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Instituto de investigação Sócio-Cultural

Delegação Provincial de Manica

O olhar sociocultural dos casamentos Prematuros e


gravidezes precoces na Província de Manica:
Diagnóstico de dados recolhidos na mesa redonda
realizada no Distrito de Guro

Apoio logístico
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Introdução

Os casamentos prematuros e gravidezes precoces são realidades em Moçambique


em geral e na província de Manica em particular. Eles têm como consequências a
perpetuação da pobreza, violência contra o género, problemas de saúde
reprodutiva, perda de oportunidades de empoderamento por parte das crianças do
sexo feminino e mulheres.

Moçambique é o décimo país do mundo com prevalência mais elevada de


casamentos prematuros, onde as províncias de Cabo Delgado, Nampula e Manica
são as que apresentam maiores taxas de casamentos prematuros (Plano
Estratégico de Prevenção e Combate dos Casamentos Prematuros em Moçambique
2016-2019).

A criação, adopção e ratificação de vários instrumentos nacionais e internacionais


por parte de vários actores, elucida o interesse e comprometimento dos mesmos,
em reduzir e acabar com este mal social. Assim, os estudos existentes e em curso
visam alterar esse cenário actual, passando para uma situação ideal em que o
mesmo seja percebido ao nível das comunidades como sendo uma prática negativa,
que põe em causa o desenvolvimento físico e psicológico da rapariga vítima deste
acto.

Um dos factores apontado como causador de casamentos prematuros e gravidezes


precoces reside nas práticas culturais. Aleatoriamente, os ritos de iniciação são
apontados como a chave que dá acesso aos casamentos prematuros sem
menosprezar os outros actos como sororato, levirato, lobolo e revelações religiosas
que igualmente podem contribuir para o agravamento da problemática.

Entretanto, os estudos feitos até aqui se limitam em alistar os factores culturais sem
um estudo profundo dos mesmos, colocando assim desafios aos investigadores
sócio-culturais para intervir. É desta forma que o ARPAC – Instituto de Investigação
Sócio-Cultural, Delegação de Manica realizou no mês de Outubro de 2017, uma
mesa redonda no Distrito de Guro para auscultar as várias sensibilidades da
sociedade civil e outros intervenientes para melhor perceber o entendimento dos
casamentos prematuros e gravidezes precoces por parte das comunidades que são
detentores de várias práticas culturais. O Distrito de Guro foi escolhido por ser um

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dos mais afectados pelo fenómeno dos casamentos prematuros e gravidezes
precoces ao nível da Província de Manica.

Os resultados recolhidos na mesa redonda demonstraram que o fenómeno de


casamentos prematuros e gravidezes precoces é mais complexo e que a sua
análise deve ter em consideração a complexidade das causas desta maldade que
vão além dos aspectos socioculturais. Ficou mais claro, depois das auscultações
feitas, que há necessidade de fazer um estudo profundo dos casamentos
prematuros e gravidezes precoces para melhor orientação nas políticas de
mitigação.

Breve caracterização geográfica do Distrito de Guro

O Distrito de Guro está situado a norte da Província de Manica, fazendo fronteira a


Norte e Oeste com a Província de Tete, delimitado pelos rios Luenha e Zambeze; a
Este com o Distrito de Tambara; a Sul com os distritos de Báruè e Macossa. Com
uma superfície de 6.928Km2 e uma população de 68.347, recenseada em 2007, o
Distrito possui uma densidade populacional de 9.9 hab/Km 2.

Os Distrito contem quatro Postos Administrativos (Guro-Sede, Mandie, Mungari e


Nhamassonge), que por sua vez se subdividem em 11 Localidades.

O clima deste Distrito é do tipo semi-árido, caracterizado pela baixa humidade e


pouco volume pluviométrico. Com este tipo de clima, a agricultura se restringe em
culturas que resistem a seca tais como mapira, amendoim e mexoeira. Na pecuária,
nota-se a criação de cabrito, suínos e gado bovino.

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Distrito de Guro, localização e divisão administrativa. Fonte: ARPAC 2012

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Casamento no Distrito de Guro

O Distrito de Guro é habitado pelo grupo etnolinguístico Tonga, uma ramificação do


grupo Shona que tem laços identitários com o grupo Barke. Este grupo tem um
sistema patrilinear de organização onde a herança dos bens se transmite
directamente dos pais para os filhos masculinos. É daí que o nascimento de um filho
dentro da família é considerado de valor excepcional por este representar a
continuidade e guardião da riqueza familiar.

O casamento nesta etnia é ulorilocal onde a mulher é retirada da sua aldeia e vai
viver na casa da família do marido. O acto de casamento é um ritual de passagem
que garante a transformação de jovens adolescentes para a vida de adultos
carregada de muitas responsabilidades. A importância dada a esta instituição de
casamento verifica-se pelo envolvimento das famílias na escolha de quem
constituirá nora ou genro de uma determinada família.

Neste casamento patriarcal no Distrito, o individuo se encontra sob autoridade e


controle dos membros da sua linhagem especialmente os pais e avôs. É dentro
deste grupo decisório que se define as mais importantes relações jurídicas que
ditam os direitos e deveres da sexualidade. A mãe, que parou na família por lobolo,
não participa activamente na tomada de decisões sobre assuntos relacionados com
o casamento dos seus filhos.

Apesar de haver uma tendência de redução na actualidade, os homens, que


controlam a sexualidade das mulheres, têm na generalidade mais de uma esposa
particularmente aos que possuem riquezas. A posse em riquezas garante o
pagamento de lobolo às várias mulheres. Os parentes neste contexto, fazem de
tudo para suas filhas se casarem com homens considerados ricos visto que estes
apresentam uma oportunidade de trazer riqueza na família, não só através do
lobolo, mas também pelas oferendas que o homem passará a dar aos seus sogros.
Casar muitas mulheres nessa etnia é considerado vantajoso ao homem que não
precisará de contratar pessoas de fora de família para cultivar a terra de modo que
se disponha de mais produtos agrícolas.

No passado não muito recuado, os casamentos tradicionais ao nível do Distrito de


Guro aconteciam de várias formas. Nota-se que apesar da redução desses

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casamentos tradicionais, ainda verifica-se a sua pratica nas zonas mais recônditas
deste Distrito. Os contactos para estabelecer uma relação de casamento eram feitos
pelas duas famílias, sendo a do noivo que tomava a iniciativa. Quando, por motivos
de afinidades, uma família desejasse que um dos seus filhos pudesse casar com a
filha de uma determinada família, não precisava esperar que a tal menina crescesse
para tomar a decisão. Competia aos seus pais, através dos tios ou avôs avaliar a
potência económica e cultural do genro em cuidar da menina e seus familiares.
Assim que o genro fosse avaliado positivamente, automaticamente a menina
tornaria comprometida mesmo que seja recém-nascida.

Sendo já uma menina comprometida, a criança crescia com o seu marido a espera.
A família do rapaz neste caso tratava de todas as necessidades para o crescimento
da miúda. Depois de primeiros sinais de adolescência, considerava-se que a miúda
já podia se casar.

A idade não era posta muito em conta na decisão de casamento. O que interessava
eram as competências no cumprimento de deveres de esposa como fazer limpeza,
cuidar do marido e dos filhos, procriar e satisfazer o marido sexualmente. Para
garantir tais competências, a rapariga logo após primeira menstruação, era
acompanhada naturalmente de ritos de iniciação que lhe fazia entender dos seus
deveres e direitos como mãe e esposa. Note-se que diferentemente de outros
pontos do País onde os ritos de iniciação têm o tempo e lugar específico, no Distrito
de Guro esses ritos constituem uma prática permanente passada de pais para filhos
até ao casamento.

Diferentemente de hoje que as vestes abundam todas partes do Distrito, no passado


as meninas, desde a sua infância até a adolescência, normalmente se vestiam
somente na parte inferior do corpo e a parte superior ficava descoberta. A primeira
menstruação marcava o início de mocidade e os pais já compravam vestes para
cobrir a parte superior do corpo assim preparando a rapariga para o casamento. O
rapaz podia ser comprovado a sua maturidade para contrair o matrimónio a partir
dos ensinamentos dos ritos de iniciação e vontade de se masturbar, aliado ao
pagamento do imposto.

Faz-se necessário mencionar o papel das estruturas tradicionais na manutenção de


um código de conduta dentro das famílias. Através de ritos de iniciação, os
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adolescentes são, ou melhor, eram educados a hora que devem brincar fora de
casa e a hora de voltar para casa. Eram igualmente vedados brincar com os sexos
opostos quando atingir a puberdade. Esses valores ajudavam aos adolescentes a
não se meter em actividades conducentes às gravidezes precoces, pese embora
apresentavam uma determinada opressão principalmente para as raparigas que
tinham seus movimentos rigorosamente controladas.

Torna-se necessário mencionar que através do casamento, os casais já poderiam


fazer parte de pessoas respeitas na comunidade, portanto o casamento neste olhar
é visto como a emancipação de jovens que lhe dão direito de estarem envolvidos na
tomada de decisões que afectam as suas famílias. Neste olhar, o factor de as
crianças serem descartadas nas estruturas decisórias das comunidades, poderiam
ver o casamento como a única via de fazer parte das estruturas poderosas das
comunidades mesmo que isso significasse casar mais cedo para ganhar novo status
na comunidade.

Relacionado ao casamento, pode se notar outras práticas que ajudam analisar os


casamentos prematuros. Nessas comunidades patrilineares de Guro, o controle da
sexualidade de mulher abrange as irmãs mais novas de uma esposa caso esta
demonstrar a incapacidade de procriar por factores relacionados com a idade,
infertilidade ou mesmo a morte. Nesses casos, surge a necessidade de oferecer
uma irmã mais nova ao genro, uma pratica que localmente é conhecida por Milongo.

Sabe-se que quando uma mulher atinge a menopausa jamais nascerá filhos.
Querendo mais filhos, o seu esposo pode casar de novo fora da família da sua
esposa ou pela iniciativa da esposa juntos aos seus familiares pode-se oferecer a
irmã mais nova dessa esposa para nascer mais filhos. Em alguns casos as meninas
oferecidas podem não ter uma idade aceitável para se casar o que geralmente é
ignorado bastando existir os sinais de que a mesma já pode fazer filhos.

O mesmo cenário acontece quando uma mulher não consegue gerar filhos. Para
garantir a dignidade e a afinidade estabelecida entre as duas famílias no
casamento, oferece-se ao genro a irmã mais nova para procriar em nome da sua
irmã mais velha.

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Já quando morre uma esposa dentro de um lar, o esposo não pode ficar sozinho
havendo assim uma necessidade de lhe oferecer uma irmã mais nova da falecida
esposa para cuidar dos filhos e ainda garantir a procriação de outros. Este acto
antropologicamente é designado sororato. Raras vezes se olha na idade numérica
da menina oferecida, bastando ter a postura física de nascer.

Observando de forma crítica, pode se perceber que os casamentos tradicionais e


outras práticas alinhadas poderiam estar acontecer prematuramente pelo facto de
os indicadores por eles usados, a idade não fazer parte. Como se sabe, a primeira
menstruação pode acontecer e acontece muita das vezes antes dos 18 anos. Este
posicionamento pode nos remeter ao concluir que os casamentos prematuros nunca
constituíram um problema para as comunidades de Guro e que na actualidade
chama-se atenção aos membros da comunidade pela iniciativa do Governo.

Diagnóstico da situação actual dos casamentos prematuros e gravidezes


precoces no Distrito de Guro

Apesar dos cenários discutidos anteriormente apontarem às práticas tradicionais em


volta do casamento serem mais conducentes a problemática dos casamentos
prematuros, a situação actual dos casamentos não nos apresenta nenhuma
melhoria na mitigação deste problema. Aliás, há uma tendência de aumento dos
casamentos prematuros no Distrito de Guro mesmo no momento em que se pensa
que as comunidades estão mais sensibilizadas. Portanto, pode se deduzir que o
desenvolvimento trouxe consigo alguns desafios que tornam os grupos
considerados pobres mais vulneráveis. A vulnerabilidade desses grupos é mais
visível nas mulheres que, mesmo sabendo dos riscos associados a algumas
praticas, acabam se envolvendo em actos que arriscam a sua saúde sexual.

Actualmente o cenário relacionado aos casamentos no Distrito de Guro está


bastante conturbado. As gerações mais velhas do Distrito alegam que na
actualidade já não existe um casamento no seu sentido tradicional, isso porque os
casamentos hoje em dia partem de um problema de gravidez precoce. São muito
poucas vezes que as pessoas se casam de forma costumeira ou nas igrejas num
processo de consenso entre as duas famílias.

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Contrariamente aos casamentos prematuros resultantes de senhores de idade com
as meninas prematuras, o grande número desta problemática acontece entre jovens
na idade escolar. Os jovens começam a namorar primeiro, sem que os pais saibam,
relacionam-se sexualmente e sem prevenção alguma. Quando aparece uma grávida
primeiro usam os seus meios para a retirada desta grávida, e quando conseguem a
situação continua como estava, mas quando não conseguem fazer o aborto é
quando a situação aparece para os encarregados de educação.

Segundo alguns encarregados de educação, a forma como as apresentações são


feitas, cria alguma irritação aos pais das meninas, pois para estes, vários
investimentos teriam sido feitos a partir do nascimento da menina passando pelo
crescimento adicionado aos custos escolares que eles desprenderam para que a
menina pudesse estudar. É por esta razão que quando há uma situação de gravidez
precoce da menina, os pais sentem ter perdido um investimento que fizeram para o
futuro desta menina, e, para recuperar tudo quanto investiram na menina, acabam
por resolver o problema com os encarregados da parte do rapaz, o que no final
resulta na estipulação de valores monetários a serem pagos pela família do rapaz,
consequentemente a menina deve ser casada por este jovem. Essa tem sido uma
das razões que faz com que os pais não levem os problemas as autoridades
competentes para a sua resolução.

As gravidezes precoces e mesmo os casamentos prematuros ao nível do Distrito de


Guro tem acontecido entre jovens adolescentes, poucas vezes o cenário se tem
verificado entre uma menina e um adulto. Segundo os dados recolhidos nas escolas
pelos Serviços Distritais de Educação, Juventude e Tecnologia (SDEJT) de Guro,
dos 16 casos de casamentos prematuros registados até Setembro de 2017 no
distrito de Guro, todos casos aconteceram entre jovens adolescentes.

Todavia, há casos em que os pais encarregados obrigam as filhas a se casarem


prematuramente mas, pela sensibilidade que as raparigas têm na actualidade há
casos também em que as mesmas não aceitam tais decisões dos pais de se
casarem prematuramente e com homens adultos.

Há exemplos de casos frustrados de casamentos prematuros da zona de Kanhama


em que uma miúda devia ser casada com um senhor pertencente a ligação Escola-
Comunidade, que não chegou a ser consumado, pois o caso era do conhecimento
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do Género dos SDEJT de Guro que acompanhou até o seu desfecho, esse é um
crime de atentado ao pudor se olharmos pelos direitos da criança. Caso há, de uma
menina também que os pais obrigaram-na a se casar prematuramente, e para
alcançarem os seus intentos, os pais deixaram de comprar material escolar para a
menina, o que obrigou a esta menina pedir auxílio da professora da sua escola para
com ela viver por formas a conseguir estudar.

Portanto os casamentos prematuros no distrito de Guro é uma realidade mas há que


sublinhar que muitas vezes, isso acontece entre adolescentes existindo porém,
casos muito isolados em que pessoas adultas também se envolvem com menores.

Relações professor-aluna e vice-versa


Os professores alegam que são seduzidos pelas alunas através de suas maneiras
de vestir, como por exemplo saias de uniforme curtas, a maneira de sentar na sala
de aulas para além das maquilhagens que já reinam nas escolas secundárias.
Segundo esses professores, muitas vezes são as alunas que criam condições de
sedução porque vêm no professor uma oportunidade de ter necessidades básicas
da mocidade como roupas e alimentação. Todavia, há casos também em que
alguns professores seduzem as alunas de várias formas chantageando por exemplo
nas notas.

Os pais encarregados quando acompanham o relacionamento entre um professor e


sua filha as vezes vêm no professor uma oportunidade de genro economicamente
estável e acabam apoiando o casamento desses. Mas actualmente esses
problemas tentem a reduzir principalmente pelas sanções que os professores têm
quando engravidam suas alunas aliadas a introdução de uso obrigatório de uniforme
decente (saias cumpridas).

Contudo, o professor pela sua função nunca deve aparecer a justificar ter mantido
relações sexuais com alunas alegando a sedução, muito pelo contrário, o professor
está em condições como educador e aquele que ensina a ciência de chamar uma
aluna ou mesmo dentro da sala de aulas a explicar os alunos de como devem se
comportar perante a sociedade, pois desta maneira estaria ajudar a moldar uma
sociedade fortemente preparada para o futuro.

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A pobreza dos pais encarregados de educação
O poder económico de alguns pais não satisfazem as necessidades das filhas, ao
ponto destas se envolverem com os rapazes para lhes dar aquilo que o pai não
consegue e como resultado os rapazes exigem relações sexuais para compensar os
seus gastos. Nem sempre usam preservativo e como resultado surge a grávida
precoce. Aliado ainda a pobreza dos pais, é o facto destes mesmos pais quando a
filha aparece grávida optarem por mandar casar a filha para garantirem obter os
valores de lobolo, e por via disso optarem uma negociação com os pais do rapaz
infractor e não apresentarem queixas as autoridades.

Falta de instrução escolar dos encarregados de educação (analfabetismo)


A maior parte das crianças que se envolvem em casamentos prematuros, os seus
pais ou encarregados de educação não tem nenhuma instrução escolar e não
sabem ler e escrever, razão pela qual quando a filha se encontra envolvida numa
gravidez precoce e indesejada, estes optam por mandar casar a filha como forma de
reaverem os valores que gastaram na criação da filha até a escola. Portanto, a dado
momento, as filhas para estes pais acabam sendo fontes de renda mas que, no final
isso lhes trás situações piores porque as vezes essa filha pode ser casada com um
jovem que também não tem nada, com agravante de ser de certa forma um
casamento prematuro e forçado. Por ver o sofrimento piorado da filha, estes
mesmos pais voltam a recolher a filha junto do neto para criá-los, o que vai
deteriorar cada vez mais as suas condições de vida, tornando se num ciclo vicioso.

Portanto, ano após ano o Ministério de Educação e Desenvolvimento Humano tem


disponibilizado através do Orçamento Geral do Estado e Parceiros, fundos para
alfabetização das camadas desfavorecidas, e a pergunta seria: será que essa
alfabetização atinge o grupo alvo pela sua implementação? Se a resposta ser sim,
como se explica que até hoje as pessoas ainda continuem a pautar por atitudes que
jogam contra seu favor? Estarão a ser alfabetizadas?

Se a resposta for não, haveria uma necessidade de reformular estas políticas ao


nível do Ministério para que esta alfabetização seja efectiva no sentido verdadeiro
para trazer resultados desejados na vida das pessoas. Uma pessoa alfabetizada
tem capacidades de fazer a leitura dos tempos e análise crítica dos factos.

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Segundo depoimentos de algumas alunas, existem ao nível do distrito de Guro,
mães encarregadas de educação que agitam as suas filhas a se casarem,
mostrando-lhes algumas adolescentes vizinhas que já são mães e casadas. Este é
um grande indicador de que o analfabetismo pode e trás para o seio da família de
forma muito inocente um problema que pode comprometer toda uma geração. Se
essa mãe fosse no mínimo alfabetizada sabendo pelo menos ler e escrever, não
poderia colocar a sua família nesta situação, pois a única vantagem que ela poderia
estar a ver seria o status social ao nível da comunidade, mas com consequências
muito desastrosas para o futuro da família.

A alfabetização das classes sociais mais pobres, que por sua vez são as mesmas
famílias que enfrentam problemas de casamentos prematuros, seria um balão de
oxigénio para a redução dessa problemática, se todos formos unânimes de que a
instrução desperta a consciência, deve ter como resultado a mudança de atitude no
sentido positivo por parte do alfabetizando.

Entendimento conflituoso dos direitos da criança.


Há uma má percepção por parte dos pais a cerca dos direitos da criança, pois
segundo eles, a partir do momento em que foram sendo difundidos os direitos da
criança que proíbe o castigo corporal até alguma violência moral que no passado
eles usavam como forma de educar seus filho, e o direito dado as crianças de
apresentarem queixas as autoridades quando são maltratadas pelos pais
encarregados, estes optaram por serem neutros na vida social das crianças. Como
consequência disto, não há monitoramento da vida de uma criança, ela pode sair de
casa e ir para onde quiser sem que eles se preocupem com isso, a criança pode
sair e voltar a casa a qualquer hora que bem entender e os pais não perguntarem
nada, o que provoca uma vulnerabilidade na criança porque esta criança vai crescer
sem uma direcção, ao ponto de não analisar suas acções no momento de praticá-
las.

Falta de diálogo entre pais e filhos sobre a vida


A falta de diálogo sobre a vida entre os pais encarregados e até professores com os
alunos sobre a mesma temática projecta uma futura sociedade muito imprudente
nas suas acções e resulta não só em casos de casamentos prematuros e

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gravidezes precoces, como em crise de valores morais no seu todo. Os mais novos
não sabem respeitar os mais velhos, não sabem quanto prestígio as comunidades
tem em educação partida dos mais velhos e muito pelo contrário, acabam acusando
os anciões de práticas supersticiosas.

Ainda prevalece tabu a conversa entre os pais e os filhos sobre a vida sexual
mesmo sabendo que mais cedo os filhos terão acesso dos transtornos em volta do
sexo através de amigos, redes sociais e media. Os filhos acabam valorizando o que
ouvem de fora sobre a sua vida sexual, e na medida em que os primeiros sinais de
adolescência aparecem o desejo de experimentar manter relações sexuais é maior.

Seria prudentes as mães terem conversas com suas filhas e os pais com seus filhos
para que os filhos mais cedo saibam que não é tudo que o corpo manda que deve
se fazer, havendo assim a possibilidade de esclarecimento de todos os riscos
associados a manter relações sexuais muito cedo.

Programas televisivos não selectivos


Perante a globalização, há uma necessidade de sermos selectivos em tudo quanto
precisamos como consumidores, é preciso ter em conta aos programas das Nações
Unidas inerentes ao desenvolvimento como os Objectivos de Desenvolvimento do
Milénio (ODM) e os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) por parte do
Estado.

Se as empresas televisivas públicas e privadas no país, em plenas horas do dia


exibem novelas e filmes que pela natureza dos conteúdos deviam ser consumidos
pelos adultos, e pelo contrário são consumidos pelas crianças, o que se espera
dessas crianças? Haverá um desenvolvimento económico e social sustentável das
sociedades? Essa falta da selectividade para cada grupo alvo dos programas de
televisão por exemplo, trás como consequências a deterioração da moral, pois todos
consomem tudo sem excepção.

Tal como se faz com as bebidas alcoólicas, em que até na embalagem do recipiente
aparece o desencorajamento do seu consumo para os menores de 18 anos, os
programas televisivos deviam também ter em conta o tipo de consumidores a uma
determinada hora. Por exemplo, os filmes ou novelas em que as acções estão
relacionadas com pessoas de maior idade, deveriam ser exibidos nas horas
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nocturnas depois que os adolescentes vão a cama, é verdade que poderão colocar
em questão os lucros no caso dos privados, mas se o desenvolvimento que
precisamos é sustentável, é preciso criar-se uma equidade entre ofertas e
demandas.

No passado não muito longínquo, os programas televisivos eram diferenciados, as


casas de cinema sabiam muito bem o tipo de filme a colocar para cada faixa etária e
isso não era em vão! Naquele então as casas de cinema para os adolescentes e
crianças se exibia o matiné e alguns filmes de ficção, mas hoje não se verifica nada
disso,. Até hoje os outros países que têm casas de filmes tudo é projectado
segundo a faixa etária do grupo que vai consumir o produto, as televisões públicas
como privadas sabem como e quando exibir um determinado filme sempre tendo em
conta o grupo alvo (crianças, adolescentes ou adultos). Os pais também tem pouco
tempo de verificar que tipo de conteúdos os seus filhos assistem nas televisões.

Propostas preliminares sugeridas de mitigação


Em Moçambique, a idade núbil está fixada em 18 anos, mas a Lei da Família define
que “a mulher ou o homem com mais de 16 anos, a título excepcional, pode contrair
casamento, quando ocorram circunstâncias de reconhecido interesse público e
familiar e houver consentimento dos pais ou dos representantes legais”. Esta Lei
pode dar o azo ou abrir uma brecha pois dá alternativa a casamento prematuro com
alguns requisitos porque o casamento prematuro é a união marital envolvendo
menores de 18 anos. Uma breve revisão da lei de família pode ajudar de certa
forma a reduzir os casos de casamentos prematuros pois neste caso, não dá
exemplos claros e concretos de excepção para que alguém se case com menos de
18 anos, não diz a Lei quais as circunstâncias de interesse público e familiares que
podem condicionar estes casamentos.

A fluidez de informações relacionadas aos casamentos prematuros ou mesmo da


violação dos direitos da criança em geral, devem ser feitas para todas as instâncias
ou instituições que trabalham em prol dos direitos da criança e legalidade, o que
pode ajudar de certo modo a controlar este fenómeno. A título de exemplo, se os
SDEJT- Guro, teve o conhecimento de 16 casos de casamentos prematuros no
distrito, esta informação devia ser partilhada entre a justiça, atendimento de criança
e mulher vítima de violência e outros actores interessados nesta matéria.
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Pelo que se pode perceber, as filhas dos pais mais pobres casam cedo, e como
consequência, os netos e bisnetos destas famílias também a sorte que lhes espera
é a mesma, razão pela qual podemos falar da perpetuação da pobreza das famílias.
Deve haver formas mais rígidas, transparentes e equitativas na atribuição de valores
para o desenvolvimento de projectos de alívio a pobreza pois, acredita-se que uma
criança que pelo menos tenha as três refeições asseguradas durante o dia pode de
certa forma estar focada nos estudos, mas quando a criança sabe dizer que
chegará em casa e possivelmente não vai encontrar uma refeição para se alimentar,
facilmente pode aderir a caminhos menos abonatórios.

Se o assunto for elaboração de projectos para as pessoas se beneficiarem de


valores monetários para o seu desenvolvimento, queiramos ou não, as classes
sociais mais pobres dificilmente se podem beneficiar destes valores, porque nunca
poderão conseguir elaborar um projecto. Há aqui mais um espaço se essa for a
verdade, para reavalisar-se as formas de atribuição desses valores para a redução
da pobreza, partindo do principio de que os pobres devem ser os legítimos
beneficiários.

Alguns valores tradicionais são benéficos para as comunidades e se calhar o seu


resgatamento seria mais uma valia para complementar as acções actuais de
mitigação. O auto-controle é um dos exemplos que pode se citar. No passado um
jovem dos seus 15 ou mesmo 16 a 17 anos, quando o irmão mais velho se
ausentasse para fora da zona por alguma razão, ele podia acompanhar a cunhada
durante as noites na casa, e até podiam dormir na mesma esteira cobrindo o
mesmo cobertor. Segundo os participantes da mesa redonda, isso se devia a
grande educação tradicional que se dava aos jovens e estes acatavam as
recomendações dos mais velhos.

Os casamentos só podiam acontecer muita das vezes com o aval dos anciãos da
família e da comunidade, e quem não seguisse o recomendado tinha suas
consequências. Por exemplo dizem que, se uma menina se relacionasse
sexualmente e precocemente, acabava por consumir excrementos de galinha e era
logo um sinal de que ela teve relações sexuais com alguém, mas depois tratava-se.
Hoje essas forças de crenças já não se fazem sentir nas comunidades devido a
excessivas violações destas regras.

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Portanto, é um conjunto de vários factores que pede a participação do Governo e de
todas as camadas da sociedade civil para estancar este fenómeno, através de
acções concretas e que influenciem na vida das populações mais pobres.

Conclusão

Realizada a mesa redonda sobre o olhar sociocultural dos casamentos prematuros


e gravidezes precoces no Distrito de Guro, pode se concluir que apesar de praticas
tradicionais aliadas ao casamento serem mais conducentes à esta problemática,
mas a complexidade das relações na era moderna nos remete a uma reflexão para
sair com uma precisão às reais causas de casamentos prematuros e gravidezes
precoces. Contrariamente ao mais divulgado, os casos de casamentos prematuros e
gravidezes precoces no Distrito de Guro, segundo os participantes da mesa
redonda, são mais frequentes entre jovens e não entre jovens raparigas e adultos.
Perante esta situação, um estudo profundo das causas desta problemática poderia
auxiliar as politicas de mitigação que o Governo implementa junto dos parceiros de
cooperação.

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