005/SP, Min. Lewandowski, julgado em 08.04.2008, DJe 08.05.2008.

152
Justiça federal e benefícios previdenciários oriundos de acidente de trabalho

previdenciários decorrentes de acidente de trabalho, tramitou na Câmara dos


Deputados Proposta de Emenda à Constituição – PEC nº 278, de 2008, que tinha
por fulcro alterar o art. 109, I, da CF/1988, retirando a exceção relativa às causas de
acidente de trabalho. Referida PEC foi arquivada em 2012. Posteriormente, houve a
proposição perante o Senado Federal da PEC nº 127/2015 com o mesmo propósito.
Defende-se neste ensaio a tese de que a alteração da CF/1988 por emenda
constitucional, para incluir expressamente na competência da Justiça Federal as
demandas previdenciárias de acidentes de trabalho, é prescindível, haja vista que
o entendimento sumulado do STJ e STF relativo ao art. 109, I, da CF/1988 já não
está mais compatível com a atual realidade social e institucional, o que justifica uma
nova leitura do art. 109, I, da CF/1988, nos moldes do que se convencionou chamar
de “mutação constitucional”.9
Para o desenvolvimento da tese, o ponto de partida será um exame descritivo
dos fundamentos que amparam a interpretação preponderante (entendimento su-
mulado) do art. 109, I, da CF/1988, procedendo-se em seguida a um exame analítico
de cada elemento destes fundamentos, avaliando a persistência de cada um deles
frente a atuais aspectos econômicos, sociais e jurídicos, para verificar, ao final, a
adequação do instituto da mutação constitucional ao caso.

2. ENTENDIMENTO SUMULADO, SEUS FUNDAMENTOS E


ALGUNS EFEITOS INDESEJÁVEIS
O entendimento atual do STF sobre a matéria continua refletindo o conteúdo de
sua Súmula n° 501, segundo a qual “compete à justiça ordinária estadual o processo
e o julgamento, em ambas as instâncias, das causas de acidente do trabalho, ainda
que promovidas contra a união, suas autarquias, empresas públicas ou sociedades
de economia mista”.
A Súmula n° 501, de 03/12/1969, foi firmada sob a égide da Constituição Fe-
deral de 1967, com as alterações promovidas pela Emenda Constitucional de 1969,
cujo art. 125, I, dispunha que “aos juízes federais compete processar e julgar, em
primeira instância: I − as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa

9 Adota-se, nesse ensaio, entendimento de William Ellet, pelo qual a apresentação da conclusão
(tese) no início do trabalho traz a vantagem de possibilitar que o leitor crítico avalie argumento
na medida em que está sendo elaborado, haja vista que o leitor não poderá avaliar um raciocí-
nio sem saber o que o investigador social está querendo provar (ELLET, William. The case stu-
dy handbook: how to read, discuss and write persuasively about cases. Boston, Massachusetts:
Harvard Business School Press, 2007, p. 108).

153
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

pública federal forem interessadas na condição de autoras, rés assistentes ou opo-


entes, exceto as de falência e as sujeitas à Justiça Eleitoral e à Militar”.
Embora no art. 125 não tenha constado exceção de causas de acidente de
trabalho, o art. 142, § 2°, da Constituição Federal, com redação dada pela Emenda
Constitucional de 1969, estabelecia expressamente que “os litígios relativos a aci-
dentes do trabalho são da competência da justiça ordinária dos Estados, do Distrito
Federal ou dos Territórios”. Com a Emenda Constitucional nº 7, de 1977, o § 2° do
art. 142 passou a ter a seguinte redação: “os litígios relativos a acidentes do traba-
lho são da competência da justiça ordinária dos Estados, do Distrito Federal e dos
Territórios, salvo exceções estabelecidas na Lei Orgânica da Magistratura Nacional”.
A Constituição Federal de 1988 seguiu o modelo da constituição anterior,
consolidando, contudo, em um mesmo artigo as exceções à competência da Justiça
Federal: “Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar: I − as causas em
que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal forem interessadas
na condição de autoras, rés, assistentes ou oponentes, exceto as de falência, as de
acidentes de trabalho e as sujeitas à Justiça Eleitoral e à Justiça do Trabalho”.
Como não houve inovação no texto da CF/1988 sobre competência da Justiça
Federal, o STF continuou aplicando, sem maiores divagações, o entendimento de
sua Súmula n° 501. Na mesma linha de entendimento, o STJ editou em 1990 a Sú-
mula n° 15, segundo a qual “compete à Justiça Estadual processar e julgar os litígios
decorrentes de acidente do trabalho”.
E quais seriam as causas decorrentes de acidente do trabalho?
Para responder a esta indagação, importante observar que a Constituição
Federal de 1988 instituiu um novo panorama da responsabilidade do empregador
nas ações de acidente de trabalho, dispondo, no art. 7°, XXVIII, que são direitos
dos trabalhadores “seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregador” e
“indenização a que este está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa”.
Assim, ao contrário da constituição pretérita, a CF/1988 expressamente estabe-
leceu que a contribuição do seguro de acidente de trabalho a cargo do empregador
não exime a responsabilidade civil do empregador em casos de acidente de trabalho
quando o empregador agir com dolo ou culpa.
Nesse contexto, tanto o STF quanto o STJ entende que as causas de acidente
do trabalho referidas em suas súmulas abrangem: a) ação de indenização por danos
materiais e morais em razão de acidente de trabalho movida pelo empregado contra
o empregador (art. 7°, XXVIII, CF/1988); b) ação de benefícios previdenciários por
incapacidade decorrente de acidente de trabalho intentada pelo segurado-acidentado
contra a autarquia previdenciária federal (INSS), tais como, “concessão de auxílio-
-doença, aposentadoria por invalidez, auxílio-acidente ou pensão por morte”, con-

154
Justiça federal e benefícios previdenciários oriundos de acidente de trabalho

forme exemplificação de Castro e Lazzari;10 c) ações de revisão dos benefícios de


origem acidentária.11
Quanto à primeira ação (“a”), nunca houve dúvida de que não seria aforada
na Justiça Federal, em virtude da ausência de entidade federal.
Quanto às duas últimas ações (“b” e “c”), a princípio, a competência seria da
Justiça Federal, pois intentada contra o INSS. Contudo, interpretando o art. 109, I,
da CF/1988, entendem atualmente nossas cortes superiores que estes casos estão na
exceção “causas de acidente de trabalho”, devendo ser ajuizada na Justiça Estadual.
No que se refere às ações de revisão de benefício previdenciário, Tavares12 ressalta,
com pertinência, que “a jurisprudência majoritária do STJ no passado se inclinava
no sentido inverso, sob argumento de que neste tipo de ação discutem-se apenas
critérios de reajuste do valor do benefício, sem exame de questões de natureza
acidentária (CC n. 16.874/RJ e 17.190/SC). Nos últimos tempos, contudo, o STJ
tem-se alinhado aos precedentes do STF”.
Alguns fatores apoiaram a formação do entendimento sumulado em análise,
que fixa a competência da Justiça Estadual para o processamento e julgamento de
ações de concessão (e revisão) de benefícios previdenciários decorrentes de acidente
de trabalho.
O primeiro diz respeito à legislação ordinária vigente à época sobre seguro de
acidente de trabalho e previdência social. Nos primórdios, as prestações de seguro
de acidente de trabalho destacavam-se integralmente da legislação da previdência
social. Em outras palavras, o ordenamento jurídico pátrio albergava a distinção
entre benefício previdenciário e benefício acidentário.
O Decreto Legislativo nº 3.724/1919 foi o primeiro a tratar de acidente do tra-
balho, adotando a teoria do risco profissional, em que ficava a cargo do empregador
o seguro para fins de assistência médica e indenização do empregado. Apenas em
1967, o seguro de acidente do trabalho (SAT) foi integrado à Previdência Social pela
Lei nº 5.316/1967, mas, mesmo assim, permaneceram distinções marcantes quanto
à carência e valor do salário de benefício.

10 CASTRO, Carlos Alberto Pereira; LAZZARI, João Batista. Manual de direito previdenciário.
6. ed. São Paulo: LTr, 2005. p. 630.
11 O STJ, a partir de meados dos anos 2000, passou a flexibilizar o entendimento sumulado para
admitir o processamento na Justiça Federal de algumas ações previdenciárias oriundas de aci-
dente de trabalho, como revisão de pensão por morte (3ª Seção, CC 62.531/RJ, Rel. Ministra
Maria Thereza de Assis Moura, julgado em 28.02.2007, DJU 26.03.2007).
12 TAVARES, Marcelo Leonardo. Direito previdenciário: regime geral de previdência social e
regimes próprios de previdência social. 8. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006. p. 105.

155
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

A legislação previdenciária em vigor na época da criação das súmulas era a Lei


nº 3.807/1960, conhecida como LOPS (Lei Orgânica da Previdência Social), com
suas alterações posteriores (Lei n° 5.890, de 8 de junho de 1973). Não havia sido
promulgada a Lei n° 8.213/1991.
O segundo aspecto corresponde à conveniência de se consolidar em uma única
jurisdição (a Estadual) as ações de acidente de trabalho (ação de indenização, ação
de concessão e ação de revisão), o que, num primeiro momento, simplificaria a vida
dos segurados, que poderiam solucionar suas lides num único órgão jurisdicional.
O terceiro aspecto consiste na proximidade maior da Justiça Estadual com a
população, dada sua grande ramificação, com comarcas em dezenas de municípios
do interior dos estados. Esse pressuposto não apenas contribuiu para o entendimento
sumulado sobre o art. 109, I, da CF/1988, como também para o próprio texto do § 3°
do art. 109 da CF/1988: “Serão processadas e julgadas na justiça estadual, no foro do
domicílio dos segurados ou beneficiários, as causas em que forem parte instituição
de previdência social e segurado, sempre que a comarca não seja sede de vara do
juízo federal, e, se verificada essa condição, a lei poderá permitir que outras causas
sejam também processadas e julgadas pela justiça estadual”. Nesse ponto, a CF/1988
recepcionou o art. 15 da Lei nº 5.010/1966, que estabelece outros casos em que a
ação é intentada na Justiça Estadual: “I − os executivos fiscais da União e de suas
autarquias, ajuizados contra devedores domiciliados nas respectivas Comarcas; II −
as vistorias e justificações destinadas a fazer prova perante a administração federal,
centralizada ou autárquica, quando o requerente for domiciliado na Comarca; III
− os feitos ajuizados contra instituições previdenciárias por segurados ou beneficiá-
rios residentes na Comarca, que se referirem a benefícios de natureza pecuniária”.
Essa interpretação preponderante do art. 109, I, da CF/1988 começou a apre-
sentar algumas conseqüências indesejáveis ao sistema jurídico.
A pretensão de eficiência do sistema jurídico com a unificação da competên-
cia jurisdicional das ações de acidente de trabalho na Justiça Estadual foi colocada
à prova com inúmeros conflitos de competência entre juízos estadual e federal, o
que têm contribuído sobremaneira para a demora processual, além de representar
um custo incalculável para as partes (segurado e INSS) e para setor econômico,
pois o retorno do empregado ao trabalho fica na dependência da definição de sua
incapacidade.
Também inúmeros são os casos em que a Justiça Estadual reconhece a ine-
xistência de nexo causal entre o acidente e o trabalho, e, por conseqüência, julga
improcedente o pedido ou determina a remessa dos autos para a Justiça Federal.
Na primeira situação, o segurado tem que intentar nova ação na Justiça Federal, ao
passo que, na segunda, faz-se necessário novo trâmite na Justiça Federal, para que
156
Justiça federal e benefícios previdenciários oriundos de acidente de trabalho

seja julgada a demanda subsidiária. Em ambas situações, há considerável demora


na prestação jurisdicional.
O que seria para beneficiar o segurado, a unificação da competência passou a
ser prejudicial ao segurado da demanda de acidente de trabalho, em algumas cir-
cunstâncias. Ao contrário do segurado que sofreu acidente de trabalho, o segurado
incapacitado por razões diversas de acidente de trabalho pode ajuizar a demanda
na Justiça Federal, obtendo com maior celeridade a prestação jurisdicional.
Em razão do número menor de tribunal de apelação (cinco Tribunais Regionais
Federais), a jurisdição federal passou a apresentar maior grau de uniformidade de
suas decisões que a jurisdição estadual, a qual tem um Tribunal de Justiça em cada
estado da Federação.
Comparando a situação jurídica do segurado incapacitado em razão de aci-
dente de trabalho e de outro segurado incapacitado por razão diversa, percebe-se
que o só fato da origem da incapacidade não justifica a diferença de tratamento,
ofendendo-se em última instância o princípio da isonomia. Ademais, não há em-
pecilho jurídico, a nosso sentir, para que a jurisdição federal possa avaliar o nexo
de causalidade para o fim de concessão do benefício previdenciário, e a jurisdição
estadual aprecie o mesmo nexo para fins de indenização a cargo do empregador.
Na realidade, a relevância maior para a definição da ocorrência de acidente de
trabalho nas causas previdenciárias é a dispensa da carência nessa situação.
Os requisitos para a concessão de benefício previdenciário por incapacidade
(auxílio-doença ou aposentadoria por invalidez, por exemplo) são qualidade de
segurado, carência e incapacidade para o trabalho. Se o segurado já tiver cumprido
a carência, pouco importa para a concessão do benefício previdenciário, se a inca-
pacidade para o trabalho é ou não decorrente de acidente de trabalho. Então, por
que exigir que o segurado que já cumpriu a carência ajuíze ação na Justiça Estadual?
Nessa situação há flagrante desrespeito ao princípio constitucional da igualdade, haja
vista que a causa de pedir em ambos os casos (segurado incapacitado por acidente
de trabalho com carência cumprida; segurado incapacitado por outra razão com
carência cumprida) reside apenas na incapacidade permanente ou temporária do
segurado, o que não justifica a diversidade de jurisdição para apreciar as demandas.
O mesmo raciocínio se aplica aos benefícios que independem de carência (auxílio-
-acidente e pensão por morte, art. 26, I, da Lei 8.213/1991).
Outra consequência indesejada foi o esquecimento de que o entendimento
sumulado pressupunha uma relação de emprego entre o trabalhador e o tomador
de serviços, e, por isso, uma possibilidade de responsabilização do empregador pelo
acidente de trabalho. Em razão desse esquecimento, houve uma aplicação desme-
dida do entendimento sumulado a outras categorias de segurado da Previdência
157
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Social, como segurado especial, quando presente um acidente de trabalho. Ou seja,


entendia-se que a ação movida pelo segurado especial contra o INSS para obtenção
de benefício previdenciário de natureza acidentária (auxílio-doença, aposentadoria
por invalidez ou auxílio-acidente) deveria ser ajuizada perante a Justiça Estadual,
da mesma forma que o é a ação movida pelo segurado da categoria empregado.
Levou-se algum tempo para se perceber que não há no regime de economia
familiar (onde se enquadra o segurado especial) possibilidade de responsabilização
de terceiro ou tomador de serviço pelo acidente de trabalho. Daí porque cabível o
distinguishing para afastar o entendimento sumulado. Nesse sentido, avançou bem
o STJ:
PREVIDENCIÁRIO. CONFLITO DE COMPETÊNCIA. COMPROVAÇÃO DA
QUALIDADE DE SEGURADO ESPECIAL, NA CONDIÇÃO DE TRABALHADOR
RURAL, PARA FINS DE CONCESSÃO DE BENEFÍCIO ACIDENTÁRIO. PARECER
DO MPF PELA COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA ESTADUAL. COMPETÊNCIA DA
JUSTIÇA FEDERAL.
1. A jurisprudência deste Tribunal Superior é assente quanto à competência
residual da Justiça Estadual para processar demanda relativa a acidente de
trabalho. Entretanto, a comprovação da qualidade de segurado especial, para fins
de concessão de benefício perante a Autarquia Previdenciária, como no caso,
é matéria estranha à competência da Justiça Estadual, devendo ser a demanda
processada pela Justiça Federal, nos termos do art. 109, I da CF.
2. Somente seria possível o processamento da presente ação no Juízo
Estadual, se a Comarca do domicílio do segurado não fosse sede de Vara Federal,
o que, entretanto, não configura a hipótese dos autos.
3. Conflito de Competência conhecido para declarar a competência do
Juízo Federal da 17a. Vara da Subseção Judiciária de Petrolina da Seção Judiciária
de Pernambuco, o suscitante, para processar e julgar a presente demanda,
inobstante o parecer do MPF.
(STJ, 3ª Seção, CC 86.797/PE, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado
em 22.08.2007, DJ 03.09.2007 p. 119).

Com fundamentação mais esclarecedora, a 1ª Turma Recursal dos Juizados


Especiais Federais do Paraná (R.I. 2007.70.60.000808-0. Relatora Juíza Federal Ana
Beatriz Vieira da Luz Palumbo, julgado em 26.02.2009) ponderou que

não havendo controvérsia sobre a caracterização da ocorrência de acidente de


trabalho e não sendo relevante a identificação de eventual responsabilização
de outrem em razão deste, tal como ocorre no caso do segurado especial que
trabalha em regime de economia familiar, não há razão para que a compe-
tência seja firmada na Justiça Estadual, pois toda a matéria em discussão é de
competência do juiz federal.

158
Justiça federal e benefícios previdenciários oriundos de acidente de trabalho

O entendimento sumulado, a nosso juízo, pressupõe ainda que a causa de pedir


envolva justamente a condição do acidente de trabalho. Se para apreciação do pedido
de benefício previdenciário não é necessário definir se houve ou não acidente de
trabalho, ou a quem recai a culpa pela ocorrência, não há a menor razão para que
haja a atração da competência da justiça estadual para a causa.13
Afastada desde já a aplicação do entendimento sumular aos segurados especiais,
resta saber se os referidos fundamentos do entendimento sumulado ainda persistem
(em relação aos demais segurados da Previdência Social, notadamente os segurados
empregados), dada a mudança de cenários ocorrida nos últimos anos, não apenas
em matéria jurídica, como se verá no item seguinte.

3. RELEVANTES ASPECTOS ECONÔMICOS, SOCIAIS


E JURÍDICOS QUE MINAM O ENTENDIMENTO
SUMULADO
Fatos supervenientes à norma jurídica e ao entendimento sumulado estão
demandando uma nova compreensão do art. 109, I, da CF/1988: a) alteração da
legislação ordinária unificando os benefícios previdenciários “strito sensu” com os
acidentários; b) alteração significativa do bloco de constitucionalidade após EC n°
45/2008, com a transferência para Justiça do Trabalho das causas de responsabilidade
civil decorrentes de acidente de trabalho; c) ampliação e interiorização da Justiça
Federal e criação dos Juizados Especiais Federais.

a) Alteração da legislação ordinária unificando os benefícios


previdenciários “strito sensu” com os acidentários
Mesmo com a incorporação do seguro de acidente do trabalho à Previdência
Social pela Lei n° 5.316/1967 (revogada pela Lei nº 6.367/1976, que manteve a
incorporação), os benefícios continuaram sendo disciplinados em diploma legal
distinto do referente aos benefícios previdenciários em geral.
O primeiro passo para unificação ocorreu com a promulgação da Lei n°
8.213/1991, que passou a disciplinar exaustivamente os benefícios previdenciários,
incluindo os decorrentes de acidente de trabalho.

13 Segundo José Antonio Savaris, “esse argumento já bastaria para a releitura da norma inscrita no
art. 109, I, da Constituição Federal” (Direito Processual Previdenciário. Curitiba: Juruá, 2008,
p. 308.), tendo adicionado na sequência, contudo, outro aspecto, desta vez de ordem pragmáti-
ca, qual seja, a criação dos Juizados Especiais Federais. Esse último aspecto é, para nós, um fato
relevante e superveniente, de natureza estrutural, a justificar, junto com outros dois, também
referidos no tópico a seguir, a mutação constitucional ora defendida neste ensaio.

159
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Embora disciplinados no mesmo diploma legal, permaneceram algumas di-


ferenças entre o benefício previdenciário “strito sensu” e o decorrente de acidente
de trabalho. De fato, a redação original do art. 28, §§ 1° a 4°, da Lei n° 8.213/1991
diferenciava a base de cálculo do salário-de-contribuição para os benefícios decor-
rentes de acidente de trabalho. Nesses casos, considerava-se o salário-de-contribuição
vigente no dia do acidente, se mais vantajoso. Assim, além da necessidade de se
apurar a incapacidade para o trabalho, havia a necessidade de se apurar o nexo de
causalidade entre acidente e trabalho, bem como a data do acidente de trabalho.
Posteriormente, a Lei n° 9.032, de 28 de abril de 1995, concluiu a consolidação
da disciplina dos benefícios previdenciários, extinguindo, quase por completo, as
distinções existentes entre os “benefícios acidentários” e os “previdenciários”. Assim,
os benefícios por incapacidade decorrentes de acidente de trabalho passaram a ter
o exato valor do benefício previdenciário por incapacidade decorrente de outras
causas: auxílio-doença, 91% do salário-de-benefício (Art. 61 da Lei 8.213/1991, com
redação dada pela Lei nº 9.032/1995); auxílio-acidente, 50% salário-de-benefício
(Art. 86, § 1º, da Lei 8.213/1991); aposentadoria por invalizez, 100% do salário-de-
-benefício que o segurado recebia (Art. 44 da Lei 8.213/1991, com redação dada
pela Lei nº 9.032, de 28-4-95) ou daquela a que teria direito se estivesse aposentado
por invalidez na data de seu falecimento (Art. 75 da Lei 8.213/1991, com redação
dada pela Lei nº 9.528/1997).
Essa consolidação teve reflexo inclusive na Emenda Constitucional n° 20/1998,
que, ao modificar o art. 201 da CF/1988, excluiu a expressão “resultantes de acidentes
de trabalho”, vez que não havia mais substrato para diferenciação entre incapacidade
decorrente de acidente de trabalho ou não:

Art. 201. Os planos de previdência social, mediante contribuição, aten-


derão, nos termos da lei, a: I − cobertura dos eventos de doença, invalidez,
morte, incluídos os resultantes de acidentes do trabalho, velhice e reclusão.
(redação original).
Art. 201. A previdência social será organizada sob a forma de regime ge-
ral, de caráter contributivo e de filiação obrigatória, observados critérios que
preservem o equilíbrio financeiro e atuarial, e atenderá, nos termos da lei, a:
I − cobertura dos eventos de doença, invalidez, morte e idade avançada. (Re-
dação dada pela Emenda Constitucional nº 20, de 1998).

A diferença existente atualmente entre o benefício por incapacidade aciden-


tário e o não-acidentário, além da carência já comentada (que para os benefícios
decorrentes de acidente de trabalho é dispensada), corresponde à estabilidade, a
qual é conferida pelo art. 118 da Lei 8.213/1991 ao trabalhador que tenha sofrido
acidente de trabalho, durante doze meses após cessação do auxílio-doença decorrente
160
Justiça federal e benefícios previdenciários oriundos de acidente de trabalho

de acidente de trabalho. Porém, tal matéria (estabilidade) sempre foi da alçada da


Justiça do Trabalho.

b) Alteração significativa do bloco de constitucionalidade


após EC n° 45/2008, com a transferência para Justiça do
Trabalho das causas de responsabilidade civil decorrentes
de acidente de trabalho
A Emenda Constitucional n° 45/2004 alterou o art. 114 da CF/1988, para incluir
na competência da Justiça do Trabalho “as ações de indenização por dano moral ou
patrimonial, decorrentes da relação de trabalho” (inciso VI).
As dúvidas iniciais sobre se tal inciso abrangeria ou não as ações de indenização
em razão de acidente de trabalho foram de logo sanadas pelo STF, que decidiu que
a competência para julgar ações de indenização por danos morais e materiais entre
empregador e empregado, incluindo as de acidente de trabalho, após a edição da
EC 45/04, é da Justiça do Trabalho (Precedentes: CC n. 7.204, Min. Carlos Britto,
DJ de 9.12.05; AgR-RE n. 509.352, Min. Menezes Direito, DJe de 1º.8.08; ED em RE
511219, Min. Ellen Gracie, julgado em 23.06.09).
De certa forma, esta alteração constitucional racionaliza as atividades juris-
dicionais, com ganhos para administrados e Administração Pública, haja vista que
a demanda indenizatória por danos materiais e morais decorrentes de acidente de
trabalho tinha como causa de pedir matéria típica de relação de emprego.
Em razão de a Emenda Constitucional n° 45/2004 ter deslocado a competên-
cia para processar e julgar as ações que envolvam responsabilidade contratual pela
relação de trabalho, a Súmula nº 15 do STJ, que estabelece a competência da Justiça
Estadual para processar e julgar os litígios decorrentes de acidente de trabalho, bem
como, a Súmula nº 501 do STF, já não podem ser aplicadas em toda a sua plenitude,
haja vista que parcela considerável da competência daquela Justiça Comum Estadual
foi açambarcada pela Justiça Trabalhista.
Após a referida Emenda, a interpretação que menos satisfaz o princípio da
eficiência é a de que a Justiça Estadual permaneceria com a competência para
as demandas de benefícios previdenciários decorrentes de acidente de trabalho.
Isso porque o que justificava as súmulas (unificação da jurisdição para apreciar a
indenização civil e o benefício previdenciário) não mais ocorrerá, pois o segurado
acidentado, através dessa interpretação, terá que ajuizar a ação de indenização na
Justiça do Trabalho e a ação previdenciária na Justiça Estadual.
Entender que caberá à Justiça do Trabalho a apreciação das ações previ-
denciárias decorrentes de acidente de trabalho manterá os mesmos inconve-

161
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

nientes já comentados, quanto ao entendimento sumulado sobre o art. 109, I, da


CF/1988.
A solução mais consentânea com os princípios da eficiência, economicidade e
segurança jurídica, sem sombras de dúvidas, é a de que a competência é da Justiça
Federal.

c) Ampliação e interiorização da Justiça Federal e criação dos


Juizados Especiais Federais
Outro ponto relevante que abala um dos pressupostos do entendimento pre-
ponderante do STF e STJ (maior proximidade da Justiça Estadual com os jurisdicio-
nados) diz respeito à ampliação da Justiça Federal ocorrida nos últimos oito anos.
Com a criação de Juizados Especiais Federais (Lei n° 10.259/2001) e instalação
de varas no interior dos estados, a Justiça Federal aproximou-se efetivamente dos
jurisdicionados, estando presente em todos os lugares do país.
Com a Lei n° 10.259/2001, o segurado poderá ajuizar causas previdenciárias
até 60 salários mínimos, sem assistência de advogado, no Juizado Especial Federal,
sob o rito sumaríssimo, o que não tem paralelo na Justiça Estadual, vez que o §
2° do art. 3° da Lei n° 9.099/1995 expressamente exclui as causas de acidentes de
trabalho da Justiça Especial Estadual. Dessa forma, prevalecendo o entendimento
sumulado após esse novo cenário institucional, o segurado que sofrer acidente de
trabalho mais uma vez estará em situação de desvantagem em relação ao segurado
que está incapacitado por outras causas.

4. REVISÃO INFORMAL DO ART. 109, I, DA CF/1988


As desconformidades da interpretação preponderante em relação a atuais as-
pectos econômicos, sociais e jurídicos ressaltados no item precedente demonstram
a necessidade de que o conteúdo do art. 109, I, da CF/1988 se adapte à realidade
atual da sociedade brasileira.
Tal desiderato poderá ser alcançado através de reforma formal da Constituição.
Nessa toada, constata-se a tramitação de Proposta de Emenda à Constituição – PEC,
de nº 127, de 2015, que tem por fulcro alterar o art. 109, I, da Constituição Federal,
retirando a exceção às causas de acidente de trabalho.
Há também a possibilidade de reconhecimento de uma mudança informal da
Constituição, como bem aponta Bezerra14,

14 BEZERRA, P. C. S. Mutação Constitucional: os processos mutacionais como mecanismos de


acesso à Justiça. Tributação Desenvolvimento, Recife-PE, v. I, p. 07-22, 2002, aqui p. 11.

162
Justiça federal e benefícios previdenciários oriundos de acidente de trabalho

ao lado da reforma formal da Constituição, em suas modalidades de revisão


e emenda, há, também, a mudança informal, aquela que se opera, sem que
mudança do texto ocorra. É mudança também conhecida como transição cons-
titucional ou revisão informal (CANOTILHO), processos oblíquos (FERRAZ);
processos não formais (BISCARETTI DI RUFFIA); mudança material (PINTO
FERREIRA); vicissitude constitucional tácita (MIRANDA).

E qual o fundamento da mutação constitucional, outra denominação utilizada


para o mesmo fenômeno de reforma informal da Constituição? Ainda nas palavras
de Bezerra,15 “materialmente constitucional que é, a mutação tem fundamento na
adequação sociológica da Constituição, em sua dimensão material”.
As mutações constitucionais, como bem sintetizam Mendes, Coelho e Branco,16
nada mais são que as alterações semânticas dos preceitos da Constituição, em
decorrência de modificações no prisma histórico-social ou fático-axiológico em
que se concretiza a sua aplicação. (...) as mutações constitucionais são decor-
rentes – nisso residiria a sua especificidade – da conjugação da peculiaridade
da linguagem constitucional, polissêmica e indeterminada, com os fatores ex-
ternos, de ordem econômica, social e cultural, que a Constituição – pluralista
por antonomásia −, intenta regular e que, dialeticamente, interagem com ela,
produzindo leituras sempre renovadas das mensagens enviadas pelo constituinte.

A mutação constitucional tem início quando a necessidade para adaptação


sociológica da Constituição é reconhecida nas decisões judiciais, as quais começam
a excepcionar o entendimento anterior e as exceções vão se tornando, cada vez mais,
numerosas e relevantes. Nesse sentido, bem expõe Silva Neto:17

Quando as indigitadas necessidades alcançam legitimidade de tal monta


a ponto de causar ressonância na atuação judicial, na modificação dos usos e
costumes e na interferência de grupos de pressão, este será o momento propício
para o desenvolvimento da mutação constitucional, sem que se investigue se
houve mudança informal anterior que a ampare.

E nesse ponto, não há dúvida que o STF e o STJ já dão sinais claros de relati-
vização do entendimento preponderante de suas súmulas.

15 BEZERRA, P. C. S. Mutação Constitucional: os processos mutacionais como mecanismos de


acesso à Justiça. Tributação Desenvolvimento, Recife-PE, v. I, p. 07-22, 2002, aqui p. 12.
16 MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet.
Curso de direito constitucional. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 152.
17 SILVA NETO, Manoel Jorge. Curso de direito constitucional. Rio de Janeiro: Lumen Júris,
2006, p. 23.

163
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

O STJ, por exemplo, assentou que a competência é da Justiça Federal quando,


embora se tratando de benefício decorrente de acidente de trabalho, haja necessidade
de se apurar a condição de segurado especial do trabalhador:

PREVIDENCIÁRIO. CONFLITO DE COMPETÊNCIA. COMPROVAÇÃO DA


QUALIDADE DE SEGURADO ESPECIAL, NA CONDIÇÃO DE TRABALHADOR
RURAL, PARA FINS DE CONCESSÃO DE BENEFÍCIO ACIDENTÁRIO. PARECER
DO MPF PELA COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA ESTADUAL. COMPETÊNCIA DA
JUSTIÇA FEDERAL.
1. A jurisprudência deste Tribunal Superior é assente quanto à competência
residual da Justiça Estadual para processar demanda relativa a acidente de
trabalho. Entretanto, a comprovação da qualidade de segurado especial, para
fins de concessão de benefício perante a Autarquia Previdenciária, como no caso,
é matéria estranha à competência da Justiça Estadual, devendo ser a demanda
processada pela Justiça Federal, nos termos do art. 109, I da CF.
2. Somente seria possível o processamento da presente ação no Juízo
Estadual, se a Comarca do domicílio do segurado não fosse sede de Vara Federal,
o que, entretanto, não configura a hipótese dos autos.
3. Conflito de Competência conhecido para declarar a competência do
Juízo Federal da 17a. Vara da Subseção Judiciária de Petrolina da Seção Judiciária
de Pernambuco, o suscitante, para processar e julgar a presente demanda,
inobstante o parecer do MPF.
(STJ, 3ª Seção, CC 86.797/PE, Rel. Min. Napoleão Maia, julgamento
22.08.2007, DJ 03.09.2007 p. 119).

O STJ também não está aplicando o entendimento sumulado nas ações re-
visionais de pensão por morte decorrente de acidentes de trabalho, tendo fixado
a competência da Justiça Federal para tais demandas (Conflitos de Competência
89.282/RS, 62.531/RJ, 89.633/SP e 89.382/SP). E mais recentemente, em 2016, o
STJ acolheu integralmente a tese defendida neste trabalho, no sentido de que a
competência é da Justiça Federal quando a discussão diz respeito apenas à inca-
pacidade para o trabalho e qualidade de segurado, sem necessidade de avaliar a
origem acidentária da doença:

PROCESSUAL CIVIL. CONFLITO DE COMPETÊNCIA. PENSÃO POR MOR-


TE DE APOSENTADO EM RAZÃO DE ACIDENTE DE TRABALHO. AUSÊNCIA
DE DISCUSSÃO ACERCA DO ACIDENTE DE TRABALHO. COMPETÊNCIA DA
JUSTIÇA FEDERAL. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.
1. Hipótese em que viúva de segurado aposentado em razão de acidente de
trabalho pede ao INSS a concessão da respectiva pensão, benefício previdenciário
estrito, devendo o pedido ser processado e julgado na Justiça Federal.

164
Justiça federal e benefícios previdenciários oriundos de acidente de trabalho

2. A fixação da competência da Justiça Estadual, nos termos da Súmula


15-STJ (“Compete à Justiça Estadual processar e julgar os litígios decorrentes
de acidente de trabalho.”) somente ocorre quando o pedido de pensão, a sua
revisão ou outro benefício discutem, com causa de pedir, o próprio acidente de
trabalho, ou quando há necessidade de prova pericial em derredor do próprio
acidente (verificação da redução da capacidade de trabalho do segurado, v.g.),
o que não ocorre na espécie.
3. Não está em discussão, próxima ou remotamente, o acidente de trabalho
que levou à aposentadoria do autor da pensão. Cuidando-se de pedido de
pensão por morte, como benefício previdenciário estrito, não ostentam relevo
as circunstâncias nas quais se deu o falecimento do segurado. (Cf. CC 62.531/RJ,
Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, DJU 26/03/2007; AgRg no CC 112.710/
MS, Rel. Ministro Og Fernandes, Terceira Seção, julgado em 28/09/2011, DJe
07/10/2011; e AgRg no CC 113.675/SP, Rel. Ministra Assusete Magalhães,
Terceira Seção, julgado em 12/12/2012, DJe 18/12/2012.)
4. Agravo regimental desprovido.
(STJ, 1ª Seção, AgRg no CC 139.399/RJ, Relator Ministro (convocado) Olindo
Menezes, julgado em 25.02.2016, DJe 02.03.2016).

Em outras palavras, a 1ª Seção do Superior Tribunal de Justiça assentou


categoricamente que compete à Justiça Federal processar e julgar as causas previ-
denciárias quando, embora de origem acidentária, o ponto controvertido não é o
acidente de trabalho.
O STF, por seu turno, asseverou que a ressalva do art. 109, I, da CF/1988 quanto
às causas de acidente de trabalho somente se aplica quando se tratar exclusivamente
de acidente de trabalho, o que não ocorre nas lides em que se discute outro elemento,
tal como a possibilidade de acumulação de benefícios:

EMENTA: ACUMULAÇÃO DE PROVENTOS DE APOSENTADORIA COM


AUXÍLIO SUPLEMENTAR. RECURSO JULGADO POR TURMA RECURSAL DO
JUIZADO ESPECIAL FEDERAL PREVIDENCIÁRIO. MATÉRIA QUE NÃO SE IN-
SERE NA RESSALVA CONTEMPLADA PELO ART. 109, I, DA CF. QUESTÃO QUE
ENVOLVE APENAS ACIDENTE DE TRABALHO. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA
FEDERAL. RE IMPROVIDO. I − Tratando-se de matéria de interesse do INSS,
qual seja, a possibilidade ou não de acumulação de proventos da aposentadoria
com o auxílio suplementar, a matéria refoge à competência da Justiça comum.
II − Questão que não se enquadra na ressalva do art. 109, I, da CF, visto que não
cuida exclusivamente de acidente do trabalho. III − Reconhecida a competência
da Justiça Federal para julgar o feito. IV − Recurso extraordinário improvido.
(STF, 1ª Turma, RE 461.005/SP, Min. Lewandowski, julgado em 08.04.2008,
DJe 08.05.2008).

165
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Posteriormente, o STF teve uma ótima oportunidade de rever de maneira


substancial seu entendimento ao apreciar o Recurso Extraordinário 638.483 (Rel.
Min. Cezar Peluso, Dje 31/08/2011), submetido ao regime do art. 543-B do CPC
(repercussão geral). Contudo, acabou por reafirmar o entendimento já sumulado
(Súmula n° 501 do STF), assim assentando a seguinte tese de repercussão geral (Tema
414): “Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar as causas relativas ao
restabelecimento de benefícios previdenciários decorrentes de acidentes de trabalho”.
Ocorre que o STF, nesse julgado, não abordou a questão de o ponto controver-
tido não ser o acidente de trabalho, tampouco referiu-se às alterações legislativas,
inclusive constitucionais, acerca das causas acidentárias, amplamente discutidas
nesse ensaio e que minam, em nosso entender, o entendimento sumulado. Por essas
razões, entende-se que é hipótese de se fazer o distinguishing, tal como realizado
implicitamente pelo STJ (AgRg no CC 139399, 2016), de maneira a não aplicar o
precedente nos casos em que não se discute o acidente de trabalho em si.
Como se constata por tudo que foi exposto, estamos presente de mutação
constitucional do art. 109, I, da CF/1988, através de interpretação constitucional,
que é uma das espécies, conforme sistematização proposta por Bulos:18

a) as mutações constitucionais operadas em virtude da interpretação consti-


tucional, nas suas diversas modalidades e métodos; b) as mutações decorrentes
das práticas constitucionais; c) as mutações através da construção constitucio-
nal; e d) as mutações constitucionais que contrariam a Constituição, é dizer,
as mutações inconstitucionais.

A mutação constitucional do art. 109, I, da CF/1988, defendida neste traba-


lho, no sentido de que a Justiça Federal é competente para apreciar os benefícios
previdenciários decorrentes de acidente de trabalho, melhorará inevitavelmente a
relação entre segurado e instituto de previdência, trazendo maior segurança jurídica
para as decisões judiciais.
Com a unificação dos julgamentos de todas as demandas de natureza pre-
videnciária na Justiça Federal guerreada na mutação constitucional do art. 109,
I, da CF/1988, serão eliminados o retardo no desfecho do processo em razão
dos conflitos de competência e o prolongamento desnecessário do trâmite pro-
cessual para o segurado aguardar todo julgamento de sua demanda na Justiça
Estadual para só depois ingressar com um novo pedido na Justiça Federal. Haverá
também ganhos para Administração Pública Federal, pois a unificação referida

18 BULOS, Uadi Lammêgo. Mutação constitucional. São Paulo: Saraiva, 1997, p. 70-71.

166
Justiça federal e benefícios previdenciários oriundos de acidente de trabalho

possibilitará que o INSS uniformize procedimentos e otimize a estrutura de


servidores para o cumprimento das decisões judiciais oriundas de apenas uma
jurisdição estatal.
A possibilidade de o segurado acidentado ajuizar a demanda no Juizado Espe-
cial Federal, a desnecessidade de assistência de advogados e a maior uniformização
das decisões em razão do menor número de cortes de apelação na jurisdição federal,
aliado às vantagens destacadas no parágrafo anterior, em última análise, representam
uma ampliação de acesso à justiça, que é um efeito esperado da mutação constitu-
cional, como sublinhado por Bezerra:19

Nesse diapasão, as mutações constitucionais ao servirem de meio de


adaptação dos textos constitucionais à realidade social, servem de mecanismo
a um maior acesso à justiça. De fato, não pode haver maior óbice de acesso
à justiça do que uma Constituição interpretada restritiva e obtusamente pelos
seus operadores. O problema do acesso à justiça é um problema ético-social
no plano da realização do direito. Muito mais do que os chamados obstáculos
econômicos de acesso á justiça, como custas e honorários advocatícios, avultam
os obstáculos provocados por posturas equivocadas por interpretações obscuras,
por construções mal feitas, pelas grades da lei.

5. CONCLUSÃO
O entendimento sumulado do STJ e STF relativo ao art. 109, I, da CF/1988,
no sentido de que a competência para benefícios previdenciários decorrentes de
acidente de trabalho é da Justiça Estadual, pressupõe uma relação de emprego entre
o trabalhador e o tomador de serviços (e por isso, uma possibilidade de respon-
sabilização do tomador de serviços pelo acidente de trabalho). Por não haver essa
possibilidade no regime de economia familiar, tal entendimento não se aplica às
demandas dos segurados especiais em que pedem benefício previdenciário de natu-
reza acidentária (auxílio-doença, aposentadoria por invalidez ou auxílio-acidente),
sendo, assim, competente para essas causas a Justiça Federal.
Como pressupõe ainda o entendimento sumulado do STJ e STF que a discussão
judicial envolva justamente a condição de acidente de trabalho, a competência é da
Justiça Federal para apreciar pedido de concessão, restabelecimento ou revisão do
benefício previdenciário, quando a causa de pedir não está alicerçada na ocorrência
ou delimitação do acidente de trabalho.

19 BEZERRA, P. C. S. Mutação Constitucional: os processos mutacionais como mecanismos de


acesso à Justiça. Tributação Desenvolvimento, Recife-PE, v. I, p. 07-22, 2002, aqui p. 17.

167
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

O referido entendimento sumulado de uma maneira geral (não apenas quando


se tratar de segurados especiais ou quando a causa de pedir não envolver acidente
de trabalho) não está, a rigor, mais compatível com a atual realidade social e insti-
tucional, demandando novo conteúdo, para que seja possível levar em consideração
os seguintes fatos supervenientes e relevantes: a) alteração da legislação ordinária
unificando os benefícios previdenciários “strito sensu” com os acidentários; b)
alteração significativa do bloco de constitucionalidade após EC n° 45/08, com a
transferência para Justiça do Trabalho das causas de responsabilidade civil decorrente
de acidente de trabalho; c) ampliação e interiorização da Justiça Federal e criação
dos Juizados Especiais Federais, aproximando-se a Justiça Federal do domicílio do
jurisdicionado.
Constatou-se que a situação cuida de um verdadeiro caso de mutação consti-
tucional do art. 109, I, da CF/1988, através de interpretação sem alteração do texto
constitucional, pela qual as demandas de benefícios previdenciários decorrentes de
acidente de trabalho devem ser apreciadas pela Justiça Federal. Não haveria, por esse
ângulo, necessidade do processo de reforma formal que está em curso no Congresso
Nacional (Proposta de Emenda à Constituição – PEC, de nº 127, de 2015).
A unificação dos julgamentos de todas as ações previdenciárias na Justiça
Federal, guerreada na mutação constitucional do art. 109, I, da CF/1988, vem ao
encontro dos princípios da celeridade processual, da segurança jurídica, da eficiência
da administração pública, enfim de um maior acesso à justiça.
Tendo o STF, ao apreciar o RE 638.483 (Rel. Min. Cezar Peluso), reafirmado
seu entendimento sumulado em 2011, em vez de suplantá-lo, e não tendo abordado
expressamente tais relevantes fatos supervenientes e suas implicações para a com-
petência de jurisdição, remanesce ao aplicador realizar o distinguishing, afastando
a aplicação das citadas súmulas quando o ponto controvertido não for acidente de
trabalho, tal como já o fez o próprio STJ.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTRO, Carlos Alberto Pereira; LAZZARI, João Batista. Manual de direito previdenciário.
6. ed. São Paulo: LTr, 2005.
BEZERRA, Fabio Luiz de Oliveira. Mutação constitucional do art. 109, I, da CF/88. Revista
de Informação Legislativa, v. 192, p. 137-146, 2011.
BEZERRA, P. C. S. Mutação Constitucional: os processos mutacionais como mecanismos de
acesso à Justiça. Tributação Desenvolvimento, Recife-PE, v. I, p. 07-22, 2002.
BULOS, Uadi Lammêgo. Mutação constitucional. São Paulo: Saraiva, 1997.

168
Justiça federal e benefícios previdenciários oriundos de acidente de trabalho

ELLET, William. The case study handbook: how to read, discuss and write persuasively
about cases. Boston, Massachusetts: Harvard Business School Press, 2007.
MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet.
Curso de direito constitucional. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2009.
SAVARIS, José Antônio. Direito Processual Previdenciário. Curitiba: Juruá, 2008.
SILVA NETO, Manoel Jorge. Curso de direito constitucional. Rio de Janeiro: Lumen Júris,
2006.
TAVARES, Marcelo Leonardo. Direito previdenciário: regime geral de previdência social
e regimes próprios de previdência social. 8. ed. Rio de Janeiro: Lumen Júris, 2006.

169
A IMPLICAÇÃO DA NATUREZA
ACIDENTÁRIA DO BENEFÍCIO
PREVIDENCIÁRIO PARA A CONTAGEM DO
PERÍODO INTERCALADO DE SUA FRUIÇÃO
COMO TEMPO CONTRIBUTIVO
E DE CARÊNCIA

IGOR HENRIQUE DOS SANTOS LUZ1

1. INTRODUÇÃO
O presente trabalho pretende analisar, doutrinária, mas, sobretudo, jurispru-
dencialmente, a evolução da interpretação normativa concernente à possibilidade
de cômputo dos benefícios por incapacidade, de natureza acidentária ou não aciden-
tária, para fins de contribuição e a título de carência, no período básico de cálculo
(PBC) dos demais benefícios, tais como as aposentadorias (preferencialmente, as
programáveis), mas não exclusivamente.

1 Analista Judiciário da Justiça Federal (lotado na Assessoria do Juízo Federal da Subseção de


Apucarana/PR). Bacharel em Direito e Pós-Graduado em Direito Previdenciário pela Universi-
dade Estadual de Londrina – UEL. Pós-Graduando em Ciência Política pelo Centro Universitá-
rio de Maringá – Unicesumar. Mestre em Ciência Jurídica pela Universidade Estadual do Norte
do Paraná − UENP/Jacarezinho. Membro Jovem Jurista Pesquisador do Instituto Brasileiro
de Direito Social Cesarino Júnior (IBDSCJ) − Seção brasileira da “Société Internationale de
Droit du Travail et de la Sécurité Sociale” - SIDTSS. Associado ao Instituto Brasileiro de Direito
Previdenciário (IBDP). Filiado ao Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário
(IBRAJUS).
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

2. O PANORAMA GERAL DO CÔMPUTO DOS BENEFÍCIOS


POR INCAPACIDADE NA CARÊNCIA E NO TEMPO
CONTRIBUTIVO
Sabe-se que, até a edição da Instrução Normativa no. 20/2007, a autarquia pre-
videnciária não reconhecia, para fins de carência, o(s) período(s) em que o segurado
esteve em gozo de benefício por incapacidade, constando do art. 64 de seu texto:

Art. 64. Não será computado como período de carência:


II − o período em que o segurado está ou esteve em gozo de auxílio-doença
ou aposentadoria por invalidez, inclusive decorrente de acidente do trabalho ou
de qualquer natureza, salvo os períodos entre 1º de junho de 1973 a 30 de junho
de 1975 em que o segurado esteve em gozo de Auxílio-Doença Previdenciário
ou Aposentadoria por Invalidez Previdenciária;
VI − o período em que o segurado está ou esteve em gozo de auxílio-
acidente ou auxílio-suplementar;
VII − os períodos de auxílio-doença acidentário (espécie 91) e aposentadoria
por invalidez acidentária (espécie 92) com DIB a partir de 11 de outubro de
2001, data da publicação da Instrução Normativa INSS/DC nº 057.

Durante a vigência do referido ato, porém, o Ministério Público Federal ajuizou


ação civil pública que tramitou perante a 17a Vara Federal da Subseção de Porto
Alegre/RS, e foi, inicialmente, extinta por ilegitimidade ativa, mas, após aviado
recurso de apelação, reformada, para não apenas reconhecer-se a sua condição de
substituto processual, como, também, para se admitir a possibilidade de cômputo,
a título de carência, do tempo em que o segurado esteve em gozo de benefício por
incapacidade, rechaçando, assim, a disposição contida no inciso II, do artigo 64 ,da
Instrução Normativa no. 20/20072.

2 Cite-se a ementa: PREVIDENCIÁRIO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. MINISTÉRIO PÚBLICO. DI-


REITOS INDIVIDUAIS HOMOGÊNEOS. INTERESSE SOCIAL RELEVANTE. LEGITIMI-
DADE. AUXÍLIO-DOENÇA E APOSENTADORIA POR INVALIDEZ. CÔMPUTO COMO
PERÍODO DE CARÊNCIA PARA A PERCEPÇÃO DE OUTROS BENEFÍCIOS. POSSIBI-
LIDDE DESDE QUE INTERCALADOS COM PERÍODOS CONTRIBUTIVOS. 1. O Minis-
tério Público Federal tem legitimidade para ajuizar ação civil pública em defesa de direitos
individuais homogêneos, desde que evidenciado interesse social relevante, como no caso dos
autos, em que a lide cuida de hipossuficientes impossibilitados de trabalhar, temporária ou
permanentemente. 2. O tempo em que o segurado esteve em gozo de auxílio-doença ou de
aposentadoria por invalidez, desde que intercalado com períodos de trabalho efetivo, ou de
efetiva contribuição, pode ser computado para fins de carência. 3. Se os salários-de-benefício
do auxílio-doença e/ou da aposentadoria por invalidez percebidos no período básico de cálculo

172
A implicação da natureza acidentária do benefício previdenciário

Com a sua substituição, então, pela Instrução Normativa no. 77/2015, já se


passou a dispor no próprio código autárquico que:

Art.153. Considera-se para efeito de carência:


[…]
§ 1º Por força da decisão judicial proferida na Ação Civil Pública nº
2009.71.00.004103-4 (novo nº 0004103-29.2009.4.04.7100) é devido
o cômputo, para fins de carência, do período em gozo de benefício por
incapacidade, inclusive os decorrentes de acidente do trabalho, desde que
intercalado com períodos de contribuição ou atividade, observadas as datas a
seguir: (Nova redação dada pela IN INSS/PRES nº 86, de 26/04/2016)
I − no período compreendido entre 19 de setembro de 2011 a 3 de novem-
bro de 2014 a decisão judicial teve abrangência nacional; e
II − para os residentes nos Estados do Grande do Sul, Santa Catarina e
Paraná, a determinação permanece vigente, observada a decisão proferida pelo
Superior Tribunal de Justiça no Recurso Especial nº 1.414.439-RS, e alcança os
benefícios requeridos a partir de 29 de janeiro de 2009. (Nova redação dada
pela IN INSS/PRES nº 86, de 26/04/2016)

A pretensão da norma administrativa é regulamentar, interna corporis, os


comandos legais existentes na Lei de Benefícios (no. 8.213/91). Deles, se colhem
as seguintes redações:

Art. 24. Período de carência é o número mínimo de contribuições mensais


indispensáveis para que o beneficiário faça jus ao benefício, consideradas a
partir do transcurso do primeiro dia dos meses de suas competências.
[…]
Art. 29. O salário-de-benefício consiste:
(…)

de outro benefício só podem ser considerados como salário de contribuição para a estipulação
da renda mensal inicial da nova pretensão (aposentadoria por tempo de contribuição, v.g.,) se
medearam períodos contributivos, de modo a serem intercalados, ou seja, entre a data de início
do novo benefício e aquele por incapacidade deve existir período de contribuição, não vejo ra-
zão para dar tratamento diferenciado à questão posta nos presentes autos (cômputo, como pe-
ríodo de carência, do tempo em que o segurado estiver em gozo de benefício por incapacidade),
tanto mais quando a legislação previdenciária conceitua como período de carência “o número
mínimo de contribuições mensais indispensáveis para que o beneficiário faça jus ao benefício”.
(TRF4, AC 2009.71.00.004103-4, SEXTA TURMA, Relator CELSO KIPPER, D.E. 27/08/2010)
A decisão foi mantida no bojo do AgRg no REsp 1.271.928, Relator Ministro: Rogério Schietti
Cruz, 6a Turma, DJe: 03/11/2014.

173
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

§ 5º Se, no período básico de cálculo, o segurado tiver recebido benefícios


por incapacidade, sua duração será contada, considerando-se como salário-
de-contribuição, no período, o salário-de-benefício que serviu de base para o
cálculo da renda mensal, reajustado nas mesmas épocas e bases dos benefícios
em geral, não podendo ser inferior ao valor de 1 (um) salário mínimo.
[…]
Art. 55. O tempo de serviço será comprovado na forma estabelecida no
Regulamento, compreendendo, além do correspondente às atividades de
qualquer das categorias de segurados de que trata o art. 11 desta Lei, mesmo
que anterior à perda da qualidade de segurado:
(…)
II − o tempo intercalado em que esteve em gozo de auxílio-doença ou
aposentadoria por invalidez;

No âmbito de execução das leis, normou, ainda, o Regulamento da Previdência


Social (Decreto no. 3.048/99), sobre a matéria:

Art. 60. Até que lei específica discipline a matéria, são contados como
tempo de contribuição, entre outros:
(…)
III - o período em que o segurado esteve recebendo auxílio-doença ou
aposentadoria por invalidez, entre períodos de atividade;
(…)
IX - o período em que o segurado esteve recebendo benefício por
incapacidade por acidente do trabalho, intercalado ou não;
(…)
§ 3º O tempo de contribuição de que trata este artigo será considerado para
cálculo do valor da renda mensal de qualquer benefício.

Pois bem! O tema, que se tornou muito controvertido, ganhou cena no Judiciá-
rio nacional, como se viu, atraindo a pacificação e uniformização da jurisprudência
pelas Cortes Superiores, devido ao necessário controle populacional das demandas
previdenciárias.
Alcançando o Supremo Tribunal Federal, houve julgamento no RE 583.834,
sob a sistemática da repercussão geral, passando a vigorar a interpretação consti-
tucional à frente:

CONSTITUCIONAL. PREVIDENCIÁRIO. REGIME GERAL DA PREVIDÊNCIA


SOCIAL. CARÁTER CONTRIBUTIVO. APOSENTADORIA POR INVALIDEZ.
AUXÍLIO-DOENÇA. COMPETÊNCIA REGULAMENTAR. LIMITES. 1. O caráter

174
A implicação da natureza acidentária do benefício previdenciário

contributivo do regime geral da previdência social (caput do art. 201 da CF)


a princípio impede a contagem de tempo ficto de contribuição. 2. O § 5º do
art. 29 da Lei nº 8.213/1991 (Lei de Benefícios da Previdência Social – LBPS) é
exceção razoável à regra proibitiva de tempo de contribuição ficto com apoio
no inciso II do art. 55 da mesma Lei. E é aplicável somente às situações em que
a aposentadoria por invalidez seja precedida do recebimento de auxílio-doença
durante período de afastamento intercalado com atividade laborativa, em que há
recolhimento da contribuição previdenciária. Entendimento, esse, que não foi
modificado pela Lei nº 9.876/99. 3. O § 7º do art. 36 do Decreto nº 3.048/1999
não ultrapassou os limites da competência regulamentar porque apenas explic-
itou a adequada interpretação do inciso II e do § 5º do art. 29 em combinação
com o inciso II do art. 55 e com os arts. 44 e 61, todos da Lei nº 8.213/1991.
4. A extensão de efeitos financeiros de lei nova a benefício previdenciário
anterior à respectiva vigência ofende tanto o inciso XXXVI do art. 5º quanto o
§ 5º do art. 195 da Constituição Federal. Precedentes: REs 416.827 e 415.454,
ambos da relatoria do Ministro Gilmar Mendes. 5. Recurso extraordinário com
repercussão geral a que se dá provimento.
(STF, RE 583834, Relator(a): Min. Ayres Britto, Tribunal Pleno, Repercussão
Geral, DJe: 14/02/2012)

O Superior Tribunal de Justiça, igualmente, teve a oportunidade de uniformi-


zar o entendimento acerca da matéria3 no REsp 1.410.433, julgado sob o rito dos
recursos repetitivos (na forma do art. 543-C do CPC/73), cuja ementa se transcreve:

PREVIDENCIÁRIO. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DA CONTRO-


VÉRSIA. APOSENTADORIA POR INVALIDEZ DECORRENTE DE TRANSFOR-
MAÇÃO DE AUXÍLIO-DOENÇA. REVISÃO DA RMI. ART. 29, II E § 5º, DA LEI
8.213/91 ALTERADO PELA LEI 9.876/99. AUSÊNCIA DE ILEGALIDADE NA
APURAÇÃO DO VALOR INICIAL DOS BENEFÍCIOS. EXIGÊNCIA DE SALÁRIOS-
-DE-CONTRIBUIÇÃO INTERCALADOS COM PERÍODOS DE AFASTAMENTO
POR INCAPACIDADE. RECURSO DESPROVIDO. [...]
2. Nos termos do disposto nos arts. 29, II e § 5º, e 55, II, da Lei 8.213/91,
o cômputo dos salários-de-benefício como salários-de-contribuição somente
será admissível se, no período básico de cálculo − PBC, houver afastamento
intercalado com atividade laborativa, em que há recolhimento da contribuição
previdenciária.

3 Que, hoje em dia, encontra-se sumulado pelo enunciado no. 557 do Superior Tribunal de Jus-
tiça: “A renda mensal inicial (RMI) alusiva ao benefício de aposentadoria por invalidez pre-
cedido de auxílio-doença será apurada na forma do art. 36, § 7o, do Decreto n. 3.048/1999,
observando-se, porém, os critérios previstos no art. 29, § 5o, da Lei n. 8.213/1991, quando in-
tercalados períodos de afastamento e de atividade laboral”.

175
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

3. A aposentadoria por invalidez decorrente da conversão de auxílio-doença,


sem retorno do segurado ao trabalho, será apurada na forma estabelecida no art.
36, § 7º, do Decreto 3.048/99, segundo o qual a renda mensal inicial − RMI da
aposentadoria por invalidez oriunda de transformação de auxílio-doença será
de cem por cento do salário-de-benefício que serviu de base para o cálculo da
renda mensal inicial do auxílio-doença, reajustado pelos mesmos índices de
correção dos benefícios em geral. [...]
(STJ, REsp 1410433/MG, Rel. Ministro Arnaldo Esteves Lima, Primeira
Seção, DJe: 18/12/2013)

Embora em instância ordinária, outro órgão de uniformização posicionou-se


a respeito da possibilidade de cômputo do tempo ficto, a saber, a Turma Nacional
de Uniformização dos Juizados Especiais Federais (TNU), editando, inclusive, a
Súmula no. 73 de sua jurisprudência iterativa4.
Cristalina, pois, a viabilidade de se computar o(s) período(s) em que o(a)
segurado(a) esteve em gozo de benefício por incapacidade tanto para fins de carência
quanto a título contributivo (tributário)5, nada obstante a insistência do Instituto
Nacional do Seguro Social (INSS) no sentido de que os conceitos de carência e tempo
de serviço/contribuição não se equivalem e não podem ter sua incidência confun-
dida por analogia jurídica (apesar do brocardo hermenêutico de que “ubi eadem
ratio ibi idem jus” − onde houver o mesmo fundamento, haverá o mesmo direito”).
Porém, é imperioso reconhecer o estabelecimento do requisito da “intercala-
ção com período(s) de contribuição imediatamente posterior(es) ao benefício por
incapacidade e anterior(es) ao pleiteado” para a efetiva contagem do tempo ficto.
Além disso, os jurisdicionados têm vivido um situação estranha em relação à
exegese e à aplicação dos dipositivos legais e regulamentares acima mencionados,
porquanto, como posto, a contagem ficta do tempo de contribuição decorrente da
percepção de benefícios por incapacidade somente tem beneficiado “os residentes
nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná”6, a teor da previsão

4 SÚMULA 73 (DOU 13/03/2013, p. 0064)


O tempo de gozo de auxílio-doença ou de aposentadoria por invalidez não decorrentes de aci-
dente de trabalho só pode ser computado como tempo de contribuição ou para fins de carência
quando intercalado entre períodos nos quais houve recolhimento de contribuições para a pre-
vidência social.
5 Veja-se, por exemplo, o enunciado da Súmula no. 102 do Tribunal Regional Federal da 4a Re-
gião: “É possível o cômputo do interregno em que o segurado esteve usufruindo benefício por
incapacidade (auxílio-doença ou aposentadoria por invalidez) para fins de carência, desde que
intercalado com períodos contributivos ou de efetivo trabalho”.
6 Dita limitação territorial deveu-se ao parcial provimento conferido ao Recurso Especial ma-
nejado pelo Instituto Nacional do Seguro Social para impugnar o acórdão proferido nos au-

176
A implicação da natureza acidentária do benefício previdenciário

contida na Instrução Normativa no. 86/2016. Com efeito, a resposta autárquica, ao


menos, na fase preparatória do processo administrativo, tem sido pela denegação
do cômputo do(s) mencionado(s) período(s) para os segurados residentes fora do
território abarcado pelo Tribunal Regional Federal da 4a Região.
Em consequência, tanto o Ministério Público Federal quanto a sociedade civil
(através de suas associações, como o Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário
− IBDP) têm atuado judicialmente para estender a mesma forma de contagem aos
demais segurados do país, bastando ver que foram ajuizadas, no âmbito do Tribunal
Regional Federal da 2a Região, a ação civil pública no 0216249-77.2017.4.02.51017,
já sentenciada e em fase de recurso; no âmbito do Tribunal Regional Federal da
5a Região, a ação civil pública no. 0806813-33.2018.4.05.83008, já extinta e com
trânsito em julgado; e, no âmbito do Tribunal Regional Federal da 3a Região, a ação
civil pública no. 007252-92.2018.4.03.61839, com liminar deferida; todas contendo
esse pedido de extensão.

tos da Ação Civil Pública no. 0004103-29.2009.4.04.7100. Leia-se: “[…] conquanto proposta a
ação civil pública perante a Subseção Judiciária de Porto Alegre/RS, somente foi reconhecida
a procedência da demanda em sede de apelação, pelo Tribunal Regional Federal da 4a Região,
de modo que o acórdão respectivo faz coisa julgada erga omnes nos limites de sua competência
territorial, ou seja, sua eficácia abrange a concessão ou revisão de benefícios previdenciários
nos Estados do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul”. (STJ, REsp 1414439/RS, Rel.
Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, DJe: 03/11/2014)
7 A sentença nela exarada possui o seguinte dispositivo: “Pelo exposto, e com base na fundamen-
tação supra, JULGO PROCEDENTE O PEDIDO, na forma do art. 487, inciso I, do Código de
Processo Civil, para declarar a ilegalidade do § 1o do art. 153 da Instrução Normativa INSS/
PRES no 77, de 21/01/2015, bem como para condenar a autarquia à obrigação de fazer consis-
tente em proceder à edição de ato normativo que venha a alterar a Instrução Normativa men-
cionada, adequando seus termos, para que seja garantido a todos os segurados do País o direito
ao cômputo, para fins de carência, do tempo em que fora percebido benefício por incapacidade,
desde que intercalado com períodos de contribuição”.
8 O processo foi extinto devido ao reconhecimento da ilegitimidade ativa do Instituto Brasileiro
de Direito Previdenciário, nestes termos: “EXTINGO a presente Ação SEM RESOLUÇÃO DO
MÉRITO, com base no inciso VI, art. 485, CPC, em face da ilegitimidade da parte Autora con-
forme alínea “b”, inciso V, art. 5º, da Lei nº 7347/24.07.1985, ausente a pertinência temática”.
9 A tutela provisória pleiteada restou, assim, deferida: “Diante de todo o exposto, DEFIRO a limi-
nar, inaudita altera pars, para fins de afastar a aplicação dos termos do artigo 153, §1º da Instru-
ção Normativa INSS/PRES 77/2015, devendo ser computado para fins de carência, o período
em gozo do benefício de incapacidade, bem como aqueles decorrentes de acidente do trabalho,
desde que intercalados com períodos de contribuição ou atividade, conforme entendimento do
Plenário do Superior Tribunal de Justiça, com efeitos em todo o território nacional, nos termos
da fundamentação”. Todavia, aguarda-se o resultado do Agravo de Instrumento no. 5001928-
12.2019.4.03.0000 interposto para combatê-la.

177
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Por ora, esta é a situação subsuntiva vivenciada pelos segurados que se socor-
rem do Judiciário.

3 . SITUAÇAO “SUI GENERIS” DO AUXILIO-ACIDENTE


A par desse conhecimento, cumpre destacar uma ‘incongruência’ no sistema
protetivo, atinente à percepção do auxílio-acidente, que é modalidade de benefício
por incapacidade10, mas, de acordo com respeitável doutrina e a jurisprudência ma-
joritária, não serve à contagem do tempo ficto para fins de carência e contribuição.
Leia-se, dentre todos, o que diz Daniel Machado da Rocha:

Não é adequado emprestar ao inciso II do art. 55 uma exegese que permita


incluir os períodos nos quais o segurado, em percepção de auxílio-acidente,
não exerceu atividades abrangidas pelo regime geral. O benefício em tela não
possui caráter substitutivo e, além disso, as sequelas consolidadas não impedem
o exercício genérico de atividades profissionais11.

Forte, também, o entendimento jurisprudencial12 em igual sentido:

PREVIDENCIÁRIO. AUXÍLIO-ACIDENTE. NATUREZA INDENIZATÓRIA.


CONTAGEM COMO TEMPO DE CONTRIBUIÇÃO E PARA FINS DE CARÊNCIA.
IMPOSSIBILIDADE. […]
II − O auxílio-acidente possui natureza indenizatória, por este motivo, o
tempo em que o segurado esteve em gozo, exclusivamente, de auxílio-acidente,

10 Vide: MARTINEZ, Wladimir Novaes. Auxílio-acidente. São Paulo: Ltr, 2006, p. 108. De acor-
do com o autor, “o auxílio-acidente é o único benefício por incapacidade, inaptidão ainda que
parcial, mas permanente, que admite a volta ao trabalho ou permanência na empresa”.
11 [e-book] ROCHA, Daniel Machado da. Comentários à Lei de Benefícios da Previdência So-
cial. 16. ed. São Paulo: Atlas, 2018, p. 322.
12 APELAÇÃO CÍVEL – AÇÃO DE CONCESSÃO DE BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO – PER-
CEBIMENTO DO AUXÍLIO-ACIDENTE - NÃO CABIMENTO DA APOSENTADORIA
POR INVALIDEZ – NÃO CUMPRIMENTO DO PRAZO DE CARÊNCIA PREVISTO NO
ART. 55, DA LEI 8213/91 E ART. 60 DO REGULAMENTO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL – IM-
POSSIBILIDADE DE CONSIDERAR O AUXÍLIO-ACIDENTE PARA FINS DE CONTAGEM
DO TEMPO DE CONTRIBUIÇÃO − IMPOSSIBILIDADE DE CUMULAÇÃO DE DUAS OU
MAIS APOSENTADORIAS – OBSERVÂNCIA DO ART. 124, II, DA MENCIONADA LEGIS-
LAÇÃO − REFORMA DA SENTENÇA – JULGAMENTO IMPROCEDENTE DO PLEITO AU-
TORAL − RECURSO CONHECIDO E PROVIDO – DECISÃO UNÂNIME. (Apelação Cível nº
201900705630, nº. único 0005475-05.2016.8.25.0001 − 1ª CÂMARA CÍVEL, Tribunal de Justiça
de Sergipe − Relator(a): Roberto Eugenio da Fonseca Porto − Julgado em 07/05/2019)

178
A implicação da natureza acidentária do benefício previdenciário

não vertendo contribuições ao sistema previdenciário, não deve ser considerado


como tempo de contribuição ou para fins de carência, na forma do art. 55,
inciso II, da Lei n. 8.213/91. […]
(STJ, REsp 1752121/SC, Rel. Ministro Francisco Falcão, Segunda Turma,
DJe: 14/06/2019)

Contudo, a matéria não é pacífica, havendo precedente do próprio Superior


Tribunal de Justiça na contramão da posição prevalecente. Cite-se:

PREVIDENCIÁRIO. BENEFÍCIO POR INCAPACIDADE. CÔMPUTO DO


PERÍODO DE RECEBIMENTO APENAS DE AUXÍLIO-ACIDENTE PARA A CA-
RÊNCIA NECESSÁRIA À CONCESSÃO DA APOSENTADORIA POR IDADE.
POSSIBILIDADE. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E PROVIDO.
1. O auxílio-acidente − e não apenas o auxílio-doença e a aposentadoria por
invalidez − pode ser considerado como espécie de “benefício por incapacidade”,
apto a compor a carência necessária à concessão da aposentadoria por idade.
2. In casu, é de ser observada a vetusta regra de hermenêutica, segundo a
qual “onde a lei não restringe, não cabe ao intérprete restringir” e, portanto, não
havendo, nas normas que regem a matéria, a restrição imposta pelo Tribunal a
quo, não subsiste o óbice imposto ao direito à pensão por morte.
3. Recurso especial conhecido e provido.
(STJ, REsp 1243760/PR, Rel. Ministra Laurita Vaz, Quinta Turma, DJe:
09/04/2013)

A divergência teria se resolvido com a conversão da Medida Provisória no.


871/2019 na Lei no. 13.846/2019, que, dando nova redação ao inciso I, do art. 15,
da Lei no. 8.213/91, passou a dispor expressamente que “Mantém a qualidade de
segurado, independentemente de contribuições: I − sem limite de prazo, quem está
em gozo de benefício, exceto do auxílio-acidente” (destaques nossos).
Mas, tudo indica, a lei não avança sobre a lógica sistemática, e, tampouco, torna
equivalentes os conceitos jurídicos de carência, qualidade de segurado e salário de
contribuição. Ora, se a própria Lei de Benefícios afirma, em seus arts. 31 e 34, II, que
o valor mensal do auxílio-acidente integra o salário de contribuição para o cálculo do
salário de benefício de qualquer aposentadoria13, inexiste, data vênia, lógica jurídica
em afirmar-se que seus valores não podem ser computados no período de carência.
É verdade que o tema já foi analisado pelo Superior Tribunal de Justiça, no
REsp 1.247.97114 (DJe: 15/05/2015), argumentando, os defensores dessa não con-

13 Fazem-no, ainda, os arts. 36, II, e, 214, § 15, do Decreto no. 3.048/99.
14 PREVIDENCIÁRIO. AUXÍLIO-SUPLEMENTAR. CÔMPUTO DO TEMPO CORRESPON-
DENTE PARA EFEITO DE APOSENTADORIA. IMPOSSIBILIDADE. BENEFÍCIO QUE

179
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

tagem, basicamente, que: i) o auxílio-acidente não se caracteriza um benefício por


incapacidade, devido à sua não vitaliciedade, mas sim, um benefício por redução da
capacidade; e ii) seus valores mensais integram (leia-se complementam) o salário
de contribuição, sem substituí-los15, o que afastaria, sem sombra de dúvidas, o seu
caráter contributivo, por equivaler a benefício devido em estado de inatividade.
Todavia, e, data máxima vênia, parecer faltar, à jurisprudência, coragem para
dar às coisas ou institutos do Direito Previdenciário os nomes que efetivamente
têm. O que viria a ser um benefício por redução da capacidade laborativa senão
um benefício por (leia-se decorrente de...) incapacidade laborativa?
Se a natureza jurídica do benefício decorrente da perda da capacidade labora-
tiva (integral ou parcial, momentânea ou definitiva) é substitutiva dos rendimen-

INTEGRA, MAS NÃO SUBSTITUI, O SALÁRIO-DE-CONTRIBUIÇÃO. SEGURADO QUE


NÃO CONTRIBUIU PARA A PREVIDÊNCIA SOCIAL NO PERÍODO QUE PRETENDE
COMPUTAR. RECURSO ESPECIAL DESPROVIDO.
1. Por força do disposto no art. 55 da Lei n. 8.213/1991, no cálculo da aposentadoria por tempo
de serviço, “é possível considerar o período em que o segurado esteve no gozo de benefício por
incapacidade (auxílio-doença ou aposentadoria por invalidez) para fins de carência, desde que
intercalados com períodos contributivos” (AgRg no REsp 1.271.928/RS, Rel. Ministro Rogerio
Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 16/10/2014; REsp 1.334.467/RS, Rel. Ministro Castro
Meira, Segunda Turma, julgado em 28/05/2013; AgRg no Ag 1.103.831/MG, Rel. Ministro Mar-
co Aurélio Bellizze, Quinta Turma, julgado em 03/12/2013).
Nos termos do art. 31 da Lei n. 8.213/1991, o valor mensal do auxílio-acidente − e, por extensão,
o valor do auxílio-suplementar, que foi absorvido por aquele (AgRg no REsp 1.347.167/RS, Rel.
Ministro Ari Pargendler, Primeira Turma, julgado em 18/12/2012; AgRg no REsp 1.098.099/SP,
Rel. Ministro Marco Aurélio Bellizze, Quinta Turma, julgado em 27/11/2012; AgRg no AREsp
116.980/SP, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 03/05/2012)
− “integra o salário-de-contribuição” tão somente “para fins de cálculo do salário-de-benefício
de qualquer aposentadoria”.
E “serão considerados para cálculo do salário-de-benefício os ganhos habituais do segurado
empregado, a qualquer título, sob forma de moeda corrente ou de utilidades, sobre os quais
tenha incidido contribuições previdenciárias, exceto o décimo-terceiro salário (gratificação
natalina)” (art. 29, § 3º). De acordo com o art. 214 do Decreto n. 3.048/1999, não integram o
salário-de-contribuição (§ 9º) os “benefícios da previdência social, nos termos e limites legais,
ressalvado o disposto no § 2º” (inc. I), ressalva relacionada com o salário-maternidade.
À luz desses preceptivos legais, é forçoso concluir que não pode ser computado como tempo de
serviço para fins de qualquer aposentadoria o período em que o segurado percebeu apenas o
auxílio-suplementar − salvo se no período contribuiu para a previdência social.
2. Recurso especial desprovido.
(STJ, REsp 1247971/PR, Rel. Ministro Newton Trisotto (DESEMBARGADOR CONVOCADO
DO TJ/SC), Quinta Turma, DJe 15/05/2015)
15 Esta interpretação encontra-se replicada na Instrução Normativa no. 77/2015, nestes termos:
Art. 174 […] § 1º Inexistindo período de atividade ou gozo de benefício por incapacidade den-
tro do PBC, o valor do auxílio-acidente não supre a falta do salário de contribuição.

180
A implicação da natureza acidentária do benefício previdenciário

tos do trabalho ou indenizatória é elemento normativo diverso do seu conceito


ou classificação. Acaso alguém duvida que haja distinção de natureza entre juros
remuneratórios e indenizatórios, muito embora ambos os tipos componham o
conceito jurídico de juros?
Mesmo que se considerasse o caráter ‘indenizatório’ do auxílio-acidente, isto
não afastaria o seu cômputo na carência de quaqluer outro benefício, porque a apo-
sentadoria por invalidez, que não é tributável (vista a não taxação dos inativos) e não
gera receita aos cofres da Seguridade Social (diversamente do auxílio-doença, cujos
9% faltantes ao percentual de 91% incidente sobre o salário de benefício e que dita
a sua renda mensa inicial, são ‘utilizados’ como contribuição durante o interstício
de seu recebimento), também não satisfaz o regime contributivo previdenciário, tal
qual o auxílio-acidente, mas é, por ficção legal, exceção razoável à regra proibitiva
de tempo de contribuição ficto.
Pouco importa, assim, se a natureza do benefício é indenizatória ou substitutiva
dos rendimentos do trabalho, pois não é a existência de contribuição que viabiliza o
seu cômputo como carência, e sim, o fato de ser um benefício por incapacidade. Fosse
diferente, a aposentadoria por invalidez tampouco serviria para fins de carência16.
A regra do art. 29, § 5o, da Lei no. 8.213/91, traz expressa referência aos “be-
nefícios por incapacidade”17 na apuração (formação) do salário de benefício, e não,

16 No entanto, veja-se a lógica jurídica pela qual se orienta o órgão autárquico, quando, no desen-
rolar de sua atuação, deve obediência aos comandos da Instrução Normativa no. 77/2015:
Art. 164. Até que lei específica discipline a matéria, são contados como tempo de contribuição,
entre outros, conforme previsto no art. 60 do RPS:
(…)
XVI − o período de recebimento de benefício por incapacidade:
(…)
c) o período a que se refere o art. 218, desde que intercalado entre atividades ou contribuições,
salvo quando se tratar de benefício decorrente de acidente do trabalho.
Art. 218. Verificada a recuperação da capacidade de trabalho do aposentado por invalidez,
excetuando-se a situação prevista no caput do art. 220, serão observadas as normas seguintes:
[…].
17 Idêntica realidade é extraida do próprio normativo autárquico, que não denomina os benefícios
por incapacidade servíveis ao cômputo do tempo de contribuição e da carência, mas, apenas,
vale-se da generalidade da locução. Colha-se (Instrução Normativa no. 77/2015):
Art. 164. Até que lei específica discipline a matéria, são contados como tempo de contribuição,
entre outros, conforme previsto no art. 60 do RPS:
(…)
XVI − o período de recebimento de benefício por incapacidade:
a) o não decorrente de acidente do trabalho, entre períodos de atividade, ainda que em outra
categoria de segurado, sendo que as contribuições como contribuinte em dobro, até outubro de

181
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

ao auxílio-doença e à aposentadoria por invalidez, mencionadas no art. 55, II, da


lei citada, como integrantes do tempo de serviço/contribuição.
E que o auxílio-acidente integra o tempo de serviço/contribuição, não há dúvi-
da, já que o Regulamento da Previdência Social (Decreto no. 3.048/99) estabelece que:

Art. 32 […]
§ 8º Para fins de apuração do salário-de-benefício de qualquer aposentadoria
precedida de auxílio-acidente, o valor mensal deste será somado ao salário-
de-contribuição antes da aplicação da correção a que se refere o art. 33,
não podendo o total apurado ser superior ao limite máximo do salário-de-
contribuição.
(…)
Art. 36. No cálculo do valor da renda mensal do benefício serão computados:
(…)
II - para o segurado empregado, o trabalhador avulso e o segurado especial,
o valor do auxílio-acidente, considerado como salário-de-contribuição para
fins de concessão de qualquer aposentadoria, nos termos do § 8º do art. 32.
(…)
§ 6º Para o segurado especial que não contribui facultativamente, o disposto
no inciso II será aplicado somando-se ao valor da aposentadoria a renda mensal
do auxílio-acidente vigente na data de início da referida aposentadoria, não
sendo, neste caso, aplicada a limitação contida no inciso I do § 2º do art. 39
e do art. 183.

Frise-se, no mais, que a leitura do § 6o, do art. 36 supra, já demonstra o trata-


mento diferenciado que será dado ao segurado especial e às outras modalidades de
segurado, acaso mantida a impossibilidade de contagem do auxílio-acidente para fins
de carência. A redação põe em xeque a conclusão de que o benefício integra (leia-se
complementa) os salários de contribuição sem substitui-los, pois, aos segurados es-
peciais que não contribuam facultativamente (ou seja, àqueles que perceberão renda
mensal de, no máximo, um salário mínimo) é assegurado o gozo, “diga-se”, de 2 (dois)
benefícios em conjunto, a saber, a aposentadoria e o auxílio-acidente, somados, porque
afastadas as limitações do § 2º do art. 39 e do art. 183 do Regulamento.
E qual a lógica dessa distinção? Até porque, na hipótese, o auxílio-acidente
assume característica vitalícia.

1991 ou como facultativo, a partir de novembro de 1991 suprem a volta ao trabalho para fins
de caracterização;
b) por acidente do trabalho intercalado ou não com período de atividade ou contribuição;

182
A implicação da natureza acidentária do benefício previdenciário

De resto, foi o próprio escólio jurisprudencial do RE 583.834 e do REsp


1.410.433, esposado nas Súmulas no. 557 do STJ, n.o 73 da TNU e n.o 102 do TRF
da 4a Região, que deixou claro que toda vez que um benefício por incapacidade
for tomado como tempo de contribuição será, consequentemente, e, por “analogia
jurídica” (construção pretoriana), computado para fins de carência.
Bem por isso, a conclusão no REsp 1.247.971 de que os benefícios previdenciá-
rios não integram o salário de contribuição, à exceção do salário maternidade, resta
frustrada e incoerente com o sistema protetivo, agora, uniformemente interpretado.
Seguindo, ainda, a exceção formulada ao final do aresto (“salvo se no período
contribuiu para a previdência social”), bastaria que o segurado promovesse um
único recolhimento, como facultativo18 que seja, precedentemente ao pleito do novo
benefício, para que, intercalando a percepção de seu auxílio-acidente com a versão
de contribuição ao sistema, fizesse jus à contagem do benefício por incapacidade
como carência.
Não guarda sintaxe, igualmente, o argumento de que a renda mensal do
auxílio-acidente é inferior, por vezes, a 1 (um) salário mínimo, por corresponder a
50% do salário de benefício (art. 86, § 6o, da Lei no 8.213/91), e, em razão disso, não
poderia vir a ser computada no tempo contributivo, já que este reclama incidência,
sempre, e, pelo menos, sobre o salário mínimo nacional. Isto porque o art. 29, § 5o,
diz que serão considerados “como salário-de-contribuição, no período, o salário-
-de-benefício que serviu de base para o cálculo da renda mensal”, e não, o valor da
própria renda mensal, ou seja, não é possível confundir-se o percentual da renda
com o percentual utilizado para calcular o salário de benefício.
Fora isso, o auxílio-acidente, no Brasil, afigura-se um benefício de caráter dú-
plice19, porquanto, se o segurado continuar a trabalhar e/ou contribuir, e, devido a
isso, adquirir direito à aposentadoria, o auxílio-acidente cessa, despindo-se de sua
vitaliciedade. No entanto, acaso o segurado não logre mais ocupação no mercado
de trabalho ou abstenha-se de contribuir facultativamente à Previdência Social, o

18 Art. 55. Podem filiar-se na qualidade de facultativo os maiores de dezesseis anos, mediante
contribuição, desde que não estejam exercendo atividade remunerada que os enquadre como
filiados obrigatórios do RGPS.
§ 1º Podem filiar-se facultativamente, entre outros:
XII − o beneficiário de auxílio-acidente ou de auxílio suplementar, desde que simultaneamente
não esteja exercendo atividade que o filie obrigatoriamente ao RGPS;
19 É o que se extrai do art. 104, § 1º, do Decreto no. 3.048/99: “O auxílio-acidente mensal cor-
responderá a cinqüenta por cento do salário-de-benefício que deu origem ao auxílio-doença
do segurado, corrigido até o mês anterior ao do início do auxílio-acidente e será devido até a
véspera de início de qualquer aposentadoria ou até a data do óbito do segurado”.

183
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

auxílio-acidente, por personalíssimo que é, somente cessará com sua morte, ou seja,
exteriorizará a sua vitaliciedade.
Dubitável afirmar, portanto, que o benefício não é vitalício após a Lei no
9.528/97.
Ademais, deve-se esclarecer que o auxílio-acidente, até a edição da Lei no
13.846/2019, era, já, considerado benefício por incapacidade, tanto que mantinha
a extensão da qualidade de segurado20 (o dito ‘período de graça’ do art. 15, I, da Lei
de Benefícios) durante curto período sem contribuição, fato, este, ‘desconsiderado’
pelo REsp 1.247.971. Somente com a inovação legislativa (art. 24 da lei citada) é
que a capacidade de o auxílio-acidente manter a qualidade de segurado foi expres-
samente afastada do art. 15, I, da Lei no 8.213/9121.
Entretanto, sem prejuízo algum ao seu cômputo como tempo contributivo ou
carência, porque, como já visto, os conceitos e institutos jurídicos da qualidade de
segurado, da carência, do salário de contribuição, e, claro, do salário de benefício,
são inconfundíveis. Ou alguém refuta a possibilidade de percepção de aposenta-
doria independentemente da ostentação da qualidade de segurado (art. 102, § 1o,
da Lei de Benefícios)?
Cumpre ressaltar, também, que a indenização do auxílio-acidente não se con-
funde com a indenização civil, típica da responsabilidade acidentária, nem a afasta22.
Pelo contrário, o sistema jurídico gera uma rede de proteção que inclui assistência à
saúde, seguros sociais de natureza diversa, a exemplo do ‘DPVAT’23, a indenização do
causador do dano, e o próprio seguro social previdenciário (auxílio-acidente), cujo

20 Segundo a Instrução Normativa no. 77/2015: Art. 137. Mantém a qualidade de segurado, in-
dependentemente de contribuição: I − sem limite de prazo, para aquele em gozo de benefício,
inclusive durante o período de recebimento de auxílio-acidente ou de auxílio suplementar;
21 Leia-se: Art. 15. Mantém a qualidade de segurado, independentemente de contribuições:
I − sem limite de prazo, quem está em gozo de benefício, exceto do auxílio-acidente; (Redação
dada pela Lei nº 13.846, de 2019)
22 Vale citar o Decreto no. 3.048/99: Art. 342. O pagamento pela previdência social das prestações
decorrentes do acidente a que se refere o art. 336 não exclui a responsabilidade civil da empresa
ou de terceiros.
23 Que é um Seguro Obrigatório de Danos Pessoais causados por Veículos Automotores de Via
Terrestre, regulado pela Lei no. 6.194/74, cujos prêmios integram as receitas destinadas à Segu-
ridade Social, a teor do art. 213, parágrafo único, do Regulamento da Previdência Social:
“Parágrafo único. As companhias seguradoras que mantém seguro obrigatório de danos pes-
soais causados por veículos automotores de vias terrestres, de que trata a Lei nº 6.194, de 19 de
dezembro de 1974, deverão repassar à seguridade social cinqüenta por cento do valor total do
prêmio recolhido, destinados ao Sistema Único de Saúde, para custeio da assistência médico-
-hospitalar dos segurados vitimados em acidentes de trânsito”.

184
A implicação da natureza acidentária do benefício previdenciário

objetivo é compensar, e não, indenizar, a perda da capacidade laborativa parcial e


definitiva (ou de longa duração) suportada pelo trabalhador no mercado capitalista,
dentro do contexto de valorização social do trabalho (art. 1o, IV, da Constituição).
Elucidativa, a propósito, é a lição de Marly Aparecida Cardone, quando explica
que:
Viver é correr riscos. Riscos de doença e de morte são os mais comuns. Se o
primeiro risco citado sucede, a pessoa pode ficar sem meios de subsistência, já
que a doença acarreta incapacidade temporária ou definitiva para o trabalho. Se
ocorre a morte, os que dependiam economicamente do falecido é que ficarão
desprovidos dos meios de sobrevivência. Em ambos os casos, não interessa nem
ao indivíduo nem a sociedade que haja pessoas impossibilitadas de consumir
e, portanto, de preencher suas necessidades vitais.
É compreensível que o ser humano deseje ter condições de existência
auferíveis de seu trabalho e, se não for possível, há de tê-las de outra fonte
socialmente aceitável. Razoável, também, especialmente nas sociedades indus-
trializadas ou pós-industrializadas que haja um aspecto econômico no exame
do problema. É preciso garantir que o nível de consumo de bens e serviços será
mantido, ainda que algumas pessoas estejam despossuídas de sua capacidade de
ganho, para que a normal circulação dos bens e serviços não fique prejudicada
e, com ela, a economia24.

A verdade é que toda vez que um segurado perde ou tem reduzida, parcial-
mente, sua capacidade laborativa, por longo prazo, toda a sociedade perde ou sente
a redução dessa capacidade em conjunto, porque o trabalhador deixa de participar
no mercado de consumo com toda a potencialidade que teria.
Então, a ideia a prevalecer, neste norte, deveria ser a da solidariedade (e não,
a chancelada pelo REsp 1.247.971)25.
É neste viés que a proteção social conferida pelo auxílio-acidente alinha-se
com as garantias fundamentais dos arts. 7o, XXII e XXVIII, e, 201, § 10, da Cons-
tituição Federal.

24 Cardone, Marly A. Previdência Social e Contrato de Trabalho. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2011,
p. 7-8.
25 A respeito, bem pontua Noa Piatã Bassfeld Gnata, ao afirmar:
Na feição tributária, todos – não apenas os trabalhadores, mas também todos os contribuintes
arrolados nos incisos do art. 195 – têm uma limitação impositiva de sua liberdade patrimonial
em favor da sociedade, subsumindo-se na ética da racionalidade obrigacional do direito priva-
do de responsabilidade solidária, por todos os sócios signatários do contrato social, pela manten-
ça do bem comum em favor de todos. (In: Solidariedade Social Previdenciária: Interpretação
Constitucional e Eficácia Concreta. São Paulo: LTr, 2014, p. 142).

185
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Mas, apesar destas mui sucintas considerações, o entendimento prevalecente


na doutrina e jurisprudência é outro, e contrário ao cômputo da percepção do
auxílio-acidente como tempo ficto (a título de carência).

4. A REALIDADE E IMBRICAÇÃO DA NATUREZA


ACIDENTÁRIA DOS BENEFÍCIOS
A priori, pode-se afirmar, sem sombra de dúvidas, que os benefícios por in-
capacidade de natureza acidentária se enquadram no mesmo panorama geral dos
benefícios por incapacidade em geral (incluídos, aqui, os de natureza não aciden-
tária ou comum).
Portanto, é correto dizer que a percepção intercalada dos mesmos com períodos
de atividade ou contribuição, na forma do art. 29, § 5o, da Lei no. 8.213/91, induz sua
contagem como tempo de contribuição e para fins de carência (devido à analogia
criada pela jurisprudência uniformizante) dos demais benefícios, em especial, as
aposentadorias. Tollitur quaestio!
Sem embargo, a causa originária da incapacidade (a saber, o acidente de
trabalho) ou sua base contributiva (SAT/RAT) implicam diferenças em relação
aos benefícios comuns, até mesmo, os acidentários de qualquer outra natureza, e,
por decorrência, imbricam a aplicação dos entendimentos jurisprudenciais vistos
anteriormente.
A uma, porque, conforme a redação do art. 60 do Regulamento da Previdência
Social, que especifica a realidade acidentária em inciso próprio (IX), diferenciando-
-a da incapacidade comum (prevista no inciso III), será contado como tempo de
contribuição “o período em que o segurado esteve recebendo benefício por incapa-
cidade por acidente do trabalho, intercalado ou não”26 (grifos e destaques nossos).
Exsurge, daí, a óbvia conclusão de que os períodos em gozo de benefícios por
incapacidade decorrentes de acidente do trabalho serão, necessariamente, compu-
tados como salário de contribuição e carência independentemente de o segurado
haver retornado à atividade laborativa ou retomado suas contribuições. A dispensa
é expressa na legislação e vem a galope da evidência!
Com efeito, fica em descompasso a alteração promovida pela Instrução Nor-
mativa no. 86/2016, quando estabelece ser “devido o cômputo, para fins de carên-
cia, do período em gozo de benefício por incapacidade, inclusive os decorrentes

26 Forçoso esclarecer que a própria autarquia, por sua Instrução Normativa no. 77/2015, versa
disposição no mesmo sentido, em seu art. 164, XVI, alínea “b”.

186
A implicação da natureza acidentária do benefício previdenciário

de acidente do trabalho, desde que intercalado com períodos de contribuição ou


atividade” (grifos e destaques nossos).
Doutrina e jurisprudência têm se posicionado pela prescindibilidade da
intercalação com período de atividade ou contribuição, para fins de cômputo dos
benefícios acidentários.
Carlos Alberto Pereira de Castro e João Batista Lazzari, a exemplo de outros,
ensinam que:

Quando os benefícios forem decorrentes de acidente de trabalho, cabe o


cômputo para efeito de tempo de contribuição, mesmo quando não intercalado
com períodos de atividade, conforme normatização contida no art. 60, IX, do
Decreto n. 3.048/99:
(…)
Temos de longa data defendido que estando a renda mensal dos benefícios
por incapacidade legalmente equiparada ao salário de contribuição (art. 29, § 5o
cc/ art. 55, inciso II, da Lei n. 8.213/1991), um dos reflexos disto é o cômputo
do período de fruição do benefício como período de carência27.

Fica clara, ainda, a firmeza desse entendimento, quando se consulta o reposi-


tório jurisprudencial da Turma Nacional de Uniformização dos Juizados Especiais
Federais (TNU), sobretudo, os acórdãos que deram azo à edição de sua Súmula
no. 73. Leia-se:

PREVIDENCIÁRIO. TRANSFORMAÇÃO DE APOSENTADORIA POR INVA-


LIDEZ EM APOSENTADORIA POR IDADE. CARÊNCIA. CÔMPUTO DE TEMPO
DE GOZO DE BENEFÍCIO POR INCAPACIDADE NÃO INTERCALADO. […]
2. Somente quando o benefício por incapacidade decorre de acidente do
trabalho é que sua contagem como tempo de contribuição pode ser admitida
sem intercalação com períodos de atividade. […]
(TNU, PEDILEF 2009.72.57.000614-2, Relator Juiz Federal Rogerio Moreira
Alves, Pleno, DJe: 1/03/2013 – grifos e destaques nossos)

E, a duas, porque o acolhimento desta exegese, na esteira do decidido no RE


583.834 e no REsp 1.410.433, refletido no enunciado da Súmula no. 557 do STJ,
repercute também na revisão do salário de benefício de muitas aposentadorias pre-
cedidas de benefícios por incapacidade acidentários, pois, sendo necessariamente

27 [e-book] CASTRO, Carlos Alberto Pereira de; Lazzari, João Batista. Manual de Direito Previ-
denciário. 21. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2018.

187
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

computáveis como salários de contribuição e carência, independentemente de


intercalação, conduzem à subsunção ao art. 29, § 5o, da Lei no. 8.213/91, refutando
a incidência do art. 36, § 7o, do Decreto no. 3.048/1999.
Neste sentido, vêm decidindo os Tribunais pátrios, podendo-se citar, dentre
outras, a Apelação Cível no. 1445133-5, de Relatoria do Desembargador Roberto
Portugal Bacellar, da 6ª Câmara Cível, do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná,
publicada em 02/09/2016.
O Ilustre Desembargador, em seu voto-condutor, desenvolve raciocínio lapidar,
cuja transcrição merece ser feita, por objetiva e concisa que é:

16. Aplica-se em geral a regra prevista no art. 6o, §7o do Decreto Federal
3048/99 (Regulamento da Previdência Social) em que a RMI da aposentadoria
por invalidez (B32) quando precedida de auxílio-doença (B31) deve somente
majorar o coeficiente de cálculo de 91% para 100% sobre o salário de benefício
apurado quando da concessão do auxílio-doença.
17. Porém, quando o benefício que precedeu a aposentadoria por invalidez
tem natureza acidentária (B92), aplica-se regras distintas conforme veremos. (…)
19. O texto da lei é claro: ainda que não seja intercalado o período, quando
o segurado recebeu benefício acidentário, o período deve ser considerado como
tempo de contribuição. (…)
23. Portanto, o salário de benefício utilizado para a concessão do benefício
de natureza acidentária deve ser transformado em salário de contribuição para
fins de cálculo do novo salário de benefício da aposentadoria por invalidez,
ainda que não seja intercalado o período entre este e aquele.
24. Ressalto que não há que se falar em afronta ao princípio contributivo e
ao da prévia fonte de custeio, vez que sobre a folha de pagamento das empresas
incide o Seguro de Acidente do Trabalho (SAT) ou RAT (Risco Ambientais
do Trabalho) que possui diferentes alíquotas de acordo com a atividade
preponderante da empresa (…)
25. Sabe-se que a fonte de custeio para benefícios concedidos por aci-
dentes do trabalho é formada com a arrecadação dessa contribuição das em-
presas justamente para assegurar ao trabalhador acidentado a possibilidade
de receber valores mais próximos possíveis do salário auferido por ocasião do
acidente.

Por lealdade, porém, é mister frisar que o entendimento não é unânime, ha-
vendo precedentes em sentido contrário. Colha-se:

APELAÇÃO CÍVEL. REVISÃO DE BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. CÁLCULO


DA RENDA MENSAL INICIAL. AUXÍLIO-DOENÇA CONVERTIDO EM APO-
SENTADORIA. APLICABILIDADE DO DECRETO N. 3048/99.

188
A implicação da natureza acidentária do benefício previdenciário

– A aposentadoria por invalidez resultante da conversão de auxílio-doença,


sem retorno do segurado ao trabalho, será apurada nos termos do art. 36, §
7º, do Decreto 3.048/99, segundo o qual a renda mensal inicial − RMI da
aposentadoria por invalidez oriunda de transformação de auxílio-doença será
de cem por cento do salário-de-benefício que serviu de base para o cálculo da
renda mensal inicial do auxílio-doença, reajustado pelos mesmos índices de
correção dos benefícios em geral.
– A regra prevista no art. 29, §5º, da Lei nº 8.213/1991, em sua nova
redação, somente se mostra aplicável nas hipóteses em que houver afastamento
intercalado com atividade laborativa, em que há recolhimento da contribuição
previdenciária, tal como definido pelo Supremo Tribunal de Justiça, no julgamento
do RE 583834, com repercussão geral reconhecida.
– Dita regra não se mostra aplicável no caso em que o segurado recebe
ininterruptamente o auxílio-doença desde sua concessão até a sua conversão
em aposentadoria por invalidez.
(TJMG, Apelação Cível 1.0271.10.009762-2/001, Relator: Des. Luiz Artur
Hilário, 9a Câmara Cível, DJe: 19/06/2019)

Entretanto, o prognóstico, ao menos, para as instâncias ordinárias, é de que


passe a ser aplicada, à hipótese de cômputo dos benefícios por incapacidade decor-
rentes de acidente do trabalho, a regra do art. 29, § 5o, da Lei no. 8.213/91, e não, a
do art. 36, § 7o, do Decreto no. 3.048/1999.
Por fim, no que pertine ao auxílio-acidente decorrente do infortúnio do
trabalho, destaque-se que tanto o art. 60, IX, do Decreto no. 3.048/99, quanto os
arts. 164, XVI, b, e, 445, III28, da Instrução Normativa no. 77/2015, fazem expressa
referência ao termo “benefício por incapacidade por acidente do trabalho”, sem es-
pecificar as modalidades do ‘auxílio-doença acidentário’ ou da ‘aposentadoria por
invalidez acidentária’ (como seria de se esperar acaso as normas pretendessem, de
fato, a mencionada restrição). Tal fato, por si só, e, usando-se o mesmo recurso
interpretativo de que se valeu o REsp 1.247.97129, demonstra que o intérprete não

28 Art. 445. Observado o disposto no art. 444, mesmo na ausência de prova do efetivo recolhi-
mento das contribuições previdenciárias, poderão ser certificados os períodos: (…) III − de
benefício por incapacidade referido no inciso XVI do art. 164; (Nova redação dada pela IN
INSS/PRES nº 85, de 18/02/2016)
29 Quando, em seu voto-condutor, sugeriu a limitação redacional apenas às modalidades do au-
xílio-doença e da aposentadoria por invalidez, nestes termos: “[...] conforme já dito, os arts.
42, 60 e 86 da Lei n. 8.213/1991 e os arts. 43, 71 e 104 do Decreto n. 3.048/1999 distinguem
expressamente os benefícios por incapacidade (auxílio-doença e aposentadoria por invalidez)
daquele decorrente de redução da capacidade (auxílio-acidente)”.

189
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

poderia, de fato, como bem ressaltado no REsp 1.243.760, inobservar o brocardo


“ubi lex non dinstinguir nec nos dinstinguere debemus”.
Melhor será sempre, ao que tudo indica (arts. 4o e 5o da LINDB), aplicar-se a
regra hermenêutica da interpretação mais favorável (“odiosa restringenda, favorabilia
amplianda”), ou seja, “restrinja-se o odioso, amplie-se o favorável”.

5. CONSIDERAÇOES FINAIS
O que se pode concluir, basicamente, a partir da “analogia jurídica” criada pela
jurisprudência brasileira, e, em vias de expansão para todo o território nacional,
através das diversas ações civis públicas que vêm sendo ajuizadas perante os dife-
rentes Tribunais Regionais Federais, é que o(s) interregno(s) de tempo em gozo de
benefícios por incapacidade poderá(ão) ser computado(s) no período básico de
cálculo (PBC) de quaisquer benefícios sucessivos, quer a título contributivo (como
salários de contribuição) ou quer a título de carência.
Distinção é feita, contudo, entre os benefícios por incapacidade acidentários
e não acidentários, porque estes últimos exigem, para a referida contagem, a
necessária intercalação de seu recebimento com a ultimação em período contri-
butivo ou de atividade laborativa (em que há recolhimento tributário). Já, aque-
les, dispensam, por expressa disposição regulamentar, a obrigatoriedade desta
intercalação.
A adoção do entendimento analógico repercute, inclusive, nas várias demandas
revisionais de cálculo dos salários de benefícios das aposentadorias em vigência,
nas hipóteses em que são precedidas de benefícios por incapacidade.
Conclui-se, ainda, que o discrímen conceitual promovido pelo Superior
Tribunal de Justiça, ao reputar o auxílio-acidente um benefício por redução da
capacidade (“sui generis”), e não, um benefício (decorrente de...) por incapacidade
laborativa, estranha ao sistema protetivo, por excluí-lo da expressa dicção legal
do art. 29, § 5o, da Lei no. 8.213/91, e daquela regulamentar, prevista nos arts.
60, IX, do Decreto no. 3.048/99, 164, XVI, b, e, 445, III, da Instrução Normativa
no. 77/2015.

REFERÊNCIAS
CARDONE, Marly A. Previdência Social e Contrato de Trabalho. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2011.
CASTRO, Carlos Alberto Pereira de; Lazzari, João Batista. Manual de Direito Previden-
ciário. 21. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2018.

190
A implicação da natureza acidentária do benefício previdenciário

GNATA, Noa Piatã Bassfeld. Solidariedade Social Previdenciária: Interpretação Consti-


tucional e Eficácia Concreta. São Paulo: LTr, 2014.
ROCHA, Daniel Machado da. Comentários à Lei de Benefícios da Previdência Social. 16.
ed. São Paulo: Atlas, 2018.
MARTINEZ, Wladimir Novaes. Auxílio-acidente. São Paulo: Ltr, 2006.

191
O PRINCÍPIO DA ACTIO NATA E
A RELEVÂNCIA DOS BENEFÍCIOS
POR INCAPACIDADE NAS AÇÕES DE
RESPONSABILIDADE CIVIL POR ACIDENTE
DO TRABALHO

LEONARDO ZICCARELLI RODRIGUES1


PEDRO PANNUTI2

I) INTRODUÇÃO
O presente artigo tem por objetivo geral analisar os critérios estabelecidos pela
doutrina e jurisprudência acerca do prazo prescricional para exercer o direito de
ação reparatória em face do empregador, quando da ocorrência de danos suportados
pelo empregado, decorrentes de acidente do trabalho.
Como objetivo específico, o presente artigo propõe investigar a relevância e
intersecção dos benefícios previdenciários por incapacidade na adoção de critérios
objetivos e marcos temporais para fluência do respectivo prazo prescricional.
A relevância do tema destaca-se no fato de que a Constituição Federal da
República reconhece como direito fundamental a proteção ao trabalho seguro em
ambiente saudável e ergonomicamente adequado, enquanto o Estado brasileiro está
entre os recordistas mundiais de acidentes do trabalho, contribuindo sobremaneira
para a retirada, anualmente, de milhares de trabalhadores do mercado de trabalho.

1 Advogado, Mestre em Ciências Jurídicas pela UNIVALI-SC e Universidade de Alicante, Espa-


nha. Pós-Graduado em Direito Previdenciário pelo Centro Universitário Curitiba,
2 Advogado, Pós-Graduado em Direito Previdenciário e Processual Previdenciário na PUC/PR.
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

No primeiro capítulo discorrem os autores sobre o instituto da prescrição e sua


aplicação prática na seara trabalhista, incluindo as regras de transição e o desloca-
mento da competência jurisdicional das ações desta natureza da justiça comum para
a justiça do trabalho, quando da promulgação da emenda constitucional nº 45/2004.
O segundo capítulo trata da aplicação do princípio da actio nata nas ações de
responsabilidade civil por acidente do trabalho, a partir da doutrina principal de
Sebastão Oliveira e Dallegrave Neto, renomados juristas e referências nacionais
no tema.
Por fim, destina-se o terceiro capítulo ao objetivo específico de delimitar a
relação jurídica possível entre as espécies de danos materiais postulados – em razão
de acidente do trabalho – com fundamento nos artigos 949 e 950 do código civil,
e os benefícios previdenciários por incapacidade, estabelecendo alguns critérios
objetivos que impactam na interpretação jurisprudencial dos marcos prescricionais
nesta matéria.
As hipóteses deste artigo estão sustentadas na premissa de que os benefícios
previdenciários por incapacidade possuem destacada relevância no estudo e inter-
pretação da teoria da actio nata nas ações de reparação de danos por acidente do
trabalho.

II) PRESCRIÇÃO NAS AÇÕES DE RESPONSABILIDADE CIVIL


POR ACIDENTE DO TRABALHO
Muito embora o termo prescrição tenha registros históricos seculares, o con-
ceito do instituto recebeu importante lapidação pela doutrina de Agnelo Amorim
Filho3. Há muito estava cimentado o fundamento ético da prescrição no direito
pátrio, com comentários desde o século XIX a significar a prescrição como filha do
tempo e da paz, patrona do gênero humano, de que as legislações não podem prescindir4.
A evolução do seu estudo a aproximou de sua importância para a ordem social,
impedindo que as relações jurídicas permaneçam incertas ad eternum, legitiman-
do a instituição de cláusula que priva o credor por sua negligência. Eis o ponto de
reconciliação entre o direito subjetivo e o direito de ação, até então imutavelmente
dissociados, passando a entender a prescrição como meio de fixar, pelo transcurso

3 THEODORO JUNIOR, Humberto. Distinção científica entre prescrição e decadência. In. Re-
vista do Tribunal volume 836, jun/2005. p. 50
4 CAHALI, Yusef Said. Prescrição e decadência. 2ª ed. São Paulo: RT. 2012, p. 22

194
Princípio da actio nata e a relevância dos benefícios por incapacidade nas ações de responsabilidade civil

de determinado lapso temporal, as relações jurídicas incertas, a partir da violação


do primeiro direito5.
Em se tratando de meio de proteger os direitos suscetíveis de lesão, é tranquilo
afirmar que apenas as ações condenatórias são prescritíveis, uma vez que a prescri-
ção afeta o direito de exigir em juízo o adimplemento da prestação, e não o direito
subjetivo descumprido pelo sujeito passivo de determinado direito – comumente
tratado como devedor. Apesar disso, o direito subjetivo sobrevive de maneira débil,
impedido de ser objeto de pretensão e podendo ser exercido apenas por disposição
voluntária do devedor. Eis a disposição do brocardo latino actio nondum nata non
praescribitur, significando que o direito violado se extingue em virtude da inércia
de seu titular6.
Delimitado, naturalmente de forma não exauriente, o estudo da prescrição,
é tempo de transmutar a análise para o campo geral do Direito do Trabalho, para
posterior aplicação no campo específico da responsabilidade civil decorrente de
acidente do trabalho.
Pois bem. A redação original do art. 11 do Decreto-Lei n. 5.452/43 (CLT) previa
que não havendo disposição especial em contrário nesta Consolidação, prescreve em
dois anos o direito de pleitear a reparação de qualquer ato infringente de dispositivo
nela contido.
Por sua vez, a Constituição Federal de 1988 estabeleceu a regra de prescrição
trabalhista7 em seu art. 7º, XXIX:

Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que
visem à melhoria de sua condição social:
XXIX − ação, quanto a créditos resultantes das relações de trabalho, com
prazo prescricional de:
a) cinco anos para o trabalhador urbano, até o limite de dois anos após a
extinção do contrato;
b) até dois anos após a extinção do contrato, para o trabalhador rural;

Superada a regra prescricional dos créditos trabalhistas em geral, a dúvida que


ainda persistia era se os “créditos decorrentes da relação de trabalho” abarcariam ou

5 Idem. p. 51-52
6 GOMES, Orlando. Introdução ao Direito Civil. 15ª ed. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2000.
p. 496.
7 A reparar a inconstitucionalidade superveniente da CLT, foi editada a Lei n. 9.658/98 alterando
a redação do supracitado artigo, que passou a vigorar acrescido de dois incisos, corresponden-
tes praticamente ipsis litteris das alíneas do inciso XXIX do art. 7º da CF

195
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

não aqueles oriundos de ato ilícito que provocasse danos por acidente do trabalho.
Isto porque a teoria clássica de responsabilidade por ato ilícito sempre atraiu os
elementos do direito civil, e consequentemente as regras de competência e prescri-
ção da justiça comum.
Com isto, desde a carta magna de 1988, o entendimento dominante e prati-
camente pacífico era o de que as ações de responsabilidade civil por acidente do
trabalho deveriam ser processadas e julgadas pela justiça comum, com os respec-
tivos prazos prescricionais de natureza civil (até 12 de janeiro de 2003 vigia o art.
177, do revogado CC de 1916, que previa a prescrição vintenária; posteriormente,
adotou-se a prescrição trienal do art. 205. § 3º, V do atual CC/2002, com sua regra
de transição do art. 2028).
Porém, a controvérsia assume novos contornos com a promulgação da EC
45/2004, que alterou a redação do art. 114 da Constituição Federal, e passou a es-
tabelecer, por inclusão do inciso VI, que compete à Justiça do Trabalho processar
e julgar as ações de indenização por dano moral ou patrimonial, decorrentes da
relação de trabalho8.
Se a nova regra de competência parecia estar sacramentada, restava ainda dirimir
a controvérsia sobre a regra de aplicação dos prazos prescricionais: afinal de contas, a
partir da EC 45/2004, qual seria a regra prescricional aplicável, a da justiça do trabalho
para créditos trabalhistas em geral, ou seria mantida a regra de direito civil.
Para respeitável parcela da doutrina, considerando que o direito violado estava
fundado em direito pessoal, seria inaplicável o prazo do art. 7º da CF. Para tanto,
caberia em tese a aplicação do então vigente art. 177 do CC/16, que previa prescri-
ção vintenária e posteriormente a prescrição trienal do art. 205, § 3º, V do CC9.
Em sentido contrário, doutrina especializada defendia que há um raciocínio quase
automático que vincula a questão da competência ao prazo da prescrição, entendendo
que os mesmos argumentos que fundamentam a competência da Justiça do Trabalho
acabam por influenciar na decisão a respeito da prescrição aplicável10.

8 A inclusão dos nove incisos arrolando a competência material da Justiça do Trabalho, a EC


também alterou a redação original do caput: Compete à Justiça do Trabalho conciliar e julgar
os dissídios individuais e coletivos entre trabalhadores e empregadores, abrangidos os entes de
direito público externo e da administração pública direta e indireta dos Municípios, do Distrito
Federal, dos Estados e da União, e, na forma da lei, outras controvérsias decorrentes da relação
de trabalho, bem como os litígios que tenham origem no cumprimento de suas próprias sen-
tenças, inclusive coletivas.
9 CAHALI, Yusef Said. Prescrição e decadência. 2ª ed. São Paulo: RT. 2012, p. 175-176.
10 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo. Indenização por Acidente do Trabalho ou Doença Ocupacio-
nal. 5ª ed. São Paulo: LTr, 2009. pp. 327-328.

196
Princípio da actio nata e a relevância dos benefícios por incapacidade nas ações de responsabilidade civil

Na mesma direção daqueles que defendiam a aplicação da prescrição trabalhis-


ta, porém com outros fundamentos, importantes estudiosos do Direito do Trabalho
reforçavam a importância de se homenagear a autonomia deste ramo do direito,
valendo transcrever a sua elucidativa lição:

Se a regulamentação especial tem regra específica a respeito da prescrição,


não cabe adotar o preceito geral do Código Civil cuja aplicação só deve ocorrer
subsidiariamente. Por essa razão, para decidir qual a prescrição aplicável é
necessário identificar o dever jurídico violado ou a natureza da relação jurídica
de suporte no âmbito da qual ocorreu a lesão do direito da vítima.11

A jurisprudência pacificou-se em consonância à segunda corrente, tendo o TST


reiteradamente decidido12 que a indenização não deixa de ser crédito resultante da
relação de trabalho, ainda que atípico e oriundo de ato ilícito, uma vez que a regra
específica prevê o cabimento da indenização, estabelecendo prazo prescricional
próprio – sendo desnecessária, portanto, a aplicação do direito comum como fonte
subsidiária.
Paradigmático julgamento da Suprema Corte é o Conflito de Competência
7.204-1/MG suscitado pelo TST em detrimento do hoje extinto Tribunal de Alçada
do Estado de Minas Gerais. Naquela oportunidade, foi consignado pelo Tribunal
Pleno que, apesar de a redação original do art. 114 da CF já deixar transparecer a
competência da justiça laboral, o entendimento até então vigente era influenciado
pela jurisprudência anterior à CF88.
Diante do potencial impacto causado pela alteração de competência material
e, consequentemente, das regras de prescrição, restou ao STF, como imperativo
de política judiciária, a modulação ex nunc de sua decisão, fixando que o marco
temporal da competência (que atrairia a análise da regra de prescrição) da Justiça

11 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo. Indenização por Acidente do Trabalho ou Doença Ocupacio-


nal. 5ª ed. São Paulo: LTr, 2009. pp. 325.
12 Por todos, veja-se o recentíssimo e eloquente precedente:
RECURSO DE REVISTA. INTERPOSIÇÃO ANTERIOR À ÉGIDE DA LEI 13.015/2014.
PRESCRIÇÃO. DANO MORAL E MATERIAL. ACIDENTE DO TRABALHO. AFASTAMEN-
TO PREVIDENCIÁRIO. ACTIO NADA. CESSAÇÃO DO BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO.
A SBDI-1 desta Corte tem jurisprudência no sentido de que, às ações de indenização por dano
moral ou patrimonial decorrente da relação de trabalho, relativo a fatos ocorridos depois da
vigência da Emenda Constitucional 45/2004, a qual se iniciou em 31/12/2004, aplica-se o prazo
prescricional previsto no artigo 7º, XXIX, da Constituição Federal, sendo aplicável o prazo
prescricional civil nos demais casos.(RR-610-28.2013.5.08.0110, 6ª Turma, Rel. Min. Augusto
César Leite de Carvalho, DEJT 24/05/2019).

197
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

trabalhista é o advento da EC 45/04, emenda que explicitou a competência da Justiça


Laboral na matéria em apreço13.
Destarte, não obstante a clareza da regra de competência, os marcos temporais
prescricionais foram modulados, de acordo com a época da ocorrência do acidente:
para os danos causados até a EC 45/04, mantém-se a prescrição civil nas indeniza-
tórias decorrentes de acidente do trabalho; para as ações postuladas com base em
incapacidade posterior à regra constitucional de mudança de competência, adota-se
o prazo prescricional trabalhista.
Ainda, incidindo a regra civil (portanto, para ações ajuizadas antes da EC
45/04), importante considerar as regras de transição para a prescrição civil, espe-
cialmente por conta da promulgação do atual CC, que previu regras de prescrição
totalmente diferentes do sistema do CC/16, com a redução do prazo de vinte para
três anos. Por conseguinte, necessária a observância do direito intertemporal, em
homenagem ao art. 2.028 do código atual, que estabelece que serão os da lei anterior
os prazos, quando reduzidos por estes Código, e se, na data de sua entrada em vigor, já
houver transcorrido mais da metade do tempo estabelecido na lei revogada.
Assim, considerando que o novo codex entrou em vigor em 12 de janeiro de
2003, é importante consignar que nos casos em que o acidente ocorreu até 12 de
janeiro de 1993 (portanto, transcorrido mais da metade do prazo prescricional vi-
gente), deve-se observar o prazo completo de vinte anos do art. 177 do CC/16. Por
outro lado, ocorrido o acidente entre 12 de janeiro de 1993 e a véspera da vigência
do CC atual, será aplicada a prescrição deste, considerando seu termo inicial do dia
de vigência da lei nova, desprezando o tempo transcorrido na vigência do CC/1614.
Mas não é só isso. Na alteração de competência e de prazo prescricional ocor-
rida, era possível identificar situações nas quais, ocorrido o acidente em 1992, por
exemplo (portanto, antes da vigência do CC atual), e ainda não ajuizada a ação
até a entrada em vigor da EC 45/04, a prescrição seria reduzida abruptamente dos

13 CONSTITUCIONAL. COMPETÊNCIA JUDICANTE EM RAZÃO DA MATÉRIA. AÇÃO


DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E PATRIMONIAIS DECORRENTES DE ACI-
DENTE DO TRABALHO, PROPOSTA PELO EMPREGADO EM FACE DE SEU (EX-) EM-
PREGADOR. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA DO TRABALHO. ART. 114 DA MAGNA CAR-
TA. REDAÇÃO ANTERIOR E POSTERIOR À EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 45/04.
EVOLUÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. PROCESSOS
EM CURSO NA JUSTIÇA COMUM DOS ESTADOS. IMPERATIVO DE POLÍTICA JUDI-
CIÁRIA.
(CC 7204, Rel. Min. CARLOS BRITTO, Tribunal Pleno, DJ 09-12-2005)
14 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo. Indenização por Acidente do Trabalho ou Doença Ocupacio-
nal. 5ª ed. São Paulo: LTr, 2009. pp. 330-332.

198
Princípio da actio nata e a relevância dos benefícios por incapacidade nas ações de responsabilidade civil

20 anos inicialmente previstos para os 5 anos da legislação trabalhista, levando à


equivocada conclusão de que a prescrição teria fulminado o direito15.
Enfatize-se a adequada e necessária jurisprudência de transição, que protegeu
a segurança jurídica e, em última análise, a dignidade da pessoa humana. Não fosse
este o direcionamento teríamos situação que violaria frontalmente os valores da
estabilidade e segurança jurídica, deixando o acidentado com a impressão de ter sido
novamente vítima, mas desta vez de uma armadilha jurídica16.
Por fim, para os acidentes ocorridos a partir da vigência do atual CC, não há
controvérsia quanto à prescrição aplicável: será a trienal prevista em seu art. 206, §
3º, V, limitada, por sua vez, à edição da multicitada EC 45/04, que sacramentou a
observância da prescrição trabalhista17, a partir de então.
No mesmo sentido a doutrina de DALLEGRAVE, consubstanciando verdadeiro
sistema de garantia para o trabalhador jurisdicionado:
Essa é a melhor política judiciária, até porque do contrário o jurisdicionado
seria novamente surpreendido pela extinção quase automática de sua preten-
são, uma vez que o prazo bienal previsto no art. 7º, XXIV da CF, a contar do
desligamento do empregado, é sensivelmente menor do que aquele previsto no
Código Civil, o que ensejaria um encurtamento abrupto do prazo prescricional.
Assim, da noite para o dia, a partir da decisão do STF, o jurisdicionado se veria
punido, mesmo ser ter sido negligente, o que é inadmissível e incompatível
com o instituto da prescrição pautado na paz social e na segurança jurídica18.

15 Neste caso, pelo entendimento consolidado da jurisprudência, ainda seria aplicável a prescrição
civil à pretensão. Apenas a título de esclarecimento, vale mencionar o posicionamento da dou-
trina de Sebastião Geraldo ao defender que a vigência da EC 45/04 automaticamente tornaria
trabalhista a prescrição. Neste caso, para evitar injustiça, o autor defende a criação de regra de
transição para os casos em que o acidente tiver ocorrido antes da EC 45/04, mas o ajuizamento
da ação indenizatória tenha sido depois da vigência desta, de forma a permitir o início da fluên-
cia do prazo prescricional deve iniciar apenas a partir de 1º de janeiro de 2005, vigência da EC
45/04, o que pode ser feito com analogia ao art. 916 da CLT.
16 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo. Indenização por Acidente do Trabalho ou Doença Ocupacio-
nal. 5ª ed. São Paulo: LTr, 2009. p. 334.
17 A jurisprudência do STF também consolidou o entendimento de que as demandas ajuizadas
inicialmente na Justiça Comum deveriam ser remetidas ao juízo laboral, desde que não pro-
latada sentença singular. Por outro lado, naquelas ações em que os sucessores postulam em
nome próprio a indenização por danos morais e/ou materiais em decorrência de falecimento
ou invalidez do ente familiar por acidente do trabalho, a SDI-1 do TST decidiu em 07.06.2018
ao julgar os autos 10248-50.2016.5.03.0165 pela aplicação da prescrição cível do art. 206, §3º, V
do CC, de três anos.
18 DALLEGRAVE NETO, José Afonso. Responsabilidade Civil no Direito do Trabalho, 5ª ed.
São Paulo: LTr, 2014. p. 543.

199
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Com efeito, a iterativa e pacífica jurisprudência pátria pode ser resumida a


partir do seguinte precedente, que bem releva a preocupação pela proteção à segu-
rança jurídica e à política judiciária de transição, senão vejamos:

AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO DE REVISTA. DOENÇA OCUPA-


CIONAL. PRESCRIÇÃO APLICÁVEL. ACTIO NATA − CIÊNCIA INEQUÍVOCA
DA EXTENSÃO DO DANO SOFRIDO. O fato de as indenizações por dano
patrimonial, moral, inclusive estético, serem efeitos conexos do contrato de
trabalho (ao lado dos efeitos próprios deste contrato), atrai a submissão à regra
do art. 7º, XXIX, da Constituição da República. Independentemente do Direito
que rege as parcelas (no caso, Direito Civil), todas só existem porque derivadas
do contrato empregatício, submetendo-se à mesma prescrição. Entretanto, em
face da pletora de processos oriundos da Justiça Comum Estadual tratando
deste mesmo tipo de lide, remetidos à Justiça do Trabalho, tornou-se patente a
necessidade de estabelecimento de posição interpretativa para tais processos de
transição, que respeitasse as situações anteriormente constituídas e, ao mesmo
tempo, atenuasse o dramático impacto da transição. Assim, reputa-se necessária
uma interpretação especial em relação às ações ajuizadas nesta fase de transição,
sob pena de se produzirem injustiças inaceitáveis: a) nas lesões ocorridas até a
data da publicação da EC nº 45/2004, em 31/12/2004, aplica-se a prescrição
civilista, observado, inclusive, o critério de adequação de prazos fixado no
art. 2.028 do CCB/2002. (...) b) nas lesões ocorridas após a EC nº 45/2004
(31/12/2004), aplica-se a regra geral trabalhista do art. 7º, XXIX, CF/88. Agravo
de instrumento desprovido. (TST − Acórdão Airr − 1002013-42.2014.5.02.0467,
Relator(a): Min. Mauricio Godinho Delgado, data de julgamento: 17/10/2018,
data de publicação: 19/10/2018, 3ª Turma) (grifo nosso)

Feitas as considerações acerca das regras de competência e prescrição aplicá-


veis às ações indenizatórias decorrentes de acidentes do trabalho, cumpre seguir na
investigação de outra desafiadora temática, qual seja, o marco inicial da fluência do
prazo prescricional: data do acidente ou ciência inequívoca da lesão?

III) PRINCÍPIO DA ACTIO NATA


O princípio da actio nata assume destaque relevante nas ações de responsabi-
lidade civil por acidente do trabalho, na medida em que interfere diretamente nos
critérios para fluência do prazo prescricional. Antes de postular é preciso saber os
limites temporais do exercício do direito, especialmente a previsão legal do CC de que
violado o direito, nasce para o titular a pretensão, a qual se extingue, pela prescrição19.

19 Art. 189 da Lei 10.406/02: Violado o direito, nasce para o titular a pretensão, a qual se extingue,
pela prescrição, nos prazos a que aludem os arts. 205 e 206.

200
Princípio da actio nata e a relevância dos benefícios por incapacidade nas ações de responsabilidade civil

O direito violado nas ações de responsabilidade civil por acidente do trabalho


é a integridade física e moral da vítima do infortúnio laboral. A consequência desta
violação deve repercutir na capacidade laborativa do trabalhador, de modo a impedir
ou lhe prejudicar o normal exercício das suas atividades habituais.
Daí porque se afirmar que no âmbito da responsabilidade civil, a constatação
de que a vítima tenha sofrido algum tipo de dano é pressuposto indispensável para
o cabimento da indenização20. Portanto, não basta a existência do fato em si ocorrer
– o acidente do trabalho, é preciso que o acidente gere um dano mensurável e com
repercussão sobre a vítima, causando-lhe algum prejuízo juridicamente tutelável.
O conceito de dano, em sua acepção jurídica, significa todo mal ou ofensa que
tenha uma pessoa causado a outrem, da qual possa resultar uma deterioração ou
destruição à coisa dele ou um prejuízo a seu patrimônio21.
Assim, para que seja admissível a pretensão de reparação civil por acidente
do trabalho, é indispensável a prova de dano ou prejuízo ao patrimônio da vítima,
decorrente de acidente ou doença ocupacional, atraindo as indenizações materiais
e extrapatrimoniais.
O trabalhador, acometido de lesão decorrente de acidente do trabalho, pode
ficar temporariamente afastado das suas atividades, sem receber os respectivos
salários no período, o que enseja a reparação de danos por lucros cessantes. Em
situações mais graves, as lesões deixam sequelas que podem reduzir ou inabilitar
o trabalhador em caráter permanente, o que resultará na possibilidade jurídica de
acionar o empregador responsável para que este seja condenado ao pagamento de
pensão mensal vitalícia em favor daquele.
Ambas modalidades de incapacidade para o exercício das atividades laborais
habituais, temporária ou permanente, são juridicamente protegidas no ordenamento
a partir das normas previstas nos artigos 949 e 950 do CC, respectivamente22.

20 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo. Indenização por Acidente do Trabalho ou Doença Ocupacio-


nal. 5ª ed. São Paulo: LTr, 2009. p. 205.
21 DE PLÁCIDO E SILVA. Vocabulário Jurídico, Vol II, 12ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1997.
pág.2
22 Art. 949. No caso de lesão ou outra ofensa à saúde, o ofensor indenizará o ofendido das des-
pesas do tratamento e dos lucros cessantes até ao fim da convalescença, além de algum outro
prejuízo que o ofendido prove haver sofrido.
Art. 950. Se da ofensa resultar defeito pelo qual o ofendido não possa exercer o seu ofício ou
profissão, ou se lhe diminua a capacidade de trabalho, a indenização, além das despesas do
tratamento e lucros cessantes até ao fim da convalescença, incluirá pensão correspondente à
importância do trabalho para que se inabilitou, ou da depreciação que ele sofreu.

201
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Além da indenização que repara danos materiais a partir de acidente do traba-


lho, a doutrina reconhece a possibilidade de postular a reparação por dano moral,
independente da efetiva prova da dor, angústia ou sofrimento psíquico da vítima:

Não se negue que o dano moral existe in re ipsa, o que vale dizer: ele está
ínsito no próprio fato ofensivo. A vítima precisa apenas fazer prova do fato
em si, ou seja, demonstrar que foi caluniada ou difamada ou que sofreu um
acidente do trabalho que a levou a incapacidade para o trabalho. A dor e o
constrangimento daí resultantes são meras presunções fáticas23.

Na mesma direção caminha a pacífica jurisprudência, entendendo que o


dano é pressuposto da pretensão indenizatória, podendo ser excepcionalmente in
re ipsa quanto aos danos morais24. Para viabilizar a sua defesa, contudo, imperioso
investigar a partir de qual momento o direito de ação nasce. A violação do direito
pode ser fixada em uma série de eventos, como o evento lesivo; o primeiro atestado
médico; a primeira cirurgia; o primeiro afastamento previdenciário.
A determinação do momento a partir do qual se inicia a fluência do prazo
prescricional é imprescindível para o exercício do direito de reparação por aci-
dente do trabalho. É, contudo, complexa, mormente quando se considera que o
ordenamento jurídico consagra, além do acidente típico, as doenças ocupacionais,
tanto profissionais quanto do trabalho, que se equiparam aos acidentes em virtude
de riscos ocupacionais no ambiente de trabalho, que gradativamente adoecem os
trabalhadores. Os movimentos repetitivos, as posturas inadequadas, o carregamento
de peso e os mobiliários antiergonômicos são alguns exemplos de riscos ambientais
desfavoráveis que podem contribuir para o aparecimento progressivo das doenças
ocupacionais.

23 DALLEGRAVE NETO, José Afonso. Responsabilidade Civil no Direito do Trabalho, 5ª ed.


São Paulo: LTr, 2014. p. 483.
24 AGRAVO DE INSTRUMENTO DA RECLAMADA. DOENÇA OCUPACIONAL. DOENÇA
DEGENERATIVA DA COLUNA VERTEBRAL. LOMBALGIA. MECÂNICO DE PRODU-
ÇÃO. INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL. O Tribunal Regional, levando em consideração
o conjunto de fatos e provas − notadamente a prova pericial −, reconheceu o nexo de causalida-
de entre a doença que acomete o reclamante (lombalgia) e as atividades por ele desenvolvidas.
Com efeito, consta no acórdão regional que, como mecânico de produção, o autor adotava
posturas de risco para lesões de coluna lombar, sofrendo de lombalgia crônica, que evoluiu
para lombociatalgia (tipo de lombalgia, cuja dor acomete as costas e irradia para regiões de um
dos membros inferiores). A jurisprudência do TST é pacífica no sentido de que o dano moral,
em caso de doença ou acidente de trabalho prescinde de prova concreta, por se tratar de dano
in re ipsa. (TST − ARR-123100-15.2009.5.15.0137, Min: Maria Helena Mallmann, 2ª T, DEJT
15/03/2019)

202
Princípio da actio nata e a relevância dos benefícios por incapacidade nas ações de responsabilidade civil

Nos casos relatados, não há como identificar a lesão em dado momento tem-
poral, porque se inicia em estágio de quadro álgico, progredindo para a necessidade
de tratamento conservador. Em seguida, pode avançar para pequenos afastamentos
diários, demandar a realização de sessões de fisioterapia, e nas situações mais graves,
exigir procedimentos cirúrgicos e até mesmo afastamentos prolongados perante a
Previdência Social.
Há tempos a jurisprudência sobre a matéria vem adotando o entendimento
de que o prazo prescricional do fundo de direito somente passa a correr após o
trabalhador tomar conhecimento da sua incapacidade, nos termos da Súmula 278
do STJ, sendo a ciência inequívoca o termo inicial25.
Destarte, não será o evento danoso, a queda do andaime, o braço preso na má-
quina ou a doença ocupacional que demandou a realização de sessões de fisioterapia,
o marco inicial para postular reparação civil em face do empregador descumpridor
das normas de segurança e saúde no trabalho.
O direito, nesta seara, surge a partir do conhecimento inequívoco da extensão
da lesão, da quantificação do dano e, principalmente, da sua repercussão sobre a
capacidade laborativa do trabalhador. Enquanto não encerrado o processo que
precede a consolidação da lesão, não há clareza sobre o direito a ser postulado.
Analisemos o seguinte exemplo: trabalhador acidentado do trabalho, por culpa
do empregador, submetido à cirurgia do ombro, aguarda seu pós-operatório afasta-
do junto à Previdência Social. Não se sabe, até o momento, se haverá consolidação
da lesão com ou sem sequelas, razão pela qual ainda não é possível para a vítima
do acidente postular, com clareza, os seus direitos. Só será possível determinar se
demandará ação com fundamento no art. 949 (lucros cessantes em decorrência da
incapacidade temporária) ou art. 950 do CC (pensionamento mensal por conta da
incapacidade permanente) com o encerramento do processo terapêutico e com a
consolidação das lesões, permitindo a ciência inequívoca da incapacidade laboral
– e de sua pretensão.
A doutrina destaca com propriedade a distinção entre o fato em si e as suas
consequências danosas, atribuindo a partir destas o marco inicial do prazo pres-
cricional:

Pode-se concluir que o termo a quo da contagem do prazo prescricional


nas doenças ocupacionais não está vinculado à data da extinção do contrato

25 Súmula 278/STJ − 16/06/2003. Seguro. Responsabilidade civil. Indenização. Prazo prescricio-


nal. Fluência a partir da data em que o segurado teve ciência inequívoca da incapacidade labo-
ral: O termo inicial do prazo prescricional, na ação de indenização, é a data em que o segurado
teve ciência inequívoca da incapacidade laboral.

203
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

de trabalho, ou do aparecimento da doença ou do diagnóstico, ou mesmo do


afastamento. É incabível exigir da vítima o ajuizamento precoce da ação quan-
do ainda persistem questionamentos sobre a doença, sua extensão e grau de
comprometimento, a possibilidade de recuperação ou mesmo de agravamento,
dentre outros. A lesão só fica mesmo caracterizada quando o empregado toma
conhecimento, sem margem a dúvidas, da consolidação da doença e da es-
tabilização dos seus efeitos na capacidade laborativa ou, como diz a Súmula
278 do STJ, quando ele tem ‘ciência inequívoca da incapacidade laboral26.

No mesmo sentido:

A data em que ocorre a lesão à saúde do trabalhador pode ser de difícil


identificação, posto que o doente pode encontrar-se assintomático, bem como
pode desenvolver uma doença cujo processo crônico perdure por considerável
período do contrato de trabalho. Em tais hipóteses não há que se atrelar a data
de fluência do prazo prescricional ao momento em que surgiu a lesão (actio nata
objetiva), sob pena de cometer-se, além de uma injustiça contra o trabalhador,
a inconsistência lógica de exigir-se de alguém o impossível, isto é, identificar
um fato objetivo que não é evidente27.

Este o posicionamento dos tribunais, conforme ementa elucidativa a seguir:

ACIDENTE DO TRABALHO. INDENIZAÇÕES DECORRENTES. PRESCRI-


ÇÃO. TERMO INICIAL. O Excelso STJ tem o reiterado entendimento, estam-
pado em sua Súmula nº 278, de que “o termo inicial do prazo prescricional,
na ação de indenização, é a data que o segurado teve ciência inequívoca da
incapacidade laboral”. Adota-se, dessa forma, a teoria da actio nata, segundo
a qual o direito à reparação só nasce quando a vítima obtém plena ciência do
dano e de sua real extensão. E isso, segundo iterativa jurisprudência do C. TST,
só ocorre com a alta previdenciária ou a aposentadoria por invalidez, sendo
esse o marco inicial da prescrição.
(TRT da 3.ª Região; PJe: 0011873-84.2017.5.03.0036 (RO); Disponibiliza-
ção: 30/11/2018; Órgão Julgador: Décima Turma; Redator: Maria Laura Franco
Lima de Faria)

Destarte, a ciência inequívoca surgirá apenas com o desfecho do processo te-


rapêutico de recuperação da lesão, que pode surgir, por exemplo, com a cessação de

26 OLIVEIRA, Sebastião Geraldo. Indenização por Acidente do Trabalho ou Doença Ocupacio-


nal. 5ª ed. São Paulo: LTr, 2009. p. 346.
27 SOBRINHO, Zeu Palmeira. Acidente do Trabalho: Crítica e Tendências. São Paulo: LTr, 2012.
pp. 258-259

204
Princípio da actio nata e a relevância dos benefícios por incapacidade nas ações de responsabilidade civil

um benefício provisório do INSS (auxílio-doença), ou mesmo a partir da concessão


de uma aposentadoria por invalidez.
Feitas as considerações acerca do marco inicial da fluência do prazo prescri-
cional nas ações de reparação de danos por acidente do trabalho, sobreleva interesse
analisar, como objetivo específico deste artigo, a importância na temática da intersec-
ção dos benefícios previdenciários por incapacidade pagos pela Previdência Social.

IV) OS BENEFÍCIOS POR INCAPACIDADE E SUA


INTERSECÇÃO COM O PRINCÍPIO DA ACTIO NATA
Restou demonstrado no capítulo anterior que o marco inicial para fluência
do prazo prescricional em matéria indenizatória fruto do acidente do trabalho não
está adstrita ao fato lesivo em si, mas sim às consequências danosas decorrentes e
que impactam a capacidade laborativa do trabalhador.
A ciência inequívoca, portanto, da extensão dos danos e sua repercussão sobre
a atividade habitual do trabalhador impõe-lhe a busca pela reparação devida, sob
pena de prescrição do direito.
Neste específico tema – ciência inequívoca da lesão – doutrina e jurisprudência
encontraram nos benefícios previdenciários por incapacidade critérios objetivos
que trazem adequação e segurança jurídica aos casos concretos.
Isto porque os benefícios de auxílio-doença, auxílio-acidente e aposentadoria
por invalidez, se revestem de requisitos que delimitam critérios temporais passíveis
de auxiliar na interpretação da ciência inequívoca das lesões decorrentes de acidente
do trabalho – seja o típico ou a doença ocupacional.
O primeiro e mais comum benefício por incapacidade está previsto na Lei n.
8.213/91, em seu art. 59, determinando que o auxílio-doença será devido ao segu-
rado que, havendo cumprido, quando for o caso, o período de carência exigido,
ficar incapacitado para o seu trabalho ou para a sua atividade habitual por mais de
quinze dias consecutivos.
O art. 60 da mesma lei deixa clara a natureza de provisoriedade do benefício,
prevendo que o benefício será devido enquanto o trabalhador segurado permanecer
incapaz. Assim, enquanto o trabalhador estiver afastado recebendo auxílio-doença
é porque sua incapacidade assume característica de duração precária ou temporária.
Registre-se, desde logo, portanto, a diferença clássica entre o benefício de auxílio-
-doença e o benefício de aposentadoria por invalidez: a duração da incapacidade
laborativa, temporária para o primeiro e indefinido para o segundo28.

28 O Manual de Perícias Médicas do INSS traz inúmeros critérios objetivos de caracterização


dos benefícios por incapacidade, como o grau, a duração e a repercussão sobre o desempenho

205
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Importante, assim, a distinção das espécies de benefícios por incapacidade:

O auxílio-doença é benefício temporário, pois perdura enquanto houver


convicção, por parte da perícia médica, da possibilidade de recuperação ou
reabilitação do segurado, com o consequente retorno à atividade remunerada.
A grande diferença entre este benefício e a aposentadoria por invalidez diz
respeito, justamente, à natureza temporária da incapacidade protegida pelo
auxílio-doença, que não existe, em regra, na aposentadoria por invalidez. Em-
bora a aposentadoria por invalidez seja reversível, a sua concessão demanda
firme convicção da provável irreversibilidade da inaptidão do segurado. Do
contrário, permanecerá no auxílio-doença, independente de prazo29.

Não por outro motivo que o Decreto n. 3.048/99 estabelece em seu art. 78
que o auxílio-doença cessa pela recuperação da capacidade para o trabalho, pela
transformação em aposentadoria por invalidez ou auxílio-acidente de qualquer
natureza, neste caso se resultar sequela que implique redução da capacidade para
o trabalho que habitualmente exercia.
O auxílio-doença, portanto, possui como característica principal a permanên-
cia da incapacidade pela não consolidação das lesões. Uma vez consolidada a lesão,
abre-se a investigação para três diferentes situações, a saber: primeira, que se dá
com a plena recuperação do segurado, sem qualquer sequela que lhe reduza, mesmo
que parcialmente, a capacidade laboral – neste caso, ocorre tão somente a cessação
do benefício, com a alta previdenciária; segunda, quando apesar da consolidação
das lesões e cessação do benefício de auxílio-doença, permanecem sequelas que
causam limitação funcional perante a atividade habitual (nesta situação, deve lhe
ser concedido o benefício de auxílio-acidente); por fim, a terceira possibilidade,
mais gravosa, quando consolidadas as lesões incapacitantes, o segurado acidentado
permanece com redução total e definitiva de sua capacidade laboral, não podendo,
inclusive, ser reabilitado em outra função – caso em que o auxílio-doença cessa e a
aposentadoria por invalidez há de ser concedida.
Veja-se, portanto, que há critérios objetivos estabelecidos a partir de cada be-
nefício por incapacidade, que traduzem na prática ciência inequívoca das lesões e
sua repercussão sobre a atividade habitual. Assim, não seria possível ao trabalhador
ignorar sua incapacidade temporária quando cessado o benefício de auxílio-doença,

profissional. O acesso ao manual ocorreu na data de 16/07/2019 em https://www.ibdp.org.br/


noticia.php?n=3220
29 ZAMBITTE, Fabio Ibrahim. Curso de Direito Previdenciário. 20ª ed. Niterói: Impetus, 2015.
p. 643

206
Princípio da actio nata e a relevância dos benefícios por incapacidade nas ações de responsabilidade civil

eis que tem integral conhecimento dos marcos temporais de início e cessação da
mesma.
Da mesma forma, seria inadequado alegar impossibilidade jurídica de plei-
tear indenização por lesão permanente, após a concessão do auxílio-acidente30
ou aposentadoria por invalidez, eis que a natureza jurídica destas espécies remete
justamente a sequelas de caráter definitivo, analisadas de forma notoriamente rígida
pela autarquia previdenciária.
Portanto, há correlação direta entre o auxílio-doença e os lucros cessantes pos-
tulados com fundamento no art. 949 do CC, da mesma forma que a pensão mensal
vitalícia – espécie de dano material prevista na incapacidade permanente do art.
950 do CC – possui correspondência jurídica fática e temporal com a concessão do
auxílio-acidente ou aposentadoria por invalidez.
Vale dizer, cessado o benefício de auxílio-doença por acidente do trabalho
(redução total e temporária da capacidade laborativa), ou então concedido o auxílio-
-acidente (redução parcial e permanente da capacidade laborativa) ou aposentadoria
por invalidez (redução total e permanente da capacidade laborativa), presume-se
perfeita a ciência inequívoca da lesão ou incapacidade, razão pela qual a partir destes
critérios temporais deve ser fixado o marco inicial de fluência do prazo prescricional.
A Justiça do Trabalho, portanto, utiliza o resumo dos marcos temporais para
início do prazo prescricional nas ações em que se postula indenização por acidente
do trabalho, na exata interpretação da Súmula n. 278 do STJ e conforme iterativa
jurisprudência dominante, senão vejamos:

AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO DE REVISTA. DOENÇA OCUPA-


CIONAL. PRESCRIÇÃO APLICÁVEL. ACTIO NATA − CIÊNCIA INEQUÍVOCA
DA EXTENSÃO DO DANO SOFRIDO. (...) Dessa maneira, se o obreiro se
aposenta por invalidez, é daí que se inicia a contagem do prazo prescricional,
pois somente esse fato possibilita a ele aferir a real dimensão do malefício so-
frido. Por coerência com essa ideia, se acontecer o inverso e o empregado for
considerado apto a retornar ao trabalho, será da ciência do restabelecimento

30 O caráter permanente da lesão decorre da gênese do benefício, que inclusive tem natureza in-
denizatória, valendo transcrever o disposto no art. 86 e seu § 2º, da Lei n. 8.213/91:
Art. 86. O auxílio-acidente será concedido, como indenização, ao segurado quando, após con-
solidação das lesões decorrentes de acidente de qualquer natureza, resultarem sequelas que
impliquem redução da capacidade para o trabalho que habitualmente exercia.
§2º O auxílio-acidente será devido a partir do dia seguinte ao da cessação do auxílio-doença,
independentemente de qualquer remuneração ou rendimento auferido pelo acidentado, veda-
da sua acumulação com qualquer aposentadoria.

207
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

total ou parcial da saúde que começará a correr o prazo prescricional. Na


hipótese, é incontroverso que o Reclamante percebe auxílio acidente desde
26/05/2006, ocasião em que a Autarquia Previdenciária reconheceu a con-
solidação das lesões. Agravo de instrumento desprovido. (TST − Acórdão Airr
− 1002013-42.2014.5.02.0467, Relator(a): Min. Mauricio Godinho Delgado,
data de julgamento: 17/10/2018, data de publicação: 19/10/2018, 3ª Turma)
(grifo nosso)

Assim, conforme demonstrado, não é a data do acidente em si que deflagra o


direito de ação, nem mesmo o primeiro diagnóstico, o tratamento ou afastamen-
to perante a previdência social. Enquanto o acidentado permanece recebendo o
auxílio-doença acidentário é porque ainda não houve a consolidação das lesões,
razão pela qual permanece discutível a ciência inequívoca de sua incapacidade e,
por conseguinte, torna-se inviável o início da fluência do prazo prescricional.
Referido entendimento se coaduna, ainda, com o princípio constitucional da
proteção social ao trabalhador e segurado, bem como leva em consideração a notória
relação de hipossuficiência do mesmo em relação ao seu empregador.

V) CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em apertada síntese, é tempo de tecer os derradeiros comentários neste es-
paço. Buscando adentrar o objetivo específico do corte metodológico proposto,
destinamos capítulo bastante técnico ao estudo da prescrição e, principalmente, de
sua evolução legislativa e constitucional, dedicando atenção especial às regras de
transição criadas pela lei e pela jurisprudência.
O investimento se justifica não somente pelo fato de que deixar transcorrer o
prazo prescricional in albis é ferir de morte o direito à pretensão de indenizar, mas
principalmente porque assimilar o princípio da actio nata exige a compreensão exata
do momento fixado como termo inicial dos prazos prescricionais.
A partir daí, e considerando ser pacífico o entendimento que a fluência da
prescrição quanto ao direito de indenização por danos causados em decorrência de
acidente do trabalho passa a correr a partir da ciência inequívoca da incapacidade,
lançamos mão da hipótese central lançada neste artigo, justamente a importância
de dominar a matéria previdenciária específica aos benefícios por incapacidade.
Por este motivo apontamos individualmente o impacto e as consequências
da concessão e, tão importante quanto, a cessação de cada um dos benefícios por
incapacidade, como elementos hábeis a determinar a natureza e a duração da lesão
incapacitante, a possibilidade de recuperação plena da capacidade laboral ou a
existência de sequelas após a convalescença.
208
Princípio da actio nata e a relevância dos benefícios por incapacidade nas ações de responsabilidade civil

Feita a análise podemos concluir que as hipóteses lançadas no presente artigo


se confirmam, na medida em que há, de fato, evidente intersecção dos benefícios
previdenciários por incapacidade, na interpretação dos marcos temporais de fluência
do prazo prescricional para a pretensão indenizatória decorrente de acidente do
trabalho perante a justiça laboral.
A infortunística é ambiente que enaltece a interdisciplinaridade do direito,
sendo necessário o diálogo entre o direito trabalhista e previdenciário, além, evi-
dentemente, do direito civil que escora a matéria.

VI) REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BARROS, Alice Monteiro de. Curso de Direito do Trabalho. 6ª ed. São Paulo: LTr. 2010.
CAHALI, Yussef Said. Prescrição e decadência. 2ª ed. São Paulo: RT. 2012.
DALLEGRAVE NETO, José Afonso. Responsabilidade Civil no Direito do Trabalho, 5ª
ed. São Paulo: LTr, 2014.
DE PLACIDO E SILVA. Vocabulário Jurídico. Vol. II, 12ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1997.
DELGADO, Mauricio Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 8ª ed. São Paulo: LTr. 2009.
GOMES, Orlando. Introdução ao Direito Civil. 15ª ed. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2000.
IBRAHIM, Fabio Zambitte. Curso de Direito Previdenciário. 20ª ed. Niterói: Impetus, 2015.
OLIVEIRA, Sebastião Geraldo. Indenização por Acidente do Trabalho ou Doença Ocu-
pacional. 5ª ed. São Paulo: LTr, 2009.
SANTOS, Bruno Henrique Silva. Prescrição e decadência no direito previdenciário.
Curitiba: Alteridade, 2016.
SOBRINHO, Zeu Palmeira. Acidente do Trabalho: Crítica e Tendências. São Paulo: LTr,
2012.
SCHIAVI, Mauro. Prescrição trabalhista: o que muda com as novas disposições da reforma
trabalhista. In. Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Belo Hori-
zonte, edição especial, nov. 2017.
THEODORO JUNIOR, Humberto. Distinção científica entre prescrição e decadência. In.
Revista do Tribunal, volume 836, jun/2005. pp. 49-68.

209
Parte III
MEIO AMBIENTE DO TRABALHO
E PREVENÇÃO DE RISCOS LABORAIS
REFORMA TRABALHISTA X (DES)
PROTEÇÃO AO MEIO AMBIENTE DO
TRABALHO SALUBRE DA GESTANTE E
LACTANTE: O PAPEL DA JURISDIÇÃO
CONSTITUCIONAL NA VEDAÇÃO
AO RETROCESSO SOCIAL

ALINE MEDEIROS ALMEIDA CADÉ1

RESUMO: O presente artigo objetiva uma reflexão sobre a atuação da jurisdição


constitucional na vedação ao retrocesso social, face ao enfrentamento do leading
case ADI 5938 pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Primeiramente, apresentam-se
aspectos relevantes da construção legislativa da proteção à maternidade no orde-
namento jurídico brasileiro, no decorrer de quase 1 (um) século. Em sequência,
analisa-se o desmonte da proteção ao meio ambiente de trabalho salubre da gestante
e lactante, advindo da reforma trabalhista. Ao final, o trabalho debate a postura
do STF na proteção dos direitos fundamentais sociais ao julgar procedente a ADI
5938. Pretende-se utilizar uma pesquisa bibliográfica e documental, com enfoque
no estudo da doutrina e legislação pertinentes, empregando os métodos histórico,
dialético e comparativo.
Palavras-chaves: Atividade insalubre. Direitos sociais. Gestante e lactante. Jurisdição
constitucional. Reforma trabalhista.

1 Advogada. Especialista em Direito Previdenciário pela ESMAFE/RS. Mestranda em Direito


Público e Evolução Social pela Universidade Estácio de Sá. Professora de graduação e pós-
-graduação. Coordenadora do IBDP no Estado da Paraíba. Membro da Comissão de Direito
Previdenciário da OAB/PB.
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

LABOR REFORM X DES(PROTECTION)


TO THE ENVIRONMENT OF LABOR SALBER
OF PREGNANT AND INFANT: THE ROLE OF
THE CONSTITUCIONAL JURISDICTION IN
THE FENCE TO SOCIAL RETROGRESSION

ABSTRACT: This article aims at reflecting on the role of the constitutional jurisdiction
in preventing social retrogression, in view of the confrontation of the leading case ADI
5938 by the Federal Supreme Court (STF). Firstly, relevant aspects of the legislative
construction of maternity protection in the Brazilian legal system are presented, in
the course of almost one (1) century. In a sequel, we analyze the dismantling of the
protection to the healthy working environment of the pregnant and lactating woman,
coming from the labor reform. In the end, the paper discusses the STF’s position on
the protection of fundamental social rights in judging ADI 5938. It is intended to use
bibliographical and documentary research, focusing on the study of relevant doctrine
and legislation, using historical, dialectical and comparative.
Keywords: Social rights. Labor reform. Pregnant and nursing. Unhealthy professional
activity. Constitutional Jurisdiction.

INTRODUÇÃO
A proteção legislativa ao espaço da mulher no mercado de trabalho é uma das
garantias conquistadas como consequência do fortalecimento do gênero diante de
diversas lutas para integrar o mundo profissional. Além disto, pela vulnerabilidade
natural que acomete a mulher a partir da gestação, surgiu a necessidade de proteção
específica à maternidade, a qual buscou aprimorar-se no decorrer de quase 1 século,
tendo em vista que a primeira legislação neste sentido foi no ano de 1923.
Uma das garantias alcançadas pelas gestantes e lactantes, integrando, inclusive,
a Consolidação das Leis do Trabalho, diz respeito à proibição de exercer atividade
profissional em ambiente insalubre enquanto durar estas condições, cuja proteção
normativa sofreu alteração pela Lei nº 13.467/17, através da qual adveio a reforma
trabalhista, permitindo a atividade insalubre nestas situações.
Observa-se que, ao contrário das décadas antecedentes, a contemporaneidade
presencia um cenário de contrarreformas (BEHRING, 2008), diante das diversas
reformas legislativas que refletem retrocesso no que toca aos direitos sociais ante-
riormente conquistados.
214
Reforma trabalhista x (des)proteção ao meio ambiente do trabalho salubre da gestante e lactante

Neste sentido, o Supremo Tribunal Federal (STF), na função de proteger o


Estado Democrático de Direito, exerce, também, o enfrentamento das tentativas de
frustrações dos valores constitucionais pelos textos legislativos. O Poder Judiciário
(entendido aqui como jurisdição constitucional) deve ter uma nova inserção no
âmbito das relações dos poderes de Estado (STRECK, 2003).
O problema de pesquisa do presente estudo é o de verificar a atuação da juris-
dição constitucional, no ordenamento jurídico brasileiro, na vedação ao retrocesso
social, face ao julgamento do leading case ADI 5938 pelo STF, no que diz respeito
ao desmonte, pela reforma trabalhista, da proteção ao meio ambiente do trabalho
salubre garantido à gestante e lactante.
Nas seções seguintes, será demonstrado como o Poder Judiciário aplicou seu
entendimento acerca da matéria, a fim de sobrepor o verdadeiro telos do texto
constitucional.
A relevância deste objeto guarda relação com a posição que o Brasil ocupa, no
ranking mundial de acidentes do trabalho, estatística que se deve à falta de saúde e
segurança no meio ambiente do trabalho.
Tem-se como hipótese a evolução da construção constitucional acerca dos di-
reitos fundamentais sociais das gestantes, basilares para o exercício da democracia
e instrumentos de limitação à atuação política, atacados pela reforma trabalhista,
venerada como solução para o combate ao desemprego, mas possível arma de
retrocesso social, a qual pretende subverter a lógica das necessárias proteções
específicas à atividade profissional da gestante e lactante, dada a peculiaridade
de tais situações.
Neste sentido, diante desta sucinta apresentação, o trabalho pretende realizar
uma pesquisa bibliográfica e documental com enfoque no estudo da doutrina e
da legislação pertinentes ao tema, empregando para tanto os métodos histórico,
dialético e comparativo.

1. ASPECTOS RELEVANTES DA CONSTRUÇÃO LEGISLATIVA


DA PROTEÇÃO À MATERNIDADE NO ORDENAMENTO
JURÍDICO BRASILEIRO
O Brasil passou por diversos momentos de introdução da figura feminina ao
mercado de trabalho, tornando-se salutar mencionar o período em que o papel da
mulher na sociedade não se desvencilhava da “dona de casa”, cujas únicas atribuições
socialmente aceitáveis estavam relacionadas ao cuidado com a casa e com a família,
sem qualquer participação no mundo profissional, reservada no âmbito residencial
sob os comandos do esposo.

215
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Não é intuito do presente artigo esgotar a construção histórica da proteção aos


direitos que amparam a atividade profissional da mulher, mas há, aqui, que se mencionar
a influência da Revolução Industrial, quando o trabalho se fez instrumento de inclusão
do homem em sociedade, tornando-se imprescindível a imposição de limites ao sistema:

[...] o Direito do Trabalho não apenas serviu ao sistema econômico defla-


grado com a Revolução Industrial, no século XVIII, na Inglaterra; na verdade,
ele fixou controles para esse sistema, conferiu-lhe certa medida de civilidade,
inclusive buscando eliminar as formas mais perversas de utilização da força de
trabalho pela economia (DELGADO, 2017, p. 88).

Este momento de ruptura com a sociedade feudal e transição para uma socie-
dade capitalista foi determinante para que as classes profissionais unissem forças
e buscassem proteção à dignidade humana, movidos pela exploração da mão de
obra de todos os trabalhadores.
A proteção legal do trabalho da mulher foi lenta e gradual, podendo-se afirmar
que, primeiramente, a figura feminina passou a ter grande representatividade no
mercado de trabalho da indústria brasileira, e somente muito depois, surgiram as
leis protecionistas.
Não pretendendo negar a vulnerabilidade natural que acomete a mulher no
momento em que passa a gerar uma vida, a sociedade moderna exige o amparo espe-
cífico para as gestantes, sempre em busca da concretização da proteção social ampla.
Afinal, a igualdade figura entre os conceitos básicos da democracia, posto que,
o princípio democrático sem igualdade não teria consistência (BONAVIDES, 2003).
Neste contexto, proteção mais específica ainda merece a gestante, que se en-
contra em situação peculiar em relação aos demais trabalhadores.
No ordenamento jurídico brasileiro, a primeira norma de proteção à mater-
nidade se deu há quase um século, com o Decreto nº 16.300, de 31 de dezembro de
1923, já revogado, mas, verdadeiro marco legislativo neste aspecto, o qual aprovou
o regulamento do Departamento Nacional de Saúde Pública.
Esta norma previa que as empregadas ou operárias lactantes deveriam ter, nos
ditos estabelecimentos, o ensejo necessário para amamentação, bem como, estes
deveriam prever caixas a favor das mães pobres, para que dispensassem o cuidado
necessário aos filhos, e, ainda, previa a existência de creches, ou salas de amamen-
tação, próximas ao local de trabalho, para que as mães pudessem, em intervalos
regulares, por 2 (duas) ou 3 (três) vezes, exercer esta função2.

2 Decreto n. 16.300/23 – “Art. 348. A’s empregadas ou operarias, que amamentem os filhos, facul-
tarão os ditos estabelecimentos o ensejo necessario ao cumprimento desse dever.

216
Reforma trabalhista x (des)proteção ao meio ambiente do trabalho salubre da gestante e lactante

Entretanto, quase 10 (dez) anos após, foi o Decreto nº 21.417-A, de 17 de maio


de 1932, regulador das condições de trabalho das mulheres nos estabelecimentos
industriais e comerciais, que ficou conhecido como a primeira norma de proteção
específica das gestantes.
Dentre diversas garantias trazidas por esta norma, merece destaque a proibição
do exercício da atividade laborativa pela gestante no período de 4 (quatro) semanas
antes e 4 (quatro) semanas posteriores ao parto, que poderia ser ampliado, mediante
justificativa por atestado médico, bem como, seria devido o recebimento de auxílio
financeiro correspondente ao valor de metade do seu salário durante este período3.
Outras garantias também foram alcançadas em prol das gestantes, como a
proibição de demissão por esta condição4, além de ter o Decreto estipulado que a
mulher lactante teria direito a dois descansos diários, com duração de 30 (trinta)
minutos cada um, nos primeiros 6 (seis) meses subsequentes ao parto5.
É neste sentido que se observa a morosidade da proteção constitucional à
gestante e a lactante, posto que, em 1932, nenhuma Constituição Federal previa o
específico cuidado inerente a estas condições. Porém, dois anos após, surge o que
Barroso (2010) denominou de constitucionalismo social, consagrador de normas
de proteção ao trabalhador, e enfatizado, no Brasil, na Carta Magna de 1934, a qual
dedicou um capítulo exclusivo à ordem econômica e social, seguindo influência da
Constituição Alemã de 1919, tendo inovado com os direitos humanos de 2ª geração

Art. 349. Taes estabelecimentos deverão organizar «caixas a favor das mães pobres»; providen-
ciarão de qualquer modo para que as operarias possam, sem prejuizo, dispensar cuidados aos
filhos.
Art. 350. Para o fim de proteger as crianças haverá créches, ou salas de ammamentação, si-
tuadas proximo da séde dos trabalhos, nas quaes as mães, duas ou tres vezes, em intervallos
regulares, ammamentarem seus filhos.”
3 Decreto n. 21.417-A – “Art. 7º Em todos os estabelecimentos industriais e comerciais, públicos
ou particulares, é proibido o trabalho à mulher grávida, durante um período de quatro sema-
nas, antes do parto, e quatro semanas depois. (...)
§ 4º Os períodos de quatro semanas antes e depois do parto poderão ser aumentados até ao
limite de duas semanas cada um, em casos excepcionais, comprovados por atestado médico.”
“Art. 9. Enquanto afastada do trabalho por força do disposto no art. 7º e respectivos parágrafos,
terá a mulher direito a um auxílio correspondente à metade dos seus salários, de acordo com a
média dos seis últimos meses, e, bem assim, a reverter ao lugar que ocupava.”
4 Decreto 21.417-A – “Art. 13. Aos empregadores não é permitido despedir a mulher grávida
pelo simples fato da gravidez e sem outro motivo que justifique a dispensa.”
5 Decreto 21.417-A – “Art. 11. A mulher que amamentar o próprio filho terá direito dois descan-
sos diários especiais, de meia hora cada um, durante os primeiros seis meses que se seguirem
ao parto.”

217
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

ou dimensão6, dentro de uma expectativa de estabelecimento de uma democracia


social (LENZA, 2018).
Percebe-se a intenção que esta Carta teve de intervir na esfera social, princi-
palmente porque o Presidente da República, Getúlio Vargas, tinha como meta de
governo a promoção dos direitos sociais (TAVARES, 2018).
Foi neste sentido que, pela primeira vez, uma Constituição Federal passou
a estabelecer a igualdade salarial de homens e mulheres, a vedação da atividade
profissional em ambiente insalubre pela mulher, a garantia de assistência médica e
sanitária à gestante e o não prejuízo salarial no período anterior e posterior ao parto.
A Carta de 1934, promulgada numa época de tensão política, dada a ausência
de consenso entre liberalismo e conservadorismo, destacou-se na história de pro-
teção aos direitos inerentes à maternidade.
Percebe-se que, até então, não havia ordenamento constitucional quanto à
proteção do emprego da gestante, o que foi estabelecido pela Constituição Cidadã
de 1988, a qual consolidou os direitos já adquiridos anteriormente, além de impor a
estabilidade da gestante no emprego, desde a confirmação da gravidez até 5 (cinco)
meses após o parto7.
A Constituição Federal de 1988 inseriu expressamente o Princípio da Isonomia
entre Homens e Mulheres8, não havendo mais fundamento para a proibição do
exercício de atividade insalubre, perigosa e noturna pela mulher, estabelecida pelo
Decreto nº 21.417/32.
Além disto, outros direitos trabalhistas foram constitucionalmente estabeleci-
dos, como por exemplo, a igualdade salarial para homens e mulheres e a proibição
de diferenças de salário, função e critérios de admissão em razão do sexo, estado
civil, idade ou cor9.

6 “Na segunda geração estão os direitos sociais, econômicos e culturais, referidos normalmente
como direitos sociais, que incluem os direitos trabalhistas e os direitos a determinadas presta-
ções positivas do Estado, em áreas como educação, saúde, seguridade social e outras” (BARRO-
SO, 2010).
7 ADCT de 1988 – “Art. 10. Até que seja promulgada a lei complementar a que se refere o art. 7º,
inciso I, da Constituição: (...)
II – fica vedada a dispensa arbitrária ou sem justa causa: (...)
b) da empregada gestante, desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o parto.”
8 CF. Art. 5º, caput. “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (...).”
9 CF/88 − “Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à
melhoria de sua condição social: (...)
XXX − proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por
motivo de sexo, idade, cor ou estado civil; (...)”

218
Reforma trabalhista x (des)proteção ao meio ambiente do trabalho salubre da gestante e lactante

Entretanto, foi de reconhecível imprescindibilidade a expressa previsão cons-


titucional da proteção à maternidade, enquanto direito social, embora lento, na
medida em que, primeiramente, reconheceu-se a necessidade de proteção ao tra-
balho da mulher, e mais na frente, a ampliação aos direitos da gestante e lactante,
enaltecendo-se o meio ambiente do trabalho feminino e o mercado de trabalho da
mulher.
Tais conquistas foram viabilizadas pela resistência do gênero face às diversas
discriminações sofridas ao longo de inúmeras lutas pela busca de um espaço digno
no mercado de trabalho.
Observe-se que, muitas das conquistas mencionadas foram incorporadas pela
Consolidação das Leis do Trabalho, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, em 1943,
bem como, outras regras específicas sobre o acesso da mulher ao mercado de tra-
balho foram inseridas na CLT pela Lei nº 9.799/99, entretanto, também foram alvo
de retrocesso social pela Reforma Trabalhista, que alterou significativamente esta
legislação, mediante a Lei nº 13.467/17, cujas peculiaridades serão analisadas adiante.

2. A REFORMA TRABALHISTA NO DESMONTE DA


PROTEÇÃO CONTRA A ATIVIDADE INSALUBRE
DA GESTANTE E LACTANTE
O Brasil ocupa hoje o 4º (quarto) lugar no ranking mundial de acidentes do
trabalho, posto que a cada 48 segundos acontece um acidente de trabalho e, a cada
3 horas e 38 minutos, morre um trabalhador pela falta de saúde e segurança no
ambiente laboral10.
Há algumas variantes que podem determinar essas estimativas: o Brasil possui
política pública eficaz na prevenção ao acidente de trabalho? Há fiscalização efetiva
nas empresas quanto ao uso de equipamentos de proteção aos trabalhadores que
trabalham expostos a agentes nocivos? O uso de equipamento de proteção reduz a
nocividade e o risco de acidentes?
Não é objeto do presente artigo trazer tais conclusões, mas faz-se essencial
estimular a devida reflexão sobre os elementos que permitem tal estatística, sem
negar que há determinadas profissões em que a insalubridade é indissolúvel à ati-
vidade exercida.
Se, por um lado, permite-se proteger o trabalhador de tais riscos, de outro lado,
cabe enaltecer a vulnerabilidade natural que acomete a mulher a partir do momento

10 <https://www.anamt.org.br/portal/2018/04/19/brasil-e-quarto-lugar-no-ranking-mundial-de-
-acidentes-de-trabalho/> Acesso em 10 jul. 2019.

219
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

em que passa a gerar uma vida. Neste momento, não se deve proteger somente a vida
da trabalhadora, mas o nascituro e a criança. É neste contexto que se passa a uma
análise protecionista da atividade profissional da gestante em ambiente insalubre.
Relembre-se que o meio ambiente do trabalho está expressamente amparado
pela Constituição, em seu art. 22511.
No que toca ao meio ambiente do trabalho da mulher, a Constituição Cidadã
de 1988 consagrou em seu art. 6º12, dentre outros direitos sociais, o direito à ma-
ternidade, à segurança no emprego, e mais especificamente, a proteção ao mercado
de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos nos termos da lei, bem
como, em seu art. 7º, incisos XX e XXII13, o dever de redução dos riscos inerentes
ao trabalho, por meios de normas de saúde, higiene e segurança.
Afirma-se, assim, a natureza fundamental destes direitos, diretamente re-
lacionados com a previsão constitucional de proteção à saúde14, elemento mais
importante da vida humana, cuja releitura conceitual feita pela Organização Inter-
nacional do Trabalho (OIT)15, também vislumbrando proteção ao tema, editou a
Convenção n. 155, ratificada no Brasil pelo Decreto nº 1.254/94, a qual define que
o termo “saúde”, com relação ao trabalhador, abrange elementos físicos e mentais
que afetem a saúde, relacionados com a segurança e higiene no trabalho.
Anteriormente à Reforma Trabalhista, a CLT previa o afastamento da empre-
gada gestante ou lactante, enquanto durasse a gestação e a lactação, de atividades
ou locais insalubres, determinando que o exercício da sua atividade profissional
deveria ser exercido somente em local salubre, cujo dispositivo havia sido incluído
recentemente pela Lei nº 13.287/16.

11 CF − Art. 225. “Todos têm direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de
uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à
coletividade o dever de defende-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.”
12 CF/88 − Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia,
o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a
assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.
13 CF/88 − Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à
melhoria de sua condição social:
(...) XX − proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos
termos da lei;
(...) XXII − redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e
segurança; (...)”
14 CF/88 – “Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas
sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso
universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.”
15 Art. 13, alínea “e” da Convenção nº 155 da OIT.

220
Reforma trabalhista x (des)proteção ao meio ambiente do trabalho salubre da gestante e lactante

A partir da vigência da reforma, tal regra foi relativizada, de forma que se tornou
possível o exercício de atividade laborativa por mulheres grávidas em ambientes
de baixa ou média insalubridade, exceto se apresentado atestado médico indican-
do a necessidade do afastamento, ressalva esta que demonstrou nítido retrocesso
na proteção jurídica à gestante e ao nascituro, ao relativizar a presunção de dano,
afetando o direito fundamental a um ambiente saudável.

A regra de não afastamento obrigatório da gestante em atividades insa-


lubres em graus médio e mínimo, conforme previsão do artigo 394-A, senão
mediante apresentação de atestado médico, afeta o direito fundamental a um
ambiente saudável. A proteção à saúde dos trabalhadores e das trabalhadoras
exige a criação de norma objetivando a eliminação da submissão a atividades
insalubres, e não aumentando as hipóteses de exposição (SOUTO MAIOR e
SEVERO, 2017, p. 98).

É nítido que a exigência deste laudo constitui meio discriminatório da gestante


no mercado de trabalho. Neste sentido:

Sabe-se que o legislador permitiu que o afastamento ocorra mediante a


apresentação de laudo médico, todavia, a exigência desse laudo traz mais uma
forma de discriminação da gestante no mercado de trabalho. Afinal, o empre-
gador poderá julgá-la por apresentar ou não o referido atestado. (CARREIRA,
2018, p. 32)

Além disto, a gestante passa a estar exposta a diversas situações constrangedoras


no ambiente em que trabalha, quando, por exemplo, outras gestantes optem por
não apresentar o laudo médico, como meio de proteger o emprego.
Outro fato importante a destacar-se é que “o médico da gestante não necessa-
riamente tem acesso ao ambiente de trabalho e, certamente, não terá informações
suficientes sobre os agentes existentes no meio ambiente do trabalho” (CARREIRA,
2018, p. 32).
Questiona-se: e a remuneração da gestante, enquanto afastada do meio am-
biente de trabalho insalubre? A alteração legislativa não pretendia, expressamente,
encerrar o contrato de trabalho, sugerindo o exercício de outras atividades em
local salubre, dentro da mesma empresa, sem mencionar o caso específico em que
a empresa só ofereça atividade insalubre para exercer-se.

Parte-se da premissa de que a empresa possua outros setores, não insalubres,


ou, talvez, insalubres em grau médio e mínimo. No entanto, não se pode ignorar
a ocorrência de situações em que 100% da empresa seja insalubre em grau
máximo ou em que a transferência para os graus menores não surta os efeitos

221
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

desejados. Para essa hipótese, a solução prevista pela reforma trabalhista foi
antecipar a licença-maternidade da gestante: afora os 120 dias previstos pela
Constituição, a mulher pode dar entrada ao pedido de licença como se fosse
gravidez de risco (MATEUS DA SILVA, 2017, p. 64).

No que diz respeito às lactantes, a nova legislação passou a permitir o exercício


de atividade insalubre, independente do grau16, exceto recomendação por médico
de sua confiança, através de atestado, incidindo a mesma regra dispensada às ges-
tantes, inovando, portanto, já que a legislação anterior proibia a atividade insalubre
pela lactante em qualquer grau.
Sob o prisma da saúde humana, a solução apresentada pelo legislador é in-
quietamente lamentável (MARANHÃO e SIQUEIRA, 2017, p. 89).
O fato é que, a reforma trabalhista, venerada pelo Governo como solução
para o problema de desemprego que assola o Brasil, foi alvo de duras críticas pelos
órgãos defensores dos trabalhadores, tendo acontecido sob a premissa de reduzir
o desemprego e a crise econômica vivenciada no Brasil, cujo Projeto de Lei foi
apresentado pelo então Presidente da República, Michel Temer.
Perceptível, neste contexto, o retrocesso quanto à proteção social até então
existente sobre a classe trabalhadora, cabendo à jurisdição constitucional a árdua
tarefa de apreciar a inconstitucionalidade de tal reforma, em respeito ao modelo
de Estado Social.

3. O PAPEL DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL NA


VEDAÇÃO DO RETROCESSO SOCIAL À LUZ DA ADI 5938
No dia 26 de abril de 2018, a Confederação Nacional dos Trabalhadores Meta-
lúrgicos ingressou com Ação Direta de Inconstitucionalidade, a qual tramita perante
o Supremo Tribunal Federal, sob nº 5938, cuja relatoria é do Ministro Alexandre
de Morais, com rito abreviado diante da relevância da matéria constitucional sus-
citada, tendo como objeto a contestação dos incisos II e III do art. 394-A da CLT,
que permitiu o exercício da atividade profissional da gestante e lactante em meio
ambiente insalubre, em grau médio ou mínimo, salvo se apresentado laudo médico
recomendando o afastamento.

16 CLT – “Art. 394-A. Sem prejuízo de sua remuneração, nesta incluído o valor do adicional de
insalubridade, a empregada deverá ser afastada de: (...)
III − atividades consideradas insalubres em qualquer grau, quando apresentar atestado de saúde,
emitido por médico de confiança da mulher, que recomende o afastamento durante a lactação.”

222
Reforma trabalhista x (des)proteção ao meio ambiente do trabalho salubre da gestante e lactante

O grande cerne da questão é que não se protege somente a vida da trabalhado-


ra, pois, a partir do momento da gestação, outros titulares de direito fundamental
passam a clamar por proteção: o nascituro e o recém-nascido, de forma que, receber
como constitucional tais dispositivos viola a proteção à mulher, à maternidade e,
sobretudo, à valorização do trabalho humano.
No dia 29 de maio de 2019, o plenário do STF, por maioria dos votos17, julgou
procedente a ADI, declarando a inconstitucionalidade da mencionada alteração
advinda da reforma trabalhista, confirmando a cautelar já deferida neste sentido,
cuja ementa merece aqui enaltecer:

EMENTA: DIREITOS SOCIAIS. REFORMA TRABALHISTA. PROTEÇÃO


CONSTITUCIONAL À MATERNIDADE. PROTEÇÃO DO MERCADO DE TRA-
BALHO DA MULHER. DIREITO À SEGURANÇA NO EMPREGO. DIREITO À
VIDA E À SAÚDE DA CRIANÇA. GARANTIA CONTRA A EXPOSIÇÃO DE
GESTANTES E LACTANTES A ATIVIDADES INSALUBRES. 1. O conjunto dos
Direitos sociais foi consagrado constitucionalmente como uma das espécies
de direitos fundamentais, caracterizando-se como verdadeiras liberdades po-
sitivas, de observância obrigatória em um Estado Social de Direito, tendo por
finalidade a melhoria das condições de vida aos hipossuficientes, visando à
concretização da igualdade social, e são consagrados como fundamentos do
Estado Democrático, pelo art. 1º, IV, da Constituição Federal. 2. A Constituição
Federal proclama importantes direitos em seu artigo 6º, entre eles a proteção à
maternidade, que é a ratio para inúmeros outros direitos sociais instrumentais,
tais como a licença-gestante e o direito à segurança no emprego, a proteção do
mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da
lei, e redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde,
higiene e segurança. 3. A proteção contra a exposição da gestante e lactante
a atividades insalubres caracteriza-se como importante direito social instru-
mental protetivo tanto da mulher quanto da criança, tratando-se de normas de
salvaguarda dos direitos sociais da mulher e de efetivação de integral proteção
ao recém-nascido, possibilitando seu pleno desenvolvimento, de maneira har-
mônica, segura e sem riscos decorrentes da exposição a ambiente insalubre
(CF, art. 227). 4. A proteção à maternidade e a integral proteção à criança são
direitos irrenunciáveis e não podem ser afastados pelo desconhecimento, im-
possibilidade ou a própria negligência da gestante ou lactante em apresentar
um atestado médico, sob pena de prejudicá-la e prejudicar o recém-nascido.

17 O único voto divergente foi do Ministro Marco Aurelio, por entender que a declaração da in-
constitucionalidade protege excessivamente o gênero feminino, compreendendo ser razoável a
exigência do laudo médico sobre a conveniência do afastamento da trabalhadora gestante ou
lactante.

223
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

5. Ação Direta julgada procedente. (STF – ADI 5938/DF – DISTRITO FEDERAL,


Relator: Min. ALEXANDRE DE MORAES, Data de Julgamento: 29/05/201918).

Impõe-se destacar o parecer da Procuradoria Geral da República (PGR), ao


sustentar o caráter concretizador de direitos fundamentais da medida consistente
na vedação do trabalho de gestantes e lactantes em atividades insalubres, indepen-
dente do grau, destacando, ainda, o nítido retrocesso social da alteração legislativa.
Vejamos trecho do parecer:

O legislador ordinário, ao alterar a redação do art. 394-A da CLT para


autorizar o trabalho de gestantes e lactantes em condições insalubres, antes
proibido, sem dúvida promoveu redução arbitrária e injustificada do nível de
proteção à vida, à saúde, à maternidade, à infância e ao trabalho em condições
dignas e seguras. Isso acentua a já revelada mácula à Constituição, na hipótese.
Além de incidir em retrocesso social, a conduta do legislador ordinário ofende
o princípio da proporcionalidade em sua dimensão positiva, como vedação à
proteção insuficiente, que impõe ao Estado (no particular, ao Poder Legislativo)
o dever de tutelar de maneira ótima os direitos fundamentais. (...)

Neste mesmo contexto, a Ministra Rosa Weber19 pontuou aspectos históricos


da proteção legislativa aos direitos trabalhistas das mulheres no Brasil, no decorrer
de quase 1 (um) século de afirmação histórica do compromisso da nação com a
salvaguarda das futuras gerações.
O Ministro Relator Alexandre Moraes fez questão de apontar, especificamen-
te, em seu voto, o aspecto inconstitucional existente na exposição das gestantes e
lactantes ao exercício de atividade insalubre:

A inconstitucionalidade consiste no fato de as expressões impugnadas


permitirem a exposição de empregadas grávidas e lactantes a trabalho em
condições insalubres. Mesmo em situações de manifesto prejuízo à saúde da
trabalhadora, por força do texto impugnado, será ônus desta a demonstração
probatória e documental dessa circunstância, o que obviamente desfavorece
a plena proteção do interesse constitucionalmente protegido, na medida em
que sujeita a trabalhadora a maior embaraço para o exercício de seus direitos.

Salientou, ainda, o reconhecimento da importância da proteção à maternidade


e à saúde pela jurisdição constitucional, já consagrada na jurisprudência da Corte
Constitucional.

18 O julgado ainda não foi publicado no DJe.


19 <https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=412571>. Acesso em 12
jul. 2019.

224
Reforma trabalhista x (des)proteção ao meio ambiente do trabalho salubre da gestante e lactante

No ordenamento constitucional brasileiro, a ADI é um dos importantes ins-


trumentos do controle concentrado de constitucionalidade no Estado Democrático
de Direito, instituído pela Lei nº 9.868/99, mais de uma década após a promulgação
da CF/88, inovando, portanto, no exercício da jurisdição constitucional, inclusive,
sob o questionamento de legitimidade, uma vez que “uma análise mais aprofundada
apontaria para o fato de que a Lei 9.686/1999 careceria de legitimidade formal, por
falta de previsão constitucional acerca da possibilidade de sua edição” (STRECK,
2018).
Os direitos fundamentais consagrados na CF/88, basilares para o exercício da
democracia, constituem instrumento de limitação aos atos políticos, cuja legitimação
para proteger tais valores é do Poder Judiciário.

A busca político-jurídica por garantias da Constituição, ou seja, por ins-


tituições através das quais seja controlada a constitucionalidade do comporta-
mento de certos órgãos de Estado que lhe são diretamente subordinados, como
o parlamento ou o governo, corresponde ao princípio, específico do Estado de
direito, isto é, ao princípio da máxima legalidade da função estatal. (...) Pode haver
situações em que a Constituição não se efetiva, mesmo em pontos essenciais,
de modo que as garantias, ao permanecer inoperantes, perdem todo o sentido
(KELSEN, 2003, p. 239).

É viável concordar com DWORKIN (2000), quando entende equivocada a ideia


de que deixar o Tribunal decidir sobre uma questão polêmica é antidemocrático,
e que esta decisão deveria ser decidida por um processo democrático, pois, assim,
sobrepor-se-ia a valorização moral acima do que impõe a legislação.
Na condição de Tribunal competente para possibilitar o Estado Democrático
de Direito, a Suprema Corte exerce a jurisdição constitucional, não se esquivando do
enfrentamento da falha efetividade da CF/88 perante a sociedade. Nessa perspectiva,
cabe colacionar o pensamento de Lenio Streck, ao aduzir que:

(...) o Poder Judiciário (entendido aqui como jurisdição constitucional) deve


ter uma nova inserção no âmbito das relações dos poderes de Estado, levando-o
a transcender as funções de cheks and balances, mediante uma atuação que leve
em conta a perspectiva que os valores constitucionais têm precedência mesmo
contra textos legislativos produzidos por maiorias parlamentares (que, a toda
evidência, devem obediência à Constituição). Assim, é absolutamente correta
a tese de Freeman, que entende a Constituição como instrumento da soberania
democrática que não se limita a definir procedimentos para elaborar e aplicar
as leis, mas organiza e qualifica estes procedimentos ordinários por forma a
evitar a usurpação da soberania popular por parte de instituições públicas ou
privadas (STRECK, 2003, p. 281).

225
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Por fim, calha ressaltar que a crise de efetividade dos direitos sociais, cada vez
mais aguda, está diretamente relacionada com a carente disponibilidade de recur-
sos financeiros para o atendimento das políticas públicas sociais (SARLET, 2008),
tendo sido a crise econômica do Brasil o principal argumento para o Governo que
sustentou a reforma trabalhista, o que implica na incumbência da Suprema Corte
declarar inconstitucionais os dispositivos desta nova CLT que afrontam a Carta
Constitucional de 1988, o que justifica a tramitação de mais de 30 (trinta) ADI’s20
neste sentido.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A intenção do presente texto foi analisar o anacronismo da reforma traba-
lhista ao possibilitar o exercício de atividade insalubre pela gestante e lactante, não
respeitando a vulnerabilidade natural a qual se expõem no momento da materni-
dade, desconsiderando, portanto, a necessidade de proteção peculiar inerente em
tal situação.
As justificativas de crise econômica e grande desemprego que assolam o
país sustentaram a reforma trabalhista, desfavorecendo, no aspecto mencionado,
a proteção à maternidade, ao nascituro e ao recém-nascido em fase de lactação,
permitindo, assim, a não efetivação dos preceitos constitucionais, e subestimando
as garantias até então alcançadas.
Neste contexto, a Constituição Cidadã de 1988, em seu artigo 6º e 7º, incisos
XX e XXII, foram demasiadamente violados pela mencionada reforma, cabendo
ao STF, no exercício da jurisdição constitucional, julgar a inconstitucionalidade da
nova legislação, no leading case ADI 5938, diante do acelerado desmonte da prote-
ção que se havia construído às gestantes e lactantes no decorrer de quase 1 século.
A sociedade moderna brasileira traz em sua essência a necessidade de acom-
panhamento da legislação protecionista, considerando, principalmente, a posição
mundial que o Brasil ocupa, hodiernamente, no ranking de acidentes do trabalho,
face à falta de saúde e segurança no ambiente do trabalho, o que não se desvincula
da realidade vivenciada pela mulher trabalhadora a partir do momento em que
passa a gerar uma vida.
Destarte, a jurisdição constitucional exerceu a devida atuação na ADI 5938,
sobrepondo os valores constitucionais de proteção à trabalhadora gestante e lac-

20 <https://www.gazetadopovo.com.br/justica/reforma-trabalhista-stf-inconstitucionalidade-tra-
balho-intermitente/>. Acesso em 15. Jul. 2019.

226
Reforma trabalhista x (des)proteção ao meio ambiente do trabalho salubre da gestante e lactante

tante face ao texto legislativo aprovado pela reforma trabalhista, o qual não guarda
compatibilidade com os preceitos fundamentais da CF/88.

REFERÊNCIAS
BARROSO, Luis Roberto. Curso de Direito Constitucional Contemporâneo: os conceitos
fundamentais e a construção do novo modelo. São Paulo: Saraiva, 2010.
BONAVIDES, Paulo. O princípio da igualdade como limite à atuação do Estado. Revista
Brasileira de Direito Constitucional, São Paulo, N. 2, p. 217, jul.dez. – 2003.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de Outubro de 1988. Brasília,
1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constitui-
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228
A POTENCIAL UTILIZAÇÃO DA
TECNOLOGIA BLOCKCHAIN PARA A
PREVENÇÃO DE ACIDENTES DE TRABALHO

THE POTENTIAL USE OF BLOCKCHAIN


TECHNOLOGY FOR THE PREVENTION OF
WORK ACCIDENTS

ANTONIO BAZILIO FLORIANI NETO1


LARA BONEMER ROCHA FLORIANI2
ISADORA DE BRIDA SANTI3

1. INTRODUÇÃO
Como a presente obra tem por objeto a reflexão dos 100 primeiros anos da
cobertura acidentária no país, este trabalho coaduna-se com o tema proposto, porém
busca analisar como a matéria pode ser afetada por meio das novas tecnologias. Vale
dizer, busca-se apresentar um cenário, valendo-se de circunstâncias já existentes,
acerca dos próximos anos da proteção acidentária.

1 Doutorando em Direito Econômico e Desenvolvimento na PUCPR. Mestre em Direito Eco-


nômico e Socioambiental pela PUCPR. Especialista em Direito Previdenciário pela PUCPR.
Professor no Curso de Graduação em Direito da FESP. Professor Convidado em Cursos de
Pós-Graduação. Advogado. E-mail: antonio@rochaefloriani.com.br.
2 Doutoranda em Direito Econômico e Desenvolvimento na PUCPR (Bolsista CAPES/FA). Mes-
tre em Direito Econômico e Socioambiental pela PUCPR (Bolsista CNPQ). Professora no Cur-
so de Graduação em Direito da Faculdade Estácio de Sá. Professora Convidada em Cursos de
Pós-Graduação. Advogada. E-mail: lara@rochaefloriani.com.br.
3 Graduanda em Direito na PUCPR. E-mail: isadorasanti97@gmail.com.
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Defende-se aqui, a necessidade de o direito, em especial o previdenciário,


valer-se de mecanismos estudados por outras ciências com vistas à obter eficiência.
Tal premissa decorre do fato de o Brasil ocupar o 4º lugar no mundo em
números de óbitos relacionados ao meio ambiente de trabalho. Desta feita, consi-
derados os avanços promovidos no último século, é inquestionável a necessidade
de aprimoramentos ao sistema protetivo.
Neste contexto, ganha espaço a tecnologia Blockchain, que se tornou mun-
dialmente conhecida com a apresentação da bitcoin no ano de 2008. Desde então,
iniciaram-se pesquisas específicas sobre criptomoedas e, mais precisamente, sobre
a bitcoin, seu funcionamento, riscos e potenciais benefícios.
A medida em que sua divulgação crescia, iniciou-se uma preocupação por
parte dos Estados, voltada à regulamentação das criptomoedas, o que conduziu à
uma outra fonte de pesquisas sobre o tema.
Mas não foi só.
Um dos aspectos mais atraentes da tecnologia blockchain está relacionado à
segurança e eficiência. A possibilidade de viabilizar transações automáticas sem
um terceiro intermediador despertou o interesse daqueles que objetivam garantir
segurança e, consequentemente, reduzir custo em suas atividades.
A partir de então, iniciou-se uma nova onda de pesquisas com o objetivo de
investigar a potencial utilização da tecnologia Blockchain nas mais variadas áreas
do conhecimento.
Tanto no setor público, como também no setor privado, a utilização da tecno-
logia tem se mostrado promissora e, por estas razões é que se justifica a importância
deste artigo.
Buscou-se demonstrar que a tecnologia Blockchain pode ser utilizada como um
ferramental preventivo em matéria de acidentes de trabalho, a partir de iniciativas
concretizadas pela Levi Strauss & Co., Safeguard e PricewaterhouseCoopers (PwC).
Assim, o primeiro item deste artigo foi dedicado à uma sucinta apresentação
da tecnologia blockchain, seguido do histórico normativo dos acidentes de trabalho
no Brasil para, na sequência, avaliar a potencialidade desta tecnologia na prevenção
dos acidentes de trabalho.

2. A TECNOLOGIA BLOCKCHAIN
Em 2008,4 Satoshi Nakamoto, pseudônimo do criador do bitcoin, apresentou
um artigo com uma versão puramente peer-to-peer do dinheiro eletrônico que

4 DAVIDSON, Sinclair; DE FILIPPI Primavera; POTTS, Jason. Disrupting Governance: The


New Institutional Economics of Distributed Ledger Technology (July 19, 2016), p. 01. In:

230
A potencial utilização da tecnologia blockchain para a prevenção de acidentes de trabalho

permitiria que pagamentos online fossem enviados diretamente de uma parte para
outra, sem o intermédio de uma instituição financeira.5
Partindo de uma irresignação acerca da dependência do comércio na Internet
de instituições financeiras atuantes como terceiros confiáveis para o processamento
de pagamentos eletrônicos, ante as fraquezas decorrentes de um sistema baseado
na confiança tradicional, apresentou o funcionamento da tecnologia blockchain.6
Trata-se de uma combinação inovadora entre matemática, criptografia, ciência da
computação e teoria dos jogos.7
A proposta de Nakamoto consistiu em um sistema de pagamento baseado
em prova criptográfica, que permite que duas partes interessadas negociem
entre si sem a necessidade de uma terceira parte confiável. Isto porque, “[...] no
coração da tecnologia blockchain está a capacidade de criar e trocar registros
digitais exclusivos sem a necessidade da existência de uma parte confiável e
centralizada [...]”.8
Para a execução da proposta de Satoshi, foi utilizado um servidor de times-
tamp9 distribuído peer-to-peer para gerar prova computacional da ordem crono-
lógica das transações. Segundo o autor: “[...] O sistema é seguro desde que os nós

SSRN. Disponível em: <https://ssrn.com/abstract=2811995> ou <http://dx.doi.org/10.2139/


ssrn.2811995>. Acesso em: 10 mar. 2019.
5 NAKAMOTO, Satoshi. Bitcoin: a peer-to-peer electronic cash system. Disponível em: <http://
bitcoin.org/bitcoin.pdf>. Acesso em: 23 jan. 2019.
6 NAKAMOTO, Satoshi. Bitcoin: a peer-to-peer electronic cash system. Disponível em: <http://
bitcoin.org/bitcoin.pdf>. Acesso em: 23 jan. 2019. No mesmo sentido: ALHARBY, Maher; VAN
MOORSEL, Aad. A Systematic Mapping Study On Current Research Topics In Smart Contrac-
ts. International Journal of Computer Science & Information Technology (IJCSIT), vol. 9, n. 5,
outubro/2017, pp. 151-164, p. 152. DOI: 10.5121/ijcsit.2017.9511.
7 SCHWAB, Klaus. Aplicando a quarta revolução industrial. Klaus Schwab, Nicholas Davis: pre-
fácios de Satya Nadella, João Doria; Tradução Daniel Moreira Miranda. São Paulo: EDIPRO,
2018, p. 133.
8 SCHWAB, Klaus. Aplicando a quarta revolução industrial. Klaus Schwab, Nicholas Davis: pre-
fácios de Satya Nadella, João Doria; Tradução Daniel Moreira Miranda. São Paulo: EDIPRO,
2018, p. 134.
9 De acordo com Nakamoto: [...] Um servidor de timestamp trabalha pegando um hash de
um bloco de itens a ser timestamped e publicando amplamente o hash, como em um jornal ou
post Usenet [2-5]. O timestamp prova que os dados devem ter existido no momento, obviamen-
te, para entrar no hash. Cada timestamp inclui o timestamp anterior em seu hash, formando
uma cadeia, com cada timestamp adicional reforçando os anteriores. [...]. In: NAKAMOTO, Sa-
toshi. Bitcoin: a peer-to-peer electronic cash system. Disponível em: <http://bitcoin.org/bitcoin.
pdf>. Acesso em: 23 jan. 2019.

231
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

honestos controlem coletivamente mais energia da CPU do qualquer outro grupo


colaborador de nós [...]”.10
Deste modo, a confiança tradicional é substituída por uma confiança por
computação e criptografia que exige que os participantes demonstrem prova de
trabalho, a partir da resolução de um problema particularmente difícil. Assim, o
poder computacional acumulado de todos os participantes envolvidos forma uma
cadeia de provas de dificuldade crescente e garante que nenhum agente possa trapa-
cear, uma vez que não possui recursos computacionais para se sobrepor a confiança.
No bitcoin, uma nova prova de trabalho é adicionada a cada 10 minutos, tornando
exponencialmente mais difícil invalidar os resultados anteriores.11
Satoshi Nakamoto indica a existência de incentivos para ajudar a encorajar a
honestidade dos mineradores. Considerando o sistema da prova de trabalho, explica
que se um atacante ganancioso é capaz de reunir mais poder de processamento do
que todos os demais, ele teria que escolher entre usá-lo para fraudar as pessoas,
roubando seus pagamentos, ou para gerar novas moedas. Ponderando as opções
disponíveis, a mais lucrativa será a de jogar conforme as regras do jogo, pois o
favorece com mais moedas novas do que aos outros.12
O sistema alinha os incentivos de todos os participantes, sendo o bitcoin essen-
cial para este objetivo e um correlativo de reputação. Assim, aqueles que trabalham
na rede são recompensados da forma como já enunciara a teoria dos jogos.13

10 No original: “[…] The system is secure as long as honest nodes collectively control more CPU
power than any cooperating group of attacker nodes. […]” In: NAKAMOTO, Satoshi. Bitcoin: a
peer-to-peer electronic cash system. Disponível em: <http://bitcoin.org/bitcoin.pdf>. Acesso
em: 23 jan. 2019.
11 ANTONOPOULOS, Andreas M. Bitcoin security model: Trust by computation. 03 jun. 2016.
Disponível em: <https://medium.com/@aantonop/bitcoin-security-model-trust-by-computa-
tion-d5b93a37da6e>. Acesso em: 29 jan. 2019.
12 No original: “[...] The incentive may help encourage nodes to stay honest. If a greedy attacker
is able to assemble more CPU power than all the honest nodes, he would have to choose between
using it to defraud people by stealing back his payments, or using it to generate new coins. He ought
to find it more profitable to play by the rules, such rules that favour him with more new coins than
everyone else combined, than to undermine the system and the validity of his own wealth. [...]”. In:
NAKAMOTO, Satoshi. Bitcoin: a peer-to-peer electronic cash system. Disponível em: <http://
bitcoin.org/bitcoin.pdf>. Acesso em: 23 jan. 2019.
13 Cooter e Ulen definem a teoria dos jogos como sendo aquela que lida com situações com as
quais o direito se defronta e que a estratégia a ser adotada é muito importante. Nestas situações,
há poucos tomadores de decisão e a ação ótima a ser executada por uma pessoa depende do
que outro agente econômico escolher. De acordo com os autores, três elementos precisam ser
especificados: os jogadores, as estratégias de cada jogador e os payoffs, definidos pelos ganhos

232
A potencial utilização da tecnologia blockchain para a prevenção de acidentes de trabalho

A segurança da tecnologia blockchain está relacionada à prova de trabalho, e


decorre principalmente do fato de que Satoshi exigiu que os participantes usassem
uma infraestrutura de chave pública, denominada PKI. Hoje a blockchain do bitcoin
representa a maior implementação civil de PKI do mundo, estando atrás apenas
do sistema de acesso comum do Departamento de Defesa dos Estados Unidos da
América.14
Como resultado, a tecnologia blockchain ou do registro distribuído tem o con-
dão de liberar o sistema financeiro das limitações das velhas instituições, promoven-
do concorrência e inovação, o que é potencialmente positivo para o usuário final.15
Ademais, trata-se de uma criação revolucionária, na medida em que ajuda
permite que os objetos digitais possam ser copiados de forma exata e transmitidos
com custo marginal quase zero para várias pessoas, sem o risco de cópias falsas ou
da ocorrência de duplo envio.16
Soma-se a este ponto a já citada desnecessidade da prova de confiança em uma
terceira parte única e centralizada.
Neste aspecto, Davidson et. al, destacam que a blockchain se apresenta como
um livro-razão distribuído que não demanda prova de confiança entre as partes
envolvidas e destas em um agente externo. É uma abordagem totalmente nova para
construir e usar livros-razão, na medida em que produz o consenso sem exigir qualquer
forma de garantia, seja entre as partes, na medida em que a auto execução garante o
cumprimento e, por isso, não sofre a incidência de custos de transação decorrentes da
falta de conhecimento entre as partes, de sua reputação, ou ainda, de trocas que não
irão se repetir no futuro, seja em um terceiro intermediador, criando uma economia
de baixo custo de transação, pré-condição para a eficiência econômica.17

ou retornos de cada jogador para cada estratégia. In: COOTER, Robert; ULEN, Thomas. Di-
reito & Economia. Trad. Luis Marcos Sander, Francisco Araújo da Costa. 5. Ed. Porto Alegre:
Bookman, 2010, p. 56.
14 TAPSCOTT, Don; TAPSCOTT Alex. Blockchain revolution: como a tecnologia por trás do Bit-
coin está mudando o dinheiro, os negócios e o mundo. São Paulo: Senai-SP, Editora, 2016, p. 71.
15 TAPSCOTT, Don; TAPSCOTT Alex. Blockchain revolution: como a tecnologia por trás do Bit-
coin está mudando o dinheiro, os negócios e o mundo. São Paulo: Senai-SP, Editora, 2016, p. 48.
16 SCHWAB, Klaus. Aplicando a quarta revolução industrial. Klaus Schwab, Nicholas Davis: pre-
fácios de Satya Nadella, João Doria; Tradução Daniel Moreira Miranda. São Paulo: EDIPRO,
2018, p. 134.
17 DAVIDSON, Sinclair; DE FILIPPI Primavera; POTTS, Jason. Disrupting Governance: The
New Institutional Economics of Distributed Ledger Technology (July 19, 2016), p. 01 e 05.
In: SSRN. Disponível em: <https://ssrn.com/abstract=2811995> ou <http://dx.doi.org/10.2139/
ssrn.2811995>. Acesso em: 10 mar. 2019.

233
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

A tecnologia pode ostentar natureza pública ou privada. Em um blockchain


público, qualquer usuário anônimo pode se juntar à rede, ter acesso ao seu conteúdo,
enviar uma nova transação ou verificar a validade dos blocos. Exemplos de blockchain
público seriam Bitcoin, NXT e Ethereum. Por outro lado, em um blockchain privado,
somente usuários com permissão podem se juntar à rede, escrever ou enviar tran-
sações. Exemplos de blockchain privado são Everledger, Ripple e Eris.18
Um dos aspectos mais destacados da Blockchain reside na possibilidade de se
criar ações programáveis, sem a interferência humana, como por exemplo, os Smart
Contracts. Por fim, cumpre destacar o fato de ser altamente inclusiva, na medida em
que para fazer uma transação, a blockchain exige pouca largura de banda e apenas
um software básico, armazenamento e conectividade. Indivíduos e pequenos con-
tribuintes podem atuar como players neste novo cenário.19
A tecnologia de registros distribuídos blockchain é uma plataforma inovadora
que permite o compartilhamento digital de registros e informações de modo seguro
e sem a participação de um intermediário. Por este motivo, reduz o custo operacional
do envolvimento de um terceiro, bem como os custos de transação20 inerentes à
necessidade de confiança em uma terceira parte centralizada.
Muito embora tenha sido inicialmente projetada para viabilizar o processa-
mento do bitcoin,21 apresenta-se como uma alternativa promissora para práticas
no âmbito público e privado, apta a revolucionar os sistemas já existentes.
Na esfera pública, são apontadas as possibilidades no tocante aos registros
públicos, ao processo eleitoral e como um potencial redutor da burocracia da
Administração Pública. No âmbito privado, além do bitcoin e outras criptomoe-
das, a blockchain tem o condão de influenciar positivamente desde a estrutura da
empresa, em termos de governança e controle22, até a elaboração e funcionamento
dos contratos, bem como a educação e a distribuição de música e direitos autorais.

18 ALHARBY, Maher; VAN MOORSEL, Aad. A Systematic Mapping Study On Current Research
Topics In Smart Contracts. International Journal of Computer Science & Information Technology
(IJCSIT), vol. 9, n. 5, outubro/2017, pp. 151-164, p. 152. DOI: 10.5121/ijcsit.2017.9511.
19 SCHWAB, Klaus. Aplicando a quarta revolução industrial. Klaus Schwab, Nicholas Davis: pre-
fácios de Satya Nadella, João Doria; Tradução Daniel Moreira Miranda. São Paulo: EDIPRO,
2018, p. 135.
20 A teoria dos custos de transação será tratada no Capítulo 2 desta tese.
21 DAVIDSON, Sinclair; DE FILIPPI Primavera; POTTS, Jason. Disrupting Governance: The
New Institutional Economics of Distributed Ledger Technology (July 19, 2016), p. 04. In:
SSRN. Disponível em: <https://ssrn.com/abstract=2811995> ou <http://dx.doi.org/10.2139/
ssrn.2811995>. Acesso em: 10 mar. 2019.
22 DAVIDSON, Sinclair; DE FILIPPI Primavera; POTTS, Jason. Disrupting Governance: The
New Institutional Economics of Distributed Ledger Technology (July 19, 2016), p. 01 e 05.
In: SSRN. Disponível em: <https://ssrn.com/abstract=2811995> ou <http://dx.doi.org/10.2139/

234
A potencial utilização da tecnologia blockchain para a prevenção de acidentes de trabalho

Neste estudo, apresentam-se as potencialidades da utilização da tecnologia


Blockchain na prevenção de acidentes de trabalho.

3. HISTÓRICO NORMATIVO QUANTO AOS ACIDENTES DE


TRABALHO NO BRASIL
O Brasil do século XIX foi marcado pela liberdade individual e política, em que
os indivíduos eram livres para “controlar seu próprio destino, sem a interferência
da Igreja, do Estado, do soberano ou de qualquer outra organização que pudesse
interferir em seu discernimento.”23 Esta liberdade também estava presente no ce-
nário econômico, conforme comenta André Folloni “[...] seria inócuo pensar em
liberdade individual e política sem liberdade econômica”.24
Neste cenário de liberdade econômica, houve impactos no âmbito trabalhista,
no sentido de que o princípio da ampla liberdade do trabalho tomou força, em que
havia a presunção de que o trabalhador era responsável pelo próprio bem-estar e
pela sua independência.25
No início do século XX, as falhas deste sistema foram evidenciadas. De acordo
com Antonio Bazilio Floriani Neto26, o mercado se mostrou incapaz de se autorre-
gulamentar, sendo necessário a posição do Estado ativo e interventor.
Conquanto que houvesse a consagração formal da liberdade, não houve efe-
tividade da norma, emergindo problemas sociais e econômicos.27 Restando claro
que os pressupostos liberais não funcionavam no mercado de trabalho.28

ssrn.2811995>. Acesso em: 10 mar. 2019. A este respeito, cite-se a Estônia, pioneira no uso de
blockchain, com sistemas em funcionamento e em desenvolvimento para aplicar a tecnologia.
Pela via do e-Estonia, tem-se registros médicos, diplomas escolares, programas para que estran-
geiros se candidatem a uma residência digital na Estônia (e-Residency), dentre outros serviços.
A blockchain está disponível pelo acesso ao e-Estonia: https://e-estonia.com/tag/blockchain/.
23 FLORIANI NETO, Antonio Bazilio. Seguro de Acidentes do trabalho: voracidade fiscal, empresas
e economia. São Paulo: LTr, 2015, p. 32
24 FOLLONI, André; FLORIANI NETO, Antonio Bazilio. Extrafiscalidade e indução das decisões
empresariais via seguro de acidente de trabalho. Revista de Direito Empresarial, v. 11, p. 255-269,
2014, p.257
25 FLORIANI NETO, Antonio Bazilio. Seguro de Acidentes do trabalho: voracidade fiscal, empre-
sas e economia. São Paulo: LTr, 2015, p. 32
26 FLORIANI NETO, Antonio Bazilio. Seguro de Acidentes do trabalho: voracidade fiscal, empre-
sas e economia. São Paulo: LTr, 2015,, p. 33
27 FLORIANI NETO, Antonio Bazilio. Seguro de Acidentes do trabalho: voracidade fiscal, empre-
sas e economia. São Paulo: LTr, 2015,, p. 33
28 FLORIANI NETO, Antonio Bazilio. Seguro de Acidentes do trabalho: voracidade fiscal, empre-
sas e economia. São Paulo: LTr, 2015,, p. 34

235
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Diante deste cenário, o Estado foi chamado a exercer seu papel de interventor
com vistas a proteger o interesse coletivo. Nesta toada, “[...] o rompimento de antigos
paradigmas e a imposição de limites e normas no meio ambiente laborativo, tornou-
-se necessário para o ponderamento das diferenças existentes entre empregador e
empregado, especialmente quando seus interesses estavam em rota de colisão”.29
A debilidade do sistema econômico liberal, entre o fim do século XIX e iní-
cio do século XX, proporcionou ao Estado autonomia para intervir no ambiente
econômico do país, ocasionando um aumento na qualidade condutiva do processo
econômico.30
A transição do modelo liberal para o interventor foi marcada com o Decreto
n. 3.724/1919, primeiro ato normativo a disciplinar os acidentes de trabalho no
Brasil. Na época, conforme “[...] houve um salto quantitativo das enfermidades
relacionadas ao trabalho [...]”31, assim como, a ‘nova realidade ensejou a necessi-
dade de modificação dos pressupostos da responsabilidade civil, num tempo em
que inexistia o Direito à Seguridade Social”32.
A responsabilidade nos moldes do Direito Civil tem por base o dano, a culpa
do agente e o nexo de causalidade entre o fato e o dano. O Decreto n. 3.724/1919
trouxe uma nova abordagem à responsabilidade civil, conforme dito anteriormente,
trazendo a teoria do risco, na qual “[...] a responsabilidade é encarada sob o aspecto
objetivo: o operário, vítima de acidente do trabalho, tem sempre direito à indeni-
zação, haja ou não culpa do patrão ou do acidentado.”33
A norma em referência instituiu um seguro de acidentes de trabalho, por conta
do empregador e que objetivava financiar as indenizações devidas aos trabalhado-
res envolvidos em acidentes no trabalho: “[...] o seguro acidentário, em seu início,
possuía caráter privado, ou seja, restringia-se à relação empregador-empregado sem
a intervenção estatal direta.” 34

29 FLORIANI NETO, Antonio Bazilio. Seguro de Acidentes do trabalho: voracidade fiscal, empre-
sas e economia. São Paulo: LTr, 2015, p. 34
30 FLORIANI NETO, Antonio Bazilio. Seguro de Acidentes do trabalho: voracidade fiscal, empre-
sas e economia. São Paulo: LTr, 2015, p. 35
31 FLORIANI NETO, Antonio Bazilio. Seguro de Acidentes do trabalho: voracidade fiscal, empre-
sas e economia. São Paulo: LTr, 2015, p. 35
32 MORAES, Evaristo. Os acidentes no trabalho e sua reparação. São Paulo: LTr, 2009, p. XIII
33 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil brasileiro vol. 4. Responsabilidade civil. 8 ed. São
Paulo: Saraiva, 2013, p. 28
34 FLORIANI NETO, Antonio Bazilio. Seguro de Acidentes do trabalho: voracidade fiscal, empre-
sas e economia. São Paulo: LTr, 2015, p. 37

236
A potencial utilização da tecnologia blockchain para a prevenção de acidentes de trabalho

O Decreto n. 3.724/1919 adotou a teoria do contrato35, o qual se baseia no


risco do empreendimento, e incumbe os empregadores ao dever de vigilância sobre
a atividade exercida nas indústrias. Por essa razão, o SAT decorreu de iniciativa dos
empregadores, eis que deveriam interceder nos acidentes de trabalho.
Importante destacar, que em sentido contrário às normas atuais, o Decreto
n. 3.724/1919 visava apenas a reparação de danos já ocorridos e não a prevenção
destes. Ademais, era previsto na referida norma, que o empregador deveria pagar
apenas uma indenização ao empregado acidentado, sendo dispensado de assim
fazer caso o acidente decorresse de força maior, dolo do empregado ou de terceiros.
O Decreto n. 3.724/191936, ainda que se tratasse de um progresso na proteção
dos direitos trabalhista, era eivado por diversas falhas, como por exemplo, o fato de
que o empregado deveria fazer reclamação à polícia para ter direito à indenização.
Porém, conforme destaca o autor “[...] o seguro possuía índole privada, ou seja, não
podia ser visualizado sob a mesma ótica de hoje, cuja abrangência é muito maior,
até mesmo por possuir natureza pública.”.37
O Decreto n. 24.637/1934, segunda norma brasileira que tratou do tema, con-
sertou as falhas presentes na norma de 1919 e adotou a teoria do risco profissional,
a qual presume que as atividades profissionais envolvem riscos e que o explorador
da atividade (empregador) deve assumir estes riscos.
Após as duas primeiras normas que regulamentaram o seguro de acidentes
do trabalho foram editadas mais normas que trouxeram melhorias ao tema, e
em 1988, com a promulgação da Constituição Federal atualmente vigente, houve
uma valorização da dignidade da pessoa humana, eis que foram consolidados os
direitos e garantias fundamentais. Além disso, a Constituição de 1988, trouxe que
a saúde é um direito de todos e o Estado deve garanti-la, nesse sentido, o legislador
constituinte trouxe o conceito de seguridade social no artigo 194, a qual é “[...]
definida como o conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e
da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e
à assistência social.”38.

35 FLORIANI NETO, Antonio Bazilio. Seguro de Acidentes do trabalho: voracidade fiscal, empre-
sas e economia. São Paulo: LTr, 2015, p. 38/40
36 FLORIANI NETO, Antonio Bazilio. Seguro de Acidentes do trabalho: voracidade fiscal, empre-
sas e economia. São Paulo: LTr, 2015, p. 39
37 FLORIANI NETO, Antonio Bazilio. Seguro de Acidentes do trabalho: voracidade fiscal, empre-
sas e economia. São Paulo: LTr, 2015, p. 39
38 FLORIANI NETO, Antonio Bazilio. Seguro de Acidentes do trabalho: voracidade fiscal, empre-
sas e economia. São Paulo: LTr, 2015, p. 48

237
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

A previdência social visa garantir o padrão mínimo de vida àqueles cidadãos


que se encontrem em risco social. Essa garantia é lastreada pelas obrigações con-
tributivas e de filiação aos Regimes Próprio e Geral, assim como pelos tributos.
Ademais, a Constituição de 1988 expressamente previu, em seu artigo 7º, in-
ciso XXVIII, o direito ao seguro de acidente do trabalho dos trabalhadores, o qual
compete ao empregador, que não está isento a indenizar o empregado, quando o
acidente for causado por dolo ou culpa deste.
Após 1988, foram editadas as Normas Regulamentadoras (NR)39, disposições
complementares ao capítulo V da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que
consistem em obrigações, direitos e deveres a serem cumpridos por empregadores
e empregados com o objetivo de garantir um ambiente de trabalho seguro e sadio,
e consequentemente, prevenir a ocorrência de acidentes e doenças do trabalho; ou
seja, atualmente as normas que tratam do tema visam a prevenção dos acidentes
trabalhistas.
Com base no exposto, retornemos a analisar a tecnologia Blockchain, espe-
cialmente a sua aplicação no âmbito do mercado de trabalho.

4. O USO DA TECNOLOGIA BLOCKCHAIN NA PREVENÇÃO


CONTRA ACIDENTES DE TRABALHO
Conforme visto anteriormente, o Brasil passou por diversos momentos his-
tóricos referentes à proteção do trabalhador quanto a acidentes de trabalho. Foi
visto que, após o Decreto n. 3.724/1919, foi instaurado o Seguro de Acidentes do
Trabalho, que tinha cunho privado, no sentido de que ficava a cargo do empregador.
No entanto, somente com o Decreto n. 24.637/1934 a teoria do risco profissional
foi aplicada, devendo o empregador indenizar o empregado, independentemente
de o acidente ter sido causado por força maior ou culpa deste. Com a promulga-
ção da Constituição Federal de 1988, os direitos fundamentais foram amplamente
protegidos, em particular o direito à saúde e à previdência, este previsto como uma
obrigação contributiva de todos e aquele como um direito de todos.
Com isso em mente, passa-se à análise da tecnologia Blockchain e de sua poten-
cialidade no que concerne às normas regulamentadoras na prevenção de acidentes.

39 SECRETARIA DE INSPEÇÃO DO TRABALHO. ENIT – ESCOLA NACIONAL DA INSPE-


ÇÃO DO TRABALHO – SST – NR – PORTUGUÊS. Disponível em: <https://enit.trabalho.
gov.br/portal/index.php/seguranca-e-saude-no-trabalho/sst-menu/sst-normatizacao/ss-
t-nr-portugues?view=default>. Acesso em: 28 jun. 2019.

238
A potencial utilização da tecnologia blockchain para a prevenção de acidentes de trabalho

Conforme elucidado na primeira parte deste artigo, a tecnologia surgiu para


funcionar como uma estrutura de dados de registro público, caracterizado pela
irreversibilidade e inalterabilidade, que trazem segurança e transparência quanto
aos dados inseridos.
A inserção dos dados na estrutura pode ser feita por qualquer participante
que tenha acesso à estrutura, no entanto, ressalta-se que ninguém pode alterar os
dados ali presentes, somente incluir novos, conferindo proteção e veracidade às
informações.
A tecnologia tem sido usada majoritariamente no sistema financeiro, mas
vem sendo aplicada no âmbito do trabalho por empresas como a fabricante de
roupas Levi’s Strauss & Co., a startup holandesa Safeguard e a empresa de auditoria
PricewaterhouseCoopers (PwC).
A aplicação feita pela startup holandesa Safeguard40, gira em torno de um
aplicativo idealizado para a prevenção de acidentes, utilizando-se de uma Inte-
ligência Artificial, que se baseia em dados fornecidos por diversas companhias e
pelos trabalhadores. Os dados coletados servirão como base à IA, que analisará
diferentes ambientes de trabalho, e proporcionará soluções para prevenção de
acidentes evitáveis.
Na prática brasileira, as normas reguladoras podem integrar o banco de dados
do aplicativo, aliadas aos dados concedidos pelas companhias, possibilitando que
os empregadores e empregados sigam as diretrizes normativas, avaliando os riscos
para evitar que acidentes se repitam.
Quanto a fabricante de roupas Levi Strauss & Co.41, a aplicação foi feita em 3
fábricas instaladas no México, com o Worker Well-being program. A empresa iniciou
a implantação de um programa baseado na Blockchain com vistas a compreender
quais aspectos do trabalho aumentam o nível de felicidade dos empregados da
empresa, e com isso, poderão garantir um ambiente de trabalho saudável, fazendo
com que haja um aumento na produtividade da fábrica.
Já a empresa de auditoria PricewaterhouseCoopers (PwC)42, aplicou a tecnolo-
gia no setor de Recursos Humanos, como um instrumento voltado para o processo

40 SAFEGUARD. Industry. Disponível em: <https://safeguard-app.com/industry/>. Acesso em: 28


jun. 2019.
41 LEVI STRAUSS & CO. A New Way To Measure Worker Well-Being. Disponível em: <https://
www.levistrauss.com/2019/01/24/new-way-measure-worker-well/>. Acesso em: 28 jun. 2019.
42 PWC. How will blockchain technology impact HR and the world of work?. Disponível em: <ht-
tps://www.pwc.co.uk/issues/futuretax/assets/blockchain-can%20impact-hr.pdf>. Acesso em:
28 jun. 2019.

239
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

seletivo de novos empregados, assim como pode funcionar como uma ferramenta
voltada para a correta alocação de novos empregados. Isso acarreta o bem-estar
laborativo e maior produtividade, eis que, a designação de cargos com base nas
características e competência do empregado, garante que este irá se adaptar rapi-
damente, sem obstáculos.
As três empresas, de maneiras diversas, têm o mesmo objetivo: manter as
condições de trabalho sob controle, garantir a felicidade e saúde dos empregados,
proporcionando a estes, segurança e confiança no exercício de suas atividades.
Destaca-se que os empregadores serão enormemente beneficiados com a
aplicação da tecnologia nos moldes das empresas mencionadas. Diz-se isso pois,
além da clara diminuição de ocorrências acidentárias e no número de indenizações
devidas, como consequência haverá um aumento da produtividade e uma melhora
no relacionamento com o trabalhador.
Ademais, convém lembrar que um dos objetivos da Previdência Social brasileira
é reduzir os índices de acidentes ocorridos no meio ambiente laborativo, os quais
podem gerar a concessão de benefícios e, desta forma, aumentar os gastos do sistema
securitário. Deste modo, a aplicação da tecnologia em questão, também auxiliará o
Estado na prevenção de acidentes e, consequentemente diminuir os gastos.
Por fim, resta claro que a tecnologia Blockchain, além de ser aplicada no
sistema financeiro, tem concreta aplicação no âmbito laborativo, que trará bene-
fícios incalculáveis aos empregados, aos empregadores e ao Estado, com a efetiva
prevenção de acidentes e o aumento do nível de felicidade e saúde do ambiente
de trabalho.

5. CONCLUSÃO
A proteção conferida pelo Estado à segurança laborativa decorreu de uma
construção histórica, que remonta ao ano de 1919. No Brasil, existem normas que
visam a prevenção de acidentes, bem como que garantem ao acidentado o direito
à indenização pelo empregador.
Neste cenário, a tecnologia Blockchain pode auxiliar o Estado e o empregador na
prevenção de acidentes, como é o caso das empresas Levi Strauss & Co., Safeguard e
PricewaterhouseCoopers (PwC), que a aplicaram concretamente em vieses diferentes.
De um modo geral, é possível concluir que as vantagens propiciadas pela uti-
lização da tecnologia Blockchain decorreriam do controle dos acidentes, com base
em cenários prévios e reclamações, dados estes que seriam inseridos na estrutura
do registro público, de forma transparente e segura. Ademais, a prevenção também

240
A potencial utilização da tecnologia blockchain para a prevenção de acidentes de trabalho

seria viabilizada com a correta alocação de empregados aos cargos, e a análise do


nível de felicidade dos empregados.
Esta conclusão é uma hipótese elaborada a partir dos aspectos enunciados
como vantajosos pelos criadores e apoiadores da tecnologia. Assim, considerando
se tratar a Blockchain de uma tecnologia nova, e que as iniciativas acima citadas
são recentes e até o momento não apresentaram resultados que possam comprovar
efetivamente sua eficiência, será necessário que em alguns anos seja realizado um
balanço com o objetivo de averiguar se realmente atingiu o prospecto inicial e quais
foram os ganhos advindos de sua utilização.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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do Bitcoin está mudando o dinheiro, os negócios e o mundo. São Paulo: Senai-SP,
Editora, 2016.
O IMPACTO PREVIDENCIÁRIO DO
ACIDENTE DE TRABALHO NA TRAGÉDIA
DE BRUMADINHO

eMersoN CosTA LeMes1


MoNICA CAMeroN LAVor FrANCIsCHINI2

“Vai ter barragem no salto do Sobradinho


E o povo vai-se embora com medo de se afogar”
(Sá & Guarabyra, in Sobradinho)

INTRODUÇÃO
No início do ano de 2019, o Brasil se deparou com o rompimento da barragem
da mineradora Vale S.A. em Brumadinho-MG.
Muito se falou sobre as mortes, bem como sobre os danos ambientais e materiais
causados pela tragédia, mas pouco se comentou sobre as consequências que uma
catástrofe como essa pode causar na Seguridade Social, ou seja, o valor dispendido
mensalmente pela Previdência Social no pagamento de benefícios previdenciários
ou o valor gasto com saúde e benefícios assistenciais.

1 Mestrando em Economia. Especialista em Direito do Trabalho e Previdenciário. Tesoureiro do


IBDP − Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário. 2º tesoureiro da APEPAR (Associação
de Peritos, Avaliadores, Mediadores, Conciliadores, Árbitros, Intérpretes e Interventores do
Paraná). Autor de livros e de artigos publicados em obras coletivas. Contador Perito.
2 Mestre em Ciências Jurídicas. Especialista em Direito Público. Especialista em EAD e Novas
Tecnologias. Pós-graduanda em Docência no Ensino Superior. Bacharel em Direito. Professora
em diversos programas de graduação e pós-graduação. Presidente da Comissão de Direito Pre-
videnciário da OAB Maringá/PR. Autora de livros e de artigos publicados em obras coletivas.
Advogada.
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

O presente artigo, através de uma análise bibliográfica, visa proporcionar uma


reflexão sobre tal e demonstrar como um grande acidente causa danos também na
Seguridade Social.

1. FATOS SOBRE O ROMPIMENTO DA BARRAGEM EM


BRUMADINHO
Em 25 de janeiro de 2019, a Barragem I da Mina Córrego do Feijão da mine-
radora Vale S.A. localizada em Brumadinho, no Estado de Minas Gerais se rompeu
liberando 11,7 milhões de toneladas de rejeitos de minério de ferro, matando mais
de 240 pessoas3 e causando prejuízos a flora e a fauna locais e regionais.
Esta tragédia humana e ambiental não foi a primeira a ocorrer em solo brasi-
leiro. Ao longo dos últimos 20 anos, cerca de 10 barragens já se romperam, ou seja,
um rompimento a cada dois anos.4
Isso se dá porque as barragens são utilizadas como reservatório para contenção e
acumulação de substâncias líquidas ou de mistura de líquidos e sólidos provenientes
do processo de beneficiamento de minérios.5
E, segundo consta do Relatório Final da CPI de Brumadinho, o risco de rom-
pimento das barragens se tornaram maiores “nas últimas décadas, em razão das
ocorrências de chuvas excepcionalmente fortes que, segundo a maioria dos cientistas,
tendem a ser fenômenos cada vez mais frequentes.”6
Após a tragédia, a Vale S.A., empresa responsável pela barragem,
iniciou o pagamento das indenizações emergenciais do acordo preliminar para
os moradores de Brumadinho e municípios localizados até 1 km da calha do Rio
Paraopeba, desde Brumadinho até a cidade de Pompéu, na represa de Retiro Baixo.

3 VALENTE, Rodrigo. CPI de Brumadinho patina sem obter provas contra cúpula da Vale.
Folha de São Paulo, 18 maio 2019. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/cotidia-
no/2019/05/cpi-de-brumadinho-patina-sem-obter-provas-contra-cupula-da-vale.shtml>.
Acesso em: 26 maio 2019.
4 DESDE 2000, o Brasil tem um rompimento de barragem a cada dois anos. O Sul. Disponível
em: <http://www.osul.com.br/desde-2000-o-brasil-tem-um-rompimento-de-barragem-a-ca-
da-dois-anos-veja-lista/>. Acesso em: 09 jun 2019.
5 VALE. Entenda as barragens da Vale. Disponível em: <http://www.vale.com/brasil/PT/about-
vale/servicos-para-comunidade/minas-gerais/atualizacoes_brumadinho/Paginas/Entenda-as-
-barragens-da-Vale.aspx>. Acesso em: 09 jun 2019.
6 Trecho do Relatório contido no Parecer SF 1/2019, p. 21 da CPI de Brumadinho, cujo relator
foi o Senador Carlos Viana. Disponível em: <http://legis.senado.leg.br/comissoes/txtmat?cod-
mat=135192>. Acesso em: 07 jul 2019.

244
O impacto previdenciário do acidente de trabalho na tragédia de brumadinho

Até o momento, foram realizados 14.000 pagamentos para moradores nos muni-
cípios de Brumadinho, Mário Campos, São Joaquim de Bicas, Betim e Juatuba.7
Estas medidas foram feitas em decorrência de um acordo preliminar firmado
onde ficou estipulado o pagamento de um salário mínimo mensal para cada adulto,
1/2 (meio) salário mínimo mensal para cada adolescente e 1/4 (um quarto) de salário
mínimo para cada criança pelo prazo de um ano, além de pagamento do valor de
cesta básica para cada núcleo familiar das comunidades atingidas.8
Em julho, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado recomendou
o indiciamento de 14 pessoas por homicídio doloso eventual, dentre eles o Presidente
da mineradora a época da tragédia.9

1.1 O acidente em números


Números são frios. Frios, calculados e calculistas. Aos seres humanos resta
analisá-los, interpretá-los e dar-lhes significados. Estes significados, sim, podem
despertar emoções, mas, para muito além das emoções, vem a necessidade de se
estudar os fatos por eles demonstrados, suas consequências e, principalmente, a
tomada de decisões que tragam melhoria à vida humana.
Com este intuito, este estudo tem o objetivo de quantificar a tragédia decorrente
do rompimento da barragem em Brumadinho-MG.
De acordo com a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil do Estado de Minas
Gerais10, até 05 de junho de 2019 foram totalizados 246 óbitos, 24 pessoas ainda
desparecidas, e 395 pessoas localizadas.
Com relação a empresa responsável pela barragem que se rompeu, é necessário
compreender que uma das maneiras de se avaliá-la é acompanhar o valor de suas
ações na bolsa de valores. Na lição de Miranda e Amstalden11,

7 VALE. Barragens. Disponível em: <http://www.vale.com/brasil/PT/aboutvale/servicos-para-


-comunidade/minas-gerais/atualizacoes_brumadinho/Paginas/indenizacoes-emergenciais.
aspx>. Acesso em: 09 jun 2019.
8 VALE. Barragens. Disponível em: <http://www.vale.com/brasil/PT/aboutvale/servicos-para-
-comunidade/minas-gerais/atualizacoes_brumadinho/Paginas/indenizacoes-emergenciais.
aspx>. Acesso em: 09 jun 2019.
9 Parecer SF 1/2019. Disponível em: <http://legis.senado.leg.br/comissoes/txtmat?cod-
mat=135192>. Acesso em: 07 jul 2019.
10 Coordenadoria Estadual de Defesa Civil do Estado de Minas Gerais. Proteção e Defesa Civil.
Disponível em <http://www.defesacivil.mg.gov.br/index.php/component/gmg/page/678-Inf_
Brumadinho_0506>. Acesso em: 11 jun 2019.
11 MIRANDA, Felipe; AMSTALDEN, Rodolfo. Contra o Financismo: o método mais prático e
eficiente para investir em ações. São Paulo: Empiricus, 2016, p. 34.

245
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Se uma ação é – em última instância – uma empresa, e eu posso calcular o valor


dessa empresa, então tenho uma sequência lógica: o preço da ação deve convergir
para o valor intrínseco. [...]
A afirmação de que a ação é a menor fração do capital próprio da empresa
decorre de uma constatação contábil e jurídica.
Portanto, a multiplicação do valor de uma ação pela quantidade de ações
disponíveis no mercado forma o valor intrínseco de uma empresa.
Na véspera do acidente, a ação da Vale S.A. (código VALE3 na Bolsa de
Valores B3) foi negociada na BOVESPA a R$ 56,15 (cinquenta e seis reais e
quinze centavos). No primeiro dia útil após o acidente, as ações caíram para
R$ 42,36 (quarenta e dois reais e trinta e seis centavos) – uma redução de apro-
ximadamente 25%12.
Desde então, o valor destas ações vem se recuperando lentamente, entretanto
seu valor não retornou aos números anteriores à data do acidente.

1.1.1 Impactos no PIB


O Produto Interno Bruto – PIB – é a soma de todos os bens e serviços finais
produzidos por um país. Não compõe a soma das riquezas, mas ajuda a compreen-
der a economia da nação, apesar de não expressar fatores como distribuição de
renda, IDH ou saúde. Um país pode ter um PIB baixo, como a Islândia, e ter um
altíssimo padrão de vida. Ou, como no caso da Índia, um PIB alto e um padrão de
vida relativamente baixo13.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, as
indústrias extrativas tiveram, de janeiro para fevereiro de 2019, uma redução de
produção de 14,8%, “pressionado pela queda na produção de minérios de ferro,
refletindo, em grande parte, os efeitos do rompimento de uma barragem de rejeitos
de mineração na região de Brumadinho (MG)”14.
A redução em comparação ao mesmo mês do ano anterior foi de 9,9%. De feve-
reiro para março do corrente ano, a produção das indústrias extrativistas continuou

12 Bolsa de Valores. VALE ON. Disponível em <https://economia.uol.com.br/cotacoes/bolsas/


acoes/bvsp-bovespa/vale3-sa> Acesso em: 28 jun 2019.
13 IBGE. O que é PIB. Disponível em <https://www.ibge.gov.br/explica/pib.php> Acesso em: 12
jun 2019.
14 IBGE. Indicadores IBGE: Pesquisa Industrial Mensal: Produção Física: Brasil: fevereiro 2019.
Disponível em <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/228/pim_pfbr_2019_
fev.pdf>. Acesso em: 11 jun 2019.

246
O impacto previdenciário do acidente de trabalho na tragédia de brumadinho

em declínio, com nova redução de 1,7%15. Entre março e abril a redução aumentou
para 9,7%, “marcando, dessa forma, o quarto resultado negativo consecutivo e
acumulando nesse período redução de 25,7%16”. Estas reduções foram apenas na
produção das indústrias extrativas.
O PIB brasileiro teve, no primeiro trimestre de 2019, em relação ao último
trimestre de 2018, uma retração de 0,2%.
Dentre as atividades industriais, a queda foi puxada pelas Indústrias Extrativas
(-6,3%), mas também se apresentou na Construção (-2,0%) e Indústrias de Trans-
formação (-0,5%). Já a atividade de Eletricidade e gás, água, esgoto, atividades de
gestão de resíduos (1,4%) apresentou crescimento17.
Vê-se que o principal impacto negativo veio justamente das indústrias extrativas
(-6,3%), dentre as quais se destaca a Vale S.A., que não só é a maior mineradora do
país, como uma das maiores do mundo18.
Quando ocorre retração na atividade econômica, diversas são as consequências:
o desemprego aumenta, elevando as despesas públicas com benefícios e auxílios; a
movimentação no comércio diminui, pela redução de pessoas com renda movimen-
tando a economia; a arrecadação tributária cai, o que conjugado com o aumento no
pagamento de benefícios, afeta diretamente o Tesouro Nacional.
Pode-se concluir que o desastre atingiu não apenas a empresa, nem tão-somente
o município de Brumadinho ou o Estado de Minas Gerais, mas todo o país acabou
afetado pelas consequências do acidente na Barragem I da Mina Córrego do Feijão.

2. BENEFÍCIOS PREVIDENCIÁRIOS DECORRENTES DE


ACIDENTE DE TRABALHO
Apesar da legislação de proteção ao trabalhador e da prevenção a danos
ambientais, acidentes como a queda da barragem em Brumadinho continuam a
acontecer e a causar consequências financeiras a Previdência Social.

15 IBGE. Indicadores IBGE: Pesquisa Industrial Mensal: Produção Física: Brasil: março 2019.
Disponível em <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/228/pim_pfbr_2019_
mar.pdf>. Acesso em: 11 jun 2019.
16 IBGE. Indicadores IBGE: Pesquisa Industrial Mensal: Produção Física: Brasil: março 2019.
Disponível em <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/228/pim_pfbr_2019_
abr.pdf>. Acesso em: 11 jun 2019.
17 IBGE. Indicadores IBGE: Contas Nacionais Trimestrais: Jan.-Mar. 2019. Disponível em <ht-
tps://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/2121/cnt_2019_1tri.pdf>. Acesso em: 12
jun 2019.
18 Infomet. Confira o ranking das 100 maiores mineradoras do mundo. Disponível em <https://www.
infomet.com.br/site/noticias-mobile-ler.php?org=&rs=&cod=49157> Acesso em 28 jun 2019.

247
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

A tragédia de Brumadinho foi o maior acidente de trabalho já registrado no


Brasil, com mais de 120 trabalhadores mortos, entre funcionários da empresa
Vale S/A, proprietária da mina, e funcionários de empresas terceirizadas que
atuavam no local. Também está sendo apontado por especialistas como o segun-
do acidente industrial – denominação para desastres de larga escala causados
por atividades empresariais – mais mortífero do século XXI em todo o mundo.
Além dos trabalhadores, a lama de rejeitos provocou a morte de moradores da
cidade de Brumadinho e de turistas que estavam na região. Foram confirmados,
até o momento, 246 óbitos, sendo que 24 pessoas permanecem desaparecidas,
levando ao total aproximado de 270 mortes.19

Neste sentido é que o NTEP (Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário),


juntamente com o FAP (Fator Acidentário de Prevenção) visa punir as empresas
que mais causam acidentes ao trabalhador, bem como beneficiar aquelas que mais
prezam pela saúde de seus funcionários20, já que o próprio artigo 7º da CF/88 prevê
“a redução de riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene
e segurança”.
Alguns destes problemas têm origem no ambiente ou condições de trabalho,
de modo que as exigências legais de proteção e monitoramento preventivo da saúde
do trabalhador são ferramentas imprescindíveis tanto para assegurar a integridade
laborativa do trabalhador, quanto para minorar os custos dos programas de Pro-
teção Social21.
O acidente de trabalho é aquele ocorrido com o segurado a serviço da empresa
que provoque lesão/dano, ou até mesmo a morte, conforme previsto nos artigos 20
e 21 da Lei 8213/91.

2.1. Do Auxílio-doença
De acordo com os art. 59 e seguintes da Lei 8213/91, o auxílio-doença é
devido ao segurado que, por motivo de doença ou acidente e havendo cumprido,
quando for o caso, o período de carência exigido na lei de 12 contribuições, ficar

19 Trecho do Relatório contido no Parecer SF 1/2019, p.11-12 da CPI de Brumadinho, cujo relator
foi o Senador Carlos Viana. Disponível em: <http://legis.senado.leg.br/comissoes/txtmat?cod-
mat=135192>. Acesso em: 07 jul 2019.
20 SANTOS, Cibeli Espíndola dos. Benefícios acidentários e o Nexo Técnico Epidemiológico Pre-
videnciário. In: RIBEIRO, Juliana de Oliveira Xavier (coord.); SANTOS, Cibeli Espíndola dos.
(org.). Direito Previdenciário Prático. São Paulo: Quartier Latin, 2012, p. 91.
21 PASSOS, Fabio Luiz dos. Previdência Social e sociedade pós-industrial. Curitiba: Juruá, 2013,
p. 103.

248
O impacto previdenciário do acidente de trabalho na tragédia de brumadinho

incapacitado22 para o seu trabalho ou para a sua atividade habitual por mais de 15
(quinze) dias consecutivos.
A queda da barragem de Brumadinho atingiu tanto empregados da empresa
quanto trabalhadores terceirizados, e ainda outras pessoas que estavam na região
do acidente, ocasionando concessões de auxílio doença acidentários23 (decorrente
de doença ocupacional ou acidente de trabalho) e previdenciários (decorrente de
doença ou de acidente de qualquer natureza) respectivamente, sem carência a ser
cumprida em ambas as ocasiões, por se tratar de acidente, conforme previsto no
art. 26, II da Lei 8213/91.
Os segurados empregados que ficaram incapacitados para o trabalho tiveram
a primeira quinzena de afastamento paga pelo empregador e o benefício a cargo da
Previdência Social foi concedido apenas a partir do décimo sexto dia do afastamento
da atividade, no caso, do acidente.
Para os demais segurados atingidos, o auxílio doença foi devido a contar da
data da queda da barragem e deverá permanecer enquanto durar a sua incapacidade,
desde que com possibilidade de retorno à sua função ou passível de reabilitação
profissional para o exercício de outra atividade.
O valor do benefício consiste em uma renda mensal inicial correspondente
a 91% (noventa e um por cento) do salário-de-benefício, independentemente se
acidentário ou não, limitada à média aritmética simples dos últimos 12 salários-
-de-contribuição ou, se não alcançado o número de 12 (doze), a média aritmética
simples dos salários-de-contribuição existentes.

2.2. Da Aposentadoria por invalidez


De acordo com os art. 42 e seguintes da Lei 8213/91, a aposentadoria por
invalidez é devida para o segurado considerado incapaz e insusceptível de reabili-
tação para o exercício de atividade que lhe garanta a subsistência, e ser-lhe-á paga
enquanto permanecer nessa condição.
Diferentemente do benefício anterior, a incapacidade para concessão deste
benefício deve ser PERMANENTE E TOTAL de tal forma que impossibilite o

22 O conceito de incapacidade deve ser entendido como diverso do conceito de doença, já que
uma pessoa pode estar doente e não estar incapaz. Neste sentido: GOUVEIA, Carlos Alber-
to Vieira de. Benefício por incapacidade & Perícia Médica: Manual Prático. Curitiba: Juruá,
2012, p. 71.
23 XAVIER, Flávia da Silva, Pressupostos ético-jurídicos da perícia médica nas ações de benefí-
cios por incapacidade. In: SAVARIS, José Antônio (coord.). Curso de perícia judicial previ-
denciária. Curitiba: Alteridade, 2018, p. 56.

249
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

segurado de manter sua própria subsistência por meio de qualquer atividade re-
munerada, motivo pelo qual será devida a partir do dia imediato ao da cessação do
auxílio-doença ou, caso não tenha sido outro benefício por incapacidade concedido
anteriormente, a partir do 16º dia de afastamento para os segurados empregados
ou o primeiro dia da incapacidade para os demais segurados.
No caso do acidente de Brumadinho, todas as pessoas que estivessem na qua-
lidade de segurado e que se tornaram incapaz nos termos descritos teriam direito
a esta modalidade de aposentadoria. Isso não significa a exigência de “um estado
vegetativo laboral para a concessão deste benefício.”24
O valor desta prestação consistirá numa renda mensal inicial correspondente
a 100% (cem por cento) do salário-de-benefício, permitindo inclusive ser acrescido
a esse valor 25% (vinte e cinco por cento) ao segurado que necessitar da assistência
permanente de outra pessoa (mesmo que o valor da aposentadoria atinja o limite
máximo legal).

2.3. Do Auxílio-acidente
A base legal do auxílio acidente são os artigos 86 e seguintes da Lei 8213/91,
a qual prevê que esse benefício será concedido, como indenização, ao segurado
quando, após consolidação das lesões decorrentes de acidente de qualquer nature-
za, resultarem sequelas que impliquem redução da capacidade para o trabalho que
habitualmente exercia.
Para tanto, há a necessidade de se comprovar a qualidade de segurado (art.
18, § 1º, da Lei 8213/91), bem como a redução da capacidade laboral, através de
perícia médica.
O auxílio-acidente será devido a partir do dia seguinte ao da cessação do
auxílio-doença, independentemente de qualquer remuneração ou rendimento
auferido pelo acidentado, vedada sua acumulação com qualquer aposentadoria.
O recebimento de salário ou concessão de outro benefício, exceto de aposen-
tadoria, não prejudicará a continuidade do recebimento do auxílio-acidente.
A renda deste auxílio corresponde a 50% do salário-de-benefício do segurado,
podendo ter valor inferior a um salário mínimo (mas nunca inferior a meio salário
mínimo).

24 ROSSI, Fernanda de Cássia. Benefícios por incapacidade e suas peculiaridades. In: RIBEIRO,
Juliana de Oliveira Xavier (coord.); SANTOS, Cibeli Espíndola dos. (org.). Direito Previden-
ciário Prático. São Paulo: Quartier Latin, 2012, p. 85.

250
O impacto previdenciário do acidente de trabalho na tragédia de brumadinho

2.4. Da Pensão por morte


O benefício de pensão por morte está previsto nos artigos 74 e seguintes da
Lei 8213/91 e será devido ao conjunto dos dependentes do segurado que falecer,
estando ele aposentado ou não na data do óbito.
O primeiro requisito previsto em lei para concessão desse benefício é a com-
provação da qualidade de dependente, cujo artigo 16 da Lei 8213/91, combinado
com o parágrafo 2º do artigo 76 do mesmo diploma legal, traz um rol excludente.
O valor do benefício a ser pago pelo INSS será de 100% (cem por cento) do
valor da aposentadoria que o segurado recebia ou daquela a que teria direito se
estivesse aposentado por invalidez na data de seu falecimento, sendo devida desde
a data do óbito, quando requerida até noventa dias depois do falecimento OU da
data do requerimento administrativo junto ao INSS, quando requerida após o prazo
citado, OU da data da decisão judicial, no caso de morte presumida.

3. IMPACTOS DO ACIDENTE NO ORÇAMENTO DA


SEGURIDADE SOCIAL
Será analisada, aqui, a concessão de benefícios previdenciários e assistenciais na
cidade de Brumadinho-MG, e em decorrência do acidente objeto desta investigação.
As informações de benefícios previdenciários disponíveis não são individualizadas
por empresa; assim, os números serão avaliados por comparação entre meses.
Em 14 de junho de 2019 fez-se pedido de informações ao Sistema Eletrônico
do Serviço de Informação ao Cidadão, a respeito da quantidade de Comunicações
de Acidentes do Trabalho emitidas pela empresa Vale S.A. no município de Bru-
madinho. A resposta apresentada foi:
Preliminarmente esclarecemos que a Lei de Acesso à Informação (nº 12.527, de
2011 – LAI) não ampara a formulação de consultas, reclamações e denúncias, bem
como pedidos de providências para a Administração Pública Federal. Os pedidos
devem veicular, nos termos do inciso I do art. 4º da LAI, o acesso a dados públicos
processados ou não, que podem ser utilizados para a produção e transmissão de
conhecimento, contidos em qualquer meio, suporte ou formato.
Feitas as considerações iniciais relativas aos pedidos de informação a ser
atendidos com fundamento na LAI, esclarecemos que a área técnica realizou nova
extração de dados no Sistema Único de Informações de Benefício – SUIBE, não
tendo retornado nenhum registro para a filial do CNPJ (33.592.510/0008-20) re-
ferido na solicitação.
251
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Da resposta cabe recurso à Assessoria de Comunicação Social, no prazo de


dez dias, nos termos do artigo 21 do Decreto nº 7.724/2012.
Conclui-se, assim, que a unidade de Brumadinho-MG da mineradora Vale
S.A. (CNPJ 33.592.510/0008-20) não fez a emissão de nenhuma Comunicação de
Acidente do Trabalho – CAT, até a data da resposta acima (enviada em 18 de junho
de 2019, às 13:02).

3.1 Benefícios da assistência social

No dia 12 de março de 2019, a Presidência da República publicou duas Me-


didas Provisórias, de nºs 874 e 875, a primeira abrindo crédito extraordinário,
em favor do Ministério da Cidadania, no valor de R$ 1.368.600,00 (um milhão,
trezentos e sessenta e oito mil e seiscentos reais), com o objetivo de pagar o Au-
xílio Emergencial Pecuniário Assistencial aos Beneficiários do Bolsa Família,
do BPC e da RMV Afetados por Calamidade em Brumadinho-MG, criado pela
segunda MP citada. O item 9 da exposição de motivos da Medida Provisória nº
87525 esclarece que
Em relação ao impacto financeiro, estima-se que deverão ser pagos 2.280
auxílios, dos quais 1.506 se destinarão a famílias beneficiárias do PBF e 774 a bene-
ficiários do BPC e da RMV. Portanto, considerando o valor de R$ 600,00 a ser pago
em parcela única e que o auxílio é devido a cada benefício pago pelo PBF, BPC e pela
RMV, a estimativa é que sejam aplicados R$ 1.368.000,00 (um milhão, trezentos e
sessenta e oito mil reais) relativos ao pagamento deste auxílio.
Este benefício, com valor individual de R$ 600,00 (seiscentos reais), pago uma
única vez, não trouxe qualquer impacto ao Orçamento da Seguridade Social. Explica-
-se: A MP nº 874, que abre o crédito extraordinário para pagamento desta prestação
apenas realoca recursos da própria Seguridade Social: como se pode ver nos anexos
de tal Medida, o valor de R$ 1.368.600,00 (um milhão, trezentos e sessenta e oito
mil e seiscentos reais) proveio do cancelamento do programa de trabalho Adminis-
tração da Unidade-Nacional do Programa de Gestão e Manutenção do Ministério
da Cidadania, inserido no mesmo orçamento da Seguridade. Ou seja, o valor que
estava programado para ser gasto na Manutenção administrativa do Ministério, foi
realocado para o pagamento do benefício assistencial criado.

25 Brasil. Medida Provisória nº 875, de 12.03.2019: Exposição de Motivos EM nº 00008/2019


MCID. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Exm/Exm-
-MP-875-19.pdf>. Acesso em: 13 jun 2019.

252
O impacto previdenciário do acidente de trabalho na tragédia de brumadinho

3.2 Quantidades de benefícios previdenciários concedidos


Partindo do pressuposto que a empresa responsável pela Barragem I da Mina
Córrego do Feijão não emitiu CAT para as vítimas do acidente, analisa-se dados
disponibilizados pela Dataprev referente a benefícios previdenciários concedidos
no município de Brumadinho, no período de dezembro de 2018 a abril de 2019,
tirando conclusões aproximadas dos impactos do acidente no orçamento da Segu-
ridade Social.
A previdência social costuma separar os benefícios concedidos por incapa-
cidade em dois grupos: benefícios acidentários, e benefícios previdenciários ou
comuns. Os chamados benefícios acidentários são os que decorrem da relação
de emprego – logo, correspondem a situações em que o empregador reconhece a
ocorrência do acidente relacionado ao trabalho, ou que a perícia médica do INSS faz
tal enquadramento, usando entre outros o NTEP – Nexo Técnico Epidemiológico
Previdenciário.
Desta forma, tem-se a concessão de auxílio-doença comum, e auxílio-doença
acidentário; auxílio-acidente comum, e auxílio-acidente acidentário; aposentadoria
por invalidez comum, e aposentadoria por invalidez acidentária; e, por fim, pensão
por morte comum e pensão por morte acidentária.
De acordo com a Dataprev26, no mês de dezembro de 2018 o INSS concedeu,
no município de Brumadinho-MG, 41 benefícios por incapacidade, sendo 15 apo-
sentadorias por invalidez previdenciárias, 25 auxílios-doença previdenciários e
uma pensão por morte previdenciária. Nenhum benefício de natureza acidentária
foi concedido no município naquele mês.
No primeiro mês de 2019 foram concedidos 48 benefícios por incapacidade,
distribuídos em 12 aposentadorias por invalidez previdenciária, quatro auxílios-
-doença por acidente do trabalho, 24 auxílios-doença previdenciários e oito pensões
por morte previdenciárias. Os quatro benefícios de natureza acidentária não devem,
ainda, ter relação com o acidente, uma vez que a concessão destes pelo INSS se dá
15 dias após a ocorrência, pois no período anterior à concessão cabe à empresa
remunerar o trabalhador acidentado.
Em fevereiro de 2019, os números concessórios foram muito ampliados: sete
aposentadorias por invalidez previdenciárias, nove auxílios-doença por acidentes

26 Dataprev. Benefícios Concedidos. Disponível em <http://dadosabertos.dataprev.gov.br/data-


set/beneficios-concedidos>. Acesso em: 13 jun 2019.

253
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

do trabalho, 36 auxílios-doença previdenciários, 30 pensões por morte decorrentes


de acidentes do trabalho e 45 pensões por morte previdenciárias, totalizando 127
benefícios concedidos, dentre os quais 39 de natureza acidentária.
Em março, ligeira redução na quantidade de concessões: foram concedidas
três aposentadorias por invalidez previdenciárias, 14 auxílios-doença por acidentes
do trabalho, 34 auxílios-doença previdenciários, 23 pensões por morte decorrentes
de acidentes do trabalho e 13 pensões por morte previdenciárias, totalizando 87
concessões, das quais 37 decorrentes de acidentes do trabalho.
Por fim, em abril de 2019 (últimos dados disponibilizados pela Dataprev) fo-
ram 88 concessões de benefícios por incapacidade, sendo cinco aposentadorias por
invalidez previdenciárias, um auxílio-acidente, 15 auxílios-doença por acidentes do
trabalho, 49 auxílios-doença não-acidentários, 10 pensões por morte acidentárias
e oito pensões por morte não-acidentárias, somando 26 benefícios decorrentes de
acidentes do trabalho. Como se viu anteriormente, até dia 5 de junho de 2019 ainda
estavam desaparecidas 24 pessoas. É possível, portanto, que novos benefícios sejam
concedidos quando estas forem encontradas – ou até mesmo por suas mortes serem
presumidas judicialmente.
O gráfico 1 demonstra a evolução na concessão de benefícios acidentários no
município de Brumadinho. Nota-se que em fevereiro e março de 2019 a quantidade
de pensões por morte acidentárias concedidas foi muito superior aos demais be-
nefícios acidentários. Em abril o número diminui, mas ainda se mantém relevante.
A concessão de auxílios-doença decorrentes do trabalho segue crescente de mês a
mês, sendo importante lembrar que os quatro benefícios concedidos em janeiro de
2019 não devem ter relação com o acidente em comento.
Curiosamente, não se verificou a concessão de nenhuma aposentadoria por
invalidez decorrente de acidentes do trabalho. Sabendo que normalmente o instituto
concede, primeiro, auxílio-doença, até ter a convicção de que o trabalhador está
em condição de incapacidade irreversível, é possível que futuramente parte destes
auxílios-doença sejam convertidos em aposentadorias por invalidez. Houve, ainda,
uma única concessão de auxílio-acidente no mês de abril, que não obrigatoriamente
tem relação com o rompimento da barragem.

254
O impacto previdenciário do acidente de trabalho na tragédia de brumadinho

Fonte: os autores

O Gráfico 2, por sua vez, demonstra a quantidade total de benefícios por in-
capacidade concedidos no mesmo período, sejam decorrentes do trabalho ou não.
Esta análise é também importante pois muitas vezes o benefício é concedido sem
que se classifique como acidentário, seja pela omissão da empresa na emissão da
CAT, seja pela não investigação por parte da autarquia previdenciária.

concedidos em Brumadinho/MG

Fonte: os autores

255
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Observa-se, no Gráfico 2, que a exceção das aposentadorias por invalidez,


que tiveram a quantidade de concessões sendo reduzidas (com ligeiro aumento
em abril), houve um acréscimo extraordinário de benefícios concedidos no mês
de fevereiro, e estes números continuam elevados nos meses seguintes, quando os
comparamos com os dois meses anteriores ao acidente (dezembro de 2018 e janeiro
de 2019). Mesmo que a maior parte não tenha natureza acidentária, é muito difícil
não correlacionar com o desastre ocorrido em 25 de janeiro de 2019.

3.3 Renda mensal dos benefícios previdenciários concedidos

Os dados apresentados pela Dataprev, utilizados anteriormente trazem os be-


nefícios concedidos, e a quantidade de salários mínimos a que corresponde a renda
concedida, mas não apresenta o valor exato concedido. Portanto, serão trabalhados
aqui os valores em quantidades de salários mínimos.
Como foi visto, não houve concessão de benefícios acidentários em dezembro
de 2018. Os 41 benefícios por incapacidade concedidos naquele mês tiveram renda
mensal inicial, somada, de 61,149 salários mínimos. O valor médio foi de 1,491
salários mínimos por benefício.
Em janeiro de 2019, os 48 benefícios concedidos tiveram renda mensal ini-
cial de 70,88 salários mínimos. Os quatro benefícios acidentários custaram renda
mensal equivalente a 5,136 salários mínimos. A renda média concedida foi de 1,477
salários mínimos por benefício – muito parecida com a renda média de concessão
do mês anterior.
No mês imediatamente posterior ao desastre, houve um aumento abrupto
nas concessões de benefícios, como já vimos. Os 127 benefícios por incapacidade
concedidos somaram renda inicial de 292,27 salários mínimos, perfazendo uma
média de 2,301 salários mínimos por benefício. Percebe-se o aumento de mais de
50% na renda média dos benefícios concedidos, refletindo as remunerações acima
da média pagas pela mineradora.
Analisando-se unicamente os benefícios acidentários, temos uma média de
renda inicial da ordem de três salários mínimos, o que comprova o impacto das
remunerações pagas pela empresa responsável pelo acidente.
Em março de 2019 viu-se um pequeno arrefecimento na quantidade de be-
nefícios concedidos, refletido igualmente no valor das rendas iniciais concedidas:
os 87 benefícios custaram aos cofres da seguridade, em rendas mensais iniciais,
169,47 salários mínimos, perfazendo uma média de 1,947 salários mínimos por
benefício. Os 37 benefícios de natureza acidentária tiveram renda média de 2,225

256
O impacto previdenciário do acidente de trabalho na tragédia de brumadinho

salários mínimos, confirmando a tese levantada no mês anterior, sobre o impacto


dos benefícios concedidos em decorrência do acidente.
Por fim, em abril de 2019 foram concedidos 88 benefícios por incapacidade,
ao valor total de 157,942 salários mínimos, com renda média de 1,795 salários mí-
nimos. Os 26 benefícios de natureza acidentária concedidos custaram, em rendas
mensais iniciais, 63,894 salários mínimos, com valor médio por benefício acidentário
concedido de 2,457 salários mínimos.
Ressalta-se que até a conclusão desta investigação, não se tinham publicados
números referentes aos meses posteriores a abril de 2019, motivo pelo qual este
trabalho apresenta dados limitados a esta data.

Fonte: os autores

O Gráfico 3 demonstra a variação da renda média dos benefícios por incapa-


cidade concedidos no município de Brumadinho-MG. Verifica-se que os valores
médios das pensões por morte, sejam acidentárias ou não, são superiores às rendas
médias iniciais dos demais benefícios. Percebe-se, ainda, que em abril de 2019 houve
um aumento substantivo na renda média inicial dos auxílios-doença acidentários.
O Gráfico 4 demonstra a evolução na renda paga pelo INSS em Brumadinho,
a partir dos benefícios por incapacidade e pensões por morte concedidos a partir
de dezembro de 2018.

257
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Fonte: os autores

Os benefícios aqui analisados são pagos temporariamente: os auxílios-doença


e aposentadorias por invalidez, enquanto persistir a incapacidade laboral; o auxílio-
-acidente, enquanto o segurado não se aposentar; as pensões por morte, enquanto
os dependentes mantiverem tal qualidade. Importante recordar que, no caso deste
último benefício, os filhos recebem até 21 anos de idade, e o cônjuge ou compa-
nheiro também por período limitado, a depender de sua idade na data do óbito do
segurado instituidor.
Não há como saber qual será a duração dos benefícios concedidos, por abso-
luta impossibilidade de se apurar qual o tempo de incapacidade dos segurados, ou
ainda quais as condições dos dependentes beneficiários das pensões por morte. O
que se pode presumir é que os benefícios concedidos a partir de dezembro de 2018
continuavam sendo pagos em abril de 2019, tanto quanto aqueles concedidos nos
meses compreendidos neste mesmo intervalo.
Desta maneira, pode se afirmar que os 61 salários mínimos concedidos e pa-
gos em dezembro de 2018 aumentaram 12,29 vezes, ou 1.229%, até abril de 2019.
Por fim, o Gráfico 5 apresentará as mesmas informações do anterior, porém
limitando-se aos benefícios de natureza acidentária.

258
O impacto previdenciário do acidente de trabalho na tragédia de brumadinho

Fonte: os autores

Nos benefícios acidentários percebe-se que o aumento de gastos é linear, porém


crescente. Sabendo-se que ainda existem algumas pessoas desaparecidas, novos
benefícios ainda poderão ser concedidos em decorrência do acidente.

4. CONCLUSÃO
Não é objeto desta investigação discutir a culpa pelo acidente ocorrido em 25
de janeiro de 2019, na Barragem I da Mina Córrego do Feijão em Brumadinho-MG;
as autoridades competentes estão trabalhando neste sentido. Porém, catástrofes
como esta causam impactos em toda a sociedade: o valor da empresa foi abalado,
prejudicando investidores; a diminuição da atividade trouxe desemprego em esca-
la, encolhimento na economia e redução na arrecadação tributária, prejudicando
o PIB da nação; por fim, benefícios previdenciários e assistenciais, objetos deste
trabalho, tiveram que ser concedidos para amparar as pessoas prejudicadas pelo
desabamento da barragem.
Não foi possível obter os gastos extras do SUS em decorrência do acidente;
pôde-se, entretanto, verificar que houve alocação emergencial de recursos da assis-
tência social, que não-obrigatoriamente seria gasto neste momento, para atender
às famílias prejudicadas; e, como constatado, houve aumento em pagamentos de
benefícios previdenciários por incapacidade, sejam de natureza acidentária ou não,
afetando negativamente as já tão abaladas contas do Fundo do Regime Geral de
Previdência Social.
Há, por fim, que se ponderar o não reconhecimento, por parte da empresa
Vale S.A., da natureza acidentária dos benefícios concedidos, uma vez que não se

259
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

verificou a emissão de nenhuma Comunicação de Acidente do Trabalho por parte do


CNPJ correspondente à filial da empresa em Brumadinho-MG. Este fato merece ser
investigado mais profundamente pelo Instituto Nacional do Seguro Social – INSS,
ou pela Receita Federal do Brasil, pois tais emissões impactam no custo do Seguro
Acidente do Trabalho devido pela empresa.

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O impacto previdenciário do acidente de trabalho na tragédia de brumadinho

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Acesso em: 12 jun 2019.
Brasil. Medida Provisória nº 875, de 12.03.2019: Exposição de Motivos EM nº 00008/2019
MCID. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/
Exm/Exm-MP-875-19.pdf>. Acesso em: 13 jun 2019.

261
ACIDENTE DE TRABALHO
NO MEIO RURAL: ABORDAGEM ACERCA
DOS AGENTES CAUSADORES DOS
ACIDENTES NO MEIO RURAL

JANe LÚCIA wILHeLM BerwANGer1


FerNANdA dUTrA2

Resumo: A intenção deste estudo é identificar os principais agentes causadores


de acidentes no meio rural envolvendo segurados especiais e empregados rurais,
que, embora tenham enquadramento diverso entre si, enfrentam os mesmos riscos
na atividade. Será feita uma sucinta análise histórica da introdução legislativa dos
trabalhadores rurais no âmbito legislativo. Na sequência, serão caracterizados os
segurados rurais, especialmente os especiais e os empregados do campo e serão
abordados, ainda, os benefícios decorrentes de acidente de trabalho. Por fim, serão
identificados os principais agentes causadores de afastamento laboral.

1. INTRODUÇÃO
Depois de uma longa evolução histórica dos direitos sociais, a preocupação
com a saúde dos trabalhadores ganhou perspectivas universais, sobretudo após a
Revolução Industrial, ocorrida no século XVIII. No mesmo período da migração
dos trabalhadores do meio rural para as cidades, foram sendo introduzidas normas
que visavam a proteção do trabalhador e “compensações” financeiras em casos de

1 Advogada. Doutora em Direito Previdenciário pela PUC-SP. Professora de cursos de pós-gra-


duação em várias instituições. Autora de várias obras de Direito Previdenciário, dentre elas
“Segurado Especial”, pela Editora Juruá. Integrante do Conselho Editorial da Juruá Editora.
Endereço eletrônico jane@janeberwanger.adv.br.
2 Advogada. Pós-graduada em Direito do Consumidor pela UFRGS. Pós-graduada em Direito
Previdenciário pelo Verbo Jurídico. Endereço eletrônico fernanda@janeberwanger.adv.br.
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

acidentes no âmbito da relação trabalhista. Aos trabalhadores urbanos medidas que


visavam a diminuição dos riscos da atividade desempenhada, como a moderniza-
ção das máquinas e equipamentos de proteção individual, bem como normas que
regulamentavam as relações laborais. Não era mais possível aceitar a degradação
da saúde humana e era crescente o clamor pelo regramento de proteção do traba-
lhador. Soares explica:

Nesse sentido, não se pode olvidar que o modelo industrial vigente era ca-
racterizado pela produção em série e pela desgastante fragmentação do trabalho
– imposta pela rotina taylorista – momento em que surgem, oportunamente, as
Lesões por Esforços Repetitivos/Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao
Trabalho (LER/DORT).
Assim, vários trabalhadores à época apresentavam a sintomatologia dessa
doença; por meio de sensações de peso, fadiga e formigamento causados por
horas de trabalho excessivo, contribuindo sobremaneira para uma fase obscura
da evolução humana em que o trabalhador não se reconhecia no resultado final
de seu trabalho, tornando-se apático e alienado3.

Sem dúvidas, a regulamentação destas relações de trabalho, além de visar


à minimização da desigualdade, também teve por escopo a proteção à saúde do
trabalhador. Não era mais admissível a submissão dos empregados a condições de
trabalhos aviltantes, estipuladas de forma unilateral pelo empregador.
Contudo, com relação aos trabalhadores rurais, as normas regulamentadoras
e protetivas são recentes. Assim, os trabalhadores do campo percorreram um longo
caminho até a inserção no âmbito legislativo de normas de proteção.
O marco inicial foi com a Lei 4.214, de 02.03.1963, chamada de Estatuto do
Trabalhador Rural. A singela legislação existente à época privilegiava apenas o chefe
de família (homem). A Lei 4.214/63 considerou segurados obrigatórios os trabalha-
dores rurais, os colonos ou parceiros, bem como os pequenos proprietários rurais,
empreiteiros, tarefeiros e as pessoas físicas exercentes de atividades agrícolas, dentre
outros, conforme o art. 160 da referida lei, na tentativa de instituir uma proteção ao
trabalhador rural nos moldes daquela destinada ao trabalhador urbano.
O Estatuto previu a criação do Fundo de Assistência e Previdência do Tra-
balhador Rural, com a destinação de 1% (um por cento) do valor dos produtos

3 SOARES, Juliana Martins Acidente de trabalho: histórico, conceito e normas gerais de tute-
la do empregado. Disponível em https://ambitojuridico.com.br/edicoes/revista-153/aciden-
te-de-trabalho-historico-conceito-e-normas-gerais-de-tutela-do-empregado/. Acessado em
12/07/2019.

264
Acidente de trabalho no meio rural: abordagem acerca dos agentes causadores dos acidentes no meio rural

agropecuários, a ser recolhido pelo produtor, ao Instituto de Aposentadoria e Pen-


sões dos Industriários (IAPI), que administrou esses recursos, bem como previu
a concessão de benefícios aos empregados rurais e pequenos produtores4. Ainda
assim, até então, pouca coisa evoluiu e a tão almejada proteção do trabalhador rural
continuava de fato inexistente.
Evidente era a necessidade de estender as garantias e normas protetivas dos
trabalhadores urbanos aos rurais. Assim, com a promulgação da Carta Magna, não
havendo mais espaço para retrocesso, o legislador constituinte tratou de positivar
formalmente a isonomia que deveria existir em um Estado Democrático de Direito.
Por conseguinte, os pilares da Constituição se basearam nos princípios da dignidade
da pessoa humana, igualdade e da razoabilidade, dentre outros princípios, de modo
que ao legislador infraconstitucional restava efetivar os ditames da Constituição,
incluindo o trabalhador rural como segurado da Previdência Social.
Portanto, foi a partir da Constituição Federal de 1988 que os trabalhadores
rurais passaram a ter proteção mais igualitária em relação aos demais trabalhadores,
a partir da ampliação de seus direitos. O parágrafo único do art. 194 relaciona, entre
os objetivos da Seguridade Social, o da uniformidade e equivalência dos benefícios
e serviços às populações urbanas e rurais, no claro sentido da intenção de inclusão
dos rurícolas.5
Após a promulgação da Carta Magna, em 1991, efetivou-se a equiparação
com a chegada das leis 8.212/91 e 8.213/91, e o trabalhador rural passou a ter exa-
tamente os mesmos benefícios dos trabalhadores urbanos, como se depreende do
art. 12 da Lei 8.212:

Art. 12. São segurados obrigatórios da Previdência Social as seguintes


pessoas físicas:
I − como empregado:
a) aquele que presta serviço de natureza urbana ou rural à empresa, em
caráter não eventual, sob sua subordinação e mediante remuneração, inclusive
como diretor empregado;
VII – como segurado especial: a pessoa física residente no imóvel rural ou
em aglomerado urbano ou rural próximo a ele que, individualmente ou em
regime de economia familiar, ainda que com o auxílio eventual de terceiros a
título de mútua colaboração, na condição de:

4 BERWANGER, Jane Lúcia Wilhelm; VERONESE, Osmar. Constituição: um olhar sobre as mi-
norias vinculadas à Seguridade Social. Curitiba: Juruá, 2018. pg. 78
5 BERWANGER, Jane Lúcia Wilhelm. Segurado Especial – O conceito jurídico para além da
sobrevivência individual. 2ª Ed. Curitiba: Juruá, 2014. pg. 85

265
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

a) produtor, seja proprietário, usufrutuário, possuidor, assentado, parceiro ou


meeiro outorgados, comodatário ou arrendatário rurais, que explore atividade:
1. agropecuária em área de até 4 (quatro) módulos fiscais; ou
2. de seringueiro ou extrativista vegetal que exerça suas atividades nos
termos do inciso XII do caput do art. 2o da Lei no 9.985, de 18 de julho de 2000,
e faça dessas atividades o principal meio de vida;
b) pescador artesanal ou a este assemelhado, que faça da pesca profissão
habitual ou principal meio de vida; e
c) cônjuge ou companheiro, bem como filho maior de 16 (dezesseis) anos
de idade ou a este equiparado, do segurado de que tratam as alíneas a e b deste
inciso, que, comprovadamente, trabalhem com o grupo familiar respectivo.

A legislação previdenciária para os trabalhadores rurais, portanto, só ganhou


contornos de igualdade com vista à proteção dos rurícolas quando da Constituição
Federal de 1988, positivada mais fortemente a partir das Leis 8.212 e 8.213, de 1991:
Os trabalhadores rurais tiveram que esperar bem mais tempo do que os
trabalhadores urbanos para terem seus direitos previdenciários reconhecidos
pelo Estado brasileiro, o que teria constituído uma discriminação desarrazoada.
Mesmo assim, somente a partir da Constituição de 5 de outubro de 1988 e
legislações correlatas, é que os rurícolas tiveram seus direitos previdenciários
igualados aos direitos previdenciários dos trabalhadores urbanos6.

Verifica-se, pois, que a Lei 8.212 – e a Lei 8.213 é no mesmo sentido −, em


respeito ao constituinte, trouxe a figura do segurado especial, bem como equipara-o
ao empregado rural e ao trabalhador urbano, incluindo-o no regime previdenciário.
Com efeito, não há como deixar de reconhecer a importância da Previdência Social
Rural, tendo em vista a igualdade pretendida pelo legislador constituinte, com fulcro
em proporcionar dignidade humana aos trabalhadores do campo, que possuem um
histórico de desamparo quanto a proteção social, em comparação com as seguranças
oferecidas aos trabalhadores dos polos urbanos.

2. EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO ACIDENTE DO TRABALHO


NO MEIO RURAL
É sabido que todo trabalhador, no exercício de sua atividade, está sujeito a
acidentes do trabalho. Diante disto, como já abordado, percebem-se importantes

6 GUIMARAES, Roberto Élito dos Reis. O trabalhador rural e a previdência social – evolução
histórica e aspectos controvertidos. Disponível em https://www.agu.gov.br/page/download/in-
dex/id/580103. Acesso em 10/07/2019.

266
Acidente de trabalho no meio rural: abordagem acerca dos agentes causadores dos acidentes no meio rural

e significativas modificações legais com o objetivo de proteger e regulamentar as


relações trabalhistas e previdenciárias face o risco de acidentes.
Entretanto, os trabalhadores rurais continuavam invisíveis aos olhos do or-
denamento jurídico. Ainda que o trabalho rural fosse significativamente perigoso,
estimando-se que milhares de agricultores sofriam sérios problemas de saúde, até
a década de 70 não havia a efetiva previsão legal que desse ao trabalhador rurícola
o resguardo que necessitava. Percebeu-se, pois, que a proteção trabalhista e previ-
denciária para os trabalhadores do campo, no Brasil, foi aumentando na medida
em que foi diminuindo o público do meio rural7. Enquanto havia o predomínio
da população no campo, eram precárias as leis que tratavam do amparo do traba-
lhador rural.
Em 19 de dezembro de 1974, a Lei 6.195 criou o seguro de acidentes do tra-
balho, a cargo do FUNRURAL. Os benefícios instituídos eram devidos apenas aos
empregados rurais: o auxílio-doença no valor da renda mensal de 75% (setenta e
cinco por cento) do maior salário mínimo vigente, em casos de acidente ou doença
profissional. O valor da pensão e da aposentadoria por invalidez, quando aciden-
tários, também eram pagos no mesmo valor8. Importante frisar que a referida lei
abrangeu tão somente o empregado rural, contemplado pela Lei 5.899/73, ao passo
que o pequeno produtor rural (que hoje seria chamado de segurado especial) ainda
permanecia de fora da legislação previdenciária acidentária.
Nas palavras de Raimundo Simão de Melo, embora os valores de benefícios
rurais fossem inferiores aos da Previdência Urbana, A Lei 6.195/74 representou
um grande avanço protetor para os trabalhadores rurais, os quais até então não
tinham nada9.
Deste modo, a Constituição Federal de 1988, em seu art. 7º, inciso XXVIII,
traz o seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregadores, bem como
assegura a reparação pelo trabalho considerado penoso, perigoso ou insalubre,
mediante valores adicionais à remuneração.
A Lei 8.213/1991, por sua vez, trouxe o conceito de acidente do trabalho:

Art. 19. Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a


serviço de empresa ou de empregador doméstico ou pelo exercício do trabalho

7 BERWANGER, Jane Lúcia Wilhelm. Segurado Especial – O conceito jurídico para além da
sobrevivência individual. 2ª Ed. Curitiba: Juruá, 2014, pg 29.
8 Ibid, pg 83.
9 MELO, Raimundo Simão de. Direito Ambiental do Trabalho e a Saúde do Trabalhador. 4ª Ed.
São Paulo: LTr, 2010. pg. 293

267
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

dos segurados referidos no inciso VII do art. 11 desta Lei, provocando lesão
corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução,
permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.

Salienta-se que foram consideradas acidentes de trabalho também as doenças


profissionais, produzidas ou desencadeadas pelo exercício do trabalho e as doenças
do trabalho, adquiridas ou desencadeadas em função de condições especiais em que
o trabalho é realizado (art. 20 da referida Lei).
Assim, o acidente do trabalho é aquele que ocorre no exercício do trabalho a
serviço da empresa ou de empregador doméstico, ou seja, por parte de empregado,
empregado doméstico ou avulso. Por expressa disposição legal, o âmbito subjetivo
do acidente é estendido para os segurados especiais (art. 11, VII), que não prestam
serviços a empresa10. Podem ser caracterizados como acidentários os infortúnios
sofridos por trabalhadores empregados (inclusive os domésticos, por força da LC
150/2015), os trabalhadores avulsos e os segurados especais11.
É visível a importância do debate sobre o acidente do trabalho, sobretudo
no meio rural, pois além da sabedora importância da atividade rurícola quanto à
alimentação populacional, o meio rural apresentou transformações tecnológicas
que modificaram a vida dos trabalhadores.
A proteção ao trabalhador rural incapaz equiparou-se à do urbano formalmente
com a chegada das Leis da Previdência Social de 1991. Deste modo, há previsão
de benefício de auxílio-doença, inclusive acidentário, aos trabalhadores rurais,
insculpido nos arts. 59 e seguintes da Lei 8.213/1991, que é devido ao segurado,
seja empregado rural, avulso ou segurado especial que ficar incapacitado para o
exercício da sua atividade por mais de quinze dias consecutivos, em decorrência
de acidente do trabalho:

Art. 59. O auxílio-doença será devido ao segurado que, havendo cumprido,


quando for o caso, o período de carência exigido nesta Lei, ficar incapacitado
para o seu trabalho ou para a sua atividade habitual por mais de 15 (quinze)
dias consecutivos.
Art. 61. O auxílio-doença, inclusive o decorrente de acidente do trabalho,
consistirá numa renda mensal correspondente a 91% (noventa e um por cento)
do salário-de-benefício, observado o disposto na Seção III, especialmente no
art. 33 desta Lei.

10 ROCHA, Daniel Machado. Comentários à Lei de Benefícios da Previdência Social. 17ª Ed. São
Paulo: Atlas, 2019. pg 145.
11 VIANNA, Cláudia Salles Vilela. Acidente do trabalho: abordagem completa e atualizada.1ª Ed.
São Paulo: LTr, 2015. pg.20

268
Acidente de trabalho no meio rural: abordagem acerca dos agentes causadores dos acidentes no meio rural

Dessa forma, para a concessão do benefício em tela, constituem requisitos: a)


ser segurado (estar contribuindo ou estar no período de graça); b) ocorrência de
acidente do trabalho; c) incapacidade temporária para o trabalho, mediante cons-
tatação de NTEP (Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário) ou exame pericial
do médico do INSS12.
Assim, na ocorrência do acidente de trabalho, o trabalhador rural também
passou a ter direito ao benefício pelo período do afastamento. Havendo acidente
do trabalho, em qualquer de suas modalidades, como o acidente-tipo ou doença
ocupacional, gerará ao trabalhador o direito a benefícios previdenciários, incluindo
os seus dependentes, quando do falecimento do trabalhador segurado.
A indenização previdenciária, destarte, é paga na forma de benefício, tem na-
tureza alimentar e seu valor depende da contribuição feita até o momento do fato
gerador, todavia, possui um valor mínimo (salário-mínimo) e um valor máximo
(teto do Regime Geral) e pressupõe a incapacidade do segurado para o trabalho
habitual que exercia no momento do surgimento da lesão ou do seu agravamento13.
Com relação ao empregador rural pessoa física, a contribuição para o Seguro
Acidente de Trabalho pode se dar de duas formas: sobre a produção comercializada,
da mesma forma que o segurado especial (que será detalhado abaixo) ou na forma
das empresas urbanas: sobre a folha de salários.
Para Floriani Neto, no tocante ao SAT, trata-se de contribuição previdenciária
patronal exigida pelos eventuais danos causados à saúde dos empregados. Para o
autor:

Visando dar continuidade à evolução legislativa em torno da SAT, chega-se


à Lei 8.212/1991. Em seu art. 22, II, foi responsável por definir os contornos
desta exação: base de cálculo (total das remunerações pagas ou creditadas, no
decorrer do mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos), alíquota
(1% a 3%), o sujeito ativo (União) e o passivo (empresa)14.

O § 13 do art. 25 da Lei 8.212/91 autoriza o produtor rural pessoa física a optar


pela contribuição sobre a produção ou sobre a folha de salários, sendo que, uma
vez feita a opção será irretratável para todo o ano-calendário.

12 PACHECO, Iara Alves Cordeiro. Acidente do trabalho: causas e consequências da sonegação da


CAT. São Paulo: LTr, 2014. pg 65.
13 NEGRINI, Daniela Aparecida Flausino. Acidente do Trabalho e suas consequências sociais. 2ª
Ed. São Paulo: LTr, 2016. pg. 38
14 FLORINI NETO, Antonio Bazilio. Seguro de Acidentes de Trabalho: voracidade fiscal empre-
sas e economia. São Paulo: LTr, 2015. pg. 51

269
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Quanto ao Seguro Acidente de Trabalho, ainda, a Lei prevê que o emprega-


dor produtor rural pessoa jurídica destinará entre 0.5% a 2.5% para à Previdência
Social, mas sobretudo para custear os benefícios em razão de incapacidade para
o trabalho decorrente dos riscos ambientais da atividade, conforme se verifica do
art. 22A da Lei 8.212/91:

Art. 22A. A contribuição devida pela agroindústria, definida, para os efeitos


desta Lei, como sendo o produtor rural pessoa jurídica cuja atividade econô-
mica seja a industrialização de produção própria ou de produção própria e
adquirida de terceiros, incidente sobre o valor da receita bruta proveniente da
comercialização da produção, em substituição às previstas nos incisos I e II do
art. 22 desta Lei, é de:
I − dois vírgula cinco por cento destinados à Seguridade Social;
II − zero vírgula um por cento para o financiamento do benefício previsto
nos arts. 57 e 58 da Lei no 8.213, de 24 de julho de 1991, e daqueles concedidos
em razão do grau de incidência de incapacidade para o trabalho decorrente
dos riscos ambientais da atividade

No caso do segurado especial, assim sendo, a Lei 8.212/91 trouxe previsão


de contribuição específica para os benefícios decorrentes de acidente do trabalho,
conforme se vislumbra:

Art. 25. A contribuição do empregador rural pessoa física, em substituição à


contribuição de que tratam os incisos I e II do art. 22, e a do segurado especial,
referidos, respectivamente, na alínea a do inciso V e no inciso VII do art. 12
desta Lei, destinada à Seguridade Social, é de:
II − 0,1% da receita bruta proveniente da comercialização da sua produção
para financiamento das prestações por acidente do trabalho.

Com a criação desta norma, fica evidente que há a contrapartida exigida pela
Constituição Federal, no seu art. 195, § 5º, referente à obrigatoriedade de que os
benefícios da seguridade social tenham fonte de custeio. Não há, portanto, neces-
sidade de recolhimento de contribuições facultativas, como chegou a se cogitar15,
pois se o benefício não pode ser criado sem fonte de custeio, também não se justi-
fica criar uma contribuição sem finalidade. Assim, se há contribuição do segurado

15 O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul decidia, reiteradamente, pela necessidade do reco-
lhimento, consoante se verifica nos julgados nº 70040927931 (Apelação Cível – Nona Câmara
Cível) e nº 70042853275 (Embargos de Declaração – Décima Câmara Cível).

270
Acidente de trabalho no meio rural: abordagem acerca dos agentes causadores dos acidentes no meio rural

especial para o financiamento das prestações decorrentes de acidente do trabalho,


está garantido o custeio16.
Desta feita, ainda que ventilado pelo INSS na via judicial, não há previsão de
recolhimento de contribuições facultativas para obtenção de benefício previdenciário
decorrente de acidente do trabalho, de modo que havendo acidente pelo exercício
da atividade, o segurado especial também estará protegido. Se há igualdade dos
trabalhadores rurais, concatenada na Constituição, não existe corolário lógico para
não conceder o benefício.
O art. 104 do Decreto 3.048 de 1999, igualmente, não traz qualquer exigência
de contribuições facultativas, conforme se vê:

Art. 104 O auxílio-acidente será concedido, como indenização, ao segurado


empregado, exceto o doméstico, ao trabalhador avulso e ao segurado especial
quando, após a consolidação das lesões decorrentes de acidente de qualquer
natureza, resultar sequela definitiva, conforme as situações discriminadas no
anexo III, que implique:
I - redução da capacidade para o trabalho que habitualmente exerciam;
II - redução da capacidade para o trabalho que habitualmente exerciam e
exija maior esforço para o desempenho da mesma atividade que exerciam à
época do acidente; ou
III - impossibilidade de desempenho da atividade que exerciam à época do
acidente, porém permita o desempenho de outra, após processo de reabilitação
profissional, nos casos indicados pela perícia médica do Instituto Nacional do
Seguro Social.

Sacramentando-se o assunto e com o intuito de dirimir as controvérsias, o art.


39 da Lei 8.213/91, com a alteração dada pela Lei 13.846/2019, trouxe a seguinte
redação:

Art. 39. Para os segurados especiais, referidos no inciso VII do caput do art.
11 desta Lei, fica garantida a concessão:
I − de aposentadoria por idade ou por invalidez, de auxílio-doença, de
auxílio-reclusão ou de pensão, no valor de 1 (um) salário mínimo, e de auxí-
lio-acidente, conforme disposto no art. 86 desta Lei, desde que comprovem o
exercício de atividade rural, ainda que de forma descontínua, no período ime-
diatamente anterior ao requerimento do benefício, igual ao número de meses

16 BERWANGER, Jane Lúcia Wilhelm. Segurado Especial: novas teses e discussões. 2ª Ed. Curi-
tiba: Juruá, 2018. pg. 181.

271
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

correspondentes à carência do benefício requerido, observado o disposto nos


arts. 38-A e 38-B desta Lei;

O jurista Daniel Machado da Rosa aduz que os segurados especiais estão


incluídos como destinatários do benefício de auxílio-acidente, conforme determi-
nação da Lei 8.213/1991:

Devemos relembrar o que a LBPS dispõe nos seus arts. 18 e 19 sobre o


conceito de acidente do trabalho, arrolando os segurados que fazem jus a pres-
tações acidentárias. Por sua vez, o art. 19 não apenas estende o conceito de
acidente do trabalho para aquele que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço
da empresa, como expressamente abrange aquele no exercício do trabalho dos
segurados especiais que não prestam serviço à empresa17.

Não há razão para qualquer resistência na concessão do benefício, uma vez que
o tema encontra amparo legal e em nenhum dispositivo legal há previsão quanto à
necessidade de recolhimento de contribuições facultativas para a obtenção da be-
nesse. Não obstante, o STJ assentou o assunto no julgamento do recurso repetitivo
na forma do Recurso Especial 1.361.410, entendendo que o segurado especial tem
direito ao benefício de auxílio-acidente independentemente do recolhimento de
contribuições facultativas, vejamos:

PREVIDENCIÁRIO. RECURSO ESPECIAL. AUXÍLIO-ACIDENTE. CONCESSÃO


A SEGURADO ESPECIAL. INFORTÚNIO OCORRIDO ANTES DA EDIÇÃO DA LEI
N. 12.873/2013, QUE ACRESCENTOU O BENEFÍCIO NO INCISO I DO ARTIGO
39 DA LEI N. 8.213/91. DESNECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DA CONTRI-
BUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA NA QUALIDADE DE SEGURADO FACULTATIVO.
1. Para fins do que dispõe o artigo 543-C do CPC, define-se: O segurado
especial, cujo acidente ou moléstia é anterior à vigência da Lei n. 12.873/2013,
que alterou a redação do inciso I do artigo 39 da Lei n. 8.213/91, não precisa
comprovar o recolhimento de contribuição como segurado facultativo para ter
direito ao auxílio-acidente. 2. Recurso especial provido. Acórdão sujeito à siste-
mática do art. 543-C do CPC e da Resolução STJ n. 08/2008. (Recurso Especial
nº 1.361.410/RS, Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça, Relator Ministro
Benedito Gonçalves, julgado em 08/11/2017, publicado no DJe em 21/02/2018).

Assim, não resta dúvidas de que o segurado especial tem direito ao auxílio-
-acidente, independentemente do recolhimento de contribuições facultativas.

17 ROCHA, Daniel Machado. Comentários à Lei de Benefícios da Previdência Social. 17ª Ed. São
Paulo: Atlas, 2019. pg. 255.

272
Acidente de trabalho no meio rural: abordagem acerca dos agentes causadores dos acidentes no meio rural

3. A REALIDADE DO TRABALHO RURAL: OS AGENTES


CAUSADORES DE ACIDENTES
A atividade rural, seja na qualidade de segurado especial ou empregado rural,
é sabidamente pesada. Os trabalhadores do campo enfrentam diversos percalços
laborais, além jornadas de trabalho de excessiva duração.
Muito embora haja trabalhador rural que tenha o benefício de conviver com
alta tecnologia agrária, de máquinas e motores, uma enorme parcela ainda convive
com condições simplórias de trabalho, incluindo-se o plantio, corte, manutenção
e manejo da lavoura ou de animais de forma manual ou precária. Em ambas as
hipóteses podemos encontrar diferentes riscos.
Assim sendo, muitos trabalhadores sofrem acidentes de trabalho, haja vista
exercerem atividades puramente braçais, sem treinamento de minimização de riscos,
bem como sem equipamentos de proteção individual.
Já o desenvolvimento tecnológico do campo resultou não só na utilização de
novas técnicas agrícolas, mas também em novos tipos de acidentes do trabalho.
Com a intenção de aumentar a produtividade com menor utilização de mão-de-
-obra, ampliou-se a força mecânica (máquinas) e a utilização de defensivos agrí-
colas, situação para a qual uma grande parcela dos trabalhadores rurais não estava
preparada de forma adequada, desencadeando sérios acidentes18.
O progresso e modernização das máquinas, a organização do trabalho e a
tecnologia trouxeram a fragmentação das tarefas, que por vezes acabam sendo
realizadas de modo repetitivo pelo mesmo obreiro. Consequentemente, não há
pausa e as repetições demasiadas levam à exaustão e ao excesso de autoconfiança,
que podem desencadear situações de risco ao trabalhador.
Destarte, os trabalhadores rurais, além de expostos à exaustiva jornada de tra-
balho e expostos as intempéries do tempo, estão permanentemente em contato aos
agentes que podem causar agravos à saúde, como máquinas, ferramentas motoras e
manuais, equipamentos agrícolas, animais domésticos e peçonhentos. Além disto,
há exposição recorrente aos agrotóxicos, além de radiação solar, agentes físicos
ruído e vibração e agentes microbianos (biológicos).
Quanto aos tipos de acidentes do trabalho de trabalhadores rurais, são extraídos
alguns dados em estudo realizado no interior paulista:

18 TEIXEIRA, Monica La Porte; FREITAS, Rosa Maria Vieira de, Acidentes do trabalho rural
no interior paulista. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi-
d=S0102-88392003000200009&lang=pt#nt03, acessado em 13/07/2019.

273
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Ao lançar um olhar no agente causador, nota-se que cerca de 49,9% dos


acidentes-tipo foram causados por ferramentas de trabalho, entre elas pode-se
citar o facão e o podão, ferramentas utilizadas sobretudo pelos cortadores
de cana-de-açúcar, com força e de forma precisa. Essa informação vem de
encontro ao observado nos dados do tipo de acidente, no qual destacam-se
os acidentes com objetos cortantes/contundentes (44,3%) e os traumatismos
ou lesões causados por instrumentos de trabalho (11,7%). Outro agente
causador relevante nos acidentes-tipo foi o contato com animais e plantas
venenosas com 14,7% dos casos, situação decorrente do meio ambiente do
trabalhador do campo19.

Já no oeste de Santa Catarina, a realização de pesquisa local trabalhadores


rurais mostrou que 20% (12) dos 60 produtores rurais entrevistados sofreram aci-
dentes de trabalho, dos quais dois no trabalho com animais e 10 com ferramentas
manuais20. Apontou-se, ainda, que:

A natureza da atividade laboral, na qual se utiliza uma variedade grande


de equipamentos e procedimentos, reforça a utilização da percepção dos
trabalhadores como instrumento adequado na prevenção da ocorrência de
acidentes. A diversificação na utilização de equipamentos, maquinários, as-
sim como a exposição a agrotóxicos e animais foi demonstrada em 75% dos
produtores rurais do oeste catarinense, evidenciando que este alto percentual
indica maiores chances de acidentes laborais, bem como o freqüente uso de
ferramentas manuais, em virtude da não mecanização da produção agrícola
e pela condição geográfica da região oeste catarinense, com predomínio de
terreno declivoso e solo com afloramento de rochas21.

Verifica-se, portanto, que quanto aos segurados especiais nos casos apresenta-
dos, fica perceptível que os acidentes de trabalho são caracterizados por utilização
de ferramentas mais simples e maquinários domésticos, causadores de lesão ou
eventos traumatológicos, além da utilização inadequada de defensivos agrícolas:

19 TEIXEIRA, Monica La Porte; FREITAS, Rosa Maria Vieira de, Acidentes do trabalho rural
no interior paulista. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi-
d=S0102-88392003000200009&lang=pt#nt03, acessado em 13/07/2019.
20 MARQUES, Sandra Márcia Tietz; SILVA, Glades Pinheiro da. Trabalho e acidentes no meio
rural do Oeste Catarinense − Santa Catarina, Brasil., disponível em http://www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S0303-76572003000200009&lang=pt, acessado em 13/07/2019.
21 MARQUES, Sandra Márcia Tietz; SILVA, Glades Pinheiro da. Trabalho e acidentes no meio
rural do Oeste Catarinense − Santa Catarina, Brasil., disponível em http://www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S0303-76572003000200009&lang=pt, acessado em 13/07/2019.

274
Acidente de trabalho no meio rural: abordagem acerca dos agentes causadores dos acidentes no meio rural

Ao lançar um olhar no agente causador, nota-se que cerca de 49,9% dos


acidentes-tipo foram causados por ferramentas de trabalho, entre elas pode-
se citar o facão e o podão, ferramentas utilizadas sobretudo pelos cortadores
de cana-de-açúcar, com força e de forma precisa. Essa informação vem de
encontro ao observado nos dados do tipo de acidente, no qual destacam-se os
acidentes com objetos cortantes/contundentes (44,3%) e os traumatismos ou
lesões causados por instrumentos de trabalho (11,7%)22.

No Rio Grande do Sul, observou-se que apenas um terço dos trabalhadores


rurais acidentados procurou atendimento médico:

Problemas de acesso aos serviços de saúde na zona rural e a dificuldade de


serem substituídos em suas tarefas na propriedade, provavelmente, fazem com
que os trabalhadores acidentados procurem assistência em menor proporção
do que seria esperado23.

Haja vista a informalidade das atividades laborais que assolam o país, espe-
cialmente no meio rural, não há exatidão nos números de acidente do trabalho
ocorridos entre os trabalhadores rurais. No entanto, é sabido que muitos trabalha-
dores envolvidos em acidentes não procuraram os serviços de saúde e, menos ainda,
a Previdência Social. Sem a busca pelo auxílio médico, não há como mensurar a
gravidade do acidente de trabalho, bem como definir um tratamento e deliberar
meios de precaução. A gravidade é medida pelo próprio trabalhador, dificultando
as estatísticas.
A agropecuária no Brasil registra o segundo maior índice de acidentes de
trabalho entre todas as atividades econômicas: foram 28,74 acidentados por mil
trabalhadores rurais no ano de 2015, os quais representam apenas 10% do total
ocorrido, pois as notificações pela CAT representam apenas os trabalhadores com
carteira assinada (40% na região sul e sudeste e 20% nas demais), dos quais as sub-
notificações estão em torno de 80%24.
Não há treinamento dos trabalhadores rurais, especialmente do segurado es-
pecial, acerca do manuseio e diluição dos agrotóxicos utilizados, e o uso incorreto
pode causar sérios danos à saúde:

22 TEIXEIRA, Monica La Porte; FREITAS, Rosa Maria Vieira de, Acidentes do trabalho rural
no interior paulista. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi-
d=S0102-88392003000200009&lang=pt#nt03, acessado em 13/07/2019.
23 FEHLBERG, Marta Fernanda; SANTOS, Iná Silva dos; TOMASI, Elaine. Cadernos de Saúde
Pública Dez 2001, Volume 17, Nº 6, Páginas 1375 – 1381.
24 Ministério do Trabalho e Previdência Social, MTPS. Estatísticas, acidentes de trabalho notifica-
dos, distribuídos pela CNAE. Disponível em www.mtps.gov.br, em 12/07/2019.

275
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

Embora a utilização de máquinas e equipamentos seja rotina, a maioria dos


trabalhadores rurais não utiliza equipamentos de proteção individual, o que
predispõe ao maior risco de acidentes. Além disso, nas propriedades rurais o
aprendizado das tarefas é passado, via de regra, de uma geração à outra desde
a infância e o conhecimento de sua utilização e o treinamento técnico inade-
quado também colaboram para aumentar o risco de acidentes25.

Além da poeira advinda dos grãos, os agrotóxicos podem dar origem à pro-
blemas respiratórios, câncer e doenças dermatológicas. A utilização inadequada
não se resume só ao manuseio do produto, mas também à dosagem. A dermatose
é problema comum dos trabalhadores rurais, a exemplo das dermatites de contato
e urticárias. Não obstante, ainda que possa haver a utilização de máquinas e equi-
pamentos, a maioria dos trabalhadores do campo sequer utiliza equipamentos de
proteção e segurança individual, expondo-lhes aos riscos de acidentes:

O manuseio e diluição incorretos podem causar sérios danos à saúde. Po-


dendo dar origem a problemas respiratórios, câncer e problemas de pele dentre
outros. O problema de pele mais comum são as dermatoses, como dermatites
de contato. Outras formas menos frequentes são as urticárias, hipopigmentação
da pele e alterações em unhas e cabelos26.

Nota-se, ainda, que, quanto aos segurados especiais, os ensinamentos da lida


campesina são passados de geração em geração, inclusive desde tenra idade, sem que
haja treinamento técnico, o que agrava o risco. Não há discussão acerca de prevenção.
A percepção da gravidade é medida de maneira indutiva, avaliada pelo agricul-
tor, o que acarreta na demora na reabilitação e recuperação da condição de saúde.
Muito embora o desconhecimento na exatidão dos números, os estudos demonstram
que a quantidade de acidentes de trabalho ocorridas com os segurados especiais são
suficientes para merecer atenção no sentido de pensar em formas para minimizar

25 Schubert B. Problemas actuales del seguro obligatorio de accidentes a escala mundial: una
muestra de la AISS. Accidentes de trabajo: América del Sur y Central. 27s Asamblea General de
la Asociación Internacional de la Seguridad Social -AISS. Estocolmo, Suecia, 9-15 septiembre
de 2001. 26p, apud MARQUES, Sandra Márcia Tietz; SILVA, Glades Pinheiro da. Trabalho e
acidentes no meio rural do Oeste Catarinense − Santa Catarina, Brasil., disponível em http://
www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0303-76572003000200009&lang=pt, aces-
sado em 13/07/2019
26 SPIEWAK, R. Pesticides as a cause of occupational skin diseases in farmers. An also of Agricul-
tura land Environmental Medicine, Southampton, v.8, p.1-5, 2001, apud DUARTE, Rositania
Alves et al. Doenças relacionadas aos trabalhadores agropecuários. <https://www.portaleduca-
cao.com.br/conteudo/artigos/enfermagem/doencas-relacionadas-aos-trabalhadores-agropecua-
rios/64958> Disponível em 15/07/2019.

276
Acidente de trabalho no meio rural: abordagem acerca dos agentes causadores dos acidentes no meio rural

a ocorrência e, também, para que os trabalhadores rurais procurem atendimento


médico e o ente previdenciário para obtenção do benefício devido. De acordo
com os dados de acidente do trabalho no meio rural, a ocorrência deles apresenta
dimensão suficiente para merecer a atenção dos legisladores, do poder judiciário
e das entidades que atuam no âmbito local, como agentes de saúde e cooperativas
de produção.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
É inegável o avanço das normas que regulamentam as relações de trabalho.
Entretanto, no tocante aos trabalhadores rurais, o progresso e a equiparação pro-
tetiva só ocorreram, mais fortemente, com a chegada da Constituição Federal de
1998, uma vez que a mesma trouxe como fundamentos a igualdade, a dignidade da
pessoa humana e os valores sociais do trabalho, previstos em seu art. 1º e 5º da CF.
Assim sendo, é possível considerar que a legislação pertinente aos trabalhadores
do campo são recentes, comparadas à dos trabalhadores urbanos.
Restou ao legislador infraconstitucional, assim sendo, a partir da promulga-
ção da Lei 8.212 e da Lei 8.213, elencar os benefícios dos trabalhadores rurais e
urbanos de forma equivalente − dentre eles, os benefícios acidentários, de modo
queos empregados rurais e os segurados especiais passaram a ser destinatários do
benefício acidentários, inclusive o auxílio-acidente, conforme art. 11, I, alínea a,
VII, combinado com o art. 18, §1º da da Lei 8.213/1991.
Não obstante, por algum período, chegou-se a ventilar que o segurado especial,
para fazer jus ao benefício de auxílio-acidente, deveria verter contribuições facul-
tativas à Previdência Social. Conforme abordamos ao longo do texto, tal entendi-
mento embasou-se na exigência de fonte de custeio dos benefícios da seguridade
social, estipulada no art. 195, § 5º da Constituição Federal. Entretanto, atualmente
o assunto já se encontra pacificado, por força do julgamento do Recurso Especial
nº 1.361.410, no qual o STJ decidiu que não há necessidade de recolhimentos em
forma de contribuições facultativas por parte dos segurados especiais e que estes
fazem jus ao benefício independentemente das contribuições.
O entendimento do STJ foi significativo no sentido de garantir os benefícios
aos segurados especiais, que, assim como os trabalhadores rurais em geral, estão
expostos a riscos singulares de acidentes no meio laboral, associados com o tipo
de trabalho e com a por vezes excessiva duração da jornada de trabalho. Dessa
forma, entende-se que a atividade rural está intimamente relacionada ao esforço
físico contínuo, e ao consequente desgaste constante do trabalhador, ocasionando
grande risco a acidentes de trabalho. A utilização de maquinário agrícola, por sua

277
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

vez, embora permita desgaste físico em comparação com o trabalho braçal, importa
risco a outros tipos de acidente, especialmente quando da ausência de treinamento
do uso do maquinário.
Adicionalmente, ressalta-se o intenso potencial de dano ao organismo por parte
dos agrotóxicos e defensivos agrícolas utilizados pelos trabalhadores rurais, bem
como a falta de utilização de qualquer equipamento de proteção que possa mini-
mizar os efeitos nocivos desses produtos no trabalhador responsável pela aplicação.
Depreende-se, portanto, que os trabalhadores rurais não têm acesso adequado a
informações quanto aos riscos inerentes ao labor rural, tampouco quanto a medidas
que possam prevenir acidentes ou doenças de trabalho.
Diante do exposto, verifica-se a necessidade de programas de prevenção de
acidentes que tenham como alvo os trabalhadores rurícolas, com fulcro em aprimorar
o manuseio de instrumentos e ferramentas agrícolas. Além disso, há de se ampliar
o uso de equipamentos de proteção individual para os trabalhadores do campo,
especialmente o uso de máscaras, luvas e botas, protegendo as regiões corporais de
maior risco. Por fim, salientar a necessidade de busca por serviços de saúde locais,
facilitando o acesso da população campesina
Não há como precisar sequer os impactos do uso de agrotóxicos, haja vista ao
precário monitoramento dos pesticidas utilizados na lavoura.
É cristalino que a demasiada ocorrência de acidentes do trabalho, incluindo
o meio urbano, traz prejuízo ao Estado, uma vez que a empresa paga alta tarifa-
ção para prevenção e reparação dos danos, o trabalhador sofre, com altos custos,
as consequências do acidente sofrido e o poder público, por sua vez, gasta com
a manutenção da saúde do trabalhador acidentado, razão pelo qual, medidas de
prevenção são crucialmente necessárias.

5. REFERÊNCIAS
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vivência individual. 2ª Ed. Curitiba: Juruá, 2014.
BERWANGER, Jane Lúcia Wilhelm. Segurado Especial: novas teses e discussões. 2ª Ed.
Curitiba: Juruá, 2018.
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minorias vinculadas à Seguridade Social. 1ª Ed. Curitiba: Juruá, 2018.
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www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em:
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278
Acidente de trabalho no meio rural: abordagem acerca dos agentes causadores dos acidentes no meio rural

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br/ccivil_03/leis/L8212cons.htm>. Acesso em: 09, jul. 2019
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br/ccivil_03/leis/l8213cons.htm>. Acesso em 10 jul. 2019
DUARTE, Rositania Alves. el al. Doenças relacionadas aos trabalhadores agropecuários.
Disponível em <https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/enfermagem/
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FEHLBERG, Marta Fernanda; SANTOS, Iná Silva dos; TOMASI, Elaine. Cadernos de Saúde
Pública. Dez 2001, Volume 17, Nº 6, Páginas 1375 – 1381.
FLORINI NETO, Antonio Bazilio. Seguro de Acidentes de Trabalho: voracidade fiscal
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MELO, Raimundo Simão de. Direito Ambiental do Trabalho e a Saúde do Trabalhador.
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NEGRINI, Daniela Aparecida Flausino. Acidente do Trabalho e suas consequências sociais.
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279
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

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Acesso em 13 jul. 2019.
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO RIO GRANDE DO SUL, TJRS. Apelação Cível nº 70040927931,
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DE%20JUSTI%C7A%20-%209.%20CAMARA%20CIVEL>. Acesso em 15 jul. 2019.
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO RIO GRANDE DO SUL, TJRS. Embargos de Declaração
nº 70042853275, Relator Des. Túlio de O. Martins. DJe: 25/11/2011. Disponível em:
<http://www.tjrs.jus.br/site_php/consulta/download/exibe_documento.php?numero_
processo=70042853275&ano=2011&codigo=1167903>
VIANNA, Cláudia Salles Vilela. Acidente do trabalho: abordagem completa e atualizada.1ª
Ed. São Paulo: LTr, 2015.

280
MEIO AMBIENTE DO TRABALHO
ECOLOGICAMENTE EQUILIBRADO

MArIA reJANe sAMPAIo dos sANTos VIeIrA1

RESUMO: O objetivo deste estudo foi o de contextualizar o meio ambiente do


trabalho, como integrante do meio ambiente geral, consignado na Constituição da
República Federativa do Brasil como elemento essencial da Ordem Social, bem
como destacar o tema da saúde e bem-estar do trabalhador, resultado do meio
ambiente do trabalho ecologicamente equilibrado, como direito fundamental. O
meio ambiente ecologicamente equilibrado é um direito que necessita ser melhor
divulgado e discutido, sob a ótica da educação ambiental. Deve ser implementado
através de políticas públicas específicas e de acordo com bases científicas, evitando
que as normas existentes ou que venham a ser editadas sejam aviltadas. Destaca-se
no trabalho também, apontamentos acerca dos princípios da dignidade da pessoa
humana, do poluidor pagador, da prevenção e da precaução. A importância do estudo
está diretamente relacionada a importância da saúde do Homem trabalhador, que
labora para o crescimento do Brasil. O estudo foi baseado em pesquisa bibliográfica,
análise de artigos e palestras proferidas por estudiosos do tema. Foi possível constatar
a necessidade de amplo debate sobre o assunto bem como a adoção de medidas
mais eficazes de educação, proteção e fiscalização do meio ambiente do trabalho.
Palavras Chaves: Meio ambiente. Meio ambiente do trabalho ecologicamente equi-
librado. Saúde do trabalhador. Direito fundamental.

INTRODUÇÃO
A Constituição da República Federativa do Brasil − CRFB tutela o meio
ambiente do trabalho, definindo que todas as pessoas tem direito a um ambiente

1 Coordenadora Adjunta do IBDP em Rondônia, Especialista em Regime Próprio de Previdência


dos Servidores Públicos pela Damásio Educacional, Especialista em Direito Tributário pela
Universidade Cândido Mendes (RJ), Graduada pela Universidade Federal de Rondônia (Unir),
atual Presidente do Instituto de Previdência dos Servidores Públicos do Estado de Rondônia-
IPERON (desde 2014), Procuradora do Estado de Rondônia (desde 1995) .
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

ecologicamente equilibrado. Trata-se da salvaguarda do direito à saúde e no caso,


específico, o foco do estudo é o direito à saúde do trabalhador, pois se este não es-
tiver garantido, aviltado estará o direito ao meio ambiente do trabalho equilibrado.
A preocupação não se limita apenas da emissão de fumaças, gases ou exposi-
ção a agentes químicos, mas toda e qualquer circunstância capaz de causar danos à
saúde do trabalhador, que fica exposto dia após dia a determinadas circunstâncias
malfazejas à sua integridade física ou mental.
O tema apesar de relevante é pouco discutido, especialmente nos bancos es-
colares, nos quais a educação ambiental deveria ser introduzida possibilitando ao
futuro trabalhador angariar recursos intelectuais para um melhor posicionamento
social, como o destinatário da proteção ambiental descrita no art. 225 da CRFB.
O objetivo geral deste trabalho foi promover um levantamento bibliográfico
possibilitando a discussão sobre a importância do meio ambiente do trabalho ecolo-
gicamente equilibrado e a efetiva repercussão para o trabalhador e para o empregador
(pessoas jurídicas de direito privado ou direito público), que são afetadas sempre
que se manifestam os adoecimentos. Ressalta-se a importância da precaução e da
prevenção como também o do poluidor pagador.
Num estado contemporâneo deve-se fomentar a saúde e o bem-estar de todos,
posto que com o equilíbrio e a concreta segurança dos meios capazes de proteger o
trabalhador ou minimizar os eventuais danos, passo a passo se vê a concretização
da dignidade da pessoa humana: a pessoa que tem condições de trabalhar, em um
ambiente prazeroso, que lhe proporciona recursos para a manutenção de sua sub-
sistência; apta física e mentalmente para executar tarefas no dia a dia e que conhece
os seus direitos e os seus deveres.

1. BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO DA EVOLUÇÃO


HISTÓRICA: DO MEIO AMBIENTE DO TRABALHO
A Europa do Século XVII passou por grave crise de desigualdade social,
caracterizada por um comércio que produzia muita riqueza frente a reincidente
pobreza de grande parte da população, o que causou forte movimento contrário
ao absolutismo da época.

A Revolução Inglesa, que consistiu numa manifestação contrária ao ab-


solutismo da época e que resultou no Parlamentarismo até hoje estabelecido,
representa um movimento dos trabalhadores que estavam desgostosos com
a ambição burguesa e não mais se contentavam com a exploração da classe
operária, que, na época, era obrigada a laborar por até 15 horas por dia em
troca de baixo salário e condições precárias de trabalho.

282
Meio ambiente do trabalho ecologicamente equilibrado

As mulheres e crianças precisavam trabalhar arduamente para ajudar no


sustento de suas famílias. Caso ocorressem doenças, acidentes ou qualquer outro
evento que os impedisse de comparecer ao trabalho, instalava-se o desamparo, já
que inexistia qualquer garantia de salário. As classes eram muito bem definidas
e as circunstâncias sociais e econômicas muitas vezes conduziam essa massa
mais empobrecida para a fome.2

Lamentável quadro de caos social, em que a mendicância e a miséria eram


comuns, provavelmente foi o fator principal para que a Inglaterra adotasse medidas
legais de assistência social, como a conhecida Lei dos Pobres, que segundo Russo-
mano3, foi nesse momento que o Estado passou a exercer o papel de garantidor
da assistência às pessoas necessitadas.
Assim, merecem destaque como marcos históricos importantes de proteção
social: a Lei dos Pobres (Poor Law), que na Inglaterra de 1601 da Rainha Elizabeth I,
permitiu assistência às pessoas necessitadas4, tornando compulsório o auxílio das
paróquias à população carente de sua região e instituindo um tributo a ser arreca-
dado em cada paróquia com este objetivo5; a Declaração dos Direitos do Homem
e do Cidadão (1789); a Moral and Health Act e o Factory Act, de 1833 (Inglaterra)6;
a Declaração Americana Dos Direitos e Deveres do Homem (1948); a Declaração
Universal dos Direitos do Homem (1948); a Carta Social Europeia (1961); o Pacto
Internacional de Direitos Econômicos Sociais e Culturais (1966) e; a Convenção
Americana sobre Direitos Humanos (1969).
Destaca-se também, a Organização Internacional do Trabalho – OIT, criada
em 1919, decorrente do Tratado de Versalhes, com o objetivo de promover justiça
social e a formulação e aplicação das normas internacionais do trabalho7, que vem

2 VIEIRA, Maria Rejane S. dos S. et al. Advocacia Pública e Desenvolvimento. Rio de Janeiro:
Lumen Juris, 2018.
3 RUSSOMANO, Mozart Victor. Curso de Previdência Social. Rio de Janeiro: Forense. 1978.
4 RUSSOMANO, Mozart Victor. Curso de Previdência Social. Rio de Janeiro: Forense. 1978.
Segadas. In: SÜSSEKIND, Arnaldo. Direito internacional do trabalho. 3. ed. São Paulo: LTr,
2000. P. 83)
5 FARIAS, Pedro César Lima de. F224s A seguridade social no Brasil e os obstáculos institucio-
nais à sua implementação. Brasília: MARE/ENAP, 1997. 98p. (Cadernos ENAP, n. 11) ISSN:
0104-7078 1. Seguridade Social − Política Pública -Brasil. I. Título II. Série. (citando MAR-
SHALL, 1967, p.710)
6 XXI.“os auxílios públicos são uma dívida sagrada. A sociedade deve a subsistência aos cidadãos
infelizes, quer seja procurando-lhes trabalho, quer seja assegurando os meios de existência
àqueles que são impossibilitados de trabalhar”.
7 OIT. Organização Internacional do Trabalho. História da OIT, disponível em: https://www.ilo.
org/brasilia/conheca-a-oit/hist%C3%B3ria/lang--pt/index.htm , acesso em: 10 Jul 2019.

283
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

tratando do tema atinente a segurança e saúde do trabalhador, através de inúmeras


Convenções.
Cláudio Brandão, ao fazer interessante retrospecto acerca do surgimento histó-
rico da proteção à saúde como direito fundamental, registra que na metade do século
XVIII e início do século XIX a classe trabalhadora convivia com a pobreza e que a
interferência do Estado era mínima, não tutelando interesses ditos individuais, pre-
ponderando na sociedade da época o individualismo e o materialismo, pensamentos
que afugentavam o espírito da solidariedade, fraternidade e a sustentabilidade social.
O bem-estar do homem, enquanto trabalhador e colaborador principal para o cresci-
mento do Estado era deixado para um segundo plano. Entretanto iniciando o século
XIX, com as primeiras normas que visavam tutelar a saúde do trabalhador e espe-
cialmente no século XX com a criação da OIT, tal quadro se redesenhou, evoluindo
o pensamento de salvaguarda do grande patrimônio do Ser Humano, a saúde.8
Sabe-se que o liberalismo era veemente oposição ao governo controlador que o
antecedeu, valorizando a autonomia das relações e, Adam Smith, principal persona-
gem dessa época e pensador influente, acreditava num mercado livre e capaz de se
autorregular sem qualquer interferência estatal. Assim, não haviam regulamentações
precisas, antes das elencadas anteriormente, que registrassem alguma proteção ao
trabalhador da época, que eram evidentemente explorados tendo que trabalhar por
até 15 horas por dia em troca de baixo salário e condições precárias de trabalho.

Esta elevada taxa de mortalidade infantil entre os filhos de trabalhadores


frequentemente citados como beneficiários da Revolução Industrial pode ser
atribuída, em parte, às condições sanitárias do ambiente. Pode também estar
associada a uma deformação típica — o estreitamento da ossatura pélvica — das
meninas que trabalhavam nas fábricas desde a infância, trazendo dificuldades
para os partos, com a debilidade dos recém-nascidos, cujas mães trabalhavam
até a última semana de gravidez, e, acima de tudo, com a falta dos necessários
cuidados com os recém-nascidos. As mães, temendo perder seus empregos,
retornavam à fábrica três semanas após o parto, ou mesmo antes. 9

Foi em virtude das constantes insatisfações dos operários e também da bur-


guesia, que foi exigida uma postura do Estado, mais comprometida na pacificação
das questões de ordem social:

8 BRANDÃO, Cláudio, Meio Ambiente do Trabalho Saudável: direito fundamental do traba-


lhador. Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região– Rio de Janeiro: TRT 1ª Região,
2012
9 FARIAS, Pedro César Lima de. F224s A seguridade social no Brasil e os obstáculos institu-
cionais à sua implementação. Brasília: MARE/ENAP, 1997., citando THOMPSON, E. P. A
formação da classe operária inglesa, vol. 5. Paz e Terra, 1967.

284
Meio ambiente do trabalho ecologicamente equilibrado

Entre as tarefas exigidas desse novo Estado, assumiu destaque o papel de


mediador e redutor de conflitos, particularmente nos frequentes confrontos
entre os interesses econômicos inerentes ao processo produtivo e as demandas
apresentadas pelos cidadãos, ou mais especificamente, entre os objetivos de
acumulação e a satisfação das necessidades sociais básicas. A necessidade de
qualificação do Estado em seu formato liberal-democrático deu margem, ao
longo dos últimos séculos, ao progressivo fortalecimento e aprimoramento tanto
dos mecanismos responsáveis pela regulação das relações políticas e econômicas
no âmbito da sociedade civil, quanto dos recursos técnicos e administrativos à
disposição do próprio Estado para a consecução de seus objetivos.10

Assim, o aperfeiçoamento do Estado para exercer esse papel de mediador e


promotor das políticas sociais foi necessário, pois num primeiro período o controle
estatal era absoluto e num segundo liberal, a ponto de não estabelecer parâmetros
de proteção ao trabalho. De um modelo situado num ponto o movimento foi para
seu extremo oposto, o que não trouxe o resultado efetivo que se esperava:
Foi após a Segunda Grande Guerra Mundial, que o conceito de cidadania foi
ampliado, para a compreensão de que todos, indistintamente, têm direito a cober-
turas sociais mínimas e que devem ser garantidas pelo Estado desde o nascimento:

(...)abandonar a noção de assistência social como algo na fronteira da polí-


tica lidando com um pequeno grupo de párias e substituir pela ideia segundo a
qual a política social era uma parte integrante da política total e se ocupava das
necessidades normais de todos, ou quase todos, os membros da sociedade.11

De fato, a ideia de que a assistência social deve ser tratada como política
pública, nela inserida a política de saúde e segurança do trabalhador, quais sejam
políticas públicas voltadas ao ambiente de trabalho, está consoante a dignidade da
pessoa humana, valor almejado desde tempos e que imprescinde de atuação estatal
bem como de um processo de educação ambiental, através do qual todos os atores
envolvidos na relação jurídica estejam compenetrados quanto a sua relevância.
Vale o registro de que foi a Declaração Universal dos Direitos Humanos da
Organização das Nações Unidas –ONU, que inaugurou a nova perspectiva, da dig-
nidade como fundamento dos direitos humanos, bem como a proteção ao trabalho:

10 FARIAS, Pedro César Lima de. F224s A seguridade social no Brasil e os obstáculos institucio-
nais à sua implementação. Brasília: MARE/ENAP, 1997.
11 FARIAS, Pedro César Lima de. F224s A seguridade social no Brasil e os obstáculos institu-
cionais à sua implementação. Brasília: MARE/ENAP, 1997., citando THOMPSON, E. P. A
formação da classe operária inglesa, vol. 5. Paz e Terra, 1967.

285
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

“Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os mem-


bros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da
liberdade, da justiça e da paz no mundo”.12
Vejamos o artigo XXIII13:

1. Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego,


a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.
2. Todo ser humano, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração
por igual trabalho.
3. Todo ser humano que trabalha tem direito a uma remuneração justa e
satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compa-
tível com a dignidade humana e a que se acrescentarão, se necessário, outros
meios de proteção social.

Como foi bem destacado por Maria Clara Dias14, são direitos sociais básicos
todos aqueles que assegurem ao Homem vida digna, como a educação, , trabalho,
moradia, alimentação, e também os direitos “que concernem à demanda por um
meio ambiente saudável”. São garantias mínimas para a boa qualidade de vida do
Homem, que engloba a saúde física e mental, o trabalho remunerado e o meio
ambiente do trabalho ecologicamente equilibrado e que o direito das futuras gera-
ções esteja tutelado, através de políticas públicas e normatizações que permitam à
descendência da atual população uma vivência harmônica e saudável.

2. O MEIO AMBIENTE DO TRABALHO ECOLOGICAMENTE


EQUILIBRADO: DIREITO FUNDAMENTAL DO
TRABALHADOR. DIREITO FUNDAMENTAL À SAÚDE
O meio ambiente, segundo José Afonso da Silva15 é “a interação do conjunto
de elementos naturais, artificiais e culturais que propiciem o desenvolvimento
equilibrado da vida em todas as suas formas”. Destaca, o insigne autor, que referido

12 ONU − Organização das Nações Unidas. Declaração Universal dos Direitos Humanos da
ONU- Preâmbulo − Disponível em: https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2018/10/
DUDH.pdf, acesso em: 10 Jul 2019.
13 ONU − Organização das Nações Unidas. Declaração Universal dos Direitos Humanos da
ONU- Preâmbulo − Disponível em: https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2018/10/
DUDH.pdf, acesso em: 10 Jul 2019.
14 SARLET, Ingo Wolfgang. Princípios do direito ambiental. 2 ed., São Paulo – Saraiva, 2017.
15 SILVA, José Afonso. Direito ambiental constitucional. 9. Ed. São Paulo: Malheiros, 2011. p. 20

286
Meio ambiente do trabalho ecologicamente equilibrado

conceito nos aponta para a existência do meio ambiente artificial, meio ambiente
cultural e meio ambiente natural ou físico, asseverando que o meio ambiente do
trabalho insere-se no meio ambiente artificial, entretanto com destaque especial
considerando que o constituinte originário assim o fez, ao dispor no artigo 200,
VIII, que é uma das atribuições do Sistema Único de Saúde – SUS, “colaborar na
proteção do ambiente, compreendido nele o meio ambiente do trabalho”.
De fato, a Constituição da República Federativa do Brasil – CRFB, tutela o
meio ambiente ecologicamente equilibrado e o destaca como bem de uso comum
do povo e essencial à sadia qualidade de vida, determinando sua defesa e a preser-
vação, tanto pelo Poder Público quanto pela Coletividade.
Essa tutela está de acordo com os imperativos do vigente Século com suas pe-
culiares características, a exemplo do uso da tecnologia, da correria do dia a dia, da
incessante busca pela felicidade (muitas vezes vista sob a ótica da conquista material),
na medida em que preceitua o direito de todos a um meio ambiente ecologicamente
equilibrado, conforme está destacado no caput artigo 225 da CRFB.

Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado,


bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se
ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as
presentes e futuras gerações.16.

Sem olvidar as discussões doutrinárias, Fiorillo registra compreender o termo


“todos” como bem difuso e respaldado no art. 5 da CRFB. Desse modo, o substantivo
“todos” alcança, no entendimento do autor, “brasileiros e estrangeiros residentes no
País”.17 Sobre o direito a integridade do meio ambiente, o Supremo Tribunal Federal
se manifestou no sentido de que o meio ambiente ecologicamente equilibrado é
direito de toda coletividade e bem indisponível:

O direito à integridade do meio ambiente – típico direito de terceira gera-


ção – constitui prerrogativa jurídica de titularidade coletiva, refletindo, dentro
do processo de afirmação dos direitos humanos, a expressão significativa de
um poder atribuído, não ao indivíduo identificado em sua singularidade, mas,
num sentido verdadeiramente mais abrangente, à própria coletividade social.
Enquanto os direitos de primeira geração (direitos civis e políticos) – que com-

16 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Senado Fede-


ral, Brasília. 2017.
17 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Senado Fede-
ral, Brasília. 2017. (pag. 13/14).

287
OS 100 anos DA PROTEÇÃO AO ACIDENTE DE TRABALHO NO BRASIL

preendem as liberdades clássicas, negativas ou formais – realçam o princípio


da liberdade e os direitos de segunda geração (direitos econômicos, sociais e
culturais) – que se identificam com as liberdades positivas, reais ou concretas
– acentuam o princípio da igualdade, os direitos de terceira geração, que ma-
terializam poderes de titularidade coletiva atribuídos genericamente a todas as
formações sociais, consagram o princípio da solidariedade e constituem um
momento importante no processo de desenvolvimento, expansão e reconhe-
cimento dos direitos humanos, caracterizados, enquanto valores fundamentais
indisponíveis, pela nota de uma essencial inexauribilidade.18

Fiorillo 19, também faz outras observações sobre o art. 225 da CRFB, estabele-
cendo quatro concepções fundamentais no âmbito do direito ambiental, incluída aí a
de que o meio ambiente ecologicamente equilibrado é um direito de todos, essencial
à sadia qualidade de vida e que merece tutela do Poder Público e da Coletividade
(comprometendo também todas as pessoas no processo de proteção). .
A Lei da Política Nacional do Meio Ambiente, Lei n. 6.938/8120, traz uma
definição de meio ambiente, no art. 3, I : “meio ambiente, o conjunto de condições,
leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga
e rege a vida em todas as suas formas”.
Fiorillo21 defende uma visão antropocêntrica do direito constitucional am-
biental, sendo a pessoa humana a destinatária do direito ambiental e que a tutela
de uma vida não humana só poderá ocorrer, sob o respaldo do direito ambiental,
“na medida em que sua existência implique garantia da sadia qualidade de vida do
homem”.
O destaque que deve ser feito é o de que o direito ambiental visa garantir a
sadia qualidade de vida do homem e consequentemente do homem trabalhador,
evitando as lesões ou ameaças à sua saúde:

18 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação direta de inconstitucionalidade nº 3510/DF – Dis-


trito Federal. Relator: Ministro Celso de Mello. M.S. 22.164-0 SP, j. 30-10-1995, P, DJ de17-
11-1995. Disponível em: <http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&do-
cID=85691>. Acesso em: 15 jul. 2019.
19 FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito ambiental brasileiro. 8ª ed., ver. atual. e
ampl. – São Paulo: Saraiva, 2007. (p. 13 a 16)
20 BRASIL. Lei nº 6.938/81, de 31 de agosto de 1981. Dispõe sobre a Política Nacional do Meio
Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá outras providências. ed.
federal, Brasília/DF, 1981. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L6938.
htm, acesso em: 15 Jul 2019.
21 FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito ambiental brasileiro. 8ª ed., ver. atual. e
ampl. – São Paulo: Saraiva, 2007. (p.17)

288
Meio ambiente do trabalho ecologicamente equilibrado

(...) que o atinja em sua atividade laboral, seja a fome, causada pela expropriação
do excedente econômico e a concentração de renda, seja a lesão física, causada
pela falta de equipamento de proteção coletiva ou individual, ou mesmo o estres-
se, resultante do medo de desemprego e das pressões no ambiente de trabalho.22

Desse modo, se conclui que não é possível termos qualidade de vida dissociada
da qualidade de trabalho, não podemos atingir o meio ambiente ecologicamente
equilibrado e sustentável, se ignorarmos o meio ambiente do trabalho, consequen-
temente olvidar a qualidade do meio ambiente do trabalho resulta no aviltamento
do princípio da dignidade da pessoa humana.23
A nossa CRFB evidenciou o meio ambiente como um dos elementos da ordem
social, como base o primado do trabalho e objetivo o bem-estar e a justiça social.
Desse modo, é necessária a coexistência de todos os elementos indicados pelo le-
gislador constituinte, no Capítulo II, do Título VIII, para que se perfaça a ordem
social e consoante Sarlet24 é imperativa a consciência da existência de uma dimensão
social e de uma dimensão ecológica intrínsecos à dignidade da pessoa humana.
Considerando seu amplo conceito, o meio ambiente incorpora tanto elementos
da natureza quanto o elemento humano (que também está na natureza), o que per-
mite concluir que o conceito de meio ambiente do trabalho está incluso no conceito
geral de meio ambiente. “O meio ambiente do trabalho, portanto, é constituído por
todos os elementos que compõem as condições (materiais e imateriais, físicas ou
psíquicas) de trabalho de uma pessoa”25.
Desse modo, cumpre-nos salientar que, para que o meio ambiente do trabalho
seja efetivamente tutelado, deve-se observar, como acentua Melo, não somente as
normas de ergonomia ou luminosidade, por exemplo, mas os aspectos que impactam
na saúde psíquica do trabalhador. O eminente professor afirma que desrespeitados
tais preceitos que asseguram direito à higidez no meio ambiente do trabalho ocorre