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UM OLHAR EM ARTE-EDUCAÇÃO

Paula Hollanda1

O período de três meses, em que tive a oportunidade de conduzir as aulas


de Arte para as segundas e quartas séries do Ensino Fundamental na EMEF Prof.
Carlos de Almeida, foi um percurso de intenso aprendizado como arte-educadora,
cujos resultados, registrados por meio das produções infantis, foram
enriquecedores.
Para esta experiência, escolhi o tema-gerador Retrato, que me possibilitaria
traçar uma seqüência significativa - “do auto-retrato ao retrato coletivo”, em
concordância com o desenvolvimento ordenado dos conteúdos básicos da
linguagem visual: linha, forma, luz e sombra, cor, composição (figura-fundo,
simetria e outros).
Para conhecermos o mundo, precisamos conhecer a nós mesmos primeiro.
Por isso, começamos com o auto-retrato. Algumas crianças não conseguiam
constituir a estrutura básica de seu rosto. Os elementos dispersos não se
relacionavam entre si. Isso demonstrava uma desestruturação da imagem
corporal, processo em muito influenciado pela experiência atual de fragmentação
socialmente relacionada, por um lado, pelo grande movimento de “aculturação”
em prol da alienação de sentidos, numa amnésia corrosiva de si mesmo que a
mídia popular incentiva e, por outro, como conseqüência de uma “cultura
especializada”, que gerou um profissionalismo unidirecionado, despreparado para
contribuir com a multiplicidade necessária para o desenvolvimento integral do
indivíduo e da sociedade.
O movimento de construção de um novo paradigma social para o
desenvolvimento de uma nova ética global, de uma sociedade dialógica baseada
na empatia, na solidariedade, pede que foquemos, enquanto educadores, nas
“pontes”, nas possibilidades de diálogo, de integração, no estabelecimento de
links, de canais de significação correlacionais, na compreensão do contexto, no
resgate e na construção do sentido. O construtivismo despertou a atenção para a

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Arte-educadora, trabalha na EMEF Carlos de Almeida.
importância do processo, o que é fundamental nas atividades de criação artística
relacionadas ao desenvolvimento humano e das aprendizagens.
Autores contemporâneos compartilham destes princípios, como norteadores
de uma nova educação, para a qual a arte tem muito a contribuir, e de uma nova e
necessária ética social. Paulo Freire estende a reflexão sobre a realização do
indivíduo ao social, desenvolvimento como organismo integrado. Edgar Morin, em
seu grandioso conceito de antropo-ética, expõe como princípios do conhecimento
pertinente a promoção do conhecimento capaz de apreender problemas globais e
fundamentais, para neles inserir os conhecimentos parciais e locais; do
conhecimento capaz de apreender os objetos em seu contexto, sua complexidade,
seu conjunto. Maria Helena Andrés comenta: “Atualmente, os artistas estão
compreendendo que o desenvolvimento de suas aptidões artísticas não se destina
apenas a apresentações públicas e ao reforço do ego, mas ao trabalho muitas
vezes anônimo de ajudar os outros a criar.” (p 162)
A arte-educação, como ação pedagógica integrada a este contexto,
contribui para a transformação individual e social.
Voltando à experiência com os alunos. Para a compreensão da estrutura
formal do rosto, propus a observação do próprio rosto em um “espelhinho”, que o
emoldurava, tornando-o um “objeto-imagem” possível (os limites espaciais
auxiliam na compreensão das relações formais). Isso proporcionou a descoberta
de que existe uma ordem natural, uma simetria, uma proporção na relação entre
os elementos – Pranchas 2, 3, 4.
Foi o início da compreensão da “gramática visual” que estimulou o
desenhar, o gesto gráfico, como uma referência e um direcionamento.
As artes visuais, em uma primeira análise parecem referir-se somente ao
desenvolvimento da visão, ou, numa segunda instância, das capacidades
cognitivas diretamente relacionadas, a exemplo da discriminação visual. No
entanto, numa perspectiva mais abrangente, propicia o desenvolvimento fisico-
psíquico do indivíduo. Proporciona a construção das significativas relações
espaço-temporais, abrangendo dimensões como: ritmo, equilíbrio, proporção,,
fundamentais para o desenvolvimento da capacidade de análise e síntese que
constituem uma estrutura comportamental básica para o paradigma social
emergente.
O ensino da Arte para crianças, a partir da década de 1960, passou pela
total abertura metodológica com investimento na livre expressão, em contraponto
ao tecnicismo de décadas anteriores da pedagogia tradicional, despreocupada
com o desenvolvimento integral do ser. Assim, houve uma valorização do brincar e
do desenho infantil, cujo desenvolvimento é fator de inteira importância à
construção do ser intelectual e afetivo, aspecto reforçado pelo desenvolvimento da
psicanálise.
Apesar de trazer em si aspectos essenciais e necessários de ludicidade, de
liberdade e de respeito à autonomia, a criação artística envolve parâmetros
enquanto linguagem expressiva, o que torna fundamental o desenvolvimento de
metodologias no ensino da Arte que pensem cada vez mais em como propor
caminhos que propiciem processos de aprendizagens para o desenvolvimento do
indivíduo em seus múltiplos aspectos (psíquicos, cognitivos, físicos, sociais,
emocionais...) por meio da sensibilização, reflexão, conscientização, ação criativa,
interação, cooperação, potencialização do ser como construtor de si e da
sociedade.
O foco é a expressividade. Como toda expressividade é subjetiva, a técnica
surge como elemento propiciador da objetivação que torna a expressividade
comunicação.
Várias crianças reproduziam desenhos e personagens estereotipados,
reforçados pela mídia que propõe um caminho oposto ao auto-conhecimento, na
medida em que induz o indivíduo a tentar se tornar outra pessoa. A verdadeira
transformação é a possibilidade do indivíduo tornar-se cada vez mais ele mesmo,
realizando suas potencialidades através do social.
Com uma certa resistência, não deixavam vir seu próprio gesto, com suas
características particulares: sua linha frágil ou forte, seu uso do espaço tímido ou
expansivo,... Na trajetória artística, como na vida, não existem “descaminhos”.
Todos os caminhos são significativos e se articulam em prol de uma ampla
aprendizagem. A questão é perceber a necessidade de existir diversas
expressões, inclusive as aparentemente opostas, que em geral possuem uma
profunda relação existencial: só ocorre a compreensão da luz através da
compreensão da sombra e vice-versa, uma reflexão plasticamente filosófica que
se estende a questões de níveis mais elevados.
Um aluno, ao observar o seu personagem que entristeceu depois que ele
inverteu o traço curvilíneo de sua boca disse de forma esplêndida: “Professora! A
tristeza é um sorriso ao contrário!” Filosofias de atelier!!! Fiquei dias e dias com
esta frase repercutindo e certamente modificando a minha existência. Acho que
faz parte e, mais do que isso, é essencial que, como educadora, acompanhando
os processos de transformação dos alunos, eu me permita ser transformada. Esta
certamente é base da educação dialógica...
Um outro ponto a ser pensado, a respeito da resistência citada no último
parágrafo, é a falta de confiança dos alunos em si mesmos, conseqüência da
fragmentação social de longa data. Achei interessante que em uma das aulas em
que observávamos algumas pinturas de artistas como Leonardo da Vinci e
Portinari, a quem as crianças elegeram como excelentes pintores, a expressão de
espanto em seus rostos quando comentei que esses artistas também foram
crianças e eram pessoas como a gente, que aprenderam a desenhar desenhando,
a pintar pintando, e que se dedicaram, acreditando em seu próprio modo de ser,
de ver e de fazer... Não eram seres de outro planeta, eram humanos. Seres
humanos na realização de potenciais humanos!
A transformação necessária de várias posturas contrárias ao
desenvolvimento ocorrerá a seu tempo, mas é preciso pôr-se a caminho.
Obviamente que não ocorrerá por milagre e nem virá como um final feliz de contos
de fada... Somos seres em construção, como diz Leonardo Boff, inacabados por
natureza, e a história feliz é percorrer o caminho, não esperar um final, mas
estarmos presentes, atentos aos passos de agora. Criar é estar presente.
Existimos e nos realizamos somente no caminho, no processo, na criação.
Na elaboração de retratos em técnica mista, algumas crianças, impacientes
e insatisfeitas com resultados iniciais, se mostraram reticentes em permanecer em
um mesmo trabalho por três ou quatro encontros. A proposta, cujo principal
objetivo era propiciar a vivência de uma busca estética, envolvia três momentos.
Primeiro, elaboraram o desenho estrutural do rosto em grafite. Depois,
pintaram sobre o desenho com guache, o que “destruiu” parcialmente o desenho
inicial. A desconstrução é uma das situações fundamentais em um processo de
criação: ninguém cria do nada, a criação propõe uma nova articulação,
configuração de elementos escolhidos e coletados de diversos e diferentes
contextos. Portanto, sempre se cria, se constrói a partir de uma desconstrução. No
terceiro momento, onde creio haver ocorrido a conquista de uma busca estética,
as crianças “recuperaram” os retratos com giz de cera, repensando traços e
qualidades cromáticas necessárias e significativas, o que ampliou a
expressividade e a integridade da imagem, especialmente das relações figura-
fundo – Prancha 5,6,7,8 e 9 (2as. e 4as. séries).
Na análise final dos trabalhos, em discussão com a classe, houve consenso
a respeito da qualidade estética conquistada por meio das intervenções, o que
influenciou as posturas, que se tornaram mais investigativas e comprometidas nos
trabalhos posteriores.
Apesar da necessidade de um traçado seqüencial de propostas
(planejamento), o caminho se faz caminhando, ou seja, em cada turma surgia uma
problemática distinta, o que possibilitou a elaboração de diferentes percursos
dentro de uma mesma proposta, contribuindo para a formação de uma identidade
própria para cada grupo.
A construção desta identidade coletiva ajudou a delinear identidades
individuais.
Em um estudo de luz e sombra, numa turma de quarta série que
apresentou dificuldades na compreensão da luz, interrompi o programa para
introduzir um estudo em pintura em giz de cera sobre papel camurça, a partir de
releituras de paisagens impressionistas de Monet. - Pranchas 10 e 11.
Ao retomar os retratos, o acréscimo na qualidade dos valores tonais e
cromáticos, além do grafismo, foi significativo - Prancha 12, 13, 14 e 15.
Inserir a criança no universo da criação artística é um exercício de
cidadania, pois nesta “prática de atelier”, ela é o agente que reflete, que interage,
que se expõe, que relê, que constrói a realidade. Terezinha Azerêdo Rios , em seu
livro Compreender e ensinar: por uma docência de melhor qualidade, diz: “... a
cidadania implica uma consciência de pertença a uma comunidade e também de
responsabilidade partilhada.” (p. 114). Evelina Dagnino expõe pontos
fundamentais sobre a noção contemporânea de cidadania pontuando a
importância da ação social criativa e participativa: “Na nova cidadania, há
possibilidade de não só usufruir dos direitos existentes, mas de inventar novos
direitos; ... a nova cidadania reivindica não a inclusão no sistema político, mas o
direito de participar na própria definição do sistema...” (p. 117)
Cada momento da prática artística: o comparar, o escolher, o relacionar, o
configurar, é um exercício que prepara o indivíduo para as atitudes que tem e terá
na vida. A criação não se limita à técnica, mas é no lidar com a matéria
expressiva, através do “fazer artístico” que se desenvolvem reflexões
fundamentais para o processo de formação e transformação do cidadão.
Exemplo disso ocorreu nas primeiras aulas de pintura à guache, na mistura
de pigmentos nas palhetas improvisadas (bandejas de carne), durante a busca de
tonalidades de pele para a elaboração dos retratos. Grande parte dessas crianças
são afro-descendentes, o que na rica mistura de raças tipicamente brasileira
proporciona uma infinita gama de tonalidades de pele. Deste grupo, apenas a
Carol, da segunda série, elaborou um retrato com a sua cor de pele. A maioria me
interrogava:
- Professora, como se faz cor de pele?
Eu respondia com outra pergunta:
-Qual pele?
- A sua, claro, pro. (branca)
Propus uma pesquisa plástica na procura de tonalidades de pele, a partir de
um matiz encontrado. Nesse gesto alquímico, surgiu a discussão e a reflexão, a
partir da extensa variedade de cores de pele dos alunos da classe, sobre a
questão do preconceito racial e da riqueza da diversidade. A produção abundante
abrangeu auto-retratos e retratos diversos, incluindo outras categorias geralmente
excluídas por um padrão estético socialmente imposto pela mídia (obesos e
idosos) – Prancha 1. Observando com profundidade, todo retrato é um “auto-
retrato”, no sentido de que nossos olhos encontram no outro fragmentos de nós
mesmos.
Os personagens afro-descendentes que nasceram destas reflexões
“éticas”, por meio de retratos que contam histórias, que certamente somam com
as de todos nós, foram expostos numa coletânea organizada em uma mostra em
comemoração à Semana da Consciência Negra, no Espaço Cidadania. - Pranchas
16, 17, 18 e 19.
O estudo da Arte, por meio da leitura de obras, de releituras, do fazer
artístico, adquire um valor extraordinário por ampliar o olhar da criança, permitindo
que leia a si mesma e ao mundo ao qual está inserida. Nesse processo aflora a
consciência de que não existe uma única verdade, e nisso, ela se fortalece e
amplia o seu gesto, valorizando a sua expressão e instaurando a consciência de
um gesto significativo e a importância de sua atitude, como protagonista na
transformação e criação da realidade.
As crianças acabaram de chegar no mundo. São fascinadas pelas cores,
texturas, formas, pelos cheiros e sons. Têm seus canais sensoriais muito abertos
para o espetáculo do mundo! Cabe à escola aproveitar esses potenciais
precursores das aprendizagens de toda a vida.
Cabe a nós, abdicarmos de nossa arrogância de adultos “sabe-tudo” para
saborearmos o universo das produções infantis e aprendermos, com a
multiplicidade dos olhares, a sermos também seres de abertura e transcendência.
É preciso cuidar dos processos educacionais, artísticos, vitais. Cuidado no
acompanhar os processos não-verbais, perceber o que as imagens trazem sobre
as crianças: os seus medos (janelas fechadas), os seus potenciais (janelas
abertas), os seus não-ditos... para que se desenvolvam em sua inteireza, em sua
magnitude humana...
Ninguém caminha sozinho e todo aprendizado individual se realiza através
de uma ação coletiva. Este trabalho só foi possível com o apoio dedicado da
direção e de professores e funcionários da escola. É no encontro com as pessoas
que o infinito se expressa...

PRANCHA 1 PRANCHA 2 PRANCHA 3 PRANCHA 4

PRANCHA 5 PRANCHA 6 PRANCHA 7 PRANCHA 8

PRANCHA 9 PRANCHA 10 PRANCHA 11


PRANCHA 12 PRANCHA 13 PRANCHA 14 PRANCHA 15

PRANCHA 16 PRANCHA 17 PRANCHA 18 PRANCHA 19


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