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Quando foi que surgiu a proibição de imagens da divindade no

antigo Israel?

A proibição do uso de imagens de outros deuses é facilmente


compreendida.

Mas por que proibir representações de Iahweh?

Robert P. Carroll, em artigo publicado em 1977, The aniconic


God and the cult of images, Studia Theologica – Nordic Journal
of Theology, 31:1, p. 51-64 lista 6 soluções apresentadas, até
aquele momento, pelos pesquisadores:
1. Porque Iahweh é invisível e não pode ser representado
2. Porque Israel precisa ser diferente das outras nações ao seu
redor que usam imagens no culto
3. Para impedir a manipulação mágica de Iahweh
4. Como uma reação contra os cultos teriomórficos do Egito
5. Porque Iahweh se manifesta como uma presença que
estabelece uma relação com o povo e isto é abstrato demais
para ser representado como imagem
6. Porque a representação mais próxima de Iahweh é a do ser
humano e não a de uma imagem

1. Because the deity is invisible he cannot be represented in


concrete or plastic forms
2. Image worship is a mark of differentiation between Israel and
the nations
3. Against attempts to manipulate the deity, as prohibitions
against magical practices
4. An extreme form of reaction to the theriomorphic cults of
Egypt
5. God is experienced as a presence but not a presence that can
be tangibly reproduced
6. The Israelite view of god as an Ί am’ or an Ί will be’ (Ex.
3:14) linked man and god far more closely than any view of god
bound up with images

De maneira semelhante, SCHMIDT, B. B. The Aniconic Tradition:


On Reading Images and Viewing Texts. In: EDELMAN, D. V.
(ed.) The Triumph of Elohim: From Yahwisms to Judaisms.
Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1996, p. 75-105, agrupa as
teorias sob quatro títulos:
1. Iahweh, como um Deus oculto e transcendente, não pode
estar contido em uma imagem e não pode ser manipulado no
culto
2. Iahweh é o Deus de um povo nômade chamado Israel em
oposicão aos deuses dos cananeus urbanizados
3. O culto sem imagens representa o avanço racional do antigo
Israel sobre a cosmovisão dos outros povos que utilizam
imagens em seus cultos
4. Devido à ideologia antimonárquica de Israel, Iahweh não
deve ser representado como uma figura real, comumente usada
para simbolizar divindades no Antigo Oriente Médio

1.YHWH, as a hidden and transcendent god, cannot be


contained in an image and cannot be manipulated in the cult
2. He is the god of a nomadic people called Israel over against
the gods of the urbanized Canaanites
3. The imageless cult represents Israel’s rational advance over
the world view symbolized by the foreign cults that utilize
images
4. Owing to Israel’s antimonarchical ideology, YHWH is not to be
represented as the typical royal figure of ancient Near Eastern
divine symbolism

De lá para cá, o cenário mudou.

O número de teorias para explicar o aniconismo diminuiu, a


ideia da manipulação mágica de Iahweh esfriou, as práticas
religiosas israelitas passaram a ser cada vez mais vistas em
conexão com o Antigo Oriente Médio, e não em oposição a ele, e
localizar o aniconismo nas origens de Israel saiu de moda. O
debate atual se concentra muito mais em possíveis fatores
sociais e políticos que levaram a um fortalecimento do
pensamento anicônico em Israel.

Daí a categorização que pode ser encontrada entre alguns


estudiosos alemães, que observam uma divisão tríplice:

1. Uma posição clássica, que sustenta que as imagens cultuais


eram proibidas desde os primórdios de Israel
2. Uma posição evolutiva, segundo a qual houve uma rejeição
gradual de imagens no contexto do culto
3. Uma posição revolucionária, que defende ter havido uma
mudança repentina de atitudes em relação à iconografia que
resultou na destruição de imagens cultuais, bem como em leis
que proíbem sua fabricação e uso

Embora muitos estudiosos possam considerar a ideia de um


culto anicônico de Iahweh desde tempos antigos, em conjunto
com as masseboth (estelas) em locais sagrados fora do Templo,
aventou-se também a possibilidade da existência de algum tipo
de representação ou imagem de Iahweh no Primeiro Templo,
antes do exílio babilônico.
A ideia de um declínio gradual de representações divinas parece
consistente com as leis que proíbem imagens de Iahweh e de
outras divindades. Tais leis são de épocas diferentes e
pertencem a variadas camadas da tradição bíblica. O
pensamento anicônico encontra-se, por exemplo, no Código da
Aliança (Ex 20,23), no Decálogo (Ex 20,4; Dt 5,8), na Lei de
santidade (Lv 17-26), em Dt 4,15-19; 27,15 e em Ex 34,17.

Embora não exista consenso entre os especialistas, acredita-se


que o Deuteronômio e a Obra Histórica Deuteronomista tenham
surgido ou no final da monarquia, talvez na época de Josias, ou
durante o exílio babilônico. Mas existe um consenso de que o
Deuteronômio e a teologia deuteronomista desempenharam um
papel fundamental na promoção do veto às imagens. A
insistência dos teólogos deuteronomistas em colocar a Torá ou a
palavra de Iahweh acima de qualquer representação divina
apoia essa perspectiva. Além do que, é conhecida a grande
oposição aos ídolos na época do exílio babilônico, como aparece,
por exemplo, no Dêutero-Isaías (Is 40-55) e na tradição
sacerdotal (P) do Pentateuco.

O pensamento anicônico está presente também na literatura


profética, mas não há consenso entre os estudiosos sobre quais
textos devam ser incluídos neste debate. Além do óbvio
Dêutero-Isaías, faz-se menção frequente ao livro de Oseias,
mas também são citados os livros de Jeremias e Ezequiel. Do
mesmo modo não se chega a uma definição clara sobre a
relação entre a retórica anicônica nos livros proféticos e as leis
do Pentateuco.
Referências

CARROLL, R. P. The aniconic God and the cult of images, Studia


Theologica – Nordic Journal of Theology, 31:1, p. 51-64, 1977.
EDELMAN, D. V. (ed.) The Triumph of Elohim: From Yahwisms
to Judaisms. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1996.
KANG, S. I. In search of the origins of Israelite aniconism. Acta
theol., Bloemfontein, v. 38, n. 1, p. 84-98, 2018.
LEWIS, T. J. Divine Images and Aniconism in Ancient
Israel, Journal of the American Oriental Society 118, p. 36–53,
1998.
MIDDLEMAS, J. The Divine Image: Prophetic Aniconic Rhetoric
and Its Contribution to the Aniconism Debate. Tübingen: Mohr
Siebeck, 2015.