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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO


DISCIPLINA: HISTÓRIA DA CULTURA JURÍDICA
PROF. ARNO DAL RI JÚNIOR, PH.D.
MESTRANDA: ANA LARISSA DA SILVA BRASIL

RESENHA DA OBRA: MARX, Karl. Para a questão judaica. Tradução de José Barata
Moura. 1.ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009.

Karl Marx nasceu no dia 05 de maio de 1818 em Trier, capital da província alemã
do Reno, segundo de oito filhos de Heinrich Marx e de Enriqueta Pressburg. Em 1836
estuda Direito na Universidade de Bonn, participou do Clube de Poetas e de associações
de estudantes. Em 1837 pede transferência para a Universidade de Berlim, onde foi aluno
de Savigny.

Em 1838 ele entra para o Clube dos Doutores, Bruno Bauer era o cabeça do
clube, e nesse período Marx pede o interesse pelo Direito e se dedica ao estudo da
filosofia. Parte desse desinteresse deveu-se ao fato de Savigny cortar as bolsas dos
assistentes de Hegel, por questões de confronto ideológico e doutrinário.

No ano de 1841 Bruno Bauer é acusado de ateísmo e é expulso da cátedra de


teologia da Universidade de Bonn, nesse momento Marx perde a oportunidade de atuar
como docente. Já em 1843 Marx conclui “Para a questão judaica” ou “Sobre a questão
judaica”. Após muitas dificuldades financeiras, de saúde, profissionais e a morte de uma
filha, Marx falece em 14 de março de 1883 em Londres.

O contexto histórico em que a obra “Para a questão judaica” foi escrita inicia na
primeira metade do Século XIX em que a situação do país em que Marx e Bauer nasceram
era caracterizada como miséria alemã, em referência à situação sociopolítica a época. No
início do Século XIX a Inglaterra era tida como a oficina do mundo, devido à Revolução
Industrial e a força do setor industrial; a França era conhecida pela instalação da
manufatura; e a Alemanha, essencialmente rural e atrasada em suas instituições políticas.

O Império Prussiano sob o reinado de Frederico Guilherme III (1770 - 1840),


início do reinado em 1797 e encerrando com a sua morte. Em 1820 o monarca desenvolve
uma política destinada a reverter a modernização antes deflagrada, reprimindo as
tendências democratizantes e liberais, bem como, combatendo os projetos que apontavam
para uma Alemanha unificada sob bases constitucionais.

A alteração nas relações entre as classes sociais reduziu o peso dos camponeses
e cresce o nascente proletariado, ainda sem proteção, a burguesia retoma e amplia suas
reivindicações. A burguesia ainda débil e um proletariado incipiente, ambos carentes de
organização política. Assim, a oposição ao regime prussiano foi protagonizada pela
intelectualidade jovem entre os anos de 1830 e 1840, período em que as concepções de
Hegel dominaram a cena intelectual da Alemanha.

Sobre as concepções de Hegel, havia a Direita Hegeliana que se apegava ao


sistema de Hegel, aceitação do Estado prussiano como um Estado racional. Já a chamada
Esquerda Hegeliana agarrava-se ao método, para essa corrente o movimento da história
era imparável.

No inverno de 1838 – 1839, Marx se aproxima de Bruno Bauer ao assistir a um


curso ministrado por ele na Universidade de Berlim e passa a participar do clube dos
doutores. Bruno Bauer foi aluno de Hegel, conhecido como um brilhante aluno, dentre os
jovens hegelianos era o que melhor conhecia os textos do filósofo.

Bauer e a burguesia alemã saúdam a chegada ao trono de Frederico Guilherme


IV. E o ministro da educação colocado pelo novo monarca passa a empreender uma
campanha anti-hegeliana, perseguindo os jovens hegelianos.

Entre 1840 – 1842 Bauer amplia a crítica da religião até os limites da crítica
política, são desse período os textos que Marx critica em Para a questão judaica. O Marx
que se aproxima de Bauer é um jovem que acabara de direcionar seus interesses
intelectuais, Marx desejava ser um intelectual, um professor universitário.

Marx vive uma experiência na Gazeta Renana, estuda teoria política, Revolução
Francesa e inicia sua crítica da filosofia de Hegel. Ele se assume expressamente como
comunista e nesse momento ele elabora “Para a questão judaica” e nele fica evidente a
recusa radical do liberalismo, porém, ainda não é clara a sua opção pela revolução
proletária.

Na abordagem do livro Para a questão judaica tem-se a discussão da condição


cívico-política dos judeus na Alemanha. Passa-se a elencar os argumentos de Bruno Bauer
que levaram Karl Marx a construir a crítica.
Na argumentação de Bauer, em um Estado Cristão como a Prússia, a
emancipação não é viável, o caráter religioso impede a emancipação. Em um Estado
cristão ninguém é emancipado.

Ele dizia que a reivindicação dos judeus de que o Estado deveria abrir mão da
exigência e condição religiosa somente teria legitimidade e sentido se os judeus,
previamente abrissem mão da sua própria exigência e condição religiosa.

Em função do particularismo religioso o judeu estaria menos habilitado 1à


emancipação que o Cristão. Para Bauer, a emancipação religiosa condiciona a
emancipação política.

Na perspectiva de Marx, a questão judaica ou a questão da emancipação dos


judeus era uma condição humana e política. O pretenso antissemitismo de Marx se dava
pelo fato dele indicar o judaísmo não como um traço racial, étnico ou exclusivo de um
grupo qualquer ou designa o judaísmo como o “espírito do capitalismo”, expressão usada
por Max Weber.

Bauer exige que o judeu abdique do judaísmo para ser civicamente emancipado.
A relação da emancipação política com a religião tornou-se a questão da emancipação
política com a emancipação humana.

A religião é o reconhecimento do homem por um atalho, por um mediador, o


Estado é o mediador entre o homem e a liberdade do homem. A emancipação política é
um grande progresso, não é a última forma da emancipação humana, mas é a última forma
da emancipação política no interior da ordem mundial até aquele momento.

O homem emancipa-se politicamente da religião ao bani-la do Direito Público


para o Direito Privado. O chamado Estado Cristão é a negação cristã do Estado, mas de
modo algum a realização estatal do cristianismo. O Estado democrático, Estado real não
precisa da religião para a sua prefeitura política.

A emancipação política deixa a religião subsistir, ainda que nenhuma religião


seja privilegiada. Bauer diz que aos judeus “vós não podeis ser politicamente
emancipados sem vos emancipardes radicalmente do judaísmo”. Marx diz “porque vós
não podeis ser politicamente emancipados, sem vos verdes completamente livres e sem

1
Os judeus eram impedidos de manipular a terra e por consequência, desenvolveram boa habilidade com
crédito, causando inveja aos alemães e ao mesmo tempo sendo vistos como impuros por praticarem um tipo
de atividade condenada pela igreja à época, era a usura considerada pecado pela igreja católica.
contradição do judaísmo, por isso é que a emancipação política não é propriamente a
emancipação humana”.

Segundo Bauer, o homem tem de sacrificar o “privilégio da fé” para poder


receber os direitos humanos universais. Esses direitos humanos são direitos políticos,
direitos que só podem ser exercidos na comunidade com outros. Entre esses direitos estão
a liberdade de consciência, direito de exercer qualquer culto. O privilégio da fé é um
direito humano universal.

A aplicação prática do direito humano à liberdade é o direito humano à


propriedade privada. Outro direito humano é a igualdade, consiste em que a lei – quer
proteja, quer castigue – é a mesma lei para todos. O direito humano à segurança, supremo
conceito da sociedade civil, conceito da polícia, porque a sociedade toda apenas existe
para garantir a cada um dos seus membros a conservação da sua pessoa, dos seus direitos
e da sua propriedade.

Toda emancipação política é a redução do homem, por um lado a membro da


sociedade civil, a indivíduo egoísta independente, por outro lado, o cidadão, a pessoa
moral. Qual era, em si e para si, a base da religião judaica? A precisão prática, o egoísmo.
O deus da precisão política e do interesse próprio é o dinheiro. O dinheiro é o zeloso deus
de Israel, perante o qual nenhum deus pode subsistir. “[...] o deus dos judeus mundanizou-
se, tornou-se deus mundial”. A emancipação social do judeu é a emancipação da
sociedade relativamente ao judaísmo.

O direito nessa obra é caracterizado como uma espécie de nova religião ou


“espada da justiça”, tendo em vista que o reinado prussiano tem raízes na Idade Média,
encerra em 1918 (início da ruína) com a derrota alemã na Primeira Grande Guerra.

Na época o direito era justificativo para todas as coisas, a crítica de Marx é que
o direito é um instrumento de dominação, ente posto e desprendido da realidade, sagrado,
o qual deveria ser respeitado cegamente e sem possibilidade de mudanças.

A lei na obra ora discutida aparece como espaço ou instrumento de disputa. No


debate da inclusão do ser humano, Marx realiza uma quebra na inserção do ser humano,
seria um mero discurso apoiado em normas2.

2
No século XXI a invasão dos EUA ao Iraque – Afeganistão, o discurso de Bush enfatiza ou melhor
exemplifica três defesas: a Liberdade, Deus e a Democracia. Alguns trechos do discurso proferido pelo
então presidente “[...] a América encara um inimigo que não tem respeito por convenções de guerra ou
Quanto à norma consuetudinária tem-se que o costume surge com as práticas
populares, na vida do povo é que se busca o fundamento da normatização. Esse é o tipo
de norma que consegue responder melhor a regimes dinâmicos, como o caracterizado na
obra de Marx.

O direito sozinho não resolve, Direitos Humanos era tão somente ato de vontade.
Dinamismo político econômico e social. Naquela época ainda não havia
constitucionalização. Os judeus acabaram sendo emancipados por meio do capital, à
maneira judaica.

Na obra questiona-se o fundamento secular do judaísmo, observando o judeu


pela ótica secular, cotidiana e não o judeu sabático. A necessidade prática e o interesse
próprio são o fundamento secular do judaísmo, o culto secular do judeu é o negócio e o
deus secular é o dinheiro, nessa perspectiva no livro aborda da seguinte forma:

Agora sim! A emancipação em relação ao negócio e ao dinheiro,


portanto, em relação ao judaísmo prático, real, seria a autoemancipação
da nossa época. Uma organização da sociedade que superasse os
pressupostos do negócio, portanto, a possibilidade do negócio, teria
inviabilizado o judeu. Sua consciência religiosa se dissiparia como uma
névoa insossa na atmosfera da vida real da sociedade. Em contrapartida,
quando o judeu reconhece que essa sua essência prática é nula e
coopera para sua superação, está cooperando, a partir de seu
desenvolvimento até o presente, para a emancipação humana pura e
simples e se voltando contra a suprema expressão prática da
autoalienação humana. Identificamos, portanto, no judaísmo um
elemento antissocial universal da atualidade, que o desenvolvimento
histórico, cujo aspecto perverso os judeus fomentaram diligentemente,
encarregou‑se de levar à sua atual culminância, na qual ele
necessariamente se dissolverá. A emancipação do judeu equivale, em
última análise, à emancipação da humanidade em relação ao judaísmo
(MARX, 2009, p. 56).

O judeu se emancipou à maneira judaica, e em outro trecho da obra cita como


era visto o comportamento financeiro dos judeus frente aos costumes da época, senão
vejamos:
O judeu já se emancipou à maneira judaica. “O judeu que, p. ex., é
apenas tolerado em Viena, determina pelo seu poder financeiro o
destino de todo o império. O judeu, que no menor dos Estados alemães

regras de moralidade. [...] Não temos ambições no Iraque, a não ser remover uma ameaça e restaurar o
controle do poder a seu próprio povo. [...] O povo dos EUA, nossos amigos e aliados não viverão à mercê
de um regime criminoso que ameaça a paz com armas de assassinato em massa. [...] continuaremos com o
trabalho pela paz. Nós defenderemos nossa liberdade. Nós traremos liberdade para os outros. E nós
venceremos. Que Deus abençoe nosso país e todos que o defendem” Disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u53194.shtml. Acesso em: 17 de set. de 2019.
estaria destituído de direitos, decide sobre o destino da Europa.
Enquanto as corporações e associações se fecham para o judeu ou não
estão inclinadas a admiti‑lo, a audácia da indústria zomba da renitência
dos institutos medievais” (B. Bauer, Judenfrage, p. 114).
Não se trata de um fato isolado. O judeu se emancipou à maneira
judaica, não só por ter se apropriado do poder financeiro, mas porque,
com ou sem ele, o dinheiro assumiu o poder sobre o mundo e o espírito
prático do judeu se tornou o espírito prático dos povos cristãos. Os
judeus se emanciparam na mesma proporção em que os cristãos se
tornaram judeus. O coronel Hamilton, p. ex., relata o seguinte: “O
morador piedoso e politicamente livre da Nova Inglaterra é uma espécie
de Laocoonte que não faz o menor esforço para se livrar das serpentes
que o constringem. Mâmon é seu ídolo, e eles o adoram não só com os
lábios, mas também com todas as energias do seu corpo e de seu
espírito. Aos seus olhos a terra nada mais é que uma bolsa de dinheiro,
e estão plenamente convictos de não terem outra destinação aqui em
baixo além de ficarem mais ricos do que seus vizinhos. O negócio se
apoderou de todos os seus pensamentos, sua única distração consiste na
alternância entre os objetos do mesmo. Quando viajam carregam, por
assim dizer, suas bugigangas ou sua loja nas costas e não falam de outra
coisa além de juros e lucro. Se desviarem os olhos por um instante de
seus negócios, isso ocorre tão somente para bisbilhotarem os dos
outros” (MARX, 2009, p. 56-57).

Em continuação, para Marx nesse momento em que escreve “Para a questão


judaica”, o Estado é caracterizado como realidade política independente de cultura ou
ideia de sociedade civil organizada politicamente cotidianamente.

Há a quase totalidade do Estado religioso3, mas enxerga-se a substituição da


religião por instituições seculares. O Estado surge no momento em que há a unificação
das federações e o desmantelamento das nobrezas. O Estado burguês e capitalista passa a
ser um problema, com liberdade vigiada, fraternidade não efetivada 4e igualdade só
material. Os judeus passam a comprar posições e não necessariamente fragmentar o
poder.

É discutido no livro que mesmo em países em que a emancipação política se dá


de forma plena, a religião é encontrada em “força e frescor vitais”, comprovando que a

3
“A crítica encontra-se portanto no pleno direito quando coage o Estado que se reclama da Bíblia à loucura
da consciência, em que ele próprio já não sabe se é uma imaginação ou uma realidade, em que a infâmia
das suas finalidades mundanas (às quais a religião serve de capa) entre num conflito insolúvel com a
honestidade da sua consciência religiosa (à qual a religião aparece como finalidade de mundo). Esse Estado
só pode se livrar do seu tormento interior quando se tornar beleguim da Igreja Católica. Face a ela – que
declara o poder mundano como um corpo que a serve -, o Estado é impotente, é impotente o poder mundano
que afirma ser a dominação do espírito religioso” (MARX, 2009, p. 57-58).
4
Meio ambiente é um dos primeiros aspectos em que se observa essa efetivação da fraternidade, quando o
ser humano abre mão da natureza, à época a hierarquia homem acima da natureza ainda era bastante rígida.
presença da religião não contradiz a plenificação do Estado. Assim, a existência da
religião é a existência de uma carência, a fonte dessa carência é buscada na essência do
próprio Estado. A religião não é somente a razão, ela ultrapassa essa posição passando a
ser tão somente o fenômeno da limitação mundana.

O envolvimento religioso dos cidadãos livres, envolvimento a partir da


perspectiva secular, realizariam o movimento de suprimir sua limitação religiosa no
momento em que suprimem suas barreiras seculares. “Não transformamos as questões
mundanas em questões teológicas. Transformamos as questões teológicas em questões
mundanas” (MARX, 2009, p. 38).

A relação entre emancipação política e religiosa transforma-se na questão da


relação entre emancipação política e emancipação humana. Nesse sentido, no texto
encontra-se que:

Criticamos a debilidade religiosa do Estado político ao criticar o Estado


político em sua construção secular, independentemente de sua
debilidade religiosa. Humanizamos a contradição entre o Estado e uma
determinada religião, como, p. ex., o judaísmo, em termos de
contradição entre o Estado e determinados elementos seculares, em
termos de contradição entre o Estado e a religião de modo geral, em
termos de contradição entre o Estado e seus pressupostos gerais.
A emancipação política do judeu, do cristão, do homem religioso de
modo geral consiste na emancipação do Estado em relação ao judaísmo,
ao cristianismo, à religião como tal. Na sua forma de Estado, no modo
apropriado à sua essência, o Estado se emancipa da religião,
emancipando‑se da religião do Estado, isto é, quando o Estado como
Estado não professa nenhuma religião, mas, ao contrário, professa‑se
Estado. A emancipação política em relação à religião não é a
emancipação já efetuada, isenta de contradições, em relação à religião,
porque a emancipação política ainda não constitui o modo já efetuado,
isento de contradições, da emancipação humana (MARX, 2009, p. 38).

A análise da presente obra constitui uma tarefa desafiadora tendo em vista o seu
tamanho reduzido, porém, de extrema complexidade, especialmente no tocante aos
elementos necessários para a discussão em sala, quais sejam: o Direito, a Lei, a Norma
Consuetudinária e o Estado.

A obra de Marx nesse período em que denominaram de o jovem Marx já


demonstra a profundidade e complexidade de seus escritos e já demonstravam a força e
influência que ele viria a ter na construção da crítica à burguesia e as bases para a
revolução proletária.
Observa-se que Marx e seus escritos foram e continuam sendo incompreendidos,
tanto por não leitores e que somente em ouvir falar de pontos desconexos de sua obra
passam a construir argumentos fracos, porém que conseguem atingir uma quantidade
significativa de pessoas. Tem aqueles que se dedicam a estudar e compreender as suas
minúcias, e a partir dessa leitura crítica realizar estudos que venham a fortalecer as teses
de Marx ou tão somente questionar a sua aplicabilidade, mas jamais a sua profundidade,
haja vista ser notório a amplitude e densidade de seus escritos.

Portanto, realizar uma leitura crítica e balizar conceitos importantes para a


compreensão da história do direito, pode-se dizer que foi uma experiência bastante
enriquecedora e que contribuiu para estudos futuros de outros textos de Marx e de autores
inspirados por ele.