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Alunos: Lucas de Almeida Melo e Marcleivson Silva do Nascimento

Texto: GARCIA, Elisa Frühauf. Os índios e as reformas bourbônicas: entre o


‘despotismo’ e o consenso. AZEVEDO, Cecília; RAMINELLI, Ronald (orgs.).
História das Américas: novas perspectivas. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2011,
p. 55-81

Os índios e as reformas bourbônicas: entre o “despotismo” e o consenso

A coroa Espanhola no século XVIII promove diversas reformas, econômicas,


administrativas, militares, políticas, com o objetivo de assegurar sua força em suas
colônias americanas e ir de encontro com os outros Estados Europeus, recuperando seu
poder e domínio no âmbito internacional.

O texto expõe que “a população indígena era uma das questões-chave das reformas.”
(Pág. 56). Pois, para conseguir a garantia de que tudo que fosse produzido nas
possessões dos Espanhóis fossem exclusivamente deles era preciso ter controle das
fronteiras, o que seria trabalho para os índios. Visto isso, foram feitas várias alterações
nos estatutos que tinham questões indígenas, pois até o período a Espanha mantinha
certa divisão entre a republica dos espanhóis e republica dos índios, apesar dessa
separação ser desigual nos territórios espanhóis ela estipulava algumas obrigações para
os indígenas. Buscando agrupar tantos os nativos que já eram inseridos na sociedade
colonial, quanto àqueles que viviam nas áreas das fronteiras, as reformas bourbônicas
tinham o objetivo de acabar com esse estatuto fazendo com que os índios acabassem
sendo diluídos entre a população em geral, para que tal meta fosse alcançada foi
estabelecido obrigatoriamente o uso do idioma espanhol em detrimento das línguas
nativas. Essa era uma estratégia para conseguir a lealdades dos índios, para que eles
estivessem dispostos a defender os interesses dos espanhóis, a ideia é que os nativos
povoariam as fronteiras e seriam tratados da melhor forma possível, assim eles seriam
tão súditos da coroa quanto os soldados. E dessa forma, seria evitado que eles fizessem
alianças com outros países, como Inglaterra e Portugal, garantindo exclusividade
espanhola.

O capítulo questiona a forma como foi por muito tempo enxergado a relação entre
índios e europeus, que seria uma história apenas de resistência e aculturação. Visto
dessa maneira, os índios estariam presos entre duas alternativas. Um índio seria aquele
que era “aculturado” por estar dentro da sociedade colonial, e dessa maneira perdeu sua
“essência” e o outro seria o índio que vive nas fronteiras, aquele que resiste por seus
“valores tradicionais”. A partir dessa ideia o texto exibe “como resumiu Guillaume
Boccara, “condenadas a desaparecer paulatinamente ou encerradas em um primitivismo
eterno: tal seria a alternativa das sociedades ameríndias””. Contudo a historiografia com
o passar do tempo mostrou que existia uma relação mais complexa entres esses agentes.
Com isso, os índios não foram apenas regentes de sua própria história, como também
influenciaram nas reformas espanholas.
Os índios e as fronteiras imperiais

Guillaume Boccara sustentava a ideia de que os índios que vivam nas fronteiras eram
uma “entidade sem história”. Contudo com novos estudos essa afirmação perde seu
valor. Pois, “os pesquisadores buscam pensar os etnônimos em sua operacionalidade,
tendo em conta a sua formação histórica e as formas como aparecem na documentação
pesquisada.” (Pág. 59/60). Em vista disso, esses nativos que habitavam nas fronteiras
não podem ser encarados como índios que ficaram restringidos aos processos de
colonização.

Ademais, o presente tópico explicita que os índios que estavam situados nas fronteiras,
e que eram declarados como uma população que não se submetia as politicas dos
Bourbons , eram também um desdobramento da sociedade colonial. Visto que muitos
indígenas iam viver nas margens porque depois de conhecerem aquela sociedade
preferiam a vida nas fronteiras imperiais por sentirem-se melhores por estarem livres
dos trabalhos movidos por castigos.

Além disso é demonstrado como a relação entre esses agentes são complexas, não
possuindo alianças bem objetivas, mas que se diversificam de acordo com cada
preferencia. Uma vez que, os nativos que habitam em áreas em que havia disputa entre
os europeus tinham um poder de negociação ao seu favor com os bourbônicos,
conseguindo estabelecer acordos entre as partes. A partir desse caso, é notado como os
nativos possuíam a capacidade de usar a seu favor o conflito entre os Europeus.

Os índios das fronteiras muitas vezes eram usados como uma ferramenta dos interesses
locais. Pois, eles eram encarados como se fossem perigosos para a sociedade, mantendo
todos sempre alertas e reforçando a ideia da importância de ter sempre soldados por
perto para garantir a proteção. Porém, a historiografia mostra como essa visão não passa
de uma construção falsa, por aqueles que temiam as reformas bourbônicas, com o
objetivo de frear tais reformas. Dessa forma, instalar a insegurança por parte da
sociedade em relação com os nativos fronteiriços favorecia aqueles que possuíam
cargos administrativos. Com isso difundiam cada veze mais as ideia de indígenas
ferozes. Algumas pessoas ainda se vestiam de índios quando cometiam alguma infração
com o objetivo de enfraquecer os indígenas colocando a sociedade com medo deles.

Portanto, a relação entre índios fronteiriços e a tal sociedade é muito mais complexa do
que afirmar que os primeiros estavam excluídos da sociedade. O presente capítulo busca
demonstrar que esses agentes possuíam associações que se modificavam de acordo com
as conjunturas e interesses. Pois, como é citado no texto, Ingrid de Jong e Lorena
Rodriguez sintetizaram que as fronteiras entre esses agentes são “muito mais tênues e
porosas” (Pág. 64). Afinal, após as reformas bourbônicas citadas ficou difícil
estabelecer quem era inimigo ou súdito, visto que as fronteiras sociais não definiam de
fato definições jurídicas.
As repúblicas de índios e as reformas: mudanças e continuidades

Devido ao território extenso essas repúblicas de índios não funcionavam do mesmo jeito
em todo império. Mas possuíam o objetivo de manter os nativos separados dos demais
da sociedade construindo assim uma divisão em relação ao contato com os espanhóis.
Elas também serviam para organizar a cobrança de tributos que os índios tinham que
pagar.

De acordo com o que já foi dito, as reformas tinham como finalidade acabar com essa
separação jurídica fazendo com que os índios fossem se integrando no meio da
população em geral, dessa forma o Império queria garantir poder sobre as finanças dos
nativos e além do mais, os obrigavam a utilizar a língua espanhola em detrimento dos
idiomas indígenas.

Na prática do cotidiano os índios não eram isolados da sociedade colonial, como estava
em teoria na legislação das repúblicas. Os indígenas possuíam relações de trabalho e
comércio com o Império. Devido a isso, os nativos foram muito importantes para a
economia das colônias e assim eles tinham contato com diversas populações
americanas. Dessa forma, após vários anos de trabalho e relações, os índios tinham
noção de qual era sua posição na economia da colônia e por meio disso sabiam tomar
vantagens.

Diante desse contexto observamos que nas cidades espanholas, os índios desenvolveram
suas próprias estratégias de sobrevivência e tudo isso ocorre durante o processo de
construção da sociedade colonial. Além disso, vale ressaltar que algumas cidades
possuíam bairros indígenas, entretanto, esses bairros eram estabelecidos de acordo com
o previsto pelas repúblicas de índios, no qual a ideia era preservá-los o máximo possível
do contato com os espanhóis. Todavia, a vida dos índios não era totalmente separada e
diferenciada da dos demais habitantes da cidade. “Escrevendo nas primeiras décadas do
século XVII, o jesuíta Bernabé Cobo (I 882: I38) afirmava que eles estão tão
espanholados que todos geralmente, homens e mulheres, entendem e falam a nossa
língua...” (Pág. 67)

Ressaltamos também, que tanto a vida econômica, quanto a vida cultural da cidade, tem
a participação fundamental dos índios. Por conseguinte, a cidade apresentava-se para os
indígenas como um espaço de oportunidades para aqueles que tivessem o desejo de
deixar seus pueblos , sendo assim, temos o surgimento de novas formas de mestiçagem
e interação social. E esse ato de deixar a comunidade fez com que, aquele que deixou a
sua comunidade adquirisse em suas relações com a sociedade colonial, a qualidade de
mestiços. “Assunto essencial e controverso sobre a sociedade colonial, a mestiçagem
vem sendo rediscutida com enfoque em seu aspecto social e relacional.” (Pág. 68)

O autor retoma a ideia do índio como parte integrante e importante da sociedade


colonial, e busca calcular os impactos das reformas bourbônicas, pois as repúblicas de
índios não eram isoladas da sociedade colonial, porque os índios tinham influência nas
esferas econômica, social, jurídica e cultural do mundo americano. “A aplicação e a
reação às reformas variavam consideravelmente na América de maneira geral, não
foram simplesmente ou aceitas passivamente pelos índios.” (Pág.68) Diante desse
quadro de reformas, as comunidades sofreram impactos consideráveis, devido as
tentativas de aumentar a cobrança de tributos dos índios, assim como a intencionalidade
de promover a inserção individual no mercado e fomentar a progressiva monetarização
da sua economia. De acordo com a autora Margarita Menegus Borneman, as estratégias
elaboradas pelos índios, possuíam uma “base coletiva”, e isso segundo a autora
contribuiu para que as reformas não atingissem o seu objetivo principal.

Por conseguinte, o autor Sergio Serulnirov faz uma análise da aplicação das medidas
bourbônicas na província de Chayanta e ao analisar, ele vê que os índios passaram a
utilizar a reforma a seu favor, por meio da seleção de elementos que poderiam lhes
favorecer e aproveitar as lacunas de poder geradas na administração colonial pelos
conflitos entre seus membros. As colônias espanholas passam por um momento de
instabilidade e conflitos, que de certa forma irá favorecer os indígenas. “Os usos que os
índios fizeram das brechas de poder abertas com as medidas bourbônicas se repetiram
em outras regiões da América, possibilidade essa ampliada devido ao despreparo de
alguns funcionários bourbônicos para enfrentar os desdobramentos das reformas.”
(Pág.71) Perante esse contexto, fica explícito as dificuldades geradas com as políticas
espanholas e a habilidade dos índios em tirar proveito de tal situação, contudo, o autor
destaca que os administradores tinham pouco conhecimento sobre a dinâmica do
pueblos.

Portanto, destaca-se que as limitações e dificuldades para implantar as medidas e


reformas bourbônicas não era resultados de uma “resistência’’ dos indígenas, pois isso
era resultado de um contexto muito mais complexo no qual se envolvia casos e
objetivos também específicos. Apesar das dificuldades existentes nas relações políticas
e sociais entre indígenas e espanhóis, havia diversos índios que tinham características
semelhantes a dos espanhóis , chegando a viver de maneira muito próxima a dos
espanhóis e demais membros da sociedade colonial. Porém, nesse contexto havia uma
certa proibição do uso das línguas nativas por parte dos espanhóis e em contrapartida,
existia uma imposição clara da obrigatoriedade do espanhol. Ademais, essa política
linguística vem desde o século XVI. Todavia, existia uma espécie de tentativa de
integrar o indígena na sociedade espanhola de maneira forçada. Mas existia também um
contrate em relação a imposição da língua, pois existia criollos que não eram fluentes no
castelhano, mas tinham uma maior aproximação do dialeto indígena. “ Em sua paróquia
alguns criollos não falavam muito bem o castelhano.” (Pág. 73)

Revoltas indígenas: conflitos diretos e disputas legais

Agora autor destaca as revoltas e protestos intensos que ocorreram em praticamente


toda a América, durante as tentativas de aplicação das medidas bourbônicas. “Nas
comunidades indígenas, as reformas buscavam inserir modificações substantivas nas
políticas então vigentes e as reações dos índios foram díspares.” (Pág.73) Após a
alteração em importantes bases, temos a eclosão de uma série de revoltas. O autor
também ressalta que as conexões entre as reformas e as revoltas não forma automáticas,
houve também negociação entre ambas as partes, existindo em alguns casos o consenso.

Há um fato relevante que ocorre em 1750, que foi uma decisão que surpreendeu os
índios das missões do Paraguai, com destaque para os habitantes dos pueblos situados
próximo as margens do rio Uruguai. A notícia que surpreendeu a todos os indígenas,
foi a assinatura do Tratado de Madri entre as cortes da península ibérica. Por meio desse
Tratado, os indígenas deveriam deixar seus pueblos , que seriam entregues a Portugal
em troca da Colônia de Sacramento. Diante disso, os índios ficaram confusos e não
entenderam o motivo pelo qual teria levado o rei a tomar tal decisão, porque até então
os indígenas lutaram na defesa dos interesses espanhóis contra as pretensões
portuguesas, ressaltando a disputa pela Colônia de Sacramento. Discordando de tal
decisão, os índios viram que em retribuição a tais serviços, o rei lhes “recompensava”
com a entrega de seus povos a seus piores inimigos. Os índios ficaram perplexos,
porque não imaginariam que os espanhóis iriam favorecer os portugueses que até então,
eram os seus inimigos.

A relação dos índios com os monarcas espanhóis era embasada na reciprocidade, tanto
que a propriedade dos pueblos lhe fora cedida pelos monarcas espanhóis em troca dos
serviços prestados.

O autor também ressalta os problemas das negociações do translado, no qual levou a


difusão de um ideal de resistência armada entre os índios, com o intuito de combater os
exércitos portugueses e espanhóis. Temos também a formação de milícias. “O conflito
indígena mais significativo do período, porém, foi o amplo levante de 1780, conhecido
genericamente como Tupac Amaru.” (Pág.75) o autor Sergio Serulnikov questiona a
perspectiva de que o levante seria o resultado direto da imposição de medidas
bourbônicas. Ele destaca também o caráter legalista do levante demonstrando que esse
movimento, era mais que um movimento contrário a sociedade colonial, ele estava
embasado nas requisições da observação do direto dos índios. “A interpretação de tais
movimentos como revoltas anticoloniais, que opuseram índios contra não índios e
ameaçaram a permanência dos espanhóis na América, muitas vezes correspondia a
interesses especifico...” (Pág. 77)

Conclusões

Como vimos no texto, o autor destaca que a aplicação dessas medidas dos Bourbons ,
teve como base uma perspectiva de negociação, no qual a finalidade era conciliar os
interesses variados e as significativas influencias entre a legislação e as políticas
coloniais. “ Em linhas gerais, porém, a legislação não conseguiu desarticular as
repúblicas de índios enquanto referência jurídica que incidia sobre as visões de mundo e
estratégias indígenas.” (Pág.77)

Diante da conjuntura bourbônica , os índios mostraram-se perspicazes e sabiam de sua


importância e foram capazes de imprimir seus limites e construir suas próprias
expectativas.