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A FORMAÇÃO HISTÓRICA DO BAIRRO GRÃ DUQUESA: A

EXPERIÊNCIA DO VIVIDO NA CONSTRUÇÃO DO TERRITÓRIO

Amilton Quintela Soares Junior1


Jeanine Águia Santos Silva2

Resumo
Acessar a formação histórica do território a partir das memórias dos seus personagens
constitui exercício hermenêutico de interpretação profunda, que evidencia o elemento humano
e substitui a inexorabilidade de uma trajetória única pelos múltiplos caminhos que derivam da
experiência do vivido. Neste artigo, busca-se acessar a constituição histórica do bairro Grã
Duquesa, na cidade de Governador Valadares – MG, a partir das narrativas da Sr. Ronaldo
Perim e da Sra. Lindalva Auxiliadora, personagens representativos do território em questão.
Assim, com base nos relatos e através círculo hermenêutico proposto por Paul Ricouer, vem à
tona um território que, mediado pela percepção humana, encontra-se inteiro no presente, mas
é formado por diferentes temporalidades e escalaridades.

Palavras-Chave: Território. Memória. História Oral. Hermenêutica. Construção Histórica

Abstract
To access the historical formation of the territory from the memories of its characters is a
hermeneutical exercise of deep interpretation, which highlights the human element and
replaces the inexorability of an unique trajectory throughout the multiple pathways that come
from its lived experience. In this article, it’s intended to access the historical constitution of
the neighborhood “Grã-Duquesa”, in the city of Governador Valadares, MG , from the
narratives of Mr. Ronaldo Perim and Ms. Lindalva Auxliadora, representative characters of
the territory in question. Therefore, based on reports and through the hermeneutic circle
proposed by Paul Ricoeur, emerges a territory that, mediated by human perception, finds itself
full at present, but is formed by different temporalities and scales.

Keywords: Territory. Memory. Oral History . Hermeneutics . Historical Construction

1
Mestrando em Gestão Integrada do Território na Universidade Vale do Rio Doce – UNIVALE. E-mail:
amilton.soares@gmail.com
2
Mestranda em Gestão Integrada do Território na Universidade Vale do Rio Doce – UNIVALE. E-mail:
jeanineaguia@gmail.com
INTRODUÇÃO

Acessar um território pela memória. Conhecer a história de um bairro com base nas
narrativas de seus moradores. Propostas completamente inócuas quando o bairro é
considerado simplesmente uma porção delimitada de espaço. Quando os aspectos físicos são
os únicos determinantes territoriais ou quando o acesso à realidade pressupõe uma única
história inequívoca.
Entretanto, quando o bairro não é mera circunscrição espacial, mas sim integração de
estruturas naturais e produzidas, uma construção social, histórica, cultural e simbólica
(HAESBAERT, 2007); e quando o acesso à realidade pressupõe a mediação pelos
instrumentos cognitivos das pessoas, em um processo de significação e ressignificação de
conceitos, a experiência torna-se o “passado atual, aquele no qual acontecimentos foram
incorporados e podem ser lembrados” (KOSELLECK, 2006), e abrem-se os espaços para o
acesso a diferentes histórias, pautadas nas experiências do vivido.
Assim, em um emaranhado de diferentes temporalidades e escalaridades, o bairro (e
sua constituição histórica) apresenta-se como construção da narrativa dos seus personagens.
Torna-se lícito, então, considerar diferentes realidades para um mesmo território, diferentes
caminhos, diferentes alternativas, que, em um processo de compreensão e interpretação
hermenêutica, desvelam a formação histórica de um espaço que é múltiplo, enquanto
múltiplas são as narrativas, mas é, também, um espaço único na configuração geográfica da
cidade.
A partir de uma abordagem subjetiva e hermenêutica, que pretende conferir
centralidade ao elemento humano, este artigo parte das narrativas do Sr. Ronaldo Perim e da
Sra. Lindalva Auxiliadora, personagens representativos no desenvolvimento do território em
análise, para acessar a constituição histórico-territorial do bairro Grã Duquesa, na cidade de
Governador Valadares, leste de Minas Gerais.
Temporalidades, escalaridades e os caminhos múltiplos do vivido perfazem categorias
de análise fundamentais para a proposta acima, sendo devidamente abordadas no seu prisma
teórico-conceitual e em sua relação com as narrativas dos personagens que contam a história
(ou histórias) do Grã Duquesa.
Em um esforço hermenêutico de interpretação, a partir dos relatos dos personagens
entrevistados, busca-se, então, relacionar o tempo vivido e o tempo do mundo (RICOUER,
1997), na construção de uma intriga lógica, capaz de trazer à tona a formação histórica do
bairro Grã Duquesa, a partir das memórias daqueles que estão diretamente relacionados ao
território.

O ACESSO AO TERRITÓRIO VIVIDO: UMA QUESTÃO DE MEMÓRIA E


NARRATIVA

Ficção e história se assemelham. Não no sentido de que correspondem a um mesmo


conceito, mas no sentido de que dispõem de elementos comuns. Na ficção, deparamo-nos com
acontecimentos ou situações inventadas, narradas como se pertencessem a um passado real. E
na história, acontecimentos que povoaram o passado podem ser presentificados, se não na
verossimilhança exata do ocorrido, na articulação e presença narrativa do vivido.
Aproximar a ficção da história e destacar a narrativa como elemento de acesso ao
passado é uma forma no mínimo desafiadora de iniciar e desenvolver um conteúdo que se
pretende racional e científico, se considerarmos o apelo da abordagem objetiva como critério
de cientificidade, herança das ciências físicas que inunda várias perspectivas do pensamento
em ciências sociais ao longo de anos. Mas, se como afirma Boudelaire (apud Brandim et
al, 2010), “o mundo não foi criado, foi dito”; e se “a memória é um caminho de
aprendizagem” (DELEUZE, 1995), por que não imputar à memória e à narrativa o seu real
status de conexão entre o passado da vivência e o presente da investigação? E por que não
assumir que “o mundo da ficção é um laboratório de formas em que ensaiamos configurações
possíveis da ação para comprovar sua coerência e verossimilhança”? (COSTA, 2008)
Nesse sentido, o presente artigo transita no limiar entre a vivacidade da narrativa e a
tessitura de uma intriga lógica que possibilita a compreensão do passado, apresentando como
questão central de pesquisa a mediação entre tempo e narrativa para acessar a constituição
histórico-territorial do bairro Grã Duquesa, na cidade de Governador Valadares, leste de
Minas Gerais, a partir da memória (ou memórias) de seus personagens, com base em
testemunhos que dão significado à experiência do tempo vivido.
Diante de tal proposta, é imperativo reforçar que o “tempo torna-se humano na medida
em que está articulado de modo narrativo”, da mesma forma que “a narrativa é significativa
na medida em que esboça os traços da experiência temporal” (RICOUER, 1997), que,
justamente por ser experiência e, portanto, humana e subjetiva, não permite desvincular os
acontecimentos passados da voz que os viveu e, agora, os narra.
Segundo Ricouer (1997), a narrativa histórica, que poderia reivindicar o “duplo
estatuto de realidade e ficção”, é um discurso cuja intencionalidade aponta para um
referencial do passado que, através de um trabalho de análise, deve ser explicado e
interpretado. Justifica-se, assim, como base de um projeto que intenta acessar a formação
histórica de um território pela memória de seus personagens, uma abordagem que busca
assegurar aos fatos narrados o retorno do vivido, da ação humana e dos significados a ela
associados.
Tal dinâmica inviabiliza uma aproximação meramente objetiva, sob pena de se esvair
a riqueza subjetiva do conteúdo narrado, ao mesmo tempo em que praticamente exige uma
perspectiva de análise qualitativa do objeto de estudo, com base em um método hermenêutico,
pautado na interpretação densa de conteúdos e intenções, de apropriações do território pela
narrativa.
Com base na filosofia de Dilthey (2010), para quem a compreensão do homem passa
pela compreensão de sua historicidade, Alberti (2003) define o método hermenêutico como a
valorização do “movimento de se colocar no lugar do outro” para compreender o sentido
latente e profundo das coisas, inclusive da história.
Se a memória não é só a lembrança, mas também aquilo que se decide esquecer, ou
seja, se é seleção proposital e rigorosa, ao mesmo tempo em que configura um conjunto de
rastros das experiências dos outros, acessar um território pela memória é mergulhar em um
exercício de interpretação profunda, em um exercício hermenêutico que deve privilegiar as
subjetividades.
Não se trata de estabelecer uma escala de relevância entre o vivido e o lógico, mas de
buscar, na interação dialética entre os dois elementos, os fundamentos da constituição
histórica do território em análise e os próprios fundamentos de uma história “útil à vida”.
(RICOUER, 1997).
A experiência do vivido, que configura a parte central deste artigo, vem à tona através
do conteúdo narrativo das entrevistas realizadas com o Sr. Ronaldo Perim e a Sra. Lindalva
Auxiliadora, os personagens que nos conduzirão, a partir de suas memórias, ao processo de
constituição do território do bairro Grã Duquesa. Se a ideia é acessar a constituição histórica
do bairro pela memória, a seleção dos entrevistados, além de critérios de disponibilidade, está
pautada na própria participação dos mesmos no processo de formação territorial do Grã
Duquesa e, portanto, estritamente relacionada aos objetivos da pesquisa.
Como bem nos lembra Alberti (2005), no caso da entrevista oral, a intencionalidade se
manifesta desde o início do processo, “quando da própria escolha do entrevistado como
pessoa importante a ser ouvida”. Além disso, por mais criteriosa que seja a escolha daqueles
que serão ouvidos, ela só se fundamenta e se justifica plenamente ao longo da própria
realização das entrevistas, “quando se verifica, em última instância, a propriedade ou não da
seleção feita” (ALBERTI, 2005). A Sra. Lindalva é uma antiga moradora do bairro, presente
desde a instalação dos primeiros aparelhos urbanos que configuram o Grã Duquesa como uma
porção delimitada de espaço na cidade de Governador Valadares. Acompanhou uma série de
transformações estruturais e simbólicas do território, engajando-se, inclusive, com papel ativo
de liderança e coordenação, em ações e eventos que marcaram o convívio coletivo dos
moradores e a intensificação de sua relação de pertencimento com o território ocupado.
O Sr. Ronaldo Perim, proprietário do loteamento que originou o bairro, é parte
diretamente envolvida nos processos de expansão e modernização do Grã Duquesa, inclusive
com marcada influência política e econômica em tais processos. E é justamente a partir da
interpretação e análise das narrativas dos entrevistados que se destacam episódios, eventos e
intenções que remetem ao processo histórico de formação do bairro e que, repletos de
percepções e experiências (e não haveria outra forma), desenham a configuração viva de um
território e de seus significados.
É preciso, aqui, reforçar o conceito de um território integrado, que vai além da
configuração de aspectos físicos e/ou naturais, mas que reúne elementos estruturais e
abstratos. Território é conjunto de estruturas (naturais e produzidas), mas é também
construção social e histórica. É apropriação de caráter simbólico e cultural ao lado dos
domínios político e econômico (HAESBAERT, 2007). Considerar as articulações entre
dimensões sociais e processos históricos nos remete a um território em que ganham
centralidade elementos humanos e históricos (SAQUET, 2011), em um contexto dinâmico,
onde é possível perceber o território como um movimento marcado por diferentes
temporalidades e escalaridades (LEPETIT, 2001), o que abre espaço para abordagens que se
distanciam do positivismo, em um caminho que leva à própria possibilidade de acessar o
território e as territorialidades (também em uma abordagem histórica) a partir da memória.
Temporalidades e escalaridades são conceitos que remontam à multiplicidade dos
caminhos do vivido, às diferentes possibilidades de apropriação e significação do território
pelas pessoas e grupos; e são tão importantes para o desenvolvimento das argumentações
deste artigo, que ocupam toda uma parte de análise teórica e conceitual, anterior à própria
apresentação das narrativas, que não só subsidia a interpretação das informações dos
entrevistados, como também auxilia o leitor (agente ativo da interpretação e da re-significação
de conteúdos) na sua imersão pela história (ou histórias) do bairro Grã Duquesa.
Por último, é preciso integrar a experiência do vivido à lógica. É preciso construir uma
intriga, uma trama capaz de expor o que se passa na memória do personagem, atribuindo
sentido aos atos, incidentes e eventos narrados, e até mesmo preenchendo as lacunas deixadas
pelo que não é articulado em palavras. A história acessada pela oralidade “opera por
descontinuidades”, remete às experiências dos sujeitos e os valores singulares dos indivíduos
preenchem o passado, que se torna campo de imagens e episódios muitas vezes desconexos
ou mesmo confrontantes, mas dotados de vivacidade. (ALBERTI, 2005). Desse modo, nas
palavras de Ricouer (1997), é preciso promover a “concordância dos discordantes”. Através
da intriga histórica, deve-se buscar as verossimilhanças possíveis, introduzindo, entre eventos
discordantes, mediações que devem harmonizar confrontos e garantir uma configuração
lógica aos fragmentos de memória que compõem as narrativas.
Para relacionar o tempo vivido ao tempo do mundo é preciso construir conectores. Só
assim é possível detectar as passagens de coisas que não se pode ver, mas que certamente
existem em uma categoria de tempo/espaço. Só assim é possível acompanhar os “rastros dos
outros” (RICOUER, 1997). E, nesse sentido, a última parte do presente artigo dedica-se à
construção de uma intriga capaz de articular as narrativas dos dois entrevistados, em uma
tessitura que remeta o leitor à constituição histórica do bairro Grã Duquesa e que permita a
este mesmo leitor, com base no círculo hermenêutico ricoueriano, exercer o seu papel ativo de
reconstrutor criativo de significados.
Trata-se, portanto, de uma jornada que articula história oral, narrativa e memória na
tentativa de acessar a formação histórica do bairro Grã Duquesa. Como dito anteriormente,
é um esforço hermenêutico e etnográfico de interpretação do passado contido no discurso do
outro, um movimento de análise baseado na linguagem, que, segundo De Certeau (1994),
define nossa historicidade e constitui “o conjunto de práticas onde a própria pessoa do
analisador se acha implicada e pelas quais a prosa do mundo opera”.

HISTÓRIA, TEMPORALIDADES E ESCALARIDADES – CAMINHOS MÚLTIPLOS


DO VIVIDO

A fim de acessar a constituição histórico-territorial do bairro Grã Duquesa com base


na memória (ou memórias) de seus personagens, a partir da mediação entre tempo e
narrativa, deve-se assumir, como já enfatizado anteriormente, a premissa de que não existe
uma história única e inequívoca, uma espécie de roteiro linear que, em essência, representaria
a verdade.
Não se trata de relativismo absoluto, que impediria qualquer acesso aos fatos
históricos, mas significa sim abrir mão da linearidade, da ideia de um caminho único, tendo
em vista que diferentes narrativas, sempre baseadas na memória, isto é, na experiência do
vivido, podem ensejar diferentes verdades, o que configura questão muito relevante quando se
toma como base a História Oral. Assim, não se pode negar que os fatos históricos são
mediados pelos significados que as pessoas lhes atribuem, perspectiva que já se apresenta na
historiografia desde fins do século XIX e início do século XX, quando Dilthey (2010), na
tentativa de buscar para as ciências humanas uma lógica alternativa àquela das ciências
naturais, de caráter positivista, chegou a afirmar não ser possível, no campo das “ciências do
espírito” (ciências humanas), falar em leis gerais. Desse modo, Dilthey (2010) chegou a
questionar o próprio conceito de causa, que, segundo o autor, implicava a ideia de
inexorabilidade e deveria ser substituído, na interpretação das situações de mudança, por
motivos ou desejos.
Se não há um caminho histórico inexorável, a própria evolução – na verdade,
processos de transformação seriam mais adequados – dos sistemas urbanos – aí inclusos os
bairros –, como afirma Braudel (1987), é uma espécie de jogo de atualizações sucessivas de
formas passadas que se combinam em novas e dinâmicas configurações territoriais. Ainda
segundo Braudel (1987), a “cidade está inteira no presente”, o que também pode ser dito dos
seus bairros. Mas, assim como a cidade, os bairros não são sincrônicos e representam “uma
sobreposição dinâmica de realidades”, o que caracteriza como grande desafio do historiador
(ou de quem deseja acessar os processos históricos) relacionar diacronias e sincronias, em
uma perspectiva de múltiplas temporalidades.
Lepetit (2001) acrescenta que o processo temporal denota pontos de ruptura, que dão
origem a novos espaços possíveis, uma “pluralidade de tempos descompassados, cujas
modalidades de combinações geram mudança a cada instante”. Nesse sentido, o mesmo autor
propõe a substituição do “rumo das trajetórias pela pluralidade de temporalidades”, cuja chave
de leitura encontra-se na hermenêutica, ou seja, na interpretação profunda, capaz de acessar as
múltiplas camadas de uma cidade ou de um bairro.
O bairro Grã Duquesa está inteiro no presente, mas constitui mosaico de diferentes
temporalidades sobrepostas, que derivam de percepções subjetivas dos personagens que
vivenciam o território e são capazes de presentificar os seus registros de memória pela
experiência e pela narrativa. O território é, portanto, essencialmente uma memória ou um
conjunto delas (LEPETIT, 2001). A questão aqui não é uma realidade exclusivamente
objetiva, mas uma realidade mediada pelos aparelhos cognitivos, psicológicos e sentimentais
dos personagens. Afinal, como afirma Guimarães Neto (2005), na narrativa e nos “relatos de
espaços”, as pessoas “distinguem simbolicamente” e “sinalizam práticas culturais” que
organizam o território, imbricado em várias temporalidades.
Como as referências simbólicas remetem à experiência do vivido, rompe-se com os
critérios de cientificidade do modelo positivista e recusa-se “o aparato da ciência do concreto”
a favor da “lógica do provável” (GUIMARÃES NETO, 2005). Tomando por base as
narrativas que serão exploradas ao longo deste artigo como instrumento de acesso ao
território, torna-se possível dizer (como será apresentado adiante) que o Grã Duquesa da Sra.
Lindalva não é o mesmo bairro do Sr. Ronaldo Perim. Ainda que esteja em pauta a mesma
porção, isto é, a mesma delimitação geográfica do território, definitivamente não estão em
pauta os mesmos símbolos, significações ou resignificações atribuídos ao território.
Além das temporalidades, outro aspecto intimamente relacionado ao desenvolvimento
da questão central do presente artigo, considerando-se sua abordagem subjetiva e esforço de
interpretação hermenêutica dos relatos históricos, são as escalaridades. Assim como são
constituídos por diferentes temporalidades, os sistemas urbanos, segundo Lepetit (2001),
configuram-se a partir de interações entre escalas: a microscópica e veloz dos
comportamentos individuais e a macroscópica e lenta das estruturas. Nesse sentido, o mesmo
autor ressalta a necessidade de dar aos usos sociais da cidade (e por que não dos seus bairros)
a mesma “atenção classificatória” dedicada às formas urbanas.
Quando os elementos humanos ganham centralidade e o espaço passa a ser concebido
como uma produção social, é possível passar a uma abordagem dinâmica, em que se destacam
diferentes escalas. Nesse sentido, é importante considerar as contribuições de De Certeau
(1994) em sua investigação sobre as “invenções do cotidiano”, as “artes de fazer”. Para o
autor, em uma escala estratégica, temos entidades (instituições ou mesmo indivíduos) dotadas
de autoridade para definir objetos e códigos, ordenar os espaços e controlar comportamentos.
O objetivo de uma estratégia é se perpetuar através das coisas que produz, em um movimento
de homogeneização em massa, voltada a sistematizar, a impor ordem. Os “atores estratégicos”
vislumbram o território a partir de uma perspectiva macro, composta de estruturas e tradições.
Sua identidade e modus operandi estão determinados e são reificados para o “consumo”
subordinado das massas.
A estratégia, entretanto, segundo o mesmo De Certeau (1994), sofre uma espécie de
resistência de uma escala tática, micro, que se encontra nas “astúcias sutis” que alteram os
objetos e códigos definidos pelos atores estratégicos, estabelecendo, assim, uma apropriação,
ou melhor, uma reapropriação do espaço e dos seus usos. No processo de reapropriação do
espaço, as pessoas comuns encontram oportunidades de subverter rituais e representações que
as instituições estratégicas lhes impõem: tradições, procedimentos de “consumo”, espaços de
convívio e de separação. A tática trabalha sobre as coisas para torná-las suas, manifesta-se nos
modos inconscientes através dos quais as pessoas intentam fazer as cidades – e os seus bairros
– “habitáveis” para suas próprias mentes. É nas práticas cotidianas que se encontram as “artes
do fazer”, através das quais pode se compreender como as pessoas usam os objetos territoriais
(estrutura e cultura) colocados à sua disposição.
Também no aspecto da escalaridade, as narrativas que subsidiam a pesquisa deste
artigo podem ser consideradas pródigas. De um lado, temos o Sr. Ronaldo Perim, que, em
função do seu papel político e empresarial na formação do território em estudo, representa a
escala estratégica do ordenamento, da percepção do bairro como um conjunto organizado de
estruturas e elemento da exploração imobiliária. É a visão de cima. De outro lado, temos o
contexto micro de apropriação e reapropriação do espaço pela Sra. Lindalva, que, através das
suas práticas cotidianas, ressignifica o espaço habitado. Há, aqui, uma espécie de dicotomia
entre o ordenamento estratégico e a pirataria ou a clandestinidade tática, o que confere
diferentes significados a um espaço que não é meramente físico, mas é também social e
simbólico.
A pergunta que se coloca, então, é como acessar a constituição histórica de objeto tão
complexo? Recorrer a uma abordagem positivista é, sem dúvida, limitante. Já uma análise
subjetiva demanda um robusto método de interpretação. É aqui que se recorre ao método
hermenêutico, notadamente aquele apresentado por Ricouer (1997) em sua teoria da
narrativa. Articular diferentes temporalidades e escalaridades significa “compreender uma
sucessão de ações, de pensamentos, de sentimentos que apresentam ao mesmo tempo
determinada direção mas também surpresas (coincidências, reconhecimentos, revelações)” e,
desse modo, um “enredo histórico nunca é dedutível ou previsível”. É preciso, então, conciliar
o tempo estrutural ou lógico da análise historiográfica ao tempo vivido, apoiado na narrativa.
Se a hermenêutica aperfeiçoou a interpretação do outro cultural, ela pode também, como
afirma Dilthey (2010), aperfeiçoar a compreensão do outro de outras épocas e, assim, auxiliar
na “reflexão do vivido sobre si mesmo”, em um processo que Ricouer (1997) chamou de
círculo hermenêutico, composto por três mimeses (etapas) criadoras.
O próprio Ricouer (1997) se refere ao passado como produtor de sentido que se
consolida no presente através da narrativa, que se constitui no meio que se oferece para um
trabalho hermenêutico de interpretação (presentificação) de um passado que chega como
“rastro desalinhado, embaçado, invertido”. Nada apreendido pelo ato da narrativa é total,
universal, mas o papel da narrativa é fazer surgir o que está ausente, através da apreensão”
dos sinais do outro. Assim, a integração entre o vivido e a lógica da construção da intriga
transforma o discurso em narrativa histórica, quando “acontecimentos fragmentários
adquirem significação inteligível na conformação de um enredo”. Portanto, a história é
construção (literária) e depende da narrativa.
De Certeau (1994) reforça a efetividade do método hermenêutico quando se refere à
revelação do passado como dobra na temporalidade, a “exumação dos restos realizada pela
hermenêutica da falta”, pois o que existe entre o que é dito e o que não é dito são lacunas
abertas pelo “esforço de compreensão de que nenhuma testemunha do passado é privilegiada
com relação à verdade”. Faz-se necessário, portanto, “um exercício hermenêutico para abrir
lugar para o outro”. Exercício este ao qual Ricouer (1997) se refere como construção (uma
construção literária), que se dá em três momentos distintos, mas interdependentes e
complementares: a mimese 1 ou a “prefiguração do campo prático”, isto é, o vivido
prefigurado pela narrativa, que contempla conceitos de ação (quem, como, por que...) e suas
mediações simbólicas; a mimese 2 ou “a configuração textual do campo prático”, isto é, o
enredo, o texto construído como intriga, em uma configuração lógica e não em sucessão
cronológica; e a mimese 3 ou “a refiguração pela recepção da obra”, que se refere ao papel
recriador do leitor da intriga.
Desse modo, no enredo histórico da narrativa, temporalidades e escalaridades são
elementos a se considerar em um processo dinâmico e não linear, à medida que o mundo
lógico do texto, presente na mimese 2, interage com o mundo vivido, da mimese 1, produzindo
um espaço de eventos e significados que se submeterá à mimese 3, com a recriação do leitor.
É, sem dúvida, um processo de criação e recriação, de modo que a narrativa histórica parte do
vivido e retorna ao mesmo vivido. Mediar tempo e narrativa é, portanto, construir a relação
entre esses três “tempos miméticos”, o que configura a proposta deste artigo quanto à análise
da formação histórica do bairro Grã Duquesa, a partir da experiência daqueles que
vivenciaram a história.

LINDALVA E PERIM – NARRATIVAS DE UM GRÃ DUQUESA EM DIFERENTES


TEMPOS E ESCALAS

No presente artigo, acessar a constituição histórico-territorial do bairro Grã Duquesa, a


partir da memória de seus personagens, constitui exercício hermenêutico que toma como base
as narrativas do Sr. Ronaldo Perim e da Sra. Lindalva Auxiliadora, duas figuras muito
representativas para os processos de transformação do espaço em estudo e que fornecem, a
partir dos seus relatos, os subsídios necessários para a composição de uma trama lógica, capaz
de transmitir ao leitor uma interpretação da realidade, que, de acordo com o círculo
hermenêutico de Ricouer (1997), deve ser reconfigurada pelo próprio leitor.
Parte-se, portanto, dos relatos pautados na experiência do vivido, e busca-se, através
de uma interpretação densa, profunda, estabelecer os conectores entre o conteúdo das
narrativas e os elementos teóricos que se configuram em chaves de leitura – temporalidades e
escalaridades –, a fim de tecer uma intriga inteligível, que seja capaz de nos apresentar a
história (ou histórias) do Grã Duquesa, e que nos permita interpretar (muito mais do que
explicar) a configuração de um território.
A narrativa do Sr. Ronaldo Perim – proprietário da Construtora Carmo, empresa
responsável pela compra de uma área de 22,5 alqueires pertencentes à Grã-Duquesa de
Luxemburgo e, posteriormente, pelo loteamento de 20 alqueires que se transformariam no Grã
Duquesa – nos apresenta um bairro sob a forma de grande empreendimento imobiliário.
Figura ligada aos meandros da política, ocupando, inclusive, o cargo de prefeito e de vice-
prefeito de Governador Valadares em diferentes períodos, é interessante notar como o Sr.
Perim assume um papel de absoluto protagonismo em seus próprios relatos e, aproximando-se
da escala estratégica de De Certeau (1994), descreve o território como uma mera divisão
organizada de quadras e ruas que devem receber o devido aparelhamento urbano. Uma
distribuição de porções numeradas de espaços (lotes) ofertadas ao “consumo” das pessoas.
Em seu relato, o Sr. Perim não consegue precisar uma data, mas trata o lançamento
dos lotes e as primeiras vendas, em meados dos anos de 1960, como um evento
extraordinário, o que, inclusive, reforça o seu protagonismo. “... o que deu de gente foi uma
coisa assim impressionante. (...) deu tumulto... no primeiro dia nós vendemos, se não me
falha a memória, 350 lotes, 370 lotes. (...) foi uma coisa assim exuberante.” Ainda que não
consiga precisar uma referência cronológica, o Sr. Perim reforça uma referência espacial, ao
afirmar que o lançamento dos primeiros lotes foi realizado em um escritório que ocupava a
mesma área onde atualmente há um posto de gasolina, na Avenida Minas Gerais, “... em
frente ao Coelho Diniz” – um supermercado conhecido na cidade de Governador Valadares.
O protagonismo assumido pelo entrevistado em seus próprios relatos manifesta-se nas
várias ocasiões em que ele usa a primeira pessoa do singular. Mesmo quando ele tenta, de
certa forma, dividir o protagonismo, recorrendo à primeira pessoa do plural, logo em seguida,
na mesma frase, assume novamente o papel de destaque, como na passagem em que explica a
escolha dos nomes de algumas ruas do bairro: “O canal, por exemplo, nós colocamos
Avenida Veneza, porque em rememorando Veneza na Itália que tem muitos canais... Avenida
Itália, eu fiz uma homenagem a nossas origens italianas.”
Permeada de aspectos técnicos, de ordenamento territorial embasado na lógica
estruturante da escala estratégica, a narrativa do Sr. Perim apresenta ainda uma questão
peculiar quanto à temporalidade. Na verdade, é possível notar que, uma vez que trata o bairro
apenas como empreendimento imobiliário para “consumo” alheio, o entrevistado desenvolve
um relato marcado por uma espécie de lapso temporal. Não há um processo gradativo de
transformação das estruturas urbanas, de apropriação social do bairro, mas apenas dois pontos
distintos, separados por uma dobra temporal: um território que constituía oportunidade de
negócio – “Fizemos o lançamento do loteamento com um sucesso retumbante, fantástico, eu
acredito que nenhum outro alcançou o sucesso que o Grã-Duquesa.” – e um território já
consolidado sob o ponto de vista funcional, que, inclusive, enche o Sr. Perim de orgulho
incontido – “E hoje, para a minha satisfação pessoal (...) eu vejo como um dos bairros de
grande conforto e operacionalidade para os seus moradores, que está perto e próximo ao
Centro, com uma boa infraestrutura...”
Segundo Ricouer (1997), em uma narrativa, um determinado agente, ou personagem,
pode ser constituído à maneira de protagonista, com uma trajetória humana saturada de
eventos importantes, enquanto outras trajetórias se reduzem a uma participação pontual. Não
é difícil perceber, portanto, o papel que o Sr. Perim reserva para si mesmo em seus relatos
sobre a constituição histórica do bairro Grã Duquesa. Assim como não é difícil perceber que,
se “nenhuma testemunha do passado é privilegiada com relação à verdade” e a “hermenêutica
da falta” permite exumar restos a partir do silêncio e dos vãos (DE CERTEAU, 1994), há um
marcado lapso temporal na narrativa do Sr. Perim, que percebe o Grã Duquesa como dois
pontos distintos: o empreendimento imobiliário e o bairro pronto (sob o ponto de vista
estrutural). Tal perspectiva relaciona-se à escala estratégica do seu relato, que se afasta da
apropriação do espaço pelos usos cotidianos. Segundo De Certeau (1994), a produção
estratégica é racional, centralizada e barulhenta; e uma estratégia pode ser uma entidade ou
mesmo um indivíduo que seja reconhecido como autoridade (ou que se perceba assim).
Como uma espécie de contraponto – em vários aspectos e ainda que isso não reflita
qualquer direcionamento ou intenção prévia das entrevistas – ao depoimento do Sr. Perim,
temos a narrativa da Sra. Lindalva Auxiliadora, moradora do Grã Duquesa desde os
primórdios da ocupação do referido território. Segunda a própria entrevistada, ela reside no
Grã Duquesa há 43 anos, desde uma época em que o espaço do bairro era predominantemente
ocupado por lotes vagos e fazendas. “... poucas casas e, e muito campo, muita fazenda. As
fazendas ainda eram predominantes aqui. Os lotes vagos, né e mais algumas fazendas...”
A ressignificação social do espaço e o sentimento de pertencimento manifestam-se já
no início da narrativa da Sra. Lindalva: “Eu toda vida gostei daqui, apesar das ruas não
serem calçadas e... mas, a casa era minha, o povo... os moradores eram bons, são bons até
hoje e... foi bom, as crianças eram livres, brincavam na rua, não tinha perigo. Então, me dei
muito bem, desde que mudei pra cá.” O aparelhamento urbano, ainda que precário no que se
refere a estruturas, aparenta ter menos relevância do que o convívio social, a segurança e a
liberdade, elementos que se destacam na experiência do vivido.
Diferentemente da narrativa do Sr. Perim, os relatos da Sra. Lindalva trazem à tona um
território de sucessivas e gradativas transformações, com uma sobreposição de
temporalidades, todas presentificadas através da memória, que vão desde o bairro periférico e
de baixa renda, distante do centro não por uma questão geográfica, mas por dificuldades
estruturais – “... em Governador Valadares da linha férrea para o lado de cá, é... não era
calçado, não existia o mergulhão, então pra ir pro centro tinha que esperar o trem passar,
com, é... muitos vagões, tinha de aguardar até acabar” –, até o bairro de aparelhamento
urbano moderno – “A diferença é o calçamento, né. Agora é, a praça tá muito bonita. A
igreja, maravilhosa. (...) Mais um colégio que veio, mais uma escola que veio e as casa mais
bonitas, né. (...) ... agora tem linha de ônibus, né.”
Na experiência vivenciada pela Sra. Lindalva, a ocupação e expansão do Grã Duquesa
não são meros resultados de um empreendimento comercial prodigioso, mas refletem um
processo de mudanças gradativas, impulsionadas por dois eventos específicos. Segundo
Ricouer (1997), onde existe evento, existe narrativa, e o evento é justamente aquilo que
produz mudança no interior da narrativa. Nesse sentido, podemos destacar nos relatos de
memória da Sra. Lindalva dois eventos significativos, que alteraram os rumos de
desenvolvimento do Grã Duquesa, levando-o da imagem de bairro periférico, ocupado por
pessoas de baixa renda, até a imagem de um bairro sofisticado, funcional e com boa infra-
estrutura: a construção dos conjuntos habitacionais do Banco Nacional de Habitação (BNH) e
a enchente que afetou a Ilha dos Araújos (bairro cercado pelo Rio Doce, em Governador
Valadares) e levou muitos moradores a se deslocarem para o Grã Duquesa, à época, um bairro
ainda em formação.
“... esse bairro aqui foi construído através da Economiza, como BNH hoje, casas
populares e até então tinham poucas casas nesse bairro, após a enchente da Ilha, o bairro
ficou valorizado e começaram a lot... os loteamentos e hoje tem casas muito boas e o bairro é
muito bom.” A Economiza era uma cooperativa de crédito responsável pela construção dos
conjuntos habitacionais do BNH em Governador Valadares e também é citada no relato do Sr.
Perim, mas não de maneira nominal e em passagem superficial da narrativa. No relato da Sra.
Lindalva, as casas do BNH ganham papel de destaque na ocupação e expansão inicial do
bairro, mas é principalmente a enchente do Rio Doce e seus impactos sobre a Ilha dos
Araújos, bairro nobre, mas totalmente cercado pelo Rio Doce, que levam a uma mudança de
status e rumo do território em desenvolvimento.
A Sra. Lindalva não soube precisar o ano em que a enchente ocorreu, embora tenha se
referido a 1969. E ainda que a cidade já sofresse com problemas de inundações na década de
1960, é mais provável que a entrevistada tenha se referido à enchente de 1979, quando a
questão dos alagamentos ganha maior repercussão nos meios de comunicação municipais e,
provavelmente, inicia-se, em Valadares, “uma memória de perdas e transtornos causados
pelas águas do rio” (GENOVEZ et al, 2012). De qualquer forma, é interessante notar como o
acesso às memórias é realmente um exercício intencional de presentificação, ou mesmo de
esquecimento, de episódios selecionados. Na narrativa centralizada em sua própria figura, o
Sr. Perim simplesmente desconsidera os eventos externos que podem ter contribuído
decisivamente para a formação do Grã Duquesa, enquanto a Sra. Lindalva, moradora do
bairro e testemunha de suas modificações sucessivas, aponta dois eventos específicos como
elementos de grande impacto para a história do mesmo território. E a questão que aqui se
coloca não é apontar a presença ou ausência de razão. Quem está ou não com a verdade. Mas
sim verificar que, quando se considera uma realidade mediada por percepções, impressões e
sentimentos, um mesmo território pode ser objeto de diferentes experiências do vivido, que
desembocam em diferentes e ricas narrativas.
Retomando a análise da entrevista da Sra. Lindalva, há mais aspectos relevantes a se
destacar. Ainda que reconheça os processos de mudanças sucessivas do bairro e presentifique
diferentes estágios temporais em seu relato, as memórias da Sra. Lindalva se concentram em
duas temporalidades marcadamente distintas e que, por sua vez, refletem duas configurações
distintas do mesmo território, que poderíamos chamar de bairro “velho” e bairro “novo”.
O “velho” e o “novo” bairro, diferente do que acontece no relato do Sr. Perim, não
constituem o empreendimento imobiliário e o território estruturado, e também não há um
lapso de tempo entre eles. O que se observa na narrativa da Sra. Lindalva são idas e vindas a
períodos anteriores e posteriores ao atual aparelhamento urbano e a consequente ligação mais
rápida com o centro da cidade. É, portanto, uma apropriação do território que define
temporalidades: antes e depois. “... mas aí construíram essas casas da economiza, eram...
eram muitas casas aí, é... foi aonde progrediu, depois da enchente também melhorou muito.”
A transformação do espaço marca da passagem do tempo. A ideia de “progresso” tem
aspecto técnico e estrutural, e, por outro lado, há uma espécie de tentativa de demonstrar
aparente resignação com as mudanças: “Porque, não... não é assim. Melhor é porque assim,
agora tem linha de ônibus, né. Uma quantidade boa de ônibus, é... mais nessa parte. Eu tô
falando, mas antes era muito bom também. Que mais... ônibus, igreja, ruas. Aqui, a rua aqui
era pé de moleque, tá asfaltada, né. Mas tá bom.” A narrativa parece um percurso de
transformação de um território marcado pelo convívio social para um território marcado pelo
acréscimo das estruturas técnicas. À medida que o aparelhamento urbano se desenvolve, há
uma espécie de resignação marcada por uma justificativa de melhoria estética, em detrimento
das mudanças nas relações e nos significados atribuídos ao território.
Há, na narrativa da Sra. Lindalva, uma espécie de necessidade de dizer que as coisas
melhoraram, mas sempre nos aspectos técnico e estético – uso corrente da expressão “tá
bonita” para designar a estética das novas estruturas territoriais –, mas com a perda, muitas
vezes intencionalmente não percebida, dos significados atribuídos aos momentos de convívio,
da liberdade experienciada antes do aparelhamento urbano se completar. Talvez, para a Sra.
Lindalva, o bairro “velho”, mesmo com todo aparato técnico hoje associado ao território,
permanece existindo (ou pelo menos ela gostaria que assim o fosse).
As apropriações do território, os sentimentos de liberdade e a possibilidade de um
convívio social mais intenso são destacados em várias passagens do relato, sobretudo quando
a entrevistada se reporta ao bairro “velho”. As ruas como espaço de convívio – “A conversa
sempre na rua, na calçada.” –; o cômodo transformado em igreja – “Foi feito um cômodo lá,
uma construção, onde se celebrava o... uma missa, um padre vinha, não sei se uma vez por
mês...” –; o vôlei no terreno de terra – “O meu lazer era jogar vôlei com a meninada daqui do
bairro, com os jovens. Além do meu filho, né, meus filhos, os amigos dele, a gente jogava
vôlei ali na... numa pracinha que a gente apelidou de Ibirapueira, porque era no chão, não
tinha quadra, nem nada. A gente fincava as... os... as madeiras lá, pra segurar a rede e
jogava vôlei.” –; e mesmo o estranhamento diante de algumas práticas sociais – “Naquela
época o pessoal emprestava carro pros outros. Eu achava muito estranho isso. Um chegava
na casa do outro, quem tinha, né. Ah, me empresta seu carro? O outro emprestava. Achava
muito estranho isso.” –; são todos relatos que denotam a apropriação e significação do espaço
urbano, dos espaços de convívio social. São passagens que remetem às sutis “artes de fazer”,
às “invenções cotidianas” de De Certeau (1994).
E, nesse sentido, a narrativa da Sra. Lindalva afasta-se da escala estratégica (própria
dos relatos do Sr. Perim) e se aproxima da escala tática, aquela que engloba as práticas
comuns, “as operações clandestinas” que não se fazem notar com produtos próprios, mas sim
na maneira de empregar os produtos impostos para o “consumo”, segundo De Certeau (1994).
Ainda na perspectiva desse autor, nas atividades de apropriação (de reuso), as pessoas comuns
podem subverter os rituais e representações que lhes são impostos, como, por exemplo,
transformar uma praça em uma quadra de vôlei.
No episódio que trata do Ibirapueira (nome dado pelos moradores do Grã Duquesa a
um terreno de terra que deveria ser destinado a uma praça), por exemplo, há uma passagem
muito curiosa no relato da Sra. Lindalva, quando os personagens das nossas entrevistas se
encontram no universo da narrativa. Segundo a Sra. Lindalva, “o prefeito da época” (que se
trata do Sr. Ronaldo Perim), tinha a intenção de transformar o espaço da praça em um centro
esportivo, mas o projeto da prefeitura não atendia as exigências dos moradores que já usavam
o espaço para os jogos de vôlei – “... não fez a planta conforme a gente queria, a turma do
vôlei e eu queria que, transformasse a praça numa área de lazer pra todas as idades (...) aí
ele fez uma quadra só, aí nós largamos pra lá...”; temos, então, uma manifestação explícita
de confronto entre as escalas estratégica e tática e, no decorrer desse embate, o terreno que
deveria ser uma praça se transforma em quadra pela apropriação do espaço urbano, depois se
transforma em quadra em um projeto arquitetônico rejeitado pelos moradores, retornando, no
final, à condição de praça pública, atualmente instalada no território, mas, como faz questão
de frisar a Sra. Lindalva: “... uma praça muito bonita por sinal, mas não tem lazer, né. Só
um... não tem um escorregador, não tem um... um balanço, não tem nada assim, diferente. Só
uma praça, mas tá bonita.”
Ainda no que se refere às escalas, a questão surge até em situações que parecem
minúcias não muito relevantes, tais como os nomes dados às ruas dos bairros. Nomear as ruas
foi uma prerrogativa da ação estratégica, responsabilidade dos gestores que organizaram, do
ponto de vista macro, o espaço urbano. Justamente por isso, o relato do Sr. Perim destaca a
nomeação das ruas, enquanto a Sra. Lindalva demonstra desconhecimento: “Não, não tenho a
menor ideia. É mesmo, pensando bem nem lembrava de como foi dado, mas quando eu mudei
pra aqui já era esse nome, né. Com certeza o loteamento já tinha.”
Os significados do bairro “velho” da Sra. Lindalva também aparecem nos relatos sobre
a liberdade das brincadeiras na rua – “Brincavam muito! Muito mesmo. Divertiam.” A
segurança e as relações sociais de convívio intenso são, aos poucos, substituídas pelo
desenvolvimento do aparato urbano e pelo aumento da população residente. A força dos
elementos de caráter técnico na mudança das relações de convívio do bairro aparece em
passagem do relato que trata da televisão: “Televisão naquela época pegava assim do meio
dia adiante e às vezes a gente nem assistia tanto como hoje. A imagem não era boa não.” À
medida que a qualidade da imagem dos televisores aumenta, um maior número de pessoas se
reúne em torno dos aparelhos e as conversas tendem a se tornar mais escassas.
Assim, a partir dos relatos dos dois personagens entrevistados para este artigo, é
possível estabelecer relações entre os conteúdos de memória e os elementos conceituais que
tratam do acesso à realidade mediado pela cognição e sentimento humanos. Temporalidades,
escalaridades e os múltiplos caminho do vivido se manifestam para caracterizar a
configuração do território, que se não apresenta caminho histórico inexorável, dá pistas de
trajetórias que podem formar uma trama lógica, a partir da interpretação hermenêutica.

TECENDO A TRAMA

Em artigo que pretende interpretar um território a partir do círculo hermenêutico de


Paul Ricouer (1997), tecer considerações finais seria, no mínimo, incoerente, ou mesmo a
negação do processo de criação e recriação inerente às mimeses ricouerianas. Desse modo, as
considerações finais são substituídas pela configuração textual própria da mimese 2, isto é, a
construção lógica (e não sucessão cronológica) de uma intriga, que, de fato, teve início no
tópico anterior deste artigo, quando o vivido prefigurado pela narrativa – mimese 1 –, bem
como suas mediações simbólicas, transformaram-se em texto, com base nas análises das
narrativas do Sr. Perim e da Sra. Lindalva.
A partir da análise das narrativas, ficam ainda mais evidentes os conceitos de Kozel
(2010), segundo os quais o ser humano estabelece com o espaço uma relação emocional, que
vai além da percepção ou da representação, sendo impregnada pela força da experiência
vivida. Desse modo, as imagens que as pessoas constroem sobre o território são sempre
impregnadas de recordações, significados e experiências. E os múltiplos sentidos que um
lugar pode ter, para os que nele habitam, visitam ou com ele tem algum tipo de ligação, estão
ligados à “imaginação criadora”. Como reassalta Kozel (2010), o espaço percebido pela
imaginação é “espaço vivido”, não em sua positividade, mas com todas as “parcialidades da
imaginação”.
Por isso mesmo, no enredo histórico da narrativa, os bairros do Sr. Perim e da Sra.
Lindalva, embora os entrevistados se refiram à mesma porção delimitada de espaço, não
representam o mesmo território. Nas narrativas, há mais de um Grã Duquesa. Da “imaginação
criadora” do Sr. Perim, temos um território que a princípio é oportunidade de negócio, objeto
de especulação imobiliária, em escala tipicamente estratégica de relação com o espaço, e que,
em seguida, como se houvesse uma dobra temporal, aparece como bairro “pronto”, funcional,
dotado de todo o aparelhamento urbano e infraestrutura necessária ao atendimento das
necessidades de seus moradores (mesmo que estes nem sequer tenham sido devidamente
consultados a respeito). Já da “imaginação criadora” da Sra. Lindalva surge um território que
transita entre temporalidades, sucessões não cronológicas de etapas de transformação em que
se destacam dois momentos: o bairro “velho” e o bairro “novo”. Em um caminho de idas e
vindas, a narrativa da Sra. Lindalva percorre os dois momentos destacados e à medida que
apresenta uma satisfação, que mais parece aceitação resignada, com o desenvolvimento de
ordem técnica e funcional das estruturas do território, refere-se, em tom de nostalgia velada,
aos símbolos e significados inerentes a um estágio de convívio e interação sociais mais
intensos, quando a apropriação dos elementos do território (o terreno do vôlei, o cômodo em
que se realizavam as missas) parecia mais vívida e, em escala tipicamente tática, subvertia-se
o “consumo” do espaço com base nas artes cotidianas de fazer.
Para o Sr. Perim, o Grã Duquesa é um conjunto organizado de espaços e estruturas:
ruas, lotes e espaços de convívio. Convívio este não experimentado pelo personagem que
narra. Para a Sra. Lindalva, o bairro é mosaico de transformações cujos significados estão
intimamente ligados ao convívio e à apropriação social do espaço. Apropriação esta
experimentada diretamente pela personagem que narra. Isso explica, por exemplo, porque o
primeiro entrevistado destaca a proximidade do bairro com o centro da cidade como questão
definitiva e que valoriza o território, enquanto a segunda entrevistada mostra que tal
proximidade, durante muito tempo, não constituía realidade para os moradores do bairro, uma
vez que não se materializava sob o ponto de vista funcional, em função da ausência de uma
via de acesso que não passasse pela linha férrea. É interessante notar como a distância para o
centro, medida essencialmente espacial (metros, quilômetros...), é representada, no relato da
personagem, por uma medida de caráter temporal, a lenta passagem do trem.
Ainda que a história do Grã Duquesa não represente trajetória única e inequívoca,
como os relatos permitem perceber, o desenrolar de uma trama lógica, a partir das narrativas
coletadas, apresenta um bairro que, pelos idos dos anos de 1960, intensifica o seu processo de
formação e guarda características semelhantes àquelas que remetem à formação de vários
outros bairros periféricos, que se constituem a partir da expansão urbana. Inicialmente
ocupado por famílias de baixo poder aquisitivo e constituído por construções de baixo custo,
típicas de programas de habitação subsidiados pelo governo (BNH), a partir da enchente que
assolou a cidade de Governador Valadares em 1979, o Grã Duquesa apresenta uma guinada
no seu processo de crescimento e no seu status territorial.
Visto como alternativa de moradia para pessoas que sofreram as graves consequências
da enchente de 1979, sobretudo pelos moradores da Ilha dos Araújos, bairro nobre de
Governador Valadares, o Grã Duquesa passa a receber famílias de maior poder aquisitivo e
seu processo de crescimento se intensifica ao mesmo tempo em que se reconfigura a
percepção de status associada ao território. Com a criação de vias de acesso ao centro que não
passavam pela linha férrea, consolida-se a nova imagem do bairro como território nobre, com
infraestrutura privilegiada, terrenos e construções valorizados. Um aparato técnico e estrutural
bem diferente daquele encontrado pela Sra. Lindalva nos primórdios de constituição do
território. Em termos estéticos e funcionais, um novo território, que traz consigo uma série de
novos significados para aqueles eu acompanharam suas transformações.
Retomando o acesso ao território pela memória e pela narrativa, pode-se dizer que,
segundo a proposta deste artigo, o mundo lógico do texto (mimese 2), configurado a partir do
mundo vivido (mimese 1), produz um espaço de eventos e significados que nos remetem à
história ou histórias do Grã Duquesa e que agora se submete ao processo de recriação
(mimese 3), que cabe ao leitor. Assim, a narrativa histórica parte do vivido e retorna ao
mesmo vivido para apresentar a formação histórica do território do bairro Grã Duquesa, a
partir da experiência daqueles que vivenciaram a história.

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