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Gabriel Nathan Wosniacki GRR 20140622

OA091 - Música e Rock

Projeto Final

Este trabalho apresenta uma comparação entre as diferentes técnicas de gravação

utilizadas nos álbuns: “Revolver” (1966) do grupo musical The Beatles; “Heroes” (1977) de

David Bowie e “Mellon Collie and the Infinite Sadness” (1995) do grupo Smashing Pumpkins.

Iniciando a análise por meio da música Tomorrow Never Knows do álbum Revolver,

podemos notar que um primeiro aspecto, muito importante para o entendimento da construção do

disco, é a definição do grupo The Beatles em um estágio em que entendiam o estúdio de gravação

como uma ferramenta composicional.

Dentre os avanços da tecnologia no âmbito da gravação, se destaca a nova possibilidade

de se manipular a gravação da fita magnética, por meio de inúmeros processos, em grande parte

descobertos pelo experimentalismo de Karlheinz Stockhausen, compositor de música

eletroacústica e contemporâneo dos Beatles. A música Gesang der Jünglinge, de Stockhausen,

despertou grande interesse e admiração de Paul McCartney, que por meio desta descobriu a

habilidade de se criar um efeito de saturação na gravação de som, fazendo o uso de uma técnica

em que se retira a cabeça do gravador de rolo e assim é criado um loop o qual é sobescrito na

gravação original diversas vezes para criar a saturação.

Influenciado por suas novas descobertas, Paul sugeriu ao grupo que criassem loops de

gravações e assim foi feito e entregue ao produtor George Martin, cerca de 30 loops para serem

utilizados na produção da música. Os loops foram selecionados e manipulados de modo a se

acelerar ou atrasar o tempo de reprodução e também os revertendo e saturando. Essas gravações

foram então integradas na música e sobrepostas como determinado pelos Beatles e seu produtor.
Outra experimentação realizada foi gravar a voz de John Lennon passando através de um

alto-falante leslie, o qual era mais comumente utilizado para criar efeitos de chorus e tremolo em

órgãos elétricos, isso teria ocorrido também devido ao fato de que John Lennon frequentemente

era impaciente sobre gravar dobras de vocal.

O experimentalismo realizado na gravação deste disco do Beatles foi algo de fato

inovador e nunca antes visto em músicas populares na década de 60. Mais que uma preocupação

com a qualidade sonora, as características de timbre, ideias e inovações eram o foco do projeto.

Por meio do álbum Revolver, The Beatles mostrava ao mundo um novo instrumento musical a

ser explorado, o estúdio de gravação.

Em 1977, uma década mais tarde, o disco Heroes, de David Bowie era lançado. Com a

produção assinada por Brian Eno e Tony Visconti, o álbum teve o desafio de se sobressair em

uma cena em que a música disco estava dominando todas as rádios e também lidar com o fato de

que artistas da época de Bowie, que se apresentavam em show em arenas para plateias enormes,

eram agora confrontados por uma nova frente jovem que pregava a independência dos artistas,

contra selos e gravadoras, constituindo o movimento punk.

Inspirados pelo espírito de inovação já comum à David Bowie, unido à necessidade de

apresentar um novo material e uma nova perspectiva para sua música, as gravações tomaram um

rumo experimental, explorando técnicas alternativas de microfonação. Para a gravação dos vocais

de David Bowie, Tony Visconti teve uma abordagem nada familiar aos tradicionais métodos de

gravação, até mesmo se comparado aos dias de hoje. Fazendo proveito da grande sala que tinham

à disposição, com uma grande reverberação, Visconti utilizou três microfones, o primeiro bem

perto de Bowie, o segundo a cerca de cinco metros de distância e o terceiro a uma média de 15

metros de distância do cantor. O primeiro microfone foi configurado de maneira tradicional,

captando a voz de David como seria em uma gravação regular, adicionando um pouco de

compressão e equalização. No segundo e no terceiro microfone, um gate foi configurado para que

o som só fosse gravado e reproduzido se o microfone captasse um mínimo de volume pré-

determinado e dessa maneira Tony Visconti pode captar vocais de uma dinâmica enorme e
criativa e que estimulavam David Bowie a explorar ainda mais a sua própria dinâmica, em função

dos efeitos que ele podia então criar a partir dessa microfonação.

Como se não bastasse o grupo que já estava formado, Robert Fripp, guitarrista do King

Crimson`s, viria a participar das gravações. Em dado momento, para a música Heroes, a guitarra

de Robert foi plugada em um sintetizador que Brian Eno levou ao estúdio e do sintetizador foi

gravada em linha em um pré – amplificador Neve. Junto à manipulação do som da guitarra no

sintetizador de Eno, Robert Fripp utilizou da realimentação do som da guitarra através da

reprodução simultânea da gravação nos monitores de áudio, e para tal, marcas de distância foram

feitas no chão, determinando o melhor posicionamento para cada nota que era tocada, em busca

do som desejado. Após realizarem este processo três vezes e não ficarem satisfeitos com o

resultado, ainda que os sons fossem singulares e interessantíssimos, Tony Visconti sugeriu que

os três takes, que até então eram totalmente independentes e não haviam sido pensados para

tocarem ao mesmo tempo, fossem justamente postos como um só. O resultado foram vários

timbres e frases de guitarra etéreas de Robert Fripp descritos por Visconti como celestiais.

Além da utilização do sintetizador de Brian Eno, ainda foram gravados sons de sopros de

metais e sessão de cordas de outros dois sintetizadores ainda bastante primitivos. Para David era

preferível utilizar o que estivesse ao alcance do que ficar uma hora ou mais à espera da chegada

de um músico para tocar metais ou cordas. Foi um processo livre, que carregou muito do

momento em que foi concebido e das pessoas envolvidas. Mentes abertas à experimentação e um

ótimo trabalho em grupo marcaram as gravações do disco Heroes.

Em 1995, no dia 24 de outubro era lançado um dos trabalhos mais ambiciosos da década

de 90 e da história do rock. Mellon Collie and the Infinite Sadness foi o terceiro álbum de estúdio

da banda Smashing Pumpkins , composto por 28 faixas e produzido por Billy Corgan, Alan

Moulder e Flood. Idealizado para ser um disco que representasse e influenciasse as ideias de uma

geração, assim como foi o The Wall da banda Pink Floyd, o disco teve todos os cuidados de Billy

Corgan que procurava atingir neste álbuns as sonoridades que não havia atingido no antecessor

Siamese Dream.
Na guitarra Corgan menciona ter encontrado o balanço que sempre quis entre um grave

forte e impactante mas com claridade e definição nos agudos, algo que em Siamese Dream não

foi atingido segundo ele. Para tal, não apenas a nova escolha de amplificadores e compressor para

a guitarra fez a diferença, como também a visão de Flood que sentiu as gravações diferentes da

apresentação da banda ao vivo e para atingir o som ideal realizou gravações em volumes

extremamente altos para captar a energia da banda. Também servindo à esse propósito de atingir

o som do apresentação ao vivo, uma mixagem híbrida com equipamentos analógicos e digitais foi

utilizada.

Com a ascensão do software Pro Tools como uma nova ferramenta a ser utilizada pelos

estúdios de gravação da época, englobando todo o processo de gravação à uma interface digital

de operação que possibilita muitas mais alternativas de edição e manipulação do som, o disco

Mellon Collie and the Infinite Sadness teve em sua construção arranjos que contém

sinteitizadores, loops de bateria e instrumentos virtuais simulando orquestra. Estes elementos

acabaram sendo bem vindos devido à intensa rotina de trabalho que o projeto vinha sofrendo e

dessa maneira a banda encontrou uma maneira de facilitar ao menos uma pequena parte da

gravação das músicas.

Com o grupo trabalhando de 12 a 16 horas por dia nos últimos dias que antecediam a

data limite para finalização do trabalho, e a postura firme de Billy Corgan afirmando que se o

álbum fosse considerado um fracasso, era o momento de a banda acabar, o Smashing Pumpkins

atingiu a primeira posição na Billboard pela primeira vez na história e entrou para a lista dos 200

álbuns definitivos no Rock and Roll Hall da Fama.

Das experimentações em gravações em rolo de fita, manipulando-as a fim de criar novos

timbres através de técnicas manuais de corte, sobreposição e colagens das fitas magnéticas, assim

como a criação de loops para serem reproduzidos em diferente velocidades e de trás para frente,

à técnicas de microfonação alternativas e criativas, que valorizam o ambiente e a performance do

músico, como também a produção inteligente que cria timbres antes inimagináveis ao brincar com

“falhas” do áudio, culminando em um processo totalmente funcional, em que o músico tem todas
as ferramentas possíveis à disposição, seja no digital ou analógico, chegando ao som idealizado,

as técnicas de gravação percorreram um longo caminho e a criatividade, inovação e ambição

continuam a ser as principais características de todo disco que entra para a história.

REFERÊNCIAS

Tape Loops and Studio Abuse: How The Beatles Recorded ‘Tomorrow Never
Knows’ https://enmoreaudio.com/tape-loops-and-studio-abuse-how-the-beatles-wrote-and-
recorded-tomorrow-never-knows/

Toni Visconti on producing David Bowie's "Heroes"


https://www.youtube.com/watch?v=9ClNGJXUWvk

Engineering the Sound: David Bowie’s ‘Heroes’


https://enmoreaudio.com/engineering-the-sound-david-bowies-
heroes/?fbclid=IwAR13k2pSlNiKvkIilVUL3IHXcbQRO_Ouoqxg1WXWll745zUgaF6iQhvculI

How Robert Fripp recorded the guitar line on David Bowie`s “Heroes”
https://originalfuzz.com/blogs/magazine/84621252-how-robert-fripp-recorded-the-guitar-line-
on-david-bowies-
heroes?fbclid=IwAR1JIoKya4wljGpKkqLk66V9LKuR2YaTrQiwnxYgwgi3bjc_53VvgLY7hk
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Engineering the Sound: the Smashing Pumpkins’ ‘Mellon Collie and the Infinite
Sadness’ https://enmoreaudio.com/engineering-the-sound-the-smashing-pumpkins-mellon-
collie-and-the-infinite-
sadness/?fbclid=IwAR0tVsD2H_Y9bLUtpozTl0i85s9pughrxOFo9SS8caQBai2GWJLJxieMRg
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