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Hannah Arendt e a crise da autoridade e tradição 1

A crise tem por característica desestruturar, desvelar e questionar as estruturas e pressupostos que estão dissimulados na essência de um problema. Ela desencadeia (ou deveria) o engajamento dos homens numa atitude reflexiva diante da realidade, para acordá-lo de uma fantasia onde o que lhe resta são apenas sombras de uma realidade que recusa a envolver-se. Ela indica que o caminho que

e afinal deveríamos refazer a rota. Arendt diz que “a

crise força-nos a regressar às próprias questões e exige de nós respostas, novas ou antigas.” Nesse

contexto, em 1957 ela escreve sobre a crise na educação, e outros fenômenos associados à ela; como uma crise maior decorrente de um “phatos(patologia) social. Arendt, começa por descrever algo óbvio, mas esquecido dentre muitos educadores modernos; o conceito de natalidade. A criança, nasce pronta para o seu desenvolvimento vital biológico, contudo, de forma alguma está preparada para o mundo para a realidade social. A educação se justifica nessa preparação para inseri-las gradualmente, neste mundo totalmente novo, mas ao mesmo tempo já preexistente - velho, cheio de histórias que elas ainda não sabem contar. O processo de educar, seria a geração dos adultos apresentando seu próprio mundo às crianças, tal como ele é. No entanto, a crise de que falávamos acima não se restringe apenas ao universo da escola, mas abarca

toda a conjuntura social, especialmente política 2 , e tem sua influência no seio familiar e das relações privadas. Para compreender esta crise, precisamos retornar à doença (phatos) que orienta a sociedade moderna, e Hanna Arendt vai identificar como sendo a novidade. Não mais o que é, mas o que há de ser. Criamos o hábito de alçar a novidade a valores morais e absolutos; o critério de uma mentalidade coerente e progressista 3 , que responde aos desafios da atualidade. Mas essa postura tem uma consequência direta no processo educativo; que é o desprezo pela tradição. Se a educação consiste justamente em transmitir um mundo, uma realidade que já está dada, é imprescindível para isso a tradição, entendida aqui como o conhecimento do passado, que confere unidade à nossa realidade atual. A clássica pergunta, que não só os historiadores ou antropólogos devem fazer, de saber como nos desenvolvemos enquanto sociedade pós-moderna? A tradição confere muitas características à nossa cultura. Como ela pôde ser delegada a uma caixinha de utensílios usados apenas para recordação, e não para solucionar problemas novos, visto que há saberes que não perecem com o

Tradição, foi associada à tirania, conservadorismo radical, que serviria apenas para impor às

crianças os próprios padrões adultos. Contudo, ela é indispensável nessa tarefa que, em outros tempos era natural, de transmitir o mundo tal como é, para que inserindo-se nele, a criança se sinta pertencente a este lugar que seus pais chamam de “sociedade”. Quando pertencemos à algo, lutamos

por ele. Temos coragem para resgatar o que lhe foi roubado, e acrescentar mais valor à sua riqueza.

trilhamos talvez não seja tão seguro assim

tempo

1 ARENDT, H. Texto de 1957, A crise na educação.

2 “O que faz com que a crise da educação seja tão especialmente aguda entre nós é o temperamento político do país, o qual luta, por si próprio, por igualar ou apagar tanto quanto possível a diferença entre novos e velhos, entre dotados e não dotados, enfim, entre crianças e adultos, em particular, entre alunos e professores.” (p. 5)

3 Como por um falacioso silogismo; - a atualidade exige uma conduta progressista; - essa conduta consiste na constante proposta de novas alternativas aos problemas; - logo a tradição não responde às demandas sociais, porque não se trata de conhecimento reformulado por uma nova estrutura social; moderna. Esta noção é claramente rejeitada por Arendt. Após duas grandes guerras mundiais, a tirania do Fascismo, a Revolução Marxista, quem ainda poderia acreditar que o progresso seja o critério último da moralidade?

Se não conhecemos o que há de valor na história da humanidade através da tradição, não podemos educar, não podemos chamar de lar esse lugar que aparentemente vivemos, e portanto, voltamos àquela atitude amorfa, apática diante do mundo. Uma atitude de indiferença, que, talvez seja muito pior do que a recusa firme e decidida da verdade. Foi a proposta do marxismo cultural, não mais a luta armada para acabar com as estruturas burguesas de opressão, mas uma guerra cultural, onde os pilares da civilização ocidental caíssem por terra. A valorização excessiva da novidade trouxe como consequência essa apatia pelos fundamentos de nossa civilização, e consequentemente a educação se converte numa abandono das crianças ao seu próprio desenvolvimento. Dizem, que sem a interferência direta dos adultos, elas podem se expressar e desenvolver de maneira autônoma e livre. Mas, esqueceram de mencionar, qual o mundo em que as crianças inserem-se na sociedade sem o intermédio de um adulto para apresentar-lhe esse lugar novo e estranho? Esses fatores se entrelaçam à uma crise tão evidente quando a da tradição, que é a crise da autoridade. “A autoridade do professor está firmemente fundada na autoridade mais ampla do passado enquanto tal”, ou seja, está fundada na autoridade da tradição. Hanna Arendt foi uma autora judia do século XX que escreveu terminantemente contra o autoritarismo, ela defende que a crise política da autoridade, associada à tirania e a seu uso ilegítimo, se alastrou para a vida privada. De forma que qualquer atitude ou tentativa de se exercer legitimamente a autoridade na família ou escola, é associada com coerção e autoritarismo. Contudo, isso é apenas uma caricatura da autêntica autoridade, pois, conforme Arendt, “dizer que os adultos abandonaram a autoridade só pode significar uma coisa: que os adultos se recusam a assumir a reponsabilidade pelo mundo em que colocaram as crianças.” A legitima autoridade tem por traço essencial desenvolver, fazer crescer, mediar a apresentação do mundo 4 . Impressiona ver que pouco mais de 60 anos atrás, Arendt tenha identificado que a crise na educação se insere num contexto muito mais amplo de uma crise na autoridade e na tradição, decorrente, principalmente, da valorização extrema que nosso tempo dá à novidade. E, para além disso, ela começa a ver indícios de um fenômeno muito alarmante do século XXI, o qual Zygmunt Bauman também previra, que é a perda das fronteiras entre público e privado; uma exposição contínua da própria intimidade, evidente nas diversas redes sociais. Isto tem grandes impactos não só para a vida dos adultos e das famílias, mas principalmente na formação das crianças, visto que quanto mais a sociedade moderna introduz, entre o privado e o público, uma esfera social na qual o privado é tornado público e vice-versa, mais difíceis se tornam as coisas para as crianças, as quais, por natureza, necessitam da segurança de um abrigo para poder amadurecer sem perturbações.” No processo educativo queremos apresentar o mundo para as crianças, tal como é, cuidadosamente. Fazendo a transição da segurança do lar para a vida social, de maneira que, sentindo-se pertencentes à esse realidade, nunca vão estar alheias e indiferentes à ela, mas irão chamar para si a responsabilidade de construir um mundo novo.

4 “Auctoritas” procede do verbo augeo, que significa “fazer nascer, fazer crescer, desenvolver”, Nesse sentido, a

primeira autoridade são os pais, que são os primeiros que fazem nascer e crescer. É próprio do pai desenvolver esta

autoridade para o bem do filho, não de si mesmo. (

é particípio de adolesco que significa crescer. Adultus é “aquele que já está crescido”, que se diferencia de adolescens, que significa “aquele que está crescendo”. Para que um adolescente chegue a ser um adulto já crescido, necessita de um outro adulto que seja uma verdadeira auctoritas. Só quem já tiver crescido pode ser autoridade, isto é, ajudar a crescer.” Cf. ECHAVARRÍA, M. El carácter patógeno de la cultura contemporánea, p. 122.

)

Para fazer crescer é necessário ser adulto. A palavra latina adultus