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t< T.H.L.

PARKER

Os sussurros desse
pregador ofegante tinham
a força de trombetas

(• Uma introdução a pregação de João Calvino •

OS

ORÁCULOS DE

DEUS
■ ■ I
O s O rá c u lo s d e D eu s, d e T .H .L . P arker © 2 0 1 6 E d ito ra C u ltu r a C ristã . O b ra p u b lic a d a o r ig in a lm e n te
c o m o títu lo 7 h e O racles o f G o d , © T.H .L. Parker, 1947. E sta e d iç ã o fo i p u b lica d a m e d ia n te a co r d o c o m
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P238o Parker, T.H.L.


O s O r á cu lo s d e D e u s / T.H.L. Parker; tra d u zid o p o r
G ab riel L opes. S ão Paulo: C ultura C ristã, 2 0 1 6

176 p.
T rad u ção T h e O ra cles o f G o d
IS B N 9 7 8 -8 5 -7 6 2 2 -5 8 8 -1

1. H o m ilé tic a 2. P regação I. T ítu lo

C D U 2 -4 7 5

A p o siç ã o d o u trin á ria d a ig reja P re sb ite ria n a d o llrasil é e x p re ssa e m se u s "sím b o lo s d e fé”, q u e a p re s e n ta m o m o d o
R e fo rm a d o e P re sb ite ria n o d e c o m p re e n d e r a E s c ritu ra . São esses sím b o lo s a C onfissão d e Fé d e W estm in ste r e seus
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SUMARIO

ABREVIATURAS.....................................................................................................11

PREFÁ C IO ................................................................................................................ 13

Capítulo 1 PREGAÇÃO ANTES DE CALVINO....................................... 17

Capítulo 2 CALVINO C O M O PR EG A D O R ............................................. 25

Capítulo 3 A DOU TRINA DA PREG AÇÃO............................................. 45

Capítulo 4 A RS PRAED IC A N D I................................................................... 65

Capítulo 5 O EVANGELHO DE CALVINO.............................................. 81

Capítulo 6 A INFLUÊNCIA DE CALVINO NA


PREGAÇÃO ING LESA............................................................. 107

Capítulo 7 VOLTANDO AOS FU N D A M E N T O S................................. 127

Apêndice 1 EXEMPLO DE SERMÃO POR CALVINO


EM LUCAS 2.9-14....................................................................... 141

Apêndice 2 TABELA CRO NOLÓG ICA DA PREGAÇÃO


DE CA LV IN O .............................................................................. 155

Apêndice 3 SERMÕES MANUSCRITOS EM G ENEBRA.....................159

Apêndice 4 SERMÕES N O CORPUS REFORM ATO RUM ..................... 163

Apêndice 5 PRIMEIRAS EDIÇÕES FRANCESAS


DOS SERM ÕES........................................................................... 165

Apêndice 6 TRADUÇÕES EM INGLÊS DOS SERMÕES


DE CALVIN O............................................................................... 169
44 OS O RÁCULO S DE DEUS

pregar depois de sua doença. Lem bro que era um dom ingo e que cantam os
o trigésim o salmo, um a m aneira m uito adequada de dar graças pela sua re­
cuperação. Era possível ver no seu rosto com o ele dava graças a Deus com
um p u ro e sincero senso de devoção.”51 A sim patia e a reverência p o r ele,
que vieram depois de perceberem a fragilidade física de seu fam oso pastor,
trouxeram os genebrinos em m assa para ouvi-lo pregar na São Pedro, de
m odo que ele propôs ao C onselho que outra igreja fosse encontrada ou
que um a antiga fosse restaurada porque um a grande parte da congregação
dentro da São Pedro não conseguiu ouvir. Se m ais nada pudesse ser feito,
cadeiras seriam postas nos corredores. Porém , essa súbita popularidade
não d u ro u m uito, e em outubro de 1561 os m inistros (e C alvino provavel­
m ente entre eles) estavam preocupados que as congregações não eram tão
num erosas quanto antes.
No entanto, seria incorreto deixar a im pressão de que sua pregação ter­
m inou em um a derrota parcial. Em sua própria vida ele pôde testem unhar
seus efeitos. Ele executou um trabalho durante vinte e oito anos, com o diz
Fairbairn, que m udou a face da cristandade. Genebra, antes da Reforma,
um a das cidades mais im orais da Europa, foi com pletam ente m udada e con­
tinuou com o um m odelo de piedade por mais de um século e meio. Sem
dúvida isso era em parte graças à disciplina exercida, m as disciplina seria de
pouca utilidade sem a pregação, quando a m oralidade foi firm ada em um a
base religiosa, e o povo continuam ente instigado à pureza de viver p or am or
a Jesus Cristo que havia m orrido por eles. M uitas outras cidades tinham
um a disciplina, aplicada com m aior ou m enor rigor, mas nenhum a viu um a
m udança de vida tão grande quanto Genebra. No exterior, na Suíça, França,
Inglaterra e Escócia, suas palavras ganharam um a autoridade quase apostó­
lica - os sussurros desse pregador ofegante (tom ando em prestado a frase de
John Buchan) tinham a autoridade de trom betas.
Em seis de fevereiro de 1564, com “a asm a im pedindo sua pronúncia”,
Calvino proferiu seu últim o sermão, sobre a harm onia dos evangelhos. Ele
prolongou-se p o r alguns meses, enfraquecendo aos poucos, até que m orreu
na noite do dia 27 de maio. “Veja com o num instante”, pranteou Beza, “n a­
quele dia o sol se pôs, e a luz mais radiante no m undo para a edificação da
igreja de Deus foi levada aos céus”.
Capítulo 3

A DOUTRINA
DA PREGAÇÃO
A PALAVRA DE DEUS

pesar de, em rigor, apenas um a interpretação ser possível para a expres­


A são “a Palavra de D eus”, essa assum e significados bastante distintos
depen d en d o do ponto de vista teológico do escritor. Nós a encontram os
em Schleierm acher, em um a Encíclica Pontifícia sobre pregação, e em
Barth - m as a expressão certam ente não assum e u m sentido invariável
em cada um dos três. M esm o entre os R eform adores, que eram m uito u n i­
dos nos aspectos centrais da teologia, não encontram os um uso constante
para esse term o, m as vem os um a diversidade grande no seu em prego, e
no m odo com o o relacionaram com a pregação, tem os um a divergência
de opinião tão m arcante quanto em suas d o u trin as eucarísticas, com as
quais isso de fato tem um a relação próxim a. Os p artid o s eram os m esm os
da controvérsia eucarística; nos dois extrem os estavam Lutero e os zuin-
glianos, e entre eles, ligado a am bos, mas distinto e único, estava Calvino.
A questão em destaque era se a Palavra (isto é, a Bíblia e a pregação) era,
ju n to com os sacram entos, um m eio de graça. Os entusiastas espirituais
(os Schwärmer), de m odo intenso, declaravam que o Espírito, com toda
sua graça, era entregue de im ediato à alm a, isto é, in d ep en d en te da Palavra
e dos sacram entos. Lutero, no extrem o oposto, ensinava que o Espírito
era dado som ente através da Palavra e dos sacram entos, que desse m odo
m ediavam a graça aos hom ens. Os zuinglianos não foram bem -sucedidos
em desbravar um a terceira via, e em princípio não se afastaram da imo
diação dos entusiastas. O bviam ente, não p o d iam segui-los no seu com
p k to abandono da Palavra, m as suspeitavam que a d o u trin a de Lutero era
Ofiiis opsraltim. Seus esforços foram confrontados pelas severas críticas
46 OS O RÁCULO S DE DEUS

de Lutero, que vam os reproduzir extensivam ente, pois nos dão um a visão
geral da controvérsia:

Eles estavam à mesa de Lutero conversando sobre Bullin-


ger, que acusava tanto os entusiastas por desdenhar da
Palavra de Deus, quanto aqueles que atribuíam im por­
tância demais à Palavra, pois eles pecam contra Deus e
sua divina onipotência tanto quanto aqueles judeus que
veneravam a arca como se fosse Deus. Ele (Bullinger), não
obstante, como alguém que desejava preservar um cam i­
nho do meio, ensinava qual era o uso correto da Palavra e
dos sacramentos.
Nisso, o Dr. M artinho respondeu e disse: Ele se engana,
e nem mesmo sabe o que acredita e o que advoga... Os dois
lados, nós e eles, se encontram em extremos opostos, en­
tre os quais não há caminho alternativo e nem pode haver.
Eles rejeitam completamente a Palavra oral e o poder e a
eficácia dos sacramentos, ao passo que nós os enfatizamos.
Agora eles buscam o meio-termo, e exaltam a Palavra e os
sacramentos a fim de que deixemos nosso significado ex­
trem o e correto (ao qual devemos nos ater) e nos tornemos
um com eles. Outrora eles ensinavam que a Palavra oral
e os sacramentos eram apenas sinais e símbolos de amor;
nisso, Zuínglio e Ecolampádio se desviaram muito. Agora
que Brentius os contradisse, eles baixaram o tom e recu­
aram parcialmente, suavizando sua interpretação e signi­
ficado como se nunca tivessem rejeitado a Palavra oral e
os outros meios, mas apenas condenado alguns abusos.
Assim, eles separam a Palavra do Espírito. Eles separam o
homem que prega e ensina a Palavra, de Deus que a torna
efetiva... e eles implicam que o Espírito Santo nos é dado e
opera de m odo independente da Palavra, que é apenas, por
assim dizer, um símbolo, um sinal e um a marca exterior
que vem ao encontro do Espírito que está sempre pronto
esperando no coração. E se a Palavra não encontra o Es­
pírito, mas encontra um homem ímpio, então essa não é a
Palavra de Deus. Desse m odo eles definem e consideram a
Palavra, não de acordo com Deus que a pronuncia, mas de
acordo com o homem que a recebe e a aceita...
Então eles ensinam que a Palavra externa é, por assim
dizer u ui Objcctimi e uma imagem, que ilumina, testemu
oh a e interpreta .. Nao admitem que a Palavra de Deus
A DO UTRIN A DA PREGAÇÃO 47

seja um instrum ento e um a ferramenta através dos quais o


Espírito Santo trabalha, desenvolve seu trabalho e embasa
o começo da justificação...
Todavia, o cristão deve resistir e dizer: a Palavra de
Deus é a mesma Palavra e é igualmente Palavra de Deus
quando é pregada e lida aos pródigos, hipócritas e ímpios
tanto quanto a cristãos piedosos e devotos. E a Palavra
(produza ela fruto agora ou não) é o poder de Deus que
abençoa todos os que creem nele. O utra vez, também é
julgamento e condenação aos ím pios... Nós dizemos, en­
sinamos e confessamos que o pregador da Palavra, perdão
e sacramentos não é o homem, e sim a Palavra, a voz, a
purificação, a união e a eficácia de Deus. Somos apenas as
ferramentas, trabalhadores e os ajudantes de Deus, através
de quem Deus trabalha e realiza seu trabalho.
Não vamos sucum bir a eles, e lhes conceder essa distin­
ção e diferenciação metafísica e filosófica, que está longe da
razão, de que um homem prega, ameaça, pune, am edron­
ta e conforta, mas que o Espírito Santo trabalha... Ah!,
não, de modo algum! Nós concluímos deste modo: Deus
mesmo prega, ameaça, pune, amedronta, conforta, batiza,
administra os sacramentos no altar e absolve... Assim, eu
estou certo de que quando subo ao púlpito para pregar ou
me ponho diante da tribuna para ler, não é a m inha pa­
lavra, mas m inha língua é a pena de um destro escritor,
como diz o salmo 45... Então Deus e o homem não devem
estar separados um do outro, nem ser distinguidos pelo en­
tendim ento e julgamento da razão humana; mas devemos
dizer: O que este homem, profeta, apóstolo ou pregador e
professor honesto diz e faz à ordem e à Palavra de Deus,
assim o diz e faz o próprio Deus, pois ele é o porta-voz ou
a ferramenta de Deus...
Portanto, nós imediatamente concluímos de modo claro
e certo: Deus trabalha através de sua Palavra, que é como
um veículo ou ferramenta através do qual aprendemos a
conhecê-lo em nosso coração.1

R esum indo essas duas visões opostas, com preendem os que para Lutem
Palavra de Deus pregada não era m enos que a Palavra de Deus escrit a
devemos m anter algum a cautela em relação à afirm ação de M ackinnnn

I I /( 111 |< IS7Z 671


48 OS O RÁCU LO S DE DEUS

de que, às vezes, Lutero elevava a pregação acima da Bíblia. Em am bos os


casos é literalm ente Deus quem fala. E um a vez que é Deus, o Espírito Santo,
quem fala a Palavra da pregação, ele não pode estar separado dessa, caso
contrário deixaria de ser a Palavra de Deus e seria apenas a palavra de um
hom em , “um pequeno som que se propaga no ar e desaparece”. Q uando um
pregador proclam a o evangelho que se encontra nas Escrituras, sua palavra
será a Palavra de Deus. Lutero estava correto em insistir dessa form a na
objetividade da Palavra. Todavia, ele estava errado em am arrar a Palavra do
Espírito à palavra hum ana da pregação de um a form a tão rígida, e estava p e­
rigosam ente perto de fazer do pregador um oráculo passivo de Deus, assim
com o Calvino fez em relação à Bíblia na sua teoria da inspiração das Escri­
turas. A d outrina de Lutero é um a parte de sua doutrina Eucarística. Em
am bas ele buscou assegurar a realidade objetiva da presença de Deus, mas
em am bas ele tendeu para o m aquinal e restringiu a liberdade da graça de
Deus. E assim poderíam os até perguntar se apesar de tudo que ele afirmou
ser contrário, ele não estava de fato separando a Palavra dos sacram entos e
transform ando-os em dois m eios distintos para a graça, paralelos e inter­
- relacionados, sem dúvida, mas essencialm ente divorciados.
Zuínglio e seus discípulos rejeitavam a ligação íntim a que Lutero fazia
do Espírito e da Palavra considerando isso um a deificação da criatura, e
na sua reação foram longe dem ais no cam inho dos entusiastas. Eles não
aceitavam que o Espírito Santo estivesse na Palavra, penetrando o coração,
criando ou confirm ando a fé. A Palavra era para eles apenas e sim plesm ente
um a testem unha de Jesus Cristo e, com o tal, era desprovida de poder. Dor-
ner explica a posição deles do seguinte m odo: “A palavra viva só existe para
nos im pulsionar a buscar a Cristo” e o objetivo da palavra é “nos despertar
para buscar a verdade internam ente”.2 A Palavra externa na verdade não
é nada além de um sinal, que nos aponta a Jesus Cristo. Não é revelação
e nem é, estritam ente falando, um meio para a graça. Então Zuínglio diz:
“C onsideram os Palavra de Deus aquilo que nos aponta e nos direciona ao
Cristo crucificado”.3 Eles não podiam , contudo, abandonar todo o ensina­
m ento óbvio das Escrituras a ponto de negar toda relação entre a Palavra
e o Espírito, ou a ponto de afirm ar que o Espírito é dado de m aneira com ­
pletam ente independente da Palavra. Na verdade, Zuínglio, Ecolam pádio e
especialm ente Bullinger estavam seriam ente preocupados em com bater o
falso espiritualism o dos entusiastas. Então eles distinguiam entre Verbum
Dei externum e Verbum Dei internum. O prim eiro diz respeito àquilo que é

’ 1)( )K N I I i, I A W ítD Q ' nf IprijirnlniU I K /I , vol. I |>. 2 l)7.


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A DO U TRIN A DA PREGAÇÃO 49

lido e pregado e, por ser apenas um sinal e testem unha, pode ser, e frequen
tem ente é, ineficiente. O seu propósito é instruir e assim ilum inar a m ente
para o entendim ento da verdade do cristianism o. O Verbum Dei internwii
é o Espírito Santo no coração, regenerando ou firm ando. “O que é ouvido',
diz Zuínglio, “não é a Palavra na qual crem os”.4 É fato que ele tam bém ensi
nava que o Espírito norm alm ente trabalha em conjunto com a Palavra, mas
isso não é o m esm o que dizer que ele trabalha através da Palavra com o seu
instrum ento. Além disso, de acordo com sua visão, o Espírito não era dado
através da Palavra, m as separado dessa, im ediata e diretam ente à alma. As­
sim, em um a passagem esclarecedora, Bullinger diz: “Para aqueles a quem
ele desejou o conhecim ento e a fé, ele envia professores, pela Palavra de
Deus, para pregar-lhes a verdadeira fé. Não porque a habilidade de im putar
a fé reside no poder, na vontade ou no m inistério do hom em , nem m esm o
porque a palavra externa que sai da boca do hom em é capaz, em si, de trazer
a fé: m as a voz do hom em e a pregação da Palavra de Deus nos ensinam
o que é a verdadeira fé, ou o que Deus nos ordena acreditar. Pois som en
te Deus, através do Espírito Santo que ele envia ao coração e à m ente dos
hom ens, consegue abrir nosso coração, persuadir nossa m ente e nos fazer
acreditar com todo o nosso coração naquilo que, pela sua Palavra e ensina
m ento, aprendem os a acreditar.”5
C alvino possui algum as afinidades claras com am bas as escolas de pon
sarnento. Seria fácil, através de um a seleção criteriosa de citações, retrai í lo
com o um defensor de qualquer um a das posições. Por um lado, ele dei laia
tão enfaticam ente quanto Lutero o caráter divino da Palavra: “Aqueles que
ensinam devem reivindicar com toda a verdade que é Jesus C risto quem
fala pela boca deles”.6 Por outro lado, o encontram os falando de m odo com
pletam ente zuingliano, com o se a Palavra fosse im potente: “Pois, prim eiro,
o Senhor nos ensina e nos instrui por sua Palavra; segundo, ele no: con
firm a pelos seus sacram entos; e por últim o, ele ilum ina nossa m ente com
a luz do seu Santo Espírito, e abre um a entrada em nosso coração para a
Palavra e sacram entos; que de outro m odo apenas tocariam nossos ouvidos
e se apresentariam a nossos olhos sem produzir o m enor efeito em nossa
m ente”.7 Em outras palavras, ele ensina tanto a real presença do Espirito
Santo na Palavra quanto o testem unho interno do Espírito Santo no coração
do crente. De fato, Calvino enxergava os erros envoltos tanto nas ideias lute
ranas quanto zuinglianas, e deliberadam ente se propôs (no Institulio iv, I o)

'I C .ilailo p or S C H W E IZ E R , A lex ., Die G laubenslehre der evangcU sch-rcform irten K ln lu \ II, p "<7'>
5 Ih x u d c I, p. 8 4 -8 5 ( l ’arkci S o ilr lv ).
M /(. U U , | i 7.
7 /m l, IV, 14,8 CI', < K I U l, p I'.
50 OS ORÁCULOS DE DEUS

a andar a terceira via entre aqueles que exageravam além da conta a digni­
dade do m inistério e aqueles que contestavam que “é crim inoso transferir a
u m ho m em m ortal o que propriam ente pertence ao Espírito Santo, supondo
que os m inistros e professores penetram o coração e a m ente”. Essa terceira
via é sua doutrina da pregação.
A pregação é a Palavra de Deus, prim eiro no sentido em que é um a expo­
sição e interpretação da Bíblia, que por sua vez é a Palavra de Deus com o se
os hom ens “tivessem ouvido as palavras pronunciadas pelo próprio Deus”.8
Nesse sentido, a pregação é cham ada de Palavra de Deus derivadam ente
ou p o r associação; e até aqui, Calvino está de acordo com Zuínglio. Porém
isso não a torna m enos Palavra de Deus em sentido efetivo. Só porque a
pregação é a transm issão do evangelho das Escrituras isso não a torna algo
de segunda mão. Com o C anon Lilley diz: “Testem unho e aquilo que foi
testem unhado devem ser um ato divino sem pre presente”.9 A relação entre
a pregação e as Escrituras não é apenas próxim a, é indissociável. A Bíblia
perm anece com o a fonte, o padrão e a crítica da pregação. O pregador,
com o diz Calvino em cem passagens nos serm ões,10 deve declarar apenas o
que encontra na Bíblia. Ele não sobe ao púlpito para defender suas próprias
ideias, e sim as ideias de Deus que no ato de proclam ação da igreja, com o
em todas as suas ações, “sem pre reserva para si o senhorio e a soberana
superioridade”.11 Está m uito correta a afirmação de Lilley de que “foi a iden­
tificação do Espírito de Deus e da Palavra de D eus com o sendo o m ontante
total do seu relacionam ento com o hom em que constituía a distintiva ori­
ginalidade dos ensinam entos de Calvino”.12 Pois, negando a teologia natural
e a síntese aquiniana da revelação e da razão, Calvino ensinou que Deus
fala com o hom em apenas na Bíblia, e que fora disso não há no m undo
n enhum a verdade adicional a respeito de Deus. As ideias do hom em mais
sábio no m undo são ainda apenas as ideias de um hom em , e de um hom em
caído, incapaz de conhecer a Deus ou a sua m ente e, portanto, são inúteis
para prom over a salvação, quando não a atrapalham . A regra geral que o
reform ador delineia nessa conexão é: o que as Escrituras nos ensinam , d e­
vem os aceitar sem discussão ou redução; onde as Escrituras se m antêm em
silêncio, tam bém devem os estar hum ildem ente em silêncio ante a secreta

S In st., 1 ,7 ,1 .
9 LILLEY, A . L., R eligion a n d R ev ela tio n , p. 85.
1 0 “E n tâo q u a n d o s u b im o s ao p ú lp ito , n ã o é para tra zer n o s s o s s o n h o s e fa n ta sia s” (songes et
resveries, u m a ex p re ssã o favorita) (C . R. X XV , p. 6 4 6 ). P reg a d o res “n ã o d e v e m p ro m o v er seu s p róp rios
s o n h o s e fan tasias, m as a q u ilo q u e e les receb eram d e v e m fie lm en te p assar a d ia n te s e m adic,óc.s.” (('. R.,
I.IV, p. 81.
1 1 C. R, XXV, p. 646.
I 2 0/>. iilt„ p 88,
A DO U TRIN A DA PREGAÇÃO 51

sabedoria de Deus. O pregador, portanto, não tem nada de novo a declarar,


pois “os segredos de sua vontade que ele decidiu nos revelar ele confiou na
sua Palavra; e estes são tudo que ele previu ser de nossa conta ou para nosso
proveito”.13 O seu trabalho não é revelar novas verdades a respeito de Deus,
mas relacionar a revelação de Deus dada de um a vez por todas em Jesus
Cristo às necessidades de sua própria geração.1'1É de sum a im portância que
as Escrituras não apenas sejam explicadas de um m odo geral, m as aplicadas
à congregação. A não ser que isso seja feito o pregador está perdendo tempo.
Por essa razão, Calvino insiste que os pregadores devem saber ensinar:15

Não é dado a todos o dom de pregar e de discursar


sobre a doutrina de Deus. Um hom em pode ser fiel, pode
levar uma vida santa, e ainda assim ele pode não ter essa
capacidade de discursar a Palavra de Deus de modo que
ela seja bem recebida. A verdadeira doutrina, portanto,
não está em todos, e quando essa está ainda assim deve
ser aplicada (idoine). (...) Temos muitos que, apesar de se­
rem sábios, ainda assim não têm essa graça de conseguir
aplicar a doutrina de m odo que outros tirem proveito e
sejam edificados.16

Logo, nesse prim eiro uso do term o, a pregação é a Palavra de Deus por
que é a exposição das Escrituras, através das quais apenas Deus se com unica
com o hom em .
Em segundo lugar, a pregação é a Palavra de Deus porque o pregador foi
enviado e com issionado por Deus com o seu em baixador, aquele que tem
autoridade para falar em seu nom e. Ele é assegurado de seu cargo através d t
consciência interna do cham ado do ofício de pastor pelo Espírito Santo, um
cham ado que é confirm ado pelo pedido da igreja. Se ele não foi convoi ado
por Deus, sua pregação não será a Palavra de Deus, m esm o que sua doutrin.i
seja bíblica. Ele deve poder reivindicar que, apenas o que ele diz não é uma
invenção da im aginação hum ana, mas um ensinam ento de Deus, ele lam
bém não fala em nom e de sua própria pessoa, m as com o um em issário d«

13 Inst. III, 2 1 , 1.
14C f. B R U N N E R , E.: “N ó s te m o s a B íb lia c o m o o r ig in a l e n o rm a tiv a ; n ó s te m o s a Palavra da igrr|n
c o m o o te s te m u n h o v iv o e m cad a n o v a era. A verd ad eira p reg a ç ã o e n v o lv e o s d o is e le m e n to s a Palavra
viva para a é p o c a e a Palavra viva c o m o o ver d a d eiro d e s d o b r a m e n to da Palavra b íb lica . S em a Palavr a d i
Ig r e ja a B íblia n ã o estaria p resen te; se m essa s u b o r d in a ç ã o à B íb lia, a Palavra d a igreja n ã o seria 11 istfl>“
('Um W o rd a n d lh e W orld, p. 1 12.)
I SCI'. 1 u l e r o s o b r e o p regailoi p r im a detm t esse d id a c lic o s. (7! R. II. p. 5.11). I l a r t h n o l a fin e tlm trin a
r s in ó n im o d e p r e g a ç ã o p a i a ( n l v lin t I / h igin alles, I, I, p. 78 79. T r a d u ç ã o i n g le s a .)
I6 i II I II I. p. 261
52 OS O RÁCULO S DE DEUS

Deus, para que quando falar seja com o se o próprio Deus estivesse falando.
Insiste Calvino:

Não devemos achar isso estranho, pois quando os ser­


vos de Deus assim falam, eles não atribuem nada para si,
mas dem onstram para quê foram comissionados e qual
responsabilidade lhes foi dada; então não se separam de
Deus. Quando um homem é enviado de um príncipe e
possui toda a autoridade para fazer aquilo a que foi desig­
nado, e, por assim dizer, toma emprestado o nome de seu
príncipe, ele irá dizer: “Nós fazemos isso: nós ordenamos:
nós decretamos: nós desejamos que isso seja feito”... Assim
também o fazem os servos de Deus, pois sabem que Deus
os tem ordenado como seus instrumentos e que ele lhes
usa para seu serviço, de m odo que não fazem nada de sua
própria habilidade, mas é o Mestre quem lhes guia.17

O fato de o pastor ter sido cham ado por Deus significa que Deus o esco­
lheu para pregar sua Palavra e, portanto, lhe dará esta Palavra a ser pregada.
C om o B arth diz: “A Palavra de Deus é a com issão sobre a incum bência da
qual a proclam ação deve se basear”.18 Por outro lado, o fato de um hom em
ser cham ado por Deus para ser m inistro de sua Palavra não significa que
toda vez que ele pregar Deus é obrigado a pregar tam bém . Isto seria colo­
car o Espírito Santo em posse e sob o controle do hom em - o pecado de
Simão Mago. É nesse ponto que Calvino se diferia decisivamente de Lutero,
que, em um a passagem já citada, disse: “estou certo de que quando subo ao
púlpito para pregar... não é a m inha palavra, mas m inha língua é a pena
de um destro escritor”. No extrem o oposto, não podem os acusar Calvino
de considerar o Espírito Santo na pregação com o um a “presença vacilante,
que pouco se delonga”. Se Deus cham ou um hom em , foi para o propósito
expresso de pregar. Por isso, o pregador pode se assegurar de que Deus irá,
de acordo com sua vontade, dar seu Espírito Santo às palavras que forem
ditas e fazê-las suas. Mas ele não pode presum ir a presença do Espírito, que
é dado pela livre bondade e graça de Deus.
Em terceiro lugar, e mais precisam ente, a pregação é a Palavra de Deus
no sentido de revelação. Aqui chegamos ao âmago da doutrina de pregação
de Calvino e tam bém ao coração de todo seu posicionam ento teológico. O
problem a que ele se aventura em responder no Institutio é aquele que paira

17 C. li. X X V I, p. 66.
IHci/>. <//., |> 99
A DO U TRIN A DA PREGAÇÃO 53

sobre to d a religião: C om o pode o hom em conhecer a Deus? Ele rejeitou a


possibilidade da validez do conhecim ento natural de Deus, seja inerente ao
hom em , ou adquirido pela contem plação da criação. É verdade que existe
um a sem ente de religião no coração de todo hom em , m as essa é incapaz
de levar um hom em a conhecer a Deus. Tam bém é possível para o hom em
contem plar a m aravilha do C riador na sua criação,19 m as “para Calvino, o
conhecim ento de Deus o C riador é apenas pela fé na Palavra de revelação de
Deus”.20 Esse conhecim ento de D eus que resulta na amável com unhão com
ele não pode ser adquirido naturalm ente. Desse m odo, ele lim ita a revelação
do conceito “Somente p o r D eus pode Deus ser conhecido” para “Somente
pela Palavra de Deus pode Deus ser conhecido”. O hom em não pode e n ­
contrar nem pode conhecer Deus, a não ser que o próprio Deus revele a
si m esm o em Jesus Cristo. Som ente em Cristo pode Deus absconditus se
to rn ar Deus revelatus: “a não ser que Deus se revele a nós em Cristo, não
conseguirem os o conhecim ento dele que é necessário para a salvação”.21 Mas
em Jesus Cristo, Deus se revelou com pletam ente aos hom ens, e através de
sua m orte obediente e sacrificial, o hom em recebe todas aquelas bênçãos de
que precisa para um a vida de eterna alegria - isto é, liberdade da servidão
ao pecado, o perdão dos pecados, m em bresia na igreja e no reino dos céus,
e vida eterna em com unhão com Deus. É trabalho do Espírito Santo trazei
ao hom em essas bênçãos e fazê-las proveitosas a ele, unindo-o a Cristo; para
que Deus, em vez de enxergá-lo com o ele é em si m esm o e condená-lo com o
um pecador, enxergue-o na pessoa de Cristo, com quem ele está unido, e
o aceite com o justo.22 "O Espírito Santo é o elo pelo qual Cristo, de m odo
eficaz, nos une a si mesmo.”23 Mas isso levanta a questão sobre com o o
Espírito Santo se com unica conosco. Ele fala direta e im ediatam ente á alma
com o os fanáticos espirituais acreditavam ? Ele fala direta e im ediatam ente
à alm a que p o r sua vez é ensinada pela Palavra no que ela deve acreditai
com o diziam os zuinglianos? O u será que o Espírito é m ediado através
da Palavra que é lida ou pregada, com o Lutero ensinava? C alvino está em
m aior sintonia com Lutero do que com os reform adores de Zurique. A prc
gação nesse terceiro sentido é a Palavra de Deus quando Deus fala através

19 Para a atitu d e d e C alvin o e m relação à C riação, cf. B A R T H , Peter: “A co n tem p la ç ã o ilev o ln ilr
C a lv in o p eran te a natureza sugere u m esp írito d e lib erd ad e h u m a n ística .” ( D a s P roblem d er niilUrl/elieii
Ideologie bei C a lvin , p. 17. E m Theologische E x iste n z H eu te, H eft 18.) E sse en s a io é u m a refu tação am p la tia
tentativa d e E. B ru n n er d e reivin d icar o a p o io d e C a lv in o para su a teo lo g ia natural em N tilui u tid l linHlc
2 0 B A R T H , P., <>/). c ; f | p. 18.
21 Insl. 11, 6 , 4 .
2 2 C l . L u f e m " 'l \ i (t j 'l c t n ) l u m a s l " p a r a t i o q u e e r a m e u , e m e d e s t e o q u e e r a t e u . 0 q t u In n ã o e ra » ,
t o m a s t e p a r a ti e m e t l e s l e o i p a i| n ã o r i a . " í t r / e / r W. A I, p, 'li.
IS Insl III I. I.
54 OS O RÁCULO S DE DEUS

de palavras hum anas, revelando-se através delas e fazendo delas o veículo de


sua graça. Vamos deixar Calvino explicar isso com suas palavras, a p artir de
algum as passagens características:
Serm ão em D euteronôm io: “E o que é a boca de Deus? É um a declaração
que ele nos faz de sua vontade quando nos fala por um de seus m inistros.”24
Serm ão em Efésios: “Ali [na pregação] Deus se revela, tanto quanto é
conveniente para nós”.25
Serm ão em 1Tim óteo: "... Paulo não deseja que um hom em ostente a si
m esm o para que todo m undo o aplauda e exclame: ‘Ó, que eloquência! Ó,
que conhecim ento! Ó, que m ente perspicaz!’... Q uando um hom em sobe
ao púlpito, ele o faz para ser visto do alto e para se sobressair? De m aneira
alguma! Ele prega para que Deus fale conosco pela voz de um hom em .”26
Issô não é apenas um m odo figurativo e colorido de falar reservado ao
púlpito e que é abandonado quando um a linguagem teologicam ente precisa
se faz necessária, pois o m esm o raciocínio está presente em seus escritos
acadêmicos:
Institutio iv. 1. 5: “Ele julgou apropriado consagrar a boca e a língua dos
hom ens para o seu serviço, fazendo sua própria voz ser ouvida através deles”.
Pequeno tratado sobre a ceia do Senhor: “Para nos m anter nesta vida espi­
ritual, o requisito é ... nu trir nossa alm a com a m elhor e mais preciosa dieta.
Toda a Escritura nos diz que o alim ento espiritual pelo qual nossa alm a é
m antida é a m esm a palavra pela qual o nosso Senhor nos regenerou; mas
frequentem ente nos explica o motivo, isto é, que nela, Jesus Cristo, nossa
única vida, nos é dado e m in istrad o ... Deus designou sua Palavra com o o
instrum ento pelo qual Jesus Cristo, em toda sua graça, é concedido a nós.”27
Comentário em 1Pedro 1:25: “De fato, não há dúvida de que aquele que
planta e o que rega não são nada; m as quando apraz a Deus abençoar o seu
trabalho, ele torna sua dou trin a eficaz pelo p o d er de seu Espírito; e a voz
do que em si m esm o é m ortal se torna um in strum ento para com unicar a
vida eterna”.28
Porém não devemos entender dessas passagens que Calvino associava
o Espírito com a Palavra oral. Em si, a pregação é um a atividade p u ram en ­
te hum ana, não m ais divina que qualquer outra atividade hum ana. Um
hom em pode ter sua vida toda dedicada ao serviço de Deus, pode pregar
um a d o u trin a irretocavelm ente bíblica, aplicada com um discernim ento

24 C. R. X X V , p. 6 6 6 -6 6 7 .
2 5 Ib id e m , LI, p. 6 0 7 .
2 6 Ib id e m , LIII, p. 266.
27 T racts, v o l. 2, C a lv in S o cie ty , p. 1 6 5 -1 6 6 . C. R. V, p. 4 3 5 .
28 ( 'ulv. S o c , p. 6 0 ( ' H. L.V. p, 2 3 1,
A DO UTRIN A DA PREG AÇAO 55

psicológico profundo às necessidades da congregação, e ainda assim não


devemos presum ir que necessariam ente Deus está falando com sua igreja.
Antes, C alvino diria que a pregação se torna revelação quando D eus soma
o seu Santo Espírito: “E vem os com o Deus opera através da Palavra que é
pregada a nós, que não é apenas um a voz que se propaga pelo ar e desapa­
rece; m as Deus som a a essa o p o d er do seu Santo Espírito”.29 O testem unho
interno do Espírito Santo não era para Calvino outra m anifestação sublim e
da Palavra de Deus que é testificada e explicada pela Palavra externa, com o
o era para Zuínglio. Ele nega isso em seu com entário de Hebreus 4.12: “D e­
lirante e perigosa são essas noções de que, apesar de a palavra interna ser
eficaz, contudo o que sai da boca do hom em é sem vida e destituído de
todo p o d er”.30 A Palavra de D eus não pode ser dividida, e no pensam ento
de Calvino, aquela palavra que ouvim os é a palavra pela qual som os salvos.
Não devem os entender p o r testem unho interno do Espírito um a im anên­
cia do Espírito ou, com o Zuínglio, o Espírito “sem pre pronto esperando no
coração”. O Espírito Santo é dado na pregação da Palavra, concedendo-a,
desse m odo, o poder espiritual que a transform a num organum da graça de
Deus, para que através dela Jesus Cristo seja dado, e tam bém a obra que ele
fez para a hum anidade. A Palavra divina, pregada, cria a fé, perdoa pecados
e regenera no caso do ím pio e estabelece, purifica e confirm a a fé no caso
do crente. “O Espírito coloca seu poder na palavra pregada.”31 Em segundo
lugar, devem os entender p o r testem unho interno do Espírito a ilum inação
da m ente para o entendim ento do evangelho. N a verdade, o evangelho é lao
claro que dispensa explicação, m as a escuridão e a estupidez de m entes ce
gas pelo pecado a torna necessária. Esse é o trabalho do Espírito Santo. E dc
quem “fura os ouvidos” para receber a Palavra, quem ilum ina a m ente paia
entendê-la e quem cria fé para crer em sua procedência divina, aceilá la c
obedecê-la.32 M as isso não significa um a separação da Palavra do Espirito
pois é através da Palavra que o Espírito testem unha. C om o Lilley diz: "O
testem unho do Espírito para a revelação é sim plesm ente o fato de que o
Espírito fala em revelação”.33 A pregação da Palavra de Deus é a constante re
novação, m ediada pelo Espírito Santo, da Revelação de Deus Pai dada, uma

29 C. R. L IV .p . 11.
30 Calv. S o c ., p. 103. C. R. LV, p. 51.
3 1 F,m H e b r eu s 4 .1 2 . Calv. S o c. p. 103. C. R. LV, p. 50.
32 “Q u a n d o v a m o s o u v ir u m s e r m ã o o u q u a n d o t o m a m o s a B íb lia para ler, n ã o d e v e m o s lei n
arro g â n cia tola d e acred itar q u e v a m o s fa c ilm e n te e n te n d e r tu d o q u e o u v im o s e le m o s. M as d e v e m o s
vli lo m reverên cia, d e v e m o s esp erar c o m p le ta m e n te em D e u s, s a b e n d o q u e p r e c isa m o s sei e n s in a d o s
por seu S a n to E spírito, e q u e sem ele n a o p o d e m o s en te n d e r n ad a q u e n o s é m o str a d o e m sua ITilíivm
(t l> I III, p. 300.)
111 >/>. i II , p. H(i
56 OS O RÁCULO S DE DEUS

vez p o r todas, em seu Filho Jesus Cristo. “Assim, a pregação do evangelho é


com o um a descida que Deus faz para nos buscar.”34

O PREGADOR
Das quatro ordens da igreja genebrina - pastores, doutores, diáconos e
presbíteros - o pastor era o principal. Som ente ele podia pregar e m inistrar
os sacram entos, e a ele era confiado o governo da sua igreja. Calvino con­
siderava as denom inações neotestam entárias de bispo, sacerdote, m inistro
e pastor com o referências ao m esm o cargo,35 que ele estabeleceu sob o tí­
tulo de pastor. Ele identificou cinco cargos “regentes” em Paulo (Ef 4.11):
apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores. Os três prim eiros,
de acçrdo com ele, eram próprios da igreja apostólica, mas se surgisse a
necessidade, Deus poderia levantar hom ens para esses cargos em qualquer
época. Os dois últim os são com uns de qualquer época, a diferença entre
eles sendo que o trabalho dos doutores consistia inteiram ente de teologia
(“a interpretação das Escrituras”) enquanto que as tarefas do pastor incluíam
a pregação, m inistração dos sacram entos, m anutenção da disciplina e a for­
m ulação da teologia.36 No entanto, apesar de apóstolos, profetas e evange­
listas serem próprios da igreja apostólica, “pastores (com a exceção de que
cada um detém o governo de um a igreja particularm ente designada a ele)
exercem a m esm a função que os apóstolos”.37 A diferença - pelo que parece,
a única - entre os dois cargos era a extensão de sua influência; enquanto
que apóstolos eram enviados a todo o m undo e não estavam vinculados a
nenhum a igreja em particular, pastores detinham o cuidado de um a igreja
local. Aqueles que pregam a verdadeira Palavra de Deus, Calvino declara,
estão em real conform idade com a sucessão apostólica.38
U m a afirmação tão elevada clama p or um ideal igualm ente elevado. Esse
cargo tão sublim e deveria ser protegido ciosam ente para excluir os indig­
nos e desqualificados e perm itir ao pastorado apenas aqueles mais aptos em
todôs os sentidos: “um hom em deve ser excelente (exquis) para ser escolhi­
do a esse cham ado”.39 É óbvio que nem todos são aptos ao pastorado; co­
nhecim ento das Escrituras e integridade d outrinária devem acom panhar a

34 P red ig ten ü ber d a s 2. Buch S a m u elis (1 9 3 6 ), Bd. 1, p. 136.


35 “Pastor, m in istro , b isp o e s a cerd o te - to d o s e ste s s ã o s in ô n im o s n as E scritu ra s. Isto é, e sses
te r m o s s e referem à q u e les q u e sã o c h a m a d o s n a igreja d e D e u s para en sin a r e g o v er n a r s u a casa.” (C. R.
LIII, p. 2 3 4 .)
3 6 Veja b ist. IV, 3, 4.
3 7 Ib id e m , IV, 3, 5.
38 C. R. I.IV .p . 385.
!<■) Ib id em , 1.111, p. 233.
A DO UTRIN A DA PREGAÇÃO 57

fidelidade, o zelo e a santidade. Porém , tão im portante quanto estes, e sem o


qual n en h u m hom em pode ser um bom pregador, é o dom do ensino. A não
ser que o pensam ento na Bíblia seja feito contem porâneo e relacionado às
necessidades e condições da congregação, o pregador está apenas vibrando
o ar. Portanto, ele deve entender três coisas, o evangelho, a natureza e as n e­
cessidades do povo, e a arte do ensino. Sem esta últim a qualificação, o mais
profundo conhecim ento das Escrituras e o m ais penetrante discernim ento
da natureza hum ana não fazem um hom em apto ao cargo da pregação. I
dever do corpo votante descobrir um candidato ao m inistério que tenha as
qualificações necessárias ao ofício. Porém , antes de se apresentar, o candi­
dato deve possuir a segurança interna de que é Deus quem o cham ou para
esta obra. Calvino denom ina isso de “cham ado secreto” que é “o testem unho
honesto do coração, que nós aceitam os o cargo oferecido a nós, não por
am bição ou avareza, ou p o r qualquer outro m otivo ilícito, mas p o r um sin ­
cero tem or a Deus, e por um zelo ardente para a edificação da igreja”.40 Por
isso, antes de ser eleito e ordenado pelos hom ens, o pastor deve ser eleito e
ordenado pelo próprio Deus, que, por m ais que ele escolha apenas aqueles
que são aptos, ainda tem a liberdade de escolher um em vez do outro.41 Essa
liberdade de escolha de Deus é o fator determ inante para a ordenação. A
m enos que seja enviado por Deus, nenhum hom em pode ser um pregador
da Palavra de Deus, pois ele dá sua Palavra apenas àqueles que enviou, islo
é, seus em baixadores. Todos os outros são usurpadores e m ercenários, e não
pastores de verdade. Q uando, porém , o candidato está assegurado dentro
de si do seu cham ado divino, e foi devidam ente eleito pela igreja, ele é o rde
nado pastor pela im posição de m ãos - um costum e apostólico que “é iriuij.0
útil tanto para recom endar ao povo a nobreza do m inistério, quanto paia
exortar aquele ordenado de que ele não é m ais seu próprio m estre, ma- ;ei á
dedicado ao serviço de Deus e da igreja”.42
Pode parecer que a ideia de Calvino sobre a pregação exaltava o pastor,
tanto na prática quanto na teoria, a um a posição de p o d er arrogante sobre
o povo; que, na verdade, pastor era outra form a de dizer padre. Todavia,
pelo contrário, Calvino insistia sem pre que o cham ado divino deve p rodu/ii
no pastor o efeito exatam ente oposto. Não é a palavra do pregador que é
im portante, m as a Palavra de Deus, que fala independente das qualidades
de um hom em . Desse ponto de vista, o pregador é com pleto insignificante
em si mesmo. Ele é apenas um servo, um em baixador. Toda dignidade e

-10 Inst. IV, 3, 11. Cf. C. R. I.II1, p. 2 3 7 -2 3 8 .


'11 "fi D e u s q u e m reserva para si a tarefa d e o rd en a r q u e m q u e r q u e e le d eseja o r d e n a i " (( R
58 OS ORÁCULOS DE DEUS

autoridade que possui provêm de sua hum ildade, um a vez que ele é apenas
um a testem unha de um Senhor sublime, e apenas um servo de Deus e de
sua igreja. Além disso, o pastor nunca deve depender de sua própria habi­
lidade para cum prir um a tarefa, ele deve buscar a Deus para orientação e
força. O esplendor dessa tarefa e as grandes qualidades que isso dem anda,
tornam as dificuldades que a envolvem tão grandes que nenhum hom em
pode executá-la sozinho de m odo correto: “aquele que aspira ao pastorado
na igreja de Deus deve, em prim eiro lugar, considerar a dificuldade do ofício
(...) N inguém pode seguir esse cham ado a não ser aquele que recebeu poder
e graça dos céus.”43 A inda assim, por outro lado, ninguém deve se desespe­
rar com a sua própria insuficiência, pois se Deus realm ente o cham ou, isso
não será em vão e ele vai lhe guiar e usar sua fraqueza para seu serviço. Após
o pregador ter feito tudo que podia fazer, lhe resta apenas clam ar em sua
im potência: “Venha, Espírito Santo!”
A m aior dificuldade de um pregador é exatam ente a questão sobre o que
deve pregar. Calvino responde a isso elim inando o espaço no púlpito para
qualquer pensam ento hum ano. Deus fala apenas através de sua Palavra, as
Sagradas Escrituras. Portanto, o pregador deve se ater aos ensinam entos
das Escrituras, nada som ando ou om itindo: “o que ele recebeu, isso ele deve
fielmente repassar”.44 Antes de proclam ar “Assim diz o Senhor”, o pregador
precisa conhecer, de m odo claro e decidido, o que de fato diz o Senhor. A
Bíblia é o critério e a crítica da pregação - Scriptura duce et magistra. Calvino
frequentem ente explicava essa subordinação da pregação às Escrituras usan­
do com o ilustração um a escola. O pregador deve ir à escola da Bíblia, onde o
mestre, Deus, irá instruí-lo, de form a que ele possa ensinar aos outros o que
aprendeu. “N inguém será um bom m inistro da Palavra de Deus sem antes
ser um estudioso.”45 E novam ente, em um a passagem que soa m oderna:

Quantos m inistros da Palavra encontramos cujo trei­


namento nas Sagradas Escrituras é tão pobre!... Pois eles
nunca tomaram o hábito de se moldar à língua do Espírito
Santo, como bons estudiosos. Se um estudioso é hábil, e
seu mestre também for um bom professor, ele não apenas
lembrará o que lhe foi ensinado, mas também reterá algu­
mas características de seu mestre, para que seja dito: “Ele
frequentou tal e tal escola.”46

43 C. R. L I II .p . 23 5 .
44 I b id e m , L1V, p. 8.
4 5 Ib id em , X X V I, p. 406.
4 6 Ibiilctn , I IV, p 68,
A DO UTRIN A DA PREGAÇÃO 59

Além disso, o pregador deve m ostrar por sua vida que ele tam bém é obe­
diente à Palavra que prega; sua vida deve ratificar sua doutrina. Na verdade,
a prim eira obediência deve vir de si m esm o, pois não tem direito de ordenar
às pessoas algo que ele não esteja no m ínim o tentando obedecer. Calvino
dem onstra, pelo uso contínuo do pronom e “nós” em seus serm ões, que suas
palavras são endereçadas para ele tanto quanto para a congregação. Ai do
professor se não der o exemplo de santa obediência e reverência para com
a Palavra de Deus que ele proclam a. “Seria m elhor”, declara Calvino, com
fervor, “que quebrasse seu pescoço subindo ao púlpito, se ele não se esforça
prim eiro em seguir a D eus”.47
O pregador deve sem pre lem brar por que foi ordenado, lem brar que ele é
um em baixador de Deus para declarar o perdão dos pecados através de Jesus
Cristo, “que ele foi enviado para conseguir a. salvação das alm as”.48 Calvino
não era o teórico frio e calculista, isento de qualquer sensibilidade hum ana,
que seus inim igos, passados e presentes, o acusam de ser. Na verdade, Paul
H enry assegura enfaticam ente que ele tinha “com paixão profunda pelas al­
m as e am or pela hum anidade caída”.49 Calvino insiste, tanto pelo exemplo
quanto pelo preceito, que o pregador deve ter com o objetivo a salvação de
seus ouvintes, direcionando toda sua atenção e energia para esse fim. “Não
há m elhor form a de em pregar nossa vida e nossa m orte”, ele diz, “do que
trazendo à salvação aquelas pobres almas perdidas que andam na estrada
para a m orte eterna”.50 A salvação não era, para ele, com o é para alguns sec­
tários, sinônim o de conversão; quer dizer, não era um ato desenvolvido de
um a só vez, m as com eçava com a conversão e se consum ava nos céus. Deus
não apenas usa a pregação para cham ar os hom ens ao arrependim ento, mas
tam bém para confirm ar e santificar a alma, escoltando-a sem pre à salvação
Em todas essas qualificações para o pastor, vem os que ele é, com o Calvi
no dizia, “um m inistro da divina Palavra”. As outras tarefas pertencentes a
esse ofício eram secundárias à pregação. Antes da aplicação dos sacram en
tos, antes da organização e da disciplina, vem a pregação da divina Palavra.
Pois os sacram entos dependem da Palavra para sua existência, e a orgam
zação eclesiástica existe para to rn ar possível a pregação e revestida de auto­
ridade. Se um pastor não pode pregar, não deveria ser pastor. “A pregaçao

47 C. R. X X V I, p. 304.
48 llm le m , I.I1I, p. 2 3 5 .
4 ‘) Life a n d T im es o f C a lv in , v ol. 1, p. 4 2 2 . E le tra z três c ita ç õ e s d e C a lv in o para ap o ia r su a alirm açitu:
“Q u e a a n sie d a d e q u e im a v a e n o s a to rm en ta v a sem p re q u e p r e c isá v a m o s a p licar o sacran ieiilo."
"() p regad or d e v e p restar co n ta s d e cad a alm a.”
“O sa n g u e d as a lm a s será d e m a n d a d o d o pastor.”
M C K IIII. p. 238
60 OS O RÁCULO S DE DEUS

da Palavra de Deus acreditava-se ser constituinte essencial do m inistério.”51


Q uando estivesse verdadeiram ente pregando a divina Palavra, o pastor esta­
va desenvolvendo o trabalho m ais exaltado do m undo. Ele estava cooperan­
do na ação redentora de Deus, trazendo pecadores à salvação, construindo
a igreja de Cristo, e, acim a de tudo, glorificando a Deus, o Senhor de quem
ele era em baixador.

A CONGREGAÇÃO
Publicações em hom ilética raram ente tratam da atitude e do dever da
congregação em relação à pregação. Calvino, contudo, fala sobre o lugar da
congregação e tam bém sobre o trabalho do pregador. Ele está continuam en­
te ensinando o que eles devem buscar em um a pregação, em qual espírito
devem vir a um sermão, e o que é esperado deles ao ouvi-lo. Seu objetivo era
que o povo, e não apenas os pastores, entendessem a verdadeira natureza da
pregação, e que não apenas a aceitassem em resignação, m as que tam bém a
desejassem com o grande bênção em suas vidas, e que fossem tão ativos no
serm ão quanto o próprio pregador.
Um a obediência absoluta e incondicional é exigida daqueles que ouvem
a Palavra de Deus pregada. N inguém pode dizer que discorda da doutrina,
pois é o que o próprio Deus ensinou aos hom ens. N inguém pode contestar
que o padrão é alto dem ais para ele, pois foi Deus quem ordenou que fosse
perfeito. N inguém deve achar que está além da necessidade de ouvir a prega­
ção porque sabe interpretar a Bíblia p o r si só. Não há dúvida de que se a pre­
gação fosse apenas um hom em oferecendo conselho espiritual para aqueles
religiosam ente inferiores a ele, então quem fosse espiritualm ente avançado
não precisaria dessa ajuda; m as um a vez que é o próprio Deus quem fala na
pregação aos hom ens, ninguém pode dizer que sabe o suficiente ou que está
santificado além da necessidade de ajuda divina. “Nós vem os”, diz Calvino,
“que os mais estudados precisam ser ensinados, os mais justos precisam ser
exortados. Se Deus já nos colocou no bom cam inho e nos concedeu os dons
do Espírito Santo, não devem os achar que a pregação (la doctrine) não é
mais necessária para nós, pois devemos ser guiados até o fim um a vez que
nossa perfeição não está neste m undo.”52 As pessoas devem ser obedientes
ao evangelho, não por conta do aprendizado ou de algum a autoridade do
pregador, mas porque ele é um em baixador, falando em nom e de Deus e
declarando sua vontade. Em si m esm o ele pode ser o m enos im portante

51 A IN S 1.IF .,). L. l h e D o c trin e s a f M in is te r ia l O n lc r in lh e R eío rm etl C h itn iie s e / l/ii Í U lm n tli a n il


S evc n lecn lh C en tú rias, p. 43.
9 2 C. B. X XV , D. 638.
A DO U TRIN A DA PREGAÇÃO 61

dos hom ens, um hom em “desprezível em relação à carne”, porém se estiver


pregando a doutrina genuína, suas palavras devem ser recebidas com reve­
rência e obediência. Em um serm ão sobre D euteronôm io, C alvino declarou
a autoridade ilimitável do pregador e no que ela consiste:

É especialmente dito: “O povo se rebelou contra a boca


de Deus.” E como é isso? Não está narrado que Deus apa­
receu visivelmente, ou que uma voz foi ouvida dos céus.
Não, era Moisés que havia falado, foi um hom em que falou
que o povo resistiu à boca de Deus. Assim vemos como
Deus deseja que sua Palavra seja recebida com a mesma
hum ildade quando ele envia homens para declarar o que
ele ordena, como se ele mesmo estivesse em nosso meio. A
doutrina que é proferida em nome de Deus deve ser reves­
tida de autoridade como se todos os anjos do céu tivessem
descido a nós, como se o próprio Deus tivesse revelado sua
majestade diante de nossos olhos. Desta maneira, ele dese­
ja testar a obediência de nossa fé.53

A visão de C alvino sobre a autoridade do pastor é ilustrada por, e tam ­


bém explica, sua própria atitude em relação a seus inim igos em Genebra.
Ele podia ignorar com m agnanim idade qualquer insulto endereçado a ele
com o pessoa, m as se um suspiro fosse proferido contra seu evangelho, ele
atacava o ofensor com um am argor que era tão extrem o quanto estranho à
sua natureza. Q uando Am y P errin se propôs a ser um a torm enta na vida
do reform ador, tudo que recebeu em troca foi um a carta carinhosa e uma
proposta de amizade. Mas quando G ruet atacou a autoridade do pastor com
sua placa maliciosa, ele foi executado; quando Castellio negou a d outrina da
predestinação ele foi banido; e quando Pierre A m eaux declarou que Calvino
pregava um a falsa doutrina, o reform ador insistiu em um a pena severa. Re
jeitar o evangelho era rejeitar a Deus, um crim e m uito m ais horrendo para
os olhos dos cristãos daquela época do que assassinato ou roubo.
No entanto, apesar da autoridade da Palavra de Deus ser absoluta, o que
se esperava do povo não era um a obediência cega e irracional. Pelo conlrá
rio, eles devem ouvir o serm ão de m aneira crítica, julgando entre o que é e
o que não é a Palavra de Deus. Mas com o podem discrim inar entre a Pala
vra de Deus e a palavra do hom em ? A resposta de C alvino era que deviam
testar a pregação a partir das Escrituras. Do mesmo m odo que o pregador deve

IH b lr ie m , p 71.»
62 OS O RÁCULO S DE DEUS

receber seu evangelho da Bíblia e criticar todas suas ideias pela sua doutrina,
tam bém as Escrituras são o critério - e o único critério - pelo qual o povo
deve julgar um sermão. Tudo que não for bíblico deve ser rejeitado; tudo
que for bíblico deve ser aceito em hum ilde obediência. Depois da passagem
que já citam os, Calvino concluiu:

É verdade que quando um homem fala, devemos julgar


suas palavras. Pois se alguém aceitasse tudo que fosse dito,
não haveria distinção nenhum a entre os mentirosos e os
falsos profetas, que seduzem a alma dos homens, e os m i­
nistros de Deus. Mas quando temos um testemunho claro
de que aquilo que nos é trazido provém de Deus (como
■ quando o pregador mostra pelas Escrituras que ele não está
inventando nada e que se atém em simplicidade à lei e ao
evangelho) então quem for teimoso certamente não está
disputando com uma criatura, mas claramente resistindo a
Deus, que deseja ser ouvido quando fala através do homem
e quando o usa como seu agente.54

Essa obediência tam bém não significa um m edo servil do Deus terrí­
vel que está falando, e sim um a aceitação grata, hum ilde e alegre das b ên ­
çãos que são oferecidas na pregação. Caso Deus se revelasse visivelmente
aos hom ens, estes seriam dom inados pelo m edo e, em vez de se aproxim ar
dele, fugiriam de sua presença a fim de não serem consum idos pela sua
m ajestade. Mas com a pregação, Deus graciosam ente cativa o hom em para
si. Sua presença é, por assim dizer, refratada pela ocorrência cotidiana, um
hom em falando. Além disso, m esm o que um pregador precise condenar ou
repreender, isso é apenas para que o povo se arrependa, pois na sua essência
o evangelho é conforto e graça.55 Portanto, a obediência que o povo deve à
Palavra de Deus não é apenas acionada pelo tem or de sua grandeza (mys-
terium trem endum ), mas é a obediência de fé, um a fé de todo seu ser no
evangelho e em Jesus Cristo a quem ele testem unha.
O critério final e definitivo para distinguir entre a Palavra verdadeira e
palavras falsas é o testem unho do Espírito Santo ao evangelho. A não ser
que o Espírito Santo ilum ine a m ente e conceda vida à pregação, ela conti­
nuará sendo apenas palavra hum ana sem poder para trazer salvação. Mas se

54 C. R. X XV , p. 7 1 3 -7 1 4 .
55 Cf. 'lhe F orm u la o f C on cord: " R ejeitam os c o m o d o g m a fa lso e p e r ig o so a a fir m a çã o ilc t|iic o
e v a n g e lh o é p ro p ria m e n te u m a p regação d e a rr ep en d im en to , rep reen sã o , a cu sa çã o e lo n d c iu iç iiu tios
p eca d o s, e q u e n ã o é s o m e n te e a p en a s a p regação da graça d e D eu s.” ('Ihc C r m k o/ llh I m i^v/ldrif
l ’n iIcsla til C lw r i h cs, p I 10. O rg. 11 S elia ll.)
A DO U TRIN A DA PREGAÇÃO 63

ele de fato testem unha na Palavra, o efeito será tão forte para o ouvinte que
não haverá dúvida de que Deus tenha de fato falado. Portanto, as pessoas
não devem pensar que são capazes de entender tudo que lhes é dito. Elas
são de fato com pletam ente incapazes de entender o evangelho a não ser que
o Espírito Santo as ilumine. Assim, antes de ir à igreja, e quando chegarem
lá, elas devem orar para que o Espírito Santo lhes revele Jesus Cristo no
evangelho e esperar, em um a atitude de hum ilde confiança e obediência, o
que Deus dirá a elas. “Não tem os espírito para entender nada relacionado ao
reino espiritual de D eus... m as nosso Senhor nos dará o entendim ento em
todas as coisas, de m odo que, quando ele nos der sua Palavra, ele tam bém
abrirá nossos olhos e ouvidos, e não apenas nos dará inteligência m as tam
bém form ará nosso coração para que sigam os a ele quando ele chamar.”56
Capítulo 5

O EVANGELHO
DE CALVINO

azer um levantam ento e desenvolver um a crítica sobre toda a teologia


F expressa nos serm ões de C alvino não seria apenas um a tarefa m uito além
do escopo deste ensaio, com o tam bém seria em grande parte supérfluo, um a
vez que o próprio Calvino já fez esse levantam ento em suas Institutas, e não
nos faltam hom ens para suprir a crítica. Portanto, devem os nos restringir e
discorrer da m aneira m ais direta e objetiva possível sobre os pontos princi
pais da m ensagem que o R eform ador tinha para seu povo.
Calvino nos forneceu um guia de com o interpretar o seu evangelho
quando ele o resum iu para sua congregação da seguinte forma:

Sempre que ouvimos o sermão, somos ensinados sobre


as promessas gratuitas de Deus, para m ostrar que é sempre
em sua bondade e misericórdia que devemos confiar, que
não devemos nos apoiar em nossos méritos, nem em nada
que provém de nós, mas Deus deve estender sua mão para
começar e realizar tudo. E isso (as Escrituras ensinam) é
aplicado em nós por nosso Senhor Jesus Cristo, de modo
que devemos buscar a ele com pletam ente... e temos de en­
tender que somente Jesus Cristo deve nos guiar. E isso é
revelado a nós todo dia. Também é declarado que o serviço
a Deus não pode consistir na invenção de devoções tolas
... mas devemos servir a Deus em obediência. Depois dis­
so, é m ostrado que, em primeiro lugar, devemos oferecer
em sacrifício nosso coração e paixões a ele, e que a hipo
crisia lhe i drlcslável ludo isso é declarado a nós, diana
m rnlr Ap" i o rtmiflradQ que podemos dam ar a D«us;
82 OS O RÁCULO S DE DEUS

é mostrado a quais sinais fomos batizados e qual é o fruto


de nosso batismo em nossas vidas, e até em nossa morte;
e nos é revelada a razão de celebrarmos a Ceia do Senhor.
Tudo isso é declarado a nós, em cada dia.1

Aqui se pode observar clara e inconfundivelm ente as qualidades da


kerygma, que há m uito tem po se havia perdido na pregação medieval. Em
vez de m oralizações e conselhos sobre com o propiciar Deus, o que nos é d e­
clarado é a graça de Deus em Jesus Cristo. Porém , não encontram os apenas
a kerygma aqui; tam bém vem os a ãidache e a paraklesis. A razão dessa m is­
tu ra não apostólica é que a posição da igreja em relação ao m undo alterou
m uito desde os tem pos apostólicos.2 Em vez da congregação se constituir
quase’exclusivamente de crentes, agora estes provavelm ente eram a m inoria,
um a vez que frequentar a igreja era com pulsório para todos os cidadãos.
Portanto, era necessário introduzir a kerygma na igreja em prol dos não
crentes; mas com o os crentes precisavam ser edificados, a didache e a parak­
lesis tam bém estavam presentes.
Esse evangelho trata principalm ente da relação de Deus com o hom em e
do hom em com Deus. Disso procede a vida dos crentes neste m undo e a rela­
ção do hom em com o hom em (a que Calvino apenas faz alusão na passagem
acima). Esse relacionam ento tríplice constitui o todo de seus ensinam entos.

DEUS E O HOMEM
A ideia de Calvino a respeito de Deus é fundam entalm ente a de que ele
é o Senhor Soberano. Isso não significa que ele seja um déspota tirânico
e inconsistente,3 mas que ele é o único e verdadeiro Deus, que não possui
sem elhantes,4 e m antém sua glória ciosam ente. Ele é o incognoscível e o
incom preensível perante o qual todos devem se m anter em hum ilde silên­
cio. Ele é o Juiz que observa cada ação do hom em , que vinga o pecado e
recom pensa a bondade com amor. Ele é o criador e sustentador de todas as
coisas. Por ser justo, sua vontade não pode ser questionada; por ser santo,
todos os pecadores devem cair diante dele em vergonha. Pois ele é o inim igo
do hom em ,5 não do hom em enquanto criatura, m as do hom em enquanto

1 C. R. XLIX , p. 66 1 .
2 E x istem a lg u m a s se m e lh a n ç a s en tre as igrejas d o s é c u lo 16 e as igrejas d o 4° sé c u lo . H o je a situ a çã o
é b astan te d ifer en te d e a m b as, as igrejas d o s é c u lo 16 e d o I- s é c u lo e, p o rta n to , p o d e requ erer n o v o s
m é to d o s .
3 C f. C. R. X X X IV , p. 3 4 5 .
4 lh id c m , X X V I, p. 253.
5 Veia o 3“ se r m ã o pobre a ]u stilicação.
O EVANGELHO DE CALVINO 83

pecador. Pois no início Deus criou o hom em em sua própria im agem , com o
objeto de seu am or: m as o hom em , arrogante, aspirando mais do que a obe­
diência e a dependência que lhe cabem com o criatura, desobedeceu a Deus.
Este ato, trivial em sua aparência, m as prom eteico em sua essência, teve
consequências devastadoras; não apenas desfigurou a natureza e desorde­
nou todas as coisas, mas o próprio hom em foi expulso da presença de Deus,
com o um rebelde e inimigo. Porém , surpreendentem ente, m aior do que o
seu ódio pelo rebelde era o am or de Deus por ele. P unir era, de certo m odo,
contrário à sua natureza. Não que não caiba a D eus condenar tanto quanto
m ostrar m isericórdia, m as a sua bondade am orosa é m uito m aior.6
Portanto, a relação básica entre Deus e o hom em é um a relação p arad o ­
xal de am or e ódio, e Calvino nunca destrói a tensão que existe entre esses
dois, ele não se perm ite aquele sentim entalism o confortável no qual o am or
de Deus se to rn a injusto e indulgente, e nem o paganism o desesperador no
qual o ódio sem am or se torna um destino cego e trágico. Deus am a porque
é de sua natureza am ar; ele odeia porque é contrário à sua natureza am ar o
pecado. Logo, o ódio é ocasionado apenas pela rebelião do hom em . Porém,
a atitude de Deus para com o hom em não é a intercorrência de am or ou de
ódio, m as é sim ultaneam ente am or e ódio. Ele tanto am ou quanto odiou o
hom em pecador. Ele dem onstrou seu am or oferecendo bênçãos m ateriais
para que o hom em desfrutasse e, o mais im portante, sendo m isericordioso
e piedoso para com ele, pois a verdadeira natureza de Deus é que ele não
deseja nada m ais que trazer o hom em para perto de si com suavidade, c
usar de sua bondade para com todos. O am or de Deus é a fonte da salvação
do hom em .
A rebelião orgulhosa e intencional do hom em , longe de ter o glorioso
efeito de torná-lo parecido com Deus, com o ele desejava, teve justam ente
o efeito oposto, afundou-o em m iséria. A im agem de Deus, na qual ele foi
criado, foi irreparavelm ente destruída e ele se to rn o u um abism o do mal, de
rebelião e de desobediência. “O que é a alm a hum ana?” pergunta Calvino
“Ela é um a oficina entulhada com toda sorte de maldade.”7 Isto é verdade
não apenas para os pecadores notórios com o tam bém para os respeitáveb
todos que nascem neste m undo estão infeccionados pelo pecado em seus
desejos, intenções, pensam entos e ações. Até m esm o a sua religiosidade, o
altar que ele constrói para seu deus, apenas provoca a ira de Deus contra
ele. Desse m odo, não há nada de bom no hom em : “Precisam os estar cientes
do que em nosso estado natural som os tão inim igos de Deus que tudo que

('»Veja o .*2Usermão cm I »e u lriim o in lu


7 C. II. L p. 5*17,
84 OS ORÁCULOS DE DEUS

concebem os é contrário a ele, e não há nada que possam os pensar, dizer ou


fazer que não nos traga ainda m ais condenação”.8 Por causa do seu pecado,
que é com o um a escuridão densa que lhe envolve e sufoca para que não
possa ver Deus, o hom em está desligado do favor de Deus e é incapaz de se
voltar a ele em arrependim ento, am or e fé.
É essa a condição do hom em que se depara com o am or e com o ódio
de Deus. Sua rebelião solicita a justa condenação, de m odo que “estam os
todos am aldiçoados, condenados e perdidos”.9 Porém , a sua m iséria instiga
a com paixão de Deus, e p o r sua bondade ele olha para o hom em com pie­
dade e m isericórdia. Não existe a hipótese de recom pensa pela bondade ou
pelo m erecim ento, pois am bos estão com pletam ente em falta no hom em .
A salvação advém única e sim plesm ente do am or de Deus - de la pure
bonté de Dieu - e não tem nen h u m a outra fonte ou fundação. Q ualquer
tentativa da parte do hom em de oferecer algo que possa contribuir para
sua salvação, seja isso bondade inerente, boas obras ou até m esm o fé, é
b arrad a pela rejeição de Deus. G raça significa que Deus não foi forçado ou
obrigado a ter m isericórdia, m as foi bondoso para com o hom em , apenas
porque assim o desejou. A graça tam bém significa que Deus ativam ente
d em onstrou seu am or ao hom em para lhe restaurar a antiga condição de
com unhão e obediência.
E aqui chegamos à doutrina da predestinação de Calvino, que está inti­
m am ente ligada à sua doutrina da graça. Ele não tinha receios em declarar
a predestinação de m aneira extrem a no púlpito,10 m as dava a ela um sig­
nificado religioso e prático em vez de acadêm ico. Deve ser lem brado - ele
advertia as pessoas quando tratava desse assunto - que isto é un secret in­
comprehensible, une matière haute et profonde. Ele insistia com as pessoas
para que aceitassem essa doutrina, pois era ensinada nas Escrituras, mas
não deviam deixar que isso preocupasse sua fé, pois deveria servir como
consolo e segurança.
A razão fundam ental da eleição é a secreta vontade de Deus. A respos­
ta final para a pergunta: “por que Deus am ou a Jacó, mas odiou a Esaú?”
é sim plesm ente “il lui plaist ainsi”. Mais longe disso não podem os ir, pois
não devemos buscar “fazer um a anatom ia de Deus, ou até m esm o de seu

8 Ib id e m , X X III, p. 69 9 .
9 C .R . X X III, p. 697.
10 E. B ru n n er está c o m p le ta m e n te e n g a n a d o n a su a a firm a çã o p recip ita d a d e q u e C a lv in o “n u n ca
p reg o u so b r e a d o u tr in a d e p r e d e stin a ç ã o d up la” ( The D iv in e -H u m a n E n co u n ter, p. 9 1 ). E le e n s in o u
sob re a rep ro v a çã o em su a série so b r e E saú e Jacó, p or e x e m p lo (veja C. R. LV III). A m elh o r crítica da
d o u tr in a d e C a lv in o é a d e Karl Barth. E m v e z d e n egar a b ib lic id a d e d a reprovação, c o m > l’eler Uarlh e
llru n n er, ele a alirm a, m as ataca o d ec rctu m a b so lu tu m c o m o s e n d o teo lo g ia natural, ( Vr|a a anãUse dc I
W C a m lie ld sob re a DomfliltHÍ II em 'JluvhtgV, X I V I, n. 2 7 1 , |> ' ss.)
O EVANGELHO DE CALVINO 85

coração, e desenterrar os seus segredos”,11 e contra qualquer especulação


extravagante, devemos reconhecer que a m ente e os cam inhos de D eus são
incom preensíveis a nós, e devem os louvá-lo em hum ildade.12 Essa é a res
posta de Calvino ao problem a do porquê de D eus escolher um e rejeitar
outro. Mas quando se trata da questão de por que Deus sequer escolheu
alguém , a resposta é que Deus teve piedade da m iséria dos pecadores e na
sua am orosa graça e m isericórdia escolheu a eles para serem seus filhos. Ele
não foi persuadido a isso por conta dos seus m éritos e nem por conta de ter
a previsão de que no futuro eles m ereceriam o seu amor. Na verdade, ele
teve a previsão apenas da corrupção em todos os hom ens, e sua eleição foi
com pletam ente pela graça.
Pelo que foi dito até agora, a im pressão é que o conceito de Calvino sobre
predestinação, e até m esm o da salvação, é sim plesm ente um a questão da
vontade de Deus, e que C risto é desnecessário, ou apenas necessário com o
in stru m en to através do qual Deus cum pre sua vontade. Existe aqui um a
séria dificuldade na teologia de Calvino, e é bom que ele não tenha seguido
com suas ideias até sua conclusão lógica, e tenha se m antido em subordi
nação às Escrituras. Apesar de afirm ar constantem ente que a eleição é “em
Cristo” e que não deve ser considerada fora dele, Calvino nunca obteve mui
to sucesso em conciliar, de um m odo inteiram ente satisfatório, estas duas
linhas de raciocínio (a eleição pela vontade de D eus e a salvação em Cristo)
que percorrem toda sua teologia em um relacionam ento conturbado. Por
tanto, é necessário que façam os o salto, junto com Calvino, por cim a dessa
temível fenda e aterrissem os na terra firme de sua Cristologia.
Reinhold Seeberg diz que em seus ensinam entos sobre Cristo ( alvmo
reproduziu a doutrina ortodoxa da igreja e relacionou-a com a ideia d<
redenção.13 Isto é claram ente visível em seus serm ões. Jesus Cristo é t-ÜO
hom em quanto qualquer outro hom em ; porém ele tam bém é Deus tao lite
ralm ente quanto o Pai é Deus. Ele é o Filho de Deus não pela graça, cria ç®
ou adoção, com o outros hom ens, m as por direito próprio. A diferença entre
ele e os outros hom ens é que ele foi concebido pelo Espírito Santo. Porém
ele é nosso irm ão e com partilhou de todas as m isérias de nossa m ortalidade,
exceto o pecado. Tudo isso ele fez não para si, m as por nós. Por nós ele se
encarnou; p o r nós ele viveu; p o r nós ele m orreu e ressuscitou; por nós ele
ascendeu à m ajestade do Pai. No pensam ento de Calvino, Cristo e a reden
ção não podem ser separados um do outro.

II C. R. I.V IlI.p . 50.


I 2 ( X n s b c i a s p a l a v n m l o I >r. O o r th u y s n o In te rm ilia m il C u lv in isi (lo u g ress cli* M( u lvln Iinti
mi ndornlion" ( / )t- r iilc d io u I I r tu d lr D iru, \ \ 213).
1S l c h r b u c k der I » » f . I j» *>H2
86 OS O RÁCULO S DE DEUS

Entre Deus e o hom em se estendia a divisão infinita do pecado que o


hom em não podia transpassar. Mas em sua com paixão pelo hom em , Deus
aboliu essa divisão ao vir à terra na pessoa de Jesus Cristo. Na terra, a sua
glória estava velada do discernim ento natural; ele não carregava nenhum a
beleza que os hom ens desejassem, e sua beleza espiritual estava escondida
do m undo.

Apesar de nosso Senhor Jesus Cristo estar humilhado,


carregando o véu da natureza hum ana que escondia, por
assim dizer, a sua glória, ele ainda não estava degradado em
si mesmo. Pois sabemos que os anjos o reconheciam como
o Rei Soberano, apesar de ele estar num estábulo; e apesar
de estar jogado no chão, como uma criatura abandonada e
desamparada, as estrelas dos céus lhe faziam testemunho.H

Porém, m esm o estando escondido aos olhos do m undo, ele se revelou a


alguns com o sendo o Filho de Deus, o Sacrifício pelos pecados, o único Sacer­
dote para a reconciliação do hom em a Deus, o Advogado do hom em perante
Deus, o C am inho ao Pai. O resumo do evangelho, de acordo com Calvino,
está em um a palavra - Jesus. Essa tarefa m ediadora ele desenvolveu através de
sua vida e (principalm ente) através de sua m orte e obediência ativa.
Calvino segue os passos dos pregadores do Novo Testam ento e faz da ex­
piação15 o ponto central do seu evangelho. O cam inho da cruz é o único ca­
m in h o para a salvação. “Não há outra m aneira nos céus ou na terra para nos
justificarm os com Deus a não ser através do preço pago por nosso Senhor
Jesus Cristo, por meio do qual ele pagou por nossos pecados; isto é, através
da sua m orte e paixão.”16 Calvino entende a m orte de Cristo com o sendo
o trabalho de Deus - “D eus estava em Cristo reconciliando o m undo para
si”. A crucificação não aconteceu pela vontade de seus inimigos, mas pela
vontade de Deus. Na cruz D eus estava dem onstrando a sua m isericórdia
p aráco m os pecadores. “Nosso Senhor Jesus Cristo foi açoitado e espancado
pela m ão de Deus para que pudéssem os ser libertos.”17 Calvino descreve sua
visão sobre a expiação de cinco maneiras.

14 C. R. L, p. 2 8 4 .
15 A d o u tr in a d a ex p ia ç ã o d e C a lv in o a p resen ta v ária s d ific u ld a d e s. P or u m la d o ela te m a lg u m a s
se m e lh a n ç a s c o m o q u e o D r. G u s ta f A u lé n ch a m a d e teo ria “clá ssica ” (v eja C h ristu s V icto r, p. 2 0 s s.),
p or o u tro la d o e le a d ota a te r m in o lo g ia a n se lm ia n a . U m a a n á lise c u id a d o s a p o d e tra zer re su lta d o s
b a sta n te in ter essa n tes.
16 C. R. X X X V , p. 627.
1 7 C. R. X X X V , p. 624. Cf. p. 623: “D e u s v isito u seu rigor em Jesus C rlsti "Ir anm v i o, loiluvia
d esejo u a llig i-lo p or n o ssa s lalhas."
O EVANGELHO DE CALVINO 87

1) C risto foi um sacrifício, carregando os pecados do m undo e a m aldi­


ção de Deus do m esm o m odo que os sacrifícios do Antigo Testam ento, que
eram im agens desse sacrifício único e verdadeiro. Portanto, ele sentiu na
cruz não apenas a agonia física, m as tam bém a torm enta da alma:

Veja por que está narrado que nosso Senhor Jesus Cris­
to não apenas desejou sofrer a morte e se apresentou como
sacrifício para saciar a ira de Deus, seu Pai; mas com o
objetivo de ser a nossa verdadeira e total garantia, ele não
recusou sofrer as aflições reservadas para aqueles que são
acusados pela consciência e que se sentem culpados de
morte e de condenação eterna perante Deus.18

Ao saciar a ira de Deus, ele fez reconciliação entre Deus e hom em . Mas a
frase “para saciar a ira de Deus, seu Pai” não pode ser entendida com o se a
m orte de Cristo tivesse persuadido um Deus relutante em m udar de opinião
e am ar o hom em , pois ele já am ava o hom em , e a cruz foi a atividade do seu
am or para com o hom em . Isto é “a dualidade essencial da ideia clássica - a
saber, que Deus é, de um a só vez, R econciliador e Reconciliado”.19
2) Sua m orte foi um a satisfação para o pecado. Porém, com o Albrecht
Ritschl m ostrou,20 não devem os tom ar de A nselm o e dos escolásticos o sig­
nificado dessa palavra. Calvino estava m uito longe da ideia de que o paga­
m ento de Cristo foi sim plesm ente o trabalho do hom em Jesus e, portanto,
distinto do propósito e da ação de Deus. O pagam ento de cruz e a miseri
córdia de Deus não podem ser separados. Para citar Aulén novam ente: “0
pagam ento é feito por Deus, não apenas para Deus”.21 Assim, Calvino podi
dizer que nosso Senhor “é enviado com o o C ordeiro sem m áculas para nos
purificar e fazer o pagam ento de todas as nossas dívidas”.22
3) A m orte de Cristo tam bém foi um ato de obediência, para cobrir nos
sa perversidade e fazer expiação por nossos pecados. Sua paixão e m nrli
foram o exemplo m áxim o da obediência que ele dem onstrou durante toda
sua vida. N ovam ente aqui não devemos entender a obediência de Cristo
com o algo separado da graça de Deus, mas com o obediência à vontade de
Deus, através da qual, no am or de Deus pelos pecadores, ele foi predestina
do a m orrer.

18 Ib id e m , X LV I, p. 834.
19 A U L É N , op. cit., p. 132.
20 Veja o seu H is to r y o f lh e C h ristia n D o c trin e o f ju stifica tio n a n d R ec o n c ilia tio n , p. 2()n ss.
21 op. cit., pi 135.
22 G R U V .jj. <Jt).
88 OS O RÁCULO S DE DEUS

4) A expiação tam bém é a purificação do pecado, que é um a poluição


da alm a hum ana aos olhos de Deus. O que Calvino quer dizer é que um
hom em é perdoado por Deus porque Cristo é o sacrifício pelo pecado. “Os
antigos dispunham de certas cerim ônias, de que necessitavam antes da
vinda do nosso Senhor Jesus C risto ... Hoje, sabem os que devemos buscar
nosso refúgio no precioso sangue do Filho de Deus, que foi derram ado para
nos purificar. Devem os recorrer ao sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, se
quiserm os ser recebidos com o lim pos diante de Deus.”23
5) Por últim o, a m orte de nosso Senhor é um a vitória. Os hom ens são es­
cravizados em suas vontades pelo diabo e são incapazes de am ar e de servir
a Deus. Cristo ganha a vitória sobre o diabo, o pecado e a m orte24 quando
m orre na cruz e voluntariam ente sofre a dor do corpo e da alma. “E assim a
vitória foi ganha em m eio ao conflito.”25
C alvino não considera a m orte e a paixão de Jesus Cristo de m aneira
isolada, mas em conexão com a sua vida, ressurreição e ascensão. Através
da m orte de Cristo, as forças negativas que escravizavam o hom em e o se­
paravam de Deus (isto é, o pecado, a m orte e Satanás) foram conquistadas.
Através da ressurreição de Cristo, o hom em recebeu as bênçãos positivas de
vida e retidão que Cristo conquistou para ele. A ressurreição foi a proclam a­
ção de Deus de que o hom em crucificado entre os dois bandidos era o seu
Filho am ado. Através disso, Deus aplicou seu selo à obra que Cristo havia
realizado e a declarou com o sua própria obra. A ressurreição é, ainda, a
prom essa e a garantia da ressurreição de todos os crentes para a vida eterna.
Sua ascensão aos céus significa que ele é todo-poderoso, e que, portanto, é o
rei do m undo e o Senhor de sua igreja, e que intercede pelos hom ens ao Pai
apresentando suas orações a ele.
A totalidade da salvação, e Calvino nunca se cansou de dizer isto, é obra
de Deus e não do hom em . Isto é verdade não apenas para a justificação, mas
tam bém para a santificação. Além dos quatro sermões sobre a Justificação,
Calvino raram ente usa a expressão “justificação pela fé”. Não obstante, a ideia
está na dianteira de seu pensam ento. E o fato de não haver nenhum a dife­
rença substancial entre a sua doutrina e a de Lutero pode ser observado em
um a passagem com o esta: “a palavra justificar não significa que nós somos
feitos justos, isto é, que Deus nos renova de m odo que nos tornam os anjos.
Isso significa que ele nos aceita e nos aprova sim plesmente por sua bondade

23 C. R. X X X III, p. 45.
2 4 E stes três, q u e C a lv in o fr e q u e n te m e n te m e n c io n a e m co n ju n to , sã o , c o m o d iz o I )■ A ulen: "o trio
fam iliar d a igreja p rim itiva”, c ta m b ém parte in tegran te da d o u tr in a da cxpiaipio d' I un B
25 C K XI,VI, p. 42 2 .
O EVANGELHO DE CALVINO 89

enquanto som os pobres pecadores.”26 Simulpeccator, simul iustus. A justifica­


ção, portanto, não é a experiência da alma, mas é a atitude de Deus para com
os hom ens. Apesar de um hom em estar poluído em si, Deus não contabiliza
o seu pecado, mas olha para a retidão de Cristo e o aceita com o lim po em
nom e de Cristo. Por isso, ele não deve buscar a Deus em sua própria pessoa
pecam inosa, porque nesta condição Deus é um inimigo; mas deve vir na
pessoa de Jesus Cristo. Em outras palavras, ele deve ser unido a Cristo pela
fé; “pois não podem os usufruir daquelas bênçãos que nos foram dadas por
Deus seu Pai, a não ser que sejamos enxertados em seu corpo pela fé, e ele é
nossa cabeça, e por conseguinte, sua vida é nossa. Ele deve ser a nossa justiça,
e devemos estar com pletam ente assegurados de nossa salvação nele, apesar
de encontrarm os apenas perdição em nós mesmos.”27 A justificação não pode
ser m erecida através da bondade ou das boas obras do hom em , pois não há
nada de bom , nem nele, nem proveniente dele. Mas ela é dada através da fé,
que é “conhecim ento e certeza” da m isericórdia de Deus em Jesus Cristo, e
firm eza e constância em Jesus Cristo e renúncia de qualquer outro cam inho
para justificação. A fé é buscar a cura para nossa condição miserável em Jesus
Cristo, sabendo que ele foi entregue por nós. Não é o m ero entendim ento do
evangelho que produz a bondade da vida, mas um conhecim ento vivo enrai­
zado no coração.28 Mas apesar de Calvino falar sobre a fé com o um encontro
com Cristo, ou como a busca e conquista da salvação, ele sem pre insiste que
o hom em é incapaz de acreditar, pois está escravizado pelo pecado. Ele por
gunta: “Não é sabido que a fé transcende todos os sentidos hum anos? Pob
ela não é um a qualidade que o hom em possui naturalm ente, m as um a grai >
que D eus confere a ele para corrigir sua natureza.”29
Deus dá a fé na vocação, isto é, quando ele cham a os hom ens par a si em
arrependim ento. Apesar de a vocação ser um estado avançado na eleição,
ela deve ser considerada com o algo ligado à reconciliação e não à predísli
nação. Existe um a vocação dupla, diz Calvino; Deus cham a a todos os ho
m ens ao arrependim ento e à fé através do evangelho (isto é, através da Itfhlio
e da pregação), mas nem todos respondem a esse cham ado, na verdade .1
m aioria dos hom ens, de m odo intencional, negligencia a graça de Deus, “c
propositalm ente se recusam a receber essa salvação que é oferecida a eles”."1

2 6 C .R . X X I I I.p . 706.
2 7 lb id e m , XLVI, p. 2 5 8 .
2 8 “N ã o p o d e m o s sep arar a v id a san ta d a fé p o r m e io d a q u a l c o n fia m o s em n o s s o S en lu ii Iwniin
( t isto.” (C. R. I.IV, p. 5 3 3 .) R. S eeb er g a p o n ta q u ã o p r ó x im o C a lv in o esta v a d e L u tem e M e la n c lillio n cm
" estabelecer u m a lig a çã o co n creta en tre a ju stifica ç ã o e a s a n tifica ç ã o ”, «/>. cil., 4, 2, u 6 0 0
2bf I) X l.V I I I ,p .6 l 7 .
w l h h l t w , XXX V . p. noH
90 OS O RÁCULO S DE DEUS

E tam bém existe a vocação dos indivíduos, aqueles que são eleitos por Deus,
nos quais ele opera de form a secreta, fazendo-os experim entar o poder do
seu Santo Espírito. Essa vocação especial (com o ele a cham a no Institutio,
em contraste com a vocação universal) é a criação da fé na alm a pelo Espí­
rito Santo agindo através da Palavra. O que a nossa época m oderna cham a
em seu subjetivism o de conversão, Calvino, mais fiel à m ente das Escrituras,
cham a objetivam ente de vocação. E quando um hom em cham ado por Deus
crê, seus pecados são perdoados, ele é tido com o justo perante Deus, e é
feito um filho de Deus e m em bro da igreja. Isso norm alm ente ocorre no b a ­
tismo, apesar de que nem todos que são batizados são cristãos, pois alguns
corrom pem seu batism o com sua vida pós-batism o. Mas quando existe um a
harm o n ia de fé entre Deus e nós no batismo, nossos pecados são perdoados,
pois rio batism o Deus nos une a Cristo pelo Espírito Santo.
O propósito da salvação é a restauração da im agem de Deus, que o h o ­
m em perdeu na Q ueda, e que foi recuperada para o hom em em Cristo. Em
um a passagem sublim e Calvino diz que a salvação “é a questão da restaura­
ção da im agem de Deus em nós, e a radicação da sem ente incorruptível em
nós que nos leva à glória celestial, que nos faz com panheiros de anjos, que
nos transform a até m esm o na glória e im ortalidade de nosso Senhor Jesus
Cristo e nos faz participantes de sua natureza divina”.31 Cristo é a verdadeira
im agem de Deus, e é através de nossa união com ele que som os feitos em sua
sem elhança. É impossível reform arm os a nós mesmos, mas som os restaura­
dos à im agem de Deus pela reconciliação da cruz e pelo Espírito Santo em
santificação. Q uando som os reconciliados a Deus, ele nos faz nova criatura
im prim indo sua im agem em nós. Existe, todavia, m uita perversidade até
m esm o nos crentes, e eles não são transform ados à imagem de Deus instan­
taneam ente, mas progressivam ente, de glória em glória - não porque Deus
é incapaz de cum prir seu trabalho de um a só vez, m as porque ele não deseja
fazê-lo. Essa purificação é o trabalho interno do Espírito Santo, que m uda
a vontade e a paixão do crente, libertando-o do pecado, dando a ele vitória
sobre suas tentações e inspirando-o a boas obras. Portanto, para Calvino, a
santificação é o trabalho de Deus som ente, com o todas as outras partes da
salvação, m esm o que o esforço do hom em não seja irrelevante.

O HOMEM E DEUS
Calvino ensina que o relacionam ento essencial entre hom em e Deus é
de reverência. Ao dizer isso ele está negando duas ideias falsas e afirm ando

II Ihldtm, X I.V II I, p. A2(<


O EVANGELHO DE CALVINO 91

duas verdades. Está negando que o hom em tem um conhecim ento direto
de Deus ou acesso im ediato a ele, mas tam bém que Deus não tem nada a
ver com o hom em e seus afazeres. Ele afirma, frequentem ente e tão vigoro
sam ente quanto pode, que tanto o hom em deve am ar a Deus de todo seu
ser, quanto que há um a distância enorm e entre D eus e o hom em . Por um
lado ele pode falar de am or em sintonia com B ernardo de Claraval, e pt>r
outro pode pregar de tal m odo que teria aprovado as famosas palavras de
Kierkegaard: “A distinção qualitativa infinita entre Deus e o hom em ”. Essa
visão dúplice do relacionam ento do hom em com Deus é contida na ideia de
am or reverenciai que perm eia toda pregação de Calvino.
O hom em nunca deve esquecer-se da distância que o separa de Deus, e
qualquer tentativa de dim inuir essa distinção é um roubo da glória de Deu.*
Isso é em parte um a ideia m etafísica e em parte um a ideia religiosa. Deus <■
incom preensível à m ente hum ana, e qualquer tentativa de entendê-lo ou ili­
de buscá-lo joga o hom em em um labirinto terrível. E outra vez, ele é o óe
n h o r soberano que em cuja presença o hom em não ousa entrar a fim de não
ser consum ido pela sua majestade. Mas a ênfase m aior é dada à distinção
religiosa entre Deus e o hom em . Deus é inteiram ente santo e justo, a antítese
exata do hom em , que é um pecador desprezível, miserável e rebelde. Por essa
razão ele não pode vir a Deus, não porque não o deseja (pois ele está sem pre
tentando ignorar ou destruir essa distinção de form a ilícita), m as porque
o próprio Deus m antém essa distância do hom em . A reconciliação cria a
ponte para que o hom em possa entrar na presença de Deus em com unli So
oração; ele não está mais barrado da presença de Deus por sua consciêm ia
m aligna. Porém, a distinção metafísica não está dissolvida de m odo que o
hom em possa tratar com Deus com o se trata com um familiar. Jesus ( i isio e
o M ediador que aboliu a separação entre Deus e o hom em , e se um a p. .sou
quiser conhecer a Deus ou vir a ele, deve buscá-lo em Jesus Cristo. Uma ve/
que Deus é incom preensível, Jesus Cristo precisa m ostrar e interpretai a sua
natureza e vontade. Um a vez que Deus é o Senhor Soberano, cujos trovo«
afugentariam os hom ens caso ele se revelasse de form a visível, C risto é o
M ediador que gentil e am avelm ente nos atrai a ele. Não precisam os per
correr grandes distâncias para encontrar Deus, porque ele já veio até nós e
está m uito próxim o de nós em Jesus Cristo. E acim a de tudo, um a vez que
Deus é santo, nosso Senhor veio para destruir o pecado, para que possam os
ir até Deus sem medo. Portanto, quando pensarm os em Deus, não devemos
perm itir que nossa im aginação divague em especulações sobre sua essênc ia
e natureza, mas d »vem os pensar em Jesus Cristo: “Q uem é o Deus de quem
Paulo falâ? E o Pilho da Virgem Maria, que possui viria em si im sm o, mas
que se sujeitou â moi lc <lia m e aquele ciue tem lodo o n o d rii’ P
92 OS O RÁCULO S DE DEUS

foi feito frágil e fraco. Aquele que carregou o castigo por nossos pecados é
a fonte da vida.”32
Em Jesus Cristo nós não devemos tem er a Deus do m esm o m odo que
os ím pios - com razão - o tem em , pois ele não é mais um objeto de terror
para nós um a vez que se declarou nosso Pai. Mas com o tem os visto, Calvino
não tem um a visão sim plória e sentim ental do am or de Deus. O cam inho
até seu am or é através de sua ira, e nós nunca vam os conhecer a Deus como
nosso Pai sem que prim eiro conheçam os a ele com o nosso Juiz. Ele se revela
com o nosso juiz através da lei, que é um espelho que m ostra nossas falhas e
nos im pele a correr a Deus por m isericórdia e perdão. Da m aldição do Sinai
nós buscam os refúgio na graça do Gólgota. Assim, antes de chegar a Cristo
precisam os estar convencidos e esm agados por nossa pecam inosidade, pois
não irem os sentir a necessidade de vir a Cristo sem antes nos desesperarm os
de nós m esm os. O arrependim ento significa que devemos condenar, odiar e
buscar vingança de nós mesmos.

Pois não seremos comovidos e inflamados a louvar ao


nosso Deus sem antes examinarmos nossa condição e ser­
mos (por assim dizer) engolidos pelo inferno, sabendo o
que significa provocar a ira de Deus e tê-lo como nosso
inimigo mortal, um juiz tão terrível e aterrador que seria
muito melhor que os céus e a terra e toda criatura se vol­
tassem contra nós do que chegar perto de sua majestade
quando essa está contra nós. Portanto, é muito necessário
que os pecadores se angustiem e se preocupem com suas
falhas, e que saibam que são mais que desprezíveis, e que
fiquem horrorizados com a sua condição, para perceber
quanto estão obrigados a Deus, que tem piedade deles, que
os enxerga em seu desespero e que deseja socorrê-los, sem
encontrar neles nenhum merecimento, e contemplando
apenas suas misérias.33

Esse tipo de tem or a Deus é saudável e não deve ser abafado, m as deve
im pelir o pecador a confessar seus pecados a Deus e buscar o perdão em
Jesus Cristo, que foi crucificado por ele. Essa experiência é a contrapartida,
e n a verdade o resultado da vocação.

3 2 C. R. LIII, p. 32 6 . Gf. o d iz e r m u ito p a rec id o d e Lutero: “Eu, Dr. E utero, m io q u e ro saber d e


q u a lq u e r o u tr o D e u s s e n ã o d a q u ele q u e p e n d e u n a cr u z , a saber, Jesus C risto , o H lh n ile D eu s c da
V irg e m M aria”
™t' d yi \/i ,-i sm-im.
O EVANGELHO DE CALVINO

Q uando um hom em experim enta a graça de Deus dessa forma, ek


liberto das forças que o escravizavam, e pode então cham ar Deus de Pai. I
nesse relacionam ento de um a criança com seu Pai que está a sua completa
alegria e perfeita glória, e é a partir disso que o am or que antes era apenas
direcionado para dentro flui para Deus. A m aior injustiça contra Calvin!} ê a
interpretação errônea de que para ele a atitude do cristão em relação a Deus
era u m a atitude que ele cham ava de “tem or escravo”. Essa acusação é insus
tentável diante de palavras tão fervorosas quanto “não seríam os insípidos e
inertes com o um a pedra se, depois de verm os tudo isso, não form os arre
batados com um a paixão ardente para adorar nosso Deus, e ju rar e dedi< ar
tudo a ele?”34 O u palavras como: “Precisam os ser inflam ados do am or d<
D eus”.35 De fato, ele nos fala que “o m ais im portante em nossa vida é amai
m os a Deus”.36 É óbvio que estas palavras não podem ser entendidas com o
um pietism o sentim ental ou um em ocionalism o místico. N enhum hom em
era, p o r natureza, m enos sentim ental ou m ais racional do que Calvino. Par a
ele, o am or a Deus é um a atitude firm e do coração para com Deus, qiK ê
gracioso a nós em Jesus C risto, que resulta nu m a vida inteira a serviço e
para a glória de Deus. E isto é, ademais, um am or para com o Pai: “o arnot a
Deus não pode ser sem reverência. Nós não o am am os com o um inferior ou
com o nosso igual ou nosso colega, e sim com o nosso Pai.”37
A graça de Deus é a fonte dos deveres do crente para com Deus. Pura
m ente p or sua bondade, Deus m ostrou m isericórdia para com os hom ens
ao dar Jesus Cristo para m o rrer por eles. Portanto, o cristão deve se doai, em
um a atitude de gratidão e louvor, ao serviço, am or e glória de Dcie Isso n m
diz respeito à sua boa vontade, m as ao seu dever.38 O crente deve amai e sei
vir a Deus, e se não o fizer, ele é indesculpável - na verdade, provav lm< nlc
isto é um sinal de que ele nem crente é. A prim eira necessidade ê que .1 vid i
inteira seja dedicada a Deus: “D eus m e deu a vida. Eu devo renunc i:i la . m
suas mãos. E depois ele deseja que eu m e dedique, vivendo e m orrendo a
seu serviço. E se o seu nom e for glorificado p o r m inha m orte, que assim
seja, e eu m e subm eto a isso.”39 C ontudo, isso não é nenhum a tareia sim
pies, pois a natureza do hom em se levanta contra a obediência a Deus c de­
seja gratificar a si m esm a em vez de Deus. M as com o fom os criados em sua
im agem , redim idos pela m orte de seu Filho e feitos seus filhos, devemos

34 C. R. X X V I, p. 255.
3 5 C. R. X I.V III, p .1 í2 |
3 6 Ibiilem , X X III, p. 771
3 7 Ibiilvm , X X III. p. 775
J8 " l ’m*i ( a lv in c ), ,i i r l l p h i t i vfcfTi j n l i 11 cunC K llD d e i l c v r r i t U o h c i l l p m l i l , " ( G m 3ii/- III | UÜ I
>9 ( . K XX I I I p
94 OS ORÁCULOS DE DEUS

continuam ente praticar a sujeição, lutando contra nossa natureza teim osa e
nos forçando à obediência a Deus: “cada um de nós deve se forçar e coagir
sua natureza e a todos os seus sentidos e apetites”.40 A não ser que sejamos
dedicados a Deus por inteiro, não vamos glorificá-lo com nossa vida, que
falhará no seu propósito um a vez que Deus nos colocou neste m undo para
glorificá-lo. O principal objetivo de nossa vida deve ser “glorificar a Deus
enquanto ainda estam os neste m undo”.41 Isto significa que devemos louvá-lo
com o coração, com palavras, com ações em todas as circunstâncias da vida.
Em tudo ele é digno de ser adorado - com o Criador, em sua providência e
com o Redentor. Nós glorificamos a Deus não quando inventam os formas
de agradá-lo, mas quando obedecem os a sua Palavra. Deus falou nas Escri­
turas, cham ando os hom ens ao arrependim ento e à fé, e colocando diante
deles o cam inho da vida. Não deve haver nenhum argum ento contra Deus
(isto é, contra as Escrituras e contra a pregação), um a obediência hum ilde e
disposta é devida a tudo que é ensinado e ordenado na Palavra. Sua d outrina
deve ser aceita e a vida deve ser regida p or seus com andos. Nessa obediência,
Deus é glorificado m uito mais do que em peregrinações e devoções. Porém
a obediência pressupõe hum ildade, a m ãe de todas as virtudes, do m esm o
m odo que o orgulho é a fonte de todo pecado e m ais desagradável a Deus do
que qualquer vício. A não ser que nos hum ilhem os, reconhecendo que não
existe n enhum bem dentro de nós, apenas m aldade, nenhum a sabedoria
para entender Deus e a nós mesm os, e nenhum a capacidade de levar um a
vida agradável a Deus, nunca entenderem os a razão de nos subm eter para
serm os ensinados e guiados por Deus. Se estiverm os inflados com orgulho,
Deus é desonrado e não poderem os alcançar a salvação. Portanto, devemos
lutar para nos subm eter a Deus sempre, sabendo que ele, por sua vez, sem ­
pre tratará conosco de m odo amável, com o um Pai, e para nosso bem.
Mas não som os cham ados para serm os filhos de Deus apenas para nosso
próprio benefício, e certam ente não para ter um a vida fácil. Somos cham a­
dos e separados do m undo e de nosso pecado para servir a Deus. Ele não
precisa nem de nós e nem de nossa ajuda, mas ele nos honra ao usar de sua
livre bondade, e em seu m aravilhoso am or ele até nos prom ete recom pen­
sas. É dever de todo crente servir a Deus, e sua m isericórdia e graça devem
nos instigar a isso. A visão de Calvino sobre em quê consistia o serviço a
Deus foi um afastam ento decisivo da visão católico-rom ana. C om o M ilton,
ele não podia “louvar um a virtude fugitiva e enclausurada, que não se exer­
cita e não se vocaliza, que nunca se aventura ao encontro de seu adversário,

W lh h ln n , X X V I, p. 177.
j i /l.í.1-^ x y xv rt 5nd.

O EVANGELHO DE CALVINO 95

m as que se retira de m aneira furtiva daquela corrida na qual se corre para


alcançar a coroa im ortal, m as não sem poeira e sem suor”. O reform ador
denunciava a distinção falsa entre o secular e o espiritual, e declarou que a
vida secular era espiritual se vivida em obediência a Deus. Portanto, para
ele, o serviço a Deus consistia em oração (que é o serviço principal), um a
vida pu ra e reta, e serviço aos outros hom ens. E então ele diz mais de um a
vez que o serviço que Deus requer é que sejam os com pletam ente seus, que
glorifiquem os a ele no bem e no mal, que sigam os cada um em nosso p ró ­
prio cham ado e que não haja orgulho, vanglória e nem inveja dentro de nós.
E em outro texto ele diz que o serviço a Deus é, que tendo colocado nossa
confiança nele, clam am os p o r ele, nos dedicam os a ele, e vivemos de m odo
honesto. Ele nos deixou um a bela im agem do caráter do servo de Deus. Ele é

um homem que trabalha honestam ente para ganhar


seu sustento, e mesmo que não tenha pão o suficiente,
não para de clamar a Deus pela m anhã e louvá-lo à noite.
Se ele tem filhos, vai deixar de lado tudo que tem para
alimentá-los e vesti-los. Se Deus enviar aflições à sua casa,
ele vai tolerar pacientemente. Se for algum tipo de artesão,
ou seja lá qual for sua ocupação, ele vai se abster de trapa­
cear seus vizinhos, e prefere m orrer do que fazer qualquer
tipo de mal.42

Assim Calvino santificou todo trabalho honesto e tornou possível para o


hom em com um glorificar a Deus servindo-o em seus afazeres diários.

O HOMEM E SEU SEMELHANTE


Karl Holl disse que o que Calvino buscava em G enebra era a “penetraçSo
do espírito religioso em toda vida nacional”.43 Q uando nos voltam os ao rei i
cionam ento do hom em com o hom em descobrim os que Calvino, aplicando
essa d o u trin a à realidade cotidiana das pessoas, as ensinava a expressar em
todas as áreas da vida a graça de Deus, que lhes havia sido dem onstrada
em Jesus Cristo. Era impossível - ele declarou - para um hom em que tinha
o conhecim ento da m isericórdia de Deus agir com o um ímpio. O ovangc
lho deve produzir frutos na vida dele: benevolência, am abilidade e retidão
Além disso, essa ordem deve ser preservada: prim eiro, o relacionam ento
correto com Deus; e depois, partindo disso, o relacionam ento correio com

4 2 Cj K. 1.1, p. a i.
■I I O « . A u/f. ILI. p •oh
98 OS O RÁCU LO S DE DEUS

e esposas, pais e filhos, senhores e servos, governantes e súditos, velhos e


jovens”.46 A estrutura da sociedade é determ inada p or Deus, e é um a incrível
bênção, tanto por criar a oportunidade para todos servirem a Deus, quanto
por servir de baluarte contra a anarquia. É difícil apreciar ou até m esm o
entender a m ente de Calvino nessa questão. Para o hom em do século 21,
acostum ado com greves frequentes e com a destruição parcial do princípio
da autoridade, o reform ador soa com o um ultraconservador, preocupado
apenas em m anter o status quo, quando ele diz, por exemplo, que as espo­
sas devem suportar pacientem ente - sabendo que assim agradam a Deus
- quaisquer m aus-tratos - m esm o físicos - que os seus m aridos possam lhes
impor. Ou, novam ente, quando diz: “Se um hom em for exaltado sobre nós,
que é perverso, ou um malfeitor, ou possuir vícios notórios, de m odo que
encontrem os boas razões para ele não ser digno do ofício” - e m esm o, com o
ele diz em outro texto, que o governo seja corrupto ou tirânico - “ainda
assim, não obstante, devem os reverenciar a ordenança de Deus e estim á-lo
com o sendo digno de toda honra, um a vez que Deus assim o h o nrou”.47 As
palavras de G. P. Fisher até parecem um eufemismo: “A deferência de C al­
vino à autoridade que considerava legítima, era profunda”.48 Se essa é um a
vertente do seu pensam ento que fez com que o calvinism o fosse associado
ao capitalismo, tam bém pode se encontrar nele um a tendência oposta que
perm itiu a luta pela liberdade religiosa na França, na Flolanda e na Escócia,
e que tem o seu m onum ento até hoje na Declaração do Sínodo de Barmen.
Essa tendência diz que quando aqueles em autoridade nos levam a desobede­
cer a Deus, eles devem ser desobedecidos. A sua autoridade provém de Deus
e, portanto, quando eles se rebelam contra Deus, sua autoridade sobre nós é
anulada. A diferença entra a visão m oderna e a de Calvino é que ele colocava
toda a vida dentro da esfera da vontade divina, e assim, fez o relacionam ento
do hom em com Deus, e a glória de Deus, o m otivo e o propósito da rebelião.
A visão m oderna faz da vida hum ana um a esfera autônom a em si m esm a e,
p o r isso, considera o bem -estar hum ano com o o m otivo e propósito da re­
belião. Q uando estes dois lados do pensam ento de Calvino são com binados
(como frequentem ente são em seus escritos) eles produzem um ideal social
e político sublime que ele chegou perto de efetuar em Genebra, mas que p ro ­
vavelmente seria impossível de realizar hoje em dia.
Por outro lado, Calvino entendia que a rebelião contra a autoridade deve
ser desnecessária, e seria desnecessária se am bos os lados cum prissem seus

4 6 C. R. LIV, p. 499.
4 7 C. R. 1 III, p. 549.
48 IIT$Ja]y <>/ ('.lirisliau D ik tr h ir , p 404
O EVANGELHO DE CALVINO 99

deveres um para com o outro. A vida deve andar suavem ente e sem distúr­
bios e cada hom em deve buscar o bem -estar do próxim o em vez do próprio.
“Mas visto que Deus nos colocou juntos em um a sociedade e vida com um ,
cada um de nós deve entender que ele não nasceu para si m esm o e que ele
não vive neste m undo para o seu próprio proveito, m as para servir e aju­
dar o seu próximo.”49 Assim, os governantes devem ser os oficiais de Deus,
buscando servir e h o n rar a Deus, governando o povo de m aneira justa, vi­
sando o seu bem . O povo deve se subm eter aos governantes e obedecê-los
de boa vontade com o Deus ordenou. Pais devem governar seus filhos com
um a com binação de disciplina e bondade, sem afrouxar a disciplina para
que os filhos não se tornem obstinados e selvagens, porém sem pre usando
da bondade para não desencorajar ou endurecê-los. Filhos devem honrar
e obedecer a seus pais, pois eles são assim ensinados até pela natureza, e
quando h o n ram aos pais eles honram a Deus. O casam ento é ordenado por
Deus, e não deve ser quebrado, nem dissolvido senão p o r causa de adultério.
A esposa deve se sujeitar ao m arido, que é sua cabeça, porque, ao se sujeitar,
ela está dem onstrando sua obediência a Deus; e se as esposas voltarem -se
contra o m arido é com o se rejeitassem a Deus. O m arido tam bém tem o seu
dever; ele deve considerar sua autoridade mais com o um suporte do que
com o um governo e, portanto, deve ser bondoso com sua esposa e não lhe
dar n en h u m m otivo de queixa. Assim, o casam ento é o serviço a Deus, e não
é instituído para servir à lascívia, m as é um a oportunidade para o casal se
dedicar ao serviço a Deus. Ele exprim e esse pensam ento belam ente quando
diz: “Deus reina em um a pequena casa, m esm o que haja m uita pobreza,
quando o m arido e sua esposa se dedicam a seus deveres. Existe aqui uma
santidade m aior e m ais próxim a do reino de Deus do que existe em um
convento.”50 O dever dos senhores é ser hum ilde e não arrogante; eles devem
ser gentis e sábios; não devem fazer seus em pregados trabalharem excessi
vãm ente e p or salários insuficientes, senão D eus é afrontado e sua imagem
(o trabalhador) é desprezada. Pelo contrário, eles devem lem brar que não
são soberanos, e que têm , em Deus, um m estre que irá julgar suas ações. O
dever dos servos é serem obedientes, reverentes, e cum prirem suas tarefas
com o m áxim o de suas habilidades. Calvino não tinha paciência com o que
chamava de “igualdade confundida”, isto é, que todo hom em é tão “bom
quanto o outro. C ada um deve cum prir o cham ado no qual Deus o colocou
e lem brar que apesar de ninguém querer estar sujeito a ninguém , ainda as
sim, aquele que serve os hom ens tam bém serve a Deus. O ideal que Calvino

l'>< « I IV. [i 110


mu n i ui. |.) -i'<■
100 OS O RÁCULO S DE DEUS

colocou para os trabalhadores era o de trabalhar “para D eus” e servir com o


se estivesse servindo a ele. Assim, qualquer que seja o trabalho, desde que
seja honesto, seja esse mal recom pensado e recebido de form a ingrata, ou
seja bem recom pensado, o servo estará contente sabendo que Deus estará
contente com a sua obediência. Para Calvino, “O trabalho honesto carrega
um sem blante encantador”.

A PEREGRINAÇÃO
Talvez o m aior elem ento no evangelho de Calvino seja a escatologia, que
perm eia toda a sua pregação. M artin Schulze, em seu im portante livro Me-
ditatio fu tu ra e vitae (1901), a descreve com o “um conceito básico no pensa­
m ento Calvinista” e declara que ela “determ ina toda a sua interpretação do
cristianism o”. Em bora possam os duvidar desta últim a afirmação, tem os de
concordar que a escatologia ocupa um a posição de m aior im portância no
seu evangelho. Ele ensina um a escatologia não realizada; isto é, o triunfo fi­
nal de Cristo e de sua igreja ainda não aconteceu e está no futuro. Portanto, a
vida do hom em cristão neste m undo não é um a vida de perfeição, descanso
e vitória, m as consiste em esperança, batalhas e necessidade. Sua dificuldade
é acrescida pelo fato de estar lutando não apenas contra o pecado no m u n ­
do, mas tam bém contra a sua própria natureza, e pelo fato de que o mal no
m undo e o diabo estão lutando contra ele. A m iséria e a angústia do m undo
m arcaram profundam ente a m ente de Calvino, e sem fazer nenhum esforço
para evitá-las ou m inim izá-las, ele buscou explanar o percurso da vida cristã
através do am biente hostil e a esperança que era prom etida ao crente. A
peregrinação cristã é um a vida sob a cruz.
C alvino gostava de descrever a vida do crente com o um a peregrinação.
C ham ado p o r Deus à vida eterna, e tendo a esperança, mas não a substân­
cia, ele deve se em penhar em direção à sua salvação, se esforçando para
chegar à sua herança celestial. Essa peregrinação não é coisa simples, mas
um a luta, um a perseverança e um a renúncia, pois parece que tudo conspira
co ntra ele. Ele vive em um m undo cuja m aldade torna difícil a vida cristã.
Se Deus quisesse, ele poderia rem over os crentes do m undo e colocá-los em
um lugar a sós, porém ele os m antém no m undo para estabelecer e provar
sua fé. C ontudo, o cristão não apenas tem de enfrentar inim igos externos,
com o tam bém tem de lutar contra sua própria natureza, que é m ais do que
preguiçosa e não deseja o reino que Deus prom eteu. Estam os envolvidos
dem ais com paixões terrenas e ansiosos dem ais a respeito de coisas terre­
nas a ponto de ignorar com pletam ente as celestiais. K certo que Iodos nos
tingim os seiuiir a Deus; mas quando i hora, som os lebeldi Cüfllfa uu
O EVANGELHO DE CALVINO 101

vontade. Em sum a, “não há ninguém que não deseje apenas seu próprio
bem -estar, e esta é nossa inclinação natural”.51 Porém , acim a de tudo, o cris
tão vai en co ntrar m uitas aflições no m undo, tanto físicas quanto espirituais.
C alvino recusava a explicação natural de que os acontecim entos são aciden
tais, ou de que Deus apenas perm itia as adversidades. Tudo que acontece
no m u n d o é vontade direta de Deus. Porém , ele não é caprichoso ou cruel
no m odo com o trata os hom ens, mas deseja trazê-los à salvação expurgan
do suas falhas e destruindo suas am arras com o m undo. Q uando crentes
sofrem tribulações, eles não devem pensar que isso é necessariam ente um
sinal da insatisfação de D eus para com eles, nem devem perder a esperança,
ou duvidar de que Deus é seu Pai. Pois ele nunca perm ite m ais adversidades
do que podem suportar e sem pre vai sustentá-los nas tribulações, um a vez
que o seu propósito não é esm agá-los, m as reform ar a vida deles e fazê-los
ansiosos pelo descanso que D eus prom eteu. O prim eiro efeito das aflições
deve ser o de fazer os cristãos exam inarem a própria vida e descobrir se
foram desobedientes a Deus; se descobrirem que sim, devem concluir que
suas aflições são um aviso dele para o arrependim ento e para deixar o pe
cado, e em hum ildade devem confessar a Deus e clam ar a ele p o r perdão.
Aflições tam bém devem nos ensinar a serm os pacientes e clam ar a Deus.
E nquanto estiverm os neste m undo devem os suportar m isérias. Portanto,
devem os ser pacientes e fixar nossas m entes em nossa herança celestial, cor
rendo até Deus em todas as tribulações e confiando em seu am or paternal
Para en trar em seu reino, dem os atravessar as aflições.
A vida cristã está escondida neste m undo, e o crente ainda não possui
as bênçãos prom etidas no evangelho. Ele não pode esperar viver os céus na
terra, ou colher o fruto da vitória, ou ter descanso. Aqui ele vive em net es
sidade, im perfeição e dificuldades, e externam ente não há diferenço entre
crentes e incrédulos. Porém , a vida que é prom etida é real, não um a sombi .1
E está d en tro do cristão do m esm o m odo que um a árvore no inverno Con
tém vida, escondida, m as esperando para desabrochar no cum prim ento do
tem po. “Nossa vida está em outro lugar”, diz Calvino, “agora está escondida
mas nos será revelada na vinda do R edentor”.52
Por isso, a peregrinação é um a vida de esperança. A salvação já está per
feita porque Cristo cum priu tudo que era necessário para nos reconciliai
com Deus, m as aqui nós só a possuím os em esperança, pois Deus não no-
recom pensa neste m undo, m as nos prom ete um a herança nos céus Isso nao
significa que a salvação é duvidosa, ou que os cristãos não têm a certeza do

M C . R. I„ p. 2 8 7 .
j t f C «■ X l.V l.p . 82.
102 OS O RÁCULO S DE DEUS

perdão dos pecados. Mas a segurança da salvação não se baseia em nada


terreno ou hum ano, apenas na graça que Deus dem onstrou em Jesus Cristo.
O crente tem certeza de que seus pecados são perdoados, m as não porque
ele vê algum a razão em si m esm o ou em suas ações para isso, mas porque
Jesus Cristo m orreu e ressuscitou. “É um a segurança suficiente de nossa
salvação quando sabemos que Jesus Cristo veio para redim ir os hom ens.
Q uando nossa fé se baseia nessa sim plicidade será forte o suficiente para
resistir a todas as investidas do inferno, todos os ataques de Satanás.”53 Mas
nossa segurança em Cristo não pode significar que agora podem os dorm ir.
Pelo contrário, devemos labutar para nos m anter longe do pecado através da
disciplina e da oração, sabendo que “a fé nunca vem sem luta”.54 Esperança
não é u m a hipótese vaga de im ortalidade, m as um a segurança, dada e cul­
tivada pelo Espírito Santo, sobre a fidelidade da prom essa de Deus em Jesus
Cristo. Em seu vigésimo serm ão em Jó, Calvino nos m ostra a fraqueza e a
m ajestade da fé:

E é expressamente dito: “A esperança para daqui em


diante”. E por quê? Porque nós devemos ter esperança con­
tra a própria esperança. Isto é, se queremos mostrar que
confiamos em Deus com seriedade, não deve haver nenhu­
ma esperança em relação ao m undo para confiarmos, mas
a morte deve nos cercar por todos os lados e a escuridão
deve nos cobrir de tal m odo que nenhum a centelha de vida
permanece para nos confortar. Para resumir, não nos deve
sobrar nada além da promessa de Deus, “Eu serei o seu
Salvador”, quando, não obstante, ele parece virar as costas
para nós e nos abandonar, e sim, até quando parece favore­
cer os nossos inimigos, lhes dando a clava para nos golpear,
e ele parece estar inteiramente contra nós. Eu digo, quando
tudo isso acontecer, devemos confiar em Deus continua­
mente. É como se Elifaz dissesse: “Quando os filhos de
Deus chegarem ao fim de suas forças, de m odo que não
sabem mais para onde ir, e não há para onde escapar, ainda
assim não devem deixar de esperar que Deus se mostrará
como seu Pai e Salvador e que ele não falhará, desde que
confiem na promessa de que haverá esperança para da­
qui em diante para os oprimidos; e não devem deixar de

5 3 C. R. X I.V I, p. 253.
54 C. R. LIII, p. 5 9 5 . C f. H O O K K R , R ichard: “S ua o ra ç ã o n ã o d e v e ex c lu ir n o ssa luhiiln (S erm ã o I,
W nrlrc n r o K rlilft 1845. v ol. 111. P. 4 8 0 .)
O EVANGELHO DE CALVINO 103

esperar pela vida que foi preparada para eles, mesmo que
vejam a morte diante de seus olhos.”55

Se um hom em deseja chegar ao reino, ele não deve desanim ar pelo obs
táculo e im pedim ento que depara, mas deve se colocar em um espírito de
persistência incansável para perseverar até o fim. Apenas com eçar bem não é
o suficiente; ele deve se m anter alerta e firme até o final. Porém , é impossível
para os crentes persistirem p o r suas próprias forças, pois são m uito m aiores
do que eles todos os poderes que contra eles conspiram . Deus deve m antê
-los para que sejam salvos, e isto ele prom eteu fazer. E tam bém é impossível
que os cristãos se percam , pois Deus, que é o protetor deles, é invencível.
“Q ue segurança nós tem os para o am anhã e para toda nossa vida, e até para
depois de nossa m orte, senão que Deus nos cham ou para si e que por isso
ele vai term inar a obra que começou.”56 Mas os crentes não devem achar que
só porque Deus não vai p erm itir que se percam , então, podem relaxar seus
esforços para alcançar a salvação e que estão livres de luta. Por m ais que
Calvino defenda o solagratia tão enfaticam ente quanto toda pessoa, ele não
abre espaço para nenhum quietism o.

Devemos nos esforçar, sabendo que apesar de não fa­


zermos nada, ainda assim Deus sempre age através de nós
de m odo que para ele não somos apenas blocos de madei­
ra, e que ele deseja que nossa fé seja exercitada e que seja­
mos bons homens de guerra para servi-lo na luta, e para
que as dificuldades que encontramos não nos impeçam de
seguir nosso caminho e de resistir a todas as emboscadas e
investidas que nos assolam.57

Portanto, devemos batalhar contra todas as tentações através das qn.iis o


diabo ten ta nos capturar e destruir, e devem os do m in ar nossos pensam cn
tos e paixões para que D eus reine em nós. M as essa luta nunca deve nos
levar ao orgulho, pois devem os lem brar que nela é sem pre Deus quem nos
encoraja; e assim devemos a ele toda a glória tam bém por isso.
Até aqui, tem os tratado do cristão em sua individualidade, m as com o o
Dr. W hale explicou: “O pensam ento de C alvino é inteiram ente coletivisla.
A sua ênfase não recai tanto no indivíduo quanto no conjunto dos predes
tinados, o povo santo de D eus que é a igreja; e seu princípio arquitetônico

55C,'. /(. X X X I II .p 23A 257.


56 C K. 1.1 II. p. 15»
5 7 « I I. p ».’ •>
104 OS O RÁCULO S DE DEUS

é o da Alta Igreja.”58 É através da igreja, p o r m eio da Palavra pregada e do


batism o, que os hom ens são feitos filhos de Deus. É através da com unhão da
igreja centrada na Santa Ceia que os hom ens perseveram em direção à sua
salvação. O rar e louvar a Deus em particular, apesar de necessário, não é su­
ficiente; os hom ens devem louvá-lo na com unhão da igreja, som ente através
da qual podem ser salvos. A igreja é construída sobre a Palavra dos Profetas
e dos Apóstolos, e C risto é a pedra angular, que sustenta todo o edifício.
C om o a igreja é um a instituição divina, Deus não aceita qualquer louvor
oferecido a ele, com o o louvor papista, que ele m esm o não tenha estabele­
cido. O dom ingo tem de ser reservado, não com o um dia de ócio, mas para
ouvir a Palavra de Deus, oração em conjunto, recebim ento dos sacram entos,
e fazendo confissão da fé. Depois de usar o dom ingo para louvar e exaltar a
Deus, o povo deve dem onstrar durante a sem ana que tirou proveito disso.
“Portanto, o dom ingo deve servir com o um a torre que escalamos para con­
tem plar a obra de Deus quando não estam os im pedidos nem ocupados com
qualquer outra coisa.”59
O rito principal na igreja é a Palavra e os sacram entos. Esses não são dois
atos de louvor que podem ser separados, mas estão tão intim am ente ligados
que form am um único rito. Nós discursam os extensivamente sobre a Palavra
no capítulo três, então não há nada mais a acrescentar aqui. Os sacram entos
são um a garantia à nossa fraca fé da verdade e da fidelidade da prom essa que
é pregada, e que de outro m odo nós não com preenderíam os corretam en­
te. Eles são sinais que nos apontam ao trabalho de Deus em Jesus Cristo:
“pelos sacram entos som os direcionados a Jesus Cristo”.60 Mas a garantia e
a promessa, o sinal e a pessoa sinalizada não podem ser separados com o se
não houvesse nenhum a graça ou presença especial nos sacram entos (no ra-
cionalism o zuingliano). Na visão de Calvino, é tão equivocado colocar toda
a ênfase na graça em detrim ento dos sacram entos, quanto vice-versa. Não
devemos parar nos sacram entos, devemos ir para onde eles nos levam. Mas
devem os com eçar nos sacram entos e não devemos buscar nenhum atalho,
p o r mais “espiritual” que seja, que Deus não tenha autorizado. Os sacram en­
tos são assim um veículo da graça. No batism o, Deus nos une a Cristo pelo
Espírito Santo, para que tenham os o perdão dos pecados. Na Santa Ceia,
nosso Senhor se apresenta a nós para que nossa fé seja fortificada “a fim de
continuarm os avançando mais e mais em direção à vida celestial, e para que
nos afastemos das am arras de Satanás, do pecado e da m orte”.61

5 8 C a lv in em C h ristia n W orsh ip, O rg. N . M ickJem , p. 157.


5 9 C. R. X X V I, p. 29 3 .
6 0 C. R. XL1X, p. 587.
IÏ1C II X IV I n. 2 5 8 -2 5 9 .
O EVANGELHO DE CALVINO 105

Porém , até m esm o a igreja não é um lugar de descanso para o peregrino,


pois seus olhos devem estar fixados na sua herança celestial, contem plando
a vitória e o descanso que foi prom etido, m as que ele ainda não experim en
ta. Ele deve se p o rtar com o um estrangeiro neste m undo - nas palavras
da Carta a Diogneto: “Sua existência é na terra, m as sua cidadania é nos
céus” - e habitar em espírito com Cristo que ascendeu a seu Pai junto com a
salvação que conquistou para nós. Aqui está a adversidade, com bates, espe
rança, necessidade e a cruz. Ali a perfeição é revelada, o descanso é dado t
“este cativeiro am aldiçoado” é extinto e a vida eterna é cum prida na gloriosa
vitória de Cristo e de sua igreja.
140 OS O RÁCULO S DE DEUS

repugnar com nós mesmos.”20 Mas, por outro lado, acreditam os em nossa
própria b o n dade até serm os convencidos do contrário, e essa convicção só
vem quando vem os a Deus (isto é, em Cristo, com o ele explica mais adian­
te). E então ele conclui que “devem os inferir que o hom em nunca estará su­
ficientem ente abatido pelo conhecim ento de sua própria m alevolência, até
que ele se com pare com a M ajestade Divina”.21 Portanto, o ponto de partida
de nossa pregação não são as necessidades das pessoas, nem sua pecam i-
nosidade, mas a graça de Deus em Jesus Cristo. E esse evangelho criará nos
ouvintes (de acordo com a vontade de Deus) seu próprio “ponto de contato”
isto é, arrependim ento e fé.
Todavia, não parece ser m uito prático e tam pouco apropriado, se do m in ­
go após dom ingo não pregarm os nada além da simples notícia de que “Deus
visitou è redim iu seu povo”. Essa objeção é parcialm ente válida, pois é n e­
cessário que nossa pregação inclua ensinam ento e exortação. Mas a objeção
é apenas parcialm ente válida, pois o ensinam ento e a exortação se baseiam
nesse evangelho de graça e fé. O evangelho é a fundação sobre a qual devem
ser construídas a instrução na doutrina, a ética cristã e a vida cristã de ar­
rependim ento, fé e oração. Além do mais, eles não deixam de ser a Palavra
de D eus p or não serem kerygma. As C artas não são m enos Palavra de Deus
que os serm ões apostólicos. Pois seja qual for o assunto do serm ão, nunca
podem os deixar as pessoas esquecerem que falamos com o em baixadores
de Cristo, e que nossa exortação à bondade ou boas obras vem do próprio
Deus. E p o r nossa parte, não podem os deixar que nosso ensinam ento se
transform e em um a palestra, endereçada apenas ao intelecto de nossos o u ­
vintes. Nossos ensinam entos, em qualquer assunto, devem ser endereçados
à sua vontade e consciência, para que nosso serm ão chegue ao indivíduo
com a força das palavras de Natã: “Tu és este hom em !”
A pregação, portanto, seja essa a proclam ação do evangelho ao m undo
ou a instrução dos crentes na fé, sem pre será a proclam ação pelo arauto:
“Assim diz o Senhor”. Mais do que qualquer coisa, nós, pregadores m o d er­
nos, precisam os, com o oráculos de Deus, prefixar - e saber prefixar - nossos
serm ões com aquelas palavras que são tanto um a declaração de autoridade
quanto um a súplica, para que Deus nos dê sua santa Palavra: “Em nom e do
Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”

2 0 ln st. 1, 1 ,1 .
21 ln st. 1, I 3.
Apêndice 1

EXEMPLO DE SERMÃO POR


CALVINO EM LUCAS 2.9-14

nvoquem os o nosso bom Deus e Pai, suplicando que lhe apraza desviar
I sua face de nossas m uitas falhas e ofensas, através das quais não cessamos
de provocar sua ira contra nós; e visto que som os por dem ais indignos de
aparecer ante sua m ajestade, que lhe apraza nos enxergar através da pessoa
de seu tão am ado Filho, o nosso Senhor Jesus Cristo, aceitando o m érito de
sua m orte e paixão com o recom pensa por todas as nossas falhas, de m odo
que possam os ser agradáveis a ele; que lhe apraza nos ilum inar através do
seu Espírito no verdadeiro entendim ento da sua Palavra, e que nos dê graça
para recebê-la em tem or e hum ildade, para que assim sejam os ensinados a
depositar nossa confiança nele, a servir e honrá-lo, de m odo a glorificar seu
santo nom e em toda nossa vida, retribuindo o am or e obediência que ser
vos fiéis devem a seus m estres e filhos a seus pais, um a vez que lhe aprouve
num erar-nos junto a seus servos e filhos. E orem os com o nosso bom M estre
nos ensinou, dizendo: “Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu
nome. Venha o teu Reino. Seja feita a tua vontade, tanto na terra com o no
céu. O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. Perdoa-nos as nossas dívidas,
assim com o nós perdoam os aos nossos devedores. E não nos deixes cair em
tentação, mas livra-nos do mal. Amém.”
Já havíam os declarado que nos será pouco proveitoso o Filho de Deus ter
nascido a este m undo, a não ser que saibam os por que ele foi enviado a nós e
quais bênçãos ele nos trouxe. E isso não pode ser com preendido senão pelo
testem unho do evangelho. E ntão ainda mais devem os atentar ao que nos
foi dito aqui: com o os anjos declararam que incom paráveis e inestimáveis

] liste ò o v ig é sim o q im iln m-miiAu f in tim n sé r ie so b r e w lm m in n iu ilo s c v tiii^ elh o s Potlr \


H u m iln tilo em ( H, X l.V I. |' ' H ■ WM
142 OS O RÁCULO S DE DEUS

bênçãos devem ser esperadas na vinda do Filho de Deus. Ora, essa m ensa­
gem não foi dada apenas para u m dia, nem apenas para um pequeno grupo
de hom ens; m as deve servir para todos os tem pos até o fim do m undo; sim,
e nos deve servir a todos, desde o m aior até o menor. Ademais, saibam os
que isso não nos será proveitoso, a não ser que sejamos envoltos pelo tem or
e reverência que aqueles pastores sentiram . Pois não apenas é dito que o
anjo falou, m as que junto dele pairava um a glória celestial, e que os pastores
foram acom etidos pelo temor. E isto foi inserido aqui especialm ente para
que aprendam os a ouvir com todo o tem or e hum ildade aquilo que é procla­
m ado com a autoridade de Deus. Vemos m uitos cujos ouvidos o evangelho
alcança, porém em vão. Por quê? Alguns estão inchados de orgulho; outros
estão tão em aranhados com suas paixões terrenas que a Palavra não lhes
tem majestade. Portanto, se quiserm os ser bons estudantes, e que a doutrina
que nos é pregada nos leve à salvação, e ser edificados com o devemos ser, o
ponto em que devemos com eçar é saber que não estam os lidando com um a
criatura m ortal, m as com o Deus vivo, ante o qual todo joelho deve dobrar
em reverência. Devem os nos hum ilhar e trem er (como é dito no profeta
Isaías) sem pre que Deus abrir sua boca sagrada para nos ensinar. Pois quem
não considerar a autoria da Palavra de Deus, para que essa tenha autoridade
sobre ele, é certo que nunca perceberá e nunca m udará; apesar de a vontade
de Deus ser declarada a ele, ele perm anecerá no m esm o cam inho. É verdade
que não terem os sinais visíveis toda vez que a Palavra de Deus for pregada a
nós, m as o que foi feito um a vez deve nos servir hoje. Saibamos, então, que
sem pre que o evangelho é pregado, Deus, que assim o ordenou, assum e a
autoria. Assim, do m esm o m odo que ele ratificou sua lei com tantos m ila­
gres e maravilhas, ele tam bém autorizou o seu evangelho de um a m aneira
ainda m ais poderosa; com o é dito pelo profeta Ageu, os céus e a terra estre­
m eceram quando o evangelho foi proclam ado. É verdade que quando a lei
foi dada às pessoas a terra trem eu e o vento se moveu; m as não há céu ou
terra que resista imóvel quando o evangelho é pregado. Tudo deve ressoar a
essa glória de Deus manifesta! Aqui encerro esse ponto.
Então, quando vierm os ouvir a doutrina que nos é declarada em nom e de
Deus, devemos estar preparados, em hum ildade e temor, a receber tudo que
nos é dito, e estar atentos a isso, e não vir em espírito de am argura, rebeldia,
arrogância ou soberba. Mas devemos saber que é com nosso Deus que esta­
m os lidando, aquele que provaria a obediência e a submissão que todos nós
lhe devemos quando ele nos chama para si. Aqui encerro esse ponto.
Bem, agora vam os ouvir o que foi dito aos pastores: “Não temais, eis
aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para lodo o povo: é
aue hoie vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que c ( Vr./o. o Senhor."
EXEM PLO DE SERM ÃO POR CALVINO EM LUCAS 2.9-14

Aqui vemos com o o tem or dos filhos de Deus deve ser m oderado; a sabei,
porquanto é testificado que Deus não nos fala salvo para o nosso bem e
para nossa salvação, ele não dispõe do rigor de um juiz para conosco, m a\
tom a o partido de um Pai, bom e amável, que nos recebe em seus braços
com o seus próprios filhos. Os perversos e os ím pios celebram quando estão
longe de Deus, e tanto degradaram sua própria consciência que não têm
m ais escrúpulos e acreditam que nunca devem prestar contas. Então festc
jam e se lançam , com o anim ais doentes, em extasias incontroláveis, e nunca
conseguem regozijar salvo quando se encontram tão brutalizados por terem
esquecido Deus, e até se fizeram acreditar que não há nem vida eterna, nem
religião. É disso que é feita a alegria destes desdenhadores de Deus. Mas
tão logo Deus dá algum sinal de sua presença, veja quão atônitos ficam, dc
m odo que é impossível aquietá-los. Assim, seu divertim ento excessivo tem
um preço m uito alto.
Por outro lado, aqueles que têm algum sentim ento de penitência, e qut
têm boa sem ente de religião dentro de si, e que pensam em Deus, num i
podem regozijar até que sejam assegurados de sua benevolência para com
eles. Pois eles não podem conceber tal alegria a não ser que antes tenham
sofrido a angústia. E de que m odo? D uplam ente. Por um lado precisam os
conhecer nossas m isérias, para que nos encontrem os em tanta angústia
com o se víssemos a m orte preparada para nós; de outro m odo nunca ex
perim entarem os a graça de Deus. Em resum o, não podem os ser elevado
a não ser que prim eiro sejam os pisoteados. E deve ser que, até Deus nos
cham ar para si, nós estarem os sempre, por assim dizer, na beira do inferno.
Portanto, essa é a razão pela qual os fiéis não podem celebrar em Deus <
na graça que lhes é dada através do nosso Senhor Jesus Cristo, a m enoj
que prim eiro tenham sido acom etidos pelo temor. E quando Deus fala, el<
devem novam ente ser tocados, com o já falei, e saber que a sua Palavra deve
ter tam anha majestade, porque excede a autoridade de todos os soberam
da terra e de todos seus com andos. Existe, assim, um duplo tem oi para ie
fiéis. C ontudo, Deus suaviza tudo isso ao dizer que vem até eles, nuo p u a
ser rigoroso e puni-los com o m erecem , m as para reconciliá-los a si, p irn
que suas falhas sejam enterradas, e que o Senhor Jesus C risto traga a u n a
para todas as suas m isérias. Por isso, quando ouvim os essa palavia, isso t
para que saibam os que D eus deseja lançar nossas ofensas nas profundezas
do m ar (com o é dito), e que ele nos aceita livrem ente por conta de sua rrici a
bondade no nom e de nosso Senhor Jesus Cristo. Veja, no cum prim ento de
nossa salvação, a alegria m isturada com a tristeza! Q uando Paulo l a i a sobre a
penitência em sua segunda Carta aos Coríntios, capítulo 7, versículo H, ele dí/
"... ainda que vos lenha contristado com a carta, nao me arrependo; em bora
144 OS O RÁCU LO S DE DEUS

já m e tenha arrependido (vejo que aquela carta vos contristou por breve
tem po); agora, m e alegro”. Por que ele disse isso? Sim plesm ente porque não
consegue nos im aginar aceitando a bondade de Deus (com o eu já disse)
até que aprendam os a estar contritos p o r nossos pecados. Mas logo após
vem a alegria! Portanto, aprendam os a lam entar sem pre quando pensar­
m os em nossas iniquidades, e nos horrorizarm os com elas; e não descansar
em satisfação até que Deus venha e nos dê paz, declarando que sua ira foi
desviada, e pela m ediação de nosso Senhor Jesus Cristo ele será bondoso
para conosco e nos m anterá seus filhos, apesar de term os sido tão m aus e
perversos a ponto de serm os seus inimigos. Essa é a alegria sobre a qual é
falado aqui, e que deve aniquilar toda tristeza que vem da lem brança de nos­
sa pobreza e m iséria. E é por isso que o anjo diz; “Não temais; eis aqui vos
trago boa-nova de grande alegria”. Então, aprendam os a ser sem pre com o
pobres e tem erosos hom ens até que sejamos confortados e anim ados pelo
evangelho. Que não busquem os paz em outro lugar - senão, ai de nós! Pois
se o diabo conseguir nos m inar em nossa autoestim a, logo ele terá a vitória
e nos terá em suas correntes e am arras. Em sum a, serem os levados com o
seus miseráveis escravos. E assim, lem bre-se bem dessa palavra, que não
devem os regozijar até que alcancem os a segurança de que Deus nos am a e
nos é favorável apesar de não m erecerm os. Essa é a fundação sobre a qual
devem os construir, caso contrário toda a nossa alegria será transform ada
em lágrim as e ranger de dentes.
E p o r fim, o anjo não se contenta em dizer que ele anuncia um a alegria,
mas diz que é um a grande alegria, e que será para todo o povo. Preste atenção
a isso. Pois se essa palavra não estivesse aqui, im aginaríam os que o relato de
Lucas se aplica apenas aos pastores. Mas essa alegria era estendida a todo o
povo. É verdade que o anjo está falando dos judeus, pois eles eram o povo
eleito. Mas hoje a separação se desfez, com o diz Paulo, e Jesus Cristo, através
da pregação do evangelho, proclam a a paz àqueles que estavam longe e aos
que estavam perto. Os judeus estavam aliados a Deus, quando ele os adotou
na pessoa de Abraão - e essa adoção ele confirm ou através de sua lei. Mas
agora, apesar de estarm os longe, Deus veio a nós e desejou esse evangelho
da reconciliação para todos. Por isso é dito que Jesus Cristo proclam a no
evangelho paz para aqueles que estavam longe de Deus e não tinham conhe­
cim ento dele. Pois bem , visto que nos é declarado pelo anjo que devemos re­
gozijar com a vinda do nosso Senhor Jesus Cristo (e não no sentido norm al
da palavra, m as no sentido de que devemos ser transportados por alegria)
devemos fazer essa doutrina proveitosa para nós.
E com o podem os entender essa alegria? É certo que se estiverm os em a­
ranhados nos prazeres e encantos deste m undo, se estivei mo niloxu ados
EXEM PLO DE SERM ÃO POR CALVINO EM LUCAS 2.9-14 145

pelas nossas afeições, nunca conseguirem os regozijar-nos na graça que nos


é trazida pelo Filho de Deus. Mas considerem os os pastores. Sua condição
hum ana não estava m elhor por eles terem ouvido essa palavra do anjo ou
por terem visto que o Filho de Deus nasceu. Pois retornaram à sua vida
norm al, guardando suas ovelhas. Eles passavam frio durante a noite, e calor
durante o dia, e eram m al vestidos. Em poucas palavras, não vem os eles ga­
nharem nada em relação à carne e a esta vida m ortal para justificar a descri­
ção de tam anha bênção. Todavia, eles não deixaram de regozijar. E aqui, veja
com o devemos nos conform ar a seu exemplo. Isto é, apesar de o evangelho
não aum entar nossa riqueza e nossa honra, apesar de não nos trazer nem d i­
vertim ento nem prazeres, m esm o assim não devem os cessar de serm os ar­
rebatados p or esse gozo espiritual e de nos contentar com o fato de Deus ser
favorável a nós, e não devem os buscar qualquer outro bem e qualquer outra
alegria senão essa, e aqui devem os encontrar todo nosso descanso. Veja por
que nem m esm o os pobres param de celebrar; apesar de serem afligidos
de diversos m odos, e apesar de serem atorm entados, alguns pela doença,
alguns pela angústia, sendo rejeitados por todos, e outros levando um a vida
miserável, e adoecendo com o pobres infelizes, ainda assim eles têm m otivo
para se gloriar. Com o Paulo diz no quinto capítulo de Rom anos, quando so­
m os justificados pela fé, tem os bom m otivo para nos gloriar, visto que tem os
paz com Deus. E isso faz com que até m esm o as aflições sejam gloriosas para
nós, porque elas se tornam auxílios para nossa salvação, e Deus faz com que
sejam proveitosas para nós. Porque experim entam os a sua ajuda e socorro
quando som os desam parados pelos hom ens e não tem os para onde ir, um a
vez que não param os de esperar em Deus e de ter prova definitiva de que ele
está conosco já que ele m esm o nos assegurou disso. Portanto, tem os razão
para nos gloriar em nossas aflições, m esm o que o evangelho não apenas dei­
xe de fazer avançar nossos prazeres ou divertim entos ou riquezas terrenas,
mas, pelo contrário, nos faça perseguidos e atorm entados. Vemos m uitos
que não recebem nenhum a outra recom pensa por seguir o evangelho além
de serem perseguidos, caçados e despojados de seus bens; de m odo que al­
guns perderam tudo o que possuíam , outros foram m antidos em prisões e
ainda outros foram cruelm ente postos às chamas. A pesar de m uitos pobres
crentes não terem o u tra recom pensa p o r receber o evangelho, ainda assim
essa alegria falada aqui é m ais do que excelente, e precisam os aprender a
descansar no am or que o nosso S enhor Jesus C risto tem p o r nós, vendo
que ele deseja ser para conosco com o um Pai e um Salvador e nos segurar
com o seus filhos. Tudo isso, portanto, deve adoçar toda tristeza que carre­
gam os e devemos tom ar coragem na graça e na bondade do nosso Senhor
Jesus Cristo. Com o Paulo diz, não devem os desfalecer, porque, ainda que o
146 OS O RÁCULO S DE DEUS

hom em exterior esteja se corrom pendo, o interior se renova dia após dia.
Pois nossa leve aflição, que é apenas transitória, produz em nós um peso
m aravilhoso e excelente de glória.
É isso, em sum a, o que tem os de lem brar e com o devem os praticar essa
doutrina, quando nos é dito que essa alegria, sim, essa grande alegria, será
para todo o povo. Agora, é verdade que nem todos regozijaram . Mas Deus
tem oferecido essa alegria a eles. Então, os descrentes se tornam inescusá­
veis, um a vez que se privaram por sua própria m alícia da graça que Deus
ofereceu a eles. Afinal, Deus declara que na vinda do seu único Filho ele
deseja trazer para si as pobres ovelhas que estão dispersas e perdidas; deseja
trazer da m orte para a vida aqueles que foram alienados dele. E nossa parte
é aceitar essa bênção pela fé. É verdade que a fé é um a dádiva exclusiva
do Espírito de Deus, m esm o assim, não devem os repulsá-lo quando ele
fala tão docem ente conosco, pois ele nos convida, e apenas pede para que
sejamos unidos a ele, que regozijem os na plenitude das bênçãos que tem
colocado no nosso Senhor Jesus Cristo. Prestem os cuidadosa atenção no
que foi acrescentado, que essa grande alegria é fundada em nosso Senhor
Jesus Cristo. “... hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo,
o S e n h o r Vemos aqui sobre o que Paulo tratava na passagem que m encio­
nei acim a (de Lc 2), isto é, que Jesus Cristo é nossa paz. Do m esm o m odo,
tam bém devem os concluir que ele é nossa alegria. E, na verdade, quando
pensam os em Deus, se Jesus C risto não se levantasse com o nosso interces­
sor para nos adquirir graça, onde estaríam os nós? A m ajestade de Deus é
tão terrível a ponto de nos deixar com pletam ente confusos e até nos fazer
cair em desespero. Porque quando com param os Deus conosco, ele deve ser
nosso Juiz. Um a vez que som os pecadores, ele declara guerra a nós; já que
lutam os contra ele para subjugar sua justiça, que é m ais preciosa que toda
vida na terra, ele nos subjuga. Portanto, um a vez que não podem os concebê-
-lo senão com o nosso inim igo m ortal e com o um juiz que está arm ado para
nos d estruir e exterm inar com pletam ente, onde estará nossa alegria senão
em que nosso Senhor Jesus Cristo se torna o M ediador e nos declara que,
apesar de ser Deus eterno, ele se vestiu com nossa carne e nossa natureza de
m odo a se to rn ar nosso irm ão? E ele até m esm o recebeu sobre si a m aldi­
ção de nossos pecados e carregou o fardo que nos teria esm agado a todos,
de m odo que agora não nos achem os culpados perante Deus e que nossos
pecados não m ais sejam contabilizados e lem brados. Ele nos vestiu com sua
justiça para que possam os vir com a cabeça erguida e saibamos que Deus não
nos im puta nossas iniquidades, mas que ele nos conhece e nos aceita com o
se tivéssemos lhe servido de todo o coração - e isso no nom e do seu Filho.
Veja (eu afirmo) com o essa alegria que nos é trazida pelo evangelho tem
EXEM PLO DE SERM ÃO POR CALVINO EM LUCAS 2.9-14 147

sua fundação em nosso Senhor Jesus Cristo. Q uem não conhece o ofício de
Jesus Cristo n unca pode confiar em Deus, nem oferecer orações e súplicas:
ele sem pre estará em ansiedade e dúvida e dissimulação. A não ser que a
fé chegue e nos m ostre o cam inho, é certo (eu afirmo) que nunca terem os
acesso a Deus. Agora, a fé deve estar firm ada em Jesus Cristo, pois ele é o
único alvo em que devemos m irar. O bservem os que de acordo com a m e­
dida de nossa fé em Jesus Cristo, podem os ter descanso e alegria em Deus,
pois é através de nosso Senhor Jesus Cristo que som os reconciliados; com o é
dito na Segunda C arta aos Coríntios: “Deus estava em Cristo reconciliando
consigo o m undo”. E hoje ele continua seu trabalho quando o evangelho
é pregado a nós. E isso se aplica a nós, um a vez que ele que não conheceu
pecado foi feito pecado p o r nós; isto é, levou nossa maldição, e foi, p o r assim
dizer, am aldiçoado por Deus seu Pai em nosso nome.
Ademais, para que sejam os ainda mais persuadidos, está escrito que “Ele
nos nasceu”. Se o anjo tivesse sim plesm ente dito que “Um Salvador é nas­
cido”, isso seria suficiente para nos trazer a Deus. Porém ainda teríam os a
possibilidade de vacilar, já que som os p o r natureza inclinados a desconfiar,
e não conseguim os nos convencer a m enos que o Senhor nos confirm e por
todos os m odos. Esta palavra, “ Um Salvador nos é nascido”, não é supér­
flua. É com o se fosse dito que ele se doa a nós, que ele não veio por seu
próprio bem , m as para nosso bem e salvação, e que não vai descansar até
que nós o aceitemos, um a vez que o Pai desejou que ele fosse nosso - com o
tam bém diz Isaías: “... um m enino nos nasceu, um filho se nos deu”. Aqui
está o profeta proclam ando m uito tem po antes p o r que Jesus Cristo viria
ao m undo. Ele diz que o m enino nos nasceu. Se ele tivesse dito: “O m enino
nascerá,” seria m uito, mas não o suficiente; pois sem pre haveria enganado­
res e contradizentes afirmando: “Ah! Apesar de o Filho de Deus ter nascido,
não significa que tem algo a ver conosco”. Mas o profeta declara que foi por
nós que o m en in o nasceu, e p o r nós foi dado. C om o Zacarias tam bém diz:
“Ó filha de Jerusalém : eis aí te vem o teu Rei!” Assim vem os que não p o d e­
rem os experim entar dessa alegria espiritual que é falada aqui salvo quando
entenderm os que o nosso Senhor Jesus Cristo nos foi dado com pletam ente,
um a vez que o Pai assim o desejou - com o é dito em João, que ele não p o u ­
pou seu próprio Filho, m as o entregou para m orrer por nós; e mais um a vez,
que ele nos deu Jesus com o herança para que tom em os posse dele. Portanto,
visto que Deus nos deu Jesus, diz Paulo, com o poderia nos privar de todo
o resto? Pois todas as bênçãos deste m undo, que jam ais podem os imaginar,
são m uito m enores que Jesus Cristo, que é o Filho am ado e a eterna Sabedo­
ria do Pai. Assim sendo, quando Jesus Cristo é nosso, e exige que nos regozi­
jem os nele e apenas nele, não im aginem os que toda perfeição da sabedoria,
148 OS O RÁCULO S DE DEUS

justiça, vida e glória que está nele não nos será dada junto com ele. Observe,
então, a grandeza dessa alegria sobre a qual os anjos falam.
Agora é dito sobretudo que “hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salva­
dor, que é Cristo, o Senhor”. Isso é para m ostrar que ele não declara n e n h u ­
m a inovação. Pois se os pastores nunca tivessem ouvido falar do Redentor,
achariam isso m uito estranho. E seria m uito breve e obscuro apenas dizer
que nasceu o Salvador. Mas porque desde sua infância eles sem pre ouviram
falar que Deus iria restaurar seu povo, e que o Salvador prom etido viria, ele
deliberadam ente diz: “É Cristo, o Senhor'-, com o se dissesse: “Vocês se lem ­
bram de que Deus ordenou a unção real, que significa que um rei deveria
ser eleito e escolhido pelo povo e constituído em seu nom e, para representar
todo o povo; e esse rei deveria ser o senhor suprem o e o elo de toda união”.
É verdade que, debaixo da lei, reis eram ungidos, todavia, isso era apenas
um a figura e um a som bra, e a unção não se aplicava a todo o povo. Agora,
em Jesus Cristo, a realidade era outra. Pois com ele não era um a questão
de óleo visível e m aterial, mas do Espírito Santo. Então ele recebeu todos
os dons do Espírito de Deus. E por quê? Não para seu próprio uso, mas
para derram á-los em cim a de nós, para que pudéssem os participar deles,
cada um de acordo com a m edida da graça que recebem os desse grande
Salvador. Mas apesar de nossa indignidade, ele nos enriqueceu a todos com
suas bênçãos, de acordo com o que lhe aprouve dar e distribuir. Veja então
por que e com qual autoridade ele é cham ado Cristo. Veja tam bém por que
som os cham ados de cristãos - porque participam os na unção espiritual que
foi dada ao nosso cabeça. Agora, se estiverm os com pletam ente destituídos
do Espírito de Deus, com certeza estam os abusando desse título honrável
de cristãos, porque de m odo algum ele nos pertence. Estejamos atentos em
que Jesus Cristo veio com o o Ungido; isto é, com o aquele que recebeu toda
perfeição de bênçãos espirituais, que nós tom em os de sua plenitude, e graça
p o r graça. Logo, devemos todos vir a essa fonte e tom ar dela corajosam ente,
sabendo que ela nunca falhará. E quanto m ais cada crente vir a essa p er­
feição e tom ar sua parte, ainda m ais ela aum entará, e sem pre haverá mais.
Portanto, nós receberem os graça por graça. Isto é, não podem os participar
em n enhum a graça de Deus, salvo quando é colocada em nosso Senhor Je­
sus Cristo. E não é necessário que façamos longas jornadas para chegar até
ele, pois através do evangelho ele declara que ainda hoje é nosso. Ademais,
devemos aprender a nos sujeitar a ele, se desejam os ser cristãos; isto é, se
desejam os gozar das bênçãos que ele nos trouxe, ele deve ser nosso Senhor
- ou seja, deve ter toda preem inência sobre nós. Isto apenas será assim se
form os obedientes a ele; com o é dito no salm o 110, devemos nos apresen­
tar a ele voluntariam ente no grande dia. E som os em cada di i exnrl.ulo- a
EXEM PLO DE SERM ÃO POR CALVINO EM LUCAS 2.9-14 149

andar diante de Deus e a estar sem pre prontos a seguir sua vontade, e dizer:
“Senhor, aqui estou! D isponha da m inha pessoa e bens com o quiserdes.”
Nós dem onstram os e provam os por nossas ações que o Filho de Deus ó
nosso Senhor quando som os obedientes ao cham ado de Deus. Além disso,
saibam os que som ente ele, sem com panhia, deve ser nosso Senhor; para
que não corram os de um lado para o outro com o fazem os pobres papistas.
É verdade que há dom ínios terrenos, principados, dignitários e Estados, e
o reino de nosso Senhor Jesus Cristo não interfere no governo de tal or
dem . Mas aqui é um a questão de reinado espiritual, isto é, que nós sejamps
ensinados a andar com o se diante de Deus, e que, vivendo neste m undo,
sejamos tão estranhos aqui que, entrem entes, p o r fé e esperança, m ante
nham os nosso coração elevado para que não seja engolido pelo lamaçal de
nossas ansiedades e prazeres. Note, então, com o devem os ter nosso Senhor
Jesus Cristo com o nosso único Senhor! Os papistas têm a Virgem Maria;
eles têm São Miguel, São Pedro, São Guilherm e; em suma, todos estes são
seus senhores. E por quê? Porque ali Jesus é pisoteado, rejeitado e negligen
ciado. O bservem os que essa palavra é dada apenas ao Filho de Deus, visto
que ele se apropriou dela para si e que é um privilégio que ele sem pre teve,
e que não pode ser atribuída a qualquer criatura que seja. E essa é a razão
pela qual Paulo diz: “Apesar de m uitos deuses serem renom ados entre os
cegos e ignorantes, e há m uitos senhores, sem pre para nós haverá um único
Deus, e um único Senhor, Jesus C risto que é nossa cabeça”. Pois ele deve ser
o único elo de nossa união, de m odo que através da sua m ediação possam os
ser unidos a Deus seu Pai.
Essa palavra tam bém se refere ao que o anjo acrescenta: “é que hoje vos
nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor”. É com o se
tivesse aduzido aos profetas, para nos m ostrar que o que ele proclam a e
autêntico, visto que Deus previu isso desde sem pre e enviou aquele que ei a
esperado pelos pais e p o r todos os fiéis e por toda a igreja de m odo gcial
Um a vez dito isso, aprendam os que para nos regozijar em nosso Senlim
tam bém devemos buscá-lo na lei tanto quanto no evangelho. Pois ele é o lim
da lei, com o diz Paulo. Portanto, devemos saber que a lei e os Prolei is nos
foram dados para que conheçam os nosso Senhor Jesus Cristo. Ele com#çou
a ser conhecido m esm o antes da lei; e agora que o evangelho foi dado, U
mos um a declaração m ais com pleta, para que tenham os m enos desculpa,
e para que nosso acesso a D eus seja o mais facilitado, e para que tenham os
proveito na escola de Deus, visto que ele abriu seu coração e que m ais nada
está escondido de nós; pois em verdade, descobrirem os que em Jesus ( Irislo
estão todos os tesouros de sabedoria e entendim ento 1 verdade que está
dito que eles ístáo i si ondulos nele, mas isso e poriute os hom ens nnom intes
150 OS ORÁCULOS DE DEUS

deste m u n d o não conseguem entender nada, e essa palavra é feita para fe­
char os portões a eles. Mas quando viem os na sim plicidade da fé em Jesus
Cristo, apesar de não haver nele nenhum a pom pa ou exibição, ainda assim
sabemos que ele possui todos os tesouros de sabedoria e entendim ento em
plenitude suficiente para as necessidades de nossa salvação. Veja, em suma,
o que tem os de lembrar.
Agora a m ensagem do anjo deve ser suficiente; m esm o assim, Deus, p er­
cebendo que estam os entregues a vaidade e a falsidade e que não consegui­
m os nos m anter em sua verdade a não ser quando m antidos lá com o que
em prisão, desejou acrescentar um a confirm ação ainda maior. É por isso
que está escrito que, logo em seguida, “apareceu com o anjo um a multidão
da milícia celestial”. Observe com o Deus não está satisfeito com um a única
testem unha, apesar de ter im prim ido sua glória no anjo, do m esm o m odo
que conhecem os o sol pelos raios que em ana. Então, um a vez que Deus
enviou esse exército celestial, e todos os anjos declararam que Deus estava
reconciliado com o m undo, há razão suficiente para os hom ens se regozi­
jarem nessa paz, e pelo p o d er da graça receber e se regozijar nessa bênção
tão inestimável. Agora, quando percebem os que Deus desejou que sua graça
fosse testem unhada por um a m ultidão infinita de anjos, tom em os nota de
nossa incredulidade. Pois se não fosse nossa incredulidade, isso não seria
necessário, com o já argum entei. Mas Deus sabia com o somos; quer dizer,
que som os vacilantes e que não há nada senão leviandade e inconstância
dentro de nós, e que som os teim osos, e que ele não podia nos vencer com o
deveria. Q uando ele coloca sua graça diante de nós, desviamos o olhar, ou
nos encolhem os e som os com o anim ais rabugentos resistindo-o. Assim,
quando Deus usa tal recurso e deseja que sejamos plenam ente assegurados
de que ele é nosso Pai e Salvador pela m ediação de seu único Filho, ele
nos acusa e condena de incredulidade - e nós tam bém devemos pronunciar
condenação sobre nós m esm os. M esm o assim, tam bém devemos dispor do
auxílio que Deus nos deu e não serm os presunçosos a ponto de dizer: “Ah!,
isso já basta! A prendi tudo isso no com eço!” Isto é o que m uitos sujeitos
acéfalos dizem . Tão logo aprendem um pouco sobre o evangelho se to r­
nam os m ais eruditos dos estudiosos no m undo. Mas quando se trata de
experiência, dem onstram ser apenas vento e fum aça, pois não é necessário
nada para m atar sua fé; a m enor das tentações do m undo é suficiente para
subjugá-los. E essa é a recom pensa de sua presunção. Então, conheçam os
nossas fraquezas, saibam os que não há nada senão falsidade dentro de nós,
para que busquem os toda a ajuda que Deus nos oferece, para que sejamos
estabelecidos, a fim de não negligenciarm os aqueles auxílios que ele sabia
ser apropriados e adequados a nós. F.m resumo, é isso que lemos de lem brar
EXEM PLO DE SERM ÃO POR CALVINO EM LUCAS 2.9-14 15]

quando se diz que um a m ultidão infinita de anjos apareceu com aquele que
já havia falado. E além disso, que escudo poderíam os construir com igno
rância quando, com tantas testem unhas de Deus, nós ainda não cremos?
Está escrito que pelo testem unho de dois ou três, toda disputa deve ser de
cidida e anulada. Mas agora Deus não envia dois ou três, mas um exército
de testem unhos; e não de hom ens m ortais, m as de anjos, aquele em quem
ele brilha, e que são, por assim dizer, a ratificação da sua justiça, da sua bon
dade e do seu poder, de m odo que até seu nom e é aplicado a eles, e eles são
cham ados de deuses - não para roubar-lhe de nada, nem para dim inuir sua
majestade, m as para m ostrar que ele habita neles. Sendo assim, um a vez que
tem os os anjos do paraíso com o testem unhas que Deus está reconciliado
conosco, e que não são três deles, nem um a dúzia, m as um a m ultidão infini
ta, e um a vez que Deus desejou nos declarar que esquecerá nosso ceticism o
e nossa rebeldia, não serem os nós tão perversos, para não dizer possessos
p o r Satanás, se não aprenderm os a aceitar e agarrar essa m ensagem , e nos
fazer tão bem arm ados com ela a ponto de nos transform ar em fortalezas
invencíveis capazes de resistir a toda m aquinação do diabo contra nós? Veja,
portanto, com o devem os tirar proveito dessa passagem.
E agora vamos brevem ente ver o que todos os anjos disseram: “Glória a
Deus nas maiores alturas, e p a z na terra”. A pesar de poderm os ju n tar isso
com o que segue - “entre os homens, a quem ele quer bem” - o sentido não
m uda. Não será necessário gastar m uito tem po nisso; porque, em relação
à substância, em prim eiro lugar os anjos exortam os pastores (e neles nos
exortam a todos) para m agnificar a glória e a bondade de nosso Deus e
dar-lhe o louvor e a gratidão que ele merece. Pois esse tam bém é o fim d»
nossa salvação, com o diz Paulo, em especial no prim eiro capítulo de 1 fi slos
(apesar de ser um a doutrina com um a ele, essa é tratada em extensão) Por
que foi que Deus nos enviou seu único Filho? Foi para que Deus fosse glo
rificado. Por isso, glória a D eus nas alturas. Agora, isso é dividido em ilo.is
partes. A prim eira é que não devem os buscar a causa de nossa f alvai ,io em
outro lugar senão na pura bondade de Deus. Pois se pudéssem os ofereioi
qualquer coisa que seja, ou se as criaturas pudessem nos ajudar aqui, i ei lo
que parte da glória seria nossa ou pertenceria a outras criaturas. Mas qu.m
do é dito: “Glória a Deus nas maiores alturas”, todos os outros devem sei
hum ilhados e ninguém além de D eus conhecido com o o autor de todo o
bem . O bserve com o a glória de D eus destrói toda im ponência das crialu
ras, e aqui não devem os inventar nada, m as saber que Jesus C risto nos lui
dado, pois D eus tanto am ou o m undo (com o diz a passagem do terceirO
capítulo de João que já citam os) que ele não poupou seu úni< o Filho mas
o entregou â m orti por nós. Enlao. oii.ukIo i. i min ........ >
152 OS O RÁCULO S DE DEUS

terem os dado m uitas voltas para descobrir p or que Jesus Cristo nos foi dado
- pelo am or de Deus; ou seja, pela sua livre bondade. Por isso, glória é devi­
da som ente a ele; ninguém deve roubá-la dele, fazendo dessa um despojo a
ser distribuído a todos em pequenos pedaços, com o já dissem os acontecer
hoje entre os papistas am aldiçoados.
Agora existe a segunda parte, que é: não devemos ser ingratos. Q uando
Deus nos celebra e se m ostra favorável a nós, é indevido serm os preguiçosos,
essa alegria deve nos mover, nos inflamar, e nos despertar com pletam ente
para glorificar a Deus. Pois ele nos tirou da som bra da m orte, e nos intro d u ­
ziu no reino da vida, com o diz Pedro, para que possam os pronunciar seus
louvores im ortais. E de fato, quando o profeta Isaías fala sobre sua pregação,
ele diz que Deus adquiriu u m povo para que ele seja glorificado nele, e que
nós som os com o as plantas e frutos que ele dem anda de sua herança; igual
acontece quando um hom em planta a videira e cultiva o cam po e colhe os
frutos. É verdade que Deus não pode receber nada de nós; não obstante,
ele deseja ser glorificado, apesar de não poderm os oferecer-lhe nada. Note,
então, com o o fruto do evangelho em nós deve m ostrar o nosso zelo em
oferecer a Deus o sacrifício de louvor que ele merece, um a vez que, por
sua infinita m isericórdia, ele nos tirou das profundezas da m orte em que
estávam os subm ergidos.
E aqui é acrescentado, “p a z na terra". Por quê? “Porque Deus é favorável
para com os hom ens”. Isso é para confirm ar ainda mais o que já tem os dito,
que toda paz é am aldiçoada a não ser que diga respeito à reconciliação e a
expiação que Deus fez conosco. Q uando sabem os que Deus nos é favorável,
e que, em vez de ser nosso inim igo (como m erecem os), em vez de se deixar
provocar p o r nossas rebeldias e iniquidades e ser nosso juiz raivoso; em
vez disso, ele é nosso Pai e Salvador, e quer se regozijar em nós para que
possam os nos regozijar nele; por esse motivo, quando tem os isso, tam bém
tem os paz. É assim que tem os descansado, e com o todo nosso contenta­
m ento depende da boa vontade de nosso Deus - isto é, porque ele se agrada
em nos receber em m isericórdia e dem onstrar que tem por nós um am or
paternal em vez de nos exterm inar dentre suas criaturas. Essas palavras fo­
ram bastante corrom pidas no papado; pois, apesar de cantarem seu Gloria
in excelsis, eles depravaram a passagem tão vilm ente que percebem os com o
na verdade são diabos encarnados. Pois dizem que a paz é para os hom ens
a quem ele quer bem , e a partir disso estabelecem sua doutrina em cima
de m éritos e im aginam que a graça de Deus é inútil a não ser quando os
hom ens a recebem por vontade própria. Agora, após cantarem Gloria in ex­
celsis Deo (uivando com o lobos selvagens) eles roubam de I Huis .1 glória ao
estabelecer seu conceito da boa vontade dos hom ens Mas nós vi inos que os
EXEM PLO DE SERM ÃO POR CALVINO EM LUCAS 2.9-14 I '> I

anjos significaram que apenas Deus m erece de nós toda a glória, e que nós
precisam os abrir nossa boca para dar a ele toda a gratidão que ele merece
porque ele está reconciliado conosco, de acordo com sua boa vontade isto
é, ele não contabilizou nossas misérias a não ser para lhes fazer provisão. I
ele não nos puniu de acordo com nossas ofensas, nem nos rejeitou como
se fôssemos (e som os) um a abom inação para ele; m as ele tem dem onstr i
do boa vontade para conosco - desta forma, ele desejou nos com unicar as
riquezas incom ensuráveis de sua m isericórdia, ele tem sido favorável para
nós que estávamos repletos de im undice, e que estávamos cheios apenas de
m orte e m aldição em razão do pecado que é horrível para ele. Portanto, já
que Deus decidiu se hum ilhar, e se tornou favorável a nós, e dem onstrou sul
graça para conosco, tem os m otivo para regozijar. Isso tam bém serve pai i
assegurar nossa fé para que possam os corajosam ente invocar a Deus, e lutar
contra todas as tentações que encontram os, sabendo que sem pre terem os
acesso a ele quando vierm os no nom e do nosso Senhor Jesus Cristo, e pai i
que saibam os que é por sua livre bondade que som os favoráveis a ele.
Agora prostrem o-nos ante a m ajestade de nosso bom D eu s... oremos
que ele não apenas dê sua graça a nós, m as tam bém a todos os povos .
nações da terra, recuperando todos os pobres e ignorantes de seus míseros
cativeiros de erro e escuridão para o cam inho correto da salvação. Q ue paru
esse fim, lhe apraza levantar m inistros fiéis e verdadeiros de sua Palavra, que
buscam não seus próprios proveitos e ambições, mas som ente a exaltai, ao de
seu santo nom e e a salvação de seu rebanho. Que, por outro lado, lhe api a/a
exterm inar todas as seitas, heresias e erros, que são a sem ente de lod.e. ,e,
desgraças e divisões entre seu povo, para que vivam os todos juntos i m iiai
m onia fraternal. Q ue lhe apraza guiar, através de seu Santo lispü jtu lodo«
os reis, príncipes e senhores que levam sua espada, e que seus govri nos nuo
se façam em avareza, crueldade e tirania, nem em qualquer aleiçao pi i vn -s.i,
m as em toda a justiça e retidão. Que nós tam bém , vivendo abaixo deli " Ihi
prestem os a honra e obediência que lhes são devidas, e que através d> boa
tranquilidade e paz possam os servir a Deus em toda santidade e honesll
dade. Que lhe apraza consolar todos os pobres aflitos a quem elí v1s;it i de
diversas m aneiras com a cruz e com as tribulações - aqueles que ele tem
afligido com a praga, guerra e fome, e outros males, aqueles sofrendo poí
pobreza, doença, prisão, banim entos, ou outras calam idades do corpo ou
aflições do espírito - que lhe apraza dar a todos estes boa paciênc ia até que
ele lhes envie o alívio de todos os seus males. Especialm ente que lhe aprazu
ter piedade de todos os pobres crentes, dispersados nesse laliveim da Ha
bilônia sob a tiiania do aniu risto, m esm o aqueles que solrem perseguições
poi lo n ta do loslomunlm da verdade de Dwi® ■•••* "'•* ‘
verdadeira constancia e os console, e ílS.0 pei rülla quf l)lltrc c lobos vorazes
descarreguem sua ira contra eles, m as lhes dé v u d ad e iia c onslancia, para
que o nom e de Deus seja glorificado por eles tanto em vida quanto em m or
te. Q ue lhe apraza fortificar todas as suas pobres igrejas que labutam hoje e
são assaltadas por seu santo nom e. Q ue ele reverta e destrua os conselhos,
m aquinações e em preendim entos de todos os seus inimigos, para que sua
glória possa brilhar em todo lugar, e que o reino de nosso Senhor Jesus
Cristo possa aum entar e avançar cada dia mais. Vamos orar p o r todas essas
coisas com o nosso bom M estre e Senhor, Jesus Cristo, nos ensinou a orar,
dizendo: “Pai nosso (...)”.
T"
Apêndice 2

TABELA CRONOLÓGICA DA
PREGAÇÃO DE CALVINO

sta tabela é baseada na de M iilhaupt, porém basiam r íjmpllftt .ul.i paia


E cobrir apenas a cronologia. O m aterial bibliográlic o qua MLiHniupi In. lutu
em sua tabela, eu disponibilizei nos Apêndices 3 e 4.
O m ês se refere ao com eço da série (ou a um serm ão isolado) a nau .. i
que haja indicação do contrário.

Domingo Semana
Data
Manhã Tarde Manhã

1549 Hebreus Salmos Jeremias


1
25 ago. Atos salmo 40

1550 i
Lamentações
1
12 nov. Miqueias
1551 1
6 fev. Sofonias
8 fev. salmo 80.9 i
2 mar. Oseias
1
5 set. Joel
i
28 out. Amós
156 OS O RÁCULO S DE DEUS

1552 1
5 fev. Obadias
1
Jonas
1
Naum
1
Daniel
i
21 nov. Ezequiel

1553
8 jan. salmo 119

2 jul." salmo 119 (fim)

3 set. Atos 20.17ss.

12 nov. salmo 147

1554 1
21 fev. Ezequiel (fim)

26 fev. JÓ
Atos (fim)

Manhã e tarde
25 mar. lTessalonicenses

2Tessalonicenses

16 set. ITim ôteo

30 set. salmo 148

1555
1
20 mar. Deuteronômio
21 abr. 2Timôteo

14 jul. salmo 149

Tito

20 out. ICorintios
TABELA CRO N O LÓ G ICA DA PREGAÇÃO DE CALVINO 157

1556
15 jun. Deuteronômio (fim)

16 jul. Isaías

1557

28 fev. 2Coríntios

30 mai. salmo 65

14 nov. Gálatas

1558

15 mai. Efésios
1559 Manhã Tarde
26 mar. Mateus 28.1ss.
jul. i
Harmonia dos
4 set. evangelhos Gênesis
1560
14 dbr. Mateus 28.1ss.
19 mai. salmo 46
26 mai. salmo 48
2 jun. Atos 2
9 jun. salmo 48
1561 1
3 fev. Juízo
1
8 ago. ISamuel
1562
23 mar. Mutons 7()

28 mar. Mateus ,'K


23 mai. 2Samuel
1563
3 fev. 2Samuel (fim)

IReis
1564
2 fev. 2Reis (fim)
1
6 fev. 1Hrmuniu dos
*v*ng*lhnr,